Revista A Bordo - Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho 17ª Edição

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Fundação Mamíferos Aquáticos

EDIÇÃO 17

Parceria:

R E V I S TA

A BORDO PROJETO VIVA O PEIXE-BOI-MARINHO

Instituições e comunidades se unem para reflorestar área desmatada na Paraíba FOTO ALINE RAMOS ACERVO FMA

Pesquisas sobre peixe-boimarinho desenvolvidas na Paraíba são publicadas em revistas científicas internacionais

Comunidades litorâneas da PB e SE participam de capacitação para colaborar com a conservação do peixeboi-marinho no Nordeste do Brasil

“Astro” é atração do turismo no litoral sul de SE e norte da BA, mas especialistas alertam para a importância da responsabilidade socioambiental


FOTO LUCIANO CANDISANI ACERVO FMA

Investindo esforços em prol da conservação do peixe-boi-marinho no Brasil.


EDIÇÃO 17 MAIO/2022

Esta revista é uma produção integrada ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba.


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CAPA Pesquisadores, instituições e comunidades se unem para reflorestar área desmatada no litoral norte da Paraíba

ESPECIAL

10 Pesquisas sobre peixe-boi-marinho realizadas na

COLUNA CIENTÍFICA

26 Avaliação do impacto do derramamento de óleo nos peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus), ecossistemas costeiros e as implicações na saúde pública”, por Allan Oliveira

PESQUISA

28 “Área de vida de peixes-bois-marinhos

Paraíba são destaques em revistas científicas internacionais

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

14 Carnaval das Crianças movimenta a comunidade

(Trichechus manatus) soltos no Brasil”, por Sebastião Silva

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FOTO REFLEXÃO

da Barra de Mamanguape, na Paraíba, e o povoado de Coqueiro, na Bahia CONSERVAÇÃO MARINHA

16 Comunidades litorâneas da PB e de SE participam de capacitação para colaborar com a conservação do peixe-boi-marinho

TURISMO

20 Peixe-boi-marinho “Astro” é atração do turismo

FMA

34 Crianças do povoado de Coqueiro, no litoral norte da Bahia, ganham biblioteca reformada

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GPS

no litoral sul de Sergipe e norte da Bahia

DIÁRIO DE BORDO

24 Por Aline Ramos

REVISTA A BORDO

Jornalista responsável Karlilian Magalhães Design gráfico Giovanna Monteiro Revisão técnica João Carlos Gomes Borges TAMBÉM COLABORARAM PARA ESTA EDIÇÃO:

Coluna Científica Allan Oliveira Diário de Bordo Aline Ramos Pesquisa Sebastião Silva

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ILUSTRAÇÃO

39 Por Jacqueline Costa


EDITORIAL

FOTO KARLILIAN MAGALHÃES ACERVO FMA

A Revista A Bordo é o periódico de comunicação e informação científica do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho – realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a PETROBRAS por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O objetivo desta publicação quadrimestral é levar informação e sensibilizar os leitores sobre a importância de se conservar os mamíferos aquáticos, seus habitats e o meio ambiente. Na sua 17ª edição, a Revista traz como matéria de capa uma ação grandiosa que está acontecendo no litoral norte da Paraíba: o reflorestamento de uma área desmatada. A Revista traz também um destaque especial para as pesquisas sobre peixes-bois-marinhos produzidas na Paraíba que foram publicadas em revistas científicas internacionais. Nesta edição você confere também as ações de educação ambiental que estão acontecendo nos estados de Sergipe, Paraíba e Bahia. E tem uma matéria sobre o curso de capacitação de colaboradores que atuarão em prol da conservação do peixe-boi-marinho no Nordeste do Brasil. Veja também como foi o carnaval peixe-boi das crianças na Barra de Mamanguape e no povoado de Coqueiro. E mais: o peixe-boi reintroduzido “Astro” tem sido uma atração do turismo no litoral sul de Sergipe e norte da Bahia, mas especialistas alertam que este turismo deve ser sustentável e em prol da conservação da espécie. Confira também nesta edição: Crianças do povoado de Coqueiro, no litoral norte da Bahia, ganham biblioteca reformada. Na Coluna Científica, o biólogo Allan Oliveira, técnico ambiental do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, mestrando do Programa de Ecologia e Monitoramento Ambiental da UFPB, compartilha informações relativas a um estudo sobre a avaliação do impacto do derramamento de óleo nos peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus), ecossistemas costeiros e as implicações na saúde pública. A seção Pesquisa traz o artigo “Área de vida de peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus) soltos no Brasil”, do ecólogo Sebastião Silva, mestre em Ecologia e Monitoramento Ambiental pela UFPB. Quem assina a coluna Diário de Bordo desta edição é Aline Ramos, médica veterinária do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho. A Revista também traz uma série ilustrativa sobre a maternidade do peixe-boi-marinho com a arte de Jacqueline Costa. Tem também as indicações de filmes e a agenda de eventos científicos previstos para 2022 nas áreas de Biologia, Medicina Veterinária, Ecologia, Meio Ambiente e afins. Boa leitura! Karlilian Magalhães, assessora de comunicação do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho.

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CAPA

Pesquisadores, instituições e comunidades se unem para reflorestar área desmatada no litoral norte da Paraíba FOTOS ALINE RAMOS ACERVO FMA

“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Esse trecho da música de Raul Seixas diz muito sobre algo grandioso que está acontecendo no litoral norte da Paraíba. As equipes do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental – e da Área de Proteção Ambiental da Barra do Rio Mamanguape deram início a uma missão mais do que especial: a atividade de recuperação de áreas degradadas na região. Com a ajuda da comunidade, as equipes estão reflorestando o entorno do Riacho Manimbu, na localidade de Tavares. Estão sendo plantadas mudas de espécies nativas do bioma da Mata Atlântica. Trata-se de uma área que foi desmatada e que por muito tempo serviu de pasto para o gado e de plantação de cana de açúcar. Hoje o riacho está assoreado em diversos trechos e o lugar já não apresenta o escoamento de água como acontecia tempos atrás, permanecendo alagado, devido à descaracterização da cobertura vegetal, onde o capim limita o curso d’água até o riacho. Thalma Grisi, analista ambiental da APA da Barra do Rio Mamanguape, conta que

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iniciou os estudos do riacho Manimbu com o mapeamento das microbacias da região, numa parceria com a Universidade Federal da Paraíba, e que a recuperação de áreas degradadas está prevista no plano de manejo da unidade. “Neste momento estamos iniciando o reflorestamento do riacho Manimbu e adjacências em parceria com a Fundação Mamíferos Aquáticos. Esperamos que este trabalho seja o primeiro de muitos e que possamos continuar a recuperação de áreas degradadas das microbacias do interior da APA da Barra do Rio Mamanguape e do seu entorno imediato”, afirma a analista. “Com a preparação da área, considerando a abertura de canais que favorecem o escoamento do excesso de água no solo, já se tornou possível iniciar o plantio de mudas nativas da Mata Atlântica. A partir do desenvolvimento destas mudas e a possível recuperação da Mata Atlântica que havia no local, acredita-se que a região terá uma drenagem e um escoamento natural do fluxo d’água, que ajudarão a gerar um volume hídrico maior e recuperar o curso do riacho”, explica o pesquisador João Carlos Gomes Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho e diretor de Pesquisa e Manejo da


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FOTO BRUNO J. ALMEIDA ACERVO FMA

Fundação Mamíferos Aquáticos. Além disso, o coordenador argumenta que o reflorestamento contribuirá com o microclima local, com a recuperação de fauna e flora e com o enfrentamento aos efeitos do aquecimento global e mudanças climáticas, a partir da dinâmica de consumo de CO2 e geração de oxigênio das árvores que colaborará mundialmente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. A conservação do peixe-boi-marinho está diretamente relacionada à conservação de seu habitat, composto por regiões de manguezais, estuários, mar, praias, matas ciliares e, sim, a Mata Atlântica. Na natureza, tudo está conectado: um depende do outro. O fato é que é preciso proteger e cuidar dessas áreas. Essas pessoas estão trabalhando para tornar o mundo um lugar melhor para viver e estão ensinando que isso é um sonho possível e que a união

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realmente faz a força e é fundamental para colocar o sonho em prática. A pedagoga Kátia Geraldo mora na comunidade de Tavares há mais de 30 anos e quando criança chegou a ver a área com muitas árvores. “Com o passar do tempo, o desmatamento aumentou, as próprias pessoas da comunidade começaram a desmatar, a gente viu uma grande decadência na área de mata. Eu fui agente ambiental do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho em 2013, fiz até um projeto na época pensando na área, nasceu o meu interesse de novamente replantar e hoje eu estou vendo uma nova oportunidade desta área poder se recuperar do dano que foi causado a ela. Eu fico muito feliz por isso, por poder participar também. É um sonho ver isso aqui de novo do jeito que era, eu sei que vai levar um pouco de tempo para isso, mas já é um avanço a gente ver florescer de novo, é muito importante pra


mim, eu gosto muito disso, amo o meio ambiente e fico feliz por poder fazer parte do reflorestamento dessa área”, conta Kátia. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho - realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção desta espécie no Nordeste do Brasil. Atua nas áreas de pesquisa, tecnologia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas. Conta com o apoio da APA da Barra do Rio Mamanguape, ARIE Manguezais da Foz do Rio Mamanguape, CEPENE/ICMBio e do Programa de Pós-Graduação em Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba.

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ESPECIAL

FOTO SARAH KATHER ACERVO FMA

Pesquisas sobre peixes-bois-marinhos desenvolvidas na Paraíba são publicadas em revistas científicas internacionais Os estudos, importantes para a conservação da espécie no Brasil, abordam desde a área de vida dos animais soltos no país até a relação de eventos de encalhes de filhotes com a perda de manguezais ao longo dos anos

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O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental – possui uma base executora na Área de Proteção Ambiental da Barra do Rio Mamanguape, no litoral norte da Paraíba, onde desenvolve pesquisas em prol da conservação da espécie e de seu habitat no Nordeste do Brasil. Para tanto, conta com o apoio da APA e do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba (PPGEMA-UFPB). Recentemente, dois estudos de mestrado desenvolvidos por pesquisadores do Projeto, os ecólogos Sebastião Silva e Iara Medeiros, foram publicados em revistas científicas conceituadas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. As pesquisas abordam desde a área de vida dos peixes-bois soltos no Brasil até a relação de eventos de encalhes de filhotes com a perda de manguezais ao longo dos anos. O artigo “Home ranges of released West Indian manatees Trichechus manatus in Brazil “, elaborado por Sebastião Silva, ecólogo do Projeto Viva o PeixeBoi-Marinho, durante a sua pesquisa de mestrado no PPGEMA-UFPB , foi publicado na Oryx - The International Journal of Conservation, revista científica que apresenta temas sobre conservação da biodiversidade, política de conservação e uso sustentável, e a interação desses assuntos com questões sociais, econômicas e políticas. No artigo, o pesquisador, que contou com a orientação do Prof. Dr. João Carlos Gomes Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho e diretor de Pesquisa e Manejo da Fundação Mamíferos Aquáticos, aborda a área de vida dos peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus) soltos no Brasil. A publicação está disponível online no site da revista: https://www.cambridge.org/ core/journals/oryx/article/home-ranges-of-released -west-indian-manatees-trichechus-manatus-in-brazil/ ACB949E23C9DF4F37184FCD97EA51F6F

Brazil”, desenvolvido pela ecóloga paraibana Iara Medeiros durante atuação no Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho e mestrado no PPGEMA-UFPB, foi publicado no Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, outra revista científica pertencente à Universidade de Cambridge e considerada de alto impacto na área de Biologia Marinha. No artigo, a pesquisadora, que contou com a orientação do Prof. Dr. João Carlos Gomes Borges e a coorientação da Profa. Dra. Nadjacléia Vilar Almeida, aborda a dinâmica espaço temporal dos bosques de mangues e sua relação com as ocorrências de encalhes de filhotes de peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus) na Paraíba. A publicação está disponível online no site da revista: https://www. cambridge.org/core/journals/journal-of-the-marine-biological-association-of-the-united-kingdom/ article/abs/spatiotemporal-dynamics-of-mangroveforest-and-association-with-strandings-of-antillean-manatee-trichechus-manatus-calves-in-paraiba -brazil/2573DAC67224556B101C80A9F810BEF8 O coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, o médico veterinário e pesquisador João Carlos Gomes Borges, explica que a pesquisa desenvolvida por Sebastião permitiu identificar as principais áreas de uso dos peixes-bois soltos no estado da Paraíba e dos que utilizam o litoral de Sergipe e Bahia, e, dentro dessas áreas de vida desses animais, foi possível também constatar os “sítios de fidelidade”, que seriam aquelas principais localidades utilizadas por estes animais em uma determinada escala de tempo. “O estudo possibilitou ainda compreender quais fatores ecológicos que de alguma maneira estavam favorecendo a utilização de determinadas áreas por esses animais, seja a disponibilidade de recursos alimentares, suprimento de água doce, alguns locais que reuniam ambientes propícios para o repouso desses animais, entre outros fatores ecológicos que pudessem proporcionar a escolha dessas áreas”, comenta o pesquisador.

Já o artigo “Spatiotemporal dynamics of mangrove forest and association with strandings of Antillean manatee (Trichechus manatus) calves in Paraíba,

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Já o trabalho desenvolvido por Iara Medeiros foi importante para avaliar uma das hipóteses que tem sido levantada ao longo do tempo que estabelece uma relação entre o aumento do número de encalhes de filhotes em consequência da perda dos ambientes estuarinos especialmente dos manguezais. Para testar esta hipótese, foi estabelecida uma série temporal e, a partir de técnicas geoespaciais, foi feita uma análise de quais coberturas de manguezais existiam no passado nessa faixa do litoral da Paraíba e como elas foram se comportando, representando em termos de distribuição, ao longo dos anos, com algumas perdas e em alguns locais até com alguns danos. E, paralelamente a isso, foram avaliados todos os encalhes que aconteceram no litoral da Paraíba nessa mesma escala temporal, e até foi de fato possível constatar que no transcorrer do tempo quanto maior a perda desses ambientes de manguezais, maior foi acontecendo o número de encalhes de filhotes. “Esses achados são de extrema importância para primeiro constatarmos que nos locais que as unidades de conservação foram criadas, que de algum modo reforçaram a proteção desses ambientes estuarinos e a integridade desses recursos permaneceu maior em detrimento àqueles fragmentos de manguezais em que, ainda que protegidos por leis,

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O coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho comenta a importância das pesquisas serem publicadas revistas científicas internacionais: “Por meio dessas revistas, de ampla circulação internacional, conseguimos compartilhar o conhecimento que adquirimos com diversos pesquisadores e demais públicos de interesse, possibilitando que estudos da mesma natureza possam ser replicados em outras localidades ou ainda permitindo que os resultados que encontramos nos locais que desenvolvemos as pesquisas possam ser comparados com pesquisas realizadas em outras áreas. Outro aspecto importante é reconhecer que estas revistas, compostas por revisores independentes e de elevado conhecimento científico, ao aceitarem a publicação destes trabalhos, reconhecem o valor científico das atividades desenvolvidas”. João Carlos acrescenta ainda que os artigos permitem, em território nacional ou nos recortes regionais onde as pesquisas ocorreram, que os gestores públicos possam incorporar as recomendações apontadas nos estudos nas estratégias de gestão para a conservação, seja para a espécie ou ambientes abordados nos trabalhos. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho - realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção desta espécie no Nordeste do Brasil. Atua nas áreas de pesquisa, tecnologia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas. Conta com o apoio da APA da Barra do Rio Mamanguape, Arie Manguezais da Foz do Rio Mamanguape, CEPENE/ICMBio e do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba.

FOTO EDSON ACIOLI ACERVO FMA

não estão assegurados por unidades de conservação. Outro aspecto muito importante do trabalho foi gerar subsídios e condições para que essas medidas de proteção a esses recursos florestais pudessem de fato ser assegurados, porque, quando não, além de outros impactos sociais e ambientais que representam, traz uma implicação direta, como constatado do estudo, em função do aumento do número de encalhes dos filhotes”, ressalta João Carlos Gomes.

FOTO KARLILIAN MAGALHÃES ACERVO FMA

Outro aspecto muito importante do trabalho foi identificar, dentro dessas áreas utilizadas pelos animais, quais eram os fatores de ameaça que de alguma maneira restringiam o acesso dos animais para algumas localidades ou ainda, quando estavam nessas áreas, quais fatores de pressão esses animais eram submetidos, como a presença de embarcações, poluição, entre outros. “E todas essas informações obtidas no estudo foram extremamente importantes não somente para ampliar o conhecimento ecológico dos fatores de ameaça acerca da espécie como também gerar condições e informações relevantes para propor aos órgãos de gestão estratégias mais efetivas que possam assegurar a conservação dos peixes-bois ao longo do tempo, como por exemplo a proposição de corredores de navegação náutica que de alguma maneira não se sobrepunham as principais áreas utilizadas por estes animais e, desse modo, poder minimizar os fatores relacionados ao impacto dessas atividades humanas à espécie, como por exemplo atropelamento de embarcações entre outros fatores relacionados”.


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EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Carnaval das Crianças movimenta a comunidade da Barra de Mamanguape, na Paraíba, e o povoado de Coqueiro, na Bahia Diante de uma pandemia e da tensão de uma guerra no outro lado do mundo, o feriado de carnaval no Brasil foi bem diferente este ano. Mas para não passar despercebido e manter o espírito do carnaval (que é cultural no Nordeste) vivo nas crianças, o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho organizou uma festa brincante, com uma programação lúdica e cultural pensada para o público infantil das comunidades onde possui bases estratégicas voltadas para a conservação da espécie. E tudo pensado respeitando os protocolos de segurança para a saúde.

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FOTOS ACERVO FMA

Na Barra de Mamanguape, litoral norte da Paraíba, a festa aconteceu pela manhã, das 8h às 10h, e teve oficina de máscara carnavalesca, oficina de pintura em papel, apresentação do Coco de Roda da Barra, Bloco do Urso Branco e o cortejo do Bloco Infantil do Peixe-Boi pelas ruas na comunidade. Os pequenos estavam bastante animados e envolvidos com toda a produção. Já no povoado de Coqueiro, no litoral norte da Bahia, as crianças, que estavam todas fantasiadas, tiveram uma tarde carnavalesca com brincadeiras lúdicas e sessão especial do Cine Peixe-Boi. Um dia colorido de amor, alegria e espírito brincante. As crianças sempre ensinam os melhores caminhos.

gia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas. Possui uma base executora na Área de Proteção Ambiental da Barra do Rio Mamanguape (no litoral norte da Paraíba) e também unidades de apoio nos estados de Pernambuco (Recife), Sergipe (Aracaju) e Bahia (Jandaíra). Conta como apoio da APA da Barra do Rio Mamanguape, Arie Manguezais da Foz do Rio Mamanguape, Cepene/ ICMBio e Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba. Para acompanhar as ações e atividades do Projeto, acesse: www.vivaopeixeboimarinho.org e @vivaopeixeboimarinho (fanpage e instagram).

O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela ONG Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental – é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção da espécie no Nordeste do Brasil. Atua nas áreas de pesquisa, tecnolo-

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CONSERVAÇÃO MARINHA

Comunidades litorâneas da Paraíba e de Sergipe participam de capacitação para colaborar com a conservação do peixe-boi-marinho no Nordeste do Brasil FOTOS ACERVO FMA

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O peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) é um mamífero aquático que está em perigo de extinção no Brasil. E isto muito se deve aos impactos ambientais causados pelos seres humanos. Para tentar reverter esta situação, o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental - vem trabalhando estratégias para mobilizar e engajar a sociedade em prol da conservação da espécie e de seus habitats, estimulando atores sociais de comunidades litorâneas a participarem de uma rede de colaboradores na região Nordeste do Brasil. Neste contexto, o Projeto iniciou no mês de fevereiro o circuito itinerante do Curso de Formação de Agentes Colaboradores do Peixe-Boi-Marinho pelas localidades onde monitora animais reintroduzidos. A ideia é capacitar pescadores, bombeiros, polícia ambiental, estudantes e profissionais atuantes na área de meio ambiente, entre outros potenciais colaboradores para que eles possam contribuir mais ativamente na conservação do peixe-boi-marinho no litoral nordestino. No dia

16/02, o curso foi realizado em Pirambu (SE) para pescadores e agentes e funcionários da Secretaria de Meio Ambiente do município, e no dia 19/02, o curso aconteceu em Cabedelo (PB) para voluntários que atuam na ONG Guajiru. Em cada localidade, o conteúdo é ministrado de forma presencial ou não-presencial (esta última utilizando plataformas de tecnologia de comunicação acessíveis) e aborda as seguintes temáticas: Educação Ambiental, levando em consideração o Manual de Boas Práticas em Interação com Mamíferos Aquáticos (ICMBio/CMA, 2019); Ecologia e áreas de uso dos animais; Impactos e Ameaças ao peixe-boi-marinho; Estratégias de monitoramento, incluindo os equipamentos utilizados com tecnologia satelital; além de atividade de Simulação de Encalhe em ambiente natural. Por meio de uma linguagem simples, estas informações e orientações básicas são compartilhadas para que o colaborador possa ajudar na sensibilização da sociedade e na conservação da espécie e de seu habitat. Os participantes se in-

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teiram sobre a situação atual do peixe-boi-marinho no Brasil, os aspectos biológicos, ecológicos, status de conservação e principais ameaças à espécie, com foco em três problemáticas mais comuns identificadas nas praias do Nordeste: o MOLESTAMENTO (interações intencionais dos seres humanos que colocam em risco a saúde e a permanência do animal na natureza), o ATROPELAMENTO causado por embarcações motorizadas e o ENCALHE de filhotes. Os colaboradores receberam orientações básicas para serem transmitidas à sociedade sobre como proceder caso alguém encontre um peixe-boi-marinho nas praias, estuários, mar, manguezais e também sobre o que fazer diante de um caso de encalhe. “O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho e a Fundação Mamíferos Aquáticos estão desenvolvendo um excelente trabalho de educação ambiental e ampliando a rede de proteção e conservação do Peixe-BoiMarinho. Adoramos o curso e a transmissão do conhecimento. Podem contar com a nossa parceria e estamos à disposição. Parabéns a todos”, comentou Fabrício Muniz, secretário de Meio Ambiente de Pirambu que participou do curso. E a orientação sempre reforçada pela equipe do Projeto é que caso alguém encontre um peixe-boimarinho, o melhor a fazer é manter distância, respeitando a área de uso do animal, e apenas admirá-lo de longe. Não se deve tocar, nem alimentar e nem fornecer bebida aos animais. Se o peixe-boi estiver em perigo, machucado ou encalhado, a orientação é para entrar em contato com o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho pelos telefones: (83) 99961-1338/ (83) 99961- 1352 (whatsapp) / (79) 99130-0016

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(whatsapp). Para o condutor (a) de embarcações motorizadas (barcos, lanchas, jet skis e afins), a orientação é a seguinte: Antes de acionar o motor, olhe ao redor e verifique se tem peixe-boi-marinho próximo. A hélice em movimento pode machucar e matar o animal. Só ligue o motor se tiver certeza que o animal não está por perto; Se estiver navegando e avistar o animal nas proximidades, reduza a velocidade ou desligue o motor para evitar colisões e atropelamentos. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela ONG Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental – é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção da espécie no Nordeste do Brasil. Atua nas áreas de pesquisa, tecnologia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas. Possui uma base executora na Área de Proteção Ambiental da Barra do Rio Mamanguape (no litoral norte da Paraíba) e também unidades de apoio nos estados de Pernambuco (Recife), Sergipe (Aracaju) e Bahia (Jandaíra). Conta como apoio da APA da Barra do Rio Mamanguape, Arie Manguezais da Foz do Rio Mamanguape, Cepene/ ICMBio e Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba. Para acompanhar as ações e atividades do Projeto, acesse: www.vivaopeixeboimarinho.org e @vivaopeixeboimarinho (fanpage e instagram).


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TURISMO

Peixe-boi-marinho “Astro” é atração do turismo no litoral sul de Sergipe e norte da Bahia Mas especialistas alertam que o turismo precisa ser sustentável em prol da conservação da espécie FOTOS ACERVO FMA

Contemplar a natureza, as paisagens, tomar um banho nas águas quentes e tranquilas do litoral sul de Sergipe e norte da Bahia e ainda ter a sorte de encontrar em ambiente natural “Astro”, o primeiro peixe-boi-marinho reintroduzido no Brasil. De fato, um privilégio e tanto. É importante destacar que os peixes-bois-marinhos já foram considerados extintos do litoral de Sergipe e da Bahia e ter essa espécie frequentando esta região é um verdadeiro presente que merece ser zelado, pois a sua presença, além de contribuir para a manutenção da biodiversidade local, gera também benefícios sociais, culturais e econômicos para as comunidades locais. Mas para que estas belezas naturais, com toda sua riqueza de fauna e flora, continuem existindo, é necessário que o turismo seja feito de forma sustentável em prol da conservação do meio ambiente e das espécies. É o turismo ecológico, de observação, de contemplação. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela

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Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental - monitora peixes-bois reintroduzidos na região e tem recebido alertas preocupantes nas redes sociais sobre passeios que oferecem ao turista a possibilidade de brincar com os peixes-boismarinhos, sobretudo com “Astro”. Nas imagens recebidas pela equipe do Projeto, turistas aparecem tocando no animal e fornecendo bebida. A equipe do Projeto alerta que este tipo de atividade é ilegal e pede que os turistas optem por passeios que respeitem a natureza e não os que ofereçam risco a ela. O peixe-boi-marinho está ameaçado de extinção do Brasil e é protegido pela Lei Federal N° 5.197 de Proteção a Fauna, Decreto N° 6.514, que dispõe sobre as infrações e sanções administrativas ao meio ambiente, bem como outros dispositivos legais. Ao encontrar um peixe-boi-marinho, mesmo


que a pessoa tenha boa intenção, não se deve tocar, nem alimentar e nem fornecer bebida. Caso alguém encontre um peixe-boi-marinho, o melhor a fazer é manter distância, respeitando a área de uso do animal, e apenas admirá-lo de longe. Se o peixe-boi estiver em perigo, machucado ou encalhado, entre em contato com o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho/ Fundação Mamíferos Aquáticos pelos telefones: (79) 99130-0016 / (83) 99961-1338/ (83) 99961- 1352 (whatsapp). “O turismo que colabora com a conservação da espécie é muito bem-vindo, como exemplo destacamos o turismo contemplativo, de observação, que visa a conservação da espécie, o respeito ao animal, ao seu habitat e possibilita a geração de renda para as comunidades litorâneas. Mas tudo isso feito com muita responsabilidade, sem colocar em risco a saúde e a vida do animal. Tocar, fornecer ali-

mento e bebida ao animal não é uma prática legal e foge da proposta de conservação da espécie que está ameaçada de extinção no Brasil”, reforça João Carlos Gomes Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho e diretor de pesquisa e manejo da Fundação Mamíferos Aquáticos. O incentivo a ações de base comunitária voltadas para o desenvolvimento do turismo de observação dos peixes-bois-marinhos faz parte da estratégia de conservação da espécie promovida pelo Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho. O Projeto percebe que, a partir do envolvimento com esta atividade, pescadores e moradores locais tornam-se mais engajados com a estratégia de conservação da espécie e a visita de turistas interessados pelo tema na região possibilita ampliar a sensibilização sobre a importância de se conservar os peixes-bois-marinhos.

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A equipe do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho vem atuando no litoral de Sergipe e norte da Bahia com o monitoramento de “Astro” e de outros peixes-bois reintroduzidos que estão frequentando a região e também com trabalhos de educação ambiental junto à população, incluindo a criação de uma rede de colaboradores locais formada por pescadores, barqueiros, comerciantes, guias de turismo que abraçam a causa e sempre avisam quando o peixe-boi é avistado ou está em situação de perigo. Porém, há casos em que pessoas incluindo profissionais de turismo e turistas recebem as orientações transmitidas tanto pela equipe do Projeto quanto pelos colaboradores, mas, mesmo assim, em algumas situações, continuam estimulando a interação equivocada com os animais. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho pede a colaboração de todos (moradores, guias, donos de pousadas, turistas, pescadores, frequentadores das praias) para seguirem as orientações em prol da conservação do peixe-boi-marinho na região e compartilhá-las também com outras pessoas.

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O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho – realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental – é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção da espécie no Nordeste do Brasil. Atua nas áreas de pesquisa, tecnologia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas. Conta como apoio da APA da Barra do Rio Mamanguape, Arie Manguezais da Foz do Rio Mamanguape, Cepene/ ICMBio e Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba. Para acompanhar as ações e atividades do Projeto, acesse: www.vivaopeixeboimarinho.org e @vivaopeixeboimarinho (fanpage e Instagram).


A Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA) é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que desde 1989 trabalha com a missão promover a conservação dos mamíferos aquáticos e seus habitats, visando a sustentabilidade socioambiental. Atua nacionalmente com atividades que envolvem manejo e pesquisa científica, estudando os efeitos antropogênicos nos recursos marinhos, e com parcerias e ações colaborativas que promovem mudanças socioambientais. Neste contexto, também está inserida no apoio à construção e execução de políticas públicas e marcos regulatórios. Para saber mais, acesse www.mamiferosaquaticos.org.br e @mamiferosaquaticos (Instagram).

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Diário de bordo POR ALINE RAMOS Médica veterinária do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho FOTO ACERVO FMA

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Minha história com os peixes-bois se iniciou em 2011, quando eu tinha 20 anos e fazia faculdade de medicina veterinária no Ceará. Mesmo sendo do Nordeste, nunca tinha visto um peixe-boi-marinho, quando surgiu a oportunidade de estagiar durante sete meses com reabilitação de filhotes de peixe-boi -amazônico, em uma comunidade ribeirinha, no interior do Amazonas. Essa experiência, sem dúvidas, mudou minha vida. O contato diário com os peixes-bois e com a comunidade me fez mudar como pessoa e mudou a perspectiva sobre a minha futura atuação profissional. Ao retornar para o Nordeste, claro que tive grande curiosidade em conhecer os meus conterrâneos, os peixes-bois-marinhos, realizando estágio de um mês com a espécie, oportunidade na qual pude conhecer rapidamente a APA da Barra de Mamanguape (2012). Ao me formar na faculdade, ainda trabalhei em duas instituições com peixe-boi (marinho e amazônico), no Ceará e no Amazonas, respectivamente. E, apesar de amar muito a área, após essas experiências, fiquei afastada dos peixes-bois por um pouco mais de dois anos, atuando durante o mestrado com uma espécie de primata também ameaçado de extinção. Quando estava finalizando a escrita da dissertação, fui surpreendida e contatada pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA) que informou sobre a abertura de uma vaga para veterinária no Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho (PVPBM). Não hesitei e tive interesse em participar da entrevista, pois voltar a trabalhar com essa espécie era algo que eu tanto tinha interesse. Vim morar na Barra de Mamanguape em setembro de 2021, retornando após nove anos que havia conhecido esse local maravilhoso. Agora, desde minha primeira semana aqui, sinto-me literalmente em casa. Além de ser um local belíssimo, ainda muito conservado e tranquilo, também fiquei bastante admirada e motivada ao ver o respeito que a co-

munidade tem com o peixe-boi e o meio ambiente, e a necessidade que eles têm em manter tudo isso conservado. Desde a época de estudante, tenho um forte interesse em atuar no âmbito socioambiental com a conservação de espécies ameaçadas e, dentro da FMA, eu me sinto contemplada. Pois como veterinária do PVPBM, venho podendo realizar diversas atividades interdisciplinares, atuando desde o resgate de mamíferos aquáticos, monitoramento e manejo clínico dos peixes-bois reintroduzidos, participando de atividades de reflorestamento de áreas degradadas, como em ações de caráter social, dando apoio às atividades educativas juntamente com as comunidades locais. Estar aqui na Barra me faz ter a esperança de que esses animais ainda terão muitos outros locais, semelhantes a este, apropriados para viver de forma plena. Aqui, no estuário, temos a oportunidade de avistar fêmeas com filhotes, peixes-bois reintroduzidos em interação com os nativos, animais se alimentando e consumindo água naturalmente. O peixe-boi-marinho para mim é um símbolo de resiliência, pois apesar de tantos fatores que vem ameaçando sua existência, essa é uma espécie que vem resistindo bravamente com seu comportamento tranquilo e carismático. Trabalhar em prol de sua conservação é desafiador e gratificante, e tem me proporcionado diversas experiências incríveis que vão muito além do âmbito profissional, mas que contribuem para meu crescimento pessoal. Durante esses anos, pude conhecer lugares e pessoas maravilhosas e hoje estou grata pelas oportunidades que estou tendo no PVPBM em poder aprender e contribuir para a conservação dos peixes-bois-marinhos e seu habitat.

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COLUNA CIENTÍFICA

AVALIAÇÃO DO IMPACTO DO DERRAMAMENTO DE ÓLEO NOS PEIXES-BOIS-MARINHOS (Trichechus manatus), ECOSSISTEMAS COSTEIROS E AS IMPLICAÇÕES NA SAÚDE PÚBLICA POR ALLAN OLIVEIRA BARRETO CARVALHO Biólogo e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba

Em agosto de 2019, o litoral do Nordeste foi atingido pelo maior desastre ambiental provocado por vazamento de petróleo na história do país (Araújo et al., 2020), que estendeu até a região sudeste, acometendo aproximadamente mais de 400 localidades distribuídas ao longo de cerca de 3.000 Km de costa do litoral brasileiro. Após aproximadamente dois anos dos impactos constatados e reconhecendo a existência de um fluxo natural entre os ecossistemas costeiros que liga os seus nutrientes, sedimentos, poluentes e organismos (Araujo et al., 2020), as incertezas relacionadas acerca da duração dos impactos nas espécies presentes nestas áreas e as implicações em termos de saúde pública permanecem indefinidos. Além dos riscos para as populações humanas, a magnitude destes impactos nas espécies (costeiras e marinhas) e ecossistemas utilizados não foi reportada substancialmente. No transcorrer do período em que o derramamento ainda se encontrava em curso, entre os ecossistemas atingidos foi reportado o acometimento de estuários, manguezais, prados de fanerógamas, recifes de coral, apicuns e praias (Magris e Giarrizzo, 2020). Considerando os processos de bioacumulação nas espécies marinhas acometidas e ainda as evidências do óleo nos ambientes atingidos, torna-se de grande relevância avaliar a extensão e magnitude do impacto na saúde das populações dos organismos aquáticos atingidos, sendo possível por meio do moni-

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toramento de espécies consideradas “sentinelas” da qualidade ambiental. Neste sentido, encontra-se em curso um novo projeto de pesquisa, que apresenta como objetivo geral diagnosticar o impacto do derramamento de óleo nos peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus), ecossistemas costeiros e as implicações em termos de saúde pública. As atividades serão realizadas nos estuários do rio Mamanguape (Paraíba), rio Vaza-Barris (Sergipe) e o complexo estuarino Piauí-Fundo-Real (divisa dos estados de Sergipe e Bahia). Os peixes-bois-marinhos selecionados serão os espécimes reintroduzidos que se encontram nos estuários do rio Mamanguape (Paraíba) e complexo estuarino Piauí-Fundo-Real (divisa dos estados de Sergipe e Bahia) (Lima et al., 2007). Logo após os procedimentos de manejo, o sangue coletado será acondicionado em frascos de vidro estéril, sendo os soros sanguíneos obtidos e congelados a -20 °C até a realização dos exames (testes de genotoxicidade). Neste sentido, nos locais de ocorrência de Trichechus manatus também serão coletadas amostras de sangue e hemolinfa, respectivamente, de dez espécimes de Mugil curema (tainha) e dez espécimes de Anomalocardia brasiliana (marisco), as quais também serão submetidas à avaliação de danos genômicos. A coleta destes espécimes acontecerá nas estações seca e chuvosa, durante dois anos, sendo estes ad-


quiridos diretamente dos pescadores locais, imediatamente após o desembarque. Identificação dos ecossistemas acometidos (manguezais, arrecifes, pradarias de fanerógamas e bancos de macroalgas) Uma maneira prática de medir a recuperação de manguezais atingidos por petróleo é comparar a estrutura vegetal da área impactada com uma área próxima, sem impacto, usando métricas como altura de árvores, densidade de indivíduos (vivos e mortos), biomassa aérea e cobertura do dossel (NOAA, 2014). Para a caracterização e o monitoramento da estrutura da cobertura vegetal será realizado a instalação de, pelo menos, três parcelas fixas (10 x 10 m) distanciadas em 10 metros, entre si, na franja do bosque e três parcelas no interior do bosque (bacia), tanto na área oleada, quanto em área não oleada (controle) (Schaeffer-Novelli et al., 2015; 2017).

garantir a sustentabilidade das observações ao longo do projeto, assegurando as variações sazonais (Copertino et al., 2015). Cada local ou pradaria escolhida será percorrido por três transectos, com 50 metros de comprimento, conforme modelo proposto por Short et al. (2006), considerando: Transecto A (dentro da pradaria, próximo a margem superior); Transecto B (Em região intermediária ou no meio da pradaria, quando possível em área de transição, por exemplo, entre tipos de vegetação, sedimento etc.); Transecto C (dentro da pradaria, próximo ao limite final de distribuição). Todos os transectos deverão ser georreferenciados, nas porções 0 m, 25 m, 50 m (Copertino et al., 2015). As amostragens serão realizadas durante dois anos, em quatro ocasiões distintas, nos meses de janeiro, abril, julho e outubro (Copertino et al., 2015), obtendo informações com distintas condições ambientais.

No tocante as avaliações das formações de arrecifes presentes na Foz do rio Mamanguape (Paraíba) (APA da Barra do Rio Mamanguape), será aplicado a metodologia de campo definido no manual de monitoramento Reef Check Brasil 2018 (MMA, 2018), com adaptações conforme o ecossistema estudado. As áreas serão percorridas em transectos de faixa com 20 metros de comprimento por cinco metros de largura (MMA, 2018). Ao longo dos transectos serão utilizadas trenas de fibra de vidro, sendo estas chumbadas para as aplicações subaquáticas. Durante e após a colocação das trenas deverá ser feita uma revisão de sua disposição para assegurar que não estejam suspensas e muito longe do substrato. Boias sinalizadoras coloridas deverão ser amarradas nos pontos de início e fim dos transectos para facilitar a sua localização durante o mergulho. O início e o final de cada transecto deverão ser georreferenciados. De forma adicional, os locais identificados com a presença de manchas de óleo serão georreferenciados e fotografados. Nas avaliações das pradarias de fanerógamas marinhas e bancos de macroalgas, os esforços de monitoramento contemplarão áreas com distintos gradientes ambientais (praia e estuário), assim como aspectos práticos de acesso e logística, de modo a FOTO ACERVO FMA

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PESQUISA A cada edição, a Revista A Bordo traz artigos e resumos científicos relacionados à conservação dos mamíferos aquáticos e seus habitats. Confira agora um resumo científico elaborado por Sebastião Silva dos Santos, ecólogo, analista de pesquisa e coordenador de monitoramento do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, mestre em Ecologia e Monitoramento Ambiental pela Universidade Federal da Paraíba. no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba.

Área de vida de peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus) soltos no Brasil Autores: Sebastião Silva dos Santos¹ ², Iara dos Santos Medeiros¹ ², Vanessa Araujo Rebelo¹ ², Allan Oliveira Barreto Carvalho¹ ², Jean Paul Dubut³, José Eduardo Mantovani ³, Raphael Dantas Círiaco³, Ryan Emerson Gomes Dos Santos³, Miriam Marmontel , Iran Campello Normande , Thalma Maria Grisi Velôso , João Carlos Gomes Borges¹ ². 1. Fundação Mamíferos Aquáticos – FMA; 2. Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental – PPGEMA; 3. Nortronic – Sistemas Eletrônicos do Nordeste; 4. Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá; 5. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade;

1. INTRODUÇÃO A distribuição dos peixes-bois-marinhos é influenciada por aspectos da sua fisiologia, nutrição, metabolismo (St. Aubin & Lounsbury, 1990), e por fatores físicos e ambientais, tais como salinidade, temperatura, profundidades, correnteza, disponibilidades de recursos alimentares (Lefrebvre et al., 2001) e suprimento de água doce (Favero et al., 2020), assim como a perda de habitats (ICMBio, 2018). Tendo em vista a importância ecológica dos peixes-bois-marinhos (Aquasis, 2016), sua fragilidade e as ameaças às quais estão expostos (Da Silva et al., 2008; Lima et al., 2011), é necessário que haja mais estudos sobre a distribuição desses animais, assim como das características encontradas ao longo da área de vida, ampliando o conhecimento acerca da espécie. Identificar os padrões de utilização do habitat, mapear as áreas e os recursos utilizados com maior frequência, bem como as rotas e os corredores utilizados entre estas áreas, geram subsídios para conservação dos peixes-bois-marinhos, seja por meio da indicação de áreas prioritárias para proteção do habitat ou da proposição de estratégias

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mitigatórias para a redução dos impactos antrópicos identificados. Por este motivo, o presente estudo teve como objetivo identificar a área de vida de peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus) reintroduzidos no Brasil, bem como avaliar a adaptação dos animais reintroduzidos às condições de vida livre. 2. MATERIAIS E MÉTODOS O presente trabalho foi realizado no transcorrer de 2016 a 2019, nos estados da Paraíba, Sergipe e Bahia, região Nordeste do Brasil, sendo realizado o monitoramento de seis animais (sistemas satelitais e VHF). Os espécimes foram submetidos à avaliação clínica, coleta de amostras biológicas (sangue, fezes, urina, secreções oral, nasal, genital e anal), biometria e pesagem (White & Francis-Floyd, 1990). As informações acerca das localizações dos animais (data, hora e coordenadas geográficas) oriundas do sistema satelital foram recebidas diariamente, con-


forme a programação previamente estabelecida (a cada três horas). Essas informações foram disponibilizadas pelo sistema GlobalStar, por meio de e-mail, aplicativo de celular ou a partir da própria plataforma digital do sistema, onde foi possível baixar os dados. As coordenadas das localizações dos animais foram espacializadas por meio de um sistema de informação geográfica (SIG) (QGIS 3.10), possibilitando a identificação das principais áreas de uso de cada animal monitorado, nos períodos seco e chuvoso. Por meio da ferramenta “Home range” no referido programa, foram calculadas as áreas de usos (home range 95%) nos períodos seco (setembro a fevereiro) e chuvoso (março a agosto) (Inmet, 2020). A partir do estimador Kernel foi calculada a área de vida (kernel de 95%) de cada animal monitorado (Normande et al., 2015). As áreas que apresenta-

ram maiores concentrações de coordenadas foram classificadas como sítios de fidelidade (kernel de 50%) (Castelblanco-Martínez et al., 2012), sendo a somatória de todas as coordenadas que compõem esses sítios, igual a 50% do total de localizações para cada peixe-boi-marinho (Normande et al., 2015). 3. RESULTADOS O tamanho das áreas de vida dos peixe-boi-marinho variou de 2,56 km² a 42,07 km², constatando-se que os sítios de fidelidade se localizavam em áreas protegidas (Figuras 1 e 2). A maior distância percorrida pelos animais da linha de costa a montante dos rios utilizados foi de 14,24 km e 0,931 km de afastamento da costa. Os dados de área de vida não foram significativamente diferentes entre os períodos climáticos, mas houve diferença significativa entre os sexos, onde os machos apresentaram áreas maiores quando comparado às fêmeas.

Figura 1. Área de uso dos peixes-bois-marinhos monitorados no Estados da Paraíba

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Figura 2. Área de uso do peixe-boi-marinho nos Estados de Sergipe e Bahia.

Constatou-se que 83,33% dos animais deste estudo demonstraram-se adaptados às condições de vida livre. A identificação espacial e temporal dos padrões de uso de habitat pelos peixes-bois-marinhos, assim como o mapeamento das áreas intensamente utilizadas, são de suma importância para auxiliar os gestores de Unidades de Conservação a definirem áreas prioritárias para conservação da espécie.

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5. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem à Fundação Mamíferos Aquáticos, ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental (PPGEMA) da Universidade Federal da Paraíba, APA Costa do Corais, APA Barra do Rio Mamanguape e ao CEPENE (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste) e Nortronic- Sistema Eletrônicos do Nordeste. Os autores agradecem ainda ao Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos e patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental e ao Programa nacional para a conservação dos peixes-bois-marinhos (Trichechus manatus), realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos e patrocinado pela Fundação Grupo o Boticário de Apoio à Natureza.


5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUASIS (2016) Peixe- boi - marinho Biologia e Conservação1 ed. Bambu Editora e Artes Gráficas, São Paulo - SP. CASTELBLANCO-MARTÍNEZ, D.N., PADILLA-SALDÍVAR, J., HERNÁNDEZ-ARANA, H.A., SLONE, D.H., REID, J.P. & MORALES-VELA, B. (2012) Movement patterns of Antillean manatees in Chetumal Bay (Mexico) and coastal Belize: A challenge for regional conservation. Marine Mammal Science, 29, 1–17. FAVERO, I.T., FAVERO, G.E., CHOI-LIMA, K.F., SOUZA -ALVES, P. & LE, L. (2020) Effects of freshwater limitation on distribution patterns and habitat use of the West Indian manatee, Trichechus manatus, in the northern Brazilian coast. Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, 1–9. ICMBIO (2018) Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção: Volume II – Mamíferos. In Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção p. 1. ed. Brasília, DF. LEFEBVRE, L.W., MARMONTEL, M., REID, J.P., RATHBUN, G.B. & DOMNING, D.P. (2001) Status and Biogeography of the West Indian Manatee. In Biogeography of the West Indies: Patterns and Perspectives (eds CA Woods & FE Sergile). Boca Raton (FL), (2) 425-474. LIMA, R.P. DE, PALUDO, D., SOAVINSKI, R.J., SILVA, K.G. DA & OLIVEIRA, E.M.A. de (2011) Levantamento da distribuição, ocorrência e status de conservação do Peixe-Boi Marinho (Trichechus manatus, Linnaeus, 1758) no litoral nordeste do Brasil. Natural Resources, 1, 41–57. NORMANDE, I.C., LUNA, F.D.O., MALHADO, A.C.M., BORGES, J.C.G., VIANA JUNIOR, P.C., ATTADEMO, F.L.N. & LADLE, R.J. (2015) Eighteen years of Antillean manatee Trichechus manatus manatus releases in Brazil: Lessons learnt. Oryx, 49, 338–344. ST. AUBIN, D.J. & LOUNSBURY, V. (1990) Oil effects on manatees: evaluating the risks. In Sea mammals and oil: Confronting the Risks (eds Geraci, JR & DJ St. Aubin), pp. 241-251. Academic Press, San Diego, Califórnia. WHITE, J.R. & FRANCIS-FLOYD, R. (1990) Marine biology and medicine, in CRC Handbook of Marine Mammal Medicine: Health, Disease and Rehabilitation (ed. L.A. Dierauf,) pp. 601-623. CRC Press, Boca Raton, Flórida, USA.

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FOTO REFLEXÃO

A temporada reprodutiva do peixe-boi-marinho no Nordeste brasileiro ocorre nos meses da primavera e verão (entre setembro e março). Durante o mês de dezembro, em João Pessoa, na Paraíba, cinco peixes-bois-marinhos foram vistos juntos com frequência, muito próximos à costa, na praia do Bessa e no Seixas, e chamaram a atenção de quem frequenta o local. A equipe do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho - realizado pela ONG Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental – estava monitorando os animais. Tratava-se de “Mel”, uma

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fêmea reintroduzida na Barra do Rio Mamanguape em 2009, que se deslocou para Cabedelo em 2019 e que em dezembro foi vista na capital paraibana, interagindo com peixe-bois nativos, em comportamento de acasalamento e cópula. Para os pesquisadores, a cena não é comum de ser registrada em praias urbanas, tanto pelo número reduzido de espécimes ao longo do litoral nordestino como porque eventos como este geralmente acontecem em ambientes que estes animais utilizam (às vezes no interior dos estuários e áreas costeiras), com menos concentração de pessoas.


FOTO SEBASTIÃO SILVA ACERVO FMA

De acordo com o pesquisador e médico veterinário Prof. Dr. João Carlos Gomes Borges, coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, a Paraíba é um dos principais estados no que se refere às áreas de ocorrência dos peixes-bois-marinhos no Brasil. A espécie pode ser observada ao longo de todo o litoral, mas apesar disso, a probabilidade maior é encontrar os animais utilizando o entorno de estuários, áreas abrigadas e com reduzido número de atividades humanas. Sobre as cenas registradas, o pesquisador explica: “Quando existem fêmeas no estro (cio), o período do cortejo reprodutivo envolvendo uma

fêmea em estro e vários machos pode estender-se entre uma semana até um mês. Nestas situações, pode acontecer de a fêmea, tentando fugir, buscar áreas rasas (como as praias) e estes animais permanecem indiferentes com a presença de pessoas ou de atividades no entorno, conforme pode ser observado na imagem do vídeo”. A equipe do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho orienta a comunidade e turistas a manterem distância, respeitando o espaço dos animais, e apenas admirá-los de longe. Ao encontrar um peixe-boi marinho, não se deve tocar, nem alimentar, nem fornecer bebida.

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FMA

Crianças do povoado de Coqueiro, no litoral norte da Bahia, ganham biblioteca reformada Quando um peixe-boi ajuda a transformar realidades... A reinauguração da Biblioteca Comunitária Manatus, localizada no povoado de Coqueiro, Jandaíra (BA), em uma das bases do Projeto Viva o PeixeBoi-Marinho, aconteceu no último sábado (29/01). O espaço, criado em 2015 pela ONG Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), instituição realizadora do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, foi todo reformado e ganhou um novo acervo de livros. Agora, as crianças e adolescentes da região terão disponíveis para leitura mais de 500 livros infantojuvenis que foram doados durante a campanha “Doe um livro para a Biblioteca Manatus

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e incentive leitores mirins”, realizada entre outubro e dezembro de 2021, nos estados da Paraíba (Rio Tinto), Pernambuco (Recife e Petrolina) e Sergipe (Aracaju). “O tempo passou, as crianças já tinham lido todos os livros do pequeno acervo, não havendo mais o mesmo brilho de antigamente. Assim, nasceu a necessidade de renovar o acervo e de novos livros serem adquiridos, surgindo então a campanha ‘Doe um Livro para a Biblioteca Manatus e Incentive os Leitores Mirins’. A intensão era realizarmos algo simples, solicitando doações para nossos colaboradores, editoras infantojuvenis, e uma divulgação nas


nossas redes sociais. Para abrilhantar nossa campanha, convidamos a escritora Marcela Franca, autora do livro Scamonis – o outro lado de mim, que já era parceira da FMA para amadrinhar a campanha, e com isso tudo mudou. Marcela trouxe um brilho e uma força para a campanha que a transformou em um grande sucesso. Foram várias ações, envolvendo novos parceiros, eventos e como resultado mais de 1000 livros arrecadados e a possibilidade de replicar a Biblioteca Manatus nos outros estados que a FMA atua, Sergipe e Paraíba. A Campanha não ficou apenas na arrecadação de livros, a equipe da FMA se mobilizou para reformar o espaço como um todo, o local foi pintado, a sala recebeu uma linda pintura decorativa, foi realizado um novo layout com aquisição de novos equipamentos e mobiliários adequados à faixa etária das crianças, para isso contamos com o apoio de voluntários e pessoas da sociedade que se mobilizaram e fizeram doações do seu tempo ou de recursos para ajudar a adquirir os novos itens”, conta Jociery Vergara-Parente, diretora presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos. A Biblioteca Manatus recebeu esse nome em homenagem ao peixe-boi-marinho (Trichechus manatus), mamífero aquático ameaçado de extinção no Brasil e que é ícone do trabalho realizado pela FMA. O peixe-boi-marinho “Astro”, monitorado pelo Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, escolheu o complexo

estuarino onde Coqueiro está localizado como sua área de vida. Coqueiro é um povoado simples com cerca de 800 habitantes, o acesso terrestre ao local é restrito e a maioria dos seus moradores vive da pesca. A ideia da biblioteca é conectar a cultura com a educação ambiental, proporcionando o acesso livre ao conhecimento, o incentivo à leitura entre crianças e adolescentes e a sensibilização sobre a importância da conservação ambiental. No espaço, além de explorar o mundo dos livros e da leitura, as crianças brincam, assistem a teatrinhos, vídeos educativos e se encantam com as estórias e histórias contadas pela equipe da FMA. O Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho - realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, é uma estratégia de conservação e pesquisa para evitar a extinção desta espécie no Nordeste do Brasil. Atua nas áreas de pesquisa, tecnologia de monitoramento via satélite, manejo, educação ambiental, desenvolvimento comunitário, fomento ao turismo eco pedagógico e políticas públicas. Conta com o apoio da APA da Barra do Rio Mamanguape, Arie Manguezais da Foz do Rio Mamanguape, Cepene/ ICMBio e Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal da Paraíba. FOTOS ACERVO FMA

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GPS

INDICAÇÕES

EM BUSCA DOS CORAIS O documentário “Em Busca dos Corais” mostra uma corrida contra o tempo de uma equipe de mergulhadores, fotógrafos e cientistas do mundo inteiro que iniciaram uma emocionante jornada para documentar, pesquisar, acompanhar, procurar explicações e sensibilizar a sociedade para o que pode vir a ser o início de um colapso de todo um ecossistema: nos oceanos do mundo inteiro, os recifes de corais estão sofrendo um branqueamento mortal e desaparecendo numa taxa sem precedentes. Cerca de 25% da vida marinha depende dos recifes de corais e estima-se que nos últimos 30 anos, já perdemos 50% dos corais do planeta. Assistindo ao documentário, você descobre por que isso está acontecendo e quais as consequências que isso pode trazer para o mundo. Só vamos adiantar uma coisa: precisamos mudar o quanto antes esse estilo de vida que semeia a destruição. E isso é muito sério e urgente. Direção: Jeff Orlowski.

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SAPIENS - UMA BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE “Sapiens – Uma breve história da humanidade” nos proporciona um novo olhar sobre a história do mundo, diferente de tudo o que se aprende na escola. É uma obra-prima de Yuval Noah Harari que o consagrou como um dos pensadores mais brilhantes da atualidade. O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras? Nossa capacidade imaginativa. Somos a única espécie que acredita em coisas que não existem na natureza, como Estados, dinheiro e direitos humanos. Partindo dessa ideia, Yuval Noah Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, aborda em Sapiens a história da humanidade sob uma perspectiva inovadora, mostrando que tudo o que acontece hoje tem uma explicação no passado, incluindo o motivo de termos o meio ambiente tão sofrido e devastado. Um relato eletrizante sobre a existência da espécie humana na Terra.


eventos

Programe-se para os eventos técnico-científicos previstos para 2022 nas áreas de Medicina Veterinária, Biologia, Ciências Biológicas, Ecologia e campos afins.

IV CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA FÓRUM MUNDIAL SOCIAL MÉXICO 2022 Data: 01 a 06 de maio de 2022 Local: Cidade do México 41º CONGRESSO BRASILEIRO DA ANCLIVEPA Data: 25 a 27 de maio de 2022 Local: Maceió – AL https://www.cbamaceio.com.br/ ESTOCOLMO +50 Data: 02 e 03 de junho de 2022 Local: Estocolmo - Suécia https://www.stockholm50.global/ 30TH INTERNATIONAL CONFERENCE ON MODELLING, MONITORING AND MANAGEMENT OF AIR AND WATER POLLUTION Data: 05 a 07 de julho de 2022 Local: Milão – Itália https://www.wessex.ac.uk/conferences/2022/air-and-water-pollution-2022 XXIV ENCONTRO BRASILEIRO DE ICTIOLOGIA Data: 16 a 21 de outubro de 2022 Local: Gramado - RS https://www.ebi2021.com.br/

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ILUSTRAÇÃO

Em todas as edições, a Revista A Bordo traz ilustrações que abordam o universo dos animais aquáticos e de seus habitats, como forma de reflexão sobre a importância da conservação do meio ambiente. Nesta edição, estamos trazendo o segundo card de uma série estamos trazendo o primeiro card de uma série ilustrativa sobre a maternidade do peixe-boi-marinho com a arte de Jacqueline Costa.

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Para saber mais sobre o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, acesse: www.vivaopeixeboimarinho.org @vivaopeixeboimarinho

FUNDAÇÃO MAMÍFEROS AQUÁTICOS Sítio Barra do Mamanguape, s/n Zona Rural - Rio Tinto – PB (83) 99961.1338 | (83) 99961-1352 | (79) 99130-0016 www.mamiferosaquaticos.org.br @mamiferosaquaticos