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Léxico Conceitual Brasil-Europa Vol 1: Memória Cultural & Patrimônio

Ivan Domingues Roberto Vecchi (ORGS.)

Belo Horizonte, 2018


Todos os direitos reservados à Fino Traço Editora Ltda. © Ivan Domingues e Roberto Vecchi (ORGS)

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CIP-Brasil. Catalogação na Publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, rj L654 Léxico conceitual Brasil-Europa: memória cultural e patrimônio / organização Ivan Domingues, Roberto Vecchi. - 1. ed. - Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2018. 252 p. ; 21 cm. Inclui bibliografia ISBN: 978-85-8054-357-5 1. Filologia 2. Mudanças linguísticas 3. Linguagem e línguas. I. Domingues, Ivan. II. Vecchi, Roberto. 18-47841

CDD: 410

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CDU: 81’1


Sumário

Apresentação Ivan Domingues (UFMG) e Roberto Vecchi (UNIBO)

Metaléxico 1 Espaço conceitual Brasil-Europa: Inspirações a partir da Begriffsgeschichte Alexandre Mendes Cunha (UFMG) 2 Léxico conceitual euro-brasileiro: Reflexões metalexicais e a história conceitual Roberto Vecchi (UNIBO) 3 Por um léxico conceitual Brasil-Europa: Considerações preliminares Roberto Mulinacci (UNIBO)

Exercícios conceituais 4 Memória cultural: entre acumulação e apagamento Miriam Ávila e Graciela Ravetti 5 Memória cultural: Apontamentos para uma história Giuliana Benvenuti e Lara Michelacci 6 Patrimônio/patrimônios: comunidade, língua e pós-memória Margarida Calafate Ribeiro (CES Universidade de Coimbra) e Roberto Vecchi (UNIBO) 7 A diversidade é o nosso patrimônio Ana Maria R. Gomes (UFMG) e Sabrina Sedlmayer (UFMG).


Introdução Ivan Domingues (UFMG) Roberto Vecchi (UNIBO) Orgs.

O projeto do Léxico Conceitual Euro-brasileiro (que deu ensejo ao acrônimo anglicizado de CEBRAL, Conceptual Euro-Brazilian Lexicon) é, de certo modo, filho da parceria estratégica entre o Brasil e a Europa, assinada em 2007, em Portugal, pelo então Presidente Lula. Aquele acordo, que tem intensificado de maneira relevante as relações bilaterais, de fato configurava também a criação mais tarde, no Brasil, de um Centro de Estudos Europeus, que tivesse como missão principal a consolidação dos estudos europeus no Brasil. Do momento de fundação desta nova estação na história das relações bilaterais entre a Europa e o Brasil, um triênio depois se criaram as condições para realizar esse objetivo peculiar da parceria estratégica. Em 2010 surgiu assim o Instituto Brasil-Europa (IBE) que consistiu numa rede de universidades brasileiras coordenada pela Universidade de São Paulo e em particular pelo Prof. Moacyr Martucci Jr., constituída por um leque geograficamente amplo de instituições acadêmicas: UFMG, UNICAMP, UNESP, UFG, UFPA, UFPI e UFSC. Ao lado da rede brasileira, constituiu-se também uma articulada rede de parceiros europeus, associados e afiliados. Desde os primórdios, o IBE marcará com sua programação três anos bastante intensos de atividades científicas e culturais, como um espaço aberto e interdisciplinar de interação entre as partes. Constituído em cinco áreas temáticas, com descentralização de responsabilidades dentro do perímetro da rede - Ciências Sociais, Humanidades e Artes (coordenada pela Unicamp); Saúde e Biologia (coordenada pela Unesp); Ciências (coordenada pela USP);

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Políticas (coordenada pela UFMG); Tecnologia (coordenada pela USP) - o IBE de imediato se configurou como um espaço de inovação de forte experimentalismo crítico e científico, um lugar dialógico que, pela primeira vez, punha em comunicação instituições acadêmicas dos dois lados do Atlântico, bem como saberes, tradições, semânticas diferenciadas que se confrontavam e reconheciam dentro de projetos elaborados em regime de cooperação e em tópicos transversais que promoviam o grau máximo de inclusão científica e geográfica. Como complemento do quadro histórico do IBE, cuja trajetória pioneira se completa em 2014, vale a pena lembrar os congressos internacionais que organizou como exemplo de temas horizontais em apoio às perspectivas capazes de ir além das limitações disciplinares: em 2011, em Goiânia, “Smart Cities Human cities”; em 2013, em Belém do Pará, “Moving forward inclusion”; e, ainda em 2013, desta vez em Florianópolis, “Innovation, culture and sustainability”, sem mencionar aqui os workshops que foram realizados a partir de temáticas mais setorizadas. Nesse quadro muito dinâmico, por ocasião de um workshop em Roma, em 2012, o conjunto de pesquisadores da Universidade de Bolonha, que tinha acabado de entrar como afiliada na rede do IBE, assinalou que as discussões dessa instituição poderiam beneficiar de maior densidade crítica “desde que fosse assumida uma perspectiva conceitual diferente”. Tais perspectiva e diferenciação seriam logradas mediante a elaboração de um “léxico” que pudesse dar conta de como as não identidades semânticas dos conceitos, articulados tanto no contexto brasileiro quanto no europeu, com a capacidade de comparar tangências e divergências de significações, e tais que, uma vez implementadas, proporcionariam uma ferramenta nova e favoreceriam um diálogo efetivamente situado e bilateral. Emergiu logo a relevância de um instrumento desse tipo não só no plano acadêmico, mas também para a sociedade civil, os stakeholders, os operadores econômicos ou culturais, entre outros, envolvidos no desenvolvimento da cooperação bilateral. Uma primeira reunião foi realizada na UNICAMP sob a responsabilidade do saudoso historiador Edgar De Decca, coordenador da seção de ciências sociais, humanidades e artes do IBE. De imediato se percebeu que o CEBRAL

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seria um projeto não efêmero, inclusive pela longa duração da sua gestação, mas estratégico, que envolvia equipes de pesquisas interdisciplinares por um longo prazo antes de produzir resultados apreciáveis. Por isso, em 2014, terminado o projeto originário do IBE, a Universidade de Bolonha e a Universidade Federal de Minas Gerais, a primeira através de algumas instâncias interdepartamentais, a segunda através do Centro de Estudos Europeus (CEE), resolveram assumir o legado embrionário do léxico e desenvolvê-lo como parceria estratégica entre as duas universidades em função de um investimento, ideal e comum, nas relações entre a Europa e o Brasil. Prioritariamente, foram definidas algumas constelações conceituais de acordo com as especializações dos participantes do projeto de pesquisa: definiram-se tópicos como memória cultural, patrimônio, desenvolvimento e crescimento, norma e exceção, cidade. Ainda não coagulados em conceitos e a partir de uma metodologia em fase de construção, apesar das referências a casos consagrados de projetos afins que possam servir como modelo (por exemplo, projetos como iberconceptos1), as constelações foram as matrizes dos projetos de alguns verbetes conceituais piloto. Os tópicos começaram a ser abordados por pequenos grupos de pesquisadores. A metodologia imediata que surge é aquela dialógica que compartilha fontes, reflexões, situando um conceito dentro de um contexto significativo específico. O CEBRAL teve desde os seus começos que procurar fontes de financiamento depois da superação da matriz originária do IBE. Em Belo Horizonte, o projeto encontrou logo a sua articulação inclusive financeira no Centro de Estudos Europeus. Em Bolonha, o projeto ganhou um financiamento concorrencial como projeto de fatibilidade (FARB) com o apoio da Fundação Cultural Ítalo-brasileira, (FIBRA). Em junho de 2015, em Bolonha, ocorreu o primeiro workshop do projeto, na Scuola Superiore di Studi Umanistici, dirigida então pelo saudoso Prof. Umberto Eco. “Pensar o Brasil” foi o título do evento que reuniu quase 30 pesquisadores italianos, brasileiros, portugueses e ingleses. Foi a combinação de duas pesquisas dentro da iniciativa incubadora promovida pelo Integrated 1. Conferir o site do projeto: http://www.iberconceptos.net

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Research Team da Universidade de Bolonha dedicado ao Brasil (IRT Brasil). Duas diretrizes de investigação que valorizaram o legado do IBE: o Léxico conceitual e o tema das cidades, em particular na declinação da Smart Cities. A contribuição da UFMG, em particular do Centro de Estudos Europeus, foi decisiva para o amadurecimento do projeto nessa fase auroral. O CEBRAL se articula, em seu palimpsesto, pela dimensão internacional e em rede, como uma plataforma colaborativa. O modelo, portanto, experimentado, também do ponto de vista tecnológico, foi uma plataforma que pudesse valorizar o trabalho dos times constituídos a partir dos tópicos, inclusive na fase de partilha e comentários dos documentos básicos do projeto, permitindo assim o aprofundamento dialógico entre grupos de pesquisa geograficamente distantes. Os conceitos aprofundados pelos grupos, no limiar, foram quatro: Patrimônios, Desenvolvimento, Memória Cultural e Norma. A ocasião do encontro, no entanto, proporcionou condições para pensar no projeto como um todo, em particular a sua moldura enquanto léxico, seus destinatários, a própria estrutura dos diferentes verbetes, os produtos que poderiam surgir do diálogo interinstitucional entre os grupos de pesquisa. Ficou clara a natureza de uma pesquisa complexa e permanente. O que o CEBRAL de certo modo põe em causa é a própria ontologia do diálogo científico entre o Brasil e a Europa, partindo de uma apreciação das diferenças que produzem signos, linguagens, discursos e sintaxes próprios. Não um comum abstrato, mas os ruídos, as singularidades de leitura, as interferências de interpretação, os desvios linguísticos, as condições em suma que situam o discurso científico em um determinado contexto. Essas diferenças reivindicam uma reflexão epistemológica própria e dialógica, baseada sobre um paradigma que associa, de modo efetivo, a prática crítica da tradução (cuja diatopia é uma forma “entre” línguas, contextos, ideologias, imaginações etc.) e a articulação de um conceito. A repetição aparente, em suma, sempre implica pelo contrário uma diferença, o que define justamente, no plano da epistemologia, a prática da tradução. No ano seguinte, em junho de 2016, em Belo Horizonte, na UFMG, mais um passo foi dado na direção da construção de um projeto desafiador

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e instigante. No âmbito da série de workshops em Estudos Europeus e com a declinação temática de “Léxico Cultural Brasil-Europa: território, ambiente, sociedade e cultura”, o CEBRAL, com o apoio da Diretoria de Relações Internacionais da UFMG e o Módulo Jean Monnet, realiza uma segunda fundamental etapa. Além de mostrar os avanços que ocorreram nos projetos temáticos e conceituais, o encontro evidenciou a preocupação de pensar o Léxico não como um conglomerado de partes, mas como partes efetivas de um todo sistemático, onde a relação entre as partes e o todo devia ter características funcionais bem definidas. A preocupação assim “metalexical”, isto é, sobre o Léxico, enquanto modo de reorganizar saberes diferentes e interdisciplinares, ocupou um espaço relevante na discussão da equipe de pesquisa. Isso gera também uma reflexão sobre o grau de especialização que deve ser integrado nos diferentes verbetes que constituem o conjunto do projeto. A dialética entre fragmento e projeto, que também se encontra permanentemente em jogo, quase como um inapagável legado romântico, tem vindo a alimentar uma discussão bastante ampla. Ainda numa fase de testagem, o CEBRAL decidiu, no entanto, lançar as bases do livro que aqui se apresenta. Pela sua natureza de permanente work in progress, o CEBRAL de fato corre o risco de cristalizar insuficiências que se depositam sem chegar a produtos completos apreciáveis. Contudo, a força do léxico reside não só no caráter incompleto das partes, mas também - e talvez mesmo por isso - na sua potencialidade de gerar novas redes e agregações. Esse aspecto “comunitário” dos elos científicos entre Europa e Brasil, mesmo que não surja por inteiro também em seus resultados parciais, poderia ameaçar a continuação de um projeto de duração potencial praticamente indeterminada. Por essas razões, o Léxico deve encontrar - como acontece agora - as suas primeiras formas, os primeiros lamentos, e socializá-las para provocar uma intensificação dos debates críticos e lançar as bases dos seus próximos desdobramentos. O workshop de Belo Horizonte expôs outro aspecto implícito na configuração do Léxico. Um aspecto, no entanto, que ganha força no quadro de reorganização das relações científicas entre a Europa e o Brasil, sobretudo depois da herança deixada, como se dizia, pelo IBE. O CEBRAL de fato possui

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a virtualidade de suplementar muitas outras pesquisas bilaterais em curso nos âmbitos mais variados, não só - embora naturalmente este seja um território privilegiado - em campo humanístico, mas também no campo tecnológico ou científico, aplicado ou teórico: assim a componente de combinação e problematização conceitual acaba por ser um complemento eficaz de muitas iniciativas científicas que não esgotam as suas ações na produção, partilha ou discussão de resultados, mas inscrevem uma preocupação conceitual em todo gesto virado para a produção de saber. O Léxico metaforiza um núcleo espesso e fundamental do diálogo científico - em qualquer área científica entre a Europa e o Brasil. A primeira etapa que se inaugura, agora, com a publicação de alguns resultados parciais e ainda fluidos do trabalho realizado, evidencia ao mesmo tempo um limite e um potencial. O limite é representado pelo caráter permanente e cumulativo da discussão conceitual. Esta exige uma constante revisão não só do projeto como um todo, mas da própria formulação de cada verbete. Ora, no momento em que o Léxico se fixa como produto científico, de certo modo a discussão que implica já vai além do seu conteúdo. Por essa razão, a plataforma mais condizente para a partilha e atualização constante dos elementos lexicais seria a Web, condição esta que não foge aos coordenadores do projeto e que representa, aliás, o canal, talvez o principal, de divulgação futura dos verbetes. O potencial é constituído, portanto, por sua paradoxal “força débil”, usando um conceito próximo do último Derrida, para repensar a soberania. A precariedade constitutiva de um tópico lexical marca também um ponto nevrálgico da sua força. Cientes dessas condições, onde limites e potencialidades se sobrepõem, os pesquisadores do CEBRAL pretendem avançar com a demanda de atualização permanente que a inclusão de novos conceitos e novos pesquisadores, com outras perspectivas e ideias, determina em termos de enriquecimento para o crescimento e o desdobramento do projeto. Do ponto de vista crítico - e o primeiro capítulo indiciariamente remete para esse aspecto - a discussão sobre o que é um conceito e qual é sua função em um Léxico numa dimensão comparada e diferencial, foi um dos centros

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cruciais do diálogo até agora articulado. Essa pesquisa pode contar com uma vastíssima tradição com que confrontar-se. Sobretudo a perspectiva da história conceitual, na linha em particular da Begriffsgeschichte, de Reinhart Koselleck, foi amplamente incorporada no trabalho comum, sobretudo no que diferencia sua ontologia teórica da semântica histórica dos nomes. O acréscimo de desafio que o projeto efetivamente bilateral assume é situar o conceito dentro de duas tradições de pensamento, não autotélicas, mas complexamente conectadas uma com a outra, em particular se pensarmos na arqueológica trama colonial que é implicada. Esta não deve ser descartada, mas pelo contrário repensada a partir das ideologias da modernidade - os modernismos - que se depositaram em cima dela, como emerge aliás dos verbetes-amostra que aqui se apresentam. Um tópico, portanto o do pano de fundo do colonialismo, que multiplicou a densidade da revisão conceitual entre o Brasil e a Europa. A história conceitual apresenta assim sempre uma diatopia que incrementa o esforço teórico inclusive pelas conexões - de poder, históricas, culturais etc.- que a pautam e impedem-lhe de ser pensadas, de modo simplório, como uma dicotomia. O exercício que se combina com o esforço de formulação de uma história de alguns conceitos capazes de exporem as turbulências, as variações, as deslocações que ocorrem por baixo da superfície aparentemente estática do nome, provocam uma reflexão específica sobre o próprio nome ou o nome próprio. De fato, um elemento que surge nos questionamentos aqui reunidos é o problema do nome próprio, que remete a um amplo debate contemporâneo: pensar o conceito como nome próprio significa encontrar a sua denominação não só num momento lustral ou de fundação da própria categorização, mas em particular no contexto de significação que torna aquela palavra um nome próprio e não um comum. Situá-lo então numa linha crítica que em certas vertentes de estudos encontrou ampla fortuna teórica (por exemplo, Donna Haraway), proporcionando uma modalidade de reconstrução conceitual renovadora e pertinente. Especialmente, num contexto semântico como este, flutuando entre o Brasil e a Europa, tem condições de captar as diferenças e, portanto, torná-las suficientemente porosas para uma sua possível, efetiva “tradução”. 13


Este livro representa assim a estréia de um jogo inovador e complicado que pode realmente levar muito longe. Se a preocupação metaconceitual como se codifica - prevalecesse como uma componente essencial de diferentes linhas de pesquisa que ocorrem entre os dois lados do Atlântico, no horizonte futuro se poderiam conjecturar ações mais sistemáticas de articulação de um patrimônio conceitual que, no contato crítico com aquele de outro contexto, se repensa e se renova. O CEBRAL, em suma, é uma plataforma aberta e ampla, capaz de transformar em profundidade, a partir de um recorte científico aparente e erroneamente confinado só ao âmbito das ciências humanas, as relações e os diálogos aliás não só científicos, mas também institucionais, políticos, culturais e sociais, entre o Brasil e a Europa. É o desideratum ambicioso e latente que atravessa este livro, mesmo nas suas imperfeições e nos seus vácuos. *** Esclarecidos esses pontos, podemos passar àquilo que o leitor encontrará nas páginas que seguem, ao modo de verbetes de uma enciclopédia ou de um dicionário, mas de qual conjunto se espera algo mais, não plenamente assimilável nem a um nem a outro, nem a seus sinônimos ou quase sinônimos mais ou menos correntes, como glossário ou vocabulário. Trata-se, como já comentado, de um Léxico conceitual, vale dizer linguístico-conceitual, organizado como index de palavras, agrupando as sinonímias e as antonímias, paralelamente ao esforço de sua conceitualização ou categorização lógicolinguística, associando as matrizes e as derivações ou afiliações. Ao tomar esse caminho, estaremos inovando as experiências consagradas e ao mesmo tempo nos inscrevendo numa vasta tradição, ao explorar seus exemplos e virtualidades. Assim, a decisão de dar ao gênero literário em construção o nome Léxico: do grego Lexikon, cuja raiz vem de lexis, que significa “palavra”, e acerca do qual o excelente dicionário francês Robert, a exemplo de outros, associa o seu recueil a “dicionário”, bem como a “vocabulário” e a “glossário”, aos quais não teríamos dificuldades em acrescentar a “enciclopédia”, como

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a de Diderot & D’Alembert e a variante contemporânea Einaudi, além do vocábulo latino Thesaurus. Este, menos corrente, e mesmo em franco desuso em português-brasileiro, porém com serventia em inglês, que lhe guarda o nome tal qual, ao explorar a acepção do velho latim de compilação ou coleção, bem como em francês, ao se referir ao recueil, além de thésaurus, ao guardar o latim, que Robert aproxima de Léxico, ao falar de léxico filológico ou arqueológico, no qual serão verdadeiros “tesouros” linguísticos - e desde logo com sua antiguidade garantida e dicionarizada, com os prestígios do classicismo e da erudição, e, reatualizado o gênero, por influência do inglês, referindo-se aos Thésaurus techniques modernizados, igualmente organizados em vocábulos normatizados ou codificados de diferentes tipos de documentos (lembremos que o termo latino codex provém de caudex, que originariamente significava tronco de árvore, e depois passou a designar, também por derivação, tabuinhas de escrever, e ainda o seu resultado, o livro ou o registro). Então, rigorosamente, o nosso Léxico terá um pouco desses componentes, ao mesmo tempo que deverá introduzir alguns tours de forces analíticos para garantir sua novidade, sem que o novo resulte em embuste ou pretensão vã. Vejamos então. Primeiro, por se propor como um estudo histórico e comparado, emparelhando os dois lados do oceano, Brasil e Europa, e tendo por foco as experiências e as agendas contemporâneas dos dois continentes - nesse sentido, diferente do Iberconceptos e da História Conceptual de Koselleck -, atento, porém, aos seus legados históricos, como o colonialismo, a escravidão e o Novo Mundo como zona de expansão do Velho. Segundo, mais do que uma compilação ou um recueil com entrada em verbetes conforme a ordem alfabética, por se propor como um Léxico linguístico-conceitual, ao explorar metodicamente a acepção desse termo encontrado em vários idiomas como conjunto de palavras (lexis) de uma língua, “considerado abstratamente”, como sublinha Robert, o qual irá compor o código (codex) de dada língua ou de um conjunto de línguas. Ou seja, especificamente, o português-brasileiro, o português-luso, o italiano, e, virtualmente, como expansão do projeto num horizonte próximo, o inglês como língua franca dos dias de hoje, ao colocar o problema da “reductio ad

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unum”, como bem notou Roberto Mulinacci em seu instigante estudo sobre o metaléxico. Por um lado, em seu componente linguístico e lexicográfico, o expediente de tomar as palavras, cada uma delas considerada “in abstracto” (Robert), fazer o inventário do seu campo semântico, focalizando suas significações várias atuais, para além das raízes, e correlacioná-las com outras e outras, visando os termos sinônimos, os antônimos e os pseudo-sinônimos (p. ex., desenvolvimento e crescimento), como viu Roberto Vecchi. Por outro, em seu componente lógico e epistêmico, ao reter este ou aquele significado do vocábulo e de um conjunto de vocábulos, propor-lhes o conceito e desenvolvê-lo como uma prototeoria, deixando-a à disposição do leitor e futuro usuário. Esse componente ou aspecto do Léxico, levado a cabo ao tomar a via do trabalho intelectual sobre o vocábulo, correlacionando-o com as informações extraídas da realidade, com o Brasil e a Europa como contexto e na linha de frente. Deixando de lado as enormes dificuldades técnicas ligadas à operação de conceitualização, conhecidas dos medievais desde a célebre querela contrapondo os partidários do realismo, do nominalismo e do conceitualismo, cujos ecos longínquos serão encontrados em Frege, que nunca conseguiu se livrar dos paradoxos que a acompanham a dita operação, o Léxico terá de lidar com eles e deverá propor uma estratégia de senão vencêlos, ao menos operá-los. Tal será o caso do expediente da pragmática do nome próprio, conforme mostra Roberto Vecchi em seu estudo consagrado ao metaléxico, desenvolvido na primeira parte do livro. Veremos, então, que estará em jogo no Léxico algo mais do que trabalhar as propriedades lógicas ou autológicas do conceito, levando o lógico tradicional a dizer que o conceito é igual à sua definição, como em “o quadrado é constituído de quatro lados iguais” ou em “o homem é...” isto ou aquilo, ao opô-lo a ”nãohumano” ou ao designar uma das suas propriedades ou da do próprio ser humano, como a razão ou a linguagem. Terceiro, o propósito de erigir aquilo que estamos denominando, na esteira do códex, o mapa ou antes a matriz conceitual de uma constelação ou um conjunto de vocábulos e conceitos. Caberá ao leitor avaliar se essa operação foi bem-sucedida ou não. Ela levará à prospecção dos documentos e registros em busca dos vocábulos e das matrizes. Assim, por exemplo, a prospecção dos vocábulos em Guimarães

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Rosa, Grande Sertão: Veredas, sobre a qual uma análise filológica fina nos levaria à pesquisa metódica desenvolvida pelo autor do português medieval, em sua proximidade com o castelhano. Antes de mais nada, a exploração do termo sartaam que está no centro e decide tudo, e como tal encontrado nos diários de Vasco da Gama e na Carta de Caminha, com a acepção de “para lá das costas ao longo das quais os portugueses navegavam” e, mais tarde, por expansão metafórica, passando a designar as longíquas terras do interior. Como as do Brasil, quando da expedição de Cabral, antes que a colônia tivesse sido batizada, e como no caso de Guimarães Rosa, ao designar as terras dos Geraes nas cercanias de Sete Lagoas, rumo ao Norte e à Bahia. Contudo, é algo mais do que o léxico de Guimarães que está em jogo - aliás, já há um existente, e por sinal excelente, como o publicado pela EDUSP, de Nilce Sant´Anna Martins, em sua terceira edição -, mas levar a cabo aquilo que será o mapa dos mapas ou a matriz conceitual dos estudos do Brasil e das suas relações com a Europa: o território ou os territórios, a sua ocupação, a colônia, a metrópole, a pertença, o próprio e o impróprio, o “em comum” e os deslocamentos conceituais que levarão do farwest referindo-se das vastas savanas secas de Minas às expansões metafóricas e conceituais, o emprego do termo “ultramar”, de início cunhado pelos portugueses para designar o mundo mediterrâneo, do outro lado, apontado para a “Terra Santa” ou a região limítrofe ao Velho Israel no tempo das Cruzadas, e posterirormente designando o além do Oceano recém avistado e visitado, num tempo em que o Atlântico era designado como Mar Oceano, como aliás ocorrerá com o francês e outras línguas europeias: outre-mer, etc. É esse esforço de conceitualização, envolvendo mais do que a busca das raízes etimológicas, que estamos chamando de matrizes linguísticoconceituais, ao abarcar a pesquisa sobre o vocábulo e a ideia. Ou seja, por um lado, o significado de base, como em termo-base, evitando, porém, a contraposição filológica entre próprio e figurado, ou ainda a exploração de outras e não menos importantes virtualidades encontradas em outras línguas, como as ideias de lugar onde algo se origina ou é gerado, como em matriz aurífera (filão) ou órgão das fêmeas (útero), bem como molde de metal usado nas tipografias antigas ou nos processos de fabricação de moedas, além da

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acepção jurídica de estabelecimento principal (sede) à diferença dos afiliados (filiais), das tabelas matemáticas e dos gráficos de estereotipia. Da mesma forma, a ideia de matrizes linguísticas, como o sânscrito no agrupamento indo-europeu, o latim como língua matriz ou língua-mãe do grupo das línguas neolatinas. Pretendemos então que algo parecido poderá ser feito com os conceitos abarcando a relação Brasil-Europa. Um bom exemplo dessa operação, que entendemos ser de natureza pragmático-linguística, bem como lógico-epistêmica, o leitor encontrará no artigo assinado por Roberto Vecchi e Margarida Calafate Ribeiro, ao explorar as várias facetas do termo “patrimônio” em seus aspectos materiais e imateriais, levando ao mapeamento das redundâncias históricas e culturais, junto com seus diferenciais individuais e coletivos, nacionais e transnacionais: assim, patrimônio, herança, legado, transmissão, influência, bem como monumento, tradição, propriedade, posse, pertença, comunidade, em comum, não-comum, outrem, colônia, metrópole, além de língua (o portuguêslusitano e sua crioulização), território e mapa, e acrescentando ainda o trauma, o esquecimento e a pós-memória. Ou seja, uma rede de identidades e de diferenças, abarcando termos e usos primitivos assim como expansões e usos derivados, sem qualquer fetiche do primevo ou incorrer na obsessão que vitimiza os historiadores chamada pelos franceses de hantise des origines. Nada disso: mais do que a raiz, o que importa é o uso e a constelação atual, o que não impede a descida no curso do tempo, levando os autores a explorar as raízes de patrimônio, resultante em latim da combinação de munus (em uma de suas acepções: bem, dom, legado) e pater (pai), na origem os bens físicos deixados pelo pai ao falecer, e que será expandido depois tanto no tocante ao munus, ao abarcar os bens intangíveis da cultura como o conhecimento ou a dança, quanto ao pater, ao designar o Estado na pessoa do governante, além da nação e da própria comunidade. Não muito diferente, estes são os casos da Common Law dos ingleses e da visão dos Yanomami, tal como na fala de Davi ao falar da natureza e da sociedade em que eles vivem, no artigo de Sabrina Sedlmayer e Ana Gomes. Nesse sentido, o pater e o munus serão o protoconceito ou a matriz linguístico-conceitual que encontraremos na base das relações Brasil-Europa, antes com Portugal ao centro na relação

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Colônia-Metrópole, hoje Brasil-Europa, no contexto dialógico das relações transnacionais, abertas a diferentes protagonismos. Passemos agora ao livro, tal como ele foi organizado. Duas partes: [1] um conjunto de capítulos consagrados ao problema teórico do Léxico tal como compreendido pelos dois grupos, o da UFMG e o da UNIBO, ou o problema metalexical do Léxico Conceitual Brasil-Europa: três capítulos ao todo; [2] um conjunto de capítulos, a título exploratório ou de exercício conceitual, de natureza aplicada, versando sobre a questão da memória e do patrimônio em suas diferentes acepções e abarcando os dois lados: quatro ao todo, devendo ser lido dois a dois, como veremos. Assim, conforme a ordem das aparições: [1] Metaléxico: [i] Espaço conceitual Brasil-Europa: Inspirações a partir da Begriffsgeschichte, assinado por Alexandre Mendes Cunha (UFMG); [ii] Léxico conceitual euro-brasileiro: Reflexões metalexicais e a história conceitual, por Roberto Vecchi (UNIBO); [iii] Por um léxico conceitual Brasil-Europa: Considerações preliminares, por Roberto Mulinacci (UNIBO). [2] Exercícios conceituais: [i] Memória cultural: entre acumulação e apagamento, assinado por Miriam Ávila e Graciela Ravetti; [ii] Memória cultural: Apontamentos para uma história, por Giuliana Benvenuti e Lara Michelacci; [iii] Patrimônio/patrimônios: comunidade, língua e pós-memória, por Margarida Calafate Ribeiro (CES Universidade de Coimbra) e Roberto Vecchi (UNIBO); [iv] A diversidade é o nosso patrimônio, por Ana Maria R. Gomes (UFMG) e Sabrina Sedlmayer (UFMG). Por fim, sem a veleidade de esgotar o tópico ou de antecipar aquilo que o leitor encontrará ao longo dos estudos - missão impossível, além de redundante, e desde logo abandonada -, ao prosseguir essa Introdução ressaltaremos algumas de suas ideias axiais, junto com o propósito de seus respectivos autores. Na Parte I, primeiro estudo, intitulado “Espaço conceitual Brasil-Europa: Inspirações a partir da Begriffsgeschichte”, de Alexandre Cunha, cujo título evoca segundo o autor “o incontornável projeto editorial de um outro, e muito famoso, “Lexikon”, o Geschichtliche Grundbegriffe: Historisches Lexikon zur politisch-sozialen Sprache in Deutschland, publicado entre 1972 e 1997

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sob a coordenação de Otto Brunner, Werner Conze e Reinhart Koselleck”, cabendo destacar a contribuição de Koselleck na introdução e nos prefácios ao Geschichtliche Grundbegriff: vem a ser os assim chamados “conceitos básicos, inicialmente calculados em 150, depois caindo para 130, e no fim ficando com 119, quando a obra foi finalmente publicada. Assinale-se ainda a centralidade dos Iberconceptos, na linha da história conceitual de Koselleck, porém com outra circunscrição temporal e geográfica, ao abarcar as Américas Ibéricas, e liderado por Javier Fernández Sebastián. Enfim, a proposta, mais do que o projeto, da História do discurso, tal como concebida e executada pela Escola de Cambridge, com Quentin Skinner, John Dunn e John Pocock na linha de frente, ao ressaltarem a relevância do contexto e a interdependência do conceito e do discurso no plano da história das ideias, e em especial das ideias políticas. No segundo estudo, de autoria de Roberto Vecchi, que igualmente remete a busca de embasamento aos mesmos referenciais teóricos, conferindo especial destaque ao legado de Koselleck, especialmente as noções de matriz e história conceitual, ao mesmo tempo em que trata de inserir na agenda do Lexicon as ferramentas da pragmática linguística , na linha dos atos de fala de Austin e da Escola de Oxford. Porém, redirecionando a sua circunscrição inicial filosófica em favor de uma orientação propriamente linguística, ao estabelecer o emparelhamento entre a política performativa dos nomes e a política performativa dos conceitos. A estratégia seguida consistirá em aliar aquilo que o autor chama de enquete semasiológica e enquete onomasiológica, entre a própria da história dos fatos e a própria história do espírito, ao ressaltar a convergência e as discrepâncias entre uma e outra, com a semasiologia orientada para a captura dos significados, atenta à mudança do significado dos conceitos, enquanto a onomasiologia se voltará aos significantes, atenta aos processos de condensação da experiência histórica num determinado conceito. Como exemplos, ao testar a acurácia e a pertinência da abordagem em seus aspectos pragmáticos, podem ser citados o exame do conceito e do factum de Auschwitz e da Shoah, nome hebreu que pode ser traduzido por holocausto ou aniquilamento, em contraste com Canudos e o Conselheiro no Brasil da República Velha, somando-se-lhes as tópicas da Revolução

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em seus aspectos astronômico e político, com duas figuras diferentes da temporalidade, uma vetorial e outra circular, e fazendo-lhes pendant no mundo da política as tópicas do golpe, da restauração da ordem e da contrarevolução, poderíamos dizer. Acrescentem-se a esstes conceitos e termos os pares não menos importantes do Império e de Ultramar, aos quais poderão ser adicionados o par Metrópole-Colônia e Estado-Nação, por exemplo, quando todo um imenso universo cultural, histórico e linguístico se oferecerá à investigação, evidenciando a pertinência da dupla pragmática dos nomes e dos conceitos, ao realizar a temeridade de transformar o nome comum em nome próprio, num Léxico como o ensejado, tendo a Europa e o Brasil como protagonistas. Ou seja, além do Brasil e da Europa, podendo ser destacados Portugal e Itália, o expediente de tratar os conceitos como nomes próprios. Precisamente, nas palavras do autor, a “preocupação metalexical, que combina a história dos conceitos com uma política performativa do nome próprio (onde, só para destacar exemplos ou casos, patrimônio é um nome próprio, assim como território, ou desenvolvimento, ou memória cultural, etc.) que permite repensar os verbetes do Léxico Conceitual Euro-brasileiro. Justamente no esforço ensaístico de dar o nome próprio às ideias em jogo, o que esclarece a meu ver também a relação estruturante entre conceitos e casos, entre categoria e exemplo”. De uma maneira ou de outra, é o que se verá realizado mais adiante no verbete escrito por Vecchi em conjunto com Margarida Calafate sobre “patrimônio”, bem como nos demais verbetes que, muito embora não invoquem o mesmo ferramental metodológico-conceitual, falarão da centralidade da pragmática dos nomes no Léxico Brasil-Europa, ao ampliarem os expedientes que eles já vêm testando no contexto da lusofonia para um domínio consideravelmente maior. No terceiro estudo, de autoria de Roberto Mulinacci, intitulado “Por um léxico conceitual Brasil-Europa: Considerações preliminares”, será a vez de um conjunto de reflexões sobre a empresa do Léxico como dicionário, com suas desvantagens da pulverização e a obrigação de entradas alfabéticas, em contraste com as alternativas que inflacionaram a cena filosófica e linguística contemporânea, como “Mapas, Atlas, Dicionários, Léxicos, etc., os quais,

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mesmo não sendo, na verdade, nem mapas, nem atlas, nem dicionários, nem léxicos propriamente ditos, aproveitam, todavia, os padrões de estruturação típicos desses objetos culturais em que idealmente se inspiram, propondo um redimensionamento crítico de praticamente qualquer assunto”. E, ainda, talvez melhor, ao aproximar o Lexicon do Thesaurus, acima referido, alinhando as enquetes semasiológica e onamasiológica. Ou seja, aquela que parte “da seleção de um conjunto de conceitos, constituindo as entradas, para remontar a uma série de significantes que se coadunam sob aqueles significados e que lhes estão associados por analogia de sentido”, ou onamasiologia, em contraste com o que “acontece com a maioria dos dicionários, inclusive os temáticos, onde prevalece um percurso semasiológico, isto é, que parte da forma da unidade lexical para a determinação do seu significado”. Contudo, embora pertinente, não é exatamente isso que o leitor encontrará no Léxico Conceitual Brasil-Europa tal como vem sendo desenvolvido pelos dois grupos de pesquisadores, da UFMG e da UNIBO. Trata-se de mapear aquilo que será o conjunto de “arquiconceitos”, ou os conceitos primevos, visto que em grego archi vem de archein e pode significar tanto o primeiro como o principal. Contudo, à diferença de um Thesaurus, que marcha da ideia ao vocábulo, ou do significado ao significante, o nosso Léxico seguirá um outro caminho, ao trocar a correspondência biunívoca ou a linha significado/significante, ou vice-versa, pela referência cruzada de uma e de outra ou ainda da semasiologia e da onomasiologia, sem que haja exatamente uma matriz primitiva geradora, algo como uma arché, podereríamos dizer, mas um verdadeiro hipertexto. Ou nas palavras do autor: “Em outros termos, o projeto lexicográfico que estamos esboçando deveria combinar a forma do dicionário - de que, imagino, vai acabar por tomar emprestado um critério de ordenação alfabética, o qual, não obstante se trate de um recurso sem dúvida convencional, não tem, no meu entender, alternativas -, com a forma de um verdadeiro hipertexto, cuja estrutura consistiria basicamente em uma textualidade aberta e potencialmente infinita (daí a legitimidade da denominação de léxico), composta por textos descontextualizáveis, verticais e acessados por links não sequenciais (e, claro, o suporte digital vai proporcionar uma consistente rede de relações entre

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as diversas unidades lexicais e facilitar o percurso de um texto para outro através dessa base de dados)”. A título de exemplo, esses seriam os casos de termos como “ambiente” ou de pares desenvolvimento/crescimento e norma/exceção, herdados do projeto do IBE e assumidos pelos dois grupos, em que não teremos dificuldades, ao operá-los, em marcar uns como antônimos, como norma e exceção, e outros como pseudo-sinônimos, como crescimento e desenvolvimento, devendo ser reservado ao termo ambiente outra estratégia analítica: não exatamente tomá-lo como sinônimo de território, na sua acepção geográfica, em vez de política, mas antes, como propõe Roberto Mulinacci, em vez de congelar o termo num conceito, tomá-lo como “uma ferramenta analítica útil para tornar aquelas tradições legíveis, reinterpretáveis conforme o contexto linguísticogeográfico de referência”. Então, só então, com esse aparato metodológico crítico-pragmático apurado e ajustado aos diferentes contextos, estaríamos habilitados a dar um passo a mais e partir em busca da tradutibilidade linguística dos vocábulos e conceitos: não só ao focalizar o italiano e o português, como expressões do grupo neolatino, assim como o inglês como língua franca internacional, com as facilidades e os perigos que a cercam a um só tempo tão ansiada como temida reductio ad unum. Ao iniciar a Parte II, consagrada às aplicações e aos estudos de casos, abarcando os dois lados do Oceano, o primeiro da série visa a “Memória cultural”, como lembrado, e inicia-se pelo capítulo de Myriam Ávila e Graciela Ravetti, com o Brasil na linha de frente e tendo por subtítulo “Entre acumulação e apagamento”. Para tanto, antes de eleger os casos emblemáticos recolhidos da literatura e das artes plásticas - esse é o propósito -, foi preciso estabilizar os conceitos de cultura e de memória, bem como definir a estratégia metodológica adequada ao tratamento das matérias em apreço, caracterizadas pela vastidão e diversidade. A começar pelo conceito de memória, ao se deparar com a lembrança e seu par esquecimento, e ao considerar seus aspectos individuais e coletivos, bem como seus componentes biológicos, psíquicos, históricos e culturais. O apoio para essas incursões foi buscado no sociólogo francês da escola durkheimiana, Maurice Halbwachs, autor de dois livros luminares sobre

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o assunto, ao colocar no primeiro plano as noções de social e de coletivo: [i] Les cadres sociaux de la mémoire, publicado em 1925; [ii] La mémoire collective, postumamente, em 1950. Nas palavras das autoras, ao ressaltar-lhes a enorme relevância: “A memória, em seu significado coletivo (Halbwachs), tende a se cristalizar em objetos. Mais frequentemente associada a imagens (lembremo-nos apenas que, até a invenção de técnicas de gravação, os sons eram traduzidos em imagens - notação - sem as quais a memória sonora não iria além de poucas gerações) e a narrativas, a memória costuma evocar um corpus que idealmente lembraria um museu ou, em um sentido mais amplo, uma coleção de itens à qual se relaciona uma série de palavras-chave como acumulação, acessibilidade, materialidade, permanência, herança. Quando o adjetivo ‘cultural’ é acrescentado à palavra memória, o conceito de museu passa a projetar uma sombra que vai além da iconicidade e que, de certa forma, embaça os seus contornos. Sugestões de lugares, afetos (Freud), identidade/identificação espreitam na sombra projetada e por fim colocam em movimento a ideia antes estática de memória”. E continuam as autoras, à guisa de conclusão: “É diante desse espaço sombreado que as diferentes percepções do significado da memória cultural demandam um esforço de elaboração como o que se empreende em um Léxico Conceitual Brasil-Europa”, abrindo, pode-se dizer, o caminho que nos levará às matrizes conceituais da memória cultural, num sentido próximo de Halbwachs, na esteira das palavras-chave supra-referidas, bem como da fixação da pertinência da memória cultural ao sofrer a concorrência com a memória histórica. Esse é o caso de Pierre Nora ao falar dos lugares da memória da história, como museus e memoriais, tornando o expediente da distinção entre memória social, memória coletiva e memória histórica uma tarefa necessária, porém de conclusão impossível, devido aos seus inúmeros rebatimentos. Passando à cultura, ou antes a seu conceito - provisório e programático, todavia, dada a impossibilidade de no início ou de saída definir tudo num par de frases, requerendo ao contrário toda uma teoria e com ela uma suma de conceitos -, cujos definiendum e escopo foram buscados em Williams, tal como estabelecido no trecho que segue, conforme as autoras, ao ressaltar as dificuldades encontradas e a solução empenhada. Ou seja: “A dificuldade do

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termo é, pois, óbvia, mas pode ser encarada de maneira mais proveitosa como resultado de formas precursoras de convergência de interesses. Podemos destacar duas formas principais: (a) ênfase no espírito formador de um modo de vida global, manifesto por todo o âmbito das atividades sociais, porém mais evidente em atividades especificamente culturais uma certa linguagem, estilos de arte, tipos de trabalho intelectual; e (b) ênfase em uma ordem social global no seio da qual uma cultura específica, quanto a estilos de artes e tipos de trabalho intelectual, é considerada produto direto ou indireto de uma ordem primordialmente constituída por outras atividades sociais”. Tal é, pois, o campo da cultura, dilatado sem dúvida, por não se limitar à cultura letrada, e as referências apoiadas são inúmeras, como Raymond Williams, autor de Culture and Society, publicado em 1958, ao abrir caminho para os estudos culturais e que no final será a perspectiva das autoras. Ora, em se tratando de memória cultural, mais do que social ou histórica, nada mais natural e intuitivo do que buscar suas fundações ou embasamentos na literatura e nas artes visuais, como ambas propõem. Bem entendido, não exatamente no sentido de rastrear seu atestado de nascimento na carta de Caminha ou adiá-lo para um pouco mais tarde. Mas de buscar suas raízes, diga-se as raízes da cultura literária brasileira no período pós-independência, depois do tournant de Machado e em pleno século XX-XXI, não dispensando, porém, a tarefa de recensear - num período tão pobre de registros e de imagens - os registros acerca do que outros disseram de nós, a exemplo dos viajantes que por aqui estiveram no século XVIII e XIX, como Saint-Hilaire e Eschwege. Já a estratégia metodológica seguida, conforme as autoras, é de natureza interdisciplinar, se não transdisciplinar, resultando do cruzamento entre os estudos culturais, protagonizados por Benedict Anderson e Jan & Aleida Assmann, e os estudos coloniais, com Homi Babha na linha de frente, muito influente nos EUA e também entre nós, autor prolífico e reputado pela publicação da seminal The location of culture em 1994. Trata-se, portanto, consoante à metodologia, de inscrever um sem-número de referências cruzadas - em claro desafio às zonas de conforto e enciumadas da cultura disciplinar -, como cuja ajuda e respectivos operadores as matrizes conceituais serão fixadas e correlacionadas.

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Quanto a essas matrizes, ao precisar a estratégia metodológica, conforme as autoras, elas vão adotar “a definição de cultura como o conjunto dos bens de identificação de um grupo. Essa opção tem como premissa a relevância absoluta da identificação como formadora da cultura. Só existe grupo se houver identificação. Os bens de identificação: língua, comida, traje, ritmos, dança, hábitos, são como senhas ou documentos de identidade. À persistência de sua validade no tempo pode-se chamar memória. Existem pertencimentos simultâneos a grupos em vários níveis: familiar, profissional, associações esportivas e outras, associação política, filiação artística, nação, etnia, gênero, adesão a contingências temporais. Alguns desses pertencimentos exigem comprometimento público, alguns são tácitos e de caráter subjetivo”. Tudo isso faz um conjunto, certamente, mas não autoriza a esperar uma totalidade homogênea, havendo gaps, rupturas e descolamentos em mais de um ponto e em diferentes esferas ou entradas. Por fim, o campo de aplicação é antes de tudo a literatura, não faltando, contudo, remissões às artes visuais, como o cinema, e tendo como escopo na literatura uma boa selecta de obras e autores. Ou seja: nas artes visuais, o filme Sábado, de Ugo Giorgetti, lançado em 1995, o qual se passa no interior de um edifício decadente no centro de São Paulo. Em literatura, um conjunto rico e variado, indo desde Cobra Norato, de Raul Bopp, ao lado de Macunaíma, de Mário de Andrade, passando por Vidas secas, de Graciliano Ramos, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, até as mais recentes As iniciais e Nove noites, de Bernardo Carvalho. O desafio - além de fazer a tópica dos lugares da memória cultural, resultando em heterotopias do mundo da cultura caracterizado pela diversidade e pela coetaneidade do não-coetâneo, para usar uma fórmula já consagrada, tendo por vetor temporalidades diversas, com o arcaico coexistindo com o novo - será também fazer a tópica do esquecimento, com os traumas e os genocídios em massa do nativo, aliados aos martírios e desenraizamentos dos escravos afros arrancados da Mãe África. Então, mais uma vez, como viram Nietzsche e Ricoeur, memória vai junto com esquecimento, variando o mais ou o menos segundo o contexto e as situações, e acarretando a necessidade de contrastar a saturação da memória na Europa

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e o déficit do Brasil colonial e mesmo pós-colonial, ao alimentar a tópica da defasagem e do atraso, de fato um sem lugar e uma verdadeira distopia. Terminando, ao tirar as consequências práticas para a modelagem daquilo que poderíamos chamar de política da memória, trata-se de defender políticas públicas plurais e democráticas, bem como os direitos das minorias, redundando, mais do que em monumentos, efemérides e feriados nacionais, numa memória rigorosamente viva e social - tópicos aos quais remetemos o leitor e com os quais o estudo chega ao fim, ressaltando os papéis diversos e complementares das diferentes gerações como agentes e vetores da memória coletiva, como no verso genial de Phyllis McGinley em Praise Youth, traduzido por Drummond e citado em epígrafe: Louvor aos jovens: declaram guerra A mitos, ídolos, documentos. Mas, derrubado o vaso de flores, Louvor aos velhos - catam os fragmentos.

O segundo capítulo, que faz pendant com o primeiro, de autoria de Giuliana Benvenuti e Lara Michelacci, versa sobre a Europa e propõe-se a realizar objetivos parecidos, porém recalibrados para outros contextos e com outras pertinências. O subtítulo, dando ideia do caráter programático do verbete, algo como um work in progress, é “Apontamentos para uma história”, e levado a cabo mediante alinhamentos doutrinais que nos trazem de volta aos estudos culturais. Paralelamente, numa outra vertente, as autoras os associarão aos estudos pós-coloniais, levando-as a rever a centralidade do Velho Mundo frente à periferia descentrada do Novo Mundo - o Ultramar, em certas nomenclaturas -, junto com a necessidade de introduzir as tópicas, as heterotopias e as distopias, como se verá, ao forçarmos os “apontamentos” apresentados. Assinale-se nesta investida o papel de grande proeminência reservado ao par memória / esquecimento, ao objetificar tanto o recalcado como a Shoah e seu par no Brasil de anos recentes, assim como na Argentina, com a tópica dos desaparecidos e da tortura nos porões das ditaduras sul-americanas

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(exemplos meus; porém, contextuais). Trata-se, em suma, da operação de objetificar e dar corpo e voz àquilo que já não tem mais corpo e perdeu a voz na noite do tempo, e em que se pode ver as operações da memória, vistas em seu aspecto pragmático e linguístico, nos termos de Austin, ao pensar os atos de fala como a operação de fazer coisas com palavras. Ou seja, conforme as autoras: “Como se observou, os modos de ‘sublinhar, arquivar, fazer circular vestígios’ influem ‘nas atividades simbólicas de um grupo’ [Debray - ver referências bibliográficas]. Vale a pena recordar que a conservação da memória e a sua sobrevivência parecem se desenhar a partir de um reservatório que constitui patrimônio comum: ‘Quer se trate de objetos ou documentos, de Pathosformel, engramas (traços neurais de uma lembrança) ou lugares de memória, ou ícones culturais: definir, detectar, formatar os vestígios do passado, e, em seguida, transformá-los em memórias compartilhadas são as operações fundamentais na economia e na política da memória cultural’”. Esse será, portanto, o escopo do estudo, ao introduzir o olhar europeu e buscar as matrizes conceituais. O leitor irá notar, ao percorrer as páginas deste estudo instigante, o alinhamento a autores com diferentes cabedais e provenientes das mais variadas áreas do conhecimento, como Benjamin (esquecimento), Foucault (arquivo), Todorov (alteridade), Pierre Nora (lugares da memória), Saïd (imperialismo e seu par humanismo), Malinowski (a centralidade dos relatos de viagem e os três alter-egos do antropólogo, conforme James Clifford), Halbwachs (a memória cultural como modalidade da memória coletiva) e Michel De Certeau (o ofício do historiador como “estranho procedimento que põe a morte, a fratura sempre repetida no discurso e que nega a perda, atribuindo ao presente o privilégio de recapitular o passado em um saber. Elaboração da morte e elaboração contra a morte”). Assim como uma infinidade de nomes e obras menores povoando a literatura secundária, como Appadurai, que vê o colonialismo como “confinamento” e “aprisionamento” expresso por uma hipostasiação que ele define como “congelamento metonímico”. Quanto aos estudos de caso, ao longo dos quais a fertilidade e a pertinência dessas ferramentas e operadores conceituais serão testados e

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avaliados, eles serão de dois tipos ou de duas ordens: [i] A memória do passado, protagonizada pelo artista Anselm Kiefer, consistindo numa megainstalação realizada em 2004 em Milão para a Hangar Bicocca, ao dar ensejo à série “Sete palácios celestes”, baseada no Sefer Hekhalot, um tratado hebraico do século V d. C., de fundo místico, segundo as estudiosas, e abarcando a instalação um conjunto de torres de 14-18 m - e o que é importante: nessa experiência a um só tempo artística e intelectual, com o autor às voltas da necessidade de objetificar o tempo cósmico e o tempo humano, ajustandoos, e ao mesmo tempo dar vazão à experiência mística de todo um povo e ao sentimento de melancolia dele próprio, autor, diante dos escombros da história, fazendo lembrar Walter Benjamin; [ii] A mise-en-scène do passado: Lugares da memória e Memory museums, tendo como protótipos o Churchill Museum, de Londres, bem como um conjunto de museus e memoriais da Segunda Grande Guerra, como poderia citar os de Treblinka e Auschwitz, em memória do holocausto, ou o Memorial Peace Museum, localizado em Caen, consagrado aos Aliados de uma maneira mais ampla. Duas observações: trata-se, essa segunda ordem de exemplos, visada em sua abrangência, de uma excelente ilustração dos lugares da memória do livro famoso de Pierre Nora, conforme lembram as autoras, citando o eminente historiador francês. Ou seja, tal como ele os define: “Lugar da memória é uma unidade significativa, de ordem material ou ideal, que a vontade dos homens ou o trabalho do tempo transformou em um elemento simbólico de uma comunidade qualquer [...]. O lugar da memória tem como escopo fornecer ao visitante, ao passante, o quadro autêntico e concreto de um fato histórico. Torna visível aquilo que não o é: a história [...] e une em um único campo duas disciplinas: a história e a geografia”. Contudo, ao longo desse processo, de rara contundência nos memoriais da Shoah, ao qual se pode acrescentar o Museu do Terror, de Budapest - não menos contundente para as esquerdas, ao evocar os métodos do totalitarismo estalinista, ainda que icônicos e incontornáveis - não irão autorizar uma visão monumental da história tendo como protagonistas os grandes homens, inclusive os bestasferas, como Stalin e Hitler [Para todo o trecho, exemplos meus]. Mais do que cemitérios, museus e memoriais, a memória histórica e cultural pode

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assumir formas diversas e requerer em sua consecução abordagens múltiplas, ao usarem os dispositivos das tecnologias da informação e da comunicação, ou ao colocarem em cena coletividades e sujeitos anônimos. Então, como elas nos lembram, “se, como escreve Nora, os lugares da memória ajudam a ‘fechar o tempo, bloquear o trabalho do olvido, fixar um estado de coisas, tornar imortal a morte, materializar o imaterial para capturar o máximo de significado no mínimo de signos’ não será decerto indiferente a maneira como o fazem”. Esse ponto nos traz de volta ao argumento pragmático-linguístico e à política dos nomes. Por um lado, Nora está certo, ao distinguir os dois polos, memória e história. Assim, escreve: “Memória e história não são por certo sinônimos, tudo os opõe. A memória está sempre em evolução, sujeita a todas as utilizações e manipulações; a história é a reconstrução, sempre problemática e incompleta, daquilo que já não é. Carregada de sentimentos e de magia, a memória se nutre de lembranças vagas a história, enquanto operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso crítico. A memória coloca a lembrança no âmbito do sagrado, a história a expulsa daí e a torna prosaica”. Por outro, Nora não viu tudo e a perspectiva por ele aberta deverá ser ampliada: “A par do trabalho das instituições na construção e conservação da memória, há ainda o dos artistas, que, também em contato com as instituições e a indústria cultural, refletem sobre as formas de transmissão do passado e sobre como levar até os pósteros a nossa memória cultural, mostrando, como a distinção de Nora, embora cômoda, é insuficiente para dar conta do complexo entrelaçamento entre memória e história, entre história e histórias plurais, múltiplas, atravessadas pelo olvido e dele reemersas”. Terminando, ao ressaltar os mecanismos da operação da memória cultural e que não é outra coisa senão a operação de objetificação que levará à espacialização das representações temporais, tais como nos lugares e monumentos da memória, o modelo segundo as autoras será o quadro de Robert Rauschenberg. Considerado um dos pioneiros da Pop art, o qual glosa um desenho depois apagado e descartado de Willem Kooming, mestre do expressionismo abstrato e a cuja corrente também era ligado,

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ambos norte-americanos: modelo benjaminiano ao fim e ao cabo, como nota Fiorentino, citado pelas autoras, o qual não tem dificuldade em mostrar estar em jogo o tema da memória cultural “enquanto interrogação sobre a possibilidade do apagamento e sobre o estatuto do vestígio”, e como aliás mostram “o caso do desenho de Kooning, que está presente apenas graças à obra de Rauschenberg”, já que não existem nem o próprio desenho nem alguma fotografia dele. Presença de uma ausência, em suma, em que “a obra sobrevive unicamente graças aos vestígios” objetificados e em cujo exemplo elas veem a “dimensão performativa do agir cultural”, ao mesmo tempo em que reconhecem tacitamente os serviços da pragmática linguística, posto que nesse terreno nada se faz ou pode ser feito sem a linguagem em seus aspectos semióticos e linguísticos - donde a pertinência e os serviços da fórmula inglesa “How to do things with words” poderíamos dizer ao acrescentar-lhes os símbolos, como no casamento e no batismo, e como também na memória cultural ao objetificar o passado ou algo que foi e não é mais, mediante memoriais, museus, monumentos, depoimentos e imagens icônicas. Quanto ao estudo de Roberto Vecchi e Margarida Calafate Ribeiro, o terceiro da série, tendo como foco o tema do Patrimônio, que deverá ser lido conjuntamente com o texto de Sabrina Sedlmayer e Ana Gomes. O título do artigo em apreço é “Patrimônio/patrimônios: comunidade, língua e pós-memória”, e o escopo é amplo, denso e variado, conforme largamente comentado antes, poupando-nos de voltar aos mesmos pontos, bem como o próprio leitor da fadiga da repetição, como na questão das matrizes linguístico-conceituais, geradas a partir da díade pater/munus, ou da defesa da política pragmática dos nomes próprios. Então, trataremos de tangenciar o já feito ou o déjà-vu, para focalizar outros tópicos, e não de menos interesse. Antes de mais nada, o escopo do patrimônio e sua abrangência, junto com as dilatações e as arestas ou tensionamentos vigentes ao longo dos séculos e mesmo milênios, poder-se-ia dizer, com o paterfamilias do direito romano no centro, podendo ser recuado ao despotès grego ou estendido ao senhor da casa-grande do Brasil colonial, qual um senhor feudal em seu

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castelo, e longe do mundo da política, decidida na metrópole do além-mar. Desta protohistória surgirão os equivalentes modernos, e não exatamente sinônimos, patrimônios nacionais, ou regionais, ou ainda transnacionais, como os patrimônios da civilização, do Ocidente, Mundial e da Humanidade. Todos eles em defesa ou em situação de fragilidade, diante do entorno e do avassalamento da idade da indústria e da era das revoluções que marcaram o Ocidente moderno. Contextos em que é possível reconhecer o embate de fundo entre o nacionalismo romântico, em defesa das tradições ameaçadas, e as diferentes aufklarungs orientadas para o futuro, em busca do novo, ao moldar uma nova humanidade, e gerando em seu encalço a era das revoluções. Exemplos não faltam, com efeito: a Gloriosa da Inglaterra, a Americana, a Francesa e, claro, a Russa. Então, estavam definitivamente atadas como destino moderno a Idade da Indústria e a Era das Revoluções, as quais, embora distintas, no fundo são uma só, deixando em seu rastro os escombros de um tempo que foi e não é mais - o ancien régime - e o sonho milenarista da volta e do novo. No fim, nas últimas décadas do século XX, será a vez do fim das ilusões das Luzes e das grandes metanarrativas da Razão, da Ciência e das Revoluções, ficando em seu lugar os restos e os cacos, que levarão em nossos dias ao discurso da pós-verdade, da póshistória e da pós-memória. Ora, o verbete se ocupa de tudo isso em uma de suas vertentes, atento ao que se passa alhures nos diferentes pontos do planeta em plena era de globalização, e, ainda espremido entre esses dois contextos temporais contrapostos, os temas do colonialismo e da lusofonia, com Portugal e Brasil na linha de frente. Como nos estudos anteriores, a estratégia metodológica seguida consistiu em aliar [i] as ferramentas analíticas e os operadores conceituais dos estudos culturais, correntes nas Faculdades de Letras brasileiras já faz uma data, disseminados no mundo inteiro e tendo como centro irradiador os Estados Unidos, [ii] à perspectiva e aos expedientes dos estudos pós-coloniais, protagonizados por Bhabha em Chicago e sua obra seminal, e incluindo ainda no contexto latinoamericano Beatriz Sarlo e Walter Mignolo, este atuando atualmente na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e aos quais deve ser acrescentado ainda o mexicano Anibal Quijano. É, pois, nesse

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quadro mais amplo que comparece tanto a estratégia pragmático-linguística dos nomes, e em especial dos nomes próprios, levando à desconstrução dos cânones elitistas da literatura ocidental, quanto o tournant pós-colonial ou de-colonial de dar a voz aos desvalidos e silenciados deste mundo, como no holocausto, no genocídio dos nativos das Américas e nos porões das ditaduras sulamericanas. Não podendo nos deter mais sobre esse ponto, apressemo-nos para situar aquele que será o núcleo duro da estratégia argumentativa desenvolvida no restante do estudo, a saber: o projeto Patrimônio de Origem Portuguesa no Mundo - arquitetura e urbanismo, liderado pelo historiador português José Mattoso, patrocinado pela prestigiosa Fundação Calouste Gulbenkian e com a implantação inciada em 2007. Conforme lembram os autores, o mesmo foi uma empresa de grande envergadura, envolvendo “a participação de cerca de 70 especialistas portugueses e brasileiros, mas também norte-americanos, franceses, angolanos, moçambicanos. Os lugares selecionados ultrapassam os 500 e as entradas se aproximam das 2.000. Os resultados do projeto vieram a público em 2010, com a publicação de três volumes, terminando em 2011 com a publicação de um volume de índices. A versão inglesa foi publicada em 2011-2012. Um dos resultados posteriores da pesquisa foi ainda a realização da plataforma http://www.hpip.org, hoje acessível universalmente e inaugurada em 2012”. Tudo isso impressiona e coloca-nos no cerne do verbete em uma das suas vertentes. Como lembram os autores acerca do projeto, nota-se ao longo da sua execução no tocante ao par munus e pater, ao considerar o tal patrimônio, a consideração de termos e de categorias tais como os nomes próprios Portugal, Império Luso ou equivalente, Metrópole, Reino e vários outros, para ficar com a comunidade linguística mais vasta: de resto, sem qualquer prevalência e sem qualquer cânone castiço advindo da Metrópole, levando a equipe a trocar “o próprio” pelo “em comum” e o termo marcado “origem” pelo termo “influência”, bem como o centro do Império por um conjunto de centros ou por um sistema acêntrico ou descentrado, permitindo reversões de perspectiva e a adoção de um sistema de referências cruzadas e plurais. Foi neste quadro que a lusofonia foi pensada e um vasto patrimônio

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transnacional foi repertoriado e sancionado, assim como foi repensada a identidade lusa desde a Ibéria Medieval, as guerras contra os mouros e os espanhóis, as navegações, a dupla coroa, o esplendor, a decadência, os tempos sombrios de Salazar, a Revolução dos Cravos, o fim da experiência colonial e a reeuropeização [sequência nossa]. Para tanto, incontáveis foram as referências mobilizadas, tanto em termos de literatura primária quanto secundária: por um lado, Camões, Eduardo Lourenço e Almeida Garrett, em Portugal; por outro, no além-mar africano, Mia Couto, em Moçambique, e José Luandino Vieira, em Angola; no ultramar brasileiro, Antonio Candido e Leila Perrone-Moisés. Todos eles forneceram a matéria e o pensamento da lusofonia polifônica. E a eles se somaram outras interlocuções, dentro e fora dos estudos culturais, tais como Jean-Luc Nancy, Jacques Derrida e Michel Foucault, no campo da filosofia, além de Homi Bhabha, Beatriz Sarlo e Walter Mignollo, no costado dos estudos culturais e pós-coloniais, Bhaba e seus locais da cultura, Mignollo e “la razón postcolonial”, Sarlo e a pós-memória. Trata-se de um novo paradigma para pensar não apenas a identidade cultural e os bens de um país, constituindo seu patrimônio material e imaterial, junto com os bens tangíveis e intangíveis, e o maior de todos talvez a língua como o patrimônio de um povo e dos falantes, levando nos processos históricos à destituição da humanidade do outro (minha pátria é a minha língua e bárbaro é todo aquele que fala mal a minha língua, como os metecos em Atenas e os nativos das Américas, Brasil incluído, uns falando jê outros tupi, todos uns bárbaros), e paralelamente ou sucessivamente à sua crioulização e tropicalização, como aconteceu com o português nas excolônias e no Brasil. E assim, deixando de ser a língua do colonizador, para ser a língua do colonizado e da emancipação, quando uma nova perspectiva se abre - e quem haverá de negar isso?! A conclusão dessas incursões se dá na seção 10, intitulada “Coda meta-lexical: retornos fantasmáticos e cadáveres enterrados”, com o termo “coda” encabeçando o título - do latim coda/ae, ao designar a “cauda” de um animal, e, por expansão nos tempos modernos, numa direção menos prosaica, a “conclusão” ou o “arremate” de uma peça musical, como uma

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sinfonia ou uma sonata. É o que se propõem os autores ao arrematarem os estudos sobre patrimônio cultural, tendo por circunscrição as relações atuais entre Portugal, Europa e Brasil. Vejamos então. Nas palavras dos autores, ao fazer o sumário das investigações conduzidas até aqui: “A configuração do conceito de patrimônios, numa perspectiva dialógica entre a Europa e o Brasil, implica um questionamento radical que antes de tudo se refere à relação que une os atores envolvidos na delimitação semântica do conceito. Longe de captar dicotomias, os patrimônios, sobretudo quando se referem, como aqui foi discutido, a elementos imateriais como a língua e as literaturas, ganham força crítica para mostrar o quanto um ideológico e ingênuo exercício de discriminação do próprio e do impróprio é, de fato, inviável. Muito mais produtivo será, sim, a valorização do elo patrimonial com o conjunto comunitário que, mesmo não subtraindo os atritos conceituais, permite repensá-los a partir de narrativas de variada natureza - nostálgicas, emancipatórias, nacionalistas, pós-coloniais etc. - que expõem seu dispositivo ideológico e teórico de modo explícito. No diálogo entre dois contextos em contraponto como o Brasil e a Europa, o campo que pode ser valorizado - e essa discussão de certo modo confirma a oportunidade dessa relação não é tanto o da relação que une as duas vertentes e que afunda as raízes em passados ainda traumáticos e cortantes. Na verdade, o diálogo concentra-se no problema da transmissão, da herança, do legado, pois não se trata apenas de passar um legado para uma geração posterior, mas de pensar criticamente as condições em que essa transmissão ocorre. Tal circunstância altera a própria noção de patrimônio, deslocando o tema da inscrição para o da transcrição, mantendo assim uma metáfora que remete, mais uma vez, à língua e à escrita, em que as condições de produção não se encontram divorciadas das condições e possibilidades de recepção”. E dessa feita, não apenas com o Pater na origem e no centro de tudo, mas junto com a Mater, a prole e a descendência, poderíamos acrescentar, ao ampliar a via que levará ao “em comum”. Esta é, pois, a conclusão: patrimonializar significa não inscrever num registro e codificar, mas transcrever e transmitir - um legado, que será

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reinscrito, transcrito, traduzido, recebido, modificado e passado adiante, aos sujeitos coletivos anônimos de diferentes gerações, como no verso de Drummond citado antes, ao traduzir e recriar o Praise Youth de McGinley. Ao concluir esta Introdução, passando ao último verbete da Parte II, temos o estudo “A diversidade é o nosso patrimônio”, que levará as autoras a explorar nas análises as relações Brasil / Europa acerca da sugestiva ideia de Lévi-Strauss apresentada na História de Lince, segundo a qual “os gêmeos nunca são de fato idênticos”. Nem os gêmeos univitelinos, que vivem em dois corpos distintos e perseveram em sua “diferença contínua”, nem menos ainda pares heterogêneos como Brasil e Europa ou o Novo e o Velho Continentes, e nem mesmo pares ou povos coexistindo numa mesma nação, em situação de simbiose e de tensionamento, como os Yanomami espalhados no norte do Brasil e na Venezuela. Expandindo, temos que a mesma ambivalência, a abarcar uma rede de similitudes e diferenças, será encontrada no universo recoberto pelo termo “patrimônio”, correlacionado a espólio, legado, herança, e polarizado em bens materiais ou tangíveis, como terras, haveres, pecúlios e equivalentes, e em bens imateriais ou intangíveis, como cabedais intelectuais, valores culturais, costumes, crenças, relações inter-individuais e assim por diante. Nesse campo semântico vastíssimo está-se diante de uma diversidade irredutível, e diversidade, em termos culturais e evolucionistas, é riqueza. Dois são os focos das autoras, ao tomarem o Brasil como referência, fazendo pendant ao verbete de Roberto Vecchi e Margarida Calafate Ribeiro, consagrado à Europa e à constelação portuguesa: por um lado, a cultura letrada brasileira, abarcando a literatura poética e romanesca circunscrita ao século XX, assim como o surgimento e o papel de institucionais governamentais consagradas ao ofício da preservação da memória, a saber, o SFHAN e o IPHAN; por outro, a cultura iletrada autóctone de povos amazônicos, como os Wajãpi e os Yanomami, caracterizados por contato mais ou menos recente com o mundo oficial, iberizante e europeizado, com a FUNAI na linha de frente, da qual não se fala, mas cuja atuação é sentida e resta implícita, autorizando paralelos com o IPHAN. Quanto à cultura letrada, é de grande relevância para os estudos comparativos com a Europa, Portugal interposto e a identidade nacional

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da ex-colônia em jogo, as considerações em torno do Aleijadinho, na esteira da política pragmática do nome, e do nome próprio no caso, ao destacar a centralidade dos modernistas no trabalho da ativação da memória, como nos dois Andrade, o paulista Mário e o mineiro Carlos. Some-se ainda o papel e a contribuição do estudioso hoje desconhecido Rodrigo José Ferreira Bretas, nascido na região de Ouro Preto (Cahoeira do Campo), com a credencial do primeiro biógrafo do grande arquiteto e mestre do barroco mineiro, cujos apontamenos datam de meados dos oitocentos. Contudo, a prioridade caberá aos modernistas, devendo ser incluído o nome de Bandeira e seu famoso guia da Ouro Preto barroca, levando as autoras a dizerem que Aleijandinho é um “mito modernista” - um pouco, aliás, como prova da necessidade das culturas encontrarem os precursores, se não os tendo, inventando-os, como na República ao inventar o mito de Tiradentes. Some-se ainda Guimarães Rosa e sua obra-prima, levando as autoras a retraçar sua imensa singularidade, ao promover em estado de arte a volta do arcaico perdido nos Geraes no momento mesmo em que o Brasil dos anos JK partia numa viagem sem volta na direção da ultra-modenidade, da vida urbana e do futuro mitológico. E, ainda como salientado, o papel do SPHAN, criado em 1937 e voltado em suas ações para o patrimônio material, no qual Carlos Drummond de Andrade trabalhou por quatro décadas, bem como o papel do IPHAN, criado em 1988 em outro momento da história do nosso país, ao dilatar o campo de suas ações na direção do patrimôno imaterial, secundando a UNESCO, que havia estipulado algo parecido tempos antes. Quanto à cultura dita iletrada, outros serão os embates e diferente será o escopo: povos relegados à margem da história europeia, fragilizados desde a chegada dos primeiros contingentes ibéricos nesta parte das Américas, com outra visão de mundo e de tempo. Povos cuja memória não poderá simplesmente ser matéria de museus ou memoriais, verdadeiros parques temáticos no aguardo de turistas ávidos pelo exótico, mas propagada e preservada por meio de outros vetores e outras formas de transmissão, como nos ritos, mitos e dialetos atinentes. Ressalte-se no tocante às diretrizes e ao escopo a agenda da Associação Brasileira de Antropologia, a ABA, e de similares tendo por âmbito outros

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países das Américas e do Caribe, que recentemente criaram um Fórum pemanente de discussões e resultando de suas ações a Declaração sobre proteção e salvaguarda do patrimônio cultural nas Américas e no Caribe. Segundo as autoras, “da leitura do ‘Informativo Especial ABA’, publicado em fevereiro de 2016 - Patrimônio e museus: desafios contemporâneos e a conjuntura de crise atual -, é possível aferir uma diversidade de usos do termo, marcada pela noção de ‘registro de bens culturais’ e sua ‘proteção e salvaguarda’, onde o termo aparece, tal como vimos, enquanto dispositivo e vem assim adjetivado: Ações: ‘inventariar, salvaguardar, proteger, divulgar’; Associado a outros temas/ GTs da ABA: ‘povos indígenas, quilombolas, negros, populações tradicionais, ética e direitos humanos’; ‘Caso dos patrimônios imateriais’ (inventários e registros; pesquisas = especificidades desses ‘bens culturais’); ‘Grupos portadores de patrimônios nacionais’ (pedem ampliação de referências, caso Rio Negro, 22 povos; assim como o tema da revalidação do registro após 10 anos); Diminuição do interesse pelos ‘patrimônios materiais, cidades, edificações, monumentos’ (indica 4 temas privilegiados pelo comitê); Falta de uma política para ‘patrimônio arqueológico’; ‘Nova política de memória e patrimônio; (...) novas performances e poéticas distintas’; ‘Exercício do direito à memória e ao museu’”. E elas concluem: “O Informativo finaliza, além de anunciar a declaração, com a proposta de criação de um Observatório dos Patrimônios e Museus. Na declaração, deparamo-nos com a seguinte cláusula, que vai servir aqui de pretexto para adentrarmos na discussão: ‘Considerando que os patrimônios têm sido definidos de muitas maneiras em convenções e cartas internacionais, assim como em legislações nacionais; e que todas essas definições apresentam semelhanças, ao reconhecerem a importância dos recursos - tangíveis e intangíveis - de valor patrimonial para as populações, em escala local, nacional e internacional, não obstante diferirem em pontos específicos, relativos a interesses de comunidades particulares; temos por dispensável

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referendar nesta declaração qualquer definição de patrimônio cultural em particular e, ao mesmo tempo, entendemos ser esta declaração aplicável a todas as jurisdições e comunidades de interesse em todo o mundo’” (ênfases das autoras). Essa é, pois, a proposta e a principal diretriz, levando à defesa programática da diversidade cultural. Para corroborar a proposta e seu potencial analítico, dois são os estudos de caso, levados a cabo com a ajuda do método etnográfico, e não exatamente historiográfico: 1o caso: As artes gráficas dos Wajãpi - primeiro registro e caso emblemático Trata-se de um povo amazônico cuja língua faz parte do tronco tupi e de contato recente, estudado pela antropóloga Dominique Gallois, de nacionalidade belga, reputada estudiosa daquele povo e carreira na USP, de cuja contribuição essencial são destacadas duas pressuposições que irão nos levar de volta senão à política, ao menos à pragmática do nome e da memória. Ou seja, como mostram duas citações extraídas da antropóloga: “- Patrimônio é uma forma de enunciação da cultura: para valorizar a cultura, é preciso enunciá-la” - foi o que aprenderam os Wajãpi, glosam as estudiosas. - “A produção de objetos culturais [i.e., patrimônio] é indissociável da produção de sujeitos sociais”. O resultado será a desestabilização do conceito de “propriedade”, e seus correlatos “próprio”, “não-próprio” e “em comum”, resultando num verdadeiro paradoxo: “Em acordo com sua própria tradição - escreve Gallois - a maior parte das expressões culturais e saberes praticados pelos Wajãpi, como os grafismos, não lhes pertencem, nem são criação deles” (ênfases das autoras). Mais especificamente: em vez do próprio e de sua posse ciumenta, “expressões culturais e saberes são elementos que pertencem a ‘outros’, que foram gerados e são utilizados em fluxo e intercâmbio entre pessoas e grupos, entre humanos e não-humanos. E faziam sentido em sua utilização quando inseridos nessa rede de trocas que marcava a socialidade dos povos indígenas daquela região. O processo de registro provocou deslocamentos, de certa

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forma, na direção da produção de algo, uma unidade social que deve ser percebida como ‘de dentro’; e, além disso, produzido em direção a um ‘público externo’, ou a ‘outros’ que passam a ser percebidos como externos. Ou seja, as unidades sociais se reorganizaram a partir do processo de patrimonialização - como indígenas e brancos, e especificamente como Wajãpi”. 2 o caso: Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica yanomami Trata-se de outro agrupamento linguístico, do tronco macro-jê, cujos povos vivem no entorno das fronteiras do Brasil e da Venezuela, como já ressaltado. Diferentemente do 1° caso, cuja fonte não era direta, mas de uma antropóloga belga interposta que gerou o material, ela própria em contato direto com os nativos. No caso dos Yanomami a fonte é um autótoctone, a saber: Davi Kopenawa, famoso chefe e xamã de um de seus agrupamentos, e autor do livro La chute du ciel, publicado em 2010 em parceria com o antropológo francês de origem marroquina Bruce Albert. Livro do qual, em seu processo de produção, e cuja tradução brasileira com prefácio de Eduardo Viveiros de Castro saiu em 2015, as autoras retêm “um importante deslocamento nas demarcações canônicas dos textos etnográficos”. Precisamente: ao longo do livro “é o próprio sujeito ‘nativo’ que se propõe a falar aos não indígenas; ou seja, não se trata mais do ‘discurso interno’ testemunhado pelo antropólogo. A mediação, ou tradução que busca a inteligibilidade para o outro é realizada pelo próprio Davi, em denso diálogo com B. Albert, pois existe a intencionalidade de falar para que o outro inicie a ter contato e possa conhecer algo do mundo yanomami. E nesse sentido tornase uma ‘autoetnografia’”. Nesse quadro único - lembram as autoras citando Viveiros de Castro –, “interessa-nos colocar em evidência esse esforço de negociação linguística, epistemológica e política, que faz com que o discurso de Davi, e seu livro sejam vistos como um ‘manifesto cosmopolítico’ ou [um] ‘exemplo de xamanismo em ação’, para buscar adentrar então algumas dessas negociações”. Uma plataforma de ação, portanto. De resto, uma plataforma que implicará nada menos que um profundo desafio à noção de patrimonialização, na acepção precisa de patrimonialização

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das terras e dos bens dos Yanomami, reconhecidos desde 1992, ao longo de um longo processo que está longe de estar concluído. Ou, como dizem as autoras, ao tirar as consequências da fala do xamã ilustre, reiterado no livro e em outras manifestações públicas: “Diante desse discurso, o que poderíamos propor, ou reconhecer como patrimônio - dos yanomami? Ou deles e nosso, de acordo com o que eles nos dizem (‘a Hutukara é uma só’); ou nosso e deles, de acordo com o que nós dizemos: o discurso de Davi? (a cultura como patrimônio imaterial?) - mas que já se tornou livro (‘patrimônio acadêmico’); o território ou a TIY, ou a ‘natureza’ do território yanomami? Ou a Hutukara e a urihi - nos termos dos Yanomami?” E concluem: “Ao assumir o processo de patrimonialização na esteira da proposta cosmopolítica tal como sugerida por Stengers e revelado pelos dois exemplos - Wayapi e Yanomami - articulamos a ideia de construção de um cenário de negociação com as potencialidades desse país megadiverso que é o Brasil, seja pela pluralidade de sociedades e de culturas que abriga, seja pela diversidade bioecológica de seu território. Tal como gêmeos desiguais, o Brasil e a Europa coexistem em um cenário de possibilidades e potencialidades em aberto, que clamam por uma negociação em função de um destino em comum. Não é o que assistimos, mas por isso mesmo é necessário experimentar”. Trata-se, portanto, como lembram as autoras, mais além da defesa pura e simples da diversidade, de um excelente exemplo da cosmopolitès, no sentido de Isabelle Stengers, tendo como agentes e cidadãos do mundo, acrescentaríamos, não só os vivos e os humanos, mas igualmente os mortos e a própria natureza - a Hutukara ou a Mãe-terra em língua yanomami -, em coabitação e em negociação constantes. *** Tal é, pois, o conjunto dos assuntos cobertos pelos verbetes. Trata-se de uma experimentação, consistindo em works in pogress, em diferentes fases de acabamento, como tantas vezes assinalado, e justificando o gênero do ensaísmo literário que os acompanham. Reiteramos que as contribuições reunidas no 1º tomo - não é excessivo relembrar, ao voltar a um tópico comentado no

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início da Introdução - integram um projeto em andamento constituído por um grupo de pesquisa internacional brasileiro e europeu, coordenado pela UFMG e a UNIBO, e guarda as suas peculiaridades. Entre os temas que neste momento são objeto da pesquisa conjunta do grupo e que deverão constituir verbetes do 2º tomo, ainda que na sua primeira formulação, em acréscimo ou como desdobramento dos anteriores, que ora vêm a lume, a título de exemplo, se pode mencionar: Corpo e pessoalidade; Defasagem e cultura de massa; Desenvolvimento e crescimento econômicos; Multiculturalismo/ Diversidade cultural; Ética pública, direito e política. Boa leitura.

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STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memórias, dor. Tradução de Tomaz Tadeu. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008. STENGERS, Isabelle. Beyond conversation: the risks of peace. In: Catherine Keller, Anne Daniell. Process and difference: Between Cosmological and Poststructuralist Postmodernisms, 2002. STENGERS, Isabelle. The cosmopolitical proposal. In: Bruno Latour & Peter Weibel (eds.), Making Things Public. MIT Press, 2005, p. 994-1003. STENGERS, Isabelle. Introductory Notes on an Ecology of Practices. In: Cultural Studies Review, 11 (1), p183-96, 2005. THIOUB, Ibrahima. Traite atlantique des esclaves et transformations des cultures africaines. Conférence. Paris: Fondation Calouste Gulbenkian Délégation en France, 2014. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A  floresta de cristal: notas sobre a ontologia dos espíritos amazônicos. In: Cadernos de Campo. n. 14/15, São Paulo: 2006. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O recado da floresta. In: KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

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formato: 15,5cm x 22,5cm |244 p. tipologias: Minion Pro, Myriad Pro papel da capa: Supremo 250g/m2 papel do miolo: Chambril Avena 80g/m2 cordenacao e produção editorial: Betania G. Figueiredo capa: Betania G. Figueiredo e Edson Oliveira diagramação: Edson Oliveira revisão de textos: Ana Carolina Leão


LÉXICO CONCEITUAL BRASIL-EUROPA  

Memória Cultural & Patrimônio é o vol I da coleção Léxico Conceitual Brasil-Europa, resultado da parceria entre o Centro de Estudos Europeus...

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