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A gente preza pela qualidade do tempo junto, não a quantidade”, revela Leila, que por aqui leva uma vida bem caseira. Nos finais de semana, não é difícil encontrá-la no Parque da Cidade, lugar que adora. “Desde os tempos da piscina de ondas”, conta. Filha de um mecânico e uma dona de casa, Leila nasceu e viveu na casa 7 da QSD 39, em Taguatinga. Como era hiperativa, a mãe estimulou a prática esportiva nas escolas públicas de Taguatinga. Primeiro o handball e, depois, o vôlei. “Nunca fiz aulinha, todo o meu contato foi na escola, tenho orgulho de dizer isso”. Sua juventude foi embalada pela turma da Legião Urbana, do Aborto Elétrico e do Capital Inicial. “Eu curtia muito Brasília”. Jogava na rua ou usava o varal de roupas da mãe como rede de vôlei, saltando para atacar. Aos poucos, foi se destacando. Aos 15 anos, ganhou uma bolsa no Colégio Maria Auxiliadora para integrar o time. Jogava também pelo time da AABB. Aquela menina alta e magricela sonhava em representar o Brasil. “Eu sempre fui muito competitiva. Em 1988, assistia ao jogo de vôlei das meninas nas Olimpíadas de Seul enquanto tomava café da manhã. O Brasil enfrentava os Estados Unidos e eu, molhando o pãozinho no café, disse para a minha mãe, pela milésima vez: ‘Ainda vou jogar pelo Brasil’. Ela falou: ‘minha filha, pare de sonhar. Você está em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. Não espere isso’. Mas eu acreditava”. Poucos meses depois dessa conversa, um olheiro a viu jogar e a convidou para um teste no Minas Clube. Ela topou. O dia que Leila seguiu para Belo Horizonte, no final de 1988, ainda é tão vivo que parece ter acontecido há pouco tempo. Ela tinha apenas 17 anos e relata, com lágrima nos olhos, detalhes dos diálogos que teve com os pais. Se emociona ao contar que saiu de casa contra a vontade do pai, mas com apoio da mãe. A viagem de ônibus até a cidade mineira foi cheia de medo. Dentre duas mil meninas, apenas cinco seriam escolhidas. Durante uma semana, Leila mostrou seu potencial de ataque com a mão esquerda. “Eu era a mais baixa – com 1,79m de altura –, mas ser canhota era meu diferencial. Um técnico me disse para usar isso como meu trunfo. E foi o que fiz”, conta. E conquistou a vaga. Na equipe Minas se consolidou, ganhou títulos e se apresentou para o mundo. Destacou-se nos campeonatos brasileiros e, em 1991, fez seu primeiro jogo pelo Brasil, ainda na seleção juvenil, no Mundial da Tchecoslováquia. Naquele mesmo ano, foi convocada para a seleção adulta do Brasil, no Sulamericano no Ibirapuera. Foi quando recebeu pela primeira vez a camisa 8. Sua

primeira Olimpíada, em 1992, em Barcelona, ao lado de muitas daquelas atletas que, naquele café da manhã antes da escola, ela viu jogar em Seul. O retorno à Capital aconteceu em 2012. Já tinha desenvolvido em Brasília desde 2006 o Instituto Amigos do Vôlei, ao lado ex-jogadora de vôlei Ricarda Lima, que atendeu mais de 50 mil crianças e jovens carentes do DF, por meio de aulas gratuitas de vôlei. Quando chegou na cidade, criou o Brasília Vôlei, que deixou quando assumiu a secretaria. Leila não queria ser apenas uma ex-jogadora de vôlei que deu muito orgulho para Brasília. Queria cumprir a promessa que fez a mãe, falecida em 2003, vítima de um câncer de mama. Depois que fechou o ciclo como atleta, envolveu-se com projetos sociais e ingressou na vida pública, com o objetivo de usar o esporte como objeto de transformação social. “Eu tinha melhor retorno financeiro e mais qualidade de vida, mas o que me move é a possibilidade de deixar um legado”, conta a ex-atleta, que tem apenas um irmão, Marcelo, que mora em Belo Horizonte. “Muitas vezes pensei em desistir, pela saudade, pelas dificuldades. Mas queria mostrar para o meu pai que eu era capaz”, revela. Em 2014, tentou uma vaga na Câmara Legislativa. Obteve 11.125 votos, mas não se elegeu. Mas foi escolhida pelo governador Rodrigo Rollemberg para assumir a Secretaria de Esportes, que há pouco se fundiu com a de Turismo. “Eu e o Jaime [Recena, subsecretário de Turismo,] temos o mesmo intuito, queremos dar a nossa contribuição. A geração de Brasília chegou.” Sobre o curto orçamento, ela diz: “O esporte nunca é prioridade. Mas antes de ser secretária, eu sou cidadã. Eu sei que existem outras prioridades neste momento”, avalia. A chamada “musa das quadras” mantém seu jeito intenso e temperamental, expansiva, conhecido dos tempos de atleta. Leila é paixão. A explosão antes era em quadra, ao cortar a bola certeira sobre a rede nas adversárias. Hoje, o ataque está no entusiasmo em atuar em projetos sociais. Confira o bate-papo exclusivo com a revista GPS|Brasília.

BRASÍLIA

“Muita gente achava que eu era mineira, mas eu fazia questão de dizer que era de Brasília. Eu levei a cidade comigo, no meu jeito de vestir meio hippie, ao falar ‘véi’, ‘massa’, ‘né’. E eu nunca deixei de estar em Brasília. Era aqui que eu curava minhas feridas. Depois de todos os campeonatos, se ganhasse ou perdesse, eu sempre voltava para os meus pais e a minha família.”

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