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condicionada pelas suas estruturas gramaticais, pelo sentido do vocabulário, pelo peso das próprias palavras.8 Ora, parece-nos que Rorty pode ser visto como herdeiro desta linguistic turn continental na medida em que destaca a dimensão constitutiva da linguagem e o modo como ela contém todas as possibilidades de compreensão e relação com o mundo. Em CIS, Rorty fala em contingência da linguagem: “o mundo não fala; só nós é que falamos” (Rorty, 1994: 26). Usamos estas palavras mas poderíamos usar outras – a questão é que não nos é possível não usar palavras, não conseguimos ter uma relação com o mundo e a realidade que dispense a linguagem. E porque não podemos aceder direta e imediatamente ao mundo, porque não conseguimos ir ao mundo ver como o mundo é sem linguagem, então nunca poderemos saber se a nossa linguagem representa adequadamente a realidade. A partir daqui, o paradigma representacionista surge como meramente opcional – nada nos obriga a ele. E se não estamos obrigados a ele, talvez seja possível encontrar um outro paradigma que se revele mais útil. Se o paradigma representacionista cumpriu um importante papel na construção do pensamento moderno, agora poderia ser finalmente abandonado. Rorty reconhece o desconsolo, destacado por Nietzsche, de se perder o conforto metafísico – mas isso seria compensado pela adoção de um novo paradigma mais útil e vantajoso para atingirmos os objetivos imaginados pelo nosso projeto coletivo.9 É esta então a proposta de Rorty: que abandonemos um pensamento representacionista, que deixemos de lado a busca incessante e infrutífera pela Verdadecom-letra-maiúscula, pela Realidade-com-letra-maiúscula, e passemos a concentrar os nossos esforços na construção da sociedade com que sonhamos desde o projeto das Luzes: uma sociedade mais liberal e mais solidária.

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O modo como Richard Rorty pode ser visto como herdeiro desta tradição linguística está a ser trabalhado por nós em tese de doutoramento. Aqui, por razões de espaço, não desenvolvemos este aspeto de modo aprofundado. 9 In Rorty, Richard (1982), Consequences of Pragmatism, Minneapolis, University of Minnesota Press, p. 166.

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VII, nº 1, 2016

Revista Redescricoes ano VII, n2, 2016  
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