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Jornal PSICOLOGIA EM FOCO ISSN 2178-9096

ISOLAMENTOS OUTUBRO - 2021

JOÃO HENRIQUE PIVA E CLÁUDIA MINARI NARCISO ESTÁ ONLINE P. 6 ISABELLE MAURUTTO SCHOFFEN MATERNIDADE, SOLIDÃO E MEU ABISMO P. 8 GABRIELA FRANÇOSO GAMBIARRA P. 15

ED. 45

WWW.INSTITUTOPSICOLOGIAEMFOCO.COM.BR/


REDAÇÃO João Henrique Piva Boeira

SUMÁRIO

REVISÃO João Henrique Piva Boeira (CRP: 08/32732), Stephanie Coelho Galvez, Émily Albuquerque (CRP: 08/24208), Ana Gabriela Monteschio (CRP: 08/28602), João Lubachevski.

Narciso está online - p. 3

DIAGRAMAÇÃO E ARTE João Henrique Piva Boeira (CRP: 08/32732) DIVULGAÇÃO João Henrique Piva Boeira (CRP: 08/32732), Vinicius R. R. Gomes (CRP: 08/16521), Émily Albuquerque (CRP: 08/24208), Ana Gabriela Monteschio (CRP: 08/28602), Regina Tuller, Gabriel Arndt (CRP: 08/30796), Joed Ryal (08/32831), Amanda Boll, Claudia Ribeiro Minari, João Lubachevski, Gabriella Andrade, Stephanie Coelho Galvez.

Com quantas perdas se faz uma pandemia? - p. 6 Maternidade, solidão e meu abismo - p. 8 Isolamento

na

pandemia

e

a

tentação

de

desaparecer na juventude contemporânea - p. 10 Saudosa realidade - p. 13 Gambiarra - p. 15 Confissões de uma jovem [psico]terapeuta: início, percalços e alegrias - p. 16 A psicoterapia - p. 17 ENTREVISTAS: EXPERIÊNCIAS NOS ISOLAMENTOS Psicóloga hospitalar - p. 20 Estudante - p. 22 Imigrante brasileire - p. 24 Médica - p. 26

Política de uso: A reprodução dos textos e das imagens é livre mediante a citação do Jornal Psicologia em Foco e do(a) autor(a).

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Jornal Psicologia em Foco Nº 45 - ISSN 2178-9096

João Henrique Piva Boeira

Cláudia Ribeiro Minari

Psicólogo clínico (CRP: 08/32732), graduado em Design (UEM), pós-graduando em Psicoterapia Psicanalítica Contemporânea (EPPM) e membro do Instituto Psicologia em Foco.

Graduanda em Psicologia (Unicesumar) e membra do Instituto Psicologia em Foco.

NARCISO ESTÁ ONLINE “Tirésias já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não visse… Sim, são para se ter medo, os espelhos” (Guimarães Rosa).

Ao pensarmos em nos debruçar sobre o narcisismo e o uso feito das redes sociais na contemporaneidade, de início nos parece insuficiente propor uma discussão sem que se passe pelo conceito introduzido por Freud, e posteriormente resgatado e recontextualizado por outros tantos psicanalistas. A ideia de narcisismo passa a se difundir com melhor contorno no imaginário coletivo através de versão do mito de Narciso escrita por Ovídio em “As metamorfoses”. Todavia, não é daqui que Freud parte. No cenário psiquiátrico de sua época, contesta os apontamentos feitos por Näcke, em 1899, em que atribuía o sentido da palavra às situações em que o corpo do sujeito era tratado como objeto sexual de si mesmo. Nessa perspectiva, o entendimento médico daquela época aproximava o conceito muito mais de uma perversão na concepção psicanalítica do que de qualquer outro entendimento atual (FREUD, 2010). Em discussões alavancadas com as análises de Leonardo Da Vinci (1910) e do caso Shrebber (1911), Freud começa a estruturar o seu entendimento do que classificaria como narcisismo primário e secundário. Em vias gerais, o narcisismo primário seria entendido como um estágio do desenvolvimento psicossexual em que a criança se escolhe como objeto de amor antes de estar preparada para se voltar aos objetos externos. Já o secundário, caracterizaria a retirada do investimento da libido dos objetos externos em decorrência de frustrações da realidade e o retorno de toda essa energia ao Eu (ROUDINESCO, 2008). O narcisismo foi vital na obra de Freud por pelos menos seis anos, entre 1914 e 1920, até que o autor acaba introduzindo nas discussões psicanalíticas a ideia de pulsão de morte com a publicação da icônica obra “Além do princípio do prazer” (1920), substituindo a aparente necessidade de um desdobramento maior do narcisismo. De acordo com Green (2002), a tendência freudiana de empurrar o conceito de narcisismo para longe do palco teve sequência com os psicanalistas kleinianos. Para Klein, não haveria razões para considerarmos um estágio narcísico do desenvolvimento que fosse responsável pela estruturação do Eu, já que dentro de sua teoria ele estaria presente, ainda que em estado primitivo, desde o início da existência do bebê. Posteriormente, em 1971, o conceito foi retomado por Rosenfeld a partir dos pressupostos kleinianos em um congresso da IPA sediado em Viena. Cabe destacar que outros teóricos também se aventuraram na exploração do conceito de narcisismo. Em 1949, Jaques Lacan apresenta no XVI Congresso Internacional de Psicanálise realizado em Zurique, a sua ideia, publicada posteriormente no célebre texto “O estádio do espelho como formador do Eu: tal como nos é revelada na experiência psicanalítica, onde discorre sobre o movimento de reconhecimento do Eu pelo bebê, retornando, em alguma medida, ao que fora apresentado por Freud em 1914 (IMANISHI, 2008).


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Cabe destacar que outros teóricos também se aventuraram na exploração do conceito de narcisismo. Em 1949, Jaques Lacan apresenta no XVI Congresso Internacional de Psicanálise realizado em Zurique, a sua ideia, publicada posteriormente no célebre texto “O estádio do espelho como formador do Eu: tal como nos é revelada na experiência psicanalítica, onde discorre sobre o movimento de reconhecimento do Eu pelo bebê, retornando, em alguma medida, ao que fora apresentado por Freud em 1914 (IMANISHI, 2008). O narcisismo ganha maiores discussões com os trabalhos de Grunberger, 1957, André Green, 1967, e Kohut, 1971 (GREEN, 2002). Lou Andreas-Salomé antes antes destes, ainda em 1921, também propõem um novo olhar sobre o conceito com a publicação de “Narcisismo como dupla direção”, em que tenta simultaneamente se contrapor a segunda tópica da teoria pulsional e preservar boa parte do que fora estruturado nas discussões sobre o narcisismo na teoria psicanalítica (ANDREAS-SALOMÉ, 2021). Apesar de tantos psicanalistas ainda se distanciarem dos desdobramentos do conceito de narcisismo na atuação profissional, é inegável a contribuição da psicanálise no que seria o entendimento social do termo, ou o termo utilizado na linguagem leiga. Vemos com constância a indicação de que o uso das redes sociais seria essencialmente narcisista. Discussões deste tipo passam a aflorar cada vez mais dentro do cenário pandêmico que está em curso. Logicamente, existiram mudanças históricas que foram paulatinamente alterando a dinâmica das relações interpessoais e intrapessoais. A subjetividade da época de Freud já não se configura como hoje. Desde o início da modernidade, passamos a acompanhar a dissolução da influência de grandes instituições como a igreja e o estado. De forma concomitante, temos tido acesso a recursos tecnológicos que atendem, de forma facilitada, cada vez mais as nossas demandas de comunicação (PIZZIMENTI; ESTÊVÃO, 2019). É possível que encontremos registros pessoais desde a antiguidade. Todavia, é no renascimento que podemos começar a encontrar de forma inédita a escrita voltada “a si mesmo”, ou o surgimento da individualidade. Até então, o que se via era a vivência da comunitas, uma hiper valorização da tradição e dos papéis que poderiam ser desempenhados dentro de cada sociedade (LIMA; SANTIAGO, 2010). Os diários íntimos da modernidade, que eclodem com a ideia da vida privada, ainda continuam existindo, porém reconfigurados. Na contemporaneidade precisam ser lidos por terceiros. Seriam “diários éxtimos” em uma referência ao termo criado por Lacan indicando que algo é íntimo ao sujeito, mas se encontra fora dele (PIZZIMENTI; ESTÊVÃO, 2019). Pizzimenti e Estêvão (2019) então nos perguntam, mas será que o uso das redes sociais seria algo essencialmente narcisista? Para eles, devemos pensar na preocupação que existe na qualidade do objeto, identificando se o anseio do sujeito seria de se fazer objeto por meio do olhar do outro ou se existiria uma preocupação de investimento libidinal de encontro com o objeto. Talvez, no entanto, essa não seja a pergunta que deve ser feita ao pensarmos neste fenômeno social. Quando estabelecemos questionamen-


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tos deste tipo, é traçada uma linha dicotômica entre o que supostamente seria o uso adequado ou não da tecnologia em questão. A busca pelo olhar do outro ou por uma aproximação com o objeto não pode ser resumida em uma cisão maniqueísta da realidade, necessária a investigação analítica constante das razões por trás do comportamento propriamente dito. O narcisismo psicanalítico detém uma importante função para o nosso psiquismo, tornando-se um recurso valioso na compreensão das psicopatologias. É importante que não deixemos jamais de lembrar que, como tantos outros conceitos, a sua matriz não é essencialmente psicopatológica. Alguns de seus desdobramentos são. Referências ANDREAS-SALOMÉ, L. Narcisismo como dupla direção. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2011. FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914). In: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Companhia das Letras: São Paulo, p. 13-50, 2010. GREEN, A. A dual conception of narcissism: positive and negative organizations. Psychoanalytic Quarterly, ed. 71, 2002. IMANISHI, H. A. A metáfora na teoria lacaniana: o estádio do espelho. Boletim de Psicologia: São Paulo, v. 58, n. 129, p. 133-145, dez. 2008. LIMA, N. L. de; SANTIAGO, A. L. B. O diário íntimo como produto da cultura moderna. Arquivos Brasileiros de Tecnologia: Rio de Janeiro, v. 62, n. 1, p. 22-34, abr. 2010. PIZZIMENTI, E. C; SILVA, I. G. da; ESTÊVÃO, I. R. Da queda livre ao encontro com o outro nas redes sociais: um estudo do narcisismo. Trivium: Rio de Janeiro, v. 11, n. 1, p. 85-98, jun. 2019. ROUDINESCO, E. Dicionário de psicanálise. Zahar: Rio de Janeiro, 2008.


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Jose Valdeci Grigoleto Netto Psicólogo clínico (CRP 08/24556). Mestrando em Psicologia – UEM. Especializando em Ações Terapêuticas para Situações de luto – LELu/PUC-SP. Especialista em Saúde Mental – UNICESUMAR. Coorganizador do livro Múltiplos Olhares sobre Morte e Luto: Aspectos teóricos e Práticos (CRV, 2021). Escritor e poeta.

COM QUANTAS PERDAS SE FAZ UMA PANDEMIA? Ninguém gosta de perder. Nós, seres humanos, não fomos programados, se essa for a palavra, para lidar facilmente com rupturas e privações ao longo da vida. Nós gostamos, sim, do ganho: a conquista de um novo amor, de um novo emprego, de um carro, uma casa. Gozamos com os encontros. Exemplos de conquistas e acréscimos que nos constituem e, inclusive, alimentam a falsa ideia de completude. A verdade, repito, é que ninguém gosta de perder. E, pensando bem, por que gostaríamos? Perdendo, na melhor das hipóteses, há quem sofra, chore, coma demais, coma pouco, durma demais, durma pouco, se isole, esqueça de tomar banho... Em resumo: na perda, em um primeiro momento, pode ser que a gente se perca também. Quando algo que amamos vai embora, uma parte vultosa da gente se vai igualmente. Aí, me indago: e nesta pandemia? Metaforicamente, pensando que nossa vida é um jogo de quebracabeças e as peças são nossos laços e conquistas, quantas peças você perdeu? Teu jogo está completo? No livro Luto por perdas não legitimadas na atualidade, publicado pela Summus Editorial em 2020, Gabriela Casellato apresenta uma série de perdas factíveis que ocorrem com a pandemia: a perda do mundo presumido, isto é, o mundo conhecido e seguro. Ainda, a perda da segurança, aspecto instintivo e constituinte do ser humano que promove possibilidade de sobrevivência. Na sequência, há as perdas, no plural, inerentes ao distanciamento físico e da convivência social. Não obstante, podemos falar acerca das perdas no aspecto da saúde, as perdas econômicas e, por fim, mas não menos importante, a perda das inúmeras vidas. Desta forma, é possível pensar em distintas perdas que acometeram (e ainda acometem) os seres humanos neste momento em que vivemos. É tarefa árdua e desafiadora falar sobre um momento que ainda se faz presente, teorizar, traduzir fatos em palavras. No entanto, cotidianamente as perdas adentraram nosso lar e, de uma maneira assustadora, tornaram-se cenas rotineiras em canais de televisão, nas redes sociais. Como nos acostumamos a isso? Em qual momento? Especificamente em relação à perda da vida, tornou-se fato presente na grande parcela das famílias ao redor do mundo a morte pela pandemia da Covid-19. No Brasil, em especial, frente ao descaso com as vidas (até a escrita deste texto mais de 530 mil vidas foram perdidas), me questiono: com quantas perdas se faz uma pandemia? Qual o valor de uma vida? Pensar e refletir acerca destas questões é importante para dimensionarmos a quantidade avassaladora de pessoas enlutadas neste momento. Neste caminho, Casellato (2020) pontua que o número de pessoas enlutadas por uma morte pode ultrapassar uma dezena. Logo, se fizermos a conta, o número é assustador. Faça a conta e veja por si só. Multiplique. E ainda mais: como viver um luto em um contexto de pandemia, no qual os rituais foram significativamente abalados e/ou interditados? Velórios, despedidas, a reunião dos familiares, amigos e conhecidos para acolher as pessoas enlutadas foram impedidas. Vive-se um luto não-pleno, isto é, que não goza de todos os aspectos primordiais para o processo de adaptação e de reorganização frente a uma


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uma perda. Finalizo esta breve reflexão com uma verdade que deveria ser fato notório: É impossível mensurar o valor de uma vida. No jogo do viver, nenhuma peça é substituível: cada uma possui seu formato e tamanho de atributo único. Cada peça ocupa espaço especial no jogo de outra(s) pessoa(s). Perder uma vida é transformar o jogo (ou tantos outros mais) permanentemente incompleto. Faltante.

Referências CASELLATO, G. Posfácio - Os lutos de uma pandemia. In: CASELLATO, G. (Org.) Luto por perdas não legitimadas na atualidade. São Paulo: Summus, 2020.

608.071

Quando este material foi estruturado, o Brasil passava de 608.071 óbitos por conta da pandemia de COVID-19.

O Instituto em Foco destaca a atrocidade que foi feita contra o povo brasileiro em decorrência das decisões tomadas pelo atual governo.


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Isabelle Maurutto Schoffen Psicanalista. Psicóloga e Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Idealizadora da Roda de Psicanálise. Mãe do Cae, Lis e Ivy. Mulher-mãe em constante movimento.

MATERNIDADE, SOLIDÃO E MEU ABISMO Tornar-se mãe. Está aí uma experiência que inevitavelmente afeta todos os lugares e sentidos da vida de uma mulher. Abalo sísmico, caldeirão de emoção, ambivalência, mudança, movimento, luto, solidão, abismo. Essas foram algumas palavras que me convocaram nessa vivência tão visceral da maternidade. Quando soube da minha primeira gravidez, adiei alguns planos profissionais, dentre eles o doutorado. Ouvi do meu futuro orientador uma frase que me impactou de forma afetuosa: “aproveite, será uma grande aventura”. Foi e continua sendo a maior aventura da minha vida. Gerar, parir, amamentar, cuidar, maternar, amar é mesmo uma grande aventura. Não somente pelo desconhecido que está por vir, mas pelo alto risco. Os poetas estavam certos, na vida e no amor não há garantias. O medo passa ser um companheiro incômodo. Você se distrai, mas ele permanece, está à espreita. Medo de morrer, medo de perder quem amamos, medo de não dar conta. Tornar-se mãe é um trabalho exigente, psíquico, complexo, com altas doses de repetição dos restos das nossas vivências de dependência e desamparo. Acrescentando a isso, ainda passamos por mudanças e processos subjetivos intensos: de filha para mãe, de menina à mulher, da infância à adultez. Muito trabalho psíquico inconsciente está no palco novamente, agora com outros personagens, atualizando cenas, construindo, encenando novos papéis e elaborando-os. Não, eu não sabia o que estava por vir desde que decidi ser mãe. A gestação logo me mostrou que o bebê e eu não éramos um, muito menos complementares. A placenta estava lá para ensinar e deixar os limites bem claros entre mãe e bebê – duas pessoas distintas mas ligadas profundamente. Fato que exigirá bastante da dupla, no jogo de presença e ausência, aprenderão a se separar e tornar-se um par e depois tornar a se separar e assim sucessivamente e por toda a vida, afinal – como diz Freud – o infantil permanece em nós. Isso eu já tinha aprendido com a psicanálise, mas ainda não tinha vivenciado. Gestar e cuidar de um bebê é potencialmente traumático. Tanto pelo impacto das transformações corporais e pelo novo que nos assusta, quanto pelo desamparo e solidão em que somos jogadas nessa experiência que inevitavelmente coloca nossos restos a exigir mais trabalho psíquico. Recentemente me deparei com o trabalho muito sensível da psicanalista Rachele Ferrari (2021), que traz a experiência da maternidade como um assombro, um susto, um trauma que insiste em tentar elaborar a experiência inquietante e conflituosa. A ideia do assombro foi desenvolvida pelo psicanalista Leopold Nosek (2017) – ele diz que o novo em si é traumático, aterroriza. Experiências inaugurais assombram, nos deixam atônitos, espantados ao mesmo tempo admirados. Rachele (2021) em sua pesquisa observou que artistas impactadas pela maternidade, sentiram a necessidade de expressar os excessos dessa experiência por meio da escrita, em uma tentativa elaborativa. Uma curiosidade é que essas mulheres utilizam palavras e ideias como abismo, profundidade, perda, parto-partir, para descrever as emoções e sensações do puerpério. A autora nos convoca a pensar que a capacidade de se abismar, é potencialmente elaborativa, na medida em que provoca espanto e ao mesmo tempo fascínio e encanto.


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Ao escutá-la meus restos puderam vir à luz e fez sentido em mim. Foi também pela escrita que pude me permitir afetar por essa experiência visceral, numa tentativa angustiante e urgente de dar sentido e elaborar. Para meu espanto/assombro, também fiz uso das mesmas palavras – abismo, perda, luto, profundidade – numa tentativa insana de fazer sentir e sentido. Meu abismo descrevi assim: O mar sempre exerceu um fascínio em mim. Não só por suas ondas, areia morna e água salgada, mas pelo seu mistério. Desde pequena gostava de estar para além das ondas. Todo aquele rebuliço e agitação da arrebentação me fazia fugir para dentro do mar, para onde nascem as ondas. Gosto de ver as ondas se formar, ganhar peso e corpo. Elas passam, eu permaneço, sinto o balanço, o ritmo. Gosto ainda mais de olhar o horizonte, aquele mar sem fim. Acho que aprecio a infinitude da superfície, a profundidade do abismo, mesmo que nele experimente a onipotência e a imortalidade ao avesso. Abandono meu corpo no ritmo das ondas, flutua na imensidão do céu. Submerso. Abro os olhos. Silêncio é o som das águas profundas. Deixo meu corpo pesar, observo, não tenho vontade de voltar, o abismo tem dessas coisas. Medo, desejo, movimento, intensidade e impermanência – mistério das águas. No mar eu me perco. Num impulso, emerjo, olho para o céu, me encontro (Isabelle Maurutto, 2021).

Ao que parece a maternidade é em si um processo traumático, na medida que é inaugural, novo e impactante na vida da mulher. Meu primeiro puerpério, posso dizer que foram dores e delícias do processo de me tornar mãe, de me autorizar na posição de cuidar de um outro totalmente dependente de mim. Foi transformador, muito potente. Já o segundo puerpério foi mais intenso, mais traumático. Deparei-me com a solidão e com a incógnita de como voltar a ser mulher, uma pessoa inteira novamente. Acredito que viver essa experiência em plena pandemia me marcou de forma diferente. Ainda não sabemos os efeitos que a pandemia causou na população em geral, mas me arrisco a dizer que, para as mulheres e homens que vivenciaram a experiência da parentalidade nesse período de isolamento forçado, as consequências foram importantes. Muitas mulheres-mães diziam estar vivendo com a pandemia um duplo puerpério. A solidão e isolamento típico do período estava sendo vivido em dose dupla, principalmente porque estavam isoladas também de sua rede de apoio. O desamparo, a dependência absoluta do bebê, são também mobilizados na mulher-mãe. Restos que exigirão muito trabalho psíquico, não sem dor e angústia – emoções que a colocam em um estado de solidão ainda mais intenso. A minha solidão foi um assombro/abismo, temido e desejado. Foi também um puerpério mais exigente por ser mãe de gêmeas – duas meninas. Sinto que deixei-me afetar e me encantei. Reencontrei minha capacidade criativa e espontaneidade na escrita, fiz desse processo um encontro com meus pedaços, fantasmas, enfim com meu abismo.

Referências FERRARI, R. (2021, Julho, 31). Maternidade: Assombro e Elaboração. [Arquivo de vídeo]. Recuperado de https://youtu.be/ql4XJ1pL0wU. FERRARI, R.; RIBEIRO, M. Ser mãe, ser pai. Cadernos de Psicanálise | CPRJ, v. 42, n. 42, p. 225-242, 5 ago. 2020. MAURUTTO, I. [@isabellemaurutto]. (01 fevereiro de 2021). Puerpério. [texto]. Instagram. NOSEK, L. A Disposição para o Assombro. 2017.


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Vinícius Romagnolli

Amanda Boll

Psicólogo clínico (CRP 08/16521), historiador e poeta. Doutorando em Psicologia pela UNESP.

Graduanda em Psicologia pela PUCPR e membra do Instituto Psicologia em Foco.

ISOLAMENTO NA PANDEMIA E A TENTAÇÃO DE DESAPARECER NA JUVENTUDE CONTEMPORÂNEA Em 1930, Freud em sua obra “Mal-estar na civilização” apontava que o isolamento deliberado e o afastamento dos demais é a salvaguarda mais disponível contra o sofrimento que resulta das relações humanas (FREUD, 1930/2010). Quase cem anos depois, o sociólogo David Le Breton leva adiante a pista legada pelo pai da psicanálise e investiga em sua obra “Desaparecer de si: uma tentação contemporânea” (2018) levou a esse tipo de conduta. Le Breton (2018) aponta para um sentimento recorrente entre jovens, que é o de se ausentar-se de si mesmo quando a existência pesa. Para o autor esse estado das coisas é acentuado pelo cenário contemporâneo marcado pela individualização do sentido que liberta da tradição e valores comuns, fragilizando os vínculos sociais convocando cada um a fruir de sua autonomia ou então sentir-se insuficiente e fracassado quando não alcança seus intentos. Ao não encontrar apoio na comunidade, os jovens contemporâneos estariam às voltas com uma tensão constante e uma aspiração por alívio de tal pressão, algo que o Le Breton chama de “tentação de desligar-se de si” com vistas a fugir das exigências e preocupações (LE BRETON, 2018). Numa sociedade da agilidade, espera-se que o sujeito seja maleável e adaptável, capaz de construir-se permanentemente. Para Le Breton (2018): A velocidade, o fluxo dos acontecimentos, a precariedade do emprego, as mudanças múltiplas impedem a criação de relações privilegiadas com os outros e isolam o indivíduo. Apenas a continuidade, a solidez do vínculo social e seu enraizamento possibilitam criar amizades duradouras e, portanto, formas de reconhecimento no cotidiano (LE BRETON, 2018, p.11).

Voltando para a “tentação” de desconexão com o mundo, Le Breton aponta algumas atividades que se prestam a esse fim, tais como: atividade física, lazer, vida noturna ou qualquer uma que possibilite ser um personagem diferente daquele que se representa no cotidiano, que possibilita estar distante por algum tempo, afastando-se da rotina e experimentando um anonimato sem exigências de identidade. Essa evasão do cotidiano e suas exigências performáticas pode ser um convite a interioridade via leitura, meditação, música ou sono, um recurso para aliviar a tensão. Le Breton aponta, no entanto, para momentos em que esse estado inspira preocupação como no caso das depressões, burnout e do colapso dos vínculos. Em trabalho recente de Gomes e Boll (2020) foram analisadas duas obras cinematográficas que representavam o adolescente no século XXI, a saber: Cisne Negro (EUA, 2010) e As vantagens de ser invisível (EUA, 2012). Ambas abordam questões acerca do “desaparecimento de si” durante a adolescência. A obra de Le Breton (2018) nos auxiliou nessa análise no que diz respeito às formas de apagamento de si. Sabemos que diante da separação e diferenciação dos pais, os adolescentes se veem em busca de um lugar no mundo, criando sua própria subjetividade e seus valores. Em busca de referências disponíveis, os adolescentes visam um sentimento de pertencimento e quando isso não ocorre se deparam com uma intensificação do desamparo (que já é característico do processo adolescente).


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adolescente). Os protagonistas dos filmes analisados, Nina e Charlie, são jovens que quando desprovidos de olhares e aprovações externas acabam por se fechar em relação ao meio externo. Le Breton (2018) a adolescência contemporânea tem sido marcada por dificuldades no processo de identificação de si no meio social. Os jovens se queixam constantemente da obrigatoriedade da representação, podendo adquirir um caráter evitativo, buscando meios para fuga de suas realidades com vistas a um desaparecimento literal, cujo objetivo é deixar suas existências mais leves. Assim sendo, vemos em Cisne Negro e As vantagens de ser invisível a questão da supressão da realidade ligada à dificuldade de crescer e se compreender neste processo. É notável o caráter infantilizado e o desamparo de referências dos personagens Nina e Charlie, o que os leva a uma maior vulnerabilidade e a busca por um desligamento de si. Ambos se utilizam de um mecanismo de defesa por meio da esquiva e têm dificuldade de construção de laços sociais. Sem laços com o mundo externo, não há necessidade de sustentar um papel identitário, o que gera o fechamento em si mesmo e traz uma pretensa sensação de segurança e proteção (LE BRETON, 2018). A respeito do fechamento em si abordado, Gomes (2020) postula que a falta de abertura ao mundo externo denuncia a precariedade das relações contemporâneas, marcadas por solidão e isolamento, consequentes da cultura e da época atual. O autor aponta o fechamento dos sujeitos em um ambiente “seguro” e narcísico no qual estes se relacionam apenas com seus semelhantes, não se tornando suscetíveis às consequências da relação com um outro diferente, tais como frustrações, expectativas e limitações (aspectos que são de grande importância para o desenvolvimento de relacionamentos e um psiquismo saudáveis). No personagem Charlie, vemos essa falta de contato e identificação com os pares o levar ao fechamento em sua casa, onde julga estar seguro e protegido de experiências externas que podem vir a frustrá-lo (CORSO, 2018). O processo adolescente suscita questões fundamentais para a análise da subjetivação no cenário contemporâneo. Temas como: solidão, isolamento e o “desaparecer de si” como produtos de tempos performáticos e compulsivos aparecem com frequência na escuta clínica e merecem um debate amplo que articule a psicanálise com questões sociais mais amplas, daí a importância da obra do sociólogo Le Breton citado neste estudo.

Referências As vantagens de ser invisível. Direção: Stephen Chbosky, Produção: Russell Smith. EUA: Summit Entertainment, 2012. Cisne Negro. Direção: Darren Aronofsky, Produção: Scott Franklin; Mike Medavoy; Arnold Messer e Brian Oliver. EUA: Fox Searchlight Pictures, 2010. BOLL, A. GOMES, V. R. R. O retrato cinematográfico do adolescente nos anos 2010: uma leitura psicanalítica. Relatório de pesquisa. PUC-PR (Câmpus Maringá). 2020. CORSO, D.; CORSO, M. Adolescência em cartaz: filmes e psicanálise para entendê-la. Porto Alegre: Artmed, 2018. FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


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GOMES, V. R. R. Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual: reflexões sobre as relações contemporâneas. In: MAIA, Bruna Bortolozzi; OKAMOTO, Mary Yoko. Leituras sobre a sexualidade em filmes: psicanálise e vínculos (v.3), São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. LE BRETON, D. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis – RJ: Vozes, 2018.

86 ANOS SEM PESSOA Em homenagem a um dos maiores nomes da literatura universal, Fernando Pessoa, o Instituto Psicologia em Foco conversará com o escritor e cineasta Donny Correia

Em breve mais informações pelo instagram @ipfoco

INTERFACES ENTRE PSICANÁLISE E LITERATURA: ÁLVARO DE CAMPOS, PROFETA DA ANGÚSTIA

O heterônimo mais elaborado e consistente do poeta português Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, engenheiro naval que desacredita a existência sem perder o lirismo é tema desta conversa que analisará conceitos poéticos, estéticos e psicanalítico do autor de “Tabacaria”, ode à decadência da modernidade e base das mais complexas reflexões existenciais do homem moderno.


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Luana Ramos Rocha Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (2017) e em Letras Português/Inglês pelo Centro Universitário Cesumar (2020). Pós-graduada em Tecnologias Aplicadas ao Ensino a Distância pelo Centro Universitário Cidade Verde (2020). Graduanda em Pedagogia pela Universidade Cesumar e Pós-graduanda em Tradução e Revisão de Textos em Língua Inglesa pela Faculdade Unyleya.

SAUDOSA REALIDADE Fevereiro de 2020. Tudo mudou. O Brasil se vê dentro da grande teia do coronavírus, que vinha afetando diversos países ao redor do mundo. Começou-se a obrigatoriedade do uso das máscaras e também a “prisão domiciliar”. O vírus tirou a nossa liberdade de ir e vir. Essa mudança abrupta da realidade pessoal ocasionou um impacto grandioso na saúde mental (GAMEIRO, 2020). Temos vários novos diagnósticos de depressão e ansiedade, pessoas que não conseguem mais lidar com o que a Covid-19 causa e o fato de precisar se distanciar de pessoas queridas e da vida que era tida anteriormente. Algumas requisições referentes ao sanitarismo foram trazidas, tais como: o adiamento de eventos esportivos, o cancelamento de festas e, o que mais afetou a população, o impedimento de sair socialmente. Sem dúvida, esse afastamento causa certo desconforto e demanda muita paciência. Alguns recursos utilizados como forma de passatempo são os “exercícios físicos, leituras, filmes, meditações, orações, práticas amorosas, manutenção da casa” (BITTENCOURT, 2020, p. 171). Diante dessa realidade, a população sentiu uma necessidade ainda maior de usar as redes sociais, na expectativa de compartilhar seu cotidiano (PERROTTA; CRUZ, 2021) e sentir-se mais próxima dos amigos, tal qual era quando convivíamos em sociedade, sem tantas privações. Todo esse contexto me faz lembrar de um autor que tenho muito apreço – Augusto dos Anjos – e de um de seus sonetos, chamado "saudade". Hoje que a mágoa me apunhala o seio, E o coração me rasga atroz, imensa, Eu a bendigo da descrença, em meio, Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noute quando em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente, P’ra iluminar-me a alma descontente, Se acende o círio triste da Saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento, E à dor e ao sofrimento eterno afeito, Para dar vida à dor e ao sofrimento,

Pintura de Augusto dos Anjos por Flávio Tavares

Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito, Mas que no entanto me alimenta a vida.

Difícil ler esse soneto e não o relacionar a tudo que temos vivido em tempos de pandemia e isolamento social.


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A mágoa da doença apunhalou nosso seio, rasgando-o e tirando qualquer fé de que as coisas pudessem melhorar. Em meio ao isolamento, temos saudade e nos recordamos tristemente de tudo que vivíamos em tempos melhores. Nesse meio, nos apegamos à dor e ao sofrimento do luto, da perda de familiares, amigos queridos e vida antiga. No entanto, agarrados à saudade e à esperança da vacinação, nos lembramos da pré-pandemia, com toda liberdade, aglomerações, festa, vida, animação e preocupações saudáveis. E é isso que nos mantêm firmes. A saudade que alimenta a vida e a expectativa de cura e dias melhores. A vacina chegou como uma esperança e uma expectativa do fim de todo esse momento triste. Entretanto, segundo Bittencourt (2020, p. 170), “Países que, por irresponsabilidade governamental e motivos antissociais, demoraram a realizar medidas de controle epidêmico sofrem as consequências dessa hesitação capital”. Infelizmente, esse é o caso em que o Brasil se encontra. Enquanto o governo demora a fazer a parte que lhe cabe, continuamos fazendo a nossa parte. Use máscara. Se puder, fique em casa. Nos resta agarrar-nos à saudade que alimenta a vida e esperar pelo dia em que a Covid-19 será lembrança e essa saudade se tornará a realidade. Saudosa realidade.

Referências ANJOS, A. dos. Saudade. In: ANJOS, A. dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. BITTENCOURT, R. N. Pandemia social e colapso global. Revista Espaço Acadêmico, n. 221, p. 168-178, mar./abr. 2020. GAMEIRO, N. Depressão, ansiedade e estresse aumentam durante a pandemia. FioCruz, 2020. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/depressao-ansiedade-e-estresse-aumentam-durante-apandemia/. PERROTTA, I.; CRUZ, L. S. Objetos da quarentena: urgência de memória. Estud. Hist., Rio de Janeiro, v. 34, n. 73, p. 320-342, maio/ago. 2021.


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Gabriela Françoso Eburnio Acadêmica de Psicologia (Unifamma) e idealizadora do @libertepsi.

GAMBIARRA Em um dia qualquer de supervisão fui colher hortelãs para fazer chá enquanto minha avó colhia cebolinhas verdes, eu disse a ela o quanto as hortelãs que estavam plantadas em uma bacia eram murchas e pequenas, e as que estavam plantadas diretamente na terra estavam mais bonitas. Minha avó respondeu: “As hortelãs da bacia estão murchas porque estão presas e as da terra estão livres”. Esse diálogo me levou a pensar sobre as consequências que o isolamento acarreta nas pessoas em tempos pandêmicos. Cada um de nós lida com esse fato de forma singular, e acompanha a morte de milhares de brasileiros e pessoas em todo o mundo, noticiadas diariamente. Quis perguntar a minha avó o que era isolamento para ela. A resposta foi que isolamento é estar longe da família, ser abandonada. A solidão é um dos maiores dilemas do isolamento, como coloca Tatit e Rosa (2021), é a presença de ausência do outro da qual pode simbolizar a falta e nos revelar uma posição de desejo, e é justamente esse desejo que podemos ver atuante em nossas relações virtuais. Diante das gambiarras que fazemos nas condições atuais, tentamos fazer das chamadas de vídeos um encontro com colegas, com a família e com pessoas das quais convivemos, seja de trabalho ou de estudo. Fazemos gambiarras com a falta, reelaboramos as nossas condições utilizando das nossas possibilidades, mas o adoecimento vem por falta de espaço, de investimento e de lugar, de troca. A gambiarra nada mais é do que tentar criar algo que “quebre o galho” quando não existe o ideal, mas, nesse caso, a falta ideal é o mínimo das relações humanas que nos foi tirado, como a terra que deixa a hortelã livre para ela crescer dentro de todas as suas próprias limitações e possibilidades possíveis. Dessa forma, conseguimos entender melhor quando Lacan nos diz que a angústia é a falta da falta. É na relação com o outro que nos constituímos, na função de investimento de um outro que nos reconhecemos enquanto sujeitos e nos autorizamos a vir a ser. Um mundo onde telas começam a ocupar esse lugar, não há investimento que atravesse. É na relação com a presença do olhar do outro que o sujeito se humaniza. Nós conseguimos continuar, assim como as hortelãs no balde; crescemos em meio a trancos e barrancos dentro de um espaço de isolamento. Mas são as hortelãs livres, conectadas diretamente com a terra e que conseguem se ocupar dos nutrientes necessários para se desenvolver, porque existe o mínimo oferecido. É difícil dizer o que nos faz continuar estando dentro do balde para que possamos sobreviver, a esperança por dias melhores nos faz insistir nas telas, ansiosos pelo dia em que finalmente nos sentiremos seguros para nos encontrarmos com aqueles que escolhemos nos constituir, repletos de sintomas e faltas para serem trabalhadas. Já o sentimento de abandono, como disse minha querida avó, é o retrato diante de um país esquecido por seu líder criminoso, de um povo largado para morrer por negligência, por falta de vacina e pela falta do mínimo. Referências ANJOS, A. dos. Saudade. In: ANJOS, A. dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, TATIT, Isabel; ROSA, Miriam Debieux. Pra não dizer que Freud e Lacan não falaram da solidão. Rev. Psicol. Saúde, Campo Grande,v. 5, n. 2, p. 136-146, dez. 2013.


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Nayara Caroline Milharesi Psicóloga Clínica. Mestre em Psicologia, na linha de pesquisa de Psicanálise e Civilização pela Universidade Estadual de Maringá; Especialista em Psicoterapia Psicanalítica Contemporânea pela Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Maringá; Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá; Docente na Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Maringá (EPPM); ex-editora de seção na revista Psicologia em Estudo. É autora autora do lançamento “Confissões de uma jovem [psico]terapeuta: início, percalços e alegrias” (Appris).

CONFISSÕES DE UMA JOVEM [PSICO]TERAPEUTA: INÍCIO, PERCALÇOS E ALEGRIAS A autora, Nayara Caroline Milharesi, que se autointitula jovem [psico]terapeuta, está completando 10 anos de profissão em consultório de psicoterapia psicanalítica. Para a comemoração desta data tão importante, lança seu primeiro livro, um romance em primeira pessoa, marcando seu nascimento como escritora. Mediante o exposto, é importante compreender o que significa o termo [jovem psicoterapeuta]. Trata-se de uma representação do período inicial de sua carreira, período este que todos os psicólogos clínicos passam, mas que, muitas vezes, não versam sobre tal momento. É nessa lacuna que surge seu livro. Refere-se a ser jovem na profissão e poder se desenvolver. Além disso, suas confissões remetem seus leitores às angústias, aos desafios, às incertezas e às conquistas que muitos vivenciam na solidão de seu próprio, acreditando serem os únicos a passar por tais dificuldades. Em maior ou menor grau, todos os psicólogos têm ou tiveram dificuldades, todos partiram de algum lugar, todos precisaram começar. O começo é difícil e pensar em desistir não é uma exclusividade, ainda que na fantasia. Confissões de uma jovem [psico]terapeuta pode ser uma alegoria de muitos jovens [psis] e pode contribuir com quem se lança na longa jornada de se tornar um psicoterapeuta. É uma forma da autora chegar perto desses colegas e os acolher em seus sonhos, contando da própria trajetória; é uma espécie de relato em carne viva. O escrito visa contribuir também com os familiares desses jovens [psis], os quais, muitas vezes, desconhecem as tramas do universo psíquico e encontram dificuldade de serem o suporte necessário para os corajosos que sonham em ser suporte para seus pacientes, e [psico]terapeutas veteranos, pois certamente os rememorará das suas vivências de início de atuação profissional. É um livro intenso, mas que busca trazer leveza, música e poesia, contando inclusive com poemas autorais. Sem maquiagem, fala sobre o que muitas vezes é difícil de dizer, partindo das primeiras perguntas como “por onde começar”, passando pelos inúmeros investimentos, financeiros, emocionais, análise pessoal, estudo, muito estudo e supervisão, até chegar na experiência da continuidade, quando a jovem [psico]terapeuta percebe que a roda começou a rodar, que parte de seus investimentos começam a dar frutos, que é possível viver bem deste trabalho e que a sua grama é tão bonita quanto a do seu vizinho. É uma tentativa de lançar muitas sementes para que novos jardins possam surgir e florir, cada um no seu tempo, conforme for cabendo na mente de cada jovem psicoterapeuta. O Instituto Psicologia em Foco esteve presente na trajetória da jovem [psico]terapeuta Nayara desde o início de sua carreira; a autora publicou textos no jornal e patrocinou algumas edições; é um prazer enorme ter essa parceria frutífera também neste momento tão festivo para ambos. Boa leitura a todos!

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FRAGMENTO DO LIVRO FREUD: COMO VEJO A VIDA - UMA ENTREVISTA DE JOSÉ ARTUR MOLINA PUBLICADO PELA IPERFILEDITORA Lançamento previsto para 11 de novembro, 2021

A PSICOTERAPIA “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente" (Mario Quintana)

E: Bom dia! Falávamos na ocasião anterior que o senhor foi o criador do método da psicoterapia, a cura pela palavra, como dizia Anna O., a paciente de Breuer, seu colega. E é preciso dizer que essa construção foi necessária porque o método tradicional da medicina fracassou para lidar com os sintomas conversivos das histerias. Não se encontrava causas orgânicas para os males do corpo. Através da hipnose pode-se encontrar um caminho teórico para a razão dos sintomas histéricos: a origem era inconsciente! Os pacientes sob o aparente transe revelavam sentidos sobre sua dor que em vigília eram omitidos. Mas a hipnose não produzia efeito prolongado no sentido da cura. Ao contrário, a sugestão hipnótica até dava resultado sobre um sintoma, mas, como não havia sido atacada a causa, ele migrava para outro formato sintomático. De modo que o senhor começou a ouvir seus pacientes e a perceber que em suas associações discursivas produziam material importante. Eram verdades involuntárias que se impunham sobre a fala do paciente. A interpretação dos sonhos também produzia contribuições inestimáveis. Os atos falhos são valiosos. Como esquecer o esquecimento da palavra Aliquis (em latin) do seu companheiro de viajem. Enfim, a verdade do sujeito estaria depositada sobre aquilo que ele dizia sem sabê-lo ao certo. Algo involuntário, com mensagens não previstas vão se apresentando, fazendo com que a pessoa amplie, sobremaneira, o conhecimento de si. Assim, a ressignificação de sua história vai acontecendo e novos sentidos vão sendo produzidos na vida. Mas esse caminho não foi fácil. Estou pensando na sua conferência sobre a psicoterapia para a classe médica. O senhor publicou esta conferência sob o título “Sobre psicoterapia” (1904). Nele o senhor se queixa de que a psicoterapia é considerada como uma invenção do “misticismo moderno” por muitos médicos que consideram as terapias medicamentosas muito mais científicas. O senhor entra na defesa do método psicoterápico. Dr. Freud: (...) A psicoterapia não é um método terapêutico moderno. É a terapia mais antiga da qual se serviu a medicina: a medicina primitiva e a dos antigos. Terão (os médicos) que classificá-las de psicoterapia; com o objetivo da cura, os pacientes eram induzidos ao estado de “crédula expectativa” e que até hoje nos presta idêntico serviço (Sobre a psicoterapia, 248). Molina: É a chamada sugestão. Podemos ver isso na explosão de literatura de autoajuda consumida no mundo atualmente. O poder de sugestão do profissional não é de se desprezar, entretanto seus resultados são temporalmente falando bem limitados. As palestras motivacionais têm um efeito por apenas um tempo. Depois os velhos problemas reaparecem. Dr. Freud: Não é moderna a velha máxima médica: não é o medicamento que cura senão o médico. (...) Em função de minha participação na construção desta terapia, sinto-me obrigado a dedicar-me a explorá-la e a edificar sua técnica. O método analítico da psicoterapia tem resultados expressivos, e, permite ir mais longe na transformação do paciente (p. 249, t.n.).


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FRAGMENTO DO LIVRO FREUD: COMO VEJO A VIDA - UMA ENTREVISTA DE JOSÉ ARTUR MOLINA PUBLICADO PELA IPERFILEDITORA Lançamento previsto para 11 de novembro, 2021

Dr. Freud: Não é moderna a velha máxima médica: não é o medicamento que cura senão o médico. (...) Em função de minha participação na construção desta terapia, sinto-me obrigado a dedicar-me a explorá-la e a edificar sua técnica. O método analítico da psicoterapia tem resultados expressivos, e, permite ir mais longe na transformação do paciente (p. 249, t.n.). Molina: O senhor destaca duas técnicas que estão em jogo na psicoterapia: a técnica sugestiva e a analítica. São duas coisas bem diferentes. Dr. Freud: Na verdade, entre a técnica sugestiva e a analítica há uma oposição radical: aquela que o grande Leonardo da Vinci resumiu, com respeito as técnicas artísticas com as fórmulas “per via di porre y per via di levare”. A pintura, diz Leonardo, trabalha “per via di porre”; sobre a tela em branco deposita-se um acúmulo de tintas coloridas; ao contrário, a escultura utiliza-se da técnica “per via di levare”, pois tira da pedra tudo o que esconde as formas da estátua contida nela. (...) A técnica sugestiva opera “per via di porre”; não se preocupa com a origem, a força e a significação dos sintomas patológicos, mas aposta na sugestão como força poderosa para impedir que ideias patógenas saiam à luz. A terapia analítica, ao contrário, não quer agregar e nem introduzir nada novo, senão retirar, e com esse fim preocupa-se com a origem do dos sintomas e a trama psíquica que o recobre (p.250, t.n.). Molina: A pessoa que procura ajuda da psicoterapia tem em vista livrar-se do sofrimento psíquico ao qual está submetida. Muitas vezes o sofrimento é situacional, decorrente de dificuldades inerentes à vida. Pode que neste caso uma escuta dedicada, uma palavra pacificadora e edificante seja profícua. Entretanto, quando se trata de um caso onde o sintoma é edificado com a argamassa neurótica meras palavras terão efeito inócuo. É preciso que a pessoa visite, muito a contragosto, lugares de sua história que gostaria de evitar. Como dizia Lacan: não há como fazer “um omelete” sem quebrar os ovos. Uma mudança subjetiva importante só pode ser realizada se o paciente se dispuser a abandonar os ganhos que o sintoma lhe confere (benefícios concedidos às vítimas, piedade, perdão, condições especiais auferidas pelo sofrimento), ou seja, as migalhas que um neurótico tem direito. Em troca disso ganhar uma vida íntegra, autônoma, livre das amarguras e das lamúrias provocadas pelas injustiças que todo neurótico se queixa, e, principalmente, de não ter sido amado o suficiente, camuflando uma verdade que ele quer, a todo custo esconder: sua incapacidade de amar. Toda neurose é infantil. O eu sempre prevalecerá sobre o outro. “Abandonarás teu pai e tua mãe e constituirás tua própria família”. Esse mandamento que o neurótico terá dificuldades de levar adiante. Gostaria de estar protegido do amor incondicional que o mundo lhe deve, “por justiça”. Talvez abrigado por um amor filial. Tentará não abandonar a posição de filho para não ser pai. E para esses casos, Dr. Freud, meras palavras de ânimo serão insuficientes.

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ED 45 ENTREVISTAS: EXPERIÊNCIAS NOS ISOLAMENTOS


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Maria Eduarda Gaspar Branco da Silva Maria Eduarda graduou-se em psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e atualmente é residente do Programa Multiprofissional de Saúde Mental HU-UEPG.

SER PSICÓLOGA HOSPITALAR NA PANDEMIA 1. Fale um pouco sobre você e como tem sido sua história dentro da profissão. Me formei em Psicologia com ênfase em saúde pela UEM em 2019, e logo em seguida entrei para o programa de residência pela UEPG. A proposta da residência em saúde mental, que tem duração de dois anos, é que os profissionais percorram diferentes pontos da rede de saúde do município de Ponta Grossa. Em decorrência da Pandemia, alguns pontos sofreram alterações de fluxo para atender o COVID e não puderam receber os residentes, enquanto outros foram “criados” para atender demandas da pandemia, sendo solicitado a participação da residência. Até o momento (no meio do meu segundo ano como residente), já passei por CAPS-AD, CAPS-II, Ambulatório de Saúde Mental Municipal, Hospital Geral (HU-UEPG), Hospital Materno Infantil (HUMAI-UEPG), e atualmente estou nos seguintes campos: UPA 24h, Secretaria de Saúde Mental do Município de Carambeí, Ambulatório de Reabilitação pós-covid HU-UEPG. 2. Você, como um profissional da Psicologia, trabalhando em um hospital, poderia compartilhar um pouco da sua experiência no contexto atual? O hospital universitário passou por diversas mudanças por causa do covid, sendo a principal a “substituição” de alas inteiras por leitos covid. A fim de ilustrar, hoje são 60 leitos de UTI covid vs. 10 leitos de UTI limpa (que pode receber pacientes de covid de longa permanência, que não transmitem mais o vírus - acima de 21 dias da contaminação). As equipes tiveram de se adaptar a essa nova realidade, incluindo a equipe de psicologia hospitalar, devido a extinção de rotinas de visita com os familiares na UTI e a inserção dos atendimentos presenciais em áreas contaminadas. Fiz poucos plantões no covid, uma vez que minha escala sempre mesclava dois ou três campos por vez (na mesma semana), o que “quebraria” a rotina da equipe de psicologia do hospital. O que posso contar não é nada diferente do que é relatado repetidamente por diversos profissionais (o cansaço das equipes, as condições clínicas assustadoras dos pacientes, o medo da contaminação…), mas posso falar do sentimento de enclausuramento e descaracterização que vivenciei. Apesar de serem andares inteiros do hospital, são espaços restritos e bastante controlados, em que a sensação de enclausuramento é agravada pelo uso da paramentação, que limita os movimentos, e me deixava hipervigilante. Descaracterização porque todos usam as mesmas roupas, os mesmos EPIs, o que também nos “esconde”, e dificulta a distinção dos profissionais por parte dos pacientes (e por vezes dos colegas também). Em um atendimento com uma senhora muito simpática, que aguardava nova visita do médico para avaliação da alta, ela me disse “eu não vou te reconhecer na rua, porque vocês são todos iguais, mas se você me ver por ai, me dê oi que eu vou ficar muito feliz”. Nos atendimentos, a repetição dos temas esperados e já bem conhecidos da Psicologia Hospitalar, como o medo da morte, o receio pelo bem-estar da família, medo dos procedimentos, medo das sequelas, além dos sintomas que podem surgir com a internação e que são fonte de angústia, como desorientação auto/alopsíquica e delirium.


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Outros motivos de angústia relatados/observados são o tédio, solidão (uma vez que não é possível receber visitas ou ficar com acompanhante), o sofrimento por deixar pets em casa sem cuidador, e testemunhar cenas fortes (como parada/reanimação dos companheiros de quarto). Preciso dizer que o trabalho do psicólogo, apesar de necessário e valorizado pelos colegas, não se compara ao desgaste físico dos demais profissionais que atuam na linha de frente e que estão muito mais próximos dos pacientes realizando procedimentos. 3. Como você acha que as outras pessoas percebem o "ser psicóloga"? Existem clichês? No ambiente hospitalar, ainda é comum que o psicólogo seja visto como aquele que maneja comportamentos “indesejáveis” dos pacientes, como choro, humor deprimido e resistência aos procedimentos, e que “investiga” sobre o paciente e a família. É comum ver as pessoas esperando que sejamos calmos, pacientes, equilibrados e acolhedores o tempo todo, o que não é possível. 4. Pandemia. Para você, o que mudou de antes para hoje? Na atuação profissional, sinto que as restrições interferem na qualidade da vinculação e nas possibilidades oferecidas ao paciente. Para mim, é angustiante porque vemos casos graves que ficam “soltos”, sem amparo, pois não dependem só de mim ou de apenas um serviço, me sinto “amarrada”. Nos CAPS, por exemplo, os grupos foram suspensos, o que aumentou muito o número de atendimentos individuais, mas o dia tem um número limitado de horas, e somos limitados pela estrutura em que atuamos. Se é difícil acompanhar a demanda em tempos “normais”, na pandemia isso se agravou de forma exponencial. Para proteger todos da contaminação, o afastamento físico e restrições de acesso são sentidos como frieza, dificuldade de comunicação, e, às vezes, falta de interesse. 5. Tem vivido algum tipo de isolamento por estar na sua posição? Fale um pouco sobre isso. Acho que minha situação foi muito parecida com a da maioria das pessoas que seguiram as recomendações de isolamento social. Minha família mora em Maringá, vi meus pais duas vezes de março até dezembro de 2020 por medo de contaminá-los. As interações sociais foram restritas aos colegas de trabalho. Como moro sozinha, não precisei me preocupar muito. 6. Você acha que a situação atual é vivenciada na ordem de um trauma? Partindo da definição de J. Laplanche/ J.B. Pontalis, Vocabulário da Psicanálise: ” o traumatismo caracterizase por um afluxo de excitações que é excessivo, relativamente à tolerância do indivíduo e à sua capacidade de dominar e elaborar psiquicamente estas excitações”, acredito que é possível propor uma reflexão em dois níveis. O primeiro, pensando no contexto de estrutura de saúde e sociedade, poderíamos dizer que sim (num exercício grande de transposição de contexto), uma vez que a pandemia impôs uma demanda muito alta de atendimentos de saúde, e sofremos com a falta de leitos, respiradores, mão de obra… uma exigência abrupta de recursos para lidar com a situação. Pensando no nível do sujeito, é possível que seja vivenciado como traumático para muitas pessoas que precisam lidar com diversos tipos de luto (seja por entes queridos, seja pelo trabalho, pelas consequências físicas da doença…).


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Nathan de Souza Vendramini Nathan Vendramini é graduando em Psicologia pela PUCPR e estagiário pela Sensory Clin, no atendimento especializado com crianças dentro do espectro autista

SER ESTUDANTE NA PANDEMIA 1. Fale um pouco sobre você e como tem sido sua história. Acredito que hoje minha experiência com a psicologia é bem mais positiva se comparada com meu primeiro ano de graduação, onde "turbulências" causadas pela minha antiga instituição de ensino eram relativamente constantes. Já sobre a pandemia em específico, vejo que nossos professores tentaram ao máximo fazer com que as aulas ocorressem da melhor forma possível, ainda mais se tratando da Psicologia, um curso praticamente impossível de ser ministrado via EAD. Devo muito a eles por terem tirado o melhor dessa situação. Sobre hobbies, por causa do "tempo extra" que o “estudar em casa” nos proporcionou, eu pude focar um pouco mais em desenhar, escrever, ler e reler muita coisa, hobbies esses que me serviram como uma forma de auto regulação durante a pandemia. Então diante disso, e apesar de ainda existir um receio de que exista uma força a favor de manter esse sistema a distância por ser mais conveniente, acredito que hoje, perto do fim de 2021, eu estou mais motivado com a graduação e não estou mais naquele sentimento de "já que estou pagando, preciso fazer", além é claro de que finalmente podemos dizer que estamos chegando ao fim desse período pandêmico tão caótico. 2. Você, como um estudante da Psicologia, poderia compartilhar um pouco da sua experiência no contexto atual? Acho que durante a pandemia surgiu o estigma de que seria fácil estudar no conforto de nossas casas, algo que considero não ter respaldo na realidade, foi tudo difícil e desconfortável. Cheguei a ouvir comentários de que o ensino deveria permanecer assim por ser, em tese, mais “prático”, o que para mim é algo consideravelmente perigoso de se pensar, perdemos muito com relação ao contato social tão necessário no cotidiano e no contexto de aprendizagem. 3. Como você acha que as outras pessoas percebem o "ser estudante"? Existem clichês? Durante esse período de ERE (Ensino Remoto Emergencial), tenho sentido que as pessoas em geral vêm julgando ser muito fácil para nós estudantes estudar de forma remota, levando à falsa impressão de ser muito menos cansativo e mais prático. Acho que surge esse clichê da maior praticidade, algo que vai em sentido oposto ao que realmente sinto, onde manter-se focado, livre de distrações é um desafio cotidiano. Sinto medo em pensar na hipótese de isso se manter mesmo depois da pandemia. 4. Pandemia. Para você, o que mudou de antes para hoje? Devido a uma questão de saúde particular, (tenho asma), eu mantenho um cuidado diário, porém não estou em isolamento total, de segunda a sexta eu vou para um estágio presencial e, mesmo sabendo dos riscos, é uma experiência que eu estava sentindo falta de ter, logo assumi os riscos trazidos por consequência. Sobre vida social, as coisas são um pouco mais complicadas, não estou me sentindo seguro em locais públicos, sempre existe um certo medo em relação a isso. Lidar com essas mudanças trazidas pela pandemia é algo que já faz parte do nosso cotidiano.


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5. Tem vivido algum tipo de isolamento por estar na sua posição? Fale um pouco sobre isso. Durante um bom tempo eu fiquei totalmente isolado e sem terapia. Acredito que o primeiro passo que tomei para lidar de fato com essa situação e não simplesmente sobreviver a ela, foi mandar mensagem para meu psicólogo e perguntar se estava atendendo presencial, após isso, foi um processo que persiste nos dias de hoje. Todos os dias há necessidades que precisam ser atendidas, e creio ter um dever comigo mesmo de achar formas de supri-las. Também tenho buscado horários tranquilos para atividade física, lido livros para não ficar “parado”, passado uma grande quantidade de tempo com meus amigos em jogos online, e creio que isso tudo tem sido uma forma administrar a situação, uma forma de realmente viver nesse período e não apenas sobreviver. 6. Como você tem buscado lidar com a situação atual? Procuro zelar pela minha saúde mental ao máximo, tendo uma alimentação saudável, realizando atividade física, mantendo contato com familiares e amigos próximos sempre que possível (não necessariamente físico). Nos momentos mais críticos da pandemia, essas foram as medidas que de alguma forma me ajudaram a enfrentar a quarentena e seus efeitos colaterais. 7. Você acha que a situação atual é vivenciada na ordem de um trauma? Acredito que sim, infelizmente, tenho o pensamento de que as consequências pandêmicas de ordem psicológica ainda vão chegar. Enquanto ainda estamos vivendo este momento é difícil abstrair-nos para de fato avaliá-lo, até porque o medo ainda está constantemente presente em nossos dias, mas, assim que isso tudo acabar, acredito que teremos uma noção das consequências posteriores, e torço para que estejamos aptos para lidar com a onda de adoecimentos psíquicos que virão. 8. Qual o maior desafio que a quarentena te trouxe? Me manter motivado e com vontade de fazer até mesmo as coisas que me davam prazer antes disso tudo. Eu tive a sensação de estar novamente no cursinho, onde a minha energia vital era sugada diariamente e eu não passava de um robozinho cumprindo com minhas obrigações. 9. E o maior aprendizado? Como isso impactou sua vida, ou mesmo você de modo geral? Acho que o aprendizado que obtive foi o de que não se pode simplesmente ignorar o que você está sentindo. Lógico, que devido a mil e um fatores possivelmente não conseguimos suprir toda a demanda que surge, mas em meio às dificuldades, temos um dever para com nós mesmos de achar formas criativas para lidar com os desafios emergentes. Por mais que pareça difícil, acho que alguma solução existe.


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Frank Ribeiro Bacharel em Psicologia, ex-membro do Instituto Psicologia em Foco, trans não binário e músico nas horas vagas.

SER IMIGRANTE BRASILEIRE NA PANDEMIA 1. Fale um pouco sobre você. Bom, vamos lá. O meu nome é Frank, tenho 28 anos, sou brasileira, moro na Inglaterra há dois 2 anos e 6 meses, sou formada em Psicologia (apesar de nunca ter atuado na área, pois assim que me formei fui para o Reino Unido) e também sou artista, trabalho com a composição de músicas e toco instrumentos. 2. Você, como imigrante, poderia compartilhar um pouco da sua experiência no contexto atual? Acho que a minha experiência no contexto atual, no geral, é muito boa como imigrante. Estar atualmente na Inglaterra me deixa um pouco mais segura, já que o governo daqui tem lidado de forma mais responsável com a pandemia em comparação com o que vejo do Brasil. Mesmo estando longe dos que amo, da minha família e amigos, me sinto mais amparada no que diz respeito à saúde. 3. Como você acha que as outras pessoas percebem o "ser imigrante"? Existem clichês? Acredito que qualquer imigrante vá se sentir um pouco rejeitado fora do seu país. Em vários momentos, de forma velada ou não, os preconceitos nos atravessam. Eu não sei dizer sobre algum clichê, mas a gente vê que as pessoas carecem de informação sobre o que é o Brasil. A maioria não tem conhecimento. Algumas pessoas sabem “do que se trata”, mas muita gente tem uma visão estereotipada de que vivemos no mato, junto de macacos, essas coisas. 4. Pandemia. Para você, o que mudou de antes para hoje? Acho difícil não ter mudado algo, né? Ao me deparar com essa pergunta, a primeira coisa que me vem à mente é que, como artista, longe dos meus instrumentos no Brasil, das pessoas que costumavam tocar comigo, eu passei um bom tempo sem contato com a música. Com o isolamento, senti uma necessidade muito forte de resgatar isso. Comprei um violão super barato (até porque a grana fica curta em períodos assim), e aí retomei essa aproximação, comecei a fazer gravações independentes – que nunca tinha feito, pois sempre gravei em estúdio. Outra coisa é que estando longe de pessoas próximas, antes da pandemia, eu via que muitos sentiam dificuldade em sustentar o vínculo pela internet. Agora parece que a pandemia forçou o mundo a usar essa ferramenta. Sinto que as relações com essas pessoas através dessa ferramenta se intensificaram. É lógico que o contexto é atravessado de angústias e tudo mais, mas estando em outro país eu consigo perceber este outro lado. 5. Tem vivido algum tipo de isolamento por estar na sua posição? Fale um pouco sobre isso. Como eu disse anteriormente, o isolamento das pessoas que eu gosto sinto que é menor, por conta da maioria delas usar as redes sociais. Em alguma medida me percebo mais perto de quem está geograficamente longe de mim, do que de pessoas que estão realmente perto. Já sobre o lockdown na Inglaterra e tudo mais, tivemos uma redução das liberdades que tínhamos. Isso mexe com a cabeça de qualquer pessoa: pequenas liberdades, como ir correr no parque, nos eram vetadas. Agora sobre o isolamento


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isolamento no sentido de ser imigrante, a gente se coloca em uma posição social completamente diferente. É uma posição que talvez seja de maior invisibilidade. No meu caso, no Brasil, sempre tive muitos amigos e exerci diversas atividades. Trabalhava como DJ, tocava em festas, tocava com minha banda, etc. Na Inglaterra, com a mudança, eu me senti apenas mais uma pessoa imigrante que trabalha com a hospitalidade. Aqui a maioria dos imigrantes trabalhavam nesses serviços de restaurante, bar, hotel ou café. Há alguns que vão para a parte da limpeza, mas eu sempre preferi o contato com pessoas, então acabei indo para essa primeira área. Foi uma imersão em um contexto completamente novo, mas atravessado por uma enorme sensação de invisibilidade social. 6. Como você tem buscado lidar com a situação atual? Confesso que no começo, principalmente nos dois primeiros lockdowns, foi angustiante em um nível extremo. Após o terceiro lidei de uma forma melhor, com o contato com a música e tudo mais. Mas ninguém pode dizer que tem sido fácil. São tempos difíceis para todo mundo. 7. Você acha que a situação atual é vivenciada na ordem de um trauma? Com certeza. Acho que movimentou e alterou as percepções de normalidade de todo mundo. Mesmo sabendo que nunca existiu algo naturalizado como normal em si, vejo que as coisas rotineiras acabaram se transformando em experiências completamente diferentes. Ir ao mercado já não é a mesma coisa. Vejo como um grande trauma coletivo. 8. Gostaria de comentar mais alguma coisa? Há algo muito interessante que gostaria de comentar, que é a culpa de estar vivendo em um lugar onde as coisas funcionam melhor. Às vezes me ocorre isso. Você se sente mal em reclamar das angústias que surgem ao viver aqui, pois quando olha o cenário da pandemia no Brasil, a gente se entristece muito. Vocês, que vivem isso no dia a dia, eu nem imagino o quão ruim deve estar sendo. Então isso é curioso, você vê que não pertence ao lugar em que está, não fica feliz por completo, por ver casos abaixando na Inglaterra. Não tem quase ninguém morrendo aqui em comparação aos casos visto no início da pandemia. Olhar para a nossa casa (Brasil), e ver tudo desmoronando, é muito angustiante. Há mais um ponto que gostaria de adicionar aqui no final. O Instituto Psicologia em Foco, mas mais especificamente o Jornal Psicologia em Foco, teve grande importância na minha construção. Eu sempre fui o tipo de membro que participava ativamente dos “corres”, vendendo assinatura, exercendo a comunicação e tudo mais. Nunca pensei que fosse estar em uma das páginas, então isso me deixa muito feliz e surpresa! Muito obrigado a todos vocês.


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Paloma Herranz de Souza

Paloma Herranz é graduada em medicina pelo Centro Universitário de Maringá

(Unicesumar) e atualmente trabalha como médica generalista na Unidade Básica de Saúde, Bromado, em Rio Branco do Sul, atuando também em serviços de emergência médica pré-hospitalar.

SER MÉDICA NA PANDEMIA 1. Fale um pouco sobre você. Atualmente procuro me especializar na área de pediatria, área que tive contato na faculdade e que desde então se tornou meu grande sonho, pelo menos até agora. Então no momento, por ainda não ter conseguido alcançar meu objetivo de atuar no hospital pequeno príncipe como pediatra, vou me adequando e trabalhando em outras áreas para me sustentar nesse mundo. Também gosto muito de atuar na saúde no que diz respeito à atenção primária, tendo o primeiro contato com o paciente em postos de saúde, mas também atuando uma vez na semana na parte de emergência e atendimento préhospitalar. Durante a quarentena fiquei muito parada, ainda mais por conta da minha mudança de Maringá para Curitiba, mas sempre fui muito ativa fisicamente. Já estou voltando com a academia, gostaria muito de em breve voltar com o futsal e comecei a fazer yoga, que sem dúvida me ajudou muito nesse período. Foi bom ver minha progressão com a prática. 2. Você, como médica, poderia compartilhar um pouco da sua experiência no contexto atual? Responder a essa pergunta neste momento é bem diferente de responder essa pergunta há um ano atrás. Em 2020 eu ainda trabalhava em um hospital de Itambé e, como recém formada, foi bem difícil lidar com isso. Mesmo os médicos mais experientes não tinham conhecimento suficiente para lidar com o coronavírus. Não sabíamos ao certo o que fazer, quais eram os sintomas característicos, a taxa de mortalidade, transmissibilidade do vírus, enfim, foi uma loucura. Na época, com o começo da pandemia, quis sair do corpo clínico mesmo não havendo casos em Itambé, estava bem desesperada e pensava que não conseguiria dar conta por ser uma profissional iniciante, mas a diretora clínica do hospital me incentivou, dizendo que era importante passar por essa provação e que toda ajuda seria necessária para lidar com a situação, ficando ao meu lado também para sanar quaisquer dúvidas ou se caso eu precisasse de ajuda. Foi bem importante para nos nortear durante esse período. Mas a sensação durante os primeiros casos era de estar completamente no escuro, sem uma luz no fim do túnel, vivendo um dia após o outro e tentando fazer aquilo que estava ao nosso alcance, sempre atualizando-nos ao máximo com novas hipóteses, sugestões médicas, clínicas, notícias, inclusive muitas vezes falsas - o que dificultava ainda mais o trabalho. Apesar disso, conforme o tempo foi passando, a situação foi ficando mais fácil de se lidar em termos de protocolos a serem feitos, conhecendo também mais sobre a doença, sua progressão, o que fazer, o que não fazer, tudo foi ficando mais palpável até o momento em que os resultados promissores das vacinas foram sendo divulgados e com isso, um alívio, um respiro muito grande para nós da saúde, que sabíamos que seria questão de tempo até a população estar imunizada, os leitos diminuírem e tomarmos um rumo melhor. 3. Como você acha que as outras pessoas percebem o ser médica no nosso contexto (pandemia)? existem clichês? Foi bem interessante observar isso, pois no início havia a necessidade de profissionais de saúde, as pessoas tinham essa noção que apenas nós poderíamos fazer alguma diferença, colocando-nos em uma espécie de altar, mas que durou pouquíssimo tempo. Logo em seguida começamos a receber vídeos de pessoas


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pessoas batendo em médicos, enfermeiras e segurança pelo simples fato de pedirem para que usassem máscara ou solicitarem para não ficar com o acompanhante suspeito de estar com covid-19, etc. A descrença no que os médicos diziam em detrimento de correntes de whatsapp, que ninguém sabe ao certo a origem, também era algo que acontecia. Tornou-se “oito ou oitenta”. Para falar bem a verdade, em termos de Brasil, sabemos desde a faculdade que é assim, o médico sempre rotulado, seja para o “positivo” quanto para o “negativo”, então há aqueles que falam que estamos ali só para ganhar dinheiro e que não estamos nem aí para os outros, ou quando tiramos dez minutos para almoçar e ir ao banheiro, mas logo ouvimos que não queríamos atender, que ficamos só tomando cafézinho, esse tipo de coisa, como se fossemos máquinas de fazer diagnóstico. Por outro lado, em uma zona rural em que atendi, éramos vistos com muito mais gratidão, mais educação, a população respeitava mais, então existem clichês de todo o tipo. 4. Pandemia. Para você, o que mudou de antes para hoje? Acho que o principal que mudou do início da pandemia para cá foi que as pessoas se acostumaram. Penso que existe uma tendência das pessoas se acostumarem com as coisas ruins e negativas, isso vocês da psicologia podem explicar melhor, não sei se isso se enquadraria em mecanismo de defesa ou coisa do tipo mas vejo que quanto mais recorrente e longa é uma situação, mais as pessoas vão se adaptando. Antes o pessoal não queria usar máscara e hoje usa (mas com o nariz de fora). Vejo que o indivíduo continua querendo tomar as próprias decisões, não se importando com o que dizemos. Vendo por outro lado, há também isso que comentei de hoje já ser possível enxergar uma luz no fim do túnel. Com certeza foi uma diferença. O problema é que algumas pessoas acabam por utilizar justamente essa luz, essa esperança, para banalizar o vírus, achar que já acabou e que a vida pré-pandemia já pode voltar. O bom senso que a gente realmente precisava e que prezamos desde o começo, na realidade, nunca existiu. Isso é o que mais nos deixa nervosos e incrédulos, penso eu. 5. Tem vivido algum tipo de isolamento por estar na sua posição? Fale um pouco sobre isso. No começo sim, quando eu falava que trabalhava em hospital ou na área da saúde era praticamente como se um bicho, ou um extraterrestre estivesse ali presente, as pessoas achavam um absurdo eu ir no mercado por exemplo ou simplesmente andar na rua. Hoje já não tanto, não vejo mais essa discriminação pela função, inclusive, no hospital de Itambé, por ser uma cidade muito pequena, minhas colegas da enfermagem é que sofriam muito com isso, como a cidade toda se conhecia, se elas saíssem para ir no mercado, ou ir ao banco, as pessoas já assumiam que elas estavam infectadas, o que era complicado, já que na época o hospital era o lugar em que menos havia chance de se contaminar, a gente se paramentava com o triplo, o quádruplo de cuidados, enquanto as pessoas continuavam indo uma nas casas das outras, fazendo churrasco, indo no mercado para conversar, então havia uma espécie de preconceito. Apesar disso, acho que com o tempo as pessoas foram entendendo que o hospital era o lugar onde havia o maior cuidado e que probabilisticamente as chances de contaminação eram menores, mesmo estando em contato direto com diversas pessoas contaminadas. 6. Como você tem buscado lidar com a situação atual? Procurando manter coisas para estimular minha saúde mental, ter uma alimentação saudável, realizando atividade física, tendo contato com familiares e amigos próximos, etc. Estas foram as principais medidas que encontrei para enfrentar esse período, principalmente nos momentos mais críticos da pandemia. 7. Você acha que a situação atual é vivenciada na ordem de um trauma?


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Olha, para mim não, não vejo como um trauma, enxergo mais como essa diretora do hospital em que trabalhei nos orientou, como uma experiência de vida médica. Por mais que estivesse com medo e achasse que não iria dar conta, nos cabia superação. Mas com certeza dá para tirarmos muita coisa desse período de pandemia, analisar as relações das pessoas entre si, a relação das pessoas com a saúde, com os profissionais de saúde, acho que conseguimos obter muito aprendizado. E pensando nas pessoas no geral, não sei sobre trauma, certamente abalou muita gente, principalmente quem não pode trabalhar por muito tempo ou quem era de grupo de risco e precisou ou tentou ficar isolado completamente durante esse período, com certeza deve ter desenvolvido algum transtorno mental ou alguma piora com relação à ansiedade ou depressão por exemplo. Inclusive, tive uma piora da minha ansiedade, principalmente no começo, e que acabou se mantendo por um certo tempo. Agora, claro, já estou melhor, mas acredito que a depender da pessoa esse tipo de coisa possa se postergar, principalmente quando há ausência de um acompanhamento médico ou psicológico. 8. Qual o maior desafio que a quarentena te trouxe? Acho que o maior desafio foi tentar buscar informação com qualidade, informações que ajudassem e não desesperassem, tanto para mim quanto para os outros. E, mais difícil que isso, acho que fazer as pessoas entenderem que mesmo nova e recém formada eu sabia do que estava falando, estava pesquisando e trabalhando muito para entender e para passar informação de como funcionava a vacina, como eram as intervenções com medicações, sobre medidas de prevenção, acho que isso foi uma dificuldade com relação a parte médica. Agora, com relação a dificuldade pessoal foi, claro, manter a vida como ela era, sair de casa sem medo, sem preocupação, ir na academia e não ficar em pânico, ou entrar no elevador com outra pessoa, com medo de ver família ou alguns amigos próximos, apavorada com rinite por achar que era vírus, esse tipo de coisa. 9. Teve algum aprendizado com a pandemia, quais? A primeira coisa que me vem à cabeça não é nem um aprendizado, é só uma confirmação do que eu já imaginava e já sabia. As pessoas não têm educação em saúde, a população geral, que não estuda sobre isso, muitas vezes não tem noções básicas de saúde. Então, por exemplo, recebia perguntas do tipo, “depois que sarar do covid, posso parar de lavar as mãos? ”, coisas absurdas sabe? Então era bem complicado. Mas creio que o maior aprendizado que tive foi o de que, por mais que pareça que não vai ter fim, que estamos em um beco sem saída, sem muita expectativa, a gente vivendo e sobrevivendo dia após dia com nossos entendimentos, com estudo, com nossos valores, com aprendizado, sempre se moldando e mudando de ideia quando necessário, haverá um momento onde irá surgir uma luz no fim do túnel, mas é preciso ter paciência, foco e determinação. 10. Acha que o cenário político brasileiro vem interferindo na saúde? como? Sim, muito, principalmente com relação a informações que não procedem, as chamadas fake news. As pessoas pegam um texto com diversos pontos, e reduzem a um argumento para sustentar a própria opinião, então creio que desde o começo não houve muito apoio à saúde e principalmente à ciência, não buscavam-se artigos, textos científicos ou informação de qualidade para saber mais sobre vacinas, sobre medicamentos, para discernir o que era prudência e o que era negligência. Então, por exemplo, o fato de o presidente querer continuar usando um medicamento, que até foi usado no começo, mas que, conforme foi sendo estudado e o conhecimento foi sendo obtido, reconheceu-se sua ineficácia , é bem complicado. Não voltar atrás, seja por orgulho, por já ter comprado o medicamento, enfim, seja a razão que for, não se atualizar cientificamente sobre o assunto, somando-se ainda ao atraso da compra das vacinas, ao rodízio de ministros na área da saúde, são coisas que impactam e muito na vida das pessoas, geram


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geram um caos, ficamos sem um norte, pessoas adoecem, muitas vão a óbito, e tudo isso por conta desse cenário político em que vivemos, então, sim, impactou bastante. 11. Gostaria de dizer mais alguma coisa? Estamos chegando no final, é só aguentar mais um pouco, que não subestimemos o vírus por conta disso, precisamos continuar lavando a mão com água, sabão ou o álcool em gel, continuar a usar máscara e manter o isolamento social, principalmente em relação a pessoas aleatórias, sempre procurando driblar esse risco de contaminação e consequentemente de vida.


PSICOLOGIA EM FOCO: 10 ANOS ORGANIZADORES: VINICIUS ROMAGNOLLI RODRIGUES GOMES LUIZ ANTONIO LAZARIN TRENTINALHA

PARTICIPAÇÃO DE: TIAGO CORBISIER MATHEUS JAQUELINE FELTRIN VINÍCIUS R. R. GOMES RODRIGO CORREA SAMARA MEGUME VALÉRIA CODATO MARTA DALLA TORRE JOSIANE BOCCHI ALINE SANCHES CARLOS EDUARDO LOPES CAROLINA LAURENTI JOVANI ANTONIO SECCHI REGINA PEREZ CHRISTOFOLLI ABECHE PAULO VITOR NAVASCONI MARCOS CASADORE LUIZ A. L. TRENTINALHA DANIEL RIBEIRO BRANCO LEANDRO CARMO EDUARDO CHIERRITO ARIADNE SANTOS DE MEDEIROS JOSÉ VALDECI GRIGOLETO NETTO JOSÉ JACINTO MAIA NETO GEIVA CAROLINA CALSA LÍVIA BATISTA LARANHAGA GABRIELA ROMAGNOLLI RODRIGUES GOMES EMILY ALBUQUERQUE DONNY CORREIA LETÍCIA CABRAL GONÇALVES LOPES JOÃO HENRIQUE PIVA BOEIRA CHRISTIAN DUNKER MARIA RITA KEHL LANÇAMENTO ANA MARIA MERCÊS BOCK FLÁVIO RICARDO VASSOLER DANIEL KUPPERMANN MARCOS RIO TEIXEIRA LUIS MAURO MARTINO SÁ MARIA LÚCIA HOMEM VERA IACONELLI

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