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isso, Rorty considera que as três tradições estão a caminhar por forma a cruzarem-se no caminho do pensamento. É assim que afirma em CP: Do meu ponto de vista, James e Dewey não estavam apenas no final do caminho dialético que a filosofia analítica percorreu, mas estão também à espera no final do caminho que, por exemplo Foucault e Deleuze, estão a percorrer atualmente (Rorty, 1982: xviii).4

Que local é esse? Esse local é marcado por uma mudança de paradigma: Rorty aprecia os mais recentes desenvolvimentos da filosofia analítica e da filosofia continental e considera que todos esses desenvolvimentos nos encaminham para uma mudança de paradigma filosófico. E essa mudança passaria por substituirmos o atual paradigma representacionista

por

um

paradigma

não-representacionista,

designadamente

pragmatista. Vejamos os termos dessa substituição, centrando a nossa atenção no papel desempenhado pela linguagem. O paradigma representacionista é aquele que marca a filosofia desde Platão mas que foi sobretudo consolidado com a matriz cartesiana-lockiana-kantiana que imprimiu à filosofia um forte cariz epistemológico. Para a filosofia tradicional, Conhecer é representar cuidadosamente o que é exterior à mente; portanto, compreender a possibilidade e natureza do conhecimento é compreender o modo pelo qual a mente se torna apta a construir tais representações. A preocupação central da filosofia é ser uma teoria geral da representação, uma teoria que dividirá a cultura nas áreas que representam bem a realidade, que a representam menos bem e que não a representam de todo (a despeito da sua pretensão nesse sentido) (Rorty, 2004: 15).

Foi aqui que os filósofos basearam a pretensão da filosofia em ser uma área fundamental do saber: A filosofia enquanto disciplina vê-se então a si mesma como a tentativa para subscrever ou derrubar as pretensões ao conhecimento elaboradas pela ciência, a moralidade, a arte, ou a religião. Propõe-se fazer tal na base do seu entendimento especial da natureza do conhecimento e da mente. A filosofia pode ser fundamental relativamente ao resto da cultura, porque a cultura é a montagem das pretensões ao conhecimento e a filosofia adjudica tais pretensões (Rorty, 2004: 15).

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Tradução nossa.

Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VII, nº 1, 2016

Revista Redescricoes ano VII, n2, 2016  
Revista Redescricoes ano VII, n2, 2016  
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