Gazeta Vargas - Revista de Artes

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COLABORARAM NESTA EDIÇÃO: Alice Calixto Gonçalves, Arnon Golias, Barbara de Almeida Cardoso, Beatriz Bohmer Oliani, Bruna Calzavara, Bruno Daré, Camilla Myrrha, Carlos Roberto Garcia, Carolina Harada, Carolina Zweig, Caroline Levy, Chiara Mori Passoni, Daniela Carlucci, Eduarda Prado, Fabiana Juliasz, Fabiana Sartori, Frederico Amaral, Gabriel Linares Fernandes, Gabriela Cavagnoli, Gabriela Pinheiro, Giovana Cavalca, Giuliana Garcia Paro, Igor Peressinotto, Joana Getlinger, João Pedro Rodrigues Oliveira, João Victor Sautchuk, Letícia Mancini Bianchini, Lucas Vasconcelos da Silva, Luigi Garzon, Luiza Castelo Vieira, Marina Staubitz, Patrick Zajdenwerg, Pedro Kyun Maschio Shin, Raquel Freire, Thierry Chemalle, Victor Coutinho e Yara Miranda

A Arte é, antes de qualquer outra coisa, forma de expressão. Seja ela política, cultural, social ou econômica, nada é capaz de representar tão bem os filhos do seu tempo quanto a Arte. Tanto que, para compreender os valores de uma sociedade, olhamos para suas pinturas, esculturas e literatura. Depois de tantas brilhantes ideias dos membros dessa entidade, nasce, de todo nosso esforço e dedicação, mais uma inédita edição: a Revista de Artes. Nesta edição especial, a Gazeta Vargas se apresenta imbuída do maior poder de expressão conhecido pelo homem, para mergulhar o leitor nas subjetividades dos alunos da Fundação. “Subjetividades” é, inclusive, o tema da revista, que trará não só aquilo que há dentro de nós, mas aquilo que implicitamente se esconde por baixo de toda pele humana.

DESIGN GRÁFICO: Carolina Harada CAPA: Carolina Harada CONTATO: gazetavargasfgv@gmail.com

Aproveite a viagem pelas Artes que aqui se apresentam e demore-se o tempo que desejar: a Arte não se mede pelo tempo, apenas pela emoção. Espero, em nome de todos os membros, que esta nova forma de se apresentar que a Gazeta criou os entretenha tanto ou mais do que o de costume. Boa viagem!

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Direitos reservados: a Gazeta Vargas não autoriza a reprodução total ou parcial desta publicação para qualquer finalidade, sem autorização prévia.

Alice Rodrigues Ex-Diretora de Artes

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expediente

Alice Rodrigues

André Nogueira

Carolina Harada

Cedric Antunes

Ex-Diretora de Artes

Marketing

Diretora de Artes

Revisão

Isabella Whitaker

Lucas Cabral

Marina Staubitz

Mateus Getlinger

Captação de Recursos

Revisão

Diretora de Marketing

Pedro Caixeta

Raquel Freire

Captação de Recursos

Núcleo de Artes

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Gestão de Projetos

Patrick Zajdenwerg Captação de Recursos


Arrependimento Igor Peressinotto Oh céus O que fui eu fazer? Sinto-me no mundo dos réus Daqueles que ousam se arrepender Por favor cesse este olhar raivoso Sei como realmente agi Comigo mesmo estou furioso Por traçar caminhos que não entendi Deixando de utilizar a razão Acabei ludibriado por prazeres Seguindo pelo poço da emoção Traí todos aqueles bons dizeres Com a mente saturada de lamentação Revolto-me contra este ser Alimentado pela notória frustração Sem novos capítulos a se escrever

Beatriz Bohmer Oliani Expectativa no trem 4


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Joana Getlinger Praia com tempestade

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Sem título Giovana Cavalca Eu te culpo por todos os meus males Aqueles que nem têm a ver com você: aqueles que você nem sabe. Ganhei um péssimo hábito. Ganhei do nada, emendando meus dias nos meus pensamentos, meus pensamentos, [nas minhas tristezas; minhas tristezas, umas nas outras. Dei o nome de dor pra cada saudade. Culpei você pela minha solidão. Fui a única responsável das minhas maiores perdas. Não existem coincidências num dia de chuva.

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Esquizofrenia Carlos Roberto Garcia O que fazer quando se enjoa do gosto da própria saliva? Quando seus olhos não enxergam mais o que deveriam enxergar, e a alma parece estranha no seu próprio corpo, Pra onde fugir, quando é a si que se teme, E pra quem recorrer, quando você é seu próprio juíz e carrasco?

Beatriz Bohmer Oliani Isabela

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Carolina Zweig Sem tĂ­tulo

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Camilla Myrrha A menina que escrevia com sangue 11


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Dangerous dance Thierry Chemalle

Que dança perigosa é o amor Que nivela a qualquer jogador Dá sentido ao martírio do perdedor Questiona os louros do vencedor Dança perigosa de forte sabor Ao cinzento empresta sua cor Como nos disse o poeta-cantor: Delicioso prazer, ser seu servidor A mais humana irracionalidade Ligada ao fio vermelho, à WWmetade Sem que se perca a individualidade Preto e branco, binário, dualidade Caos, desordem, sem gravidade Dança perigosa, real liberdade

Frederico Amaral Dançarinas

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Fabiana Sartori cupid and psyche statue

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Banhos quentes Bruno Daré

estou determinado a não me enfiar num desses. adio o tanto quanto posso, não quero entrar por nada. evito, me previno, vivo me esquivando e me conto desculpas. penso que meus relacionamentos amorosos são como banhos quentes em dias frios. não quero, faço birra. preguiça do desconforto inicial. mas assim que entro, me envolvo e penso comigo mesmo: nossa, que confortável, que aconchego. me vejo preso, não quero sair por nada daquilo que um dia não quis entrar. me apeguei ao cotidiano, fácil e simples. vejo meus dedos já enrugados mas ainda assim a inércia me prende, me diz pra deixar por isso mesmo. saio do banho, não quero, faço birra, mais desconforto. ainda chove dentro da minha cabeça. finalmente seco (ou curado) não quero mais me relacionar com ninguém.

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Chiara Mori Passoni Desconforto

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Carolina Harada Um dia na praia

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Sonho de uma noite de verão Thierry Chemalle Ao inesquecível brilho do luar Às inúmeras estrelas a cintilar A doce liberdade no ouvido sussurrar A beleza da noite estrelada alcançar Tu és metamorfose, livre para voar Tu não és Samsa, os sonhos conquistar Tu não és Sisifo, o esforço recompensar Tu tens o brilho do Sol, para iluminar Sonho de uma noite de verão Sonhos de noites que ainda virão Sonhos intranquilos que cessarão Sonho de uma noite de verão Ser ou não ser, eis a questão Sonho, realidade, ordenação

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MonaLivre Daniela Carlucci

Há muitos anos, estava aprisionada a Eles. Andava pela rua da grande cidade, contida em meus gestos. O pano que eu usava era pouco ousado e cobria todo meu corpo, porém de minha escolha. Queria ser livre. Minha silhueta era acompanhada por olhos indesejados. Diante de um grande mundo, estava presa à condição de objeto de críticas. Queria ser livre. Queria ser igual a Eles,podendo usar o pano de minha escolha. Pelos meus ouvidos, entravam críticas à minha roupa pouco provocativa, algo muito branco, muito pura. Algo que não provocava o desejo neles. Atravessei a rua com esperança de mudança. Queria ser livre. Chegando do outro lado, não obtive mudança. Com meu sorriso contido e enigmático, era julgada pelo muito pano que usava, porém se usasse menos também seria julgada. Queria ser livre. Uma cidade tão grande, apenas para eles. Minhas ações eram reduzidas e restritas àqueles paradoxos da sociedade. Queria ser livre. Os limites impostos pela sociedade dos padrões de como se comportar teriam limite? Não seria mais julgada pelo meu pano e aparência. Não teria que causar desejos nos homens, teria minha postura conservadora. Queria ser livre. Seria livre. Aqueles olhos não me atingiriam mais, minhas palavras teriam vida. Sou livre. Sou igual a eles.

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João Pedro Rodrigues Oliveira Sem título

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João Pedro Rodrigues Oliveira Sem título

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Versos do esquecimento Victor Coutinho Lembra-te: teu ego é vão E, mesmo ao deixar memória, Poucos sobreviverão Ao impiedoso crivo da História. Leva isso, de tal sorte Que, em momentos de arrogância, Lembrarás que, vindo a morte, Perguntar-te-ás em tua ânsia: “Que deixei, quando parti, Que, de mim, o mundo herda?” Não se lembrarão de ti Nem da tua opinião de merda.

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Redenção Igor Peressinotto

Olhe para dentro de sua alma O que encontra? Seria um poço cheio de calma Ou apenas mais uma afronta? Consegue ver algo além de perversão? Acredito que não seja fácil lidar Com toda a constante tensão Que causa a falta de luz no olhar Mas a esperança desejada Não está ainda perdida Talvez o afeto da pessoa amada Possa amenizar toda essa dívida A emoção que sobrepõe a razão Pode acabar trazendo à tona A sempre dormente vontade de superação Pela qual a velha canção sempre entona

João Pedro Rodrigues Oliveira Sem título

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Carolina Harada Visão de Porto

Um ano Sísifo Thierry Chemalle Nova forma e possibilidade Sair do casulo, ir para a cidade Ver o sonho se tornar realidade O que se deseja de verdade Construir a real cumplicidade Que bem rima com alteridade Nada tem com superficialidade Que também não é caridade Mas nesta nossa sociedade Que trabalha até bem tarde E ama pouco, só a metade Certamente não há alarde Ao ver que o pódio retarde E distante fica a felicidade 25


Yara Miranda SP

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Carolina Harada A Golden Gate portuguesa

Carolina Harada Sombras e Caminhos 27


Um suicídio Carolina Zweig Uma história que começa de trás para frente. Não há nada de se esperar, este é o fim da história. Não, eu sei, na vida não é assim. Cada um toma suas decisões às cegas e uma combinação de escolhas várias e fatores involuntários naturais resultam em uma situação. Mas na arte temos a vantagem de não ter que seguir as regras do jogo da vida, fazemos o que nos dá vontade. Eu, por exemplo, decidi desmontar e voltar a montar o relógio desta história para poder começar do final – mesmo que, na vida real, não tenha voltado a enfrentar essa decisão. Então eu continuo. O momento anterior na história do suicida é a decisão. A última decisão e a mais importante da sua vida, dirão alguns. Os mais preconceituosos dirão que um vivo autêntico não o faria, então a decisão de se matar foi tomada por um morto (provavelmente insatisfeito com as más condições da sua morte, tão falha). Deve ter sido uma decisão difícil, mas dizem que quando uma decisão é difícil de se tomar é porque faz tempo que ela já foi tomada. Talvez essa não tenha sido a última nem a mais importante da sua vida nem da sua morte. Estava no banheiro da sua casa. Não porque seja o último lugar que desejava ver – no sentido cronológico quero dizer, não de preferências – mas porque ainda estava vivo e os vivos precisam de privacidade. Apenas os mortos não se esforçam em ocultar-se, se não é feito nada eles continuam ali onde estão e não lhes afeta que os vejam ou os toquem. Não me detenho a descrever qual foi a metodologia utilizada, se houve sangue, se foi imediato, se fez barulho – o tempo se escorre por entre os dedos. Esse mesmo tempo cria o fio cada vez maior de vida deste suicida reverso, para que com este fio teça sua história. Tampouco sei se importa o seu gênero. As diferenças entre os vivos e mortos são tão grandes que fazem com que as que há entre homens e mulheres sejam insignificantes. Além disso, homens e mulheres, ambos temem a morte – alguns a temem tanto que escolhem eles mesmos provocá-la para que ela não os pegue de surpresa. E eles tem razão, não há de se ter medo de algo sobre o qual se tem controle. Ou por acaso vocês têm medo da arte? Centro de Valorização à Vida (CVV): Você pode conversar com um voluntário do CVV ligando para 188 de todo o território nacional, 24 horas todos os dias de forma gratuita.

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Fabiana Juliasz Re(tra)(la)tos 29


Rotina noturna Victor Coutinho

O sono me puxa Agarrado em mim. Por vezes é bruxa; Noutras, querubim. Se vem de mansinho, Se vem turbilhão Ou redemoinho Não muda a intenção: O sono me vem Tirar consciência. Me faz sentir bem, Entregue à dormência. Do mundo disperso Eu entro mais fundo E lá fico imerso No meu próprio mundo. O tempo se escorre Num ralo de pia. Meu sonho se morre, Já é outro dia...

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Gabriela Cavagnoli Sem tĂ­tulo 31


Joana Getlinger Avenida Paulista em dia chuvoso

Antenas Anônimo

conseguia reconhecer. Era surpreendentemente difícil reconhecer um prédio que se vê de baixo quando se está acima dele. Em determinado momento, minha atenção se prendeu em uma cobertura residencial algumas dezenas de metros mais adiante. Me parecia um prédio modernista, com um pequeno jardim sobre o telhado, umas duas espreguiçadeiras de madeira e uma antena grande, ao lado do para raio. “A vista não deve ser nada mal”, pensei comigo mesmo.

Outro dia tive uma reunião em um desses prédios altos da Avenida Paulista. Vigésimo sétimo, vigésimo oitavo andar, algo assim. Coisa chique, cafezinho e pão de queijo distribuídos assim que pisamos na sala. Um desses ambientes projetados para intimidar quem entra, para mostrar quem é que manda. Nos reunimos todos em torno de uma mesa grande dentro de uma sala de vidro com vista panorâmica e em pouco tempo o zumbido baixo da máquina de café expresso já atraía mais a minha atenção do que o discurso de algum dos outros engravatados sentados à minha frente. A voz do sujeito, que eu desconhecia, dava um sono tremendo.

Eu admirava a cobertura com olhar comprido quando brotou, de uma portinhola do chão entre as espreguiçadeiras, um rapaz todo vestido de branco, com um bonezinho amarelo. Ele carregava uma maleta de ferramentas em uma mão e um aparato comprido na outra, que por algum motivo me fazia pensar nos limpadores de chaminés do filme da Mary Poppins. Atrás dele vinha uma

Assim, deixei que meus olhos vagassem pela selva de prédios e torres que se erguia por detrás das janelas, contando os edifícios que 32


jovenzinha de cabelo preso em um rabo de cavalo, vestida no mesmo uniforme. Eles se dirigiram até a antena parabólica e começam a ajustar, apertar e fazer mais Deus sabe o que. Àquela altura minha atenção estava tão longe da sala de reunião que nem sequer a máquina de café eu ouvia. Já formulava milhares de cenários sobre como seria uma vida consertando antenas parabólicas em São Paulo.

peis pelo ar, arremessando a pesada máquina de café contra o vidro grosso das janelas e saindo pela porta com alguma frase de efeito épica (que eu obviamente não tinha a criatividade para bolar). Algo com o mesmo sentido de “Adeus, otários”, porém obviamente com mais classe. Me tornaria uma lenda no escritório, contariam minha saga aos que viessem depois de mim. Eu encontraria uma empresa encarregada da manutenção das altas torres de comunicação, como a que se erguia toda iluminada no topo do prédio da fundação Casper Líbero. Quando ficasse velho demais para subir pelas escadinhas, trabalharia como freelancer: limpador de piscinas em coberturas ou paisagista de coberturas (desde que as coberturas estejam, no mínimo, depois do vigésimo quinto andar. Abaixo disso, qual seria o ponto?). Morreria pobre, mas quem se importa? Poderia contar que passei a vida inteira nas alturas, vendo a vida passar sob os meus pés todos os dias. Passar o resto da vida perto do céu, longe de toda a desgraça que existe sobre o chão. “Vou viver sempre cem metros acima da tristeza”.

“Esses caras devem passar 90% do tempo no topo do mundo” pensei comigo mesmo. Me perguntei se eles também concertavam as grandes torres de rádio e TV, que se erguiam muitos metros acima dos prédios, nos pontos mais altos da cidade. “Mesmo que não sejam eles, alguém faz esse tipo de coisa. Isso com certeza. Um troço daquele tamanho definitivamente precisa de conserto”. Me coloquei a imaginar como seria a vida do sujeito que vai consertar a Torre da Band, há quase duzentos metros de altura. Será que ele usa as escadinhas? Eram necessárias cordas? Será que algum deles levava um lanche, se amarrava lá em cima e ficava fazendo hora e curtindo a vista mais exclusiva da cidade? “Se o meu trabalho fosse concertar torres de sinal e antenas, eu definitivamente tiraria uns minutos para apreciar a vista”, pensei comigo mesmo.

Se fizesse um bom trabalho, talvez pudesse ser contratado para consertar antenas nos arranha-céus de Nova York. E como uma comemoração, quando completasse 50 anos de serviço, poderia ser chamado para fazer um reparo no topo daquele prédio alto em Dubai. “Em honra aos seus anos consertando antenas, vamos te mandar para o topo do prédio mais alto do mundo!”. Sim, não soava nada mal....

Meus olhos giraram pela sala envidraçada. Eu nunca teria uma vista panorâmica do oceano de asfalto, forrado de antenas e costurado por fios que era São Paulo. Nunca poderia chegar no trabalho e ficar me entretendo procurando pontos de referência vistos de cima. “Olha lá o parque!” “Ali não é o hospital?” “Olha, quase certeza de que aquela é a rua que dá em casa”. Não, para fazer isso era necessário pagar os vinte reais na entrada do Farol Santander e tomar um café no mirante. Talvez um drink no edifício Itália, se sobrasse dinheiro no fim do mês. “Eu deveria ter virado consertador de antenas”, pensei por um segundo.

E então, do nada, me dei conta de que os dois trabalhadores já haviam organizado seus materiais e desaparecido da cobertura. Observei o espaço vazio entre as plantinhas e as espreguiçadeiras vazias e suspirei. “Que pena. Voltaram ao chão”. Soltei um último suspiro frustrado e tratei de organizar meus papeis. Logo começaria minha parte da apresentação.

Me imaginei, em um momento de inspiração, batendo na mesa e lançando meus pa33


Heresia Carlos Roberto Garcia

Sou um homem de pouca fé. Não rezo e nem acredito em Deus ou em seus anjos Ou qualquer outra força que me coloque de joelhos. Mas essa noite foi diferente. Essa noite, rezei como um padre que vê o Diabo e como o [devoto que faz uma promessa, Essa noite eu rezei Implorando pra te esquecer.

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Carolina Levy Paris

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Beatriz Bohmer Oliani Baile 36


A Mão Lucas Vasconcelos Ela fala de arte, arquitetura, de como algumas pinturas se parecem com capas de álbuns de músicas de épocas diferentes. Ele entra na brincadeira, apontando para o fato de que o rock and roll dos anos noventa é muito pseudo-psicodélico e o atual rock moderno é muito colorido. Ela diz que toca numa banda, é baterista. Ele se impressiona. Diz que só sabe tocar berrante e vaca no pasto. Ela ri. Sabe que ele já morou na fazenda e que, provavelmente, essa piada é verdadeira. Ela batuca na mesa, despretensiosamente.

“Mãos são a parte mais expressiva do corpo humano”, disse como se estivesse tentando expor um ar de sedução. “Mas por que diz isso?”, indagou a garota, com um sorriso entre suas volumosas e rosadas bochechas. “Eu só sei que são. Elas tateiam”, respondeu à pergunta o jovem, com malandragem digna de um carioca em pleno carnaval. A noite caía sobre São Paulo, enquanto dois jovens davam as mãos e trocavam olhares de ternura numa escadaria em frente à Avenida Nove de Julho. Uma música esquisita ao fundo trazia ao local um certo sentimento de paz e harmonia. A luminosidade marcante da capital paulista fazia as faces de nossos heróis serem destacadas em meio à semi-escuridão da noite-que-não-tem-estrelas. A garota, dona de mãos sensíveis e delicadas, esfregava a parte de trás de seu polegar no dedo indicador do garoto, detentor de mãos cheias de calos e de rugas. Ambos roíam as unhas. Não havia ali parte branca na porção supercutânea dos dedos. Do lado das unhas, feridas e machucados recentes, coisas que acusavam a constante mordeção dos dedos.

Eles se cansam de ficar sentados e se põem à rua. A Avenida Paulista é belíssima durante a noite. Passam por luzes, carros e prédios. Ela diz que um de seus prédios preferidos está ali. Ele se encanta com a simplicidade da frase. Replica que começou a pensar como pensa na atualidade por conta de um prédio na Paulista, logo em frente ao Conjunto Nacional. Ela gosta da ideia. “Vamos para lá”. Ele olha para cima. Ela, para o lado. Ela encosta uma mão em seus dedos. Ele percebe o movimento. Dão as mãos. Lembram daquilo que ele tinha dito um pouco mais cedo. “Parte mais expressiva do corpo”. Ela entendia o que não era dito. Ele via o que jamais seria visto. Iam atravessar a rua. Ônibus, carros, motos, luzes, buzinas, sons, barulhos, São Paulo na frente deles. Ele olha fixamente para ela. Olha para as mãos dadas e diz que “são a parte mais expressiva do corpo humano”.

Ela, com um sorriso bobo no rosto, diz em voz baixa que rói as unhas. Ele, achando a situação levemente engraçada, diz que o faz também. Eles trocam uma risada nervosa e voltam a ficar um olhando para o outro. Ele gosta de como o cabelo dela, mesmo que, aparentemente, seja bagunçado, é meticulosamente calculado por cima da cabeça da garota. Ela gosta do fato dele ter sobrancelhas grossas, intocadas e inertes que pairam sobre seus castanhos olhos.

Ela o beija.

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Joana Getlinger Cidade no vale de rio

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Sem título Giovana Cavalca Hoje eu li um poema E lembrei que poemas existem E acabei lembrando de você. Era um poema tão bonito, daqueles poemas que pesam nas mãos da gente e deixam a pele coberta de formigas [invisíveis que sobem pela pele bem devagar até engolir todo o seu corpo. E quando eu já estava toda engolida Bem dentro do poema Eu pensei que você ia gostar de ficar aqui também. Eu lembrei de você porque o poema era como a gente era. E o poema, tão absurdamente bonito, era escrito em verso livre e então tive certeza de que ele era nosso por que nenhum poema pode ser bonito assim sem ser nem triste, nem bobo, nem amargo - mas esse era. E como você é muito fã do impossível, queria que agora fôssemos dois. Você me lê esse poema?

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Carolina Harada Templo de Asakusa

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Qual é o sentido da vida? Barbara de Almeida Cardoso

Qual é o sentido da vida?

Eu tive que criar força de vontade pra ser uma boa pessoa e no final nada disso era preciso, porque a depressão veio daquele jeito que ela sempre vem, forte e ameaçadora. E a força que você acreditava ter criado não passava de uma ilusão que a sua cabeça já doente - assim como você, e até há mais tempo - joga na sua cara o quão fraca você é e nunca mereceu viver?

Talvez essa não seja a ideia mais racional assim, mas mesmo assim, essa é a pergunta que me rodeia durante os meus dias mais melancólicos. Será mesmo que as respostas para todas essas perguntas nos dariam um sentido ou um certo entendimento para seguir com essa tal vida ou seria mais uma forma de acabar com ela de vez?

Viver é questão de merecimento?

Nunca será descoberto, nem por mim e nem por ninguém, porque o ato de viver é único e próprio, seguindo a sua visão de beleza, nas formas mais simples que podem te trazer o sorriso que sempre esperou.

Quem nos escolheu neste sistema meritocrático para viver? O que fizemos pra ter este mérito de grande nome?

O que não é único e próprio é essa visão triste e deprimente de um mundo de pessoas robôs tendendo a ter a vida como uma padronização até sua possível morte.

Por que vivemos? O que é viver? Vamos ser óbvios e pensar em uma maioria cristã de que foi Deus que nos colocou aqui para um propósito.

Qual deve ser o segredo do seu sorriso? Uma série de inúmeros atos monótonos ou um simples ato de beleza própria?

Qual é esse propósito?

Qual deve ser o segredo da sua paz? Uma energia falsa e contínua como forma de fingir o que sente ou a energia criada dentro de si com o seu ato único e próprio de viver?

Que tal pensar com uma visão mais espírita? O que eu fiz de errado na outra vida para não ter a paz eterna e precisar voltar para esse mundo cruel? Ou melhor, vamos ser racionais e deixar a religião de lado.

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Eduarda Prado Sem título

Retrato d’água Eduarda Prado É de um tom verde musgo o que eu sinto. Uma imensidão vazia e pesada, leves penas de ganso afundando como chumbo na minha história. Outro dia, tentei observar as nuvens com um aspecto mais lógico, analisá-las pelo que são: um emaranhado de gotículas de água em suspensão no ar. Esse breve instante de euforia racional foi discretamente interrompido por uma ventania típica de qualquer cidade beira-mar. O tom azul de céu primaveril apareceu poético e nostálgico através da janela do carro e eu me lembrei de você pela primeira vez.

to eu escorria pelas minhas próprias mãos, deixando como lembrança curtos trechos em um caderninho qualquer e fotografias de objetos estranhos, mãos tortas e um tom de castanho claro. Senhor de sua própria criação, eu aceitava servi-lo com um prazer inocente de quem nunca parou para pensar na inevitável realidade de nunca mais voltar. Queria ter ficado para sempre assim: vivendo a vida me percebendo como forma monocromática e lendo o mundo como gravura da Antiguidade, deuses manifestando-se em cor, festejando o nada.

Nuvens cor de rosa iluminadas pelo sol que se punha aos poucos, descendo com gestos de criança pela mata verde que corria as montanhas. Tempo em que o próprio Tempo passava de modo despercebido enquan-

Mas eis que você me apareceu em uma noite de março, o céu era negro e cheio de nuvens acinzentadas. Eu andava pela rua tentando resolver um velho problema de matemática por meio de uma fórmula decorada, to-

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mando o devido cuidado para não pisar nas linhas que dividiam as formas retangulares da rua. Eu era guiada pela brisa morna que me conduzia de leve pela avenida escura, foi quando o vermelho gritante da porta de um bar me chamou a atenção.

Foi nesses entremeios de euforia intensa e loucuras inconsequentes que você me deixou. Fascinado pela vertigem, você acabou por desejar pular da ponte para descobrir se existia algo mais profundo do que seu tosco reflexo na superfície da água salgada. Sempre soube que meu Narciso não se contentaria em mergulhar alguns míseros quarentas metros para baixo, você sempre precisou de mais, de muito mais.

A razão, apavorada pelo brilho diabólico, deu lugar ao desejo ilógico e pulsante. E eu, que era cor de rosa, deixei de lado qualquer tom que algum dia me pertenceu, dando lugar à luz vermelha que me puxava para dentro. Foi lá que te encontrei: em meio ao caos que o improviso do Jazz transformava o ambiente escuro, cabelo castanho claro e lábios cor de sangue que vieram de imediato ao meu encontro. E você combinava com tudo aquilo, quase como se o bar, a luz vermelha e a mistura caótica de tons do Jazz fossem partes do seu corpo. E talvez fossem, eu já não conseguia distinguir as cores, eu me tornara uma mistura de nuances selvagens. Seus lábios me chamavam para a superfície e, pela primeira vez, desejei viver eternamente sobre a pele que habito.

Como completo caos sem fronteiras ou limites concretos, eu passei a colorir as palavras com cores tristes, tons claros e, dessa vez, foi por mim. Vivo de passados, dos minutos engolidos pelo maior ponteiro do relógio que fica para sempre parado na parede da cozinha. Tempo que passa paradoxo. A parede descasca e, de vez em quando, depois de uma garrafa e meia de vinho, faço um brinde a Ele, o saudando como um velho amigo. Tem vezes que a saudade é preocupante e tenho de fechar os olhos com força pra perder o mar azul escuro e profundo de vista e não acabar me jogando das rochas em busca de você. Mas não há problema, aprendi a lidar com a nostalgia do mesmo jeito como se lida com todo o resto das coisas da vida: lápis e papel na mão, Miles Davis, algumas fotografias desbotadas, poemas de Drummond, a meia luz que entra pela janela do quarto escuro.

Tempo de saudade, é assim que penso e vivo tudo aquilo que tem você ao meu lado. Decidi, por comoção pura e sem limites, ser imperadora do meu próprio tempo e nunca recebi maior castigo. Enfim éramos um só: uma mistura de tons e discos de Jazz espalhados pelas paredes do apartamento. Chet Baker para uma tarde azul chorando de leve deitada ao seu lado, Billy Joel quando vestia verde escuro ou um laranja histérico enquanto dançava alucinadamente, as cortinas fechadas e o relógio marcando o início da madrugada. Tamanha imensidão me deixava maravilhada e eu vivia em um transe contínuo de absurda satisfação. Éramos Tudo e éramos um só.

Na maioria dos momentos sou outra: já fui rosa claro, amarelo meio-dia de luz, azul escuro do mar profundo, vermelho neon das portas de bares, castanho dos fios de cabelo dos comerciais de televisão. No momento, sou de um tom verde musgo por inteiro. É que eu peguei um barco na beira da praia e acabei feito náufraga buscando te alcançar na superfície espelhada.

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Alice Calixto Gonçalves Estrelícia aquarelada

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Amazônia

Anônimo

A terra na Amazônia é infértil. Ela não serve para plantar novas culturas ou novas ideias. Em vão tentaram os extrativistas e os poetas, a floresta é tudo que há para se ver por aqui. Mato denso, fechado, não há caminho para nós por aqui. Cavar também não é uma opção: o Rio Negro, mais bem feito de mercúrio líquido, é um perfeito espelho da floresta. Tudo que tem sobre o solo é simetricamente refletido na água. Não importa onde você olhe, só verá floresta. O efeito que dá é de Caleidoscópio, de Labirinto ou de alguma outra coisa infinita. Aqui, somos meros convidados. Convidados a olhar e sentir, pois não há nada que se possa absorver ou abstrair. Para nós, a floresta está fechada.

Anônimo Amazônia

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Carolina Harada Mistério do Amor

Sem título Daniela Carlucci Me perco por aí Ou aqui Existindo, e não sabendo o que poderia ser Vendo o que poderia viver sem ser o que queria ser

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Carolina Harada ReflexĂŁo

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O Labirinto das Flores Marina Staubitz

Por toda a minha vida tentei encontrar sentido nos espinhos das rosas E por mais belas que fossem as pétalas O que me encantava era o sangue que escorria do toque E eu queria machucar os meus dedos As borboletas me convidaram para dançar E eu me equilibrei nas vitórias-régias Banhei-me num lago cristalino, mas não consegui ver meu reflexo Eu havia me tornado o espelho do que não existe Fui enfeitiçada pelo sussurro dos ventos E me apaixonei pela solidão Sufoquei-me com a névoa de lembranças e de imaginação Cantei junto dos corvos enquanto via a noite apoderar-se do céu A minha coroa era feita de flores Mas minhas artérias se transformaram em caminhos sem saída Acorrentei-me à terra do chão E me permiti chorar pela eternidade Me tornei devota aos espíritos-guardiões de tudo que há de ruim A tristeza, a raiva, o rancor E vivia afundando num mar escuro, sem conseguir respirar Mas adorando a sensação da falta de ar que atormentava os meus pulmões até chegar em terra firme

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Fabiana Sartori monet’s bees

Quando o veneno começou a escorrer, passou a regar ervas-daninhas Elas me encurralaram e me açoitaram, marcando minha pele Com o arrependimento do que não fiz E do que poderia não ter feito Então, veio a tempestade Catastrófica e sombria, como todas as tempestades E eu não tinha como fugir, amordaçada pela minha veneração ao soturno Mas a terra sempre encontra um caminho para se curar Foi quando os relâmpagos se silenciaram A tempestade tornou-se uma garoa E eu espreitei uma asa esverdeada, ressurgindo do chão molhado As plantas estavam renascendo Quando as sementes começaram a germinar Enxerguei a vida que sempre esteve aqui Deixei que a chuva levasse embora toda a melancolia que insisti em sentir Então veio o Sol, e o orvalho, e as abelhas E, finalmente, eu floresci.

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Joana Getlinger Montanhas

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Visão Igor Peressinotto E ao se olhar naquele seu velho espelho Quis ter certeza de suas conformidades Deixar imperceptíveis as mediocridades Estar apresentável àquele rubi vermelho Sentiu-se pronto, preparado para logo ir Nervoso e ansioso, porém esperançoso E o coração a bater de modo silencioso Estava na hora, com um caminho a seguir Os céus cobertos por nuvens de chumbo As águas da chuva carregando mercúrio Canais fluviais consumidos pelo calcário O mundo se assolando ao som do bumbo Chamas poderiam cobrir o vasto horizonte E mares poderiam até engolir o continente Mas sua dama especial o deixaria contente Pois passou a ser da sua visão a única fonte

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Fabiana Juliasz Costelas

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Guguguinhas Gabriel Linares Lentos, são os finitos tempos. Acompanham passo per passo; longa a vida é para aqueles que vivem... compondo-nos o hic e’o nunc.

Coisinha de morte banalizada, destocou corações para ter o teu, o relevante; tornou-se a Razão: a chamada singulariosa grandeza. Sua posse.

Verde cruzante, contundente e liso; toca, mescla, o amor das almas. Dual são as coisas confusas, significam-nos...

Tal é a messiânica e adventícia que lhe circunda: o viajante coração. Empreita-se a astronomia aquática, o desconhe[cido, os Noventa. Vontade: eis a origem das veredas.

Durinho, gostosinho, protege; arrastam o mar, o nosso existir. Missão não tens - e precisa? Apenas são-se.

Brilha: você, elas. União que tem raiz em ti. Entender-te é errar, tentar é vidar.

Volvidas pro mais Estranho, I’u transparente inocente, peculiar, matador; culpa nossa é, eco. Impera a missão sustentadora.

Elas, que era a sua e de certa foi minha. Elas, que fenomenologicamente se expandiram. Elas, que simbolizam. Elas, que te fazem ser e clareiam-me agora. Elas, que cantaram-nos. Elas, as tartarugas.

Evocam as cores - melanquias e mamangos -, tristeza também: os longos anos que nós, os Beges, curtamos. Grafar o ós e os agás. Passos pequenos, engrandecidos pela pressa missionária. Centra-te.

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Letícia Mancini Bianchini Toque

Custos sociais Gabriela Pinheiro Peruou. Um bloco de carnaval de rua no meio de outubro. A quantidade reduzida de glitter era mitigada pelo excesso de abadás, mas aquele mar de gente correndo atrás de um trio elétrico era o mesmo que seria em fevereiro.

Mas essa é a beleza da peruada né? Se tirasse meu celular, altas probabilidades de ser roubada. E esse é um custo que ainda considero alto demais para o benefício que seria dar uma olhada, ou até mais que uma olhada, nessa sua cara

Não te encontrei. Por um lado, ainda bem. Você seria uma distração, uma combinação de piadas ruins, sorrisos marotos e aquele beijo que só você sabe dar...não ia querer sair de lá.

Ou pelo menos é disso que me tento convencer, né? Afinal como escolher entre um celular de três mil reais ou beijar a sua boca, sem burocracias sociais? No começo, a resposta era uma certeza. Agora, será que já tá no tanto faz? Ou será que a que era a minha, não é mais?

Por outro, nem tanto. Dançando no meio da rua, meus olhos pareciam te caçar no meio da multidão. Beijando outras bocas, meus lábios procuravam seus traços.

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Patrick Zajdenwerg e Arnon Golias Cadeiras ao ar

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Giuliana Paro Um amor real e verdadeiro

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Daniela Carlucci Infância

Abraço com areia Daniela Carlucci Amor de praia. Senta na areia mesmo. Gosta de subir numas pedras. Passaria horas dentro do mar. Cantinho do mundo que refresca a alma. Acolhe com o vento. Abraça com a areia. Beija com o Sol. Às vezes, o amor é tanto que o Sol deixa suas marcas de batom. Água salgada. Movimento das ondas. Vai e vem da vida. Ciclos vitalícios. Mergulha em si mesmo. Sentimento é forte, forte como a maré que puxa. Te puxa para estar pertinho de você. Se deixe sentir o que o mar quer te dizer. Escute a natureza. Ela sabe mais de você do que você imagina. Sinfonia. Sintonia da natureza. Barulho das ondas. Cheiro de mar. Cores azul. Areia macia. Água de coco. E você fazendo parte dessa sintonia.

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Gabriela Cavagnoli Sem tĂ­tulo

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Daniela Carlucci Sintonia

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Pedro Kyun Maschio Shin 15M19

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Bruna Calzavara Civilização

Frederico Amaral The Zodiac 61


Raquel Quadrinhos sem histรณria

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Letícia Mancini Bianchini Boys tears

Letícia Mancini Bianchini Corrêspondência entre séculos 63


audiovisual

Lucas Vasconcelos Batida de skate

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Igor Peressinotto

Dawn of the day

What is there to gain?

Luigi Garzon It’s a Man’s Man’s Man’s World

João Victor Sautchuk

Wonderwall 65


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