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Redação - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - CEP 31.035-536 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) 3280-2105 Fax: +55 (31) 3227-3864 E-mail: revista@fapemig.br Site: http://revista.fapemig.br

O tema é tão cercado por receios, preconceitos e dúvidas que gerou insegurança dentro da própria equipe. Podemos abordar a questão em uma revista que pretende ser de leitura leve e é direcionada a um público amplo, que inclui jovens? Conseguiríamos propor uma discussão adequada de um tema muito pouco explorado pela mídia, seja por questões éticas, seja por uma autocensura imposta pelos jornalistas? Seria possível apresentar estudos e estatísticas, mas defender uma mensagem de esperança e otimismo para aqueles que, de alguma forma, se identificassem com os casos? Por fim, concordamos que a resposta para essas perguntas é sim. Suicídio, realmente, é um tema delicado, que deve ser abordado de forma cuidadosa. Mas, sem dúvida, é um tema que deve ser discutido. Seus índices, especialmente entre os jovens, vêm crescendo em todo o mundo. Seus danos emocionais costumam afetar de forma mais forte e duradoura as pessoas próximas e, no Brasil, ainda falta estrutura para notificar tentativas e acompanhar os casos registrados.

Blog: http://blog.fapemig.br Facebook: http://www.facebook.com/minasfazciencia Twitter: @minasfazciencia

A reportagem especial desta edição, de autoria das jornalistas Alessandra Ribeiro e Vivian Teixeira, coloca o tema em foco a partir de dados estatísticos e de olhares de especialistas de diversas formações. A proposta é mostrar a forma como a ciência tem contribuído para lidar com o suicídio, tanto no tratamento de problemas mentais como

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Fernando Pimentel SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Miguel Corrêa Jr.

na orientação e aconselhamento. O panorama é instigante e, esperamos, inspirador. No Triângulo Mineiro, uma pesquisa propõe uma “ajudinha” para a natureza. A fim de aumentar a produção do maracujá-amarelo, indicou a construção de “ninhos-armadilha” para atrair abelhas carpinteiras, principal polinizador desta fruta. Os ninhos atraem as abelhas e, posteriormente, são transferidos para áreas de cultivo. Isso aumenta a polinização natural e a produção de frutos. Outro destaque é um estudo conduzido por pesquisadores da UFMG que questiona uma das principais medidas sugeridas por

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais

entidades ligadas à ONU para conter o avanço da temperatura global. As conclusões desse estudo, que se baseiam, por exemplo, na riqueza de biomas como o cerrado,

Presidente: Evaldo Ferreira Vilela diretor de Ciência, Tecnologia e inovação: Paulo Sérgio Lacerda Beirão diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Alexsander da Silva Rocha

podem ser conhecidas a partir da página 33.

Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Alexandre Christófaro Silva, Dijon Moraes Júnior, Virmondes Rodrigues Júnior, Esther Margarida Alves Ferreira Bastos, Flávio Antônio dos Santos, Júnia Guimarães Mourão, Marcelo Henrique dos Santos, Ricardo Vinhas Corrêa da Silva, Roberto do Nascimento Rodrigues, Sérgio Costa Oliveira, Valentino Rizzioli

como a coluna Ciência Aberta, onde o leitor dá opinião sobre temas propostos; sintonia

Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e e-mail) para o e-mail: revista@fapemig.br ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Av. José Cândido da Silveira, 1500, Bairro Horto - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP 31.035-536

promissoras para a área da ciência, tecnologia e inovação no País. Nos vemos em 2016!

Nesta última edição do ano, aproveito para agradecer a leitura e a companhia ao longo de 2015. Foram muitas novidades aqui na MINAS FAZ CIÊNCIA: novas seções, maior com os outros veículos do nosso programa de comunicação científica, gerando reportagens transmídia; lançamento de uma edição produzida especialmente para as crianças que, devido ao sucesso alcançado, entrará em nosso calendário anual. Nosso desejo é que o próximo ano seja ainda melhor, repleto de boas notícias e perspectivas

Vanessa Fagundes diretora de redação

ao lEI To r

EX P ED I EN T E

MINAS FAZ CIÊNCIA diretora de redação: Vanessa Fagundes Editor-chefe: Maurício Guilherme Silva Jr. Redação: Alessandra Ribeiro, Camila Alves Mantovani, Diogo Brito, Maurício Guilherme Silva Jr., Roberta Nunes, Vanessa Fagundes, Verônica Soares e Vivian Teixeira diagramação: Fazenda Comunicação Revisão: Sílvia Brina Projeto gráfico: Hely Costa Jr. Editoração: Unika Editora, Fatine Oliveira Montagem e impressão: Rona Editora Tiragem: 25.000 exemplares Capa: Hely Costa Jr.


í N D I cE

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ENTrEvIsTa

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bIoloGIa

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aDmINIsTraÇão

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FísIca

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ParasIToloGIa

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oDoNToloGIa

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PsIcoloGIa

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lEmbra DEssa?

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Professora da Escola de Ciência da Informação da UFMG, Maria Aparecida Moura discute os efeitos das mídias colaborativas

Políticas de gestão carcerária das unidades prisionais de Minas Gerais transformam-se em tema de estudo

Pesquisadores analisam incidência de enteroparasitoses em município quilombola de Minas Gerais

Casais podem estreitar relação conjugal para cuidar dos filhos com síndrome de Down

Estudos contestam princípios e mapas climáticos elaborados pela ONU, de modo a preservar o cerrado brasileiro

arqUITETUra

Iniciativa ensina métodos de autoconstrução a moradores da Ocupação Eliana Silva, na capital mineira

Discutir o tema, deixando de lado os preconceitos, pode ajudar na prevenção do suicídio

Segundo investigação da UFMG, maioria dos moradores da Região Metropolitana de BH apresenta problemas dentais

Homofobia e políticas públicas são temas de análise do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT

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5 PErGUNTas Para...

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HIPErlINK

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EsPEcIal

Laboratório promove síntese de nanocristais, partículas que, apesar de minúsculas, revelam funções e potencialidades múltiplas

EPIDEmIoloGIa

Prevenção e combate à leishmaniose na Serra do Cipó alimentam-se de dados da Fundação Oswaldo Cruz

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Paulo Sérgio Lacerda Beirão, atual diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da FAPEMIG, fala sobre ética e integridade científica

Ciência, tecnologia, sono, razão, espiritualidade e outras tantas temáticas discutidas no blog Minas faz Ciência

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EcoloGIa

Técnicas auxiliam manejo de ninhos, para que abelhas polinizem e contribuam com a produção de frutas


inesquecível

mente em ciência vem à sua

quando pensa

“A resposta não sexy é a tela do computador, com a janela de editor de texto de um lado, para escrever o programa que rodava os cálculos para a tese, e outra com o terminal para rodar o programa. Há, ainda, outra janela, com o editor de textos para escrever a tese, e mais outra, com a tese compilada em PDF, para ver como ficou”. Pablo Barros Via Facebook

“A sala de controle do Tevatron do Fermilab [acelerador de partículas circular, situado no Fermilab, laboratório especializado em física de partículas de alta energia, ligado ao Departamento de Energia dos EUA, com sede em Batavia – próximo a Chicago –, no estado de Illinois], com aquela cara de Enterprise. Essa é minha resposta sexy e publicável”. Pablo Barros Via Facebook

“A imagem de um tardígrado [filo de pequenos animais segmentados, relacionados aos artrópodes], observado por meio de um microscópio eletrônico de varredura”. Stella Bruna Guerra Via Facebook

“Stephen Hawking, o maior gênio vivo, na sua cadeira de rodas”. Janis drumond Via Facebook

“Quando assisti a um programa, no History Channel, sobre a origem do antibiótico. Fantástico!”. natália Coelho Via Facebook

“Penso na descoberta da vacina e do DNA”. ingrid Reis Via Facebook

“Um feijãozinho brotando no algodão molhado (rs). A experiência da aula de ciências nos primeiros anos de escola”. Alessandra Carvalho @alesscar Via Twitter

“Um Erlenmeyer [frasco em balão, usado como recipiente em laboratórios, inventado pelo químico alemão Emil Erlenmeyer] com solução colorida e gelo seco soltando ‘fumacinha’”. Roberto Takata @rmtakata Via Twitter

MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução de seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2015

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Há alguns meses, a psicóloga Vivian Zicker realizou palestra sobre prevenção do suicídio na rodoviária de Belo Horizonte, em evento promovido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV). Mesmo desconfiadas, as pessoas que por ali passavam aceitaram o convite. Ao final da apresentação, uma senhora pediu a palavra e disse que estava ali porque visitaria a cidade natal, onde o irmão se matara. “Graças à palestra, ela nos contou ter evitado culpar a cunhada pela morte do irmão. Não existem culpados, afinal. O trabalho de prevenção ao suicídio é assim: lento, cuidadoso, mas muito gratificante”, conta Zicker, para quem é preciso trabalhar com a família o fato de que “aquilo” não foi uma escolha. Além disso, ninguém é responsável pelas ações do outro e não existe um “porquê” capaz de deixar tudo claro. Diagnosticar e tratar doenças psiquiátricas é a principal medida para evitar suicídios. Estudos realizados a partir da chamada “autópsia psicológica”, que consiste na investigação de possíveis motivações, a partir de conversas com familiares das vítimas, por exemplo, revelam que mais de 90% dos casos estão ligados a problemas mentais. “Na maioria das vezes, depressão, transtorno bipolar e dependência química”, cita Neury José Botega, professor de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A depressão é a doença mais associada ao suicídio, embora as estatísticas mostrem que o percentual de pacientes depressivos que se matarão não passa de 5%. Como a incidência na população – de, aproximadamente, 10% – é maior do que as outras doenças, ela se destaca em termos numéricos. No caso do transtorno bipolar, o risco é alarmante: metade dos diagnosticados tenta o suicídio e 20% morrem. Entretanto, como apenas 1,5% das pessoas são bipolares, os números chamam menos atenção. “É preciso rompermos o tabu em relação às doenças mentais e à necessidade de procurar ajuda profissional”, afirma Neury, ao ressaltar, ainda, a importância do reconhecimento da depressão como doença a ser encarada com seriedade. “Ela é diferente da tristeza ocasional, que podemos sentir em momentos difíceis. A depressão tem determinantes bioquímicos e fatores hereditários, que contribuem em sua etiologia. A doença pode acometer qualquer pessoa, independentemente de sexo, idade, personalidade, posição social”, explica. Quando o pior acontece, aqueles que ficam, também chamados pelos especialistas de “sobreviventes”, costumam ser tomados por sentimentos de vergonha, raiva ou culpa, por lamentarem não ter feito algo. “O suicídio afeta, de forma duradoura, de cinco a seis pessoas, em média. Em geral, o luto é muito mais complicado do que a dor relacionada a outras causas de morte. Por isso, as pessoas próximas têm maior risco de desenvolver depressão”, alerta o psiquiatra Humberto Corrêa da Silva Filho, vice-presidente da Associação Latinoamericana de Suicidologia (Asulac) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Ao todo, são cerca de cinco milhões de pessoas que precisam reconstruir suas vidas após perder um ente querido. O jornalista Fernando Moreira, 33, tinha 17 quando o pai se matou. No ano passado, o tio fez o mesmo. A nova perda motivou-o a se manifestar publicamente sobre o assunto, pela primeira vez: “Meu tio, irmão do meu pai, decidiu, depois de anos de depressão, deixar de viver. Deixar um mundo que não compreendia. Decisão semelhante à do meu pai. Eu os entendo e não coloco sobre isso um peso maior do que já existe”, desabafou. Fernando conta que, após a morte do pai, ficou chocado, depois triste, para, em seguida, ser tomado pela raiva. “Relutei em fazer terapia e segui firme até uns 30 anos, sem jamais tocar no tema, ou revelar a alguém”. O sofrimento carregado em silêncio por todos esses anos, contudo, explodiu. O jornalista teve séria depressão e precisou tomar remédios para se recuperar. “Acredito que essa tendência tenha forte característica genética, ativada, apenas, por fatos sociais relevantes na vida de um indivíduo. O modo como somos criados faz diferença na maneira como agiremos, mas estou aqui para provar que a vontade de ir além também muda tudo”, garante.

Problema universal

Os especialistas têm se preocupado com o crescimento dos índices de suicídio entre os jovens. Na faixa etária dos 15 aos 29 anos, o ato representa 8,5% das causas de morte em todo o mundo – atrás, apenas, dos acidentes de trânsito. No Brasil, o suicídio corresponde a 3% do total de óbitos entre jovens e adultos jovens do sexo masculino, dentre os quais o aumento dos casos chama a atenção, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria. Não se trata de caso isolado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de

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suicídio, dos 15 aos 24 anos, passou de 9,6 mortes por 100 mil habitantes, em 2007, para 11,1 em 2013. Anualmente, 1,1 mil universitários se suicidam, alerta a Active Minds (www.activeminds. org), que promove a conscientização dos estudantes sobre questões de saúde mental. Desde 2008, a ONG realiza a exposição itinerante “Send Silence Packing”, que já percorreu 70 cidades dos EUA. Os organizadores escolhem um campus, onde espalham mais de mil mochilas, em alusão ao número de vítimas, com o objetivo de sensibilizar as pessoas sobre a necessidade de salvar filhos, irmãos ou amigos. As bolsas são doadas por familiares de alunos que deram fim à própria vida. A iniciativa tem colhido bons resultados: muitas pessoas que viram a exposição relataram ter procurado ajuda para si ou para conhecidos em situação de vulnerabilidade. Se os jovens são alvo de atenção, na outra ponta estão os idosos. Pesquisadores do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ ENSP) desenvolveram investigação descritiva da mortalidade por suicídio em pessoas com 60 anos ou mais nos municípios brasileiros, no período de 1996 a 2007. Nesse intervalo, do total de 91.009 óbitos, 12.913 (14,2%) eram de pessoas mais velhas. Além disso, o isolamento social parece ser a causa mortis mais frequente. Não por acaso, canais de atendimento, como o telefone do Centro de Valorização da Vida (141), são mais procurados em datas simbólicas: “Dia das Mães”, “Dia dos Pais”, Natal e Ano Novo. Tais ocasiões são aquelas em que as pessoas em situação de risco se sentem mais sozinhas. A forma de prevenção indicada pelo psiquiatra Neury Botega pode ser tomada como universal, na velhice e na juventude: “É preciso manter a dignidade dos indivíduos, com um lugar de respeito e de pertencimento no grupo familiar”. Em relação ao gênero, os homens morrem de três a quatro vezes mais do que as mulheres, embora as tentativas entre elas sejam de três a quatro vezes maiores. Uma explicação provável para essa aparente incoerência é que eles costumam procurar

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instrumentos mais agressivos, portanto, mais letais, enquanto elas recorrem, predominantemente, a meios químicos. “Entre as mulheres, a maternidade seria um fator protetor. Socialmente, elas também são mais permitidas a ‘reclamar’ e a pedir ajuda”, observa o professor da Unicamp. Restringir o acesso a instrumentos potencialmente perigosos é uma medida determinante para evitar mortes precoces, uma vez que as pessoas tendem a usar métodos de mais fácil alcance. Também é fundamental dar importância a comportamentos que podem parecer corriqueiros, mas devem ser interpretados como sinais emitidos por pessoas prestes a cometer o suicídio. Elas costumam dizer que estão cansadas da vida, que querem sumir. Algumas chegam a reclamar um minuto de atenção – um pedido de socorro que precisa ser atendido naquele exato momento. Caso contrário, pode ser tarde. A família é outro importante ponto de apoio. Afinal, qualquer alteração no comportamento pode ser um sinal de alerta. Se o indivíduo ficar mais recluso, mais nervoso ou mais eufórico, se engordar ou emagrecer rapidamente, se adquirir algum tipo de compulsão ou revelar atitudes consideradas fora do padrão, deve ser observado. A psicóloga Vivian Zicker explica, porém, que tais comportamentos não indicam que a pessoa irá se matar. Apesar disso, a especialista defende a necessidade de atendimento adequado, para que haja chance de tratar a origem do(s) problema(s). “Antes de tudo, é importante fazer uma boa escuta do paciente, para diferenciar tristeza de depressão. Além disso, o único profissional a receitar antidepressivo é o psiquiatra”, destaca.

Falta de estrutura

O suicídio é a principal causa de morte violenta no mundo, com 11,4 óbitos para cada 100 mil habitantes. Com base em tal parâmetro, a média brasileira apresenta-se como relativamente baixa, com 5,8 mortes em 100 mil pessoas. No entanto, como o país é muito populoso, ocupa o 8º lugar na lista de ocorrências, em números absolutos. Dentre os 172 países que enviam notificações à Organização Mundial de Saúde, o

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Brasil figura entre os 29 que não conseguiram reduzir as mortes autoprovocadas, no período de 2000 a 2012. Apenas em 2012, o número total de registros chegou a 11,8 mil, o equivalente a 32 mortes diárias, mesmo patamar dos falecimentos decorrentes do HIV. As dimensões do problema, contudo, podem ser muito maiores. “Não conhecemos a taxa exata de mortalidade por suicídio no Brasil, pois não acredito nos dados do SUS [Sistema Único de Saúde]”, critica Humberto Corrêa, da UFMG, ao lembrar que a notificação só passou a ser obrigatória, no País, em 2014. A própria estratégia nacional de prevenção do suicídio, bastante recente, remonta a 2006. Ele destaca que, para cada suicídio consumado, são feitas, em média, outras 10 tentativas, acompanhadas, por vezes, de graves sequelas. Pessoas que já tentaram o suicídio revelam-se o principal grupo de risco de morte consumada, pois 50% serão reincidentes. “O estado deve garantir que essas pessoas tenham acompanhamento, o que, infelizmente, está longe de ocorrer”, frisa. O Ministério da Saúde afirma que tem buscado qualificar a notificação dos casos de tentativa de suicídio, conforme a Portaria 1.271/2014, a fim de melhorar a prevenção. Segundo a pasta, a publicação das Diretrizes Nacionais de Prevenção do Suicídio (Portaria 1.876/2006) e o manual dirigido aos profissionais das equipes de saúde mental, com ênfase nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), são ações ligadas à Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. As iniciativas buscam reduzir as taxas de suicídios e de tentativas, além de minorar os danos associados aos sujeitos envolvidos e ampliar a rede de suporte social e comunitária. A rede pública oferece acompanhamento psicológico e psicoterápico aos pacientes, o que inclui terapia ocupacional e assistência hospitalar. Atualmente, o País conta com 2.241 CAPs em funcionamento. O objetivo é oferecer atendimento próximo da família, além de assistência médica especializada e cuidado terapêutico conforme o quadro de saúde. Para agravos como a depressão, o SUS oferece medicamentos capazes de auxiliar o tratamento dos pacientes – como Amitriptilina, Clomipra-


mina, Fluoxetina e Nortriptilina. Quando recomendados pelo médico, os fármacos podem ser retirados gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde ou nos demais locais designados pelas secretarias de saúde dos municípios. “As emergências psiquiátricas são outro ponto frágil na rede pública de saúde mental”, aponta Neury Botega, da Unicamp. Segundo o professor, os leitos para internações dos casos graves são insuficientes. As assistências básica e ambulatorial também deixam a desejar. “Há falta de ambulatórios que possam prover bom nível de atendimento psiquiátrico, com tratamentos farmacológicos e psicoterapêuticos”, diz, ao destacar que há falhas, ainda, nos centros de atenção psicossocial. “Os CAPs foram idealizados para tratamento e reabilitação de problemas mentais como psicoses e dependência química. No entanto, mal conseguem dar conta da demanda, estão sempre superlotados e falta capacitação técnica. O atendimento a uma pessoa em crise suicida, que não esteja psicótica ou fortemente agitada, corre o risco de não acontecer”, alerta. Existe, ainda, o problema do despreparo das próprias equipes de saúde. De acordo com Vivian Zicker, as vítimas que sobrevivem e são atendidas nos serviços de emergência passam por um duplo sofrimento: as dores existencial e moral da tentativa da morte e o flagelo da agonia física.

“Esse paciente é como qualquer outro. Ele está doente e precisa de assistência e cuidado, para que seus estados físico e mental não se tornem ainda piores. Os profissionais de saúde precisam ser treinados para esse tipo de acolhimento desde a graduação”, orienta a psicóloga. O Ministério da Saúde afirma que já treinou mais de 2 mil profissionais de saúde, a maioria com atuação nos CAPs, por meio do curso de educação a distância “Atenção à crise em saúde”, que aborda tanto os temas do suicídio e da depressão. A capacitação é feita em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

a grama do vizinho

Estados de melancolia sempre existiram ao longo da história, mas, no mundo contemporâneo, ganham destaque especial, pois se inserem no contexto da ditadura da felicidade. Aquela história de que a grama do vizinho é sempre mais verde parece onipresente – e, para além da grama, comparam-se, também, as viagens, a casa, os filhos... a vida, enfim. Para Vivian Zicker, apesar de a felicidade ser diferente para cada um, um movimento interno faz com que as pessoas sintam a necessidade de parecerem contentes. “O importante é que a busca de cada um faça sentido. Se as aspirações mudam de forma muito frequente, se há constante instabilidade, é preciso observar, mas é comum os nossos valores mudarem ao longo da

apoio nunca é demais! Confira instituições, livros e um filme que podem auxiliar a quem sofre sozinho.

Para procurar

Centro de Valorização da Vida: www.cvv.org.br Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio: www.rebraps.com.br Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos: www.abrata.org.br Apoio a Perdas Irreparáveis: www.redeapi.org.br Pravida – Projeto de Apoio à Vida: www.pravidaufc.webnode.com.br

Para ler

Crise suicida – Avaliação e manejo, de Neury J. Botega (Artmed Editora) Suicídio e sua prevenção, de José Manoel O. Bertolote (Editora Unesp) Suicídio, o futuro interrompido – Guia para sobreviventes, de Paula Fontanelle (Geração Editorial) Viver é a melhor opção, de André Trigueiro (Editora Correio Fraterno)

Para ver

Elena, filme nacional com direção de Petra Costa (2012)

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vida, segundo as circunstâncias. A flexibilidade para lidar com as coisas da existência é um relevante indicador da saúde mental”, explica. Para a filósofa Flávia Resende, o homem é o único ser com consciência de sua morte. Daí a dor de existir e sua sina “prometeica” – em referência à figura de Prometeu, o Deus da mitologia grega que representa “aquele que vê antes”. Nenhum outro ser vivo antevê o próprio fim. Por isso, não sofre, não pergunta o porquê de existir e vive o eterno agora. “Entretanto, se a consciência de que somos finitos nos angustia e nos consome, a ponto de, muitas vezes, nos encontrarmos perdidos, fazendo-nos desistir da própria vida, é nesta mesma fragilidade que o homem, essencialmente, nasce. Ao perguntar-se sobre a morte, o sujeito torna-se humano, diferenciando-se dos outros seres”, reflete. Apenas o ser humano questiona o sentido da vida. Dessa forma, os indivíduos são convidados, por meio do exercício da autorreflexão, a pensar sobre as coisas que os fazem realmente felizes. Flávia aponta o questionamento como um caminho possível à busca da felicidade: “Sou feliz no meu emprego? Desejo me casar para agradar a mim mesmo ou isto é uma demanda do outro? Preciso comprar tudo o que me é oferecido? Por que sofro? Como sofro? Como aceitar minhas limitações? Quais as minhas verdadeiras possibilidades?”. Tais perguntas fazem com que as pessoas pensem. E o pensamento pode transformar ou modificar o rumo da vida. “E nos dar sentido. Às vezes, precisamos da ajuda de um amigo, dos livros, da religião, da arte, ou – por quê, não? – de um médico ou de um psicólogo”, sugere.

Terminar agora?

Um último pensamento passou pela cabeça do escritor e crítico de cinema Pablo Villaça, hoje com 41 anos, quando ele estava prestes a perder a consciência, ao tentar se matar. “Imaginei meus filhos recebendo a notícia de que o papai havia morrido”. Eis o impulso necessário para que voltasse a ficar de pé, antes de um desmaio. Quase um ano depois, ele publicou um depoimento sobre o episódio e seu

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histórico de depressão desde os 15 anos de idade, em sua página no Facebook: “O suicídio será – e busco sempre me lembrar disso – uma decisão permanente para um problema temporário”. No relato, Pablo enumera uma série de experiências que não viveria: lindos momentos com os filhos, alegres encontros com amigos ou viagens à Suécia e a Cannes. Nas redes sociais, jovens de várias partes do mundo exibem tatuagens em forma de ponto e vírgula: o sinal representa uma pausa, quando a frase – ou a vida, no caso – poderia ter sido interrompida. A iniciativa acabou se transformando em um projeto de prevenção ao suicídio, criado em 2013. Trata-se do Project Semicolon,

cujo lema, na tradução ao português, é “sua história ainda não acabou”. Sem fins lucrativos, o movimento não presta atendimento profissional, mas se propõe a servir de inspiração e de motivação a pessoas que lutam contra problemas como depressão, vício em drogas e autoflagelação. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV), única organização de prevenção ao suicídio reconhecida pelo Ministério da Saúde, oferece o Programa de Apoio Emocional. Cerca de 3 mil voluntários em todo o País atendem por telefone, chat, e-mail, VoIP, correspondência ou pessoalmente, nas unidades do CVV. Em Belo Horizonte, o centro funciona em sede própria, numa casa verde esperança, na esquina das ruas De-

“Efeito Werther” e outras histórias O francês Emile Durkheim (1858-1917) é o autor do primeiro estudo sociológico sobre o suicídio, publicado em 1897. Numa de suas obras clássicas, o pensador descreve o ato de se matar como um fenômeno social, sobreposto aos fatores individuais e psicológicos. Uma das explicações para a morte autoinfligida estaria relacionada à natureza dos laços de sociabilidade dos indivíduos. Meio século antes, Karl Marx (1818-1883) havia assinado um ensaio sobre o assunto, numa rara incursão do teórico por assuntos da vida privada. Tratava-se da tradução para o alemão das memórias de Jacques Peuchet, diretor dos Arquivos da Polícia no período da Restauração, com relatos de casos de suicídio. Mais do que simplesmente traduzir, Marx comentou os episódios e destacou sua relação com questões sociais, com destaque para a opressão feminina na sociedade daquela época. Outro pensador de origem alemã, Goethe (1749-1832) é o autor da novela, publicada em 1774, que chegou a ser proibida em diversos lugares, em razão das sucessivas mortes de jovens inspiradas no protagonista, cujo nome deu origem à expressão “efeito Werther”. Ainda hoje, ela é usada por especialistas para designar o potencial de imitação gerado por um caso de suicídio. O efeito é mais perigoso na juventude, principalmente, quando os casos que ganham repercussão envolvem celebridades, já que adolescentes costumam se identificar com os ídolos. O risco de repetição é uma das razões que fazem do assunto um tabu. Particularmente entre os jornalistas, existe uma autocensura à cobertura noticiosa de suicídios, embora não haja sequer uma linha sobre o tema no código de ética profissional. Não é verdade que falar sobre o assunto seja proibido. Prova disso é que, em 2000, a OMS organizou um manual direcionado aos meios de comunicação, reconhecendo seu papel na prevenção do suicídio, desde que a abordagem seja cuidadosa. “É muito importante falar da existência do suicídio, que é um problema de saúde pública”, afirma o psiquiatra Humberto Corrêa. “O que não deve ser feito nunca pela mídia é notificar casos particulares”, completa o pesquisador, para quem o assunto deve ser tratado de forma global e sem abordagem de detalhes sobre o que levou uma pessoa a tirar a própria vida. “Desse modo, evita-se a identificação do indivíduo e a discussão em torno dos meios usados pela vítima”, esclarece.

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sembargador Barcelos e Genebra, no bairro Nova Suíça. Qualquer pessoa que tocar a campainha em busca de ajuda será convidada a entrar em um cômodo com cadeiras dispostas frente a frente, com uma caixa de lenços na mesinha de centro e uma parede pintada com paisagem reconfortante. “Somos um pronto-socorro emocional”, resume Ordália Mendes Soares, 69,

voluntária há quase 20 anos. “Ouvimos a pessoa com sigilo e respeito. A partir do momento em que a pessoa fala, ela se ouve e percebe que tem uma saída”, conta. Em 2015, até o mês de julho, o CVV realizou 67 atendimentos presenciais na capital mineira. É pouco, ante os quase 1,5 mil telefonemas e as 4.857 ligações de retorno no

mesmo período. Também foram registradas 422 ocorrências de pessoas que ficam mudas do outro lado da linha. O atendente, neste caso, também não fala, mas aguarda até que o usuário desligue. “A pessoa que liga não está pedindo conselho”, explica Ordália. O importante, ela diz, é mostrar que quem precisa de ajuda não está sozinho naquele momento.

tuação da adoles 2011, sobre a si em O f), s. ce na ni ge (U dí ia in nc ídio entre jovens nidas para a Infâ nhecido: o suic o das Nações U co nd o al, apesar de Fu uc qu lo po o pe o o o tã nd ad bia, segu lema até en ôm ob ol pr C Relatório divulg um na e ra ru pa ção il, no Pe s, nas tribos da , chamou a aten m povos no Bras foram registrado co s, a te ad en iz in al nt cência brasileira re co , uisa dígenas. suicídio entre os ciona uma pesq pulações não in enores taxas de po m documento men m s co da o taxa de suia çã um ra ar pa rio da Saúde, a , em com a apresent té as tin is ad La in oc a M ic ov do ér pr e to ) Am a s au unai do quadro índices de morte ional do Índio (F onal. A análise es ac ci N or na ai ão ia m aç éd os nd m , a Fu ão s regi s da veze No Mato ndo informaçõe os, quase quatro ios por 100 mil. íd du ic ví di su in 1 il 10 m No Brasil, segu de 0 rié ra cada 10 s fatores, à disc exemplo, a taxa s chega a 20 pa Amazonas, por uída, dentre outro rib no es at a: el é , or cídios indígena ão es ad nt aç st tu ce su f, a si adoles é ainda mais as s. No caso dos Segundo o Unice na 6. ge a 44 dí o us in sã ca entre os jovens r as o, rr po çã te or sobre letivos na mesma prop certas culturas individuais e co de as ço um an tra av r Grosso do Sul, ao fre e s de so por esses povo us pares, além minação sofrida a situação de se ar trabalha com ud m ra pa tentes , Marina Cardoso r) ca fs (U s lo se sentem impo ar oC icídio entre . ade Federal de Sã coolismo e do su al id rs do ve to ni U en m da au al da discriminação o resultado ebeu o tropologia Soci ma social, com squisadora perc le pe ob A pr . 90 um Professora de An o 19 m de tuações da co cada frentamento a si a não era encara sde o final da dé en ic de át o , pr na a na ge ge dí de dí in on in e s saúd s tribo lização s se detede desterritoria nas, inclusive na lações indígena so ge pu es dí po in oc as pr es m çõ “O gu la al s. popu es povo ições de vida de da situação dess erado e as cond un m as re da precarização al m o lh ra ocidental, m prego ou traba emplo da cultu ta. ex la a , re , ão ca N r” ui . ta como falta de em íq do en ps ra m au ordem tá sepa icídio passou a dígena, nada es um problema de in o m so ”, er co ca iv io ui rioraram e o su un íd íq ic o ps m mal. “N o veem o su ça não é física ne en ente, como um m do ia a , Certas etnias nã . ar os ss ns di ce ve ín jo ne o, para os ente, os tão moral – e nã ógico. No fundo, ingir, principalm ol at a sm , io co es íd e çõ ic al como uma ques la su ci so conjunto de re ram as ondas de os planos físico, indivíduo em um res, contudo, fo do do há divisão entre sa rio ui líb sq ui pe eq os O eocupou e a coletividade. explica. O que pr ades de afeta a família so Is . só te erar as peculiarid id en isa. al ns do an a co ”, fic ve do se de va a ão er “N pres oblem mesmos ntamento do pr icas precisa ser munidades, nos fre óg co ol en s o sm na , co al os e ci di s so ín ai dos soci ocê só Psicos doso, no caso e dos rituais. “V entros de Apoio at C r sg ta re o an pl o, pl im Para Marina Car o, l, em r exempl rtância do ritua ternativa, por ex um equívoco, po s. Essa é a impo propõe, como al do a to El e r nt e. po se ad a cada etnia. Seria e id lid qu nd ua são do ser ente de atenção da at dade de expres a, e que possa ili ib tiv le ss de co po a ou moldes da rede em m o ag te ic e gu ocesso terapêut ssa comunidad mento numa lin para qualquer pr uer indivíduo de explica seu sofri lq ca si ua Q bá e. ão ad nç id fu tiv a é a cole linguagem. Isso que congrega um r meio daquela po o id nd ee pr e de ser com cura”, completa.

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morte nas tr

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entrevista

Conversa infinita A pesquisadora Maria Aparecida Moura analisa os ambientes digitais colaborativos e comenta os efeitos das novas tecnologias da informação na produção científica Camila Alves Mantovani Marina Mendes Maurício Guilherme Silva Jr.

Professora titular da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria Aparecida Moura dedica-se a amplo escopo de interesses, da semiótica aplicada aos estudos informacionais à investigação das mediações e aplicações em ambientes digitais colaborativos. Graduada em Biblioteconomia pela UFMG, ela é pós-doutora em Semiótica Cognitiva e Novas Mídias pela Maison de Sciences de l’ Homme. À frente da Coordenadoria de Políticas de Inclusão Informacional da universidade mineira entre 2010 e 2014, a pesquisadora coordena, atualmente, a Diretoria de Governança Informacional (DGI) da instituição, onde também é responsável pelo cumprimento da Lei de Acesso à Informação (LAI) e pela Ouvidoria Geral. Do ponto de vista acadêmico, dirige o Núcleo de Estudos das Mediações e Usos Sociais dos Saberes e Informações em Ambientes Digitais (Nemusad) e é professora dos programas de pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI) e em Comunicação Social (PPGCOM) da UFMG. Com mais de 50 artigos publicados em períodos nacionais e internacionais, escreveu, dentre outros, os livros A construção social do acesso público à informação no Brasil:

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contexto, historicidade e repercussões e Cultura informacional e liderança comunitária: concepções e práticas. Nesta entrevista, Maria Aparecida Moura discute os ambientes colaborativos e as implicações sociais das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). No que se refere ao atual compartilhamento de informações – principalmente, no campo da produção científica –, de que modo definir a ideia de “colaboração”? Ambientes colaborativos são estruturas digitais que permitem dinamizar o uso e a recuperação de informações, assim como a identificação de pesquisadores – prováveis parceiros, na verdade – para o desenvolvimento de determinado estudo. Tais ambientes trabalham com a ideia de “densidade informacional”, no sentido de que, ali, eu consigo extrair um conjunto de informações que me permitirão desenvolver, mais adequadamente, o meu trabalho. Ou, de outro modo, que me farão identificar pessoas que venham, por exemplo, a ser conferencistas em minha universidade. Não é possível enquadrar a ideia de colaboração. A cada momento, surgem novas ferramentas, que, anteriormente, não estavam “repertoriadas” como mecanismo de

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mediação colaborativa. É o uso social que nos permitirá defini-la assim. Tais ambientes colaborativos têm proporcionado maior proximidade entre os cidadãos e a produção científica? Em primeiro lugar, é impossível dizer que, no campo científico, não exista colaboração. Nossa atividade é fomentada e estimulada de maneira colaborativa, dos editais à dinâmica de estruturação de laboratórios e grupos de pesquisa. Há o pressuposto de que a ciência não caminha de modo individual. Não se trata da imagem do pesquisador, sozinho, no laboratório, a desenvolver o seu trabalho. Ele precisa de parcerias que se iniciam na indagação – nascida, às vezes, a partir de um iniciante, ou, em outras ocasiões, de um colega bastante especializado –, que estimulará as questões propostas na pesquisa e fará avançar o processo. Colaboração diz respeito à ideia de construção coletiva do conhecimento, considerando que, nesse contexto, há múltiplas competências e múltiplos olhares – os quais, aliás, irão contribuir para a construção de uma ciência que contemple múltiplos horizontes. Quando a FAPEMIG ou o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnoló-


Arquivo pessoal

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Não é possível enquadrar a ideia de colaboração. A cada momento, surgem novas ferramentas, que, anteriormente, não estavam “repertoriadas” como mecanismo de mediação colaborativa. É o uso social que nos permitirá defini-la assim.

gico] desenvolvem um edital, estão sempre pondo em questão como serão difundidos os resultados de determinada pesquisa, de que maneira se formam outros pesquisadores e de que modo haverá colaboração entre pesquisadores do Brasil e do exterior. O pressuposto da colaboração é importante por uma questão de escala – tanto de trabalho quanto econômica –, mas, também, por poder fomentar curiosidades e indagações científicas. Em dado momento, afinal, pode haver esgotamento da reflexão ou da capacidade reflexiva do pesquisador. Em ocasiões assim, um orientando, ou algum de seus colaboradores, pode instigá-lo a ampliar o olhar e permitir que a pesquisa alcance novos patamares. Hoje, temos mais ferramental para explicitar a colaboração. Os processos colaborativos sempre existiram, mas, em certos casos, a ciência estava calcada no “gênio” – o pesquisador que indaga – e o backstage daquela pesquisa não aparecia, necessariamente. Hoje, com a hipervisibilidade de tudo, o que inclui o próprio fazer científico, temos mais ferramentais. Ao final de um artigo, por exemplo, há o e-mail do pesquisador, a quem posso encaminhar mensagens, pedir detalhes da pesquisa, conversar. Estabelecer, enfim, uma colaboração, mesmo que não presencialmente. É possível, ainda, que se produza um livro, um experimento ou uma pesquisa por pessoas que estão na África, na Alemanha e no Brasil, sem que o contato físico seja agregador dessa colaboração. Para tal, há necessidade de ferramentas capazes de estimular ações conjuntas... Sim! Os ambientes colaborativos permitem materializar e dinamizar a colaboração. Afinal, podem chamar a atenção das pessoas para determinado perfil de pesquisador e/ou de pesquisa. Permitem, assim, que as pessoas colaborem e se apropriem das informações e dos instrumentos ali disponibilizados. É claro que tais ambientes reproduzem, cada vez mais, as formas habituais de comunicação e de

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busca de recuperação e representação da informação. Como exemplo, cito a ferramenta Academia.edu, uma espécie de rede social dos cientistas. Nela, estão meu perfil, meus temas de interesse, os artigos que publiquei e os textos que ando lendo. É possível, ao usuário, desenvolver certa “traçabilidade”, ou, em outros termos, realizar um desenho do que penso para escrever uma questão ou apresentar um paper em determinado evento. Passo a conhecer de onde a pessoa é, a qual departamento pertence, quem a segue e os indivíduos seguidos por ela. Trata-se, enfim, de uma rede social, mas adaptada e estruturada aos interesses do que o pesquisador apresenta em dado momento. De todo modo, ainda há resistência da comunidade científica em compartilhar dados e estudos? Há mais tempo, os pesquisadores tinham bastante dificuldade em compartilhar ou oferecer os conteúdos e resultados de suas pesquisas em ambientes digitais. Nos últimos dez anos, porém, houve investimento público para que a sociedade brasileira tivesse acesso mais franqueado a tais meios. Faz parte disso uma política recente do governo federal de baratear os notebooks. Trata-se, enfim, de investimentos estritamente vinculados ao acesso ao bem. Associado a isso, tivemos o barateamento de um dispositivo importante, o smartphone, que franqueou o acesso a várias coisas. A pessoa baixa um aplicativo, dinamiza sua atividade bancária, pode comprar comida, ler uma revista. Enfim, é um dispositivo multifuncional, que abriu o olhar das pessoas a lidar com a informação sobre si e sobre os outros ao longo do tempo. É claro que, no meio disso tudo, há voyeurismo, fofoca e muita informação de baixa qualidade. Em um primeiro momento, esperava-se a ampliação das competências do sujeito em diversas áreas. Tivemos grande investimento, por exemplo, para que a terceira idade e as crianças pudessem desenvolver competências – iniciativa


associada ao acesso e ao uso da informação. Confesso, porém, não gostar muito da ideia de “competência”. Faz parte desse pacote criar uma espécie de cultura informacional, associada ao uso dos meios digitais. Isso está delineado nas políticas desenvolvidas, nos últimos doze anos, por distintos governos, nos âmbitos municipal, estadual e nacional. Temos, por exemplo, o Comitê Gestor da Internet (CGI), que realiza um conjunto de atividades. Destaque, ainda, para as ONGs que desenvolvem competências voltadas aos contextos digitais. Além disso, há que se ressaltar a importância da ocupação do espaço digital com conteúdo distinto daquele disponibilizado pela grande mídia. Desse modo, percebem-se, nos últimos anos, fortes movimentos sociais estruturados e realizados com o auxílio dessas mediações. Inicialmente, investiu-se no acesso e na compreensão dos meios (“Para que servem?”), além da subversão das funções originais. A partir de então, as pessoas passam a fazer uso alargado das ferramentas ou experimentam novas formas de lidar com elas. Por vezes, apostamos na característica democrática dos meios. O espanto geral – de toda a população, e não apenas dos pesquisadores – foi perceber o quão invasivo esses meios são e como eles criam uma espécie de panóptico da vida, capaz de integrar informações sobre governos e escolhas políticas. Há aí, também, um aspecto para o qual devemos nos atentar: a gente começa a perceber, por exemplo, que, no futuro, uma guerra será pautada por informações apropriadas, tanto lícita quanto ilicitamente. Mataremos pessoas – e suas informações – digitalmente. Podemos, afinal, nos apropriar dessas informações e chantagear os indivíduos. O céu é o limite para o que pode vir a acontecer. Os governos, portanto, têm muitos desafios pela frente. Ao pensarmos em tais expansões, creio que tudo deva estar associado à

competência dos governos em chamar o problema para si, em termos de autonomia, ou da soberania que precisará ser exercida. O que começa a acontecer agora é o amadurecimento das pessoas em relação à força de suas informações e à maneira como podem ser usadas a favor – ou mesmo contra os grupos. Antes, víamos conexão entre uma coisa e outra. Hoje, não. Quando se entra no Facebook, por exemplo, a empresa sabe que, em uma ferramenta de busca, você pesquisou detalhes acerca da viagem a determinado país. De repente, aquela ferramenta começa a te oferecer pacotes de viagens, aluguéis de carros e hotel etc. As pessoas começam, então, a falar que há integração entre tudo. A densidade do conjunto de informações sobre os sujeitos é pertinente, mas põe em risco, ao mesmo tempo, a soberania de um país. Umberto Eco comentou, recentemente, que as mídias digitais deram voz a uma “legião de imbecis”, que, em outros tempos, falava “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Qual sua opinião acerca da indiscriminada opinião hoje disseminada por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs)? Na verdade, o questionamento a respeito dessa provável legião de imbecis é fomentado de parte a parte. Em um primeiro momento, as tecnologias permitiam que eu assumisse, no contexto digital, um avatar. Certas pessoas, então, disseminavam o ódio e emitiam opiniões não hegemônicas, não aceitas no contexto da sociedade e dos estados nacionais. Com o passar do tempo, torna-se possível rastrear o CPF da pessoa responsável por emitir aquela opinião. Esse foi o primeiro momento, quando as pessoas se achavam livres para fazer o que bem entendiam. Nesse período, vimos serem incluídas, na web, várias discussões e elementos complexos no tratamento da sociedade. Claro que isso era possível por meio do

monitoramento do IP da máquina. Hoje, continuamos a realizar tal procedimento, mas, cada vez mais, associamos um conjunto de opiniões e de informações a uma pessoa que vive na rua tal, no bairro tal, no lugar tal. Cada vez mais, esses instrumentos ganham densidade, de modo a permitir que o sujeito seja rastreado. Acho um pouco estranho quando as pessoas dizem: “Não tem como rastrear tudo isso”. Percebemos que há pouco investimento, nas delegacias, de inteligências de estado ou de segurança pública que possam monitorar essas práticas. Há ferramental para isso. Faltam, na verdade, formação e vontade política. O boom da presença dos múltiplos falares na web ocorreu, principalmente, durante a eleição de Obama, nos EUA, quando se percebeu a força do acesso público e da presença desses sujeitos na internet, com a viralização do apelo, da colaboração e da campanha. O poder público nacional, então, começou a tentar profissionalizar tudo isso, mas não de modo a, necessariamente, ampliar ou capilarizar a cidadania digital. Começou a haver a profissionalização de pessoas que produziam tweets fakes para criar uma ambiência, uma pseudo-opinião pública em relação a determinado tema. Hoje, percebemos que as pessoas que falavam ou emitiam determinadas opiniões vão, agora, para a rua e emitem essa mesma opinião, mostrando seu rosto e sua “ignorância” a respeito de determinados fatos. O grande problema foi – ou “tem sido” – o fato de que, com o tempo, as pessoas começaram a ler cada vez menos, inclusive, os posts publicados. Como as redes sociais estão calcadas em uma rede de informações interpessoais, na medida em que um amigo disponibiliza um conteúdo, eu leio o lead da notícia e falo: “Se meu colega postou, só pode ser interessante”. E compartilho, sem conhecer o conteúdo totalmente. Desse modo, geramos, construímos e pautamos uma opinião. Resultado? O que temos presenciado por aí: mortes e violência pautadas na emissão de opiniões rasas.

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Gestão Pública

Pesquisa estuda a trajetória recente das unidades prisionais em Minas Gerais, a partir das políticas de gestão carcerária e seus agentes

Camila Alves Mantovani

*A lei é dura, mas é a lei 16

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Dentre as muitas questões que, atualmente, mobilizam a sociedade brasileira em busca de soluções, a violência se revela um grande desafio às políticas de segurança pública urbana no País. A temática é bastante complexa e parece ter criado uma espécie de cisão entre os indivíduos: de um lado, há os “cidadãos de bem”, de outro, os criminosos, que devem ser excluídos do convívio social. No que concerne à última observação, segundo o International Centre for Prison Studies (ICPS) – centro de referência em dados sobre encarceramento mundial e, atualmente, vinculado ao Institute for Criminal Policy Research da Universidade de Londres –, o Brasil ocupa, em números absolutos, o 4o lugar no ranking mundial de população carcerária. Segundo estudos divulgados pelo ICPS, há tendência para o aumento das taxas de encarceramento, não só no País, mas em todo o mundo. No entanto, mesmo com o aumento do número de prisões, os índices de violência não apresentam diminuição proporcional. Ou seja, a detenção como pena para aqueles que infringem a lei não tem gerado o efeito social esperado: a prevenção e a diminuição da brutalidade. Diante de tal quebra-cabeça, diversos estudos têm buscado compreender o fenômeno. Dentre eles, destaque para a pesquisa “Trajetória recente da política carcerária em Minas Gerais”, coordenada pelo professor Marcus Vinícius Gonçalves da Cruz, da Fundação João Pinheiro (FJP). Como forma de investigar os processos de gestão em organizações complexas – com destaque para as entidades públicas, cujas dinâmicas podem garantir suporte a ações e iniciativas sociais mais efetivas –, o pesquisador optou pela análise da política carcerária em Minas Gerais, tendo por base a percepção coletiva dos operadores do sistema e seus dirigentes. Integrante do Núcleo de Estudos de Segurança Pública da Fundação João Pinheiro, desde 2000, o pesquisador tem realizado pesquisas com foco nas diversas organizações do sistema de justiça: organizações policiais (militar e civil), Ministério Público, Justiça e sistema prisional.

No caso específico das unidades prisionais e de seu sistema de gestão, Marcus Vinícius aponta como motivação para o estudo o aumento exponencial do número de presos em Minas Gerais nos últimos anos, o que resultou na superlotação das unidades prisionais. Tal fato gera consequências bastante ruins, não só para o sistema em si, mas, principalmente, para os indivíduos que ali se encontram: trabalhadores do sistema e detentos. “Minas Gerais é o estado que mais cresceu em número de presos nos últimos anos, ainda que isso não tenha efeito direto na diminuição da criminalidade. O cenário se revela muito instigante para o pesquisador, pois já nos diz que prender não é a solução para o problema da violência”, esclarece.

Procedimentos em revista

Ao estudar as unidades prisionais, Marcus Vinícius destaca as dificuldades para realização das observações de campo. Os problemas estão relatados na maioria dos estudos nacionais e internacionais. Neste caso, contudo, os obstáculos acabaram por orientar o recorte empírico da pesquisa: diante da complexidade de análise do universo prisional, optou-se por estudar a política carcerária, ao invés do indivíduo preso. Apesar disso, segundo o pesquisador, a opção metodológica de estudar a gestão e os trabalhadores do sistema (agentes, funcionários técnico-administrativos, médicos, dentre outros) também culminou com diversas exigências ao processo de pesquisa. “Tivemos todo o cuidado, nas várias visitas, em seguir à risca os protocolos de pesquisa internacionais. Ou seja, não queríamos ter qualquer tipo de contato evasivo com o preso e suas famílias, ou mesmo com os empregados do sistema, como guardas e agentes”, explica o coordenador. Além disso, o projeto seguiu os protocolos e as dinâmicas relacionadas às normas de segurança do local, como os procedimentos de revista. “Também nunca visitávamos galerias na hora do almoço, e, nos dias de visita, não fazíamos o trabalho. Também não levávamos celular e não podíamos usar gravador. Daí as notações MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2015

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de campo. Quando gravávamos, era, geralmente, fora da unidade, ou em circunstâncias muito específicas”, conta. Ao todo, foram realizadas 38 entrevistas e 28 visitas a unidades prisionais em todo o Estado, de 2010 a 2014. Além disso, para compreender as dinâmicas da política prisional em Minas Gerais – que, segundo o pesquisador, passou por muitas transformações, desde o final da década de 1990 até hoje –, realizou-se consulta a especialistas que participaram, junto aos pesquisadores, de reuniões para discussões teórico-metodológicas mais aprofundadas. Dentre os resultados obtidos, o professor aponta, primeiramente, o tamanho do sistema, que sai de poucas unidades, no início dos anos 2000, para mais de cem, em 2014. O aumento do número de presídios exigiu ampliação significativa do aparato de gestão, dos funcionários à própria infraestrutura. Em termos nacionais, Marcus Vinícius destaca que, com quase 60 mil presos, em meados de 2015, Minas já é o segundo maior sistema prisional do País, atrás apenas de São Paulo. Sobre a característica da população carcerária no Estado, a pesquisa apresenta um dado importante: 60% desse universo é composto por presos provisórios, ou seja, por aqueles que ainda aguardam julgamento. “São pessoas que não tiveram a oportunidade de estar diante de um juiz, para que haja um parecer sobre o caso. Muitas vezes, quando existem decisões, a pena a que os sujeitos são subjugados é inferior ao tempo em que já ficaram presos. Depois disso, as pessoas são liberadas imediatamente, sob pena de o estado ter que responder por tê-las mantido presas mais tempo do que o necessário”, elucida. Outra contribuição importante do estudo é a revelação dos impactos da superlotação dos presídios, tanto para os sujeitos do sistema quanto para a sociedade. No caso dos presidiários, a superlotação provoca a degradação do indivíduo, e, assim, acaba por barrar seu objetivo final: a ressocialização por meio do trabalho, da educação, da assistência à saúde, da assistência jurídica e do suporte à família.

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Do ponto de vista dos agentes, além da tensão provocada pelo excesso de presos, com a superlotação, não é possível à unidade prisional funcionar de maneira adequada. “Não se consegue levar o preso para estudar e trabalhar. As visitas tornam-se mais restritas. Tudo fica mais complicado, pois não há como suprir o número de guardas prisionais na mesma medida do número de presos. Tal desequilíbrio é problemático não só pelas questões já ditas, mas, também, pela necessidade de tempo para treinamento, pela realização de processos de recrutamento e pela seleção mais adequada dos agentes prisionais. Nesse aspecto, a superlotação apresenta problemas de gestão muito sérios e que se avolumam”, analisa. Marcus Vinícius ainda aponta a sobrecarga da infraestrutura local, pois, se uma unidade prisional foi projetada para abrigar um número X de presos, e, de repente, reúne três vezes esse volume, há grande desgaste, não apenas da unidade em si, mas, também, da própria região onde ela se encontra. Segundo o pesquisador, os fenômenos de aprisionamento têm dimensões pouco visíveis à sociedade. Em relação a isso, é vital que a pesquisa chame a atenção, pois a superlotação tem efeitos no indivíduo preso, em sua família e nos processos que levam à ressocialização.

medidas alternativas

A partir dos estudos, fica claro que os fenômenos ligados à administração carcerária precisam ser avaliados sob outra ótica. A rápida expansão do sistema prisional, a superlotação e a consequente dificuldade em promover a ressocialização são importantes achados da pesquisa. Na perspectiva do Estado, Marcus Vinícius acredita que a política carcerária precisa ser repensada. Dentre as alternativas possíveis – que não estão no escopo da pesquisa, mas são indicativos importantes –, o coordenador salienta os mecanismos de cogestão, por meio da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (APAC) e de parcerias público-privadas. “Sobre esse último aspecto, iniciamos estudos e


Ao atuar de forma integrada com o poder judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública, a Ceapa busca construir uma execução penal eficiente, justa e humanitária. Suas ações consistem em monitorar e acompanhar a execução das penas restritivas de direito, as transações penais e a suspensão condicional do processo no Estado. De acordo com informações divulgadas no site defesasocial.mg.gov. br, a Central integra a Política de Prevenção Social da Criminalidade. Portanto, além de fornecer suporte a quem já cometeu crimes, busca promover ações e projetos que minimizem os fatores de risco e contribuam para diminuição da violência e da criminalidade.

sondagens para entender melhor os impactos”, acrescenta. O pesquisador aponta, ainda, as alternativas penais – a exemplo das tornozeleiras eletrônicas – e os processos de reintegração do preso à sociedade, iniciativas realizadas pela Central de Acompanhamento de Penas e Medidas Alternativas (Ceapa), em Minas Gerais, como menos onerosos e de maior efetividade. “Tivemos a oportunidade de acompanhar o trabalho da Ceapa e vimos que os programas de inserção via trabalho e o retorno à família são muito importantes, ainda que sejam menos visíveis e recebam poucos investimentos”, aponta. Quanto ao sistema prisional em Minas Gerais, Marcus Vinícius salienta que, em 2010, foi possível perceber melhoria na política carcerária. Entretanto, a manutenção do sistema necessita de investimento ainda maior, com procedimentos operacionais padronizados, qualificação de pes-

soal e suporte aos indivíduos. No âmbito do Estado, Marcus Vinícius Gonçalves da Cruz também destaca ações que buscam humanizar o tratamento aos detentos, como a criação de uma unidade prisional para atender as mulheres grávidas. Em tal unidade, localizada em Vespasiano (MG), o atendimento especializado é de referência e as guardas policiais são auxiliares de enfermagem. Além disso, há alas especiais para o público LGBT. Diante do cenário atual, o pesquisador acredita que o ponto principal está no investimento em políticas públicas voltadas à diminuição do aprisionamento. “Com mais unidades e vagas, haverá mais presos. Esse, porém, não é o melhor caminho. Nossa experiência tem nos mostrado que a solução, além das alternativas penais – tornozeleira, formas de controle social etc. –, está em tirar o foco do sistema prisional, para pensar a justiça como um todo”, conclui.

PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: Trajetória recente da política carcerária em Minas Gerais CooRdEnAdoR: Marcus Vinícius Gonçalves da Cruz inSTiTuição: Fundação João Pinheiro EdiTAl: Universal VAloR: R$ 29.004,90

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parasitologia

Guardiões da limpeza Pesquisadores da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri analisam efeitos sociais das enteroparasitoses em tradicional comunidade mineira Vivian Teixeira

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Quartel do Indaiá é uma comunidade quilombola situada no distrito de São João da Chapada, município de Diamantina (MG), no Alto Jequitinhonha. Conhecida por suas histórias fantásticas, relacionadas aos tempos dos diamantes, e pelas festas populares, a região também foi retratada no documentário Terra deu, terra come, filmado, em 2010, por Rodrigo Siqueira. Para além da marcante vocação cultural, Quartel do Indaiá apresentou-se como foco de importante projeto de extensão em interface com a pesquisa, financiado pela FAPEMIG, que possibilitou ação participativa para a promoção da saúde e o controle de doenças parasitárias. O trabalho começou em 2008, quando Nadja Maria Gomes Murta, professora da Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde (FCBS) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), desenvolveu parte de sua investigação de doutorado em segurança alimentar na comunidade. À época, além de ser constatada desnutrição grave na população, observaram-se deficiências relacionadas ao saneamento ambiental, principalmente, no que se referia ao abastecimento e consumo de água e à destinação dos dejetos. Três anos depois, desenvolveu-se outro trabalho na comunidade, intitulado “Enteroparasitoses no contexto de uma população quilombola”. Segundo Herton Helder Rocha Pires, professor de Parasitologia do Departamento de Farmácia da UFVJM e coorientador do projeto, a iniciativa permitiu que se fizesse um levantamento mais abrangente sobre as condições de moradia, com visitas periódicas à comunidade. Desse modo, investigou-se, também, a ocorrência histórica de parasitoses, com base nos prontuários da equipe de Estratégia de Saúde da Família que atende Quartel do Indaiá. “Nessa oportunidade, por meio de diagnóstico situacional, constatou-se que mais da metade das casas não dispunha de banheiros e que a totalidade dos dejetos era lançada no ambiente, tanto nos quintais, em fossas rudimentares, quanto diretamente nos dois cursos d’água que circundam a comunidade”, explica Herton. No levantamento, verificou-se a recorrên-

cia de parasitismos intestinais, principalmente, por lombrigas (Ascaris lumbricoides). De posse dos dados, e durante as idas e vindas pelo trajeto de cerca de 40 km de rodovia não pavimentada entre Diamantina e a comunidade, os pesquisadores alimentaram inquietações sobre como desenvolver um trabalho que pudesse, realmente, melhorar a vida das pessoas de forma mais objetiva. A partir daí, passaram a integrar a equipe os professores Rosana Passos Cambraia, líder do grupo Grupo de Extensão e Pesquisa em Saúde Coletiva (Jequi), Helen Rodrigues Martins, do Laboratório de Doenças Parasitárias da FCBS/UFVJM, Marivaldo Aparecido de Carvalho, antropólogo da FCBS/UFVJM, além do técnico e doutorando João Victor Leite Dias, ligado ao Laboratório de Bioquímica da FCBS/UFVJM.

Etapas

Para desenvolvimento do trabalho, utilizou-se metodologia composta de cinco etapas: inquérito coproparasitológico, com coleta de material para realização de exames parasitológicos, detecção das fontes de contaminação por enteroparasitas em água de consumo e alimentos cultivados nos arredores das residências (peridomicílios), estruturação da rede de abastecimento e esgotamento sanitário nas residências – o que incluiu a construção de banheiros –, problematização e propostas para controle das doenças parasitárias, com realização do “Dia da Saúde” e de atividades lúdicas e projeções, e avaliação do impacto das ações propostas no projeto sobre a incidência das enteroparasitoses. De acordo com Rosana Cambraia, realizaram-se visitas domiciliares a todas as famílias da comunidade, com o intuito de informar os objetivos e as etapas de desenvolvimento do projeto. “É importante destacar que, posteriormente, todas as demais informações eram comunicadas às lideranças da comunidade, que as repassavam aos moradores. A pesquisa também foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFVJM”, esclarece. A pesquisadora Najda Murta ressalta que o modelo de fossa séptica adotado pelo projeto é o difundido pela Empresa

Segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia, as parasitoses intestinais constituem grave problema de saúde pública em países em desenvolvimento. Associando-se a quadros de diarreia crônica e desnutrição, representam um dos principais fatores debilitantes da população. A incidência de parasitas intestinais tem relação direta com as condições ambientais, higiênicas e sanitárias às quais os indivíduos estão submetidos. Em crianças de comunidades carentes, o problema é especialmente grave, por causar déficits orgânicos severos, com ampliação da mortalidade e prejuízos ao desenvolvimento físico e intelectual dos pequenos.

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Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para comunidades rurais, que usa recipientes – bombonas plásticas azuis reutilizadas – onde ocorrem as reações de decomposição do material fecal, com liberação de compostos inócuos ao ambiente, levando à redução da contaminação por parasitos nos peridomicílios. “Para o funcionamento das fossas, é necessária a separação dos dejetos dos excrementos das águas de banho e pia, pois a presença de sabão mata as bactérias que degradam a matéria orgânica – as fezes. Além das famílias que iriam construir seus banheiros, foram previstas fossas àquelas que apresentavam esgotamento exclusivo para o vaso sanitário”. Morador da comunidade que participou diretamente da construção das fossas, Wilson das Mercês Costa acredita que o trabalho foi positivo, pois evitou que os dejetos continuassem a ser despejados no rio e contribuiu para a saúde dos moradores. “Nossa comunidade é como uma família, por isso fizemos o trabalho. Ensinei a montagem da fossa a quem quis aprender. Ainda temos algumas para montar, mas é preciso que os donos das casas criem, primeiramente, as estruturas dos banheiros”, afirma. Além da equipe de pesquisadores e dos moradores da comunidade, o projeto teve o apoio de três voluntários, que atuaram em frentes de trabalho distintas, como atendimento médico, serviços de engenharia e de mestre de obras. Um deles é Bernat Vinolas, engenheiro civil e professor visitante da UFVJM, que participa do

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grupo desde 2014. De acordo com ele, por meio de um projeto ligado à construção de banheiros, identificaram-se necessidades habitacionais e de infraestrutura básica para melhorar as condições de saúde das pessoas das comunidades rurais. Assim, para compreender melhor a realidade da região, Bernat acompanhou diversas vezes a equipe. “A experiência foi ótima. Conheci uma realidade bem diferente da que existe em meu país de origem, a Espanha. Pude observar, por exemplo, o modo de viver das pessoas da comunidade, a quantidade de recursos naturais existentes, a falta de serviços resultante da grande distância em relação aos centros urbanos e a carência de transporte público e privado”, destaca. Para o pesquisador, a experiência e o relacionamento com os pesquisadores e colaboradores do projeto permitiram o desenvolvimento de outro trabalho ligado ao programa de mestrado Saúde, Sociedade e Ambiente (Sasa) da UFVJM, apresentado no edital nº 08/2014 do Ciência sem Fronteiras, sob o título de “Desenvolvimento de construções sustentáveis e saudáveis em comunidades rurais”.

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“Casa da Universidade”

Rosana Cambraia explica que o projeto inicial previa a construção de banheiros e fossas por meio de mutirão, mas, devido à dificuldade de participação de alguns moradores, cada família recebeu o material para realizar o trabalho por conta própria, com orientação e acompanhamento dos pesquisadores no que se refere à implantação adequada das fossas sépticas. “O trabalho em conjunto foi a principal dificuldade encontrada, embora, pontualmente, tenha havido parceria estabelecida entre membros da comunidade”, detalha. Outra dificuldade encontrada relaciona-se à construção das fossas. Em certos casos, não se conseguiu sensibilizar a família sobre a importância do modelo proposto. Isso foi percebido pelo grupo como uma dificuldade própria dos trabalhos comunitários, que demandam tempo para serem absorvidos localmente, e para que seja possível observar mudanças satisfatórias de comportamento com relação a autocuidado, higiene e saneamento ambiental. Mesmo com os imprevistos, o projeto gerou resultados bastante satisfatórios, como os diagnósticos das parasitoses intestinais

entre os moradores e em amostras de solos e verduras, a realização de exames bacteriológicos em amostras de água, a conscientização da comunidade sobre as formas de transmissão e prevenção das parasitoses e a realização do repasse de material para construção de banheiros e fossas sépticas. Durante a execução do trabalho, parte do grupo manteve um imóvel alugado, pago com recursos dos próprios pesquisadores. “A casa serviu como alojamento da equipe e local de desenvolvimento de ações educativas, armazenamento dos materiais e outras necessidades. O espaço tornou-se referência para a comunidade, que a denominava, afetivamente, de ‘Casa da Universidade’”, conta Nadja Murta. De acordo com a pesquisadora, outras atividades também foram ali desenvolvidas. Em dois momentos, sob coordenação da dentista Telma Geralda Câmara e da Técnica de Enfermagem Creusa Miranda da UFVJM, realizaram-se ações de educação em saúde, em conjunto com os estudantes do curso de Odontologia. “Foram feitos novos exames para avaliar os impactos das ações na saúde dos moradores e os resultados já estão em fase de análise”, conclui Nadja.

Participação da FAPEMIG Projeto: Ação participativa para promoção da saúde e controle de doenças parasitárias em comunidade tradicional Coordenadores: Rosana Passos Cambraia e Herton Helder Rocha Pires Instituição: Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) Edital: Projetos de Extensão em Interface com a Pesquisa Valor: R$ 36.698,00

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psicologia

Casais excepcionais Estudo revela que pais e mães podem fortalecer relação conjugal em prol de filhos com síndrome de Down Alessandra Ribeiro Kazimoto

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Ter um filho muda a rotina do casal e, não raro, desencadeia crises, já que o tempo antes dedicado à relação conjugal precisará ser dividido com o novo integrante da casa, que, aliás, requer muita atenção. O desgaste, portanto, parece inevitável, embora possa ser contornado: à medida que o rebento cresce, a família, em geral, se adapta às novas rotinas. Para além de tais dificuldades dos clãs em formação, o que dizer das decisões e dos sentimentos no caso de o filho apresentar deficiência intelectual? Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) buscou avaliar, justamente, a qualidade do relacionamento entre pais e mães de crianças com síndrome de Down. A escassez de trabalhos sobre o tema no Brasil e a necessidade de compreender mais profundamente tais dinâmicas familiares serviram de estímulo à proposta dos especialistas. “Os dados gerados a partir desse estudo, bem como de outros, têm subsidiado o planejamento de projetos de extensão dirigidos às famílias. É importante dar suporte, considerando as demandas específicas da criação de filhos com necessidades especiais”, afirma Nara Liana Pereira Silva, coordenadora do projeto, que conta com apoio da FAPEMIG. Estudos na área da Psicologia, citados na pesquisa, mostram que ter um filho com deficiência intelectual gera sentimentos de ansiedade e incerteza, ligados a fatores como a sobrevivência e o desenvolvimento da criança, o cuidado em longo prazo e os impactos na vida dos responsáveis – dos sociais aos financeiros. Neste contexto, os objetivos da investigação eram identificar sintomas de estresse nos casais e analisar as relações conjugais. Da iniciativa, participaram 19 famílias moradoras de Juiz de Fora, compostas por mãe, pai e dois filhos, em média – um deles portador de síndrome de Down. A faixa etária das crianças era de quatro a dez anos, enquanto a dos pais revelava-se acima de 40 anos, com tempo médio de convivência de 16 anos. Maridos e esposas foram submetidos a entrevistas e responderam, separadamente, a questionários – dentre os quais, a Escala de Ajustamento Diádico (EAD), teste específico sobre o relacionamento conjugal.

Uma das perguntas da EAD diz respeito ao grau de satisfação com o relacionamento. As respostas variam entre “extremamente infeliz”, “bastante infeliz”, “um pouco infeliz”, “feliz”, “muito feliz”, “extremamente feliz” e “perfeito”. A análise dos resultados apontou para relações conjugais caracterizadas por coesão, satisfação, consenso e expressão de afeto, superior à média do chamado índice de ajustamento diádico. Afinal, a maioria dos casais respondeu que seu casamento era “feliz”. Além disso, sete pais e sete mães responderam, de forma independente, que eram “muito felizes”, enquanto um pai percebeu seu casamento como “um pouco infeliz”. Estudos anteriores, mencionados na pesquisa, já indicavam bons índices de qualidade do relacionamento entre pais de filhos com síndrome de Down, o que leva a crer que a sobrecarga de cuidados com as crianças parece não ter implicações importantes nas relações conjugais. Especialistas da área admitem que os desafios relacionados ao crescimento de um filho com necessidades especiais possam estimular a capacidade dos cônjuges em cooperar e apoiar um ao outro. Há evidências científicas, ainda, de que o casamento feliz se reflete em índices mais baixos de problemas comportamentais da criança. “O relacionamento conjugal tem sido apontado como fator preponderante para a qualidade de vida das famílias”, afirma Nara Liana.

Estresse

Nem tudo, contudo, são flores. Apesar da satisfação conjugal, quase metade dos envolvidos na pesquisa (18, do total de 38 entrevistados) apresentou sintomas de estresse: 11 mães (57,8%) e sete pais (36,8%). O instrumento usado na avaliação foi o Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL), que mede a frequência dos sintomas, identifica se eles são físicos ou psicológicos e indica a fase de estresse em que a pessoa se encontra: “alerta”, “resistência”, “quase exaustão” e “exaustão”. Dentre os diagnosticados com estresse, a maior parte (nove mães e seis pais) MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2015

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estava na fase de resistência, quando o organismo ainda está em condições de se adaptar às situações adversas. Os demais (duas mães e um pai) se encontravam em quase exaustão, ou seja, com a capacidade de adaptação e resistência do corpo comprometida e já com sinais de enfraquecimento. Os sintomas psicológicos foram os mais frequentes, tanto nos homens quanto nas mulheres, seguidos dos físicos. Houve apenas um caso de associação dos dois tipos de sinais. Uma das principais queixas reflete o contexto cultural e a realidade dos lares, em geral: a sobrecarga materna. São as mães que assumem as principais responsabilidades com o filho e a casa, da alimentação ao banho, da escola ao sono. A quantidade de tarefas desempenhadas por elas é desproporcional, independentemente de trabalharem fora. “Mesmo nas famílias com nível socioeconômico mais elevado, as mães tornam-se as maiores responsáveis”, revela a coordenadora. Isso não significa, porém, que os pais não sejam participativos. “Eles conduzem poucas ações sozinhos, mas costumam estar inseridos em atividades junto à mãe ou a outros membros da família”, conclui. Estudo publicado no Journal of Intellectual Disability Research, publicação da Asso-

ciação Internacional de Pesquisa Científica das Deficiências Intelectual e do Desenvolvimento (IASSID), em 2006, focou no estresse das mães de crianças com síndrome de Down. Níveis mais baixos de estresse materno estavam associados a menores taxas de comportamentos desajustados e ao desenvolvimento cognitivo-linguístico mais avançado nos filhos. Eis o indício de que a evolução dos pequenos tem relação direta e indireta com a saúde mental e física de suas mães. Ao mesmo tempo, a severidade da deficiência das crianças interfere nos níveis de estresse parental. Quanto maiores a dependência, as necessidades de cuidado, os problemas de comportamento e a limitação de capacidade de comunicação das crianças, maior será o estresse dos pais – que também são afetados por fatores como satisfação com os profissionais que atendem os filhos, apoio de familiares e outros colaboradores e a já mencionada satisfação conjugal. Apesar de não haver diagnóstico de estresse em fase de exaustão entre os participantes da pesquisa, todos os que apresentaram algum sintoma, mesmo na fase de resistência, foram orientados quanto aos riscos para a saúde e encaminhados a atendimento no Centro de Psicologia Aplicada da UFJF.

Participação da FAPEMIG Projeto: Estresse Parental, Qualidade das Relações Maritais e Desenvolvimento de Crianças com Síndrome de Down Coordenadora: Nara Liana Pereira Silva Instituição: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Edital: Universal Valor: R$ 12.139,77

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epidemiologia

Dados coletados pela Fundação Oswaldo Cruz, em Minas Gerais, auxiliam planejamento de políticas públicas para controle e prevenção da leishmaniose na Serra do Cipó Tatiana Pires Nepomuceno

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Quem já não viveu a situação ou conhece alguém que precisou sacrificar o animal de estimação devido à leishmaniose? Degenerativa e quase sempre letal, a doença é muito comum em ambientes silvestres. A enfermidade, afinal, “circula” entre reservatórios e vetores. Problema ainda maior diz respeito ao momento em que a zoonose chega ao meio urbano e afeta a saúde pública, de modo a ameaçar municípios inseridos em um dos biomas mais ricos do Estado – e com foco no turismo ecológico: a Serra do Cipó. “Cerca de 97,2% das pessoas viajam a Santana do Riacho, por exemplo, em busca de lazer ou passeio. Deste total, 97,1% dos visitantes buscam contato com a natureza, o que revela a importância do ecoturismo para a movimentação da economia na região, ao gerar emprego e renda”, explica Mário Henrique da Silva, secretário de estado de turismo de Minas Gerais. Neste cenário, como se pode perceber, a doença é capaz de provocar inúmeros prejuízos materiais e humanos. Que o digam os atuais índices de incidência da enfermidade em território mineiro, onde, segundo informações da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), entre 2012 e 2015, confirmaram-se 1.353 casos de Leishmaniose visceral (LV) e 3.398 de Leishmaniose tegumentar americana (LTA). Com base na importância de tais dados para o desenvolvimento de ações preventivas, o pesquisador Edelberto Santos Dias, da Fundação Oswaldo Cruz, realizou, com apoio da FAPEMIG, a pesquisa “Eco-epidemiologia das leishmanioses na região da Serra do Cipó, importante polo turístico de Minas Gerais”. O estudo pretendeu identificar as espécies de flebotomíneos – insetos transmissores das leishmanioses, conhecidos popularmente como mosquito-palha – presentes na área estudada, além de analisar sua flutuação sazonal e caracterizar as espécies de Leishmania circulantes. “Ao abordar o parasito, o vetor, os reservatórios conhecidos ou potenciais e os casos humanos e caninos, é possível traçar um panorama da doença, que servirá de modelo a diferentes municípios com padrão epidemiológico similar ao encon-

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As leishmanias têm um ciclo bifásico, que começa pela ingestão, por um mosquito-palha fêmea, do sangue de um mamífero infectado com amastigotas. Uma vez dentro do inseto, tais amastigotas multiplicam-se, convertendo-se na forma promastigota. Em seguida, o parasito migra para a probóscide (apêndice pertencente ao aparelho bucal) do mosquito e está pronto para infectar mamíferos em geral – inclusive o homem e o cão –, através de nova picada. Uma vez na pele, os promastigotas são fagocitados por células do sistema reticuloendotelial, onde se transformam, novamente, na forma amastigota.

trado. Desse modo, ajudaremos as cidades no planejamento de políticas públicas capazes de controlar a endemia”, comenta. Na Serra do Cipó, o estudo contemplou os municípios de Jaboticatubas, Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas, Congonhas do Norte, Serro e Santana do Riacho. A escolha da área justifica-se pela falta de informação local sobre o tema e pela importância turística da região, que apresenta relevo especialmente acidentado, inúmeras cachoeiras e uma das floras mais diversificadas do mundo. Além disso, está inserida na Estrada Real e no Circuito do Diamante. “As pessoas são as principais fontes de fomento do turismo local. O controle de doenças endêmicas como as leishmanioses é vital à saúde da população, que poderá receber os visitantes com sua tradicional hospitalidade”, comenta Mário Henrique da Silva.

Proteja-se!

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Use repelentes, que ajudam a afastar os flebotomíneos (mosquitos-palha). Recorra a mosquiteiros, com malha fina, para telagem de portas e janelas.

Limpe e vacine sempre o seu animal de estimação. Pode as árvores, para aumentar a insolação e o recolhimento de matéria orgânica do solo. Proteja o canil com telas do tipo malha fina. Evite exposição nos horários de atividade do vetor: o crepúsculo e a noite.

Evite galinheiro em casa, pois tais animais servem de alimentação aos flebotomíneos e favorecem a colonização da espécie vetora L. longipalpis.

Use plantas repelentes no jardim, a exemplo da citronela. Deixe sempre limpo o seu quintal, o que impede o ciclo de vida do vetor.


De acordo com Mariana Gontijo, referência técnica de leishmaniose na SES-MG, a região ainda é considerada um local sem risco epidemiológico. Apesar da situação controlada, porém, são fundamentais o acesso a informações adequadas, o levantamento entomológico correto e o desenvolvimento de ações preventivas ou corretivas. Os municípios de Conceição do Mato Dentro, Jaboticatubas e Serro apresentaram registros de Leishmaniose visceral em humanos com média inferior a 2,4 casos nos últimos cinco anos. “Alvorada de Minas, Congonhas do Norte e Santana do Riacho, por sua vez, revelam-se municípios silenciosos, sem registro significativo de casos de doenças em humanos”, comenta. Na visão de Edelberto Dias, é preciso atenção, pois o estudo apontou que a LV está totalmente urbanizada no município de Jaboticatubas e em seu entorno, com a presença de todos os elementos que compõem a cadeia epidemiológica da doença – agente etiológico, vetor competente e reservatórios domésticos (cães) infectados.

chuvosos e quentes e a densidade de flebotomíneos”, explica. No que tange ao segundo “momento” do estudo, houve captura de cães com suspeita de infecção. Os animais foram submetidos a uma bateria de testes sorológicos para confirmação da presença do parasito. Nesta etapa, foi identificada, na área abrangida pelo estudo, apenas a Leishmania infantum. Trata-se do agente etiológico da leishmaniose visceral, que acomete os órgãos internos e é a forma mais grave da doença. “No Brasil, não existe cura parasitológica definitiva para a infecção com L. infantum. Entretanto, há solução clínica”, explica Vitor Márcio Ribeiro, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MINAS) e presidente do Grupo de Estudos sobre Leismaniose animal (Brasileish).

Ao longo do estudo coordenado por Edelberto Santos Dias, diversas técnicas foram empregadas pelos pesquisadores, do sequenciamento de DNA das leishmanias aos diagnósticos sorológicos dos cães, realizados em colaboração com o Serviço de Doenças Parasitárias (SDP) da Fundação Ezequiel Dias, segundo o protocolo preconizado pelo Ministério da Saúde.

Captura dos flebotomíneos

Perigo múltiplo

A pesquisa se dividiu em dois “momentos”. No primeiro deles, realizou-se a análise do tipo de Leishmania encontrada nos mosquitos transmissores. No total, foram identificadas 17 espécies de flebotomíneos do gênero Lutzomyia, das quais, por meio da técnica de sequenciamento de DNA foi possível identificar a infecção por duas espécies mais comuns no Brasil: a Leishmania braziliensis, agente etiológico da LTA, e a Leishmania infantum, da LV. Segundo o coordenador da pesquisa, o encontro de L. whitmani em elevada densidade em alguns bairros estudados e sua infecção natural por L. braziliensis sugerem que esta possa ser a principal espécie responsável pela transmissão da LTA em Jaboticatubas e entorno. Já o grande número de exemplares de L. longipalpis capturados e a detecção da infecção natural por L. infantum indicam a participação de tal espécie como vetor da LV na área. “Com relação à flutuação sazonal dos espécimes capturados, há relação direta e proporcional entre meses

Existe uma vacina contra a Leishmaniose Visceral Canina (LVC) registrada no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mas sem constatação de custo-benefício e efetividade para controle do reservatório da LVC em Programas de Saúde Pública.

Extração do DNA

Determinação da espécie de leishmania

Confirmação de infecção

PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: Eco-epidemiologia das leishmanioses na região da Serra do Cipó, importante polo turístico de Minas Gerais CooRdEnAdoR: Edelberto Santos Dias inSTiTuição: Fundação Oswaldo Cruz EdiTAl: Universal VAloR: R$ 41.265,00 MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2015

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arquitetura

Meu nome é João de Barro Projeto promove assessoria técnica para autoconstruções na Ocupação Eliana Silva, em Belo Horizonte Roberta Nunes

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A autoconstrução é a elaboração de casas decidida por seus próprios usuários. Sua característica principal é a não contratação do serviço profissional. Realiza-se a edificação a partir de vivências e demandas individuais e familiares.

Trata-se da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e das Pró-Reitorias de Pesquisa (PQRq) e Extensão (Proex) da UFMG.

Ineficiência de políticas habitacionais, urbanização socioespacial segregada e altos preços do mercado imobiliário. Eis alguns dos fatores capazes de transformar em soluções o método da autoconstrução e as ocupações, para que a população de baixa renda tenha acesso a moradias. Em todo o Brasil, o déficit habitacional chega a 5,43 milhões de domicílios, de acordo com levantamento da Fundação João Pinheiro (FJP). Na capital mineira, são mais de 450 mil moradores em vilas, favelas, conjuntos habitacionais e assentamentos irregulares, segundo a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel). Sebastião é um dos que aderiram à Ocupação Eliana Silva, na Região do Barreiro, após fugir do alto valor de aluguel. Hoje aposentado, ele sempre trabalhou na construção civil e chegou a morar com a esposa, durante seis meses, no início do processo, em uma barraca de lona. Com a ajuda dos filhos, porém, ergueu os alicerces e construiu a casa própria. Mais de 7 mil famílias vivem em ocupações recentes, a exemplo de Dandara, no bairro Céu Azul, em Venda Nova, Zilah Spósito e Rosa Leão, na região Norte, Irmã Dorothy e Camilo Torres, no Barreiro, e Novo São Lucas/Cafezal, na região Centro-Sul. Neste contexto, o grupo de Práticas Sociais no Espaço Urbano (Praxis), da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem contribuído para a viabilização do direito à moradia, a partir de projetos de pesquisa e extensão, apoiados e financiados pela FAPEMIG e por outras entidades entidades. Desde o surgimento da ocupação Eliana Silva, em 2012, os pesquisadores oferecem assessoria técnica de maneira diferente. “É outra lógica. Trata-se da produção do espaço de forma compartilhada com quem vive lá. Não há imposição do conhecimento acadêmico, nem a aceitação do popular”, afirma a coordenadora do projeto, Denise Morado. Desse modo, foi possível, aos especialistas, conhecer os saberes daqueles que constroem as próprias casas, para, em seguida, propor suporte, instrumentos e metodologia para a construção da moradia, sempre de forma dialogada. A Lei Nº 11.888/2008 assegura a assistência técnica pública e gratuita para

o projeto e a construção de habitação de interesse social às famílias de baixa renda, que recebem até 3 salários mínimos. Segundo Denise, o alcance de legislação pode ser positivo, apenas, se os processos produtivos da habitação forem participativos, permitindo tanto a mudança de conhecimento dos moradores quanto a promoção da autonomia e a transformação do próprio saber científico. Com pensamentos conjuntos é que se tornou possível o acesso à moradia na Ocupação Eliana Silva. Os pesquisadores se concentraram, principalmente, nos espaços coletivos. Os estudantes de Arquitetura, contudo, também assessoram os moradores, quando solicitados, na construção das casas, de modo a valorizar a história, a experiência e as decisões de espaço do autoconstrutor. Para Leonardo Vieira, líder do Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), o sucesso alcançado até aqui é atribuído às parcerias. “A união deu condições para novos espaços na cidade, por meio do de concepções avançadas, que contrariam a ótica capitalista de cidade-mercado”, explica.

Façanhas

Dentre as ações do projeto, está a construção da creche Tia Carminha, realizada em duas etapas. Para estabelecer formas dialógicas, a partir de mapeamentos e maquetes, os moradores criam simulações e elaboram o projeto, de maneira compartilhada, com a equipe do Praxis. A inauguração da primeira fase ocorreu em maio deste ano e permitirá o atendimento de 18 crianças. A previsão é que, com a conclusão das obras, o número possa ser ampliado para 70. A creche é a primeira construção em alvenaria da região, totalmente desenvolvida por moradores e voluntários. Também foi realizada em parceria a construção de um sistema de esgoto ecológico. Após o estudo do solo, optou-se por tanques de Evapotranspiração (Tevap) para receber as águas negras e por Círculos de Bananeira para as águas cinzas. Desse modo, o esgoto gerado pela Ocupação é tratado ali mesmo, minimizando os impactos sobre a população. “À medida que eles aprendem a pensar o esgoto de

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outra forma, para além da convencional, podem replicar isto em outras ocupações”, acredita Denise. A ONG Arquitetos Sem Fronteiras Brasil também atua com o mesmo objetivo e foi responsável por elaborar o plano de ocupação e parcelamento do solo. De acordo com o diretor técnico da organização, Tiago Castelo Branco Lourenço, estas práticas podem ter reflexo, inclusive, na maneira de os arquitetos produzirem a cidade. “A grande contribuição da relação é observar como as pessoas podem resolver sua vida, sem gerar os impactos gerados por nossa produção formal”, acrescenta, ao relembrar que o próprio esgoto de Belo Horizonte não é tratado no município. A assessoria oferecida pelo Praxis também proporciona legitimidade à ocupação. A conquista mais recente foi a ligação do sistema de água pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). A empresa informou que a viabilização da implantação das redes na, agora nomeada, Vila Eliana Silva, bem como nas Vilas Camilo Torres, Irmã Dorothy e Horta, só foi possível após a determinação do próprio Ministério Público, que aprovou a oferta de água para a região. Segundo a coordenadora Denise Morado, à medida que a ocupação resolve seus problemas, ela ganha força para a negociação. “Este foi o maior ganho, pois, quando o Estado reconhece que ali é um território ocupado, possibilita o acesso a outros direitos”, reforça. Segundo Claudio Acioly Junior, chefe da Unidade de Capacitação e Formação Profissional do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), a regularização e a urbanização de favelas e assentamentos informais, quando parte da política urbana municipal, poderão resolver o problema habitacional de parte da população, de forma gradual, sem, necessariamente, produzir novas unidades habitacionais. “Não é uma questão de legitimar a autoconstrução e as ocupações urbanas de forma aleatória e leviana, mas, primeiramente, de compreender o fenômeno, suas causas e consequências, e formular respostas de política pública que facilitem o acesso a uma habitação adequada e à regularização fundiária”, argumenta.

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Após três anos de projeto na comunidade, percebem-se os resultados em relação ao acesso ao direito à moradia, à legitimação da ocupação ante os órgãos oficiais, à busca pela sustentabilidade e à valorização do relacionamento entre universidade e moradores. Além disso, a iniciativa resultou no livro Saberes [auto] construídos, publicado, em 2015, pela Editora C/ Arte, assim como em teses e dissertações. Durante todo o assessoramento, cerca de 20 pessoas, dentre estudantes e professores do Praxis, foram envolvidas, acompanhando, cotidianamente, a população da Ocupação Eliana Silva. Segundo Denise Morado, ainda há desafios importantes, a exemplo da necessidade de mais investimentos para a continuidade e a manutenção das ações.

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A obra está disponível na internet:

PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: A autoconstrução da moradia em loteamentos periféricos da RMBH: processos sociais, tecnológicos e ambientais CooRdEnAdoRA: Denise Morado Nascimento inSTiTuição: UFMG EdiTAl: Universal VAloR: R$ 19.565,49 PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: Diálogos - A mediação da informação na produção do espaço urbano CooRdEnAdoRA: Denise Morado Nascimento inSTiTuição: UFMG EdiTAl: Apoio a Projetos de Extensão em Interface com a Pesquisa VAloR: R$ 17.157,00


bIoloGIa

Nem tudo é o que parece Pesquisas questionam mapa climático elaborado pela ONU, contestam reflorestamento em áreas não devastadas e revelam riqueza de espécies do cerrado brasileiro Alessandra Ribeiro Kazimoto

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Recentemente, a França sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 21 – ou “Paris 2015”, conforme preferem chamar os anfitriões. Na ocasião, cientistas apresentaram um documento, elaborado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que questiona uma das principais medidas tomadas para conter o avanço da temperatura global: a plantação de árvores para a captura de carbono (veja boxe à página 35). Os pesquisadores apontam um equívoco no mapa elaborado pelo World Resources Institute (WRI) e pela The World Conservation Union (IUCN), entidades ligadas às Nações Unidas, segundo o qual 23 milhões de quilômetros quadrados em todo o mundo poderiam suportar plantio de florestas para restauração ambiental. Na lista de terras supostamente reflorestáveis, entretanto, estão territórios ricos em espécies de plantas não arbóreas, como campos rupestres, pampas e terras do cerrado brasileiro. “A estratégia é errada porque esses ambientes evoluíram assim, em função de pressões ambientais muito antigas, de forma a desenvolver outros tipos de formações vegetais. O problema todo é que eles estão pensando apenas na captura de carbono, sem reconhecer, por exemplo, que, no cerrado, a maior parte do estoque de carbono está, na verdade, no solo”, alerta Geraldo Wilson Fernandes, professor do Departamento de Biologia Geral da UFMG e do Departamento de Biologia da Universidade de Stanford. Segundo o pesquisador, a vegetação típica do cerrado apresenta muitas raízes, e, por isso, pode ser comparada a uma “floresta de cabeça para baixo”. Junto a outros cientistas, Fernandes assina, na revista Science de janeiro de 2015, uma reportagem que contesta a política de reflorestamento da ONU. “Não somos, de forma alguma, contra a restauração ambiental. Ela se destina, contudo, a regiões degradadas, e não a ecossistemas extremamente ricos em espécies e resultantes de milhares de anos de evolução”, defende, ao

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destacar que tais áreas não devem ser dizimadas por plantios de espécies exóticas. “Essa é uma visão obtusa de ONGs que não apresenta benefícios, mas prejuízos ao meio ambiente”, afirma. A própria Food and Agriculture Organization (FAO), órgão responsável pela alimentação e pela agricultura nos Estados Unidos, se posicionou a favor do discurso dos pesquisadores na mesma revista – apesar de, como observa o brasileiro, a entidade parecer mais preocupada com o uso das terras pelo agronegócio do que com sua preservação. As tais espécies exóticas às quais o professor se refere são representadas, principalmente, pelo eucalipto. “No Norte de Minas Gerais, em vários pontos onde foram plantados eucaliptos, há, hoje, rios secos e aumento do processo de desertificação, intensificado por essas florestas”, lembra, ao comentar, ainda, o risco de que empresas madeireiras e de reflorestamento possam obter recursos para adquirir as áreas de grande importância biológica para o mundo, transformando-as em florestas. “O resultado seria catastrófico em termos de perda da biodiversidade”, completa. Para o professor, essas áreas com vegetação predominantemente arbustiva, de menor porte que as árvores, têm tanta relevância quanto as florestais. Embora não capturem tanto carbono, desempenham outras funções. “Nas vegetações de campos e savanas, certas plantas produzem substâncias químicas de grande importância medicinal. Além disso, protegem os solos das chuvas, garantindo que os rios corram limpos”, explica.

Cordilheira brasileira

O cerrado é a segunda maior formação vegetal da América do Sul, ocupa um quarto do território brasileiro e reúne cerca de 13 mil espécies. Metade delas está concentrada na Serra do Espinhaço, embora represente


apenas 3% do bioma. Também conhecida como Cordilheira brasileira, atravessa os estados de Minas Gerais e Bahia. Na Serra do Cipó, que pertence à cadeia montanhosa, estações avançadas de monitoramento estão instaladas a cada 100 metros de altitude, com o intuito de observar variáveis como temperatura, radiação ultravioleta, direção e velocidade do vento e precipitação, o volume de chuvas. “Montanhas são excelentes termômetros para verificar o impacto de mudanças climáticas. As espécies revelam-se muito adaptadas ao ambiente já adverso. Quaisquer mudanças ambientais, ou no uso da terra, podem resultar em extinção”, explica Geraldo Fernandes. Prova da sensibilidade da natureza nessas áreas é que, enquanto a variação média de temperatura, a cada 100 metros, é de cerca de 0.8°C, as estações registraram oscilação de quase 2°C nesse mesmo intervalo de altitude, na Serra do Cipó. “Medimos, basicamente, o respirar do cerrado por meio desses estudos”, afirma o professor. Tais pesquisas contam com financiamento da FAPEMIG.

Em tempos de crise hídrica, preservar as montanhas significa proteger, também, importantes fontes aquíferas. “O Rio Cipó, por exemplo, poderia beneficiar o fornecimento de água para a cidade de Belo Horizonte, por meio da gravidade”, propõe. O fato, porém, é que tais territórios estão submetidos a grandes pressões: mineração, garimpo, queimadas, agricultura, plantações de eucaliptos e, até mesmo, construções de rodovias. “Embora existam planos de controle ambiental, nenhum é aplicado direito e não há monitoramento efetivo”. Fernandes defende que as estratégias de preservação sejam elaboradas com a participação dos pesquisadores, a partir de conhecimentos científicos sólidos e de um entendimento mais profundo acerca das particularidades dos ecossistemas, além do envolvimento de toda a sociedade. “Precisamos ficar atentos, de modo a impedir que políticas públicas globais errôneas sejam tomadas e causem mais problemas”, completa.

mercado de responsabilidades O conceito de captura de carbono surgiu em 1997, a partir do Protocolo de Quioto. O acordo internacional estabeleceu que os países desenvolvidos deveriam reduzir as emissões de gases de efeito estufa, em comparação aos níveis medidos em 1990. A última atualização das metas de Quioto aconteceu na COP 17, conferência do clima realizada em 2011, na África do Sul. Desde então, ficou definido que a redução nas emissões seria de 25% a 40%, até 2020. O dióxido de carbono (CO2) é um dos principais gases de efeito estufa responsáveis pelas mudanças climáticas. A captura ou sequestro de carbono consiste na retirada do elemento da atmosfera. Nas florestas, isso ocorre naturalmente, por meio da fotossíntese: as árvores capturam o CO2 e lançam oxigênio na atmosfera. Além dos processos naturais, uma série de meios artificiais de captura do carbono está sendo estudada e explorada. As pesquisas são estimuladas pelo mercado de créditos de carbono, que surgiu junto ao Protocolo de Quioto. Cada tonelada de CO2e (equivalente) não emitida ou retirada da atmosfera por um país em desenvolvimento pode ser negociada no mercado mundial, por meio de certificados de emissões reduzidas. As nações que não conseguirem (ou não desejarem) reduzir suas emissões podem comprar esses certificados de países em desenvolvimento e usá-los para cumprir suas obrigações.

PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJEToS: Bioindicadores para avaliação do efeito de mudanças climáticas globais em montanhas tropicais e Bases ecológicas, genéticas e evolutivas para o entendimento dos efeitos das mudanças climáticas nos trópicos: busca de sínteses em sistema modelo CooRdEnAdoR: Geraldo Wilson Fernandes inSTiTuição: UFMG ModAlidAdE: Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex) VAloR: R$ 328.948,94

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fí sica

Multiplicidade invisível Laboratório para síntese de nanocristais revela que tais minúsculas partículas podem salvar vidas e revolucionar, por exemplo, o setor elétrico Tatiana Pires Nepomuceno Os últimos anos foram marcados por revoluções na Genética, na Biologia e na Química, mas pouco se fala em inovações tecnológicas no campo da Física ou da Engenharia, a exemplo dos estudos em Nanotecnologia. Por que isso ocorre, afinal? Há falhas na chamada “comunicação científica” ou faltam pesquisadores e laboratórios brasileiros capazes de atender às específicas exigências de tais áreas do conhecimento? Na visão do professor Ricardo Souza da Silva, coordenador do projeto de pesquisa responsável pela implantação de um laboratório para síntese de nanocristais na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), apesar de muitas instituições brasileiras de pesquisa desenvolverem trabalhos em Nanotecnologia, o país representa apenas 1,9% da produção científica mundial no setor. Segundo o pesquisador, além da escassez de políticas públicas de popularização e de difusão de certos ramos da ciência, há necessidade de programas educacionais de base, que, desde cedo, despertem a curiosidade dos estudantes. “No Brasil, já existem universidades com cursos de graduação e pós-graduação em Nanotecnologia. É necessário, contudo, incluir tais estudos nas disciplinas de Ciência, Física e Química dos ensinos fundamental e médio”, comenta.

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Em Minas Gerais, os estudantes poderiam conhecer melhor, por exemplo, os processos de síntese de nanocristais “semicondutores”, “semicondutores magnéticos diluídos” e “magnéticos” (ver boxe à página 37), técnicas iniciadas no Laboratório de Novos Materiais Isolantes e Semicondutores do Instituto de Física da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sob coordenação do professor Noelio Oliveira Dantas. “Essa linha de pesquisa, proposta em 1994, buscou suprir a carência do estudo de sistemas nanoestruturados no Estado, e, em 2010, como professor da UFTM, continuei com o projeto, ao instalar o Laboratório de Pesquisa em Física dos Materiais”, explica Ricardo Souza da Silva. Na sequência, implantou-se, na UFTM, o Laboratório de Síntese de Materiais Nanoestruturados para Síntese de Nanocristais Semicondutores e Semicondutores Magnéticos Diluídos em Matrizes Dielétricas, que contou com apoio da FAPEMIG. O projeto já conseguiu sintetizar materiais nanoestruturados para aplicações tecnológicas na Biomedicina, em estudos sobre meio ambiente e no setor de energia. “Temos criado nanocristais semicondutores com absorção e emissão de luz para comprimentos de onda de 1.300 e 1.500 nanômetros (nm), importantes para a transmissão de sinais em fibras ópticas”, destaca Ricardo Souza.


Por meio dos nanocristais semicondutores, é possível definir a intensidade de emissão da luz e fabricar leds de altíssima iluminação e baixo consumo, sem a necessidade da união de vários componentes. Pode-se, ainda, aplicá-los na fabricação de dispositivos ópticos e de lasers para tratamentos medicinais. A tecnologia é relevante e tem despertado o interesse de pesquisadores em diversas partes do mundo – principalmente, devido ao fato de 2015 ser o “Ano Internacional da Luz”. A aplicabilidade econômica é outro fator importante ao investimento em estudos específicos, posto que o processo de criação de novos materiais é bastante simples.

Fases

A pesquisa coordenada por Ricardo Souza da Silva dividiu-se em dois “momentos”. O primeiro deles diz respeito à criação do Laboratório de Síntese de Materiais Nanoestruturados para Sintetização de Nanocristal Semicondutor e Semicondutor Magnético Diluído pelo Método de Fusão em Matrizes Vítreas (vidro hospedeiro). A tecnologia consistiu, basicamente, na fusão de determinada composição química em fornos de alta temperatura, com o uso de cadinhos de platina, alumínio ou porcelana. Logo após a fusão da composição química, o líquido resultante é entornado sobre uma chapa metálica, a temperaturas pré-determinadas, para atingir taxas de resfriamento apropriado para se solidificar, tornando-se vidro – que é algo próximo à temperatura de transição vítrea, de modo a possibilitar a difusão dos íons que deram origem aos nanocristais. “Adotamos o método de fusão por ser uma técnica de baixo custo e, também, pelo fato de o vidro ser um excelente hospedeiro para os nanocristais, mantendo sua estabilidade e suas propriedades físicas e químicas”, comenta o professor. Durante o processo de sintetização, foi possível sintetizar nanocristais semicondutores (Bi2S3 e Bi2Te3), conhecidos como materiais “isolantes topológicos”. Trata-se de nova classe de materiais, com possíveis aplicações em computação quântica – área em que se desenvolvem computadores especiais, aptos a resolver problemas de inteligência artificial ou logaritmos discretos – e em spintrônica.

Campo da eletrônica baseado em spins, que se referem à propensão quântica dos elétrons de girar. No segundo momento do estudo, os pesquisadores, por meio de parcerias com outros laboratórios do país, usaram técnicas de caracterização experimental, como a análise térmica diferencial, a absorção óptica por espectroscopia, a fotoluminescência, a ressonância paramagnética eletrônica, a magnetização por squid, difração de raios-x e as microscopias de força atômica e eletrônica de transmissão. “Os métodos microscópicos nos garantem informações morfológicas acerca da amostra, sendo possível a visualização das imagens dos nanocristais. A investigação das qualidades ópticas é realizada por meio da espectroscopia e da fotoluminescência. Já as propriedades magnéticas são identificadas por meio da magnetização e da ressonância paramagnética eletrônica”, detalha o coordenador.

múltiplos usos

Além de permitir a sintetização dos nanocristais, a pesquisa possibilitou, por meio de técnicas específicas, a caracterização/ classificação dos materiais, o que representa um importante passo em direção ao futuro da

nanociência em Minas Gerais. “As técnicas usadas no processo de caracterização são fundamentais para a investigação dos materiais nanoestruturados e objetivaram definir parâmetros dos materiais criados, para, posteriormente, terem aplicabilidade no cotidiano”, comenta Ricardo Souza. A aposta é promissora. No setor elétrico, por exemplo, o uso da Nanotecnologia indica uma série de vantagens, especialmente, no que se refere ao fato de que é mais necessária a utilização de materiais químicos diferentes durante o processo de criação de novos componentes. Basta manipular a matéria na escala atômica para que – voilà! – nasça um novo material. Recentemente, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) realizou testes laboratoriais utilizando a nanociência no processo de catalisação de células a combustível, equipamento capaz de gerar eletricidade a partir do hidrogênio. A platina, principal material empregado no processo, é cara e escassa. Daí a necessidade de um processo alternativo, capaz de otimizar seu uso. Para reduzir o custo e viabilizar a aplicação em larga escala, com ganhos de funcionalidade e eficiência, a concessionária recorreu a nanopartículas catalisadoras, como alternativa viável à execução do projeto de aplicação específica e nos testes laboratoriais.

Para todos os gostos Conheça os diversos tipos de nanocristais: nanocristais magnéticos: materiais constituídos por elementos metálicos, podem ser manipulados com a aplicação de um campo magnético externo. nanocristais semicondutores: apresentam um gap de energia, que é a região proibida para encontrar elétrons, compreendida entre as bandas de “condução” e de “valência”. Os elétrons podem ser excitados com energia suficiente para que ocorra a transição de uma banda a outra, e, quando o elétron retorna, ocorre a emissão de fótons, o que garantirá, aos materiais, propriedades ópticas. nanocristais semicondutores magnéticos diluídos: realizam a dopagem do nanocristal semicondutor com elementos magnéticos, como íons metálicos de cobalto e/ou manganês, conferindo-lhes propriedades ópticas e magnéticas.

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Segundo o engenheiro de tecnologia e normalização da Cemig, Cláudio Homero, o setor elétrico tem grande expectativa com relação ao desenvolvimento de produtos nanotecnológicos. “Precisamos que as novas tecnologias estejam disponíveis no mercado. Por isso, é importante o apoio aos pesquisadores mineiros”, complementa. Na Medicina, podem ser criadas metodologias de tratamento, com aplicação mais segura e menos prejudicial de medicamentos. “Os nanocristais magnéticos podem ser aplicados como carregadores de fármacos, levando-os, de forma controlada, a uma região doente, por meio da ação de um campo magnético externo. Desse modo, desenvolve-se tratamento mais eficiente contra doenças como o câncer e a trombose”, explica Ricardo Souza. A principal vantagem de tal método de condução, segundo Giovana Calixto, doutoranda na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), é a

diminuição dos efeitos colaterais comuns ao uso de quimioterápicos utilizados, como vômitos e perda de cabelos. “Os sistemas nanoestruturados conseguem liberar o quimioterápico apenas nas células cancerígenas, sem afetar as células saudáveis do organismo. Alguns estudos em humanos têm sido aprovados pela administração para alimentos e fármacos dos Estados Unidos, o FDA, para testar nanopartículas no tratamento de tumores sólidos”, explica a pesquisadora. Já Carlos Alberto dos Santos, professor aposentado do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e colunista do site Ciência Hoje, alerta para a administração destes fármacos. “A Nanotoxicologia é uma ciência ainda incipiente, com mais questões do que respostas. Apesar das partículas terem a facilidade de penetração nos mais recônditos locais do organismo, em função de seu tamanho, é preciso levar em conta o risco toxicológico”, explica Carlos.

No Brasil, já está em prática, por exemplo, o tratamento da AuroLase, desenvolvida pela Nanospectra Biosciences Inc. O procedimento consiste no tratamento do tumor por meio da ação de anticorpos. Ao invés de material magnético, porém, são usados materiais que transformam impulsos luminosos em calor. “As nanopartículas de sílica são rodeadas por fina camada de ouro. Quando irradiadas por um feixe de laser com frequência na faixa do infravermelho, as partículas irradiam calor e destroem o tumor”, explica. Na área ambiental, os nanocristais podem ser usados na limpeza de áreas poluídas, com a agregação dos materiais magnéticos em poluentes que, posteriormente, serão removidos com a ação de um imã. Na informática, pode-se aumentar, consideravelmente, a capacidade de armazenamento e de processamento de dados e, na Engenharia, há possibilidade de produção de materiais mais leves e resistentes para a construção civil e a fabricação de automóveis e aviões.

a fábrica

Confira o passo a passo da tecnologia de novos nanocristais

Pesagem da composição química

Tratamento térmico em torno da temperatura de transição vítrea, para que ocorra a difusão dos íons e a formação dos nanocristais

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Síntese da composição química a altas temperaturas (em torno de 1.200oC)

Rápido resfriamento para a formação do vidro dopado com os íons precursores que irão formar os nanocristais

Investigação das propriedades estruturais, morfológicas, ópticas e magnéticas pelas técnicas experimentais: ¯ Difração de Raios-X ¯ Microscopia de Força Atômica ¯ Microscopia Eletrônica de Transmissão ¯ Espectroscopia Uv-Vis ¯ Fotoluminescência ¯ Magnetização ¯ Ressonância Paramagnética Eletrônica

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Caracterização por “Análise Térmica Diferencial”, para determinar a temperatura de transição vítrea

PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: Montagem de um Laboratório de Fornos para a Síntese de Nanocristais Semicondutores e Semicondutores Magnéticos Diluídos em Matrizes Dielétricas CooRdEnAdoR: Ricardo Souza da Silva inSTiTuição: Universidade Federal do Triângulo Mineiro EdiTAl: Universal VAloR: R$ 35.436,03


Manejo de ninhos de abelhas contribui para a produção de frutas no Triângulo Mineiro Verônica Soares

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EcoloGIa

Nascer, voar e polinizar

Não é novidade que colmeias estejam desaparecendo do planeta. Fatores como a devastação das áreas naturais e o uso indiscriminado de agrotóxicos têm contribuído para o declínio das populações de abelhas, que, como polinizadoras, desempenham importante papel na cadeia de produção de frutos e sementes. A maioria das plantas depende de tais “serviços” de polinização, prestados pelos insetos cujo sumiço torna-se também uma ameaça à produção de alimentos. Na região do Triângulo Mineiro, um dos principais cultivos de importância econômica é o maracujá-amarelo, que depende das abelhas para produzir seus frutos. Na ausência delas, os produtores usam a polinização manual, que aumenta os custos do cultivo e impacta as demais etapas – podendo, inclusive, atingir o bolso do consumidor. A boa notícia é que um grupo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), liderado pela professora Solange Cristina Augusto, desenvolveu pesquisa que resultou em novos procedimentos de manejo de ninhos do principal polinizador do maracujá-amarelo: as abelhas do gênero Xylocopa, denominadas popularmente de mamangavas de toco ou carpinteiras. Os resultados do estudo, intitulado “Abelhas solitárias e facultativamente sociais: conservação, manejo de ninhos e uso na polinização de cultivos na região do Triângulo Mineiro”, sinalizam um caminho otimista para os agricultores da região. O grupo verificou que é possível atrair e criar as abelhas em áreas naturais, por meio de “ninhos-armadilha”, que, posteriormente, são transferidos para áreas de cultivo do maracujá-amarelo, de modo a promover a polinização natural e o aumento significativo na quantidade e na qualidade dos frutos formados. A metodologia dos ninhos-armadilha consiste em oferecer diferentes suportes para que as abelhas construam seus ninhos e se instalem. No Brasil, o método foi desenvolvido pelos professores Carlos Alberto Garófalo e Evandro Camillo, do Departamento de Biologia, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, na


década de 1980. “Seguimos os procedimentos descritos por estes pesquisadores, com algumas modificações. Usamos gomos de bambu com comprimento de 20 a 25 cm e diâmetro variando de 1,8 cm a 2,2 cm. Fechados em uma das extremidades pelo próprio nó, os gomos são encaixados em tijolos do tipo baiano, postos, então, em pequenos abrigos, previamente construídos e instalados próximos às áreas de cultivo. Os abrigos podem ser construídos com estrutura de madeira ou de ferro e a cobertura é feita com lona de carreteiro amarela”, explica a professora. Os pesquisadores já conseguiram introduzir e manter ninhos ativos em áreas de cultivo comercial de maracujá-amarelo na região de Araguari e de Uberlândia, ambas em Minas Gerais. Os procedimentos proporcionaram aumento do número de abelhas nas flores, e, por consequência, da porcentagem de polinização natural e de produção de frutos. “Também verificamos que os frutos oriundos de poliniza-

Estrutura do abrigo de abelhas montado próximo a um cultivo comercial de maracujá-amarelo, contendo os ninhos-armadilha para a atração de fêmeas nidificantes de Xylocopa frontalis e Xylocopa grisescens

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ção natural são de melhor qualidade, com maior quantidade de sementes, açúcares, rendimento e porcentagem de polpa. Trabalhamos, agora, na definição do número de ninhos que devem ser introduzidos nas áreas de cultivo”, explica a professora. A definição do volume de ninhos por território é um dos objetivos da tese de doutorado de Camila Nonato Junqueira, também docente da UFU e orientanda de Solange Augusto. O cálculo depende do tamanho da área e das porcentagens de produção de frutos por polinização natural, variando de quatro a oito ninhos por hectare. Além do maracujá-amarelo, outros cultivos têm sido estudados pelo grupo, como o girassol, o tomate e certas espécies de hortaliças, com o objetivo de aumentar a produção por meio do incremento de abelhas polinizadoras.

Da universidade à comunidade

Um dos produtos finais do projeto financiado pela FAPEMIG será a produção de um manual, com informações sobre o manejo das abelhas. “Enquanto não o finalizamos, podemos atender pessoalmente às pessoas com interesse em criar as abelhas”, esclarece a professora. “Acreditamos que difundir a metodologia entre os produtores e incentivá-los a usá-la não será difícil. Iniciativas são realizadas, nesse sentido, desde 2005”, explica Solange Augusto. Agora, o maior desafio é conscientizar o produtor a manter áreas de vegetação natural no entorno, pois as abelhas estudadas só coletam néctar nas flores de maracujá, necessitando de pólen de outras plantas para nutrição de sua cria. Outro problema, segundo a coordenadora do projeto, é a conscientização acerca do uso de agrotóxicos, considerados responsáveis pelo declínio global dos polinizadores. Ações de extensão já foram desenvolvidas com a comunidade, a fim de disPara entrar em contato com as pesquisadoras, a respeito das técnicas desenvolvidas na pesquisa, escreva para sca.augusto@gmail.com (Solange Augusto) ou camilanj@ hotmail.com (Camila Junqueira).


Fêmea de Xylocopa frontalis sugando néctar na flor do maracujá-amarelo. Note a região dorsal do corpo cheia de pólen

seminar os conhecimentos oriundos das pesquisas. Entre 2013 e 2014, um projeto intitulado “Aplicação de princípios e técnicas agroecológicas no cultivo do maracujá orgânico e manejo de seus polinizadores em uma comunidade rural no município de Uberlândia-MG”, com financiamento da UFU, criou espaços para aproximar estudantes da comunidade de agricultores familiares, proporcionando a troca de conhecimentos sobre o cultivo do maracujá-amarelo, a partir de princípios ecológicos e da relação planta-polinizador.

solitárias ou sociais

O interesse da professora Solange Augusto no estudo das abelhas surgiu ainda na graduação em Ciências Biológicas, orientada, nos estudos de iniciação científica, pelo professor Carlos Alberto Garófalo, primeiro pesquisador a utilizar a metodologia dos ninhos-armadilha no Brasil. “Ele me propôs um estudo sobre o comportamento social de um grupo de abelhas pouco conhecido, comumente chamado de ‘abelhas das orquídeas’, devido ao comportamento exclusivo dos machos de visitar essas plantas para coleta de fragrâncias”, relembra. As abelhas que fizeram parte de sua iniciação como cientista são conhecidas pelo hábito solitário ou facultativamente social. “Uma abelha solitária constrói seu ninho escavando galerias no solo ou em galhos. Também pode ocupar cavidades preexistentes na vegetação ou em

substratos artificiais confeccionados pelo homem”, explica a pesquisadora. Em um ninho, a fêmea constrói um número variável de células e deposita, em cada uma delas, o alimento larval coletado das flores (pólen e néctar) para o desenvolvimento de sua cria. Após produzir um número variável de células, a mãe abandona o ninho e morre, não havendo sobreposição de gerações ou contato entre a matriarca e a prole. Entretanto, em certas espécies de abelhas, a mãe pode permanecer no ninho até a emergência de seus filhos. Quando os machos deixam o ninho materno, as abelhas fêmeas podem permanecer e reusá-lo, ao invés de construir o seu solitariamente. “Nestes casos, se a mãe está presente, temos a ocorrência de associações matrifiliais. Caso contrário, uma ou mais fêmeas irmãs podem reusar juntas o ninho materno”, explica a pesquisadora. Estas associações matrifiliais, ou entre irmãs, geralmente, apresentam um pequeno número de fêmeas (duas ou três), com divisão de trabalho entre elas. Daí o título do projeto desenvolvido: as espécies têm fundação solitária, mas podem apresentar ninhos “sociais” e são classificadas como “facultativamente sociais”. “Elas são diferentes das espécies cujas fêmeas vivem obrigatoriamente em grupo e formam grandes colônias, com rainhas e operárias, como as africanizadas e aquelas conhecidas como abelhas sem ferrão, como a arapuá, a jataí, dentre outras”, conclui.

PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: Abelhas solitárias e facultativamente sociais: conservação, manejo de ninhos e uso na polinização de cultivos na região do Triângulo Mineiro CooRdEnAdoRA: Solange Cristina Augusto inSTiTuição: Universidade Federal de Uberlândia (UFU) EdiTAl: Universal VAloR: R$ 26.238,45

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oDoNToloGIa

alerta bucal

Pesquisa da Faculdade de Odontologia da UFMG revela que maioria dos moradores da Região Metropolitana de BH apresenta dentes com cárie e outros problemas Alessandra Ribeiro Kazimoto

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Dezessete dentes com cárie. Eis a radiografia representativa da arcada dos adultos moradores da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Não se trata, porém, de caso isolado. A média na região Sudeste, a mais desenvolvida economicamente do Brasil, aliás, é de 16,36 dentes cariados, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2010). O mesmo levantamento mostrou que 7,1% dos brasileiros com idade entre 35 e 44 anos nunca visitaram o dentista e 22,7% não foram ao dentista nos últimos três anos. Na Grande BH, pesquisadores da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) realizaram um levantamento epidemiológico que abrangeu 1.150 adultos, com idade média de 39 anos, residentes em oito municípios: Baldim, Betim, Caeté, Igarapé, Itatiaiuçu, Taquaraçu de Minas, São José da Lapa e Vespasiano. As cidades foram sorteadas, bem como os locais onde os participantes da pesquisa moravam (o levantamento foi feito nos domicílios). A iniciativa teve financiamento da FAPEMIG. Coordenador da pesquisa, Mauro Henrique Abreu destaca que o estudo tem “validade externa”. Isso significa que os dados são representativos para toda a população adulta da região metropolitana. O próximo passo, em processo de articulação, é a apresentação dos resultados para a coordenação estadual de saúde bucal do governo de Minas. “O estudo é relevante para identificação do nível de problemas na boca desta população, colaborando para o planejamento de ações públicas na região pesquisada”, afirma. O levantamento mostra que a maioria dos participantes da pesquisa (68,5%) tinha lesões cariosas profundas. Outros problemas bucais foram avaliados, como doença periodontal (da gengiva), dor e perda de dentes. O estudo também investigou os fatores associados a essas condições: adultos mais velhos, que visitam regularmente o dentista e com piores condições de vida apresentam mais cárie e perdas dentárias. Pode parecer incoerente que os mais assíduos aos consultórios odontológicos tenham mais problemas, mas é isso, mesmo! “Quem tem maior necessidade de

tratamento procura mais o dentista”, explica Mauro Henrique Abreu.

Estudo de caso

Informação destacada pelos pesquisadores refere-se à experiência de dor de dente entre os moradores de Betim, relatada por 24,3% dos entrevistados. Para que se tenha um parâmetro, internacionalmente, a prevalência das dores entre adultos varia de 12% a 40%. No Brasil, houve melhoria no indicador, que diminuiu de 34,8%, em 2003, para 27%, em 2010. Na cidade de Betim, os participantes foram questionados se tinham sentido dor de dente nos seis meses anteriores à entrevista, com que intensidade e frequência. Além disso, os pesquisadores gostariam de saber se a dor era espontânea ou surgia, por exemplo, durante a mastigação, ao comer doces, alimentos quentes e/ou frios. Procurou-se compreender, também, se a dor provocava nervosismo e se era limitadora, a ponto de impedir a pessoa de dormir, descansar, escovar os dentes, sorrir, divertir-se e trabalhar. Os dados mostram que 39,7% relataram sentir dor severa e quase metade (47,3%) afirmou que o problema teve grande impacto em suas atividades sociais e profissionais. “A dor de dente é frequente e impactou o dia a dia destes adultos, especialmente, daqueles que vivem em condições de maior pobreza”, constata o coordenador da pesquisa. Segundo o levantamento, mais de dois terços do total de entrevistados em Betim (68%) tinham acesso limitado a cuidados de saúde bucal. Um dos grupos mais afetados pela dor de dente no dia a dia é o das pessoas com pior acesso aos serviços odontológicos, predominantemente mulheres, de diferentes raças (não brancas), com formação escolar média e menores rendas. O outro grupo que relatou dor mais severa e com maior impacto na vida social e profissional constituiu-se por indivíduos de 40 a 44 anos, casados ou viúvos, negros ou de outras raças, com nível médio de estudo. Por outro lado, os grupos que apresentaram menor impacto de dor de dente no cotidiano, e menores limitações sociais e profissionais, são formados por

A cidade foi estudada separadamente, por concentrar a maior população dentre os municípios investigados: 378 mil habitantes à época do levantamento – sendo, atualmente, 412 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por isso, representa a maior amostra da investigação, com 744 indivíduos examinados e entrevistados. A segunda localidade mais populosa do estudo é Vespasiano, com 116,5 mil habitantes. Todas as outras cidades têm menos de 50 mil cidadãos, sendo Taquaraçu de Minas a menos populosa, com 4 mil.

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pessoas com melhor acesso aos serviços de saúde bucal. A maioria se compõe de homens, com idade entre 35 e 39 anos, divorciados ou solteiros, brancos e com formação superior. Os pesquisadores envolvidos destacam que o estudo se insere na perspectiva epidemiológica, que considera a saúde bucal como reflexo de aspectos socioeconômicos, demográficos e ambientais, e é particularmente influenciada pelo contexto social. “A diminuição de desigualdades sociais injustas – as chamadas iniquidades – pode favorecer vários comportamentos considerados saudáveis, como o autocuidado, a alimentação saudável, o acesso ao flúor e aos serviços de saúde”, observa Mauro Henrique Abreu. Além dele, o trabalho envolveu as professoras Andréa Maria Duarte Vargas, Efigênia Ferreira e Ferreira, Mara Vasconcelos e Simone Dutra Lucas, do Departamento de Odontologia Social e Preventiva da Faculdade de Odontologia da UFMG.

Estrutura

Diogo Antunes/Prefeitura de Betim

O serviço público de Odontologia, em Betim, compreende dez unidades básicas de saúde equipadas com clínicas odontológicas, uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), voltada para urgências, e um Centro de Especialidades Odontológicas, com capacidade para atender 190 mil pessoas, inclusive, de outras cidades, segundo a Prefeitura Municipal. O Hospital Público Regional também oferece atendimento, preferencialmente para casos cirúrgicos, decorrentes de trauma. Ao todo, a cidade conta com 227 profissionais de saúde bucal, dentre dentistas, técnicos e auxiliares. De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde, em 2013, a rede realizou, em média, 8.580 consultas agendadas mensais e 250 atendimentos diários de urgência. No âmbito da atenção básica, dois principais indicadores são considerados para avaliar os serviços de saúde bucal: a primeira consulta odontológica e as ações coletivas de escovação supervisionada. Desde agosto de 2015, onze centros infantis municipais de Betim passaram a fazer a escovação dental diária, para estimular o hábito da higiene oral entre os alunos. A proposta inclui o fornecimento de escovas e cremes, a capacitação dos professores para fazer e acompanhar a escovação, além do preenchimento do “Formulário de Escovações Diárias da Escola”. Se a medida for efetivamente implantada e levada adiante, as crianças poderão sonhar com sorrisos mais largos, no futuro.

Em Betim (MG), crianças participam de escovação dental supervisionada

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PARTiCiPAção dA FAPEMiG PRoJETo: A saúde bucal dos adultos da região metropolitana de Belo Horizonte (zona urbana): aspectos objetivos e subjetivos CooRdEnAdoR: Mauro Henrique Abreu inSTiTuição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) EdiTAl: Universal VAloR: R$ 34.904,63


Pesquisa investiga condições de vida da comunidade LGBTT no Estado diogo Brito No Brasil, a homofobia não é crime. Sim, infelizmente, você não leu errado! A proposta que sugere tal criminalização, de modo similar aos demais delitos existentes perante a legislação, foi arquivada no início deste ano. O Projeto de Lei Constitucional (PLC) nº 122/06, apresentado à Câmara dos Deputados, sugeria a autuação da discriminação motivada unicamente à orientação sexual ou à identidade de gênero. Caso aprovado o documento, a lei de racismo – que, atualmente, abrange o preconceito por cor de pele, etnia, origem nacional ou religião – seria alterada em função da inclusão das questões de gênero. Por definição, a discriminação por orientação sexual é aquela cometida contra homossexuais, bissexuais ou heterossexuais, única e exclusivamente, por conta da homossexualidade, da bissexualidade ou da heterossexualidade. Já aquela por identidade de gênero é cometida contra transexuais e não transexuais. Além disso, importante ressaltar que preconceito e discriminação são duas coisas bem diferentes. O primeiro é um juízo preestabelecido e de conotação negativa; a segunda, a realização de tratamento diferenciado, em relação a determinada pessoa, por razões preconceituosas. Neste sentido, o PLC 122/06 buscava punir a discriminação, não o preconceito. Não é novidade que grande parte da população brasileira seja a favor da criminalização da violência motivada pela diferença de orientação sexual. Entretanto, na contramão do senso comum, o aumento de 4% no número de assassinatos por motivos de gênero, em 2014, expõe a intolerância de muitos indivíduos no País. Em 2011, a edição número 48 da revista MINAS FAZ CIÊNCIA publicou reportagem que discutia a ausência de políticas de segurança específicas para a homofobia e apontava a escassez de informações acerca do público LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) como o maior entrave à elaboração de campanhas e projetos de enfrentamento do problema. Segundo o coordenador do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da Universidade Federal de Minas Gerais (NUH/UFMG), Marco Aurélio Máximo Prado, a homofobia no Brasil jamais foi encarada como questão pública e política. “Apesar disso, ela regula formas de ser, de amar e de se relacionar, transformando os envolvimentos amorosos e sexuais em relações cristalizadas, verticais, violentas e de humilhação”, afirma. Em 2012, ao iniciar outra vertente de investigação, o NUH realizou pesquisas com 140 pessoas de identidade transexual em locais estrategicamente definidos. A investigação dividiu-se em quatro processos: levantamento bibliográfico, elaboração de questionário, reuniões e trabalho de campo. A última fase revelou-se a

mais difícil. “Com os anos, aos poucos, conquistamos a confiança das pessoas, por meio de participação em campo. Conhecemos as formas de organização das travestis e transexuais e nos integramos a muitos grupos. Antes da coleta de dados quantitativos, promovemos grande imersão”, conta o coordenador.

Políticas públicas

Apenas após inúmeras visitas e conversas – e a partir da tabulação completa dos dados –, foi possível aos pesquisadores revelar o que insistia em permanecer oculto. Que o digam as informações que ultrapassam limites acadêmicos e se aproximam do “território” da intimidade: “É possível afirmar que a idade com que as travestis e transexuais iniciam a mudança corporal é a mesma fase da vida em que saem das casas das famílias e são expulsas das escolas”, esclarece Marco Aurélio Prado. O que também se observou é a vulnerabilidade da inserção de travestis e transexuais em Belo Horizonte. É precário, por exemplo, o acesso a serviços. Além disso, há escassez de políticas e de instituições capazes de garantir direitos a tal público. Outro dado importante diz respeito à escolaridade. Cerca de 54% das entrevistadas chegaram ao ensino médio, mas apenas 6% ingressaram na universidade. Para Marco Aurélio Prado , com os resultados da pesquisa em mãos, é possível defender, junto às autoridades, a criação de políticas públicas e de leis específicas. “Há um vasto leque de informações que nos permitem aprofundar as pesquisas qualitativas e, ao mesmo tempo, discutir com o poder público o acesso às instituições sociais e a urgente necessidade de projetos para combater formas de exclusão social”, comemora. O próximo passo da pesquisa, portanto, será a busca pelo estreitamento de laços com o poder público, de maneira a propor soluções efetivas ao combate à violência e à melhoria da qualidade de vida das transexuais e travestis. Segundo Marco Aurélio Prado, é necessário criar condições de permanência, com políticas de ações afirmativas, “se quisermos que, em breve, todos tenham acesso à escola e às universidades”. A violência contra transexuais em Minas Gerais é uma das maiores do Brasil. Trata-se de uma pessoa “trans” assassinada por mês no Estado. “Existe um ciclo de perpetuação da violência, uma vez que há grande omissão das instituições públicas. É preciso construir políticas públicas específicas, pois propostas gerais não conseguem abarcar os problemas de uma realidade invisibilizada por muitos anos”, completa. MINAS FAZ CIÊNCIA • SET/OUT/NOV 2015

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lEmbra DEssa?

liberdade, ainda que tardia


5 PERGUNTAS PARA...

Paulo Sérgio Lacerda Beirão Em 2011, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) precisou se manifestar sobre denúncia de fraude em publicações científicas que envolviam pesquisadores apoiados pela entidade. Na ocasião, não havia normas internas ou instrumentos estabelecidos para acompanhar, adequadamente, a situação. A diretoria executiva, então, criou, por meio de portaria, uma Comissão Especial, formada por cientistas brasileiros de grande experiência e liderança. O grupo tinha o objetivo de propor recomendações e diretrizes sobre os temas da ética e da integridade na prática científica. À época de tais acontecimentos, a equipe do CNPq foi coordenada pelo professor Paulo

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Sérgio Lacerda Beirão, atual diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da FAPEMIG, que, nesta entrevista, comenta os desafios éticos da ciência.

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Todas as profissões têm códigos e preceitos para orientar as condutas éticas. Como isso funciona na ciência? Há algum tempo, existem normas e comissões de ética para lidar, inicialmente, com pesquisas com seres humanos. Essas regras surgiram ao fim da segunda guerra mundial, quando o mundo foi confrontado com o horror perpetrado pelos nazistas em experimentações nos campos de concentração. Mais recentemente, criaram-se regras para guiar a conduta ética em relação à experimentação com animais. Outros aspectos éticos antes considerados como óbvios, a exemplo do compromisso do pesquisador com a verdade, a lisura e a honestidade, não eram formalizados exatamente por parecerem óbvios. Mais recentemente, verifica-se que, mesmo sendo óbvios, há necessidade de normas capazes de inibir más condutas, como fraudes e plágios. Atualmente, têm surgido, nos âmbitos nacional e internacional, movimentos para estabelecer normas de boas práticas nas pesquisas e nas publicações. Na verdade, trata-se de um processo em construção, embora já existam normas estabelecidas por agências, como o CNPq, que têm diretrizes da boa conduta e de integridade na pesquisa científica. No âmbito internacional, há a Declaração de Singapura, e, também, uma manifestação do Global Research Concil, um fórum internacional de agências de fomento. Mais recentemente, a Academia Brasileira de Ciências publicou uma declaração de princípios éticos para pesquisa.

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Como as instituições têm se preparado para inibir casos de desvio de conduta? Primeiramente, é importante dizer que, embora haja um número preocupante de desvios de conduta, eles representam porcentagem muito pequena do que é publicado anualmente. Mesmo assim, os desvios afetam o que há de mais sagrado na ciência: a confiança no que é publicado. Embora tenha mecanismos de autocorreção, a prática científica demanda tempo, esforço humano e econômico, e, por isso, os desvios devem ser combatidos desde o início. Toda atividade tem pessoas com desvio de conduta. Se me perguntam o que leva uma pessoa a cometer fraudes, responderei, honestamente, que “não sei”, pois não me ocorre boa razão para isso. Certas pessoas atribuem o fato à competição que existe. Neste sentido, poderia haver vantagem temporária para a pessoa que inventa dados ou faz publicações falsas. Tal vantagem, porém, é provisória, pois, mais cedo ou mais tarde, a falsificação será descoberta.

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Diogo Brito

balhos questionados eticamente. Como criar mecanismos eficazes de apuração de fraudes? Os próprios editores da Nature e da Science já manifestaram essa preocupação porque há grande desejo dos cientistas em publicar nesses periódicos, e, muitas vezes, no afã de conseguir o aceite, podem não ter o devido cuidado com a verificação, a checagem e a repetição. Erros, porém, são diferentes de fraudes. Também há casos em que se inventam dados, que acabam sendo descobertos. Publicação feita em janeiro de 2014 revelava uma descoberta fantástica, e, exatamente por isso, todo mundo quis repeti-la. Em fevereiro do mesmo ano, já havia desconfiança de que os dados publicados não eram corretos. Em abril, o experimento foi desmascarado. Em junho, houve um processo contra a pesquisadora que fez a falsificação e, lamentavelmente, em agosto, o supervisor da cientista cometeu suicídio no Japão. Isso nos mostra que quanto mais importante é a suposta descoberta, mais sujeita está de ser descoberta a fraude.

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Por que o autoplágio não é visto como problema por muitos pesquisadores? Isso é um equívoco, pois, com o autoplágio, embora seja menos grave do que o plágio, o pesquisador polui a literatura com informações redundantes e incha currículos artificialmente. Talvez por não ser tão grave quanto o plágio, haja maior tolerância. Isso, porém, não é algo que se deva tolerar. Mesmo os periódicos consagrados, como Nature e Science, já publicaram tra-

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Como a FAPEMIG lida com a questão ao selecionar os projetos? Ainda não há um mecanismo formal para isso. Claro que as Câmaras, se detectarem desvios de condutas como fraude ou plágio, não aprovarão os processos. Entretanto, temos que avançar. A FAPEMIG, primeiramente, irá subscrever, formalmente, o documento da Academia Brasileira de Ciências sobre as boas condutas na pesquisa. Devemos, ainda, criar mecanismos para coibir eventuais más condutas, além de divulgar e promover esses princípios éticos nos cursos de graduação, pós-graduação e eventos científicos.


A urgência e o imediatismo da informação sinalizados por Benjamin (1994) como características do homem e da sociedade contemporâneos, assim como a ascensão das short story frente à narração oral tradicional, apontam a possíveis justificativas da vigência e proliferação da improvisação do espetáculo nos séculos XX e XXI. A improvisação é a arte do instante por excelência e é capaz de, em uma experiência compartilhada entre público e atores, refletir a realidade de ambos no momento mesmo em que se dá esse encontro.

Eis a primeira publicação brasileira sobre a improvisação teatral, que consiste na criação, no próprio palco, de cenas sem texto prévio e com a participação do público. Tal movimento, que começou a ganhar espaço no país a partir dos anos 2000, desenvolveu-se não apenas no teatro, mas, também, na televisão e na internet. O fenômeno remonta, contudo, às principais experiências artísticas e técnicas desenvolvidas no mundo desde a segunda metade do século XX. Resultado de dez anos de pesquisas teóricas e práticas, o livro, financiado pela FAPEMIG, contempla as principais experimentações e técnicas de treinamento e

espetáculo

conta com um anexo de exercícios para o ator-improvisador. A autora, Mariana Lima Muniz, é professora titular da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de atriz, diretora teatral e idealizadora do Festival Internacional de Improvisação (Fimpro). Livro: Improvisação como espetáculo – Processo de criação e metodologias de treinamento do ator-improvisador Autora: Marina Lima Muniz Editora: UFMG Páginas: 246 Ano: 2015

A narrativa como

Em princípio, apesar de sua variedade infinita, a história de um herói é sempre uma jornada. Um herói abandona seu ambiente confortável e comum para se aventurar em um mundo desafiador e desconhecido. Pode ser uma jornada ao exterior, a um lugar de verdade: um labirinto, uma floresta ou caverna, uma cidade ou país estrangeiro, um novo local que se converte em arena para seu conflito com forças antagônicas, contestadoras.

Narrar o mundo também é viver! Eis a máxima capaz de definir, de modo sucinto (porém, fascinante), os princípios por trás da disposição intelectual de Christopher Vogler, responsável por este clássico acerca da “jornada do escritor”. Resultado de décadas de investigação do autor – que também atua como consultor de histórias em Hollywood e ministra aulas para roteiristas e escritores –, a obra realiza vasta análise da arte de produzir narrativas, com base em inúmeros filmes. Os estudos de Vogler, na verdade, remontam ao também clássico O herói de mil faces, no qual Joseph Campbell define a chamada “jornada do herói”. Trata-se, em suma, de “estrutura presente nos mitos e replicada em toda as boas histórias já contadas e recontadas pela humanidade”. Nes-

jornada

ta nova edição de A jornada do escritor – Estrutura mítica para escritores, há, ainda, belas ilustrações de Michele Montez. As imagens aparecem em cada “movimento” da obra, com títulos bastante sugestivos, como “Mapeamento da jornada”, “Os arquétipos”, “A provação” e “Confiança no caminho”.

Livro: A jornada do escritor – Estrutura mítica para escritores Autor: Christopher Vogler Editora: Aleph Tradução: Petê Rissatti Ilustrações: Michele Montez Páginas: 486 Ano: 2015

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LEITURAS

Improvisação como


HI P Er lI N K

EU

cIÊNcIa

Durante a 67ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), foi apresentado o resultado do estudo sobre a “Percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil”. A pesquisa apontou que 61% dos brasileiros têm interesse nos temas relacionados a CT&I, mas ainda é baixo o acesso a essas informações. A maioria dos participantes declarou nunca ou quase nunca se informar sobre o assunto. Quais os caminhos para solucionar tal dilema? Opine no blog Minas faz Ciência!

arTE HIsTÓrIca O tema da ilustração científica é um dos favoritos dos leitores do blog Minas faz Ciência. Os textos sobre o assunto bateram recordes de acesso e estão entre os mais visitados desde o início do projeto, em 2011. O programa Ciência no Ar entrevistou a ilustradora Rosa Alves, da UFMG, sobre a história dessa prática, fortemente desenvolvida no Renascimento, e que, no Brasil, intensificou-se com a vinda da corte portuguesa, em 1808. Inscreva-se no canal para receber notificações a cada vídeo publicado!

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Hora DE DormIr Diversas pesquisas alertam para o uso excessivo de tablets e celulares pelas crianças, especialmente, na hora de dormir. Essa intensa exposição dos pequenos aos dispositivos pode causar danos não apenas pelo tipo de conteúdo, mas, também, devido a aspectos fisiológicos: a “luz azul” dos aparelhos tem impacto direto na qualidade do sono. Em entrevista ao blog Minas faz Ciência, Amarilis Iscold, pediatra e especialista em psicopedagogia, comenta os desafios e a possibilidade de promover o acesso saudável de garotos e garotas às tecnologias.

raZão E EsPIrITUalIDaDE Religião e ciência não se misturam? A combinação pode ser polêmica, mas diversas pesquisas abordam, sim, as questões espirituais. O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), apresenta detalhes sobre este campo em uma edição do podcast Ondas da Ciência. Clique para ouvir!

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Nesta imagem, perceba a intensidade do processo de soldagem de uma junta de aço inoxidável duplex UNS S32205, por meio do método intitulado Friction Stir Welding – também conhecido como “soldagem por atrito e mistura com pino não consumível”. A ação foi desenvolvida e registrada no Laboratório Nacional de Nanotecnologia, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), como parte das pesquisas de doutorado de Tiago Felipe de Abreu Santos – hoje, professor da Universidade Federal de Pernambuco –, na área de Engenharia Mecânica.

VARAL

Tiago Felipe de Abreu Santos


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