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Redação - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - CEP 31.035-536 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

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GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Fernando Pimentel SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Miguel Corrêa Jr.

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Evaldo Ferreira Vilela Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Alexsander da Silva Rocha Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Esther Margarida Alves Ferreira Bastos, Flávio Antônio dos Santos, Júnia Guimarães Mourão, Marcelo Henrique dos Santos, Michele Abreu Arroyou, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Roberto do Nascimento Rodrigues, Sérgio Costa Oliveira, Valentino Rizzioli, Virmondes Rodrigues Júnior Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 31.035-536

Divulgado em 2015, o relatório The State of Food Insecurity in the World (ou Estado da Insegurança Alimentar no Mundo), publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) apontou que existem no mundo cerca de 800 milhões de pessoas cronicamente desnutridas. Esse número, na verdade, foi comemorado: são quase 216 milhões de pessoas a menos que no período de 1990 a 1992. Os avanços são mais evidentes nas nações em desenvolvimento. Mesmo considerando o aumento populacional, dos 129 países monitorados, 72 (mais da metade) conseguiram diminuir pela metade o número de pessoas que passam fome. Como destaca o relatório, contribuíram para isso condições políticas estáveis, crescimento econômico e políticas de proteção social dirigidas a grupos populacionais vulneráveis. Mas é importante citar, também, o papel da ciência, tecnologia e inovação. A discussão sobre a fome no mundo não pode excluir o debate sobre tecnologias e métodos adequados para uma produção agrícola sustentável, qualidade e valor nutricional dos alimentos ou mesmo uso de agrotóxicos e consumo de transgênicos. Questões como essas são trabalhadas por vários grupos de pesquisadores brasileiros. Esse cenário é descrito pela jornalista Alessandra Ribeiro na reportagem de capa. Especialistas de diferentes formações e instituições falam sobre os principais projetos, as conquistas recentes e a importância da ciência para combater a fome no mundo. Importância essa que é destaca pelos leitores na sessão Ciência Aberta – confira na página 5 as melhores respostas para a pergunta proposta: a ciência pode acabar com a pobreza e a fome no mundo? Nosso entrevistado desta edição é o professor Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Com um livro recém-lançado, ele esteve em evidência na mídia pelas opiniões fortes. A conversa, conduzida pela jornalista Vivian Teixeira, passa por temas como o papel das ciências sociais e o problemático “complexo de vira-lata” do povo brasileiro. Instigante, a entrevista também é atual, considerando-se o momento político que o Brasil vive. Em outra reportagem, o foco é um novo método de monitoramento da qualidade do ar a partir de técnicas nucleares. Desenvolvido por equipe do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), o trabalho permitiu identificar a composição da poeira atmosférica em vários pontos da capital mineira, fornecendo dados para subsidiar ações do poder público de melhoria da qualidade do ar. Como os equipamentos foram instalados principalmente em escolas, o projeto também buscou divulgar a ciência entre os alunos e desmistificar a ideia de que técnicas nucleares envolvam sempre perigo. Continue a leitura e conheça ouras pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. Essa é apenas uma pequena amostra do que é desenvolvido em Minas e de como a ciência, tecnologia e inovação (CT&I) podem ajudar no desenvolvimento social e econômico. A FAPEMIG, que sempre está presente quando o assunto é CT&I, comemora 30 anos em 2016. Nos próximos meses, várias atividades serão realizadas como objetivo de divulgar esses projetos e grupos de pesquisa, promovendo a troca de conhecimentos e o debate com a sociedade. Aguarde e participe! Vanessa Fagundes Diretora de redação

AO LEI TO R

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Alessandra Ribeiro, Camila Alves Mantovani, Diogo Brito, Marina Mendes, Maurício Guilherme Silva Jr., Roberta Nunes, Tatiana Pires Nepomuceno, Thiago Malta,Vanessa Fagundes, Verônica Soares e Vivian Teixeira Diagramação: Fazenda Comunicação Revisão: Sílvia Brina Direção de arte: Felipe Bueno Editoração: Unika Editora, Fatine Oliveira Montagem e impressão: Rona Editora Tiragem: 25.000 exemplares Capa: Fatine Oliveira


Í N D I CE

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Entrevista

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Cinema

Poluição

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Ecologia

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Economia solidária

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Genética

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Inclusão

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Atual presidente do Ipea, Jessé Souza analisa desafios das Ciências Sociais brasileiras e descontrói conceitos “cristalizados” sobre o País

Pesquisadores monitoram qualidade do ar na Região Metropolitana de Belo Horizonte por meio de tecnologia nuclear

Características da Economia Solidária em Minas Gerais são alvo de estudo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Baralho inclusivo melhora convívio entre estudantes, ao desmistificar as dificuldades da Língua Brasileira de Sinais (Libras)

Letras

Processo de interpretação de textos é tema de pesquisas desenvolvidas por professor do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG)

Educação

Estudo analisa modos de interferência da igreja e do estado nos modelos educacionais brasileiros e portugueses dos séculos XIX e XX

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Na UFMG, análise crítica de documentários contemporâneos estimula debate em torno de novo conceito de “comunidade”

Especial

Reportagem aborda relação entre a ciência e os desafios (éticos e técnicos) da produção alimentar no Brasil e no mundo

Grupo nacional coordenado pela Universidade Federal de Lavras (Ufla) analisa impacto da construção de rodovias para os ecossistemas

Iniciativas da Fundação Hemominas aprimoram identificação da proteína RhD e tornam transfusões mais seguras

Lembra dessa?

Rejeitos de quartzito são testados como material alternativo para necessidades da construção civil

novo marco da ciência

Pesquisadores e autoridades comentam novo Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil

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hiperlink

Aves no ambiente de trabalho e preciosidades do Rio Doce

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Saúde

Por meio de uma série de ações, proposta interdisciplinar da UFMG estimula empoderamento das pessoas com diabetes


acabar

com

a pobreza e

a fome do mundo?

“Reduzir a população e facilitar a vida no campo, estimulando a produção de alimentos nas regiões afetadas, são ações que poderiam melhorar o conforto dos mais pobres. Uma ideia simples de produção no campo como esta poderia mudar o cenário de uma microrregião”.

Ptharso Castro Via Facebook

“A mercantilização da ciência ajuda a aprofundar o poço da desigualdade em várias áreas. Já as plataformas colaborativas de pesquisas e o conhecimento compartilhado podem, sim, ajudar a acabar com a fome e a pobreza”. Alexandre Magrineli Dos Reis Via Facebook

“Se dependesse só dos cientistas, a resposta seria SIM”.

Leo Cunha Via Facebook

“A ciência tem avançado para abrir mais o vale que separa ricos e pobres e para gerar mais capital! Fico triste”.

Márcio Leo @marcioleobio Via Twitter

“Com investimentos que levem a boas pesquisas para melhorar as plantas que temos e o solo, e, do ponto de vista logístico e econômico, para distribuir essa produção, é possível que a ciência seja uma das protagonistas do fim da fome no mundo. Tudo é uma questão de crer, querer e pesquisar”.

Mariana Silva Via Facebook

“Claro que sim! Mas, para isso, é preciso mudar nossa consciência a respeito de avanço científico. A ciência capaz de

acabar com a pobreza e a fome no mundo é aquela feita de maneira holística, adotando uma visão universal dos fatos. É aquela feita em prol das comunidades, em parceria com elas, e que apresenta melhorias reais. Não basta fazer o melhoramento genético de uma planta, nem criar mecanismos de correção dos solos. Tudo isso só será útil se tivermos novos modelos de produção, menos excludentes e injustos. A inovação não é interessante só por ser novidade, mas por oferecer uma alternativa melhor a algo que era repetidamente feito de forma mais difícil e menos eficaz. A ciência precisa andar de mãos dadas com novas perspectivas de organização social. Só assim o avanço tecnológico será, de fato, uma evolução”. Marcela Martins Via Facebook

“Tenho certeza disso. Ouvi, recentemente, um trecho de entrevista que atribui a supremacia norte-americana ao chamado ‘visto de gênios’. Significa que o país sempre esteve de portas abertas para receber as principais cabeças pensantes e as mentes mais brilhantes, que ficam anos – às vezes, décadas – a serviço de universidades e centros de pesquisa. Uma mente dessas cria uma indústria que gera milhares de empregos. Quando o Brasil se tocar, de maneira substituir o modelo colonial de extrativismo de recursos sem valor agregado – como é o caso da mineração, que ‘descasca’ Minas Gerais – pelo investimento em conhecimento e pesquisa, poderemos contribuir, cientificamente, na mesma proporção em que produzimos grãos! Todo saber está ao nosso alcance! Valorizar a sabedoria do homem do campo, da ‘raizeira’, e desenvolver pesquisa científica com base na cultura ancestral do homem são os caminhos”. Romina Farcae Via Facebook

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução de seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ 2015/JAN/FEV 2016

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Ci ên ci a Ab erta

A ciência pode


especial

A gente não quer só comida

Especialistas discutem contribuições da ciência ao processo de produção alimentar no Brasil e no mundo Alessandra Ribeiro*

*Com colaboração de Maurício Guilherme Silva Jr.

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Em 1798, uma das principais teses demográficas era publicada na Inglaterra: a Teoria Malthusiana. O ensaio, elaborado pelo economista Thomas Malthus, alertava para possível catástrofe no planeta, provocada pelo descompasso entre o ritmo da produção de alimentos e o crescimento populacional. Segundo a previsão, dois séculos adiante, a humanidade seria assolada pela fome, a menos que houvesse um rígido controle de natalidade. De fato, pouco mais de 200 anos depois, em 2008, o mundo se viu diante da chamada “crise mundial dos alimentos”: a alta nos preços dos produtos agrícolas levou ao temor da falta de comida e de consequentes revoltas, especialmente entre as populações mais pobres. As discussões culminaram com a Cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação (FAO), realizada em 2009, em Roma, na Itália. A questão da segurança alimentar, agora aliada à produção sustentável, volta à tona em 2016, instituído como o “Ano Internacional das Leguminosas” pela ONU. O objetivo é estimular o cultivo e o consumo de frutos que se apresentam na forma de vagem – os legumes: feijão, lentilha, soja, dentre outros. De acordo com o documento norteador da iniciativa, tais alimentos têm “vantagens significativas relativas à nutrição, graças ao seu elevado teor de proteínas e aminoácidos essenciais, além de constituírem fonte de carboidratos, vitaminas e minerais”. A Organização também destaca que as leguminosas aumentam a produtividade e a eficiência do uso da água em sistemas agrícolas e na rotação de culturas. Seu plantio diminui a necessidade de fertilizantes, o que reduz o custo final da lavoura e evita a emissão de gases de efeito estufa. No século XXI, o conceito de segurança alimentar extrapola a ideia da garantia de alimentação de boa qualidade a todos. “Precisamos desenvolver tecnologias, conceitos e metodologias que nos permitam produzir mais, com menos terra e de maneira sustentável. Ou seja, temos que mitigar as agressões ao meio ambiente”, explica Evaldo Vilela, presidente da FAPEMIG. Engenheiro agrônomo por formação, o professor e pesquisador organiza um evento que promove tais discussões,

dentro da programação do centenário da Academia Brasileira de Ciências. Mais do que evitar problemas como o desmatamento e a poluição decorrentes do uso de agrotóxicos, ele destaca a necessidade de também considerar questões sociais, a exemplo do fim da mão de obra escrava nas propriedades rurais. Para Vilela, estamos diante de um “desafio enorme”, que envolve empresas, produtores e, claro, a ciência. “Ela é parceira na criação de novas sementes, métodos de controle de pragas e de conservação dos alimentos, embalagens e adubações menos poluentes, assim como na redução dos custos de produção, com o desenvolvimento de máquinas agrícolas”, enumera.

Sustentabilidade “Diz-se que um sistema de produção de alimentos é sustentável quando todas as etapas do processo se caracterizam por serem socialmente justas, economicamente viáveis e ambientalmente adequadas”, define Trazilbo José de Paula Júnior, Diretor de Operações Técnicas da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). O pesquisador menciona o relatório Foresight – O futuro da alimentação e da agricultura: desafios e opções para a sustentabilidade global, publicado pelo governo britânico, em 2011, que contou com a participação de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo o documento, os processos de produção devem ser seguros não apenas para os trabalhadores, mas, também, para comunidades e consumidores, sem perder de vista as necessidades das gerações futuras. Trazilbo cita iniciativas em desenvolvimento no Estado, que prezam pela sustentabilidade. Na cultura do café, principal atividade agrícola de Minas Gerais, a água do processamento do grão pode ser reaproveitada em novos processos de lavagem e descascamento e na irrigação de lavouras, após a remoção de parte dos resíduos. O reuso permite economia hídrica superior a 50%, propicia menor risco de contaminação ambiental, além de devolver, ao solo, parte dos nutrientes absorvidos,

O projeto reuniu 400 especialistas de várias nacionalidades e traçou um cenário da produção de alimentos até 2050. Identificaram-se, assim, as principais pressões que afetarão a agricultura, em decorrência das mudanças climáticas. O documento final do estudo aponta desafios paralelos às metas de redução da fome em todo o planeta, como equilibrar a demanda e a oferta de forma sustentável, diminuir a volatilidade no sistema alimentar, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e manter a biodiversidade.

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o que ainda reduz custos com adubação e melhoria das condições da terra. Além da Epamig, o desenvolvimento do sistema envolveu pesquisadores da Embrapa Café e do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). Em tempos de crise hídrica, com impacto direto na produção de alimentos, a empresa mineira desenvolve várias linhas de pesquisa voltadas à manutenção da agropecuária em condições meteorológicas e de abastecimento adversas, como controle do desperdício de água, captação da chuva para irrigação, elaboração de mapas de aptidão agrícola e de previsão de pragas e doenças, com foco em mudanças climáticas, e desenvolvimento e introdução de novas espécies resistentes à seca. No campo da tecnologia social, desde 2007, o Sistema de Integração Lavoura-Pecuária permite a reinserção de áreas degradadas ao sistema produtivo. Somente na região central de Minas Gerais, cerca de 400 hectares de pastagens já foram recuperados em 29 municípios. Na Zona da Mata, terras consideradas improdutivas deram lugar a lavouras de café especial, agroecológico e orgânico, graças ao projeto “Doutores da Terra”. “A pesquisa, desenvolvida em caráter participativo, trouxe conhecimento, renda e novos sonhos aos agricultores familiares, que hoje exportam para Estados Unidos e Japão, por meio de uma cooperativa”, conta o diretor da Epamig. O uso correto dos adubos é outra prática que contribui para o melhor aproveitamento dos recursos naturais, afirma o professor do Departamento de Ciências do Solo da Universidade Federal de Lavras, Luiz Roberto Guimarães Guilherme, também pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Café (INCT Café). Ele orienta que os fertilizantes sejam aplicados segundo uma regra conhecida como os “4 Cs”: uso da fonte correta, na dose correta, no momento e local corretos. “Se estes princípios de manejo forem aplicados, o agricultor consegue maximizar produção, e, assim, produzir mais alimentos por unidade de recurso empregada”, garante.

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O gigante e o veneno O Brasil ocupa posição privilegiada no âmbito da produção de alimentos, uma vez que tem capacidade de atender à demanda interna e, ainda, vender o excedente para outras nações. No relatório Perspectivas Agrícolas 2015-2024, a FAO e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) reconheceram que, na próxima década, o País tem potencial para se tornar o maior exportador de alimentos do mundo, posição hoje ocupada pelos Estados Unidos. De acordo com a publicação, desde 1990, a produção agrícola brasileira dobrou e a pecuária triplicou. “Hoje, o Brasil se sustenta graças à agricultura e à exportação de produtos agrícolas. Se não fosse isso, teríamos uma verdadeira catástrofe financeira”, analisa Evaldo Vilela. Segundo informações da Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA), com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), dos 10 principais produtos exportados pelo País em janeiro de 2016, seis eram do setor agropecuário: milho, farelo de soja, carne de frango, café em grãos, açúcar e carne bovina. Embora o contexto seja de desvalorização do preço das commodities no mercado mundial, em especial o minério de ferro e o petróleo (que também estão na lista dos principais produtos vendidos ao exterior), o Ministério da Agricul-

Mapa da fome De acordo com o último Relatório sobre Insegurança Alimentar no Mundo (Sofi 2015), 795 milhões de pessoas são subalimentadas no planeta. O número é alto, mas foi a primeira vez, em 25 anos, que ficou abaixo da marca dos 800 milhões. Nesse período, houve redução de 25% no contingente de famintos. No ano 2000, uma das metas estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio era reduzir à metade o número de pessoas que passam fome no mundo. O Brasil cumpriu a meta e saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014. No ano passado, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, mais de 190 países renovaram o desafio ao aderir aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Dentre eles, acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável, até 2030.

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tura vê boas perspectivas para as exportações agrícolas e espera um incremento de US$ 2,5 bilhões no setor em 2016. Se, por um lado, o País ostenta seu potencial no mercado da produção de alimentos, por outro, ocupa a indesejável posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo, desde 2009. Entre 2001 e 2011, a venda de tais produtos saltou de US$ 2 bilhões para US$ 8,5 bilhões. O brasileiro consome, em média, 5,2 kg de venenos agrícolas por ano. Os dados foram apresentados, no ano passado, pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), que alertou para os riscos à saúde, sobretudo pela relação com o desenvolvimento de tumores malignos. Como lembra o Inca, os resíduos químicos não aparecem apenas em alimentos in natura, mas, também, em produtos industrializados à base de trigo, milho, soja, e, até mesmo, em carnes e leites de animais que se alimentam de ração com traços de agrotóxicos. “É óbvio que a população quer, e tem o direito de exigir, que os alimentos sejam produzidos de maneira correta, sem que haja resíduos de pesticidas. Isso é possível, e já está comprovado em diversos países, inclusive no Brasil”, afirma o professor Luiz Roberto Guimarães Guilherme. Segundo ele, o uso adequado de agrotóxicos é objeto de estudos em várias instituições de ensino e pesquisa que monitoram impactos na produção e no ambiente. “Técnicas de nanotecnologia já são utilizadas na aplicação racional de defensivos químicos, com perspectivas de grande redução de custos e de contaminação do ambiente e dos alimentos”, exemplifica Trazilbo José de Paula Júnior, da Epamig. Ele admite, porém, que tais tecnologias ainda estão longe de serem amplamente difundidas, a ponto de os agricultores se beneficiarem delas. Assim também ocorre com as pesquisas sobre controle biológico, citadas por Evaldo Vilela, da FAPEMIG. “Precisamos da mão do governo para que isso se torne realidade. Afinal, é mais difícil aplicar o controle biológico, que exige mais mão de obra e atenção ao produtor. O agrotóxico é a coisa mais fácil”, compara. O profes-

O controle biológico consiste na utilização de organismos vivos para manter equilibradas as populações de determinadas pragas. Os chamados “inimigos naturais”, que se alimentam de insetos-pragas, a exemplo de pássaros, aves e aranhas, desempenham o chamado “controle biológico natural”. Já no “aplicado”, os predadores são criados em laboratórios e introduzidos pelo homem no sistema agrícola.

sor enfatiza que não se pode criminalizar o agricultor pelo uso excessivo de pesticidas no Brasil. “O produtor depende do ganho para manter a família. Ele não vai plantar e ver a plantação ser comida pelo grilo, pela lagarta. Então, recorre ao que existe, e os meios mais disponíveis, hoje, são os agrotóxicos”, ressalva. A agricultura familiar responde por 70% dos alimentos que chegam às mesas dos brasileiros. O relatório da FAO e da OCDE mostra que as propriedades familiares representam acima de 80% das unidades de produção agrícola no Brasil. Elas empregam mais de 12 milhões de pessoas, nada menos que 75% de todo o emprego rural.

E os transgênicos? Ele está no óleo de soja, no biscoito do lanche da tarde e, até mesmo, no chiclete de caixinha. Sim, o o triângulo amarelo com a letra “T” ao centro, que indica a presença de ingredientes geneticamente modificados, aparece em produtos os mais variados. Seu uso já é tão disseminado que há quem considere o aviso desnecessário. Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional, de autoria do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), propõe a retirada do símbolo das embalagens. Em vez disso, seria grafada a frase “contém transgênico”, apenas nos rótulos dos alimentos com composição igual ou superior a 1% de transgenia, mediante análise laboratorial. MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ 2015/JAN/FEV 2016

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Um dos problemas apontados pelos órgãos da sociedade civil, que se mobilizaram contra o projeto, é o fato de os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), presentes em produtos industrializados, passarem despercebidos, pois, em alguns casos, o processo de produção torna a presença não quantificável. “A rotulagem ficará a encargo de uma fiscalização muito especializada e custosa, sendo que não ficam claros o papel e a responsabilidade das empresas, do governo ou dos órgãos fiscalizadores”, argumenta o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em campanha contra o chamado “PL Heinze”. A desconfiança com relação aos OGMs parte da reivindicação de evidências científicas mais concretas e independentes sobre a segurança de seu consumo, mas vai muito além. “A liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por alçar o País ao primeiro lugar no ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo das sementes geneticamente modificadas exige o uso de grandes quantidades destes produtos”, afirma o Inca, no documento em que alerta para os potenciais riscos à saúde humana decorrentes do uso excessivo de venenos agrícolas. O Greenpeace tem posicionamento semelhante: “A introdução de transgênicos na natureza expõe nossa biodiversidade a sérios riscos, como a perda ou alteração do patrimônio genético de nossas plantas e sementes e o aumento dramático no uso de agrotóxicos. Além disso, ela torna a agricultura e os agricultores reféns de poucas empresas que detêm a tecnologia, e põe em risco a saúde de agricultores e consumidores”, afirma a organização global em sua página na internet. Na outra ponta, o pesquisador do INCT Café, Luiz Roberto Guimarães Guilherme, defende os avanços da Engenharia Genética. “Vejo esta tecnologia como extremamente promissora para produzir alimentos que possam acumular mais nutrientes e vitaminas, de modo a garantir outra dimensão extremamente importante da segurança alimentar, que é a ‘qualidade’ dos alimentos”, opina.

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Para o presidente da FAPEMIG, Evaldo Vilela, a resistência aos transgênicos é uma questão ideológica e econômica, que precisa de melhor regulamentação. “Não se pode deixar a transgenia solta, apenas nas mãos das companhias. É preciso conhecer o interesse do agricultor brasileiro e do meio ambiente. Não podemos, contudo, adotar mentiras de guerra econômica como verdades. Temos de fortalecer a ciência brasileira”, defende.

Soja com DNA brasileiro

A partir de 2016, os agricultores brasileiros terão acesso à primeira soja geneticamente modificada totalmente desenvolvida no País – das pesquisas em laboratório à comercialização. Trata-se do Sistema de Produção Cultivance, tecnologia desenvolvida ao longo de quase 20 anos de cooperação técnica entre a Embrapa e a Basf, multinacional da indústria química. As sementes são combinadas a um herbicida eficaz contra pragas de difícil controle. O produto já entra no mercado com aprovação dos principais países importadores da oleaginosa e da União Europeia. Segundo o Ministério da Agricultura, os “Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) são definidos como toda entidade biológica cujo material genético foi alterado por meio de qualquer técnica de engenharia genética, de uma maneira que não ocorreria naturalmente. A tecnologia permite que genes individuais selecionados sejam transferidos de um organismo a outro, inclusive entre espécies não relacionadas. Estes métodos são usados para criar plantas geneticamente modificadas para o cultivo de matérias-primas e alimentos. Essas culturas são direcionadas para maior nível de proteção das plantações, por meio da introdução de códigos genéticos resistentes a doenças causadas por insetos ou vírus, ou por um aumento da tolerância aos herbicidas. O plantio de organismos geneticamente modificados precisa ser aprovado pelas autoridades brasileiras”.

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“A Lei de Biossegurança brasileira é muito rígida, tanto quanto na Europa e nos Estados Unidos, para assegurar que produtos com tecnologia DNA recombinante não causem prejuízos às saúdes humana e animal e ao meio ambiente”, afirma o pesquisador Elibio Rech, da Embrapa Pesquisas Genéticas e Biotecnologia, um dos envolvidos no projeto Cultivance. Para ele, a polêmica sobre os OGMs é uma questão de amadurecimento social. “Os transgênicos vieram para ensinar os consumidores a serem exigentes com o que é produzido e comercializado. Devemos ser assim com tudo o que está nas prateleiras”, diz. Sobre a rotulagem dos produtos com transgênicos em sua composição, ele se mostra cético ao conteúdo expresso

nas embalagens. “Não difere da questão do orgânico: quem te garante que aquele produto é exatamente o que está dizendo que é?”, questiona. “Como cientista e cidadão, minha maior preocupação é assegurar que todo e qualquer produto com tecnologia DNA recombinante esteja seguro antes de chegar ao mercado”, revela o professor. Elibio Rech defende a credibilidade das agências fiscalizadoras no Brasil, em especial a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Não é qualquer laboratório que pode fazer estudo. No Brasil, é preciso ser certificado pelo Inmetro. E é obrigatório o ISO”, esclarece, em referência aos estudos sobre a segurança do consumo de alimentos transgênicos. O pesquisador destaca, ainda, que todo cidadão interessado pode solicitar acesso aos dossiês de regulamentação dos produtos liberados. Além disso, Rech vê com otimismo o rumo das pesquisas direcionadas à produção de alimentos. “Temos consciência de que a agricultura em larga escala causa impactos. Estamos cientes, porém, que temos capacidade e tecnologia nos sistemas de produção para minimizá-los”. No cenário projetado por ele, o caminho leva a defensivos biodegradáveis e a produtos inovadores, com redução de emissões, associados a um “equilíbrio conjuntural”, com geração de renda e emprego.

A sigla é referência à International Organization for Standardization – ou Organização Internacional para Padronização, em tradução livre.

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entrevista

Não somos vira-latas Presidente do Ipea e professor da Universidade Federal Fluminense, Jessé Souza desmitifica conceitos disseminados pelas Ciências Sociais no Brasil Vivian Teixeira

O professor e pesquisador Jessé José Freire de Souza dedica-se a temáticas relacionadas à teoria social, ao pensamento social brasileiro e a estudos teórico/empíricos sobre desigualdade e classes no Brasil contemporâneo. Desde abril de 2015, ocupa a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação federal vinculada ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, que fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais para a formulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento. Graduado em Direito e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), é doutor em Sociologia pela Karl Ruprecht Universität Heidelberg, na Alemanha, e pós-doutor em Filosofia e Psicanálise pela New School for Social Research, de Nova Iorque. Atualmente, é professor titular de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense (UFF) e acaba de lançar o livro A tolice da inteligência brasileira, pela editora Casa da Palavra. Nesta entrevista à revista MINAS FAZ CIÊNCIA, Jessé Souza defendeu um papel menos economicista para as Ciências Sociais e criticou a faceta pouco questionadora dos pesquisadores da área. Como o senhor começou a pesquisar as temáticas às quais se dedica hoje?

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Meus interesses remontam a minha ida para a Alemanha, no fim dos anos 1980. À época, comecei a pensar sobre a existência de pessoas sem nenhuma chance de vida, a exemplo do que ocorre no Brasil. Percebi que essa situação tem um certo consenso social, que, por sua vez, é um processo de aprendizado. São lutas políticas e ideias que conseguem tomar o coração e a mente das pessoas. A partir daí, passei a pensar como seria possível essa desigualdade naturalizada, como temos no Brasil. É comum ouvirmos pesquisadores das chamadas “ciências da natureza” a negar a cientificidade, por exemplo, da Sociologia. Em que medida o cientista social reforça tal percepção? Isso acontece, principalmente, em relação aos cientistas sociais que não são economistas. A Economia, afinal, “tira onda” de ciência exata. Tudo isso, para mim, é uma loucura, pois homens e mulheres recebem o dom de pensar, refletir e problematizar. A realidade é montada de tal forma que essa capacidade seja retirada das pessoas. Isso tem a ver com relações de poder, que fazem com que você retire a reflexão do campo de ação das pessoas. A Ciência Social deveria chamar a atenção para esse tipo de situação, re-

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velando como o mundo anda mal, e como homens e mulheres assemelham-se, cada vez mais, a formigas, que produzem o tempo todo. Eis as questões centrais das Ciências Sociais, que, por sua vez, também são pouco críticas. A culpa disso é dos próprios pesquisadores da área, que, por vezes, revelam-se economicistas e desenham o mundo por meio de números. Em certos momentos, o critério para a cientificidade é uma suposta exatidão. Exemplo disso está na divisão de classes sociais, que só considera a renda. Certos indivíduos têm a mesma renda, mas exibem estilos de vida completamente diferentes. Falar que eles pertencem à mesma classe é uma ilusão, um absurdo. Não há nada de exato nisso. A vida, afinal, não é exata, mas ambígua, complexa, contraditória. Precisamos nos acostumar com isso. O mundo dos tolos é exato, pois, se você usa a imaginação, a exatidão desaparece, as coisas não ficam nem pretas nem brancas, mas cinzas. Tudo se torna mais complicado, e, ao mesmo tempo, muito mais interessante. Em alguns de seus livros, o senhor trata, justamente, de conceitos construídos na Sociologia sem argumentos científicos. Um deles seria o de “homem cordial”,


Saulo Cruz

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Certos indivíduos têm a mesma renda, mas exibem estilos de vida completamente diferentes. Falar que eles pertencem à mesma classe é uma ilusão, um absurdo. Não há nada de exato nisso. A vida, afinal, não é exata, mas ambígua, complexa, contraditória.

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cunhado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda. Qual, exatamente, a fragilidade da definição? Esse conceito foi criado com base na ideia de corpo e espírito. De um lado, há o corpo que animaliza; de outro, o espírito, que é superior e diviniza o ser humano. As nações e as classes, portanto, seriam montadas com base nessa ideia. Existem as classes do espírito, como a classe média, e as do corpo, compostas pelos trabalhadores, pelas empregadas domésticas e por outras profissionais que trabalham pesado. Com as nações, é a mesma coisa. Existem as nações do espírito e da moralidade, representadas pelos Estados Unidos e pela Europa. Enquanto isso, os países periféricos representariam o corpo, ou seja, o sexo, a agressividade, a emotividade, algo muito próximo dos animais. Por traz disso, há uma explicação que mostra como a ética cristã usará essas duas coisas: o espírito, como a virtude, o caminho para Deus; o corpo, como o diabólico, o que precisa ser reprimido para ser salvo. A ética cristã é muito importante no mundo ocidental. Essa hierarquia da religião também passa ao mundo secular. E o maior desafio seria convencer o oprimido de que ele não vale muita coisa. Aí, ele será seu escravo, claro. Se você rouba a autoestima dele, dizendo que não serve para muita coisa, ele te obedecerá. Afinal, você é quem sabe. Foi exatamente isso que aconteceu com o Brasil. Aqui, existe esse complexo de vira-lata, principalmente, em relação à corrupção. Falam como se só no Brasil existisse a corrupção, como se o americano não fosse corrupto. Muitos “pensadores brasileiros” falam isso o tempo todo, o que é um engodo, uma enganação. Isso começou com Sérgio Buarque, depois veio Raymundo Faoro, Roberto DaMatta e Fernando Henrique Cardoso, que puseram esse complexo de vira-lata na cabeça do brasileiro. Em grande medida, nossos grandes problemas têm a ver com essa concepção, e com a fragilidade da democracia brasileira. Destaca-se a ideia de que precisamos “limpar o País”, de modo a revelar que o brasileiro é um lixo. Tal concepção foi construída com argumentos pseudocientíficos, que nada têm de ciência. Essa ideia do Sérgio Buarque é criticada no meu último livro, pois trata-se de conceito

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que fala dos brasileiros como “os últimos”. São animais, e disso se retira todo tipo de maluquice. Digo isso nessa linguagem não para desrespeitar esses pensadores, mas para revelar como tais ideias adquiriram aura de sacralidade. Acho importante, portanto, profaná-las. De sagradas, elas não têm nada. Servem, ao contrário, a interesses espúrios, que contribuem para a dominação de um país sobre outro, de uma classe sobre outra. Na atual luta de classes do Brasil, há essa divisão, em que o corpo é a classe trabalhadora, e o espírito, as classes média e rica. Essa ideia foi construída, no Brasil, com base em uma ciência. E o papel da ciência é de extrema importância hoje. Você precisa que um cientista avalize o certo e o errado. Nada é tão importante quanto a ciência. Por isso, essa “verdade” precisa ser destruída, antes de tudo, no seu prestígio científico. Quero dedicar minha vida a isso. Neste cenário, o que faz com que estado e mercado figurem em lados tão antagônicos? Essa é outra completa loucura, pois o mercado não pode ser separado do estado, que só terá impostos se o mercado for eficiente. Enquanto isso, o mercado precisa do estado para regular todo tipo de arrecadação. E o mercado brasileiro foi construído à sombra do estado. Os donos de veículos de comunicação, por exemplo, foram criados a partir do estado, mas se esqueceram disso. O estado é demonizado para que se possa ganhar com tudo. Daí ouvirmos que o estado não é capaz de garantir saúde e educação – como dito durante os governos de Fernando Henrique Cardoso. Para que isso? Para você dar a educação brasileira na mão de cinco empresários, que não querem saber como educar bem, mas como encher os bolsos de dinheiro mais rapidamente. Fizeram exatamente isso com a educação, a única ferramenta realmente eficaz de transformação. Com a saúde, é a mesma coisa. Quando se diz que o estado é ineficiente e corrupto – como se o mercado não fosse – é o mesmo que dizer que todas as esferas da vida, inclusive educação e saúde, devem obedecer a um instinto de lucro, e a meia dúzia de pes-


soas que mandam no País. Essas pessoas, então, demonizam o estado para que tudo vire negócio. Saúde, educação e previdência devem independer do fato de você ter ou não nascido em família privilegiada. É algo para todos. Qualquer sociedade digna oferece isso. Essa repercussão midiática dessa ciência serve a esse tipo de interesse, que nunca se assume como tal. É a cereja do bolo. Como você não pode dizer que quer que as pessoas passem a vida inteira como escravos ganhando pouco e enchendo os bolsos dessa minoria, você diz que no fundo você quer curar essa coisa maléfica que é o estado e fala que a corrupção é o único problema brasileiro, o que é falso. A corrupção é algo que você precisa controlar, mitigar, o que não se faz perseguindo um partido ou uma pessoa, mas com uma série de ações. E com propostas de financiamento público, de modo a tornar mais transparente a relação entre a política e a economia. Como se pode perceber, a discussão sobre corrupção no Brasil é “fulanizada”, pessoalizada. Ninguém fala em reformas institucionais que realmente poderiam alcançar a todos. Nos últimos meses, o Brasil passa por sucessivas crises políticas e econômicas. Em contrapartida, do ponto de vista social, houve avanços significativos nos últimos 15 anos. A que o senhor atribui o hábito de julgar os avanços e de determinar as classes sociais com foco no fator econômico? Essa é uma questão que não está sendo percebida adequadamente. Um dos projetos que estamos levando a cabo no Ipea é a tentativa de montar uma radiografia do capital cultural no Brasil, que é, basicamente, o conhecimento útil. O mundo moderno precisa tanto do conhecimento como do dinheiro. E o capital econômico se concentra em todo lugar. É assim no Brasil, na França, na Alemanha e na Inglaterra. Nesses países, contudo, o capital cultural não é tão concentrado como no Brasil, onde 80% têm carências importantes nessas áreas. O capital cultural, entre nós, não foi democratizado. Por isso, vejo como avanços os mecanismos criados para facilitar o acesso a ele. As famílias se conscientizaram disso. Pesquisas mostram que as famílias mais pobres têm

percebido a importância da educação, o que é uma verdadeira revolução. Não são apenas programas de transferência de renda. É apenas o início, pois esse processo precisa ser aprofundado. Claro que a sociedade brasileira é uma sociedade extremamente desigual e bárbara, mas essas modificações foram extremamente importantes. O que está havendo é a tentativa de acabar com esse passado virtuoso, para que o País volte a ser uma nação com 80% de escravos. Essa naturalização da desigualdade entre nós só é possível em um País escravocrata, que não criticou sua própria herança. No livro Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?, o senhor apresentou características das classes no País. Quais as principais diferenças entre elas? Foi um engano trabalharem com esse conceito de nova classe média, pois isso tem a ver com a separação de classes que só considera a renda. A questão da meritocracia, que reproduz o discurso “Eu lutei, eu mereço!”, é outra grande mentira, como se alguém fosse culpado de ser pobre e humilhado. Existem dois capitais no mundo, o econômico e o cultural, que definirão o acesso a outros bens escassos, e não apenas aos bens materiais. O capital econômico é bem concentrado. A classe média tem um pouco. No caso, esse capital serve, principalmente, para comprar o tempo, de modo que seus filhos só estudem. Isso é, hoje, um grande privilégio, pois os pobres não podem, exclusivamente, estudar. A pesquisa mostra que a classe trabalhadora, por volta dos 14, 15 anos, precisa combinar, de algum modo, trabalho e estudo. Ou seja, ela não faz, de maneira bem-feita, nem uma coisa nem outra. Essa classe também perde acesso a estímulos, ao pensamento fantasioso e à capacidade de concentração. A pesquisa mostrou que a concentração não é natural, mas algo construído. A classe média recebe estímulos ao pensamento imaginativo, à capacidade de se concentrar, pois ela vê o pai e a mãe se concentrando em outras atividades, enquanto o filho do pedreiro vê o pai com o carrinho de mão e, depois, vai brincar com o carrinho de mão e aprender

a ser um trabalhador manual, e não a usar a reflexão. Quem fala em mérito, ignora isso e esquece tudo que teve de mão beijada, pelo simples fato de ter nascido em uma família privilegiada. O filho da classe média chegará à escola aos cinco anos, como um campeão. Mesmo que perca um ano, sempre terá um pai que o apoia. Se ele cair vinte vezes, conseguirá se levantar. Autoestima é tudo! As pessoas mais pobres, no Brasil, não têm nada disso. E esse é o verdadeiro mérito: indivíduos que conseguem o que desejam, mesmo sem um ambiente favorável. Tais mentiras poderiam ser desmentidas pela Ciência Social, caso ela não fosse tão economicista e ficasse a repetir as mesmas coisas, de forma pouco crítica.

Quando se diz que o estado é ineficiente e corrupto – como se o mercado não fosse – é o mesmo que dizer que todas as esferas da vida, inclusive educação e saúde, devem obedecer a um instinto de lucro, e a meia dúzia de pessoas que mandam no País. Essas pessoas, então, demonizam o estado para que tudo vire negócio. Saúde, educação e previdência devem independer do fato de você ter ou não nascido em família privilegiada. É algo para todos.

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tecnologia nuclear

Os pulmões agradecem

Técnicas nucleares de monitoramento da qualidade do ar fornecem dados sobre poeira atmosférica na Região Metropolitana de Belo Horizonte Verônica Soares

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O que pode haver entre as condições do ar e as investigações sobre energia nuclear? À primeira vista, tal relação há de parecer improvável, não é verdade? Diferentemente do que se espera, porém, em Minas Gerais, uma série de pesquisadores tem usado técnicas e recursos nucleares para adquirir informações vitais sobre o ar na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde 2014, os pesquisadores Alberto Avellar Barreto, Vanusa Maria Delage Feliciano e Maria Ângela Barros Menezes, do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), buscam conhecer os elementos da poeira atmosférica para gerar dados estratégicos destinados a contribuir para a atuação dos órgãos governamentais responsáveis pelo gerenciamento da qualidade do ar na região metropolitana de Belo Horizonte. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os poluentes da atmosfera não provêm apenas de fontes artificiais (emissões industriais ou de veículos, por exemplo), mas, também, de fontes naturais, como a poeira de solo. A avaliação das características químicas e físicas do material particulado, por meio de técnicas nucleares, permite a identificação dos principais contribuidores para a poluição atmosférica em cada região. “Desse modo, pode-se tomar decisões bem embasadas e eficientes sobre a maneira de combater a poluição”, explica Alberto Avellar, coordenador do projeto. O grupo se concentrou na análise das micropartículas inaláveis (MP10: diâmetro < 10 micrômetros), com grande potencial poluidor e impacto na saúde. O trabalho ainda está em desenvolvimento, mas os pesquisadores pretendem, ao final, poder quantificar, nas posições em que houve o monitoramento, a participação das principais fontes poluentes. “A poeira fina é mais impactante, pois pode alcançar regiões sensíveis do sistema respiratório, chegar à corrente sanguínea e provocar infecções, alergias e asma, podendo levar, ainda, ao desenvolvimento de câncer e outras doenças. Além disso, quanto mais fina, maior o tempo em que ela fica suspensa na atmosfera”, esclarece. Outro aspecto importante da investigação diz respeito à identificação precisa dos componentes da poeira. “É claro que

as fontes artificiais são mais preocupantes, mas pode haver poeira natural com muita sílica, elemento reconhecidamente prejudicial à saúde humana”, detalha.

Medições

Usualmente, realiza-se a avaliação da qualidade do ar na Região Metropolitana de BH a partir de resultados obtidos nas estações automatizadas, localizadas em pontos definidos pela Fundação Estadual do Meio Ambiente do Estado de Minas Gerais (Feam-MG) para monitoramento de diversos poluentes, entre eles, o MP10. Devido ao alto custo de implantação, operação e manutenção, existe um número limitado de estações. A proposta da pesquisa “Caracterização do MP atmosférico na RMBH” foi, também, ampliar a investigação sobre o MP10 para outros pontos de coleta de dados, e, ao mesmo tempo, utilizar técnicas nucleares para avaliar a composição elementar do material particulado presente na atmosfera. As etapas já concluídas referem-se à obtenção de amostras do material particulado: de maio de 2014 a maio de 2015, coletaram-se 71 amostras. Estes resultados estão sendo processados segundo técnicas estatísticas e de geoprocessamento. Foram utilizados equipamentos de amostragem que aspiram o ar ambiente e filtram as partículas poluentes em suspensão na atmosfera. Para a escolha dos locais, o grupo utilizou recursos de geoprocessamento para gerenciamento de informações e identificação de fontes industriais, vias, topografia, densidade demográfica, ocupação urbana etc. “Para nós, era importante monitorar o ar em locais onde, de fato, as pessoas vivem. Localizamos regiões com um mix de elementos, como estradas, mineradoras e outras indústrias, além da presença de escolas e bairros residenciais”, afirma Alberto Avellar. Durante a realização dos procedimentos de coleta de amostras, foi ainda desenvolvida uma importante etapa do projeto: a divulgação científica e a conscientização sobre os benefícios do uso das técnicas nucleares. Os equipamentos foram instalados principalmente em escolas, de modo a que os pesquisadores pudes-

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sem conversar sobre o projeto com estudantes, professores e diretores. Apresentaram, assim, a relação da técnica nuclear com a análise dos elementos coletados e desmistificaram a ideia de que tais práticas, automaticamente, envolvam “perigo”. Para garantir a segurança dos equipamentos utilizados para a coleta de amostras, buscou-se envolver a comunidade local na pesquisa. A equipe de Alberto Avellar ministrava palestras de esclarecimento sobre a energia nuclear e suas aplicações técnicas nas diversas áreas de conhecimento. Além disso, o equipamento era instalado por três dias em cada área, para coletar o ar durante 24 horas. Algumas escolas tiveram receio em receber o projeto, por desconhecimento ou medo em relação à “energia nuclear”. “No primeiro contato, nem falávamos em energia nuclear. Uma vez na escola, aproveitávamos para conscientizar a comunidade e corrigir mal-entendidos sobre essa área de pesquisa”, diz o pesquisador. Nenhuma das escolas selecionadas para instalação dos equipamentos registrou problemas de vandalismo ou avaria dos equipamentos. “Tivemos, inclusive, o curioso caso de um estudante que ficou tão preocupado com o sucesso da pesquisa que me ligou por achar que a máquina tinha parado de funcionar. Só temos a agradecer as parcerias de sucesso! Pudemos identificar crianças com grande potencial para a carreira científica”, conta.

um reator nuclear próprio para pesquisa, por meio de técnicas como ativação neutrônica, espectroscopia Mössbauer, difração e fluorescência de Raios-X. As etapas de análise contaram com o trabalho de Igor Felipe Silva Moura, cujos resultados foram apresentados em sua dissertação de mestrado em Ciência Nucleares, realizada na Escola de Engenharia da UFMG.. No reator, a amostra de filtro com material coletado é irradiada, e os elementos presentes na poeira sofrem interação. “Cada elemento tem um pico característico de energia quando irradiado. Por meio do espectrômetro, é possível, então, identificar a curva dos elementos que compõem a poeira”, explica Igor Felipe. Para fins de comparação, os pesquisadores tomaram amostra como referência de um “local limpo”, com uma condição ideal de qualidade do ar, coletada em um condomínio de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A amostra registrou predominância de poeira natural, com menor concentração de poluentes quando comparada com os demais locais monitorados. Já os equipamentos instalados em locais de grande volume de tráfego e presença de indústrias apresentaram filtro com coloração bem mais escura,

Metodologia pós-coleta

Após a retirada do filtro do equipamento, as partículas foram analisadas em

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e com maior presença de elementos característicos de fontes artificiais. “Por meio das técnicas nucleares, conseguimos identificar e ainda quantificar a concentração de metais presente nos filtros, e, por conseguinte, na atmosfera da região onde foi coletado”. Para dar continuidade à pesquisa, Igor Felipe investigará, na tese de doutorado, a condição atmosférica e seus efeitos sobre a qualidade do ar em novos pontos da capital mineira. No CDTN, há uma estação meteorológica de 45 m de altura que coleta informações específicas para a realização de estudos de dispersão atmosférica – maneira como a atmosfera promove ou retém a dispersão dos poluentes. “Se estiver mais instável, com chuvas, ventos, variações de temperatura, a atmosfera favorece a dispersão. Se se estabiliza, a poluição torna-se mais concentrada”, detalha Alberto Avellar. No inverno, em Belo Horizonte, é possível perceber a diferença: quando a atmosfera está mais parada – e o

ar, mais seco –, os níveis de poluição acabam se intensificando. A chuva, por sua vez, é um fator que contribui para remover a poluição do ambiente, contribuindo para a melhoria da qualidade do ar. Ao final da pesquisa, os pesquisadores pretendem realizar parcerias com outras áreas do conhecimento, de modo a cruzar as informações dos componentes da poluição com dados epidemiológicos que possam contribuir com a identificação das regiões mais críticas e a prevenção de problemas respiratórios. Os resultados iniciais deste projeto confirmam a importância de ações do governo para a melhoria da qualidade do ar, destaque para a implementação da inspeção e da manutenção veiculares, com vistorias anuais preventivas, conforme sugere o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), de acordo com resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama – 18/1986).

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG Projeto: Caracterização do MP atmosférico na RMBH Coordenador: Alberto Avellar Barreto Instituição: Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) CHAMADA: Demanda Universal Valor: 38.850,00

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economia solidária

A força da coletividade

Pesquisa investiga arranjos contemporâneos abarcados pela chamada Economia Solidária

Camila Alves Mantovani

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Estabelecer relações econômicas mais sustentáveis – não apenas com o meio ambiente, mas, principalmente, entre os atores envolvidos na produção e na comercialização de produtos, bens e serviços – é um dos grandes desafios do século XXI. Os dados acerca da intensificação da desigualdade social e da concentração de riqueza, no Brasil e em outros países, apontam para a necessidade de investir em formas alternativas para geração de renda e minimização da pobreza. Dentre os possíveis caminhos a serem traçados, há aquele apontado pelos estudos em Economia Solidária, que, de modo geral, prega a promoção do equilíbrio de forças entre trabalhadores, detentores dos meios de produção e indivíduos ligados ao comércio de produtos e serviços. Coordenado pela professora Geisa Daise Gumiero Cleps, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e desenvolvido com auxílio da FAPEMIG, o projeto “O lugar e as formas de comercialização de produtos e serviços solidários em Minas Gerais” é uma das iniciativas que busca identificar e compreender novos arranjos socioeconômicos. “Economia Solidária consiste em um processo baseado nos princípios de cooperação e de trabalho coletivo, diferenciando-se do sistema capitalista vigente, por considerar e valorizar o trabalhador, sua experiência e força de trabalho, na solidariedade e no desenvolvimento de uma fonte de renda”, destaca Geisa Gumiero, ao ressaltar que a temática tem sido vista como alternativa às demandas da população excluída do mercado formal. “Valorizam-se, afinal, as experiências de trabalho coletivo e autogestionário no combate à fome, à miséria e ao desemprego”, explica. Para a pesquisadora, há, hoje, um conjunto de fatores que acaba por impulsionar a busca por estruturas associativas e de autogestão, tendo em vista a necessidade de efetivar alternativas à escassez de postos de trabalhos e geração de renda. Diante do cenário de privatizações, reestruturação de setores públicos e privados, falência de empresas e internacionalização da economia, é cada vez mais comum, nos mais diversos setores, a presença de organizações geridas pelos próprios tra-

balhadores. “Exemplos disso são as cooperativas de crédito, habitação, educação, seguros, consumo e outros. Por meio dessas alternativas, os trabalhadores almejam emprego, renda e relações que enfoquem qualidade de emprego e de vida. Eles se organizam na busca do negócio próprio ou atuam como autônomos e profissionais liberais”, analisa. Geisa destaca que, nos últimos anos, realizaram-se muitos estudos sobre o tema. A maioria das análises, no entanto, apresentou viés econômico. De outro modo, a pesquisadora buscou investigar a dinâmica da Economia Solidária, em Minas Gerais, sob o olhar da Geografia. Geisa Gumiero debruçou-se, pois, sobre o lugar e suas especificidades (econômicas, sociais, ambientais, culturais e históricas), para avaliar a relação das variáveis com o potencial de desenvolvimento das práticas econômicas solidárias. A partir daí, desenhou-se o objetivo principal do estudo: identificar as formas de troca dos produtos gerados e os lugares onde ocorriam no Estado.

Comércio ou subsistência?

Na visão da pesquisadora, para que um empreendimento se caracterize como prática de economia solidária, é preciso que certas características estejam presentes na iniciativa. Trata-se de fatores como trabalho coletivo (suprafamiliar), traduzido em associações, cooperativas ou grupos informais, solidariedade (resultados coletivamente divididos), autogestão (membros a gerir o empreendimento e a indicar líderes) e geração de uma atividade econômica – com garantia de que as necessidades básicas dos envolvidos sejam atendidas por meio de renda ou de boas condições para sobrevivência (autoconsumo). Discernir tais características, contudo, não é tarefa simples. Segundo Geisa, durante a identificação de um Empreendimento Economicamente Solidário (EES), há o risco de catalogação de empreendimentos tradicionais como experiências de socioeconomia solidária. Sendo assim, numa primeira fase do projeto, iniciada em 2007, realizaram-se pesquisas em fontes oficiais, para permitir a amostragem sobre os empreendimentos MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ 2015/JAN/FEV 2016

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em economia solidária (EES) no Brasil. Segundo a pesquisadora, foram consultados os sites do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), do Sistema de Informações em Economia Solidária (Sies), da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater/MG), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) e da Rede de Comercialização Solidária do Grupo Cáritas. Após tal pesquisa, buscou-se refinar a coleta, a partir do “sistema farejador” disponibilizado pelo FBES, o que permitiu categorizar as informações obtidas por mesorregiões do estado e município. Em seguida, os dados foram organizados e analisados, para, então, começar o trabalho de campo nos empreendimentos selecionados. Segundo Geisa, a pesquisa de campo mostrou-se extremamente importante, pois, com as entrevistas, foi possível identificar os produtos, as formas de comercialização e os lugares onde estas práticas se desenvolviam. “A partir daí, foi possível mapear as redes formadas pelos empreendimentos solidários existentes em Minas Gerais, bem como a sua cadeia produtiva, o que possibilitou mensurar a importância dessas redes para a sobrevivência de um grande número de pessoas que, por meio de associações, de cooperativas e de trabalho coletivo, conseguiam extrair da agricultura e do artesanato o sustento de várias famílias”, explica. No decorrer do trabalho, percebeu-se que muitos empreendimentos, em Minas Gerais, não possuíam documentação que os legalizasse, sendo caracterizados, portanto, como grupos informais. No total, apenas 40% possuíam Cadastro Nacional. Além disso, o estudo identificou, como principais atividades de atuação, as produções de gêneros alimentícios, têxteis e artesanais. Também se destacaram o uso coletivo de infraestrutura e de equipamentos e a aquisição de matérias-primas e insumos.

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Sobre a prestação de serviços, catalogaram-se 260 EES, a exemplo das lavanderias comunitárias. No entanto, conforme ressalta a pesquisadora, o comércio se configura como principal destino da produção dos empreendimentos de economia solidária. “Em 73,8% dos EES, a comercialização dos produtos ou serviços é o objetivo final. Apenas em 3% deles, toda a produção volta-se ao autoconsumo dos sócios”, esclarece. Nesse aspecto, as conexões estabelecidas desempenhavam papel fundamental para o sucesso dos EES. Isso porque, ao gerar associações e cooperativas, os empreendimentos potencializavam sua ação, de modo a permitir que várias famílias garantissem o sustento. No que concerne aos processos de gestão dos empreendimentos, observou-se que, em alguns deles, não há participação dos sócios na tomada de decisões, fato que os descaracteriza como EES. “Outro problema refere-se ao fato de que, em 182 EES, os resultados das atividades econômicas não foram suficientes, nem mesmo, para o pagamento das despesas do próprio empreendimento. Ou seja, os sócios não encontravam uma fonte de renda, o que também não atende a um dos objetivos principais da Economia Solidária”, reflete.

Geração de renda

Assim como ocorre em todo o País, a principal motivação em Minas Gerais para a criação de uma EES diz respeito ao


combate ao desemprego ou à geração e complementação de renda. “Desse modo, confirmou-se o papel da socioeconomia solidária como fonte alternativa de geração de trabalho e renda para os socialmente excluídos, cumprindo, assim, seus propósitos básicos”, frisa Geisa Gumiero. Com relação à distribuição geográfica das iniciativas no Estado, a pesquisa mostrou que, embora existam experiências exclusivas de Economia Solidária em áreas rurais (31,8% dos EES), a maioria está nas cidades (56,4% dos EES) ou necessita dos centros urbanos em alguma de suas fases de produção e/ou comercialização. Após a pesquisa, finalizada em 2011, Geisa deu seguimento aos estudos em Economia Solidária no Estado, para analisar as especificidades dos empreendimentos em relação à organização das atividades em si e às interações estabelecidas com seus lugares-sede, que, por vezes, constituíam novas territorialidades. Tais relações põem em destaque, por exemplo, questões vinculadas ao consumo e às demandas de sustentabilidade. Dentre os projetos hoje em atividade, destaque para “Comércio e consumo solidário na Mesorregião Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba:

processos, formas e novas territorialidades” e “As redes de comércio solidário em Minas Gerais: processos, formas e novas territorialidades”, ambos apoiados pela FAPEMIG e outras agências de financiamento. Na opinião de Geisa Gumiero, o mais importante tem sido identificar e avaliar os pontos positivos e negativos das iniciativas, de modo a estabelecer diretrizes que ajudem a fortalecê-las. “A Economia Solidária tem sido uma das alternativas para minimizar a crise do trabalho e da fome no mundo capitalista. Ressalta-se, porém, que ela não se constitui como modelo revolucionário, capaz de mudar ou subordinar o sistema atual, mas como projeto apto a estruturar uma alternativa econômica, social, política e, também, cultural”, completa.

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG Projeto: O lugar e as formas de comercialização de produtos e serviços solidários em Minas Gerais Coordenadora: Geisa Daise Gumiero Cleps Instituição: Universidade Federal de Uberlândia (UFU) chamada: Programa Primeiros Projetos Valor: 19.472,96 MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ 2015/JAN/FEV 2016

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inclusão

Baralho da inclusão

Projeto ensina Libras por meio de jogo de cartas e melhora o convívio entre alunos de escola municipal em Belo Horizonte

Roberta Nunes

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Quando se encontraram pela primeira vez em sala de aula, Isabela Drummond e Raissa Rodrigues, ambas de 12 anos, não conseguiram se comunicar imediatamente. Uma delas, afinal, é deficiente auditiva, enquanto a outra, ouvinte, não conhecia a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Para além da natural dificuldade de contato, porém, ambas tinham a sorte de estudar na Escola Municipal Júlia Paraíso, no bairro Alípio de Melo, em Belo Horizonte, primeira instituição a receber o projeto “Librário: design inclusivo para surdos”, da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg). Por meio da iniciativa, e com total apoio escolar, Isabela e Raissa não se desgrudam mais! Estão sempre juntas, e a conversar sobre tudo o que desejam. Com o intuito, justamente, de diminuir tais obstáculos de convivência, a estudante Flávia Neves, do curso de Artes Visuais da Uemg, desenvolveu uma maneira lúdica de aproximar os ouvintes da linguagem usada pelos deficientes auditivos. Trata-se de um baralho de pares de cartas, que contêm os sinais de Libras e as palavras em português. Há, na verdade, duas versões do jogo: uma geral, com vocábulos do cotidiano, e outra ligada às artes visuais. A expectativa, porém, é que, com o tempo, surjam novos modelos. “Percebemos, por exemplo, que o librário das artes não é só um recurso para auxiliar o intérprete de Libras em sala de aula. Ele pode contribuir com todas as disciplinas. Por isso, já pensamos em desenvolver algo similar para Ciências, Matemática e outras áreas do conhecimento”, afirma. O projeto realiza, ainda, grupos de estudo, encontros acadêmicos e oficinas de Libras para a comunidade escolar. Devido ao sucesso do trabalho, o Librário foi o vencedor, em 2015, na categoria “Universidades e Institutos de Pesquisa”, da 8ª edição do Prêmio de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil. A premiação, de R$ 50 mil, foi entregue simbolicamente à professora Rita Engler, coordenadora do projeto junto ao Centro de Estudos de Design e Tecnologia da Uemg, durante cerimônia realizada em Brasília. O uso da Língua Brasileira de Sinais, como alternativa de idioma para surdos, é

regulamentado por lei desde 2002. Ciente da regulamentação, os profissionais da escola Júlia Paraíso resolveram desenvolver o projeto “Libras na Escola e na Vida”, que oferece oficinas, encontros e seminários, de modo a contemplar cerca de cem pessoas mensalmente. Na visão da professora Rosemary de Jesus Silva, coordenadora da iniciativa na escola, o conhecimento prévio facilita a aplicação do jogo. Isso, porém, não é impedimento para que outras instituições invistam em ações similares. “É preciso um trabalho de sensibilização, para mostrar a importância e criar o ambiente necessário ao jogo. Toda criança, afinal, gosta de brincar”, destaca. A escola disponibilizou parte da carga horária da disciplina de Artes para a aplicação do jogo entre os alunos. Na percepção de Bruna Pereira, intérprete de Libras, “os ouvintes gostam de aprender, mas alguns não têm interesse, por achar muito complicado. Em função disso, o baralho revelou-se uma ferramenta lúdica, que facilita o processo”. Há várias maneiras de brincar! Em uma delas, o aluno escolhe uma carta do baralho e precisa desenhar, no quadro Flávia Neves

Baralho facilita o apredizado de Libras e melhora a convivência entre alunos MINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ 2015/JAN/FEV 2016

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branco, o sinal em Libras. Ganha quem adivinhar primeiro e demonstrar a palavra corretamente. A competição fica acirrada!

Inclusão De maneira geral, a história da inclusão é marcada pelo distante convívio entre a comunidade ouvinte e os surdos. No Brasil, são quase 10 milhões de deficientes auditivos, segundo dados do Censo 2010. Diante da expressividade dos números, uma série de questões vem à tona: o que limita a pessoa com deficiência? O problema é o corpo? Ou o contexto pouco sensível à diversidade? Segundo Débora Diniz, no livro O que é deficiência, tal discussão teve início em 1976, com a criação da primeira organização política sobre a deficiência. Ainda hoje, porém, o debate é válido. A intérprete Bruna Pereira, por exemplo, confessa vivenciar, cotidianamente, o esforço dos alunos deficientes para se adaptar à sociedade – e não o contrário. “A inclusão deveria ocorrer em mão dupla.

Todos deveriam se adaptar para conseguir se comunicar”, enfatiza. A professora Rita Engler tenta mudar essa realidade, justamente, com o auxílio do Librário. “Temos buscado incentivar os ouvintes a aprender Libras com o jogo, e não o contrário, por meio da oralização dos surdos”, afirma. A brincadeira ajudou os estudantes a aprender o idioma de Isabela, que, na escola Júlia Paraíso, é acompanhada pela intérprete Bruna Pereira. Atualmente, ela já se comunica com a maioria dos colegas, além de ter se tornado referência, a partir do momento em que todos aprendiam seu idioma. Os amigos, na verdade, costumam lhe perguntar: “Como é isso?”, “Como se faz esse sinal?”. Diante das muitas dúvidas, ela fica feliz em ajudar. “Eles me perguntavam alguma coisa e eu podia compartilhar ideias com meus amigos. Às vezes, isso pode ajudá-los a se comunicar futuramente. Além disso, as pessoas podem se unir a partir de uma brincadeira”, completa a estudante.

Flávia Neves

Estudantes da escola Júlia Paraíso buscam novas formas de comunicação

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PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG Projeto: Librário: design inclusivo para surdos Coordenadora: Rita Engler Instituição: Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) Chamada: Pesquisa em Educação Básica - Acordo Capes/Fapemig Valor: R$ 67.221,63


letras

Uma leitura, múltiplos sentidos Professor do Instituto Federal de Minas Gerais analisa complexidade dos processos de interpretação de textos

Maurício Guilherme Silva Jr.

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O professor também é líder do Grupo de Estudos sobre Ensino e Aprendizagem de Língua Portuguesa (Geali) do IFMG – campus Ouro Preto – e integrante do Núcleo de Estudos em Linguagens, Letramentos e Formação (Nellf) da PUC Minas.

Tal complexidade realmente aproxima as visões de José Paulo Paes e de Adilson Ribeiro, conforme ressalta o próprio pesquisador do IFMG: “Tendo em vista o campo de conhecimento ao qual se vincula, e considerando especificidades, o termo ‘transleitura’, cunhado por Paes, traduz, de certo modo, a defesa de que a leitura é uma atividade complexa, que envolve, portanto, variáveis das mais diversas ordens”.

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O importante escritor e tradutor paulista José Paulo Paes (1926-1998) discute, em um de seus muitos ensaios teóricos, a capacidade de “transleitura” das pessoas. O neologismo criado pelo autor busca destacar que, diante de um mesmo texto, os indivíduos decodificam conteúdos e significados de modo extremamente específico, em função de exibirem trajetórias – de vida e conhecimento – completamente distintas. Em outros termos: diante de informações escritas ou imagéticas, a interpretação torna-se, necessariamente, múltipla. Ligado ao ensino de língua portuguesa nos níveis fundamental, médio e superior desde o início dos anos 1990, Adilson Ribeiro de Oliveira, à maneira de Paes, sempre se preocupou com os desafios da produção de sentidos nos processos de leitura. Professor do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) (campus Ouro Branco), ele problematiza, inclusive, a proliferação de pesquisas dedicadas à averiguação e à medição da capacidade leitora dos alunos. “Sem entrar no mérito de tais investigações, percebo que, normalmente, muitos atestam deficiências de leitura entre os estudantes, o que, obviamente, repercute, na sociedade, de forma negativa”, destaca. Neste cenário, Adilson Ribeiro considera fundamental investigar os complexos processos de produção de sentido inerentes à leitura, tanto para compreender melhor o modo como os alunos produzem sentidos quanto para propor metodologias de ensino. “Existe, ainda, a possibilidade de balizar – no sentido de determinar grandeza e valor – os resultados dos estudos já realizados”, conclui. Há muito, o pesquisador sente-se incomodado com comentários sobre a incapacidade de leitura e interpretação dos alunos. “Fico intrigado com esse fato, pois creio haver um equívoco aí. Não estou sendo ingênuo ou querendo ‘tapar o sol com a peneira’. Creio, porém, que não podemos limitar uma atividade tão complexa a afirmações categóricas sem as relativizar”, afirma, ao frisar que, “em uma sociedade letrada como a nossa, não é possível sobreviver sem lidar com as necessidades impostas pela escrita”. Em função disso, o professor prefere interpretar tais comentários de modo

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“Processos de referenciação, emergência de representações sociais e produção de sentido: um olhar sobre percursos interpretativos na atividade de leitura”, tese orientada pela professora Juliana Alves Assis, junto ao Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas.

bastante particular: eles procuram apontar, na verdade, que, determinadas vezes, os estudantes não conseguem ler gêneros ou tipos textuais específicos, em dada situação, com dado objetivo. “Trata-se, enfim, de condições de produção singulares, que exigem, portanto, competências, percursos, modos, gestos de leitura e outras variáveis também peculiares, que não se permitem flagrar com tamanha transparência”, conclui.

Referenciação Ao debruçar-se sobre os desafios da produção de sentidos, Adilson Ribeiro busca investigar e compreender melhor a atividade de leitura, para, desse modo , consolidar perspectivas capazes de redimensionar o entendimento sobre a questão, ao mesmo tempo, do ponto de vista pessoal, social, acadêmico e profissional. “Mais do que preocupações particulares, trata-se de um problema sobre o qual se deve debruçar, de maneira incisiva, a pesquisa linguística em sua vertente aplicada”, esclarece. Durante o mestrado em Pedagogia Profissional, realizado no Instituto Superior Pedagógico para a Educação Técnica e Profissional (ISPETP), de Cuba, o professor abordou as condições de produção escrita escolar e suas implicações na construção da textualidade. Já no doutorado, realizado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), a abordagem de pesquisa centrou-se na atividade de leitura, sob o viés da referenciação – uma “entrada produtiva” para compreensão dos processos de produção de sentido na leitura.


No início dos estudos doutorais, Adilson conheceu a Teoria das Representações Sociais, advinda da Psicologia Social, que lhe possibilitou embrenhar-se na investigação que culminaria com sua tese. “Meu foco de interesse é o estudo das representações sociais como elemento constitutivo de competências de leitura”, diz. Em suas investigações, o pesquisador procura não delimitar tipos e gêneros textuais para compreensão dos processos de produção de sentido. Seu foco é o estudo de estratégias, habilidades, competências e procedimentos normalmente acionados, na atividade de leitura, para possibilitar elaborações que permitam, ao leitor, a construção de sentidos – com objetivos determinados e em situações e condições específicas. “Evidentemente, não desconsidero o fato de que gêneros e tipos textuais também determinam o acionamento de estratégias específicas, habilidades próprias, e assim por diante. Prefiro concentrar a atenção, contudo, naquelas que poderiam ser consideradas necessárias para qualquer tipo de texto”, explica. Para tal, conforme ressaltado, o professor dedica-se aos processos de referenciação, atividades discursivas nas quais o sujeito lida com os objetos de discurso, de maneira a operar sobre o material linguístico à disposição e a realizar escolhas significativas, com a finalidade de construir propostas de sentido dentro de um quadro referencial construído sociocognitivamente. “Assim, a referenciação diz respeito à possibilidade da linguagem de não somente construir o universo a que ela se refere, mas, também, de mediar – em conjunto com outras semioses e práticas sociais – as relações que se estabelecem entre sujeito e realidade”, comenta.

Caminhos e estratégias Adilson Ribeiro destaca que pode parecer paradoxal, em uma perspectiva de referenciação – caracterizada como movente e instável –, a menção a habilidades, procedimentos e estratégias de leitura. Apesar disso, a seu ver, não há contrassenso: “Embora movente e instável, a produção de

sentidos na leitura revela-se um processo dinâmico, no qual os leitores, dentro dessa mobilidade, articulam conhecimentos de ordem diversa, que lhes permitem escolher certos caminhos, e não outros”, elucida. Habilidades, destrezas, técnicas, estratégias, embora mantenham semelhanças e diferenças, são tratados, simplesmente, como procedimentos. “Eles são desenvolvidos, afinal, quando se ativam estratégias, que, organizada e articuladamente, contribuem para a atividade de leitura”, comenta o pesquisador. Para explicar tal complexo mecanismo, Adilson Ribeiro recorre à seguinte metáfora: ao caminhar pelas ruas da cidade, ao observar sinais de trânsito e ao decidir o trajeto adequado, os indivíduos lidam com procedimentos. No primeiro caso, a ação é completamente automatizada; no segundo, controlada por instruções; no terceiro, usa-se a capacidade estratégica em função do resultado que se deseja. “Ora, não é difícil perceber que, nos três casos, ativamos ações (co) ordenadas, organizadas e articuladas com o propósito de atingir um objetivo. A diferença são os graus de automação, controle e processamento estratégico que possibilitam a consecução do objetivo”, conclui. Daí advém a noção de estratégia, cuja principal característica é o fato de não definir, não detalhar e não prescrever totalmente o curso de uma ação, mas, tão somente, de sugerir caminhos adequados às metas. “Sua essencialidade está no fato de que envolve autodireção, um propósito a alcançar e a consciência de que ele existe, e autocontrole, supervisão e avaliação do comportamento em relação ao que se pretende, para, caso necessário, modificá-lo”, resume. O desafio está no fato de que a leitura só pode ser compreendida como a atividade em que o sujeito participa do processo (social e histórico), cujo fim é a produção de sentido, ou de “efeitos de sentido”. “Isso só acontece a partir da ativação de operações cognitivas, desencadeadas a partir de um lugar social: dessa forma, há sentidos possíveis, ou não, de serem construídos. Tudo depende do quadro de referências posto na interação”, diz.

Em função disso, os textos apresentam múltiplas possibilidades de leitura: cada pessoa, de acordo com o quadro de referências construído na interação – a posição que ocupa e o modo como é interpelado, por exemplo – construirá certas propostas, em detrimento de outras. “Daí, também, minha defesa de que a emergência de representações sociais, durante a atividade de leitura, interfere sobremaneira nos percursos referenciais, e, consequentemente, nas propostas de sentido desencadeadas”, completa. As representações sociais, embora vinculadas à prática social, manifestam-se no plano individual, mediadas pela linguagem, tomada como forma de construção de conhecimento e de interação social, e conduzem a formas determinadas de concepção da realidade. “Essencialmente, desse modo, embora acessadas a partir de atividades cognitivas, precisam ser compreendidas tendo em vista seu contexto de produção, como modalidades de conhecimento prático orientadas para a compreensão do contexto social e material em que vivemos, como forma de conhecimento diretamente implicado na construção e na interpretação da realidade”, explica. Assim, as representações sociais exercem papel essencial nos processos de referenciação – e, especificamente, na atividade de leitura. “Neste sentido, adoto a perspectiva de que as representações podem ser encaradas como elemento constitutivo de competências de leitura, pois sua emergência interfere nos percursos interpretativos assumidos pelos leitores e são determinantes na produção de sentido” Desse modo, pode-se compreender a leitura como atividade processual de produção de sentidos, que, embora tenha como fundamentais as operações e os mecanismos da cognição humana (memória, inferência, verificação), não descarta o fato de que entram em jogo aspectos de ordem social e interativa. “Trata-se de fatores determinantes à gestão do sentido, aos movimentos do sujeito na linguagem e aos gestos de leitura desencadeados”, resume.

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educação

educação segundo igreja e estado

Estudo destaca disputa pela hegemonia da escola, no Brasil e em Portugal, nos séculos XIX e XX

Thiago Malta

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Manter uma ideologia predominante talvez seja um dos grandes desejos do defensor de qualquer conjunto de ideias. Notadamente, é correta e lógica, para o indivíduo, a corrente de pensamento que se relacione com seu meio social desde a infância. Discussões ideológicas fundamentam guerras mundo afora e, quando não controladas, geram conflitos em diferentes níveis. As instituições sempre lutaram para conquistar mais adeptos às suas ideologias. O objetivo, em grande medida, é seduzir fiéis à corrente de pensamento. Professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Carlos Henrique Carvalho e uma equipe de pesquisadores aventuraram-se a analisar as raízes de ideias perpetuadas há cerca de 300 anos. A pesquisa “Estado e Igreja Católica na disputa pela escola em Portugal e no Brasil, nos séculos XIX e XX” busca investigar a organização dos sistemas nacionais de ensino e as formas de relação entre a Igreja Católica e os governos nos dois países. Segundo Carlos Henrique Carvalho, o recorte histórico refere-se à era da Segunda Modernidade, período de forte conflito entre as duas instâncias de promoção da educação. O debate mais aflorado tinha como tema os princípios liberais. Os defensores da ideologia apoiavam eleições democráticas, direitos civis, liberdade de imprensa, livre comércio, liberdade religiosa e propriedade privada. Junto ao nacionalismo, esta foi a base que culminou com as unificações da Alemanha e da Itália. Com este pano de fundo, criaram-se os sistemas nacionais de ensino. O período da Segunda Modernidade também foi marcado por ciclos de hegemonia do estado e momentos de cooperação com a Igreja Católica. A escola se consolidou como espaço de formação da sociedade para atender as demandas das duas instituições.

De mãos dadas Ganhar corações e mentes da população, principalmente das crianças, sem-

pre foi interesse da ordem religiosa, e era objeto de desejo dos novos governantes, que, então, construíam um modelo de sociedade. Ambas, no entanto, entendiam que, para alcançar as metas, a consonância era necessária em determinados momentos. Segundo a pesquisa, agentes da Igreja e do estado, por vezes, trabalharam em conjunto: “Observou-se efetiva participação das ordens religiosas nas discussões sobre educação na Primeira República, sobretudo, para a situação brasileira,  dada a presença dessas ordens no espaço educacional e no processo de formação de professor primário”, comenta Carlos Carvalho, ao destacar, ainda, que houve marcante ação dos intelectuais católicos no espaço luso-brasileiro – principalmente, das ideias de Alceu de Amoroso Lima, entre os anos de 1920 e1950. A pesquisa revelou que foi possível avançar à compreensão de características católicas da sociedade mineira pelo fato de que o estado, mas não apenas em Minas Gerais, manteve relações muito próximas com a igreja, ao usar diversos representantes do clero na administração pública. “Isso ocorreu, notadamente, no ramo da educação, posto que inúmeros padres foram professores, diretores, inspetores ambulantes, agentes etc.”, esclarece. Do ponto de vista teórico, o pesquisador ressalta que a fundamentação da categoria laica oferece um novo ângulo de análise, com resultados que podem colaborar para novas investigações. “Julgamos ter contribuído para o fortalecimento destas novas formas de ‘entrada’ na história da educação brasileira, que se utilizam de fontes, até recentemente, pouco exploradas para análise da realidade, como é o caso das informações contidas nos livros de atas de câmaras municipais, de atos do agente executivo, projetos de lei municipais, correspondências da Câmara etc.”, afirma, ao lembrar que o estudo buscou complementar as constatações com dados colhidos nas imprensas regional e nacional, tanto do Brasil como de Portugal, e na literatura. Vale destacar que, ainda hoje, a relação entre educação pública e entidades

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religiosas revela-se bastante marcante em Minas Gerais, tendo em vista o grande número de escolas – do ensino fundamental ao nível superior – diretamente ligadas à Igreja Católica.

Pesquisa itinerante A metodologia utilizada na análise fez os pesquisadores gastarem sola de sapato. Foram levantados documentos em arquivos públicos, particulares e bibliotecas das cidades de Ouro Preto, Rio Pomba, Teófilo Otoni e do Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte. Segundo o professor Carlos Henrique, “boa parte dessa documentação já sofreu um processo de seleção e organização categorial, bem como teve sua transcrição realizada pelos bolsistas e pelos pesquisadores”. A construção da pesquisa passou pela elaboração de trabalhos “que foram apresentados em congressos e se transformaram em artigos publicados em revistas da área de História da Educação”, destacou. O variado perfil das fontes que fundamentaram o estudo possibilitou outra visão sobre o momento histórico, tendo em vista que a equipe procurou trazer à tona posições dos setores dominantes e dominados, com olhar internacional para o nacional, transitando pelo regional.

entender, também, a dimensão dos desafios restantes às gerações atuais, para que alcancem condições educacionais que contribuam, significativamente, com o processo de desenvolvimento de Minas Gerais”, ressalta. Outro ponto destacado pelo professor é a necessidade de superação de mazelas corriqueiras no período analisado, mas que ainda persistem. “Nossa atual realidade social é bem diferente se comparada à do final do século XIX. Apesar disso, percebemos problemas similares, como má remuneração de professores, instalações físicas inapropriadas, em muitas localidades do País, e ausência de fiscalização e política de formação de professores adequada às necessidades do ensino básico. Tais características perpassaram o ‘tempo histórico’ da educação brasileira”, destaca.

Perspectivas A educação pode ser considerada uma grande colcha de retalhos, diariamente confeccionada, com pontos passados ou panos unidos. Desse modo, a pesquisa vislumbra contribuir, com subsídios para uma nova perspectiva histórica sobre a educação regional e brasileira. “O impacto gerado pela pesquisa relaciona-se ao aprimoramento da compreensão do processo de formação e de organização da instrução pública em Minas Gerais no início da República”, ressalta Carlos Carvalho. A percepção da realidade educacional de outras épocas e dos esforços governamentais despendidos para a mudança de processos permite compreender até que ponto houve avanços na área. “Busca-se

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PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG Projeto: Estado e Igreja Católica na disputa pela escola em Portugal e no Brasil, nos séculos XIX e XX Coordenador: Carlos Henrique de Carvalho Instituição: Universidade Federal de Uberlândia (Ufu) chamada: Programa Pesquisador Mineiro (PPM) Valor: R$ 48.000,00


Cinema

Unidos pela diferença Grupo de pesquisas da UFMG discute novo conceito de “comunidade” a partir da análise crítica de documentários contemporâneos Alessandra Ribeiro

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O que seria uma “comunidade de cinema”? Aberta, a pergunta pode dar margem à ideia de um grupo de pessoas que se reúne para ver filmes, a exemplo de um cineclube. Mas, e se partirmos de discussões filosóficas, com o objetivo de construir, por exemplo, novos conceitos de comunidade? Neste viés, a pesquisa “Comunidades de Cinema”, conduzida pelo Grupo de Pesquisa Poéticas da Experiência, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investiga como o documentário contemporâneo retrata o comum. A partir da acepção de Jean-Luc Nancy, e de outros filósofos franceses elencados como referenciais teóricos, o “comum” é compreendido como um lugar que abriga, também, as diferenças. “Esta noção de comunidade trabalhada pelos autores é paradoxal: ela inclui o heterogêneo, o dessemelhante”, aponta César Guimarães, professor do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG e coordenador do grupo. Trata-se do oposto à comunidade concebida na forma de uma essência, pensada como algo fechado, a partir de laços de pertencimento, de identidade. “Se você pensar o que foi o nazismo, as reivindicações nacionalistas pregam que alguém pertence a uma comunidade por ter o mesmo sangue, habitar o mesmo território. São noções perigosíssimas”, lembra, ao citar o paralelo traçado por Nancy e Philippe Lacoue-Labarthe no livro O mito nazista. Numa perspectiva ontológica, na comunidade aberta, tal como compreendida pela pesquisa, existir é sempre “ser com os outros” na sua diferença; segundo Jean-Luc Nancy, é expor-se, ao se deslocar de sua própria posição. O filósofo afirma que a lei do mundo é a partilha dos muitos mundos de que ele é feito, sem integrá-los ou reuni-los pela justaposição. “Ser deslocado de sua identidade em si e se ver confrontado a uma diferença”, resume César Guimarães. No entanto, tal

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embate consiste na consideração do diferente, quando se pretende compreendê-lo, e não reduzi-lo. “As diferenças não devem ser tomadas como uma coisa que deve ser expurgada, destruída. Há a questão política de como poderíamos viver em comum sob a forma deste aparecer das diferenças umas diante das outras”, afirma. De que maneira, portanto, o cinema – ou, mais especificamente, o documentário – concede visibilidade a esta comunidade e ao comum? Isso ocorre quando o filme rompe com a chamada “partilha do sensível”: a maneira como os sujeitos estão distribuídos e organizados, de acordo com o que fazem e com os lugares que ocupam. “Eis o que Jacques Rancière chama de ‘cena política’, quando aqueles que não eram contados na divisão do sensível se deslocam do seu lugar e se fazem ouvir como sujeitos capazes de expressar seu pensamento, dotados de desejos”, explica o professor. Se aqueles que eram excluídos da vida em comum, os anônimos, aparecem no filme como seres dotados de discurso e da capacidade de expressar sua própria experiência de vida, temos uma “comunidade de cinema”.

Filmografia A escolha das obras cinematográficas analisadas pelos pesquisadores foi li-

Constituído em 2007, no Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, o grupo estuda as múltiplas manifestações do audiovisual contemporâneo – nos domínios da fotografia, do cinema e das artes performáticas –, com ênfase nos processos de criação, na organização dos elementos expressivos e nas formas de fruição. As discussões privilegiam os diferentes modos como as imagens figuram, convocam e produzem a experiência dos sujeitos.

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vre – mas não aleatória – e não houve restrições a um universo histórico ou social. No rol dos títulos estrangeiros, estão Juventude em marcha (2006), do português Pedro Costa; Nossa música (2004), de Jean Luc-Godard; Uma vez eu entrei num jardim (2012), do israelense Avi Mograbi; Amsterdam Global Village (1996), assinado por Johan Van der Keuken, e vários outros. “A primeira ideia era abordar filmes cujo gesto político não fosse feito de um mero discurso acerca dos explorados, sobre aqueles que sofrem a discriminação ou que são objetos de desigualdade, de um processo de violência. São filmes capazes de apresentar essa riqueza sensível dos sujeitos incluídos na parcela dos sem


parcela”, descreve o pesquisador, ao frisar que os documentários não apenas registram ou reproduzem tais vozes, mas usam elementos expressivos próprios do cinema, capazes de criar as imagens da comunidade por meio da duração dos planos, da iluminação, da articulação dos discursos, dos gestos, da mise en scène. Na lista dos filmes nacionais, está o premiado A vizinhança do tigre (2014), de Affonso Uchôa, vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes, em sua 17ª edição, e do 18º FórumDoc.BH, dentre outros festivais nos quais se destacou. Produzido de maneira independente, ao longo de cinco anos de gravações, o filme conta a história de cinco jovens moradores do bairro Na-

cional, periferia da cidade de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O longa-metragem une realidade e ficção: os atores, estreantes, encenam acontecimentos de suas próprias vidas. Divididos entre trabalho, diversão, crime e esperança, cada um deles busca maneiras de superar as dificuldades. A obra trata da tendência, hoje generalizada, de enxergar os jovens como infratores, evadidos da escola. “Tudo isso é uma maneira de conceber, para eles, uma identidade. Trata-se de conhecê-los a partir do que Rancière chama de uma ‘compreensão desapropriadora’”, afirma César Guimarães. No entanto, relata o professor, o filme mostra o universo dos rapazes se-

gundo os termos deles, não apenas pelo que dizem, mas, também, pelo modo como são retratados, sensivelmente, os lugares que habitam: as casas sem rebocar, os quartos precários, as ruas, a ligação com o rap, a revolta, o imaginário do crime, e, ao mesmo tempo, a brincadeira, o companheirismo. “O sensível tal como ele é organizado tomava esses lugares, esses personagens, espaços, como coisas invisíveis. Quando em cena, eles surgem por meio de sua matéria sensível”, diz.

Imagem mediadora Reorganizada e povoada pelas diferenças, a imagem torna-se o elemento que aproxima o cinema da nova concepção de comunidade. “O próprio da imagem é sua capacidade de operar a ligação entre os sujeitos”, afirma César Guimarães, embasado na perspectiva da filósofa Marie-José Mondzain. O público, por sua vez, passa a perceber a “vizinhança”, o outro. Ao se verem juntos, os espectadores percebem como as diferenças aparecem, ao mesmo tempo, mas cada um deles compreende o filme à sua maneira. “Ligados em sua separação, distantes de toda identificação, com um corpo único”, descreve Guimarães. Forma-se, então, a comunidade dos espectadores.

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG PROJETO: Estado e Igreja Católica na disputa pela escola em Portugal e no Brasil, nos séculos XIX e XX COORDENADOR: Carlos Henrique Carvalho INSTITUIÇÃO: Universidade Federal de Uberlândia (UFU) CHAMADA: Programa Pesquisador Mineiro VALOR: R$ 48.000,00

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ecolog ia

Caminhos (mal) cruzados Grupo de pesquisa monitora impacto da construção de estradas nos ecossistemas

Marina Mendes

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Ecodutos previnem atropelamento de animais na Holanda, pontes vivas facilitam que caranguejos atravessem rodovias na Austrália, corredores verdes guiam elefantes africanos até passarelas vivas – que também garantem a segurança dos motoristas. Tais estruturas ambientais foram criadas, em diversas partes do planeta, para facilitar a travessia de espécies cujo habitat foi recortado por estradas abertas. Apesar de interessantes, as iniciativas ainda não resolvem completamente o problema da complexa relação entre a necessidade humana de transporte e o meio ambiente. Tidas, por muito tempo, como símbolos de progresso, as rodovias ocupam, hoje, um novo papel no trajeto rumo ao desenvolvimento sustentável. Pesquisas e acompanhamentos têm despertado – ou, ao menos, ambicionado despertar – a preocupação relacionada aos impactos da construção de estradas para a biodiversidade. No Brasil, quem pensa nos buracos ou na má sinalização como os principais problemas das rodovias, descobrirá que, do ponto de vista ambiental, os escândalos revelam-se iguais ou maiores ao absurdo dos superfaturamentos de obras. Segundo dados do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), nas últimas décadas, o número de espécies mortas nas vias do País ultrapassou os índices ligados, por exemplo, à caça. Neste sentido, o que há para além da necessidade de o homem chegar a algum lugar? A resposta é direta: existem ecossistemas responsáveis por garantir a sobrevivência de espécies animais e vegetais que sofrem transformações graves quando impactadas pela pavimentação. Os estudos ligados à área de Ecologia das Estradas são recentes: no mundo, iniciaram-se há cerca de 40 anos; no Brasil, remontam ao fim da década de 1980. A construção de rodovias proporciona a fragmentação das áreas verdes responsáveis por abrigar mamíferos, aves, insetos e plantas em todos os biomas do planeta. A limpeza das áreas e o nivelamento das pistas fazem com que as bordas das estradas recebam mais luz e retenham mais água da chuva. Como resultado, cresce a vegetação atrativa aos animais. Sem falar da umida-


de, que estimula os répteis, por exemplo, a ficar mais próximos da pista e a atravessar a via. Desse modo, sem saber, pisam a “trilha da morte”. Além disso, a modificação do habitat, a alteração do clima e da topografia são mudanças bastante sentidas pelos animais. O tráfego de veículos e a proximidade com os humanos aumentam a quantidade de lixo e a poluição sonora, além de colaborar para a alteração do comportamento das espécies. O aumento da produção de hormônios, gerado pelo estresse, proporciona alterações fisiológicas e interfere na reprodução dos animais, que também perdem indivíduos em atropelamentos e, por vezes, ficam no “caminho” da extinção. Outra questão diz respeito à chegada, e, em seguida, à proliferação das espécies exóticas, que convivem melhor com as “novidades do ambiente”, e colaboram ainda mais para o desequilíbrio ambiental. Informações como essas são confirmadas por estudos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa em Ecologia de Estradas (GPEES). Criada em 2009, a iniciativa realiza acompanhamento em rodovias de várias partes do Brasil e reúne pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Veiga de Almeida (UVA), da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Icmbio), do Conselho Regional de Biologia (CRBio) e da Universidade Federal de Lavras (Ufla), que sedia o grupo. Um dos objetivos do trabalho é gerar conhecimento científico capaz de nortear ações em diferentes áreas brasileiras onde haja construção de estradas. Além disso, busca-se o desenvolvimento de soluções que minimizem o impacto dos empreendimentos viários, por meio da geração de protocolos de planejamento para futuras vias. Segundo Alex Bager, professor do Departamento de Biologia da Ufla e coordenador do grupo, o conhecimento científico é a base de qualquer ação das atividades realizadas pela equipe. “O grupo tem se tornado referência em pesquisa e é reconhecido, nacionalmente, por suas

Segundo Alex Bager, certas ações de transformação do conhecimento científico renderam o Projeto de Lei nº 466/2015 e o “PAN Estradas”, iniciativa que cria um planejamento estratégico de cinco anos para redução de impactos de rodovias, ferrovias na biodiversidade.

ações em Ecologia de Estradas. Além disso, trata-se de fonte disseminadora de conhecimento e engajamento de pessoas e instituições em atividades para conservação ambiental”, esclarece.

Sistema Urubu

Dentre os projetos desenvolvidos pelos pesquisadores, um dos destaques é a ferramenta que permite a coleta de informações e o monitoramento sistemático dos atropelamentos de animais nas estradas brasileiras. Conhecido por Sistema Urubu, o mecanismo pode ser acessado de qualquer ponto do globo e conta com a participação de diversos parceiros, ligados a uma rede de conservação da biodiversidade brasileira. Além disso, a iniciativa auxilia o registro, a gestão, a análise e a visualização de dados relacionados ao atropelamento da fauna, de maneira a colaborar para a formação do Banco de Dados Brasileiro de Atropelamento de Fauna Selvagem (BAFS).

Apesar de ter sido criado na academia, o Sistema almeja tornar-se uma rede social para compartilhamento e validação de informações sobre o assunto. “Por meio da rede, propõe-se que qualquer pessoa da sociedade brasileira possa colaborar com a conservação da biodiversidade, encaminhando registros de animais atropelados, para que possamos influenciar políticas públicas em esferas locais, regionais e nacionais”, explica Bager. Para cumprir tais objetivos, foram desenvolvidas três versões de uso do mecanismo. Aplicativo gratuito, o “Urubu Mobile” permite que as pessoas registrem informações acerca de atropelamentos da fauna silvestre. Quem quiser colaborar pode baixar o app, disponível para Android e iOS. Já o “Urubu Web”, cérebro de todo o Sistema, é um banco de dados sobre animais selvagens atropelados, com coordenadas geográficas e fotos. Por fim, o “UrubuMap” possibilita a visualização de informações sobre áreas prioritárias para conservação, malha viária, solo, relevo, clima e hidrografia. Até o momento, registram-se mais de 17 mil usuários cadastrados e 20 mil fotos enviadas. As imagens que chegam ao sistema, aliás, são avaliadas por, ao menos, cinco especialistas que participam da rede. O registro só ocorre quando há consenso de três deles sobre a espécie atropelada. Atualmente, há 800 “validadores” ativos, cada qual especializado em uma classe animal.

O massacre no Brasil Iniciativa do CBEE, o Atropelômetro estima, em tempo real, o número de vertebrados terrestres silvestres mortos por atropelamento nas rodovias brasileiras. Os registros apontam que, nas estradas brasileiras, mais de 15 animais morrem a cada segundo. Trata-se, pois, de 1,3 milhão de espécies por dia, o que, ao fim de um ano, representa 474 milhões de animais de selvagens atropelados. Dentre as vítimas, há cachorros-do-mato, tatus-peba, tamanduás-bandeira ou mirim. Como se pode verificar, os centros de pesquisa têm trabalhado para promover melhorias e ampliar o conhecimento em torno do tema. Aos governos, fica a responsabilidade de planejar, discutir e implantar melhoramentos em prol do meio ambiente. Por fim, aos motoristas, cabe a obrigação de dirigir com tranquilidade, respeitar a velocidade permitida e ter atenção a animais na pista.

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Impacto de atropelamentos de espécies ameaçadas

Os pro

Financiamento: FAPEMIG e Capes (2014 a 2015) Descrição: acompanha o impacto de atropelamentos em espécies ameaçadas. Qual a probabilidade de persistência das populações de acordo com diferentes cenários de desenvolvimento e alterações climáticas?

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Malha

Macroecologia de estradas

Financiamento: CNPq (2015 a 2017) Descrição: instrumentos de análise de alterações na biodiversidade e na estrutura da paisagem. O projeto aborda os dois principais efeitos negativos das estradas: a mortalidade por atropelamento e a fragmentação do habitat. Além disso, analisa o efeito da mortalidade por atropelamento na viabilidade das populações e o efeito do tempo de construção das estradas na estrutura da paisagem.

Financiamento: FAPEMIG, CNPq, TFCA/Funbio, Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e Tetra Pak / Apoiadores: ICMBIO, Fundação Biodiversitas, Fatma e Sema/RS (2013 a 2015) Descrição: maior esforço já realizado no Brasil para criar um processo integrado de coleta, armazenamento, análise e proposição de medidas para diminuir os impactos de empreendimentos sobre o atropelamento de fauna selvagem.

Malha – Cart

Estrada Viva

Financiamento: FAPEMIG (2012 a 2015) Descrição: desenvolve-se em duas escalas espaciais distintas. Trata-se, em primeiro lugar, dos efeitos marginais das rodovias, o que inclui a comunidade de mamíferos terrestres de pequeno, médio e grande portes e as espécies arborícolas. Já em escala ampla, investiga-se a relação entre as rodovias e as unidades de conservação.

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Financiamento: Concessionária Auto Raposo Tavares (Cart) e Instituto Invepar (2014 a 2015) Descrição: atua no Corredor Raposo Tavares (composto pelas rodovias SP 225, SP 327 e SP 270), para capacitar equipes ao monitoramento de atropelamento e à promoção de atividades de educação e sensibilização ambiental com a população do entorno.

Malha – ES

Financiamento: DER/ES (2014 a 2015) Descrição: parceria com o DER/ES para o estabelecimento de um protocolo de monitoramento de fauna atropelada nas rodovias do estado do Espírito Santo, além de capacitação de gestores ambientais e análise de dados.


saúde

A arte de salvar vidas Programa interdisciplinar estimula melhoria da qualidade de vida de pessoas com diabetes

Tatiana Pires Nepomuceno

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Segundo o Ministério da Saúde, todos os medicamentos são oferecidos nas mais de trinta mil unidades e drogarias do Programa Farmácia Popular, presente em mais de quatro mil municípios. Para retirar os remédios, o cidadão deve apresentar documento de identidade, CPF e receita médica no prazo de validade de 120 dias. Como o Sistema Único de Saúde garante acesso integral, universal e gratuito, a receita pode ser emitida tanto por um profissional da rede pública quanto por um médico de hospitais e/ou clínicas privadas.

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O diabetes é um dos maiores inimigos da saúde pública no Brasil. Em primeiro lugar, pelo cuidado diário de contenção da doença e seus impactos na vida da pessoa; em segundo, devido às complicações da enfermidade e dos gastos públicos com o tratamento terapêutico. Segundo o último levantamento daSecretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, referente ao período entre janeiro e outubro de 2015, cerca de 4,4 milhões de pessoas apresentaram diagnóstico de Diabetes mellitus no Estado, o que corresponde a 22% da população mineira. O alto índice de óbitos causa preocupação e estimula o surgimento de inúmeros projetos preventivos e terapêuticos, com o intuito de melhorar a qualidade de vida dos mineiros. Antes, porém, de abordar um dos programas implantados no Estado, que tem ajudado as pessoas a lidar com a enfermidade de forma sistêmica e eficaz, é preciso conhecer os aspectos e a principal diferença entre os dois tipos mais comuns da doença em Minas Gerais. O diabetes tipo 1 caracteriza-se pela retenção da insulina no corpo. No caso, o sistema imunológico ataca, erroneamente, as células beta, organismos endócrinos e responsáveis por sintetizar e secretar o hormônio da insulina. Como resultado, a glicose fica no sangue e, ao invés de ser usada como energia, causa uma série de transtornos, como fome extrema, vômitos, aumento de sede e micção frequente. O problema acomete, geralmente, crianças e adolescentes, e é tratada com insulina, medicamentos, planejamento alimentar e atividades físicas. Já o diabetes tipo 2 atinge cerca de 90% da população, é silencioso e pode ser mortal. Além disso, aparece no momento em que o organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz. Ou quando não há produção suficiente de insulina para controle da taxa de glicemia. A enfermidade acomete crianças, jovens, adultos e idosos, que, além de sofrer com restrições alimentares, necessitam de cuidados dos profissionais da área da saúde e de atividade física constante. Os principais sintomas são aumento de sede, micção frequente, visão embaçada e fadiga. Caso

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não haja tratamento adequado, pode haver complicações como disfunção erétil, cegueira ou amputação de membros. Preocupada com a evolução da doença e seus impactos negativos – da diminuição da qualidade de vida da pessoa aos reflexos na vida familiar e na saúde pública –, a pesquisadora Heloísa de Carvalho Torres, da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordena, com apoio da FAPEMIG, a pesquisa “Avaliação do programa de empoderamento na educação em Diabetes mellitus na atenção primária”. A iniciativa se realiza, desde 2011, nas oito unidades básicas do Distrito Sanitário Leste de Belo Horizonte – que compreende os bairros Alto Vera Cruz, Novo Horizonte, Horto, Paraíso, Pompéia, Taquaril, Boa Vista e São José Operário – e, também, na cidade de Divinópolis. Segundo a pesquisadora, o projeto apresenta resultados promissores e há a expectativa de que, em breve, seja transformado em programa do governo do Estado. O principal diferencial da proposta consiste na ideia de que a pessoa com diabetes não é doente. Trata-se, ao contrário, do indivíduo saudável, que precisa seguir um plano alimentar, praticar atividade física, manter o peso e realizar tratamento com um profissional especializado. “As práticas orientadas ao cuidado em saúde na condição crônica do diabetes evidenciam melhorias nos resultados do controle glicêmico, transformando a rotina de diversas pessoas, que já tinham perdido o ânimo pela vida”, esclarece Heloísa Torres.

Trabalho interdisciplinar

Profissionais das mais diversas especialidades envolveram-se no projeto. Médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas Os números são realmente alarmantes. Que o diga o fato de que, há anos, a doença revela-se mais letal do que os efeitos do vírus HIV, causador da Aids. Entre janeiro e outubro de 2015, registraram-se 167 óbitos por HIV e 3.898 por Diabetes mellitus em Minas Gerais.


ocupacionais, educadores físicos e nutricionistas trabalham em conjunto para estimular o processo de empoderamento do ser, por meio da educação em grupo, de visitas domiciliares, de atendimento direto e personalizado, bem como, em certos casos, de intervenção telefônica. O auxílio é realizado individualmente ou em grupo, com foco na conscientização da importância de cuidar de si, de maneira a permitir que a pessoa seja responsável por retomar o controle da própria vida. Como efeito, haverá diminuição da glicemia e consequente redução de medicações. “Realizamos um trabalho interdisciplinar, que contempla os aspectos psicossociais, comportamentais e clínicos. Desse modo, unimos a comunidade acadêmica, os profissionais de saúde e o paciente, em prol de melhoria na qualidade de vida das pessoas com diabetes”, acrescenta. O projeto tem ajudado a transformar a vida de vários mineiros. Dois deles são a dona de casa Lucinda Vieira Rodrigues e o marido, Alberto Claudio Rodrigues. Segundo ela, o tratamento, iniciado há dois anos, na unidade Taquaril, mudou sua rotina. “Conheci o programa por meio de uma consulta. Passei a participar dos grupos, como ouvinte, e a mudar meus hábitos de vida. Hoje, faço hidroginástica e caminhada três vezes por semana. Minha glicose baixou de 500 para 90 e não tenho mais insônia”, conta. O melhor de tudo, porém, estava por vir. Para apoiar e incentivar sua esposa, Alberto Claudio começou a participar das reuniões. Em uma delas, foi convidado a fazer o exame, responsável por mostrar que ele estava no limite para desenvolver diabetes. Imediatamente, Alberto começou uma reeducação alimentar, alterou hábitos e, consequentemente, não desenvolveu a doença. Outra história inspiradora é a do porteiro Helvécio Vieira da Silva, que trabalha no edifício Pousada do Sol, em Belo Horizonte. Ele descobriu o diabetes há uma década, e, só após participar do programa, há cerca de um ano, tomou consciência de seu problema. Além de reeducação alimentar, recorreu à prática de atividades físicas. “Reduzi bastante o consumo de fritura e macarrão, alimentos que adoro. Minha meta é não ter mais vontade de comer. A noção de corresponsabilidade faz com que não me sinta tão bem ao ingerir alimentos pouco saudáveis. Parece uma crise de consciência. Além disso, faço caminhada duas vezes por semana”, relata. Como resultado, Helvécio pôde reduzir a medicação, de três para duas vezes ao dia.

Todo cuidado é pouco Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, certas precauções podem ajudar as pessoas a prevenir e/ou a tratar a doença. Confira: ´ Faça avaliação oftalmológica regular, pois o diabetes aumenta o risco de perda de visão, devido a problemas referentes à retina e à catarata. ´ Realize avaliação periódica de suas funções renais. ´ Tenha cuidados com os pés, já que cerca de 30% dos pacientes idosos não conseguem alcançar ou verificá-los regularmente. ´ Trate-se com um endocrinologista, o profissional especializado na doença.

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG Projeto: Avaliação do programa de empoderamento na educação em diabetes mellitus na atenção Coordenadora: Heloísa de Carvalho Torres Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) chamada: Programa Pesquisa para o SUS – PPSUS-Rede Valor: R$ 47.540.80

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genética

Transfusão sem riscos Técnica desenvolvida pela Fundação Hemominas facilita identificação da proteína RhD, antígeno responsável por reações imunológicas

Alessandra Ribeiro

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A formação de anticorpos contra os antígenos sanguíneos reconhecidos como “estranhos”, pelo organismo do receptor de sangue incompatível, é definida como aloimunização, que pode levar a uma reação pós-transfusional. Neste caso, numa nova transfusão sanguínea, os anticorpos desenvolvidos pelo paciente atacam as hemácias recém-transfundidas, o que torna a transfusão ineficaz, além de gerar riscos à saúde.

Nos bancos de sangue, a segurança das transfusões é tão importante quanto a captação de doadores: evitar a transmissão de doenças e prevenir incompatibilidades são, realmente, preocupações constantes. Determinam-se os tipos sanguíneos pela presença, nos glóbulos vermelhos, de substâncias denominadas antígenos, que provocam a formação de anticorpos, as células de defesa do corpo humano. A proteína RhD é um dos antígenos com maior potencial de desencadear reações imunológicas, e sua identificação precisa é um desafio para os hemocentros: em aproximadamente 1% dos indivíduos, ela aparece de forma enfraquecida – à forma do chamado “D fraco” –, o que dificulta a detecção pelos métodos convencionais de triagem. Baseada em testes genéticos, uma estratégia inédita, desenvolvida pelo Núcleo de Inovações Tecnológicas e Proteção ao Conhecimento da Fundação Hemominas (Inovhemos), com o apoio da FAPEMIG, demonstrou resultados promissores. Os exames são feitos por meio da análise do DNA dos doadores, com a identificação do gene responsável pela produção do antígeno RhD. A pesquisa foi premiada no Congresso do Grupo Cooperativo Iberoamericano de Medicina Transfusional, em 2015, e os resultados, publicados na revista científica britânica Transfusion Medicine. Mais de 1,5 mil doadores da Hemominas submeteram-se ao teste piloto, que permite detectar a presença do RhD mesmo nas pessoas que apresentam o antígeno enfraquecido. A coordenadora da pesquisa, Maria Clara Fernandes Silva Malta, destaca como diferencial a possibilidade de analisar um grande número de amostras simultaneamente. “Vários doadores são testados em um único pool, o que torna o teste mais rápido e barato, sem comprometer sua qualidade”, explica. A instituição estuda, agora, a viabilidade de incorporação do método à rotina de atendimento. “Estamos confiantes, pois, até hoje, conseguimos implementar vários testes, padronizados e otimizados, em projetos de pesquisa financiados pela FAPEMIG”, conta Maria Clara Fernandes. A

medida lançaria a Hemominas à vanguarda da Medicina Transfusional. “Técnicas de Biologia Molecular para classificação RhD em doadores de sangue de forma sistemática são usadas por pouquíssimos bancos de sangue no mundo” No Brasil, a única iniciativa que conhecemos nesse sentido foi realizada por meio de colaboração entre o Hospital Israelita Albert Einstein e a Unicamp [Universidade Estadual de Campinas]”, cita Maria Clara.

Doença hemolítica perinatal

A incompatibilidade sanguínea não é um problema restrito às transfusões. Na gravidez, como ocorre troca de sangue entre mãe e bebê, por meio da placenta e durante o parto, a gestante RhD negativo pode produzir anticorpos anti-D, que destroem as hemácias do feto – caso ele seja RhD positivo por herança genética do pai. Trata-se da doença hemolítica perinatal: quando as células vermelhas são destruí-

Hoje, a detecção do antígeno RhD é feita com o uso de técnicas sorológicas baseadas na aglutinação das hemácias – ou seja, no agrupamento das células vermelhas do sangue. Elas são postas em contato com anticorpos anti-D, em condições controladas. Se aglutinarem, significa que há presença do antígeno. Na nova estratégia, o sangue de diferentes doadores classificados como RhD negativo é misturado em um tubo e aplicado em papel filtro, no qual o DNA fica aderido. Outros componentes sanguíneos são removidos, por meio de lavagem. Então, é feito um teste de biologia molecular, conhecido como “PCR em tempo real”, de alta sensibilidade, que revela se algum dos doadores do grupo (pool) – classificados como RhD negativo pelos testes sorológicos – é portador do gene RhD. Nos pools que apresentam resultados positivos, os doadores são testados individualmente.

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das, a criança corre o risco de desenvolver grave anemia, ou, até mesmo, de morrer. Hoje, o principal exame laboratorial pré-natal, destinado ao acompanhamento de gestantes RhD negativo, é o teste de Coombs indireto. O mecanismo deve ser repetido mês a mês, para que se verifique a existência de anticorpos maternos dirigidos contra antígenos presentes nas hemácias fetais. Atualmente, são conhecidos cerca de 300 antígenos de grupo sanguíneo, e o anti-D é o mais frequente em gestantes RhD negativo. Pelo protocolo atual, se identificada a sensibilização da mãe – ou seja, a presença do anticorpo anti-D em seu organismo –, o pré-natal deve ser feito em ambulatórios de alto risco. Caso ela não tenha produzido o anti-D, deverá receber uma dose concentrada de anticorpos, a imunoprofilaxia anti-D, para evitar o desenvolvimento desse anticorpo – o que poderia provocar a doença hemolítica perinatal na próxima gestação de um feto RhD positivo. No entanto, é possível administrar a imunoprofilaxia ainda durante a gestação, desde que haja a confirmação de que o feto é RhD positivo. Para tanto, a Fundação Hemominas propõe a realização, no pré-natal, da genotipagem RHD fetal não invasiva, exame feito a partir da análise do DNA fetal no plasma materno, com total segurança para mãe e bebê, a partir da quinta semana de gestação. O procedimento permite identificar o gene responsável pela produção do antígeno, e, assim, antever se a criança é RhD positivo ou negativo. Se não houver incompatibilidade sanguínea entre mãe e filho, por exemplo, é possível evitar a internação desnecessária em ambulatórios de alto risco. Países desenvolvidos já usam a genotipagem RHD fetal no acompanhamento de grávidas RhD negativo. A Hemominas desenvolveu um projeto de pesquisa, também financiado pela FAPEMIG, que avaliou o impacto financeiro da inclusão do exame na rede pública estadual. “Fizemos o levantamento a partir da estimativa do total de gestantes RhD negativo que poderiam ser atendidas em Minas Gerais, no período de um ano. Analisamos o custo do protocolo atualmente utilizado para as gestantes

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sensibilizadas, ou seja, que já produziram o anticorpo, e para aquelas não sensibilizadas. A partir daí, propusemos um protocolo que inclui a genotipagem RHD fetal no pré-natal destas gestantes e calculamos seu custo”, descreve Luciana Cayres Schmidt, chefe da Central de Imuno-hematologia da Fundação e responsável pelo estudo. “Demostramos que o teste tem baixo custo e traria substancial economia aos cofres públicos”, afirma Luciana. O gasto individual apurado do exame seria de R$ 74,47. Com média estimada de 1.762 procedimentos por mês, a economia calculada seria de cerca de R$ 4 milhões com gestantes não sensibilizadas, no período de um a dois anos, e de cerca de R$ 45 milhões com grávidas sensibilizadas, ao longo de um ano. Os dados serão apresentados à Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Se aprovada, a implantação depende de investimentos na estruturação de um laboratório com capacidade para atender toda a demanda estadual. Além disso, seria necessário disseminar o novo protocolo de acompanhamento pré-natal entre os profissionais envolvidos, especialmente ginecologistas e obstetras.

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PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG Projeto: Aplicação da genotipagem RHD para aumento da segurança transfusional na Fundação Hemominas Coordenadora: Maria Clara Fernandes da Silva Instituição: Fundação Hemominas chamada: Universal Valor: 26.565,00 Projeto: Avaliação do impacto da genotipagem RhD fetal no plasma materno como ferramenta não invasiva na conduta de atendimento a gestantes RhD negativo Coordenadora: Marina Lobato Martins Instituição: Fundação Hemominas chamada: Programa Pesquisa para o SUS Valor: R$ 160.174,72


Pesquisa investiga novas utilidades para rejeitos do mineral, encontrados em lixões de mineradoras Minas Gerais, atualmente, é responsável pela maior parte da produção de quartzitos do País. “Pedra mineira”, “pedra itacolomi” ou “pedra de piscina” são as nomenclaturas usadas para definição do produto, encontrado, principalmente, no Sudoeste do Estado. Para além da matéria-prima em estado bruto, ela é muito usada em ornamentação. Devido a isso, a extração deve ser feita com cuidado, de maneira a retirar peças inteiras, sem rachaduras, e em obediência a padrões nacionais de espessura e comprimento. Quanto ao restante do material, que não atende às exigências de mercado, acaba destinado aos “bota-foras”, onde são lançados os rejeitos da mineração. Os diversos lixões próximos às mineradoras – principalmente, terrenos degradados junto ao complexo da Serra da Canastra – chamaram a atenção de professores da Fundação de Ensino de Passos (Fesp). Sob coordenação de Eduardo Goulart Collares, os pesquisadores estudaram alternativas de uso, na construção civil, dos rejeitos de quartzito. “Ao visitarmos uma das minerações, observamos grande quantidade de rejeitos. Daí veio a ideia: por que não testar as pilhas de pedras rejeitadas para outras finalidades?”, conta. A edição nº 51 de MINAS FAZ CIÊNCIA, veiculada em 2012, publicou reportagem sobre o início de tais pesquisas. Para avaliar a possibilidade de adição do quartzito como agregado de outros materiais, os pesquisadores realizaram uma série de testes e observaram características específicas dos rejeitos, que influenciariam diretamente na mistura usada para confecção de concreto. Inicialmente, foram testadas e avaliadas as propriedades do concreto em estado

fresco, ainda em massa. Em seguida, analisaram-no já petrificado. Como característica relevante, constatou-se a ampliação da resistência do produto final, sob diversos aspectos: compressão, abrasão ao calor e impacto. Além disso, os pesquisadores identificaram melhoria na forma do mineral, já que se pôde obter mais brita na relação agregado/cimento, tornando mais sólido o produto final.

Quartzito versus brita

Outro fator observado no novo material foi o potencial de desagregação. Como o concreto fica exposto às variações do clima, com chuvas e diferentes temperaturas, não se pode pensar em um agregado de baixa qualidade. Os resultados seriam perda de resistência imediata ou futura – e consequente inadequação ao uso comercial. Para que o concreto seja mais resistente e durável, são usados de 60% a 80% de fragmentos de rocha em sua preparação. A adição da brita ao cimento pode exercer influência sobre a resistência mecânica, a estabilidade dimensional e a durabilidade. A pesquisa mostrou que quanto mais homogêneo, duro e resistente o mineral, melhor seu aproveitamento. Os primeiros resultados apontavam que a caracterização dos agregados de quartzito, de maneira geral, foi satisfatória, se em comparação à brita convencional, aos índices apresentados por modelos acadêmicos de referência e aos parâmetros estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). “Os ensaios realizados com as amostras dos bota-foras apontaram que elas atendem às recomendações para uso como agregado, classificando-se com

LEMBRA DESSA?

Quartzito multifunções Diogo Brito

nível ‘bom’ ou ‘excelente’ nos critérios verificados”, explica Ivan Franklin Júnior, que, à época do início do projeto, era graduando de Engenharia Civil. Os resultados mostraram que em nenhuma das amostras encontraram-se minerais expansivos. Além disso, não houve degradação no ciclo água-estufa. Os pesquisadores conseguiram identificar, ainda, o tipo ideal de britador a ser usado para obter grãos regulares, essenciais à produção de concreto de alta capacidade, o que comprova a eficácia dos agregados de quartzito, quando processados em equipamento apropriado.

Extensões

O estudo inicial envolveu o uso do rejeito como agregado graúdo no concreto. Os resultados foram muito promissores e amplamente divulgados para a comunidade científica, por meio de uma dissertação de mestrado e de diversas publicações em eventos científicos e periódicos. Confirmada a possibilidade do uso de rejeitos de quartzito na construção civil, os estudos de aplicação do mineral em outros campos não param. De acordo com Eduardo Collares, a equipe aumentou e, hoje, conta com aproximadamente dez profissionais, dentre professores, orientadores e alunos de graduação e pós-graduação. O novo grupo investe em pesquisas paralelas, desenvolvidas junto ao Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) – unidade Passos. Um dos trabalhos envolve o uso do rejeito como agregado graúdo e miúdo na fabricação de blocos, para pavimentação.

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POLÍTICA DE CT&I

Longa caminhada Nova legislação para área de CT&I apresenta avanços, mas ainda existem problemas a solucionar Vanessa Fagundes

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No dia 11 de janeiro de 2016, uma segunda-feira, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 13.243, mais conhecida como Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação. A cerimônia, realizada no Palácio do Planalto, contou com a presença de autoridades como o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Pansera, e o presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Wanderley de Souza. “Estamos dando transparência, simplicidade e segurança jurídica a uma cooperação fundamental para o crescimento econômico, a geração de renda e emprego e que promova o desenvolvimento de forma sustentável”, declarou a presidenta na ocasião, conforme nota da Agência Brasil. A expectativa dos agentes e das entidades ligados à área era grande. Afinal, a nova legislação, que “dispõe sobre estímulos ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação científica e tecnológica e à inovação”, prometia uma regulamentação mais adequada às atividades de CT&I, por um lado, desburocratizando procedimentos e, por outro, conferindo maior flexibilidade de atuação. A comemoração, porém, não foi completa. Mesmo apresentando inquestionáveis avanços, os oito vetos da presidenta à proposta que veio do Senado Federal deixaram, em muitas pessoas, aquela sensação de “quase lá”. “Sim, é possível dizer que, com esse novo arcabouço legal, ficou mais fácil fazer ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Avançamos, mas não do jeito que a gente queria. Digamos que estamos no meio do caminho”, avalia o presidente do Conselho das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Sérgio Gargioni, também presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Ele conta que havia esperança de que o projeto fosse aprovado sem vetos, da forma como aconteceu na Câmara e no Senado, porque foi resultado de muitos debates e negociações ao longo dos últimos cinco anos. Por isso, imediatamente após o anúncio dos vetos, iniciou-se um movimento, por parte de cerca de 20 entidades, entre associações científicas e de inovação, que busca a derrubada dos mesmos e a volta do texto original. Na opinião do presidente do Confap, é chegada a hora de

o Brasil tomar uma decisão: ou investe em inovação, e dá as condições e incentivos necessários para isso, ou continua apenas publicando papers.

Novo cenário

O Marco Legal da CT&I traz alterações para nove instrumentos jurídicos, entre eles a Lei 8.666, de 21 de junho de 1993, que dispõe sobre compras e licitações na administração pública. Nesse caso, o Marco estabelece, por exemplo, a hipótese de dispensa de licitação para a contratação de bens e serviços destinados a atividades de pesquisa e desenvolvimento. A Lei mais afetada, no entanto, é a 10.973, de 2 de dezembro de 2004 – a chamada Lei de Inovação. Para Sérgio Gargioni, o ponto mais relevante, a princípio, é a simplificação da operação. Ele cita o caso das rubricas capital e custeio, características de orçamentos de projeto de pesquisa e que se referem, respectivamente, a equipamentos permanentes e a material de consumo/ serviço de terceiros. As rubricas continuam existindo, mas podem ser alteradas ao longo do projeto, sem maiores dificuldades. Outro ponto destacado pelo presidente do Confap é a possibilidade de pesquisadores de instituições públicas, em regime de dedicação exclusiva, exercerem atividades remuneradas de CT&I em empresas. De acordo com a Lei, esse

Da criação à aprovação

A proposta de uma nova legislação para a área de Ciência, Tecnologia e Inovação começou a ser desenhada dentro do Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap). Em maio de 2011, durante reunião em Belo Horizonte, foi criado um grupo de trabalho formado por advogados e assessores jurídicos de FAPs e secretarias estaduais de Ciência e Tecnologia. O objetivo era reunir, em um documento único, as demandas da comunidade acadêmica, do setor empresarial e do poder público quanto à morosidade, à burocracia, aos entraves e aos prejuízos ocasionados ao setor, no que diz respeito ao engessamento da legislação. Em agosto de 2011, o grupo apresentou a primeira versão do que foi chamado de Código da Ciência, Tecnologia e Inovação, documento entregue ao Congresso Nacional e que se transformou no Projeto de Lei nº 2.177/11. Desde então, foram quase cinco anos de trabalho e negociações. Em dezembro de 2015, o documento, agora Projeto de Lei da Câmara (PLC) 77/2015, foi aprovado pelo Senado Federal. Finalmente, em janeiro de 2016, a presidenta Dilma Rousseff sancionou o Marco Legal da CT&I – o texto pode ser conhecido em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ Ato2015-2018/2016/Lei/L13243.htm.

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O Marco Legal para CT&I, sancionado em janeiro, traz avanços para a pesquisa brasileira. Entre outros, simplifica operações, prevê a dispensa de licitação em casos específicos e permite que o pesquisador em regime de dedicação exclusiva desenvolva atividades remuneradas de CT&I em empresas.

pesquisador pode dedicar até oito horas por semana a atividades de inovação na iniciativa privada. “Não é muito, mas já é um avanço”, diz. Além disso, com a nova legislação, passa-se a falar em Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. “A inovação passa a fazer parte do vocabulário. A palavra, agora, está na constituição. Também expressões como parques tecnológicos, incubadoras de empresas, extensão tecnológica, tudo está na Lei. Isso permite flexibilização da ação do Estado, abrindo espaço para novas ações”. Para o presidente da FAPEMIG, Evaldo Ferreira Vilela, o Marco Legal aprimora o que a Lei de Inovação já tentava fazer: aproximar universidades e empresas. “Apesar dos avanços da Lei de Inovação, de 2004, ainda faltava muito a fazer. O Marco Legal ajuda nesse sentido, ao diminuir a burocracia e ao permitir o estreitamento de laços com a iniciativa privada. A expectativa é conseguir desatar alguns nós que complicam a vida da pesquisa nacional”.

Simplificação

Para os pesquisadores, é muito bem-vinda a notícia de que os processos de compras e importações se tornarão mais simples. Ainda há, porém, um longo caminho a ser trilhado, de acordo com Alfredo Gontijo de Oliveira, presidente da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) e diretor do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa (Confies).

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“Sem dúvida, os ganhos facilitam a vida do pesquisador. Mas isso não significa que nossos pesquisadores têm a mesma facilidade para fazer ciência do que aqueles de países à frente do Brasil na produção de conhecimento”, pondera. Alfredo Gontijo acredita que, no caso das fundações de apoio, o maior ganho foi o reconhecimento de seu papel no sistema de CT&I. “Claro que qualquer simplificação nos processos equivale a ganho, mas o avanço mais significativo diz respeito ao ambiente de inovação e à aproximação de universidades e empresas”. Ele destaca que a Lei ainda deixa

As fundações de apoio são instituições criadas com a finalidade de dar apoio a projetos de pesquisa, ensino, extensão e de desenvolvimento institucional, científico e tecnológico, de interesse das instituições federais de ensino superior (IFES) e, também, das instituições de pesquisa. Esse apoio inclui a gestão financeira dos projetos de pesquisa, aquisições de produtos e serviços, importações, dentre outros. Em Minas Gerais, são exemplos a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), ligada à Universidade Federal de Minas Gerais, e a Fundação Arthur Bernardes (Funarbe), ligada à Federal de Viçosa.

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vazios que devem ser solucionados, e, acima de tudo, é preciso que ela seja desdobrada em regulamentações para se tornar aplicável. Antes de qualquer coisa, porém, é preciso lidar com os vetos. De forma geral, eles estão ligados a questões tributárias (e podem ser conhecidos no endereço http://www.planalto.gov.br/ CCIVIL_03/_Ato2015-2018/2016/Msg/ VEP-8.htm). Cinco dos oito vetos são justificados com a explicação de que ampliariam as isenções tributárias, o que poderia resultar em significativa perda de receitas, contrariando os esforços necessários para o equilíbrio fiscal. Esse é o caso do veto à isenção de impostos sobre importações de máquinas, equipamentos, aparelhos e instrumentos destinados à pesquisa científica e tecnológica, necessárias para empresas executarem projetos inovadores (incluindo impostos sobre Produtos Industrializados, impostos de Importação e do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante). Em outro exemplo, após os vetos, as bolsas concedidas por universidades ligadas ao governo continuam isentas da contribuição previdenciária, mas as que forem dadas por empresas terão que pagar o benefício. Para Sérgio Gargioni, isso é resultado de uma visão simplista. Evaldo Vilela, presidente da FAPEMIG, completa: “Sabemos que o governo está discutindo o ajuste fiscal e buscando novas fontes de receita. Mas os vetos são preocupantes e estão sendo discutidos. Esperamos bom senso do governo”. As cerca de 20 entidades, reunidas em uma Aliança em Defesa do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, estão agora empenhadas em uma agenda de reuniões com ministros e representantes do governo federal, na tentativa de derrubar esses vetos. Paralelamente, os estados começaram a trabalhar na revisão das leis estaduais de inovação. Hoje, 17 deles possuem esse dispositivo, e, de acordo com Gargioni, o Confap já desenha as alterações básicas para ajustá-las ao novo Marco Legal. Ou seja, apesar de já ter avançado muito, a caminhada ainda está longe do fim.


Embora longe de ser um fervoroso patriota, Turing não tinha problemas em emprestar seus serviços ao governo; a guerra parecia muito provável, e ele tinha grande desconfiança de Hitler. A decisão de fazer o curso marcou o começo de uma longa associação com o governo britânico, que teria, nas palavras de Hodge, repercussões ‘proféticas’, no sentido de que exigia que Turing, pela primeira vez, ‘abrisse mão de parte de seu cérebro, com a promessa de manter os segredos do governo

Alan Turing

O grande mérito do livro de David Leavitt é sua capacidade de ir além de um dos maiores feitos de Alan Turing: a decodificação da máquina nazista Enigma, durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa biografia, o autor traça um panorama da carreira do matemático, pesquisador e inventor, sem deixar de lado suas batalhas pessoais em torno de temas como solidão e homossexualidade. O livro descreve os aspectos lógicos da genialidade de Turing, dando ao leitor a oportunidade de acompanhar a complexidade de processos, ao mesmo tempo em que traça paralelos com sua condição política de homossexual na Inglaterra de meados do século XX – quando a homossexualidade era considerada crime. Como autor de ficção, Leavitt dedicou-se à escrita do livro sem conhecimentos prévios sobre teorias matemáticas, o

O devir de Memórias de uma moça bem-comportada apresenta o primeiro relato autobiográfico de Simone de Beauvoir. No livro, a autora retrata, de forma romanceada, a infância e a juventude. A partir de O que principalmente me atraiu na filosofia foi pensar que ela ia diretamente ao essencial. Nunca tivera gosto pelo pormenor; percebia o sentido global das coisas mais do que as suas singularidades e preferia compreender a ver. Sempre ambicionara conhecer tudo: a filosofia permitiu-me satisfazer esse desejo, pois era à totalidade do real que ela visava. Instalava-se de imediato no centro desse real e me revelava, em lugar de um decepcionante turbilhão de fatos ou leis empíricas, uma ordem, uma razão, uma necessidade. Ciências, literatura, todas as demais disciplinas me pareceram parentes pobres.

sua escrita, por vezes em tom nostálgico, vemos como os relacionamentos, que se desenrolam tanto no círculo familiar como

que gerou críticas após a identificação de erros em informações técnicas e conceitos publicados na primeira edição, posteriormente corrigidos. Ainda assim, é inteligente a maneira como o autor apresenta as condições para que Turing resolvesse um dos maiores problemas matemáticos de seu tempo, em uma escrita instigante, destinada a quem se interessa por ciência, pela matemática e, em especial, pelo aspecto humano do pesquisador.

Livro: O homem que sabia demais – Alan Turing e a invenção do computador Autor: David Leavitt Editora: Novo conceito Páginas: 224 Ano: 2007

Simone nidade de conhecer a mulher por detrás da intelectual. E, assim, perceber como uma coisa não está dissociada da outra. Para aqueles que se aventurarem na leitura, fica a dica, também, de seu segundo livro de memórias, A força da idade, que retrata o amadurecimento pessoal e intelectual dessa grande autora.

no de amizade, vão influenciar a formação de sua personalidade. Outro aspecto que os leitores não deixarão de notar é o precoce interesse da autora pelos livros e pela escrita, além de sua forma autêntica de enxergar o mundo. Neste sentido, o grande destaque do

Livro: Memórias de uma moça-bem comportada Autora: Simone de Beauvoir Editora: Nova Fronteira Ano: 2009 Disponível em e-book.

livro está no fato de ele nos dar a oportuMINAS FAZ CIÊNCIA • DEZ 2015/JAN/FEV 2016

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LEITURAS

Desvendando


HI P ER LI N K

“Eu passarinho!” A Fundação Ezequiel Dias (Funed) desenvolveu um primoroso trabalho para lançar um Guia de aves e o Ciência no Ar resolveu conferir de perto. A motivação inicial para o desenvolvimento do trabalho foi a necessidade de melhorar o espaço livre de convivência dos funcionários da rar, no instituição. Com o tempo, porém, os colaboradores passaram monito s foram local, a presença de muitos passarinhos. Resultado? Árvores frutífera cresceu plantadas para estimular a presença da fauna e o número de aves promover ainda mais. Eis um ótimo exemplo para empresas interessadas em sustentabilidade, não é, mesmo?

Tesouros do Rio Doce No Laboratório de Genética da Conservação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), em Belo Horizonte, um tesouro perdido da biodiversidade brasileira está em processo de análise. São centenas de amostras de peixes da bacia do Rio Doce, coletadas ao longo de dois anos de trabalho, antes que a lama da barragem de rejeitos da Mineradora Samarco chegasse ao local. Sob a coordenação do professor Daniel Cardoso de Carvalho, e em parceria com o Museu de Ciências Naturais da PUC Minas e o Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, no Espírito Santo, o grupo analisou 72 espécies de peixes, alocadas, nos museus, em bombonas com formol. A coleção forma um catálogo da biodiversidade local, de maneira a permitir o levantamento genético dos 313 indivíduos selecionados.

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