Minas Faz Ciência 77

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MINAS FAZ CIÊNCIA Diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Alessandra Ribeiro, Lorena Tárcia, Luana Cruz, Luiza Lages, Mariana Alencar, Maurício Guilherme Silva Jr.,Tuany Alves, Vanessa Fagundes, Verônica Soares, William Araújo Editoração: Fatine Oliveira Montagem e impressão: GlobalPrint Editora Gráfica ltda. Tiragem: 25.000 exemplares Capa: Fatine Oliveira

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GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Romeu Zema SECRETARIA DE ESTADO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Manoel Vitor de Mendonça Filho

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Evaldo Ferreira Vilela Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: Paulo Sérgio Lacerda Beirão Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Thiago Bernardo Borges Conselho Curador Presidente: Clélio Campolina Diniz Membros: Esther Margarida Bastos, Eva Burger, João dos Reis Canela, Luiz Roberto Guimarães Guilherme, Marcone Jamilson Freitas Souza, Michele Abreu Arroyo, Nilda de Fátima Ferreira Soares, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Roberto do Nascimento Rodrigues, Valentino Rizziioli Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 31.035-536

Quem são, afinal, os responsáveis pela construção do conhecimento? Normalmente, tendemos a lembrar dos pesquisadores, cujo papel se apresenta como fundamental ao desenvolvimento de práticas e teorias científicas. Isso não quer dizer, porém, que os cientistas estejam sozinhos em tal empreitada. Afinal, os processos de descoberta e maturação de saberes são fruto de permanente esforço coletivo que envolve estudantes, profissionais técnicos, colaboradores administrativos, entre outros personagens. Na reportagem especial desta edição, MINAS FAZ CIÊNCIA discute, justamente, os bastidores da produção científica realizada – minuto a minuto, dia a dia, ano a ano – a partir da reunião de talentos, expertises e visões de mundo. Ao invés de recorrer aos pesquisadores, a jornalista Mariana Alencar visitou universidades e laboratórios de pesquisa para conversar com outros tantos profissionais, dedicados, há décadas, à roda vida do conhecimento. Afora apreciar belas histórias, o leitor terá a oportunidade de conhecer funções e rotinas bastante peculiares (às vezes, especializadíssimas), sem as quais a ciência não se concretiza. Dentre o rico “cardápio” de produções coletivas do saber, apresentamos, neste número, os resultados do trabalho de pesquisadoras do Hemominas, que se dedicam à concepção de teste para detecção de vírus em pacientes que passaram por transplante de rins. A expectativa, além de reduzir problemas relacionados a infecção, é produzir protocolos que permitam intervenção rápida, garantindo o sucesso da operação. Ainda na área da saúde, vale conhecer, também, as novas soluções ao dilema que, há mais de cem anos, desafia grupos de pesquisadores nos quatro cantos do mundo: a identificação precisa dos mecanismos responsáveis pelo infarto do miocárdio. Pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora têm abordado o tema a partir de modelagem computacional, com resultados promissores. Espera-se que a melhor compreensão de tais mecanismos guie o desenvolvimento de novas drogas e terapias. Do “território” da saúde à seara das Relações Públicas, importante atentar-se – a partir de investigação do Departamento de Comunicação Social da UFMG – às inescrupulosas atividades dos chamados “laboratórios de controvérsias”, responsáveis, em tempos de big data, pela disseminação de incertezas. As novas tecnologias, que potencializam o alcance e os danos de tais controvérsias, também estão no cerne da chamada Juscibernética, área que diz respeito á informática jurídica decisória, ou seja, uso de sistemas de inteligência artificial capazes de produzir decisões por si mesmos. A jornalista Lorena Tárcia dedica-se à abordagem de estudos que focam nos prós e contras da relação entre Direito e novas tecnologias. Nossas narrativas não param por aí! Você pode conferir o perfil dos consumidores de produtos falsificados na capital mineira e descobrir se é um falsificaholic; conhecer estudo sobre colecionadores de arte, o primeiro em caráter sistemático que aborda o colecionismo no país; saber detalhes sobre iniciativa que vem fortalecendo o ecossistema de inovação no Centro-Oeste do Estado; ou, ainda, aprender sobre a importância dos Planos Nacionais Pós-Graduação, implantados, no Brasil, desde 1975. Por fim, reparem no selo estampado na capa desta edição. Sim, devemos celebrar: em 2019, a revista MINAS FAZ CIÊNCIA completa 20 anos. Ao longo de duas décadas, a publicação ajudou a divulgar o conhecimento e a contar a história da ciência no Estado. Para comemorar, estamos preparando diversas ações, incluindo entrevistas e exposição, que relembrarão os principais marcos de sua trajetória. Uma dica: se você é um assinante recente, pode acessar todas as edições antigas, desde a primeira (lançada em dezembro de 1999, com apenas 20 páginas e uma tiragem de cinco mil exemplares!) em nosso site: http://minasfazciencia.com.br Ótima leitura! Vanessa Fagundes Diretora de redação

AO LEI TO R

E XP E DI EN TE


ÍNDICE

06

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ENTREVISTA

Hercílio Martelli Júnior analisa trajetórias, índices e perspectivas dos Programas de Pós-Graduação (PPG) brasileiros

SAÚDE

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MODA

Pesquisa analisa modo como os filósofos, desde a Antiguidade, discutiram impactos estéticos, sociais, culturais e econômicos da Moda

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MICROBIOLOGIA

Tese de doutorado e grupos de estudo sobre Juscibernética problematizam prós e contras da relação entre Direito e novas tecnologias

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MEDICINA

ADMINISTRAÇÃO

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ENGENHARIA CIVIL

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MOBILIDADE

Pesquisadoras da Hemominas investem em teste para detecção de vírus em pacientes que realizaram transplante de rins

DIREITO

O que caracteriza o consumidor de produtos falsificados em centros comerciais populares de Belo Horizonte?

COMUNICAÇÃO

Investigação na área das Relações Públicas revela como “laboratórios” de controvérsias disseminam incertezas sobre aquecimento global

EMPREENDEDORISMO

Centro-Oeste de Minas Gerais ganha ecossistema de inovação, apto a gerar e premiar empresas e iniciativas empreendedoras

TECNOLOGIA

Modelagem computacional auxilia especialistas a desvendar enigma secular, referente ao infarto do miocárdio

ESPECIAL

Reportagem desvela ofício de profissionais que, para além dos pesquisadores, revelamse essenciais ao dia a dia da ciência

Estudo internacional revela, sob o ponto de vista molecular, os malefícios do consumo excessivo de proteínas

Debate sobre princípios éticos da graduação em Medicina estimula, na Unimontes, elaboração de novo código de conduta

Junção de resíduos materiais a compósitos cimentícios diminui efeitos nocivos do crescimento urbano à natureza

Laboratório Mobilidade Terrestre desenvolve veículos autônomos e pesquisa condições técnicas, sociais e jurídicas para sua implementação

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HIPERLINK

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CONTEMPORÂNEAS

MINAS FAZ CIÊNCIA • JUN/JUL/AGO 2018

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E-book Mulher Faz Ciência, estatísticas sobre a internet, recursos e aplicativos educacionais

Atlas da biodiversidade busca facilitar identificação de áreas prioritárias à conservação ambiental

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ARTE

Perfis, motivações e relevância do ofício de colecionadores de arte são analisados em pesquisa


CIÊNCIA ABERTA

Quais suas estratégias

para evitar

notícias falsas sobre ciências ? “Sem garantia de ser 100% seguro: evitar sites desconhecidos e com histórico de sensacionalismo. Nem sempre faço, mas procuro, também, pelo artigo original comentado na notícia.” Roberto Takata (@rmtakata) Via Twitter

“Ver se a pessoa que escreveu a matéria tem algum tipo de certificação no assunto; conferir com a/o fonte/artigo original e, em caso de dúvidas, perguntar pro pessoal do @sciencevlogsbr.”

"Só contratando um revisor que modere as postagens, e, de quebra, com uma aula que explique onde foi encontrado o erro da postagem.” Fabiana Kühne Via Facebook

"Hoje em dia, confio (e sigo) autores, e não mais, necessariamente, veículos de comunicação.” Luísa Gabriel Via Facebook

@vinimarangon Via Twitter

"Acho que se deve pesquisar em outras fontes.”

“Procurar a fonte original é essencial!”

Marcinho Carellos Via Facebook

Viviane Alves Via Instagram

“Fazer ciência... ganhando discernimento. Rs!”

"Geralmente, só leio em meios confiáveis. Quando não, procuro saber informações mais específicas sobre como, onde e quando a pesquisa/o estudo foi publicada(o), além de buscar informações sobre amostragem e período. Não é garantia definitiva, mas, nesses casos específicos, as notícias verdadeiras costumam ter bastante informação sobre o desenvolvimento do estudo."

Cristina Costa Neto Via Instagram

Fernanda Freitas Via Facebook

“Pesquisar sobre o assunto em diversas fontes.” Paty Pibs Via Instagram

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução de seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2017

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ENTREVISTA

Ode a “nossos potenciais inatos” Professor da Unimontes e membro da Câmara de Assessoramento da FAPEMIG, Hercílio Martelli Júnior analisa excelências e desafios da pós-graduação no Brasil

Maurício Guilherme Silva Jr.

Nações não se desenvolvem sem ciência. De outro modo, como pensar no aprimoramento da pesquisa sem investimento – constante e qualificado – em atividades e ambientes de formação de problematizações e produtos científicos? Tais “territórios”, mais conhecidos como Programas de Pós-graduação (PPG), são tema de estudo e preocupação constante do professor Hercílio Martelli Júnior, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), além de membro da Câmara de Assessoramento (Ciências da Saúde) da FAPEMIG e da Área Interdisciplinar da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Recentemente, ele e outros pesquisadores publicaram, na prestigiosa revista Science, o estudo “Brazil´s endangered postgraduate system” (“Sistema de pós-graduação em risco no Brasil”, em tradução livre), por meio do qual é apresentada uma série de relevantes dados quantitativos e qualitativos. No artigo, os professores analisam dados históricos da pós-graduação no País, além de mostrar como a falta de investimentos põe em risco a evolução do sistema. Doutor em Estomatopatologia, pela Faculdade de Odontologia de

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Piracicaba (FOP-Unicamp), Martelli Júnior reconstrói, nesta entrevista, a trajetória dos PPGs no País, além de discutir as perspectivas da ciência brasileira e comentar características dos seis Planos Nacionais de Pós-Graduação (PNPG), implantados, por aqui, desde 1975. O que significam os programas de pós-graduação para o Brasil? Importante ressaltar que, quando se refere à pós-graduação (PG), em sentido estrito (mestrado e doutorado), referimo-nos a um robusto sistema, o mais organizado da educação brasileira. Tal conjunto de cursos é relativamente recente, e remonta à década de 1960. Em quase seis décadas, chegou-se a cerca de 7 mil cursos de mestrado e doutorado, com quase 4.600 Programas de Pós-Graduação (PPG), distribuídos em 49 áreas temáticas. Se projetarmos uma média de 20 pesquisadores por PPG, são 92 mil profissionais, altamente qualificados e treinados para gerar conhecimento e desenvolvimento para o País. Este complexo chega a todas as regiões brasileiras, embora com assimetrias. Aquela com menor número de PPGs é a Norte, com 266. Ou seja, a capilaridade e o envolvimento regional se fazem presentes. Como exemplo, cito o Ins-

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tituto Evandro Chagas, no Pará, e sua atuação nas arboviroses da Amazônia brasileira, com avanços consideráveis nos estudos da febre amarela e do vírus Zika. Como, exatamente, se estruturaram os estudos de pós-graduação no País? “A educação nos torna livres através do conhecimento, e também nos torna iguais, através de sua capacidade para o máximo desenvolvimento de nossos potenciais inatos”. Com tal pensamento do professor Anísio Spínola Teixeira, nasce, em 1951, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Naquele ano, cria-se o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as duas principais agências públicas para financiamento e desenvolvimento da ciência, tecnologia, inovação e formação de recursos humanos qualificados. Em 1950, o Brasil tinha 51.941,767 milhões de habitantes, com taxa de analfabetismo de 50,6%. Em 2018, a população saltou para 208.5 milhões de habitantes, e, em 2016, a taxa de analfabetismo caiu para 7,2%. Neste contexto histórico, quando se fala da PG nacional, automaticamente, menciono a Capes. Porém, há outros momentos históricos marcantes: em 1916, nasce a Academia Brasi-


Andrey Librelon/Unimontes

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leira de Ciência; 18 anos depois, cria-se a Universidade de São Paulo, e, em 1948, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Embora a sistematização para criação dos primeiros cursos de PG no Brasil ocorra posteriormente, no princípio da década de 1950, já se identifica, na UFMG, o primeiro doutorado em Direito, e, no começo da década seguinte, um mestrado em Odontologia na UFRJ. Neste cenário, a Capes começa a planejar ações para envolver a PG como instrumento de desenvolvimento do Estado, além de estímulos ao desenvolvimento econômico e social. Tal processo culminará com o surgimento dos Planos Nacionais de Pós-Graduação (PNPG) em meados da década de 1970. Qual a relação de cada um dos seis Planos Nacionais de Pós-Graduação (PNPG), implantados por aqui, desde 1975, com seus tempos históricos? Esta reflexão é vital à compreensão do Sistema Nacional de PG (SNPG). Embora os PNPGs sejam delimitados por momentos temporais, e se iniciem em 1975, certos fatos merecem lembrança. A Capes nasce como “Campanha Nacional” para formar quadros docentes. Em 1953, surge o Programa Universitário, principal linha da Capes junto a universidades e institutos de ensino superior. São contratados professores visitantes estrangeiros, estimulando-se o intercâmbio e a cooperação entre instituições. Em 1974, a estrutura da Capes é alterada, e seu estatuto passa a ser de “órgão central superior, gozando de autonomia administrativa e financeira”. O primeiro planejamento, com cinco anos de duração, enfatizava a importância da capacitação docente para atender as instituições brasileiras e a perspectiva de integração ensino-pesquisa. Entre 1982 e 1985, o II PNPG contava com premissas de consolidação da pós-graduação – e de sua indissociabilidade da existência de condições materiais e institucionais indispensáveis à plena realização de suas finalidades – e da existência da pós-graduação baseada em docentes e pesquisadores engajados. Também é fundamental mencionar o SNPG, ou seja, a avaliação. No II PNPG, buscou-se aperfeiçoar os mecanismos avaliativos e a participação da comunidade científica.

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O III PNPG, já na Nova República, apresenta tendência vigente à época: a conquista da autonomia nacional. Era importante o progresso da formação de PG de alto nível, com vistas à independência econômica, científica e tecnológica. Embora o IV PNPG não tenha sido formalmente publicado, como os demais, a Capes, em 1996, dedicou um “Documento” à PG, no qual destaca a evolução do SNPG; os expressivos desequilíbrios observados na PG; a pressão da demanda por PG e a maior articulação da própria Capes com outros organismos constituídos. O V PNPG (2005-2010) incorpora o princípio de que o sistema educacional é fator estratégico no processo de desenvolvimento socioeconômico e cultural da sociedade brasileira. Este planejamento introduziu o princípio da indução estratégica nas atividades da PG, em associação com as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) e os Fundos Setoriais, além de aprofundamento no sistema de avaliação qualitativo, solidariedade entre os cursos e seu impacto social, combate às assimetrias e colaborações internacionais. Vivemos, agora, o VI PNPG (20112020), o mais longo de todos os planos existentes, com desafios e perspectivas relevantes: a multi e a interdisciplinaridade entre as principais características da PG; importantes temas da pesquisa; e o apoio à educação básica e a outros níveis e modalidades de ensino, especialmente, o médio. Tais desafios se inserem numa década com mudanças profundas na geopolítica mundial e impactos em diferentes setores da sociedade. Mudanças são nítidas, por exemplo, no setor agrário. Impulsionada por novas tecnologias, recursos humanos já bem qualificados no Brasil e no exterior e gestões competitivas das empresas e dos negócios, a agricultura brasileira atingiu produtividade extraordinária. Dentre as temáticas desafiadoras, estão a Amazônia e o mar. A Capes também recebe novas atribuições, com a criação das Diretorias de Educação Básica. Nos anos 1970, formavam-se quadros capacitados. Hoje, há ações de relevo, com destaque internacional do Brasil em áreas como Medicina Tropical, Agricultura, Odontologia, Biocombustíveis, Física e Zika vírus. Caminhamos, a passos largos, para enten-

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der que a inter e a transdisciplinariedade são vitais aos desafios contemporâneos e aos problemas cotidianos. De modo mais geral, desde a implantação do primeiro Plano, que conquistas o senhor destaca quanto à qualidade e à abrangência da pós-graduação no País? Há importantes conquistas, como o acesso de profissionais a cursos de mestrado e doutorado, que no passado era bastante limitado e difícil, e a regionalização da PG. Outrora, havia necessidade de longos deslocamentos, sobretudo do Norte e Nordeste para o Sudeste e o Sul. Este fenômeno foi significativamente reduzido. Importantes estímulos da própria Capes e do CNPq possibilitaram nucleações, além dos mestrados e doutorados interinstitucionais. A ambiência que a PG criou em várias instituições, ao suscitar programas destacados de iniciação científica e tecnológica, e esta proximidade entre dois níveis da educação (graduação e PG) – sempre desejável, mas ainda tímido ou falho. Destaco, ainda, o desenvolvimento de redes temáticas, com diversos PPGs e perfil interdisciplinar, a formação de RH para atuação em setores privados e públicos. Na última avaliação da Capes, quadrienal, em 2017, tivemos 496 PPGs com conceitos 6 e 7, considerados consolidados e com destaque nacional e internacional. Em Minas Gerais, observou-se a existência de 26 PPGs com conceito 7, e 32 com nota 6. Em região extensa como Norte, Noroeste, Vale do Mucuri e Jequitinhonha, que, há pouco mais de uma década, não tinha um único PPG, houve, além de expansão de PPGs, um conceito 6, em Ciências da Saúde, na Unimontes. E quais os principais entraves ao desenvolvimento da pós-graduação no País? Pesquisa como vetor sustentador da PG é sinônimo de investimentos financeiros e estruturais. Sobretudo, em pesquisa de fronteira e formação de pessoal com alta qualidade. Sem dúvida, a política de Estado no Brasil ainda é substituída pela política do gestor de cada mandato. Outro entrave: dialogamos pouco e mal. Voltemos ao exemplo de Minas Gerais: temos 26 PPGs com conceito 7. Quantas vezes eles


foram chamados a dialogar com órgãos da administração pública direta, para colaborar no enfrentamento de desafios do dia a dia? Quantas vezes são chamados, pelo setor industrial, para contribuir com soluções frente aos desafios presentes? Veja a situação da educação básica nacional. Precisamos definir melhor a atuação dos PPGs de natureza profissional e sua inserção nos desafios da sociedade. Fiquemos na torcida por resultados derivados do Projeto Institucional de Internacionalização da Capes. De que modo minorar a desigualdade de PPGs nas diversas regiões? Faltam diálogo, induções e programas estruturantes. Diálogo, sobretudo, que respeite vocações regionais e aproxime setores. Quanto às induções, para desenvolver e promover destaque em regiões menos desenvolvidas, é necessário dar condições de trabalho e crescimento aos pesquisadores que ali mantêm viva a chama da PG. Por fim, os programas estruturantes: não se faz pesquisa de boa qualidade e longeva sem estrutura e ambiente adequados, ainda que tenhamos seleto grupo de investigadores. E como as restrições orçamentárias prejudicam todo o processo? Pensemos em um estudante de PG que, de forma perene, verifica a possibilidade de cortes em sua bolsa de estudo, a limitação de contratações em instituições de ensino e a limitada cultura da transferência do conhecimento para o setor privado, sobretudo industrial e/ou empresarial. Ele se sente ameaçado, e, por vezes, desestimulado, mesmo com enorme potencial e rica contribuição para o desenvolvimento do País. De outro lado, pense no docente, que acumula atividades didáticas de cursos tecnológicos, ou da graduação, com as demais práticas universitárias brasileiras. Ele também se vê ameaçado, da descontinuidade de investimentos à falta de contratação de projetos de pesquisa, já contemplados em “chamadas públicas” de ampla concorrência. Há, ainda, a competição para socializar produções em importantes periódicos científicos e o respeito a prazos de relatórios técnicos e à formação do estudante de mestrado e/ou doutorado. Tais variáveis podem afastar o professor de suas práticas ligadas à pesquisa e à PG. O senhor e outros pesquisadores brasileiros publicaram, na revista Science,

estudo sobre desafios da pós-graduação brasileira. Qual a repercussão do debate? Participaram, da publicação, professores da Faculdade de Medicina da UFMG (Ana Cristina Simões e Silva, Maria Christina Oliveira e Eduardo Araújo Oliveira) e da Unimontes (Daniella Reis B. Martelli), que, há pelo menos uma década, dedicam-se a estudos sobre a cienciometria e a importância destes indicadores para a P&D nacional. A publicação “Brazil´s endangered postgraduate system” sinaliza os entraves dos cortes orçamentários e da descontinuidade de ações exitosas para toda a cadeia de conquistas e relevo da pesquisa e da PG nacionais. Também alertamos que, sem este “casamento” indissociável entre os entes que representam nossa P&D e os atores na extremidade da cadeia, o Brasil perderá honrosas posições de destaque, como o percentual de publicações técnicas e científicas nas principais bases internacionais.

Vivemos, agora, o VI PNPG

Por fim, como o senhor enxerga as perspectivas da ciência no Brasil? Há desafios interessantes e concretos, como a educação básica brasileira e a participação da PG neste cenário. Em 2017, a Academia Brasileira de Ciência publicou o documento “Um projeto de ciência para o Brasil”, com agenda temática riquíssima, que inclui cidades sustentáveis, água, biodiversidade, ar e solo, dentre outros assuntos. Também vejo com satisfação publicações de alta qualidade, por pesquisadores nacionais, com ou sem colaborações estrangeiras, em periódicos de destaque. Cito os estudos do professor Jônatas Abrahão, da UFMG, que identificaram vírus gigantes e repercutiram na Nature Communications, onde também se divulgou o trabalho do professor Ricardo Santiago Gomes, da mesma universidade, com colaboradores nacionais e internacionais. Há, ainda, a pluralidade de artigos científicos sobre a participação do vírus Zika e a microcefalia. Destaco, por fim, conquistas no sistema de P&D, como o Portal de Periódicos da Capes, a evolução da plataforma Lattes do CNPq, os parques tecnológicos, os núcleos de inovação tecnológica, apoiados pela FAPEMIG, os INCTs, as redes temáticas e o incremento da difusão científica qualificada.

dio. Tais desafios se inserem

(2011-2020), o mais longo de todos os planos existentes, com desafios e perspectivas relevantes: a multi e a interdisciplinaridade entre as principais características da PG; importantes temas da pesquisa; e o apoio à educação básica e a outros níveis e modalidades de ensino, especialmente, o ménuma década com mudanças profundas na geopolítica mundial e impactos em diferentes setores da sociedade.

Leia reportagem sobre tal pesquisa em MINAS FAZ CIÊNCIA nº 73.

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SAÚDE

Todo cuidado é pouco Pesquisa do Hemominas busca desenvolver e padronizar uso de testes moleculares para detecção de vírus em pacientes que passaram por transplante de rins Tuany Alves

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O rim é um dos órgãos essenciais ao bom funcionamento do corpo humano. É ele que, por meio de processos de filtragem, elimina toxinas e regula a formação dos ossos, assim como controla a pressão sanguínea e o balanço químico e de líquidos da pessoa. Seu funcionamento, entretanto, pode ser prejudicado por uma série de fatores, a exemplo de doenças, causas genéticas ou pouca ingestão de água. Quando os rins já não funcionam corretamente, é necessário, por vezes, recorrer a tratamentos que tentem substituir sua função. A hemodiálise é o método por meio do qual o sangue é filtrado e devolvido ao corpo do paciente com menos impurezas. Já na diálise, uma solução especial é infundida e drenada no abdômen da pessoa, sem contato direto com a corrente sanguínea. Na maioria das vezes, se não houver possibilidade de transplante, o tratamento é feito para o resto da vida. Mesmo após a cirurgia para substituição do órgão, os pacientes podem apresentar problemas, como infecções virais. Pesquisadora da Hemominas, Marina Lobato Martins explica que pacientes com transplante renal – chamados, no sistema de saúde, de “terciários” – são considerados de alta complexidade e com alto custo. “Eles têm dois grandes problemas que precisam ser contrabalançados, como quaisquer outros transplantados: o uso da imunossupressão, para evitar a rejeição ao novo órgão, e o maior risco de infecção viral”, esclarece. Segundo a pesquisadora, há diversos vírus prevalentes na população, mas em estado latente. Quando um paciente transplantado recebe a terapia imunossupressora – que impede a rejeição do novo rim –, os microrganismos aproveitam a oportunidade para se reativar. “A infecção viral ativa pode danificar o órgão transplantado ou apresentar uma série de problemas, como atuar sobre as drogas imunossupressoras, levando à diminuição da vida útil do transplante ou à sua perda”, explica Marina Lobato. De acordo com Luciana de Souza Madeira Ferreira Boy, também pesquisadora da Hemominas, a reativação pode acontecer tanto no órgão transplantado quanto

no próprio paciente, que já tenha o vírus. O risco é enorme! Afinal, entre 80% e 90% da população adulta têm, por exemplo, o Citomegalovírus (CMV) e o Poliomavírus (BKV). Por isso, “a chance de uma infecção ativa, por causa da imunossupressão, é muito grande. E isso é um problema preocupante na área de transplante”, informa Marina Lobato. Ciente de tal demanda, as pesquisadoras desenvolvem o “Estudo da infecção pelo Citomegalovírus humano (CMV) e pelo Poliomavírus (BKV) em pacientes com transplante renal: desenvolvimento de testes moleculares para detecção viral”, que visa avaliar o impacto da infecção por CMV e BKV em pacientes com transplante renal acompanhados pelo Centro de Nefrologia do Hospital Santa Casa de Belo Horizonte, ao longo de um ano. Os objetivos são desenvolver e padronizar o uso do teste molecular para detecção dos dois vírus, além de produzir protocolos de intervenção. Além de Marina Lobato, coordenadora do estudo, e da mestranda Luciana Boy, o grupo conta com a participação de Pedro Macedo Souza, médico do Centro de Nefrologia da Santa Casa, e Edel Figueiredo Barbosa Stancioli, do Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Integram a equipe, ainda, Larissa Silva Lentz Braga e Julia Grichtolik Cantagalli Paiva, bolsistas de iniciação científica – com financiamento da FAPEMIG – ligadas ao Serviço de Pesquisa, vinculado à Gerência de Desenvolvimento Técnico Científico da Hemominas.

Testes fundamentais

A equipe desenvolve o trabalho desde setembro de 2017. Atualmente, 67 pacientes são acompanhados. Segundo Marina Lobato, na primeira parte do estudo, é necessário observá-los ao longo de um ano, com realização de coletas de fluidos (sangue e urina) em seis ocasiões: primeiro, segundo, terceiro, sexto, nono e décimo segundo meses após o transplante. A pesquisadora explica que, em tal período, especialmente nos três primeiros meses,

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há maior possibilidade de reativação viral, posto que a imunoterapia é mais forte – com o intuito de evitar a rejeição do órgão. Após recolher as amostras, realiza-se o teste molecular PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), para verificar a presença do vírus. Diferentemente de outros exames, o PCR não precisa que o paciente forme anticorpos para detecção do vírus. “Ele é usado para que se detecte o genoma viral”, conta Lobato. Velho conhecido na área da saúde, a PCR é amplamente utilizada em pesquisas. Cada vez mais, porém, o exame tem sido introduzido na prática clínica, de modo a se tornar obrigatório nas doações de sangue. Para a pesquisadora, no caso dos transplantes – e não apenas de rins –, seu uso também se revela muito importante. “Os pacientes transplantados estão com resposta imune muito enfraquecida, devido às drogas imunossupressoras. Se

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ocorrer reativação viral, portanto, ele não conseguirá produzir anticorpos. Com um teste molecular, identifica-se tudo isso”, ressalta. Apesar de o estudo ainda estar em curso, Luciana Boy ressalta que já se verificou alta prevalência dos dois vírus nos pacientes. Segundo ela, analisaram-se, no total, 129 amostras de 37 pacientes. “O DNA do BKV foi detectado em pouco mais de 50% do material; o CMV, em 32%. Além disso, vimos maior prevalência – de ambos – no segundo mês, conforme esperado, pois, nos três primeiros meses, a imunossupressão está em seu nível máximo”, informa. A pesquisadora conta, ainda, que, em alguns pacientes, foi possível intervir e realizar o tratamento adequado. “Tivemos muitas detecções, e conseguimos acompanhar, pelo prontuário, que o médico recebeu os resultados, interviu e houve melho-

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ra do paciente. De alguma forma, portanto, podemos dizer que, mesmo com pouco tempo, conseguimos contribuir”. Marina Lobato destaca que a tecnologia do teste molecular pode, em Minas Gerais, evitar perda de transplantes ou complicações em pacientes, além de reduzir custos para o Sistema Único de Saúde (SUS) e auxiliar as equipes médicas. “Quando propusemos o estudo, percebemos carência dos médicos em testes diagnósticos, que ficam sem saber como agir. Afinal, eles não têm certeza se o possível quadro de piora se deve à rejeição do órgão, pelas próprias incompatibilidades, ou por algo que poderia controlar”, conta.

Prevenção

Mais do que detectar o vírus, contudo, o grupo pretende compará-lo, por meio de testes já utilizados, e quantificar cargas virais. “O que significa quantificar? Saber

o nível de infecção da pessoa, pois tudo pode estar controlado. A quantificação da carga viral – ou o índice de infectividade – é importante para que o médico comece a tomar medidas diferentes, como trocar a intensidade de imunossupressão do paciente”, explica. Ao fim do estudo, a partir da quantificação viral, os pesquisadores pretendem definir pontos de corte. Ou seja: o nível no qual o vírus se mostra como ameaça, para que o médico aja para evitar preocupações futuras. “Assim, poderemos estabelecer um protocolo para atendimento desse serviço de saúde no Hospital Santa Casa, levando-se em conta que cada instituição tem suas especificidades. Um estudo seria necessário para formulação de protocolos específicos. A carga viral serviria de recomendação à conduta dos médicos”, informa.

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Cibernética jurídica

DIREITO

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Polêmicas e embates éticos no entorno de uma das mais polêmicas inovações no campo do Direito contemporâneo Lorena Tárcia

A defesa da tese foi gravada e pode ser assistida no link http://bit.ly/valentinitese.

“É um tema que desperta paixões!” Assim Rômulo Valentini começou a defesa de sua tese de doutorado, intitulada “Julgamento por computadores? As novas possibilidades da Juscibernética no século XXI e suas implicações para o futuro do Direito e do trabalho dos juristas”, defendida em 2018, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pouco antes, o professor orientador, Antônio Alvares da Silva, abrira a banca com o alerta, ao doutorando, sobre a complexa e longa arguição que o aguardava. De fato, Juscibernética não é temática confortável no âmbito jurídico. O termo foi cunhado em 1974, por Mário Losano, na obra pioneira Lições de informática jurídica. A disciplina é dividida, cronologicamente, em três etapas. Teve início com a informática documental, quando floresceram os bancos de dados jurídicos, usados na ordenação da informação e sua posterior recuperação. Na


sequência, criaram-se sistemas para controle de processos, tratamento de textos, geração automática de documentos e decisões rotineiras, mas sempre como auxiliares nas decisões, sem substituí-las. A fase contemporânea – e mais polêmica – diz respeito à denominada informática jurídica decisória, com a criação de sistemas de Inteligência Artificial (IA) capazes de produzir decisões por si mesmos. Aí se encontra o problema pesquisado por Valentini, ao buscar determinar se, no estágio atual, é possível uma máquina elaborar textos, tecnicamente adequados, com decisões judiciais válidas para casos concretos. “É uma tese provocativa, mas a relação da informática com o Direito vem sendo discutida desde a década de 1970. O que trazemos de inovador é o elemento da realidade contemporânea”, defende o pesquisador. Em 2014, quando começou sua pesquisa, tudo era novidade. A partir de 2017, a realidade mudou, com a publicação de diversos artigos, notícias na mídia e, até mesmo, duelo “homem-máquina” na área jurídica, consequência do ritmo acelerado das inovações sociotécnicas.

Brasil X Mundo

Plataforma na qual consumidores lesados em uma relação de consumo podem processar uma empresa de forma simples e gratuita.

O que difere a situação brasileira do restante do Planeta, segundo o pesquisador, é a “dissociação tecnológica”. Nos Estados Unidos, o uso do computador, no dia a dia forense, já é realidade, com sistemas especializados, que reduzem postos de trabalho e produzem peças jurídicas, aos moldes do site www.processeaqui.com.br. Porém, as diferenças são significativas, já que, de acordo com Valentini, somos o País com maior quantidade de processos per capita do mundo, sujeitos a muitas variações. “Eles não precisam da informática como tábua de salvação para o sistema judiciário. Para eles, as tecnologias são um suporte”, explica. A obra de Richard Susskind, Tomorow’s Lawyers, seria prova desta diferença entre os dois países. Nela, o autor estadunidense prevê um mundo de tribunais online, negócios jurídicos globais baseados em IA, mercados liberalizados, comoditização e terceirização, práticas simuladas baseadas na internet e novos empregos legais.

Outros destaques são o Canadá – com a empresa Ross Intelligence, uma das mais famosas referências de sistema de “advogado virtual” – e o Reino Unido – com a empresa Case Crunch, notória por vencer advogados humanos em um desafio na área de Direito Tributário. Além disso, recentemente, outra empresa, a LawGeex, demonstrou ser capaz de apresentar performance superior à dos especialistas humanos na análise de contratos, ao realizar, em poucos segundos e com maior índice de acerto, tarefas que os advogados humanos levaram, em média, 90 minutos para finalizar. Já na China, país com massivo índice de investimento em Inteligência Artificial, as tecnologias na área jurídica têm sido direcionadas para a realização de políticas públicas e controle social, como coleta de dados pessoais e tecnologia de reconhecimento social, a fim de facilitar o trabalho das autoridades policiais e a prestação de serviços públicos, como emissão de passaportes e acesso ao crédito. No entanto, Valentini alerta sobre o polêmico uso de IA no julgamento de crimes. “A aplicação na área criminal é uma questão delicada, mas a China parece se importar menos com os dilemas éticos e morais desses sistemas do que o Ocidente”.

Minas, destaque científico

Em 2018, o Ministério da Educação (MEC) estabeleceu o “Direito Cibernético” como disciplina curricular autônoma, ainda que optativa, para os cursos de Direito, por meio do parecer CNE/CES nº 635/2018. Apesar do atraso, o Brasil já possui diversas iniciativas consolidadas de pesquisa na área. Valentini destaca o vanguardismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o avançado Grupo de Estudos sobre Governo Eletrônico (E-gov), coordenado pelo professor Aires José Rover, referência na área de pesquisa sobre Informática Jurídica desde a década de 1990. No Rio de Janeiro, destacam-se as iniciativas do Instituto de Tecnologia e Sociedade, sob orientação do professor Ronaldo Lemos, bem como o Centro de

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Estudos em Direito e Tecnologia (Ceditec), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em Brasília, o grupo de estudos Legal-AI, da Universidade de Brasília, consolida as iniciativas de pesquisa e aplicação prática na área, sobretudo as desenvolvidas pelo professor Ricardo Vieira de Carvalho Fernandes, CEO da Legal Labs e organizador de duas edições do “Congresso Internacional de Direito, Governo e Tecnologia”. Em São Paulo, no ano de 2017, houve a criação do Grupo de Estudo de Lógica, Inteligência Artificial e Direito (Geliad), integrado pela Faculdade de Direito e outros departamentos da Universidade de São Paulo (USP), por iniciativa do professor Juliano Maranhão. “Mas, sem modéstia, em termos de destaque científico, creio que Minas Gerais tomou a dianteira nesse debate”, orgulha-se Valentini. A Faculdade de Direito da UFMG, em 2018, ofertou diversas disci-

plinas de graduação e pós-graduação na área da Juscibernética, com destaque para as iniciativas do professor Roberto Novaes, com o curso “Ciência de dados aplicada ao Direito”, e dos professores Leonardo Parentoni e Renato César Cardoso, com a disciplina “Direito e Inteligência Artificial”. “Além dessas, foram abordadas as questões referentes aos vieses dos algoritmos aplicados aos processos judiciais, em disciplina conduzida pelo professor Dierle José Coelho Nunes e as implicações da Inteligência Artificial para o futuro das relações de trabalho, em disciplina ofertada, em conjunto, por mim e pelo professor Antônio Álvares da Silva, meu orientador do doutorado”, nomeia. Em termos de grupos de pesquisa, também na UFMG, desde 2013, foram encampadas, institucionalmente, as iniciativas do Grupo de Estudos em Direito Eletrônico (Gedel) – originado de uma das mais antigas listas de discussões temáticas sobre Direito Eletrônico em grupo de estudos coordenado pelo próprio Valentini e pelo

professor Antônio Gomes de Vasconcelos. “Temos, ainda, o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (Iris), orientado pelo professor Fabrício Bertini Pasquot Polido, e o grupo Direito e Tecnologia da Informação (DTI), sob a coordenação do professor Leonardo Parentoni. Fora do âmbito universitário, destaca-se, como iniciativa da sociedade civil, o Instituto Direito e Inteligência Artificial (Ideia), ação dos desembargadores Wilson Benevides (TJMG) e José Eduardo Resende Chaves Junior (TRT3), criado em 2018. O grupo é aberto a profissionais e estudantes de todas áreas, e discute, diariamente, temas polêmicos referentes à Juscibernética e suas implicações na sociedade. Para se informar sobre a proposta do grupo e conhecer formas de participar dos debates, acesse http:// ideiaonline.org/ ou envie e-mail para contato@ideiaonline.org.

Prós e contras Embora considere difícil apontar pontos positivos e desafiadores relacionados à aplicação da Inteligência Artificial no campo do Direito, pois tudo depende das escolhas humanas, o professor Valentini indicou aspectos a serem considerados.

Pontos positivos

Pontos negativos

Ganhos de eficiência no processo de trabalho, ao eliminar tarefas repetitivas.

Possível desvalorizaçao do trabalho dos profissionais da área jurídica.

Redução do tempo de tramitação dos processos e custos.

Risco de “engessamento” do Direito em dados pré-existentes.

Liberação de juristas para atividades menos burocráticas, mais intelectuais e criativas.

Replicação de vieses de julgamento já existentes, sem inovação.

Ampliação da clareza e da objetividade dos processos. Elevação do pensamento jurídico e dos estudos acadêmicos.

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Aceitação, como normal, de decisões injustas ou enviesadas das máquinas. Esvaziamento ou empobrecimento dos debates sobre o sistema jurídico.


ADMINISTRAÇÃO

Você é um falsificaholic? ssa Ale aR ndr

Pesquisa traça perfis dos consumidores de produtos falsificados na capital mineira

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Nos últimos 12 meses, você se lembra de ter comprado algum produto falsificado? A pergunta foi feita a 401 moradores de Belo Horizonte, de diferentes classes sociais e de ambos os sexos, com idade entre 18 e 65 anos – 68,4% admitiram ter comprado mercadorias do tipo no ano anterior, motivados, principalmente, pelo preço. O índice é representativo de toda a

população adulta da capital, com margem de erro de quatro pontos percentuais. A pesquisa foi realizada entre novembro e dezembro de 2017. Os locais das entrevistas domiciliares acabaram sorteados com base em dados demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Na região com mais pessoas, direcionamos maior número de entrevistas.

Se havia predominância de mulheres, realizaram-se mais conversas com elas”, explica Matheus Lemos de Andrade, diretor do Instituto Olhar, responsável pela aplicação dos questionários, e autor da tese de doutorado que apresenta a sistematização e a análise dos resultados. O trabalho foi realizado junto ao Grupo de Estudos em Marketing, Consumo e

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Sociedade (Gemacons), do programa de pós-graduação em Administração da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Uma das contribuições da pesquisa é a elaboração de um modelo teórico para analisar o comportamento do consumidor em relação à compra de categorias específicas de produtos, e não apenas dos falsificados como ideia geral e abstrata. Defende-se a tese de que a compra de produtos falsificados é influenciada pela ética e pelos valores pessoais dos consumidores, e varia conforme características demográficas, do processo de compra e do tipo de produto. “Na perspectiva de uma ética relativista – quando alguém compara

e calça seu julgamento ético com o que observa ao seu redor –, uma pessoa pode falar que prefere comprar falsificados a defender grandes empresas que praticam margens de lucro exorbitantes no País”, exemplifica. Analisaram-se 13 tipos de produtos, agrupados em quatro categorias: pirataria, fashion, eletrônicos de uso pessoal e fármacos. Agrupados na primeira categoria, DVDs de filmes e CDs de música estavam no topo da preferência dos consumidores (37,3% e 36%, respectivamente), seguidos das roupas falsificadas (34,1%). Por outro lado, parece haver mais cautela na compra de itens como medicamentos (2,4%) ou câmeras digitais (2%).

“Pode ser muito antiético e arriscado, tanto comprar quanto vender um remédio. Mas roupa não é tão complicado assim, pois não coloca ninguém em risco”, relata Andrade, a partir das justificativas ouvidas dos consumidores. “Percebemos que as pessoas têm atitudes diferentes em relação a falsificados, de acordo com o produto”, resume. Os consumidores foram classificados em quatro perfis: “não-compradores autorregulados”, caracterizados pela rejeição ética e pela recusa por falsificados (30,2%); “esporádicos tolerantes”, que eventualmente compram e apresentam julgamento ético intermediário sobre tal com-

O que levar? Índice médio de compra de falsificados

Pirataria

Eletrônicos de uso pessoal

Fármacos

Fashion

DVD de Filme

Celular

Medicamento

Roupa

37,3%

11,0%

2,4%

34,1%

Software

26,8% CD de Música

36,0%

18

MP3 player

6,5% Câmera fotográfica digital

2,0%

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Relógio

Artigo de higiene pessoal

16,2%

11,8%

Tênis/Sapato

21,6% Perfume

11,9%

Óculos escuros

21,6%


portamento (31,9%); “seletivos-libertos”, que adquirem apenas algumas categorias desses produtos e consideram a prática vantajosa e eticamente aceitável (23,4%); e os falsificaholics, que compram com frequência, sem nenhuma culpa.

Questão de status?

Os resultados mostram que os mais jovens têm maior tendência a comprar falsificados. Para quem ganha mais de dois salários mínimos, em toda as faixas etárias, o consumo diminui à medida que a renda aumenta. Apenas na faixa de rendimentos inferior a dois salários mínimos, ele é menor que na faixa imediatamente acima – uma possível explicação está no fato de que, neste estrato social, há outros produtos de primeira necessidade. “Muitas vezes, a categoria de produtos falsificados é a mais acessível ao consumidor. Imagine que você queira comprar uma calça jeans: onde encontrará a calça mais barata em Belo Horizonte? Provavelmente, o Shopping ‘Oi’ terá uma das opções mais em conta. Não

quer dizer que a pessoa busque um falsificado; ela procura uma calça. O produto falsificado também tem funcionalidade”, pondera o autor do trabalho. Como parte da pesquisa, de dezembro de 2015 a março de 2016, ele atuou como vendedor de uma banca de roupas no Shopping Oiapoque, tradicional centro comercial da capital mineira – metodologia denominada “observação participante com inspiração etnográfica”. A experiência, viabilizada com recursos do Fundo de Incentivo à Pesquisa da PUC Minas, gerou cerca de 20 páginas de anotações e 52 minutos de entrevistas gravadas com vendedores e consumidores. O relato etnográfico pode ser lido no artigo “Falsificado, sim. Mas de coração! Uma investigação interpretativa sobre o ato de presentear com produtos falsificados”. O texto é um dos capítulos do livro Cultura e consumo no Brasil: estado atual e novas perspectivas, lançado pela Editora PUC Minas, em 2018, com apoio da FAPEMIG. “Percebi que as pessoas não com-

pram falsificados só pela questão da marca. Os mais pobres, principalmente, estão em busca de um estilo e querem expressar este estilo. Como eles não têm como expressá-lo a partir de uma marca original, vão para o produto falsificado”, observa. Segundo Andrade, o senso comum de que as pessoas compram falsificados apenas para ganhar status, por causa da marca, já foi muito discutido na literatura especializada, e há consenso de que a perspectiva deve ser ampliada. “Um pobre, quando usa um falsificado, sabe que as pessoas olham para ele e percebem que aquilo é falsificado. Já uma madame que mora na Zona Sul, tem nível superior e anda de carro importado, se puser uma bolsa Louis Vuitton, mesmo falsificada, ela, a mulher, confere status ao produto e passa a blefar com seu próprio status social”, compara. O pesquisador afirma: efetivamente, é muito mais comum que a classe média e os ricos usem falsificados, com o objetivo do blefe, do que os mais pobres.

Quem vai querer?! Confira trechos das impressões do pesquisador Matheus Lemos de Andrade, que, entre 2015 e 2016, também atou como vendedor de roupas no Shopping Oiapoque, em metodologia de estudo denominada “observação participante com inspiração etnográfica”. “Começo minhas observações e as intercalo com algumas perguntas sobre os consumidores que Marciano atende. De acordo com sua percepção, os consumidores de falsificados são de todas as classes sociais: ‘Aqui no shopping dá de tudo! É rico, é pobre, é patricinha, mauricinho, favelado. Aqui tem de tudo!’ Apesar do predomínio de pessoas aparentemente pobres, noto que em meio a toda aquela gente há pessoas bem vestidas e famílias inteiras fazendo compras. [...] Depois de uma ou duas horas, percebo que, para acessar os consumidores, teria que ir para a ‘linha de frente’. As tentativas de entrevistar os consumidores foram frustradas e geraram desconfiança. Nesse ambiente, as pessoas ficam mais alertas e desconfiadas! Foram dezenove incursões de três a quatro horas, ao longo de quatro meses. Percebo que os consumidores avaliam criteriosamente cada peça. Tocar o produto é uma prática recorrente. [...] Marciano também me diz que as pessoas pegam para saber se a peça é de qualidade. O vendedor me alerta sobre a importância de saber avaliar o produto, já que a qualidade varia desde falsificações ‘de segunda linha’ a “réplicas perfeitas, que nem o fabricante saberia identificar’. [...] Em meus atendimentos, costumava enfatizar a marca: ‘Este é Quicksilver! Este é da Polo!’. Foi uma senhora que me alertou: ‘Olha aqui, moço, eu não ligo pra essas etiquetas. Quero uma calça bonita que caia bem no meu marido. A marca pode ser qualquer uma!’. [...] Marciano me diz que os pobres compram qualquer produto, seja para uso próprio ou para presentear, e preferem os produtos que possuem a logo aumentada, em destaque. Já os ricos tendem a ser mais criteriosos e buscam produtos de ‘primeira linha’, as réplicas, produtos que são idênticos aos originais e geralmente são mais discretos.”

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RELAÇÕES PÚBLICAS

Laboratório de controvérsias Estudo analisa ções campanha de rela da públicas financia setor por empresas do ntada de energia e orie zas a plantar incerte do sobre existência bal aquecimento glo Luana Cruz

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A ciência e a opinião pública envolvem controvérsias que fazem parte do processo coletivo de produção de conhecimento. O que talvez não paremos para pensar diz respeito à constatação de que agências de relações públicas, corporações, agentes políticos, cientistas, jornalistas e personalidades midiáticas podem interferir nos rumos das discussões científicas. Muitas vezes, tais “atores” contam com estratégias concebidas para evitar a formação de consensos e a movimentação de públicos. Eis o tema da pesquisa de Daniel Reis Silva, na tese “Relações Públicas, Ciência e Opinião: lógicas de influência na produção de (in)certezas”. O estudo busca compreender a campanha de relações públicas financiada por grandes corporações do setor de energia, e orientada a criar dúvidas sobre a existência do aquecimento global antropogênico. O pesquisador trabalha com a ideia de “manufatura de incertezas sobre as mudanças climáticas” – a construção social da dúvida – e a tentativa de criar um cenário de ambiguidades, no qual os sujeitos fiquem imobilizados, sem saber como agir ou em quem acreditar. Daniel Reis destrincha campanhas que buscam, até mesmo, negar a existência das mudanças climáticas. “Importante compreender que essa campanha não assume a forma de conjunto linear de ações, mas a de um emaranhado de estratégias de influência. Incorpora, por exemplo, a elaboração de falsas petições, a criação de grupos de fachada, para defender pontos de vista, e a confecção de materiais didáticos enviesados, para estudantes do ensino fundamental”, explica. De acordo com o cientista, a pesquisa vai além da denúncia da existência de tais ações, mas almeja compreender as dinâmicas e lógicas de influência que as conformam. “Busca-se entender como a dúvida é socialmente engendrada, como a comunicação atua nesse processo e quais as consequências dessas ações, especialmente, na opinião pública e na mobilização de públicos”, afirma. Para entender as estratégias de influência, o pesquisador mergulhou no universo das incertezas. E acompanhou, em

profundidade, um think tank específico, o Heartland Institute, de modo a explorar a participação na rede de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas.

Think tanks: raio-X

Segundo Daniel Reis, os think tanks são ideológicos e operam com financiamento de grupos aparentemente neutros, que servirão como porta-vozes perante a opinião pública. “A estratégia visa ocultar interesses privados, fazendo com que posicionamentos ganhem força na esfera pública, a partir da ideia de isenção. Assim, ao invés da própria indústria de carvão fazer campanha para defender seu produto, ela cria um grupo de supostos especialistas neutros, que terão, como função, realizar essa defesa, em nome de uma verdade científica ou do interesse público, o ocultar seus interesses financeiros subjacentes”, detalha. A pesquisa mostra que os think tanks ideológicos estão, atualmente, no centro da campanha de criação de dúvidas sobre as mudanças climáticas. Além disso, recebem financiamento milionário de corporações e pessoas ligadas à indústria de energia, para atuar enquanto instituições “neutras”. “Eles contribuem de maneira decisiva para o clima de incerteza, na medida em que dificultam a compreensão sobre quais interesses privados perpassam os posicionamentos envolvidos no debate climático”, ressalta. Durante a experiência de acompanhamento do think tank Heartland Institute, o desafio para o pesquisador foi desvelar elementos criados para permanecer ocultos. Segundo Reis, a lógica desses grupos é manter os interesses privados, que os motivam, afastados dos holofotes públicos, sob o risco de perda de influência. O foco do cientista era estudar as práticas comunicativas dentro do grupo, de maneira a tentar elucidar as lógicas que perpassam suas ações de “manufatura de incertezas”. Um dos principais achados da pesquisa, de acordo com o especialista, é a forma em rede como atuam os think tanks. Ao mesmo tempo em que a lógica em rede torna difícil seguir os rastros de

Eles funcionam como laboratórios de ideias. São grupos de reflexões ou organizações de pesquisas sobre políticas públicas capazes de emitir recomendações a atores públicos.

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cada grupo, ela fortalece suas mensagens, a partir de dinâmica circular, que oculta as origens de cada posicionamento. “Nesse ponto, o acompanhamento do grupo foi semelhante à construção de um grande quebra-cabeças, no qual cada peça está escondida – e nem todas podem ser encontradas”, esclarece.

Construção social

A pesquisa sinaliza que a ciência é construída socialmente, a partir de práticas retóricas. De acordo com Daniel Reis, isso implica o afastamento de visões positivistas, que igualam ciência a uma verdade superior, inata e objetiva. “Ao contrário de tal visão, em nosso entendimento, o fazer científico é permeado de contradições e processos não lineares de negociação, que abrem espaços para intervenções estratégias diversas, dentre as quais, estão ações de relações públicas”, esclarece. Mais especificamente sobre mudanças climáticas, o pesquisador apurou que relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) mostram a necessidade de mudanças sem precedentes na vida moderna, com intuito de limitar o aquecimento do planeta, a 1,5º C, até 2052. “Tais mudanças impactariam radicalmente a vida de todos nós, já que precisaríamos diminuir nossa pegada de carbono, limitar o uso de automóveis e viagens de avião, assim como o consumo de energia, além de alterar a alimentação”, analisa. Diante de tantas alterações – muitas delas inconvenientes para o dia a dia –, como podemos apoiar e aceitar tal cenário? Conforme Daniel Reis, isso só pode ocorrer quando houver certeza de que o IPCC e seus cientistas estão corretos, e de que tais

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medidas são imperativas para preservação da vida na Terra como a conhecemos. Em outras palavras: quando houver consenso social sobre o tema. Nesse ponto, entra em jogo a “manufatura de incertezas” e a interferência de práticas de relações públicas nos rumos de uma controvérsia. “A campanha com a qual lidamos na tese não é orientada a convencer cientistas, mas a criar dúvidas na opinião pública. Ela atua de forma a sugerir, à população, que o debate científico não está encerrado, de modo a criar estratégias comunicativas orientadas a evitar a formação dos consensos necessários para a adoção de medidas significativas de controle de emissão de gases estufa”, conclui.


INOVAÇÃO

Universidade empreendedora Grupo da UFSJ ajuda a formar ecossistema de inovação no Centro-Oeste de Minas Alessandra Ribeiro MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2019

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Em 2018, a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) destacou-se como a mais engajada no Empreenda.Conexão, etapa final do programa de pré-aceleração de startups Empreenda. Em Ação!. A iniciativa, que conta com apoio institucional da FAPEMIG, reuniu 53 projetos apresentados por 15 instituições de ensino superior de Minas Gerais. A UFSJ teve três equipes premiadas na competição – todas formadas por professores e estudantes do campus Centro-Oeste Dona Lindu, localizado em Divinópolis. O bom desempenho é atribuído ao Grupo de Inovação Tecnológica (Grite), criado, em 2013, por professores do curso de graduação em Bioquímica, com o objetivo de fomentar a cultura da inovação e do empreendedorismo no campus. A proposta consiste em formar alunos en-

gajados no desenvolvimento de produtos e processos inovadores para a sociedade, com potencial de se tornarem donos dos próprios negócios. Em pouco mais de cinco anos de atuação, o Grite foi responsável pelo depósito de mais de 30 patentes, além de seis registros de softwares, e pela criação de 20 startups – ao menos cinco acabaram premiadas em programas de aceleração. A trajetória rendeu moção da Câmara Municipal de Divinópolis, pelo estímulo ao desenvolvimento da cultura da inovação local. Atualmente, o grupo trabalha, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no mapeamento do ecossistema de inovação da Região Centro-Oeste do Estado. A criação de um ecossistema de inovação local começou a ganhar contornos

Startups premiadas

em 2016, quando professores do campus Centro Oeste da UFSJ e da unidade do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) em Divinópolis reuniram-se no “1º Encontro de Inovação Tecnológica”, promovido pelo Grite. As discussões passavam por alternativas para que as pesquisas realizadas nas duas instituições fossem, prioritariamente, de caráter colaborativo, com viés tecnológico e aplicado. Três integrantes do Grite já foram contemplados pelo programa Doutorado Acadêmico para Inovação (DAI), lançado, em 2018, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com o intuito de fortalecer a pesquisa, o empreendedorismo e a inovação nas instituições brasileiras. “Anteriormente, a maioria das teses defendidas era puramente acadêmica. Agora, muitas delas vol-

Ipsum

(1º lugar na etapa local do Empreenda. Em Ação!) Empenhada no desenvolvimento do aparelho multisseletor para doenças e no desenvolvimento das fitas ou pastilhas de nanotubos de carbono. A proposta é desenvolver um kit diagnóstico prático, rápido e sensível, com um aparelho portátil e de fácil manuseio.

Lavigne Diagnósticos

(Melhor ideação – Emprenda.Conexão 2018) Desenvolve testes diagnósticos rápidos, menos invasivos e mais baratos que os convencionais, para doenças negligenciadas. A proposta é economizar em logística laboratorial, para eliminar entraves burocráticos. O público-alvo são consumidores diretos, farmácias e laboratórios, além do Sistema Único de Saúde (SUS).

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tam-se ao desenvolvimento de produtos”, compara Alexsandro Galdino, professor da UFSJ e coordenador do Grite.

Da aula à empresa

As instituições participantes do Empreenda. Em Ação! oferecem disciplinas de graduação e pós-graduação voltadas ao empreendedorismo, nas quais os alunos participam da idealização, do planejamento e da produção de um modelo real de negócio. No campus Centro-Oeste da UFSJ, a grade curricular da graduação passou a contar com conteúdos de administração e marketing, por exemplo. A startup Ipsum, idealizada na disciplina “Biotecnologia Aplicada à Saúde”, foi a primeira colocada no evento local do Empreenda. Em Ação!, em São João del-Rei.

A startup Sôbet, idealizada na disciplina “Práticas em bioquímica analítica”, alcançou o segundo lugar no Prêmio Gerdau de Inovação Universidade-Mercado, entregue durante o Empreenda.Conexão!. As outras duas startups premiadas no evento foram a Lavigne HPV e a Herbio Health Solutions, concebidas na disciplina “Introdução à inovação tecnológica: da ideia ao produto”. “A proposta era que os alunos formassem times para pôr em prática uma ideia inovadora. Eles recebiam toda a capacitação por parte dos professores, com material do Sebrae, para apresentar seus planos de negócios e de viabilidade de mercado”, lembra o coordenador do Grite. As melhores ideias desenvolvidas nas disciplinas participaram de seletiva em Divinópolis, o Grite Demoday, que envolveu 106 alunos de graduação e pós-graduação, distribuídos em 23 equi-

ProbioFull

(Startup destaque do Programa Acelera Mestrado e Doutorado Fiemg LAB/FAPEMIG) Com o uso de lactobacilos isolados e selecionados a partir dos resíduos da fabricação de queijos na região de Divinópolis, produz alimento funcional, com probióticos altamente nutritivos. A ideia é ampliar o escopo de atuação para outros setores, além do alimentício, como farmacêutico, de cerveja artesanal, de cosméticos e nutrição animal.

Herbio Health Solutions

(Melhor spin-off – Empreenda.Conexão 2018) Destinada à criação de fórmulas farmacêuticas de liberação modificada, com o objetivo de aumentar a comodidade do paciente e a adesão aos tratamentos. Desenvolve produto à base de cannabidiol, substância extraída da maconha, que tem demonstrado eficácia no tratamento de doenças como a epilepsia.

pes. As três primeiras colocadas foram para a final, o Empreenda.Conexão, na cidade de Ouro Preto. Os estudantes também têm acesso a palestras de cunho tecnológico e webinars, que já contaram com a participação de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT) e da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Um dos pré-requisitos para a seleção dos palestrantes é que tenham algum produto ou processo patenteado, licenciado ou transferido ao setor produtivo. “O foco é o desenvolvimento de tecnologias que possam melhorar as vidas das pessoas. Este caminho é um dos primordiais a ser seguido pela Universidade, que também se beneficia, pois recebe contrapartida para investir, inclusive, na própria infraestrutura de laboratórios”, analisa Galdino.

Sôbet

(1º lugar no Grite Demoday; 2º lugar no Prêmio Gerdau de Inovação Universidade-Mercado; selecionada para os programas Startup Show e IBM Day) Fabrica sobremesas geladas saudáveis, à base de probióticos e superfrutas (ricas em nutrientes, com propriedades funcionais), sem adição de adição de açúcar, lactose, nem gordura. O público-alvo são pessoas com síndromes metabólicas ou restrições alimentares – inclusive, veganos.

ProbioCau

(Selecionada no Programa InovAtiva Brasil – Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços/Sebrae) Produz suco de cacau probiótico de grande valor nutricional, graças à presença de lactobacilos vivos isolados e selecionados durante a produção de queijos da região. O produto é uma novidade no mercado brasileiro, por não ser de origem láctea, o que favorece consumidores com intolerância à lactose ou alergia às proteínas do leite, por exemplo.

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ESPECIAL

No backstage do saber Alinhado às metas dos pesquisadores, ofício de uma série de profissionais revela-se fundamental à roda vida das teorias e práticas científicas

Mariana Alencar

A ciência, definitivamente, é um trabalho coletivo. Diversos, afinal, são os profissionais a auxiliar os pesquisadores em seus estudos. Para conhecer melhor tal realidade, MINAS FAZ CIÊNCIA visitou laboratórios para desvendar o trabalho de seis técnicos, especializados em processos vitais aos questionamentos e resultados das investigações científicas. Durante a visita, foi possível perceber que a prática científica não se constrói, realmente, por meio do trabalho de uma só pessoa. Em laboratórios de áreas as mais diversas, técnicos, estudantes, faxineiros, professores e pesquisadores unem-se, e dialogam muito, para tornar possível a produção do conhecimento. Confira, nas próximas páginas, tais histórias de união, responsabilidade e saber. 26

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Acervo pessoa

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Partículas invisíveis

Em 1998, uma fábrica de semicondutores situada em Contagem (MG) estava prestes a encerrar as atividades. A empresa, surgida nos anos 1980, contava, desde a fundação, com a participação de um dedicado funcionário, que segurou sozinho os perrengues envolvidos no fechamento da fábrica. Antônio de Pádua de Assis, ou Pádua, como preferem os colegas, ficou responsável por vender os equipamentos da finada companhia. Em tal processo, ele acabaria por conhecer professores do Instituto de Ciências Exatas (ICEx) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Dois anos após o fechamento da fábrica, veio o convite dos pesquisadores: Pádua passaria a atuar como responsável pela “sala limpa” do departamento de Física do ICEx, onde, hoje, aos 66 anos, o profissional – técnico em eletrônica, instrumentação e semicondutores, realiza manutenção, de segunda a sexta-feira, entre 8h e 17h. “Geralmente, chego às 7h, antes do horário formal, pois preciso saber se está tudo funcionando, antes mesmo de os pesquisadores chegarem. A universidade tem problemas, por exemplo, de fornecimento de energia elétrica. Por isso, chego, verifico o funcionamento do ar-condicionado, dou uma geral na sala e me preparo para a chegada de todos”, explica. A sala limpa é um laboratório abarrotado de microscópios e outros equipamentos, que permitem a análise de materiais de dimensões minúsculas. Por isso, o nível de partículas no ambiente deve ser o mínimo possível. Normalmente, o ar contém cerca de 500 milhões de tais partículas, invisíveis a olho nu. No espaço mantido por Pádua, o valor deve ser de 10 mil, mil ou 100 partículas, a depender da classificação da sala. “Tudo que os pesquisadores fazem neste laboratório tem dimensão microscópica, ou seja, o tamanho das ‘sujeiras’ que encontramos no ambiente. Por isso, a sala precisa ser limpa, para que a pesquisa não seja comprometida”, explica o técnico. Para manter o nível de partículas no valor esperado, é preciso manutenção constante. O valor não pode fugir ao esperado. É aí que entra o trabalho de Pádua! Uma de suas funções é trocar os filtros que limpam o ar da sala. Em resumo, há três tipos de filtros: o primeiro deve ser trocado semanalmente; outro, de seis em seis meses;

além de um último conjunto, renovado anualmente. “Este é mais complicado, pois em valor muito alto. Por isso, muito antes do período de troca, tenho que avisar o pessoal a abrir licitação para compra de novos filtros”. Outra maneira de manter a sala com a quantidade ideal de partículas se dá por meio da temperatura. O ambiente não tem janelas e é resfriado por um sistema de ar-condicionado, ligado 24 horas por dia. Segundo Pádua, as temperaturas baixas e estáveis são essenciais ao controle da umidade e da pressão do ar dentro. O controle de temperatura também permite a conservação Antônio de Pádua realiza con trole preciso da temperatura e das dos materiais químicos alocados condições do ar na chamada "sala limpa" no laboratório. “Às vezes, é preciso repetir um experimento anos depois de ele ter sido feito pela primeira vez. As condições de temperatura precisam ser as mesmas nas duas ocasiões, para que os resultados não sejam afetados. Por isso, o ar-condicionado nunca desliga”, afirma. A sala limpa do departamento de Física da UFMG compõe-se de um conjunto de três espaços, divididos pelas classificações do número de partículas: 100; mil; ou 10 mil. Em todas elas, a temperatura é muito baixa; e a luz, alaranjada, pois certos insumos alocados são fotossensíveis. Para entrar ali, é preciso vestimenta especial: macacão, touca, luvas e sapatilhas. Isso tudo para que aquele que vem de fora não contamine o ambiente. A cada vez que Pádua entra na sala, para dar auxílio aos estudantes, precisa vestir uniforme próprio: “Tem dias que entro e saio mais de 50 vezes, e, a toda hora, preciso mudar a roupa. É cansativo, mas extremamente necessário”. Há quase 15 anos, Pádua encara seu trabalho como oportunidade de conhecer pessoas e trocar informações com outros especialistas. “Diferentemente de uma empresa, onde precisamos ‘segurar’ informações, aqui, a troca é constante. A pesquisa não é individual, mas coletiva. Sempre ajudo os alunos e pesquisadores, que, quando chegam, não sabem, por vezes, o que fazer, e eu os treino. Vem gente de vários lugares, e até de outras universidades. É por isso que gosto tanto daqui! Há muita liberdade, e a hierarquia tende a existir só no papel”, destaca. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2019

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Morte em prol da vida

A tanatopraxia é uma técnica de conservação de cadáveres, associada a questões estéticas. Por meio de tal prática, a decomposição é paralisada, e a aparência do corpo se modifica, para que permaneça como em vida. O método é comumente usado em funerárias, mas, na Faculdade de Medicina da UFMG, também se aplica à conservação dos corpos doados para estudo. O profissional responsável por essa ação atende pelo nome de José Eustáquio Pereira Barboza, de 34 anos, técnico em Anatomia e Necropsia da Faculdade. No cargo há pouco mais de 5 anos, Barboza prepara os corpos que chegam à universidade e os torna aptos ao uso em sala de aula. Ele explica que, embora utilize bastante a tanatopraxia, as técnicas de embalsamamento, que permitem a conservação do cadáver por longo período de tempo, também são usadas. “No primeiro passo da preparação, drenamos todo o sangue no corpo, que é retirado à medida que inserimos um fluido – normalmente, o formol – no lugar. Para isso, uma bomba simula o coração humano. Por meio dela, é possível injetar pressão similar à arterial. Isso permite que o fluido entre sem que vasos, artérias ou órgãos sejam danificados”, explica. A rotina do técnico revela-se bastante dinâmica. Durante as 40 horas semanais de trabalho, ele prepara e auxilia as aulas práticas, ajuda médicos e pesquisadores no Laboratório de Anatomia para realização de estudos e dá manutenção nos 102 corpos hoje mantidos na Faculdade de Medicina da UFMG, além de prepará-los quando chegam à instituição. “A relação com os alunos é muito boa. Eles se interessam bastante pelo assunto. Em todo início de semestre, sou responsável por apresentar aos calouros o Laboratório. A experiência é ótima. Entretanto, há uma parte curiosa em minha profissão: quando chega um corpo no fim de semana, nos feriados, ou, até mesmo, em minhas férias, tenho que largar tudo e vir à Faculdade, pois o processo deve começar a ser feito nas primeiras horas após o falecimento”, conta. No imaginário coletivo, associa-se a profissão de Barboza a algo macabro, visão potencializada por filmes e séries de terror. No entanto, para o técnico, sua pro-

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fissão ajuda a salvar vidas. Ao adentrarmos o Laboratório de Anatomia da Faculdade, é possível perceber importante frase, em latim, a decorar uma das paredes do local: “Hic mors caudet sucurrere vitae”, que, em tradução, livre significa “Aqui, a morte se alegra a socorrer a vida”. “Lidamos com a morte cientificamente. Entretanto, é preciso muito respeito, e transmitimos isso aos alunos. Lidamos com a matéria, mas ali existiu uma vida que amou, foi respeitada, e optou por doar o próprio corpo à Medicina. Essas pessoas, mesmo após o óbito, contribuem com a formação de médicos, que, no futuro, salvarão novas vidas. É um gesto muito nobre”, destaca o profissional. Os motivos que levaram o técnico a exercer a profissão aparecem ainda em sua infância. Desde muito novo, Barboza sentiu necessidade de desvendar o corpo humano, principalmente, após a morte: aos 10 anos, precisou encarar o falecimento do pai, e, durante o velório, de quem ficou impressionado com a serenidade das feições. Impactado com a imagem, começou a investigar como aquilo era possível. Já adulto, decidiu fazer um curso de tanatopraxia, o que o levou a trabalhar numa funerária. Anos depois, ingressou no curso de Enfermagem, com o intuito de aprimorar os conhecimentos sobre o corpo humano. “A morte é muito difícil de ser abordada. Por isso, muitos profissionais lidam com ela por falta de opção. No meu caso, porém, foi uma escolha. Trabalho nesta área porque quero! Se não tivesse meu ofício, não existiriam condições para que os os alunos estudassem”, defende. Apesar de gostar do que faz, o técnico conta que ainda existe muito preconceito com a profissão. No início de sua carreira, a visão negativa de parte da sociedade impactou na vida de Barboza, mas, com o passar do tempo, e com o hábito de fazer terapia, isso deixou de ser um problema. “Há muita gente que nos encara como doidos. Tenho que escutar comentários horríveis. Já vivi situações de pessoas que não queriam pegar na minha mão, por exemplo. Minha mulher sempre escuta comentários do tipo ‘Como você tem coragem de dormir na mesma cama que ele?’. Isso é chato demais, pois nossa profissão não recebe o valor que tem”, desabafa.


Ao decidir tornar-se doadora, a pessoa recebe uma carteirinha, que certifica a opção. Entretanto, após o falecimento, os parentes de primeiro grau são responsáveis por autorizar a doação. A Faculdade de Medicina da UFMG possui banco com registro de mais de dois mil interessados. Diante de tal informação, pergunto a Barboza se ele próprio é doador: “Não. Mas pretendo. No momento, acho complicado. Como minha família é muito religiosa, o sepultamento, para eles, é a única opção. Espero que essa visão mude um dia”, comenta.

Resistência ao tempo

Um conjunto de três salas interligadas formam o Laboratório de Cristalografia do ICEx, na UFMG. Antes conhecido como “Laboratório de Raios X”, o local deixou de ser apenas um suporte para estudantes da Universidade, e, hoje, também atende a empresas privadas, que o procuram para análises cristalográficas de materiais diversos. O responsável pelo local é Alexandre Moreira, de 58 anos, que, desde 1980, ocupa o cargo de técnico em Radiologia. Na adolescência, ele frequentou um colé-

gio técnico, e se especializou em instrumentação. Devido à necessidade de profissional apto a operar os equipamentos de raio X do ICEx, Moreira assumiu o cargo que ocupa até hoje. Sua função é operar os difratômetros de raios X no local, atividade dividida com outra técnica, Carla Pereira. “Quase diariamente, recebemos demandas de usuários que solicitam a realização de medidas de difração de raios X de materiais diversos. As amostras nos são entregues nas mais variadas formas: aço, placas, pastilhas, pó etc.”, explica Moreira, ao explicar que há duas demandas principais: a primeira se relaciona apenas à medição, e, geralmente, vem dos pesquisadores; a outra é a análise dos dados obtidos por meio da medição. “Além de operar o equipamento, preciso fazer interpretação da medida. Isso é mais comum no caso de empresas”, explica. Para dar conta das solicitações, Moreira se qualificou por meio de um mestrado em Cristalografia, realizado no início da década de 1990, na Universidade de Londres. “A curiosidade é que não existe curso equivalente no Brasil. Portanto, por aqui, sou

Acervo pessoal

mestre em Ciências na área de Física”, conta. Ao longo dos quase 40 anos em que está na UFMG, o técnico também aproveitou para se graduar em outros cursos, bem diferentes da sua área de atuação: História e Direito. “A História é uma paixão desde os tempos de colégio. Já o Direito veio de decisão mais pragmática: queria prestar concurso público na área, mas, com o tempo, vi que não tinha muito talento para isso”, brinca. O tempo de estadia de Moreira na UFMG quase remonta ao momento em que o difratômetro mais antigo da Universidade chegou ao Laboratório. Ambos estão ali há, praticamente, quatro décadas, período de muitas transformações. “O nome e o uso do Laboratório mudaram. Antes, era só um suporte. Agora, atendemos muita gente. Graças a esforços de pesquisadores dedicados, ele se tornou o que é hoje. Contamos, até mesmo, com grupo de estudos em Cristalografia, algo impensável quando cheguei aqui. Também o difratômetro se modificou, pois foi atualizado pelos pesquisadores. Ele já resistiu a alagamentos e acidentes”, relembra. Mesmo que o tempo de permanência no local seja longo, Alexandre Moreira fala com empolgação de seu trabalho, e diz não se sentir cansado. Assim como o antigo difratômentro, ele resiste ao tempo e às mudanças. A cada demanda, novos aprendizados; a cada ano, outras tantas histórias. Tristeza com o ofício? Em 40 anos de prática, jamais. “O ato de acordar e vir para cá sempre foi, se não um prazer, no mínimo, algo leve. Nunca reclamei de ter que vir ao laboratório. Quando você fica mais antigo no local, as pessoas te respeitam mais. Vejo que isso acontece comigo”, completa.

Força feminina

s os lográficas de materiai move análises crista Alexandre Moreira pro mais diversos

Quase 240 km separam o Laboratório de Cristalografia da Central de Análise e Prospecção Química da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Ambos são multiusuários – ou seja, atendem demandas de públicos diversos, dentro e fora da comunidade acadêmica, e são compostos por equipamentos caros, que requerem um técnico especializado para manuseá-los. Assim como Alexandre Moreira, Lidiany Zacaroni, técnica responsável pelo Centro de Análise, tem grande satisfação com seu trabalho na Universidade.

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Acervo pessoal

aparecem coisas e pessoas novas. Não há rotina exata. Por isso, gosto muito do que faço. Tenho permanente contato com áreas diferentes, o que me obriga a estudar e a pesquisar”, garante.

Símbolo de Ouroboros

de vida animal ou a composição de uma célula – em imagens. O primeiro contato das crianças com o trabalho de tais ilustradores se dá nos livros didáticos, ainda na escola. Já nas publicações acadêmicas, em teses, dissertações e livros, o trabalho busca exemplificar, visualmente, o que é abordado em texto. Era esse o trabalho de Marco Anacleto em sua estadia na Escola de Veterinária. Após graduar-se, o desenhista passou a atuar, profissionalmente, na Escola de Belas Artes. Terminou o mestrado e se tornou responsável pelo Laboratório de Fotografia, Teatro e Cinema, sua “casa” por 25 anos subsequentes. Ali, também passou a pesquisar a computação gráfica, de modo a auxiliar no desenvolvimento de técnicas de animação. Porém, assim como a figura mística de Ourobouros, em que a cobra morde o próprio rabo – de maneira a indicar a ideia de destruição e renovação –, o profissional abandonou a Escola de Belas Artes e voltou a fazer aquilo que lhe deu espaço dentro da Universidade: ilustração científica. “Depois de 25 anos na Belas Artes, senti necessidade de mudar. Estava com

Quando Marco Anacleto chegou à UFMG, o Brasil ainda vivia sob ditadura militar, a ovelha Dolly estava Lidiany Zacaroni realiza cinco diferentes técnicas de análise longe de existir e a internet era bem química diferente da que atualmente conhecemos. Em 31 de outubro de 1978, ele começou a trabalhar na Universidade, como desenhista projetista, cargo que ocupa até hoje. À época, era responZacaroni chegou à Ufla em 2009, sável por fazer ilustrações científicas para mas apenas em 2013 é que passou a pesquisadores da Escola de Veterinária. ocupar o cargo de técnica de laboratório. Seu tempo se dividia entre os desenhos de Formada em Química, ela é responsável animais e as aulas do curso de Belas Artes, por atender demandas de pesquisadores, na mesma instituição de ensino. alunos e empresas que buscam o setor A ilustração científica pode ser depara realização de diferentes análises finida como “a comunicação visual da químicas. Ao todo, a profissional trabalha com cinco técnicas diferentes. ciência”, por transformar descrições e “Realizamos, principalmente, a crodescobertas – uma galáxia distante, o ciclo matografia líquida e gasosa. Em relação a esta última, há aquela com detecção de Acervo pessoal ionização química e a espectometria de massas. fazemos, também, análises térmicas. Apesar de parecerem específicas da área, atendemos a pessoas de Zotecnia, Agronomia, Farmácia, Veterinária e muitas outras”, explica a profissional, ao destacar que faz as análises e, em seguida, realiza o tratamento dos dados. “Como há muita demanda, preciso me organizar. Desde o ano passado, também ofertamos cursos aos alunos, para que possam aprender a usar o Laboratório. Além disso, damos suporte aos pesquisadores”, conta. Lidiany Zacaroni admite que um dos problemas de trabalhar no Laboratório relaciona-se à questão de verbas destinadas à Universidade. Em sua visão, o problema pode impactar a entrega de demandas, e, consequentemente, prejudicar a pesquisa de vários cientistas. “Já aconteceu de um equipamento quebrar e não ter verba para consertá-lo, mas Marco Anacleto ilustra novas espécies de plantas e animais descobertos sempre tento dar um jeito”, relembra. por pesquisadores Apesar dos problemas, ela se diz muito feliz com o trabalho. Além disso, a afinidade com a atividade faz com que sempre busque aprimorar conhecimentos. “É um trabalho muito dinâmico, e sempre

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Acervo pe

ssoal

saudade da ilustração científica. Estou há quase seis anos no Instituto de Ciências Biológicas (ICB), onde, já no primeiro dia, senti-me muito em casa. É curioso, pois tenho mania de falar, inconscientemente, que voltei ao ICB, mas jamais tinha trabalhado aqui. Meu trabalho se assemelha ao que fazia na Escola de Veterinária. Então, tendo a fazer tal associação”, relembra. Em sala decorada por quadros com desenhos de animais de variadas espécies, além de trabalhos inacabados, o Laboratório de Ilustração Científica do ICB também é preenchido por mesas largas (próprias para desenho), computadores, e muitos lápis de cor, canetas coloridas, pincéis e outros materiais artísticos. Em tal ambiente, Marco Anacleto passa oito horas diárias, marcadas pelo atendimento a variadas demandas de estudantes, professores e pesquisadores da instituição. “Geralmente, um pesquisador me procura para fazer ilustração, pois descobriu, por exemplo, nova espécie. Ele me traz o bichinho e a descrição textual, que deve acompanhar o produto final. Na maioria das vezes, preciso fazer o desenho de uma estrutura daquele exemplar, e, por isso, participo, indiretamente, da pesquisa. Afinal, preciso aprender e discutir as especificidades da espécie junto ao pesquisador”, analisa. Para Anacleto, o mais complicado, em sua rotina, é lidar com prazos. A excessiva organização permite-lhe entregar as ilustrações no tempo certo. “Nem sempre é só fazer o desenho. Preciso entender o que acontece. Há casos em que o assunto é totalmente novo para mim. Tenho, então, que pesquisar muito sobre o assunto, para não fazer nada errado”, conta. Outra atividade desenvolvida pelo desenhista projetista, segundo ele, diz respeito à realização de experimentos. Curioso e empolgado com a profissão, Anacleto busca misturar diferentes técnicas de desenho e testar aquelas que dão certo para cada demanda. Segundo ele, é comum que os ilustradores optem por apenas uma técnica, como lápis de cor, aquarela ou nanquim. “Comigo, é ao contrário: quanto mais técnicas são misturadas, melhor o resultado. Aqui, crio espécies híbridas de desenhos”, diverte-se.

Encontrar a similaridade entre arte e ciência é um desafio para Anacleto. Até então, porém, tudo tem dado muito certo. Desde sua mudança de “casa”, o ICB tem se transformado numa galeria de arte aberta. Basta rápido passeio pelos corredores do prédio para que nos deparemos com inúmeras imagens de espécies animais e vegetais. A exposição dos desenhos impulsionando outros movimentos artísticos. “O prédio perde frieza e ganha cor. Leandro Até o comportamento das pesSimões e stá semp n o delicad re atento soas tem mudado. Hoje, eno Labora aos mínim tório de C os detalh contramos, por aqui, cientistas riogenia es, e estudantes que desenham, dançam, cantam, atuam... Tudo isso, com a intenção de entreter a comunidade científica, e, ao mesmo tempo, ciso atenção, pois, quando há problemas, de promovem o conhecimenos tanques só podem ser consertados no to”, celebra o artista, aos 65 anos. exterior. Isso é um desafio para a Universi-

Acidentes acontecem

O Laboratório de Criogenia do departamento de Física da UFMG conta com enormes tanques lotados de nitrogênio e hélio. Trata-se de lugar frio, espaçoso, barulhento. Ali, a impressão é de que, a qualquer momento, algo de muito errado pode acontecer, como vazamentos perigosos. Tal impressão também é compartilhada por Leandro Simões, responsável pelo local. Ele conta que, quando ingressou na Universidade, para ocupar o atual cargo, não seria capaz de exercer as funções exigidas pelo setor: “É muita responsabilidade!”. Entretanto, ao longo dos três anos que ocupa a função de técnico de laboratório, Simões desenvolveu rotina que torna seu trabalho menos assustador. “Sou responsável pela manutenção. A primeira coisa que faço, ao chegar, é me certificar de que tudo funciona da forma correta. É pre-

Todos os trabalhos de Anacleto estão reunidos em seu blog pessoal: http://marcoanacleto-scientificillustrator.blogspot.com.

dade”, esclarece. O Laboratório de Criogenia é responsável por fornecer nitrogênio, líquido e gasoso, e gás hélio a todo o Departamento. Os pesquisadores usam os produtos químicos em seus estudos, e, para que os resultados obtidos estejam corretos, é preciso garantir a pureza dos elementos. Eis o outro trabalho a cargo de Simões. “Tenho que manter pura a parte de nitrogênio gasoso. Se a pureza se altera um pouco, os professores reclamam. Já o hélio deve estar totalmente limpo. Também preciso cuidar da água pressurizada, usada nas pesquisas. Certifico-me de que ela esteja sempre a 18°C”, explica. Para que o nitrogênio permaneça em estado líquido, deve ser mantido em temperaturas menores que - 196º C . Já o hélio, no Laboratório, fica temperatura menor do que - 296º C . São níveis muito baixos – e, no caso do hélio, podem, até mesmo, causar queimaduras de terceiro grau. Isso, inclusive, já aconteceu com Simões. “Fui medir o volume de hélio no tanque. Durante o procedimento, uma borracha, acoplada ao material que uso, se soltou e fez com que parte do gás se encostasse em mim. Estava de luva e, ainda assim, abriu queimei a pele. Foi horrível! Desde então, meu cuidado é redobrado”, assegura.

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TECNOLOGIA

Labirintos do coração Estudo inovador em modelagem computacional identifica mecanismo previsto desde a década de 1970 e contribui para compreensão do infarto do miocárdio Verônica Soares

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A modelagem computacional aplicada à Biomedicina trabalha com o uso de técnicas e modelos matemáticos para a solução de problemas ainda sem explicação baseada em pesquisas clínicas e laboratoriais. Criam-se sistemas computacionais para a reprodução eficiente de fenômenos de interesse.

Dados de 2016, do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), indicam que, mundialmente, 30% das mortes decorrem de doenças cardiovasculares. O hábito de fumar, a hipertensão, a diabetes e o colesterol alto estão entre os fatores que levam à obstrução dos vasos sanguíneos, de modo a provocar a necrose, popularmente conhecida como infarto.

Quando as artérias coronárias estão obstruídas, o coração é afetado pela falta de oxigenação, de modo a caracterizar um infarto do miocárdio – o “ataque cardíaco”. Por que, entretanto, uma simples obstrução, em cerca de 1% das diversas artérias a nutrem o órgão vital, pode resultar em fatalidade? Eis um dos grandes mistérios a intrigar, há cerca de meio século, os especialistas da Medicina. A luz para a resolução deste enigma veio da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em estudo desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Ciências Exatas (DCC/ICE). Por meio da análise de ressonância magnética de pacientes e do uso de modelagem computacional, para simular as áreas deterioradas pela obstrução da coronária, o grupo deu um grande passo rumo à validação de uma teoria proposta há 50 anos. Com a referida modelagem do coração de um paciente que sofreu infarto, os pesquisadores conseguiram simular o que acontece nas áreas afetadas pelo infarto, depois do ocorrido. Rodrigo Weber dos Santos, professor do Departamento de Ciência da Computação e do programa de mestrado e doutorado em modelagem computacional da UFJF, revela que a pesquisa foi um grande passo para resolver o mistério ao redor de uma das doenças que mais matam no mundo. “Na ressonância magnética, conseguimos ver onde está o infarto, com representações no computador. Com o uso de modelos matemáticos para simular o funcionamento do pulso elétrico, mostramos o aparecimento de arritmias fatais que tiveram como origem a região do infarto. Foi o primeiro artigo do mundo a revelar tal processo, ao menos, em simulações detalhadas de corações humanos”, explica o pesquisador, cuja primeira experiência profissional, como recém-graduado, foi em um dos mais importantes centros de pesquisa do mundo, o CERN, acrônimo para o Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire, sediado na Suíça, que abriga o famoso superacelerador de partículas.

O pulso elétrico age como o regente de uma orquestra: se algo errado acontece com ele, o ritmo de todos os músicos se perde, e faz com que a música pare. Na década de 1970, pesquisas experimentais, realizadas em animais, sugeriram que a região infartada poderia funcionar como fonte de arritmias fatais. Mas, com a impossibilidade de fazer testes precisos em pacientes, a teoria jamais havia sido provada. Agora, há fortes evidências que apoiam essa teoria.

Em 2019, Rodrigo foi premiado com o Endeavour Research Leadership Awards Australiano, que reconhece líderes internacionais em pesquisa. Somente quinze cientistas internacionais foram agraciados, sendo ele o único da América Latina.

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Labirinto elétrico

Quando uma pessoa sofre infarto, o tecido afetado pela artéria coronária torna-se altamente heterogêneo, com a presença de células mortas e vivas. Tal condição cria um verdadeiro labirinto, onde o pulso elétrico – que dita o ritmo do batimento cardíaco – se perde e fica preso, de maneira a causar arritmia cardíaca. Naquele ambiente, o pulso elétrico começa a reestimular a mesma área do músculo cardíaco, de forma desgovernada. Em vez de bater em ritmo normal, o coração começa a “tremer”, e, sem o trabalho de irrigação do sangue ao corpo, função do órgão vital, o paciente morre. Com base no sistema real do coração, explicitado em ressonâncias magnéticas de pessoas que sofreram infarto, o grupo criou um modelo computacional da área afetada. Em seguida, realizaram simulações e compararam os resultados com as teorias existentes sobre a arritmia cardíaca após infarto. “Foi um grande passo, por meio do qual verificamos que uma das teorias, proposta há meio século, consegue explicar o problema. Não posso dizer que resolvemos todo o mistério, pois a modelagem é sempre outra hipótese. Precisamos de mais experimentos. Porém, nossas novas simulações com dados de pacientes representam um grande avanço”, pondera Weber. A partir dessa pesquisa, fica cada vez mais claro o mecanismo que leva o paciente de infarto ao óbito, em função de arritmia cardíaca. “Quanto mais informações obtemos sobre o mecanismo envolvido, mais investimentos podem ser feitos para resolver o problema da morte súbita por arritmia. Ao compreendê-lo melhor, desenvolveremos novas drogas e terapias para tentar solucionar a questão e diminuir o índice de mortes”, afirma. Além disso, o mecanismo de modelagem computacional do coração poderá ser usado, por médicos, para diagnóstico

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de áreas do músculo cardíaco que possam vir a causar arritmia. “Esperamos que, em futuro próximo, os médicos possam combinar a ressonância à modelagem computacional como propusemos em nosso artigo. Assim, poderemos calcular a probabilidade de uma região analisada gerar arritmias fatais. Com o tempo, esperamos que essa nova metodologia possa virar uma técnica clínica não-invasiva, que assista o médico no seu dia a dia”, comenta.

Colaborações internacionais

Para chegar ao resultado inédito, publicado nos Scientific Reports da editora Nature, um dos periódicos mais renomados do mundo, parte da pesquisa foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por meio do edital Pesquisador Visitante Especial (PVE), que permitiu a vinda do pesquisador Sergio Alonso, da Universitat Politècnica de Catalunya de Barcelona, à UFJF. Ele contribuiu com projetos relacionados a modelagem computacional. O projeto também contou com ajuda financeira do CNPq, da própria UFJF e da FAPEMIG. Além disso, Rafael Sachetto, professor da Universidade de São João del-Rei, ex-aluno da UFJF, usou a temática estudada na pesquisa em seu pós-dou-

O artigo pode ser acessado no seguinte endereço: www.nature.com/ articles/s41598-018-34304-y.

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torado. O artigo conta com a colaboração de Bernardo Martins Rocha, também professor do Departamento de Ciência da Computação e do programa de mestrado e doutorado em modelagem computacional da UFJF; e dos pesquisadores Fernando Otaviano Campos, João Filipe Fernandes e Titus Kuehne. “Ao longo dos anos, publicamos vários artigos, mas este foi a cereja do bolo, o último do projeto”, esclarece Rodrigo Weber, para quem o trabalho de pesquisa se dá como numa produção cinematográfica: muitas mãos e cabeças, com apoio de diferentes pessoas: “É importante dar créditos à equipe, como fazem ao final dos filmes”, comenta, ao lembrar que, durante seu doutorado, chegou a receber uma caixa com mais de 100 artigos pelo correio, enviada por um pesquisador parceiro no exterior. “Não há ciência sem colaboração”, completa.

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG PROJETO: Modelos Computacionais Multi-Escala e Multi-Físicos para o Estudo de Patologias Cardíacas COORDENADOR: Rodrigo Weber Dos Santos INSTITUIÇÃO: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) CHAMADA: Universal VALOR: R$ 40.168,38


FILOSOFIA

Pesquisa revela reflexões de grandes filósofos, da Antiguidade ao século XX, sobre a Moda Alessandra Ribeiro

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Não é possível começar esta reportagem sem registrar uma coincidência: Tarcísio D’Almeida, autor da tese de doutorado “As roupas e o tempo: uma Filosofia da Moda”, respondeu ao pedido de entrevista, por e-mail, no dia de 19 de fevereiro de 2019 – mesma data da morte de Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel. Era quase uma obrigação perguntar ao pesquisador, já no início da conversa, sobre a contribuição do estilista para a maneira como pensamos a Moda contemporânea. “Lagerfeld encerra o capítulo no qual a criatividade sofre cada vez mais com a crise do paradigma criativo”, respondeu. Professor do curso de Design de Moda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), D'Almeida iniciou, há quase uma década, a graduação em Letras, na Universidade Federal de Pernambuco – e o sotaque não deixa dúvidas. Em 1994, ingressou no curso de Linguística da Universidade de São Paulo (USP). Lá, deu continuidade à trajetória acadêmica. Em 2005, concluiu mestrado em Ciências da Comunicação, com pesquisa sobre Jornalismo de Moda. Desde 1998, é colaborador com artigos de crítica da área nos jornais Folha de S. Paulo, O Tempo e Valor Econômico. É, ainda, autor do livro Moda em diálogos: entrevistas com pensadores (Memória Visual, 2012) – no qual o filósofo francês Gilles Lipovetsky aparece como um dos entrevistados. A tese de doutorado também foi defendida na USP, em 2018, no departamento de Filosofia, onde, pela primeira vez, a Moda se tornou objeto de reflexão. “Fui muito bem acolhido pelas professoras Marilena Chaui e Olgária Matos [orientadora], as quais me receberam com a verdadeira essência dos filósofos: a arte do pensar sobre todo e qualquer tema”, revela D’Almeida. Curiosamente, a defesa da primeira tese sobre Moda, numa universidade brasileira, também ocorreu na instituição paulista: “A Moda no século dezenove”,

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Vogue/ Reprodução

de Gilda de Mello e Souza, apresentada no departamento de Sociologia, em 1950.

Estudos filosóficos

A proposta de D’Almeida, por ele denominada “história filosófica da Moda”, baseia-se nos principais autores e obras da Filosofia, desde os primeiros registros produzidos na Antiguidade grega, por filósofos como Platão e Aristóteles, sobre o ritual das vestimentas. Em seguida, aborda reflexões de Tomás de Aquino, Montaigne e Montesquieu sobre o luxo e as Leis Suntuárias, destinadas a limitar os excessos e a regular os sinais exteriores do prestígio nas cortes medievais e renascentistas. O ato de se vestir passaria a produzir reflexos no gosto, na aparência, na hierarquia e no âmbito social. Mais tarde, nos primórdios do capitalismo, são analisadas as ideias dos oitocentistas Voltaire e Jean Jacques Rousseau, além de pensadores do século 19, como Hegel e Kant. Ao último, aliás, atribui-se a autoria da seguinte máxima: “É sempre melhor... ser um tolo na Moda que um tolo fora de moda”. A transição para o século XX tem como expoentes os filósofos Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud. Se, até então, o pensamento acerca da Moda tinha como pano de fundo a alta costura, a modernidade industrial é marcada pelo processo de democratização, com novas modalidades de criação, produção e consumo, propostas pelo prêt-à-porter (pronto para vestir). Por fim, a discussão alcança obras mais recentes, a exemplo do legado de Walter Benjamin e Theodor Adorno. A abordagem proposta difere das cronologias históricas, que, segundo o autor, consideram o período do Renascimento como marco da Moda. Na perspectiva da História, a evolução das indumentárias se deu, a princípio, com o objetivo da proteção (quando o homem matava animais para retirar sua pele e se proteger do frio); depois, esteve relacionada ao pudor (com forte influência do clero, na era cristã medieval); finalmente, a roupa ganhou status de ornamento (mais do que simplesmente vestir, assumiu a função de exibição, de forma paramentada).

Vestir-se é, também, produzir reflexos no gosto, na aparência e nas práticas sociais

O pesquisador observou, ao longo dos séculos, como as produções filosóficas dos pensadores refletiram impactos estéticos, sociais, culturais e econômicos das roupas. O conceito de Moda teria surgido no século XVI, com Michel de Montaigne, e, no XVII, com o escritor Jean de la Bruyère. “Juntamente a outros pensadores e literatos, eles observaram as potências estéticas das indumentárias e da Moda”, diz. A compreensão inicial acerca do fenômeno é fundada na compreensão do vestuário e de sua importância para os indivíduos nos ritos sociais. Com a evolução dos estudos sobre o tema, sobretudo no século XX, tal entendimento se estendeu e adquiriu novos sentidos e destinações. “A Moda passa a ser compreendida como sistema, com o surgimento e o fortalecimento da tríade ‘criação-produção-consumo’ da alta costura”, descreve. A pesquisa enfatiza a dimensão temporal. “O tempo e a Moda – que é índice do tempo, da era, de cada sociedade em MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2019

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sua evolução durante os séculos – sempre estabeleceram, entre si, relações de coexistência”, afirma o autor. Que o diga uma das frases inscritas na epígrafe da tese, atribuída a Walter Benjamin: “Para o filósofo, o aspecto mais interessante da Moda é sua extraordinária capacidade de antecipação”. Inspirado na perspectiva do intelectual alemão e da Escola de Frankfurt, D’Almeida convida à reflexão sobre a origem da noção de gosto e suas metamorfoses na Moda, “sob os auspícios do mercado e do capital que tudo transformam em produtos descartáveis”. O que se pretende é ajudar a compreender o “mal-estar contemporâneo” dos fenômenos da imitação de comportamentos sociais segundo “modelos”.

Cultura Na atualidade, afirma o professor, a Moda não é mais compreendida, exclusivamente, a partir do vestuário. Ela está presente, até mesmo, nas indústrias automobilística e de smartphones, por exemplo. Pensá-la tornou-se essencial para a reflexão acerca de características morais, sociais e afetivas, que constituem e definem o comportamento de uma cultura. O pesquisador lembra que, no Brasil, na gestão do ministro Gilberto Gil, nos anos 2000, a Moda passou a ser reconhecida como patrimônio cultural. D’Almeida coordena dois projetos, vinculados à FAPEMIG, sobre a Moda nos estados de São Paulo e de Minas Gerais. O primeiro pretende investigar as origens históricas e culturais da tradição de empresas têxteis na metrópole paulista, com o objetivo de traçar reflexão em torno da emergência da cidade e de sua expansão no decorrer do século 20. A segunda iniciativa busca compreender o jeito mineiro de fazer Moda. A ideia é realizar mapeamento histórico da rede de produção industrial e tecnológica das indústrias têxteis no Estado. Em seguida, pretende-se analisar a linha evolutiva dos criadores que produzem valores simbólicos e culturais.

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ALIMENTAÇÃO

Dietas ricas em proteína favorecem envelhecimento e aparecimento de doenças Verônica Soares

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Viviane Alves também é coordenadora do projeto de divulgação científica CeTOXY, que você pode acompanhar pela página www.facebook.com/cetoxylbcm.

Churrasco, feijoada e queijo minas estão entre as delícias da cozinha brasileira. Mas, se consumidos com frequência e em excesso, compondo dietas ricas em proteínas, podem fazer mal a sua saúde. Isso ocorre porque o excesso de proteínas gera um efeito perverso no organismo: quanto maior o consumo, mais as células quebram as moléculas, aumentando a quantidade de aminoácidos de maneira muito rápida; essa alta velocidade leva ao aumento de “erros” no sistema. Tais erros contribuem para que as células funcionem mal, de modo a favorecer o envelhecimento precoce, o aparecimento de doenças neurodegenerativas e alguns tipos de câncer. Eis a conclusão de estudo colaborativo internacional, que contou com a participação da professora Viviane Alves, chefe do Laboratório de Biologia Celular de Microrganismos, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG). Além de Viviane, participaram da pesquisa cientistas da Austrália e da Inglaterra, países onde o consumo de proteínas, como carnes, ovos, leite e derivados, é bastante alto. Trata-se do primeiro estudo a demonstrar ligação direta entre o consumo de proteínas e o envelhecimento, com contri-

Segundo levantamento conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2017, o Brasil estava em 3º lugar no ranking de países que mais consomem carne bovina no mundo. A média de consumo do alimento, pelos brasileiros, é de 25,9 kg/per capita ao ano. Em primeiro lugar na lista, está a Argentina, seguida por Paraguai, Brasil, Estados Unidos e Austrália.

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Líder do estudo, com atualção no instituto Sahmri da Universidade de Adelaide, na Austrália, Chris Proud deu entrevista ao site The Advertiser / Adelaide Now, na qual comparou o efeito identificado pela pesquisa ao do excesso de velocidade em um veículo: “Quanto mais rápido você for, maior a probabilidade de cometer um erro”, disse.

buições para diferentes áreas de pesquisa, como aquelas voltadas a nutrição e a investigações sobre produtos naturais que podem regular o metabolismo e aumentar a longevidade. A pesquisa teve artigo publicado no periódico de alto impacto Current Biology e repercussão midiática internacional.

Envelhecimento saudável

“Há muitos anos, centenas de pesquisadores estudam a relação entre alimentação e saúde. Sabe-se que, quanto menor a ingestão de calorias, a chamada ‘restrição calórica’, maior a longevidade. Ou seja, envelhecemos mais lentamente e de forma saudável”, explica a professora, ao lembrar que carboidratos e proteínas são os mais estudados no contexto do envelhecimento: “A ingestão destes nutrientes, sem controle, pode alterar nossas células de várias formas. Já havia muitos indícios, na literatura, de que a ingestão excessiva de proteínas di-


minui o tempo de vida dos seres humanos. Nosso estudo permitiu entender melhor como e por que isso acontece”. O trabalho recorreu a três modelos experimentais: “No Brasil, trabalhei com o verme Caenorhabditis elegans, que, há décadas, tem substituído animais na pesquisa”, esclarece a professora. Na Austrália, os experimentos foram feitos com células humanas, e, na Inglaterra, com a drosófila, popularmente conhecida como mosquinha da fruta. Nos três modelos, em níveis celular e molecular, os pesquisadores demonstraram que a ingestão de proteínas em excesso faz com que as células precisem metabolizar mais rapidamente estas moléculas, e a rapidez resulta em envelhecimento. “Normalmente, esses aminoácidos são usados pelo organismo para as funções vitais. Porém, quanto mais proteína ingerimos, maior a velocidade necessária para as células produzirem os aminoácidos. E, quanto mais rápido o processo, maior a chance de o organismo gerar proteínas defeituosas, que levam ao mal funcionamento das células e a consequente diminuição de sua sobrevida”, explica Viviane Alves. Segundo a professora, ainda pode levar um bom tempo até que os estudos sejam conduzidos em seres humanos, mas os resultados com os modelos de laboratório já permitem inferir consequências para a saúde humana. Cientistas interessados ​​nas ligações entre nutrição, saúde e expectativa de vida têm agora outro importante modelo para dar sequência a pesquisas que busquem compreender as relações entre as proteínas que consumimos e o envelhecimento saudável. “Tanto o verme Caenorhabditis elegans quanto a drosófila, apesar de grandes diferenças, quando comparados aos seres humanos, têm vias metabólicas parecidas com as nossas. Os achados nestes modelos também foram observados em células humanas cultivadas. Futuramente, poderemos estudar como esse processo se dá em mamíferos e seres humanos que consomem muita proteína, como os praticantes de atividades físicas intensas”, comenta a professora. A professora celebra a publicação do artigo sobre a pesquisa, como resultado de trabalho de cinco anos, “com muitas mãos e cabeças envolvidas”: “Chegamos

Sabia mais sobre as pesquisas da professora com o verme Caenorhabditis elegans e ouça o podcast Ondas da Ciência sobre o tema: https://wp.me/p8fW2s-3Tf. a um dado inédito sobre a ligação entre o consumo de proteína, o aparecimento de erros metabólicos e o envelhecimento. Manteremos a colaboração para elucidar outros aspectos. O professor Chris Proud, por exemplo, estuda como o processo de consumo de proteínas, e o uso dos aminoácidos pelas células resulta em doenças como diabetes e câncer”, detalha.

Outras proteínas

Importante lembrar que o consumo de proteínas não se dá exclusivamente pela ingestão de carnes, ovos e peixes. Proteínas também são encontradas em ampla variedade de leguminosas, como grão de bico e lentilhas, além de frutas secas, como nozes, sementes e vegetais. De acordo com a professora Viviane Alves, não importa a fonte: qualquer excesso de proteínas, de qualquer origem, pode levar a defeitos na célula, resultando em envelhecimento acelerado e doenças associadas à velhice. “É aquela máxima: tudo em excesso faz mal. O trabalho mostra isso em detalhes moleculares”, conclui. MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2019

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MEDICINA

Pesquisa da Unimontes investiga preceitos éticos no processo de formação em Medicina Mariana Alencar

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É comum, no dia a dia, ouvirmos pessoas queixando-se da falta de empatia, do respeito com o próximo e da educação das pessoas que nos cercam. O problema não é exclusivo do cotidiano de cidadãos comuns, pois também está presente na formação de novos médicos. O sentido de tratamento ao outro tem ganhado novas nuances, à medida que a sociedade se modifica, e, consequentemente, se complexifica. Neste contexto, surge a demanda por formação ética e humanística na graduação em Medicina. Afinal, é por meio dela que se formam os profissionais responsáveis por cuidar da saúde da população. A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos", publicada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), destaca que o Estado deve fomentar a educação e a formação bioética em todos os níveis, além de estimular a difusão de informação e conhecimentos relacionados à Bioética. Como consequência disso, no ano de 2014, o Conselho Nacional de Educação (CNE) promulgou as novas diretrizes curriculares nacionais para o curso de graduação em Medicina, que reforçam a necessidade de “formação geral, humanista, crítica, reflexiva e ética”. Sendo assim, o graduado deve ser capacitado para atuar em diferentes graus de atenção à saúde, com responsabilidade social e compromisso de defender a cidadania, a dignidade humana e a saúde integral do ser humano. As percepções referentes ao tratamento ao próximo, somadas às diretrizes promulgadas pelo CNE, foram as principais motivações para realização do projeto “Ética na formação em Medicina”. Coordenado por Simone Costa, professora do curso de Medicina da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), a pesquisa demonstrou necessidade de reforçar a formação ética na graduação, uma vez que os estudantes vivenciaram situações conflituosas ao longo da graduação O estudo também mostra que a relação entre ensino, Medicina, serviços e comunidade deve ser balizada pelos princípios éticos e morais da classe médica.

Código de Ética

Segundo Simone Costa, o estudo possibilitou a elaboração de um Código de

Ética do Estudante de Medicina (CEEM), para uso na Universidade. “A construção do documento contou com participação de alunos e professores, de forma coletiva. Sua elaboração propiciou reflexões ao grupo, no sentido de orientar a comunidade acadêmica sobre a importância da formação de graduandos cidadãos. O Código foi discutido e apresentado ao colegiado do curso, para fins de implementação”, conta a pesquisadora. Construiu-se o CEEM a partir da identificação de situações eticamente conflituosas, por parte dos estudantes de Medicina. Tais comprovações resultam da coleta de informações realizada por meio de questionário aplicado a 281 estudantes, regularmente matriculados no curso. Durante a realização da pesquisa, também houve entrevistas com 24 alunos, representantes de todos os anos da graduação. O estudo coordenado por Simone Costa rendeu, ainda, uma dissertação de mestrado em cuidado primário em saúde, desenvolvida por Márcia Menezes, além de publicações de artigos e resumos, apresentações em eventos, vídeo de curta duração, para leigos, e orientações de iniciação científica. Em um desses artigos, os pesquisadores defendem que toda a universidade compreenda suas responsabilidades na tarefa de educar os futuros profissionais segundo novo paradigma “do cuidar”. Para que isso ocorra, é preciso afastar, dos docentes, a ideia da perfeição técnica, focada em equipamentos e na cura a qualquer custo, o que leva o médico, por vezes, a esquecer a vida humana envolvida no processo.

O artigo “Elaboração coletiva do código de ética do estudante de Medicina” foi publicado na revista Bioética, em 2017, assinado por Márcia Mendes Menezes, Fernando Ribeiro Amaral, Caroline Urias Rocha, Camila Rodrigues Ribeiro, Luciana Colares Maia, Cristina Andrade Sampaio e Simone de Melo Costa.

A Declaração Universal sobre "Bioética e Direitos Humanos", publicada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), destaca que o Estado deve fomentar a educação e a formação bioética em todos os níveis, além de estimular a difusão de informação e conhecimentos relacionados à Bioética. Ainda que tenha apresentado resultados positivos, o grupo de pesquisadores encontrou dificuldades, principalmente, em relação à definição de estratégias que possam ser adotadas na Unimontes, com vistas a propiciar espaços de discussão e reflexão coletiva dos problemas, ao longo da graduação. “Outro desafio a destacar seria a criação de instrumentos necessários para solução e/ou minimização de situações conflituosas, vivenciadas, pelos estudantes, na busca pela construção do agir profissional eticamente correto, além do CEEM. Como dificuldade, deve-se enfatizar, também, a garantia do ensino de princípios éticos ao longo da formação médica, que requer sensibilização de todos os docentes à atual demanda da sociedade: formação ética do profissional de saúde”, aponta Costa.

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG PROJETO: Ética na formação em Medicina COORDENADOR: Simone de Melo Costa INSTITUIÇÃO: Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) CHAMADA: Universal VALOR: R$ 13.860

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ENGENHARIA CIVIL

Sólidos e sustentáveis Reaproveitamento de resíduos da construção civil em compósitos cimentícios minimiza efeitos nocivos do crescimento urbano à natureza William Araújo

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http://www.worldometers.info

Apesar dos constantes debates sobre impactos ambientais causados pela população planetária, os números continuam a crescer: atualmente, a Terra abriga 7,7 bilhões de habitantes, conforme a plataforma internacional World O Meters, licenciada durante a “Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio + 20)”, ocorrida, em 2012, no Rio de Janeiro. Neste montante, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil colabora com 209 milhões de cidadãos, de modo a ocupar a quinta posição, dentre os mais populosos do mundo. O País, porém, não está na lista dos mais povoados. Isso se dá por conta da extensão terrestre nacional, que reduz a densidade demográfica. Ainda segundo o IBGE, 86,6% dos brasileiros vivem em grandes cidades, próximas, curiosamente, de regiões com áreas verdes. A necessidade do equilíbrio entre crescimento urbano e preservação do meio ambiente é fundamental ao País, e, por isso, estimula uma série de discussões acadêmicas. De acordo com os estudos de Sondagem da Construção, realizados, em 2019, pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), de 2012 a 2016, o Brasil enfrentou franca queda no Índice de Confiança da Construção (ICST), que reflete as perspectivas de negócio no setor da construção civil. Desde junho de 2016, contudo, os indicadores sobem e caminham para médias consideradas, ao mesmo tempo, moderadamente pessimistas e otimistas. Em outras palavras, o setor da construção civil voltou a crescer. Os resultados econômicos da urbanização revelam-se interessantes ao mercado, mas criam riscos para a natureza. A impermeabilização do solo, a destinação dos resíduos sólidos e líquidos, a poluição no ar, no solo e nas águas, além do aumen-

to da temperatura, estão entre os problemas causados e combatidos pelos centros urbanos. No eixo desta balança, aparecem a construção e a Engenharia civis.

Equilíbrio O desenvolvimento de tecnologias capazes de minimizar danos ao meio ambiente, que, ao mesmo tempo, sejam economicamente viáveis à indústria, está entre as diretivas do projeto “Novos materiais de reforço para produção de compósitos cimentícios”, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), financiado pela FAPEMIG. Liderado por Rafael Farinassi Mendes, doutor em ciência e tecnologia da madeira e coordenador adjunto de Engenharia de Materiais da Ufla, o grupo recorre a materiais não convencionais – borracha de pneus, plástico de garrafas PET, bambu, bagaço de cana-de-açúcar, restos de sisal, casca de café, coco e madeira de pinus e eucalipto, provenientes do corte de árvores – para fabricação de produtos a serem usados na construção civil. “Usamos resíduos de outras cadeias, que nos servem de matéria-prima para o desenvolvimento de outros produtos. Trata-se de novos materiais, com novas propriedades”, explica. Em busca de melhoramento para produtos usados na construção civil, pesquisadores adicionam, aos compósitos cimentícios dos blocos, índices de 0%, 2,5%, 5%, 7,5% ou 10% de materiais não convencionais. Em seguida, testam as características físicas, mecânicas e térmicas da mistura. “No que diz respeito à economia, conseguimos melhorias de até 10% Formados a partir da junção de outros materiais, para melhoria de desempenho, servem de matéria-prima para fabricação de produtos usados na construção civil.

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do valor em massa dos materiais. Ou seja: a cada cem blocos fabricados, dez são transformados à mistura não convencional, de modo a diminuir custos de produção”, afirma Mendes. O objetivo da pesquisa perpassa as novas propriedades dadas aos blocos. Como o cimento é aglomerante, e funciona como um dos principais materiais da construção civil, os reflexos do uso dos novos materiais se estende ao meio ambiente. O reaproveitamento de resíduos, que seriam descartados na natureza, diminui impactos nocivos à natureza e estimula uma série de benefícios para a indústria e os cidadãos. Acrescidos de materiais não convencionais, os blocos demonstraram melhorias físicas, como diminuição de peso e minimização das patologias da construção civil (fissuras, trincas, infiltrações, rompimentos etc.). Com respeito à temperatura, houve otimização do isolamento térmico, o que resultou em decréscimo de cinco graus com a mistura que continha entre 7% e 10% de resíduos da borracha de pneus. Na manutenção das propriedades mecânicas, os blocos mantiveram a resistência à compressão (carga). De acordo com Mendes, os polímeros das garrafas PET podem ajudar em vários cenários, ao substituir o amianto, que é nocivo e está proibido, e aumentar a resistência e a durabilidade de produtos como telhas. “Atualmente, são usadas as fibras de polipropileno, que aumenta 40% no custo da telha. Por isso, falamos, novamente, em reaproveitamento de resíduos e em propriedades mecânicas adequadas”, diz o coordenador. A preocupação nacional com a urbanização e a geração de resíduos é antiga. E precisa continuar em pauta. Por isso, o interesse em soluções criativas que au-

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mentem o equilíbrio entre homem e natureza resultou, também, na fundação da Associação Brasileira de Materiais Não Convencionais (ABMTENC), que se dedica ao “estudo e ao desenvolvimento das ciências de materiais e tecnologias não convencionais”. Além disso, a entidade se dedica a divulgar artigos, realizar congressos e “estimular e promover a pesquisa e a difusão de conhecimentos” na área.

http://www.abmtenc.civ.puc-rio.br

PARTICIPAÇÃO DA FAPEMIG PROJETO: Novos materiais de reforço para produção de compósitos cimentícios COORDENADOR: Rafael Farinassi Mendes INSTITUIÇÃO: Universidade Federal de Lavras (Ufla) CHAMADA: Demanda Universal VALOR: R$ 56.953,68


ARTE

Meu acervo, minha vida Colecionadores relacionam-se com objetos de forma afetiva, são legitimadores, agentes da memória, e, acima de tudo, amantes das artes plásticas Luana Cruz

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Seduzido por obras de arte, e pelo privilégio de contemplá-las, o colecionador acaba por reunir dezenas, centenas e milhares de objetos do desejo. Em Belo Horizonte e na região central de Minas Gerais, o movimento do colecionismo cresceu significativamente nos últimos 25 anos. Para que se tenha ideia, quatro importantes museus do Estado – Inimá de Paula (2008) e Artes e Ofícios (2006), na capital; Oratório (1998), em Ouro Preto; e Inhotim (2006), em Brumadinho –, fundados nesse período, só existem graças a doações de coleções privadas. “Existem vários tipos de colecionadores, desde bilionários a pessoas de classe média. Em comum, está a grande paixão pelas artes plásticas, pelos objetos de arte. O colecionador cumpre papel fundamental, pois adquire as obras por gosto pessoal e subsidia a atividade dos artistas”, analisa Adriano Gomide, professor e diretor da Escola Guignard da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg). Gomide mergulhou no universo dos colecionadores durante a tese de doutorado, motivado pela ascensão da prática e pelo envolvimento pessoal com o tema. Para tal, pesquisou o papel dos colecionadores de arte moderna e contemporânea no sistema brasileiro, e, principalmente, mineiro. O trabalho, já citado como primeiro estudo sistemático sobre colecionismo no Brasil, destrinchou acervos de cunho privado, reunidos por indivíduos sem qualquer relação ou envolvimento oficial com os órgãos públicos, e cuja aquisição de obras de arte baseou-se em interesses pessoais.

Durante entrevista para Minas Faz Ciência, um especialista em obras de arte visitou a casa de Priscila Freire para medir e fotografar um desenho de Tarsila do Amaral, feito em 1924, quando paulistas vieram conhecer Minas Gerais. A pintora esboçou uma fazenda em São João del-Rei, que se tornou, ao mesmo tempo, obra de arte e documento daquela viagem dos modernistas.

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Universo de colecionadora Dona de mais de mil obras de arte, a mineira Priscila Freire relata o prazer de construir seu entorno com peças carinhosamente garimpadas “Não sou eu quem chama o objeto; é ele que me encontra. O objeto me seduz. Quando vejo alguma coisa e me apaixono, tomo muito cuidado, pois não é possível encher a vida com milhões de coisas, porque aquilo vira um ajuntamento sem sentido. Contudo, se o objeto me seduz, eu compro”, garante a colecionadora Priscila Freire, de 85 anos, que vive em Belo Horizonte e reúne mais de mil peças, dentre quadros, objetos, desenhos e artesanatos populares. Ela foi superintendente dos museus de Minas Gerais, coordenadora do Sistema Nacional de Museus e diretora do Museu de Arte da Pampulha. Escreveu livros infantis, trabalhou na extinta TV Itacolomi e chegou a atuar como atriz. Ao longo de seu caminho pela cultura, montou a vasta coleção que hoje compõe a chácara onde mora. Priscila Freire foi entrevistada pelo professor Adriano Gomide, após o encerramento do corpus da tese, mas é homenageada em um post-scriptum, por ter oficializado doação, à Uemg, de sua coleção de artes e objetos, de todo o acervo documental de sua biblioteca, além da propriedade onde mora – que inclui uma reserva particular ecológica com 49.147,18 m2. A entrevista concedida por ela, ainda inédita, está em fase de edição, junto ao processo de institucionalização de todo o material doado. A casa continua de usufruto da colecionadora, e ainda não está aberta ao público. A colecionadora destaca o prazer em olhar o objeto de arte em casa, especialmente, se é de um artista que gosta muito. “Coleciono desde criança. Não podia ter um quadro de Renoir, mas recortava, numa revista, a reprodução de um quadro dele. Guardava sem nem saber quem era o artista, mas ficava muito sensibilizada com a arte”, lembra. Priscila Freire gosta e coleciona artistas modernos, como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, José Pancetti e Guignard. Deste último, reúne cerca de 20 obras, de desenhos a quadros. “O que chamo de moderno pertence aos anos 1940 e 1950. Depois, vem uma fase abstrata, pela qual já não sinto tanta afinidade, embora reconheça bonitos trabalhos”. Ela também tem grande apreço pela arte popular, e, em especial, por produções mineiras dos vales do Jequitinhonha e do São Francisco. “Comprei pequenas coisas na Comissão Desenvolvimento Vale Jequitinhonha (Codevale), pois os artesãos tinham dificuldade de pôr em circulação”.

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O pesquisador entrevistou dez colecionadores, a fim de conhecer motivações, estratégias e ideias relacionadas ao ato de reunir obras de arte. Trata-se de Ricardo Giannetti, Carlos Perktold, Neuber Siqueira, Manfred Ernst Leyerer, João Carlos F. Ferraz, Oswaldo Corrêa da Costa, Pedro Paulo Filgueiras Barbosa, Delcir Antônio da Costa, Fátima Pinto Coelho e o marido, Jorg Hagedorn, além de Ângela Gutierrez. Segundo Adriano Gomide, uma das funções da pesquisa foi desmistificar a conotação negativa do colecionismo. “Outras áreas da ciência, como a Psiquiatria, tratam o tema de forma pejorativa, com referências aos acumuladores”, destaca. Não é este o caso do estudo de Gomide, que analisa o legado deixado pelos colecionadores como “agentes de arte e alta cultura”. No ver do professor, a coleção envolve o ato voluntário de pesquisar, procurar e adquirir obras. É diferente de um acervo pelo qual se tem a obrigação legal de reunião e preservação de objetos. “Para coleção, existe o substantivo colecionador e o verbo colecionar. Para acervo, não existe o termo ‘acervador’, nem mesmo ‘acervar’. Há um curador, mas nem sempre a pessoa está, nesta função, envolvido pelo ato voluntário de ajuntar”, argumenta. Em justificativa à relevância social dos colecionadores, o pesquisador conta que a origem de grandes museus ingleses e franceses do século XX são coleções privadas. Acervo pessoal

Acervo da colecionadora Priscila Freire reúne mais de mil preciosidades artísticas

“Em inglês, fala em collections, em referência a coleções ou acervos, sem distinção. Fora do país, o colecionismo não é visto com preconceito como aqui”, afirma Gomide.

Perfis

Certos colecionadores focam suas aquisições em apenas um artista, de quem compram desenhos ou obras gigantescas. Outro perfil é o do “álbum de figurinhas”, que ajunta um pouquinho de cada categoria artística. Há, ainda, quem esteja dedicado a coleções de criadores de uma só cidade ou país, ou aqueles que recortam suas preferências por temas e períodos da história. “Existem megacolecionadores de obras milionárias, mas há muita gente que separa parte do salário para comprá-las. Eles frequentam escolas de arte, galerias e exposições, para ver os trabalhos e pôr preço”, conta o pesquisador. Um dos maiores colecionadores do Brasil é o diplomata Gilberto Allard Chateaubriand, com cerca de 7 mil obras reunidas. Bernardo Paz, fundador do Inhotim, também se destaca pela quantidade e pela representatividade do que reuniu. Ambos não foram entrevistados, na tese, pelo professor Adriano Gomide, mas são sempre lembrados como referências. O pesquisador cita, ainda, o casal americano Mary Louise Stevens (1879– 1953) e Walter Arensberg (1878–1954), colecionadores das obras de Marcel Duchamp, criador dos ready made. “Certos colecionadores, a exemplo desse casal, ficam amigos e acompanham a vida e a carreira do artista”, conta o professor. A obra Com barulho secreto, de Duchamp, contou, inclusive, com a colaboração de Arensberg. O amigo ficou responsável por inserir um objeto barulhento no rolo de barbante, sem revelar a ninguém. O próprio Adriano Gomide é colecionador, e reúne trabalhos de amigos e colegas de escolas por onde passou, além de obras que trocou durante a vida. Segundo ele, não se trata de atividade sistemática, apesar dos muitos objetos que guarda. Ele também atuou como artista, por mais de 25 anos, mas, atualmente, se declara “aposentado”.

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Legitimadores

Uma coleção pode começar sem a intenção de legitimar obras ou artistas. Mesmo assim, de acordo com o pesquisador, os colecionadores assumem tal papel: “Um dos entrevistados na tese conta que começou a colecionar pôsteres porque não conhecia o mercado de arte em Belo Horizonte. Depois, viu que não era isso e começou a comprar”. Geralmente, as coleções adquirem vulto, e os colecionadores apuram a intuição. Antes mesmo de artistas começarem a aparecer, via legitimação da história da arte, são comprados por esses agentes. Assim, a coleção pode virar referência sobre o artista. Em Belo Horizonte, o colecionador Manoel Macedo apostou em obras de Amadeo Luciano Lorenzato, quando ninguém lhe dava muito valor. “O artista fazia exposições, mas não tinha grande apelo”, explica Gomide. Atualmente, Macedo tem mais de 200 obras e promove exposições sobre o Lorenzato. Eis o caso, também, do grande colecionador Gilberto Chateaubriand, que comprou obras de Lígia Clark na década de 1960, quando ela ainda não era um grande nome. “O valor intrínseco da obra estava lá. O que o trabalho traz de contribuição à história da arte – em termos de avanço, elementos formais, novos modos de fazer e ver o mundo – já se encontrava lá, quando a pessoa o fez. Isso só vai ser reconhecido mais tarde”, explica o pesquisador. Gomide ainda cita o processo de legitimação promovido por alguns de seus entrevistados. “As coleções de peças sacras de Ângela Gutierres acabam por se tornar objetos obrigatórios para quem quiser estudar oratórios e Barroco Mineiro. Pedro Paulo Filgueiras está colecionando, por gosto, um artista de Governador Valadares, que iniciou carreira em Belo Horizonte. Pareceu-me uma aposta”, conta. Historicamente, colecionadores têm papel importante na manutenção da memória e na história do Brasil. Segundo Gomide, a própria Igreja Católica operou como ajuntadora de peças, que, hoje, protagonizam parte do turismo religioso no País. “Outro grande agente de coleção foi Dom Pedro II, que deixou um legado de obras do Império”, lembra.

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Sistema da arte

Uma coleção exposta ou doada a um museu se tornará objeto de contemplação pública, mas continuará com pertencimento privado. Durante a pesquisa, Adriano Gomide não investigou a natureza jurídica das doações, nem mesmo a valoração das coleções. De outro modo, descobriu que cada colecionador decide o quanto quer publicizar as obras de seu acervo, por questões pessoais ou de segurança. “A coleção é fruto de dedicação e gosto. Na tese, não faço julgamentos morais, nem mesmo, das obras que visitei. Entrevistei colecionadores de arte contemporânea e moderna, de esculturas sacras, dentre outros. Estava muito mais interessado no colecionismo do que na origem do dinheiro dessas pessoas, que já são alvo de preconceito. Há outros pesquisadores que tratam de furtos de obras e espólios de guerra”, explica.

Um colecionador pode ter, reunidos em apenas uma sala, valores acima de R$ 10 milhões. Gomide lembra de leilão na capital mineira, em 2016, no qual foram vendidos dois quadros de Alberto da Veiga Guignard, respectivamente, por R$ 4,5 mi e R$ 900 mil. “É um artista alto no mercado: o preço sobe porque se reconhece seu valor e há escassez de obras. Não existem mais Guignards sendo feitos. Trata-se, inclusive, de artista muito falsificado por outros”, explica o pesquisador. Por meio de sua pesquisa, Adriano Gomide sente que sistematizou uma curiosidade pessoal – e de muitas pessoas – sobre o colecionismo: “Falo de dentro do sistema. Dirijo uma escola de arte, frequento leilões, negocio e faço arte. Mas faltam discursos de dentro. Por isso, minha pesquisa se mostra como visão interna. Tive coragem de olhar, com ares mais objetivos, para algo muito próximo”.

Glossário de artistas nesta Relembre alguns dos artistas citados

reportagem

dos ready made, tor, escultor e poeta francês. Inventor Marcel Duchamp (1887- 1968): pin s. cotidiana ao campo das arte a transmutação de elementos da vida ntino, considerado 995): pintor e escultor belo-horizo 0-1 (190 o nzat Lore iano Luc deo Ama o legado, deixou artes visuais de Minas Gerais. Com das des lida ona pers ores mai das uma paisagem de bairros populares. dezenas de quadros que retratam a porânea, que se e escultora belo-horizontina contem Lígia Clark (1920-1988): pintora abismo, Contra reas grandes obras, estão Máscara autointitulava “não artista”. Dentre levo e Os bichos. nto impressionis9): pintor francês, iniciou o movime Pierre-Auguste Renoir (1841-191 Mulher amamena, lisc Oda o inina em obras com fem za bele a brar cele por o ecid ta. Conh tando e Lise com sombrinha. Friburgo (RJ), mas 1962): pintor nascido em Nova Alberto da Veiga Guignard (1896s. Pintou o céu, as oso por retratar paisagens mineira radicado em Minas Gerais e fam pela qual se apaixonou. cores, os muros e o povo da terra aulista. Uma das pintora, desenhista e tradutora p Tarsila do Amaral (1886-1973): nista no Brasil. der mo primeira fase do movimento figuras centrais da pintura e da ento antropofáovim o m s, o Abaporu inaugurou Um de seus quadros mais famoso gico nas artes plásticas.

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MOBILIDADE

Somos todos passageiros Laboratório da Ufla desenvolve tecnologias inteligentes de transporte e analisa como os novos veículos circularão nas ruas brasileiras Luiza Lages MINAS FAZ CIÊNCIA • MAR/ABR/MAI 2019

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Carros voadores, veículos controlados por sistemas remotos e recursos de Inteligência Artificial: para ambientar tramas futuristas, a ficção científica recorre, com frequência, a meios de transporte astutos e autônomos. Em muitas frentes, porém, a mobilidade terrestre avança a pontos de convergência com os territórios ficcionais. “Veículos inteligentes já são realidade em grande parte do mundo. Precisamos estudar e debater como eles serão inseridos nas ruas e em nossa sociedade, além de discutir questões de segurança e adaptações necessárias a receber as novas tecnologias”, afirma o professor Danilo Alves de Lima, coordenador da Área de Veículos Autônomos/Inteligentes do Laboratório de Mobilidade Terrestre (LMT) da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Com atuação multidisciplinar, o LMT explora diversas linhas de estudos em Engenharia, Administração, Ciência da Computação, Economia, Medicina e Direito, com foco nos sistemas de transporte inteligentes. Cerca de 50 integrantes, dentre professores, mestrandos, doutorandos e estudantes de graduação, conduzem pesquisas e propõem alternativas para a questão. Para Danilo Lima, as grandes discussões e o trabalho a ser desenvolvido, em relação a novas tecnologias de mobilidade, não recaem sobre a concepção de novos equipamentos de transporte. “Falta debate sobre a interação dos veículos com os passageiros transportados, com os demais veículos – não autônomos ou inteligentes –, e acerca da relação entre a cidade e tais meios”, reflete. O que a cidade precisa ter para recebê-los? Qualquer localidade está apta a conviver com eles? Veículos inteligentes poderão circular em quaisquer ambientes? Serão autônomos por quanto tempo? Como funcionará a manutenção? De que baratear custos? No caso de acidentes, quem será o culpado? Que leis regerão tal tipo de transporte? Eis uma série de perguntas apresentadas pelo próprio pesquisador, como base das discussões no setor e do trabalho desenvolvido no Laboratório.

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Além do estudo para produção de veículos inteligentes, o LMT se debruça sobre modelos de negócio relacionados a mobilidade terrestre, regulamentação e trâmites legais para pôr veículos inteligentes em circulação. Há preocupação, ainda, com mecanismos e requisitos técnicos para certificação das novidades tecnológicas. “O brasileiro gosta de tecnologia. E nosso mercado consumidor é grande. Temos, sim, que fazer pesquisa na área, para levar tudo ao esclarecimento das entidades governamentais relacionadas ao assunto. É fundamental entender o que é preciso para implementar os novos veículos no Brasil, com segurança jurídica e tecnológica”, diz Andrea Martinesco, coordenadora de estudos jurídicos e fatores humanos do Laboratório.

Rotas tecnológicas Os pesquisadores atuam na concepção de sistemas de localização, percepção, navegação, reconstrução de dados, controle e assistência ao condutor de veículos inteligentes. Um dos objetivos é desenvolver tecnologias de baixo custo. É o caso de um equipamento de detecção e alerta de sonolência desenvolvido no grupo. “Todos os veículos mais modernos têm algum nível de assistência. O problema está em seu alto custo. Trabalhamos para criar o sistema com o uso de smartphone, forma barata de inserir esse tipo de tecnologia em veículos”, explica Danilo Lima. A primeira pista de testes para veículos da América Latina é um dos principais projetos do Laboratório. Uma área de 21 mil m² foi demarcada no campus universitário, para construção do espaço, e o projeto está em fase de aquisição de recursos. Com quatro tipos diferentes de pistas (em estrada, fora de estrada, em ambiente urbano e em ambiente agrícola), a construção funcionará como uma cidade inteligente. O objetivo é simular diferentes situações que o veículo encontraria nas ruas brasileiras, o que inclui aspectos de sinalização, presença de pedestres e estrutura existente, além de questões mais específicas. Hoje, grande parte dos testes em veículos inteligentes é feita, primeiramente,

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em pista de testes, para, depois, chegar às ruas dos centros urbanos. “Se o Brasil não tiver uma pista de testes, os veículos circularão direto nas cidades. É um grande risco, pois a realidade na qual o veículo

será inserido, em relação às vias e à infraestrutura, não é, necessariamente, prevista. Com a pista em operação, torna-se possível apontar adequações necessárias aos veículos, certificá-los e homologá-los”, diz Lima.

O LMT trabalha em parceria com o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), para promover a regulamentação e a homologação de sistemas dos veículos inteligentes que chegam

Cruzamento de provedores “Não adianta abordar a mobilidade apenas sob o viés tecnológico, pois, ao chegar ao mercado, a tecnologia pode nem sequer ser implementada ou difundida”, afirma Joel Yutaka Sugano, professor da Ufla e coordenador de modelos de negócios inovadores do LMT. Como fazer com que uma tecnologia inovadora consiga ter penetração de mercado, com sucesso e sem rejeição? Eis a questão a guiar os estudos conduzidos pelos pesquisadores. De acordo com Sugano, toda inovação entra como uma incógnita no mercado, que não consegue absorvê-la de imediato. “Existe, tecnicamente, um abismo entre os ‘adotadores' iniciantes e o mercado de massa. Como cruzar esse abismo por meio da inovação é papel na área de negócios”, afirma. O grupo estuda diferentes recortes para modelos de negócio de veículos inteligentes. A partir dos diferentes tipos de equipamento, trabalha-se com a introdução de meios autônomos no mercado brasileiro, considerando as especificidades e os fatores necessários à introdução da tecnologia no País. Confira!

Carro como serviço Dentro do modelo inteligente de mobilidade, um carro pode ser pensado não como produto a ser comprado, mas “acessado”. Empresas como Über, Cabify e Yellow, de carros, bicicletas e patinetes compartilhados, já trabalham com tal ideia. “Daqui para frente, o modelo padrão não será o do carro tradicional, em que o dinheiro fica parado como ativo que se deprecia, mas o de serviço. Isso muda o modo como funcionam seguros, pedágios, garagens e plataformas. A sociedade, como um todo, se transforma”, diz Sugano.

Carro como plataforma Um carro, hoje, é um produto não conectado, mas, no contexto de mobilidade inteligente, torna-se uma plataforma de negócios. A conexão em rede e a possibilidade de que diversos aplicativos estejam integrados a ele permitem a reunião de produtos e serviços oferecidos por diferentes empresas, em um mesmo espaço e de alto valor agregado para o usuário final.

Mobilidade como serviço Toda a mobilidade pode se transformar em serviço. O conceito de MaaS, Mobility as a service, descreve mudança dos meios de transporte de propriedade pessoal para soluções de mobilidade consumidas como serviço. Isso se dá por meio da combinação de provedores de transporte públicos e privados em um gateway unificado, que cria e gerencia a viagem. “Um provedor vai, por exemplo, combinar modais de diferentes serviços de mobilidade, para que o usuário se desloque. De um ponto a outro, ele usa o metrô, depois um carro compartilhado, uma bicicleta, e anda a pé. A inteligência artificial aponta o que é mais interessante naquele momento, e considera o que pode beneficiar tanto a saúde quanto o custo para aquela pessoa”, explica Sugano.

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ao Brasil. “Hoje, nossos principais projetos estão na área de certificação e de homologação. Fazemos estudo de caixa preta e de sistemas de controle. Atuamos dentro das principais tendências na área: novos modelos de negócio, veículo como serviço e integração dos meios inteligentes com as cidades inteligentes”, conta o pesquisador.

Caminhos legais “O veículo é autônomo porque a tendência é tirar cada vez mais o motorista de dentro dele. Além disso, juridicamente, a pessoa atrás do volante é o sujeito de direitos e obrigações”, afirma Andrea Martinesco. A Sociedade dos Engenheiros Automotivos define uma escala de automação do nível 0 ao 5. Quanto maior o número, menor a ação de condutores humanos no veículo. Para cada estado de automação, com suas particularidades, são avaliadas diversas questões legais, como responsabilidade civil, questões de seguro, ou, no Direito Penal, a cadeia de envolvidos no acidente. “Atuamos na proteção jurídica do consumidor, que está lá como condutor, a partilhar o controle, ou como passageiro. Fora dele, o veículo compartilha a via pública, onde deve existir o respeito entre o veículo autônomo e os demais usuários: pedestres, ciclistas, motociclistas e condutores de outros tipos de veículos. A atuação do Direito é transversal. Precisamos avaliar em que nível de amadurecimento a tecnologia está, para entender como ela entraria nas vias públicas e como a sociedade vai encará-la”, completa Martinesco. Para a coordenadora do LMT, é essencial que, para produzir segurança, os novos veículos passem por simulações e deslocamentos em pistas fechadas, e só depois sejam testados em condições reais de trânsito. A pesquisadora lembra que as discussões sobre veículos inteligentes, realizadas por representantes das Convenções Internacionais sobre Trânsito Viário, refletem-se nos códigos de trânsito dos países signatários. “Eles discutem, e nós precisamos fazê-lo aqui. É preciso entender o que existe em matéria de regulamentação, para que nossos pesquisadores,

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Foram assinadas duas “Convenções internacionais sobre trânsito viário”: a primeira, em Genebra, no ano de 1949; a segunda, da qual o Brasil é signatário, em 1968, na cidade de Viena.

que desenvolvem tecnologia e modelos de negócio, tenham consciência do que está sendo aprovado”, diz. Para Martinesco, o governo brasileiro ainda conhece muito pouco sobre sistemas de transporte inteligentes e não está apto a autorizar o trânsito de veículos autônomos em vias públicas. “Esses meios, em desenvolvimento, estão sendo testados em simuladores e pistas fechadas, mas, em algum momento, terão que circular em vias públicas”, destaca. A pesquisadora argumenta que a atual visão se limita à Engenharia: sabe-se que a tecnologia existe e que o brasileiro se interessa por veículos com tecnologias de assistência ao condutor. “As montadoras enxergam bom mercado, mas como regulamentar tudo? O Brasil precisará acompanhar toda a movimentação na ONU e em outros países, como China, Japão, EUA e Suécia”, afirma.


VERSAL

Lorena Tárcia

Mulher Faz Ciência

Astrônoma da Nasa, historiadora indígena, descobridora de vulcão e premiada técnica em meio ambiente são algumas das mulheres que integram o livro digital Mulher Faz Ciência: dez cientistas, muitas histórias, desenvolvido pelo projeto “Minas Faz Ciência”. A obra, de autoria da jornalista Alessandra Ribeiro, com diagramação de Fatine Oliveira e coordenação de Vanessa Fagundes, busca inspirar meninas apaixonadas por tecnologia, pesquisas e descobertas. Download grátis: http://bit.ly/mulherfazciencia.

Apps para aprender

No universo móvel, indicamos cinco aplicativos de cursos online nas mais diversas áreas do conhecimento: Udemy Cursos e Tutoriais; LinkedIn Learning; Udacity; Coursera e Ted Talks. Informática, idiomas, habilidades profissionais e palestras sobre temas atuais estão entre as opções – muitas gratuitas; algumas, pagas. As descrições e links para download estão disponíveis em nosso site: http://bit. ly/appscursos.

Estatísticas úteis

A plataforma Hootsuite e a agência We Are Social publicam, anualmente, pesquisa atualizada com estatísticas sobre internet, redes sociais, universo mobile e e-commerce. O relatório 2019 revela que mais de 360 milhões de pessoas de todo o mundo entraram pela primeira vez, na internet, no ano passado. No total, 57% da população planetária está agora conectada. No Brasil, a penetração é de 70%, com 149,1 milhões de usuários. Além disso, 140 milhões de brasileiros usam as redes sociais, sendo 61% a partir dos telefones celulares. Acesse: http://bit.ly/ estatisticas2019.

Recursos educacionais

Em busca de recursos digitais para usar na sala de aula ou complementar os estudos? A plataforma de recursos educacionais digitais do Ministério da Educação (MEC) reúne mais de 30 mil vídeos, animações e textos destinados a ensino e aprendizagem. O espaço colaborativo permite publicar recursos, compartilhar material de outros autores e relatar experiências. A plataforma é aberta e se destina a toda comunidade escolar. Acesse https:// plataformaintegrada.mec.gov.br.

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CONTEMPORÂNEAS

Mapa da biodiversidade Pesquisadores mineiros atualizam dados a respeito de áreas prioritárias para conservação da fauna e da flora

Mariana Alencar

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Há, em Minas Gerais, enorme biodiversidade, distribuída em quatro grandes biomas: mata atlântica, cerrado, caatinga e campos rupestres. Em função dessa multiplicidade, são necessárias informações a respeito de áreas prioritárias para conservação. Com o intuito de delimitar tais territórios, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado solicitou, à comunidade científica, um atlas que expusesse as regiões importantes. O trabalho serviu de base para adoção de políticas públicas, relacionadas à delimitação dos espaços de manutenção e de pesquisa, dentre outros. Entretanto, com o passar do tempo, o atlas ficou defasado e tornou necessária a revisão de seus dados. Assim, desde junho de 2018, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com as organizações não governamentais WWF-Brasil e Fundação Biotiversitas, trabalham na produção de novo material. A demanda partiu do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e ganhou o nome “Áreas prioritárias: estratégias para conservação da biodiversidade e dos ecossistemas em Minas Gerais”. A proposta, portanto, é identificar o melhor conjunto de áreas para conservação e restauração de espécies e ecossistemas no Estado. Integrante do projeto, Adriano Paglia, professor do Departamento de Biologia Geral do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, explica que o trabalho de revisão do atlas tem sido feito a partir de conhecimentos biológicos desenvolvidos nos últimos anos. Levam-se em consideração, também, as modificações antrópicas – ou seja, causadas pelo ser humano –, como desmatamento, alterações climáticas, avanço das fronteiras agrícolas, urbanização, dentre outras. Como metodologia, recorreu-se ao “planejamento sistemático”, que determina elementos importantes para conservação e aponta custos, dificuldades e metas de ação. “Trata-se da compilação de informações espaciais de alvos de conservação, como espécies ameaçadas, recursos


João Marcos Rosa

hídricos, ecossistemas importantes para economia etc. Em relação a cada elemento, estipulamos metas: quanto a ciência entende ser necessário conservar a partir daquele espaço?”, explica o pesquisador, ao destacar que também são avaliadas as dificuldades para manutenção, expressa, por exemplo, na presença de atividades humanas. “Ao fim do processo, juntamos as camadas para produzir um atlas único, que nos mostrará as melhores alternativas de conservação”, detalha. O principal objetivo do projeto está na criação de um banco de dados geográficos de biodiversidade, capaz de relacionar os ecossistemas com atividades antrópicas, de modo a permitir análises espaciais que orientem as atividades de rotina e de tomada de decisões governamentais associadas ao meio ambiente. O produto final terá diversas aplicações, e poderá ser usado em iniciativas como fiscalização ambiental, conservação da biodiversidade, recuperação de florestas, gestão de recursos hídricos e de sistemas de regularização ambiental.

Oficinas e consultas

A elaboração do atlas inclui, também, encontros com especialistas de diversas

áreas, como Geologia, Sociologia e Engenharias. Desde o início do projeto, realizaram-se, na UFMG, duas grandes oficinas, para discutir questões econômicas e/ou relacionadas à Biologia. Nos eventos, foram apresentadas e debatidas variáveis de pressão e conflito para a conservação, bem como critérios usados para sua proposição e bases de dados espaciais pré-selecionadas. “Na primeira atividade, chamada ‘oficina de custos e oportunidades do projeto’, tivemos participação de pessoas do setor produtivo, empreendedores, da indústria e da mineração, para apresentar e discutir as atividades humanas que se relacionam à conservação. Isso foi muito importante, também pois vimos o outro lado, não só o viés ambiental”, explica Paglia. Já a “oficina de alvos e metas para conservação da biodiversidade no âmbito do projeto áreas prioritárias: estratégias para a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas de Minas Gerais” convidou especialistas da Biologia, que analisaram mapas de distribuição de diferentes espécies animais e vegetais. “Isso nos serviu de subsídio ao mapa final”, relembra. O atlas tem previsão de ser apresentado no fim deste ano, mas, nos próximos

meses, será realizada outra oficina, para que se debatam os resultados já compilados e consolidados pelos pesquisadores. Nesta ocasião, serão apresentadas as principais estratégias para as áreas prioritárias já definidas, como a necessidade de criação de novas unidades de conservação, estímulo à recuperação ambiental, fortalecimento de parcerias com o setor produtivo, dentre outras ações estratégicas. Quando finalizado, o projeto “Áreas prioritárias: estratégias para conservação da biodiversidade e dos ecossistemas em Minas Gerais” servirá de instrumento de gestão territorial, assim como o primeiro mapa, produzido no início dos anos 2000. Com a delimitação das áreas, a participação da comunidade científica e da sociedade civil e o estudo de critérios técnicos a respeito da conservação, o projeto servirá como orientação do desenho de políticas públicas e da rotina de decisões de todo o Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema) na gestão ambiental do Estado.

Vulnerabilidades

Após os desastres ambientais ocorridos pelos rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, o novo mapa também apontará vulnerabilidades de áreas importantes à biodiversidade. Entretanto, o trabalho não será fáci. Segundo Adriano Paglia, há, no projeto, a intenção de detectar tais riscos ambientais das regiões prioritárias associadas a possíveis rompimento de barragens, mas faltam informações importantes para delimitação de tal perito. “A questão é complexa, pois não sabemos claramente qual seria o percurso dos rejeitos, caso a barragem se rompa. Existem simulações de computadores que levam em conta o relevo, a topografia do local, o que nos garante indícios do percurso. Não temos, porém, acesso à informação”, lamenta o pesquisador. O projeto também busca a identificação e o apontamento de outras vulnerabilidades, como mudanças no clima, questões sociais, associadas à dificuldade de acesso da população aos recursos ambientais, erosão de solos, e, consequentemente, sedimentações do curso d’água – o que prejudica a oferta de recursos à população. Ao todo, mais de 100 pessoas estão envolvidas no projeto.

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Danilo da Silveira

Formado em Jornalismo, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Danilo da Silveira também é social media, pelo Centro Universitário Una, e fotógrafo, por curiosidade. Usa suas formações e a paixão por imagens como maneira de contar novas histórias.

Ao contrário do modo como Monteiro Lobato (18821942) enxergava o urupê de pau podre (os fungos Pycnoporus sanguineus também são chamados de “orelha-de-pau”), ele não “modorra silencioso no recesso das grotas”. A espécie serve, principalmente, para sustentação dos nutrientes da mata. Sua função medicinal, em relação às plantas, tem propiciado estudos sobre o controle de doenças. Longe de ser, “no meio de tanta vida, sem vida”, trata-se de um dos responsáveis pela manutenção da “natureza brasílica, tão rica de formas e cores”


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