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º 67

Já fomos assim, seremos como?

O BOLETIM DO QUE POR CA´ SE FAZ QUINZENAL 20 DE OUT a 3 DE NOV 2011 DISTRIBUIÇÃO

Uma viagem no tempo até 1972 através do tesouro de Tereza Arriaga e Jorge Oliveira+programação do FFF cheio de tochas, canijos e desconhecidos como António de Macedo+um pouco da China através da escrita da Nobel menina Pearl Buck+literatura virtual e o primeiro livro do toureiro Tiago Rodrigues + We’ll row, we’ll row que nem Carlos Medeiros e shanty shanty da Kanaka + um bocado de Jazzores + cientificamente, se ficas muito tempo sem companheiro/a pode ser que naturalmente mudes de sexo


Texto Fernando Nunes Capa Tomas Melo Slides Tereza Arriaga e Jorge Oliveira

2 FAZENDO + 20 OUT A 3 Nov 2011

A Imundar

, CRONICA

Em 1972, os artistas plásticos Tereza Arriaga e Jorge Oliveira visitaram os Açores pela primeira vez. No final da visita ao arquipélago, que durou vinte e cinco dias, verificaram que tinham efectuado cerca de novecentas fotografias. São imagens pessoais de um outro tempo, reveladoras de uma época em que as ilhas se abriam ao olhar ávido e curioso de quem as queria visitar. São portanto imagens únicas e pessoais de dois artistas plásticos em movimento, viajavam de barco de ilha em ilha e percorriam de carro os caminhos e estradas insulares, envoltos de fascínio e da surpresa que diariamente se concentrava nas suas retinas, nos seus meticulosos esgares e atentos testemunhos, num período da história em que cada fotografia precisava de tempo para se revelar e cada negativo respirava o ar da paisagem e dos sítios. O mesmo se poderá dizer das comunicações, isto é, pouco ou nada se sabia no continente do que se passava neste arquipélago. A informação era parca e as ligações diminutas. As ilhas açorianas estavam também muito mais distantes umas das outras, abeberadas que estavam na sua sobrevivência agrícola ou pesqueira, nas suas existências impregnadas de sal, bruma e basalto, onde ninguém se atrevia à altura a falar em apostas ou estratégicas turísticas ou a conjecturar sobre o futuro da monocultura da vaca, tão pouco dos futuros subsídios à pesca. O mesmo se poderá dizer do Portugal continental em fase pró-democracia, provavelmente o mesmo país alvoroçado e sem alento dos dias de hoje. Este magnífico encontro deu-se durante o mês de Setembro, há quase quarenta anos, com a serenidade típica de quem parte à descoberta de um arquipélago no meio das fossas atlânticas, sabendo simplesmente que tinham todo o tempo do mundo para desvendar a beleza e o mistério a cada ilha aportada, desvelada, a cada paisagem a merecida fotografia. A 4 de Outubro deste ano, dia de São Francisco, na Igreja com o mesmo nome, a senhora Tereza Arriaga, com os seus noventa e seis anos, trouxe-nos quatrocentos slides para assistirmos em conjunto, projectados que estes estiveram nas paredes daquela casa religiosa numa noite amena. As ilhas apresentadas naquelas caixinhas, com projectores acesos e lâmpadas miraculosas foram o Faial e o Pico, o que deu para concluir que ainda faltam mais quinhentos da colecção em questão. Será que teremos a oportunidade de os ver em breve, sem cartaz ou aviso a anunciar?

Engana-se quem pensar que a digressão do Imundacao durou apenas dez dias. Foram longos os meses de trabalho forçado e de exploração infantil; muitas as escoriações e os calos nos dedos mindinhos. Mas por artes mágicas conseguimos sobreviver a estas tormentas e chegou o momento de nos fazermos à estrada, passando em Porto, Leiria e Lisboa. A invicta foi a primeira cidade, o Teatro Bruto os primeiros a nos receber. Acompanharam todo o processo de montagem, adaptação e ensaios, ajudaram na produção, e ainda cozinharam para nós. Fizemos 5 actuações: para a casa do norte dos Açores, para um grupo de estudantes, para amigos, família e totais desconhecidos. A plateia andou cheia (cenas inacreditáveis de pancadaria, tudo à procura dos últimos bilhetes) e as reacções foram positivas tanto dos mais novos como dos mais graúdos. Saímos do Porto contentes com a nossa prestação e fomos em direcção ao Sul, até Leiria, onde a Imundacao foi integrada no festival de teatro - acaso. Por acaso, ou porque a sorte protege os sortudos, o grupo de teatro o nariz, recebeu-nos com um maravilhoso almoço no seu novo espaço de trabalho. É de louvar a persistência deste grupo

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que entre outros contratempos, foi “convidado” a procurar uma nova casa o ano passado, depois de 15 anos de dedicação/ manutenção/ dinamização do antigo espaço... Como o palco era diferente, exigiu uma nova adaptação, tanto das luzes como de cenário e da própria movimentação em palco. Há que entranhar primeiro e estranhar depois. Em Lisboa o tempo de montagem também foi curto mas, com a simpatia da equipa chapitoniana e a dedicação da nossa sonoplasta e produtor, a coisa correu sobre rodas. Tivemos a tenda do teatro a arrebentar pelas costuras (muitos foram os amigos e familiares subornados) e, talvez por ser a última actuação, tínhamos os nervos à flor da pele. Na verdade, o nó no estômago nunca nos abandonou, desde o Porto até à capital. Para mim, o único senão desta aventura do Teatro de Giz pelo Portugal continental: criar úlceras no estômago e a azia crónica. Fora esses pequenos pormenores, valeu muito a pena imundar toda aquela gente de fantasia, sarcasmo, cor, música e humor negro.

Por Aí Fora

O Faial e o Pico em 1972

Capa

Que seja a segunda de muitas digressões continentais! Lia Goulart P1- De Barco ao largo de São Roque do Pico P2- Janela do quarto onde ficaram em São Roque do Pico P3, P4 e P5- Pescador, Barco e Albarcas no Porto do Cachorro P6- Barco nos estaleiros de construção naval, Santo Amaro P7- São Roque visto do parque florestal da Prainha P8- Estrada transversal, caminho do mato P9- Picaroto no porto de São Roque do Pico P10- Casas na freguesia da Piedade P11- Canada das Adegas, Calheta de Nesquim P12- Gasolinas no porto da Calheta de Nesquim P13, P14- A Estrada, o Jorge e o Fiat P15, P16- Tereza e Jorge com Familias Picarotas C1, C2 e C3- Viagem para o Faial na lancha Espalamaca F1 e F2- Tereza e Jorge em contraluz no forte de Santa Cruz F3- Jorge e Volkswagen Carocha F4, F5 e F6- Pico visto do Faial F7, F8, F9, F10, F11 e F12- Capelinhos F13- Tereza na Caldeira F14- Rua Conselheiro Medeiros n.7 Horta F15 e F16- Moinhos na Espalamaca


O Festival de Cinema dos Açores, que decorre durante 7 dias na 7ª ilha dos Açores a contar do Oriente, celebra pela 7ª vez consecutiva a 7ª Arte. O 7, diz a simbologia, é o número do perfeito, um número mágico... Sob influência de subtis conjugações astrais, o Faial Filmes Fest abrange pela primeira vez este ano todo o espaço cinematográfico, abrindo uma secção competitiva para a longa-metragem que reúne algumas das mais recentes produções portuguesas: CISNE, de Teresa Villaverde, SANGUE DO MEU SANGUE, de João Canijo, VIAGEM A PORTUGAL, de Sérgio Tréfaut, O BARÃO, de Edgar Pêra, e 48, de Susana Sousa Dias, são alguns dos nomes mais sonantes para o público, que terá oportunidade de conversar olhos-nos-olhos com os realizadores. Mas menos sonante, sabemo-lo bem, não significa menor – aliás, o Cinema é mestre nessa espécie de jogo de adivinha, do que não se revela e apenas se entrevê -, e entre os cineastas porventura menos conhecidos do público encontra-se precisamente o homenageado desta 7ª edição, António de Macedo. Um dos mais activos e respeitados realizadores do “cinema novo” dos anos 60 em Portugal, que se retirou para o mundo da filosofia e do esoterismo por se sentir marginalizado e censurado em Democracia. Sobre ele alguém disse um dia: “António de Macedo é um marginal tão marginal que é rejeitado pelos próprios clubes de marginais”. 30 Out. – Domingo 16:00 | Cine Teatro Faialense Sessão de Abertura - Sessão de Competição VIAGEM A CABO VERDE, José Pedro Ribeiro PT FRAGMENT SER LAGUNE, André de Medeiros Costa PT VIAGEM A PORTUGAL, Sérgio Tréfaut PT * 21:30 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição II THING IN COMMON, Nayra Sans Fuentes Canárias, ES O BARÃO, Edgar Pêra PT * 31 Out. – Segunda-feira 09:30 | Escola Secundária Manuel de Arriaga FFF Escolas » Festa Mundial da Animação 18:00 | Cine Teatro Faialense Sessão Especial » Panorama de Curta-metragem Brasileira – com a presença da Curadora brasileira Carla Osório 21:30 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição III O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO, Luis da Mata Almeida, Pedro Lino PT HIBERNANDO, David Pantaleón Canárias, ES HARUO OHARA, Rodrigo Grota BR Sessão Especial Antestreia: DHARMA GUNS, F.J. Ossang FR PT * 01 Nov. - Terça-feira 16:00 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição IV DIRTY FRIDAY, A. M. Delgado y T. Cruz – Canárias ES O AMOR É A SOLUÇÃO PARA A FALTA DE ARGUMENTO, Jorge Quintela PT O DIVINO DE REPENTE, Fábio Yamji BR SANGUE DO MEU SANGUE, João Canijo PT

* Presença do realizador

21:30 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição V DODU O RAPAZ DE CARTÃO, José Miguel Ribeiro PT CLIMBING, Joaquim Fontes PT DAS RAUCHEN DES MEERES, Ana R. Fernandes / Torsten Truscheit CV O CISNE, Teresa Villaverde PT 02 Nov. – Quarta-feira 09:30 | Escola Secundária Manuel de Arriaga FFF Escolas » Festa Mundial da Animação 18:00 | Cine Teatro Faialense Sessão Especial É NA TERRA NÂO NÃO É NA LUA, Gonçalo Tocha PT * 21:30 | Cine Teatro Faialense Sessão Especial Exibição dos filmes vencedores do 6º FAIA – Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual >>>

E de F. J. Ossang, já ouviu falar? Alguns lembrar-se-ão de uma misteriosa estrutura de madeira, semi-encoberta entre ventos e areias do Vulcão dos Capelinhos... Restos de um projecto cinematográfico de Ossang, que se confessa atraído por solos de hidratos de carbono e regiões com forte actividade sísmica. A atracção motivou o regresso do realizador, de origem francesa, aos Açores, mais precisamente a São Miguel, para rodar DHARMA GUNS – SUCCESSION STARKOV, com o apoio da Azores Film Comission. O filme, “uma odisseia de purificação onde a intuição e a telepatia aceleram a viagem no tempo” teve ante-estreia mundial no 67º Festival de Veneza e vai fazer a sua ante-estreia nacional no Faial Filmes Fest, com a presença do realizador. Viajamos de São Miguel para o Corvo - onde Gonçalo Tocha rodou É NA TERRA, NÃO É NA LUA, a sua mais recente produção, já apresentada aos corvinos e que os faialenses poderão agora conhecer (e partilhar com o próprio realizador), numa das sessões especiais do Festival de Cinema dos Açores – e do Corvo, num enorme azimute Lusófono, para o Brasil, de onde nos chega um conjunto das mais expressivas produções da actual cinematografia falada em >>> Sessão de Competição VI E SE, Sandra Santos PT O VOO DA PAPOILA, Nuno Portugal PT NORTH ATLANTIC, Bernardo Nascimento Madeira PT 03 Nov. – Quinta-feira 09:30 | Escola Secundária Manuel de Arriaga FFF Escolas » Festa Mundial da Animação 18:00 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição VII HOPE, Pedro Sena Nunes PT MATANÇA, André Laranjinha Açores PT INFINITE, André Santos e Marco Leão PT O JARDINEIRO E O PIRATA, S. Bloss e P. Monegatto O CÉU SOBRE OS OMBROS, Sérgio Borges BR Sessão de Competição VIII 21:30 | Cine Teatro Faialense MEMÓRIA DE CÃO, João Morais Ribeiro PT CORRE, EMANUEL, CORRE, Emanuel Macedo e Bruno Correia Açores PT DIRECTO, Luís Alvarães e Luís Mário Lopes PT CATARINA E OS OUTROS, André Badalo PT DAS 9 ÀS 5, Rita Alcaire e Rodrigo Lacerda PT 04 Nov. – Sexta-feira 09:30 | Escola Secundária Manuel de Arriaga FFF Escolas » Festa Mundial da Animação 18:00 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição IX VICKY AND SAM, Nuno Rocha PT A ÚLTIMA MORADA, Joel Rodrigues Açores PT A NOSSA CASA, João Rodrigues Açores PT CONTRATO, Genny Pires – Cabo Verde 21:30 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição X MOBY DICK, Alessandro Correia BR SOU PORQUE SONHO, Ricardo J. Pereira de Sousa PT DIA DO DESASSOSSEGO, Ricardo Feio PT EMA & GUI, Nuno Betão PT CINEMAIÊUTICA, Rodrigo Falk Brum BR ESTRADA DE PALHA, Rodrigo Areias, PT * 05 Nov. – Sábado 16:00 | Cine Teatro Faialense Sessão de Competição XI OS MILIONÁRIOS, Mário Gajo de Carvalho PT DEPOIS DO CHORO 48, Susana Sousa Dias,PT *

português com sotaque de samba. Uma delegação de peso de representantes do insubmisso movimento cineclubista internacional, que tem na América Latina um dos seus maiores baluartes, marcará igualmente presença entre nós, para partilhar com os de cá as ricas experiências de lá. Os vários sotaques da língua portuguesa estão, de resto, bem representados no Festival de Cinema dos Açores, onde estarão em competição 33 curtas-metragens (dos Açores a Cabo-Verde, passando pelo continente), entre as quais figuram ainda produções da região da Macaronésia, que concorrem também para o Prémio de Melhor Filme das Ilhas. A festa do Cinema nos Açores far-se-á igualmente fora da sala de projecção do Teatro Faialense, no excelente auditório da Escola Secundária

CINEMA Manuel de Arriaga, para alunos e professores, com a exibição dos filmes premiados do Cartoon D’Or 2011 e dos filmes seleccionados para o Panorama Infantil em parceria com a Casa da Animação. Mas a partilha do Cinema acontecerá também em ambientes mais descontraídos (nocturnos, como convém ao íntimo), nos vários momentos preparados para celebrarmos em conjunto a 7ª Arte com os seus criadores, ao longo da semana do Festival. Visto assim, o Faial Filmes Fest deste ano parece quase perfeito... Mas para ser perfeita, perfeita, a 7ª edição da festa do Cinema nos Açores precisa de um ingrediente mágico; precisa de si. Cineclube da Horta

O Diário do Nicolau “Para chegar à cidade da Horta apanhei um avião que partiu de Lisboa, a cidade onde moro. Já viajei muitas vezes de avião, mas nunca outra viagem foi tão especial. Desta vez, no meu lugar, esperavam-me umas folhas soltas, rasgadas. Estas estavam escritas numa língua estranha que mais ninguém parecia compreender. A única palavra que reconheci foi esta: Nicolau. No atelier “O Diário do Nicolau” vamos descobrir a vida de um rapaz que habita um país desconhecido e longínquo - ou talvez nem tanto. Vamos deparar-nos com coisas das quais nunca ouvimos falar, umas bonitas, outras estranhas, sempre surpreendentes. A partir das histórias incompletas contidas nas páginas rasgadas, vamos trabalhar enredos e construir objectos tridimensionais que ilustrem o que poderia estar escrito nas partes desaparecidas. E assim, pouco a pouco, estaremos mais próximos de responder à pergunta: quem é o Nicolau? O atelier, para crianças dos seis aos dez anos, decorrerá no Museu da Horta nos dias 28 de Outubro e 1 de Novembro a partir das 9.30h. As inscrições são limitadas e podem ser feitas na recepção do Museu da Horta ou através do seguinte e-mail: margarida.ma.barreto@ azores.gov.pt. Laura Marques

21:30 | Cine Teatro Faialense Sessão de Encerramento Homenagem ao cineasta António de Macedo Exibição do Filme ALMADA NEGREIROS VIVO HOJE Cerimónia de Entrega de Prémios Filme Concerto NO PAÍS DAS AMAZONAS, de Silvino Santos

AGENDA

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LITERATURA

Pearl Buck

“A Boa Terra” NOBELiárquicos

Numa altura em que tanto se discute o acordo ortográfico, talvez se divirta a ler a prosa de Alberto Pimentel que, em A última ceia do doutor Fausto, desvenda uma ortografia que nos parece hoje obsoleta. Neste caso, não precisa de mergulhar nos arquivos da biblioteca nem perder-se no caos tranquilo de um alfarrabista, basta que aceda a http:// www.gutenberg.org/wiki/PT_Principal para se deliciar com esta brincadeira romântica em torno do mito de Fausto e do que um homem faz da sua vida (se for mais tradicional pode, no mesmo sítio, deliciar-se com original, o Fausto de Goethe). Siga as escolhas de Filippe Sullivan e descubra os amores que lhe nortearam a vida e que o levaram a dizer que “Gastam facilmente a vida as ilusões.” Terá este homem amado uma mulher que o desiludiu? Será ele uma outra versão dos homens pintados por Camilo ou Eça de Queirós? Nem sempre os românticos estiveram na moda, mas as interrogações que os seus romances levantam são tão atuais hoje como o eram na época. Nota: não precisa de nenhum equipamento especial para ler os livros disponíveis no Projeto Gutenberg, basta-lhe um computador. Catarina Azevedo

Ebook,

um passeio pela literatura “virtual” 4 FAZENDO + 20 OUT A 3 Nov 2011

A Boa Terra é uma obra ainda hoje polémica. Fala-nos de Wang Lung, camponês pobre e trabalhador mas fiel aos princípios de dever familiar e para com a terra que regem a China. Em contraponto, está a casa de ricos proprietários Hwang, cujo pequeno império começa a declinar devido ao esbanjamento e ao uso incontrolado de ópio. A mulher de Wang Lung serviu como escrava na casa de Hwang e foi comprada pelo marido: só isso serve para demonstrar todo um feixe de relações. O-Lan, a mulher, tem vários filhos, inclusive uma deficiente mental cujo nome é irrelevante pois todos na família lhe chamam “pobre tonta” e ainda uma filha que sufocam à nascença por não ter comida para lhe dar. Wang Lung vive miseravelmente durante a seca, as migrações para a cidade, os abjectos negócios de compra e venda entre ricos e pobres mas trata os filhos com a severidade de um patriarca, ensinando-lhes que prefere deitar comida fora e passar fome do que comer o que eles tenham surripiado a outros. Com o tempo, porém, desorientado e cansado da desgraça, também Wang Lu roubará e se revoltará contra os poderosos. A reviravolta da roda da fortuna faz com que Wang Lu desonesto consiga lucrar na vida o que jamais lucrara com a honestidade: prospera, educa os filhos, compra terras a Hwang, torna-se um

senhor. Wang Lung esquece os valores: um rico merece uma concubina… ou mais. Com a compra de concubinas, a família de Wang Lu passa a ser um núcleo de guerras constantes entre as suas mulheres e seus filhos. Wang Lung, velho, não tem paz; sente que falhou. A Boa Terra é tão criticado quanto aplaudido. Muitos argumentam que a cultura chinesa não pode ser criticada tão linearmente por uma “estrangeira” e que os sistemas políticos, familiares e sociais do Oriente jamais serão entendidos pelo Ocidente. Outros defendem que Buck escreveu muito cuidadosamente, sem juízos de valor em adjectivos, com pura e simples descrição de um tempo e espaço em que ela própria viveu. Pearl Buck ganhou o Nobel da Literatura em 1938 “pelas suas ricas, verdadeiramente épicas descrições da vida na China rural e ainda pelas suas obras-primas biográficas”. Não era uma “estrangeira”. A China foi onde Buck passou a maior parte da sua vida,

apesar da sua cidadania americana. Aos três meses, muda-se para lá, com os pais, missionários; aprende a falar chinês clássico e inglês desde os primeiros tempos; foi a menina “Sai Zenzhu” para todos e “Pearl” apenas em casa; em adulta, escolhe também a China para viver com o seu primeiro marido (de quem herdou o nome “Buck”). O casal vive momentos difíceis nas revoluções tormentosas da China, acabando por se mudar para os E.U.A. e por se divorciar. Buck volta a casar, mas não mais regressa à China… Foi impedida de o fazer pelos oficiais de estado chineses que a acusaram de “imperialista americana”. Ironicamente, a sua prosa e a sua forma de estar revolucionária eram mal vistas na América. O amor de Buck pela China e pela Humanidade foi demonstrado toda a vida em inúmeras acções, nomeadamente na forte campanha contra a discriminação da pobreza na Ásia, na promoção de oportunidades para todas as crianças e numa rede de adopção (na época, o regime chinês considerava as crianças filhas de nacionalidades mistas uma aberração). Buck foi uma das primeiras defensoras do povo, por convicção e não por moda. Marginalizada por duas culturas, a sua lápide está escrita em pinyin, por desejo seu. Carla Cook

1 de Tiago P. Rodrigues Tiago Prenda Rodrigues nasceu em Ponta Delgada, em 1979. O poeta vive desde os dois meses de idade na cidade de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, tendo estudado e vivido durante algum tempo em Lisboa. Colaborador da revista NEO (1 e 2), deu à estampa o seu primeiro livro de poemas, 1, em 2003, numa edição “Teatrinho - Espaço de Criação”. Esta poesia visa a fixação e exaltação dos momentos, provavelmente escrita no cair dos dias, encerrada em espaços inspiradores e quotidianos, como cafés, esplanadas, bancos de jardim, salas de espera de aeroportos, bancos de aviões, quartos alugados, destapam uma escrita directa, incisiva e, serenamente, emotiva. Estes poemas contêm referências óbvias à poesia de Rui Duarte Rodrigues (Angra do Heroísmo, 1951-2004), por sinal pai do poeta, bem como à vida

literária que perpassa pela Ilha Terceira, poiso de escritores e vivência cultural insularmente reconhecida, fonte jorrante e inspiradora: “Defino a ilha./ O mar é tão imenso e transbordante/ o mar é tão intenso/ na sua presença, no seu cheiro/ ao dobrar a esquina, no fundo da rua/ - Pai, quando morrerei,/ quando se desamarrará a garganta? / o mar é tão excessivo na sua transparência/ o mar é tão líquido/ no seu abraçar o mergulho/.” Saúde-se a edição desta voz poética terceirense pelos seus editores, ânimo presente na vontade de inovar e incentivar novas vozes, como se lê no prefácio de Mário Cabral. No entanto, oito anos depois, este continua a ser o primeiro e único tomo de Tiago Rodrigues, estimulante e auspicioso começo de uma voz interior com muito para afirmar e se esclarecer no universo das letras. Fernando Nunes


FGSG

Centro de Visitantes da Gruta das Torres SAMI arquitectos Nos Açores a peça de arquitectura contemporânea mais premiada a nível nacional e internacional encontra-se no Pico, ali mesmo na Criação Velha. É normal o leitor estar neste momento surpreendido, porque uma das maiores qualidades desta obra é o facto de passar despercebida, de se integrar na paisagem, de tornar a visita à gruta o mais natural possível. “Perante uma paisagem tão forte como a que envolve a Gruta das Torres procurámos a integração do edifício não deixando de desenhá-lo como forma arquitectónica que é.”

Filho da mãe ilha

Num momento em que se está a dar a conhecer mais uma obra tua, não posso deixar de recordar um outro lançamento que, há uns anos, aceitei fazer. Numa outra Ilha, onde te disseram haver «uma torre enorme, muito alta para ver a montanha do Pico à hora do sol-posto e do acender das luzes». Não estávamos nessa torre, Sidónio, mas no 14º andar do Consulado Geral de Portugal em Toronto, de onde igualmente se via a tua montanha do Pico, por inteiro e a todas as horas do dia, porque a carregaste todinha entre as folhas do teu «Deserto de todas as Chuvas», onde hoje «a chuva tem o aroma das mãos de Schubert». Se o atrevimento tem reincidência, eis-me pela segunda vez a não recusar um convite teu. Eu vim, tu vieste, o Daniel de Sá, que, com o seu rasgo de génio, fez do prefácio uma peça de inexcedível recorte literário, disse que também veio. Afinal vieram todos, Sidónio: familiares, amigos, conhecidos, a tua gente, a Ilha toda e todas as outras ilhas.

E aqui estamos todos, Sidónio, onde sempre estivemos. Mesmo os que partiram nunca daqui saíram porque «arrastam a melodia do coração pelos séculos das ilhas». Citando Lobo Antunes: «Nem os mortos faltaram: (...) os mortos nunca faltam. São os primeiros a chegar e os últimos a deixarem-nos». E nós vemo-los aqui connosco, ainda que num jogo de paixão de quinta-feira santa. «Santa a manhã. quinta o fruto apetecido. feira o lugar da festa. quinta feira santa. um deus a morrer em nós». E à direita d’Ele: teu avô Manuel Papuda, no seu «fato castanho engravatado e chapéu de cortesia, no braço da avó Leonor, em seu xaile de luto e lenço branco bordado a preceito pelas suas mãos de veludo», as mãos da avó Leonor, «mãos vazias/ com pedras de cal/ no peito o mar a terra imensos/ a flor o sal». E tu olhas desvanecido, sorrindo, à espera da bênção e da mão do teu pai que sempre te deu a mão em todas as casas que habitaste.

Pico-Criação Velha

arquitectura

A Arquitectura que por cá se faz

O edifício negro tem como estrutura dominante e geradora uma parede de pedra que reproduz o sistema construtivo local utilizado nos currais de vinha. Este muro rendilhado e toda a luz que por ele passa é visível no interior através de um envidraçado que acompanha o visitante desde a sua entrada no centro. Exceptuando esta parede, o edifício foi revestido com uma impermeabilização/ acabamento de cor preta, de forma a assemelhar-se à textura da lava vitrificada do interior da gruta. Para que a interferência em solos desta natureza fosse minimizada, o edifício foi projectado com uma estrutura de betão armado assente sobre um carril, também de betão armado. Tomás Melo

A 24 de Agosto, o jornalista Sidónio Bettencourt lançou nas Lajes do Pico o seu último livro “Já não vem ninguém”. Dessa homenagem à Ilha-Montanha, aqui se registam algumas palavras da apresentadora da obra, Aida Baptista

LITERATURA

E, recordas tu falando com ele, «continuaste, mesmo sem casa e sem ninguém para habitar, a dar-me o calor das tuas mãos» e a dizer-te, como no poema de Luís Peixoto, que também nós continuamos todos reunidos, na «refeição de domingo» à mesa da viuvez. Os que nesta hora estão contigo são muitos mais do que aqueles que vemos aqui. Declaraste: «aprendi que os parentes próximos não devem chegar sem carta», mas muitos vieram, não por via de cartas de chamar, mas de sms, telefonemas, mensagens de felicitação, guiados pelo apelo das vozes que Daniel de Sá diz serem as palavras que escreves. Eles estão longe, muito longe, porque a tua Ilha, Sidónio, nunca se cansou de parir solitários navegadores do mundo. Cada ilhéu é um Genuíno, a madrugar a dor «olhos perdidos no rumo de todas miragens»

sem nunca sabermos «por que estamos tão longe uns dos outros, repatriados, emigrados, fugidios?” já que, apesar de muito amarem a terra-ninho onde nasceram, foram outros os colos que escolheram para deitar o corpo cansado da viagem. «Há muitos anos que já não vem ninguém. Afinal, senhor padre, a missa do galo pode ser a qualquer hora». A qualquer hora e a qualquer dia, como acontece nesta quarta-feira de «asas brancas» que, sem ser sexta nem treze é o teu dia da sorte, «a sorte de partir mar adentro» para celebrar a liturgia da palavra. Já não vem ninguém? - é a interrogativa dissecada em categorias gramaticais: advérbios para um lado «já, não, ninguém», a dar voz apenas ao verbo: “VEM!” imperativo, a convocar-nos para o aplauso final na celebração da tua festa. Quem escreve como tu, Sidónio, só pode ser, pela sua genialidade, um dos maiores filhos da mãe ilha

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20 canções açorianas

No seu Cancioneiro de Músicas Populares, César das Neves afirma que “já no século XVIII o Rema era conhecido pelos marinheiros dos navios de guerra e povos ribeirinhos do continente e ilhas.” O que é dado como certo é que o “Rema” nasceu das lides do mar, daí tratar-se de uma cantiga trazida por marinheiros que aportaram aos Açores, tendo sido a acção de remar que deu motivo à melodia: “Rema para lá lanchinha / Rema que rema lanchinha dos quatro remos” (…) Esta cantiga é cantada nas ilhas de Santa Maria, Graciosa, Pico, Faial, Flores e Corvo. Em S. Miguel, Terceira e S. Jorge nunca a usaram. Como “saltou” por cima destas três ilhas e se radicou nas restantes seis é enigma difícil de decifrar. No que diz respeito à melodia, cada ilha compôs a sua, sem que se note qualquer semelhança com o “Rema” continental. O “Rema” é, por conseguinte, um canto de trabalho marítimo, havendo outras canções de criação açoriana que

também o são: “O marujo” (Flores), “Leva arriba nossa gente” (Faial/ Pico) e “Santiana”. (Flores). Em todas elas se fala das dificuldades vividas pelos marinheiros, em terra e no mar. No “Rema”: “Coitado de quem no mundo / Passa a vida a navegar / Rema que rema uns dias passa sem ceia / Rema que rema outros dias sem jantar”. No “Marujo”: “Triste vida do marujo / Qual delas a mais cansada / Por mor da triste soldada / Passam tormentos, passam tormentos”. No “Leva arriba nossa gente”: “Leva arriba nossa gente / Que uma noite não é nada / Se não dormires à noite / Dormirás de madrugada”. “Santiana” era cantada por velhos baleeiros da ilha das Flores: “Senhora mãe mui bem cantam / Bilrou, bilrou (que suponho ser corruptela do inglês “We´ll row”, remaremos) / Aqueles homens do mar / Vão seguindo o seu navegar / Dobrado eu / Dobrado eu, mesura” (corruptela do rio Missouri?). Há ainda um shanty anglo-polinésico chamado “John Kanaka”, que tem vindo a ser divulgado pela estudiosa e cantora Maria Antónia Esteves, shanty esse que chega à ilha das Flores através dos baleeiros norte-americanos. “Kanaka” é palavra havaiana que significa “homem” e que foi aportuguesado em “caneca”. Tudo isto é a prova cabal de que devemos aos marinheiros (que nas longas viagens traziam instrumentos de corda com que mitigavam os poucos momentos de ócio a bordo) a introdução e divulgação, nos Açores, de modas e melodias. Victor Rui Dores

www.johnblum.com

A ´USIC M

A já vasta equipa dos Discos do Além dá de novo as boas vindas aos caros telespectadores! Aqui na redacção, brindamos com macieira a nova edição do jornal Fazendo, a ver se é desta que se começa a prover de alguma dignidade! O meu nome é Roberto, e durante algumas semanas estarei incumbido da prestigiante missão de fazer chegar ao vosso lar os melhores aromas da alfazema musical, substituindo temporariamente o meu antecessor que atravessa neste preciso e exacto momento o vale seco de McMurdo em recolha de novos êxitos discográficos. Todos os dias das nove às cinco, cruzamos os lugares mais inóspitos do planeta para manter os níveis de qualidade discográfica a que já vos habituámos, caros ouvintes. E é nesta linha de elegância, categoria e distinção, que vos propomos o disco desta semana - “Vá embora daqui”, do consagrado Marcos Paulos Roberto Carlos Jobim, mais conhecido obviamente pelo primeiro e antepenúltimo nome. A história da capa não deixa de ser curiosa, mas quase. A ideia surgiu do seu produtor e consultor de imagem, o famoso engenheiro Roberto Paulo, que pretendia uma imagem em que o artista (ele mesmo) fazia um passo de dança simples e eficaz, num misto de Roberto Carlos com ele próprio. A foto que vêem na capa, ilustres observadores e bolseiros, é precisamente o momento em que, inadvertidamente, o artista (sim, o Marcos Roberto!) escorrega e se precipita numa queda

Discos do Além

de costas embaraçosa. O instante é tão minucioso, que apesar de ele já estar em queda, ainda sorria, não se apercebendo ainda que estava a cair. No estúdio todos se riram e o artista não gostou. O produtor, que viu naquela fotografia precisamente o passo de dança que procurava, tratou logo de fazer uma edição de mil discos à revelia. Furioso, Marcos Roberto (o artista) despediu imediatamente o seu produtor com um chuto no rabo, dizendo-lhe em português brasileiro “Vá embora daqui!”. Para remediar a edição, Marcos Paulo acabou por encontrar um nome para o disco, e incluiu (à mão) uma caricatura do produtor, que era anão e usava rabo de cavalo. E por esta semana é tudo, atentos visualizadores de jornais. Esperamos encontrar-vos mais ou menos na próxima edição dos Discos do Além. Até lá! Roberto (Estagiar L dos Discos do Além) P.S. tentámos ouvir o disco mas estava riscado.

John Blum No que toca ao free jazz, é muito comum a atitude do “não conheço e não gosto”, reforçando-nos a visão de que a realidade está cheia de surrealismos. Muitas vezes a resistência perante este género musical provém na nossa estranha necessidade de meter tudo em frascos de vidro transparentes devidamente identificados, inibindo-nos da viagem, da surpresa, do inusitado. Acabamos nós também por acordar um dia, dentro dum frasco de vidro transparente, com pessoas gigantes do lado de fora a olhar para nós e a tirar apontamentos. Está então na altura de abrir a tampa e saltar directamente do frasco para o Teatro Faialense. É que neste sábado, dia 22 de Outubro, vai haver música. É à hora do costume, e enquadra-se no festival Jazzores’11. John Blum é pianista, e nos últimos 15 anos tem-se dedicado ao free jazz e à música de improviso. Para mais informações sobre o músico, poderão passar por aqui: http://www.johnblum. com/. Esperam-se momentos inesperados. Gaspar Pedro Festival Jazzores’11, Sábado às 21h30 no Teatro Faialense


Peixes,

No hermafroditismo sequencial existem dois tipos: protoginia e protandria. As espécies protogínicas como por exemplo o mero, o cherne, a boga, o peixe rei e a veja, entre outros, são inicialmente fêmeas e ao atingir uma determinada idade ou tamanho, tornam-se machos. As espécies protândricas como a dourada, o goraz e o sargo, entre outros, têm inicialmente órgãos sexuais masculinos que com o crescimento se transformam em femininos.

Na maioria das espécies hermafroditas, a idade e tamanho de mudança de sexo podem ser fortemente influenciados não só por factores ambientais, mas também por interacções sociais, particularmente pela proporção equilibrada entre sexos dentro dum grupo de peixes. Assim sendo, no caso de espécies que vivem em haréns quando o macho é removido, por diversas razões, a fêmea maior do grupo “veste as calças” e assume o papel de macho. Geralmente, as espécies que apresentam sexos separados, o macho e a fêmea, tendem a ser do mesmo tamanho. No entanto, nos diversos tipos de hermafroditismo sequencial encontramos dimorfismo sexual, ou seja, características físicas femininas e masculinas diferentes. Apresentando-se, no caso das espécies protogínicas, machos maiores que poderão monopolizar as fêmeas, mais pequenas. E no caso das protândricas, fêmeas maiores que acasalam com pequenos machos.

O hermafroditismo simultâneo, por seu turno, ocorre em espécies que habitam tendencialmente águas profundas, embora também ocorra em espécies de águas pouco profundas, como por exemplo algumas espécies de serránidos (garoupas e afins) que poderão ser encontrados em recifes de corais tropicais. Este tipo de hermafroditismo caracteriza-se pela presença de ambos os sexos no mesmo indivíduo. Este fenómeno surge como uma adaptação em densidades populacionais extremamente baixas, onde é difícil encontrar-se um indivíduo do sexo oposto. Encontrar um parceiro

Acesso Íngreme Somos todos/as meninos/as de cara suja. O espanto deteve-me na entre-porta. Do centro da sala de aula sobre a ardósia o crucifixo olhava-me igualmente surpreso. Na banda esquerda o cartaz descaído do Presidente Carlos de seu nome, ele-próprio César, na outra mão esquerda o bolso da parede por rebocar. Alguém disse: “Todos nós somos Cristos que se crucificam de modos diferentes todos os dias. Ou são crucificados”.

Nestas ilhas descalças, no ano da Glória de 2011, assombra-me a nossa capacidade de esquecimento conveniente nos interstícios de saber e ignorar e (des)pensar/mo-nos. Somos quase as mesmas crianças, que jogam à macaca e tropeçam e esperam que a mãe lhes entale a roupa à noite. O pátio da Escola, sito na Rua da Galinha Que Não Sabe Voar é inundado por gnomos sorridentes, com ninhos nas pálpebras quando trepam os ramos de janelas altas donde fazem caretas bocejadas ao sol.

é uma tarefa complexa, por isso ajuda imenso ser-se capaz de acasalar com o primeiro que apareça! É este o caso de muitos peixes de profundidade que estão escassamente distribuídos no seu habitat. É, igualmente, nestes ambientes profundos, onde tudo acontece muito devagar, fora do alcance da luz solar, e sem grande influência das variações sazonais nem dos ciclos lunares, que encontramos o mais extravagante dimorfismo sexual. Nos peixes ceratídeos (do grupo dos tamboris) o macho e a fêmea diferem tanto no tamanho como na cor. Sendo tão difícil encontrar parceiro, os machos evoluíram de modo a perderem qualquer outra função que não seja a da capacidade de encontrar uma fêmea e se reproduzir. Depois do desenvolvimento larvar, os machos param de crescer e dedicam toda a sua energia na procura de uma companheira. Quando a encontram, prendem-se definitivamente a ela com as mandíbulas, “tipo sanguessugas”. De aí em adiante o macho não será mais do que um simples apêndice pendurando no corpo da fêmea. Depois de se unirem ambos sistemas circulatórios, a sua única missão será a de expulsar uma nuvem de esperma cada vez que os níveis hormonais da sua parceira indiquem estar pronta para fazer uma postura de ovos. Será esta a forma de assegurar a fidelidade e o amor eternos? Estes fenómenos extremos de reprodução demonstram, efectivamente, que a selecção natural favorece padrões sexuais diferentes do puro gonocorismo, os quais são possíveis de se encontrar em todo o tipo de habitats, desde os mais favoráveis aos mais inóspitos. Será que existem formas ainda mais estranhas de reprodução na natureza? Devido à difícil acessibilidade do oceano, ainda resta muito por descobrir, mas um dia vamos chegar lá... Berta Solé

~ INTERVENCAO , No lado côncavo dos cotovelos incómodos das paredes há sempre demasiadas cadeiras para o cansaço de se sentarem tão importantes dias. Por vezes, fingem que dormem para que a história comece. Histórias tricotadas a invenções surreais como aquela do rei e das princesas fartos de terem de ser felizes. Depois fica-se miúdo/a. E outra vez só, mas já não meter medo. É obtuso? O mundo é um lugar estranho. Principalmente para meninos/as de cara suja. Cristina Lourido

Faia Nome comum: faia, faia-da-terra, faia-das-ilhas, samouco Nome científico: Morella faya, (sinónimo, Myrica faya) Família: Myricaceae Origem/Distribuição: Açores, Madeira, Canárias e Portugal continental (Serra de Sintra e SW meridional).

Características: árvore de porte arbustivo, ou arbusto, de folha perene, em que a sua copa pode atingir entre os 8 metros de altura e um diâmetro de 7 metros de largura. Época de floração normalmente entre Fevereiro e Maio. Flor de cor creme. Identifica-se por possuir uma folha curta de extremidades crenadas (onduladas). Localização na ilha: regra geral encontra-se em zonas costeiras pouco intervencionadas pelo homem, podendo contudo ser vista até aos 700 metros de altitude. Um excelente local para a sua observação poderá ser toda a encosta da Paisagem do Monte da Guia virada para a Cidade da Horta. Também as áreas circundantes ao Vulcão dos Capelinhos são ricas nesta espécie. Curiosidades: a origem do nome Faial poderá estar associada à existência de muitas destas árvores na ilha (Faial = mata de faias). A sua madeira foi em tempos usada para a produção de carvão e os seus frutos para produção de compotas. Serviu também de sebe para pomares de laranjeiras e a casca do seu tronco foi ainda usada para curtir couros. Nuno Rodrigues

in “O Eco Cederense” 25 Out 1929

Qualquer pessoa próxima ao mar terá reparado na grande diversidade de cores e formas que existem no meio marinho. Estas reflectem a enorme capacidade de adaptação de cada “bicho” presente, hoje em dia, nos diferentes ecossistemas do imenso oceano. No que respeita aos vertebrados, os peixes representam o grupo mais numeroso, apresentando uma panóplia diversificada de géneros, transformações e comportamentos reprodutores que vão desde desovas colectivas massivas até comportamentos mais sofisticados que envolvem a construção de ninhos, seguidos de cuidados parentais nos ovos e nos juvenis. Como outros vertebrados, a maioria das espécies de peixes têm sexos separados, ou seja, existem indivíduos machos e indivíduos fêmeas, condição designada por gonocorismo ou unisexo. Porém, este grupo de animais conseguiu inovar e distinguir-se sem ter que “ir à faca” ou “recorrer à cirurgia estética”. Algumas espécies possuem a capacidade de mudar de sexo ao longo da vida, através do fenómeno de hermafroditismo sequencial. Outras espécies ainda mais raras conseguem apresentar os dois sexos ao mesmo tempo, através do hermafroditismo simultâneo. Este duplo fenómeno deve-se sobretudo e obviamente ao meio envolvente e à facilidade ou não em encontrar um parceiro para acasalar.

Fernando Correia

uns transexuais originais!

7 FAZENDO + 20 OUT A 3 Nov 2011


Agenda FAIAL

PICO

Sex_21 e Dom_23 Out.

até Sex_11 Nov.

21h30 Teatro Faialense SUPER 8 filme de J. J. Abrams

Câmara Municipal da Madalena MATRIZES QUE O PICO VESTIU exposição de pintura

~ INTERVENCAO ,

FAZENDO - DIRECÇÃO GERAL Jácome Armas DIRECÇÃO EDITORIAL Pedro Lucas

COORDENADORES TEMÁTICOS Albino, Anabela Morais, Carla Cook, Fernando Nunes, Filipe Porteiro, Helena Krug, Luís Menezes, Pedro Gaspar, Pedro Afonso, Rosa Dart, Tomás Melo

Sáb_22 Out.

Sáb_22 Out. 21h30 Teatro Faialense JOHN BLUM concerto de free jazz festival JAZZORES 2011

Qui_27 Out. 21h30 Teatro Faialense Recital de CLARINETE E PIANO com Carlos Alves e Caio Pagano temporada de música Açores 2011

Sex_28Out. e Ter_1 Nov. 9h30 Museu da Horta O DIÁRIO DE NICOLAU com Laura Marques atelier infantil

21h30 Auditório Municipal das Lajes SUPER 8 filme de J. J. Abrams

Sáb_29 Out. Novaluarte ENCONTROS DA LUA NOVA Tema: reformar um espaço dentro de um quadrado Assoc. Padre José Idalmiro São Roque

Sáb_29 Out. 21h30 Teatro Faialense ÓSCAR E A SENHORA COR-DE-ROSA com Lídia Franco encenação Márcia Haufrecht

CAPA Tomás Melo COLABORADORES Aida Baptista, Berta Solé, Catarina Azevedo, Cineclube da Horta, Inês Cunha, Laura Marques, Lia Goulart, Nuno Rodrigues, Victor Rui Dores

Sex_28 Out. a 1 Nov. IV WORKSHOP DE DIRECÇÃO DE BANDA Concerto de encerramento: 1 Nov às 21h Sociedade Filarmónica União e Progresso Madelense Madalena

Horários

Ficha Técnica

REVISÃO Sara Soares PROJECTO GRÁFICO Lia Goulart

Inês Cunha

Zé Povinho sem forças para manguitos

COORDENAÇÃO GERAL E PAGINAÇÃO Aurora Ribeiro PROPRIEDADE Associação Cultural Fazendo SEDE Rua Rogério Gonçalves, nº 18 9900 Horta PERIODICIDADE Quinzenal TIRAGEM 500 exemplares IMPRESSÃO Gráfica O Telégrapho CONTACTOS vai.se.fazendo@gmail.com fazendofazendo.blogspot.com 967567254

cruzeiro

Dom_30 Out. a Sáb_5 Nov. Faial Filmes Fest (Programa pag. 3)

Gatafunhos Tomás Melo

Onde se encontra este edificio Faialense? Estes dois amigos podem dar-lhe uma ajuda, mas não confie muito neles CHARADA - O EDIFÍCIO DISFARÇADO

Envie a resposta para: vai.se.fazendo@gmail.com


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