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SUPLE MENTO

LITE RÁRIO

Florianópolis-SC – Dezembro/2020 – N. 155 – Edições A ILHA – Ano 40

AGUALUSA: LITERATURA EM TEMPO DE PANDEMIA

CRUZ E SOUSA

Livros Indigestos,

A Rica Literatura

Saudades de Rubem

de aniversário Catarinense

mas nem sempre

Fonseca

Urda escreve sobre o Fim de Ano:

HOJE EU ENCONTREI O NATAL

Agualusa e o escritor brasieliro Luiz C. Amorim Portal A ILHA: http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br


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FESTA MAIOR

Luiz Carlos Amorim – Florianópolis, sC

O tempo corre, célere, e a vida aposta corrida com ele. Feito um relógio, a vida se refaz. Vai-se o inverno, vem a primavera e, arauto do tempo, floresce o jacatirão, o pincel da natureza pintando a tela do mundo, anunciando o verão, anunciando o Natal. Natal, essa época mágica de desembrulhar esperanças, dar muito amor de presente, desempacotar paz e fé e engavetar a saudade. Festa de aniversário do Senhor da grande tela da cor do jacatirão, enfeite maior do Natal. Já está disponível, na Amazon, o ebook do livro HISTÓRIAS DE NATAL, de Luiz Carlos Amorim. Para adquirir o livro sobre a data maior da cristandade, clique no linke: https://amz.run/43pk

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SUPLE MENTO

LITE RÁRIO

EDITORIAL LITERATURA EM TEMPO DE PANDEMIA

A pandemia ainda está aí e ficou durante todo o fatídico ano de 2020. Esperemos que as vacinas que estão sendo desenvolvidas sejam eficazes e seguras para que possamos nos imunizar no início do próximo ano. Mesmo com o flagelo e até por causa dele, estamos lendo mais, pois temos muito mais tempo, agora que precisamos evitar sair de casa, se não for estritamente necessário, que precisamos evitar aglomeração, que temos que ter cuidados. E o escritor também aproveita para produzir mais, então nosso trabalho de publicar a revista SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA não pode parar, pois estamos escrevendo mais e estamos lendo mais. De maneira que aqui está a edição de número 155 da revista do Grupo Literário A ILHA, a mais perene do gênero. Matérias especiais sobre cultura, arte, literatura e leitura, um time de primeira de escritores brasileiros e portugueses, muita prosa e muita poesia e mais informação literária e cultural. Leia, comente, sugira, participe. Contate-nos. Nosso email é revisaolca@ gmail.com e ficamos muito felizes sempre que recebemos mensagens de nossos leitores. Esperemos que gostem de mais esta edição. Digam-nos se gostaram e se não gostaram e porquê. Queremos fazer uma revista que seja boa para todos os leitores. O editor

Visite o Portal PROSA, POESIA & CIA. do Grupo Literário A ILHA, na Internet, http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br 3


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OBRAS RARAS DA LITERATURA CATARINENSE Três obras primordiais da his tór ia literária de Santa Catarina foram lançadas pela Editora Unisul, as primeiras da inédita Coleção Autores Catarinenses, em 2016. Embora simples, as ediç ões contemplam títulos de difícil acesso ou raros, como Assembleia das Aves, de Marcelino Dutra (1809-1869), o primeiro da série. O livro é considerado inaugural da literatura do Estado, publicado em 1847. Os contos Mares e Campos - Quadros da Vida Rústica Catarinense (1895), de Virgílio Várzea; e Arcaz de um Barriga-Verde (1930), de José Boiteux, completam o trio. Desde “A Literatura dos Catarinenses”, de Celestino Sachet,

lançado em 2012, a editora vem buscando a valorização histórica. A obra do estudioso é um painel completo e fundamental da produção fic cional catarinense em poesia, prosa e teatro, com títulos catalogados desde 1847. É ele quem assina a seleção de autores para a nova coleção. - Tr a t a - s e d e uma revisão histórica. Os três primeiros têm importância para a memória de seu tempo - explica Sachet. Assembleia das Aves, por exemplo, apresenta em versos

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o c o n t ex t o p o lí tico catarinense na época e a simbiose entre o embates ideológicos do século 19 e a cultura literária. É dividida em quatro cantos, cada um com 33 estrofes de quatro versos. - Segue o modelo que já havia na história na época, como Os Lusíadas (1572), de Camões. Representa um espaço que estava se abrindo. Antes de Dutra se escrevia, mas não se publicava. É pequeno e modesto, mas é o primeiro texto em livro - complementa. V i r gíl i o Vá r ze a (18 6 3 -19 41) é o


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segundo autor da coleção. É reco nhecido como o introdutor do marinhismo na literatura brasileira e por ter deixado obras com informações valiosas sobre o passado da Ilha de Santa Catarina. Em Mares e Campos, ele narra em contos o cenário, os costumes e os tipos humanos da região de Canasvieiras, em Florianópolis. - Várzea abre outra página na literatura catarinense, o chamado realismo, que procura captar a realidade da passagem do século por meio da ficção - diz Sachet. Arcaz de um Barriga-Verde, o terceiro da coleção, segue a mesma fórmula de ficção histórica de Dutra e Várzea. Os nove contos descrevem ações de personagens ilustres

que passaram pelo começando pela liteEstado entre 1760 e ratura - diz o diretor 1887. da Editora Unisul. Os outros lançaLIVROS mentos:

DISTRIBUÍDOS EM BIBLIOTECAS

Foram lançadas mais sete obras da coleção, totalizando

20 títulos - 13 dos quais bancados com ajuda de cerca de R$ 100 mil do Governo do Estado. São gratuitos e distribuídos para bibliotecas públicas, escolas e universidades. - O objetivo é a valorização da cultura de Santa Catarina,

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- João Silveira de Souza (1824-1906): Minhas Can ç ões, de 1849 - Luiz Delfino (18341 9 0 1) : A l g a s e Musgos, de 1927) - Duarte Paranhos Schutel (1837-1901): A Massambu, de 1860) - José Cândido Lacerda Coutinho (1841-1900): Quem Desdenha Quer Comprar, de 1868 - Delminda Silveira (1854-1932): Cancioneiro, de 1914 - João da Cruz e Sousa (1861-1898): Broquéis, de 1893 - Juvêncio de Araújo Figueiredo (18641927): Praias da Minha Terra, de 1960 - Ildefonso Juvenal da Silva (1894-1965): Contos de Natal, de 1939


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A SAGA DE UM CENÁCULO E SEU IDEALIZADOR Enéas Athanázio

Muitos cenáculos têm existido, no Brasil e no Exterior, com maior ou menor expressão cultural ou literária. Historiadores da literatura e enciclopedistas registram a presença dessas agremiações, algumas delas publicando jornais ou revistas com idêntico nome e repercussão variável. Entre os cenáculos nacionais, ocorre-me aquele a que pertenceu Monteiro Lobato, no início do século passado, designado por alguns como Cenáculo da Paulicéia, e que tinha sua sede no célebre chalé do Belenzinho que passou à história como Minarete. Dele

faziam parte o próprio Lobato, Godofredo Rangel, Ricardo Gonçalves e José Antônio Nogueira, para referir apenas os que produziram obras de maior importância. Aqui em nosso Estado existe uma dessas entidades que já conta com 40 anos de incessante atividade e sobre a qual sinto-me devedor de um merecido comentário. Refiro-me ao “Grupo Literário A Ilha”, idealizado por Luiz Carlos Amorim e fundado em 1980 na cidade histórica de São Francisco do Sul. Embora batizado como literário,

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na verdade o grupo extrapolou seu próprio nome, tornando-se um agitador cultural com intervenção em vários campos da cultura. Depois de anos de atividade naquela cidade, transferiu a sede para Joinville e, por fim, para Florianópolis, de sorte que nasceu numa ilha e hoje está aninhado em outra. O BERÇO

Morador de São Francisco do Sul, na época, Amorim se inquietava com a ausência de companheiros com quem discutir e partilhar seu gosto pela literatura em geral e pela poesia em particular. Depois de muito pensar no assunto, saiu a campo para conquistar companheiros que o ajudassem a realizar o sonho. Não tardou a encontrar uns poucos devotos das letras e com eles iniciou a agremiação que já dura perto de meio século. Suas discretas reuniões, mal notadas


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no início, tinham lugar num vetusto casarão à beira da Baía da Babitonga, em pracinha arborizada e de bela vista panorâmica. A iniciativa encontrou ambiente propício na velha cidade de raízes plantadas em tempos longínquos e ricos em acontecimentos históricos, alguns inusitados. Entre estes, merece lembrança especial a visita do capitão francês Binot Paulmier de Gonneville, há mais de quinhentos anos, a bordo do navio “L’Espoir”, em 1504. Aportando na ilha e convivendo com os habitantes da estranha terra, o navegador francês decidiu regressar à França, depois de reabastecido e concluídos os consertos necessários em sua embarcação. Levou como convidados um dos filhos do rei Arosca, o jovem Içá-Mirim, que os franceses registraram como Essomericq, e o índio Namoa, mais

idoso, com a formal promessa de trazê-los de volta. Namoa faleceu em viagem e Essomericq, muito doente, foi batizado como Binot, tendo Gonneville como padrinho. Em terras francesas, o índio carijó se adaptou muito bem, casou e teve quatorze filhos, e até

recebeu uma patente, parte dos bens e o nome de Gonneville, seu fiel protetor. Foi considerado príncipe e convidado do governo francês, tendo falecido com mais de noventa anos. A viagem de retorno jamais aconteceu. Considerando-se a data da abordagem 7

francesa como a de sua fundação, São Francisco do Sul é das mais antigas cidades do país, embora seja um fato considerado discutível pelos historiadores. Mas a cidade onde surgiu o grupo A ILHA tem muito mais em seu passado que o curioso episódio. Cumpre lembrar ainda o Falanstério do Saí, na atual Vila da Glória, situada nos domínios municipais. Em 1842, o médico francês Benoit Jules Mure, inspirado nas doutrinas de Fourier, tentou ali uma experiência socialista, dando início ao falanstério, habitação coletiva que propiciaria aos moradores a justiça social sonhada pelos utopistas. Depois de marchas e contra-marchas, lutas, desentendimentos e perseguições, tal como aconteceu com a Colônia Cecília, no vizinho Estado do Paraná, a experiência fracassou. Foi


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a única tentativa de criar um falanstério no Brasil e deixou marcas imorredouras, sendo o local até hoje objeto da curiosidade dos pesquisadores e turistas. É interessante também o caso do Canal do Linguado. Em 1934 foi aterrado o canal em sua totalidade para a passagem da ferrovia, uma vez que o fechamento parcial apresentava problemas. Se é verdade que a estrada de ferro trouxe benefícios, também é certo que a obra gerou problemas em diversas áreas que inquietam os francisquenses e de difícil ou impossível solução, com graves conse-

quências. Mas, como assinalam historiadores, é um dos raros casos em que uma ilha de grande porte se transformou em península por obra humana. Até hoje a questão do Linguado é objeto de infindáveis discussões. A mais antiga aglom eraç ão humana catarinense tem entre seus filhos muitos intelectuais, historiadores e artistas, além de preservar um valioso conjunto arquitetônico e tradições culturais. É servida por importante porto de mar. A arquitetura, os prédios ilustres, os sambaquis, as artes, a vida social, as praias, a paisagem e o agradável

São Francisco do Sul, berço do Grupo Literário A ILHA

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ambiente urbano são outros tantos aspectos a considerar. Nesse meio, agitando o mundo das letras, apareceu o grupo Literário A ILHA, fadado a durar. O IDEALIZADOR

Luiz Carlos Amorim nasceu na cidade de Corupá (SC). Formou-se pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Joinville. Desde cedo revelou inclinação para as letras e a escrita, rabiscando textos que publicava primeiro em jornal da sua cidade e logo depois, ainda adolescente, em revista bastante popular no sul do Brasil, da qual ganhou prêmio em dinheiro em um concurso de contos, e em jornais de cidades vizinhas. Aos doze anos, recebeu troféu em concurso de redação de nível nacional. E mais tarde passou a colaborar em jornais como os Diários Associados, A Notícia e


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A antiga ponte giratória sobre o canal do Linguado.

Jornal de Santa Catarina. Alguns temas se tornaram recorrentes em suas cogitações, como a sobrevivência do livro, sua produção e divulgação, formas de levá-lo ao público através de feiras, lançamentos e outros meios, o permanente encantamento com certos aspectos da natureza, como a paisagem, o verde e as flores, facetas indicadoras do poeta que existe nele. Tornou-se incansável batalhador da causa do livro. Publicou até agora 33 livros nos gêneros conto, crônica, poesia e artigos. Ei-los: “Velhas Histórias Jovens” (contos), “Pedaços” (contos), “Canção de Amor” (contos), “Vida, Vida” (c o n t o s), “ M i n h a

Poesia Menina” (poemas), “Uma Questão de Amor” (poesia), “Canção da Esperança” e “Canção da Esperança II” (poesia), “A Cor do Sol” (poesia), “The Poet” (poesia publicada nos Estados Unidos), “The Color of the Sun” (versão americana de “A Cor do Sol”), “El Color Del Sol” (versão em espanhol publicada na Espanha), “Meu Pé de Jacatirão” (poemas), “Flecha Dourada” (literatura infantil), “Emoção não tem Idioma” (edição trilingüe de “A Cor do Sol”), “Livro, Leitores e Escritores” (crônicas), “Livro: a Perenidade da Palavra” (crônicas), “Saudades de Q uint ana” (c r ô ni cas), “Nação Poesia” (antologia poética), “A 9

Luz de seus Olhos” (contos), “Livro de Natal” (contos, crônicas e poemas de Natal),“A Nova Literatura Catrainense” – Biobibliografia e antologia de autores catarinenses, “A Primavera sempre volta” (crônicas), “Borboletas nos Jacatirões” (crônicas), “Aphrodite e as Cerejeiras Japonesas” – crônicas, Ponto de Cultura Editora-SP; “Terra - Planeta em Extinção” – crônicas, Coleção Letra Viva, Edições A ILHA, “Cocô de Passarinho” – crônicas, Edições A ILHA, O Rio da Minha Cidade – Mensão Honrosa nos Pr}emios Literários Cidade de Manaus, crônicas, Edições A


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ILHA, “A Cor do Sol II” – Antologia Poética em cinco idiomas. “Histórias de Natal” – contos, 2ª. Edição, Editora Dialogar/Edições A ILHA, “Portugal, Minha Saudade” – crônicas – Editora Dialogar/Edições A ILHA. “Prosa de Amigos” – contos e crônicas, com Mary Bastian – Edições A ILHA, Editora Dialogar, “O Vale das Águas” – crônicas do paraíso de água doce, Edições A ilha/Dialogar. Tem nova obra no prelo, o seu diário da pandemia, que deverá sair no próximo ano, 2021. Apesar de seu gosto pela poesia, a prosa acabou predominando em sua obra

publicada. Como participante de antologias e coletâneas, trabalhos de Amorim apareceram nas seguintes publicações, entre outras: “Escritores do Brasil” (RJ), “Selected Writings” (EUA), “Poesia, Lucidez e Fantasia” (Blumenau-SC), “Poetas Brasileiros de Hoje” (SP), “Um Toque de Poesia” (Joinville-SC), “Poesia Sertaneja” (Florianópolis-SC), “Poetas da Praça” e “Poetas da Praça II” (Joinville-SC), “Mar, Poema e Imagem” (Florianópolis-SC), “Antologia da Nova Poesia Brasileira” (RJ), “Poesia Viva” (Joinville-SC), “Feira de Contos” (Joinville-SC), “Poetas da Cidade” (Joinville-SC), “A Nova Poesia do Norte Catarinense” (J o inv ill e - SC), “A Poesia Catarinense do Século XX” (São Paulo), “Fim de Noite” (Joinville-SC), “Antologia do Postal Clube” (RJ, números 6 e 7), 10

“Poesia do Mar” (Joinville, SC), “Varal da Poesia”, volumes de I a IV, Genebra, Suiça, além de poemas traduzidos e publicados em antologias da Espanha e Inglaterra. Em periódicos, tem trabalhos publicados na Índia, Rússia, Grécia, Estados Unidos, Espanha, Portugal, Cuba, Argentina, Uruguai, Inglaterra e Itália. Trabalhos de sua autoria foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, espanhol, grego, russo e bengalês. Colabora, também, c om regularidade em jornais e revistas, nacionais e estran-


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diversos escritores.

geiros, inclusive com colunas fixas. É colaborador de diversos portais de cultura e literatura. Os mais importantes periódicos catarinenses publicam ou publicaram seus escritos. Inquieto e persistente, está sempre alargando o leque de suas publicações, mantendo inclusive extenso intercâmbio com escritores do Brasil e do Exterior. Sua dedicação e seu talento têm provocado manifestações de expressivos nomes de críticos. Entre eles, citam-se Antônio Carlos Villaça, Luiz F. Rufato, Celestino Sachet, Lauro Junkes, Teresinka Pereira e

FUNDADORES E PARTICIPANTES Nos albores de suas atividades, o grupo contou com a decidida contribuição de alguns escritores e poetas cujos nomes merecem ser evocados. Antônio Laércio Brunato, já falecido, e contistas, cronistas e poetas de São Francisco do Sul ou que lá se encontravam; Jurandir Schmidt, Ronaldo Correa, Hilton Gorresen, Else Sant’Ana Brun, Margarete P. da Silva, todos escritores de Joinville, sendo o primeiro também artista plástico e autor da capa do número inicial do suplemento. Com o tempo, outros autores foram se aproximando e se tornaram colaboradores. Foram os casos de Edltraud Zimmermann Fonseca e o meu próprio, que passamos a colaborar a partir da terceira edição. Teresinka Pereira, 11

brasileira radicada nos Estados Unidos, começou a colaborar na quarta edição; Zoraida H. Guimarães e João Chiarini a partir da sexta. Maura de Senna Pereira, falecida, Celestino Sachet e Urda Alice Klueger aderiram antes da décima edição. Muitos e muitos outros ajudaram a rechear as páginas do suplemento. Acredito que poucos autores catarinenses, em prosa e verso, estejam ausentes daquelas páginas. Inúmeros autores, de todos os recantos do país, também vêm colaborando. Com as transferências da sede


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para Joinville e depois para Florianópolis houve grande mutação e aumento na lista de colaboradores. ATIVIDADES E REALIZAÇVÕES A principal realização do grupo foi a criação e manutenção do Suplemento Literário A Ilha, órgão porta-voz da agremiação, e que conta hoje com mais de 150 números publicados, fato inédito na história literária do Estado e, acredito, de muitos outros. Desde que me lembro, foi o único a circular sem interrupção desde seu lançamento em reunião histórica no vetusto casarão da Babitonga. O Suplemento mantém um portal lítero-cultural na Internet: Prosa, Poesia & Cia. – (http://www. prosapoesiaecia.xpg. com.br). A par disso, as Edições A Ilha foram semeando livros individuais e obras coletivas, contando hoje com

mais de cem títulos publicados. Entre os primeiros, mencionem-se “Velhas Histórias Jovens”, “Pedaços”, “Canção de Amor”, “Minha Poesia Menina” e “Canção d a E s p e r a n ç a ”, todos de Luiz Carlos Amorim; “Falando aos Corações”, de Ema Pidner; “Caminhantes de Minha Rua”, de Mariana; “Sempre Contigo”, de Rosana Teodoro; “Um Toque de Poesia”, coletânea de poemas de todos os integrantes; “Poetas da Praça”, “Poesia do Mar”, outras antologias. E assim prosseguiram, em sucessivos lançamentos, as edições que tornaram A Ilha um selo conhecido em todo o Estado e até fora dele. 12

Outras atividades aconteceram, sem descurar das constantes reuniões do grupo com o intuito de mantê-lo coeso. Nessas ocasiões buscavam fórmulas de divulgação da literatura e do livro para além das tradicionais, diferentes e inovadoras. Colocando a imaginação a funcionar, buscaram meios e modos de levar o livro ao povo, exibi-lo em público, mostrá-lo nas ruas. Passaram a exibir Varais de Poesia e Recitais de Poemas em feiras de arte, escolas, festas, bancos, lojas e locais de aglomeração humana. O grupo promoveu incontáveis lançamentos de livros, com sessões de autógrafos, nos mais


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variados lugares, tanto de edições próprias como alheias. Assim aconteceu, por exemplo, em São Francisco do Sul, Joinville, Jaraguá do Sul, Itajaí, Corupá, Guaramirim, Brusque, Blumenau, etc. e até em Cuba e nos Estados Unidos. Em novembro de 1981, comemorou o Dia do Escritor Francisquense, reunindo autores daquela cidade, Joinville e Florianópolis, ocasião em que foi instalada a delegacia da Associação Catarinense de Escritores (ACES), entidade hoje extinta.

Em outra ocasião, promoveu em Joinville a Noite dos Escritores Catarinenses, com grande público, quando estiveram presentes escritores da região, além de Abel B. Pereira, de Florianópolis, Urda Alice Klueger, de Blumenau, e eu próprio. Assim, com empenho e trabalho, o grupo mostrava ao público a que viera e prestava contas de suas atividades. Tive ocasião de participar de lançamentos coletivos por ele promovidos em São Francisco do Sul, ainda no velho prédio da

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Babitonga, depois na Casa de Cultura e no Museu de Arte, ambos de Joinville, sempre com boa presença de público e cobertura da imprensa. Muitos lançamentos aconteceram em aberturas de exposições de artes, durante seminários, encontros e outros eventos de natureza artística e cultural. Sempre sob a coordenação de Amorim, o grupo foi pioneiro na instituição do Projeto Poesia no Shopping, exibindo Varais de Poesia em todos os shoppings do Estado.


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pósitos. Evidencia-se também a liderança de seu idealizador e sua capacidade de manter unido um grupo de escritores e poetas livres e independentes, cada qual pensando a seu modo, mas tendo Evento Literário em Joinville, nos anos 80, com a presença do um ideal comum – a Dr.Enéas difusão da cultura atraCriou também o Pro- vés de seu principal jeto Poesia na Rua, portador, o livro. exibindo poemas ou trechos deles em O ESCRITOR grandes out-doors Mesmo com as atriespalhados pelas cida- buições de coordenar des, espaços nunca e organizar, além das antes preenchidos atividades de ordem pela poesia e provo- profissional, Amorim cando intenso efeito. escreve com método Levou adiante ainda e disciplina e produz os projetos Poesia bastante. Como dizia Carimbada, Pacote Gilberto Amado, é de Poesia, Poesia na mais um escritor brasiEscola e O Som da leiro que rouba tempo Poesia. de si mesmo para Deste resumo, onde escrever. as omissões são É contista, cronista, inevitáveis, transpa- articulista cultural e rece a persistência do grupo e sua dedicação às letras e à cultura. No correr de 40 anos, afrontando dificuldades, nunca esmoreceu e nem desistiu de seus pro14

poeta. Como contista, tem imaginação e criatividade, produzindo histórias que agradam e prendem. Sua linguagem é simples, direta e limpa. Expressa com segurança as ideias e transmite bem o pensamento. Como cronista, está sempre atento, com as antenas ligadas e prontas a captar os assuntos cronicáveis, transformando-os em agradáveis peças literárias. É numerosa sua produção no gênero. O articulista está sempre preocupado com os temas relacionados à cultura, aos problemas do livro, à vida dos escritores em geral e dos catarinenses de forma especial. É incansável divulgador de eventos da área


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e frequentador assíduo de todos eles. Parece ubíquo, tantos são os locais onde aparece. Também está informado de tudo que ocorre no Estado, cujo mapa literário e cultural tem impresso na memória. E o poeta é aberto, livre, sem preocupações angustiantes e linguagem empolada. Desdobra as sensações de forma direta, sem zigue-zagues, ressumando sentimentos autênticos e puros. E assim atinge o leitor de poesia naquilo que ele tem de mais sensível – o sentimento. Concluindo estas notas, que já vão longas, diria que Luiz Carlos Amorim é um exemplo de homem comprometido com as letras e a cultura,

fiel ao pacto com elas celebrado de longa data. Tivéssemos muitos deles, as coisas seriam diferentes. E nem por tudo isso assume poses ou posturas, conservando o jeitão modesto e simples de sempre, desde quando o conheci. Fontes: “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, Editora Globo, 12ª. ed., 1971. “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, Rio de Janeiro, MEC, 2 vols., 1990. “Dicionário Literário Brasileiro”, Raimundo de Menezes, S. Paulo/Rio, LTC Editora, 2ª. ed., 1978. “Monteiro Lobato – Vida e Obra”, Edgard Cavalheiro, S. Paulo, Editora Brasiliense, 3ª. ed., s/d. 15

“São Francisco do Sul – Muito além da viagem de Gonneville”, Sílvio Coelho dos Santos et alii, Florianópolis, Edufsc, 2004. “A Literatura Catar inens e”, Celes tin o Sachet, Florianópolis, Editora Lunardelli. 1985. Obras de Luiz Carlos Amoim. Colvtveção do “Suplemento Literário A Ilha.” B. Camboriú, 29 de julho de 2007. Matéria extraída do volume 2 da coleção LIVRO SOBRE LIVROS. do escritor Enéas Athanázio. São 14 páginas do livro, contando a história do Grupo Literário A ILHA e de seu idealizador.


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SUPREMO VERBO

INFERNO

Margareth Luchini – Jaraguá do Sul, SC


Cruz e Sousa

O inferno é aqui Ou é uma miragem E todos estão juntos, Cada um por si.

- Vai, Peregrino do caminho santo, faz da tu’alma lâmpada do cego, iluminando, pego sobre pego, as invisíveis amplidões do Pranto.

O inferno é a vida E não é tão difícil Achar uma saída.

Ei-lo, do Amor o cálix sacrossanto! Bebe-o, feliz, nas tuas mãos o entrego... És o filho leal, que eu não renego, que defendo nas dobras do meu manto.

Quando o amor pega fogo, Tudo vira um jogo E o mundo é o tabuleiro. A aparência É que está no fundo do poço.

Assim ao Poeta a Natureza fala! enquanto ele estremece ao escutá-la, transfigurado de emoção, sorrindo...

O inferno é aqui E o paraíso é lenda. Para os que conseguem Fazer seu paraíso, Montar o quebra-cabeça, O amanhã é agora. Não se pode perder a hora. Aproveite esse golpe de sorte Pois estão todos juntos No mesmo caminho, Cada um por si. Não há porque mentir.

Sorrindo a céus que vão se desvendando, a mundos que se vão multiplicando, a portas de ouro que se vão abrindo!

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O ANIVERSÁRIO DE CRUZ E SOUSA EM SC Por Luiz Carlos Amorim

– Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 40 anos de trajetória. Cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim. blogspot.com.br – http:// w w w.prosapoesiaecia. xpg.com.br



Mais um aniversário do poeta maior de Santa Catarina, Cruz e Sousa: ele teria completado, no dia 24 de novembro, 159 anos e a programação comemorativa da capital catarinense se resume à solenidade de entrega da Medalha Cruz e Sousa a alguns personagens c at arinens es que atuam na área da cultura e da arte de Santa Catarina. Cruz e Sousa é um

nome nacional, o principal ícone da literatura catarinense e brasileira, o maior representante do simbolismo, um dos maiores poetas do país. E o seu aniversário de nascimento passa quase em branco, na sua cidade natal. O “Memorial”, construído em sua h o m e na g e m, n o s jardins do Palácio Cruz e Sousa, inaugurado em 2010, mas nunca usado, está apodrecendo no tempo, abandonado, e ninguém move uma palha para restaurá-

-lo, torná-lo visitável, usável. Que Estado é esse, que não dá o mínimo valor à cultura, que não se preocupa em resgatar seus maiores valores? Nenhuma homenagem que fosse feita, nenhuma comemoração poderia ter lugar no Memorial que foi feito para celebrá-lo, pois ele ficou entregue ao tempo, sem nunca ser usado, nem com eventos culturais, nem para visitação, finali dades primeiras do lugar, só deteriorando sem nenhuma

Busto e poema de Cruz e Sousa na porta de vidro do “Memorial”, única coisa que ainda está inteira.

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Mural de Cruz e Sousa no centro de Floiranópolis, felizmente uma homenagem fixa e constante.

manutenção. Várias promessas já foram feitas, por sucessivas “administrações” da Fundação Catarinense de Cultura e da Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo, mas nenhuma obra sequer foi iniciada. Anos se vão e novos

anos se iniciam, sempre com promessas, mas nunca nenhuma foi cumprida. A morada do grande íc one do Simb olis m o virou depósito de móveis velhos, caindo aos pedaços. Nem a promessa da

“reutilização dos jardins do Palácio Cruz e Sousa, que previa a disponibilização do Memorial, por meio de uma taxa cobrada pela FCC, para apresentações artísticas, casamentos, lançamentos e eventos de negócios”, por exemplo, foi cumprida. Pretendiam transformar o Memorial em salão de aluguel. Mas nem isso se fez. Isso é honrar a memória do grande Cruz e Sousa? Que catarinenses somos nós que não sabemos honrar o maior nome da cultura catarinense, quiçá do Brasil?

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Teus lábios, agora trêmulos, Firmar-se-ão num sorriso De felicidade e paz. GIRASSÓIS Pois sentirás em teu coração Sólon Schil Toda a força do criador. E caminharás só, Trouxe-te luz Rindo e gritando de Para iluminar as trevas contentamento. Em que vives. Depois que estiveres saciada Batendo em meu peito Da tua sede de liberdade; A chave para abrir os grilhões Depois que tiveres aspirado Que te aprisionam a um passado O perfume de todas as flores; Não muito distante. Depois que tiveres bebido Viveste tanto tempo nesse poço De todos os regatos e saíres do escuro transe Que teus olhos se umedecem Que o céu, o mar, os pássaros, À aproximação da claridade. Que toda a natureza te colocar, Libertei-te as mãos Se ainda te recordares de mim Mas desaprendeste de usá-las E não estiveres tão distante No gesto carinhoso Que não possas encontrar De um simples afago. O caminho de volta Tuas lágrimas de desespero, E acima de tudo, Creio, ao longo dos anos, Estiveres pronta para o amor, Acumularam-se aos teus pés, Lembra-te Enferrujando as correntes Que estarei esperando por ti, Que os prendem. Bem ali, embaixo daquela Mas, também delas, amendoeira, Te sentirás liberta. Aquela no meio dos girassóis… Tomarei tuas mãos E reaprenderás a andar, correr… Secarei teus olhos e deixarás Que a chuva molhe teu rosto, Correndo por seus seios, por teu ventre, E o vento, assoviando canções de amor, Embalará teus sonhos. 19


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MISÉRIA E GRANDEZA DA POESIA Júlio de Queiroz

Po r q u e, n e s t e s tempos da avassaladora onda da mensagem áudio-visualizada, ainda se escrevem poemas? Que se escrevam romances e contos é compreensível. São instigantes. Afinal de contas, um contista e um romancista satisfazem a fome de uma bisbilhotice que lateja em quase todo mundo. O romancista debruça-se na cerca de nosso jardim mental e nos relata como uma mocinha, a Manon Lescaut – lembra-se dela? – saiu fazendo tolices, estragou sua vida por causa de amores destrambelhados. “ Não me c onte!

Quero dizer, conte mais, conte tudo!” E quando a gente se autocongratula por não ser parente da Manon, o romancista envereda por nossos deleites: “E tem também a Ana Karenina, a filha do Tolstoi, você não soube?” E, com detalhes, tomamos conhecimento da desgraça que caiu sobre uma família por causa de um oficial bonitão. E como foi bem relatada! O contista é um bisbilhoteiro conciso, preciso, que com pinceladas rápidas – afinal de contas, as panelas com o almoço estão no fogo – desvenda tudo que os vizinhos de nossa aldeia global estão aprontando. O poeta não tem esta habilidade e é totalmente inútil para estas conversas tão apetitosas. O poeta vem, sem fôlego e extasiado, nos anun20

cia que achou uma es t rela b r ilha nte, multicolorida, que o deixou entrever a eternidade. - Quer ver? – pergunta-nos. - Sim. – respondemos, entusiasmados. Então ele nos leva a um caco de garrafa num canto de quintal na qual o sol está reverberando. O poeta e sua arte são realmente inúteis! É essa a miséria da poesia. Está bem que na Grécia, na Idade Média, o vate e o menestrel saíssem de cidade em cidade contando as novidades em forma de versos. Mas, pelo amor de Deus, agora temos jornais todos os dias, televisão a qualquer hora. Poetas, pra quê? Cer ta vez, numa Berlim outonal, cinzenta e fria, um fiscal d o M inistéri o da Fazendo do Brasil em curta temporada de aperfeiçoamento


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profissional, parou no meio de nosso grupo de brasileiros e dirigindo-se a uma pesada matrona a l e m ã t r a n s p o rtando em nossa direção seus quase cem quilos, abriu os braços e lhe declamou: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá! As aves que aqui “nem existem”, não gorjeiam como lá!”. O Brasil amado marejou nossos olhos. A senhora pesada não entendeu a língua, mas percebeu a emoção, soube que ouvia poesia. Sorriu-nos. O poeta-autor, nem mencionado, voltou a viver conosco. Quando a Inglaterra dominou cruelmente a Irlanda, tentou de tudo, desde o desdém social até as “leis penais”, proibidoras do emprego da língua nativa, o gaélico; o uso do verde, a cor nacional, em

qualquer item de vestimentas; o recitar poemas e o cantar canções num povo cujo símbolo nacional é uma harpa. Com a astúcia do patriotismo autêntico, os irlandeses, tidos na Inglaterra por obtusos, ignoraram as determinações dos invasores – o detestado “sassenagh” – e criaram belíssimos poemas cantáveis, exaltando a beleza da terra, o amor à pátria e a teimosia dos “coileens”, as belas meninas ruivas. Hoje, a Irlanda é uma república independente, crescendo a sete por cento do Pib anual, e a Inglaterra, bem a Inglaterra do Sr. Blair é a menina de recados de um vaqueiro dono de poços de petróleo. Quando Roger de Lisle sentiu as vascas da Revolução nas entranhas de seu povo, escre21

veu um ´poema que nenhum purista de sua época aprovaria. Mas foi cantando a “Marselhesa” que, inflamado, o povo de Paris iniciou a derrubada das monarquias. Quando a Alemanha se debatia, estilhaçada em centenas de pequeninos feudos, numa ilha gélida no norte do que ainda não era um país, Hoffmann von Fallersieben, um poeta que a elite poética desprezava, tomado de ardor patriótico escreveu o “Alemanha acima de tudo”. A despeito dos nobres e dos bispos governantes, o povo alemão vibrou com a letra que traduzia o sentimento que, mudo, lhe corroía as entranhas. É hoje o hino de uma Alemanha forte, culta e unificada. A Varsoviana era uma musiquinha de rua, com uma letrinha medíocre, segundo


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os parâmetros acadêmicos russos, mas falava do valor da liberdade. Foi com Warsowianka na boca que o povo russo ameaçou as defesas czaristas. Quando o Aurora, um encouraçado enviado para repelir a multidão revoltada de trabalhadores de São Petersburgo, atracou no porto, viu s eus mar inheiros repetirem a canção desde seu tombadilho, abandonarem os canhões e juntarem-se à multidão faminta de dignidade. Um n ovo mun d o estava sendo proposto. O poeta, nunca o preferido das mães de moças casadoiras, é o intérprete da alma de seu povo. Tanto mais p ermanente serão seus sonhamentos em palavras, quanto mais ele refletir essa alma. Essa sua urgência de ser intérprete da beleza mal-entrevistada; de

sonhos e de alegrias comuns por meio da concretude das palavras o obriga a dar-lhes novos sentidos, ora usando oximoros, hipérboles e figuras verbais extrapoladas. Só não pode deixar de se expressar na fala de seu povo. Pois são suas tristez a s e a l e gr ia s individuais que dirão a todos o que todos sentem sem saber proclamá-lo. O poeta autêntico não desfigura palavras; não se esconde em torres de marfim. Acima de tudo, não enquadra sua poética nas fórmulas aprovadas em laboratórios ou cativas de grupinhos auto-eleitos. Assim, puristas e avançadinhos, deixem o poeta cantar sua canção no ritmo e na melodia que ele sabe. É seu povo que o julgará , não es s es pseudo regulado 22

res que têm para a poesia a mesma importância que as moscas para o pudim. Sem a variedade da expressão poética, não há individualidade numa língua; sem língua não há povo; sem povo não há pátria. Sem pátria e sem língua próprias não há homens livres. Nos momentos decisivos de um povo, nem ele recita contos nem se aprofunda em romances. É em poemas que ele proclama o então essencial. O poema que o povo aprovar ficará. O que ficar será guardado e repetido, mesmo que o nome de seu autor caia no olvido. O poema, incorporado à cultura, matará a fome comum de beleza que é, ao mesmo tempo, o aguilhão e a plenitude do ser humano. É esta a grandeza da poesia.


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Por dias e horas determinados, claro, só determinados por ele. Ele canta com todo o vigor Michele Stringhini Enquanto que a fêmea cuida dos – Cambará, PR ovos. Como é lindo o canto de um Há dias tenho notado a visita de pássaro. um bichinho. Faz refletir que a vida tem sua Ele pousa na grade da janela. beleza. Ele pousa nas grades da Que a vida pede o cantar de garagem. mais uma linda canção. Ele até entrou em casa curioso. Que há esperança... Voando sem saber por onde sair. E a força do seu canto Dias depois... impressiona e faz pensar assim. Notou-se sua presença por mais És tão pequeno e com tanta tempo. impostação! Num local mais constante do Não mede fôlego para cantar e que outros. encantar quem ouve sua canção. Fazendo “guarda” para a fêmea Remetendo-nos que as coisas que choca os ovos. simples da vida Escondido o ninho na garagem. São as mais perfeitas e nutridas de verdadeira felicidade. Agora ele e sua família são os novos moradores. Apenas viva o hoje, viva o agora Ele canta por mais de meia hora. com qualidade.

O CANTO DE UM VISITANTE

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PROCURA-SE UM REI MAGO Harry Wiese – Ibirama, SC

Quando saí de um supermercado de Ibirama, alguns dias antes do Natal de 2008, fui abordado por um homem. Era um andarilho maltrajado e de aparência estranha. Ele pediu-me um real, justificando que precisava ir a Presidente Getúlio. Lá, disse-me, vai acontecer uma grande festa de Natal, com pessoas importantes e que ele não poderia perder tão grande evento. Seu semblante, que até então estava enrugado, sujo e transfigurado, começou a modificar-se através de um leve sorriso. Enquanto eu manipulava minha

carteira para achar o dinheiro, ele disse: ─ No ano passado tinha até bolo! Preciso voltar para lá! Como eu não encontrei a nota solicitada, dei-lhe duas moedas de um real. Quando ele saiu andando feliz como um menino no dia de seu aniversário, ou no dia de Natal, tive a impressão de tê-lo visto já em algum lugar. Depois de muito cismar, lembrei-me de que havia passado por ele várias vezes ao longo da BR 470, nas minhas viagens a Blumenau. L á , no pátio do

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supermercado, algumas pessoas viram o meu gesto de ajudar aquele homem e p el os olhares, mesmo sem dizerem coisa alguma, percebi que reprovaram minha ação de dar esmolas. Ele deve ter abordado várias pessoas falando e pedindo a mesma coisa antes de mim. Cer t a m ente, s em sucesso. Ainda vi o andarilho cruzar a rua. Lá, no outro lado, existia um ponto de ônibus. E assim quase sem querer, vi o homem dividir sua fortuna com um menino também maltrapilho:


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uma moeda para ele, outra para o menino. Q uan d o fui para casa, durante o caminho, senti-me muito mal. De um lado, achei que os olhares daquela s pessoas reprovando minha piedade, estavam corretas. Os mendigos e andarilhos deveriam procurar as entidades públicas, mais especificamente a Secretaria da Assistênc ia So c ial d o município e instituições do gênero. Por outro, minha consciência acusou-me s eve r a m e n t e p o r não ter dado um valor mais significativo para aquela p es s oa abs olutamente desprovida de bens que queria ir a Presidente Getúlio e passar o Natal com seus amigos. Bem poderia ter oferecido uma cédula de 10 reais e que a opinião e os pensamentos das pessoas se danassem.

Chegando a minha residência, verifiquei a caixa postal havia recebido um e-mail de minha amiga, a es critora Urda Alice Klueger, com o título “Hoje encontrei o Natal”. Era uma crônica que havia escrito e repassado para amigos e leitores. Pus-me então a ler esta maravilhosa e triste história. Contou ela que quando caminhava com seu cachorro Atahualpa, na Rua das Missões, em Blumenau, encontrou-se com um andarilho, acompanhad o t am b ém de um cachorro. Ele perguntou pelo caminho que deveria seguir para chegar a Guarami-

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r i m. C h a m ava - s e José Aparecido. De acordo com minha amiga, o homem estava muito sujo e coberto de feridas, com dois abscessos abertos nas bochechas. Havia também muito pó acumulado em todo seu corpo, pois a lama que havia caído dos morros na grande tragédia de novembro tinha secado e se transformado em pó nunca visto antes no centro da cidade. ─ Em Guaramirim eu tenho amigos! ─ disse o andarilho à escritora. ─ Já trabalhei seis meses lá catando papel, lá estão os meus amigos que fazem festa de Natal! No ano passado teve


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até chope! Contou outras coisas também. Falou sobre os três carrinhos de catador que já tivera; sobre as diferenças de preços de latinhas vazias em Blumenau e em Curitiba. Agora só tinha a bicicleta e a cachorrinha, que ia montada na garrafa de água no engradado preso na bicicleta. Contou ainda a triste história de seu cachorro, filhote abandonado sem piedade e que adotara há alguns meses e que isto foi bom, pois agora tem companhia. Quando minha amiga Urda sentiu a necessidade de voltar para

casa, pois já tinham a n d a d o um b o m pedaço e o cachorro dela já estava com a língua de fora de tanto cansaço e sede, o andarilho com a galanteza maior de todas que ele poderia ter dito, disse: ─ Mas tem água a q ui na ga r rafa , dona. Pode dar para o cachorro beber! Urda finalizou assim

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sua crônica e eu peço licença a ela para citar: “A q u e l e h o m e m de abscessos nas bochechas e esmagado pelo poder do Capital dividia sua última riqueza sem nem pensar. Então me senti pequena e mesquinha diante da grandeza dele, e fiquei com vontade de chorar. Antes que o fizesse, despedi-me, e ele me apertou a mão sem nenhum constrangimento pelas feridas supuradas, com a galhardia de um rei. ─ Boa viagem para o senhor! Não se esqueça de virar à direita onde lhe ensinei! ─ Feliz Natal, dona!


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É uma pena que a conversa já está acabando tão cedo! É muito bom viajar quando a gente pode ir conversando! Em Guaramirim, vai haver uma g r a n d e fe s t a d e Natal! É uma notícia muito boa. Será que aquele homem não era um dos reis magos e não estava encardido assim por ter atravessado os desertos bíblicos?” Em o c i o nad o c o m tudo isso, enviei um e-mail para a Urda, contando a minha história. Havia coincidências tantas que fiquei até assustado e concluí que coisas assim só poderiam acontecer no Natal.

Não demorou e a escritora me deu retorno, dizendo assim: ─ Fique tranquilo, Harry! Você encontrou o segundo rei mago. Agora falta mais um porque os reis magos eram três. Por que não vamos procurá-lo juntos? Ele deve estar em um lugar muito especial, tão especial que a maioria das pessoas não o enxerga. É preciso prestar atenção e ter muita sensibilidade para vê-lo. E não se esqueça de escrever a sua história. No ano passado, não encontrei mais tempo para relatar o acontecido. Agora, 27

um ano depois, estou cumprindo o gentil pedido da escritora Urda Alice Klueger. Caros leitores! As últimas notícias que tenho de Blumenau são de que o terceiro rei mago ainda não foi encontrado. Eu mesmo, sempre atento às causas que me rodeiam, também não o encontrei. Proponho que o procuremos juntos. Deve ser um tanto difícil encontrá-lo. Se você o localizar, peço o favor de me avisar. Ta m b é m p o d e r á comunicar à Urda. Todavia, se isto não lhe agrada, poderá simplesmente dizer às pessoas que lhe são caras de que os três reis magos foram reencontrados mesmo depois de tanto tempo e que ainda atuam entre o povo de forma discreta e muito significativa. Feliz Natal!


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PALCO DA VIDA

PRENÚNCIO DE NATAL

Roseli Fossili – Corupá, SC

Salete Holske Florianópolis, sC

A árvore-menina Desabrocha em flor, Prenúncio do Natal. Árvore-menina, Meu jacatirão, Vaidosa criatura. Organzas superpostas, Lilases variados, Toques de magia, Em tela irretocável.

Nos palcos do mundo, Atuei sem plateia. Na minha estreia, Ninguém me aplaudiu. Sozinha no palco, Fiz o meu papel. Não tive um troféu No meu ato final.

Gosto de Natal, Cheiro de Natal, Cores de Natal, Ruídos de Natal. Despertam a criança Pequena e ansiosa, Que dorme escondida No peito de cada um.

Carreira sem fim Ou talvez sem começo. Não sei se mereço Crítica ou elogio, Sinto meu corpo cansado De tantos ensaios a fio. Jornada pesada De artista sem rumo. Nas turnês pelo mundo, Sozinho atuei. No final da carreira, É que percebi Que o que recebi, Com fracasso eu paguei. 28


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DETALHES

Maria Teresa Freire

Pequenos momentos felizes formam a felicidade, dizem. Então, é como um grande manto formado por pequenos pedaços costurados com carinho. Envolvo-me neste manto para observar essas partes todas que formam tanto a minha vida como a sua. A manhã que desponta com sol brilhante, quente, convidativo a viver. Pode ser nublada envolta em nuvens

brancas ou cinzas. Ainda, pode estar molhada pela chuva que cai e nos traz benesses ou alguns descontentamentos com sua agressividade e violência. Ao deparar-se com seu dia, recorda sua rotina. O café quente, saboroso, cheiroso, simples ou reforçado. As atividades que aquecem seu corpo, ativam seu organismo. Em locais fechados, individuais ou coletivas. Com acolhida ou sem. Com orientação ou sem. A caminhada ao ar livre, usufruindo por estar livre, apreciando a natureza livre. Nessa caminhada solitária,

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talvez um bom dia dos que passam por você. Talvez, simples olhares. O dia segue lhe trazen d o, à s vezes pequenas surpresas, algumas novidades. Não há inquietação pelo plano diário estabelecido. Sempre há um novo acontecimento, muitas vezes, inesperado. Alimentação diária, em companhia ou sozinho, é um privilégio. Sentar à mesa em casa ou no restaurante, tendo sob o olhar observador um prato colorido com as guloseimas alimentadoras. Saudáveis. O trabalho, que se desdobra em especialidades diversas, responde às necessidades sociais. A atividade diversificada, remunerada, voluntariada, apaziguada, como for, preenche o dia, repercutindo sentimento de utilidade, produtividade, felicidade.


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Um passeio, uma reunião com amigos ou amigas, um café, um doce, um momento de amizade, de distração, de conversas, de convivência. Em casa, na cafeteria, na confeitaria. Outro privilégio! Uma mensagem, um contato virtual, uma leitura que faz sorrir, uns dizeres sedutores, umas palavras sensuais que causam um frêmito, mesmo a distância. Perto, causam um fulgor erótico que lhe esvazia o desejo e lhe preenche o ser. As mensagens de “bom dia” dali e dacolá, enfeitados com flores radiante s e p a i s a g e n s exuberantes. As mensagens de “boa noite” acompanhadas de velas incandescentes, estrelas brilhantes e luas românticas. Fotos que entesouram momentos especiais, únicos. Que testemunham momentos

felizes, datas importantes que se repetem a cada ano, mas ainda assim tem outro gosto, outro sol, outra lua, outros sorrisos, outras conversas. Um amor, perto ou longe, que sussurra suavemente palavras carinhosas, que fala de prazeres extasiantes, arrepiantes e

que toldam a lógica, aguçam os sentidos e tem sabor inexplicável. A rotina interrompida encaixa uma viagem. Longa, média, curta. Para rever, matar saudades, conhecer pessoas inesquecíveis, paragens deslumbrantes, desfrutar dias e horas apreciáveis. 30

O convite para trabalhar, criar, produzir, escrever na folha branca a inspiração que veio, fixou-se e completou-se. Para mostrar o talento, todos os talentos para olhos, ouvidos e mentes atentas e sedentas de sempre aprender. Detalhes que compõem vidas, que arrematam as costuras da felicidade, com pontos abertos de liberdade, franqueza, timidez, interesse, amizade, amor. Detalhes que compõem o todo. Esse todo, dizem, é a felicidade. Então cada pedaço ligado ao outro por linhas invisíveis aos olhos, intangíveis às mãos, mas sentidas no coração, ambientadas na alma, vai tecendo o manto com momentos, situações, encontros duráveis ou fugazes, risos ou até lágrimas. Todos com pitadas de alegria para que haja felicidade, como dizem!


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CAMINHO FLORIDO

UM NOVO NATAL

Erna Pidner – Ipatinga, MG

Aracely Braz

Vem contemplar Uma nova estrela A brilhar nos céus. Vem Observar a tela multicor Do jacatirão majestoso, Que de novo transforma Toda a mata num jardim Encantado e florido.

Fui andando, distraída, por um caminho florido e uma flor me disse assim: por que não olhas para mim? Era linda e graciosa e exalava um perfume difícil de descrever. E eu falei: florzinha amiga, mereces uma cantiga cantada em teu louvor. És, com certeza, um mimo da natureza espalhando ao derredor encanto, ternura, amor. Tu, florzinha singela, também floresces nas janelas dos prédios do meu país e, de sua beleza, sou, em minha pequenez, só um reles aprendiz. E a flor ali ficou não mais se incomodando com os que passavam sem vê-la. E uma leve aragem veio vindo à margem e passou a envolve-la. Caminho florido, da florzinha a morada, ficarás em meu pensamento além desse breve momento.

Vem acompanhar A transformação social Tecnológica e espiritual Do nosso tempo. Vem Cantar comigo, Fazer renascer nos corações A força imortal de Cristo, Num hino de paz, De saudade e esperança No renascimento Deste novo Natal.

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De ver o quê? Eu não sei. Você deve saber, pois não diz nada. Eu não deixo? É muito engraçado, não acha? RESPIRAR No dia, eu... eu o Marli Lúcia Lisboa quê? Eu não durmo. – São José, SC Ah! Eu vejo, mas, Sim. Fará! Há lua, vejo o quê? Tudo. há noite. Há sol, há Tudo? O dormir e dia. Sem lua não há acordar. O que eu noite? Sim, há. Sem sol, não há dia? Sim, há. Sabe como sei disso? Não? Ah, já progredi. Percebe que durante a noite, há o escuro? Fecho os olhos para mais escuro ficar. E você? Você enxerga no escuro? Eu não. Sou idiota, então? Não. Então, o que sou? Serei...? Percebi que, durante faço, quando estou o dia, há a claridade. sem dormir? Eu... Abro os olhos para como. Isso. Isso mais claro ficar. E mesmo, eu como. você? Você enxerga Comer? Sim, comer! no claro? Eu, sim. Eu como, e você? Sou idiota, então? Sei lá. Não? Então o que eu Dormindo eu não sou? Serei...? como. Já estou proNa noite, eu durmo. g r e d i n d o , n ã o ? Dormir. O que é isso? Durante o dia, sim! Será deixar de ver? Dormir, comer. Linda 32

relação é esta. Pense nisso que você irá... comer. Se eu durmo, eu não como. Se eu como, eu não durmo. Idiota, só agora? D o r m i r. C o l o c o roupa para dormir e também roupa de b a i xo. E s t r a n h o? Não. Por que não? Não sei! Durmo em casa, sabia? Sim? Por que você sabia? Não sabe responder? Muito bem! Comer. Mudo de roupa para comer? Depende. Depende do quê? De alguma c o i s a , a c h o. A o comer eu mastigo, engulo. Isto é lógico? Um momento. Eu durmo para quê? Por quê? Com quê? Com quem? Quem? Idiota. O que se passa enquanto eu durmo? Não sei. Não sei. Não... nisto. O quê? Sei lá. Sim. Já durmo, já como. Dormir. Comer. O que mais? Ah! Eu evacuo e... urino. Engraçado. Fui muito direto...


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pra onde? Para o banheiro. - Há alguma “coisa” aí? - Sim, eu! - Um instante! Sim, um instante. Por que eu quero ir no banheiro? Porque eu faço cocô e xixi! Por que faço isto? Por que sou... Sou o quê? Sei lá. E durante o dormir. O quê? Eu evacuo e urino? Não. Sim. Agora sim! Agora sim, por quê? Porque agora sou de tamanho pequeno, ainda. Ainda mollho a cama. Molho? Sim. E você? Não molha mais? Por quê? Durante a noite eu durmo, às vezes faço xixi. Fazendo ou não, pela manhã vou ao banheiro. Por que vou ao banheiro?

Porque eu... sinto. Sinto necessidade de ir, oras bolas. Sim, oras bolas, agora. Pois antes eu não responderia assim. Não percebia! Durante o dia eu como, às vezes faço cocô. Fazendo ou não, todo dia vou ao banheiro. Por quê? Porque eu... faço cocô, idiota. Veja, dormindo, comendo, fazendo cocô e xixi, eu ainda só sou animal. Ainda por quê? O porquê eu não sei. Você saberia

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responder? Duvido. Eu durmo, o cachorro também! Eu como, o cachorro também! Eu faço cocô, o cachorro também! Eu faço xixi, o cachorro também! Diabo, o que é ser c a c h o r r o? É s e r animal? É ser o quê? Ah! Não sabe, hein? Eu sei: cachorro é um animal subestimado. Se eu ajo como um cachorro, como um animal, serei um deles? O que acha disto? Nada? Então sou nada! Sou mesmo? Não sei... Quem sabe eu sou? Nossa, como sou idiota. Sabe por quê? Porque eu... sei lá. Mais uma noite chega. Fria ou


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quente, não s ei. Talvez quente, é m e l h o r. D o r m i r e i sem roupa e... se eu fizer xixi na cama, só molharei a cama, lençol, colchão. Não molharei a minha roupa. Não é lógico? Durante o dormir, o que farei além de xixi? Não sei! O que passará por minha... minha? Minha o quê? Eu não sei, você deve saber! Mais um dia chega.

Frio ou quente, não sei. Talvez quente seja melhor. Comerei sem roupa e... não dá. Não deixam comer sem roupa, dizem que é... é, que eu não devo andar com o meu corpo nu. Tem o meu sexo. Mas se sou de tamanho pequeno, não faz mal! Ou faz? Já não sei mais nada. Nada? Não, eu sei. O quê? Ainda não sabe? Vou dizer,

pode deixar. Olha, eu respiro, eu percebo o frio, o calor. Eu durmo, eu como. Não basta? Não? Então eu faço cocô e xixi. Acha engraçado? Então pode rir! Com você acontece o mesmo, ria de você, palhaço. Por quê? Deixe de ser idiota, como eu. Não, eu não sou só animal. Será? Um momento! Eu respiro, então estou vivo. Eu, o frio, o calor. Eu, dormir, comer. Eu, evacuar, urinar. Estou bem! Já vimos tudo isso. Basta. Basta? Não... sei! Acha abobado tudo isto? Então pare, não continue. De repente eu respiro e agora há o frio, há o calor. Vi. Vimos que durmo, como, faço cocô e xixi. Animal. Não? Então, então... o que serei? Algo. Alguém!

Quarta parte do livro HORA H, cujas partes podem ser lidas independentemente, como se fosse contos ou crónicas)

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RIO ITAJAÍ

MEU MAR AZUL

Apolônia Gastaldi – Ibirama, SC

Margaret Iraí

A espumarada Branca, parece um véu, Se desmancha lá embaixo Onde as águas correm como loucas Entre as pedras negras. Envolvem-se em redemoinhos E os pilões se fazem Rolando pedras soltas. Numa borda um penhasco, Na outra margem A floresta, o cipoal, Fazem a paisagem. Copas altas, Musgos no chão, Manto de folhas, Folhas caídas, um colchão, E o rio volta no marulho. As águas dançam Como um furacão. Rolam entre as rochas, Correm com pressa. O mar está longe. Avançam as corredeiras, Fartura, rebelião, A espumarada rebenta, Respinga, Avança com ambição.

Vejo este meu mar Azul dos olhos teus. Vejo meu mar De azul dos olhos teus, De meu sonhar… Vejo a cor Da força e luz Deste olhar Que é meu mar Deste azul Radiante luz De meu viver. Vejo este meu mar Azul Que nunca mais será tão azul Tão mar sem teu olhar… Pois foi você que me ensinou Amar com mar…

São as águas do Itajaí, Indomáveis, Cristalinas, crismando o chão, Crismando o vale, Vale do Itajaí. 35


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AGUALUSA: LITERATURA EM TEMPO DE PANDEMIA

Luiz Carlos Amorim

Conheci Agualusa em Lisboa, numa das vezes que morei lá, quando ele ficou meio que ilhado em Portugal, pois não podia voltar para Angola, onde estava a família. Conversamos, ele contou um pouco de si. Uma pessoa tranquila, inteligente e sensível. Um dos maiores escritores da língua portuguesa. Parte superior do formulário José Eduardo Agualusa acredita que os livros são um território de pensamento e que a literatura é um exercício permanente de se colocar na pele

do outro. O escritor angolano já publicou vasta obra, traduzidas para mais de 25 idiomas. Dentre seus trabalhos, está o premiado O Vendedor de Passados (2002), que virou filme nas mãos de Lula Buarque de Hollanda. Ao contrário da maior parte dos escritores da sua geração, o escritor angolano optou por fazer da crítica política e social um tema recorrente de suas obras. Esta intersecção entre arte e política foi tema da sua entrevista dada aos jornalistas e edito36

res Marcos Pamplona e Stefani Costa, em quase meados desde ano fatídico de 2020, on line, quando ele fala de sua obra e do paralelo entre a política e a cultura dos povos. Ele fala de coisas, inclusive, sobre as quais conversamos em visita que ele nos fez, a nossa casa do Chiado, minha e de Pierre Aderne, em Lisboa. Nes t a entrev is t a , Agualusa prossegue sua defesa da literatura como agente de transformação social e explica que, em tempos de construção de muros, os livros podem ser nossas mais poderosas pontes para recuperarmos a capacidade de diálogo. Pergunta - Seu livro A sociedade d os so nh a d o r e s involuntários, apresenta uma prosa


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muito poética. Qual a importância da poesia para o seu trabalho? AGUALUSA: É fundamental. Eu sou, sobretudo, um grande leitor de poesia. Sempre leio poesia para escrever ficção. Nunca consegui entender por que haveríamos de fazer divisões e fronteiras. Acho que continuo a escrever poesia escrevendo ficção. Pergunta - Como a literatura pode nos ajudar a descobrir quem somos e o que podemos fazer pelo mundo em que vivemos? AGUALUSA: Um livro, qualquer livro, é um diálogo. Ele estabelece um diálogo entre quem lê e o autor desse livro. Nesse sentido, o livro, qualquer livro, nos abre janelas para outros mundos. Por outro lado, o livro também nos aproxima das pessoas, dos outros. Acho que

a literatura é sempre um exercício também de autoconhecimento: ao conhecer melhor o outro, você conhece melhor a si próprio. Pergunta - Como está, neste tempo de pandemia? AGUALUSA – Um pouco inquieto, como

toda a gente, tentando construir pontes para o futuro, tentando imaginar o futuro, que eu acho que é o que devemos fazer neste momento. Mas um pouco inquieto, também, um pouco angustiado por ter um bebê de dois anos e estar longe dele. 37

Fiquei retido aqui em Lisboa durante o c onfinamento, não consegui voltar para Angola, onde está a família. Não é nenhuma prisão, Lisboa é uma cidade muito bonita, tenho aqui amigos, mas de qualquer maneira custa-me esta sensação de não conseguir controlar inteiramente a minha vida. Pergunta – Agualusa, você lançou um livro em plena pandemia – Os Vivos e os Outros. Como é lançar um livro em época de crise mundial? AGUALUSA - O livro tem alguns pontos de ligação com estes dias, até de uma forma um pouo inquietante. Aliás, inquietante para mim é exatamente este tempo sem tempo, este tempo desprovido de futuro, onde quase nada é possível, como se vivêssemos numa espécie de limbo. No meu livro acontece


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justamente isso. Um grupo de escritores vai ao festival literário na Ilha de Moçambique, que é uma pequena cidade histórica no norte de Moçambique e que deu o nome ao país. E acontece uma enorme tempestade, uma tempestade terrível no continente e eles perdem a ligação com o resto do mundo. E começa a prosperar o boato de que o mundo acabou, que não há mais nada para além da ponte. Não vou contar o livro, mas mais tarde percebe-se que houve de fato uma espécie de fim do mundo, um acontecimento apocalíptico. E, portanto, o livro tem esse ponto de contato com esses dias que estamos vivendo, o que é, para mim, um pouco estranho. Pergunta – Nesse livro, você disse que a frase bíblica “o verbo é o motor da história”. Uma espécie de efabulação

do verbo, o poder da palavra, não é? AGUALUSA – O livro tem um lado muito positivo, um lado que é solar, é um livro sobre o fim do mundo, mas tem o outro lado redentor, que é a ideia de que é possível recomeçar o mundo. É sobre um começo,

sobre o reinício. É possível recomeçar o mundo através da palavra. Existe essa ideia bíblica que eu levo a sério: no princípio era o verbo, ou seja, é a palavra que cria, é a palavra criadora que funda a realidade. Portanto, no fim do livro, esses 38

escritores vão reconstruir o mundo através da palavra. Pergunta – É uma comemoração da força da palavra. Na linha shakespeariana, a palavra é mais poderosa do que a espada, porque isso está em contraponto com a violência do mundo que nos cerca, não é? AGUALUSA – No fim é a palavra que cria a espada . Então você pode evocar o mau e evocar o bem. Eu gosto de lembrar que a poesia começou por ser uma disciplina de magia. Os magos eram aqueles que, através da palavra, inventavam a realidade, criavam uma realidade. Gosto de acreditar nisso. Gosto de lembrar que em Angola o movimento independentista, o movimento político que depois deu origem à independência de Angola,


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começou por ser um movimento de poetas, começou como um movimeno literário. E do movimento literário foi se transformando pouco a pouco em movimento político. Mas como dizia o Ruy Duarte de Carvalho, um dos maiores poetas angolanos, “tudo começou pela poesia”. Pergunta – Sua opinião em relação a esse crescimento e esse projeto de poder de dominação das igrejas como a Universal? AGUALUSA – É preciso distinguir o que são projetos de fé e o que são projetos de burla. Claramente a

Iurd e cada grupo que se aferia religioso são grupos de bandidos, charlatães que usam a fé como pretexto para roubar. É disso que se trata, roubo. Em Angola, felizmente o governo despertou dessa situação, nos últimos anos, e tem tratado esses grupos como aquilo que são: são grupos de bandoleiros, de bandidos. Só no ano passado, Angola ilegalizou pra cima de 2.000 desses grupos, quase todos com vinculação direta com o Brasil. Então o que o governo angolano faz é o seguinte: se eles são realmente um grupo religioso, o suposto pastor tem que apresentar um

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documento que prove que concluiu uma licenciatura na área de teologia. E é mais grave ainda, porque alguns desses grupos pretendem fazer milagres. Então, se faz milagres, tem que provar, senão é charlatanismo. Todos esses agrupamentos deviam ser investigados. É puro banditismo, é charlatanismo. Têm que ser tratados dessa maneira. Inclusive os pastores angolanos. O que está a acontecer é uma espécie de guerra civil. Já tinha havido acusações muito graves em São Tomé, de racismo, também. Houveram até agressões de pastores brasileiros, etc. A verdade é que acusações como essas aconteceram em São Tomé e agora em Angola. O governo Bolsonaro enviou uma carta ao governo de Angola para defender Edir Macedo e o charlatanismo da igreja universal em Angola. E


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isso faz com que o parlamento tenha reagido à tentativa de defesa de Edir Macedo. Isso tudo assusta. Pergunta – Sabemos que você visita frequentemente o Brasil. Como tem visto a ascenção do Bolsonaro, o trabalho para destruir a democracia no Brasil, como o apoio dos evangélicos? AGUALUSA – O caso do Brasil, de um poder público que foi capturado, é exemplar. O Bolsonaro só ganhou as eleições e mantém um apoio que não baixa de 30%, com o apoio dos evangélicos. É claramento o caso de alguém que foi catapultado para o poder por vários grupos associados. Alguma vez o Bolsonaro teve um projeto para governar? Não é para governar que ele está lá. Ele está no poder a serviço desse poder religioso, a serviço dos piores

interesses do agronegócio, a serviço de quem pretende a destuição das florestas, das populações indígenas. Este é o projeto de Bolsonaro, não é um pojeto de governo. E ele nunca escondeu isso. Essas forças já estavam presentes, tanto os charlatães como as forças mais conservadorase retógradas que têm a sua

bancada no senado e na assembleia. Isto é uma coisa incrível, eu não conheço nenhum outro país onde isto exista. Estas pessoas estão representadas no governo do Brasil. Pergunta – Como está sua espectativa quanto à cultura no Brasil, com esse governo que está aí? AGUALUSA – O Brasil 40

existe além deste grupo que capturou o poder. Continua a existir um Brasil que produz cultura, o Brasil que está refém desse grupo, mas não desapareceu. É nesse Brasil que há algo novo, é nesse Brasil que há um movimento, o Brasil que continua a existir e a resistir. Espero que as coisas possam modificar-se logo. Mas vai haver muita dificuldade. Que a sociedade civil no Brasil, os partidos políticos, as forças sociais consigam unir-se para resistir a tudo isso que está acontecendo. Pergunta – Há uma personagem, no seu livro, que já apareceu em obras anteriores. Há um pouco de Agualusa no personagem central do livro? AGUALUSA – Não é exatamento o personagem central. Daniel é um personagem que vem da “Teoria Geral do Esqueci-


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mento”, onde era um personagem secundário, um jornalista que investigava desaparecimentos e que partilha comigo alguns aspectos do meu passado. Mas não muito mais, porque é completamente diferente nos seus anseios, na sua forma de agir e de estar. O que fica mais claro no livro seguinte, na “Sociedade…”, porque é um livro sobre esta divisão da sociedade angolana entre uma geração mais velha, aquela a que pertenço, e uma geração mais nova, que combateu mais ativamente pela democratização do país. O caso dos quinze mais duas, foi um caso que ficou muito conhecido: foram presos pelo regime de Zé Eduardo dos Santos, quando estavam a discutir um livro e depois essa prisão causou um grande movimento de solidariedade em Angola, na sociedade angolana. Mas movi-

mentou sobretudo os jovens. Esse meu personagem representa a geração mais velha que lutou pela independência, mas depois não soube ou não quis combater pela democratização.

também, então nesse sentido me identifico com o personagem. Até porque é isso, nós vamos construindo a nossa identidade caminhando, no percurso que vamos fazendo, recolhendo elementos de todos os Pergunta - Uma per- lugares onde nós vivesonagem sua diz que mos. Mas o período de não vive onde não nossa infância é central na construção da identidade.

há palmeiras. Até que ponto a Ofélia é você, até que ponto você é o homem das palmeiras? AGUALUSA – Eu lembro uma frase de um poeta angolano: “não consigo viver onde não existam palmeiras”. É um pouco o meu caso, 41

Pergunta – Um lugar harmônico sem Deus, sem rei, sem fronteira, sem exército, projeta uma utopia. A gente projeta essa utopia, alimenta-se dela, não é? AGUALUSA – Eu partilho dessa utopia com a personagem, eu luto por um mundo assim, um mundo sem Deus, sem reis, sem fronteiras, sem exércitos, com certeza. Eu lembro sempre isso, que no século 19, um homem como Eça de Queiroz, com uma cultura enorme e capaz


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de imaginar utopias, não acreditava que fosse possível extinguir a escravatura.

de cultura que temos hoje. E reconectar o Brasil com a África é fundamental, tanto para a África como Pergunta – Você para o Brasil. acha que o fato de não falarmos sobre a Pergunta – Há um questão da escravi- grande número de dão pode ter ajudado escritores da África a chegarmos aos desconhecidos no dias de hoje com Brasil. Não há uma tanta intolerância, troca. É um procom a ascenção de blema bilateral ou governos de direita, específico do Brasil? do autoritarismo? AGUALUSA – Eu não tenho dúvidas de que o brasileiro está dentro desse processo, dentro de um regime escravocrata no qual o Brasil foi criado, como Angola, e isso moldou profundamente a estrutura AGUALUSA – Eu e o pensamento dos vivi no Brasil e, na cidadãos. Eu acho época que estive aí, que finalmente o na virada do século, Brasil começa a dis- entrando em qualcutir essas questões quer livraria brasileira e começa a interes- era impossível enconsar-se outra vez pelo trar autor africano. continente africano, Havia, apenas, um ou tentando olhar para outro, quando havia. a África no presente, Isso mudou complenão a África mística, tamente nos últimos mas a África produtora anos. Hoje você tem 42

um grande número de autores africanos, inclusive autores que não são publicados em Portugal, mas são publicados no Brasil. Então a situação mudou completamente. Aliás, entre os autores mais vendidos no Brasil, sete são de origem africana ou africanos. Na FLIP tem sido assim, os autores mais vendidos são africanos. Isto significa que alguma coisa mudou profundamente no Brasil, nos últimos anos. Atenção: em termos de pensamento e da maneira como as pessoas estão tentando reconectar-se com África. Não era assim. Há uma mudança acontecendo no Brasil. No campo da literatura eu não concordo consigo. Na música, sim, curiosamente, sim. Você vai a Inglaterra, França, Portugal, e a música africana domina. Os músicos de origem africana estão na linha de frente. Por que a música africana tem


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uma pujança enorme e, de maneira geral, essa música não entrou no Brasil? Mas também não entrou a música cubana, que entrou no mundo todo. O brasil resiste. O Brasil, neste ponto de vista, é muito autista. Mas na literatura, não. Na literatura isso já mudou.

as editoras também desapareceram em Angola e a literatura brasileira deixou de circular e até hoje isso não foi restabelecido. Esse caminho não foi refeito. Mas isso passa por reconstruir tudo o que tem a ver com editoras, livrarias, tudo o que tem a ver com o livro.

Pergunta – Mas no sentido contrário, os brasileiros são lidos em Angola? AGUALUSA – Os brasileiros já foram muito mais lidos. Na época colonial, havia uma grande troca. Aliás, a literatura brasileira foi fundamental para a literatura angolana. Um escritor como Luandino Vieira veio do Guimarães Rosa. Um dos nossos melhores cronistas vem dos grandes cronistas brasileiros. Então todos os grandes escritores eram muito lidos em Angola. Depois houve uma quebra, com a independência,

Pergunta – A literatura brasileira te influenciou na tua formação espe cífica? AGUALUSA – Desde o início, muito jovem, menino ainda, comecei lendo Jorge Amado e me reconheci no universo africano dele. O Jorge Amado é muito interessante, porque ele recupera a mitologia africana e, pra mim, é muito estra43

nho que nenhum outro brasileiro depois dele tenha tentado este caminho, porque é um caminho muito fértil. É um caminho que deu muito certo, porque é um autor dos mais lidos no mundo, um dos autores da língua portuguesa mais vendidos no mundo. E o sucesso dele tem a ver com isso, tem a ver com a exploração, com a utilização do universo africano, da mitologia africana do Brasil. Ao ler Amado, eu me reconheci neste Brasil. A gente tem muitas ligações. Eu me reconheci mais nos autores baianos, como João Ubado, de matriz africana. Mas li muito Rubem Fonseca, que eu acho que foi um autor que marc ou enquanto escritor. E depois os clássicos brasileiros todos. E Manoel de Barros, na poesia. Conheci Manoel de Barros numa época em que ninguém ainda o conhecia no Brasil.


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Eu o conheci, curiosamente, em uma revista espanhola e xeroquei as páginas e mandei pro Mia Couto. Fiquei tão entusiasmado com a poesia dele que fui fazer uma entrevista com Manoel em Campo Grande. E ele me deu a entrevista, concordou que eu gravasse, uma coisa que ele não aceitava. E naquela época, fora dali ele não era conhecido. Ele começa a ser conhecido daí em diante. Eu publiquei a entrevista no jornal português Público. Sempre tive muita atenção à literatura brasileira.

acho que também não. Mas na maior parte dos países lusófonos ela está sendo aplicada. Portanto, não tem muita discussão. Eu acho que não faz sentido, de fato, países que têm uma língua comum terem várias ortografias. Se isso fizesse sentido, então faria sentido que dentro do Brasil, por exemplo, houvesse várias ortografias. É uma questão prática.

Pergunta – Você disse, outro dia: “Escrevo porque quero saber como termina o poema, o conto ou o romance.” Quando Pergunta – Como vo c ê c o m e ç a a está a integração da escrever é que você língua portuguesa atualmente? AGUALUSA – Esse é um debate que não devia ser mais debate. Porque a nova ortografia está sendo utilizada em Portugal e no Brasil. É verdade que Angola ainda não aderiu, Moçambique 44

vai saber o final, é quando você vai saber o que vai acontecer? É como se a história surpreendesse o próprio autor. É isso? AGUALUSA - Exatamente. Eu não conseguiria escrever se tivesse a história toda na minha cabeça. Eu escrevo pelo prazer da desc o b e r t a , e s c r evo movido pela curiosidade. O que tento fazer é acompanhar o personagem naquele processo: vou avançando, encontrando o caminho. Depois tenho de ir refazendo o livro para trás, em função daquilo que aprendo. Desde sempre foi assim, com o Mia


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Couto é exatamente a mesma coisa, trabalhamos da mesma maneira. Partimos de uma ideia. No caso deste livro que escrevemos a quatro mãos, a ideia foi estes escritores isolados numa ilha, depois fomos construiindo tudo, a história vai se construindo a partir dali. É um processo mágico. É no fim, chegando às últimas páginas, que todas aquelas histórias começam a amarrar e, de repente, tudo aquilo começa a fazer sentido. Mas até aquele momento, eu não sabia o que estava a fazer. Pergunta – O jornalismo te ajudou, te ajuda nesse processo? AGUALUSA - O jornalismo me ajudou a aproximar-me do outro, a escutar. Aprendi a escutar. Pergunta – Como é romper o processo, passar a dividir isso

com outra pessoa, como com Mia Couto? AGUALUSA - “O Terrorista Elegante” é um livro que tem 3 contos grandes, desenvolvidos a partir de peças de teatro, que escrevemos em conjunto, quer as peças, quer as adaptações para conto. As duas primeiras peças foram escritas trocando mensagens através das redes sociais, etc. Mas “O Terrorista Elegante” foi escrito frente à frente e, portanto, desenvolvemos a história em conjunto, as outras também, mas essa mais ainda, foi um processo mais orgânico. Na verdade, acontece o mesmo processo que eu uso sozinho, só que são duas cabeças pensando, então é muito mais divertido. Tem alguém pensando junto, um processo conjunto, de partilha. Eu creio que pra isso dar certo, é preciso ter uma admiração mútua 45

e ter uma certa humildade, perceber que aquele não é mais um livro meu ou dele, é uma entidade que é a soma de dois pensamentos. Pergunta – Você p o d e ria fa ze r o mesmo com escritores brasileiros, dividir como dividiu com Mia Couto? AGUALUSA - Com certeza, há autores brasileiros que eu admiro muito. Nunca tinha pensado nisso, mas sim, conseguiria criar com outros autores, mas é preciso uma certa amizade, também. Acho que conseguiria. Pergunta – Na hora de escrever a quatro mãos, o que resulta do estilo? AGUALUSA – No nosso caso específico, eu acho que numa das peças, eu tentei me aproximar da linguagem do Mia. Talvez numa outra peça, a partir de um


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conto meu, de uma ideia minha, tenha sido o inverso. Talvez tenhamos conseguido fazer uma soma. Acho que realmente resulta outro estilo, que não é meu, nem dele. Nem mesmo nós sabemos, acho que não é possível saber, é uma coisa nova. Pergunta – Qual o papel do Agualusa e Mia Couto, nomes já consagrados, de puxar outros nomes da literatura angolana, ainda ocultos no mundo, principalmente africanos, negros? AGUALUSA – Eu concordo que é importante que isso aconteça, tanto eu como o Mia temos todo o interesse nos escritores mais jovens. Eu recebo e continuo a receber originais de novos autores angolanos, alguns dos quais eu consigo acompanhar, e outros não. Um dos quais eu acompanhei e que está dando

certo, na verdade um grande amigo meu, é Kalaf Epalanga, que está agora a ser publicado no Brasil. Ele tem o livro “Os Brancos Sabem Dançar” e está preparando o segundo romance, que pode vir a ser lançado para o mundo Pergunta – Na “Teoria Geral do Esquecimento” há a personagem fascinante que é a Ludo, que fica 30 anos isolada da guerra em sua casa, assolada pela solidão e pela ignorância. Dá pra pensar na Ludo como na alegoria de tanta gente que vive desconectada da história? AGUALUSA – Sem dúvida, este livro é sobre a xenofobia e o absurdo medo do outro. Essa mulher é uma pessoa carregada de preconceito racista, que vai para Angola pouco antes da independência, por acaso. Ela sofre de agorafo46

bia e vai viver na casa da irmã e do cunhado e os dois desaparecem às vésperas da independência. E ela fica aterrorizada com o início da guerra civil e, sobretudo, com medo do outro, o angolano comum. Ela vai construir um mundo exclusivo, separando o apartamento dela do resto do prédio e vai ser salva muitos anos depois, por um garoto, por um menino. E ao longo deste tempo que ela fica isolada do mundo, todos esses anos, ela vai se transformando, porque ela lê. Mas sobretudo, ela percebe o absurdo que foi viver todo aquele tempo isolada. Bastaria abrir a porta e toda a gente teria auxiliado. Ela é salva num momento em que encontra o outro e se identifica com o outro. O menino acaba criando uma amizada com ela e salvando-a, os dois se juntam num processo de sobrevivência.


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O ENGENHO Eliane Debus – Florianópolis, SC

De olhos cerrados, completam caminho, alquebrados. Corneam a madeira na marcha grotesca. Doídos cascos circulam a terra batida. Gira boi Gira roda Gira o boi

sem descanso. Compassado jogo bruto. Homem e animal confabulam segredos com resinas de mandioca. Na coreografia rodopiante Gira o boi Gira roda Gira boi

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O INTERNACIONAL Enéas Athanázio – Baln. Camboriú, SC

É provável que muitos não se lembrem, mas existiu um trem internacional que cortava nosso Estado pelo mei o - oeste, mais precisamente pelo Vale do Rio do Peixe. Tratava-se de uma composição de luxo, com vagões blindados e todo conforto. Possuía vagão-restaurante, cabines com leitos, fumódromo com poltronas elegantes e garçons solícitos que percorriam os corredores ser vindo bebidas, petiscos e até mesmo jornais e revistas. Como era uma composição curta, atingia velocidade média bem superior à dos demais trens de passageiros. Além disso,

não fazia escala nas pequenas estações, parando apenas nas mais importantes e por poucos minutos. Nas estações menores limitava-se a reduzir a marcha ao entrar no quadro para que o maquinista recebesse do agente o “pode”, ou seja, o passe que permitia o prosseguimento da viagem com a linha livre de outros trens. O Internacional partia de São Paulo e só fazia escalas em poucas estações de c i dad es ma i ores, como Ponta Grossa. Porto União da Vitória, Caçador, Joaçaba e Marcelino Ramos antes de chegar a Por to Alegre, de onde prosseguia

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até Buenos Aires, após receber novas locomotivas. No território dos Estados do Paraná e Santa Catarina era mantido e dirigido pela Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC) e no Rio Grande do Sul pela Viação Férrea Rio Grande do Sul (VFRGS). A composição era tirada por locomotivas grandes e possantes, lembrando-se as de números 620 e 644, ambas movidas a lenha como as “marias-fumaças” em geral. Essas locomotivas sempre foram admiradas pela potência e pela elegância de seu porte. Mantidas em plena forma,


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apresentavam-se reluzentes como novas. A passagem do Internacional pelas cidades menor e s , m e s m o nã o fa ze n d o es c a la s , era aguardada com curiosidade e muitas pessoas acorriam às plataformas das estações para apreciar o monstro negro e iluminado que avançava orgulhoso em direção a mundos diferentes. Em cidades maiores, onde fa zia uma b reve parada, constituía objeto de geral curiosidade e as pessoas o contemplavam com interesse. O trem aceitava passageiros

para os trechos entre as cidades maiores e graças a isso tive ocasião de viajar nele algumas vezes. Comentava-se que só ferroviários mais qualificados prestavam seus serviços nesse trem. Inspetores, chefes-de-trem, maquinistas, foguistas, guarda-freios eram selecionados entre os mais esclarecidos e educados. Como seria previsível, o Internacional provocou muita matéria de jornal e entrou na literatura e na história. Historiadores, contistas e cronistas muito escreveram sobre ele e até mesmo 49

eu o relembrei em alguns escritos. O cronista catarinense Jocely Lona Cleto, nascido e criado em Porto União, viveu durante a melhor fase do luxuoso meio de transporte e o evocou com saudade em algumas de suas crônicas. No livro”Do mundo de minhas saudades”, publicado em 2001, rendeu suas homenagens ao trem que fazia tanto sucesso, publicando inclusive fotos das célebres locomotivas 620 e 644 que por tantos anos o rebocaram na longa e tortuosa jornada. “Fosse numa terça-feira, fosse numa


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Estação Ferroviária de Porto União da Vitória

sexta-feira, a chegada do Internacional era esperada com expectativa inusitada – escreveu o cronista. – Viesse do sul ou do norte, aqueles momentos de vibração eram vividos em Porto União da Vitória. Lá vem vindo o Internacional, anun-

ciado pelo apito e bater do sino, inolvidáveis, que ainda hoje, na saudade dos momentos vividos, arrepia a todos. Lá vinha o Internacional pelos trilhos que chegavam de Ponta Grossa, atravessavam o rio Iguaçu na majestosa ponte fer-

roviária que mais tarde foi substituída por outra, feia e inexpressiva. E, quando o Internacional entrava na ponte, aquele apito parecia dizer: E s t o u c h e g a n d o, estou chegando para vocês!” Majestosa e elegante, a locomotiva ingressava no chão catarinense. Entre bufos e rangidos de freios, estacionava nas plataformas da b ela Estaç ão União. E ali tomava fôlego para prosseguir numa jornada longa e única, jamais esquecida pelos que conheceram o Internacional.

REVISÃO DE TEXTOS E EDIÇÃO DE LIVROS Da revisão até a entrega dos arquivos prontos para imprimir. Contato: revisaolca@gmail.com

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Mamãe e papai nos criaram assim com a família reunida. Nos divertindo uns com os outros. União e amor! Reclusos em casa e privados da liberdade... Tempos cruéis, distanciamento que corrói. Descubro nessa pandemia que existem muitas famílias Que não tem o habito da conversa entre si Que mal se conhecem! Doí perceber que o mundo girava apenas no virtual Tudo é lindo, tudo é maravilhoso... Mas e dentro de seus lares? Uma vida em preto e branco e sem áudio? Reclusos em casa ... Chegará o dia que ao acordarmos, a ciência nos dará a noticia: A vacina está pronta! Beijos e abraços longos estão por vir ...

PANDEMIA Tamara Zimmermann Fonseca – Indaial, SC

Coronavírus é o nome dele. Privados da liberdade, de abraços e beijos Características tão fortes do povo brasileiro! O mundo inteiro é convocado ao distanciamento social. Máscaras e álcool em gel são nossos melhores amigos E a maior prova de amor para com o próximo e a nós mesmos. Reclusos em casa .... Sigo as normas respeitando as orientações Sinto falta do contato físico com meus familiares De nossos encontros habituais De nossas risadas, dos abraços e beijos entre nós Das brincadeiras em família em volta da mesa Dos almoços, dos churrascos, do cachorro-quente Dos olhares se cruzando, cúmplices de histórias e segredos. Da nossa casa cheia, irmãos, sobrinhos, cunhados... De todos jogados pelo chão da sala assistindo TV 51


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espécie. - Olhe, dizia um bem-te-vi que era muito seu amigo. Conheço eucaliptos que chegam a medir setenta metros ou mais. Você O EUCALIPTO DE NATAL deve medir uns trinta Else Sant´Anna metros. Fique contente Brum – Joinville, SC em viver meio escondido aqui, porque seus No meio de um grande irmãos são cortados para bosque de pinheiros serem transformados em havia apenas um eucalipto. Desde pequeno ele sentia a diferença entre ele e as outras árvores. Todas elas, no entanto, tratavam-no com tanto carinho que ele vivia feliz ali. Era como se o eucalipto fosse o mascote daquele bosque. Nas conversas de todos os dias ele era o primeiro a contar o que avistava, pois madeira de construção, via longe sendo mais alto. papel e uma variedade de Suas folhas perfumadas outras coisas. eram apreciadas pelos O eucalipto confidenciou pinheiros que muitas para o amigo: vezes se queixavam de - Não tenho receio de não possuir folhas lisas e ser cortado para ser útil sim espinhos. a alguém, mas meu Os pássaros que costu- grande sonho é ser enfeimavam pousar em seus tado para festejar o Natal ramos contavam-lhe do Menino Jesus assim sobre seus irmãos em como meus amigos outros bosques forma- pinheiros. dos por árvores de sua O bem-te-vi então, em 52

segredo falou para a gralha azul, que falou para o tucano, que falou para a águia, que voou ao encontro de uma estrela cadente e lhe contou o desejo do eucalipto. A estrela sensibilizada desceu até o bosque de pinheiros, prendeu-se no eucalipto e sacudindo sua cauda espalhou seu pó dourado em suas folhas. O eucalipto transformou-se numa árvore fosforescente que passou a iluminar todo o bosque. Até os pinheiros ficaram brilhando com os respingos dourados que receberam. A estrela prometeu ainda que ninguém haveria de cortar aquele eucalipto que tanto quis prestar sua homenagem ao Menino Jesus e que em todos os Natais o fenômeno se repetiria. Um velho pinheiro, o mais velho daquele bosque falou comovido: - Nosso bosque não tem apenas um eucalipto. Tem agora um eucalipto de Natal! (Else Sant´Anna Brum, escritora infantil e educadora)


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FOTOGRAFIA ONDAS E CURVAS Annie Gustin

Annie Gustin – Estados Unidos

são ondas e curvas a lua que passeia o leite do luar amamentando estrelas dedos que desenham arcos que estremecem corpos que rimam na sombra quente dos lábios. gotas de ouro tremeluzindo nos ombros, tranças do sol soltas na espuma, uma sonolência salgada, mansa e morena onça nadando na linguagem e no olhar...

momentos, memória rumores de riso, aquela dança — no tempo giramos para sempre criança

como a maré que enche e desmancha ela é a beleza que cora palavra e silêncio me esculpe no escuro e num suspiro desmancha poesia.

no coração, chuvisco de confete brotar de flores — uma lente pisca nos capta, luz e sombra no olhar fugaz, perpétua faísca passam páginas, caem folhas enfim, a mortalidade nos governa — a nostalgia e a alma se irmanam — nossa valsa é eterna 53


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se deve tomar para se chegar à BR 470? Eu disse que ele estava certo, que era seguir sempre em frente aquela rua, HOJE que ele acabaria cheENCONTREI gando à BR 470. O NATAL - E lá vai dar em Urda Alice Klueger – Palhoça, SC Guaramirim, não é mesmo? Hoje encontrei o Não, não era mesmo. Natal. Meu cachorro Pa r a G ua r a m i r i m me acordou antes da hora costumeira, seis e pouco no relógio, e saí com ele para dar a volta matinal. No portão aqui do nosso abrigo de flagelados passava um homem empurrando uma bicicleta e levando uma cachorrinha presa por uma corrente. havia que se tomar No p r i m e i r o a rodovia Guilherme momento, só vi a Jensen, e lhe explicachorrinha, amizade quei como fazer, certa para o meu onde entrar. cachorro, e os dois - Mas não dá para ir pularam um no outro pela BR 470? e se lamberam, e o Para Guaramirim não dia começava pro- dava. Prestei mais metendo ser bom. O atenção no homem, homem perguntou: um dos tantos anda- A senhora sabe rilhos que circulam qual é o caminho que por nossas estra54

das nestes tempos estragados pelo neoliberalismo, apesar de agora já estar mais que comprovado, lá nos centros de poder, que o neoliberalismo não passava de uma falácia das piores, simples estrangulador de pobres para enc her c ofres já abarrotados de ricos. O homem da manhã estava incrivelmente sujo e coberto de feridas, com dois a b c e s s o s a b e rtos nas bochechas. Havia muita crosta e muito pus em muitos lugares, e cobrindo tudo, a grande crosta de pó que é vestida, atualmente, quando a gente se locomove pelas ruas ou estradas da minha região, depois que secaram os mares de lama oriundos do derretimento dos morros. Um executivo que saísse a andar por aí de bicicleta acabaria com a mesma crosta de pó – só não teria as feridas e


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os abcessos. Fiquei pensando: seria uma doença, ou seria falta de determinadas vitaminas? Talvez fossem as duas coisas; talvez fossem algumas doenças; quem garante que os abcessos nas bochechas não proviessem de terríveis dores de dentes que aquele homem sorr i d ente c om s ua cachorrinha tivesse tido só e desamparado, nos escondidos de passar a noite que ele devia conhecer? Aí ele me disse: - Mais para frente há acostamento? É que meu braço está quebrado em dois lugares, e está difícil tocar a bicicleta. Com acostamento fica mais fácil... Só então reparei no gesso do braço esquerdo, tão coberto de pó e sujeira que a gente nem prestava atenção. Sim, haveria acostamento mais para a frente, e fomos

conversando, e os cachorros foram correndo, e eu lhe mostrava as muitas feridas nos morros, de onde a minha cidade sangrara como nunca havia sangrado antes, e as casas que já não existiam, e outras casas que haviam ficado enterradas na lama até a altura da metade das janelas... - Quantos quilômetros o senhor faz por dia, com essa bicicleta? - Dá para fazer uns 80... - E a cachorrinha anda isso tudo? - Não, ela vai aqui no engradado...

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Havia um engradado de plástico amarrado no bagageiro da bicicleta, onde o homem carregava seus bens. Não olhei muito, só reparei que havia uma garrafa de dois litros quase cheia de água. A cachorrinha tinha se animado demais, andava fazendo umas incursões para o meio da rua, e ele temeu por ela. Puxou-a pela correntinha, colocou-a no engradado, onde ela ficou, toda faceira e feliz, sem nem se importar com a interrupção das brincadeiras que fazia com meu cachorro.


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Ela amava profundamente aquele homem, morreria por ele. E ele me contou: - Era uma filhotinha jogada fora. Encontrei-a perdida numa rua de Navegantes. Está com quatro meses. Conversamos rua afora, e fui descobrindo que aquele

por mês, só de ração. Eu me admirava. - Lá em Itajaí a enchente foi terrível. Eu vi como as casas de madeira ficaram imprestáveis. Mas a senhora tem certeza de que para ir a Guaramirim não tem que pegar a BR 470? Eu tinha. Perguntei-lhe o nome. Era

homem entendia de todas as estradas e cidades do sul do Brasil. - Em Barra Velha – contou-me – há uma mulher que tem doze c ac horros. Todos grandes. Ela os acha na rua e leva para casa. É uma mulher de coração muito bom. Gasta mil reais

José Aparecido e já não lembro o sobrenome, que ele tinha um singelo orgulho de ostentar, como quem tem um último bem que não pode s er r o uba d o p o r nenhum neoliberal. - Em Guaramirim eu tenho amigos! – ele me contou, como um segredo de 56

enorme valor, e me fez lembrar de Saint-Exupéry. Eu estava mesmo bem curiosa para saber o que ele ia fazer numa cidade pequenininha. – Já trabalhei seis meses em Guaramirim catando papel, tenho amigos lá. Os meus amigos de lá fazem festa de Natal! No ano passado teve até chope! Pronto, estava explicado! Fiquei com um bocado de vergonha desta dor que há dentro de mim, que está me impedindo até de ouvir música de Natal, quando ela aparece sem querer. Ele contou-me outras coisas, sobre os três carrinhos de catador que já tivera; sobre as diferenças de preços de latinhas vazias que existia em Blumenau e em Curitiba – agora só tinha a bicicleta e a cachorrinha, que ia que ia montada na garrafa de água do engradado.


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- Mas a senhora tem certeza de que para Guaramirim não tem que pa s s ar p ela BR 470? Garanti-lhe de novo, dei mais indicações do caminho. Perguntei: - Como é a festa de Natal em Guaramirim? Tem galinha assada? - Tem de tudo, dona. Tem carne, tem maionésia, tem chope! Tem até as mulheres que trabalham lá! – ele não disse da fraternidade que deveria ter, do consolo dos braços amigos, que sabe do reencontro com alguma antiga namorada, mas tudo estava implícito na intensidade da emoção dele. Eu deveria voltar, já fora longe demais pela empoeirada Rua das Missões, onde íamos caminhando, e via meu cachorro de língua de fora. Disse-lhe:

- Tenho que ir. Meu cachorro já está com sede. Então, a galanteza maior de todas que ele poderia ter feito: - Mas tem água aqui na garrafa, dona. Pode dar para o cachorro. Sei bastante da vida dos andarilhos deste mundo para saber que não conseguem água com facilidade, que muitas vezes são apedrejados quando se aproximam de alguma casa para pedir água, pois as famílias pensam que eles vêm para lhes roubar as crianças. Aquele homem de abcessos nas bochechas e esmagado pelo poder do Capital dividia sua última riqueza sem nem pensar. Então me senti pequena e mesquinha diante da grandeza dele, e fiquei com vontade de chorar. Antes que o fizesse, des-

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pedi-me, e ele me apertou a mão sem nenhum constrangimento pelas feridas supuradas, com a galhardia de um rei. - Boa viagem para o senhor! Não esqueça de virar à direita onde lhe ensinei! - Feliz Natal, dona! É uma pena que a conversa já está acabando tão cedo! É muito bom viajar quando a gente pode ir conversando! Em Guaramirim, vai haver um grande Natal! É uma notícia muito boa. Será que aquele homem não era um dos reis magos e não estava encardido assim por ter atravessado os desertos bíblicos? Feliz Natal, José A p a r e c i d o! A q u i , choro de emoção por ter encontrado assim o Natal! (Escrito em 2008, logo após a Tragédia das Águas que assolou Santa Catarina)


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SAUDADES II Lorena Zago – Presidente Getúlio – SC

A tristeza adormeceu os sentidos. Porque fez morada nos seres? A incompreensão somatizou Profunda comoção! Como ser forte neste momento? Eis a questão. Entendia-se que o mundo iria mudar... Mas como irá mudar, Se os Seres não entenderam a mensagem? O que será necessário, Mais tristeza e Seres terão de ir? A chave para a mudança está no âmago dos humanos! Será que não a encontraram? Faltou o silêncio interior, A reflexão profunda, O entendimento, O olhar para dento de si E o olhar a sua volta Com a voz e o olhar do coração... Porque a razão não conseguiu penetrar Nas profundezas da alma. As essências estão turvadas Pelo egoísmo, pela prepotência, pelo poder, Por não saber constituir a mudança dentro de si? Qual é a razão, Meu Deus? Há que haver um encontro planetário E um grande e profundo debate 58

Sobre o que é ser feliz! A verdadeira versão sobre felicidade. O que é maior do que a paz interior, Saúde mental e física, Energia para batalhar pela própria existência, Crer que se pode, quando se deseja realmente alcançar objetivos, Que as forças se encontram no interior de cada humano, Em cada sorriso sincero, em cada palavra de apoio, Em cada gesto de confiança? Mas há que haver confiança. Amor, muito amor e compaixão. Solidariedade, carinho, amizade verdadeira, Um abraço fraterno, Ou muitos abraços fraternos, Olhar nos olhos e dialogar. Dialogar, compreender e sorrir Ao mundo, aos seres, E, em conjunto, a alegria estender, Para um Novo Mundo prover! Saudades, muitas saudades Do tempo em que isto foi possível, E não compreendíamos O quão felizes podíamos ser. Saudades, esperança, transparência, Um gesto humanitário, Humanos e Planeta, De mãos dadas ao encontro da consciência!


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DECLARAÇÃO DE AMOR Edltraud Zimmermann Fonseca – Indaial, SC

Ah! Blumenau das minhas lembranças, da minha saudade! Não importam caminhos percorridos, estás enraizada em meu coração! E lá do fundo arranco as lembranças mais doces nesta antevéspera das comemorações dos seus cento e cinquenta anos! Cheguei a Blumenau em 22 de dezembro de 1949, quando completei quinze anos, inicio do meu amor por Blumenau. Nos finais de semana, na Rua XV de Novembro, um telão exibia ao ar livre o filme do momento. Aos domingos na igre-

ja sobre a colina, a Santa Missa, quando homens e mulheres se sentavam em alas separadas (preconceito? respeito? Nunca entendi!), o sorvete na Confeitaria Tonjes, as tortas de maça e morango com creme no Socker, o café colonial na Confeitaria Bentin; o passeio pelas calçadas. A beleza das vitrines das Casas Peiter, Coelho, Borba, Riella, Buerger, que exibiam a moda mais recente das grandes Capitais. Na margem esquerda, depois de atravessar a ponte de ferro, a Maria-Fumaça apitava aguçando a nossa curiosidade. Atraentes, os carros de molas. Na festa do primeiro centenário (02/09/1950), ficou em minha memória o grande e iluminado rinque de patinação, onde pude exibir minhas habilida59

des nos patins. Ah! Blumenau de minhas lembranças: da Rua Itajaí sem calçamento, que eu caminhava com os pés nus chutando as águas que corriam nas manhãs e tardes chuvosas, que delícia! Das enormes carretas (lembro-me da Batistella), transportando toras de madeira para o litoral, cujos caminhoneiros faziam os suspiros das donzelas; das matinês do Cine Busch, do primeiro namorado, do primeiro beijo, da primeira bicicleta... Ah! Blumenau de minhas lembranças! Da velha construção de madeira onde se instalara a Sul Fabril, minha primeira oportunidade de trabalho; das madrugadas frias aquecidas com a correria na ida para a fábrica, quando me deparava “cara a cara “ com enorme tropa de gado, alguns, os


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primeiros com sinos pendurados no pescoço, aviso de que estavam chegando. Ouço ainda a voz rouca do tropeiro me encorajando: “Carece medo não, prenda minha, o gado está cansado. “O quê?” Pernas para que te quero. Ah! Blumenau das minhas lembranças! Da Rua São Bento,

que assistiu tornar-me moça, com suas casinhas bucólicas de madeira e jardins floridos. Rua São Bento do presépio mecanizado. Orgulho da cidade, ponto turístico obrigatório; da Maria do Presépio, nossa amiga filha do proprietário; do Osni Serpa, menino, hoje no dizer do querido Horácio

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“o Rei da camiseta “; da serraria do Andino Serpa e Rodolfo Zimmermann (meu pai) a melhor lenha picada da cidade. Hoje, dezessete de maio ao abrir o Jornal de Santa Catarina, li em chamada de capa: “Casa Buerger é vendida “. Que soco no coração! Rompia-se um dos poucos elos que ainda existem nas minhas lembranças, onde este estabelecimento comercial tão antigo fazia parte. Blumenau cresceu, vestindo-se de glória, fama, progresso, graças a tenacidade da sua gente. Não nos pertence mais... É do mundo! Viva Blumenau!


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COMPANHEIROS Mia Couto

quero escrever-me de homens quero calçar-me de terra quero ser a estrada marinha que prossegue depois do último caminho e quando ficar sem mim não terei escrito senão por vós irmãos de um sonho por vós que não sereis derrotados deixo a paciência dos rios a idade dos livros mas não lego mapa nem bússola porque andei sempre sobre meus pés e doeu-me às vezes viver hei-de inventar um verso que vos faça justiça

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MARIA VALÉRIA Rita Marília – Florianópolis, SC

Quando Maria Valéria entrou em casa, encontrou a sala vazia, vazia de seus bibelôs. Parada, sem fechar a porta atrás de si, tremeu. A cena era estranha: seus bibelôs haviam desaparecido. Ficou imóvel, seu coração também. Sentiu um frio arrepio percorrer-lhe o corpo. Imóvel, olhava lentamente para cada móvel onde antes encontrava-se um bibelô. A casa estava em silêncio. Pelas cortinas paradas, imóveis como um cadáver, Maria Valéria não conseguia, como antes, ver a janela que agora parecia estar rindo ante aquela estranha cena. Olhou o sofá de quatro lugares e também ele,

em silêncio, escondia um segredo. Olhou sua cadeira predileta para receber visitas e não encontrou ali, nenhum vestígio de algo que pudesse ser uma pista. Olhou o piano, imperturbável, olhou as paredes e não pode conter um grito mudo. As paredes estavam vazias; seus quadros haviam desaparecido e no lugar deles, apenas o espectro da moldura formado pelo pó de todos os tempos e, ao fundo, a um canto na penumbra, um homem sorria amorosa e delicadamente. Maria Valéria desmaiou novamente. Acordou sem saber onde estava, quem eram aquelas pessoas ao seu redor, como e

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quando chegara até ali e, buscando em sua memória regressiva, nada encontrou. Assim como seus bibelôs, assim como seus quadros, sua memória foi subtraída repentinamente. Deitada e diante de pessoas que não conhecia, teve medo e fechou rapidamente os olhos, para fingir continuar desmaiada ou fingir não estar ali. Todas saíram. Agora nenhum som externo ouvia, nenhuma voz, nenhum arrastar de cadeira, nenhum passo. Apenas seu coração batia em suas têmporas. Quanto tempo havia transcorrido entre este fato e aquele, ela não sabia e não conseguia perguntar. Tudo parecia um único tempo. Seus olhos permaneceram cerrados até que sentiu alguém se aproximar. Seu coração acelerou mais ainda e então uma mão fria, porém deli-


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cada, tocou a sua. Ela não tinha mais como se esconder e então, como quem acorda pela primeira vez, foi abrindo os olhos lentamente. Um rosto redondo, olhos e boca sorrindo, cabelos negros, tez jambo, perguntou: - Tudo bem com você, Maria Valéria? Sua boca seca a impedia de falar e seu coração, em altíssima frequência, a fazia tremer. Balançou a cabeça, de forma a que a outra compreendesse sua afirmativa. - Ótimo! - respondeu a moça de olhos de mirtilo. - Você veio para cá desmaiada e estamos verificando toda sua condição, que até o momento se apresenta sem nenhuma alteração significativa. Meu nome é Sandra e estou aqui para lhe ajudar a recuperar seu estado normal. Voc ê se lembra do que aconteceu antes ou durante de seu desmaio?

Maria Valéria buscava encontrar lembranças, mas nada lhe chegava. Alguns sons, algumas imagens distorcidas e descontextualizadas passavam sem nitidez: aquele homem. Nada respondeu com a cabeça: nenhum gesto. Não lembrava de nada. - Fique tranquila! Logo você dormirá novamente e então seu

corpo vai ter tempo de se recuperar e tudo voltará ao normal. Não se assuste. Fique tranquila. Quanto mais tranquila, mais rápido a sua recuperação. Maria Valéria, verdadeiramente, só sentia medo. Tentava confiar, mas seu estado de conservação pela vida não lhe permitia encontrar a tranquilidade da qual a moça 63

lhe falava. Na verdade, tentava mesmo entender o que a moça queria lhe dizer exatamente. Tudo era uma mistura e no fundo de si não encontrava nexo no que ouvia e até então vira. Fechou os olhos porque dentro de si era o lugar que lhe fazia sentir mais segura, menos acuada. Dentro de si havia o nada que lhe esperava e acolhia. Uma névoa sem significados, um barulho sem definições, um espaço sem limites: foi ali que Maria Valéria se acolheu e ali ficou sem nem ao menos saber que havia um conceito chamado tempo. Sentia, às vezes, algo lhe tocando, sons misteriosos, incompreensíveis e indecifráveis. Sentia desconfor to sem saber onde e o que significavam: apenas sentia. Não havia parâmetro para definir qualquer coisa e nem isto, parâmetro, era de seu conhecimento.


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Sentia, ouvia e sem ter consciência de como, saiam sons de seu corpo no exato instante em que algo obrigava seu corpo a reagir. Era muito menos que isto, assim explicado, porque ela não teria uma única palavra para dar significado à sua existência. Não sofria nem se alegrava; sequer tinha a menor condição de ponderar qualquer coisa que fosse, porque não havia qualquer palavra em sua mente, muito menos seus significados. Assim, Maria Valéria em si vivia e ora se perguntava sobre seus quadros, seus bibelôs e quem era o homem na penumbra. No lado de fora, para as pessoas que sabiam e usavam infinitas palavras com seus múltiplos significados, a dor era pungente. Brigas, reconciliações, amor e desafetos, ira, inveja, ciúmes, despeito, mágoa e concorrência

sobre o pertencimento de alguns objetos desfilavam aos seus pés, vestidos ora de um, ora de outro personagem, ora sozinhos, ora acompanhados de dois, três e até mais. Eram personagens grandes e pequenos, de cabelos longos, curtos ou quase sem nenhum cabelo. Eram personagens carregando inúmeros

objetos sobre o corpo e outros nem tanto. Chapéus, gorros e boinas também faziam suas aparições e tudo se misturava e se revelava em infindáveis combinações. Um espetáculo dantesco que Maria Valéria não assistia. Seu espetáculo era bem outro: a paz absoluta no nada absoluto. 64

Só houve a ausência de um personagem que há muito dormia no esquecimento de todos. O tempo, este referencial existencial apenas para os personagens, transcorreu insignificantemente. Sem Maria Valéria perceber ou tomar conhecimento, as vozes, anteriormente dadas em sussurro, foram se alterando, bem como os passos, anteriormente suaves e lentos, foram se tornando cada vez mais rápidos e barulhentos. Um abrir e fechar de porta infindável deu àquele quarto o tom da urgência e os sussurros foram substituídos por gemidos e choros. Maria Valéria, sucumbida em seu nada existir, foi sacudida. Seu corpo, agora, aceitara, carinhosa e passivamente, a derrota e, no fundo do corredor, com a mesma alegria da c he gada , al guém anunciou: - Maria Valéria morreu!


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A MARCA DA VERGONHA

A TUA PELE Rita Pea, Portugal

Savagé Costa – Tubarão, SC

A tua pele É o meu Epicentro.

Nos apaixonamos por amores vadios cheios de intenções marotas, voamos por espaços impróprios, apoiados nas asas da mentira.

O lugar onde me encontro com o fogo ao tocar no teu corpo e me permito crepitar na flama envolvente do desejo.

Passamos ao longe da verdade, ignoramos a dor alheia, maltratamos a sensibilidade e rimos de barriga cheia.

A tua pele é o meu Epicentro mesmo quando não estás diante de mim.

Abortamos o carácter, crucificamos o destino, zombamos da natureza e explodimos em tédio.

A memória também provoca orgasmos em noites de lua cheia.

Levamos, para o além, terríveis complicações para mostrar ao Criador a marca da vergonha!

EXPEDIENTE SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA - Edição 155 - Dezembro/2020 - Ano 40 Edições A ILHA - Contato: lcaescritor@gmail.com e revisaolca@gmail.com A ILHA na internet: Portal PROSA, POESIA & CIA. - Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br Os textos publicados nesta revista são de responsabilidade de seus autores. A revista não se responsabiliza pela opinião dos escritores, que não reflete, necessariamente, a da revista. 65


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A RICA LITERATURA BRASILEIRA

Quando nossos colonizadores chegaram às terras que hoje formam o Brasil, em 1500, a literatura ocidental já contava com grande acervo e tradição. Foi com a chegada dos primeiros portugueses, capitaneados por Pedro Álvares Cabral, que as terras e gentes deste lado do Atlântico apareceram pela primeira vez no universo da literatura ocidental, e a Pero Vaz de Caminha, o escrivão da expedição, coube a tarefa de inaugu-

rar nossa literatura, muito embora a Carta produzida por ele seja considerada um documento das literaturas brasileira e portuguesa. A literatura brasileira, se comparada a outras literaturas do mundo, ainda é jovem. Nossa falta de tradição literária, contudo, não diminui a importância de nossas letras, tampouco é uma sombra a esconder a excelência literária de nossos grandes escritores. Admirados, respeitados e conhecidos no Brasil – alguns no mundo –, os escritores

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brasileiros, dos primeiros cronistas aos contemporâneos, movimentaram e movimentam nossa cultura. Por meio de suas palavras, é possível compreender os diferentes estilos e movimentos, passear pela História do Brasil e perceber todos os elementos que constituíram nossa literatura. Entre tantos representantes, alguns escritores deixaram uma c ontribui ç ão grandiosa para a literatura brasileira, revolucionando sua história e deixando n e l a uma ma r c a indelével. Como mensurar a importância de nomes como Gregório de Matos, o primeiro escritor a produzir uma obra genuinamente brasileira; Machado de Assis, o mestre do realismo brasileiro e imbatível prosador; a revolucionária tríade modernista, Manuel Bandeira, Oswald e


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Mário de Andrade? O que dizer de nomes como Carlos Drummond de Andrade, autor da melhor poesia do século XX, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, donos de uma prosa e estética invejáveis? O que seria de nossa literatura sem Clarice Lispector, escritora cuja prosa intimista e reflexiva arrebata fãs e instiga estudiosos da palavra, sem Cruz

e Sousa, o maior simbolista brasileiro, sem Mario Quintana, o grande poeta do Sul? Não importa o gênero, a literatura brasileira sempre tem um representante digno de aplausos e reverenciamento para representá-la. Seja na crônica, no conto ou no romanc e, nossas letras são prodigiosas, e a qua-

lidade de nossos escritores afasta o mito que dá conta de que países com menor tradição literária estão distantes da excelência de outras literaturas milenares. Para você conhecer um pouco mais de nossa formação literária, é indispensável que conheça os nomes que fizeram de nossas letras uma das mais interessantes do mundo.

ESPERANÇA Mario Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenas Todas as buzinas Todos os reco-recos tocarem Atira-se E — ó delicioso voo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, Outra vez criança… E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA… 67


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DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO

mesmo que sozinha sem a tua presença. De repente, no último verão, o sol veio e com ele a luz, a alegria, o ardor do peito por coisas boas.

Maura Soares – Florianópolis, SC

De repente, no último verão, me libertei das amarras que me prendiam a ti.

De repente, no último verão, libertei-me das amarras, os elos da cadeia se soltaram deixando-me livre para viver o Amor como ele deve ser vivido sem culpas, sem mágoas, sem arrependimentos.

De repente, foi-se a angústia, foram-se os dissabores, foram-se as lágrimas à noite sozinha no leito à tua espera. De repente, no último verão, o calor conseguiu aquecer meu corpo e senti a brisa suave da tarde a soprar no meu rosto dando-me a sensação de leveza e tranquilidade.

De repente, no último verão, vi que a minha vida valia realmente a pena. Acordei do longo inverno da tua ausência.

De repente, no último verão, compreendi que a vida é pra ser vivida na sua plenitude e que os arremedos de paixão vão-se com o vento, vão-se com a chuva que tudo lava ao final da tarde.

(9.4.2012 – 20h25min)

De repente, no último verão, vi que a minha vida valia a pena e que não estava atrelada a ti, mas que era a minha vida e eu teria que vivê-la plenamente, 68


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SAUDADES DE RUBEM FONSECA Rubem Fonseca, um gigante da literatura nacional e um contista por excelência, faleceu no Rio de Janeiro, a poucas semanas de completar 95 anos. O escritor sofreu um infarto em casa, no Leblon, Rio de Janeiro, e chegou a ser levado ao Hospital Samaritano, mas não resistiu. Um d os maiores nomes da letras brasileiras da segunda metade do século XX, algumas das obras mais consagradas de Fonseca são Agosto (1990), Feliz ano novo (1976), A coleira do cão (1963) e O cobrador (1979). Sempre lúcido e criativo, publicou há dois anos Carne crua, seu último livro de contos inéditos.

Nascido em Juiz de Fora (MG) em 11 de maio de 1925, José Rubem Fonseca mudou-se aos oito anos para o Rio, onde inaugurou uma corrente na literatura brasileira contemporânea que foi cunhada como brutalista por Alfredo Bosi, em 1975. A democratização da violência era

quase um personagem a mais em suas histórias, nas quais os protagonistas eram, ao mesmo tempo, os narradores de seus infortúnios e mistérios. Seus romances têm a estrutura de narra69

tivas policiais, muito marcadas pela oralidade, quiçá pelo fato de Fonseca ter atuado como advogado e comissário de polícia no subúrbio carioca dos anos 1950. Não à toa, muitos de seus protagonistas são delegados, inspetores, detetives particulares, advogados criminalistas. Ou escritores. Esse tom policialesco, com crimes ou mistérios a serem desvendados, rendeu-lhe comparações com nomes como Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes. Sua obra, no entanto, também pode ser lida como uma paródia do gênero policial, já que os crimes são pano de fundo para elaboradas críticas sociais. Em certo ponto, Fonseca era um niilista na visão de uma sociedade como opressora do indivíduo: o que ele narrava era o cotidiano violento das grandes cidades e os dramas humanos que ele


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desencadeia. Seus bandidos são amorais, aversos a qualquer sentimento de culpa, sejam ricos ou pobres. Fonseca dominava com maestria o jogo entre os arquétipos de bandido e mocinho, mas sem cair nos lugares comuns. Com frequência, é difícil saber quem em um ou outro em seus textos. Um exemplo é A grande arte, em que, tanto o leitor quanto um dos personagens, Wexler, chegam a desconfiar que o grande criminoso da história seja o mocinho Mandrake. “Pode ter sido qualquer pessoa. Pode ter sido você, Mandrake”, diz ele na página 296. O domínio das muitas

nuances da alma humana permitiu-lhe escrever com a m e s m a ve r o s s i m il ha n ç a s o b re halterofilistas e executivos, marginais e financistas, delegados de polícia e assassinos profissionais, garotas de programa e pobres diabos que vagam sem destino pelas ruas do Rio de Janeiro. Se os extremos da sociedade não lhe intimidavam, muito menos o faziam as palavras. “Eu escrevi 30 livros. Todos cheios de palavras obscenas. Nós, escritores, não podemos discriminar as palavras. Não tem sentido um escritor dizer: ‘Eu não posso usar isso’. A não ser que você 70

escreva um livro infantil. Toda palavra tem que ser usada”, disse ele em 2015 ao receber o Prêmio Machado de Assis, entregue pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Quase sempre recluso, foi um dos poucos eventos públicos aos que consentiu sua presença —outro foi em 2003, quando recebeu das mãos de Gabriel García Márquez em Guadalajara, no México, o prestigioso Prêmio Juan Rulfo. Para Antonio Sáez Delgado, crítico literário de EL PAÍS, Fonseca foi um “mestre em examinar os labirintos da violência psicológica” através de seus personagens que vivem nos limites do mundo e de si mesmos. “Seu universo é, portanto, social e obsessivo, perturbador, com um estilo direto e penetrante, perfeitamente administrado na arte de, ao mesmo tempo, dizer e se esconder”.


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DESERTO

SOLIDÃO

Luís Laércio Gerônimo Pereira

Luís Laércio Gerônimo Pereira - Pão de Açúcar, AL

Há um poço de saudades, Uma secura de emoção No peito uma tempestade Um mar em agitação

Procuro um rumo certo, um norte pra minha vida. No coração um deserto, resquício de despedida Parece-me um espectro, não sei se é errado ou certo, Mas dói como uma ferida.

As ondas selvagens me varrem As rédeas em mim se desfazem Deságua meu coração.

Não posso negar meus sentidos, tampouco desistir da vida; Embora conheça os riscos, em tentar nova investida Com o sentimento arisco, mas o pensamento altivo Cortejo nova pretendida.

Olhando em volta a paisagem, Deserto e desolação Vi de longe uma miragem Acendi a imaginação Ao procurar pela imagem

Nem tudo na vida é deserto, como um fechar de cortinas Caminhos são sempre incertos, possuem diversas esquinas, Porém uma coisa é certa, navegar de peito aberto Sobre calmaria ou neblina.

Percebi que era visagem Decerto só minha solidão.

Cada um tem seu deserto, é certo, faz parte do clima A vida é um caminho aberto, com estradas pra baixo e pra cima. Devemos fazer o certo, seguindo a lei ou decreto, Critérios da lei divina. 71


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TÍTULOS INDIGESTOS, MAS NEM SEMPRE Michi Otero

Muitos fóruns têm discutido quais títulos são os mais indigestos, em mais uma versão do eterno debate sobre se as pessoas leem obras complicadas para poder dizer que as leram, não pelo prazer de lê-las. Alguns levam essa ideia longe demais. O romancista britânico Kingsley Amis disse em seus anos de maturidade que a partir de então, com pouco tempo de vida pela frente, só leria “romances que começam com a frase: ‘Escutou-se um disparo’”. Talvez o pai de Martin Amis tenha exagerado (as memórias de seu filho, nas quais tanto o ataca, têm quase 500 páginas), mas são muitos os que opinam que “a vida é muito curta para ler livros muito compridos”. Eis aqui uma

lista de volumes que carregam o estigma, frequentemente injusto, de ser impossível terminar de ler. E incompleta, pois não está aqui mencionado “Ulisses”, de Joyce, este sim impossível de ler até o final de suas oitocentas páginas, e que é famoso justamente pelo fato de muito poucos o terem lido na íntegra. 1.- O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon No episódio A Pequena Garota no “Big Ten”, da 13ª temporada de Os Simpsons, a pequena Lisa quer se fazer passar por estudante universitária. Em uma cena, bisbilhota o armário de uma estudante e descobre este grande romance. A conversa das duas é a seguinte: “Você está lendo O Arco-Íris da Gravidade?”, pergunta-lhe a pequena Simpson. “Bom, estou relendo”, responde 72

a estudante. A brincadeira, e o fato de que apareça nessa série, resume até que ponto esse e outros romances do autor mais misterioso da literatura americana alcançaram o status de literatura ilegível. Não para todos, claro. É famoso o caso do professor George Lavine, que cancelou suas aulas para se recolher durante três longos meses de 1973 com o único objetivo de devorá-lo. Quando saiu de sua reclusão, afirmou que Pynchon era o melhor que havia acontecido para as letras americanas do século XX. 2.- Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski Não adianta muito que se possa ler como um thriller psicológico e torturado que não se resolve até o último parágrafo. Talvez por seu título, que alguns consideram aplicável ao que representa sua


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eles prefeririam ver a versão cinematográfica. Carrega o estigma recorrente de que ler para os russos é complicado e mais cansativo que escalar algum pico dos Urais. Seu autor o escreveu convalescendo, depois de quebrar um braço ao cair de um cavalo. Alguns leitores declaram, neste tipo escritura e sua leitura, de debate, ter se senpoucos se atrevem a tido assim durante sua criticar os delírios de leitura. Raskolnikov, ou os abandonam na sexta 4.- Orgulho e Preconmanifestação de tor- ceito, de Jane Austen mento. Outro romance que esconde pistas em seu 3.- Guerra e Paz, de título. Alguns leitores Leon Tolstói terminam de lê-lo pelo Outro exemplo da primeiro elemento, literatura russa, que por orgulho, enquanto se costuma colo- outros nem se aproxicar neste tipo de lista mam dele por causa com piadas como: do segundo, por puro “Lamentavelmente, preconceito. É um fesnão cheguei nem tival de murmúrios e ao primeiro disparo vaivéns românticos, da guerra”. Embora inclusive cômicos, mas muitos o considerem o leitor contemporâuma leitura trepidante neo frequentemente ambientada durante se cansa das tensões a invasão napoleô- sexuais que celebra, nica da Mãe Rússia, entretanto, nas comé73

dias da televisão. Esse leitor pouco paciente não é o único. O gênio Mark Twain chegou a declarar: “Cada vez que leio Orgulho e Preconceito, tenho vontade de desenterrar [a autora] e golpeá-la no crânio com sua própria tíbia”. 5.- A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne Foi publicado por volumes durante oito anos. O autor morreu antes que se publicasse como romance; de fato, muitos especialistas consideram a obra inacabada depois de tantas páginas. O livro pretende ser a autobiografia do narrador, que se perde em digressões e rodeios infinitos e hilários, mas não adequados para todos os gostos. É uma peça fundamental da narrativa moderna e cômica, mas o fato de que o protagonista não nasça até o terceiro volume não


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ajuda muita gente a aguentar manter o livro nas mãos. Talvez prefiram a adaptação de Michael Winterbottom, embora seja uma adaptação pouco fiel, como não poderia deixar de ser.

época, foi até adaptado em um monólogo por Richard Pryor. No entanto, muitos ficam na primeira parte (intitulada Inferno) ou não passam pela segunda, o Purgatório, e muito menos terminam a última, batizada de 6.- A Divina Comédia, Paraíso. de Dante O poema escrito 7.- Moby Dick, de por Dante Alighieri Herman Melville no século XIV per- Se o protagonista tence ao grupo dos de outro relato deste que talvez enganem autor, Bartleby, o Escrio leitor desprevinido vão – esse advogado pelo título. Crucial na nova-iorquino entesuperação do pen- diado, entre outras samento medieval e coisas, com seu traácido como um limão balho – diz aquilo de nos olhos graças aos “Preferiria não fazer comentários sobre sua isso”, muitos leitores adotam essa frase quando encaram o romance definitivo de Melville. Não compartilham a obsessão cega do Capitão Ahab por caçar a baleia e se enjoam com a primeira tormenta em alto mar. Não estão sozinhos, apesar da legião de fãs que realmente vibram com o livro. Em uma recente reedição em 74

castelhano desta obra, o autor do prólogo inclui uma saborosa curiosidade. O músico Moby (sim, aquele que faz canções que saem em oitenta anúncios) admite que, embora tenha adotado esse pseudônimo, jamais terminou de ler o romance porque lhe parece “muito longo”. Uma pista: esse músico calvo se chama, na verdade, Richard Melville. Seu tio-bisavô é o consagradíssimo autor. 8.- Paradiso, de José Lezama Lima As mais de 600 páginas desta espécie de romance de aprendizagem, exuberante em sua prosa como uma árvore repleta de frutos, são um inferno para muitos leitores. Muitos resolvem abordar a formação do poeta José Cemí aconselhados por Julio Cortázar, um autor fundamental para muitos adolescentes, do qual tentam devorar todas


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suas pistas, mas a linguagem personalíssima e o longo alcance afugentam uma altíssima porcentagem do público de um dos principais romances em castelhano do século XX. É mais curioso ainda quando se sabe que o autor é cubano, já que os cubanos geralmente são pouco dados a introspecções. Na narrativa latino-americana, apesar do recente culto global a Roberto Bolaño, também se costuma brincar com 2.666, do escritor chileno, que não alcança esse número de páginas, mas tem mais de mil. 9.- As Aventuras do Bom Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek / Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes O mesmo bufo de tédio e desinteresse nas salas de aula checas e espanholas. E o pior é que ambos

são emitidos pela obrigação de ler dois dos romances mais divertidos e delirantes da história. Duas histórias pitorescas com dois anti-heróis absolutamente inesquecíveis que carregam o problema de ser o clássico mais aplaudido de ambos os países. Seu

problema? Obrigar alunos imberbes com os feromônios disparados a mergulhar em suas numerosíssimas páginas para transformá-los em “um livro de La Mancha – ou de Praga – do qual não quero me lembrar”.

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No entanto, quando lidos mais tarde, são mais viciantes que um saquinho de pipocas ou que a série de TV com maior audiência. 10.- Graça Infinita, de David Foster Wallace É curioso que um romance que trata, entre outras coisas, do vício e do colapso da cultura do entretenimento desanime tantas pessoas. Suas mais de mil páginas – centenas delas são notas de rodapé – o convertem em um dos livros pós-modernos fundamentais na história da literatura, mas também fazem com que muitos acreditem que seu depressivo autor, que acabou se suicidando, tenha escrito, efetivamente, uma espécie de piada infinita sem graça. Os leitores atuais traçam uma linha no chão e formam dois grupos: aquele dos que amam o livro e aquele dos que o odeiam.


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O HOMEM QUE VINHA AO ENTARDECER

MENINA

José Eduardo Agualusa – Angola

Silvinha Schmdit – Joinville, SC

Se sonhadora, Talvez pintasse de vermelho O coração das pessoas E lhes fizesse um rabisco Em suas preocupações… Talvez cantasse canções E fizesse cirandas por toda parte… E colhesse flores Onde as cores não tivesse lugar…

Falava com devagar, ajeitando as palavras. Falava com cuidado, houvesse lume entre as palavras. Chegava ao entardecer, os sapatos cheios de terra vermelha e do perfume dos matos. Cumpria rigorosamente os rituais. Batia primeiro as palmas (junto ao peito) Depois falava. Dos bois, das lavras, das coisas simples do seu dia-a-dia. E todavia era tal o mistério das tardes quando assim falava que doía.

Talvez vestisse sua boneca Com vestido de princesa E fosse ela princesa Dos castelos que sonhou… Ontem vi teu olhar brilhante Brincando de roda na calçada… O tempo, a vida são miragens Que, às vezes, nem ousamos acreditar…

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O TEMPO E O NATAL Conto de Luiz Carlos Amorim

Lutara muito para conseguir o pouco que tinha e continuaria lutando sempre. Mar ta era pobre, sempre fora. Sua maior riqueza era sua família – os dois filhos pequenos, Carlos e Pedro, o marido – e também sua casa. Era um pequeno barraco de madeira, mas era o seu lar. Humilde, exíguo, porém a família podia chamar de seu. Moravam na parte alta da cidade, onde os terrenos custavam menos, pois a área estava começando a ser urbanizada. Paulo, o marido, era servente e ganhava salário mínimo. Ela tentava ajudar, trabalhando como

doméstica, mas precisava cuidar dos filhos, ainda pequenos, e era difícil conciliar o cuidado dos filhos, da casa, o trabalho. A vida era dura, mas eles eram felizes, a despeito das dificuldades. Sabiam que, para conseguir alguma coisa, para melhorar a sua condição de vida, teriam que fazer sacrifícios.

Não compravam nada que não fosse absolutamente necessário, mas Marta abandonou, por um momento, o rígido controle das finanças e comprou, este ano, a sua árvore de Natal artificial, toda enfeitada, e um presé77

pio, sonho desde que era menina. Queria que os filhos tivessem pelo menos isso, uma comemoração natalina mais fiel. Já corria o mês de novembro e prometera a si mesma que daria aos filhos um Natal melhor do que todos os outros que já haviam tido. Andava um pouco preocupada com as chuvas que insistiam em cair com uma certa frequência, incomum para a época, nos últimos meses, pois passava um grande rio pelo meio da cidade. O fato de morar no alto, no entanto, dava-lhe uma certa segurança. O problema era não poder chegar ao trabalho, se chovesse demais e a enchente interrompes se os caminhos. No final novembro, as chuvas recomeçaram e não queriam parar mais. Choveu dois, três, cinco dias sem parar. Uma semana.


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E a terra, que já estava molhada das chuvas anteriores, ficou encharcada, não só onde a enchente alcançou, mas também nos lugares altos. E terra molhada não fica firme em lugar nenhum. Os morros e encostas começaram a deslizar, levando de roldão o que houvesse pelo c aminh o: p ré di os comerciais, carros e casas, com tudo o que havia dentro, às vezes até com os moradores. Muitas pessoas estavam morrendo, engolidas pela lama, e inúmeras outras estavam perdendo tudo. O morro onde Marta morava também começou a deslizar e sua família teve que abandonar tudo às pressas, para não ser tragada pela terra liquidificada, empapada de chuva. Foram levados para um abrigo, uma escola onde já estavam diversas famílias que, como eles, não tinham

mais nada. Antes de seguir com a equipe de bombeiros que os estava resgatando, porém, Marta ainda conseguiu pegar uma caixa, que embrulhou numa manta e levou consigo. A chuva diminuiu, o sol até voltou, mas o cenário de destruição, de devastação na cidade era uma realidade que permanecia e demoraria a mudar. A solidariedade de pessoas que não conheciam fazia com que chegasse até eles, milhares de refugiados da chuva, comida, agasalho e água. Apesar do sol, que aparecia em inter-

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valos durante o dia, encostas continuavam se soltando e caindo e corpos continuavam a ser encontrados. A chuva sempre voltava e Marta soube que o lugar onde morava não existia mais, como tantos outros que desmoronaram em sua cidade e em outras também castigadas pelo tempo. Não tinha mais nada, nem mesmo o terreno, o chão para reconstruir o lar. - Mas estamos vivos – repetia ela para os seus e para si mesma. Veio dezembro, as chuvas ainda teimavam em cair, agora não tão frequentes, mas ainda mantendo o risco de desliza-


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mento de morros e encostas. As campanhas para angariar recursos para a reconstrução das casas daqueles que não tinham para onde ir e não podiam comprar nem o pão de cada dia, estavam acumulando boas somas. Mas será que daria para construir casas para todos? Eram tantos... Será que o dinheiro chegaria até eles? Dezembro foi avançando e o Natal se aproximava. Marta e os seus e muitas outras famílias continuavam no abrigo, talvez até lhes coubesse um lugar para morar, mais tarde,

mas muita coisa ainda tinha que ser feita e prometia demorar. Seu marido precisaria procurar outro trabalho, pois a empresa onde ele trabalhava fora destruída e levaria algum tempo até re c up era r- s e d o s estragos causados pela enchente. E a época não era nada propícia... O Natal chegou. Na véspera, Marta ajudou a preparar o jantar comunitário, como já tinha se tornado hábito e antes de servirem, buscou a caixa que resgatara de sua casa, no dia em que tivera que abandoná-la, e que guardava como um grande tesouro. Abriu-a e começou a montar,

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no centro da grande mesa de merenda, a árvore artificial e o presépio que comprara para aquele final de ano. Apesar de tudo, era Natal. E aquela árvore, mesmo artificial, com aqueles enfeites coloridos e aquelas poucas luzes, representava renovação, fartura, recomeço. E o presépio representava a fé que movia todos para a frente, para conseguir tudo de novo. O ano novo e o Menino que nascia em seu coração, naquela noite, haviam de trazer a sua vida de volta, haviam de dar a ela e a sua família forças para edificar, de novo, o seu lar. Era Natal.


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LITERARTE SAINDO O LIVRO O VALE DAS ÁGUAS “O Vale das Águas, o paraíso de água doce”, o livro de crônicas sobre Corupá, a Cidade das Cachoeiras, está no prelo. Como estamos em tempo de pandemia, o lançamento será, por enquanto, na Amazon.

O livro estará disponível em e-book ainda neste mês de dezembro. São crônicas sobre as gentes de Corupá, os lugares, as belezas, a natureza, os perfumes, os sabores, tudo da cidadezinha plantada ao pé da Serra do Mar.

MURAL DE FRANKLIN CASCAES EM FLORIANÓPOLIS O conhecido e inspirador mural Franklin Cascaes, assinado pelo artista urbano Thiago Valdi na lateral do edifício Atlas, Centro de Florianópolis, ganhará novos elementos e realidade aumentada. A primeira etapa do trabalho é a pintura do painel, que já começou.
 O conto Balanço Bruxólico e os retratos da esposa de Franklin, 80

a Professora Elizabeth Pavan Cascaes; imagens do amigo Peninha, que se tornou responsável pela difusão das obras; e a lendária Kombi, que transportava o pesquisador pela Ilha para o registro da cultura local, serão pintados no mural. O trabalho, assinado por Valdi, contará com apoio do artista Bruno Brasil (irar Tudix) para a execução.

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SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA - Edição 155 - Dezembro 2020  

Revista do Grupo Literário A ILHA, com 40(quarenta) anos de circulação, a mais perene do brasil. Contato: revisaolca@gmail.com

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