GABRIEL MOREIRA CARVALHO
HOMOSSEXUALIDADE MASCULINA NA CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO URBANO: DUAS ESPACIALIDADES PAULISTANAS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial de obtenção do título de Arquiteto e Urbanista.
ORIENTADOR: LUIZ ALBERTO FRESL BACKHEUSER
SÃO PAULO 2017
À minha família, que sempre me apoiou nas minhas escolhas. Aos meus amigos que fizeram dos últimos seis anos uma experiência inesquecível. A Arthur dos Santos, um irmão que a vida me deu. Aos mestres Luiz Backheuser e Patricia Martins que deixaram marcas indeléveis na minha formação e se tornaram grandes amigos.
AGRADECIMENTOS Quando ingressei na FAU Mackenzie, seis anos atrás, era apenas um menino que conhecia muito pouco sobre arquitetura e nem sequer sabia quem era Le Corbusier. Não fazia ideia de tudo o que estava pela frente... de todo o conhecimento que iria adquirir, de todos os tombos que iria levar e das dificuldades que teria de superar. Mas graças a algumas pessoas que tive o privilégio de conviver durante o período da minha formação, as coisas ficaram mais fáceis, meus medos ficaram menores e a minha vida mais alegre. Quero agradecer primeiramente aos meus pais e minha irmã pelo apoio incondicional que me deram ao longo de toda a minha vida. Suas palavras e seu amor construíram o ser humano que eu sou hoje. Aos amigos que fiz durante a graduação, muito obrigado, todos esses anos não fariam o menor sentido se não fosse pela amizade de vocês. Tanto nos momentos de festa e alegria, quanto nos momentos de dificuldade e tristeza vocês estiveram por perto. Mariel Marques, você sempre se mostrou uma amiga incondicional, nunca irei me esquecer das músicas que cantamos juntos no Coral Jovem Cênico Mackenzie. Alexander Seiler, meu amigo de todas as horas, quanta coisa vivemos! Paola Beraldo, Mariana Martins, quantas risadas! Jéssica Oliveira, Jéssyca Fonseca, Camila Paciullo, melhor time de projeto! Heleni Karystinos, bendita optativa de sistemas estruturais em concreto pré-fabricado... Aliás, nunca me esquecerei da nossa instalação em Arte contemporânea Marina Caversan, acho que nos divertimos muito... Lucas Ribeiro, você apareceu bem no finalzinho, mas foi muito importante nesses últimos meses, o seu carinho e a sua companhia fizeram toda a diferença. Arthur dos Santos, você sem dúvidas é um dos maiores presentes que a faculdade me deu, levo o seu companheirismo, e todas as suas palavras de otimismo no meu coração.
Por falar em otimismo não poderia esquecer de agradecer a Estela Alves Carneiro, a pessoa que transformou meu intercâmbio e me fez olhar o lado bom de cada situação. Te admiro muito! Gostaria de citar os nomes de todos os amigos que de alguma forma foram importantes para mim durante a graduação, mas como não é possível, quero me desculpar por aqueles não mencionados. Ao mestre, doutor e amigo Bruno Puccinelli, sua generosidade em dividir comigo o conhecimento produzido durante o seu doutorado é imensurável. Todos os momentos em que estivemos juntos foi de profundo aprendizado. Não existem palavras para expressar minha gratidão. Nossas conversas sobre sexualidade e gênero na cidade tiveram importante contribuição para a monografia apresentada aqui. Me sinto grato também pelos professores que eu tive a sorte e a honra de conhecer durante minha formação. Vólia Regina Kato, o brilho no seu olhar a cada aula me emocionavam, como era empolgante discutir os conceitos em estudos socioeconômicos! Lizete Rubano, você simplesmente mudou a minha forma de perceber a cidade e me fez amar urbanismo. Cláudia Alonso, o seu bom dia de manhã transformava a minha rotina, obrigado por todo o carinho! Gabriela Godinho, suas aulas de arquitetura contemporânea me tocaram profundamente, tenho por você grande estima. Eleana Patta Flain, quanta paciência para tirar minhas dúvidas de estrutura! Gostaria de agradecer também à professora Patricia Martins, que entre tantos cafés e almoços juntos, não só aprendi muito sobre arquitetura, como também aprendi a te admirar. Você se tornou uma amiga muito querida! Ao meu orientador Luiz Backheuser, obrigado por acreditar no meu potencial e me dar todo o apoio e coragem necessários para realizar a presente pesquisa. Vou sentir saudades das nossas conversas às quartas-feiras de manhã! Por fim, agradeço por todos os momentos vividos, por todas as noites em claro fazendo trabalho, por todos os erros. Tudo isso me fez perceber o quão longe consigo ir e o quão forte sou quando busco realizar um sonho.
A vida Depois de muitas quedas, eu descobri que, às vezes, quando tudo dá errado, acontecem coisas tão maravilhosas que jamais teriam acontecido se tudo tivesse dado certo. Eu percebi que quando me amei de verdade pude compreender que, em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa. Então pude relaxar… pude perceber que o sofrimento emocional é um sinal de que estou indo contra a minha verdade. Parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Desisti de querer ter sempre razão e com isso errei muito menos vezes. Desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Isso me mantém no presente, que é onde a vida acontece. Descobri que na vida a gente tem mais é que se jogar, porque os tombos são inevitáveis. Percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada. Também percebi que sem amor, sem carinho e sem verdadeiros amigos a vida é vazia e se torna amarga. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo… Mário Quintana
RESUMO A presente monografia é um estudo sobre o território gay de São Paulo. Entende-se por território gay espacialidades na cidade em que se identifica uma aglomeração voluntária de homossexuais que frequentam ou residem em determinado espaço urbano e compartilham de códigos e significados comuns. Dividida em quatro capítulos, a pesquisa investiga as dinâmicas urbanas de duas espacialidades identificadas como estruturadoras do território gay paulistano, a área da República e do Baixo Augusta. O objetivo da pesquisa é, assim, por meio de uma compreensão sobre esse território, conceber uma arquitetura que seja uma resposta condizente às dinâmicas e processos urbanos estudados. Procurou-se entender as origens do território gay paulistano, investigando a participação dos estabelecimentos comerciais no processo de apropriação e significação dos homossexuais na cidade, assim como a ação do mercado imobiliário, analisando criticamente o discurso de revitalização do centro que contextualiza essas ações. A pesquisa também identifica as redes de sociabilidade homossexual presentes no território, e discute os fatores que motivam sua existência, trabalhando com as noções de gueto, pedaço, mancha urbana e circuito. Por fim, o conhecimento adquirido sobre o território gay, suas dinâmicas e processos urbanos são trabalhados em um centro de cidadania e diversidade sexual. A pesquisa, dessa forma, auxilia uma reflexão sobre as decisões arquitetônicas a serem tomadas que potencializam as redes de sociabilidade homossexual estudadas e que ao mesmo tempo promovem a inclusão do grupo não apenas homossexual, mas sim LGBT, no contexto mais amplo da metrópole.
SUMÁRIO Introdução...............................................................................13 1. Conquista de espaços na cidade 1.1 Cruzamento da Ipiranga com a avenida São João.........20 1.2 Galeria metrópole......................................................23 1.3 Caminhando da Paulista em direção a Roosevelt...........27 2. Retorno ao centro 2.1 Degradação e revitalização do centro..........................34 2.2 A face negativa do discurso: gentrificação....................37 2.3 Lançamentos imobiliários e a gaytrificação....................42 3. Território no nível dos códigos e suas dinâmicas 3.1 Diferentes olhares sobre o gueto..................................48 3.2 Desconstrução do gueto e conexão de lugares..............54 4. Diversidade sexual na arquitetura 4.1 Localização...............................................................70 4.2 Partido arquitetônico...................................................70 4.3 Galeria Metrópole: Referência arquitetônica..................72 4.4 Centro de cidadania e diversidade sexual.....................76 4.5 Conceitos do projeto...................................................86 4.5.1Multifuncionalidade 4.5.2 Permeabilidade da quadra 4.5.3 Espaço público Considerações finais................................................................98 Bibliografia.............................................................................104
INTRODUÇÃO
A presente pesquisa tem como tema a homossexualidade masculina na produção da região central da cidade de São Paulo, buscando entender como a homossexualidade se articula à produção de duas centralidades, República e Augusta. O interesse pelo tema surge de uma pesquisa de campo quando cartografava a urbanidade na Praça da República às 12h de uma segunda-feira. Interessado em entender as dinâmicas desse lugar eu registrei a atividade dos atores sociais que compõem esse espaço público, e logo verifiquei a presença significativa de muitos michês, travestis e transexuais dispersos na praça. Intrigado com esse dado me senti instigado a explorar outros lugares nas imediações da Praça da República que são reconhecidos pela frequência do grupo LGBT. Fui à Vieira de Carvalho em um sábado à noite e verifiquei a presença massiva de pessoas LGBT que se aglomeravam na frente dos variados bares e casas noturnas ali presentes, e indicado por outras pessoas, fui no Largo do Arouche em uma noite de domingo testemunhar a reunião festiva de muitos gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transexuais que compartilhavam daquele espaço público. Segundo o Coletivo Arouchianos1 são contabilizadas uma média de duas mil pessoas no Largo do Arouche aos domingos à noite. A partir dessas experiências muitas perguntas vieram à tona: qual a relação que as pessoas LGBT têm com a República? Essas pessoas se identificam com esse território? Existe alguma ideia de pertencimento? Como é construída essa relação? Existe no imaginário popular uma associação entre homossexualidade e a República? Quais os lugares em São Paulo que são considerados gays no imaginário popular? Por que eles receberam esse rótulo? Historicamente como essa associação foi construída?
Pesquisando constatei que essas questões estão diretamente relacionadas à apropriação das pessoas dos espaços urbanos, à construção dos espaços em lugares significados, às relações humanas no território e à sedimentação de ideias e significados nesse. A partir dessas ideias iniciais me senti instigado a me aprofundar no assunto e a investigá-lo no meu trabalho final de graduação. Como estudante de arquitetura proponho nessa monografia pensar a homossexualidade na produção da cidade, trabalhando a cidade no nível dos dados concretos e no nível dos códigos, fazendo uma leitura de duas áreas da região central de São Paulo. Tomo como premissa a perspectiva da cidade como processo, e parto do princípio que o espaço urbano é construído a partir das relações sociais, da mesma forma que as constitui. Sobre isso concordo com Michel Agier: “O próprio ser da cidade surge, então, não como um dado, mas como um processo, humano e vivo, cuja complexidade é a própria matéria da observação, das interpretações e das práticas de fazer cidade” (AGIER, 2011, p. 38-39 apud Puccinelli, 2017, p.15). Três ponderações devem ser feitas. A primeira se refere ao porquê da escolha em trabalhar a categoria homossexualidade masculina em detrimento de trabalhar a sigla LGBT. Trata-se de uma estratégia metodológica para especificar o público-alvo da pesquisa e não cair em equívocos. As categorias que compõem a sigla LGBT estão presentes nas dinâmicas da área de estudo, mas elas são muito diferentes e não podem ser analisadas mediante uma única abordagem. Em segundo lugar é necessário esclarecer que o termo “gay” frequentemente utilizado na pesquisa é empregado como um termo aproximativo para se pensar a homossexualidade, terminologia que tem a função de manejar identidades ou ideias de homossexualidade masculina.
1 O coletivo arouchianos é um coletivo LGBT que visa garantir a visibilidade da comunidade LGBT periférica, e demarcar o Largo do Arouche como um território LGBT por meio da ocupação sócio-cultural, promovendo atividades no espaço público. Organizado por cidadãos comuns de maneira coletiva e independente, o coletivo é uma ferramenta para a ação direta na desconstrução do preconceito que existe na sociedade em relação à comunidade LGBT.
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A terceira ponderação se refere ao recorte espacial da pesquisa. As duas regiões estudadas serão as mesmas do doutorado de Bruno Puccinelli2 , áreas que abrangem trechos das subprefeituras da Consolação e da República. O que me motivou a estudar as mesmas áreas de Puccinelli é porque de fato se tratam de áreas reconhecidas pelo imaginário popular como lugares gays da cidade, isso é verificado na síntese histórica apresentada no primeiro capítulo da pesquisa. Entretanto gostaria de esclarecer que a delimitação dessas áreas foi feita para efeitos metodológicos, uma vez que a pesquisa entende o território como uma área de barreiras porosas e com limites frágeis, se tratam de áreas que podem ser localizadas, mas nunca delimitadas: “O nômade, o espaço nômade, é localizado, não demilitado” (Deleuze & Guattari, 1980 apud GREEN, James Naylor (Org.); TRINDADE, Ronaldo (Org.); SILVA, José Fábio Barbosa da et al., p. 274). Esse assunto ficará mais claro no capítulo dois quando trataremos da noção de código-território, gueto, pedaço, mancha urbana e circuito. Ainda sobre o recorte espacial é importante esclarecer que essas áreas serão tratadas como duas centralidades distintas porque como Puccinelli justifica em sua pesquisa, as pessoas que ali circulam definem as regiões como espacialidades diferentes. Elas serão denominadas de República e Augusta, uma vez que o sociólogo constata que essas duas nomenclaturas são as formas mais recorrentes de identificação desse território pelos seus interlocutores.
compreender a participação do mercado de lazer segmentado na produção desses espaços. O capítulo dois por sua vez investiga a ação do mercado imobiliário no território, analisando criticamente o discurso de revitalização do centro que contextualiza suas ações. Investiga-se também os efeitos que o retorno dos investimentos do mercado imobiliário têm no território gay, discutindo-se a gentrificação da área. Já o terceiro capítulo se detém em analisar essas duas centralidades no nível dos códigos. Trata-se de fazer uma leitura não direta e literal do território, mas sim, lançar novos olhares sobre esses lugares, trabalhando as noções de gueto, pedaço, mancha urbana, e circuito. Finalmente, o quarto capítulo será uma apresentação do meu projeto em um terreno junto à praça da República, um centro de cidadania e diversidade sexual. Nesse capítulo pretendo resumir as ideias principais da proposta, e explicar como o conhecimento adquirido pela presente pesquisa foi aplicado ao projeto.
Afim de analisar as centralidades República e Augusta, estruturo a pesquisa em quatro capítulos. O primeiro faz uma reconstituição histórica do processo de significação dos espaços urbanos da região central de São Paulo e de sua apropriação pelos homossexuais, permitindo que entendamos como a homossexualidade foi constituindo parte da urbanidade desses espaços. Por meio desse percurso histórico conseguimos definir as duas centralidades foco da pesquisa e 2 Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo - Unifesp, produz investigações acerca de temas como relações de poder e diferença em congruência com gênero e sexualidade no contexto urbano. Seu doutorado defendido em Junho de 2017 “ “Perfeito para você, no centro de São Paulo”: Mercado, conflitos urbanos e homossexualidades na produção da cidade” foi grande fonte de inspiração para a presente pesquisa.
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Essa reconstituição histórica também se faz necessária para que o leitor compreenda o processo de formação do que hoje são as duas espacialidades que a pesquisa se dedica a estudar, a Augusta e a República.
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1. CONQUISTA DE ESPAÇOS NA CIDADE
O primeiro capítulo da presente pesquisa dedica-se a fazer uma síntese dos lugares apropriados pelos homossexuais na região central de São Paulo. Recorrendo a antropólogos pioneiros nos estudos sobre as redes de sociabilidade homossexual paulistanas, tais como José Fábio Barbosa da Silva e Néstor Perlongher, esse capítulo pretende oferecer ao leitor um cenário concreto sobre os lugares do centro da cidade em que os homossexuais efetivamente conquistaram o direito de existir.
1.1 Cruzamento da Ipiranga com a avenida São João Existem poucos estudos acadêmicos sobre os lugares de encontro dos homossexuais em São Paulo até a metade do século XX, mas sabe-se que os principais centros de aglomeração do grupo homossexual por volta de 1930 ficava no Anhangabaú – próximo à Avenida São João – e no Largo do Paissandú. (Whitaker et al., 1938-1939). Em 1958, José Fábio Barbosa da Silva, antropólogo pioneiro nos estudos da homossexualidade no Brasil, escreveu sua monografia de especialização em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, intitulada “Homossexualismo em São Paulo”, importante fonte documental que nos permite localizar a homossexualidade na década de 1950: A região principal que tem sobrevivido, por muito tempo, como ponto de encontro de grande parte do grupo homossexual de São Paulo, pode ser caracterizada por um grande T, formado pela confluência das Avenidas São João e Ipiranga, tendo como pontos cardeais os cinemas Oásis, ArtPalácio e início da Rua São Luiz. A vida de rua encontra alguns focos principais: imediações do Café Mocambo (Rua dos Timbiras), Bar do Jeca (Esquina da Avenida São João com a Ipiranga), o passeio de todo o quarteirão formado pelas Avenidas São João e Ipiranga, Praça da República e Rua dos Timbiras, Avenida São João desde o cine Oásis até o ArtPalácio (lado ímpar), Praça Dom José Gaspar (principalmente diante dos bares aí localizados), toda a Praça da República, Largo do Paissandu, Rua São Luiz (principalmente diante dos bares), Praça da Sé, Praça Clóvis Beviláqua, Praça João Mendes, Praça Ramos de Azevedo (em frente à loja Mapping Store). À tarde, na rua Barão de Itapetininga, e nos bares da República, Nick Bar, Mocambo, Jeca, Cremarie, Brahma, Baiúca. Os cinemas ArtPalácio (principalmente às segundas-feiras), Oásis, Marabá (principalmente às quartas-feiras), Cairo, Pedro II, Cinemundi, Santa Helena. Banheiros Públicos, principalmente os da Praça da República, do Largo do Arouche, do Largo do Paissandu, da Praça Ramos de Azevedo e dos cinemas e bares citados. Estações de ônibus intermunicipais, estações de estrada de ferro e quartéis. (SILVA, 1958, p. 73/74).
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Esse trecho é citado também na obra de Néstor Perlongher “O negócio do Michê: prostituição viril em São Paulo”, 1987. Sobre esse trecho Perlongher nos chama a atenção para uma superposição parcial dos pontos de encontro e diversão dos homossexuais com os das prostitutas e delinquentes: A contiguidade com o mundo marginal sempre existiu. Mas eu não tenho notícias de que as bichas estivessem integradas ao mundo autônomo da prostituição. (...) Estavam contíguos mas não se misturavam. Muito perto um do outro, mas acho que nunca houve mistura dessas duas marginalidades (Perlongher, 1987, p.76).
O capítulo “Transformações no espaço urbano: o gueto gay paulistano entre 1959 e 1984”, presente na obra de Perlongher, faz uma descrição detalhada do território homossexual paulistano. Ele contempla uma gama de relatos de homossexuais da época que nos ajudam a cartografar o território e se aproxima da descrição feita por Silva em 1958. Perlongher recorre ao depoimento de dois homossexuais para reconstituir a história desse território, Clóvis e Rolando. Eles relatam os principais pontos de encontro dos gays durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. Sobre a década de 1960 Clóvis relata que os pontos de encontro dos homossexuais se estruturavam nas proximidades das Avenidas São João com a Ipiranga e início da rua São Luís, e se limitavam a bares, cafés e cinemas. Isso era por volta de 1959. (...). No início frequentava a Rua São Luís. Ainda não existia a Galeria Metrópole, mas no lugar onde ela está agora já existiam dois bares frequentados por pessoas homossexuais, Barbazul e Arpege. O Barbazul era mais refinado, pessoas mais convencionais, de terno e gravata, e o Arpege era mais boteco, não tinha mesinhas como o Barbazul, era um bar de balcão. Continuando pela Rua São Luís, onde agora é a Praça Dom José Gaspar, ainda não tinha calçadão, mas já estavam outros dois bares gays: o Cremerie (que ainda existe) e o Pari Bar, que desapareceu por volta de 1983. (...) Continuando do outro lado da rua, havia um bar, bem popular, chamado Turist – este tinha uma frequência misturada entre gays e pessoal de teatro. Tinha um outro bar frequentado pela classe teatral: o Nicky Bar, com piano, ficava ao lado do TBC, na Major Diogo. Fora desse circuito, nas imediações da Ipiranga e São João, já existia, nessa mesma esquina, o Jeca, muito frequentado; e um café, chamado Mocambo, muito sofisticado, detrás do cinema Metro, perto da Avenida
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São João. Também tinha o Brahma (São João esquina Ipiranga, frente ao Jeca), um local mais boêmio. Tinha casas de chá como a Vienense, que ainda existe, na Barão de Itapetininga, frequentada por casos, no começo da noite, final da tarde. Havia também a marginalia; São Paulo já era uma cidade grande. O ponto dos michês era no cinema Itapira, do lado do Jeca, se estendendo pela Avenida São João até a galeria do cinema Lira. (PERLONGHER, 1987, p. 74) As boates gays demoram em aparecer, eu só as conheci na metade da década de 60. Na época anterior, a postura do homossexual era muito comedida, muito elegante. Tinha um bar na Praça Roosevelt, por volta de 1960-1965, chamado João Sebastião Bar. Também na Praça Roosevelt (que então era uma espécie de largo, um estacionamento, ainda não estava construído o minhocão), havia uma outra confeitaria, a Baiúca, também transada por entendidos da classe média e de teatro. (PERLONGHER, 1987, p. 76).
Percebe-se também em seu depoimento que nessa época esses lugares de encontro ainda reproduziam muito os padrões heteronormativos da sociedade, o que coibia a expressão plena do homossexual na cidade: “a tônica gay, antes de 1967, era enrustida e não assumida. Era uma sociedade secreta, entendida” (PERLONGHER, 1987, p. 80). Isso sem dúvida era rebatimento direto de um pensamento tradicional que tendia a classificar os homossexuais em categorias masculinas e femininas, ou seja, existia uma divisão entre as “bichas” (afeminadas) e os “fanchonas” (viris)1: “O homossexual tinha esses valores ativo/passivo muito incorporados, a coisa se dissipou com o tempo. Hoje em dia tem mil caminhos, muitas possibilidades de transa e paquera, uma explosão das possibilidades”. (PERLONGHER, 1987, p. 75). Os homossexuais, segundo Rolando, tinham a fama de serem pessoas intelectualizadas: “pessoas de certa sensibilidade queriam sempre estar em dia com determinados filmes ou discos, para poder levar um papo com o pessoal homossexual da época que era muito intelectualizado”. (PERLONGHER, 1987, p. 77). Mas mesmo adotando uma postura discreta e sendo valorizados intelectualmente, Clóvis relata que os lugares em que a homossexualidade era muito nítida já sofriam
repressão da polícia, o que causava uma dispersão das pessoas e um consequente êxodo do gueto. Segundo Clóvis, isso explica parcialmente o porquê dos lugares homossexuais mudarem frequentemente no território, outro motivo que colabora para esse fato é uma questão de moda. Para ele “o gay tem um pouco de se enjoar do lugar, gosta de novidade. Havendo o pretexto e o incomodo da repressão, era uma coisa que acionava mais essa mudança”. (PERLONGHER, 1987, p. 76). 1.2 galeria metrópole Em 1964 a Galeria Metrópole foi inaugurada na praça Dom José Gaspar, projetada por Salvador Candia e Giancarlo Gasperini, ela dava continuidade ao “território das Galerias Comerciais que já se encontrava idealmente constituído” no centro de São Paulo. (FERRONI, 2008, p. 89). Porém diferentemente das outras galerias existentes nas imediações, ela se tornou importante ponto de encontro homossexual. Segundo Eduardo Ferroni, arquiteto que realizou um estudo da galeria metrópole em sua dissertação de mestrado, as galerias comerciais construídas nas décadas de 1950 e 1960 visavam uma “interlocução entre o edifício e o “chão” da cidade, promovendo a continuidade do passeio público pelo seu interior”. “Assim, os espaços comerciais que abrigavam o passeio pelo interior dos edifícios confundiam-se com as praças e as calçadas do logradouro público, multiplicando suas possibilidades de apropriação”. (FERRONI, 2008, p. 91). Nesse momento é interessante notar o reflexo da arquitetura das galerias comerciais nos hábitos das pessoas. Na obra de Perlongher, Clóvis relata que a paquera na década de 60 era sobretudo caminhante: A paquera motorizada no circuito (onde agora é o calçadão) que se apodava “Autorama”, aparece só nos anos 70. Até então era uma badalação incrível, mas a pé, nas imediações da Galeria Metrópole. (PERLONGHER, 1987, p. 78-79).
1 A lógica heteronormativa que determinou o comportamento dos homossexuais por muito tempo em São Paulo é abordada por Peter Fry e Edward Macrae na obra “O que é homossexualidade?” (1985), nela o antagonismo ativo/passivo apontado por Néstor Perlongher é melhor explicado.
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Um fato curioso é que a inauguração da Galeria Metrópole se deu no mesmo ano do golpe da ditadura militar, mas segundo os relatos presentes na obra de Perlongher, “A revolução de 1964 não surtiu efeito imediato entre as pessoas”, e em 1966 e 1967 foi o auge da Galeria Metrópole: “os garotos ficavam andando pela cidade. Tinha noites 500, 600 garotos te chamavam, não queriam grana, queriam transar” (PERLONGHER, 1987, p.79). 1967: o ponto quente da vida gay paulistana era a Galeria Metrópole. Cheia de bares, boates, inferninhos, fliperamas, galerias, livrarias, escadas rolantes, etc., a Galeria misturava não só o mundo gay, mas também intelectuais, artistas, poetas, encucados, suicidas, prostitutas, gigolôs, cafetinas, músicos, e mais a bossa nova, o jazz, o rock, a tropicália, a psicodélica, o álcool, as drogas e é claro, a polícia. (PERLONGHER, 1987, p.80). Mas como relatam os jornais da época, a galeria teve seu apogeu e declínio em 68, por ocasião da visita da rainha Elisabeth ao Brasil. Nesse momento houve uma política de higienização do centro, e a polícia “para limpar a cidade das suas criaturas indesejáveis, prendeu meio mundo e instalou o grilo”. (PERLONGHER, 1987, p.80). Logo em seguida veio o AI-5, o que colaborou ainda mais para a repressão policial na galeria e seu consequente declínio: “Aí houve um grande momento de blitz maciça. Na Galeria Metrópole foram fechadas as suas três portas, e em camburões e ônibus levavam preso todo mundo. Isso conseguiu diminuir a frequência, e a Galeria Metrópole caiu no declínio”. (PERLONGHER, 1987, p.78).
Figura 1: Croqui do projeto da Galeria Metrópole.
Na década de 1970 foi construído um grande calçadão na Praça Dom José Gaspar, bloqueando o movimento dos carros. Logo, a praça Dom José Gaspar tornou-se ponto de michês. Nessa mesma época as pessoas foram deixando de caminhar a pé para adotar o automóvel, foi quando nasceu o autorama: “uma extensão da galeria, até as imediações do Teatro Municipal, onde rodava o pessoal de carro”. (PERLONGHER, 1987, p.81). Quando a Galeria Metrópole foi finalmente esvaziada sobreveio o auge da rua Nestor Pestana: um local absorvido pelos gays sem ser de características exclusivamente gays, que é em seguida esvaziado por uma nova repressão poli-
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cial. Assim, os gays confluem para o Largo do Arouche, que depois se expande para a Vieira de Carvalho. “Esse processo tem seu apogeu no final dos anos 70, 1978, 1979, justo antes das blitz de Richetti, que foram em 1980” (PERLONGHER, 1987, p. 84).
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Nos finais dos anos 70 acontece a expansão das boates para além do centro novo de São Paulo, trata-se da expansão do circuito da paquera gay aos jardins, como a inauguração da boate Saloon, uma das primeiras a sair do centro novo.
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Contudo, existe também a hipótese de que a Grand Metrópole fechou suas portas devido às pressões do condomínio comercial localizado sobre seu embasamento. Sua breve existência faz parte do processo de incremento nas opções de lazer noturno direcionadas a gays na região, e é uma amostra da persistência histórica desse edifício híbrido em constituir parte da rede de sociabilidade homossexual presente no centro paulistano. 1.3 Caminhando da Paulista em direção ao baixo augusta
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Figura 2: Território das galerias comerciais no novo centro.
Curiosamente em 2013 foi inaugurada a casa noturna Grand Metrópole no antigo cinema da galeria Metrópole, fechada dois anos mais tarde depois de ter sido constatado pelo corpo de bombeiros que o estabelecimento não obedecia às normas de segurança contra incêndio.
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Edifício Copan Condomínio / Zarvos Edifício Louvre Edifíio Itália Galeria Metrópole Edifício Esther Galeria Ipê Galeria 7 de Abril
9. Galeria das Artes 10. Galeria Nova Barão 11. Galeria Louza 12. Galeria Califórnia 13. Galeria Itapetininga 14. Galeria R. Monteiro / Itá 15. Galeria Guatapará 16. Conjunto Presidente
Mas as opções de lazer direcionadas ou frequentadas por homossexuais nos Jardins duraram pouco, gradualmente elas foram se deslocando para as ruas que partem da Avenida Paulista em direção ao Baixo Augusta, devido às pressões do mercado imobiliário e das associações de bairros contrárias a esses espaços. Entretanto, deve-se ponderar que, como afirma Puccinelli, “não se trata de uma ida das mesmas casas ou empresários para essas regiões, mas de uma mudança em termos de estilos, opções e lideranças de mercado” (Puccinelli, 2017, p.40). Nasce então uma nova centralidade gay que denominaremos de Augusta, mas também conhecida popularmente como Baixo Augusta. Trata-se de um território que tem como polaridades lineares a rua Augusta e a rua Frei Caneca, e 27
que conecta dois pontos de referência na região central, a avenida Paulista e a Praça Franklin Roosevelt. Reconhecida por muito tempo como um lugar perigoso e sujo, ponto de prostituição e vícios, os significados associados à região da Augusta foram se transformando com a ação do mercado de lazer segmentado, fazendo com que a região passasse a ser considerada um “agregador polissêmico” (Puccinelli, 2017, p.58) que vincula, principalmente, noções de diversidade e tolerância. O empreendimento pioneiro desse processo de ressignificação do espaço urbano foi o Vegas Club, casa noturna direcionada a homossexuais fundada em 2005 pelo empresário Facundo Guerra2 . A partir de sua inauguração, bares, casas noturnas, salões de beleza, supermercados e outros empreendimentos abriram suas portas, e iniciou-se uma coexistência e diversificação de públicos no território, como afirma o jornalista e DJ Lúcio Ribeiro: “Fez prostitutas e cafetões dividirem espaço com a galera da noite (...) Fez nascer a fama do Baixo Augusta, provocou abertura de clubes, outros bares, botou a região no mapa das artes de São Paulo”. (Ribeiro apud Puccinelli, 2017, p.50). Nesse momento as construtoras identificam o valor agregado à Augusta e inicia-se um processo de especulação imobiliária que expulsa os empreendimentos de lazer. O mercado imobiliário passa a produzir alterações irreversíveis na quantidade de casas noturnas e bares da região “já que opera principalmente por demolições em regiões já bastante ocupadas, como a rua Augusta” (Puccinelli, 2017, p. 44). A ações do mercado imobiliário serão discutidas mais profundamente no capítulo seguinte, discutindo as ideias de revitalização da área central e a hipótese de gentrificação do território. 2 Facundo Guerra é descrito por diversos meios de comunicação como o “rei da noite” pelo fato de ser dono de diversos estabelecimentos de lazer frequentados por homossexuais e abertos durante a existência do pioneiro Vegas Club. São eles o Z Carniceira (bar – Augusta, posteriormente mudou para a Faria Lima), Yatch Club (casa noturna – Bela Vista), Volt (bar – Augusta), Club Lions (casa Noturna – Sé), Cine Joia (casa de shows/casa noturna – Liberdade), Bar Riviera (bar – Consolação), PanAm (casa noturna – Bela Vista) e Cine Drive-In (sala de cinema no Cine Belas Artes – Consolação). (Puccinelli, 2017).
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Figura 3: Grafite em empena cega de prédio na rua da Consolação ao lado da praça Roosevelt. Fonte: acervo pessoal.
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Figura 4: mapa do recorte espacial da pesquisa.
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2. RETORNO AO CENTRO
Percebe-se um interesse renovado do mercado imobiliário pelo centro de São Paulo. O centro da cidade que passou por um período de decadência e onde todos os tipos de vícios e imoralidade convergiam (Parker, 2002), passa a ser alvo de investimentos das construtoras. Os motivos e as consequências de suas ações no espaço urbano são investigados nesse capítulo, procurando entender de que forma a homossexualidade participa desse processo de valorização da área central.
2.1 Degradação e revitalização da área central A produção do obsoletismo do centro de São Paulo tem origem nos interesses do mercado imobiliário e das camadas de alta renda que sempre dominaram o processo de produção dos espaços urbanos afim de garantir a reprodução e acumulação do capital. As atividades de comércio e serviços mais sofisticados que até a década de 1950 e 1960 se concentravam no centro (diga-se o centro novo1 , a oeste do Anhangabaú), passaram a ocupar porções mais afastadas na direção sudoeste e mais acessíveis por automóveis, como a avenida Paulista, principalmente. Assim, o centro deixou de ser a principal localização para os investimentos privados do mercado imobiliário, da mesma forma que deixaram de ser o principal lugar de concentração de empregos das camadas de alta renda, os quais passaram a se localizar nos novos subcentros do setor sudoeste. Entretanto, ao mesmo tempo em que ocorria a dispersão das atividades econômicas voltadas às elites e sua saída do centro novo, houve uma intensificação dos usos e ocupação desse e dos bairros de seu entorno, com construções de grandes edifícios verticais de uso misto e aumento do tráfego de veículos, transformando diversos espaços públicos em estacionamentos. “Destaca-se a tipologia kitchenette, menor subdivisão vendável que garante altas possibilidades de lucro, e o quarto-sala serviços. Os edifícios, em sua maioria com mais de 15 pavimentos e chegando a quase 30, associando o uso comercial e de serviços no térreo e, em muitos casos, outras tipologias de unidades, com dois ou três dormitórios. (...) Os edifícios-conjuntos se caracterizam por agregar múltiplas atividades – cinemas, comércio, restaurantes, escritórios, ruas internas -, e os edifícios-galeria, pela articulação inovadora entre espaço edificado e espaço urbano”. (FELDMAN, 2004, p.43-44).
Logo, percebe-se que o movimento de abandono do centro é na verdade a saída das elites, mas não das camadas de renda média e baixa. Configura-se, na
verdade, uma mistura de usos e classes sociais, marcando uma maior heterogeneidade de renda do que no resto da cidade (LABHAB/LILP/CAIXA, 2006), com marcantes diferenciações internas na própria área central. Quando se fala em revitalização, requalificação ou reabilitação do centro e da área central, as políticas públicas têm focado no espaço que foi abandonado pelos interesses das camadas de alta renda, do mercado imobiliário e do próprio Estado, focando principalmente nos distritos que compõem a subprefeitura da Sé. Esses distritos sofreram uma desvalorização e tiveram um aumento de sua ocupação pelas camadas de baixa renda, conferindo à área central caráter de centro deselitizado e metropolitano. A gestão do atual prefeito de São Paulo, João Dória 2017/2020, entende a revitalização do centro como a retomada de sua dinâmica econômica, atraindo usuários, empresas, e moradores de maior poder aquisitivo, revalorizando os imóveis, alternado os usos e recuperando seu estatuto de espaço emblemático da cidade, espaço onde a cidade encontra sua identidade. Esse modelo de revitalização acredita que comércios e serviços sofisticados, classes de alta e média renda, setores do mercado imobiliário, entre outros usos e atividades de alto padrão estariam saindo do centro devido sua degradação. A degradação do centro por sua vez é associada à ocupação pelas classes de baixa renda, à sujeira e não conservação dos espaços públicos e edifícios, às dificuldades em acessá-lo por automóvel e à existência de um estoque imobiliário inadequado às demandas econômicas contemporâneas “globais”. Logo, por de trás desses diagnósticos existe a crença de que o centro anteriormente era belo, limpo e seguro, com atividades e usos destinados às camadas de rendas média e alta, e que tais grupos o ocupavam de forma homogênea. Verifica-se uma retomada dos investimentos do mercado imobiliário no centro, e parcerias público privadas que objetivam revitalizar a área central. Mas quais seriam as reais consequências desse enobrecimento do centro da cidade?
1 Termo que designa o quadrilátero localizado no centro histórico de São Paulo delimitado pelas ruas Xavier de Toledo, Av. Ipiranga, Av. São João e Av. São Luiz.
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2.2 A face negativa do discurso: gentrificação O enobrecimento não é apenas uma política de exclusão, mas uma faceta delicada das dinâmicas urbanas, uma vez que quanto mais afirma o valor e o papel da cidade, lembra que o ar da cidade liberta apenas aqueles que sabem e podem viver nela. (Rubino, 2009, p.37, apud Puccinelli, 2017, p. 19). Em São Paulo o termo revitalização, segundo Puccinelli (2017) é utilizado para naturalizar o discurso de agentes públicos e privados que tentam intervir em certos territórios.
Figura 5: gráfico da variação do crescimento populacional em São Paulo e nas regiões da cidade nos decênios censitários.
Logo, é importante chamar a atenção para o significado negativo desse termo: “A ideia de “revitalizar”, contudo, supõe um lugar “sem vida” ou cujas vidas não importam” (Puccinelli, 2017, p.42). Por de trás do discurso de revitalização pode-se aventar a hipótese de uma gentrificação do território cujas consequências seriam a retirada da humanidade das pessoas que habitavam determinado lugar: “As ideias de revitalização ou renascimento de uma vizinhança retira a humanidade daqueles que não moram mais lá.” (Puccinelli, 2017, p.43). Smith também observa que gentrificação é frequentemente sinônimo de regeneração urbana, ou revitalização, e encarada pelas municipalidades em acordo com o setor privado como uma estratégia urbana que têm como discurso a transformação dos centros das cidades em lugares mais agradáveis para serem frequentados (Smith apud Queiroz, 2008). Gentrificação1 por sua vez, tem como definição clássica a retomada de espaços físicos degradados dos centros das cidades por classes média-alta para uso normalmente residencial, fazendo com que as classes populares que ali moram se desloquem para outros lugares. Ou seja, trata-se de um fenômeno de deslocamento/expulsão de um grupo pré-existente por outro economicamente distinto, redefinindo o espaço social da área. (QUEIROZ, 2008). 1 Derivada do termo inglês gentry, um estamento social na Inglaterra dos séculos XVI e XVII imediatamente abaixo da nobreza. Esse termo foi usado pela primeira vez pela socióloga Ruth Glass para se referir à invasão dos bairros operários da cidade de Londres por parte de membros da classe média. (QUEIROZ, 2008).
Figura 6: gráfico da variação da taxa de crescimento populacional na região de São Paulo.
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A possibilidade do mercado imobiliário estar promovendo a gentrificação no centro de São Paulo existe, e o primeiro indício dela estar acontecendo atualmente na região da República e do Baixo Augusta, é a expulsão já mencionada dos estabelecimentos comerciais que não conseguem competir com o poder dos empreendimentos residenciais. Conforme aponta Puccinelli, dois grandes empresários da noite, Guerra e Yousseff, donos dos respectivos Vegas Club e Studio SP “localizaram no mercado imobiliário os motivos de suas respectivas saídas, argumentando que seus endereços seriam derrubados para a construção de novos edifícios” (PUCCINELLI, 2017, p. 53). A gentrificação tem como verdadeiro objetivo, segundo Smith, “livrar” os lugares de algum tipo de estigma que até então continham, e assim, obter lucros por meio da valorização do solo. Pode-se assim falar em uma consequente desestigmatização do território por meio da remoção de pessoas estigmatizadas.
Figura 7: gráfico da variação do número de lançamentos verticais residenciais em São Paulo e na Subprefeitura da Sé. Fonte: Puccinelli, 2017.
Hiernaux-Nicolas também identifica a desestigmatização como uma das consequências da gentrificação, está associada a ela, segundo ele, ideias higienistas que tentam mudar a imagem das áreas centrais da cidade. (Hiernaux-Nicolas, 2006, p.255). Sarah Schulman (2008) em seu livro “The gentrification of the mind: witness to a lost imagination” tem um pensamento semelhante ao de Smith e Hiernaux-Nicolas referente aos efeitos da gentrificação em desestigmatizar o território. Apesar de não utilizar especificamente o termo desestigmatização, ela adverte que a gentrificação homogeneíza a complexidade, a diferença, e a substitui pela semelhança. Segundo a autora, trata-se da remoção de comunidades de diversas classes, etnias, raças, sexualidades, línguas, dos bairros centrais das cidades e sua substituição por grupos semelhantes.
Figura 8: gráfico do número de unidades residenciais lançados em 1999, 2005 e entre 2010 e 2015. Fonte: Puccinelli, 2017.
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Historicamente as cidades oferecem a possibilidade de criação de novas ideias, contribuindo assim para a liberdade dos indivíduos (Schulman, 2008). A gentrificação por sua vez aniquilaria a energia vibrante que a diversidade produz nas cidades, removendo a mistura dinâmica que define a urbanidade. Nesse sentido, poderíamos aventar a hipótese de uma gaytrificação nas centralidades República e Augusta a partir da análise das ações e discursos do mercado imobiliário. 39
Figura 9: mapa dos lançamentos residenciais laçados entre 2011 e 2016 em São Paulo. Fonte: acervo pessoal.
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1. 2. 3. 4. 5.
Cena Paulista Urbe Paulista Terraço Paulista Zoom Paulista Soul Paulista
6. Residencial Jardim Paulista 7. NKSP 8. Maxhaus 9. Brasília Urban Solution 10. Paulista Home Resort
11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18.
The Office Ibis Budget Haddock home London SP Residence Bela Cintra Style Vision Paulista BelAugusta iQuali Augusta
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Capital Augusta Link Home Augusta Augusta Hype Living Universo Augusta Futuro lançamento Frei Caneca New Life VIP Augusta exclusive home Montion Avanhandava
27. 28. 29. 30. 31. 32. 33.
Studio Avanhandava Edifício Brasil Setin Downtown São Luís Setin Downtown República Vibe República BK30 Largo do Arouche Smart Santa Cecília 41
2.3 Lançamentos imobiliários e a gaytrificação “Existe a gentrificação que acontece em edifícios e bairros, e existe uma gentrificação que acontece com ideias”1. (Schuman, 2013, p.29) Retomando o processo histórico descrito no primeiro capítulo, verificou-se um deslocamento de significados da Augusta a partir da ação do mercado de lazer segmentado. O mercado imobiliário por sua vez se apoderou das conotações positivas que foram sendo associadas ao lugar e em torno da noção de gay, utilizando-as em seu favor. Assiste-se atualmente a um crescente investimento imobiliário no centro, e em especial nos distritos da Consolação e da República, espaços em que estão localizadas as centralidades estudadas.
gay que habita determinado território. Trata-se da promoção pelo mercado imobiliário da crença de que o gay que habita a região da Augusta possui o seguinte perfil: “pessoas solteiras, de formação superior, profissionais liberais, com refinamento no consumo de bens duráveis e nos espaços de lazer” (Puccinelli, 2017, p. 99), associando ao lugar a ideia de um tipo de gay ideal, um gay que segue os padrões heteronormativos que regem a sociedade.
Inicialmente esse investimento se deu no território da Augusta, e seu caso mais emblemático é a Nova Paim, apelido que a rua Paim recebeu após ser transformada drasticamente pelos empreendimentos imobiliários. Percebida pelos moradores da região como uma continuidade da rua Frei Caneca, o logradouro recebeu 6 empreendimentos de alto padrão entre 2011 e 2016, habitados por um número expressivo de homossexuais, apesar de não existirem dados censitários que confirmem essa informação. Não é possível afirmarmos que está em curso um processo de gentrificação gay na Augusta nos moldes das vizinhanças gays norte-americanas e europeias, além da falta de números concretos, existe uma mistura de pessoas e classes sociais nessa espacialidade muito grande. Mas ainda assim, é possível dizer, pautados em observações empíricas, que existe uma aglomeração de moradores gays na Augusta com um perfil muito diferente dos gays presentes na República. Poderíamos explicar essa diferença de público gay por meio da noção de gaytrificação. Gaytrificação é um neologismo que surgiu de uma conversa com Bruno Puccinelli sobre o poder da gentrificação de segregar os homossexuais na cidade, devido à uma diferenciação de poder econômico. Mas além disso, a gaytrificação teria o poder de deslocar as ideias presentes no imaginário popular sobre o tipo de 1 Tradução livre do trecho: “There is a gentrification that happens to buildings and neighborhoods and there is a gentrification that happens to ideas” (Schulman, 2013, p. 29).
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Figura 10: casal de homossexuais caminhando na rua Paim.
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Uma das formas de verificarmos o desejo do mercado imobiliário de atrair um público gay com um perfil específico é por meio dos anúncios publicitários coletados por Puccinelli em seu doutorado. Comentando especificamente sobre os anúncios dos empreendimentos imobiliários no Arouche, faz-se a seguinte observação: “Há uma predominância das ilustrações em apresentar um homem jovem, magro, branco e bem-sucedido, que conhece novas tecnologias, as utiliza e se preocupa com seu impacto no ambiente da cidade e no meio ambiente de forma geral. Isso não poderia ser mais distante do que observamos em parte da dinâmica massiva de frequência e circulação no Arouche: rapazes jovens, efeminados, negros e moradores das periferias em sua maioria. Cabe a esses materiais, portanto, conjugar um comprador que está na região sem que este seja identificado com a presença homossexual frequente e mais visível no largo. É no interstício deste jogo de valorização do espaço a partir de uma masculinização específica, antenada, moderna e cosmopolita que se criam movimentos de presença gay distintos (...)” (Puccinelli, 2017, p.134-135)
Figura 11: anúncio publicitário do empreendimento MaxHaus localizado na rua Paim.
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Figura 12: anúncio publicitário do empreendimento Vibe localizado na rua Marquês de Itú.
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Para o antropólogo, existe no território uma dimensão espacial concreta básica, mas que não se sustenta por si própria, está intrinsicamente associada a ela, uma outra dimensão espacial, uma dimensão no nível dos códigos. A expressão “código-território” se refere a essa relação entre o código e o território definido por seu funcionamento. Sob essa perspectiva propõem-se pensar as territorialidades Augusta e República nesse capítulo, explorando os significados que caracterizam esses espaços urbanos. Esse capítulo pretende oferecer formas alternativas de se compreender o território, trabalhando as noções de gueto, código-território, pedaço, mancha urbana e circuito.
3. TERRITÓRIO NO NÍVEL DOS CÓDIGOS
Esse capítulo nasceu de uma expressão utilizada por Perlongher em seu texto “Territórios marginais”, o chamado código-território. O antropólogo ao utilizar essa expressão faz referência direta ao processo de sobrecodificação -“surcodage”, código de códigos - cunhado por Deleuze e Parnet em “Diálogos” (1980).
2.1 Diferentes olhares sobre o gueto Como Puccinelli afirma, grande parte dos pesquisadores sobre os territórios gays utilizam da expressão “gueto” como meio de se localizarem no espaço. Contudo, muitos são os entendimentos do que viria ser um gueto na cidade, e muitos são também os mal-entendidos e visões generalistas sobre esse termo que conduzem a ideias negativas, e que excluem outras possibilidades de se pensar esse processo urbano.
Silva em seu texto chama a atenção para o aspecto comunitário do gueto homossexual paulistano, afinal, é por meio da construção de um espírito de comunidade que a identidade homossexual se torna pública. A identidade gay que antes era reprimida e como Silva constata em 1958, restrita até o início do século XIX a ”bares e espaços para namoro, além dos banheiros e parques públicos”, finalmente puderam “dar lugar à expressão de um estilo de vida homossexual” e “encorajavam uma identidade que é pública, coletiva e propícia para suporte de uma consciência coletiva” (Silva, 2001, p. 232).
Nesse capítulo proponho conhecermos os diferentes pontos de vista sobre a noção de gueto, afim de traçarmos possíveis relações com as territorialidades estudadas. O dicionário Houaiss nos oferece 3 definições da palavra gueto:
Comunidade e identidade homossexual expressas no território, esses se mostram, portanto, como os aspectos positivos do gueto que Silva valoriza em seu texto:
1. na maioria das cidades europeias, bairro onde todo judeu era obrigado a residir 2. p.ext. bairro de uma cidade onde vivem os membros de uma etnia ou outro grupo minoritário, freq. devido a injunções, pressões ou circunstâncias econômicas ou sociais 3. p.ext. todo estilo de vida ou tipo de existência resultante de tratamento discriminativo
Os homossexuais criam códigos para identificar-se e saber quem pertenceria ou não à comunidade. Dessa forma, o gueto torna possível aos membros criar e reforçar ligações mútuas dependentes. A confiança é estabelecida entre os membros do grupo por meio de rituais e sinais de reconhecimento que não têm outras razões senão reforçar o grupo minoritário contra o grupo majoritário. (Maffesoli, 1998, p. 131).
Percebe-se que as definições etimológicas de gueto estão ligadas a ideias pejorativas, ligadas à uma origem histórica obscura, a segregação espacial coercitiva dos judeus na Europa. Essa ideia por sua vez se generalizou para os espaços urbanos onde todas as etnias ou grupos minoritários vivem, imputando um caráter de algo involuntário, e apontando os guetos como consequência de fatores como injunções, pressões ou circunstâncias econômicas ou sociais, ou ainda, como consequência da discriminação da sociedade. José Fábio Barbosa da Silva aborda em “Lembranças passadas a limpo: A homossexualidade em São Paulo” (2001), a formação dos guetos em São Paulo por meio do processo denominado por ele de guetificação, oferecendo um olhar menos pejorativo sobre o assunto. Gueto é descrito por ele como o processo de criação de novos espaços territoriais destinados a um grupo social minoritário, e pode resultar de forças internas e/ou externas ao grupo. No caso da comunidade gay é um processo que advém da sociedade que a marginaliza (força externa), e também resultado de uma vontade de viver ao lado de seus semelhantes, a chamada meta de propinquidade (força interna). 48
Trata-se do “estabelecimento de um éthos homossexual que deve ser pensado como uma ação coletiva: a comunidade age para subverter o paradigma heterossexual dominante”. (Silva, 2001, p. 231). Semelhante abordagem é feita por Edward MacRae em 1983 em seu texto “Em defesa do gueto”. Para esse antropólogo, o gueto é um lugar onde as pressões sociais são momentaneamente afastadas, permitindo ao homossexual se assumir e testar uma nova identidade social. Uma vez construída essa nova identidade, ele adquire coragem para assumi-la em âmbitos menos restritos, até se assumir abertamente. Assim, o gueto é apontado pelo pesquisador como importante local de refúgio e foco gerador de novos padrões de atitudes, além de permitir que a sociabilidade homossexual se dê no espaço público, integrando pessoas de diferentes níveis socioeconômicos e raciais. Segundo Macrae, o homossexual não deveria ser encarado como uma coisa à parte, porém diante de uma sociedade desigual e preconceituosa, o gueto se faz necessário para firmar a validade de diferentes orientações sexuais na sociedade. 49
A possibilidade de expressão da identidade gay reprimida pela sociedade e o sentimento de comunidade em que as pessoas se reconhecem, livres de censura, preconceito, julgamento, são as ideias em comum de Silva e Macrae. Isadora Lins França vinte anos depois da publicação do artigo de Macrae, dá continuidade às suas ideias ao escrever o texto “Do gueto ao mercado” (2003). Contudo, o principal argumento que distancia a autora de Macrae é que ela não mais concebe o gueto como uma área protegida e segregada da cidade. Para ela o gueto em São Paulo não é nada mais do que os espaços urbanos públicos ou comerciais – parques, praças, calçadas, quarteirões, estacionamentos, bares, restaurantes, casas noturnas, saunas - onde as pessoas que compartilham uma vivência homossexual podem se encontrar. É importante ressaltar que na visão de França, gueto está mais ligado a uma dimensão cultural e política de espaço público do que a um território delimitado por uma forma específica de ocupação e utilização. Ela nos lembra que gueto em São Paulo não corresponde a um espaço fixo marcadamente segregado, de frequência exclusiva ou predominantemente homossexual. Para a autora o gueto só poderia ser delimitado ao acompanharmos os deslocamentos dos sujeitos por lugares em que se exercem atividades relacionadas à orientação e à prática homossexual, um território com limites incertos e cambiáveis. Néstor Perlongher faz semelhante abordagem em seu texto “Territórios Marginais” (1987) ao trabalhar o conceito de código-território, superando a noção de gueto gay. Perlongher questiona a abordagem feita nos estudos de antropologia urbana dos anos 1970 e 1980 sobre sexualidade e gênero, cuja preocupação central era a atribuição de identidades sociossexuais: Figura 13: vida noturna da rua Augusta em uma sexta-feira à noite.
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A identidade tendia a ser retratada como uma imagem coerente que os sujeitos necessariamente deviam construir de si mesmos, como se fossem entidades unificadas, fechadas, excludentes. Ao focar a atenção na coerência dos constructos identitários, o pesquisador corria o risco de reificá-los e deixar de perceber sua instabilidade, seu movimento, suas contradições e incoerências, assim como descompassos entre os discursos e as práticas concretas. (Perlongher, 1987 apud Green (org.), 2005, p. 265).
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Em resposta a isso, Perlongher propôs uma abordagem territorial no estudo das categorias de auto definição sexual, entendendo-as como “pontos dentro de redes circulatórias”: os sujeitos se qualificariam de formas diferentes conforme o lugar em que estivessem, valendo-se de uma proliferação de categorias identitárias que colidiriam e tensionariam entre si. (Perlongher, 2008). A ênfase nas “identidades” seria, assim, substituída pela ênfase em “territorialidades”, “lugares relacionais” e “lugares categoriais”, de modo a captar como os sujeitos se definem mutavelmente a partir de “posições” e “trajetórias” (ou “devires”) variáveis dentro de uma rede, bem como da participação em diferentes redes. (Perlongher, 1987 apud Green (org.), 2005, p. 265).
A abordagem de Perlongher faz muito sentido no contexto da metrópole, onde ocorre uma fragmentação do sujeito (Wirth, 1973) que não possui mais uma, mas muitas categorias identitárias. Corpos e desejos em movimento, que moldam e são moldados pelo território. O sujeito urbano fragmentado, “no caleidoscópio heterogêneo do desdobrado leque da urbe, pela sua adesão (ou aderência) às diversas ocupações e papéis que marcavam seu trânsito tresloucado pela metrópole vertiginosa”. (Perlongher, 1987 apud Green (org.), 2005, p. 269). A partir dessa reflexão nasce o conceito de “código-território”, que nos permite entender os sujeitos e os lugares como universos plurais, impossíveis de serem atribuídos identidades fixas e significados fechados. Sujeito e lugar entretêm uma relação de mutualidade, “cujos sentidos são abertos à negociação cotidiana” (Corrêa, 2002; Strathern, 1988 apud Green (org.), 2005, p. 265).
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Figura 14: cruzamento da rua Frei Caneca com a rua Peixoto Gomide em um sábado à noite.
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2.2 Dissolução do gueto e construção de lugares “Para fins sociológicos uma cidade pode ser definida como um amplo, denso e permanente assentamento de indivíduos socialmente heterogêneos”1 (Wirth, 1928, p.89) . Felizmente o centro da cidade ainda é o território da diversidade, e os modelos europeus e norte-americanos de segregação espacial homossexual nunca foram aplicáveis em São Paulo. Segundo Puccinelli, a ideia da existência de um gueto gay na cidade de São Paulo, ou mesmo em outras cidades brasileiras, não se sustentaria a um olhar mais detido. Não teríamos um gueto em termos de conceito, mas uma possibilidade descritiva da concentração e do trânsito que ajudam a localizar os sujeitos da pesquisa sem fixá-los. Ainda assim, percebemos que os guetos homossexuais possuem aspectos valiosos que são resgatados nas redes de sociabilidade homossexuais da Augusta e da República: os laços de comunidade e a identidade gay que se torna pública. Ghaziani escreveu em 2014 sobre as gayborhoods, vizinhanças gays norte-americanas e europeias, e descreveu uma paulatina dissolução desses bairros devido a uma maior positivação social da homossexualidade e da conquista de direitos. Em São Paulo nunca existiram configurações de vizinhança marcadas, o que para Puccinelli representa uma ironia: “talvez nós sempre tenhamos sido pósmo-dernos na abordagem das fixações de identidades homossexuais no espaço da cidade” (Puccinelli, 2017, p.62). Porém o que Ghaziani identifica como uma “maior aceitação pública da homossexualidade nas últimas três décadas” (Puccinelli, 2017, p.84) também teve impactos espaciais em São Paulo. Alguns lugares de lazer que antes eram considerados exclusivamente gays passaram a ser frequentados por um público mais diverso, na própria rua Augusta alguns empreendimentos comerciais destinados especificamente ao público LGBT que seriam a casa noturna The Society (2011-2013), o 1 Tradução livre do trecho: “For sociological purposes a city may be defined as a relatively large, dense, and permanent settlement of socially heterogeneous individuals” (Wirth, 1928, p.89).
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Figura 15: restaurante Athenas na rua Augusta.
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Vegas Club, o clube de sexo Playground Club (2013-2015) e a sauna 269 (20072011), deixaram de existir. Assiste-se hoje na Augusta uma mistura de público, os empreendimentos de lazer promovem festas LGBTs, mas são frequentados inclusive por heterossexuais. Já outros estabelecimentos passaram a acolher o público LGBT, denominando-se gay friendly, muitos penduram bandeiras do arco-íris como símbolo dessa hospitalidade. A nomenclatura gay friendly foi criada para aproximar os estabelecimentos comerciais do público LGBT, afinal se auto intitulam como lugares em que esse público é bem-vindo, e mesmo constituindo uma estratégia mercadológica, ela representa a aceitação pública da homossexualidade acima mencionada. Para Meccia (2011) a proposta gay friendly significa indícios de um desenclave territorial2 : Na era gay parecem prevalecer as propostas sobre os lugares, as propostas têm uma legitimidade própria, que não têm por que associar-se necessariamente com um território ou enclave, tão característico da experiência homossexual. As diferenças de uma e outra têm uma diferença abismal. Essa tendência, apesar do flagrante odor marqueteiro, merece ser apreciada. Enquanto deve ser interpretada em termos de rentabilidade econômica que buscam esses novos lugares iluminados pela Buenos Aires turística posterior a 2002, também deve ser lida como sintoma de uma situação mais geral e profunda: a tendência à renúncia dos etiquetamentos e ao relaxamento das identidades”. (Meccia, 2011 apud Puccinelli, 2017, p. 41).
Esse relaxamento das identidades apontada por Meccia tem forte relação com a fragmentação do sujeito tratada por Perlongher em “Territórios Marginais” (2005): “não é possível continuar pensando o sujeito como sujeito unitário, mas como segmentado, fendido por segmentações binárias e por fluxos moleculares” (Perlongher, 1987 apud Green, 2005, p.275). 2 Peter Marcuse define enclave em 1997 como aglomeração não forçada, marcada por características sócio-culturais de seus frequentadores/habitantes, definição que assim como o sentido original de gueto, implica uma relação espacial de segregação de um grupo coeso na sociedade. O termo desenclave utilizado por Meccia por sua vez pode ser pensado como um processo de dissolução do enclave.
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Assim, o mesmo sujeito participa de redes de sociabilidade diferenciadas, e se define mutavelmente dentro de uma rede circulatória: os sujeitos são qualificados e se qualificam de maneiras diferentes conforme o lugar em que estão. (Green, 2005, p.265). Diante desse sujeito mutável, heterogêneo e fragmentado, verifica-se, pois, a impossibilidade de se delimitar um território e analisá-lo como algo homogêneo e isolado. A cidade não só admite e abriga grupos heterogêneos, como está fundada nessa heterogeneidade e pressupõe sua presença: “Seja do tipo que for, a diversidade produzida pelas cidades reside no fato de conter tantas pessoas, tão perto umas das outras e ostentando tão diferentes gostos, habilidades, necessidades, suprimentos e excentricidades” (JACOBS, 1992 apud MAGNANI, 2000, p. 48). Logo, não se trata mais de definirmos um território por identidades fixas, ao invés de pensarmos em uma sedimentação de significados, pensamos em um trânsito de significados. Esse trânsito de significados fica muito evidente quando passamos a observar as dinâmicas urbanas dos lugares. No cotidiano da cidade percebemos que os significados dos lugares se alternam em diferentes horários do dia e em diferentes dias da semana, conforme os atores sociais se apropriam em diferentes situações do espaço urbano. Na particularidade de um determinado lugar e na observação atenta de seu cotidiano, identificamos uma diversidade de pessoas, diferentes situações e redes de sociabilidade. Mas a partir do momento que filtramos o nosso olhar e atentamos a um grupo social em específico, os lugares ganham significados singulares, passamos a perceber uma lógica interna cara aos atores sociais envolvidos. José Guilherme Cantor Magnani elaborou entre 1978 e 1980 alguns conceitos que nos permitem nos aproximarmos dos lugares na cidade e compreendermos suas dinâmicas. São as categorias de pedaço, mancha urbana, trajeto e circuito, originalmente elaboradas para estudar as redes de sociabilidade desenvolvidas nos bairros da periferia de São Paulo, elas foram adaptadas para o contexto da metrópole, e utilizadas nessa pesquisa como metodologia para uma análise mais cuidadosa do território gay. 57
A primeira categoria definida por Magnani é o pedaço, descrito como um espaço que é ponto de referência para a distinção de um determinado grupo de frequentadores como pertencentes a uma rede de relações. Entretanto, no centro das grandes cidades, diferentemente da periferia, onde o importante era ser conhecido por meio de laços de vizinhança, parentesco e coleguismo, não existe o contexto de bairro. Logo, “pertencer a um pedaço no centro significava reconhecer-se como membro de uma teia de relações mais vasta e ser reconhecido por meio da exibição de símbolos compartilhados”. (Magnani, 2000, p.305). Territórios nas cidades, são assim, elaborados pelos próprios moradores nas ruas, nos bairros e nas cidades, configurando cartografias subjetivas. A noção de pedaço (Magnani, 2002) resulta desse processo, ao demarcar um determinado espaço físico e social no qual se desenrola uma rede de relações sociais. (Blass Org.; Pais, Org., 2004, p. 220).
Na região do baixo augusta verificamos a existência de muitos estabelecimentos comerciais gays ou gay friendly. Todavia, enquanto ao longo de toda a rua Augusta notamos a existência de bares e casas noturnas, na Frei Caneca esses estabelecimentos se concentram no cruzamento com a Peixoto Gomide. Podemos inclusive dizer que esse cruzamento constitui o pedaço da Frei Caneca que mais integra o mundo da noite tão característico da rua Augusta. Lá observamos uma aglomeração intensa de gays predominantemente homens em frente aos estabelecimentos comerciais, a rua é tomada por essas pessoas que bebem, conversam e “se pegam” na via pública, praticamente impossibilitando o trânsito de veículos. É interessante notar que o perfil dos gays que frequentam esse cruzamento é muito variado, percebe-se uma mistura de gays mais femininos, outros mais masculinos, pessoas de classes sociais também variadas. Trata-se de um público jovem, numa faixa etária entre 18 e 30 anos. A partir desse pedaço a ambiência da Frei Caneca muda. Conforme descemos a rua percebemos uma concentração de estabelecimentos comerciais mais refinados, não tão mais voltados para o mundo da noite, trata-se de um comércio de restaurantes e lojas que procuram atender aos moradores da rua. Figura 16: foodtrucks em terreno privado na rua Augusta. 58
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Conforme o mapeamento feito por Puccinelli em seu doutorado, percebemos que os empreendimentos residenciais lançados entre 2011 e 2016 na Frei Caneca se localizam justamente abaixo do cruzamento acima citado. Existe nas proximidades do shopping Frei Caneca uma ambiência de bairro devido à predominância do uso residencial nesse trecho da rua. Poderíamos dizer que ali existe um pedaço de vizinhança, ritmado pelo fluxo das pessoas que descem a sobem a rua. É interessante assistir a uma espécie de peregrinação dos moradores principalmente da rua Paim que caminham até o shopping Frei Caneca, muitos deles têm o hábito de fazer compras no supermercado que fica dentro desse estabelecimento comercial. Os moradores desse pedaço de vizinhança gay são em grande parte homossexuais brancos de classe média alta, um perfil de homossexual que se distingue dos frequentadores da República devido ao processo de gaytrificação explicado no capítulo dois. Os pedaços caracterizam tão fortemente os lugares que a rua Augusta, paralela à rua Frei Caneca, possui uma ambiência muito diferente principalmente nas noites de quinta a domingo. Os homossexuais que integram sua vida noturna não são moradores necessariamente do Baixo Augusta e possuem um perfil variado. Ao longo da rua Augusta alguns cruzamentos nos ajudam a localizar pedaços de sociabilidade gay frequentados por públicos distintos. No cruzamento da rua Augusta com a rua Antônio Carlos, o Restaurante Athenas e o Urbe Café constituem populares pontos de encontro de homossexuais com um poder aquisitivo elevado, são lugares também frequentados por muitos casais gays. Já um pouco mais adiante as ruas Dona Antônia de Queirós e a rua Marquês de Paranaguá cruzam a Augusta e nos ajudam a localizar o pedaço das casas noturnas frequentadas por gays mais jovens, são elas o Espaço Desmanche, a Blitz Haus, o Beco 203, a Lab Club e a casa noturna 1007. Figura 17: vendedora de doces trans conversando com casal homossexual no pedaço conhecido como “bar dos bancários” no Largo do Arouche. Fonte: acervo pessoal
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Existem ainda muitos outros pedaços gays ao longo da Augusta, como o bar do Netão frequentado por homens homossexuais mais velhos em um ambiente informal, ou a casa noturna Le Rêve Club destinada para quem procura um ambiente mais sofisticado. Magnani também elabora o conceito de mancha urbana, definida como a aglomeração de diferentes pedaços contíguos e que se torna ponto de referência para um número mais diversificado de frequentadores. O que diferencia o pedaço da mancha é que essa apresenta uma implantação mais estável tanto na paisagem como no imaginário. As atividades que oferece e as práticas que propicia são o resultado de uma multiplicidade de relações entre seus equipamentos, edificações e vias de acesso, transformando-a em um ponto de referência físico, visível e público para um número mais amplo de usuários. Já o pedaço, ao contrário, é restrito a um número menor de pessoas que possuem símbolos e códigos comuns, e como o que determina o pedaço são as relações sociais entre seus membros, eles podem facilmente mudar de localização na cidade. Logo, poderíamos dizer que uma casa noturna analisada separadamente na Augusta pode configurar um pedaço, por exemplo, ela talvez tenha uma vida curta, talvez feche em alguns meses, enquanto a rua Augusta continua a ser uma mancha urbana de lazer, uma polaridade linear que há algumas décadas se consolidou como lugar de uma vida noturna agitada em que a diversidade de pessoas e relações sociais impera. A República por sua vez pode ser lida como a mancha urbana de encontro homossexual mais antiga da história de São Paulo, é um território em que verificamos uma maior diversidade de orientações sexuais e estabelecimentos ligados ao mundo homoerótico como saunas e cinemas pornôs. Ao longo da avenida Vieira de Carvalho identificamos pedaços frequentados por públicos muito distintos, alguns deles inclusive receberam apelidos3 caricatos que de certa forma ajudam a identificar o perfil de seus frequentadores . O Café Vermont, apelidado como “lagoa” é um bar frequentado por lésbicas, do outro lado da rua a lanchonete Nova Vieira, o Soda Pop Bar, o Caneca de Prata e o 63 Bar, constituem o pedaço apelidado de “geriatria”, em que gays mais velhos se reúnem, e um pouco mais adiante identificamos um conjunto de bares apelidados por “favela”, nomenclatura pejorativa que identifica um público de classe social mais baixa ali presente. 3 Os apelidos dados aos pedaços da República foram obtidos por meio de uma conversa com Helcio Beuclair, presidente do coletivo Arouchianos.
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Figura 21: homens no pedaço conhecido como “geriatria” localizado na Av. Vieira de Carvalho em um sábado à noite.
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Já na rotatória do Largo do Arouche cinco bares são frequentados por gays de classe média, muitos bancários e operadores de telemarketing, e receberam o apelido de “bar dos bancários”. O Largo do Arouche por sua vez recebeu o apelido de “berçário”, por ser frequentado por um público LGBT com uma média etária de 18 a 30 anos, negros e pobres da periferia de São Paulo. É interessante observar também que esses pedaços da República existem em momentos muito específicos da semana. Os bares ao longo da avenida Vieira de Carvalho ganham vida às sextas-feiras e sábados à noite. Já o Arouche se transforma aos domingos à noite entre às 19:00 e 22:00 quando, segundo Helcio Beuclair, aproximadamente 2000 jovens LGBT se reúnem. Esse fato é um dos exemplos mais ilustrativos da força do pedaço. O Largo do Arouche ao longo da semana é um lugar de passagem, onde pessoas marginalizadas como mendigos e travestis circulam e coexistem com muitos outros atores sociais. Entretanto em um dia específico da semana, em um intervalo de três horas, jovens da periferia atravessam a cidade para se encontrarem. Certamente existe entre essas pessoas um desejo muito forte de estar entre seus iguais, de compartilhar de símbolos e códigos em comum, de poderem ser quem eles realmente são, livres da censura e do preconceito.
Figura 18: jovens da periferia de São Paulo reunidosno Largo do Arouche em um domingo à noite.
Por fim, é interessante olharmos para o circuito gay paulistano apoiados sobre o conceito de circuito de Magnani. Definido como o conjunto de estabelecimentos, espaços e equipamentos caracterizados pelo exercício de determinada prática ou oferta de determinado serviço, não sendo necessariamente contíguos na paisagem urbana, e reconhecidos em sua totalidade apenas por seus usuários. Logo, quando falamos sobre o circuito gay, poderíamos reunir dentro de um mesmo mapa as duas territorialidades estudadas. Entretanto, se trataria de uma abordagem muito superficial do espaço urbano, afinal, como pudemos observar, o território da República se difere enormemente do território da Augusta apesar de estarem tão próximos geograficamente e ambos serem reconhecidos no imaginário popular como espacialidades gays da cidade.
Figura 64 19: mulher trans no Largo do Arouche.
Figura 20: jovens LGBT no Largo do Arouche.
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Figura 22: mapa dos empreendimentos imobiliários e de lazer na região da República e do Baixo Augusta.
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4. DIVERSIDADE SEXUAL NA ARQUITETURA
Esse capítulo pretende relacionar as questões discutidas ao longo da pesquisa com o projeto de arquitetura desenvolvido paralelamente a ela, um edifício multifuncional que abriga habitação, lajes corporativas, e um centro de cidadania e diversidade sexual. Os conceitos e diretrizes projetuais foram desenvolvidas e fundamentadas a partir das reflexões feitas ao longo da monografia, evidenciar essas relações é, portanto, o objetivo desse capítulo.
4.1 Localização O projeto se localiza na quadra conformada pela Praça da República, rua do Arouche, rua Aurora e avenida Vieira de Carvalho. A escolha do terreno em que o projeto seria desenvolvido foi umas das decisões mais difíceis a serem tomadas, uma vez que conforme observado ao longo da pesquisa, não existe um único lugar de encontro gay em São Paulo, mas sim muitas redes de sociabilidade homossexual que estão associadas a diversos pontos fixos na cidade. Entretanto, por meio de estudos de campo foi observada uma maior diversidade de orientações sexuais na República, sendo que muitas pessoas LGBT que ali residem ou frequentam se encontram em condições de vulnerabilidade social. Logo, fazia muito mais sentido que o projeto fosse desenvolvido nesse território. 4.2 Partido Arquitetônico O projeto se insere na morfologia urbana procurando dialogar com os prédios existentes e não obstruir visualmente os prédios da quadra. Dessa forma, projetou-se um embasamento de três pavimentos que cresce gradualmente conforme se distancia da praça da República, esse embasamento abriga o centro de cidadania e diversidade sexual e conecta duas torres, um edifício residencial e uma torre corporativa que encostam nas empenas cegas dos prédios vizinhos. Parte do embasamento foi construído sobre o terreno da saída do metrô República junto à rua do Arouche, para tanto foi feito um estudo prévio de suas instalações existentes, afim de que a estrutura do novo edifício não oferecesse incompatibilidades técnicas. Logo, o prédio pode ser acessado diretamente a partir das escadas rolantes do metrô República, além de ser acessível pela rua do Arouche, rua Aurora e pela Praça da República. A continuidade entre exterior e interior, entre espaço público e privado se dá pela sutileza de alguns elementos, como o piso da calçada que recobre todo o térreo do edifício, e o desenho orgânico do paisagismo projetado que retoma as formas curvas da Praça da República. A praça se estende para dentro do terreno 70
Figura 23: implantação do centro de cidadania e diversidade sexual
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que faz a transição entre o edifício projetado e o edifício residencial ainda não inaugurado da incorporadora Setin. A partir da definição do que eram os espaços públicos do edifício e do que eram os espaços privados que a volumetria foi concebida. Como resultado formal obteve-se um grande átrio central a céu aberto em torno do qual as atividades do centro de cidadania se organizam. Os espaços públicos também definiram o escalonamento do embasamento, obtendo-se terraços que podem ser livremente ocupados pelas pessoas.
Figura 24: planta subsolo galeria metrópole
Figura 26: planta 1 pavimento galeria metrópole
Figura 25: planta térreo galeria metrópole
Figura 27: planta 2 pavimento galeria metrópole
4.3 Galeria Metrópole: Referência arquitetônica Um dos lugares de encontro homossexual mais significativos desse período foi a Galeria Metrópole estudada no primeiro capítulo. Considerada em 1967 “o ponto quente da vida gay paulistana” (Perlongher, 1987, p.80), ela dava continuidade ao território das galerias comerciais já idealmente constituído no centro de São Paulo (Ferroni, 2008). Assim, percebe-se que a multifuncionalidade dos edifícios e a permeabilidade da quadra são características marcantes da arquitetura do novo centro em um período que ocorre uma maior diversificação de pessoas. É igualmente notável a relação entre a diversidade de pessoas que se apropriou da galeria metrópole, incluindo os homossexuais, e a sua tipologia arquitetônica. O projeto do centro de cidadania e diversidade sexual resgata a multifuncionalidade arquitetônica e a permeabilidade da quadra presentes em muitos edifícios do centro novo, entendendo-as como características arquitetônicas que promovem a diversidade de públicos, permitem diferentes possibilidades de percursos, uma maior liberdade de apropriação do edifício, a continuidade no nível do térreo entre o espaço público e o interior edificado, e, principalmente, a inclusão social da comunidade LGBT na vida do edifício e da cidade.
Figura 28: planta 3 pavimento galeria metrópole
Essas características foram adotadas como diretrizes de projeto do centro de cidadania e diversidade sexual, reproduzindo a tipologia clássica embasamento e torre inspirada na tipologia das galerias comerciais do centro, tomando como prinFigura 30: croqui do partido arquitetônico
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Figura 29: planta pavimento tipo galeria metrópole
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cipal referência a galeria Metrópole. Uma das grandes diferenças entre o projeto da Galeria Metrópole e os projetos multifuncionais contemporâneos é a definição dos espaços de convivência e de circulação. Na Galeria Metrópole todos os espaços são ocupados e os únicos espaços livres são os eixos de circulação claramente definidos. Assim, não existem espaços de livre apropriação e nem mesmo áreas de convivência desvinculadas do comércio de restaurantes. No pavimento térreo o vazio central continua para baixo, e em torno das mesas dos restaurantes avista-se a copa do arvoredo plantado no subsolo da galeria. Trata-se, pois, de um edifício extremamente racional e pouco flexível na utilização de seus espaços, enquanto que nos projetos contemporâneos, espaços livres e áreas de convívio em que múltiplas atividades possam acontecer são cada vez mais recorrentes e necessários. Sobre isso Herman Hertzberger escreve em seu livro “Lessons for students in architecture” (2013) sobre a polivalência e multidisciplinariedade dos espaços na arquitetura contemporânea: Deveríamos fazer projetos de tal modo que o resultado não se referisse abertamente a uma meta inequívoca, mas que ainda admitisse a interpretação, para assumir sua identidade pelo uso. O que fazemos deve constituir uma oferta, deve ter a capacidade de provocar, sempre, reações específicas adequadas a situações específicas; assim, não deve ser apenas neutro e flexível – e, portanto, não específico -, mas deve possuir aquela eficácia mais ampla que chamamos de polivalência. (Herman Hertzberger, 2013, p.152)
Figura 31: galeria Metrópole. Salvador Candia e Giancarlo Gasperine.
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4.4 Centro de cidadania e diversidade sexual O centro de cidadania e diversidade sexual é um equipamento institucional que já existe em São Paulo e em muitas cidades do mundo. Em São Paulo, a criação dos Centros de Cidadania LGBT (nome um pouco diferente do adotado para o projeto em questão) faz parte das ações do programa de metas da gestão Haddad 2013/2016 e visa desenvolver ações permanentes de combate à homofobia e respeito à diversidade sexual. Inaugurados na República em 2015, e em Santo Amaro, São Miguel Paulista e Parada Inglesa em 2016, os centros atuam a partir de dois eixos, na defesa dos direitos humanos e na promoção da cidadania LGBT. Em defesa dos direitos humanos o centro presta atendimento a vítimas de violência, preconceito e discriminação e oferece apoio jurídico, psicológico e de serviço social. Já visando a promoção da Cidadania LGBT o centro oferece suporte e apoio aos serviços públicos municipais da região central, por meio de mediação de conflitos, palestras e sensibilização de servidores. Além desses dois eixos, os centros de cidadania oferecem serviços como testagem rápida de HIV e alguns workshops. O centro de cidadania LGBT Arouche se localizava até outubro de 2017 na rua do Arouche no número 23, entretanto foi transferido para a rua Visconde de Ouro Preto número 118, tendo seu nome alterado para centro de cidadania LGBT Luiz Carlos. Em entrevista com o seu coordenador, Caio Lotufo, realizada em maio de 2017, já havia sido verificada muita resistência das pessoas em entrar no edifício e vencer a barreira do elevador para acessar ao centro de cidadania. Segundo Caio, o fato do centro estar em uma laje comercial longe das pessoas que passam na rua dificultava o diálogo com a população e sua visibilidade. Esse foi um dos motivos apontados pelo presidente interino Rodrigo Dias da ONG Rede Cidadã Multicultural, responsável pela gestão do atual centro de cidadania LGBT Luiz Carlos. Em entrevista concedida em novembro de 2017, Rodrigo explicou que a instituição necessitava de um espaço maior, com acesso direto para a rua, e que pudesse funcionar aos finais de semana e fora do horário comercial, outra restrição do endereço antigo. 76
Figura 26: centro de cidadania LGBT Luiz Carlos
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O novo centro de cidadania ocupa um antigo casarão eclético em uma rua residencial, mas apesar de dispor de salas maiores e espaços de convivência, como uma sala multiuso no andar superior do sobrado, as atividades do centro ainda estão muito compartimentadas nos cômodos dessa antiga residência. Em Julho de 2017 foi realizada uma visita ao New York LGBT Community Center em Nova York, um dos maiores centros de cidadania LGBT do mundo, e a partir dessas duas experiências algumas constatações puderam ser feitas. O Community Center assim como os centros de cidadania brasileiros, possuem as atividades básicas que garantem a cidadania e a dignidade da população LGBT, ou seja, ambos prestam serviços similares como assistência jurídica, psicológica, assistência social, e oferecem palestras e debates para a população. Entretanto, diferentemente dos centros de cidadania brasileiros, o Community Center, assim como o próprio nome já revela, possui um espírito de comunidade muito mais forte. Isso se dá devido a uma programação de atividades muito mais variada e uma infraestrutura capaz de promovê-las. São cinco pavimentos que abrigam além das salas destinadas às funções básicas já mencionadas, um auditório, salas moduláveis, biblioteca, salas expositivas, cafeteria e áreas de convívio.
Figura 33: recepção do centro de cidadania LGBT Luiz Carlos
Nesse centro, a comunidade de Nova York é envolvida em atividades culturais que não se restringem à comunidade LGBT, como oficinas que envolvem crianças. Na porta do prédio a bandeira do arco-íris contrasta com a austeridade do antigo prédio em brownstones1 que abriga a instituição. A bandeira demarca o território, sinaliza a existência de uma organização que luta pela visibilidade da comunidade LGBT, mas não tem como objetivo segregá-la da sociedade. Ao adentrar o prédio a sobriedade do exterior é quebrada por meio de um hall amplo e iluminado, onde pode-se ouvir ao fundo uma música tranquila que convida as pessoas a relaxarem na área de convívio ao lado.
1 Brownstone é uma pedra avermelhada retirada do rio Connecticut e Portland, muito comum nas fachadas dos edifícios da cidade de Nova York, principalmente nos bairros de Upper East Side, Upper West Side, Harlem e East Harlem.
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Figura 34: Centro de cidadania LGBT Arouche recentemente transferido para rua
Ouro Preto 118
Visconde de 79
Figura 35: fachada do New York LGBT Community Center
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Figura 36: composição gráfica de obras de arte, posters e elementos visuais presentes no New York LGBT Community 82 Center
Figura 37: área de convívio e café do New York LGBT Community Center
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Percebe-se que os Centros de cidadania LGBT, apesar de serem os maiores equipamentos com essa vocação no Brasil, estão muito longe dos Communities Centers norte-americanos, eles desempenham as funções básicas, mas não são capazes de oferecer as condições necessárias para a criação de laços de comunidade e uma efetiva inclusão social. Pode-se dizer que procurou-se desenvolver um projeto que constituísse um pedaço para a população LGBT, ou seja, um lugar de encontro para a comunidade LGBT em que sua identidade e laços comunitários pudessem ser renovados. Muitos pedaços já foram identificados no território da República, e fortes redes de sociabilidade demonstraram que existe o desejo da população LGBT em compartilhar de um mesmo espaço da cidade. Logo, o centro de cidadania apenas daria as condições necessárias para que esse desejo de estar junto e sentir-se pertencente a uma comunidade fosse potencializado e manifestado em sua plenitude. Para tanto, o prédio foi projetado em torno de um grande átrio central, em que os fluxos das pessoas convergiriam. Esse grande vazio procura integrar as pessoas, tornar as atividades do prédio visíveis, servir de área de convivência e constituir um espaço polivalente, definição trabalhada por Herman Hertzberger, um espaço que admite a livre apropriação e interpretação das pessoas que o utilizam. Acredita-se assim, que não se trata de especificar as atividades que aconteceriam nesse espaço central, mas apenas dar as condições mínimas para que as pessoas pudessem se relacionar e compartilhar de códigos e símbolos em comum. Os bancos sinuosos dispostos nesse espaço foram projetados com o intuito de aproximar as pessoas, e as árvores dispostas entre eles cumprem a função de sombreá-los, garantindo conforto e aprazibilidade para as pessoas que ali se reúnem.
café
acesso auditório hall res.
prédio vizinho
hall prédio vizinho
pátio interno loja
restaurante
continuação praça da república
loja
O programa do centro de cidadania cumprira também a função de reunir a população LGBT em atividades outras além das já praticadas nos estabelecimentos comerciais, pontos a partir dos quais a maioria dos pedaços foram identificados no território. Os bares, as casas noturnas, as saunas, condicionaram as atividades de lazer homossexual em torno de prazeres eróticos, “pegação”, bebida, e música . Figura 38: implantação do pavimento térreo do centro de cidadania e diversidade sexual
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Claro que esses espaços na verdade são apenas pontos fixos que ajudam a localizar os pedaços, e as práticas sociais que ali se desenvolvem vão além dos serviços oferecidos pelos empreendimentos comerciais. Mas ainda assim, o centro de cidadania tem uma função cultural importante, porque oferece outras opções de lazer para a comunidade LGBT que trabalharia novas formas de se relacionar com o outro. A arquitetura do centro de cidadania garante as atividades culturais por meio de salas multifuncionais e moduláveis, em que podem acontecer workshops, aulas de teatro, artesanato, dança e música, além de dispor de um auditório destinado para palestras e apresentações culturais. 4.5 Conceitos do projeto 4.5.1 Multifuncionalidade Os projetos de arquitetura contemporânea no Brasil ainda são em sua grande maioria monofuncionais, entretanto, verificou-se na pesquisa que na década de 1960 muitos projetos multifuncionais foram construídos no centro novo de São Paulo, configurando o que Ferroni chamou de “o território das galerias comerciais” (2006).
Figura 39: pátio interno do centro de cidadania e diversidade sexual
A mistura de usos é percebida como uma característica desejada para os projetos de arquitetura na cidade, a vida urbana torna-se mais diversificada e ativa, propiciando uma maior interação social entre os cidadãos. Pensando no território homossexual, a multifuncionalidade é uma qualidade arquitetônica que não poderia deixar de ser contemplada, uma vez que se enxerga na mistura de usos e pessoas interagindo e compartilhando o mesmo espaço, a oportunidade de inclusão social da população LGBT. Quebra-se, assim, os preconceitos e estigmas sociais sobre diferentes orientações sexuais por meio da convivência diária com as diferenças. O projeto concebe a multifuncionalidade como um conceito importante do partido arquitetônico, logo, foi projetado sobre o embasamento de três pavimentos que abriga o centro de cidadania e diversidade sexual, dois outros edifícios, uma 86
Figura 40: espaço público comum ao centro de cidadania e diversidade sexual e o edifício residencial recém construído da construtora Setin.
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torre residecial e um edifício corporativo. Esses três usos se conectam no pavimento térreo e no terceiro pavimento por meio de espaços de convívio público. 4.5.2 Permeabilidade da quadra A permeabilidade da quadra é outra qualidade arquitetônica pensada no projeto. O conceito de código-território tratado por Néstor Perlongher em seu texto “Territórios Marginais” e introduzido no capítulo três, parte da premissa que existe no espaço urbano uma dimensão concreta, são os pontos físicos e fixos na geografia da cidade que são o suporte para que significados sejam construídos, sobre esses significados Perlongher se refere à uma segunda dimensão, o espaço urbano no nível dos códigos. A multiplicidade de significados que conformam o território é construída, por sua vez, graças à livre circulação de pessoas no tecido urbano, conformando uma rede circulatória em torno de pontos fixos. Quadras permeáveis dessa forma, multiplicam as possibilidades de percursos, influindo nos trajetos das pessoas, nos hábitos do caminhar cotidiano, e nos significados produzidos na cidade. 4.5.3 Espaço público Existe uma grande diferença entre se mostrar no espaço público e em lugares privados. Ao passo que os homossexuais foram conquistando direitos e a homossexualidade foi deixando de ser condenada socialmente, ela passou a ser expressa publicamente. O espaço público por sua vez tem um papel importante no apoderamento da população LGBT, afinal se mostrar em público tal como se é significa ser visto e reconhecido pelo outro, mesmo que talvez não aceito. Por isso, vários espaços do centro de cidadania foram concebidos como espaços públicos. Sem muros ou grades, todos os cidadãos podem explorar o edifício, as pessoas que saem do metro república têm acesso direto ao térreo que conecta a rua do Arouche, a rua Aurora, e a praça da República. 88
Figura 41: vista frontal da maquete do centro de cidadania e diversidade sexual
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Figura 42: corte AA do centro de cidadania e diversidade sexual
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Figura 43: corte BB do centro de cidadania e diversidade sexual
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Figura 44: corte CC do centro de cidadania e diversidade sexual
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo da pesquisa verificamos a existência de duas áreas no centro novo de São Paulo caracterizadas pela apropriação LGBT, as espacialidades República e Augusta. No primeiro capítulo fizemos uma reconstituição histórica dos lugares do centro novo paulistano em que a população LGBT se aglomerava. Rapidamente percebemos uma convergência para a área central de São Paulo das minorias colocadas à margem da sociedade, a chamada “região moral” definida por Parker.
O capítulo dois intitulado “retorno ao centro” estudou as ações do mercado imobiliário nos territórios gays da cidade de São Paulo, analisando criticamente as motivações e consequências das ações do mercado imobiliário que volta a investir no centro de São Paulo. A partir do desejo de enobrecimento da área central por parte do Estado que deseja atrair o capital privado, discutiu-se as ideias de revitalização do centro e de que forma elas impactam a população LGBT.
Baseados nos relatos contidos nas obras de José Fábio Barbosa da Silva e Néstor Perlon- gher identificamos o cruzamento da avenida Ipiranga com a rua São João como o principal ponto de referência homossexual entre os anos 1950 e 1990, e constatamos que a partir da confluência dessas duas avenidas existiram diversos pontos de encontro e diversão homossexual.
No capítulo dois concluímos que as ações do mercado imobiliário na Augusta e na República, fazem parte de um panorama mais amplo de revitalização do centro, cujas reais intenções se baseiam na higienização e elitização dessas áreas. Concluiu-se também que o mercado imobiliário iniciou um processo de gentrificação do território gay, agindo primeiramente na Augusta e se deslocando mais recentemente em direção à República.
Ainda no primeiro capítulo estudamos a história da Galeria Metrópole, considerada em 1967 “o ponto quente da vida gay paulistana” (Perlongher, 1987, p. 80), e observamos sua persistência histórica em constituir importante ponto de encontro e resistência homossexual na década de 1960. Por fim verificamos a partir dos anos 1970 o surgimento da Augusta como uma nova centralidade gay em São Paulo. Entretanto, diferentemente da primeira área estudada, a região da República, a Augusta passou por um processo de ressignificação territorial, ou seja, os significados negativos associados historicamente ao centro novo de São Paulo, como a sujeira, a violência e a imoralidade, foram substituídos por outros significados. Essa positivação etimológica foi construída a partir das ações do mercado de lazer, e mesmo a presença gay no lugar passou a ter significados positivos, tornando o território do Baixo Augusta um “agregador polissêmico” (Puccinelli, 2017, p.58) que vincula, principalmente, noções de diversidade e tolerância. O mercado imobiliário por sua vez, se apropria das conotações positivas e de toda a energia vibrante que o lugar adquiriu graças à mancha de lazer instaurada no território, e inicia uma especulação imobiliária.
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Verificou-se que a valorização do solo no Baixo Augusta elitizou os seus moradores, principalmente na rua Frei Caneca e na Rua Paim. Economicamente distintos da população LGBT que habita e frequenta a República, os gays da Augusta, acabam por também se diferenciar culturalmente e a reproduzir certos padrões heteronormativos. Essa homogeneização dos gays que residem na Augusta denominou-se de gaytrificação, e pode ser verificada nos anúncios publicitários dos empreendimentos imobiliários. Conforme foi investigado, a pesquisa possibilitou ao leitor compreender a produção das duas áreas de estudo por meio das ações concretas do mercado de lazer e do mercado imobiliário, assim como compreender alguns processos urbanos que são consequência direta de suas ações, como a valorização do solo e a gentrificação. Percebeu-se também que esses processos urbanos afetam diretamente as pessoas que ali habitam e os significados associados aos lugares. Com o propósito de explorar mais profundamente os significados dos lugares que compõem as centralidades Augusta e República, adentramos o capítulo três. Nele desvendamos as noções em torno de gueto, refletimos sobre a segregação espacial das minorias gays nas grandes cidades norte-americanas e europeias, e concluímos que em São Paulo nunca existiu um gueto gay efetivamente. Ainda assim, identificamos a existência de diferentes redes de sociabilidade homossexual que recuperam aspectos positivos do gueto, como o espírito de comuni99
dade, e a liberdade de ser quem é. Os lugares que compõem a rede de sociabilidade gay paulistana foram analisados com o objetivo de nos aproximarmos de cada lugar e reconhecermos suas particularidades e lógicas internas. Os conceitos de pedaço, mancha urbana e circuito foram dessa forma ferramentas importantes na medida que nos permitiram ajustarmos nosso olhar para as diferentes escalas que o território comporta, hora tendo uma visão sistêmica e mais abrangente, hora nos possibilitando olhar “de perto e de dentro”1 .
A homossexualidade passou então a constituir parte da urbanidade das espacialidades estudadas, nos permitindo dizer que existe um território gay paulistano. A arquitetura projetada no cruzamento da rua do Arouche com a Praça da República teve nesse sentido a intenção de potencializar os significados existentes nesse território, oferecendo um espaço em que a população LGBT possa testar novas formas de sociabilização, garantindo também o direito de se expressar e exercer a cidadania em sua plenitude.
Todo o conhecimento adquirido durante a pesquisa foi importante para uma reflexão coerente sobre as dinâmicas e processos urbanos da República e da Augusta, constituindo importante ferramenta no desenvolvimento do projeto arquitetônico. O capítulo quatro por fim buscou cruzar o conhecimento adquirido sobre o território gay e aplicá-lo ao projeto. Inspirado na Galeria Metrópole trabalharam-se conceitos como a multifuncionalidade, a permeabilidade da quadra e o espaço público, e teve como objetivo principal a inclusão do grupo não apenas homossexual, mas sim LGBT, no contexto mais amplo da metrópole. Concluindo, pode-se dizer que a pesquisa possibilitou filtrarmos o nosso olhar para o território gay paulistano constituído por duas principais espacialidades, a República e a Augusta. À medida que nos aproximarmos das especificidades dos pedaços, e entendemos as redes de sociabilidades homossexual que qualificam esses espaços, passamos a não mais perceber o espaço urbano como um lugar neutro. Muito pelo contrário, percebemos que por de trás da complexa infraestrutura mercadológica direcionada para o público gay existente no centro de São Paulo, significados em torno da homossexualidade foram sendo associados ao espaço urbano.
1 De perto e de dentro é o nome do VII capítulo do livro da Periferia ao centro: trajetórias de pesquisa em Antropologia urbana (2012), importante fonte bibliográfica para se compreender a aplicação dos conceitos de pedaço, mancha, trajeto e circuito na etnografia urbana.
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Figura i. Ferroni, 2008.
Figura 22. acervo pessoal
Figura 2. Ferroni, 2008.
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Figura 3. acervo pessoal.
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Figura 25. Ferroni, 2008.
Figura 5. Puccinelli, 2017.
Figura 26. Ferroni, 2008.
Figura 6. Puccinelli, 2017.
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Figura 7. Puccinelli, 2017.
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Figura 8. Puccinelli, 2017.
Figura 29. Ferroni, 2008.
Figura 9. acervo pessoal.
Figura 30. Ferroni, 2008.
Figura 10. acervo pessoal.
Figura 31. Ferroni, 2008.
Figura 11. Puccinelli, 2017.
Figura 32. acervo pessoal.
Figura 12. Puccinelli, 2017.
Figura 33. acervo pessoal.
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