Sou Eu Mesmo, Que Remédio! | José da Costa & Mário Silva (filho)

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«SOU EU MESMO» de Álvaro de Campos, é o poema, entregue aos artistas Mário Silva (filho) e José da Costa, para que, com base nele, preparassem uma exposição de oito obras, quatro de cada um, num tamanho uniforme de 70x50cm. Ao Mário Silva (filho) foi proposto que interpretasse o poema e que a sua abordagem fosse exclusivamente abstrata. Ao José da Costa foi proposto que interpretasse o poema e que a sua abordagem fosse exclusivamente figurativa. Os artistas trabalharam em conjunto, na leitura e interpretação do poema. Dele, sintetizaram quatro cenários. A cada cenário, correspondeu uma de quatro partes distintas do poema. Atribuíram um conceito diferenciador a cada um, a saber: - Passividade; - Insegurança; - Aborrecimento; - Ansiedade Aqui chegados, passaram a assumir duas perspetivas, separadas e individualizadas do trabalho a desenvolver. Mário Silva (filho), com base na obra «A Psicologia das Cores» de Eva Heller, trabalhou manchas cromáticas, numa conformidade objetiva com o conceito diferenciador, assumindo a interpretação psicológica das cores como elemento único para a sua expressão plástica abstrata. José da Costa, com base na sua intrínseca e subjetiva, interpretação pessoal dos extratos selecionados do poema, expôs nas quatro telas, os quatro cenários figurativos. Abordagem pictórica intima, mesclada de sentimento e sentido, levando ao limite da figuração e assunção cromática, a individualização afetiva. Concluídos em separado, reunimos e assumimos os trabalhos, como uma obra coletiva. A avaliação da complexa cumplicidade obtida, fica como ponto de síntese, para a avaliação pessoal de quem, a partir daqui, for desafiado a ver e sentir, com olhos e coração, suficientemente despertos para um desafio único, de ser… «Sou eu mesmo»


Deus não é Arte. Arte, sim, é Deus… … porque é Verbo! Pego no genuflexório e prostro-me perante Ela, minha Libertação! Mas não são os meus joelhos que Ela reclama. É, sem dúvida, o nosso Eu intimidado… convocado. Por tal, prostremo-nos por sob Ela. Ela é Deus! E que Deus nos valha!!! Desafio?! Auscultar a Vida! O palpitar do traço ou o circular da policromia, como tecido conjuntivo líquido, num sistema vascular fechado, mas de natureza diversificada, fluindo… diagnosticando caminhos, sensações, emoções e interpretações: vermo-nos Ser: Sou! Sou eu mesmo, que remédio!... Sou-me na eloquência louca de mim! No desatino ensombrado de mim! Efectivamente embriagado… tão narcotizado… tão enraivecido… tão apaixonado!... Sou eu mesmo, que remédio!... Auscultando-me! Tão deliciosamente ofuscado… deslumbrado!... É necessário excitar a memória pela emoção e, desta forma, alcançar o sublime na práxis da vida, uma consistente leitura do passado, poética ou lírica, uma interpretação do presente, escutando uma melodia dos sentidos, e uma projecção do futuro, pautada por um discernimento ancestral e contado ao segundo. É necessário transpor fronteiras com os passos alheios que se vislumbram num qualquer pensamento abstracto e inquieto. Por estímulos produzidos mecanica-


mente poderemos livremente e aleatoriamente, viajar pelo íntimo do Eu e do Outro, numa até simbiose que acorre ao conhecimento. É necessário convidar ao encontro. A imagem reivindica a génese do trabalho e o observador deambula por coerências e incoerências, fruto da imaginação, da introspecção que a mesma provoca. É necessário a simplicidade do todo, do conjunto, do percurso no quotidiano que não esgota. O compromisso com os passos que esbarram permanentemente com flashes, cantando memórias que fecundam a alma no ventre da vida. É necessário um mundo que teima em reaparecer, transpondo-nos para fragmentos, dádivas de humanidade e materialidade que reinterpretam esta inconstância que nos move de mãos dadas a um destino comum. Lado a lado. É necessário…tão-só!... … que pela Arte percorramos caminhos… humanos e divinos… que se conjugam na sobriedade do viver as emoções… percursos que construímos… transculturais… num pranto de marcha… num diálogo… ao encontro… hóstia que se partilha num chão de todos… essa Arte Somos!... … tão só o Verbo feito policromia! Arte, sim, é Deus… … porque é Verbo! Ela é Deus! E que Deus nos valha!!! Sou eu mesmo, que remédio!...

J.M. Vieira Duque, 2022



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Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, Espécie de acessório ou sobresselente próprio, Arredores irregulares da minha emoção sincera, Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente, Como de um sonho formado sobre realidades mistas, De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico, Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

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Abstracção #1 Mário Silva (Filho) Acrílico s/tela 500x700


Figurativo #1 José da Costa Acrílico s/tela 500x700



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E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

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Abstracção #2 Mário Silva (Filho) Acrílico s/tela 500x700


Figurativo #2 José da Costa Acrílico s/tela 500x700



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Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — A impressão de pão com manteiga e brinquedos, De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela, Num ver chover com som lá fora E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

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Abstracção #3 Mário Silva (Filho) Acrílico s/tela 500x700


Figurativo #3 José da Costa Acrílico s/tela 500x700



« Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...

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Abstracção #4 Mário Silva (Filho) Acrílico s/tela 500x700


Figurativo #4 José da Costa Acrílico s/tela 500x700


Mário Silva (filho), nasce na Figueira da Foz (1983).

Vive e trabalha na sua casa atelier em Lavos (Figueira da Foz). Filho do reconhecido nacional e internacionalmente Artista Plástico Mário Silva (1929-2016), desde cedo percorre com o pai as inúmeras exposições promovidas por este sendo no seio do atelier que ao longo de vários anos nutre as mais variadas lições que o pai tinha para lhe dar.

Expõe regularmente o seu trabalho em Portugal, estando representado em coleções particulares.

É Artista Colaborador na Arte Contemporânea VictorCosta.Gallery desde a sua fundação.




José da Costa, segundo nome, em homenagem ao seu avô, José da Costa, natural das Meãs do Campo, Montemor-o-Velho, que não conheceu, e que terá morrido em Luanda nos anos 30 do Sec. XX .

Natural de Coimbra, iniciou-se nas Artes como autodidacta nos anos 70 executando estatuetas de pedra natural pintada à mão, expondo regularmente o seu trabalho. Na década de 80, com experiências de pintura a óleo sobre tela e aguarela. Executou diversas esculturas em madeira, não tendo desenvolvido as suas aptidões por motivos profissionais.

Em 2017, foi convidado pelo Arquitecto António Maria Costa para participar em workshop de pintura a carvão e óleo, com a conceituada pintora Andaluz, Gema Atoche. Durante uma semana e diariamente, reavivou o seu interesse pela pintura tendo recomeçado de imediato a pintar de forma sistemática e permanente. Foi convidado pelo Mestre Alberto Péssimo a participar em exposições, com o Atelier 26, de quem é o mentor, tendo aperfeiçoado as sua técnicas. Optou pelo impressionismo figurativo e retratista com assinalável êxito, tendo executado diversos retratos a óleo e a acrílico de diversas personalidades.

Frequentou a Academia Portuguesa de Belas Artes de Aveiro, tendo-lhe sido atribuído o diploma de pintor, pelo Mestre David Serra. Mais uma vez desafiado pelo Mestre Alberto Péssimo para uma exposição individual, aceitou esse desafio.

Para uma exposição temática, das Serras e os Autores portugueses que sobre elas dissertaram. Assim nasceu a exposição intitulada, As Serras do Demo, exposta no Espaço Fernando Valle, em Coja, Arganil, e na Ordem dos Médicos, em Coimbra, inserido nas comemorações dos 40 anos do SNS. Seguiram-se a Providência Portuguesa em Coimbra, durante o mês de Dezembro de 2019, Auditório Carlos Paredes, no Município de Vila Nova de Paiva, Café Santa Cruz, em Coimbra.

Convidado pelo Artista Plástico, Victor Costa, participou em diversas exposições colectivas e acções de divulgação de pintura em diversos locais e ao vivo em conjunto com outros pintores, trocando experiências e desenvolvendo diferentes técnicas.


Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, Espécie de acessório ou sobresselente próprio, Arredores irregulares da minha emoção sincera, Sou eu aqui em mim, sou eu. Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim. E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente, Como de um sonho formado sobre realidades mistas, De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico, Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima. E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, De haver melhor em mim do que eu. Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — A impressão de pão com manteiga e brinquedos, De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela, Num ver chover com som lá fora E não as lágrimas mortas de custar a engolir. Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província. Sou eu mesmo, que remédio! ...

Álvaro de Campos, 6 de Agosto de 1931



Ficha Técnica Curadoria: Vieira Duque, Conservador e Membro da Comissão Executiva Edição: Fundação Dioníso Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro Design: Joel Almeida Fotografia: Joel Almeida Textos: Vieira Duque Álvaro de Campos | Fernando Pessoa Apoio: Ana Maria Pereira Raminhos (Estagiária do Curso Técnico de Organização de Eventos da Escola Profissional de Aveiro) Ana Pinho (Estagiária do Curso Design Gráfico da Escola Secundária Marques de Castilho) Catarina Martins

Nota: Alguns textos não seguem as regras do acordo ortográfico de 1990 por vontade dos autores

Praça Dr. António Breda, nº4 3750-106 Águeda Telefones: (+351) 234 623 720 | (+351) 234 105 190 (+351) 913 333 000 www.fundacaodionisiopinheiro.pt info@fundacaodionisiopinheiro.pt conservador.museu@fundacaodionisiopinheiro.pt https://www.facebook.com/fundacaodionisiopinheiro/





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