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[o] segundo tipo de livro é acerca dos modos como certos tipos específicos de pessoas são cruéis para outros tipos específicos de pessoas. Por vezes, as obras de psicologia servem esta função, mas os livros mais úteis deste tipo são obras de ficção que mostram a cegueira de um determinado tipo de pessoa relativamente à dor de outro tipo de pessoa. (…) Em especial, tais livros mostram de que modo as nossas tentativas no sentido da autonomia, as nossas obsessões privadas pela realização de um determinado tipo de perfeição nos podem tornar cegos relativamente à dor e à humilhação que causamos. São esses os livros que dramatizam o conflito entre deveres para com o eu e deveres para com os outros. (Rorty, 1994: 180)

1984 de George Orwell é o principal exemplo de Rorty para o primeiro tipo de livros; alguns livros de Nabokov, em especial Lolita, são exemplo do segundo tipo – e é, por essa razão que, de seguida, o filósofo norte-americano se dedica a uma análise literário-filosófica de Orwell e Nabokov. A principal semelhança em que insistirei neste capítulo e no próximo é a de que os livros, tanto de Nabokov como de Orwell, diferem dos dos escritores de que falei na segunda parte – Proust, Nietzsche, Heidegger e Derrida – na medida em que é a crueldade, e não a autocriação que é o seu assunto fulcral. (…) Nabokov escreveu acerca da crueldade a partir de dentro, ajudando-nos a ver o modo como a busca privada da bem-aventurança estética produz crueldade. Orwell, na maior parte da sua obra, escreveu sobre a crueldade a partir do exterior, do ponto de vista das vítimas. (Rorty, 1994: 185)

Para o nosso objetivo interessa-nos a análise realizada por Rorty ao trabalho de Nabokov e por isso centraremos nela a nossa atenção.

4. Faz quá-quá mas não é um pato A reflexão levada a cabo no sétimo capítulo de CIS pretende redescrever o esteticismo de Nabokov.11 Se Nabokov encoraja, como diz Rorty, uma visão puramente estética da sua obra e apartada da dimensão moral,12 “essa leitura ignora a questão que

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O esteticismo de Nabokov fica bem patente nesta afirmação do posfácio a Lolita: “Para mim, uma obra de ficção só existe na medida em que me proporcione o que me permito chamar sem rodeios “um estado de graça estético”, isto é, a sensação de estar não sei como e não sei onde em ligação com outros modos da existência onde a arte (curiosidade, ternura, simpatia, êxtase) é a norma. Não há muitos livros assim. Todo o resto, ou é lixo localizado ou aquilo a que alguns chamam Literatura das Ideias, que amiúde é lixo localizado a chocar em grandes blocos de gelo, cuidadosamente transmitidos de geração em geração, até que vem alguém com um martelo e dá uma bela machadada no Balzac, no Gorki ou no Mann” (Nabokov, 2013: 333). 12 Nas linhas que precedem a passagem da nota de rodapé anterior, Nabokov diz: “Há piedosas almas que sem dúvida acusariam Lolita de falta de sentido por não lhes ensinar nada. Eu não leio nem escrevo ficção didática e, malgrado a asserção de John Ray, Lolita não tem qualquer moral debaixo da manga” (Nabokov, 2013: 333).

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VII, nº 1, 2016

Revista Redescricoes ano VII, n2, 2016  
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