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I Colóquio de Olisipografia 18 e 19 de Outubro de 2012 Teatro Aberto Vereadora Catarina Vaz Pinto Diretor Municipal de Cultura Francisco da Motta Veiga Director do Departamento de Património Cultural Jorge Ramos de Carvalho

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Colóquio Comissão organizadora Anabela Valente (GEO) Ana Homem de Melo (GEO) Sandra Marques (DDF) Vanda Souto (GEO) Colaboração Instituto Superior Técnico Grupo Jerónimo Martins

Apoio Ana Paula Ribeiro Manuela Chirondio Rosário Morais Patrícia Veríssimo Ana Maria Agulha Célia Guerreiro Dias

Actas Título Actas do I Colóquio de Olisipografia Coordenação Anabela Valente (GEO) Ana Homem de Melo (GEO) Vanda Souto (GEO) Grafismo João Rodrigues Edição: CML/DMC/DPC/GEO

Grafismo João Rodrigues CML / 2012

apoio:

CML / 2014


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5 Catarina Vaz Pinto I Colóquiio de Olisipografia 7 José Sarmento de Matos Vias Paralelas 11 Salete Salvado Olisipografia: conteúdo e fronteiras – uma reflexão

19 Magda Pinheiro Entre a produção científica e a divulgação: um caminho necessário 27 Ana Cristina Leite Coleccionar a cidade contemporânea. A acção do Museu da Cidade 39 Áppio Sottomayor Viagem à volta do Chafariz da Esperança 47 Ana Homem de Melo Para além da Lisboa de lés-a-lés: os ficheiros de Pastor de Macedo 53 Hélia Silva Matos Sequeira e a protecção do património construído 65 Mário Berberan Santos Gustavo de Matos Sequeira: olisipógrafo olisiponense ou olisiponense olisipógrafo?

71 Pedro Flor Lisboa em azulejo: página cerâmica de um projecto de investigação multidisciplinar 77 Delminda Rijo, Fátima Aragonez, Francisco Moreira Dinâmicas e perspectivas do projecto de reconstituição de paróquias de Lisboa. Apresentação de um estudo de caso 88 Inês Viegas e Sara Loureiro Lisboa setecentista: a ordem nascida do caos. Uma viagem interactiva 89 Rui Ricardo Cartografia antiga georreferenciada 93 Sérgio Proença O Forma Urbis Lab e a Investigação sobre Lisboa Os Nomes das Formas das Ruas 99 Ana Amado A Rua Direita na Formação de Lisboa. O papel deste Elemento Urbano no Processo de Expansão da Cidade 107 Rita Ochoa Arte pública na frente ribeirinha de Lisboa 115 Raquel Henriques da Silva Nascimento da Lisboa moderna – a extinção dos conventos


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O I Colóquio de Olisipografia decorreu no Teatro Aberto, em Lisboa, a 18 e 19 de Outubro de 2012. Subordinado ao tema “Lisboa e a sua História”, o colóquio inspirou-se então na biografia que Mário Berberan publicou a propósito da obra do seu bisavô, o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, Retrato de um Olisipógrafo, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa. Este colóquio constituiu um momento importante e simbólico para os Estudos Olisiponenses, quer pela qualidade das comunicações apresentadas, que revelam plenamente o interesse que a cidade continua a despertar nos académicos, quer porque, mais uma vez, se construiu um espaço de reflexão sobre Lisboa, reunindo alguns dos mais reputados especialistas que dedicam os seus estudos à cidade. As Atas deste I Colóquio podem, a partir de hoje, ser consultadas pelo público e o seu lançamento assinala o primeiro dia de trabalhos do II Colóquio de Olisipografia. 5 O Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa congratula-se pela sua publicação em formato digital. O nosso propósito será sempre o de difundir o conhecimento e contribuir para que os estudos apresentados no I Colóquio se mantenham disponíveis para o mais vasto público possível. Lisboa, 20 de Outubro de 2014


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Por uma interessante coincidência de trabalhos simultâneos sobre Lisboa, nos últimos tempos tenho por vezes reflectido sobre o cruzamento de linguagens e as inúmeras possibilidades que podem resultar da interpenetração das respectivas virtualidades. I Tenho entre mãos a elaboração, em colaboração com Jorge Ferreira Paulo, de um estudo histórico sobre o edifício sede

do Banco de Portugal. Trata-se de um trabalho olisipográfico tradicional, «puro e duro» dir-se-á, em que se procura fazer o levantamento daquele pedaço de cidade, localizado no seu coração, a Baixa Pombalina, na tentativa de desvendar a evolução específica que o lugar foi conhecendo ao longo dos tempos, em especial desde o período medieval, a partir do momento em que as informações documentais são mais numerosas. O estudo não se cinge portanto em exclusivo ao quarteirão hoje ocupado pelo Banco de Portugal, mas, ao invés, estende-se a uma área mais alargada, ocupando genericamente a envolvência da actual Praça do Município. Daí, o título escolhido ser UM SÍTIO NA BAIXA - a sede do Banco de Portugal. Como o desenvolvimento do trabalho tem corrido em paralelo com as grandes obras de remodelação do conjunto, a sua progressão tem sido marcada pelas sucessivas escavações arqueológicas realizadas no subsolo do edifício, acções que têm permitido um conhecimentto mais detalhado da evolução do edificado naquela zona. Destaca-se em especial o aparecimento no subsolo ao longo do actual saguão dos restos da antiga muralha da Ribeira mandada 7 erguer por D. Dinis, em 1294. Este achado, que vem confirmar as deduções de Augusto Vieira da Silva, na sua obra As Muralhas da Ribeira de Lisboa, é da maior importância para a história de Lisboa, pois embora fosse bem conhecida a existência em tempos do referido dispositivo defensivo, aliás valorizado pelo referido estudo de Vieira da Silva, nunca tinham aparecido restos dessa estrutura, sobretudo com a extensão significativa daquele troço que agora pode ser visto debaixo do saguão do Banco de Portugal. Além disso, a imagem externa tão marcadamente pombalina do edifício guarda inesperadas surpresas, pois uma análise mais cuidada nota o reaproveitamento, na reedificação após o terramoto, de partes dos edifícios preexistentes, incluindo a permanência, num dos extremos, de umas pequenas divisões sobrepostas com abóbadas, naturalmente anteriores ao sismo. No entanto, a parte mais perturbante deste trabalho é a coabitação neste conjunto hoje ocupado pelo Banco de duas «metades» com histórias diversas. Após o sismo, este enorme quarteirão desenhado na planta original de Eugénio dos Santos, aliás o maior quarteirão da Baixa, estendendo-se no sentido nascente/ poente, foi destinado a ser dividido em duas metades. A parte nascente, abrindo sobre a Rua do Ouro, foi preenchida com uma série de prédios de rendimento, com entradas respectivas pelas ruas do Ouro, de São Julião e do Comércio. Quanto à parte poente, com abertura principal sobre o pequeno largo de São Julião, foi escolhida para nela se erguer a igreja nova da velha paróquia de São Julião, cujo templo original, mais a nascente, desaparecera com o sismo. O alargamento das instalações do Banco de Portugal, a partir de 1870, levou à absorção dos vários prédios do quarteirão, numa sucessão de aquisições ao longo dos anos, até à integração no conjunto do espaço da igreja, adquirida pelo

(Lisbon Story Center)


Banco, depois de desafecta ao culto, em 1933. Sucederamse uma série de projectos para a construção de um único edifício sede, ocupando todo o quarteirão, sendo o mais consistente o do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, de 1936/7, que nunca chegou a efectivar-se por uma série de acontecimentos que se procuram entender. Uma das resistências à efectivação desse projecto foi, sem dúvida, a consciência da unidade urbanística da Baixa Pombalina, consciência patrimonial que ganha maior solidez em especial a partir da década de 1960. Perante este impedimento, depressa consagrado legalmente através da classificação da Baixa como Imóvel de Interesse Público, o Banco de Portugal decidiu por fim realizar aquilo que à partida parecia improvável: a harmonização do conjunto díspar que tinha entre mãos. A partir da valorização do velho saguão, agora entendido como reminiscência de outros tempos dada a valorização decorrente de se ter ganho a certeza que o seu traçado corresponde à muralha de D. Dinis, realizou-se a unificação espacial entre o corpo da igreja e o restante bloco predial, transformando numa unidade coerente o interior daquilo que, no exterior, continua a ser a mera justaposição de dois «universos» arquitectónicos tão díspares: um conjunto de prédios e uma igreja com o seu campanário. II Acontece que toda esta atenção num trabalho que se poderá classificar como eminentemente olisipográfico, uma vez que conjuga história (política, social e institucional) património, arquitectura, urbanismo, instituições (religiosas e civis), pessoas e gostos num percurso diacrónico secular, poderosamente absorvente dadas as várias componentes em confronto, foi partilhada em simultâneo com uma outra preocupação. A Associação de Turismo de Lisboa solicitou a minha colaboração 8 para a definição de conteúdos do Lisboa Story Centre, um equipamento multimédia a instalar num espaço do rés-do-chão no corpo nascente do Terreiro do Paço. A relação imediata entre as duas tarefas era, naturalmente, o facto de se tratar de contar a história milenar de Lisboa, ou seja não saía da mesma temática olisipográfica, em que até podia encontrar pontos comuns nos dois

trabalhos já que em ambos se tratava de tecer uma narrativa coerente, lógica e perceptível sobre aspectos do passado da cidade. No entanto, o que era radicalmente diferente eram os meios de materializar os objectivos, que, no fundo, bem vistas as coisas, se cruzavam nessa nebulosa ideia da evolução alfacinha. Enquanto no Banco de Portugal se tratava de escrever um livro, portanto juntar palavras, descrever e analisar documentos, apreciar restos arqueológicos, no Story Center, pelo contrário, via-me confrontado com uma série de novas linguagens, cujo manuseamento me era desconhecido, destinadas a despertar nas pessoas uma cumplicidade imediata. O texto, forma à qual estou mais afeito, pressupõe uma adesão intelectual individualizada ao discurso escrito e impresso no papel, corrido página a página. É uma relação mais íntima entre o autor e os seus leitores, e, mesmo que estes vão variando, a relação autor/ leitor é única e irrepetível pois não há duas pessoas iguais, detentoras das mesmas referências, das mesmas chaves de interpretação. Ao invés, no Story Centre não há qualquer cumplicidade unívoca, mas sim um voltear ininterrupto de imagens, de quadros vibráteis, de ideias, de animações,


de sugestões ou de desafios à imaginação inventiva de um colectivo indiferenciado. No fundo, trata-se, dentro da sua especificidade, de uma espécie de encenação histórica, da vontade de pôr de pé um espectáculo estimulante que se destine a «encher o olho» de uma massa que desfila sem interrupção ao longo de uma série encadeada de surpresas, quanto mais surpreendentes melhor. Todavia, ao contrário do que temi, esta simultaneidade de atenções tão díspares não foi, de forma alguma, nem prejudicial, nem sequer causou embaraços. Abrir a mente a novas linguagens tem sempre aspectos positivos, e, neste caso, não deixa de reforçar que num livro, mesmo do carácter deste sobre o Banco de Portugal, a componente da imagem tem de ser fundamental para melhor se comunicar com o futuro leitor. De facto, se há qualquer coisa que marca este livro é a profusão imagética, destinada a completar em harmonia o discurso das palavras, possível chamada de atenção propiciada pela simultânea dinâmica em torno da panóplia imensa de imagens que a realização do trabalho do Story Centre me obrigava a manusear quase quotidianamente. Reforcei assim, de forma quase empírica, a ideia de que esses dois discursos, o das palavras e o das imagens, tantas vezes quase desgarrados e desconexos, são afinal as componentes essenciais de uma mesma narrativa, que só ganha sentido, clareza e fluidez quando as palavras e as imagens se completam e se iluminam mutuamente como focos arrumados por uma linguagem compósita. 9 Era esta experiência, tão enriquecedora pessoalmente como esclarecedora dos «mundos novos» que circulam à nossa volta, quantas vezes sem deles tomarmos a devida conta, que escolhi para partilhar convosco. Bem ciente de que a interpenetração de focagens, de objectivos ou de públicos tão diversos a satisfazer já não permite a posse antiga da torre de marfim da qual o estudioso, mais ou menos culto ou mais ou menos erudito, lançava sobre a «cidade» a seus pés as «pérolas» do seu saber.

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Origem e evolução do conceito de Olisipografia. A auto-defesa da Cidade e a resposta dos eruditos. O conceito como parte integrante do trabalho da Cidade e sua transformação em Olisipologia. O neologismo aqui criado como um ramo de saber imprescindível e inerente ao trabalho do funcionário municipal.

1. A primeira vez que me defrontei com as palavras Olisipografia e Olisipógrafo foi em 1961, quando comecei a trabalhar na Câmara Municipal de Lisboa, na Secção de Propaganda e Turismo, para cujas actividades contribuíam como estável fonte documental as obras dos principais olisipógrafos, começando por Júlio de Castilho. Para mim, durante largos anos, aquela geração magnífica de estudiosos de Lisboa constituía uma plêiade de divindades olímpicas cujas opiniões e conclusões jamais se punham em causa. É evidente que esta minha atitude se alterou com o passar do tempo no sentido da discordância, mas continuei a considerar estes olisipógrafos uns seres à parte, com inultrapassável valor, constituindo a Olisipografia, tal como a cultivavam, o registo escrito e pictórico de tudo o que podia constituir a memória histórica da Cidade. Quando se finalizou a segunda fase da 11 intervenção no Teatro Romano de Lisboa, que culminou com a inauguração do Museu e espaços conexos, a Drª Ana Cristina Leite telefonou-me dizendo que estavam a recolher depoimentos de pessoas ligadas às intervenções da CML naquele espaço; e enviei-lhe um modesto texto que assinei. Voltou a ligar-me dizendo que eu não tinha dito o que era; respondi-lhe prontamente: “Sou funcionária da Câmara”. “Não – disse ela. Não pode ser. É olisipógrafa.” E eu respondi: “Não, não! Não sou.” Ela insistiu: “É sim! É, é! Tem de ser!” Acabei por dizer: “Está bem.” E assim ficou, embora eu não concordasse. Ao longo da minha carreira ao serviço da Câmara, com tarefas diferentes e responsabilidades distintas, vi-me na necessidade de “aprender” Lisboa. Embora o gosto pela Cidade nunca estivesse ausente, as matérias em que trabalhara correspondiam a necessidades de serviço extremamente diferenciadas. É evidente que fui produzindo pequenos trabalhos olisipográficos, o que faz de mim não um olisipógrafo de pleno estatuto, mas antes um… olisipógrafo acidental. Torna-se claro que uma coisa é ter um bom conhecimento do “devir” da Cidade, imprescindível para um correcto desempenho de funções na CML; outra coisa é o estudo da Cidade de forma volitiva para produção de um trabalho intencionalmente científico e destinado a publicação. Este segundo caso corresponde ao conceito de olisipógrafo, não devendo nós esquecer que nos anos 40 do séc. XX o termo Olisipografia era ainda um neologismo; e talvez seja tempo

de criar um outro neologismo, Olisipologia, significando a ciência do conhecimento de Lisboa e sendo os seus cultores Olisipólogos, cuja formação deveria ser assegurada pela CML. Seria desejável, se não imprescindível, que uns e outros fossem Olisipófilos, os que amam Lisboa, por muito conturbado que esse amor possa ser. Creio que todas estas matérias mereceriam uma mais profunda reflexão já que, entre outras coisas, nenhum dicionário regista a palavra Olisipologia, nem jamais a vi ser sugerida a não ser agora. Uma breve busca em alguns dicionários deu-me definições de Olisipografia que, obviamente, evoluem ao longo do tempo. A palavra é considerada um cultismo por manter a prática latina do “s” intervocálico, presente na forma romana do nome pré-romano da Cidade, que aos ouvidos romanos soou Olisipo. A forma com dois “ss” é considerada menos correcta porque, para manter o som o “s”, altera a grafia original. É uma cedência do rigor para evitar erros de fonética. Essa mesma pequena busca permitiu-me seguir uma certa evolução do âmbito desta nova ciência, começando com a história, belas artes e literatura até que, actualmente, posso dizer que abrange todas as facetas da vida da Cidade, como organismo vivo, no passado, no presente e no futuro. Comecei então pelos grandes clássicos: a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (1940) e o Dicionário de Língua Portuguesa de José Pedro Machado (1965), que dizem quase a mesma coisa quando definem Olisipografia como “um conjunto de escritos eruditos ou simplesmente literários com estreita ligação com a história, as belezas, as sugestões da Lisboa antiga (Olisipo) ou moderna”. A Enciclopédia considera-a um neologismo, o mesmo se aplicando a Olisipógrafo, que define como “o que escreve ou realiza publicações escritas sobre Lisboa”. O Dicionário da Língua Portuguesa, dito da Academia (2001), é mais explícito e completo, começando pela origem da palavra: “De Olisipo + gr. γραφος, escrever + sufixo –ia”; e diz: “Estudo cientificamente orientado acerca da cidade de Lisboa, versando as vertentes histórica, artística e urbanística, com vista à compreensão e reconstituição da sua vivência ao longo de diversas épocas”. E diz ainda, em itálico: “A olisipografia é um ramo da história que muito tem contribuído para o conhecimento do passado da cidade.” Além de admitir grafias com dois “ss”, regista a forma Olisipófilo (de Olisipo + φιλóς) significando “pessoa que demonstra afeição ou preferência por Lisboa ou pelos lisboetas, pelos seus usos, costumes ou práticas. É substantivo e também adjectivo.” Não admite, no entanto, Olisipofilia. O Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (2005) refere em relação ao assunto: “Olisipo(n) – elemento de composição antepositivo, do lat. Olisippo ou Olisippo,ónis, ´Olísipo, cidade da Lusitânia (actual Lisboa)´; ocorre nos cultismos olisipofilia, olisipófilo, olisipografia, olisipográfico, olisipógrafo, olisiponiano; no port. europeu é muito frequente a pronúncia alatinada de todos estes cultismos, do s intermédio como fricativa dental surda, para a qual a grafia mais adequada seria Olissipo(n)”. Para Olisiponense refere a forma publicada, em 1881, por Francisco Rodrigues dos Santos Saraiva no seu Dicionário. Regista ainda a forma Olisiponiano, invulgar entre nós. Pedro Brou, no seu Lexikon Latino-Português (1905), regista as duas grafias do substantivo e traduz o


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adjectivo como “olisiponense”. Porém a utilização desta palavra só se impõe em meados do séc. XX, remetendo a forma “lisbonense”, até então usada pelos estudiosos, para contextos populares ou, pelo menos, não eruditos. 2. Mas como surge a Olisipografia? E porquê? Embora muitos autores antigos se tenham referido a Lisboa, ou mesmo tomado a Cidade como tema das suas obras (p. ex.: o Livro das Grandezas de Lisboa de Frei Nicolau de Oliveira), todos os estudiosos apontam o séc. XIX como o momento do nascimento da Olisipografia e consideram Júlio de Castilho o pai desta ciência; e irei continuar a considerálo como tal. Com relativa contemporaneidade estão com ele outros estudiosos de Lisboa, ao longo de todo esse século e transitando para o séc. XX, onde outros se lhes seguiram e seguem, embora por diferentes caminhos. No entanto, as raízes da Olisipografia antecedem o séc. XIX. Os finais do séc. XVIII foram difíceis para a Cidade. Devastada pelo Terramoto de 1755, Lisboa foise erguendo das ruínas como urbe moderna e monumental dentro duma rigorosa disciplina. O seu renascer como cidade imperial, como fora com D. Manuel e D. João V, esteve muito ligado ao apoio do Estado, sobretudo ao Marquês de Pombal. Quando do planeamento desta nova cidade foi-lhe reservado um longo quarteirão confinante com a Praça do Comércio. Embora a posição do pelourinho, 13 situado na actual Praça do Município, a Ocidente, sugerisse que a parte ocidental desse quarteirão se destinava aos Paços da Cidade, tal não aconteceu. Aí foi instalado o Banco de Portugal (na parte nobre do edifício), enquanto que o Senado (Câmara) ficava na parte oriental do quarteirão, na zona privilegiada da Secretaria de Estado, que passou a habitar depois de 1774. Aliás, o Marquês garantira um forte laço com a Cidade: em 1770 (carta régia de 30 de Janeiro) seu filho Henrique, 2º Conde de Oeiras, é nomeado Presidente do Senado (o seu tio paterno Paulo de Carvalho, anterior presidente, falecera em Janeiro desse ano) e foi reconduzido duas vezes (1773 e 1176), iniciando o último mandato em 1779. Mas, com a morte de D. José em 1777 e a subsequente queda do Marquês de Pombal, problemáticos iriam ser os destinos da Cidade e do seu Senado. Os rendimentos de Lisboa estavam seriamente afectados, não só porque tinha de continuar o programa de reconstrução, mas porque fora obrigada a pagar as faraónicas despesas da inauguração da estátua de D. José e respectivo banquete, assim como as das festas de coroação de D. Maria I, sem que o Estado a procurasse ressarcir. Entre os inimigos que a Cidade “herdou” encontrava-se Pina Manique, que não demorou a apropriar-se a favor do Estado de rendimentos e competências da Câmara. Em 1780 a Câmara é obrigada a deixar o seu Paço, onde só regressaria em 1796, porque não havendo Paço Real na nova cidade a própria Rainha, para poder ir a

banhos às Alcaçarias, requisitara para si as instalações que conjuntamente com parte da ala Norte da Praça do Comércio transformou no seu Palácio, unindo as duas estruturas com um passadiço de dois andares. Convirá lembrar, a propósito, que sempre que a Câmara se mudava tinha que levar consigo os seus pertences e o seu precioso arquivo, dito “velho”, onde se encontravam os documentos comprovativos dos seus direitos passados e presentes. As desditas da Câmara não ficaram por aqui e continuaram no séc. XIX. O Estado ia arrecadando para si a maior parte das rendas destinadas à Câmara, mantendo-a numa situação de penúria e carência subalterna que a legislação liberal consagrou, colocando-a na dependência tutelar do Governo Civil. Até então a Câmara dependia directamente do Rei, a quem podia dirigir-se e ver os seus problemas resolvidos por vontade régia. Porém, agora, com o cerceamento do poder régio, as omissões legislativas ou distorções na aplicação das leis percorriam longos caminhos de resolução ou simplesmente jamais seriam resolvidas. Em vão suplicava a Câmara à Rainha que lhe fossem pagas as dívidas do Estado, sem obter resposta, mas continuando por parte deste as críticas e as exigências. A Câmara irá tentar resolver a situação, embora fragilizada mas sem desistir, dando a conhecer os seus principais actos administrativos sob a forma de uma publicação com o nome de Synopse1, que se iniciou em 1834 sob proposta do sábio erudito Anselmo José Braamcamp. Consideradas insuficientemente informativas do trabalho da Câmara, as Synopses são substituídas em 1856 por uma outra publicação, os Annaes do Município de Lisboa, que em termos de conteúdo e intenção iriam largamente ultrapassar a primeira. Era evidente que a Câmara, que parecia apenas querer dar a conhecer os seus actos, ultrapassava habilmente esse objectivo. Na nota explicativa do Vol. I diz-se a certa altura: “Sairá regularmente nos dias 1º e 15 de cada mês e publicará – um extracto das actas das sessões, – propostas dos vereadores, – posturas, regulamentos, portarias e mais ordens de execução permanente, – informações, consultas e representações feitas aos diversos poderes do Estado; e finalmente todos os documentos e notícias que possam elucidar e esclarecer as questões mais importantes do dia. Publicará também, sempre que para isso haja logar, documentos interessantes para a história do município”. Em Julho desse ano a Câmara publicará um texto sobre a Igreja de S. Nicolau; em Setembro seria iniciada a publicação do I Foral de Lisboa, que ocupará vários Annaes; e depois vêm outros documentos, como o auto de aclamação de D. João II, etc., etc. Toda esta documentação tinha o objectivo de chamar a atenção para a antiguidade de Lisboa (bem mais antiga que Portugal) e dos subsequentes direitos que sempre lhe tinham sido reconhecidos ao longo dos séculos, da sua importância na História e na vida do País, e a sua particular ligação com o Rei. Numa primeira fase a compilação destes documentos é feita pelos arquivistas municipais Francisco Xavier da Rosa e João Carlos Sequeira e Silva, e numa segunda fase por Eduardo Freire de Oliveira, cujos textos e observações que insere nos seus Elementos para a História do Município de Lisboa o transformam num verdadeiro olisipógrafo, embora raramente seja considerado como


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tal. Deverei ainda referir que simultaneamente com as Synopses a Câmara publica as Providências Municipais da Câmara de Lisboa, desde 1833. A sistematização da sua memória documental e outra acontecerá, a partir de 1882, com a decisão de publicar os Elementos para a História do Município de Lisboa, celebrando a passagem do 1º Centenário da Morte do Marquês de Pombal. Convirá lembrar, de forma muito breve e ligeira, que o País viveu tempos difíceis desde o final do séc. XVIII, que se estenderam ao longo do séc. XIX, continuando-se pelo séc. XX, embora com contornos diferentes: as Invasões Francesas (com a problemática “ajuda” inglesa), as lutas liberais de que sai um regime fortemente centralizado, legislação de inspiração estrangeira sem respeito pelas nossas tradições, transformações administrativas bruscas, destruição do direito consuetudinário e agressiva atitude em relação à Igreja Católica, sempre presente no nosso devir histórico, e ainda os ventos de mudança que não cessavam de soprar da Europa. Ao longo de todo este tempo Portugal debatia-se com uma séria crise de identidade, a que procurou responder, curiosamente, lançando mão das mais profundas memórias do seu passado, no qual inevitavelmente se encontrava Lisboa. Assim a procura de identidade nacional estende-se, como é evidente, à Cidade. Quer a saga da busca da memória nacional, quer a da Cidade, encontrou eco nos eruditos do tempo e a resposta adequada. Seleccionei dois anos curiosos, porque virtualmente 15 esquecidos. Em 1850 o General Eusébio Pinheiro Furtado, Governador do Castelo de S. Jorge – no qual e em cuja freguesia desenvolve uma espantosa acção social, e ainda “inventor” da calçada à portuguesa – oferece à CML uma cópia de uma planta da cidade (dita de Tinoco), a mais antiga que se conhece e cujo original possuía. A reacção da Câmara foi exuberante em agradecimentos, tendo colocado a planta na sua Sala das Sessões, espaço ricamente decorado que desaparecerá com o fogo de 1863. Esta é a segunda data que aqui quero evocar, quando para substituição do Paço pombalino irremediavelmente danificado pelo referido fogo executa o Arqº Domingos Parente da Silva um ante-projecto, a cujas peças desenhadas acrescenta uma Memória onde define com grande segurança o papel que Lisboa tem de desempenhar como Cidade, na defesa e manutenção das liberdades cívicas (que incluem a cultura e a educação) e como motor da civilização nas conquistas espirituais e cívicas da República Romana. Era um monumento à cidade que tinha liderado e estado presente nos momentos de dor, construção e glória da Pátria, a essa Lisboa que constituía o grande suporte das artes e aspirações não só dos Lisboetas, mas de todos os Portugueses. Parente da Silva, no seu modo discreto mas firme, ia-se “vingando” das malfeitorias infligidas à Cidade, cujos rendimentos continuavam a ser desviados e que, até ao final do século, iria perder a tutela sobre as águas e sobre a faixa litorânea, embora pagasse as despesas dos aterros e da construção de chafarizes.

Não é possível fazer aqui a evolução da legislação que tem a administração municipal como objecto, ao longo do séc. XIX, em que se foi tentando corrigir situações mais graves, nomeadamente no que respeita à estrutura de serviços e competências da Câmara. Mas ter-se-ia que esperar pelo Código Administrativo de 1940 para que as cidades fossem tratadas com decência. Para Lisboa abriram-se então horizontes novos e vastos, que continuaram em expansão ao longo do séc. XX, procurando responder às mudanças que se iam operando rapidamente na vida do País e das populações. 3. Voltemos ao séc. XIX: é nele que se inicia a Olisipografia, vista sobretudo no âmbito do devir histórico, com os nomes consagrados dos eruditos Júlio de Castilho, Gustavo de Matos Sequeira e Luís Pastor de Macedo, cujas obras ainda hoje constituem o material incontornável que qualquer aprendiz de olisipógrafo e olisipólogo tem de ler. A eles se juntaram mais dois nomes: Augusto Vieira da Silva e Norberto de Araújo. Ao primeiro devemos obras verdadeiramente científicas, rigorosas, completadas por trabalho de campo, desenhos e plantas. Os seus estudos sobre o Castelo de S. Jorge (O Castelo de S. Jorge em Lisboa, 1898) estão na base da recusa do Estado em transformar o monumento num hotel de turismo, assim como das obras de restauro de 1940. Ao segundo, que sempre se afirmou (e de várias maneiras) como um “não-erudito”, devemos sobretudo as Peregrinações em Lisboa, que além de agradavelmente divulgativas e muito bem escritas, constituem uma fonte muito hábil de pedagogia: ensinar Lisboa. Todos os trabalhos destes estudiosos, cujas vidas decorrem entre os sécs. XIX e XX, cumulativamente com os esforços da Câmara, a repetida necessidade de afirmar uma identidade nacional, um maior espectro cultural e muitos outros factores sociais, políticos e outros, estão presentes nas mutações culturais do Código de 1940. A Câmara poderá finalmente comprar palácios pelo seu valor histórico e estético, e não para os demolir ou instalar serviços do Estado; poderá ter museus diversificados, fazer escavações arqueológicas, instituir prémios municipais de fomento cultural, etc., etc. A legislação subsequente irá, a nível da CML, permitir a criação de serviços de Turismo (muito activos nos anos 60 e depois degradados) e, mais tarde, de serviços especializados na área da Cultura, com uma aposta em técnicos especializados (arqueólogos, técnicos de restauro, paleógrafos, etc.). Infelizmente, este enriquecimento e valorização técnica corresponde a uma pulverização de serviços, com grande circulação de funcionários e entrada de novos elementos em grande quantidade. Estes dois fenómenos levaram ao enfraquecimento de um projecto geral para a Cidade e à perda da memória recente. Apesar das altas qualificações destes novos técnicos, simplesmente não conhecem Lisboa e terão que fazer a sua aprendizagem, por sua conta e risco, com enorme desperdício de tempo e esforços e com duvidosa eficácia. 4. De forma muito sumária tentei dar uma ideia das razões e


circunstâncias que estão ligadas ao nascimento, conceito e evolução da Olisipografia. Mais do que nunca, é hoje uma actividade quase exclusivamente tratada em Universidades e serviços municipais, com crescente dificuldade de acesso por parte de terceiros que, no passado, foram os seus principais cultores. A mais antiga associação dedicada estatutariamente à Cidade, o Grupo Amigos de Lisboa, vê crescer o número de competidores sob a forma de empresas, grupos informais e outras associações que – como os próprios serviços municipais – organizam passeios e visitas totalmente gratuitas. E isto para não referir os “espontâneos” que se colocam estrategicamente à caça de turistas nacionais e estrangeiros. Mas será talvez a altura de fazer uma outra reflexão. Não será perigosa esta crescente redução do conceito de Olisipografia a um contexto quase exclusivo da História e ciências afins? Se olharmos para os anos 40, 50 e 60 do séc. XX vemos que existia uma ideia cultural para a Cidade na qual se incluía, por exemplo, o programa dos jardins e sua concepção, a qualidade da arquitectura, a colaboração com instituições de saber privadas, a retoma das tradições populares na sequência das festas dos Centenários e um reforço da imagem da Cidade, cuja administração tinha um cariz fortemente presidencialista. Com a sua sólida estrutura e seguras linhas de poder, a CML funcionava quase como um Estado dentro do País e quando, por exemplo, as dificuldades do Estado em termos de política internacional afastaram as visitas 16 de instituições de países estrangeiros, eram Lisboa e a sua Câmara que acolhiam as representações públicas e privadas estrangeiras, dando uma imagem impecável de civilidade, eficiência e cultura, bem como de discreto “charme”, que não deixavam de impressionar vivamente os visitantes. Naqueles anos Lisboa era de novo a Capital do Império, como o fora nos sécs. XVI e XVIII. Para terminar, gostaria de deixar aqui algumas questões que cabem simultaneamente no âmbito da Olisipografia e da Olisipologia. Será que a grande massa dos funcionários municipais, os dirigentes funcionais e os dirigentes políticos têm uma ideia do que foi o extraordinário trabalho cultural que a CML desenvolveu, particularmente no séc. XX? A mim não me podem dizer que não aconteceu… porque eu estava lá. A CML foi um emissor privilegiado e qualitativo de medalhas comemorativas que bem mereciam uma secção de museu (e o mesmo se aplica às suas medalhas honoríficas). Foi um editor privilegiado de obras monumentais, no âmbito das festas dos Centenários, assim como de outros estudos, muitos deles consagrados com prémios municipais. Produziu, através dos seus serviços de Turismo, os desdobráveis mais bem concebidos que arrecadaram prémios nacionais e internacionais (e publicadas em sete línguas, entre as quais o sueco). Através dos mesmos serviços publicou sobre Lisboa uma série de monografias em formato livro de bolso, a preços sociais, que eram o grande suporte

dos alunos de meios modestos que cursavam História. A própria Revista Municipal constituía um marco cultural na vida lisboeta e nacional, tratando matérias da área do Direito e das Finanças, para além da História, bem como de pequenas incursões poéticas e literárias. Com o passar do tempo esta revista reduziu o seu âmbito sobretudo às áreas da História, Arqueologia e História da Arte, mas incluindo uma secção sobre acontecimentos citadinos. E o que a Câmara fez pelo embelezamento da Cidade, dos seus jardins e ruas, colocando peças de arte à fruição directa do cidadão? E o cuidado que pôs na recriação de tradições populares, que de outro modo teriam sido inevitavelmente erodidas pelo tempo? Quero deixar uma última questão. O que faz a Câmara para dar a conhecer toda esta acção passada, a sua própria estrutura e o universo legal que determina as suas acções e existência? Seria muito útil que todos tivessem conhecimento deste outro devir da Cidade e das suas contingências culturais. Quando morre um Serviço (e nada há mais triste do que a morte de um Serviço!), o que acontece à sua memória? Para onde vão os carimbos, o papel timbrado, o seu arquivo vivo e morto, os seus objectos próprios? Se um dia houver um “Lisbon Museum” que tenha um departamento dedicado à administração da Cidade, será possível ressuscitar esta memória? Prezados conferencistas e amigos: o assunto que aqui me trouxe está longe de ter ficado exposto em todas as suas facetas. A Olisipografia/Olisipologia, em suma, tem de se ocupar de tudo o que diga respeito a Lisboa, da orografia às mudanças climáticas, da geologia às movimentações humanas e às ideias produzidas nos diversos tempos históricos. Termino com um desejo: se não pudermos ser olisipógrafos, que sejamos sempre olisipólogos e, acima de tudo, olisipófilos!

Notas 1 Sobre este assunto, com maior detalhe, vide Dias, Jaime Lopes (1938), “Divulgação da Administração e da História dos Municípios”, Revista Municipal, Ano 1, N.º 1, pp. 11-23.


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O bom fundamento de me convidarem para um Colóquio sobre Olisipografia levantou-me alguns problemas. Assumo que a razão deste convite tenha sido a recente publicação do livro Biografia de Lisboa1. Trata-se assumidamente de um livro de divulgação científica que procura fazer amar a História, e em particular a História da Região de Lisboa, utilizando eventos como forma de expor as grandes linhas da sua evolução. É um livro suportado pelo trabalho de muitos historiadores. No entanto, apesar de no meu curriculum se poder encontrar uma forte presença de recensões críticas, não me interesso por historiografia e não vejo qual pode ser o sentido de um colóquio com este título senão o de ser uma reflexão historiográfica sobre o nascimento da história local Lisboeta. Foi esse o sentido que Fernando Castelo Branco deu à palavra ao publicar, em 1980, por sugestão de José Augusto França, a sua Breve História da Olisipografia. A Olisipografia é assim um movimento situado no tempo em que o próprio José Augusto França, com toda a evidência, então não se incluía2. Fernando Castelo Branco destacava também no seu pequeno livro os autores Francisco Câncio e Norberto Araújo como divulgadores. Alicerçava aliás a sua afirmação, no que respeitava a Norberto Araújo, numa citação do próprio3. Dois elementos negativos, a merecer a minha intervenção cívica enquanto historiadora, determinaram a minha aceitação do desafio de participar neste colóquio. Não esconderei também como elementos positivos o desejo 19 de defender a preservação do património arquivístico da cidade e o investimento na pesquisa histórica como passos indispensáveis para uma boa divulgação da sua história. Divulgação que considero ser uma missão cívica do historiador por potenciar uma identificação que convida à intervenção. Mais prosaicamente o título desta comunicação surgiu-me por ter sentido desconforto perante as noticias sobre a morte de Hermano Saraiva como sendo a de um importante historiador. Os historiadores são pouco corporativos mas é geralmente admitido como sendo historiador quem tenha feito investigação, publicado artigos em revistas científicas ou livros científicos de História. Categorias em que obviamente Hermano Saraiva não se inseria. Faltavamlhe, para além de tudo o mais, graus académicos em História e o reconhecimento pelos pares. Sobrava-lhe um percurso político que escondia ao afirmar não ser político, e que o levara ao Ministério da Educação no Marcelismo. A História, para além de ser uma disciplina Científica (pessoalmente prefiro seguir Marc Block e dizer que se trata de um ofício ou no sentido antigo, uma arte) tem uma missão cívica que os historiadores não podem esquecer. Não podem esquecer porque não os deixam esquecer, porque o público tem uma apetência pela História que infelizmente encontra uma resposta muitas vezes muito má nos livros e artigos de divulgação. Por isso temos obrigação de responder à procura com trabalho. Quando falo de missão cívica da História não estou a

pedir uma politização da produção histórica. Inscrevome frontalmente contra essa ideia. Pôr problemas, analisar documentos, contextualizá-los, debater com outros historiadores, formar novos historiadores faz parte do nosso trabalho. Não nos cumpre julgar. Não existe um julgamento da História porque o trabalho do historiador está inexoravelmente destinado a ser suplantado pelo daqueles que vêm depois de nós. É saudável e positivo que assim seja. Felizmente o caminho percorrido desde o 25 de Abril tem sido muito positivo. Estes princípios são válidos para a História Urbana como para qualquer outra especialidade das muitas a que o pós-modernismo, com a sua expansão de territórios, perspectivas e investigadores, nos trouxe. Também o é a necessidade de enquadramentos comparativos que afastem a História do nacionalismo que presidiu ao seu nascimento. Certamente a História Urbana não tem a mesma importância em todas as tradições historiográficas. As contaminações entre a História e a memória nacional existiram por longos anos e nem a École des Annales lhes escapou. Os circuitos de produção e difusão científico-cultural dependem de um grande número de factores entre os quais o investimento público motivado pelo orgulho nacional avulta. Incontestavelmente os estudos de História Urbana foram mais precoces na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e nos países escandinavos do que em França4. As cidades tiveram um desenvolvimento muito forte na Inglaterra e foram associadas ao orgulho cívico decorrente de o País ser a Pátria da revolução industrial. Em França a escola dos Annales brilhou no estudo dos tempos longos, das estruturas sociais e usou metodologias então mais adaptadas ao estudo de pequenas comunidades rurais do que às mobilidades e rupturas das grandes cidades. O estudo das cidades foi em França desenvolvido mais precocemente por geógrafos como Élisée Réclus que desde 1895-1905 estudou o papel das decisões económicas relacionando-o com o destino das classes populares votadas à suburbanização5. Seguindo uma visão negativa da cidade, que já Henri Pirenne considerara berço do capitalismo, a geografia urbana francesa estigmatizou a primazia Parisiense6. Aceitou a visão oriunda das luzes segundo a qual a capital da França era grande demais intitulando-a de macrocéfala7. Ignorando os estudos comparativos desprezou o facto de Londres ter um peso muito superior a Paris na população nacional e de esta circunstância ter sido considerada positiva no desenvolver da revolução industrial britânica. A evolução da historiografia em França alterouse porém a partir dos anos oitenta como atestam as obras de autores como Jean Luc Pinol ou Jean Claude Perrot sobre Lyon e Cäen8. Richard Rodger, numa agenda para a História Urbana publicada em 2005 na Revista Ler História, descrevia-nos a pujança que fez este campo historiográfico em 1968 considerado por Dyos desprezado, transformar-se num espaço florescente de produção com potencialidades não só científicas, como cívicas. Uma expansão que na Grã-Bretanha se exprimia na publicação de 100 referências bibliográficas por ano e na periodicidade


quadrimestral da revista Urban History9. Em Portugal, mesmo depois do 25 de Abril, a ligação à historiografia francesa foi portadora de algum atraso. Naturalmente a visão negativa da cidade capital repercutiuse na herança dos historiadores mais ligados à escola dos Annales. Estudos pioneiros de Joel Serrão, José Albertino Rodrigues, José Augusto França, Maria José Pimenta Ferro e Miriam Halpern Pereira abriram caminho a investigações que tardaram em concretizar-se face à amplitude do atraso da historiografia portuguesa e ao anquilosamento das suas estruturas universitárias10. O trabalho pioneiro de José Augusto França que se situava no campo da História de Arte, foi desenvolvido sobre a orientação do grande mestre Pierre Francastel e veio a ter importantes repercussões nesta área. Tal como em França, o interesse pelas cidades foi em Portugal precoce entre os geógrafos. Amorim Girão publicou um pequeno estudo sobre Viseu, intitulado Viseu estudo de uma aglomeração urbana, em 1925. A Orlando Ribeiro se devem definições que hoje se encontram em grande parte transformadas em diploma legislativo. A todo o grupo reunido em torno da revista Finisterra se devem importantes contributos. Também os sociólogos, se dedicaram, desde o final dos anos setenta, ao estudo problemas urbanos tendo dado um importante contributo para o conhecimento da Lisboa do Estado Novo11 Os progressos subsequentes na área 20 da História Urbana resultaram em parte de apresentações de papers a conferências e colóquios organizados por diversos centros de investigação, no País e no estrangeiro. Em recentes anos a organização de eventos e as deslocações beneficiaram de fundos da FCT deixando de resultar do esforço financeiro individual nem sempre aberto a todos. A multiplicação de provas académicas, cuja publicação pôde ser subsidiada, foi também um factor muito relevante na disponibilização de bibliografia nesta área. Também a existência de revistas Científicas na área da História tem sido indispensável. Números especiais, por vezes associados a eventos como a Lisboa Capital da Cultura em 1994, foram importantes. Realçarei as efemérides ligadas a comemorações que, ao trazer financiamentos para as áreas de investigação envolvidas também potenciaram transformações em campos que antes tinham ficado alheios a alterações de paradigma. Fazendo uma ponte entre a Olisipografia e a moderna História Urbana, a investigação e as publicações de Francisco Santana, entre as quais salientarei as publicações de fontes e a organização do Dicionário de História de Lisboa, este último lançado no quadro da Capital da cultura em 1994, são de grande valor. As comemorações dos descobrimentos estão também entre as efemérides com relevo. Naturalmente a tão ignorada Lisboa Renascentista emergiu em vários estudos de grande qualidade.

As sociedades urbanas têm sido ultimamente compreendidas como meios complexos, instáveis e plurais onde questões como as identidades e as hierarquias, as mobilidades sociais e residenciais, as relações com o meio ou com as formas de poder, se põem de forma original. Os aspectos simbólicos e culturais têm também merecido especial atenção. Mais recentemente a História Urbana tem participado activamente no chamado geographical turn. Os sistemas de informação geográfica e a georeferênciação têm trazido novos desenvolvimentos particularmente entusiasmantes neste domínio. Nos três últimos decénios a História Urbana impôs-se como um campo particularmente fecundo de renovação das problemáticas e dos métodos históricos tornandose um campo de debate relevante. Associações como a Associação Europeia de História Urbana ou a Comissão Internacional para a História das Cidades têm colóquios internacionais periódicos com muita afluência onde são apresentadas centenas de comunicações de âmbito muito diverso. Este ano realizar-se-á em Lisboa o colóquio da Commission Internationale pour l’ Histoire dês Villes, e em 2014 o colóquio da European Urban History Association o que representa um reconhecimento internacional do merecimento da comunidade dos historiadores que em Portugal se dedicam ao estudo do mundo urbano. Em intervenção feita quando da atribuição do doutoramento honoris causa pelo ISCTE/IUL, Fernando Henrique Cardoso salientou que pôr problemas requer imaginação. Não posso estar mais de acordo. A imaginação alimenta-se desde a infância, com actividades culturais, visitas a museus e com leituras. Para os investigadores a imaginação necessita da leitura da obra de outros autores. Sem partir de Estados da Arte amplos não há continuidade na investigação. A imaginação requer um permanente contacto com a comunidade internacional de historiadores de forma a haver uma actualização de métodos e objectivos. Para tal é indispensável que não se verifique uma diminuição relativa dos fundos destinados à História, para que os historiadores possam estar presentes em conferências e adquirir o acesso à informação. A disponibilização de resultados de investigação científica é indispensável à existência, não só de boa divulgação, como de bom planeamento urbano. Com efeito a investigação histórica é um processo moroso que não se coaduna com as necessidades dos que planeiam. Tem de estar disponível antes Por isso o conhecimento não pode ser feito quando os técnicos dele necessitam, produzido muitas vezes por pessoas sem formação específica Uma interpretação provinciana da interdisciplinaridade, que vem a ganhar terreno, pode, ao anular os ganhos de acumulação de conhecimento nas várias áreas, ter efeitos devastadores. Os problemas postos, os conceitos utilizados, devem ser submetidos ao contacto permanente com a documentação. O historiador não despe a sua pele mas tem de se auto-analisar para perceber o que pensa e como pensa ao transcrever, ao analisar e ao escolher o seu corpus documental. Sem uma reflexão crítica sobre a sua relação com a documentação dificilmente poderá produzir conhecimento relevante. Neste ponto a historiadora Arlette Farge apresenta-


nos um caminho muito relevante no que concerne a história das cidades. Aponta-o quando escreve que as situações limite iluminam o curso central da História. Assim a História não pode ficar-se pelo estudo do excepcional. Os arquivos não podem restringir-se a documentar a actividade de instituições centrais e nelas escolher os elementos excepcionais. Hoje em dia a própria História de Arte põe em causa as narrativas criadas no fim do século XIX e reforçadas pela influência das vanguardas modernistas no século XX, propondo temas que questionam os Canones. Os grandes museus propõem exposições que enfatizam as novas escolhas. A História Urbana não se pode restringir ao excepcionalmente bom, nem ao planeado, nem ao construído por arquitectos. Também não pode ficar pela opinião dos que planearam ou construíam o excepcional. Sem procurar as margens arriscase a não perceber sequer o excepcional. Não quero evidentemente com isto dizer que não se possa estudar o excepcional, o que quero salientar é que se deve pensar integrado num universo mais vasto e igualmente digno de investigação. Sem isso não se faz História apenas se permanece ao nível da memória corporativa, nomeadamente daquela que, entre os arquitectos, valoriza a construção de edifícios de autor. A maioria dos edifícios de Lisboa não são de autor e a quase totalidade dos edifícios das Avenidas Novas está a ser destruída em boa medida porque não teve quem escrevesse, sem julgamentos 21 de valor, a sua História. A História da cidade é uma história de pessoas e as pedras são apenas um décor que estas habitam. Para a minha “imaginação” de Historiadora contribuiu a memória que conservo do cheiro dos bairros de lata, que visitei levada pelas professoras do colégio católico que frequentei, um elemento fundamental para a minha valorização dos bairros de lata na História da cidade e da metrópole. Não se trata de um fenómeno marginal em termos numéricos. No município de Lisboa as construções clandestinas contabilizadas pela própria Câmara Municipal ultrapassavam 18 000 em 1957. Em 1960 o então recém-criado Gabinete Técnico da Habitação atribuía-lhes 43 470 habitantes. Documentar a sua existência é tão relevante como ter os projetos dos prédios modernistas de arquitetos notáveis. A divulgação histórica não se pode também ater a epopeias sem se debruçar sobre o sofrimento, o conflito, a morte e a injustiça. O fait divers que pode ser utilizado como uma narrativa do popular, apenas deve ter por objetivo uma narrativa sobre os que não figuram nas grandes narrativas. As costureiras, as prostitutas, os mendigos, os crimes e os criminosos, estão presentes na imprensa e constituem-se como uma fonte para o estudo de categorias sociais ausentes de outro tipo de documentos. A matéria-prima em História são as fontes documentais: os documentos sem os quais não se faz verdadeiramente História. A pesquisa documental, a crítica, a análise e

Quaresma do Anno de 1761 [manuscrito]: Rol de Confessados da Freguesia da Ajuda. GEO MS-LV23.


contextualização dos documentos, distingue-a das demais Ciências Sociais. É um trabalho moroso que pelos padrões das actuais avaliações quantitativas nos é muito desfavorável. Junto pois a minha voz a todos que consideram que o actual sistema de avaliação de projetos, centros, cursos e curricula não se adequa à morosidade da pesquisa histórica e não favorece a atribuição do carácter de excelência nas avaliações na nossa Arte. Chego à segunda razão da minha aceitação do convite. O meu empenho em chamar a atenção para a incúria com que o Município de Lisboa tem encarado a preservação da documentação histórica referente à cidade. Em 1994, quando Lisboa foi Capital Europeia da Cultura, entrevistei a então Directora da Divisão de Arquivos. Estávamos sob o signo da aprovação de um facto que muito convinha saudar. A instalação do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal no edifício da rua da Palma. Um novo espaço, com novas condições de conservação e o recurso a novas tecnologias para facilitar a pesquisa através de uma base de dados informatizada12. À minha pergunta sobre as condições de Instalação dos Arquivos Municipais respondeu a directora que o Dr. João Soares se decidira por uma revisão do projeto existente de forma a integrar a Biblioteca Central, a Hemeroteca e o Arquivo num espaço único. Isso permitiria, ao que disse, evitar as duplicações de serviços de restauro, do bar e dos serviços de apoio ao utente13. Em Portugal todos os agentes políticos se esforçam por deixar uma marca grandiosa 22 no espaço público. Nisto são secundados por gabinetes de engenharia e arquitetura privados, mas carentes de encomenda pública. e sempre em busca de trabalho. É assim que se gasta o dinheiro em projetos sem chegar a resolver os problemas. É assim que Lisboa não tem ligação TGV a Madrid e que o porto de containers e o novo aeroporto se passeiam de localização em localização dentro da região. Foi assim que o Arquivo Histórico aterrou no bairro poeticamente intitulado da Liberdade. No que se refere ao Arquivo Histórico a própria diretora Dra Rosário Santos, nos disse: “ Durante muitos anos houve uma “guerra” entre a Câmara e a directora do arquivo que nunca conseguiu um edifício para instalar o espólio. A Câmara obrigou-a a fazer a mudança de vários depósitos para uma cave no Alto da Eira num edifício para desalojados. A mudança foi feita contra a sua vontade e ela tinha razão porque o sítio está degradado e há inundações e maus cheiros.” Descrevia depois os dramas de equipamento que nem fora desembalado. Salientava o trabalho que desenvolvera de reorganização dos núcleos, a sua rearrumação e os pré-inventários feitos. Também referia o novo esforço de formação de pessoal As informações então fornecidas eram algo contraditórias com as disponibilizadas no Roteiro de Fontes da História Contemporânea Portuguesa, publicado em 198514. As datas chave da organização do arquivo não coincidiam e no Roteiro utilizavam-se os instrumentos de busca produzidos ao longo da vida do arquivo. Aí se salientava a diversidade

Chorographia de LIsboa e Termo referida ao Anno de 1841 [manuscrito]: parte 1ª. GEO MS-LV3


de localizações previstas entre 1966 e 1973 para o Arquivo Histórico. Em 1982 teriam sido esquecidos os anteriores projetos, e ordenada a transferência para o Alto da Eira de toda a documentação, apenas ficando de fora o arquivo do Arco do Cego. Não haveria assim nenhum projeto de pé à data da transferência da documentação para o Alto da Eira. Poderiamos acrescentar às localizações aqui referidas, a proposta feita por Ferreira de Andrade na 1ª conferencia Bienal dos Amigos de Lisboa que teve lugar em Dezembro de 1945. Por razões simbólicas escolhia-se a sala ogival do Castelo de São Jorge para instalar o arquivo. No entanto acrescentavam-se razões de centralidade ao afirmar-se ser esta uma localização “a dois passos da Baixa”. Baixa de onde ainda não se pensava expulsar as actividades. Por último valorizava-se o silêncio propício ao prazer da leitura15. É evidente que o proponente não conhecia a documentação que o Arquivo Histórico de uma cidade da dimensão de Lisboa deve albergar. Por isso propunha ainda que a documentação do Gabinete de estudos olisiponenses fosse também reunida na mesma localização. A escolha tinha fundamentação simbólica de cariz nacional pois se identificava a localização proposta com a que teria tido a torre do Tombo até ao Terramoto de 1755. No ano que vem a entrevista que fiz à então diretora da Direção de Arquivos terá vinte anos. Hoje a Hemeroteca, por mais dinâmica que seja a digitalização de espécies, está num edifício em semi-ruína, a Biblioteca Central não mudou de sítio e onde está 23 o Arquivo Histórico? Está nas garagens de um edifício de habitação social. Corre evidentemente os riscos de inundação e incêndio que são inerentes a essa localização. Os bombeiros terão feito as recomendações necessárias que terão sido tidas em conta mas isso não exclui totalmente o alto risco da localização. Uma visita às reservas mostra até que ponto as condições de armazenamento são deficientes. Igualmente deficientes são as condições de acesso ao Arquivo por utentes e funcionários por o Arquivo estar situado numa zona mal servida por transportes públicos. Ao que parece a decisão da transferência deve-se ao engenheiro Carmona Rodrigues e, ainda que não disponha de informação sobre este assunto, acredito que a direção tenha protestado. Este romance já vai longo mas a atual localização do Arquivo é muito simbólica. O arquivo, como as populações realojadas, envia-se para os confins do espaço habitado, para bairros de realojamento que devem abrigar a população que se quer expulsar do centro da cidade onde devem imperar empreendimentos de luxo e hotéis de charme. Tudo em nome do turismo e da preservação de um património no qual só a fachada conta. Infelizmente os turistas detestam ver-se a si próprios. Os novos habitantes não se precipitam para estes empreendimentos que permanecem com muitos apartamentos por vender e também detestam turistas. Assim se vai matando aquilo que a investigação histórica pode demonstrar, ou seja

que os visitantes estrangeiros apreciam sobretudo, para além da paisagem, a vida e o caráter acolhedor dos antigos moradores. Em período eleitoral encontram-se elementos positivos, ainda que a população continue a diminuir há mais famílias a habitar o centro. É tempo de os autarcas pensarem em dignificar o arquivo instalando-o num edifício renovado numa localização de fácil acesso e promoverem a inventariação e não uma digitalização de documentos escolhidos que não se coaduna que a História que hoje se faz. Alguma da Bibliografia relevante para uma nova História de Lisboa Alvarez, Fernando, Bouza, 1994, “Lisboa Sozinha, Quase Viúva: A cidade e a Mudança da Corte no Portugal dos Filipes””, Penélope, n 13,pp. 71/93. Alves, Ana, sem data, As Entradas Régias Portuguesas, Lisboa, pp.84. Andrade, Maria Amélia Aguiar, 2003, Horizontes Urbanos Medievais, Lisboa, Livros Horizonte, pp.135. Antunes, Miguel e Cunha, Armando Santinho, 1992, Santos Mártires de Lisboa, CML, Lisboa, pp.57. Araújo, Agostinho, 1987. A Assembleia Britânica em Lisboa e a sua sede (1771-1819), sep, Revista Municipal, 21, 2º trimestre, pp. V-XX.. Araújo, Ana Cristina, 1997, A Morte em Lisboa, atitude e representações, ed. Notícias, Lisboa, pp.533. Araújo, Renata, 1990, Lisboa A cidade e o Espectáculo na época dos descobrimentos, Lisboa, pp. 79. AV, 2005, 1755: o Grande Terramoto de Lisboa, Vol. I Descrições, Lisboa, F. Luso. Americana, pp. 417. AV, 2008, Lisboa do século XVII, “ a mais deliciosa terra do Mundo”, Lisboa, GEO, pp.119. Baptista, Luís Vicente, 1999, Cidade e Habitação Social, Oeiras, Celta, pp.224. Barata, Ana Maria Cardoso de Matos, 1988, As crises de Mortalidade em Lisboa, dissertação de Mestrado policopiada, Lisboa. Berger, Francisco Gentil, Bissau, Luís, Toussaint, Michel, 1994, Guia de arquitectura de Lisboa, Lisboa, pp.395. Braga, Paulo Drumond, 1992, “Dois Surtos de Peste Em Lisboa 1579-1581”, Revista da Biblioteca Nacional, 2ª série, Vol. 7, nº2 , Lisboa, pp. 7-22 Buesco, Helena Carvalhão, Manuela Carvalho, Fernanda Gil Costa e João Almeida Flor, (org.), 2006, 1755: Catástrofe, Memória e Arte, Lisboa, Colibri, pp.338. Caetano, Carlos, 2004, A Ribeira de Lisboa, na época da Expansão Portuguesa. (séculos XV a XVIII), Lisboa, Pandora, pp.285. Câmara, Alexandra T. Gago, 1996, Lisboa: Espaços teatrais Setecentistas, Lisboa Livros Horizonte, pp. 119. Câmara, Alexandra T. Gago, Anastácio, Vanda, 2004, O Teatro em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal, Lisboa, Museu Nacional do Teatro, pp. 153. Carita, Hélder, 1994, O bairro Alto, Lisboa, pp.192. Carita, Hélder, 1999, Lisboa Manuelina e a Formação de Modelos Urbanísticos da época Moderna (14951521), Lisboa, Livros Horizonte, 1999, pp. 255. Castro, Zília, (dir.), 1996, Lisboa 1821, A cidade e os


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“Teremos de perceber o que a cidade representa da vontade humana de solidariedade e do viver em conjunto: o contrário do individualismo. A cidade não como o território da anulação das diferenças, mas como o território da harmonização das Diferenças” Manuel Graça Dias. Passado Lisboa Presente Lisboa Futuro

Nota introdutória A comunicação apresentada no I Congresso de Olisipografia tratou, de forma genérica e como contextualização, algumas das questões teóricas e práticas relacionadas com as políticas e gestão de coleções e as inquietações em colecionar o contemporâneo, com que se deparam hoje os museus. Concretamente os museus de cidade, considerando, por um lado, os novos reptos com que estão confrontados e, por outro, o papel relevante que estes desempenham na cultura urbana. Desta forma, houve a necessidade de se definirem novas políticas de coleção, mais abrangentes nas temáticas e nas cronologias. Partindo assim de uma reflexão sobre a matéria, foram abordadas algumas 27 das linhas de orientação da política de coleções do Museu da Cidade de Lisboa, implementadas entre 2000 e 2012 (1). Colecionar e Coleção O tópico colecionar é um assunto que tem suscitado um interesse crescente, assistindo-se, com maior incidência desde meados da década de 90 do século XX, a uma emergente e nova área de investigação. Daqui resultando um corpo de publicações e de abordagens diferenciadas, ecléticas e inovadoras quer sobre a história das coleções, antropologia das coleções e sociologia do colecionismo, colecionadores (biografias e coleções privadas), relações entre coleção/museus e entre coleção e práticas culturais e sociais, coleções e quotidianos, cultura material, ou ainda, entre outros conteúdos, sobre modos atuais de colecionar. Nos estudos ressaltam, cada vez mais, as questões que se predem com os temas da contemporaneidade a selecionar, ou como colecionar o presente (2). Em 1996, o Dia Internacional dos Museus (ICOM) teve como tema “ Colecionar Hoje para o Amanhã “, propondose na ocasião perguntas para o debate que anunciava uma mudança do entendimento do papel da coleção nos museus: como “Colecionamos hoje da mesma forma …? ” ou “ …colecionar é um desafio importante para o futuro dos museus?” Esta transformação já se tinha anunciado numa década anterior, no seio do ICOFOM-ICOM (Comité de Museologia) (3). As temáticas sobre práticas de colecionar, a definição de

renovadas políticas e as questões do contemporâneo, bem como as suas relações com a coleção passaram, também, a ser uma preocupação e motivo de reflexão e debate permanente dos museus. Por isso mesmo em 2007, aquando da Conferencia “Connecting Collecting” realizada no Nordiska Museet, em Estocolmo (Suécia), constitui-se a “CollectingNet”, uma rede internacional para questionar e refletir sobre os temas relacionados com o colecionar em museus. Esta rede anunciada como um fórum de debate, consubstanciava a sua base de trabalho na seguinte declaração: “All over the world museums are engaged in contemporary issues, collecting, and research. Creating knowledge through continuous and well thought-out collecting is a basis for the future development of museums. Questions arising today are how museums can study and collect the global society, and how museum collections can represent the increasingly complex and diverse audiences that they serve. New conditions, scientific, ideological and ethical considerations have consequences for collecting policies and practices – for the cultural heritage, embracing both material and immaterial aspects of human life that museums produce and preserve. The challenge is common and museums need to learn about each other’s views, methods, and experiences. “ (4) A “CollectingNet” tinha ainda como objetivo dialogar com o ICOM para a constituição de um novo comité sobre a missão de coleta, políticas e práticas de coleção no trabalho museal. Este comité acabaria por surgir em 2010, designado CONCOL – ICOM (International Committee for Collecting – International Council of Museums) e com a missão de : “ to deepen discussions and share knowledge on the practice, theory and ethics of collecting and collections (both tangible and intangible) development. (…) The Committee is in charge of collecting and de-accessioning policies, contemporary collecting, restitution of cultural property and respectful practices.” (5). Os assuntos debatidos por este comité e rede antecessora e na Conferência Anual do COMCOLICOM de 2011 com o tema “Participative Strategies in Collecting the Present”, enquadrados pela teoria, prática e ética da função museal, relacionam-se com a pretensão de colecionar a contemporaneidade e os dilemas em definir limites (ou não), como entender perspetivas históricas “do presente” , que modelos processuais, ou como transformar o presente num campo privilegiado de pesquisa, assumindo-se que preservar o presente para o futuro e para beneficio das gerações é uma função/missão do museu . Na reunião mencionada discutiram-se, em resumo, os seguintes conceitos: participação, comunidade, profissionalismo, autoridade e controle, aquisição e sustentabilidade (6). Este comité mantem ainda um grupo de trabalho “ Contemporary Collecting “ que diligencia para refletir como documentar o presente e constituir uma coleção que represente a contemporaneidade, em suma, como lidar e trabalhar sobre o que anunciam ser um “fascinante fenómeno museológico” (7). Abreviando, são várias as inquietações que se colocam hoje sobre a teoria e praxis de coleção à


instituição museu “que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio ambiente…” (da Definição de Museu adotada pelo ICOM) (8) A consciência da existência de um património imaterial a identificar e preservar (Unesco, 2001) , um mundo globalizado , a constatação de uma diversidade cultural (Unesco 2005) e uma sociedade em permanente e acelerada mudança, bem como o compromisso social do museu contemporâneo, vieram alimentar os novos desafios e determinar novos modelos para constituir uma coleção. À aquisição por compra, doação ou incorporação, associamos a recolha ou coleta (experimentada desde sempre em campos como a arqueologia e a etnografia) de objetos ligados aos novos patrimónios e ao presente, mas onde ressalta a importância do ato de documentar o respetivo procedimento. Este ato acaba por se transformar em informação e conhecimento e integrar a comunicação futura do espólio aos públicos. Falamos claro em processos de registos de arte efémera e performativa, rituais, mitos, festividades, testemunhos de história oral, memórias, etc. Falamos de igual modo, em processos de desmaterialização da coleção que passa a necessitar de suportes materiais construídos, os novos objetos? (fotografias, filmes, áudios, suportes digitais). Embora a coleção do museu tivesse sido sempre “definida em relação à documentação que a acompanha e pelo trabalho que resultou dela, para ter a sua relevância 28 reconhecida” o novo modo de colecionar “levou a uma acepção mais ampla da coleção, como uma reunião de objetos que conservam sua individualidade e reunidos de maneira intencional, segundo uma lógica específica.” (9) Fomos também assistindo ao questionando do lugar do museu, da sua missão, assim como do fazer museal e à alteração de algumas das premissas anteriormente estabelecidas na praxis museológica. Desta forma, a ideia de coleção não faz parte de todos os modelos de museus, nem se assume como primordial função museológica, constatando-se a existência de museus assumidamente sem coleções que se colocam também ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento. Desvaloriza-se a coleção e promove-se a experiencia museológica e o conhecimento. Em vez de coleção, fala-se de patrimónios, de territórios, de pessoas e de desafios e questões sociais contemporâneos. Redefinem-se os objetos museológicos e alimenta-se a ideia de mudança permanente. Finalmente, falta mencionar o “Código Deontológico” do ICOM, documento de referência para os profissionais, que reafirmando a importância dos “museus manterem acervos em benefício da sociedade e do seu desenvolvimento” e de terem o dever de adquirir, gerir, preservar e documentar os acervos considerados “património público”, criando “condições para o conhecimento, a compreensão e a promoção do património natural e cultural”, define políticas e normas para a constituição da coleção (10).

1. Regresso a Lisboa, Fotografia. Graça Pereira Coutinho. 2002, MC.FOT.1102 2. Série Hortas na auto-estrada: jardins portugueses, Fotografia, Ângela Ferreira, 2006, MC.FOT.908.1 a 908.3 3. Série Rua Ana Jotta, Óleo s/tela, 2003, MC.PIN.1262 4. Série “Mirror suitcase man”, Fotografia. Rui Alçada. 2005, MC.FOT.1569, 1570 e 1571


Alguns dos novos desafios para os museus de cidade As cidades, lugar de civilização, assumem-se cada vez, como expressão máxima da(s) sociedade(s) e de um mundo, local e global, em permanente mudança. Têm várias personalidades no passado e no presente. Em média, num mundo cada vez mais urbano, cerca de 50% das pessoas vivem em cidades ou em grandes metrópoles (em 2030 serão cinco biliões de pessoas). E a vantagem de viver em conjunto, mais perto uns dos outros, é a possibilidade de se criar centros de excelência, promovidos pelo modus vivendi das e nas cidades. Estas são em si uma complexidade passada/presente/ futura. Territórios de patrimónios (material e imaterial) e de pessoas. De História, do simbólico, de memórias e esquecimentos. De identidades e diversidades culturais. Organismos vivos. Espaços de afetos, sentimentos e emoções. Sítios de produção de conhecimentos. Lugares para pessoas. Sítios onde a vida acontece. Logo os desafios que hoje se colocam aos museus de cidade são inúmeros. Estão confrontados com responsabilidades acrescidas e novos conceitos que têm de equacionar, trabalhar e integrar na sua missão, tais como: responder às perspetivas da cidade contemporânea e responder às necessidades dos seus habitantes; entender (e apreender) a cidade como fonte de energia cultural, intelectual, social, política e económica em permanente mudança; perceber a cidade como espaço de grande dinamismo democrático e de poder; 29 lidar com os fenómenos de globalização, interculturalidade e multiculturalidade, identidade, diversidade cultural e fragmentação identitária, hibridismo cultural, memória social e amnesia social; promover a reflexão e o debate sobre questões, problemas e inquietações da sociedade atual e das comunidades locais (imigração, êxodos para os subúrbios, tensões religiosas, ambiente, poluição, reciclagem, transportes, mudanças climáticas, criminalidade, violência, vitimização, toxicodependência, crises económicas e sociais, consumo, etc); promover e atuar sobre a defesa do património material e imaterial do território urbano e na construção de novos patrimónios; conseguir que o museu seja um protagonista da memória, da história, do presente e do futuro da cidade (um fórum de discussão). Por isso são museus que devem não esquecer que são instrumentos e recursos para o desenvolvimento; museus para intervir na cidade; para provocar a leitura com(da) a cidade e com(do) os seus patrimónios; lugares de formação de uma consciência coletiva urbana da memória, do social, da história, do património e de uma consciência de cidadania. Ao proporcionar ao cidadão (à sociedade e às comunidades) uma experiência direta com o território, incentivando-o a interagir, a observar e a refletir sobre os bens culturais nos diferentes contextos. Museus contemporâneos que cada vez mais assumem a cidade como o mais importante objeto museológico. A cidade como um dos objetos da sua coleção. The city

as an artefact ? Questiona Ian Jones: “ Why not? You may not be able to put it in a display case, but it is a tangible object full of human beings of all shapes and sizes, buildings and spaces of every description, and all changing constantly, with the past running into the present and on to the future. Cities are where things happen, where revolutions take place, where decisions are made which affect our lives. They are the places people move to because they represent the hope of a better life, and they are where most of the world now lives. You could say that the city is an artefact beyond the wildest dreams of a museum curator, except that there are museums in their thousands with these artefacts across the globe - big city museums, small city or town museums or museums with just a small corner devoted to the city. Cities matter and it would be odd if we did not have museums about them. “ (11)

5. 1º de Maio de 1974, António Rafael, MC.FOT.571 6. 25 de Abril de 1974, António Rafael, MC.FOT.559 7. Caneca da Escola Básica do Beato nº 20, Faiança . 1930-40, MC.CER.1080.5


A política de coleção do Museu da Cidade de Lisboa Partindo de um conjunto de pressupostos atrás enunciados e alicerçados nas premissas para definir uma coleção para o futuro, houve, nos inícios do século XXI, a necessidade de equacionar e redefinir a política de coleções para o Museu da Cidade de Lisboa, o que levou à definição de novos planos que, ao longo de pouco mais de uma década, foram sendo reajustados, como deve ser a prática do fazer museal. Desde logo, procurou-se reforçar e atualizar o programa vigente e inicial voltado essencialmente para a aquisição de objetos do passado, visando uma nova estratégia que, em resumo, pretendia o seguinte: estabelecer marcos e limites à coleção; preencher lacunas na coleção; definir uma coleção para o século XX e para o presente, ou seja para a cidade contemporânea; estabelecer programas para documentar o presente; integrar o alargamento dos conceitos de património, de memória e de identidade (património intangível, bio-património, diversidades culturais); documentar a vida e as comunidades urbanas; responder aos novos desafios e temas que se colocam hoje aos museus de cidade. Perante estes reptos, foi definida uma renovada política e gestão integrada da coleção, cruzada com o incremento da documentação, investigação e da prática de inventários sobre o património urbano, porque, afinal, o nosso objeto museológico maior é a própria cidade, como atrás sublinhamos. Não esquecendo que a História de Lisboa e a missão do museu foram determinando 30 (e devem continuar a definir) a composição da coleção, pensada também para o beneficio do(s) público(s) e da sociedade. Desta forma, colecionar o século XX (uma das grandes lacunas da coleção do museu) mas sobretudo, comprometermo-

nos a colecionar a Lisboa contemporânea era uma das grandes prioridades do Museu da Cidade de Lisboa, uma responsabilidade e um dos desafios que enfrentávamos. Para o cumprimento deste objetivo foi necessário encontrar (em processo contínuo e evolutivo) respostas a alguns questões basilares e definidoras da filosofia do programa de coleção: que conceito de coleção? O que colecionar? Como escolher/selecionar temas para a coleção? Que estratégias utilizar para colecionar? Que limites colocar? Quem deve participar na constituição da coleção? Quem deve decidir o que integrar a coleção e como fazê-lo? Como documentar o presente? Como integrar conceitos de património (material e imaterial), memória e identidade (e diversidade cultural)? Como relacionar a nova coleção com a coleção existente, passado presente? Como utilizar a nova coleção, garantindo a sua preservação, estudo e divulgação? Como relacionar a coleção com a exposição? Colecionamos objetos e histórias (imagens e sons) que servem para documentar a história da cidade (do século XX e a perspetiva histórica do contemporâneo, considerando sempre que o presente abarca o passado e o futuro), a história social, económica, política, cultural; o urbanismo e a arquitetura; a vida quotidiana; as mentalidades, a religião, as identidades; a arte, etc. Materializados através de peças e testemunhos orais sobre a cidade e a vida contemporânea; peças usadas ou produzidas na cidade; peças que representem Lisboa e os seus habitantes; obras de arte, novas iconografias e registos do presente do território urbano e das suas vivências. Podemos ainda referir elementos diversos que expliquem as ações do homem na paisagem urbana natural e construída, bem como elementos que se reportam à cultura urbana, ao multiculturalismo, à diversidade cultural, entre outros. A nova coleção integra património material e imaterial, por exemplo, como pintura, desenho, gravura, fotografia,

8. Maqueta da Expo’98, 1995-1998, MC.MAQ.85.1


azulejo, cerâmica, metais, vidros, escultura, têxteis, mobiliário, documentos e manuscritos, maquetas, património industrial e ainda grafitti, aplicações interativas, design, filmes, literatura, musica, registos áudio e vídeo. A cidade conserva-se e transforma-se por si própria e pela ação humana. Lisboa, como a maioria das cidades, mudou drasticamente ao longo do século XX e inícios do século XXI e mantem-se em permanente e acelerada mudança. A complexidade e dimensão do território urbano e da sociedade deve levar-nos a ser ambiciosos e criativos (por vezes polémicos e conscientes de uma tarefa de contornos megalómanos) ao pretender documentar o presente, colecionando artefactos, imagens, história oral que registem a vida em Lisboa e que expliquem as mudanças a que fomos e vamos assistindo. Destes e outros desígnios, resulta um conjunto de temáticas das quais podemos citar apenas algumas: Transformações e Paisagem Urbana; Ambiente; Poder; Violência e Segurança; Pobreza; Inclusão; Quotidianos; Grandes Eventos; Trabalho e Lazer; Turismo; Identidade; Cultos e Religião; Festividades; Ícones; Família; Crise; AAgitação Social. A nova política de coleções, considerando uma racionalização de recursos quer humanos quer financeiros e uma cultura participativa (vale a pena correr o risco de perda de autoridade por parte do museu), reflete também uma mudança das usuais práticas museológicas, obrigando à definição de estratégias que 31 impliquem processos de colaboração, de sinergias e conexão social. Estamos a falar de criação de parcerias (Universidades e outros equipamentos da CML, por exemplo) para a recolha, documentação, investigação, conservação e partilha de espólios. Mas também no envolvimento de especialistas relativos às variadas áreas da coleta. E ainda na participação da sociedade civil que pode e deve cooperar para a preservação do património, da memória e para a documentação da cultura urbana contemporânea, selecionando objetos e imagens e contribuindo com testemunhos orais de vida. É hoje inquestionável o papel das comunidades na implementação de projetos participativos para colecionar o presente (12). Mas devemos ainda contar com coleções de outras instituições, incluindo museus, arquivos de imprensa estrangeira e nacional (13), ou particulares com espólios sobre a cidade que podemos identificar e documentar em Arquivo Virtual, evitando-se conflitos com outras políticas de coleção, duplicação de matérias e gastos. Sem esquecer o universo das redes sociais. Por outro lado e considerando a vastidão e diversidade de temas com que nos confrontamos, foram estabelecidas metas (não limites) para colecionar com objetivos determinados focados, particularmente, em projetos expositivos, editoriais, educativos, de investigação, de salvaguarda patrimonial e desenvolvimento. O que nos conduz à temática de como utilizar a nova coleção e como fazer uma gestão integrada da mesma

que implica não só com o estudo e conhecimento aprofundado da natureza da coleção que estamos a formar, mas também com o questionamento e a atualização permanente das estratégias e das práticas de acordo com as tendências, modelos e boas experiencias atuais que sejam adequadas ao que se pretende. Assim, sendo uma das funções do museu preservar, estudar o seu espólio, é importante determinar o que integrar fisicamente na coleção (que podemos designar de “permanente”), garantindo para este acervo a conservação, remetendo uma parte da recolha para um Arquivo Virtual (a funcionar também como Centro de Documentação). Há ainda que considerar que a coleção serve os intentos dos processos de comunicação e divulgação concretizados através das exposições permanentes, de longa duração, temporárias, virtuais ou itinerantes, de atividades e eventos de animação e educativos, das publicações, da participação ativa em redes e nos procedimentos de mobilidade (empréstimo e /ou depósito de peças a outros museus). Mas como é que a coleção pode responder às necessidades dos públicos dos museus, servir e respeitar as comunidades contemporâneas e impactar o desenvolvimento social? Não esquecer de estabelecer objetivos de acordo com os interesses dos públicos e redefinir a relação entre colecionar, pesquisa e comunicação; ter presente que as culturas em vias de extinção não podem ser preservadas através de simples recolha de artefactos ou histórias orais; entender que memórias a sociedade procura preservar; dar espaço para a construção das memórias sociais; contribuir para ajudar as comunidades a debater a complexidade da sua identidade; incrementar a educação para a cidadania. Por fim, ao constituir uma coleção, neste caso sobre o século XX/XXI e o presente, não podemos deixar de reinterpretar e reavaliar a “antiga coleção” que passa a integrar a “nova coleção”, ou seja a coleção do museu revitalizada que reafirma a sua identidade. 9. Molde das armas da cidade de Lisboa, Olaria do Desterro. Cerâmica Comum. C. 1940/50, MC.EQU.UTE.0257


Partindo destes pressupostos teóricos que devem nortear a praxis, fiquemos com alguns exemplos concretos do trabalho que o Museu da Cidade de Lisboa desenvolveu no período assinalado (conscientes de que muito há para fazer), como estratégia para colecionar o século XX/XXI, o presente, a cidade contemporânea. O nosso objetivo a curto e médio prazo, seria, numa primeira fase, permitir a reestruturação do núcleo dedicado a Santo António (Museu de Santo António) e o alargamento da exposição sobre a história e a vida da/na cidade de Lisboa construindo um renovado discurso expositivo até à atualidade (a exposição permanente termina em 1910).

Quotidiano e Imagens Além de variadíssimos objetos do quotidiano, acervo de eventos como a Expo 98, espólio fotográfico (revoluções e manifestações, cultos e procissões, atividades laborais), entre outros, fomos adquirindo de forma sistemática um conjunto de obras de arte contemporâneas que podemos assumir como as novas iconografias de Lisboa. (14)

11 e 12. Culto a Santo António, 13 de Junho de 2012 e 2011

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O Património Industrial Confrontados com a inexistência de património industrial na coleção, traçamos um plano para recolha de informação relativa ao universo fabril existente ou em vias de extinção em Lisboa, sobretudo oficinas e indústrias de pequena escala (muito características no panorama industrial da cidade já desaparecido, ou disperso, ou sem vestígios materiais) (15). Em 2002/2003 foram doados ao museu alguns espólios da Engomadoria Ramiro & Leão (1883-1980) como maquinaria e peças de vestuário e desde essa ocasião procurouse, numa primeira fase, recolher (ou pontualmente adquirir) objetos e documentação ( e testemunhos orais de proprietários ou operários) de oficinas e industrias extintas que constituem hoje o embrião da coleção de património industrial do museu. Podemos citar dois outros exemplos, em que foi possível incorporar na coleção todo o acervo, como o da Olaria do Desterro (finais do século XIX-2008) e o da tipografia Imprensa Económica (1908-2000). As peças da Engomadoria e da tipografia encontravam-se “in situ” (algumas em situações precárias, como no caso da Engomadoria já encerrada há alguns anos e com as instalações em mau estado de conservação) o que facilitou o ato de documentar a recolha, efetuada respetivamente em 2002 e 2011. Relativamente à olaria foi possível acompanhar os últimos momentos de laboração. Paralelamente foi criado o PIL (Inventário 33 Património Industrial de Lisboa), 12, 13 e 14. Colarinho enogmado e Máquina de engomar manual. Engomadoria Ramiro & Leão. Início do século XX. MC.PI.02.0001 . Imagens in situ em 2002. Travessa da Pena. PIL.006.

associado à base de dados do inventário museológico, como base de trabalho para o estudo e salvaguarda deste património que tende a desaparecer, mas também almejando que o museu possa conseguir atuar para a manutenção e sobretudo revitalização de industrias identitárias de Lisboa. E quiçá, no futuro, ser equacionada a constituição de um núcleo museológico do Museu da Cidade sobre património industrial. 15, 16, 17. Tipografia Imprensa Económica. Calçada do Carmo B.I do fundador. Interiores em 2012. Impressoras “Frontex Automatic” e tipo Minerva. Fabrico alemão. Séc. XX (1ª metade) e Séc. XIX / XX. PIL.032. 18 e 19. Olaria do Desterro. 2007. PIL.007.


Património Imaterial Visando a realização de uma exposição temporária sobre “Lisboa. Século XX”, em 2004, foi realizado um conjunto de recolha de testemunhos e entrevistas a personalidades de diversas áreas do saber (Gonçalo Ribeiro Teles, Nuno Teotónio Pereira, Irisalva Moita, Salete Salvado, Pedro Nazaré Costa, Raul Solnado, Appio Sottomayor, Gerard Castelo Lopes, Sommer Ribeiro, Maria José Salavisa, Adriano Moreira, José Augusto França, Adriano Moreira, Pedro António Nazareth Costa) que falam da sua relação com a cidade, das suas memórias e emitem opiniões sobre a contemporaneidade (16). Já em 2003 uma atividade de animação dirigida ao público sénior “Acordar História Adormecida” possibilitou o registo de testemunhos e narrativas sobre o espaço urbano. Estes importantes registos que devem ter continuidade, fazem hoje parte da coleção de história oral do museu que ao contrário de outros museus congéneres, infelizmente por razões de escassez de recursos humanos e meios financeiros, é ainda muito escassa e logo insuficiente. Entretanto, considerando a necessidade de sistematizar as recolhas e criar um acervo sólido de história oral, foi definido em 2011, um plano para promover o estudo, preservação, valorização e divulgação do património imaterial de Lisboa que deveria ser desenvolvido em colaboração com o Gabinete de Estudos Olisiponenses (CML).

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Este projeto tinha como objetivo fazer o levantamento e o registo, de forma faseada e de acordo com as prioridades programáticas do museu, dos bens culturais móveis ou imóveis associados ao património imaterial, lugares e testemunhos vivos sobre as seguintes temáticas: práticas sociais, rituais e eventos festivos; tradições e expressões orais e histórias de vida. No âmbito deste programa foram iniciadas ações enquadradas no projeto de remodelação e ampliação do Museu de Santo António e na realização de uma exposição temporária, sobre devoções e registos de santos em azulejo. Para o Museu de Santo António foi feito anualmente (a partir de 2010) o levantamento sistemático das manifestações de culto ao santo por ocasião do 13 de Junho e das festas de Lisboa, realizado com a colaboração da antropologia e trabalho voluntário (17). “Devoções” foi o programa de história oral associado aos registos de santos em azulejo, que consistia no

18 e 19. Procissão de Santo António. 13 de Junho de 2012. Vídeo. MA/DVD - 3.


registo de testemunhos escritos e orais dos moradores onde se encontram colocados os painéis, que falam do significado das imagens religiosas ou das motivações que estiveram na origem da colocação das mesmas nas fachadas de suas casas (18). Assinalemos ainda outras duas ações programadas, mas que não chegaram a ser concretizadas. A indispensável criação de um Blog para recolha de elementos direcionados à cidade contemporânea, na linha de uma cultura participativa e de envolvimento da sociedade (modelo já largamente experimentado com sucesso, por diversos museus da Europa e América). Assim como o programa que designamos de “Coisas da minha Rua” e que pretendia documentar os quotidianos dos habitantes e a sua relação com a casa, a cidade e o espaço público. Porque concordamos cada vez mais com Orhan

Pamuk quando no seu “ Modesto Manifiesto por los Museos” de 2012, afirma que “El futuro de los museos está dentro de nuestras casas” (19). Devemos documentar e estudar a cidade e sobretudo os seus habitantes, mas também manter e preservar de uma forma ativa as memórias e as identidades de Lisboa. Colecionar o presente para o futuro.

20. Breves testemunhos devocionais. Vídeo. 2012: “A fé começou a mexer dentro da sua alma… O registo foi colocado pelo pai que se tornou devoto de Nossa Senhora de Fátima após ter presenciado o que achou ser um milagre: pétalas de rosa que caíam do céu desapareciam antes de atingirem o solo…” (Elisa França) 21. Registo de Nossa Senhora de Fátima. Benfica. Azulejo. C. 1939/35.

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Notas 1 Aquando da apresentação desta comunicação em 2012, ocupávamos o cargo de Diretora do Museu da Cidade de Lisboa (cargo que deixamos em Maio de 2013), pelo que o conteúdo da mesma se reporta a um determinado período cronológico e às políticas e projetos concretos que implantamos, ou se preconizava então vir a desenvolver (no âmbito de um plano de renovação do Museu da Cidade em curso desde 2010). Ver: Leite, A.C. (2010). Um novo Museu para Lisboa. Projeto de Requalificação e Valorização do Museu da Cidade. Acedido em outubro de 2014. Em linha: http://www.museudacidade.pt/investigacao/ estudosonline/Paginas/default.aspx. Nº de Inventário : MC/ CD ROM – 120. No âmbito da City History Museum Research Network of Europe da apresentamos uma comunicação sobre estas matérias integrando o debate entre parceiros de museus de cidade europeus e investigadores de história urbana; A.C.Leite, Collecting Contemporany City. Policies of Museu da Cidade de Lisboa, Conferência inserida no Second General Meeting of the City History Museum Research Network of Europe – City museums as crossroads in the public sphere MUHBA/Museu d’Història de Barcelona, Barcelona, 7 novembro 2011. 2 O tema é vasto e não cabe no âmbito desta comunicação fazermos uma abordagem exaustiva, apenas uma breve resenha para uma melhor contextualização das políticas que desenvolvemos para o Museu da Cidade de Lisboa. Algumas das publicações e sites sobre a matéria, atualizadas aos últimos dois anos, veem indicadas em Referências Bibliográficas. Ver também listagem bibliográfica organizada pelo Centro de Informação Museológica do ICOM-UNESCO em 1996, mas revista em 2010. Acedido em setembro de 2014, em linha : http://icom.museum/fileadmin/user_upload/pdf/ Bibliographies/20101108_IMD_1996_Collecting.pdf


3 Tradução livre do inglês. Ver Documento “About the Theme”, 1996, com restantes perguntas e respostas dadas por Comités do ICOM. Acedido em setembro de 2014, em linha: http:// icom.museum/fileadmin/user_upload/pdf/imd/1996/19962A_eng.pdf. A mesma temática havia sido alguns anos antes (1984) debatida no Simpósio Anual do ICOFOM-ICOM (International Committee for Museology – International Council of Museums) promovido por Vinos Sofka e onde se visualiza já um questionamento importante sobre a ideia de coleção em museus, percursor dos entendimentos atuais (numa época também de debate significativo sobre a museologia) lançada por Zbynek Stransky . Ver Icofom Study Series 6 e 7. Acedido em setembro de 2014, em linha: http://network.icom.museum/ fileadmin/user_upload/minisites/icofom/pdf/ISS%2006%20 (1983).pdf e em : http://network.icom.museum/fileadmin/ user_upload/minisites/icofom/pdf/ISS%2007%20(1984).pdf 4 Eva Fägerborg “Formation of an international museum network for collecting issues” Collectingnet Newsletter No 1 April 2008 p. 1. Acedido em setembro de 2014, em linha: http:// network.icom.museum/fileadmin/user_upload/minisites/ comcol/Newsletter/Newsletter1.pdf. Esta rede passou a editar regularmente a “Collectingnet Newsletter” até junho de 2010, estando disponível no site do COMCOL-ICOM. A partir de outubro de 2010 é substituída pela Comcol Newsletter (International Committee for Collecting - ICOM) 5 Comcol Newsletter, nº 11, outubro 2010, p. 1. Acedido em setembro de 2014, em linha: http:// network.icom.museum/fileadmin/user_upload/ minisites/comcol/Newsletter/Newsletter11.pdf

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6 Documentação diversa sobre esta Conferência (conclusões e bibliografia de referência) pode ser consultada em http://network.icom.museum/ comcol/events/previous-conferences/ (acedido em setembro de 2014, em linha). Resumos em Comcol Newsletter, nº 16, dezembro 2011. Acedido em setembro 2014, em linha : http://network.icom.museum/fileadmin/ user_upload/minisites/comcol/Newsletter/ Newsletter16.pdf ; Comunicações publicadas em Mensch, L. M.v. & Tietmeyer, E. (2013)

7 Ver o Blog “Contemporary Collecting” da responsabilidade deste Grupo do COMCOLICOM. Acedido em outubro 2014, em linha: http:// contemporarycollecting.tumblr.com/ . Ainda sobre o Grupo, comissariado por Arjen Kok ver: http://network.icom.museum/comcol/who-we-are/ working-groups/ ; Mais relatórios e notícias em “Comcol Newsletter” acedido em setembro de 2014, em linha : http:// network.icom.museum/comcol/publications/newsletter/ 8 Definição de Museu em: http://www.icom-portugal. org/documentos_def,129,161,lista.aspx 9 Desvallées, A. & Mairesse, F (2013). Coleção (pp.35). Em linha: http://icom.museum/fileadmin/user_upload/pdf/Key_Concepts_ of_Museology/Conceitos-ChavedeMuseologia_pt.pdf 10 Código Deontológico – ICOM Versão em Português, acedido em setembro de 2014, em linha: http://www. icomportugal.org/documentos_cd,129,131,lista.aspx. Em cada país este Código deve ser enquadrado pelos respetivos quadros legislativos: Lei Quadro dos Museus Portugueses, Lei n.º 47/2004 de 19 de Agosto. Em linha : http://www. patrimoniocultural.pt/en/museus-e-monumentos/redeportuguesa/lei-quadro-dos-museus-portugueses/ 11 Jones, I. (2014) Foreword in Jones, I., Dandweiss, E., Mouliou, M. & Orloff, C. (Eds). (2012). Our Greatest Artefact: the City. Essays on cities and museums about them. (p.7). Istambul: CAMOC. Acedido em outubro de 2014, em linha: http://network.icom.museum/camoc

12 Veja-se o tema e as comunicações da Conferencia do COMCOL-ICOM de 2011 referidos na nota 5. 13 Para citarmos alguns exemplos: Museu da Farmácia; Coleção dos Hospitais de Lisboa; Museu de Eletricidade ; Museu da Água; Museu de Telecomunicações; Museu do Bombeiro; MUDE; Museu do Teatro; Arquivo Histórico e Fotográfico da CML; Arquivos da CML; GEO; Arquivos das Televisões e Rádios; etc 14 Para que estes e outros elementos do acervo pudessem ser facilmente acessíveis aos públicos e a investigadores, estava prevista a disponibilização de uma versão web da base de dados museológica, associada ao site do museu. Fatores de ordem económica adiaram este imprescindível projeto. 15 Não podemos deixar de lembrar os importantes e pioneiros trabalhos pioneiros na área de proteção do património industrial de Jorge Custódio e Deolinda Folgado. 16 A exposição nunca chegou a ser concretizada e tinha como Comissário José Sarmento de Matos. Registos vídeos “Depoimentos Lisboa Século XX” foram gravadas pela Videoteca Municipal de Lisboa. Nº de Inventário : MC/DVD- 66 a MC/DVD 72 e MC/DVD- 24. 17 Parte destes elementos integram hoje, não só o acervo do museu, como foram determinantes para a elaboração do programa museológico do novo Museu de Santo António que reabriu em julho deste ano (Museologia: Ana Cristina Leite, Pedro Teotónio Pereira e Rita Fragoso de Almeida). Levantamento do património imaterial: Antropologia : Luís Maçarico. Voluntariado : Ana Filipa Leite ; Registos vídeos: Ana Filipa Leite, Sara Pires e Videoteca Municipal; Registos Fotográficos : José Avelar, Luís Maçarico, Ana Cristina Leite. 18 - A exposição “Devoções Populares. Registos de Azulejos” (Comissários: Ana Cristina Leite, Fernando Lopes Peixoto e Margarida Almeida Bastos) realizou-se no Museu da Cidade de Lisboa em 2013 e estava integrada no “Projeto de Investigação e Salvaguarda dos Registos de Azulejo de Lisboa. Seculo XVII à Atualidade” da responsabilidade de Fernando Lopes Peixoto e Margarida Almeida Bastos que teve como objetivo a identificação/ inventariação (Base de Dados com cerca de 1500 entradas) e o estudo desse património, com vista à sua preservação e divulgação. Vídeo: “Breves Testemunhos Devocionais” , Recolha: Fernando Lopes Peixoto MArgarida Almeida Bastos. Videoteca Municipal de Lisboa. 2012. Nº de Inventário MC/DVD - 120 19- Acedido em outubro de 2014, em linha : http://cultura.elpais. com/cultura/2012/04/27/actualidad/1335549833_020916.html


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Temo sinceramente que as despretensiosas palavras que, por amável convite, aqui venho proferir possam ser interpretadas pelos pacientes ouvintes como um capítulo das minhas memórias - que, aliás, não tenciono escrever. Na verdade, ao abordar o tema que me foi proposto, dei comigo a pensar que teria de contar experiências muito antigas e suficientemente banais, que me levaram a ver crescer um interesse que deveria ser óbvio: conhecer melhor a minha terra. Assim, remontando a um passado cada vez mais longínquo, começarei por dizer que vivi os meus primeiros anos no bairro da Madragoa. E cedo comecei a fazer perguntas – que nem sempre tinham resposta. Havia uma travessa das Isabéis e eu não conhecia Isabel nenhuma que lá morasse. Acreditei durante um tempo que a Travessa do Pasteleiro tinha esse nome por vir desembocar em frente da pastelaria do Sr. Américo - e este seria a personagem invocada no letreiro. Confundindo o termo “Barbadinhos” com “barbeadinhos”, concluí que seriam uns sujeitos que iriam ao estabelecimento onde um barbeiro gordo e calvo me cortava o cabelo. Aprendi entretanto na Catequese que havia três virtudes teologais. Então por que razão tinha eu ali à mão a Rua da Esperança, quando as ruas da Fé e da Caridade ficavam lá para S. José? Mais que tudo em redor, contudo, encantavame o Chafariz. Aquele vulto branco, com arrebiques e ar palaciano provocavame qualquer coisa. Ainda havia bocas a funcionar – e só depois soube que era 39 afinal água da Companhia que ali corria e servia às maravilhas para abastecer as casas onde ainda não havia canalização. Quer fosse a caminho do eléctrico de S. Bento, quer me dirigisse ao jardim (o tal que é de Santos, se chama oficialmente de Nun’Álvares e que nós conhecíamos por Jardim dos Gatos), quer fosse, já mais crescido, para a escola, tinha de olhar, uns segundos que fosse, para o meu monumento quase privativo. Minha avó materna era uma senhora profundamente religiosa e ia-me dando explicações sumárias sobre os topónimos que mais a tocavam. A breve trecho, ouvindo falar em profusão de Trinas, Francesinhas, Inglesinhas, Bernardas, Beneditinos, Marianos e outros mais, pus-me a imaginar que a Madragoa tinha sido um enorme convento, dividido por secções conforme as especialidades. Uma vez, como prémio por saber bem as lições, tive direito a uma visita, feita com mais dois meninos e a mestra, ao Museu das Janelas Verdes. E entretanto a tal minha avó passou a levar-me consigo em quase todas as visitas que fazia ao Sagrado Lausperene, o que me trouxe pelo menos duas vantagens: aprendi de ouvido alguns rudimentos de latim litúrgico e fiquei a conhecer quase todas as igrejas de Lisboa. Sucediam-se entretanto as perguntas, que ia fazendo em tal catadupa que um dia uma vizinha, que eu estimava como a uma tia, mostrou uma breve impaciência e me leu a sina: “Ó rapaz, tu és um grande

bisbilhoteiro, sempre a querer saber histórias…”. Mal sabia a santa senhora que eu não desmentiria essa vocação – tão bisbilhoteiro era que fui para jornalista! Mas a coroa de glória veio no dia em que passei junto da Rua Carlos Mardel e fui eu a informar quem me acompanhava que aquele senhor tinha sido o autor do meu Chafariz da Esperança. “Como sabes isso?”. Nem eu já sabia quem mo tinha dito… A aprendizagem A vida dá muita volta e às tantas saí de Lisboa. Meu pai fora destacado para Tomar e lá deixei o Tejo para me acolher ao Nabão. Em boa hora! É que naquela cidade havia uns três ou quatro cavalheiros a quem não era preciso fazer perguntas sobre a sua terra, porque espontaneamente falavam dela e dos seus encantos, tendo o cuidado de me explicar com calma quando me viam interessado. Depois passei a notar que raros eram os tomarenses, de qualquer estrato social, que ignorassem as belezas da cidade. Claro que não vou ao exagero de pretender que toda a gente tivesse conhecimentos de História e Arte. Mas a verdade é que se um turista perguntasse a um transeunte onde ficava determinada igreja ou um certo edifício, não ficava sem resposta, quase sempre acompanhada de um leve comentário. “Vá lá que é muito bonito”. Mesmo residindo fora, nunca deixei de “vir à terra”. Quaisquer dias de férias bastavam e o acolhimento estava garantido em casa de familiares. E a suspeita foi-se avolumando: estes meus conterrâneos, na sua grande maioria, ignoravam quase tudo sobre a terra onde tinham nascido ou pelo menos viviam. No regresso definitivo a Lisboa, confirmei os meus receios. Havia excepções, claro: muito boa gente sabia contar coisas do seu bairro e conhecia, ao menos por fora, os edifícios notáveis da sua zona. Mas a generalidade vivia alheada de patrimónios e tradições. Já na vida prática, reafirmaram-se os meus receios. Quando uma jornalista, que até tinha talento, nascida e criada em Lisboa, trabalhando no Bairro Alto, me veio perguntar onde era a Rua Nova do Almada, fiquei muito nervoso. Quando um jovem estagiário, também lisboeta, classificou a igreja de S. Domingos como igreja de Todos os Santos (certamente porque ouvira falar vagamente do Hospital que foi vizinho), ia tendo uma apoplexia. Depois era o guia turístico a informar que o elevador de Santa Justa fora construído pelo Eiffel. E o motorista de táxi que não sabia onde era S. Vicente de Fora… Falando desta última classe, que saudades me ficaram dos tempos em que profissionais experientes me ensinaram artérias pouco conhecidas ou me mostraram caminhos muito mais rápidos. E às tantas tive a minha “estrada de Damasco”: encontrei numa Biblioteca as “Peregrinações em Lisboa” de Norberto de Araújo. Até aí, tinha lido várias prosas dispersas sobre a cidade, feito consultas que me ajudassem a conhecer e perceber. Mas aquela escrita límpida e apaixonada, sem nunca deixar de ser informativa, sobre a minha cidade, prendeu-me especialmente – e para sempre. Ele era o autor capaz de, antes de se lançar numa descrição esmiuçada da Madragoa, falar dela como de um aglomerado garrido, onde cheirava a mar, onde campeavam os prédios forrados


de azulejo, onde as cantigas se cruzavam com os pregões das varinas e de outros vendedores. Era ele quem, antes de se tardar pelas visitas às muralhas, às torres, à alcáçova, à porta de Martim Moniz e demais zonas do Castelo, descrevia a colina em seu redor como uma saia de folhos… Norberto – a quem não conheci pessoalmente pois morreu cedo e ainda eu era imberbe – saberá, lá no outro mundo, que foi o responsável pelo facto de eu também querer fazer alguma coisinha, por mais humilde que fosse, por esta terra. Saberá que andei pelos alfarrabistas à procura da totalidade da sua obra. Saberá ainda que importunei meio mundo até se conseguir que fosse editada uma segunda edição das “Peregrinações”. E lá se fez… Os cinco “clássicos” Mas foi também ele, através das citações frequentes e das homenagens aos seus pares, a que não se furtava, quem me abriu caminho para outros grandes olisipógrafos. A curiosidade estava inteiramente desperta para me lançar a Júlio de Castilho, Vieira da Silva, Matos Sequeira, Pastor de Macedo – para só citar os meus cinco clássicos preferidos. O que tentei aprender, meu Deus! E como tenho ficado aquém do que queria! Mas lá me embrenhei pela montanhosa obra de Castilho, vasculhando o Bairro Alto onde eu próprio trabalhei, esmiuçando os bairros orientais, cheirando a maresia na Ribeira de Lisboa. Vi também a cidade com um rigor quase geométrico na prosa enxuta 40 e fundamentada de Vieira da

Silva. Foi a altura em que contactei muito mais pormenorizadamente com o Castelo, as cercas, os mil e um aspectos dispersos da cidade que nos une. Com o mestre Matos Sequeira, cujo cinquentenário de falecimento celebramos, sucedeu-me um caso curioso: conhecia-o como autor teatral, como crítico e como poeta, nomeadamente nas gazetilhas bem humoradas e perfeitas que assinava como “O poeta Caldas”. Era, para mim, uma revelação: como se podia comentar um espectáculo teatral em verso. Cheguei depois ao olisipógrafo, a maravilhar-me com as descrições fabulosas de “O Carmo e a Trindade” ou “Depois do terramoto”. Já tinha uma noção rigorosa sobre o escritor quando descobri, mais uma vez num alfarrabista, um livrinho que conservo como tesouro: um exemplar de um “Auto de Santo António” que foi representado nos anos 30 do século passado no adro da Sé. A singularidade deste livro está no facto de ter sido autografado pelo autor e por todos os actores que entraram na função. Havia ainda a “Lisboa Antiga”, uma reconstituição da cidade de outras eras, levada a cabo na Rua das Francezinhas, de que vários familiares me falavam com saudade. Vim a saber que tinha sido também obra de Matos Sequeira. Mas sobre este

Chafaris da Esperança / Cliche de E. Portugal. In: Album de Bilhetes Postaes : vistas de Lisboa, V. 12. - p. 1, nº 1. - Colecção Vieira da Silva VS Cota: MNL 98-G  CMLEO .


escritor de sete especialidades vamos, felizmente, ouvir falar mais detalhadamente neste Colóquio. Nunca tive a sorte de falar com Matos Sequeira, embora o tenha avistado na Brasileira do Chiado ou numa Cervejaria Trevo, ali próxima. Tive mais sorte com seu genro, o Dr. Luís de Oliveira Guimarães, também olisipógrafo a seu jeito mas muito mais um homem de sete ofícios no campo das letras. Fiz-lhe aquela que foi a última entrevista da sua vida e tive o gosto de propor o seu nome para uma rua de Lisboa, sugestão que foi obviamente aceite. E destes cinco magníficos que salientei, falta a referência a Pastor de Macedo. Se ninguém me levasse a mal, diria que se trata de outro “bisbilhoteiro” como eu. A diferença entre nós está em que ele, à força de pesquisas e de ser tocado por um talento invulgar, transformou as suas bisbilhotices em referências indispensáveis. Só ele descreve uma rua com os respectivos moradores e traça a genealogia das famílias abrangendo algumas gerações. Mas este mestre está bem entregue. A minha amiga Ana Homem de Melo convive com escritos e ficheiros de Pastor de Macedo há já alguns anos e conhece-o, portanto, como ninguém. Lisboa nos jornais Em face de tais exemplos, é evidente que a única atitude sensata seria a de ficar caladinho, a reler e meditar. Mas a razão e a fantasia trabalham raras vezes em uníssono. Daí que me pus a meditar e a verificar que a crónica intrinsecamente lisboeta andava havia muito arredada dos jornais. Muito longe 41 iam os tempos de Norberto de Araújo e das sua páginas no “Diário de Lisboa”. Leitão de Barros deixara durante anos exemplares pinceladas de humor, perspicácia e sentido crítico no “Diário de Notícias”, com os seus “Corvos” de boa memória, crónicas que, com base em Lisboa, não eram especificamente sobre a cidade. Mas também ele se retirara. Havia pois espaços vazios. Ora eu teria hipótese de uma pequena tribuna, se por ela lutasse. Estava na “Capital” e o próprio nome do jornal já se prestava a que da terra se falasse. Assim, um tanto atrevida e impensadamente, surgiram as crónicas a que dei o nome da rua onde trabalhava: “O Poço da Cidade”. A ideia era escrevinhar meia dúzia de laudas, com ideias gerais, e nelas tentar estimular o gosto de peregrinar pela cidade. Mas a coisa pegou de maneira diferente da que eu pensara: foram mil crónicas diárias de uma enfiada, série a que se seguiram páginas semanais, num total geral de cerca de dois milhares. O objectivo eram duas, três semanas. Foram quase trinta anos. Os mestres olisipógrafos – os que citei e outros mais – me perdoarão, na sua extrema bondade. A atenuante que invoco é singela: pretendi apenas chamar a atenção, tentar mostrar a quem me lesse que Lisboa valia a pena e que muito havia a descobrir e estudar nesta velha urbe que muitas vezes oculta os seus tesouros. Tinha um alibi, inventado pelo próprio Norberto de Araújo. Ele dividia os interessados em Lisboa, os olisipógrafos portanto, em duas espécies, comparando-os aos intrépidos

Os Corvos. Leitão de Barrros, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1965. Capa (em cima) e folha de rosto (em baixo) com dedicatória do autor a Matos Sequeira. GEO.


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navegadores de outros tempos. Assim, para um lado estavam os autênticos descobridores, aqueles que, partindo praticamente do zero, se tinham aventurado pelos mares, chegando ao desconhecido e desbravando caminhos e terras. Mas a seguir a eles vinham os colonizadores, aqueles que davam serventia e utilidade a quanto havia sido descoberto. As tarefas, como é bom de ver, completavamse: a façanha da descoberta era essencial, cabendo-lhe provavelmente a maior dose de reconhecimento. Mas talvez essa gesta acabasse por se revelar inútil ou pouco mais se não houvesse quem a aproveitasse, a povoasse e lhe desse um cunho de sentido prático. Traduzindo esta ideia, dir-se-ia que na Olisipografia havia os cabouqueiros, aqueles que tinham investigado raízes e tinham feito saltar de um emaranhado de crónicas, tradições e lendas um corpo concreto, com História e lógica. A verdade, porém, é que, regra geral, esses investigadores, por sua própria vocação, se fechavam na concha da descoberta e, logo que uma estava completa, partiam para outra. Aí entravam então, com funções também certamente importantes, os tais “colonizadores”, que, no caso, outros não eram do que os “divulgadores” das matérias encontradas. Ou seja: de pouco valeriam na prática os trabalhosos achados se não viesse depois alguém que soubesse mostrar ao vulgo a importância dos trabalhos de investigação. Por mim, alinhei claramente nesta segunda vaga. No entanto, há uma verdade que me parece dever estar presente: para se divulgar com consciência, haverá sempre 43 que investigar um pouco. Se falo do meu

chafariz da Esperança, não convém por certo que me limite a dizer que existe, onde se encontra e que mostra um conjunto branco onde se veem carrancas, um patamar e um escudo régio. Terei por certo de procurar fontes, por mínimas que sejam, para poder falar de quem o construiu, porquê, para quem, quais as características da época, etc. Será talvez de pouca monta a investigação. Mas ela tem de existir para que a divulgação tenha sentido. A época de ouro Mas voltemos ao tema geral da Olisipografia. Numa análise muito pessoal, eu diria que o seu período de ouro se situou nos anos 30 do século passado, com prolongamentos pelos anos 40 e mormente, nesta década, com a série de publicações e trabalhos levados a cabo para a comemoração do oitavo centenário da tomada de Lisboa aos mouros, ocorrida em 1947. Tirando Júlio de Castilho, que era bem mais antigo, todos os tais “clássicos” que citei produziram as suas obras maiores nessas duas décadas. As “Peregrinações em Lisboa” datam de um período entre 1938 e 1940. Dos outros, embora por exemplo Vieira da Silva começasse a publicar mais cedo, pode dizer-se sem exagero que atingiram o ponto máximo da divulgação exactamente nesse período.

Projecto de Carlos Mardel para o Chafariz da Esperança. 200 anos de Águas Livres: algumas histórias. Joaquim Oliveira Caetano. In: Arte Ibérica. Lisboa, A. 2, nº 17 (Ago.-Set. 1998), p. 37.


E não será de esquecer que da década de 30 datam o Grupo “Amigos de Lisboa” e o seu órgão de comunicação, a revista “Olisipo”, dois velhotes que, contra ventos e marés, lá vão porfiando no caminho que encetaram há três quartos de século. Quando digo que esse foi o período de ouro, não quero obviamente concluir que tudo morreu aí ou aí nasceu. Lá estão, entre outros, Eduardo Freire de Oliveira ou Gomes de Brito, anteriores aos tais anos 30, para o demonstrar. E, felizmente, apareceram desde então alguns devotos fervorosos deste culto a Lisboa e, em publicações, em visitas, em actividades e iniciativas das mais diversas espécies, testemunharam com qualidade o seu interesse por esta dama travessa e leviana chamada Lisboa. O que me parece é que nunca se juntou uma tal plêiade de autores e de um tal conjunto de acções como nas épocas referidas. Ficam, obviamente, por referir muitos nomes. Hoje E será tempo de falar da Olisipografia nos tempos que correm. A este respeito, um leigo poderia perguntar: “mas depois de tantos anos a percorrer e estudar Lisboa, com tanta gente de alto gabarito a fazê-lo, ainda há espaço para novos autores e novos trabalhos? Para não variar, vou buscar a resposta a Norberto de Araújo. Foi ele quem avisou que “em Lisboa, cada casa dá um livro, cada rua dá uma estante, cada bairro dá uma biblioteca”. Quase impossível se torna pois esgotar o assunto. 44 Há sempre lugar para mais “bisbilhoteiros” como eu sou e para os investigadores profundos que vão ao âmago das coisas. Com o correr dos anos, a técnica veio pôrse ao serviço de quem procura saber mais. As novas tecnologias permitem algumas facilidades de consulta, de pesquisa e de reprodução, impensáveis ainda há bem pouco. Sem sair de casa e da minha mesa de trabalho, passei a ter entrada franca em algumas obras, alguns arquivos, algumas bibliotecas. E dou graças por isso. Por outro lado, nota-se nos blogues muita gente interessada em tocar em aspectos vários da cidade, desde um breve estudo dos nomes das ruas até à enumeração de figuras actuais ou do passado. Estes serão possivelmente esboços de uma Olisipografia do século XXI. Mas é claro que, como em tudo na vida, convém usar estas coisas como ao sal na comida: quando é demais, estraga o paladar e faz elevar a tensão. Assim, a ideia é aproveitar bem as vantagens mas não transformar a Internet e afins numa espécie de deus todo poderoso e omnisciente. E a verdade é que vamos verificando que os “entendidos” em Lisboa e em muitos outros temas vão surgindo como cogumelos, pensando talvez que bastará ligar o computador e procurar determinado sítio para ficar na posse de toda a ciência. Ora o estudo, o estudozinho parece que continua a ser preciso. Para evitar coisas como estas: já vi uma compacta prosa em que o Rossio é tratado por Largo de D. Pedro Quinto, talvez porque o “I” que antecedia o “V” da numeração romana

estivesse pouco visível e porque a diferença entre um largo e uma praça fosse considerada uma bizantinice. E li uma excelente dissertação sobre a Brasileira do Chiado, frequentada por um rol de gente ilustre, onde figurava Eça de Queirós - escritor que, por mero acaso, morreu cinco anos antes da abertura daquele Café… Deixando de lado as anedotas, a verdade é que me parece ter-se cavado nos dias de hoje um certo fosso entre aqueles que estão profundamente interessados por Lisboa, aqueles que a amam, defendem e estudam (e, felizmente, temos uma porçãozinha razoável de gente desta) e uma maioria que passa indiferente pelos locais quando não contribui para os descaracterizar ou destruir. Saindo por uns momentos da Olisipografia propriamente dita, gostaria de dirigir uma palavra de saudação (e até de agradecimento) a algumas instituições privadas que vêm exercendo acção profícua em prol da cidade. Não posso citá-las todas, até porque devo desconhecer algumas. Mas, a título de exemplo, apraz-me citar o Forum Cidadania, um grupo a que chamaria de “guerrilheiro” no sentido mais nobre da palavra. Parece estar sempre à espreita, sempre atento a qualquer ameaça ao património é prontamente denunciada e combatida. Do friso de azulejos que foi arrancado até à vivenda com personalidade que está ameaçada nada parece escapar aos olhos atentos do Forum. Os abaixo-assinados, as mensagens, as exposições dirigidas à Autarquia ou aos órgãos de soberania sucedemse – embora, diga-se de passagem, muitas vezes sem êxito nenhum. Também nos bairros vão surgindo grupos de gente interessada em melhorar o seu “habitat” conservando o que for caso disso e renovando onde for preciso. Estou a pensar, entre outros, no movimento Renovar a Mouraria ou naquele núcleo de pessoas determinadas que tem contribuído para dar nova vida à zona da Achada. Em resumo: que a Olisipografia não morreu e está longe de se sentir esgotada e que continua a haver investigadores sérios e também bisbilhoteiros como eu prova-o, por exemplo, esta reunião em que estamos e as personalidades que a ela aderiram. Falei há pouco de olisipógrafos do passado e seria injusto não dizer uma palavra sobre os do presente. Como não quero correr o risco de falhar nomes importantes, não farei qualquer enumeração. Assim, se não me levarem a mal, condensaria num só todas as virtudes destes coca-bichinhos que dedicam dias e dias de trabalho ao estudo de uma casa, às vezes de uma parede, quando não de umas pedras nas quais eles descobrem História. Esse meu eleito (e, repito, poderiam ser outros mais) será o meu mestre e amigo Francisco Santana, a cuja teimosia se deve, por exemplo, a manutenção da revista “Olisipo”. Gosto de o ouvir e ler, a ele que, sendo verdadeiramente um intelectual, nunca toma ares disso e que tanto pode dissertar sobre um edifício pouco conhecido do século XVIII como, quase a seguir, indicar o sítio onde se pode comer um bacalhau de estalo ou umas iscas temperadas como na Lisboa antiga.


Seria injusto também não ter uma palavra para a actual Agenda Cultural, editada pela Câmara, onde se nota um esforço de aprofundamento e divulgação. E, num plano completamente distinto e mais popular, alguns números da revista “Time Out” dedicada a Lisboa, onde surgem por vezes temas de interesse. Já me alonguei mais do que deveria. Falta-me ainda, no entanto, formular alguns votos: o de que se propague o amor por esta terra, a quem a natureza e os homens têm pregado sérios revezes; que se lance um programa nas escolas por forma a que os alunos conheçam bem ao menos o bairro onde habitam e estudam; que o Gabinete de Estudos Olisiponenses, os Amigos de Lisboa e outras entidades, públicas ou privadas, vão mantendo bem acesa a chama sagrada; e que apareça alguém com estofo de novo Norberto de Araújo que leve a cabo novas peregrinações pela Lisboa mais recente – Benfica, o Lumiar, a Alta de Lisboa, Marvila e tantos mais lugares da cidade renovada têm histórias novas à espera de quem as conte. Tudo isto para ver se eu consigo ir visitar o meu velho Chafariz da Esperança e não sofrer os desgostos que tenho tido nos últimos tempos, ao vê-lo descaracterizado, sujo, coberto de grafitti idiotas, servindo de sentina pública a muitos que frequentam as discotecas ou bares dos arredores. Quero voltar a vê-lo branco, digno, com uma certa majestade que não roça a opulência – quero vêlo bonito, sendo, como é, um dos símbolos de uma Lisboa que eu cá sei. 45 Chafariz da Esperança / Cliché de E. Portugal. In: Album de Bilhetes Postaes : Vistas de Lisboa, V. 12. - p. 18, nº 69 . - Colecção Vieira da Silva VS Cota: MNL 98-G  CMLEO


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Dar a conhecer ao grande público a existência dos dois ficheiros de verbetes (Toponímico e Dicionário) que Pastor de Macedo coligiu ao longo da vida e demonstrar as suas potencialidades enquanto objecto de estudo olisiponense.

Mas a obra pela qual terá ficado mais conhecido do grande público é a que se ocupa do estudo da Toponímia de Lisboa – Lisboa de lés-a-lés. Subsídios para o estudo das vias públicas da cidade, publicada pela primeira vez entre 1940 e 1943, e reeditada nos anos sessenta e oitenta do século XX2. Organizado em cinco volumes e ordenado alfabeticamente, Lisboa de lés-a-lés procura dar a conhecer a origem de topónimos lisboetas, no seguimento da publicação da obra de Gomes de Brito (edição póstuma em 1935, revista e prefaciada por António Baião)”.

Luís Pastor de Macedo (Lisboa, 25/02/1901 – Lisboa, 13/11/1971) nasceu numa família de comerciantes lisboetas fundadores da Casa dos Panos, na Rua da Prata, em 1868, a qual só viria a fechar já no nosso século. Comerciante de profissão, Pastor de Macedo veio, porém, a dedicar-se ao estudo da cidade de Lisboa. A par da sua actividade de comerciante e de olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo integrou como vogal a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1933 e 1935, voltando à autarquia em 1947, como vice-presidente, cargo que manteve até 1959. Na sua actuação enquanto autarca, destaca-se em 1933 a aprovação da sua proposta de criação dos Serviços Culturais, apresentada em Sessão de 11 de Maio. Nos dois períodos em que esteve na Câmara dedicou particular atenção às questões culturais, à realização das festas da cidade de 1934, 1935 e 1947 e à organização de 47 várias exposições de carácter olisiponense. A sua dedicação ao conhecimento da Cidade levou-o a ser um dos fundadores do Grupo Amigos de Lisboa, constituído em 1936, isto é, imediatamente após a sua saída da CML, tendo sido o sócio nº 62 e membro da Comissão Organizadora do Grupo. Desempenhou o cargo de secretário-geral do Grupo, participou activamente nos trabalhos das várias secções que o Grupo então tinha, propôs e promoveu diversas iniciativas para a defesa do património da Cidade e para o conhecimento da sua história e foi um colaborador assíduo da revista Olisipo. Foi deputado da União Nacional, em 1945, desempenhou funções como comissário do Governo no Teatro D. Maria II e foi sócio da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, sendo seu vice-presidente e presidente da comissão encarregue da compra do Palácio da Independência, por subscrição nacional1. Publicou a sua primeira obra em 1929 O Terramoto de 1755 na freguesia da Madalena a que se seguiram algumas dezenas de títulos, quer como único autor, quer em colaboração, nomeadamente com Augusto Vieira da Silva, Gustavo de Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Rodrigues Cavalheiro. Colaborou ainda no Diário de Lisboa, n’O Século, na Revista Municipal, nos Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, ambos da Câmara Municipal de Lisboa e no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa. Recebeu o prémio “Júlio de Castilho” pela obra Tempos que passaram, em 1941.

“Foi da sua leitura, da verificação de que mais alguma coisa haveria a dizer de parte das artérias ali tratadas (…) que nasceu a ideia de a ampliar e aperfeiçoar tanto quanto possível”3 Com 412 entradas de tamanho variável consoante o manancial de informação recolhida para cada topónimo a obra tem um conteúdo desequilibrado. Por exemplo, o segundo volume é quase todo ele ocupado pelo histórico da Rua dos Bacalhoeiros, antiga Rua dos Confeiteiros: ao longo de mais de cento e cinquenta páginas Pastor de Macedo discorre sobre o ofício de confeiteiro, as confeitarias, os doces, as especialidades, a corporação, além de se referir às anteriores denominações do arruamento. Em contrapartida, o quarto volume abarca os topónimos desde a letra M até “São Julião, Rua de “. O tipo de informação recolhida para os arruamentos varia em quantidade, mas também em qualidade: explicação para o nome, antigo traçado do arruamento, transcrições de outras obras relacionadas com o assunto, referências a moradores e ao comércio local, a ofícios e profissões arruados nesse arruamento, etc. Enfim, todo um conjunto variado de informações úteis a quem se interessa por conhecer a vida da/na cidade. Porém, mais ricos do que o livro Lisboa de lés-a-lés são os ficheiros contendo os verbetes que Pastor de Macedo reuniu ao longo da sua vida em número superior a 100 000, que Rodrigues Cavalheiro descreve como “ficheiro portentosamente especializado que, durante meio século, foi pacientemente recolhido, em leituras exaustivas e em investigações pertinazes”4 Já perto do fim da vida, em data que desconhecemos, Pastor de Macedo entregou a Ferreira de Andrade os seus ficheiros para que este autor pudesse dar à estampa o projectado Dicionário de Lisboa. Em Agosto de 1970 saía a público o primeiro fascículo do intitulado Grande Dicionário de Lisboa da autoria de Ferreira de Andrade, com prefácio de Rodrigues Cavalheiro e ilustrações de José de Lemos (Lisboa: Olisipo – Ed. De Pub. Turísticas, 1970), que se encontra na Biblioteca Nacional, com 32 páginas a 2 colunas, o qual não passou do termo Académica. Na introdução já referida, assinada por Rodrigues Cavalheiro, afirmava-se : “O Grande Dicionário de Lisboa que virá facilitar ao máximo o conhecimento exacto de todos os recantos, no tempo e no espaço, da história pretérita e da vida actual da capital”


Previa-se pois, a continuação da sua edição, provavelmente sob esta forma de fascículos. Mas Ferreira de Andrade viria a falecer em Outubro de 1970 e na sequência desta morte, Luís Pastor de Macedo legou à Câmara Municipal de Lisboa os referidos ficheiros. Em sessão de 17 e 28 de Dezembro de 1970, a Câmara deliberou aceitar em legado a ”grande colecção de verbetes elaborados e organizados por aquele olisipógrafo, que representa o produto de trinta anos de trabalho.”5, legado que seria destinado ao Gabinete de Estudos Olisiponenses “por constituir um precioso elemento de consulta para os investigadores e estudiosos.”6 Os referidos ficheiros integram o acervo do Gabinete de Estudos Olisiponenses muito provavelmente desde a sua entrega ao Município e costumam ser designados, comummente, por Ficheiro Toponímico e Ficheiro Dicionário. Procuramos neste momento encontrar a melhor forma de os disponibilizarmos ao público, começando pelo Ficheiro Toponímico o qual reúne maior número de informações pertinentes para os investigadores. Convém referir ainda que o Ficheiro tem estado sempre disponível para consulta pública, sob a forma de leitura reservada, até à sua digitalização, e de leitura geral desde então. O Ficheiro Toponímico está ordenado alfabeticamente, reunindo cerca de 25 000 fichas, de 8,5x22 cm, as quais já foram digitalizadas, e reúne informações relativas aos arruamentos de Lisboa, incluindo a 48 explicação do topónimo, as datas do seu aparecimento, as várias denominações anteriores, moradores, comércio, dados transcritos dos Livros Paroquiais, citações de obras de vários autores, quer de olisipografia, quer de memórias, recortes de jornais, etc . Tem um total de cerca de 3600 entradas isto é, 9 vezes mais entradas do que a Lisboa de lés-a-lés de Pastor de Macedo.

Estalagem do Cachimbo. Verbete do Ficheiro Toponímico de Pastor de Macedo. GEO

O Ficheiro, foi feito ao longo da vida de Macedo, podendo-se encontrar fichas manuscritas a tinta permanente e letra firme, e outras com a letra já menos firme, e a tinta esferográfica, que nos indicam a sua debilidade física, proveniente da idade e da doença. Também o facto de remeter para a sua própria obra, indicando volume e páginas nos assegura que o seu Ficheiro foi mais além do que a sua obra. Existe um pequeno número de fichas com dois tipos de letra cujos autores desconhecemos, não nos tendo sido possível comparar com a caligrafia de Ferreira de Andrade, e, por isso, não arriscamos, por enquanto, a sua identificação. Vejamos dois exemplos de natureza diferente, uma Rua com entrada na Lisboa de lés-a-lés e outra que não tem entrada própria nessa obra. Referi-me há pouco ao facto de Macedo ter ocupado a quase totalidade do 2º vol. da sua obra com a Rua dos Bacalhoeiros. Confrontando-se o texto editado com o Ficheiro Toponímico, podemos verificar o seguinte: Rua dos Bacalhoeiros – cerca de 65 fichas, das quais as 6 primeiras são dedicadas aos vários topónimos por ele identificados predominantemente nos Livros Paroquiais da Freguesia da Sé, seguidas de uma dezena de fichas com transcrições de fontes e bibliografia onde se referem os topónimos. As restantes Fichas ocupam-se de assuntos vários: Estalagem do Cachimbo (Imagem 1), Portas do Mar, Hotéis e hospedarias, Moradores, Casa dos Bicos (que Pastor de Macedo desenvolve no 1º vol. da Lisboa de lés-a-lés, na Rua Afonso de Albuquerque), e Prédio D. João V (Prédio das Varandas) único tema que aborda na obra editada. Quanto a Bacalhoeiros, apenas 1 ficha;


quanto a Confeiteiros apenas uma referência noutra. Partamos então em busca dos Confeiteiros. Encontramos na letra C do Ficheiro a Rua da Confeitaria, que não mereceu uma entrada própria na Lisboa de lés-a-lés. Também ela com um volumoso conjunto de fichas – cerca de 60, das quais mais de metade são dedicadas à antiga Rua de A-Ver-o-Peso, ou Rua da Ferraria a qual a partir de 1540 se denomina também de Confeitaria. É aqui que encontramos algumas das fontes consultadas por Pastor de Macedo e a transcrição de algumas das informações que usa no seu item da Rua dos Bacalhoeiros, porém, apenas uma pequena parte. Concluindo, para a redacção da Rua dos Bacalhoeiros, Pastor de Macedo, apesar das largas dezenas de fichas escritas não utilizou toda a informação recolhida, muito provavelmente porque ainda não a recolhera e, utilizou outra proveniente de fontes/bibliografia que refere no seu artigo. O que nos permite explorar o tema do topónimo e da vida do/no arruamento ainda mais, recorrendo às informações reunidas nestas fichas. Relembro que Pastor de Macedo foi aumentando estes ficheiros ao longo de toda a sua vida, o que justifica nalguns casos, estamos em crer, estas discrepâncias. O segundo exemplo é o topónimo Ajuda que não tem entrada na Lisboa de lés-a-lés, apesar de aparecer no Ficheiro com as suas designações de Calçada, Asilo, Cemitério, Largo, Lugar, Palácio, Tapada, Torre e Travessa num total de cerca de 130 fichas. 49 O caso das fichas da Calçada da Ajuda parece-me ser paradigmático da tipologia de informação e de organização de Pastor de Macedo.

Ajuda, Calçada da. Verbete do Ficheiro Toponímico de Pastor de Macedo. GEO

Calçada da Ajuda (Imagem 2) – topónimo que não aparece na Lisboa de lés-a-lés, mas que no Ficheiro Toponímico tem cerca de 45 fichas subdivididas nos seguintes assuntos: Aires de Sá e Melo, Casas habitadas pelo marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, Casas da Quinta de Cima de Sua Majestade, Comércio, Incêndio, Jardim Botânico da Ajuda, José de Seabra da Silva, Lourenço Anastácio Mexia Galvão, Mexias Galvões, Ludovices, Mariz Sarmento, Moradores, Marquês de Valada e outros, amante de D. João V, Malhão, Garcez Palha, Amorins Queirogas, Pedra Romana, Posser, Vária, Quartel de Cavalaria 7 e outros, Infantaria nº1 –Lanceiros 2. Como se pode ver grande número das fichas tratam dos moradores do arruamento, o que resulta da consulta dos Livros Paroquiais. Das restantes, apresento aqui algumas delas para demonstrar a variedade de informações recolhidas. Esta organização temática dentro de cada topónimo verifica-se sempre que o número de fichas o justifica. As primeiras fichas são dedicadas à datação do topónimo e à sua variação ao longo do tempo, seguindo-se as fichas com outras informações, que na maior parte dos casos incluem os moradores, o comércio, edifícios notáveis, ou quando é o caso fichas com referências a ofícios, profissões e ainda um grupo dedicado a assuntos vários, onde podemos muitas vezes encontrar recortes de jornais. Quase sempre os recortes de jornais, encerram notícias que versam normalmente sobre acidentes viários, crimes, ou necrológicas de moradores no arruamento.


Mas as informações que aqui apresento não se resumem a este arruamento. Por exemplo, para o caso do Marquês de Pombal e da sua família, caso queiramos mais informação, teremos de recorrer às outras moradas conhecidas da família: Rua do Século (antiga Rua Formosa), Travessa do Fiúza (antiga Travessa de Paulo de Carvalho), Rua das Janelas Verdes ou ainda ao próprio topónimo Praça do Marquês de Pombal. Também encontramos com regularidade fichas com a indicação da bibliografia consultada (Imagem 3 e 4). O exemplo aqui apresentado está inserido nos verbetes deste último topónimo (Praça do Marquês de Pombal) Como se pode ver na imagem as últimas referências bibliográficas estão apenas numeradas. Este tem sido um autêntico quebra-cabeças para nós. Sabemos que Pastor de Macedo teria uma ou duas listas bibliográficas nas quais cada número remetia para um título. Ora essas listas não nos chegaram às mãos pelo que tem sido um desafio tentar identificar a bibliografia numerada. Tal tarefa tem decorrido de duas formas. Através das nossas próprias leituras ao fazermos a história dos topónimos – já que muitas vezes consultamos as mesmas obras que Macedo consultou e

identificamos as citações por ele feitas nos seus verbetes – ou através do recurso ao Ficheiro Dicionário. O Ficheiro Dicionário está ordenado alfabeticamente, são cerca de 80 000 fichas com a dimensão de 8x11 cm, manuscritas em aproveitamento de folhas manuscritas ou impressas. São verbetes que tratam de todo o tipo de assuntos ligados à cidade de Lisboa: associações, instituições, publicações periódicas, restaurantes, e predominantemente pessoas. As fichas têm pouca informação, quando comparadas com a riqueza do Ficheiro Toponímico.

Marquês de Pombal. Frente e verso do verbete do Ficheiro Toponímico de Pastor de Macedo. GEO

50


Por exemplo: - O Pobrezinho, Grupo Musical – apenas com a indicação da morada em 1964 Ou ainda - Tecelão, Ofício de – veja-se que a referência bibliográfica está representada por um número (neste caso o 6) (Imagem 5) - Tecelões, Hospital – novamente o nº 6 e mais bibliografia - Tecelões, Rua dos – remete para o Sumário

Pois se uma das grandes vantagens destes verbetes é condensarem um manancial de informações num razoável número de fichas, um dos seus “defeitos” é exactamente a variedade dessa mesma informação e a sua dispersão por diversas entradas, como vimos, por exemplo no caso da família Pombal. Ao se sistematizar a informação ela revela-se-nos onde quer que esteja dando-nos finalmente a conhecer como dizia Cavalheiro “ todos os recantos, no tempo e no espaço” que Pastor de Macedo tão laboriosamente compilou.

Quando comparámos as Fichas com a edição do Dicionário, verificámos que se procedeu, em grande número de entradas, a uma simples transcrição do seu conteúdo. - Abreu, Francisco Jorge de – que no Dicionário remete para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. I, pág. 119 Porém, esta transcrição foi melhorada com o acrescento da Bibliografia desenvolvida correctamente. Ao confrontarmos o Ficheiro Dicionário e também o Toponímico com o seu resultado editorial, conseguimos identificar cerca de 25 títulos. É apenas o começo de uma das linhas de trabalho que estes Ficheiros nos permitem. Outra dessas linhas poderá ser a identificação dos vários colaboradores de Pastor de Macedo na construção desta monumental colecção de verbetes. 51 Mas acima de tudo o que se pretende é permitir o acesso online a estas informações. Para isso, teremos ainda de aguardar a decisão superior da escolha do suporte em que poderá ser executado. Até lá, é necessário continuar a estudar estes dois Ficheiros como um todo, identificando as suas intricadas relações, escolhendo os termos que melhor se adequarão à sua descrição e que facilitem a tarefa ao investigador que a eles recorre.

Tecelão, ofício de. Verbete do Ficheiro Dicionário de Pastor de Macedo. GEO

Notas 1 O Palácio seria adquirido em 1939 pela colónia portuguesa no Brasil, para ser posteriormente doado ao Estado Português. Veja-se António Rodrigues Cavalheiro e Luis Pastor de Macedo, Figuras e episódios da Restauração e o Palácio Almada, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1944, 171-172 2 Para a sua bibliografia veja-se : Fernando Castelo Branco, “Luís Pastor de Macedo”, Revista Municipal, nº 130-131 (1971), pp. 40-46. 3 MACEDO, Luís Pastor de – Lisboa de lés-a-lés, vol. I. Lisboa: Câmara Municipal, 1940, p. 7. 4 CAVALHEIRO, Rodrigues - , “Prefácio”, ao Grande Dicionário de Lisboa, Ferreirade Andrade. Lisboa: Edição da Olisipo, s.d., pagina não numerada. 5 Actas das Sessões da Câmara, Lisboa: Imprensa Democrática, 1971, p. 32 6 Idem, p. 33


GUSTAVO MAT OS SE

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Em 1950, Gustavo Matos Sequeira elaborou para a Câmara Municipal de Lisboa um inventário de bens para classificação como Monumentos Municipais. Embora não tenha cumprido o seu objetivo, a classificação de imoveis como Monumentos Municipais, é uma peça fundamental para a olisipografia e foi uma das bases para o grande Inventário do Património Municipal do Plano Director de Lisboa de 1994. Este artigo pretende ser uma pequena apresentação de um dos melhores inventários patrimoniais feitos sobre Lisboa.

CLASSE

CATEGORIA

IMOVEIS EM LISBOA Mosteiro de N. Senhora de Belém, Torre de S. Vicente

1ª classe

Monumentos históricos

de Belém, Igreja de Nª Srª.

e artísticos, e também os

do Livramento e S. José

edifícios que somente

(Memoria), Aqueduto das

se recomendam

Aguas Livres, Igreja arruinada

pela grandeza da

de N. Srª do Vencimento do

sua construção, ou

Monte do Carmo, Basílica

magnificência, ou por

do S. Coração de Jesus,

encerrarem primores

Igreja de S. Vicente de Fora,

d’arte

Igreja de S. Roque – capela de S. João Batista, Paço das Necessidades, Paço da Ajuda Igreja da Conceição Velha; Igreja de Santa Engrácia;

Edifícios importantes

A noção de património e o conceito de classificação de bens construídos são ideias que se consolidaram em Portugal no final do séc. XIX. Estas questões, nomeadamente a salvaguarda da memória e dos seus monumentos, foram motivo de debates inflamados ao longo de todo o séc. XIX principalmente com Alexandre Herculano e a consciencialização da importância do património cultural e a necessidade de salvaguardar os bens imóveis existentes, face ao seu estado de abandono e degradação. É em 1880, com o pedido à Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos 53 Portugueses para elencar os edifícios que pudessem vir a ser classificados como monumentos nacionais1, que se assume, pela 1ª vez, que para se proteger o património é necessário conhecê-lo. O relatório apresentado em 18812 é um documento de concepção muito atual, onde se defende a importância do património e da sua conservação como meio da evolução artística dos povos e como factor gerador de riqueza, “Se abstrahirmos de todas as razões de importância moral, e considerarmos os monumentos como questão puramente económica, o governo, que saiba zelar e promover os interesses públicos, tem rigorosa obrigação de olhar attentamente pela sua conservação e reparação. Cumpre-lhe cuidar em conserval-os em bom estado, não só para evitar que se destrua e perca o capital que elles representam; mas também para que se convertam em capital productivo para o paiz em geral, e em um verdadeiro e activo elemento de prosperidade para as terras que os possuem”3. Numa leitura atenta do documento, verifica-se que existe a consciência que é necessário fazer estudos aprofundados sobre os vários edifícios, considerando que o trabalho efectuado é um mero estudo prévio, um “ensaio de um tombo geral”, sendo necessário nomear uma comissão mais alargada para aprofundar a informação sobre os edifícios e criar um plano de conservação verdadeiramente útil e eficaz.

para o estudo da história das artes em Portugal, 2ª classe

ou somente históricos, mas não grandiosos, ou simplesmente recomendáveis por qualquer excelência d’arte

Igreja de S. Pedro de Alcântara, capela no Adro dos Santos Veríssimo, Máxima e Júlia; Túmulo da rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya; Túmulo da princesa D. Isabel, filha de D. Pedro II; Túmulo da rainha D. Maria Ana Vitoria; Túmulo de Mendo de Foyos, secretário de estado do rei D. Pedro II; Túmulo do Marquês de Pombal

Monumentos de arte 3ª classe

militar antiga. Castelos e torres Estátua equestre de D. José I; Monumento a D. Pedro Monumentos levantados

4ª classe

em lugares públicos pela gratidão nacional em honra de homens, que bem mereceram da pátria

IV; Monumento a Luís de Camões; Monumento do Duque da Terceira; Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães: Arco triunfal da Praça do Comércio com as estátuas de Viriato, D. Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama e Marquês de Pombal

Padrão da conjuração de 1640; Casa de João das Regras no Largo do Poço do Borratem; Casa de D. Vasco da Padrões de muitos 5ª classe

diferentes géneros, importantes para a história e para as artes

Gama, na Cç. do Duque; Casa de Luís de Camões, na Cç. de Santana; Casa do Visconde de Almeida Garrett, na Rua de Santa Isabel; Palácio do Conde de Almada, no Largo de S. Domingos; Casa de Brás de Albuquerque; Pelourinho; Cruzeiro de Arroios

Monumentos pré6ª classe

históricos (Dólmenes/ Antas, Menires)

Quadro 01 Esquema analítico do Inventário de 1880 da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses


Imagem 1 Lista de bens classificados como Monumento Nacional. Decreto de 23/06/1910 (1 de 4 pรกginas)

54


Da referida listagem constavam 219 bens (33 dos quais na cidade de Lisboa) divididos em 6 categorias, tendo alguns deles uma pequena justificação histórico/artística o que permite constatar um conhecimento geral dos edifícios e monumentos existentes no país. Pode-se dizer que é um inventário com objectivos claros de protecção. Embora seja maioritariamente composto por edifícios monumentais e religiosos, em relação aos bens propostos para classificação em Lisboa (Quadro 01), não se pode deixar de salientar a referência à casa de Almeida Garrett na Rua de Santa Isabel ou à quase desconhecida estátua de José Estevão Coelho de Magalhães de Vítor Bastos junto da Assembleia da República. (Quadro 1) É de referir ainda que em Lisboa não foram considerados bens da Classe 3 – Castelos, Torres e Monumentos Militares e da Classe 6 – Monumentos pré-históricos. Em relação à necessidade apontada pela Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses de aprofundar os estudos e levantamentos dos edifícios, e no âmbito da Comissão de Monumentos Nacionais4, foi nomeado o Arquiteto Joaquim Possidónio da Silva para coordenar os trabalhos

Tipologia

Descrição

Monumentos

Antas e outros monumentos

de levantamento e estudo dos edifícios propostos para classificação5 principalmente os de Lisboa. Nos anos seguintes foram nomeadas diversas comissões, que tinham como objectivo fazer estudos aprofundados sobre os edifícios indicados pela Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos, de forma a criar um catálogo geral de monumentos com informação detalhada sobre cada um desses bens, e foram elaborados vários projectos legislativos com vista à sua protecção e conservação. No entanto, a desarticulação entre as várias leis e a reorganização sistemática dos serviços6 levou que só a 16/06/1910 fosse publicada a 1ª lista de bens classificados7 como monumentos nacionais - 469 bens - na qual são 41 em Lisboa, estando incluídos nestes 16 da lista da Real Associação de Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses. (Imagem 1) É uma lista de cariz monumental onde sobressai o monumento isolado com uma forte representatividade do património da Igreja, dividida em 3 tipologias base. (Quadro 2)

Quadro 02 Esquema de distribuição de bens classificados pelo decreto de 16/06/1910

Bens em Lisboa

pré-históricos Monumentos lusitanos

Castros, Entrincheiramento,

Estátuas – Estátuas lusitanas de Montalegre

e lusitano-romanos

Povoações, Castelos, Marcos

Inscrições – Lápides das Pedras Negras, Lápide do Deus Esculápio

miliários, Pontes, Templo, Arcos, Fonte, Estátuas, Inscrições, Ruínas Monumentos

Monumentos religiosos

Catedrais – Sé de Lisboa

medievais, do

Catedrais, Mosteiros, Basílicas,

Mosteiros – Mosteiro de Belém, compreendendo os túmulos, designadamente

renascimento e

Igrejas, Capelas, Cruzeiros

os de D. Manuel I, D. João III, D. Sebastião e Cardeal D. Henrique

modernos

Basílicas – Basílica da Estrela, compreendendo os túmulos de D. Maria I e do seu confessor Igrejas – Igreja do Carmo, Igreja de Conceição Velha, Igreja da Madre de Deus, Igreja de S. Vicente de Fora, Igreja de S. Engrácia, Igreja de S. Roque, Igreja de Chelas Capelas – Capela de Santo Amaro, Capela dos Castros Cruzeiros – Cruzeiro de Arroios, Cruzeiro das Laranjeiras Túmulos e sepulturas

Sepulturas - sepulturas da Igreja de S. Luzia, sepultura da Infanta D. Maria (Igreja da Luz) Túmulos - túmulo da Rainha D. Maria Vitoria (Igreja de S. Francisco de Paulo), túmulo da Rainha D. Maria I (Basílica da Estrela), túmulo de D. Mendo Foyos (Igreja da Graça), tumulo de D. João das Regras (Convento de S. Francisco de Benfica), túmulos de D. Manuel I, D. João III, D. Sebastião e Cardeal D. Henrique (Mosteiro de Belém)

Monumentos militares

Castelos – Castelo de S. Jorge e

Castelos, Torres, Padrões

restos das cercas de Lisboa Torres – Torre de S. Vicente de Belém

Monumentos civis

Paços Reais – Paço da Ajuda

Paços reais, paços episcopais,

Palácios particulares e casa memoráveis – Casa de Brás de Albuquerque (Casa dos Bicos, fachada),

palácios particulares e casas

Palácio dos Condes de Almada, compreendendo os padrões comemorativos da conjuração de 1640

memoráveis, misericórdias

Aquedutos – Aqueduto das Águas Livres compreendendo a Mãe de Água.

e hospitais, aquedutos,

Chafarizes e Fontes – Chafariz da Esperança

chafarizes e fontes,

Arcos e padrões comemorativos Padrão do Campo Pequeno, Padrão

pontes, arcos e padrões

de Arroios, Praça do Comércio, monumentos e edifícios

comemorativos, pelourinhos

Pelourinhos – Pelourinho de Lisboa

Trechos arquitetónicos

Portal principal da Igreja da Madalena, Portal da capela de Nossa Senhora dos Remédios, Portal lateral dos antigos Paços de S. Cristóvão


Nos 20 anos seguintes o país mudou e a sociedade portuguesa sofreu grandes alterações. Ao nível da proteção do património as comissões, as listas de bens a proteger e a reorganização dos serviços sucedem-se no ritmo constante. Em 1934, a Comissão Administrativa da Câmara de Lisboa era composta e assessorada por alguns dos maiores nomes da olisipografia, e o cuidado e a atenção que o património lhes merecia é claro nas variadas propostas que são levadas à Câmara. A 12/04/1934 foi aprovada pela Câmara a proposta de Luís Pastor de Macedo (vogal da Comissão Administrativa) de criar a categoria de Monumentos Municipais (MM), que tinha como principal objetivo evitar a destruição total ou a modificação de edificações que, não estando classificadas como Monumento Nacional8 ou Imóvel de Interesse Público9, mereciam, pelo seu valor histórico, arqueológico ou artístico, a proteção da CML10. A 9 e 23 de Abril de 1934, foi aprovada no Conselho de Estética Citadina a proposta Bases para o estudo das alterações a introduzir nos regulamentos municipais de forma a proteger os monumentos do património artístico municipal. Um ano mais tarde, por proposta de 31/10/1935, foi nomeada uma comissão de 8 membros que incluía Augusto Viera da Silva e Gustavo de Matos Sequeira, para elaboração de uma lista que “no mais curto prazo de tempo, classificar os edifícios e outros vestígios do passado histórico, arqueológico e artístico da capital, a começar pelo bairro de Alfama, que não 56 poderão ser destruídos nem modificados11”. Este inventário - Relação dos Monumentos Municipais do Concelho de Lisboa Propostos para Classificação12 - é dividido em 12 categorias, não apresentando critérios nem justificações para os edifícios escolhidos. (Quadro 03)

Quadro 03 Categorias e nº de bens da Relação dos Monumentos Municipais do Concelho de Lisboa Propostos para Classificação Categoria

Nº de bens

Muralhas

5

Palácios

21

Casas

21

Igrejas, Ermidas e Capelas

26

Arcos

21

Chafarizes

23

Portas

15

Portas Brasonadas

26

Nichos

8

Caravelas

9

Lápidas

6

Azulejos

85

A análise deste inventário provoca algumas surpresas, nomeadamente os conjuntos, que embora apareçam na categoria – casas - fogem ao elemento isolado e monumental típico das classificações nacionais, propondo a classificação de conjuntos edificados de arquitectura corrente como a Rua dos Cegos, a Calçadinha do Tijolo ou a Rua da Atalaia. Por outro lado, o pormenor – a caravela, o nicho, o azulejo – que se apresentam valorizados por si. O caso dos azulejos, julgamos que merece mesmo um estudo autónomo mais aprofundado, considerando que para além dos conjuntos civis – Palácio dos Marqueses de Fronteira – e dos conjuntos religiosos – Igreja do Antigo Convento da Conceição dos Cardais – propõe a classificação da azulejaria de fachada como os conjuntos da Rua das Flores ou os Registos religiosos espalhados por toda a cidade. No entanto existia a consciência que era necessário uma lei nacional, que desse a estes bens municipais uma protecção mais global, pelo que nos anos seguintes a Comissão Administrativa insiste com o poder central na necessidade de legislação geral para a protecção dos monumentos municipais. O não terem avançado com as classificações propostas, levou que o inventário acabasse por não ter as consequências práticas na protecção do património que se pretendia ao criar a figura de MM. Na verdade só 12 anos depois, em 11/06/1949 é que foi publicada a Lei nº203213, que impõe às câmaras municipais a obrigação de promoverem a classificação como valor concelhio de todos os elementos ou conjuntos de valor arqueológico, histórico, artístico ou paisagístico que existam nos seus concelhos. (Imagem 2) Imagem 2, Lei nº 2032


Em resposta a este decreto, no âmbito da Comissão de Arte e Arqueologia, foi solicitado a Gustavo de Matos Sequeira que atualizasse o Inventário de 1935. Foi assinado um contrato em 6 de Março de 1950 para efectuar este trabalho por 20 mil escudos no prazo de 8 meses, não sendo incluído no preço o trabalho das fotografias14. Surge assim o Inventário dos Monumentos Municipais de 195015, um documento completo que nos dá uma percepção clara da imagem da cidade e do seu património de Gustavo Matos Sequeira. É um inventário que, ao contrário das classificações de âmbito nacional, se abre a novos conceitos de património como panoramas, conjuntos, parques e jardins, e que mostra um conhecimento profundo da cidade, dos seus recantos e das suas várias especificidades. Embora o inventário apenas considere os aspectos exteriores dos edifícios - a feição da fisionomia citadina –, por serem aqueles que poderiam afectar o fácies urbano de Lisboa e os critérios de selecção nem sempre sejam de uma coerência absoluta, é um documento que engloba monumentos antigos mas também a arquitectura eclética da transição do século e alguns edifícios contemporâneos.

Como é referido no texto, optou-se pelo predomínio do antigo sobre o moderno – por considerar que o antigo é sujeito sempre, pelas necessidade de urbanização e em face a sua implantação a ser modificado ou suprimido – no entanto introduz a Igreja de Nossa senhora de Fátima pela renovação que trouxe aos ambientes religiosos. O inventário divide-se em 15 categorias (Quadro 04) num total de superior a 530 bens. Cada categoria é antecedida por um pequeno texto de enquadramento onde se refere alguma bibliografia e os critérios de inventariação. Para cada bem inventariado existe uma descrição, com o fundamento da proposta de classificação e proposta de atuação. Como exemplo, e para permitir um conhecimento mais geral do trabalho, escolhemos apresentar nove das categorias com parte dos textos de enquadramento e dos texto de inventário, assim16:

Quadro 04 – Esquema de Categorias Inventário dos Monumentos Municipais de 1950

57 CATEGORIAS

Nº de entradas

Introdução

Paginas 1/3

1

Vestígios Romanos

4

3/4

2

Fortificações Antigas (Torres e Panos de Muralha – Outros Vestígios)

15

5/8

3

Panoramas

28

8/14

4

Conjuntos Arquitectónicos e Conjuntos Pitorescos

19

14/18

5

Edifícios Religiosos (Igrejas, Ermidas e Antigos Conventos)

84

19/33

6

Palácios, Casas Nobres e Casas típicas e pitorescas de Lisboa

126

33/55

7

Monumentos de Homenagem, Estátuas e Bustos

25

55/58

8

Parques e jardins

27

58/59

9

Chafarizes, Bicas e Fontes

26

59/62

10

Arcos

15

62/66

11

Pórticos e Janelas

32

66/69

12

Brasões e Emblemas heráldicos

25

69/72

13

Registos e Painéis de Azulejos

59

72/76

14

Lápides e Inscrições

45

76/..

15

Varia (cruzeiro, pelourinhos, ornatos e relevos de aposição parietal)

XX


1 Vestígios Romanos A recente obra “Epigrafia de Olisipo”, publicada por mestre Vieira da Silva reuniu, com comentários eruditos, numa lista completíssima, todos os despojos e memórias da Lisboa romana (…) O Sátiro, figura romana, que estava na fonte do seu nome, descrita por Frei Luís de Sousa, na cerca do convento de São Domingos de Benfica. Está agora no Palácio da Mitra (Museu da Cidade)17

2 Fortificações Antigas (Torres e Panos de Muralha e outros vestígios) Do passado guerreiro da cidade, no que diz respeito às suas defezas, resta pouquíssimo. As necessidades de urbanização, sobre a falência de cada sistema defensivo, foram-nos sacrificando pelos séculos fora. As muralhas e torres, acabando a sua função, ou tiveram quem delas se apropriasse, para amparo de novas construções ou para utilizá-las em miradouros, ou foram demolidas como empachos ao transito do gentio em constante crescimento (… ) Arco Escuro, representa uma porta primitiva da cerca moira, que se chamou Porta Férrea do mar, e depois Porta Nova do Mar, posteriormente à construção da muralha Fernandina18 (Imagem 3)

Imagem 3 Arco Escuro. 2014, José Vicente (DPC_20140325_011E)

58


3 Panoramas Lisboa, á qual faltam condições orográficas para ser uma cidade monumental pela escasses de alinhamentos perspectivado, impossíveis de traçar nas suas corcovas da mais caprichosa orientação, é, em compensação, de um admirável pitoresco. O imprevisto e a supreza dos panoramas, que surgem teatralmente, em cada caminhada…..19 Os poentes de Lisboa são, por vezes, aqui, verdadeiramente teatrais. Deve ser defendido este panorama, evitandose novas construções que prejudiquem, a favor de um proprietário, o património de todos….20 Panorama de Lisboa, principalmente da Lisboa Ocidental, do alto do varandim do zimbório da Basílica da Estrela. Ganha-se este mirante extraordinário por 229 degraus mas tão custoso acesso dá-se por bem empregado(...). (Imagem 4)

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Imagem 4 Panorâmica de Lisboa tirada do topo da Basílica da Estrela. C. 1940, Judah Benoliel. JBN003634, Arquivo Municipal de Lisboa (em baixo, duas ampliações da mesma)


4 Conjuntos Arquitectónicos e Conjuntos Pitorescos A cidade vive muito destes prospectos cenográficos(…). Os conjuntos, feitos pelo aproveitamento global destes elementos, são de uma atracção irresistível (…) Em conjuntos arquitectonicos, não é a cidade tão rica, mas o Pombalino, mesmo o pobre, quando o dinheiro começou a faltar, não deixa de interessar, até nos alinhamentos da Baixa, que dão a Lisboa uma das suas excassas notas de monumentalismo (… ) Alto do Longo, aglomerado de casario pobre no alto da rua de O Século. Sem arranjo intencional que lhe mantenha o "facies" antigo, está condenado a desaparecer21. (Imagem 5) Imagem 5 Alto do Longo, Bairro Alto. 1966, Artur Goulart. N49492, Arquivo Municipal de Lisboa

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5 Edifícios Religiosos (Igrejas, ermidas e antigos conventos) Os sismos que vitimaram Lisboa nos fatais séculos pares (Catorze, dezasseis e dezoito), derruiram, no todo ou em parte, a grande maioria dos templos lisboetas(…)Entre as construções da segunda metade do séc. XVII, algumas há que merecem indubitalmente que se apontem para a classificação de Monumentos Municipais (…).O templo de Nossa Senhora de Fátima deve entrar nesta categoria de classificação, pelo decisivo interesse que trouxe à renovação dos ambientes religiosos, documentando a necessidade de a arquitectura religiosa seguir uma natural linha evolutiva, que a ponha de acordo com o espirito do tempo.22 (Imagem 6)

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Ermida de São Sebastião do Paço do Lumiar, tem um lindo portal manuelino e, na parte posterior, uma cruz de azulejos com a data de 1628. Interiormente tem uma notável guarnição cerâmica e boas pinturas antigas.

Imagem 6 Igreja de Nossa Senhora de Fátima. 1959, Armando Serôdio. N26490, Arquivo Municipal de Lisboa


6 Palácios, Casa Nobres e construções típicas e pitorescas de Lisboa Do contraste e da variedade da conjunção arquitectónica do passado com o Presente é que resulta o interesse das cidades(…) Muitos prédios lisboetas merecem ser apontados para classificação de Monumento Municipal, e a eles se fará chamada especial, mas há outros ainda que valem e que pela sua situação na cidade moderna não oferecem risco de ser sacrificados a próximas urbanizações, ou que, por estarem decorados com as lápides dos Prémios “Valmor” e “Municipal”, ficam, naturalmente preservados de qualquer atentado (….) A par destes há outros que devem manterse como curiosidade, fantasias, ou símbolos de um gosto passageiro, como os de estilo mourisco, os de sugestão manuelina, os excessivamente carregados de ornatos, com exuberâncias capitalistas. São documentos da sua época (….) Avenida Palace, do risco do grande arquitecto mestre José Luís Monteiro, esta edificação marca pela correção das suas linha e pelas belas proporções(...)23 (Imagem 7) 7 Monumentos de homenagem, Estatuas e Bustos Os de categoria artística não abundam em Lisboa, como aliás em muitas das grandes cidades europeias….Felizmente, na actualidade, um grupo de bons escultores, trouxe para a decoração monumental de Lisboa um contributo notável, e as modernas estátuas, 62 mesmo quando meramente ornamentais, em Parques e Jardins já vem com outro sentido estético numa promessa benéfica de rejuvenescimento da estatuária24

8 Parques e Jardins Os Parques e jardins não podem deixar de considerarse monumentos citadinos, não só pelo interesse que tem para a urbanização, sob o ponto de vista higiénico, se não pela sua função de decoradores da urbe (…) Campo Grande, Necessidades, Ajuda, faculdade de Ciências, o Colonial, o da Estrela, o Parque Silva Porto, …, Francesinhas, Praça das Flores e da Alegria,….todos eles são pequenos ou grandes monumentos citadinos25. 9 Chafarizes, Bicas e Fontes Os chafarizes, as bicas e as fontes são, em Lisboa, elementos construtivos de seguro efeito ornamental.26 Em Conclusão O Inventario dos Monumentos Municipais de 1950 é sem dúvida um documento fundamental da olisipografia, que apesar de quase desconhecido e não tendo cumprido os três objectivos para o qual foi pensado27 , apoiou documentos estratégicos da protecção do património como o “Estudo das zonas ou unidades urbanas de carácter histórico-artistico”, realizado em 1967 por JoséAugusto França28 ou o Regulamento para a salvaguarda do património artístico-arquitectonico e histórico dos bairros tradicionais da cidade, de 1970 e fez parte dos inventários que fundamentarão o Inventario Municipal do Património do Plano Diretor Municipal de 1994. Por outro lado a figura de Monumento Municipal “inventada” em 1934 por Luis Pastor de Macedo ou Valor Concelhio como lhe veio a chamar a Lei 2032 de 11 de Junho de 1949 só foi devidamente regulamentada29 com o Decreto-lei 309/2009 de 23 de Outubro.

Imagem 7 Avenida Palace Hotel. 1895, Augusto Bobone. BOB000206, Arquivo Municipal de Lisbo


Mas na verdade, classificar só não chega, a classificação não é efectivamente um acto só por si suficiente para conservar e preservar, é necessário o reconhecimento público, e para proteger é fundamental dar a conhecer o valor artístico e histórico dos edifícios com que nos cruzamos diariamente na cidade.

Notas 1 Portaria do Ministério das Obras Públicas de 24 de Outubro de 1880 2 Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, Relatório e Mapas acerca dos edifícios que devem ser classificados monumentos nacionais. Lisboa: Lallemant, 1881 O trabalho foi coordenado pelo conselheiro José Silvestre Ribeiro, sendo o seu relator Ignacio de Vilhena Barbosa. O documento foi aprovado na Assembleia Geral da Real Associação dos Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses a 30/12/1880 3 Ob. Cit, pag 5 4 O regulamento para a Comissão dos Monumentos Nacionais, foi publicado por Portaria a 27 de Fevereiro de 1894. Esta portaria apresenta no seu art. 1 um elemento surpreendente para a época ao considerar como monumento nacional edifícios industriais. No artº2 descreve-se as suas incumbências: a) Estudar, classificar e inventariar os monumentos nacionais; b) Propor as providências necessárias à guarda, conservação, reparação e exposição pública desses monumentos; c) Indicar as respectivas reparações, apropriações, aquisições e destinos; d) Informar acerca 63 de restauração, remoção, empréstimo ou alienação dos mesmos monumentos; 5 SILVA, Joaquim Possidónio Narciso da, Relatório da Comissão dos Monumentos Nacionais. Lisboa: Imprensa Nacional, 1894 6 As bases para a classificação de imóveis como Monumentos Nacionais foram aprovadas por decreto de 30/12/1901 e o Plano Geral de Classificações de Augusto Fuschini a 20/1/1904. 7 Na verdade o primeiro edifício a ser classificado foi o Castelo de Elvas pelo Diploma de 27 de Setembro de 1906 e pelo Decreto de 17/1/1907 foram classificados mais 14 edifícios. Em Lisboa foram classificados o Convento do Carmo, o Mosteiro dos Jerónimos, a Sé, a Torre de Belém e a Basílica da Estrela. No entanto foi o decreto de 16/6/1910 que publicou de forma sistematizada a lista de bens a classificar como Monumento Nacional republicando os 15 imóveis já classificados. 8 Decreto orgânico de 24/10/1901 9 Decreto 20985 de 7/3/1932 10 Boletim da Câmara Municipal de Lisboa, Ano VIII, nº379, pag.21 Considerando que na cidade de Lisboa existem numerosos edifícios e outros vestígios do passado histórico, arqueológico e artístico da Capital que, não possuindo embora as condições requeridas para serem considerados Monumentos Nacionais, devem ser, todavia, conservados, pelo seu interesse local, à guarda desta Câmara, que os preservará da accão destruidora do tempo e dos Homens; Tenho a honra de propor: 1º - Que se crie desde já a categoria de Monumentos Municipais para as edificações que, não estando classificadas como Monumentos Nacionais, merecem, contudo, pelo seu interesse histórico, arqueológico ou

artístico, a protecção da Câmara Municipal de Lisboa. 2º - Que, sobre este assunto, seja ouvido o Conselho de Estética Citadina, o qual dará as sugestões necessárias para o Município proceda à classificação dos Monumentos Municipais de Lisboa, elaborando igualmente o respectivo Regulamento. 11 Boletim da Câmara Municipal de Lisboa, Ano IX, nº462, pag.35/36 12 Das pesquisas efetuadas não foi possível encontrar a documentação do Conselho de Estética Citadina nem o inventário original. Os elementos apresentados são baseados no artigo publicado por Jaime Lopes Dias na Revista Municipal de Lisboa, nº42, 3º trimestre, 1949, folhas 47/58 13 Diário do Governo, nº125, I serie 14 Para este trabalho foi efectuado um contrato entre a CML e Gustavo de Matos Sequeira 6 de Março de 1950. Arquivo Municipal de Lisboa / Núcleo do Arco do Cego, contrato de revisão (06/03/1950), PT/AMLSB/CMLSB/ADMG-N/02/05014 Primeiro: A Camara Municipal de Lisboa com efeito dá de empreitada de labor e materiais, ao segundo outorgante que a aceita, a obra da revisão e actualização da lista de monumentos municipais, conjuntos de construções e panorâmicas da cidade de Lisboa, para o fim de ficarem codificados e poderem ser tomados em atenção em todos os melhoramentos e alterações fisionómicas da cidade; Segundo: A lista ou relação dos monumentos, conjuntos de construção e panorâmicas será elaborada, por zonas e bairros de Lisboa, de modo a ordenar e facilitar a sua utilização ulterior; cada elemento a considerar será acompanhado de uma resenha historia-artistica que o defina e justifique e, em muitos casos, de uma fotografia documentadora, sem que deixe, também, de se apresentar sugestões de possíveis aproveitamentos, reparos e obras de consolidação, reintegração e manutenção de efeitos de atracão e de pitorescos citadinos; Terceiro: O trabalho será apresentado de molde a permitir, a exemplo do que foi feito pela Academia Nacional das Belas Artes com o Inventario Artístico de Portugal, ser publicado pela Camara Municipal de Lisboa. 15 SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Inventario dos Monumentos Municipais. Lisboa, 1950 16 O Inventario divide-se em 15 categorias, por uma questão de limites do artigo optou-se por apresentar unicamente os 9 primeiros. 17 SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Inventario dos Monumentos Municipais, pag. 3/4 18 Ob. Cit. pag. 5/6 19 Ob. Cit. pag. 8 20 Ob. Cit, pag.12 21 Ob. Cit, pag. 15/18 22 Ob. Cit, pag. 19 23 Ob. Cit. pag. 35/51 24 Ob. Cit. pag. 56 25 Ob. Cit. pag. 59 26 Ob. Cit. pag. 59 27 cft. nota de rodapé nº14 28 FRANÇA, José-Augusto, Estudo das zonas ou unidades urbanas de carácter histórico-artistico em Lisboa. Lisboa: CML/INCM, 2012 29 Embora a Lei 13/1985 de 6 de Julho toque ligeiramente no assunto e na Lei 107/2001 de 8 de Setembro se refira as classificações de interesse municipal (al.2 do artº 15) é só em 2009 que este assunto é regulamentado.


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Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962) é recordado como olisipógrafo. Mostra-se, neste texto, após algumas considerações sobre os primeiros olisipógrafos e a origem do termo olisipografia, que esta foi, de facto, apenas uma das facetas da actividade olisiponense de Matos Sequeira.

1. Os primeiros olisipógrafos Apresenta-se no Esquema 1 um cronograma simplificado dos primeiros olisipógrafos. A classificação nele incluída - com involuntárias ressonâncias bíblicas - divide-os em «precursor» (Herculano), «fundador» (Castilho) e «primeiros discípulos» (Freire de Oliveira, Gomes de Brito e Tinop). A obra de Herculano, cujos escritos especificamente olisiponenses estão reunidos no Tomo VI dos Opúsculos (descreve também as ruas, gentes e monumentos da Lisboa medieval nos seus contos e romances históricos), foi, com efeito, marcante para os primeiros olisipógrafos. As categorias «fundador» e «primeiros discípulos», são devidas a Luís Pastor de Macedo [1], e foram mantidas por Fernando Castelo Branco na sua importante monografia [2]. 65

A classificação apresentada é necessariamente esquemática, e não contempla autores, na sua época, significativos, como J. Ribeiro Guimarães (1818-1877) e, em especial, Inácio de Vilhena Barbosa (18111890), arqueólogo e - principalmente - divulgador, e de quem Castilho, que também divulgou, se declara devedor, o que não pode ser ignorado: «Não se calcula a influencia sympathica do Archivo Pittoresco» [2, 3]. Por outro lado, o esquema mostra de imediato que os “primeiros discípulos” de Castilho tinham - à excepção de Tinop - praticamente a idade dum «Mestre» de carne e osso. Não negando efeitos recíprocos mas desiguais, nem discutindo a importância relativa das obras, a verdade é que tanto Freire de Oliveira como Gomes de Brito iniciaram o seu labor olisipográfico avant la lettre, isto é, antes da primeira edição de Lisboa Antiga (1879) embora, por razões várias, os seus livros tenham sido editados tardiamente. Devem ainda acrescentar-se à classificação original de Pastor de Macedo dois nomes de primeira grandeza, Vieira da Silva e Matos Sequeira, estes sim, discípulos incontestáveis, pela diferença etária e pelo ascendente de Castilho, por ambos reconhecido. Mantendo a denominação - muito discutível, como vimos - de «primeiros discípulos» para Freire de Oliveira, Gomes de Brito e Tinop, designaremos, em conformidade, Vieira da Silva e Matos Sequeira por «segundos discípulos» de Júlio de Castilho (Esquema 1). O esquema apresentado inclui ainda Norberto de Araújo e o próprio Pastor de Macedo, ambos com extensa actividade olisiponense e ambos contemporâneos de Matos Sequeira, com quem interactuaram e colaboraram.

Esquema 1 Cronograma da olisipografia: o precursor e os primeiros olisipógrafos, indicando-se também uma classificação destes.


Esquema 2 Cronograma alternativo da olisipografia: Reconhece-se também a influência de Vilhena Barbosa, essencialmente um vulgarizador, e Freire de Oliveira e Gomes de Brito não são considerados discípulos de Castilho.

Uma classificação alternativa, incorporando as reticências já expressas, é a que se apresenta no Esquema 2: Só mais de uma década após a morte de Castilho, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa (com origem em proposta de Pastor de Macedo, apresentada em 1933), se faz sair, entre 1935 e 1938, a segunda edição de Lisboa Antiga - Bairros Orientais, anotada por Vieira da Silva, agora em doze volumes. Segue-se-lhe, entre 1940 e 1944, a segunda edição d’A Ribeira de Lisboa, em cinco volumes, também com a chancela da Câmara Municipal de Lisboa, desta feita anotada pelo próprio Pastor de Macedo. Finalmente, a 3ª edição de Lisboa Antiga - O Bairro Alto é publicada entre 1954 e 1966, de novo pela Câmara Municipal de Lisboa, com revisão e notas de Matos Sequeira (à excepção do quinto e último volume, cuja revisão não concluiu, ou não terá mesmo iniciado, surpreendido que foi pela morte, em 1962). Embora com motivações próprias, Matos Sequeira enveredou decididamente pela olisipografia - nos seus tempos livres - devido ao contacto directo com Júlio de Castilho, de quem se considerava discípulo: Comecei a frequentar a casa do autor da Lisboa Antiga, à roda de 1904, quase todos os dias feriais. Era uma «Aula». Essas tardes na atraente casinha do Lumiar, saboreava-as gulosamente, e Castilho, animando-me, satisfazia todas as minhas curiosidades. Era um Mestre. E sabia ensinar encantando os discípulos. A sua gentileza comigo foi ao ponto de publicar na íntegra o meu trabalho sobre a Igreja 66

de S. Mamede, no quinto volume do Bairro Alto. [4] A cronologia da obra especificamente olisiponense de Castilho encontra-se resumida no Esquema 3. À Lisboa Antiga, inicialmente constituída por O Bairro Alto (1 vol., 1879) e Bairros Orientais (7 vol., 1884-1890), seguiu-se A Ribeira de Lisboa (1 vol., 1893). Entre 1902 e 1904 sai a segunda edição de O Bairro Alto, refundido e aumentado, em cinco volumes. Também os conteúdos de Lisboa Antiga - Bairros Orientais e d’A Ribeira de Lisboa foram revistos e ampliados por Castilho. Não logrou, contudo, encontrar editor interessado na publicação destas obras, prontas desde 1915. Só mais de uma década após a sua morte, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa (com origem em proposta de Pastor de Macedo, apresentada em 1933), se faz sair, entre 1935 e 1938, a segunda edição de Lisboa Antiga - Bairros Orientais, anotada por Vieira da Silva, agora em doze volumes. Segue-se-lhe, entre 1940 e 1944, a segunda edição d’A Ribeira de Lisboa, em cinco volumes, também com a chancela da Câmara Municipal de Lisboa, desta feita anotada pelo próprio Pastor de Macedo. Finalmente, a 3ª edição de Lisboa Antiga - O Bairro Alto é publicada entre 1954 e 1966, de novo pela Câmara Municipal de Lisboa, com revisão e notas de Matos Sequeira (à excepção do quinto e último volume, cuja revisão não concluiu, ou não terá mesmo iniciado, surpreendido que foi pela morte, em 1962).


Esquema 3 As obras olisiponenses de Júlio de Castilho e respectivas edições póstumas, anotadas pelos seus continuadores. Foi ainda publicado um índice geral por Francisco Santana (CML, 1974).

Um assunto interessante, mas que não parece ter merecido até hoje atenção, é o da origem dos neologismos - que o já não são - «olisipografia» e «olisipógrafo». Após uma pesquisa sumária, o documento mais antigo encontrado contendo a palavra olisipografia é a proposta que Pastor de Macedo apresenta à Câmara Municipal de Lisboa, em 11 de Maio de 1933, para a criação do «Pelouro de Serviços Culturais» [5], antecessor do actual pelouro da Cultura: 67

(…) Seriam funções do novo pelouro: (…) Formar um fundo especial de olisipografia na Biblioteca do Palácio Galveias. (…)

A palavra olisipógrafo aparece noutra proposta de Pastor de Macedo, submetida ainda nesse ano (a 29 de Dezembro), à Câmara Municipal de Lisboa, para a reedição da Lisboa Antiga - Bairros Orientais, de Castilho [6]: (…) Tenho a honra de propor que seja convidado a dirigir essa reedição o Sr. Engenheiro Augusto Vieira da Silva, sem que isto represente desprimor algum para com os outros ilustres olisipógrafos (…) Por outro lado, no plinto do monumento a Júlio de Castilho, inaugurado no Miradouro de Santa Luzia em 1929, está gravado «historiador de Lisboa Antiga». Também no respectivo In Memoriam (1920), Castilho é qualificado de historiador e de arqueólogo de Lisboa.

Em 1915, Vítor Ribeiro ainda fala somente em arqueologia olisiponense [3]. «Olisipografia» e «olisipógrafo», serão, pois, criaturas de Luís Pastor de Macedo, concebidas em 1933? Aqui fica a interrogação. Do que não parecem restar dúvidas é de, ao contrário do senhor Jourdain, Castilho ter sido olisipógrafo sem nunca o ter sabido. 2. Matos Sequeira: olisipógrafo olisiponense ou olisiponense olisipógrafo? Gustavo de Matos Sequeira é recordado como olisipógrafo, designadamente pelas suas duas obras mais conhecidas - e provavelmente as mais importantes -, «Depois do Terramoto» e «O Carmo e a Trindade» (Fig. 1). Escreveu ainda, com temática lisbonense, os seguintes livros: >> Tempo Passado (crónicas alfacinhas) (1924). >> No Leilão Ameal, crónicas amenas de uma livraria a menos, com desenhos de Alberto de Sousa (1924). >> Relação de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em tempo na cidade de Lisboa e em outras terras de Portugal, agora reunidos, comentados e dados à luz (1925). >> Teatro de Outros Tempos. Elementos para a história do teatro português (1933). >> A Nossa Lisboa, novidades antigas dadas ao público, de colaboração com Pastor de Macedo (1945). >> 1147, reportagem retrospectiva da conquista de Lisboa (1947). >> História do Teatro Nacional D. Maria II (1955). >> Lisboa, Oito Séculos de História (1955). Organização, direcção e redacção de cinco capítulos. >> Mundo Português. Imagens de uma exposição


histórica, texto do álbum (1956). >> Mármore e Granito. Pedras Soltas Reunidas por Gustavo de Matos Sequeira para a História e Vida de Lisboa (1957). Inédito, a publicar pela CML. Matos Sequeira foi também autor de muitos opúsculos e artigos sobre a história e a arqueologia de Lisboa, enumerados e descritos em [7]. Nado e criado em Lisboa, como quase todos os congéneres, Matos Sequeira foi pois um olisipógrafo olisiponense. Contudo, a multiplicidade das actividades culturais prosseguidas em prol de Lisboa, faz dele o «olisiponense dos sete ofícios». Com efeito, para além da abundante produção olisipográfica, integrou inúmeras comissões oficiais, quer nacionais, quer municipais; participou, de forma activa, em várias associações culturais e científicas, incluindo a Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Academia Nacional de Belas-Artes e o Grupo Amigos de Lisboa; proferiu um grande número de conferências, a maioria destinada ao público não especializado, por vezes mesmo ao ar livre (Fig. 2); defendeu activamente o património histórico da cidade em várias ocasiões; e dinamizou um elevado número de iniciativas culturais, de exposições temáticas a grandes recriações do passado, das quais a mais significativa foi a Lisboa Antiga (1935). Nas suas iniciativas de defesa do património e de divulgação histórica, Matos Sequeira utilizou praticamente todos os meios 68 de comunicação possíveis, incluindo a colagem de cartazes (em 1919, na defesa da Torre de Belém contra os fumos corrosivos e poluentes da fábrica da Companhia do Gás), o folheto, o jornal, a publicação em fascículos, o livro, a palestra, a dramatização, a exposição temporária, a reconstituição histórica e, até, o filme e a rádio. A adesão popular e a retumbância da maioria das iniciativas, algumas das quais chegaram aos nossos dias, como a maqueta que se encontra no Museu da Cidade (Fig. 3), permitem concluir que Matos Sequeira foi um dos grandes comunicadores e divulgadores da história de Lisboa. Mais do que olisipógrafo olisiponense - e dos maiores -, Matos Sequeira foi um olisiponense olisipógrafo [7].

Figura 1 As duas obras mais conhecidas de Matos Sequeira sobre Lisboa, Depois do Terramoto - Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, em 4 volumes (1916-1933) e O Carmo e a Trindade - Subsídios para a História de Lisboa, em 3 volumes (1939-1941).


Referências bibliográficas [1] Luís Pastor de Macedo, No descerramento de uma lápida na casa onde nasceu Tinop, Olisipo, nº 27, p. 145, 1944. [2] Fernando Castelo Branco, Breve História da Olisipografia, ICP, Lisboa, 1980. [3] Para além de [2], vejam-se: (a) V. Ribeiro, A velha Lisboa e os estudos de Arqueologia da capital, Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, vol. IX, 1915, (b) A. Forjaz de Sampaio, Os cronistas de Lisboa, Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, ano IV, nº 11, p. 6, 1934, e (c) Luís Teixeira, Lisboa e os Seus Cronistas, Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, 1943. [4] Excerto de uma entrevista a Hugo Raposo, in Olisipo nº 69, 1955. Vejam-se também o texto de Matos Sequeira no In Memoriam - Júlio de Castilho, Lisboa, 1920 e o «Prefácio Explicativo» no primeiro volume da Lisboa Antiga - O Bairro Alto (3ª edição, Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, 1954). Figura 2 Matos Sequeira profere a conferência ao ar livre «O Carmo e a Trindade», no Largo do Carmo, numa organização do Grupo «Amigos de Lisboa» (31 de Julho de 1938). Arquivo Nacional da Torre do Tombo PT/TT/EPJS/SF/001-001/0058/2790M

[5] 25 Anos de Serviços Culturais - Exposição Comemorativa, Câmara Municipal de Lisboa, 1959. [6] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga - Bairros Orientais, 2ª ed., vol. I, Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, 1935. [7] Mário Berberan e Santos, Gustavo de Matos Sequeira - Retrato de um Olisipógrafo, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2012.

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Figura 3 Pormenor da maqueta de Lisboa antes do terramoto (1955). Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Fotográfico A25288


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LISBOA Digo: "Lisboa" Quando atravesso - vinda do sul - o rio E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna Em seu longo luzir de azul e rio Em seu corpo amontoado de colinas Vejo-a melhor porque a digo Tudo se mostra melhor porque digo Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência Porque digo Lisboa com seu nome de ser e de não-ser Com seus meandros de espanto insónia e lata E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro Seu conivente sorrir de intriga e máscara Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata Lisboa oscilando como uma grande barca Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência Digo o nome da cidade - Digo para ver Sophia de Mello Breyner (1977)

O Grande Panorama de Lisboa, hoje à guarda do Museu Nacional do Azulejo, decorava outrora o interior de um velho palácio quinhentista a Santiago, junto à Sé, remodelado pelos Ferreira de Macedo e que o vieram habitar no último quartel do século XVII.1 Esta influente família portuguesa, de origem minhota, movimentouse nas carreiras profissionais do círculo régio. Tal notoriedade na esfera social da corte de D. Pedro II prolongou-se também pelo reinado de D. João V, conforme a documentação nos assevera. O contacto frequente com os mais destacados mecenas do tempo permitiu por certo aos Ferreira de Macedo, primeiro Álvaro e depois António e Manuel seus filhos, o conhecimento do gosto mais requintado do tempo e das soluções decorativas em voga. Acresce ainda que os rendimentos procedentes da actividade comercial com o Brasil, a par de importantes privilégios pecuniários, permitiam-lhes o desafogo financeiro necessário para o patrocínio de peças artísticas. Com efeito, a afirmação social através da encomenda de obras de arte contava-se como um das principais estratégias de exteriorização pública do poder económico e da fama granjeada na órbita régia, tal como em outros exemplos coevos.2 A opção pela iconografia de Lisboa como motivo central da decoração palaciana explicase assim à luz da tentativa dos Ferreira de Macedo se apropriarem virtual e simbolicamente da cidade de Lisboa, palco das suas atividades económicas e comerciais. 71


Atribui-se ao pintor espanhol Gabriel del Barco (act. 1681-1703) e sua operosa oficina, a execução do Grande panorama de Lisboa, posicionamento historiográfico inaugurado por José Meco que foi recentemente reforçado com as análises laboratoriais efectuadas no âmbito de um projecto de investigação interdisciplinar e como, de resto, o painel deixava adivinhar.3 Barco foi incumbido pelos Ferreira de Macedo da responsabilidade de representar a cidade como modalidade de revestimento parietal. Seguindo as práticas comuns do tempo, onde se aplicavam vários azulejos (figurativos, narrativos ou de padronagem) como meio de revestir e decorar a totalidade ou parcialmente as paredes de igrejas e capelas ou câmaras e salas do edificado civil, Gabriel del Barco terá recorrido a outros colegas de profissão que com ele habitualmente colaboravam.4 Esta oficina, liderada pelo experiente Barco, mantinha importante actividade pictórica que rapidamente se espalhou de Braga a Évora ou de Ílhavo a Arraiolos, contribuindo por isso para a vulgarização de um paradigma decorativo, com raízes vernaculares e, em simultâneo, exógenas, dado o fascínio que o azul e branco holandês parece ter exercido sobre ele.5 Não é hoje possível reconstituir, com exatidão, a aparência dos interiores da desaparecida morada dos Ferreira de Macedo a Santiago, nem tão pouco a organização dos seus espaços arquitectónicos. Com efeito, a readaptação do antigo palácio e/ou a reestruturação total do mesmo no período barroco, bem como a demolição parcial de 72 que foi alvo já nos meados dos século XIX

inviabilizam tal tarefa que nos ajudaria a compreender melhor o sentido iconológico da peça.6 No entanto, a documentação recenseada ultimamente aponta-nos para a colocação do vasto painel em, pelo menos, duas salas distintas.7 Isto significa que o mesmo não se dispunha ininterruptamente, como se de um travelling azulejar se tratasse. Por conseguinte, é bem provável que existissem descontinuidades em todo o processo de retratar a cidade, ideado por Gabriel del Barco, visto que o painel evidencia várias cicatrizes indiciadoras de cortes, o que se explica pelo obrigatório ajuste que a obra tinha de sofrer nos vãos de portas e janelas de sacada que tais espaços possuiriam. Todavia, não se deva descartar também a hipótese de existirem momentos em que o painel se limitava a bordejar a sala, marcando-lhe o perímetro, sem qualquer interrupção, bem ao gosto da época. A frente ribeirinha da capital é representada com enorme rigor iconográfico, salientado desde o estudo fundador de Augusto Vieira da Silva.8 Profundo conhecedor da cidade por nela habitar pelo menos desde os meados da centúria de Seiscentos, Gabriel del Barco compõe o cenário numa mescla complexa de vistas panorâmicas, quer da margem sul de onde conseguia obter planos de representação importantes, quer de uma qualquer embarcação ancorada no Tejo que lhe possibilitava planos mais pormenorizados. O resultado desta verdadeira composição de planos múltiplos e de perspectivas entrecruzadas, dando-nos a ilusão propositada de uma cidade real, encontra-se plasmado no Grande panorama de Lisboa, verdadeira imagem ficcionada da capital bem de acordo com o sentimento do Barroco, num ‘longo luzir’


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de azulejos. Para este quadro ilusório de Lisboa, muito contribuiu a utilização de modelos iconográficos gravados que ao tempo eram aplicados nas composições pictóricas, de que a pintura sobre azulejo é excelente exemplo.9 Deste modo, não importa retratar a urbe como ela é, mas antes como poderia ser, tendo sempre como preocupação essencial a da inteligibilidade do pormenor e do geral, da capela de pequenas dimensões ao grande complexo conventual, do casario indistinto da cidade ao palácio particular que se destaca por entre o ‘corpo amontoado de colinas’. Deste modo, não poucas vezes Gabriel del Barco sacrificou a representação do real em nome desse fácil reconhecimento arquitectónico-espacial e iconográfico.10 O título deste texto revisita Sophia de Mello Breyner que escreve uma das páginas mais belas da olisipografia moderna. A descrição que a poeta faz da cidade, tomada do sul, assinalando a linha acidentada do horizonte de Algés a Xabregas, tão característica de Lisboa, parece traduzir por palavras aquilo que Gabriel del Barco pintou. Pintou o nome da cidade – Pintou para ser vista.

Agradecimentos: José Meco, Maria João Pereira Coutinho, Mário Cabeças, Sílvia Ferreira e Susana Varela Flor.

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Notas 1 Estudos mais recentes por nós efectuados no âmbito do projecto de investigação “Lisboa em azulejo antes do terramoto de 1755” (PTDC/EAT-EAT/0889160/2008) comprovam precisamente que os proprietários do palácio à data da feitura do painel eram os Ferreira de Macedo. Os Condes de Tentúgal há muito que tinham vendido a morada que possuíam a Santiago no início do século XVII e, ao longo desta centúria, a mesma passou para D. João de Cárcome Lobo e, a partir de 1681, para Álvaro Ferreira de Macedo. 2 Vítor SERRÃO, “Nossa Senhora da Boa Viagem velando pela protecção do comércio na barra de Lisboa”, in Encompassing the globe, Portugal e o Mundo Nos Séculos XVI e XVII, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, pp. 70-71. 3 José MECO, “Azulejos com Iconografia de Lisboa”, Olisipo (número especial de comunicações ao Simpósio “Lisboa em Discussão”), II série, n.º 1, 1994, pp. 85-113. 4 José MECO, "Azulejos de Gabriel del Barco na região de Lisboa", in Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, nº 85, Lisboa, 1979; Rosário Salema de CARVALHO, “Gabriel del Barco: la influencia de un pintor español en la azulejería portuguesa (1669-1701)”, Archivo Español de Arte, vol. 84, nº 335, 2011, pp. 227-244; Susana Varela FLOR, "As relações artísticas entre pintores a óleo e de azulejo perspectivadas a partir da oficina de Marcos da Cruz (a.1637-1683)", Artis - Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, nº 9/10, 2011, pp. 291 - 307.

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5 Cf. J. M. Santos SIMÕES, "Gabriel del Barco", in Dicionário da Pintura Universal, vol. III, José-Augusto FRANÇA (dir.), Lisboa, Estúdios Cor, 1973, p. 51; José MECO, "Azulejos de Gabriel del Barco na região de Lisboa"..., IDEM, "Gabriel del Barco", in Dicionário da Arte Barroca em Portugal, José Fernandes PEREIRA (dir.), Lisboa, Ed. Presença, 1989, pp. 66-69; Pedro FLOR, Maria João Pereira COUTINHO, Sílvia FERREIRA e Susana Varela FLOR, “Rediscovering the Great Panorama of Lisbon in Tiles”, Journal of the Tiles & Architectural Ceramics Society, vol. 19, 2013, pp. 20-27. 6 Júlio de CASTILHO, Lisboa Antiga, Bairros Orientais, Vol. XI, 2.ª edição, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1938, pp. 185-218. 7 Hugo XAVIER, “A aquisição da “Vista de Lisboa” pela Academia de Belas-Artes de Lisboa”, comunicação apresentada no I Encontro de Património Azulejar “Lisboa: o azulejo e a cidade”, Teatro Aberto, Novembro de 2011. 8 Cf. Augusto Vieira da SILVA, “Panorama de Lisboa em azulejos existente no Museu Nacional de Arte Antiga”, Armas e Troféus, Vol. I, Lisboa, 1932 (reeditado em Dispersos, Vol. II, 1966). 9 Cf. José MECO, op. cit. e também Susana Varela FLOR, “Dirck Stoop (1618-1686) in Portugal: paintings, engravings and tiles”, Journal of the Tiles & Architectural Ceramics Society, vol. 19, 2013, pp. 28-36. 10 Cf. Pedro FLOR, Maria João Pereira COUTINHO, Sílvia FERREIRA, Susana Varela FLOR, “Problemas em torno do "Grande panorama de Lisboa" em azulejo”, Cadernos de Azulejaria, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa / Pisal, 2013 (no prelo).


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Abordagem ao projeto de Reconstituição de Paróquias de Lisboa a partir de um estudo de micro análise histórica e demográfica sobre a freguesia de Santa Cruz do Castelo em 1776. O cruzamento dos dados da estrutura populacional da freguesia reconstituída (1730-1780) com o levantamento da fonte fiscal do imposto da Décima (1776) permitiu retirar conclusões que viabilizam a recriação do espaço físico, do edificado e de parte da estrutura sócio profissional da freguesia, captada em pleno processo de recuperação pós-terramoto.

Os estudos em História da População, História da Família e dos Grupos Sociais e Profissionais de Lisboa no Período Moderno desenvolvidos no Grupo de História Social e Demografia Histórica do GEO têm sido sustentados, fundamentalmente, no âmbito do projeto de Reconstituição de Paróquias de Lisboa até 17551. Firmado na aplicação de métodos e técnicas da demografia histórica, largamente ensaiados em estudos demográficos de âmbito local, o sistema de Reconstituição de Paróquias está organizado por bases de dados paroquiais, respeitando a matriz da reorganização administrativa de 1959, contendo informação histórica e 77 demográfica sistematizada, transcrita dos registos paroquiais produzidos em Lisboa entre os séculos XVI e XVIII. Trata-se de um sistema dinâmico segundo o qual os milhares de registos biográficos, individuais e organizados por famílias, permanecem abertos à integração de novos conteúdos resultantes do cruzamento com outras fontes históricas nominais como os Róis de Confessados, Visitações, Décimas da Cidade, Inventários, Testamentos.

A divulgação traduz-se essencialmente na produção e ou colaboração em estudos sobre a cidade, com abordagens no âmbito da história social, económica, demográfica e das mentalidades e na disponibilização online de Genealogias. A construção das genealogias de Lisboa ganha relevância com a possibilidade de identificação de atos vitais e acompanhamento de trajetórias de vida de todos os indivíduos, do homem comum à figura marcante da nossa História, contribuindo não só para a realização de genealogias e estudos biográficos, como para o conhecimento diferencial da população. A exploração da informação cruzada das bases de dados paroquiais pode gerar outro tipo de conteúdos de interesse científico e pedagógico, abrindo caminho ao estudo do espaço e dos comportamentos coletivos de populações pré-censitárias, nas variáveis da natalidade, nupcialidade, mortalidade e mobilidade, e em temas tão diversos como a agregação de grupos profissionais e o respetivo número de efetivos, a agregação de moradores por ruas e casas em determinados quadros espácio-temporais, em temas como a evolução urbanística, a toponímia, a implantação preferencial de grupos profissionais e sociais em determinadas freguesias da cidade, fenómenos como a exposição de crianças, a criminalidade, a representatividade de comunidades estrangeiras e grupos sociais como o dos escravos ou dos ciganos no quotidiano da cidade, entre outros. Ainda no âmbito do Projeto de Reconstituição de Paróquias temo-nos associado a outras dinâmicas que vão além da investigação assumindo o interesse público, com destaque para a permuta celebrada com a Torre do Tombo no Projeto de Digitalização dos microfilmes dos Registos Paroquiais de Lisboa e que foi exemplar pelos meios técnicos e humanos envolvidos e pelo volume de informação disponibilizada à população.


1. A Freguesia de Santa Cruz do Castelo em 1776 A base metodológica deste trabalho assenta na exploração sistemática da Décima da Cidade de Lisboa do ano de 1776 para a freguesia do Castelo, recorrendo pontualmente para confirmação de elementos à Décima de 1762. Esta informação preencheu-se, na medida do possível, com elementos obtidos a partir do cruzamento nominativo da base de dados demográfica do Castelo. Da agregação da informação, e tendo em conta que os elementos obtidos da paróquia reconstituída correspondem somente a 45,4% dos indivíduos que figuram na Décima reproduzimos em grelha o seu percurso vital: data de nascimento, filiação, naturalidade, o meio como a sua entrada se processou na paróquia, o estabelecimento de relações familiares, com inclusão de toda a progenitura e, finalmente, a data de óbito, de modo a alcançarmos uma configuração das vivências e comportamentos desta sociedade.

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2. Contextualização Histórica e Perfil Demográfico de Santa Cruz do Castelo (1730-1780) Constituída por dois núcleos distintos, um urbano e outro fortificado, a freguesia do Castelo mantémse em traços gerais igual desde a sua fundação. Desde a conquista da cidade aos mouros até 1776, ano que tomamos como referência para este trabalho, a freguesia do Castelo passou de núcleo central na estrutura urbana a um estatuto que poderíamos designar como periférico. Essa evolução traduz essencialmente o impacto do crescimento da Cidade e as mudanças nas suas dinâmicas. O perfil demográfico da freguesia nos indicadores da natalidade, nupcialidade, mortalidade e mobilidade foi apurado a partir dos registos paroquiais produzidos entre 1730-1780. Os 1870 assentos de batismo denotam uma evolução de crescimento constante até 1755, seguida de quebra na década de 60 e novamente tendência de retoma na década seguinte. Na nupcialidade (573 casamentos) há uma tendência decrescente no número de casamentos por ano principalmente na segunda metade (1756-1780). No que refere à mortalidade separámos os óbitos de menores e maiores de 7 anos dos restantes, que se elevam a 1593 óbitos (média de 31/ano). Neste tipo de mortalidade as oscilações são grandes ainda que possamos encontrar uma certa regularidade, uma vez que a existência de picos está associada a fenómenos de mortalidade, dos quais o terramoto de 1755 surge como paradigmático. Analisando o ano de 1776 verificamos que apresenta valores muito próximos da média no caso dos batizados e dos casamentos, tal não sucedendo no caso dos óbitos.

fotografia aérea de Lisboa. Composição de Francisco Moreira, 2007.


Existem registos de 29 óbitos sendo que desses, 19 são de menores de 7 anos, cruzando este número com o de batismos chega-se a uma taxa de mortalidade infantil na ordem dos 51%, distante dos cerca de 28% da média global; para os restantes óbitos temos 10 ocorrências, número que também fica distante da média global de cerca 31 óbitos/ano. No cômputo geral, este ano enquadra-se no comportamento demográfico típico da freguesia para os cinquenta anos analisados, mesmo tendo em conta que no plano dos óbitos os valores são distantes da média global, o facto de a irregularidade ser uma característica da mortalidade da época permite de certo modo falar num padrão de irregularidade. Numa breve abordagem à mobilidade, o estudo permitenos concluir pela diversidade na origem da população sendo que à exceção de Lisboa, os distritos de Santarém, Viseu e Leiria foram os principais focos de origem dos fluxos migratórios para a freguesia do Castelo. Das ruas populosas de gentes de múltiplas origens era exceção a Rua das Flores em que a maioria dos seus habitantes era oriunda de Lisboa. Quanto aos naturais da freguesia, eram as mulheres que estavam em maior número com grande incidência de ascendentes não naturais provenientes dos mesmos locais, e que aqui se fixaram.

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Rua do Recolhimento, Castelo. Fotógrafo não identificado. Entre 1898-1908. A2805. Arquivo Fotográfico CML.

3. A Freguesia em 1776 Em 1776 a freguesia era composta por onze artérias (entre ruas, travessas e becos) dispostas irregularmente pelo recinto muralhado, o seu eixo estruturante era a Rua de Santa Cruz do Castelo, a artéria mais antiga e mais importante da freguesia e, sem dúvida, uma das primeiras vias de comunicação de Lisboa. Ocupavam o espaço 132 edifícios de morfologias distintas, variando entre barracas e edifícios de pisos térreos, com loja ou friso de lojas, sobrepostas ou não por andar superior, na maioria dos casos edifícios simples com função residencial e profusamente habitados, registando-se uma densidade populacional que rondava os 85%.

Quadro I – Densidade Populacional Fonte: Décima de Lisboa, Bairro do Castelo, 1776

Passados 21 anos do grande sismo de 1755, os seus efeitos eram ainda visíveis quer pela menção a propriedades arruinadas, frequentemente ocupadas mediante o pagamento de rendas baixas, quer pela proliferação de barracas, com cuja construção se pretendeu obviar o problema de habitação e que neste contexto tinha grande expressão na malha urbana. Resultado da sua condição periférica, o Castelo ficou apartado dos planos urbanísticos pombalinos e encontrou na iniciativa local o agente interventor da reconstrução, mais empenhado na celeridade do que na racionalização do espaço, o que resultou na manutenção da malha urbana pré-existente. Esses fatores terão contribuído para tornar a freguesia num polo de atração de um tipo de população de parcos recursos, com uma permanência reduzida, verificável na confrontação do número de indivíduos que encabeçavam os fogos arrolados pela Junta dos 3 Estados em 1776, com correspondência na base de dados da freguesia, o que se traduz em 45,4% da população recenseada. Encontra-se na fuga ao fisco outro indicador dessa flutuação residencial, com cerca de 31,4% da população ativa, figurando como infratores na décima de maneio como “ausente e sem bens”, sendo mencionado um único caso com paradeiro conhecido. O grupo profissional que menos cumpria as obrigações fiscais era o dos trabalhadores, logo seguido dos aguadeiros, que à exceção de Manuel Mendes, natural da Redinha, Leiria, cuja continuidade na freguesia se verifica pelo menos até 1778 aquando do nascimento de um filho, era um grupo muito volúvel no quadro populacional, coabitando nesta data 10 aguadeiros em 2 lojas da principal rua da freguesia.


4. O Edificado

que rondava os 88% dos quais 50,4% têm correspondência na base de dados, constituindo grupos familiares que, incluindo a progenitura somariam c. de 144 indivíduos. Entenda-se fogo como a unidade de contagem do imposto, não correspondendo este necessariamente a uma família podendo incluir mais que uma ou outro tipo de ocupação, embora a partir dos dados que possuímos não possamos identificar indubitavelmente o tipo de ocupação dos fogos. Da análise da relação com a propriedade verificamos que o Castelo é uma freguesia de locatários e somente 17,3% dos agregados dispõem de habitação própria, ocupando-a total ou parcialmente. Destes, 11,5% vivem das suas fazendas e 17,3% não tinham ofício conhecido.

Quadro II – Tipologias Fonte: Décima de Lisboa, Bairro do Castelo, 1776

A posse da propriedade na Décima para o Castelo apresentava-se sob duas formas: exploração direta pelo proprietário, referindo além da localização, o nome do proprietário, o tipo de propriedade e o seu rendimento, ou sob a forma de aforamento que, para além do nome do foreiro e do seu montante fornecia também o nome do senhorio direto, o que neste enquadramento é a ocorrência mais comum. Os prédios sujeitos a foro constituíam mais de metade do edificado (61,9%), sendo o 80 Senado Municipal e o Conde de Santiago os maiores possuidores de bens de raiz na freguesia e que maiores proventos adquiriam por essa via, embora as instituições religiosas também tivessem alguma representatividade, mas com resultados pouco significativos. A presença da aristocracia cinge-se ao nível da posse de propriedade, por meio de aforamento, não se registando a sua presença enquanto moradores, o que confirma que a nobreza há muito se deslocara para outras zonas da cidade, facto que muito contribuiu para a caracterização popular do Castelo. As ruas da freguesia que mais se destacavam em termos de edificado foram a Rua de Santa Cruz do Castelo e a Rua da Crasta, concentrando ambas cerca de 63% do parque habitacional, do qual mais de metade eram estruturas abarracadas, algumas com lojas e piso superior. O recurso a este tipo de estruturas para habitação era considerável, marcando presença em todas as vias do Castelo, embora com maior incidência na Rua de Santa Cruz do Castelo local de onde, a título de exemplo, o Conde de Santiago arrecadava 26$850 de foro de um terreno onde se estabeleceram 22 barracas, acolhendo sobretudo homens sem ofício (30%), mulheres viúvas (15%), soldados e carpinteiros, na maioria dos casos (87,5%) na condição de proprietários, cenário que se estende praticamente a toda a freguesia. Também na Rua de Santa Cruz do Castelo se registava a maior densidade populacional, com uma taxa de ocupação

Quadro III – Relação de Moradores: Proprietários e Locatários 2 Fonte: Décima de Lisboa, Bairro do Castelo, 1776

A posse da propriedade e a titularidade de arrendamento por parte das mulheres, surgem normalmente associadas à condição de viúva, aparecendo em toda a Décima de 1776, 28 mulheres titulares, 10 proprietárias, das quais 7 eram viúvas; as restantes 18 eram titulares de arrendamento, das quais 12 eram também viúvas. Quanto aos prédios de maior rendimento, encontramolos dispersos pela freguesia. Na Rua de Santa Cruz, por exemplo, o prédio com o nº 15 do lado direito, propriedade do Desembargador José Pereira de Sousa, rendia-lhe anualmente 97$800. Outros particulares da mesma rua, no lado esquerdo, arrecadavam valores elevados para o local, o nº 3, um edifício de 4 lojas e 3 primeiros andares, habitado também pelo dono, o Doutor Pedro Miguel da Silva, rendia-lhe 108$000. O nº 14 é um exemplo de prédio de grande rendimento mas que se remetermos para o seu valor na Décima de 1762, verificamos que esta propriedade de Tomás Dias Raposo, que vivia de suas fazendas e habitava o imóvel do qual constavam 3 lojas,


2 andares e Casas Nobres tinha então um rendimento de 192$000 e acomodava nas suas divisões um tipo de habitante integrado numa condição social privilegiada. Já em 1776 o ocupante tipo deste prédio é o fabricante de caramelo, o aguadeiro ou o marinheiro e o rendimento era cerca de 1/3 do valor que lhe rendia 14 anos antes (66$000). Este é um exemplo que só por si personifica a estagnação social e económica a que a freguesia foi ficando votada. O valor das rendas era variável dentro das mesmas tipologias, estando certamente associado à área e ao estado de conservação dos prédios onde estavam estabelecidos, mas mesmo contemplando esta variação constatamos que os custos do aluguer de andares era ligeiramente superior. O tipo de agregado mais frequente era o do tipo familiar simples, com ou sem filhos. Os casais sem filhos ocorrem com muita frequência, não sendo a isso alheio a constituição de família em data muito próxima ao ano em estudo, isto é, uma família em procriação e por outro lado, alguma frequência de recasamentos. À parte os fogos que não eram núcleos de tipo familiar, menção ainda para algumas ocorrências de agregados de tipo isolado e agregados não conjugais, embora pouco significativo em termos de estrutura familiar tipo desta freguesia.

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5. Caracterização Profissional da Freguesia de Santa Cruz do Castelo

Quadro IV – Caraterização Profissional em 1776 Fonte: Décima de Lisboa, Bairro do Castelo, 1776

Para proceder à caracterização profissional da freguesia, que traçamos sumariamente, comparámos por um lado a evolução dos grupos profissionais3 inscritos na Décima da Cidade nos anos de 1762 e 1776 e por outro lado, fixámos a representatividade dos mesmos em 1776. Ressalta a importância dos ofícios ligados à construção civil, facto que ilustra a premência da reconstrução da cidade volvidos 21 anos sobre o terramoto.

Castelo de São Jorge. Relação Nova do Fogo do Castelo, Tomaz Pinto Brandam, 1ª metade séc. XVIII. MNL-117-G-0036, GEO.


O grupo profissional dos sapateiros é aquele que se destaca mais, seguido de imediato pela categoria dos carpinteiros e dos canteiros. Os grupos industriais que têm menor representatividade são os que pertencem à construção naval, ramo alimentar e vestuário. Em 1776, o cenário profissional da Freguesia do Castelo era dominado pelos artífices, com ausência de mestres o que poderá espelhar a estagnação social e económica a que a freguesia foi ficando votada. Neste ano, existiam ainda “Outros Grupos Profissionais”, dos quais destacamos com maior representatividade os “Militares” seguido pelo “Comércio”. Importa salientar que esta representação significativa não corresponde a uma representação efetiva apenas da profissão de militar (que está sujeita à isenção de imposto de maneio), sabemos que um considerável numero de militares pagou imposto de maneio porque também se ocupou de outros setores de atividade. Na Rua de Santa Cruz podemos observar o maior acréscimo de efetivos nos grupos profissionais dos Aguadeiros, Soldados e Trabalhadores, contribuindo assim para o aumento total de profissionais ativos que duplicaram em 14 anos. O setor de atividade que mais se destacou pela redução dos seus efetivos concentrava os profissionais das “Artes e Ofícios”, o “Setor Financeiro”, e do “Setor Administrativo” tendo este desaparecido totalmente. A freguesia após 14 anos encontrava-se despojada de peso institucional e social, permanecendo apenas o cariz militar. Do ponto de vista transversal, tomando 82 como referência o imposto de maneio do ano de 1776, cujos valores eram tabelados consoante as ocupações profissionais, é importante ressalvar a existência de grupos profissionais sobre os quais não recaíam impostos e que eram de suma importância para a caracterização social e profissional da freguesia, como os padres, militares e os negociantes matriculados na Junta de Comércio; Também os homens sem ofício representavam 42% da população ativa e, em regra, as mulheres, cujo trabalho é quase omisso, não cabendo em formas de trabalho consideradas regulares e institucionalizadas. Estes números suscitam a dúvida se seriam realmente improdutivos, ou se o seu desempenho apenas não se enquadrava nas designações estabelecidas pelos arroladores. Uma breve referência ainda ao setor mais privilegiado desta sociedade, constituído pelos procuradores de causas, beneficiados e sacerdotes entre outros que viviam de suas fazendas e eram no geral senhorios dos prédios que habitavam. Centrando-nos no exemplo da Rua de Santa Cruz, mais uma vez, esta rua é modelar pela panóplia de profissões aí implantadas e pela representação comercial, a que associamos quer a sua centralidade, quer o valor baixo das rendas. Algumas categorias profissionais revelaram-se de difícil identificação, com escassa associação à base de dados paroquial, o que se justifica com a grande mobilidade residencial. A desvalorização do valor patrimonial que se observou nesta rua num intervalo de 14 anos, remete para uma alteração considerável do perfil socioprofissional do residente.

6. Considerações Finais A primeira conclusão que surge da realização deste estudo é que a análise sistemática, estruturada e complementar das fontes inicialmente referidas (a Décima da Cidade e os Registos Paroquiais) permite uma resposta, pelo menos em traços gerais, à questão acerca da realidade social da freguesia que, encerrada entre muralhas, não encontrava na permanência dos que aqui viveram uma característica marcante. Aqui se albergava (pelo menos em parte) uma população transitória, oriunda em grande parte de zonas rurais daqui se redistribuindo para outras zonas da cidade ou integrando o rol dos que emigravam. Verificamos também que eram dos distritos de Santarém, Viseu e Leiria os que em maior número se fixavam no Castelo. Dispondo de uma oferta de alojamento a preços acessíveis, que faziam jus a edifícios em declínio, funcionalmente requalificados ou ainda em recuperação da catástrofe de 1755, registava uma densidade populacional elevada, com parte considerável a integrar os ofícios mecânicos, bem como soldados e os homens sem ofício que também por aqui abundavam. Já as camadas sociais mais elevadas escasseavam, registando-se somente alguns que viviam de suas fazendas e outros tantos comerciantes, a maioria dos quais ocupando as suas propriedades e frequentemente alugando os pisos e anexos que tinham disponíveis, contribuindo deste modo para os seus rendimentos e para a manutenção da sua posição social. Quanto à aristocracia, ela estava fisicamente arredada deste espaço, e a sua presença apenas se fazia notar pela posse de bens de raiz. Embora só um estudo exploratório mais alargado que contemple quer outras fontes, quer as que utilizámos nesta abordagem mas para um ciclo mais dilatado, possa confirmar integralmente as conclusões a que chegámos, parece-nos que o retrato que aqui traçamos exclusivamente para o ano de 1776 é esclarecedor da realidade da freguesia e não só vai ao encontro dos dados e factos históricos conhecidos, como os enriquece. Pelo que será também de realçar, como apontamento final, o grande potencial em termos de resultados que esta metodologia pode proporcionar num âmbito mais alargado e aprofundado.

BIBLIOGRAFIA FONTES MANUSCRITAS Décima da cidade de Lisboa e seu Termo, Bairro do Castelo (1762 e 1776). Registos Paroquiais da Paróquia de Santa Cruz do Castelo (1536 a 1780). BIBLIOGRAFIA GERAL AMORIM, Maria Norberta- Sto Amaro, As famílias de Sto Amaro nos finais do séc. XIX, vol. I, 1ª Edição, Açores, Câmara Municipal de São Roque do Pico, 2005. AMORIM, Maria Norberta e CORREIA, Alberto – Francisca Catarina (1846-1940) Vida e Raízes em S. João do Pico, NEPS, Universidade do Minho, 1999.


BANDEIRA, Mário Leston - Demografia e Modernidade, Lisboa, INCM, 1996. COLEN, José Augusto e VIEIRA, João Manuel -Conheço-o por ser meu vizinho Relações de vizinhança numa freguesia de Lisboa entre 1750 e 1835 in actas de Arqueologia do Estado, 1988. CUNHA, Cecília Conde e - A Cidade Medieval e a Estrutura Urbana da Freguesia do Castelo, in, História e Crítica, nº 7, Março de 1981. FERRO, João Pedro – A População Portuguesa no Final do Antigo Regime (1750-1815), Editorial Presença, Lisboa, 1995. FRANÇA, José Augusto França – A Reconstrução de Lisboa e a Arquitetura Pombalina, biblioteca breve, Ministério da Educação, 1989. MACEDO, Jorge Borges – Problemas de História da Industria Portuguesa no Século XVIII, Querco, Lisboa, 1963. MADUREIRA, Nuno Luis – Cidade: Espaço e Quotidiano, Lisboa, 1740-1830, Livros Horizonte, Lisboa, 1992. MOREIRA, Alzira Teixeira Leite – A Importância da “Décima da Cidade de Lisboa e seu Termo” para a Olisipografia”, sep. Da

revista da Biblioteca Nacional, nº 1, 1982. PRESTAGE, Edgar; D’AZEVEDO, Pedro Registo da Freguesia de Santa Cruz do Castelo, Coimbra, Imprensa Universidade, 1913. RODRIGUES, Teresa – Os Movimentos Migratórios em Lisboa. Estimativa e efeitos na estrutura populacional urbana de Oitocentos. LER História, nº 26, 1994. SANTANA, Francisco – Lisboa – 1800 a freguesia do Socorro, Revista Municipal, s.2, nº 2, Lisboa, 1988.

Notas 1 Integrando a linha de investigação em História das Populações, desenvolvida no CITCEM Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” das Universidades do Porto e do Minho. 2 Inclui as propriedades devolutas 3 - Tipificados cf. Jorge Borges de Macedo, Problemas de História da Indústria Portuguesa no Séc. XVIII, Querco, Lisboa, 1963.

Aguadeiros. Josehua Benoliel, 1907. A3848, Arquivo Fotográfico CML

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A comunicação Lisboa setecentista: a ordem nascida do caos. Uma viagem interativa teve como objetivo a divulgação de um manuscrito pertencente ao Arquivo Municipal de Lisboa através da conceção de um DVD interativo, uma das formas de divulgação e uma ótima ferramenta de trabalho para a comunidade científica no estudo da reedificação da cidade de Lisboa após o terramoto de 1755.

A organização do acervo que compõe o Arquivo Municipal de Lisboa (AML) vem demonstrar desde muito cedo que o concelho sentiu necessidade de guardar, os documentos mais importantes relativos à cidade e aos seus habitantes. O Arquivo Municipal de Lisboa, sendo o segundo maior do país, tem à sua guarda documentação da cidade que data do século XII até à atualidade, destacando-se a confirmação feita por D. Afonso II do Foral outorgado a Lisboa por D. Afonso Henriques, o Cartulário Pombalino ou os valiosos espólios de Neves Águas, José Luís Monteiro e dos Arquitetos Cassiano Branco, Keil do Amaral e Ruy Athouguia. O AML guarda 850 anos da história da cidade de Lisboa. Também o acervo de fotografia e videográfico têm um valor documental e patrimonial único para a história da cidade nos mais variados aspetos (urbanísticos 85 arquitetónicos, sociais, políticos). A Missão do Arquivo Municipal de Lisboa é recolher, guardar, tratar e preservar a documentação relativa à memória da cidade e promover a gestão integrada dos documentos produzidos pela Câmara Municipal de Lisboa, para uma atitude proactiva na difusão de produtos e serviços de informação sustentando uma visão assente em boas práticas de gestão documental integrada, num esforço de melhoria contínua, com critérios de qualidade, dinamizando a ótica de serviço público. Promover uma política cultural que divulgue a informação contida no seu acervo documental, através de edições de fontes, estudos e investigação, na organização de fóruns científicos, exposições e na animação do serviço educativo para diferentes públicos, infantil, adulto e o sénior, através de ações promovidas junto das escolas e outras instituições. A comunicação apresentada no Colóquio de Olisipografia nos dias 18 e 19 de Outubro de 2012, no Teatro Aberto, teve como objetivo a divulgação do manuscrito intitulado: A Relação das propriedades de cazas, que nesta cidade de Lisboa, se tem edificado, e reedificado, desde o anno de 1755 ate o prezente de 1778, do acervo do Arquivo Municipal de Lisboa, em suporte DVD. Este DVD teve como comissários científicos o Arquiteto Walter Rossa e a Arquiteta Renata Araújo. (Imagem 1 ). O códice com o título, datado de 1778, pertence ao Arquivo Municipal de Lisboa com a cota antiga AHCML, 211-A.

Este códice consiste numa longa lista onde se indicam por ruas os edifícios que se construíram, após o terramoto de 1755 até o ano de 1778. Esta lista abarca as novas ruas delineadas na baixa como a expansão pelos bairros a ocidente e a oriente, com novas zonas de expansão e zonas periféricas consolidadas. É um códice manuscrito de pequeno formato – com 120 mm de largura, 185 mm de altura e 9 mm de espessura – com encadernação rígida e corpo de livro com suporte em papel. Nesta obra estão referenciadas 171 ruas e 848 propriedades, da autoria do sargento-mor José Monteiro de Carvalho, deve ter-lhe servido, provavelmente, de documento de trabalho para o desempenho das suas funções, como inspetor das obras da reconstrução de Lisboa (1766-1778). (Imagem 2). Este códice é relevante para o estudo da reconstrução de Lisboa, onde se mostra a enorme operação que foi a reedificação da cidade, como também tem interesse do ponto de vista social. Partindo deste manuscrito, desenvolveu-se a ideia de conceber um DVD interativo, uma base de dados que permitisse aceder às freguesias, navegando, posteriormente, pelas ruas, propriedades e respetivos proprietários, consultar iconografia, fontes, estudos relacionados para perceber a dinâmica da reedificação da capital, com biografias das personalidades e instituições envolvidas neste processo da reconstrução da Lisboa Pombalina, onde os próprios negociantes tiveram um papel muito importante. Os estudos apresentados são da autoria da Arquiteta Renata Araújo e Doutor Jorge Pedreira. O manuscrito está dividido em 2 partes: - 1ª parte abrange o período de 1755-1766, tendo sido os inspetores das obras, o capitão engenheiro Eugénio dos Santos e Carvalho, o coronel Carlos Mardel e o marechal D. Miguel Ângelo Blasco. - 2ª parte vai de 1766-1778 e o inspetor das obras era o sargento-mor José Monteiro de Carvalho. O título do manuscrito contem uma gralha que reduz o documento a 1776, mas como consta na segunda parte é a listagem vai até 1778. José Monteiro de Carvalho terá compilado os dados relativos aos anos de 1755-1766, retirados provavelmente de uma outra lista previamente existente e acrescentou os dados relativos ao período de sua gestão como inspetor das obras (1766-1778). Das 171 ruas, 34 eram na Baixa/Chiado e 137 em áreas à volta do núcleo, quer a ocidente quer a oriente. Eram 289 propriedades na área da Baixa/Chiado, num total de 848. O eixo ocidental de expansão, era a linha Cotovia/Rato (191 propriedades construídas), S. Bento/Lapa (184), Bairro Alto e Santa Catarina (65) e o eixo oriental com 119 propriedades: Bairro S. José, Anjos e Alfama com intervenções desde a Mouraria até à Colina da Graça e Vale de Santo António. A natureza da encadernação é de consistência rígida e estrutura dupla. Ou seja, é formada por pastas de cartão cobertas com inteira de pele carneira pintada que são articuladas com o corpo do livro por meio de cordas inclusas no lombo. Tanto os planos como a cobertura encontram-se em estado de conservação razoável, uma vez que os primeiros apresentam-se inteiros e a cobertura


Imagem 1 Um fólio do manuscrito intitulado: A Relação das propriedades de cazas, que nesta cidade de Lisboa, se tem edificado, e reedificado, desde o anno de 1755 ate o prezente de 1778 do acervo do Arquivo Municipal de Lisboa.

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apresenta apenas desgaste nos cantos e na lombada, na zona da cabeceira e pé de livro. A cobertura possui decoração simples, obtida por gofragem da pele, descrevendo uma cercadura retangular nos dois planos. Na lombada, a decoração apresenta-se sob a forma de motivos geométricos em todas as zonas entre nervos. Os virados da cobertura, no lado interior dos planos, têm largura irregular – entre 20 mm e 15 mm –, estando fixos às pastas por meio de colagem e formando recantos através de sobreposição da pele. A união do corpo do livro às pastas é garantida por duas cordas inclusas no lombo, tendo este sido serrotado para o efeito. Já a costura dos cadernos é constituída por fio único de cânhamo com passagem simples por fora das cordas. Apesar de, em termos de estrutura da encadernação, o códice ter apenas duas cordas inclusas, a lombada apresenta cinco nervos fictícios com largura média de 5 mm, cujo sistema de fixação foi obtido por meio de colagem no interior da lombada. A distância entre cada nervo é de cerca de 20 mm, variando apenas a distância da cabeceira ao primeiro nervo, 34 mm, e do quinto nervo ao pé de livro, 38 mm. Em relação às tranchefilas, estas são constituídas por tiras de tecido com requife coladas no lombo na cabeceira e pé de livro. São, portanto, independentes quer do corpo do livro, quer das pastas. No interior do códice, as contraguardas e guardas volantes são constituídas por bifólios com suporte em papel decorado. 87 Além destas guardas volantes “principais”, existem mais duas guardas volantes em papel branco mais espesso, estando, a primeira,

colada à guarda volante em papel decorado. O corpo do livro é constituído por suporte em papel manuscrito com tinta ferrogálica. Os três cadernos que o compõem formam uma estrutura irregular: o 1º caderno é formado por 9 bifólios, faltando os dois primeiros e tendo colado ao primeiro fólio existente um bifólio em papel de constituição e filigrana diferentes; o segundo, por 6 bifólios; e o terceiro por 10 bifólios. O formato dos fólios é obtido por dobragem in-octavo, facto que pode ser constatado pela forma como a filigrana surge naqueles: desenho parcial e localizado na margem superior. No que diz respeito a marcas de sequência, o manuscrito apresenta duas formas de ordenação: através de reclame, presente na quase totalidade dos 47 fólios que compõem o corpo de livro; e foliatação, por meio de numeração árabe sequencial de todos os fólios, ausente apenas nos fólios de guarda que foram acrescentados em intervenção posterior à formação do corpo de livro. A delimitação da caixa de texto é obtida por meio de duas linhas verticais de justificação feitas a carvão. Podem, inclusivamente, ser observados os pontos geométricos de formação daquelas linhas através dos furos localizados nas margens de cabeceira e pé de livro. No que diz respeito ao estado de conservação do suporte em papel, os dois últimos fólios do corpo de livro têm fita adesiva na margem de charneira e no festo, fruto de intervenção alheia à conceção do códice. O objetivo principal do Arquivo Municipal de Lisboa em fazer um DVD interativo é de divulgar o seu espólio, de diferentes formas dependendo da temática visando a comunidade científica, estudantes universitários e outros interessados no estudo da cidade de Lisboa. Imagem 2 Imagem de um quarteirão da baixa pombalina em 3D.


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Esta comunicação tem por objetivo dar a conhecer o processo de obtenção de cartografia histórica georreferenciada, salientando as dificuldades e os sucessos atingidos, bem como esclarecer o método utilizado na georreferenciação. O LxI como meio de divulgação e a utilização por áreas que à partida não seria de esperar são outros pontos abordados.

O principal objetivo desta comunicação é o de apresentar o processo de obtenção de cartografia histórica georreferenciada e deste modo a poder sobrepor com cartografia atual. Para tal a comunicação está dividida em 6 pontos, “O antes”, “1ª Experiência”, “A oportunidade”, “ A fonte”, “O processo” e “Conclusões”. 1. “O antes” a. Existiam nos arquivos digitais do Departamento de Informação Geográfica e Cadastro (DIGC) diversas peças cartográficas digitalizadas, sem no entanto existir um processo de obtenção destes elementos digitais que permitisse a sustentabilidade do mesmo, isto é, apenas uma série 89 encontrava-se georreferenciada mas a qualidade da digitalização não permitia

a sua utilização a escalas grandes, as restantes séries estavam muito incompletas, digitalizações efetuadas em diferentes formatos e sem regras comuns. b. Tinham existidos contatos anteriores com o Gabinete de Estudos Olisiponenses (GEO), mas foram sempre fortuitos e sem continuidade. 2. “1ª Experiencia” a) O material existente no DIGC, apesar da pouca qualidade das digitalizações, permitiu georreferenciar as diversas séries para as quais existiam elementos digitais, nomeadamente 1858 – Filipe Folque ou a série a preto e branco de 1991 – Silva Pinto, ou ainda a série cartográfica de 1950. b) Deste exercício ficou patente as inúmeras falhas de cartas nas diferentes séries, bem como a evidente falta de qualidade da digitalização, que invalidava a utilização em escalas grandes. 3. “A oportunidade” a) Por estranho que possa parecer à partida, a conjetura financeira muito adversa da autarquia, foi um importante fator impulsionador do arranque deste projeto. Orçamentos muito reduzidos obrigam a uma diminuição de projetos externos e a um olhar para dentro da organização no sentido de encontrar pontos de sinergia entre serviços que promovam projetos internos interorgânicos. b) A última reorganização administrativa teve um impacto muito grande no modo como a câmara se organiza, tendo havido em paralelo uma grande movimentação de pessoas entre serviços. Estes dois fatores permitiram reduzir significativamente o


tempo, e possíveis reveses habituais nestes processos interorgânicas, ao permitir que muito rapidamente se chegasse à conversa com os responsáveis das diferentes orgânicas já com um plano de ação bem definido. c) A existência da aplicação informática Lisboa Interativa (LxI) era o meio de divulgação de informação que faltava para permitir dar visibilidade interna e externa ao trabalho que se iria desenvolver. 4. “A fonte” a) O GEO é o zelador de um acervo cartográfico de grande qualidade sobre a cidade de Lisboa, sendo esta a principal fonte de informação para este trabalho. b) A quase totalidade do acervo com condições para ser georreferenciado estava já digitalizado. c) A equipa do GEO desde logo percebeu a importância deste trabalho e deu sempre todo o apoio que solicitamos na obtenção das digitalizações. 5. “O Processo” a) Depois de identificadas todas as séries (16 no total) que seriam incluídas nesta 1ª fase do trabalho, optou-se por avançar com a georreferenciação das séries mais recentes para as mais antigas, iniciou-se deste modo com a de 1970, passando de seguida para a de 1950 e assim sucessivamente. Este processo é contrário à vontade natural de 90 avançar com as séries mais antigas logo de inicio, pois são as que têm mais valor histórico e interesse na confrontação com o atual, no entanto para aumentar a qualidade global do trabalho é importante avançar das mais recentes para as mais antigas porque à medida que vamos concluindo séries mais recentes aumentamos o nº de pontos de controlo para a série imediatamente mais antiga, pontos que muitas das vezes já não existem na cartografia atual. Esta questão é particularmente relevante em territórios atualmente consolidados como é o caso de Lisboa, mas há 50 anos atrás parte significativa deste território consolidado ainda eram quintas ou baldios. b) A operação de georreferenciação foi efetuada por dois técnicos do DIGC, a Sandra Macieira e o Tiago Spranger, tendo o mesmo sido iniciado em Dezembro de 2011 e terminadas todas as séries em Junho de 2012, num total de 6 meses. c) Pormenorizando um pouco mais o processo de georreferenciação seguido. a) Receção das cartas digitalizadas fornecidas pelo GEO. b) Tratamento de imagem de modo a recortas cercaduras, legendas, molduras e outros adornos normais em papel, mas desnecessários na construção de uma única imagem georreferenciada de todas as cartas de uma série cartográfica. c) Para atribuir coordenadas geográficas (georreferenciação)

a cada imagem, que corresponde a uma carta em papel, utilizou-se o software ArcGis onde se identificam pontos de controlo na imagem e onde se atribui a posição na cartografia atual desse ponto de controlo. Para o processo poder ter o mínimo de qualidade necessitamos de ter pelo menos 3 pontos de controlo, no entanto é habitual identificarem-se 5 a 7 pontos de controlo para se obter um resultado satisfatório. No entanto é importante ressalvar que apesar de ser um processo matemático, é muito importante a interpretação do operador não só na identificação dos melhores pontos de controlo mas também na avaliação do resultado obtido. d) Após todas as imagens estarem georreferenciadas é criado uma imagem única resultante da junção de todas as imagens de uma série cartográfica. Utilizamos mais uma vez o software Arcgis tendo estas imagens ficado armazenadas numa FileGeodatabase no servidor de armazenamento de dados fisicamente localizado no DataCenter da câmara. e) Finalmente são criadas “pirâmides” da imagem armazenada na FileGeodatabase, este processo permite aceder a informação de qualidade diferenciada de acordo com a escala do mapa que o utilizador está a visualizar, imagem de pior qualidade a escalas grandes e de maior qualidade a escalas pequenas. Esta tecnologia permite disponibilizar num reduzido espaço de tempo a cartografia georreferenciada. d) Temporalmente as 16 séries distribuem-se desde meados do século XVII (Tinoco) até aos anos 70 do século passado. 6. Conclusões a) Tratou-se de um trabalho muito recompensador pois a qualidade final do mesmo superou largamente as expetativas, mas sobretudo pelo carater inovador deste trabalho. b) O LxI é o principal meio de divulgação deste trabalho não só dentro da organização mas também para o público em geral. Esta ferramenta permite, para além de mostrar no mapa atual a sobreposição das séries georreferenciadas, também aumentar ou diminuir a transparência da imagem permitindo analisar de modo mais cuidado as diferenças entre o antigo e o atual. c) Um exemplo de utilização das séries cartográficas georreferenciadas por este processo enquanto ferramenta de apoio ao trabalho diário, é o trabalho desenvolvido pela divisão de cadastro municipal, responsável pela atualização do cadastro predial da cidade de lisboa. A cartografia histórica, em particular a de Silva Pinto (1911) permite compreender limites de propriedade que aos dias de hoje não fazem qualquer sentido, mas quando confrontados esses limites com a cartografia de 1911 facilmente se compreendem e deste modo mais rapidamente se age para a correção dos mesmos. d) Outros trabalhos, em particular alguns de investigação, estão a decorrer utilizando estas séries cartográficas como ferramenta de apoio.


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O grupo de investigação FormaUrbis Lab foi criado em 2006 com o propósito de construir um atlas morfológico da cidade portuguesa, onde Lisboa assume um lugar de destaque pela variedade e riqueza formal do seu tecido urbano. Em Lisboa, a riqueza morfológica da Rua reflecte-se também na variedade lexical das suas designações toponímicas. Abordando a relação que existe entre a morfogénese destes elementos e a sua designação, ensaia-se uma tipificação e classificação das Ruas de Lisboa.

I. A Rua como espaço público linear. A riqueza morfológica do tecido urbano de Lisboa permite compor um amplo e representativo corpus da cidade de matriz urbana Portuguesa. Esta característica é relevante por permitir reflectir sobre a diversidade morfológica e morfogenética do elemento predominante na constituição do tecido urbano consolidado da cidade - a Rua. Apesar de distintas situações poderem ser integradas nesta categoria de espaço, traduzindo-se a riqueza morfológica na própria variedade das designações toponímicas dos espaços públicos, definimos Rua como qualquer elemento 93 do espaço público da cidade que constitua um canal ou corredor - excluindo-se assim os espaços de natureza excepcional e finitos do tecido urbano que se afastam destas características, como as praças e largos - e que, cumulativamente, cumpra as funções de passagem e suporte de edificado. Ou seja, entendemos a Rua como um elemento morfológico linear e contínuo do espaço público da cidade, ao mesmo tempo percurso e morada, itinerário e lugar. II. A importância da designação toponímica. O estudo das designações toponímicas tem sido feito com objectivos diversos e a importância do nome dos espaços para o seu conhecimento é amplamente reconhecida. Rikwert1 por exemplo parte das raízes etimológicas e antropológicas para explicar os acontecimentos urbanos e a própria evolução das formas urbanas. No texto “The Street: The Use of its History”2 indica a bipolaridade das designações Anglo-Saxónicas street e road que ao designarem estes espaços lineares sugerem à vez um espaço delimitado, um lugar, e movimento, um percurso.3 Propõe ainda uma tipificação dos diversos termos que designam os espaços que são entendidos genericamente como ruas em três grupos que correspondem a diferentes modos de considerar a rua: os que sugerem o modo como a rua é fisicamente constituída pelo seu contexto (como terrace, row, arcade, embakment ou gallery); aqueles que sugerem um percurso percorrido a pé (como path, parade,

promenade ou mall); e aqueles relativos exclusivamente ao tráfego de veículos e aos aspectos legais e técnicos envolvidos (como highway, artery ou thoroughfare). Oriol Bohigas4 aborda a etimologia dos topónimos para daí derivar um conceito comum a partir de sinónimos de rua em diferentes línguas e culturas. Ao conferir uma importância seminal à rua na criação do tecido da cidade, fundamenta a definição e características que a qualificam no significado e etimologia das palavras street, strada, strasse, road, rue, ruta, vía, calle, ou seja, da palavra rua em diferentes idiomas, concluído que a rua é “(...) um lugar, um itinerário, uma oferta imprevisível de acontecimentos, ou seja, o elemento vertebral das duas funções essenciais da cidade: a informação e a acessibilidade; mas também é a imagem reconhecível da colectividade e a passagem de todos os serviços que a mantêm.”5 Para além disso, afirma que a diversidade de designações na cultura espanhola, onde encontra terminologias tão diversas como avenida, passeo, rambla, ronda, soportal, galería, gran vía, salón, paso ou pasaje para identificar variações da rua, advém da predominância de uma função ou de uma característica formal. Esta importância do léxico de elementos que compõem o tecido urbano é também reconhecida por Philippe Panerai e David Mangin,6 em particular a sua importância para a constituição de uma cidade inteligível a partir dos seus elementos urbanos. Em relação aos termos que designam o espaço público, onde se incluem os arruamentos, constroem um glossário com a etimologia dos termos ao longo do tempo, complementos para a definição, citações e exemplos desenvolvidos que podem esclarecer os significados de uma palavra. A sua nota final, a propósito da arbitrariedade da escolha de termos, da natureza inacabada desse léxico e da necessária emenda e desejável complemento por cada um em diferentes contextos, aponta uma metodologia extensível ao próprio exercício do projecto e desenho urbano. III. Metodologia. A metodologia que utilizamos está então baseada em trabalhos antecedentes, e foi desenvolvida e aplicada ao caso concreto da cidade de Lisboa. Inicialmente partimos da identificação das diferentes designações toponímicas dos espaços públicos de Lisboa que genericamente entendemos como ruas e da sua etimologia, dos sentidos e significados que tiveram em cada momento para a comunidade de habitantes da cidade, para depois encontrar uma definição a partir do nome de cada tipo específico de rua. Interessou-nos para este estudo o enfoque na designação toponímica e não no atributo toponímico, ou seja, na parte da toponímia que reflecte o tipo de espaço, que acusa as características específicas e partilhadas entre os diversos elementos e portanto a partir das quais se podem deduzir tipos de arruamentos e agregá-los por famílias ou categorias. A diversidade lexical das designações toponímicas destes elementos urbanos, como a avenida, a alameda, a rua, a travessa, a calçada, o beco, o caracol ou as escadinhas, tem várias origens. O cruzamento da designação toponímica com a morfologia dos arruamentos


permite-nos reflectir sobre as particularidades de cada tipo e suas variantes, e sobre a importância da existência dos mesmos na cidade de Lisboa. Assim, abordando a relação cultural que existe em Lisboa entre a morfogénese destes elementos e a sua designação toponímica, estabelecemos uma tipificação das ruas, partindo dos próprios elementos para a definição de tipos morfo-toponímicos. IV. A diversidade das designações dos arruamentos de Lisboa e os tipos toponímicos. A diversidade de designações toponímicas existente em Lisboa não deriva de uma normativa legal ou regra oficial para a sua atribuição aos arruamentos e espaços públicos da cidade. A ausência normativa - ao contrário do que acontece por exemplo em Paris, onde existem regras específicas para atribuição das designações a partir de características como a dimensão, perfil e arborização do arruamento em questão - remete essa responsabilidade para quem projecta e para os serviços municipais. Estes agem de forma empírica, recebendo de geração para geração a sensibilidade cultural adquirida com a prática ao longo do tempo, informada pela riqueza e características dos elementos urbanos da própria cidade, enquanto a Comissão de Toponímia centra o seu trabalho na avaliação, proposição e definição dos atributos toponímicos. Se atendedermos à distribuição quantitativa de designações toponímicas 94 em Lisboa, referenciada aos arruamentos identificados no site oficial da secção de toponímia municipal em meados de 2011, encontramos uma larga maioria de Ruas, mais de 2000 no conjunto de cerca de 3500 topónimos existentes, sendo que a designação toponímica mais frequente que se segue é de Travessa com perto de 360 casos. No entanto, apesar do predomínio destas designações, e apenas para os espaços públicos lineares que comummente identificamos como ruas ou arruamentos, encontramos 27 designações toponímicas distintas. Devemos esclarecer que apenas nos debruçamos sobre as designações oficiais existentes e não sobre as designações desaparecidas, apesar de por vezes as referirmos como exemplo ou para contextualização, nem sobre aquelas que, não obstante serem utilizadas oralmente, não constituem designação oficial, como a Subida do Carmo que comummente identificava a Rua Nova do Carmo. A predominância em Lisboa de espaços públicos com a designação Rua atesta a sua importância e a diversidade morfológica de espaços que encontramos com esta designação ilustra quão abrangente é a aplicação da mesma. No seu “Vocabulario Portuguez...”, Raphael Bluteau, apesar de indicar uma origem imediata francesa para Rua na palavra Rue, derivada do grego Ruo que significava o mesmo que em latim Fluo e em português Corro, “porque pelas ruas corre a agua da chuva, que cahe dos telhados (...) tambem a dos poços, & das fontes, que se

derrama nas ruas. Tambem corre a gente as ruas, & cada hua dellas he hua corrente do povo, que vai ao seu negocio (...)”,7 escreve que, segundo alguns etimólogos, rua chamava-se em latim ruga porque as ruas nas cidades fazem o mesmo efeito que na testa as rugas, dividindo o espaço que há entre as casas. Ou seja, a palavra portuguesa Rua reúne a noção de movimento e a noção de espaço linear. Lato sensu e etimologicamente, quase poderíamos afirmar que qualquer arruamento é uma Rua: um sulco conformado pelo movimento no tempo. No entanto, apesar desta síntese que a designação Rua apresenta, existem mais 26 designações toponímicas cuja classificação, tendo em conta o seu significado e etimologia, nos conduziu a três grandes famílias de topónimos: 1). os que têm origem na posição topográfica; 2). os que têm origem na função urbana; 3). os que têm origem na forma, onde podemos distinguir os topónimos que reflectem o traçado e os topónimos que reflectem os elementos de composição. Tendo em conta os limites que recortam esta comunicação, escolhemos desenvolver apenas alguns casos para ilustrar esta tipificação de ruas. IV. 1. Os tipos geo-toponímicos. A posição topográfica como referência para a designação Nos tipos geo-toponímicos incluímos os elementos cujas designações têm origem na posição topográfica, ou seja, em características ou particularidades do relevo ou directamente ligadas à configuração do sítio que é ocupado. Assim, podemos incluir nesta categoria o Alto, a Costa, a Rampa, o Regueirão e a Esplanada. O Alto Alto tem origem na palavra latina altus, e significa o que tem maior altura que a ordinária. Em relação à topografia, alto é sinónimo de cimo, cume ou topo, de local elevado ou elevação. Um dos significados enunciados por Raphael Bluteau no seu “Vocabulário Portuguez (…)”8 para a palavra “alto” é levantado respectivamente à cota baixa; e quando se refere ao contexto da cosmografia: “Região alta se chama a que vezinha mais [?], ou nascimentos de rios, ou que fica mais distante do mar (…)” Apesar de existirem apenas 10 Altos, existe grande diversidade morfológica neste tipo de arruamentos: encontramos Altos mais ou menos alongados; integrados em tecidos urbanos consolidados e centrais da cidade, mas também em contextos mais periféricos com um carácter quase rural, com e sem saída, marginados por frentes e por traseiras de edifícios. Apenas a localização numa posição topográfica elevada, dominante da evolvente, e o papel relativamente secundário no contexto urbano são características partilhadas por todos. São exemplos de arruamentos com esta designação o Alto do Longo e o Alto do Penalva, elementos morfológicos de pequena dimensão e secundários no contexto urbano consolidado do antigo Alto da Cotovia, na zona do Príncipe Real.


A Costa Costa é um substantivo com origem no latim costa, que significa costela, ilharga, lado. Por extensão pode ser significado de região inclinada, uma encosta ou ladeira. Em Lisboa apenas encontramos um arruamento com esta designação, a Costa do Castelo. Numa encosta, o percurso mais eficiente entre dois pontos pode não ser uma linha recta mas sim uma linha curva ou sinuosa que une pontos à mesma cota. O traçado da Costa mimetiza uma curva de nível que contorna a colina e envolve as muralhas do Castelo. Resulta de um processo de sedimentação no tempo longo e tem associado ao seu eixo uma série de largos e miradouros, que correspondem às intersecções com outras ruas ou a pontos de vista sobre a paisagem a partir da encosta. O traçado encurvado e irregular desta rua, sensivelmente à mesma cota, une pontos importantes, como antigas portas da cidade, e atravessa diferentes tecidos urbanos, constituindo um elemento de referência comum. (figura1)

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IV. 2. Os tipos functio-toponímicos. A função urbana como referência para a designação. Nos tipos functio-toponímicos incluímos os elementos cuja etimologia do topónimo está relacionada com a função ou papel urbano que desempenham ou que está na origem da designação. Assim, incluímos nesta categoria a Avenida, o Cais, o Caminho, o Passeio, a Travessa e a Vila. A Avenida A palavra Avenida tem origem na palavra francesa Avenue, que deriva do verbo avenir - chegar. A Avenida é na raiz etimológica o caminho ou percurso de chegada desde a rua ou estrada principal a um sítio, a uma casa de uma propriedade, comummente ladeada por árvores.

Figura 1 Traçado da Costa do Castelo e contexto urbano envolvente sobre a topografia.


A identificação da Avenida com a função de arruamento de chegada a um local específico foi perdendo importância enquanto o termo se generalizou no contexto urbano para designar uma rua excepcional, larga e arborizada. Em Lisboa existem cerca de 150 Avenidas, localizandose a maior parte delas nas Avenidas Novas, a área de expansão da cidade de finais de oitocentos. As restantes são elementos singulares do traçado urbano da cidade, constituindo nesses contextos elementos de excepção do espaço público. A estes arruamentos corresponde uma grande diversidade morfológica, no entanto partilham as características de serem dominantes no contexto e sobretudo arborizados, independentemente da arborização ser feita através de alinhamentos simples ou compostos. No entanto, a recente atribuição desta designação toponímica a arruamentos com um perfil exclusivamente rodoviário e não arborizado, formalmente mais semelhantes a estradas ou vias rápidas, veio promover uma ruptura nos referentes tradicionais de identificação morfo-toponímicos. (figura 2) A Vila Vila tem origem na palavra latina villa, provavelmente contraída a partir de um diminutivo de vicus, cujo significado é fila de casas, rua ou bairro. A villa é uma casa de campo com edifícios de produção agrícola. Actualmente, o significado mais comum de vila é povoação de categoria inferior à de cidade e superior à de 96 aldeia e pode ainda nomear uma casa de campo, composta por vários edifícios residenciais e produtivos, significado mais próximo da sua raiz etimológica. Em Lisboa, a existência de arruamentos com esta designação prende-se com a origem e função dos edifícios que configuram o espaço do arruamento, nem sempre público. As Vilas lisboetas consistem comummente em conjuntos de habitação operária, normalmente estruturados linearmente ao longo de arruamentos internos e particulares, tornados públicos através do uso ao longo do tempo. Apesar de maioritariamente serem compostas por edifícios espartanos na composição espacial e decorativa, contam-se alguns casos de vilas de composição mais erudita como é o caso da conhecida Vila Berta. Criada com o propósito de alojar também a pequena burguesia lisboeta do início do século XX, a Vila Berta consiste numa rua interna, estruturante da agregação linear das habitações que a marginam. O carácter quase doméstico do arruamento deve-se também à posição secundária na estrutura urbana em que se insere no contexto do bairro da Graça. IV. 3. Os tipos morfo-toponímicos. A forma da rua como referência para a designação. A terceira categoria de tipos toponímicos que distinguimos agrega os elementos cuja designação toponímica tem origem na forma ou nos elementos de composição

da rua. Assim, dividimos os mesmos entre estas dois subtipos: os tipos morfo-toponímicos cuja designação tem origem na forma do traçado da rua [o Beco, o Boqueirão, o Caracol, a Circular, o Corredor e a Rua]; e os tipos morfo-toponímicos cuja designação tem origem nos elementos de composição do espaço da rua [a Alameda, o Arco, a Azinhaga, a Calçada, a Calçadinha, o Cunhal, a Escada, a Escadinha, a Escadaria e a Estrada]. O Caracol A palavra Caracol tem o significado de espiral e quando está associada a um arruamento significa caminho em ziguezague. O Caracol é um caso particular de uma rua que, com o propósito de vencer o desnível articulando as diferenças de cota, ziguezagueia numa sucessão de elementos lineares, rampeados ou em escadinha, encaixados nas descontinuidades do relevo do sítio e articulados por cotovelos mais ou menos acentuados. Esta composição resulta num elemento urbano complexo, cujo nome deriva do traçado ziguezagueante e, como tal, “encaracolado”. Em Lisboa, o Caracol da Graça é o único existente

Figura 3 Perfil longitudinal das Escadinhas de São Crispim.

Figura 2 Perfis transversais respectivamente da Avenida da Liberdade, Avenida Luís Bívar e Avenida Marechal Craveiro Lopes.


entre outros que foram destruídos, como o Caracol do Carmo, ou renomeados, como o Caracol da Penha. No caso do Caracol da Graça, os limites são marginados por edifícios exclusivamente habitacionais e muros de hortas, o que confere ao espaço público um carácter quase doméstico. A posição na encosta confere-lhe uma forte relação visual com a cidade. A Escada, a Escadinha e a Escadaria As designações toponímicas Escada, Escadinha e Escadaria têm todas a mesma raiz - escada - uma série de degraus pelos quais se sobe ou se desce. Na cidade de Lisboa existem diversos espaços cujo plano do chão é constituído por escadas, algumas como adro de um monumento ou edifício excepcional, outras acompanhando ruas ou atravessando parques e jardins, e ainda outras que constituem todo o arruamento. No entanto, na toponímia apenas existem 33 Escadinhas, uma Escada e uma Escadaria. Com variações no traçado, dimensão, função e posição topográfica, apesar de comummente se disporem perpendicularmente à pendente, a presença dos degraus que dão origem à designação é constante. Como característica comum, as Escadinhas são arruamentos com acesso condicionado pelos degraus, relativamente reservadas e segregadas do restante traçado urbano. Os seus limites laterais são constituídos normalmente por habitação ou muros cegos. Por outro lado, a ocupação dos 97 degraus pelos seus moradores como extensão da casa, em particular os degraus de dimensão mais generosa, é potenciada pela própria segregação espacial. (figura 3) V. Conclusão A diversidade das designações toponímicas que se reconhece em Lisboa foi apresentada por Appio Sottomayor como um valor em perigo nas III Jornadas sobre a Toponímia de Lisboa, no ano de 1998.9 Talvez não seja coincidência que o Edital n.º 86/2009 de 16 de Setembro, que oficializou a designação de 102 topónimos atribuídos em 1998 aos espaços da Exposição Internacional de Lisboa quando a mesma foi reconvertida numa área da cidade, o actual Parque das Nações, tenha ratificado a recuperação de um conjunto de designações entretanto caídas em desuso, como Cais, Passeio e Caminho, e mesmo a introdução de novas designações no léxico lisboeta, como Esplanada. Se “a menor das exigências de um utilizador da cidade é a de ser capaz de se encontrar”,10 a utilidade da diversidade lexical das designações é evidente quando contribui para o reconhecimento dos lugares que designam e mesmo para o enriquecimento do léxico morfológico com que a cidade é edificada. Assim, mais importante do que a recuperação das designações toponímicas é o seu uso adequado, ou seja, a coerência entre a designação que é dada e as características do elemento morfológico que é nomeado. Essa coerência depende do contexto cultural urbano em que os elementos e a sua designação toponímica estão

inseridos para não resultarem desprovidos de significado. Ignorar este princípio básico progressivamente conduzirá à erosão do seu sentido e da própria legibilidade da cidade que é feita a partir do seu espaço público. VI. Referências Bibliográficas Anderson, Stanford (ed.), On Streets, The MIT Press, Cambridge, Massachusetts, and London, England, 1978. Bohigas, Oriol, La Strada, The Street in Domus . Rivista Mensile di Architettura, Arredamento, Arte, Marzo 1998. Bluteau, Raphael, “Vocabulario Portuguez & Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, ...”, Lisboa, 1720. Choay, Françoise, Merlin, Pierre, Dictionnaire de l’urbanisme et de l’aménagement, PUF, Paris, 2000 [1988]. Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2013, Porto Editora, Porto, 2013. Nimer, Miguel, Influências Orientais na Língua Portuguesa: Os Vocábulos Árabes, Arabizados, Persas e Turcos, Edições USP, São Paulo, 2ª ed. 2005 [1942]. Panerai, Philippe, Mangin, David, Project Urbain, Éditions Parenthèses, Marseille, 1999. Proença, Sérgio Barreiros, “O Papel das Ruas Naturais na Identidade de Lisboa. Morfologia Urbana e Topografia.” in Actas do Seminário “A Rua de Todos.”, integrada na exposição “Rua é Nossa... de Todos Nós.”, Lisboa, 2011. Trindade, António; Machado, Paula; Pereira, Teresa Sancha (coord.), 3as Jornadas de Toponímia de Lisboa - 1998, CML - DAG, Lisboa, 2000.

Notas 1 Rikwert, Joseph, The Idea of a Town, The Anthropology of Urban Form in Rome, Italy and the Ancient World, Princeton University Press, Princeton, New Jersey, 1976. 2 Rikwert, Joseph, “The Street: The Use of its History” in Anderson, Stanford (ed.), On Streets, The MIT Press, Cambridge, Massachusetts, and London, England, 1978. 3 “A palavra street deriva do Latim sternere, pavimentar, e assim está relacionada com todas as palavras derivadas do Latim com raiz str que estão ligadas à edificação. Sugere que uma superfície se distingue da envolvente de modo físico ou, pelo menos, nocional. (...) Road, por outro lado, sugere movimento para um destino e - incidentemente - o transporte de pessoas e bens a pé, por animais de carga, ou por veículos. Ride é a sua raiz Anglo-Saxónica (ridan em Inglês arcaico) e denota a passagem de um lugar a outro.” in Rikwert, Joseph, “The Street: The Use of its History” in Anderson, Stanford (ed.), On Streets, The MIT Press, Cambridge, Massachusetts, and London, England, 1978. p. 15. 4 Bohigas, Oriol, “The Street, La Strada” in Domus n.º 800-810, rivista mensile di architettura, arrendamento, arte, Marzo 1998. 5 Bohigas, Oriol, Contra la incontinencia urbana, Reconsideración moral de la arquitectura y la ciudad, Electa, Barcelona, 2004. p. 129. 6 Mangin, David, Panerai, Philippe, Project Urbain, Éditions Parenthèses, Marseille, 1999. 7 Bluteau, Raphael, “Vocabulario Portuguez & Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, ...”, Lisboa, 1720. 8 Bluteau, Raphael, “Vocabulario Portuguez & Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, ...”, Lisboa, 1720. 9 Sottomayor, Appio, “A Toponímia das Ruas que não o são” in 3as Jornadas de Toponímia de Lisboa - 1998, (coord.) António Trindade, Paula Machado, Teresa Sancha Pereira, CML - DAG, Lisboa, 2000. 10 Panerai, Philippe, Mangin, David, Project Urbain, Éditions Parenthèses, Marseille, 1999. p. 165.


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A “Rua Direita” identifica-se como uma artéria fundamental na construção da cidade, e ainda hoje se apresenta como tal em muitas das aldeias, vilas e cidades do actual território português. Lisboa ressalta nesta abordagem como um caso de estudo paradigmático: pela seu número elevado de existência de Ruas Direitas, o que desafia a investigação de uma leitura diversificada sobre este elemento urbano tão especifico.

A Rua Direita A Rua Direita identifica-se, geralmente como uma rua remetida ao urbanismo medieval, mesmo que reconhecida na actualidade em inúmeras cidades, vilas e aldeias de Portugal (CARVALHO, 1989:34), como a rua principal, aquela onde se localiza grande parte do comércio, ou então como a rua que faz a ligação com determinados edifícios de prestigio, como a matriz, o paço, o castelo, ou ainda a ligação entre duas portas opostas de um cerco amuralhado (ROSSA, 1995:222). Correspondendo assim “(...) ao arquétipo tido como original do urbanismo português” (ROSSA, 2002:223), a Rua Direita apresentase como o elemento estruturador do “modelo linear” (FERNANDES, 99 1996:137) que evidencia o sentido de axialidade do espaço, que se encontra na base da organização e composição da cidade de tradição portuguesa. Destaca-se através de uma matriz toponímica própria e de uma diversidade morfológica e funcional correspondente ao contexto onde se encontra inserida (AMADO, 2012: 207). A formação da Rua Direita em território continental é associada tanto à génese fundacional dos aglomerados como à sua expansão, e a sua consolidação e densificação ao longo do tempo revela-se num processo moroso e complexo. Assim, estes arruamentos revelam identidades diferenciadas, associadas às próprias dinâmicas evolutivas de cada núcleo urbano onde se inserem1. As suas características morfológicas identificamse distintas, tal como, a sua ocorrência2 singular ou múltipla num mesmo aglomerado urbano. A comparação entre vários casos de estudo revela as qualidades deste elemento urbano como: Direccional; Articulador; Gerador; Estruturador; Preponderante; Aglutinador e Inteligível, tal como possibilita a estabilização do seu conceito. O conceito de Rua Direita é subvalorizado, quando se reduz a afirmações simples que apenas fazem menção à relação estabelecida entre dois pontos de referência, localizados nos seus extremos (CARVALHO, 1989:35), que resultam na desvalorização de um conjunto de

outras características que se expõem no processo da sua formação e estabelecimento da mesma, nomeadamente o abundante conjunto de configurações morfológicas que adopta e a sua capacidade de articulação com outros elementos urbanos, e como suporte de vários usos. Entre as qualidades intrínsecas da Rua Direita sobressaem aquelas que correspondem à sua natureza estruturadora e geradora de tecido urbano. O tecido produzido a partir da rua principal constitui-se enquanto área homogénea composta por distintos elementos urbanos, ordinários e excepcionais. Todos eles são hierarquizados pelo eixo dominante (‘Rua Direita’), designadamente: as ruas perpendiculares de configuração paralela, habitualmente denominadas por travessas, que adoptam uma implantação concorrente à Rua Direita; as ruas secundárias, ruas de serventia que duplicam a Rua Direita, e que subordinadas a esta, reproduzem por mimetismo a sua configuração; os Largos, terreiros, adros, rossios e todos os espaços públicos de excepção do traçado urbano, que possuem configurações tendencialmente irregulares quando se localizam nos extremos da Rua Direita ou, pelo contrário, possuem contornos de regularidade quando se localizam ao longo do seu desenvolvimento, num posicionamento lateral, definindo um dos troços da rua como uma das frentes desse espaço, e sendo este identificado habitualmente com o simbolismo de “Centro”. A presença e permanência destes elementos urbanos associados à Rua Direita e a sua influência na constituição de uma estrutura urbana de matriz axial são os factores determinantes de uma identidade morfológica que se identifica como particular do urbanismo português. Estas características configuram a Rua Direita como um modelo conceptual exemplar, na medida em que foi reproduzido enumeras vezes, tanto nas cidades do continente como nas cidades da expansão ultramarina . Assim, o conceito traduz-se na uniformização do processo de produção do traçado, admitindo por influência de outros factores e condicionantes, variações na configuração morfológica que resultam numa produção de contextos urbanos singulares, embora sempre inteligíveis. Em conclusão, a leitura dos casos de estudo demonstram que o conceito de Rua Direita se define como um eixo preponderante, uma rua directa com um sentido único e um alinhamento tendencialmente rectilíneo podendo assumir distintas configurações formais e uma capacidade de usos variada (fig.1). As “Ruas Direitas” em Lisboa Na cidade de Lisboa, a Rua Direita apresenta-se como caso de estudo excepcional, pelo número abundante de ruas confirmadas com esta denominação ao longo do tempo em diversas documentação (AMADO, 2012)3. Este número de casos revela também uma grande diversidade morfológica que, independentemente do contexto de assentamento primordial ou de expansão (AMADO, 2012)4, identifica a Rua Direita como um eixo detentor de um papel fundamental na génese e formação do tecido urbano, destacando-se particularmente como elemento de suporte à produção de novas áreas urbanas. Os primeiros registos encontrados do uso desta


Figura 1 Fotografias sequencias do eixo contínuo que desde as Portas do Ferro até às Porta de Alfama, percorria transversalmente a cerca moura pela sua área de cota mais baixa, e se dirigia até à igreja de São João da Praça e sequente porta . (fotografia do autor, 2010)

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denominação remetem-se ao século XV “Duma doação do rei ao concelho, nascerá ... a Rua Direita, junto das Portas de Ferro, (...). Esta rua, que tomou mais tarde o nome de Padaria, é nomeada, ainda em 1440, num alvará de confirmação sobre as propriedades de D. Afonso V,…Rua Direita junto ao Ferro…Nasce assim a segunda Rua Direita, duma série que se irá desenvolver ao longo dos séculos XV e XVI, e cuja nomenclatura nos confirma a consolidação dum modelo conceptual de carácter urbanístico e a difusão, no tecido da cidade, desta tipologia.” (CARITA, 1999 p.38). Segundo o mesmo autor, identificamos como anterior a esta Rua Direita dos Ferros a Rua Direita da Pedreira, que se localizava na encosta oposta da cidade, datada do século XIV, por correspondência à constituição deste bairro. Na obra de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, “Lisboa em 1551 – Sumário”, publicada entre 1554-1555, são já identificadas vinte e uma denominações de Rua Direita, dispersas pelas distintas freguesias. No entanto, na planta

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topográfica de Lisboa desenhada por João Nunes Tinoco datada de 1650, são somente identificados três artérias com esta designação: a Rua Direita das Escolas Gerais, a Rua Direita do Salvador e a Rua Direita de São Vicente5, localizadas numa área oriental da cidade, entre a cerca Moura e a cerca Fernandina. A disposição contígua destas Ruas Direitas de Lisboa possibilita uma leitura sequencial, que resulta num percurso orgânico entre a Porta do Sol e a Porta de São Vicente, cuja configuração do traçado está muito próximo da sua forma actual. Na análise da bibliografia sobre a cidade, constata-se que o número de Ruas Direitas ao longo dos séculos é inconstante e variável, sem que isso corresponda o seu desaparecimento físico com excepção das que deixaram de existir na reestruturação de Lisboa pós terramoto (fig.1). Figura 2 (na página seguinte) Esquema ilustrativo dos Eixo Contínuos composto por várias Ruas Direitas sequenciais que se identificaram localizados no interior da Cerca Moura. Os alinhamentos e a composição formal do conjunto antes do Terramoto de 1755, e no presente séc. XXI.


Os restantes casos de Ruas Direitas referenciados em diversos documentos cartográficos permanecem, com a uma configuração de traçado idêntica à original, mesmo que admitindo eventuais alterações (fig.2). A alteração da sua toponímia é que se revela notória através da supressão do seu atributo Direita, ou passando a possuir novas designações. Esta verificação no processo temporal revela algumas incoerências, como sejam repetições e sobreposições de denominações referentes ao mesmo elemento urbano, como se verificou na formação da Rua Garret6, resultado de vicissitudes da própria evolução da cidade e da sua história,

tal como, da regulamentação da própria toponímia7 (fig.3). Uma leitura cartográfica feita às ocorrências de Ruas Direita na cidade de Lisboa em espaços temporais determinados, demonstra que este elemento urbano, até determinado período, foi associado a um crescimento natural da cidade, revelando-se como prática de produção

Figura 3 Prospecto da face Norte da Rua Direita das portas de Santa Catarina e da Rua do Chiado, no terceiro quartel do século XVI; Fonte: SEQUEIRA, Matos (1939) e Esquema ilustrativo da evolução de alinhamentos da Rua Direita de Santa Catarina, actual Rua Garrett, desde do século XVI, XV, XVI e século XXI.


de tecido urbano, ou seja, associando a Rua Direita à formação de novos tecidos urbanos da cidade. Entre os séculos XVI e XIX, sob acções diferenciadas, umas relativas a doações por parte do Rei, ou outras de iniciativa privada, a produção de Ruas Direitas foi persistente. Podemos destacar, como exemplos, a Rua Direita de Cata-que-Farás, Rua Direita de Santa Catarina, a Rua Direita da Lapa ou a Rua Direita do Marquês de Abrantes, entre outras (fig.4). (Sequeira, 1939). Ao proceder-se uma análise comparativa entre Ruas Direitas existentes em Lisboa e de qualquer outra cidade de Portugal Continental, ressalta a evidência das Ruas Direitas da Capital possuírem a particularidade de suportar o desenvolvimento urbano da cidade, situação mais perceptível quando observamos o seu conjunto. Uma análise global de todas as Ruas Direitas identificadas em Lisboa, transversal ao tempo histórico, permite identificar a constituição de eixos contínuos consecutivos que revelam ser os alinhamentos primordiais da expansão da própria cidade (fig.5). A observação de múltiplas Ruas Direitas num único contexto urbano permite constatar outras características que nos casos onde a Rua Direita se apresenta como um caso singular não seriam possíveis identificar. Destas características podemos destacar: a génese da sua formação; as localizações estratégicas que assumem no traçado geral da cidade; 103 as distinções hierárquicas diferenciadoras entre elas; os suportes diferenciados das mesmas e ainda os tipo de agregações que estabelecem entre si, e em conjunto. Assim, em Lisboa conseguem identificar-se distintas particularidades de agregação de Ruas Direitas, das quais se especificam as sequenciais, duplicadas, paralelas, e convergentes. Destacam-se, contudo, os eixos urbanos sequenciais e os eixos convergentes, que, quando referenciadas em conjunto, se identificam com uma disposição radial no território da cidade. Os eixos de expansão com uma agregação sequencial são os mais evidentes, resultado da adição sequencial de distintas Ruas Direitas que assinalam direcções de expansão do tecido urbano da cidade. Estes eixos estabelecem-se, nomeadamente, num alinhamento paralelo à linha de costa que se dirige tanto para ocidente como para oriente, ou como em eixos de penetração no território interior para norte. O processo de concepção destes eixos produz-se pela adição de número diferenciado de Ruas Direitas, por vezes em constante ampliação, apesar de serem produzidas autonomamente. Seguem um alinhamento comum, o que, em fase consequente de consolidação, irá determinar a união e a agregação das mesmas. Nos casos em que se interpreta como singular, a Rua Direita de imediato evidencia o seu papel como elemento estruturador de toda uma área afecta. No

entanto, em eixo composto por uma adição variada de ruas, é entendida na totalidade do conjunto construído sequencialmente, como um elemento estruturador, articulador e gerador, produzindo constantemente novos tecidos de expansão da cidade. A sua diferenciação faz-se por distintas formas, especificamente por uma toponímia própria, que se identifica como denominação composta, já que se soma ao termo comum “Direita”, um outro designativo que as diferencia umas das outras e as associa ao lugar. Como são por exemplo as ruas que compõem o eixo que atravessava a cerca moura antes do Terramoto de 1755, Figura 4 Esquema ilustrativo da Área da Freguesia de Santos-o-Velho, inicialmente organizado pela Rua Direita da Esperança, e posteriormente pela Rua Direita do Marques de Abrantes, traçado da situação actual.


104


Figura 5 (página anterior) Esquemas ilustrativos da constatação de Ruas Direitas na cidade antes do terramoto até actualidade, com base em distintos documentos históricos escritos e cartográficos; a sua leitura conjunta no traçado da cidade; pormenorização de um eixo sequencial.

desde a Porta do Ferro até às Portas do Sol: Rua Direita de Santo António + Rua Direita das Portas Travessas da Sé + Rua Direita de São Jorge e Rua Direita de São Martinho (associadas todas a edificado de cariz religioso). Para além da toponímia, as Ruas Direitas em Lisboa distinguem-se por uma configuração própria e pela articulação que exercem com os diferentes elementos urbanos, tanto excepcionais como ordinários. Assim, a leitura e compreensão destes eixos de expansão pode ser feita parcelarmente, tomado individualmente apenas uma Rua Direita , ou através do conjunto das mesmas, ou seja, na sua totalidade. Só uma leitura que abranja a totalidade do eixo, deixará perceber a sua consolidação morfológica faseada. A descontinuidade entre cada Rua Direita é, contudo, perceptível através de elementos excepcionais, como os Largos, e o tecido urbano produzido, associado especificamente a cada rua. Estes elementos ordinários ou excepcionais do traçado servem duplamente de articuladores das mesmas Ruas Direitas, que se revelam tão significativos para a rua que integram como para o eixo em geral. Todos os elementos urbanos que 105 se associam ao eixo acabam por assumir uma posição distinta se interpretados em contexto geral ou em contexto particular. Conclusão A permanência na actualidade das Ruas Direitas na cidade de Lisboa, ao contrário da sua toponímia que apenas excepcionalmente se manteve, atribui-se à presença do seu traçado, mesmo com pormenores de alterações de alinhamentos ou rupturas parciais provocadas pelo crescimento do tecido urbano e pela abertura de novos eixos urbanos. As quatro Ruas Direitas de Lisboa que hoje mantém esta toponímia (Rua Direita de Marvila; Rua Direita do Lumiar; Rua Direita da Ameixoeira; Rua Direita da Palma), identificam-se em posição afastada do centro da cidades pré-industrial, outrora em espaço exterior à cidade, associadas a eixos de penetração do território para norte ou paralelos à costa, onde se formavam pequenos núcleos urbanos dispersos, ou propriedades de vilegiatura. Só quando um troço deste caminho era edificado é que adquiria o nome de Rua Direita, ao qual se somava o nome designativo do lugar. O restante eixo era conhecido por estrada/ caminho ou azinhaga. Em síntese, as Ruas Direitas na cidade de Lisboa, apesar de não reconhecidas pela toponímia persistem no traçado da cidade, marcando a sua identidade morfológica. Sendo na totalidade do seu conjunto analisado que se clarifica a sua importância e significado como eixo

estruturante de desenvolvimento e expansão da cidade, mantendo as suas características até aos nossos dias. Referências Bibliográficas Amado, A. (2012). A Rua Direita nas Cidades Portuguesas: Leitura Tipo-Morfológica do Elemento Urbano. (Tese de Mestrado não publicada) Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Carvalho, S. L. (1989). Cidades Medievais Portuguesas: Uma Introdução ao seu estudo. Lisboa : Livros Horizonte. Carita, H. (1999). Lisboa Manuelina e a Formação de Modelos Urbanisticos da Época Moderna (1495-1521). Lisboa: Livros Horizonte. Fernandes, J. M. (1996). Cidades e Casas da Macaronésia . Porto : FAUP publicações. Oliveira , C. R. (1987). Sumário . Lisboa: Livros Horizonte. Sequeira, G. d. (1939). O Carmo e a Trindade. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. Ribeiro , O. (1968). A Rua Direita de Viseu . (S. d. Lisboa, Ed.) Geographica, Revista da Sociedade de Geografia de Lisboa , nº16, Ano IV. Rossa, W. (1995). A Cidade Portuguesa. História da Arte Portuguesa , vol. III, pp. 222-323.

Notas 1 Quatro razões apontadas por Walter Rossa relativamente à identificação de mais do que uma R.D. na mesma cidade: 1) assimilação de núcleos e persistência de toponímias; 2) atribuição de designação por importância de senso comum. 3) duplicação de uma artéria que assume predominância sobre a existência ; 4) duplicação de uma artéria devido à evolução urbana. (ROSSA, 1995:223) 2 ocorrência – número de identificações de R.D. num núcleo; singular, uma única vez; múltipla, várias vezes. 3 Foram identificadas oitenta e oito casos de estudo na toponímia de Lisboa ao longo dos variadíssimos períodos temporais. 4 Contexto de assentamento: Primordial – se a R.D. se manifesta como artéria fundamental da área homogénea contigua, que é correspondente à área fundacional do aglomerado urbano; Expansão – se a R.D. se associa a novos núcleos fundacionais adicionados a um núcleo pré-existente. 5 Estas denominações aparecem legendadas em mapa com a numeração.125, 128,143. 6 A actual rua Garrett possui na sua formação até actualidade distintas denominação desde: ‘Rua Pública das Portas de Santa Catarina’; ‘Rua Direita’ ; ‘Rua Direita para Santa Catarina’; ‘Rua Direita das Portas de Santa Catarina’. 7 Identificam-se incoerências referentes ao número de ocorrências de R.D. que se prendem com atribuição de distintas toponímias ao mesmo elemento urbano em épocas sequentes. Trabalhos do mesmo autor, como é o caso do ‘Atlas da Carta topográfica de Lisboa’ realizado sob a direcção de Filipe Folque, 1ª versão (1856 a 1858) e 2ª versão de (1871), encontramse variantes significativas. O número de ruas cartografadas e identificadas com a designação varia de (35) na 1ª versão, para apenas (12) na 2º versão.


ARTE PÚBLIC

A NA

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TE R Rita Ochoa ... IBE .......... IRI . ........ Arquitecta ... NH ....... .......... AD ...... ........ ....... ........ E LIS . ...... . . . . . . . . . . . . . . . B OA . ..... ..... ........ ..... ..... .... .... .... ...


Introdução A arte pública constituiu, desde a segunda metade do século XVIII, uma forma de valorização do espaço urbano. Monumentos ou obras de menor dimensão, tais como bustos ou estatuária, articularam-se desde então com os vários processos de desenho da cidade. Embora os paradigmas de monumentalização do espaço urbano tenham sofrido mudanças a partir do século XX, os valores da monumentalidade continuaram presentes, através de novas formas de expressão. Mais recentemente, várias cidades têm apostado na implementação de programas de arte pública, como forma de dotar os seus espaços públicos – novos ou já existentes – de conteúdos simbólicos. Alguns espaços parecem possuir uma maior apetência para acolher intervenções de arte pública. Assim, encontram-se frequentemente intervenções em centros históricos, eixos de expansão urbana, jardins e parques, novos bairros residenciais, entre outros. Em cidades portuárias, as respectivas frentes de água configuram também espaços privilegiados para acolher arte pública (Remesar 2002; Ochoa 2012) e, em particular, monumentos de forte carga simbólica. Lisboa não constitui excepção. É sintomático que a intervenção com o nome da cidade – Lisboa (aos Construtores da Cidade)1 – e que obras subordinadas a temas como os 500 Anos da partida de Pedro Álvares Cabral para o Brasil2 ou A guitarra portuguesa (homenagem a Amália Rodrigues)3 tenham sido posicionadas junto ao Rio. 107 Também não por acaso, em dois momentos da História de Lisboa, dois importantes eventos – os quais originaram intervenções artísticas – foram localizados na sua frente ribeirinha: Em 1940, a Exposição do Mundo Português, realizada a ocidente da cidade (zona de Belém), celebrando a Nação, através da comemoração de um duplo centenário: 800 anos da Fundação do País e 400 anos após a Restauração da Independência; 58 anos mais tarde, a Exposição Internacional de Lisboa de 1998 (Expo’98), na Zona Oriental da cidade (extremo oposto a Belém), subordinada ao tema “Os Oceanos, um Património para o Futuro”, celebrando os Descobrimentos e os feitos dos portugueses no mundo.

Figura 2 “Verticalidade na arte pública (elementos de carácter referencial) (a) Farol e Padrão dos Descobrimentos; (b) The Castle of the Eye; (c) Torre da SACOR”

Este último evento integrou a implementação de um programa de arte pública4, transformando a frente ribeirinha oriental numa das áreas da cidade mais densamente monumentalizadas, através de elementos contemporâneos. A monumentalização das frentes de água é assim um valor que persiste actualmente, associado a uma vontade de as (re)integrar na cidade e de as resgatar para os cidadãos, mediante a criação de novos tecidos urbanos que valorizem os seus espaços públicos5. Mas, nesta discussão, um factor deverá ser introduzido: a questão portuária. Apesar das mudanças nos paradigmas tecnológicos e territoriais, os portos continuam a desempenhar, nas economias actuais, um importante papel. Pelo que, no contexto actual, a integração das frentes de água nas cidades e a sua monumentalização não se pode dissociar da necessidade de manter determinadas infraestruturas nas cidades. É importante perceber que estas duas valências – de lazer e funcional – não são incompatíveis. Será então importante encontrar soluções de compromisso, onde possam coexistir ambas as situações: um usufruto da frente de água por parte das populações, mas também um seu correcto aproveitamento para actividades portuárias. Para uma caracterização da arte pública na frente ribeirinha de Lisboa No estudo Cidade e frente de água – Papel articulador do espaço público (Ochoa 2012) foram identificados os elementos de arte pública ao longo dos principais eixos de articulação entre a cidade de Lisboa e a sua frente de rio, entre 2008 e 2010. Nestes eixos, a maior parte da arte pública (128 de 205 elementos) posicionava-se perto da água. Paralelamente, foram contabilizados 173 elementos no território definido como frente de água6 (Fig. 1). Estes dados quantitativos demonstram que, de facto, a frente ribeirinha de Lisboa é um espaço privilegiado para a colocação de arte pública. Mas como se caracteriza, efectivamente, esta “massa simbólica” 7? Desde logo, é possivel identificar uma grande diversidade de obras; em termos de características físicas (escala, tamanho, forma, materiais, cores) e do tipo de relação estabelecida com os espaços em que se implantam. Verificam-se primeiramente elementos com um carácter marcadamente referencial, pontuando verticalmente a frente de água.


Esculturas, elementos comemorativos, bustos, monumentos históricos, ou outros elementos posicionados isoladamente nos espaços e perpendicularmente ao plano de chão. Alguns destes elementos, de acordo com o seu posicionamento e com as suas dimensões, podem contribuir para a percepção da frente de água a partir de outros pontos da cidade. É o caso de monumentos na terminação de eixos; ou mesmo de infraestruturas portuárias que, quando visíveis, evocam a presença da água em contextos urbanos que, devido à sua topografia ou à ocorrência de barreiras visuais, não permitem a sua visualização (Fig. 2). Com uma presença bastante diferente, existem também elementos no pavimento – arte pública no plano horizontal –, posicionados pontual ou continuamente ao longo da frente ribeirinha, mas sem visibilidade a partir da cidade em geral. É o caso da Ciclovia8 entre Belém e o Cais de Sodré (Fig. 3). Ao longo da frente de água é ainda possível observar uma multiplicidade de elementos associados a edifícios. Figura 1 “Articulação com a frente de água e localização de arte pública em Lisboa”

108

Nesta categoria cabem baixos-relevos, frontões, intervenções diversas em fachadas ou ainda esculturas/ elementos escultóricos nas mesmas. Alguns edifícios, pela sua carga simbólica e pela sua presença no território serão também aqui incluídos. Ou mesmo partes de edifícios, tais como a Pála do Pavilhão de Portugal9, no Parque das Nações (Fig. 4). Seguindo a mesma linha de raciocínio, consideram-se nesta classificação obras emblemáticas de carácter infraestrutural (infraestrutura como arte pública). E a valorização de determinados elementos infraestruturais – túneis, pontes, viadutos – através de intervenções de carácter artístico (arte pública associada a infraestrutura) (Fig. 5). Existem ainda elementos diversos de mobiliário urbano, tais como quisques, fontes, ou até objectos, que, em determinado contexto e, pelas suas características, comportam um determinado valor simbólico. Elementos como cabines telefónicas, urinóis públicos (hoje praticamente em desuso) fazem parte desta categoria (Fig. 6). Por fim, elementos paisagísticos explorados como arte pública.


Figura 3 “Arte pública no plano horizontal (a) Ciclovia; (b) Direitos Humanos; (c) Caminho da água”

Figura 4 “Arte pública e arquitectura (a) Mural Ordem dos Arquitectos; (b) Torre Vasco da Gama; (c) Pála do Pavilhão de Portugal”

109

Figura 5 “Arte pública e infraestrutura (a) Ponte de Tirantes; (b) Intervenção em Viaduto; (c) Painéis sob Viaduto”

Figura 6 “Mobiliário urbano como arte pública (a) Quiosque; (b) Fonte no Rossio; (c) Urinol público”


Este grupo inclui também arte pública dentro de jardins e de parques ribeirinhos – espaços que, por possuírem uma grande concentração obras, são designados por Remesar (2002) como contentores de escultura (Fig. 7). Zonas de maior concentração de arte pública e pertença a diferentes períodos históricos Não obstante alguma arte pública aparecer ao longo da frente de água de forma dispersa, existem zonas mais carregadas, ou seja, com maior concentração de obras. Em Lisboa, existem três grandes núcleos de arte pública na frente ribeirinha (que, por sua vez, se subdividem em pequenos focos de arte pública): 1) a ocidente, a zona de Belém; 2) no centro histórico (entre Cais de Sodré e Santa Apolónia); 3) na zona oriental da cidade. Naturalmente, a ocupação portuária condiciona o posicionamento de arte pública, pelo que, actualmente, estes três núcleos correspondem também a áreas com acesso público à frente de água10. Classificámos anteriormente os diversos elementos simbólicos na frente ribeirinha, em termos de presença física e da relação estabelecida com o espaço urbano. Para a caracterização da arte pública na frente de água contribui também a análise dos momentos históricos de colocação11 (Tabela 1). Na primeira das três áreas mencionadas, Belém, é possível identificar arte pública pertencente a todos os momentos históricos considerados12. O espaço correspondente ao Jardim da Torre de Belém e respectiva 110 envolvente possui uma predominância de elementos recentes. Já nos espaços adjacentes à Praça do Império verifica-se uma predominância de elementos colocados durante o período do Estado Novo, que, como vimos, adoptou esta zona da cidade como espaço de representação (Elias 2004), no âmbito da Exposição do Mundo Português. Também a frente ribeirinha correspondente ao centro histórico (entre o Cais de Sodré e Santa Apolónia) integra arte pública pertencente a todos os períodos históricos considerados. Particularmente, na área do Cais de Sodré e da Praça do Comércio, é possível encontrar intervenções correspondentes ao período Pombalino.

Por sua vez, a área correspondente ao antigo troço da Cerca Moura paralelo à Ribeira é a que apresenta obras mais antigas, todas anteriores ao Séc. XIX. A zona oriental de Lisboa integra dois focos principais de arte pública, com características bastante distintas. A Praça David Leandro da Silva, com predominância de obras do início do séc. XX (algumas das quais dentro do estilo Art Nouveau) e o Parque das Nações, onde apenas se verificam elementos recentes, decorrentes do já referido programa de arte pública da Expo’98.

Figura 7 “Elementos paisagísticos como arte pública e arte pública em contentores des escultura (a) Escudos em mosaicultura; (b) Sem título; (c) Jardins da água”


Conclusões Pelo seu carácter inerentemente simbólico, as frentes de água urbanas são frequentemente eleitas para acolher arte pública. A frente ribeirinha de Lisboa encontra-se ocupada por uma grande diversidade de elementos simbólicos, estabelendo diferentes tipos de relação com os respectivos espaços urbanos, implantando-se de forma dispersa ou em núcleos, e pertencentes a diferentes momentos históricos. No seu conjunto, estas obras configuram um rico património, permanecendo como um palimpesesto de memórias de diferentes épocas. De certa forma, é possível traçar a História da cidade através das colocações de arte pública na frente de água. Assim, a cronologia das colocações de arte pública pode ser observada como uma cronologia das intervenções da cidade. A presença de arte pública na frente de água contribui para a sua valorização. Esta valorização é conseguida com a colocação de elementos simbólicos segundo a lógica horizontal (ao longo da frente de água), mas também segundo a lógica vertical (transversalmente à frente de água, ao longo dos principais eixos de articulação). Mas contribui também para a própria percepção da água nas cidades. A visibilidade de certos elementos (objectos de carácter referencial) pode contribuir para evocá-la no interior do território e ainda para a definição de um perfil característico, a partir do exterior da cidade – do seu skyline (Kostof 1999).

Nestas dinâmicas, para além das obras de carácter intencional, devem ser consideradas as inúmeras presenças ligadas ao sistema portuário que carregam de forma muito particular o espaço urbano, como referências de memória de actividades do passado. Faróis, gruas, contentores, hélices e outras partes de barcos, chaminés de fábricas, silos, etc., normalmente peças que comportam um valor plástico depois de perder a sua função; infraestruturas portuárias ainda no activo, que fazem parte do imaginário das frentes de água, ou elementos já sem função, mas que permanecem no território como memórias de um passado que é exclusivo destas cidades. E que por isso fazem parte da sua identidade (Fig. 8). A arte pública constitui actualmente um importante factor de qualificação da cidade. Com a abertura do conceito de arte pública às referências físicas e simbólicas – ou seja, com um entendimento independente do seu valor estético, da sua intencionalidade e da sua tradicional significação como monumento/escultura/estatuária –, poder-se-ão abrir caminhos para que possam ser considerados e eventualmente recontextualizados, elementos já existentes, que valorizem as especificidades dos lugares e das cidades. As cidades têm assim toda uma base de elementos simbólicos que podem beneficiar a construção da sua identidade. E as cidades portuárias contam com este valor adicional.

111

ORIENTE

CENTRO

OCIDENTE

Anterior ao Séc.

Sécs. XVIII-XIX

1900-1925

1926-1974

Pós 25 Abril 1974

Sem inf. de data

Tabela 1 Arte pública na frente de água: zonas de maior concentração, número de elementos de arte pública e pertença a diferentes períodos históricos (a cinza, períodos históricos predominantes em cada zona)

Total

1.

Jardim da Torre de Belém + envolvente

13

1

2

1

1

8

-

2.

Museu de Arte Popular

6

-

-

-

6

-

-

3.

Praça do Império + envolvente

13

-

1

-

8

3

1

4.

Praça Afonso de Albuquerque

7

-

1

1

4

-

1

5.

Cais do Sodré + envolvente

10

-

3

1

-

5

1

6.

Praça do Comércio + envolvente

11

-

4

-

2

5

-

7.

Área correspondente à Cerca Moura

4

2

2

-

-

-

-

8.

Santa Apolónia + envolvente

10

1

1

2

2

2

2

9.

Praça David Leandro da Silva

5

-

1

3

-

-

1

54

-

-

-

-

54

-

40

-

7

2

11

19

3

173

4

22

10

34

96

9

10. Parque das Nações Arte pública dispersa ao longo da frente de água


112


Referências

Notas

Carvalho, Anabela (dir.) (2005). Estatuária e escultura de Lisboa. Roteiro. Lisbon: Câmara Municipal de Lisboa/Departamento de Património Cultural/Divisão de Património Cultural.

1 José de Guimarães, 1999.

Costa, João Pedro (2007). La Ribera entre proyectos. Formación y transformación del territorio portuario, a partir del caso de Lisboa. PhD in Urbanism, Escola Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona, Universidade Politécnica de Catalunha. Elias, Helena (2004). A emergência de um espaço de representação. Arte Pública e transformações urbanas na zona ribeirinha de Belém. On the Waterfront, 6, 43-135. Viewed 21 June 21 2013, http://www. ub.edu/escult/Water/waterf_06/W06_03.pdf Ochoa, Rita (2012). Cidade e frente de água. Papel articulador do espaço público. PhD in Public Space and Urban Regeneration, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Barcelona. Pol, Enric (2005) [1997]. Symbolism a Priori. Symbolism a Posteriori. In Remesar, A. (ed.), Urban regeneration. A challenge for public art (pp. 7176). Barcelona: Universidade de Barcelona. Kostof, Spiro (1999) [1991]. The city shaped. Urban patterns and meanings through history. Londres: Thames and Hudson. 113

Remesar, Antoni (2002). Waterfronts and public art: a problem of language. On the Waterfront, 3, 3-26. Consultado em 12 Dez. 2010, disponível em http://www. ub.edu/escult/Water/water3/artsdev.pdf

2 Autor não identificado, 2000. 3 Mário Vaz, 2001. 4 Este programa, concertando nomes nacionais e internacionais ligados às artes plásticas, teve como princípios de acção a recusa do sentido de arte pública como mero acessório do tecido urbano, fazendo a apologia da intervenção artística como meio paisagísticos, alargando o seu plano de actuação à definição e vivência da topografia do território e manifestando-se essencialmente em dois eixos plásticos de intervenção: 1) pavimentos e revestimentos; 2) elementos escultóricos. Sendo o lema da exposição “Os Oceanos, Um Património para o Futuro”, também algumas das temáticas celebradas pelas obras focaram o imaginário da água. 5 Veja-se, na cidade de Lisboa, os mais recentes projectos de requalificação de espaços ribeirinhos: a construção do novo Museu dos Coches junto a Belém, os novos espaços públicos resultantes do projecto de requalificação na Ribeira das Naus, ou ainda o projecto para área do Campo das Cebolas/Doca da Marinha. 6 Foram consideradas como “frente de água” as áreas com uma unidade territorial morfológica dentro da organização geral das respectivas cidades, que correspondem ao corredor de contacto com a linha de separação entre a terra e a água (Costa 2007). 7 A arte pública é assumida, nesta investigação, como facto urbano, correspondente a uma cadeia de decisões e acontecimentos, e reflectindo distintas formas de pensar e de fazer cidade. Por outro lado, a arte pública é entendida de forma abrangente. Ou seja, neste conceito cabem os objectos produzidos com uma intencionalidade prévia de ser arte pública (monumento/escultura/ estatuária), mas incluem-se também determinadas presenças que, pelo seu carácter de excepção, pelas memórias que evocam e pela carga simbólica que conferem ao espaço, adquiriram, a posteriori, esse estatuto (Pol 2005). Chegamos assim a dois pressupostos fulcrais para o entendimento de arte pública: a) Observação da arte pública em relação ao seu contexto, não como objecto isolado; b)Arte pública como os elementos que constituem uma referência física e simbólica no espaço urbano. 8 João Gomes da Silva, 2009. A Ciclovia de cerca de 7 km funciona como um elemento unificador ao longo da frente ribeirinha. Esta intervenção responde a questões funcionais (marcação do circuito de bicicletas) através de elementos de carácter estético (frases poéticas e elementos artísticos no pavimento e em fachadas ao longo do percurso), pelo que se constitui simultaneamente como desenho urbano e como arte pública. 9 Álvaro Siza Vieira, 1998. 10 Com excepção da área de Santa Apolónia, onde o acesso público à frente de água foi recentemente condicionado. 11 Em coerência com o conceito de arte pública adoptado – em que esta é considerada em relação com a sua envolvente e não como objecto estético isolado –, no processo de datação consideraram-se os momentos de colocação no espaço público (que poderá ou não corresponder a uma inauguração) e não as data de elaboração das peças.

Figura 8 “Arte pública em cidades portuárias” (página anterior)

12 Os períodos históricos considerados baseiam-se na classificação temporal proposta pelo trabalho Estatuária e escultura de Lisboa. Roteiro (Carvalho 2005): "Pós 25 de Abril de 1974"; "1926-1974"; "1900-1925"; "Sécs. XVIII-XIX", aos quais foi adicionado o período "Anterior ao séc. XVIII".


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......


Introdução A extinção dos conventos, determinada pela lei de 30 de Maio de 1834, foi uma das traves mestras da implantação do regime liberal, vencedor da guerra civil que o opôs aos absolutistas. O tema possui amplo contexto internacional (entre os países católicos, sobretudo a França e a Espanha) que forneceu modelos já executados e em vias de concretização, e, sintetizando, tem uma tripla razão de ser: enfraquecer a Igreja, colocando-a, sob o ponto de vista económico, cada vez mais na dependência do Estado e ao serviço de novos conceitos do utilitarismo social; abolir regimes de propriedade complexos, marcados por profundas heranças históricas, substituindo-os pela clareza do riqueza individual; especialmente, utilizar os bens acumulados por centenas de conventos e instituições afins, em proveito das graves e prementes necessidades financeiras do Estado, a braços com as dívidas de guerra, quer a Inglaterra, quer às elites políticas e militares que construíram a vitória. Em perspectiva mais ampla, aceitando os ideais do novo regime, afirmava-se, em primeiro lugar, que a medida visava moralizar a própria Igreja, terminando com a inutilidade social da vida conventual e abrindo as suas riquezas à possibilidade de apropriação legítima por parte de todos os cidadãos1. Pessoalmente, abordei este tema, pela primeira vez na minha tese de doutoramento2, reivindicando que, na história de Lisboa, a extinção dos conventos teve uma importância fundamental na viragem, construída desde finais do século 115 XVIII, da cidade do Antigo Regime para a cidade burguesa que se vai implantando ao longo de oitocentos. Os ex-conventos da capital alojaram os mais importantes serviços públicos, definidores da monarquia constitucional (desde logo as Cortes na grande casa de S. Bento), envolvendo escolas, hospitais, quartéis, tribunais, excepcionalmente fábricas e uma multiplicidade de serviços da nova burocracia de Estado, por exemplo, correios ou notários. Mais excepcionalmente ainda, na sequência de raras demolições e, sobretudo, pelo aproveitamento das cercas (em especial, já nas últimas décadas do século), surgirão novos loteamentos, aberturas de ruas e extensões urbanas que não alteraram nada de essencial no desenho de Lisboa mas foram densificando, urbanizando e alargando o seu território, respondendo também ao crescimento demográfico que, após a Regeneração de1851, adquire uma dinâmica inédita. Todos estes aspectos têm continuado e vão continuar a ser estudados3. Mas o que mais me interessa indagar é a fundura dos aspectos simbólicos em presença. Por um lado, a extinção expedita de dezenas de conventos teve uma considerável base de apoio popular, bem expresso, por exemplo, nas afirmações das ’três testemunhas’ que, in loco, a equipa, dotada do poder da extinção e presidida por um provedor de distrito, ouvia obrigatoriamente. Como já escrevi, trata-se de ‘(…) cidadãos modestos residindo nas imediações, que confirmavam a inutilidade económica, social e religiosa, também política, do

respectivo instituto. Porque os frades já eram poucos e não tinham suficientes meios de sobrevivência, porque havia nos bairros igrejas paroquiais para assegurarem os serviços religiosos à população. Algumas vezes refere-se a falta de qualidades morais, a preguiça ou a devassidão, noutros casos a actividade conspirativa, lesiva dos interesses da Rainha e do Estado liberal’4. No entanto, ao mesmo tempo que decorria, sob o olhar de todos, esta operação radical -que algo incorporava da vulgaridade da violência que campeava em Portugal desde as Invasões Francesas e que era também um ajuste de contas depois da vitória liberal – outras questões se insinuavam com complexa amplidão. Em primeiro lugar, e compreensivelmente, proclama-se, entre a elite política, a indispensabilidade de salvaguardar os conventos, ou parte deles, que possuíam valor monumental5. À luz da cultura romântica, esse valor manifestava-se quase só na arquitectura medieval, especialmente gótica, e os cuidados da sua salvaguarda, conduzirão ao nascimento do patrimonialismo português e às primeiras listas de monumentos nacionais. Em segundo lugar, numa dimensão mais fantasmática, surge, como manifestação estética, a consciência de perda que vai aureolando de nostalgia os corpos sobreviventes de conventos e igrejas, e envolvendo em piedade o drama de velhos monges, lançados à rua, a quem o Estado prometeu apoios que frequentemente não chegavam6. Não sendo o lugar para desenvolver esta questão essencial, não posso deixar de citar quem, mais cedo e mais determinantemente, se sentiu ferido e emocionado pelo brutal desmantelamento dos conventos, componente fundamental da história e da cultura europeias, ao longo de quase dez séculos. Almeida Garrett, em Viagens na minha Terra, escritas em 1843, afirma categoricamente, num capítulo extraordinário sobre o seu desencanto em relação ao que, antes de qualquer outro, definiu como uma sociedade dos «barões»: «Quando me lembro tudo isto, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades – não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser»7. A outra voz que se ergueu como um brado, contra o «vandalismo» desta «epocha», foi Alexandre Herculano que assim lançou o quadro ideológico e moral para o nascimento do patrimonialismo português, centrado, durante mais de um século, no culto dos monumentos medievais. Citemos a afirmação austera e definitiva: «Nossos paes destruiram por ignorancia e ainda mais desleixo: destruiram, digamos assim, negativamente: nós destruimos por idêas ou falsas ou exageradas; destruimos activamente; destruimos, porque a destruição é uma vertigem desta epocha»8. Sintetizando: os melhores entre os fundadores da nova nação de cidadãos tiveram cedo a certeza da perda real e, sobretudo, simbólica, não tanto da decisão da extinção mas do modo como ele foi feita. A dobra – ou fenda – assim


criada rapidamente guindou os conventos, e as memórias das suas vivências e artisticidades, a valor cultural eminente. No caso de Lisboa, essa profunda nostalgia foi um dos suportes da nascente olisipografia, inaugurada por Júlio de Castilho, em Lisboa antiga (O Bairro Alto), Lisboa, editado, pela primeira vez em 1879. Corpo múltiplo e palimpséstico, a cidade incorporou as demolições, as apressadas reconversões e as monumentalizações despidas de função, como marcas significantes que hoje ainda nos convocam. Hoje exactamente, quase dois séculos depois, quando a reutilização de importantes conventos (todos os da colina de Sant’Ana que foram reconvertidos em hospitais) está na ordem do dia.

O sítio da Trindade, vista aérea actual

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A demolição do Convento da Trindade A urgência, política e financeira, que envolveu a concretização da extinção – condição prévia da apropriação e venda dos bens dos conventos – foi marcada, no caso de Lisboa, de decisões e contra decisões, procurando responder à imensa solicitação de instalações, por parte do Governo e da Administração central e, simultaneamente, elaborar a lista de bens imóveis que irão, nos anos subsequentes, ser postos à venda, através da figura da hasta pública. O caso que aqui trago exemplifica maximamente este modo empírico de actuação. Refiro-me ao Convento da Trindade, bem no coração de Lisboa, cuja Igreja havia sido edificada de novo, depois do Terramoto, embora sem que a anterior tivesse sido inteiramente demolida9. Concluído o processo jurídico da extinção – que decorreu entre 22 de Dezembro de 1833 (antes da publicação do Decreto da Extinção de 30 de Maio de 1834, como aconteceu com vários conventos de Lisboa) e 25 de Fevereiro de 183410 - o convento é destinado à instalação de um Tribunal. Em início de 1836, ‘ já se haviam iniciado obras consideráveis para instalar um tribunal, dirigidas pelo arquitecto Possidónio da Silva. Datará de então uma planta que regulariza os quarteirões fronteiros e a própria entrada do convento, abrindo uma «Praça» rectangular, comunicante também com a Rua Larga de S. Roque.


Mas a decisão de loteamento e venda de todo o espaço conventual, incluindo a igreja, alterou os dados da questão: abria-se «uma rua nova (...) em continuação da travessa do Secretario da Guerra até à Porta do Carro», no cruzamento da Calçada do Duque com o largo de S. Roque, num alinhamento difícil que respeitava as frentes edificadas entre aquela calçada e a travessa de João de Deus. As sete «divisões» propostas para arrematação vinham da rua de S. Roque, tornejavam para o novo largo da Trindade e circundavam um lado e outro da «rua nova». A vantagem era a de criar uma alternativa mais directa à articulação do Chiado com S. Roque, permitir o início da regularização de uma zona central da cidade que permanecia bastante informe, desafogar o largo da Trindade, gerando um corte dinâmico com as artérias adjacentes’11. Tanto como no tempo já longínquo em que inventariei e analisei o processo da extinção do Convento da Trindade, no início da década de 1990, continuo a procurar encontrar a razão de ser da súbita decisão da demolição do convento, praticamente ao mesmo tempo em que se havia decidido reconvertê-lo em Tribunal, depois de um projecto de reafectação, cuidadosamente elaborado, como prova a planta existente na Colecção de Plantas do Ministério do Reino12. A abertura da Rua Nova da Trindade, informemente paralela à actual Rua da Misericórdia, antiga Rua larga de S. Roque, permitiu certamente melhorar a circulação na área, mas talvez tenha 117 sido mais determinante a rentabilização do loteamento, imediatamente proposto e, que teve como principal comprador o mesmo Manuel Moreira Garcia, «negociante desta Praça» que, antes da extinção, era enfiteuta de «um Prazo que se compoim do Terreno compreendido na Igreja Velha (…) e paga anualmente 31$200»13. O que é facto é que, sensivelmente a meio do novo arruamento, já estava em edificação, por sua iniciativa, o primeiro prédio, o nº 16 que, ainda hoje, ostenta a data de 1834. Ao preparar a conferência a que este texto corresponde, surgiu-me pela primeira vez, como hipótese intuitiva, que Moreira Garcia possa ter tido uma importância decisiva na opção da demolição, imediato rasgamento da rua e loteamento do velho convento da Trindade que, claramente, serviu os seus interesses de enfiteuta de terrenos dos frades junto à Igreja velha. Será necessário documentar esta hipótese que confirmaria dois factos maiores e mais interessantes: a facilidade com que os cidadãos intervieram então na gestão da cidade, fazendo chegar à vereação as suas ideias14; o beneficio que mesmo gente relativamente modesta, como seria sem dúvida Moreira Garcia pôde obter da venda dos ex-conventos, cumprindo, ainda que muito excepcionalmente, um dos objectivos políticos da lei de Joaquim António de Aguiar: alargar a base social de apoio à nova legitimidade constitucional e impulsionar o fortalecimento do que mais tarde se designariam por classes médias.

A arquitectura da Rua Nova da Trindade Os prédios erguidos no loteamento resultante da demolição da igreja e convento da Trindade manifestam o que, por diversas vezes já designei, por um ‘arquitectura corrente’ ou ‘arquitectura sem arquitecto’, dinamizada pelos próprios encomendantes e por mestres pedreiros que detinham o saber integral dos processos construtivos e decorativos, longamente cimentados por uma aprendizagem que começava na infância e era controlada, em faseamentos e especialidades bastante rígidas, senão já por corporações profissionais, pelo menos pelos mais velhos. Oitenta anos depois do Terramoto de 1755, e no momento charneira em que a Câmara readquire as competências da edificação na cidade – que o Marquês de Pombal lhe retirara no início da reconstrução, concentrando-as na Junta de Obras Públicas de Lisboa – continuava-se a referir «o Prospecto do Novo Plano da Cidade», ou seja o pombalino, embora o novel «Arquitecto da Cidade», Malaquias Ferreira Leal considere que esse prospecto «se acha alterado em cuazi todas as ruas da Capital»15. Estas alterações manifestam-se em diversos aspectos: um enfraquecimento dos princípios compositivos, internos e externos, quer em termos do controle dos materiais de construção, quer, sobretudo, do conhecimento do desenho erudito de referência à tratadística italiana e francesa; uma preocupação, muito epocal, pela ornamentação da fachada principal que tende a optar pelo gosto eclético de misturar referentes académicos com modas recentes. Para exemplificar estas alterações em curso, vale a pena

Loteamento do ex-convento. ANTT/AHMR Cx 5270, IV/c/114 (18), rep. In G.Matos Sequeira, op. cit., vol. III, extra-texto, pp 220.


referir as observações do já mencionado «Arquitecto da Cidade», Malaquias Ferreira Leal, num parecer datado de 1839 que considerei referir-se ao nº 18 da Rua Nova da Trindade. Afirmava ele que o prospecto lhe parecia "bastante confuso", "pela sua Compozição de cimilhança de gosto antigo, medio, e moderno", "sem por isso deixar de formar uma armonia agradavel" (…) ; por isso, era de opinião que "o todo, inda que extravagante" se podia considerar "com tudo melhor que o Geral" e, por isso "que pode merecer a approvação"16. Sem certeza absoluta, e olhando para a fachada do referido prédio, admiti que ‘a composição (…) de gosto antigo, médio e moderno’ tivesse como razão de ser, tão somente, as molduras de sugestão ogival dos vãos do andar nobre! Deverá ter sido uma das primeiras vezes que tal acontece mas este «aformoseamento», para usar uma designação epocal, tornar-se-á moda até ao final do século, numa adesão superficial ao culto da arquitectura medieval que está então a generalizar-se, em diversas cambiantes, animadas quer pela atenção aos «monumentos pátrios» mais amados (Batalha e Jerónimos),

Rua da Trindade, nº 16, 1834-36, residência própria de Manuel Moreira Garcia

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quer pelo início da edificação do Palácio da Pena, por iniciativa do rei D. Fernando II, a primeira e a mais importante peça da arquitectura romântica portuguesa. Pela investigação realizada, no âmbito da minha tese de doutoramento que aqui estou a utilizar, é possível admitir que a edificação do conjunto predial da Rua Nova da Trindade, iniciado logo após a demolição (eventualmente mesmo antes de ela estar concluída) tenha conhecido duas épocas: a primeira nesses anos posteriores a 1834, e uma segunda na década de 1860, cuja principal marca será a utilização de azulejos para a cobertura das fachadas que se inicia, em Lisboa, no final da década de 1840, mas só então se divulga amplamente. Para a fachada do nº 20, Moreira Garcia utilizou restos dos azulejos do demolido convento, em composições incertas, verdadeiro patchwork ingenuísta; pelo contrário, no nº 16, onde ele residia, a cobertura é feita num típico padrão já estandardizado, muito comum na ampla produção das fábricas lisboetas. Mas o caso mais notável é o nº 30 da Rua da Trindade que, datado de 1864, ocupa, sensivelmente o lugar da demolida igreja conventual (a edificada depois do Terramoto) onde o carácter não erudito da arquitectura da fachada (no entanto, possuindo uma muito bem conseguida proporcionalidade, ritmo e métrica) é transfigurado pela qualidade e originalidade da sua cobertura azulejar. O seu autor é Luís Ferreira, o ‘Ferreira das Tabuletas’ como é conhecido, então director artístico da Fábrica Viúva Lamego. Sem dúvida que, entre ele e Moreira Garcia, se estabeleceu uma cumplicidade eficaz que se exprime igualmente da decoração afresco do interior de algumas salas da casa própria do encomendador e no jardim que se abria nas traseiras, bem como, com uma dimensão pública considerável, nos azulejos da Cervejaria Trindade, inaugurada também nesses anos e parcialmente instalada no antigo refeitório conventual. Seriam ambos maçons e orgulhosos cidadãos de proveniência modesta que acreditavam numa nova era, mais justa e mais progressista que a passada quando os direitos de cada um eram abafados pela jurisdição da Sociedade de Ordens e por um catolicismo fradesco que, achavam eles, estava ao serviço dessa mesma sociedade pesadamente hierarquizada. Interessa saber mais sobre o Manuel Moreira Garcia, de origem galega, que adoptou como espécie de brasão, aposto na porta de entrada de todos os prédios que edificou na Trindade, um círculo com dois leões afrontados. Reivindicava uma estirpe nova, manifesta também na estrela de cinco pontas ou na representação, nos azulejos historiados da fachada do prédio da Rua da Trindade, dos símbolos do zodíaco (Ar, Terra, Água, Fogo) e pela Indústria, Comércio, Ciência e Agricultura, pondo as iconografias académicas ao serviço de ideais de uma nova civilidade. O novo sítio lisboeta, próximo do Chiado e articulando-se com o Bairro Alto, só ficaria completo em 1867 (mais de trinta anos depois da demolição do Convento) quando foi inaugurado o Teatro da Trindade, resultado da iniciativa de ’uma sociedade de accionistas’, de que o principal promotor era Francisco Palha de Faria Lacerda com projecto de arquitectura do arquitecto Miguel Evaristo


de Lima Pinto, influenciado pelo recém-inaugurado Téàtre du Chatelet, em Paris, de Gabriel Davioud17. O novo equipamento, com comodidades inéditas e uma pluralidade de funções (restaurante, salão de festas, sala de jogos, além naturalmente do teatro) vinha definitivamente ocupar ‘as ruínas do palácio do Conde de Alva que ali se mantinham desde o Terramoto’18.

Rua nova da Trindade, nº 18

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Epílogo provisório Não está terminada a investigação sobre as razões da demolição do velho Convento da Trindade. Mas, como bem percebeu Gustavo Matos Sequeira que, pela primeira vez, valorizou Manuel Moreira Garcia, é possível que ele tenha sido sacrificado no altar dos novos interesses materiais que tanto escandalizavam Alexandre Herculano. Que o lugar da nova Igreja tenha dado lugar a um prédio cujos azulejos da fachada ligam as forças económicas com os elementos constitutivos da Terra, ou que, na memória do refeitório dos frades, se tenha aberto uma cervejaria moderna, ou, finalmente, em vez dos restos informes de um palácio ante-terramoto, tenha surgido um dos teatros que era, simultaneamente, um projecto cultural… são factos mas que se esclarecem em razões de ser mais fundas onde as transposições simbólicas da cidade nascem. Os contemporâneos, que tinham vivido a guerra civil e aspiravam agora ao desenvolvimento europeu, bem deviam sentir que Lisboa, sem os conventos, era a mesma , no entanto, radicalmente outra.


Bibliografia CARNEIRO, Luís Soares (2003) - Teatros Portugueses de Raiz Italiana, Porto, Faculdade de Arquitectura da Universidade d Porto. Tese de doutoramento. PEREIRA, Luís Gonzaga Pereira (1927) - Monumentos sacros de Lisboa em 1833. Lisboa: Biblioteca Nacional. SEQUEIRA, Gustavo Matos Sequeira (1967) - O Carmo e a Trindade. Subsídios para a História de Lisboa, 3 vol.s. Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa. SILVA, António Martins da (1933) - ‘A desamortização’ História de Portugal (dir. José Mattoso). 5º vol – O Liberalismo (1807-1890) Círculo de Leitores, pp 339 e seguintes. SILVA, Raquel Henriques da (1998) - Lisboa romântica. Urbanismo e arquitectura, 1777-1874. Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tese de Doutoramento.

Rua da Trindade, nº 30

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Notas 1 Ver Luís Espinha da Silveira ‘A venda dos bens nacionais (188443): uma primeira abordagem’ in Análise Social, vol. XVI (61-62), 1980, pp 87-110; António Martins da Silva, ‘A desamortização’ História de Portugal (dir. José Mattoso). 5º vol – O Liberalismo (1807-1890) Círculo de Leitores, 1993, pp 339 e seguintes. 2 Raquel Henriques da Silva, Lisboa romântica. Urbanismo e arquitectura, 1777-1874. Lisboa, 1998 (Tese de Doutoramento em História, Especialidade História da Arte apresentada à FCSH da UNL, policopiado) ,pp 239-287. Este trabalho, que contém investigação original, é devedor de uma larga bibliografia que não posso aqui referenciar na íntegra simbolizo em Luís Gonzaga Pereira, Monumentos sacros de Lisboa em 1833. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1927. Refira-se que, nos últimos anos, o tema da extinção dos conventos para a história das cidades tem vindo a ser abordado em diversos trabalhos. Na impossibilidade de registar todos, refiro: Ana Cristina da Cunha Pereira, Os Conventos do Porto: descontinuidade, transformação e reutilização. Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Arquitectura, 2007. Dissertação de mestrado; Ana Catarina Graça de Almeida Marado, Patrimonio conventual y periferia. La salvaguardia de los antiguos espacios conventuales del Algarve. Sevilla: Universidad de Sevilla. Departamento de Urbanística y Ordenación del Territorio, 2007. Tese de doutoramento.


3 Iniciou-se em Maio de 2013, o projecto de investigação, financiado pela FCT, por mim coordenado, com parcerias com a Torre do Rombo e a Câmara Municipal de Lisboa, designado ‘LX- Conventos, Da cidade sacra à cidade laica. A extinção das ordens religiosas e as dinâmicas de transformação urbana na Lisboa do século XIX’ (PTDC/CPC-HAT/4703/2012).

10 Ver Arquivo Nacional da Torre do Tombo, AHMF Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, Cx. 2232.

4 Raquel Henriques da Silva, op. cit., vol. I, pp 249.

13 In Arquivo Nacional da Torre do Tombo, AHMF - Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, Cx. 2232, pp. 157.

5 Idem, ibedem, pp. 260 e seguintes. É de referir especialmente a importância de Mousinho de Albuquerque, numa comunicação a Francisco Trigoso de Aragão Morato, infomando que a Rainha encarregara-o de ‘convidar a Academia das Ciências de Lisboa a formar uma relação de todos os edifícios pertencentes às extintas ordens regulares (…) que se fazem notáveis pela época da sua fundação, factos históricos, monumentos fúnebres ou relíquias de homens célebres ou finalmente pela sua arquitectura e por qualquer desses motivos se tornem dignos de ser conservados como monumentos públicos (…)’. Ver, para desenvolvimento desta patrimonialização: Paulo Alexandre Rodrigues Simões Rodrigues, Património, identidade e História. O valor e o significado dos monumentos nacionais no Portugal de Oitocentos. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1998; Lúcia Maria Cardoso Rosas – Monumentos Pátrios. A arquitectura religiosa medieval – património e restauro (1835-1928). Dissertação de Doutoramento em História da Arte, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1995. 6 Ver António Martins da Silva, op. cit., pp 343. Apesar dos compromissos diversas vezes assumidos, de que o autor aqui dá conta, também 121 ele refere o seu terrível incumprimento. Para evocar as consequências dramáticas, que se estendem aos conventos femininos que foram poupados, enquanto as freiras fossem vivas, cita uma carta escrita por Alexandre Herculano, em 1853: «Meu amigo. Escrevo-lhe do fundo do estreito vale do Lorvão, defronte do mosteiro onde repousam as filhas de Sancho I (…). Morrem aqui lentamente umas poucas de mulheres, fechadas numa tumba de pedra e ferro (…) Gemidos, brados, prantos, nada disso chega aos ouvidos dos homens que exercem o poder nesta terra; nada disso os incomoda. Entretanto, se eu falasse com eles, dar-lhes-ia um conselho (…). Era que enviassem aqui sessenta soldados, formarem as monjas de Lorvão em linha no adro da igreja e mandaremlhes dar três descargas cerradas (…). Corria o sangue durante alguns minutos: não corria o suor da agonia durante anos». 7 Almeida Garrett, Viagens na minha Terra. Lisboa, Typ. da Gazeta dos Tribunaes, 1846. http://purl.pt/55/2/l-89149-p/l89149-p_item2/l-89149-p_PDF/l-89149-p_PDF_24-C-R0150/l89149-p_0000_1-312_t24-C-R0150.pdf, pp 126-127. 8 Alexandre Herculano, “Os Monumentos” in O Panorama, 1837. Republicado in Opúsculos, tomo II, Lisboa:Bertrand,1873,http://purl.pt/718/3/p-5638-p/p5638-p_item3/p-5638-p_PDF/p-5638-p_PDF_24-C-R0090/p5638-p_0000_rosto-341_t24-C-R0090.pdf, p. 16. 9 A par da documentação original, a fonte essencial para a história do Convento da Trindade e a sua ligação com a cidade, continua a ser a de Gustavo Matos Sequeira, O Carmo e a Trindade. Subsídios para a História de Lisboa, 3 vol.s. Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1919-1967.

11 In Raquel Henriques da Silva, op. cit., 1º vol., pp 258-259. 12 In Raquel Henriques da Silva, op. cit., 2º vol. Figuras 101.1, 101.2, 101.5.

14 A própria Câmara, orgulhosa da recuperação das suas competências urbanísticas, declarava, em 1835, «que todo aquele cidadão que se lembrar da abertura de alguma nova rua ou de qualquer estabelecimento útil ao publico para que possa servir algum dos prédios incorporados nos bens nacionais o participe afim de se darem as possiveis previdências» in, Raquel Henriques da Silva, op. cit., pp. 279 15 Ver origem das citações e desenvolvimento desta análise em Raquel Henriques da Silva, op. cit., 1º vol., pp. 369. 16 Idem, ibidem. 17 Ver o estudo qualificadíssimo de Luís Soares Carneiro, ‘Modelos e réplicas. A arquitectura os teatros históricos portugueses’, in http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/10179. pdf, que retoma temas abordados na sua tese de doutoramento, Teatros Portugueses de Raiz Italiana, Porto, Faculdade de Arquitectura da Universidade d Porto, 2003. 18 In Raquel Henriques da Silva, op. cit., 1º vol., pp. 467.


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