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Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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www.divulgaescritor.com Revista Divulga Escritor Revista Literária da Lusofonia Ano I I Nº 10 Nov/ 2014 Publicação: Bimestral Editora Responsável: Shirley M. Cavalcante DRT: 2664 Projeto gráfico e Diagramação EstampaPB Para Anunciar: smccomunicacao@ hotmail.com 55 – 83 – 9121-4094 Para ler edições anteriores acesse www.divulgaescritor.com

Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos colunistas que os assinam, não expressando necessariamente o pensamento da Divulga Escritor.

ISSN 2358-0119

Entrevista João Paulo BernaRdino - O Escritor e Poeta do Amor...........................................05 Portugal Entrevista escritora Albertina Fernandes................................................................13 Entrevista escritora Ana Pereira..............................................................................17 Entrevista escritora Angela Maria Caboz...............................................................22 Entrevista escritora Conceição Carraça..................................................................27 Entrevista escritora Elisabete Salreta.....................................................................32 Entrevista escritora Florinda Dias..........................................................................36 Entrevista escritor Francisco Grácio.......................................................................42 Entrevista escritora Joana Salgado.........................................................................46 Entrevista escritor Jorge Ferreira.............................................................................52 Entrevista escritora Maria Fernanda Comenda........................................................57 Entrevista escritora Maria João Botelho.................................................................62 Entrevista escritora Marisa Alves............................................................................67 Entrevista escritora Otília Martel............................................................................72 Entrevista escritora Rosa Pereira Coelho...............................................................77 Entrevista escritor Rui Carreto................................................................................83 Entrevista escritora Sofia Moreira..........................................................................88 Brasil Entrevista escritor Francisco Laraya (Tito)............................................................92 Entrevista escritora Mariza Sorriso..........................................................................96 Participação Especial: Escritora Eli Rodrigues...........................................................................................21 Escritora Helena Santos.........................................................................................30 Escritora Elisabete Salreta......................................................................................35 Escritora Maria Carolina Sá....................................................................................40 Escritora Joana Salgado..........................................................................................50 Escritora Maria Helena Guedes..............................................................................61 Escritor José Lopes da Nave...................................................................................71 Escritor José Sepúlveda..........................................................................................50 Escritora Amy Dine................................................................................................82 Escritora Sofia Moreira...........................................................................................91 Escritora Maria Tavares.........................................................................................100


Vamos comemorar! Divulga Escritor: Revista Literária da Lusofonia, uma edição especial de fim de ano Portugal, onde temos a participação de um novo entrevistador Português, o escritor João Paulo Bernardino, destaque de capa, a quem agradecemos imensamente o apoio para a elaboração desta Edição.

Shirley M. Cavalcante (SMC) Editora Coordenadora do projeto Divulga Escritor www.divulgaescritor.com

Divulga Escritor se torna uma referência em divulgação, não só para escritores, mas, para profissionais literários, novos mercados se abrem, quanto mais fortalecemos a literatura, mais pessoas querem se tornar assessores literários, mais pessoas querem divulgar escritores. Estamos todos juntos, rumo a um mesmo objetivo, Divulgar Literatura! Não, apenas, ajudar a divulgar escritores, ajudar acima de tudo a realizar sonhos! Muito obrigada, equipe Divulga Escritor, administradores dos grupos: Obrigada, Jose Sepulveda, apoio em Portugal. Obrigada, Amy Dine, apoio em Portugal. Obrigada, Helena Santos, apoio em Portugal. Obrigada, Francisco Mellão Laraya, apoio Brasil. Obrigada, Mirian Menezes de Oliveira, apoio Brasil. Obrigada, José Lopes da Nave, apoio Portugal. Obrigada, Patrícia Dantas, apoio Brasil. Obrigada, Ana Priscila Nascimento, apoio Brasil. Obrigada, Leandro Santos, apoio Brasil. Obrigada, Ilka Cristina, apoio Brasil Obrigada, Júnior Pereira, apoio Brasil. Obrigada, a cada um dos escritores que participam contribuindo com suas maravilhosas trajetórias literárias, apresentadas em entrevistas. Obrigada, colunistas, que mantém o projeto vivo! MUITO OBRIGADA, por juntos estarmos Divulgando LITERATURA. por juntos estarmos dizendo ao mundo, EU SOU ESCRITOR, EU ESTOU AQUI. Divulga Escritor: Revista Literária da Lusofonia, uma Revista elaborada por escritores, com distribuição gratuita para todo o mundo. Boa Leitura!


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João Paulo Bernardino

O Escritor e Poeta do Amor Fotos tiradas na Fábrica das Palavras em Vila Franca de Xira

João Paulo Évora Bernardino, nascido em Vila Franca de Xira em 24.04.1967, escritor e poeta, com vários prémios literários conquistados em Portugal. Pertenceu à Direcção da AJEP – Associação Nacional de Jovens Escritores de Portugal como Presidente Nacional dos Coordenadores Regionais e foi representante do Conselho Permanente e Consultivo de Informação e Redacção da Revista Carpe Diem. Participou com imensos textos no extinto suplemento D.N. Jovem (Jornal de Notícias) e já escreveu vários ensaios e crónicas, algumas delas para rádios locais. Tem dois romances a serem editados muito em breve («A VOZ DA EMOÇÃO» e «SEGUNDA OPORTUNIDADE») e espera editar o quanto antes um livro de poemas de amor, o seu tema preferido. Tem participado pontualmente em revistas culturais, promove constantemente a Literatura Portuguesa sempre que é convidado e tem enveredado pelas entrevistas a vários escritores que começam a dar os seus primeiros passos no meio, incentivando-os a escrever com mais coragem do que nunca.

“Que o amor sai sempre vencedor e que, se sonharmos sempre em grande, também conseguiremos a nossa recompensa em igual escala. É claro que teremos sempre de trabalhar muito, nos dedicarmos de corpo e alma mas, quando prosseguimos os nossos objectivos com optimismo e determinação, alcançamos até o Céu se for necessário.” Boa Leitura! Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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Divulga Escritor – Sei que escreve desde muito cedo e que foi publicado um pequeno conto num jornal quando tinha apenas sete anos. Quarenta anos depois, o que simboliza para si escrever? João Bernardino - Escrever é um acto solitário, por vezes penoso, individual, tal como nascer ou morrer. Mas é por ele que deixo todos os meus sentimentos desde as primeiras linhas de papel, sem dar razões a quem me lê para duvidar da paixão com que escrevo. A escritora Clarice Lispector disse de que “a palavra é o meu domínio sobre o mundo” e disso não me restam dúvidas. Victor Hugo afirmou também de que “as palavras têm a leveza do vento e a for6

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ça da tempestade”. Quem poderá duvidar desta certeza? É fantástica esta definição pois é com elas que os textos ganham determinação. É com elas que tento ser um fazedor de sonhos, um homem de letras, apenas e só. Escrevo desde muito cedo, é verdade, mas ainda hoje sou um pequeno escritor que não sabe se é bom ou medíocre mas que prossegue o dever de ser sempre fiel aos seus sonhos e não às meras circunstâncias do mercado livreiro, das editoras ou das modas literárias. Limito-me apenas a escrever porque considero ser um processo deveras misterioso e mágico, e por isso gosto que a caneta corra pelo papel por sua própria conta e risco. Posso não ter

qualquer espécie de genialidade, acredito mesmo que não a tenha (“a Genialidade é esforço”, dizia Johann Goethe), mas escrevo com a emoção necessária para honrar os meus leitores, até porque aprendi muito ao longo do tempo e já vivi muitos personagens na minha vida: copiei, inventei e até reinventei. Mas, para chegar até onde cheguei como escritor, tive que aprender o que é mais básico na vida: o de ser eu mesmo. É que sem emoção não se pode escrever. Não se pode dizer que se escreve quem o faz desapaixonadamente pois jamais conquistará o respeito e a confiança do leitor, pois este é mais perspicaz do que um detective. Ele é implacável.


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num futuro melhor. Por isso não temo o futuro, bem pelo contrário, pois apesar dos conflitos raciais, das guerras e tudo o que de mau existe por esse mundo fora, das crises económicas e do sofrimento das famílias, estou confiante de que o amor prevalecerá sempre. O mundo e essencialmente as pessoas precisam de amar, de se sentirem humanas, abraçadas. E lerem sobre este sentimento tornam-nas pessoas melhores sem darem por isso, mais calmas e lúcidas. Todos nós precisamos cada vez mais de amor nos nossos corações. Por isso adoro escrever sobre este tema porque também eu sou um apaixonado.

Divulga Escritor – Começando a escrever tão novo, como foi a sua infância? João Bernardino – Muito feliz, posso dizê-lo. Bem diferente da infância dos miúdos de hoje em dia. Grande parte da minha infância foi passada na biblioteca da minha terra, lendo enciclopédias e todo o tipo de livros, essencialmente os denominados “clássicos” que sempre me despertaram curiosidade. Passava dias inteiros na biblioteca, numa altura que não havia internet e computadores só apenas alguns o tinham. E foi com a leitura que acabei por ganhar interesse na escrita e nunca mais tenha parado, participando em concursos literários de onde acabei saindo vencedor. Talvez por isso hoje não me imagine sem escrever. Conseguirá alguém imaginar o Cervantes sem o seu Dom Quixote? 7

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Divulga Escritor – Escreve sempre sobre o amor. Muito chamam-no o “Romancista e Poeta do amor”. Porquê escrever sobre o amor sabendo que existem tantos outros sentimentos? João Bernardino - Se não escrevesse sobre o amor escreveria sobre a morte. A morte é um tema fascinante e dos que mais me intriga. Os mortos nunca estão ausentes das nossas vidas. Apenas não estão presentes fisicamente! E até aqui existe o amor pelo que partiu. A saudade é um acto digno de amor. Não acredito que haja muitas coisas melhores do que amar. O amor é a prova fidedigna dos iluminados. Por isso incido muito a minha escrita sobre esse tema porque ele possuí todas as línguas. Amar é ter uma fé que se desenvolve no espaço e no tempo e até no inesgotável pensamento. É confiar

Divulga Escritor – Conte-nos, como foi a construção do enredo e das personagens do seu romance “A Voz da Emoção”, com publicação ainda prevista para 2014? João Bernardino – É um livro a ser publicado até ao final do ano 2014 como prémio de ter vencido um concurso literário promovido por uma editora portuguesa (Papel D’Arroz). O enredo dos meus personagens são criados no momento em que pego no papel e na caneta e começam a ganhar forma. Nunca determino como e quando acaba, nem quantos capítulos irá ter. Apenas crio personagens (nada do que escrevo é autobiográfico) e expresso as minhas emoções através de histórias todas elas ficcionadas. Se contasse a minha vida, o meu “eu”, estou certo de que não escreveria nada de emotivo (risos). A história deste romance é a de uma moça com grande vocação para a música e que, por Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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imperativos da sua vida (morte do marido e fracas possibilidades de singrar em Portugal, como acontece na realidade hoje em dia no nosso país) se vê forçada a emigrar para França onde, por mera casualidade, conhece um produtor de música que, ao longo da história, a torna na maior cantora mundial de todos os tempos. Acaba por ser uma metáfora aos artistas e essencialmente aos escritores que, com uma simples ajuda, podem também passar do anonimato para o estrelato apenas porque se apostam neles e nas suas obras. Divulga Escritor - “A Voz da Emoção” tem alguma ligação com o seu outro romance a ser publicado, intitulado “Segunda Oportunidade”? João Bernardino – Não têm qualquer ligação porque considero (não sei se bem ou mal) que um escritor, apesar de dever manter um estilo próprio, deve ser versátil e mostrar que é capaz de algo diferente. “Segunda Oportunidade” uma história admirável de um amor carregado de encruzilhadas entre as personagens principais mas tão forte que o próprio destino não consegue derrubar. Afinal, quantas pessoas passam uma vida inteira à procura de um verdadeiro amor? E quantas realmente o encontram? Porém, tudo na vida tem um preço. Além disso, “Segunda Oportunidade” é a minha grande aposta editorial e à qual, talvez por isso, não desprezando os meus demais trabalhos anteriores, dediquei uma maior atenção a todos os níveis para poder ser um óptimo romance, capaz de rivalizar com os dos escritores de reno8

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me. Vamos ver se assim acontecerá aquando do seu lançamento num futuro muito próximo. Divulga Escritor – Qual a principal mensagem que o João Bernardino quer transmitir ao leitor através dos seus textos literários? João Bernardino – Que o amor sai sempre vencedor e que, se sonharmos sempre em grande, também conseguiremos a nossa recompensa em igual escala. É claro que teremos sempre de trabalhar muito, nos dedicarmos de corpo e alma mas, quando prosseguimos os nossos objectivos com optimismo e determinação, alcançamos até o Céu se for necessário. Devemos apenas ter medo do passado que por vezes nos bloqueia a felicidade e nos impede de ir à procura dos nossos sonhos. Raios partam o passado! (risos) Porque existes?! (risos). Temos de pensar de que, se colocarmos muito amor no que fazemos, não só na escrita mas sobretudo na vida, os nossos dias serão, com certeza, mais felizes e tornar-nos-ão umas pessoas melhores. Divulga Escritor – Pensa em publicar novos livros, além dos romances que estão prontos a serem editados? João Bernardino – Estou optimista com os futuros resultados dos dois livros já falados e tenho o romance “A DEMOLIÇÃO DOS BASTIÕES” já terminado. Fala sobre o Terceiro Segredo de Fátima (tema religioso mundialmente conhecido). Tenho um outro que tem já 50 páginas escritas e que incidirá no início do Séc. XVIII, cujo título é “CONSORTE DE

SANGUE”. Além disso, através da minha página de Facebook (João Paulo Bernardino – Escritor, que convido a visitar e a gostar) tenho-me lançado no mundo da poesia com resultados tão surpreendentes quanto elogiantes e que, com perto de 400 poemas já escritos, tenciono publicar em breve com o título “AMOR AOS PEDAÇOS”. Estou muito esperançoso e com muita vontade de escrever muitos mais livros. Divulga Escritor – Nota-se perfeitamente que, para si, um livro é um pedaço de felicidade... João Bernardino - O livro é uma extensão da memória e da imaginação e, talvez por isso, antes de se ser escritor ter-se-á de ser um excelente leitor. O escritor José Luis Borges, de quem muito admiro, disse um dia de que “chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve”. Não poderia concordar mais. O preço pela perfeição é a muita leitura e a prática constante da escrita. A solidão do escritor alegra-se com a elegante esperança de ser lido. A sua longa viagem começa com o primeiro passo de criar algo numa folha de papel e seguir o segredo da felicidade que consiste não em fazer o que se gosta mas em gostar do que se faz. Confúcio tinha razão: “Quando nasceste, todos riam e só tu choravas, vive de tal modo que quando morreres todos chorem e só tu rias”. É o que procuro fazer quando escrevo e sinto-me feliz por isso. Divulga Escritor – Você já actuou, entre outras Instituições, na Direção da AJEP – AssociaRevista Divulgar Escritor • outubro/novembro de 2014

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ção Nacional dos Jovens Escritores de Portugal, nos anos 90. Em sua opinião, quais os principais desafios encontrados pelo escritor no mercado literário em Portugal? João Bernardino – Os desafios são imensos, como creio acontecer actualmente noutros mercados, sobretudo no Brasil. Há cada vez mais escritores que estão a florescer e a aproveitar as imensas antologias promovidas por variadas Editoras independentes para mostrarem os seus trabalhos. Porém, quando pretendem editar os seus originais, as Editoras recusam por não serem obras que lhes permitam rentabilizar rapidamente o investimento. Então, a troco de um valor monetário considerável, acabam por publicar em Editoras que publicam e divulgam (nem todas) as suas obras. E com a enorme crise que abala Portugal, raros são os escritores que colocam à luz do dia os seus projectos, gorando-se, desta forma, a possibilidade de refrescar a nossa literatura e mostrar até a qualidade da mesma. O pior é que ninguém se une para demover esta ideia de que o escritor tem de pagar para editar. Os escritores são muito isolados e, contrariamente aos pintores e aos músicos que se unem frequentemente até no apoio a grandes causas sociais e culturais, os escritores têm por hábito pensar que alguém tratará do assunto por eles... Errado! Errado! Fala-se muito e actua-se muito pouco ou nada... É o reflexo da Cultura e da Educação de um país de brandos costumes, sempre à espera que o outro decida e trate de tudo por ele.

Divulga Escritor – Quais as acções de melhorias que o João Bernardino citaria para o desenvolvimento do mercado literário português? João Bernardino – Uma forte aposta em novos escritores que despontam pelo país e que não enganam pela sua qualidade. São excelentes escritores, com óptimos textos e que, claramente, venderiam no mercado nacional. Deveria existir uma boa Lei do Preço Fixo dos livros, um Código do Direito de Autor adaptado aos novos tempos e uma mais clara legislação sobre a concorrência. O Estado deveria promover na actividade escolar o gosto dos jovens pela leitura e, sobretudo, pelo estudo do nosso património literário e até apoiar o reconhecimento externo da nossa língua e dos nossos escritores. Outra melhoria era a redução do preço dos livros (no mínimo em 25%) para que houvesse uma maior leitura e, consequentemente, oportunidade das pessoas escreverem melhor. A leitura é fundamental para bem se escrever. Deveria haver mais concursos literários para estimular os jovens a escrever mais e melhor e, por último, haver um valor substancialmente maior no Orçamento do Estado para a Cultura em Portugal que, nesta fase, “desbarata” toda a cultura, em especial a das novas gerações. Porém, com o novo corte de 700 milhões de Euros na Educação para o ano 2015, não creio vislumbres positivos nesta matéria. Às vezes penso que nos estão a “embrutecer” sem darmos por isso. Basta ver nos milhares de estudantes universitários que desistem dos seus cursos, dos

professores que não são colocados nas escolas atempadamente (fora os que foram despedidos por dá-cá-aquela-palha!) e nos milhares de alunos que não têm aulas... A Educação e a Cultura são um desastre neste país! Divulga Escritor - Como vê a posição de escritores já com livros editados e os jovens escritores que pretendem dar os seus primeiros passos tentando posicionar-se no mercado literário? João Bernardino - Fernando Pessoa, numa frase perfeita, comentou “Arre! Estou farto de semi-deuses! Onde é que há gente no mundo???” Acho muito engraçado contactar ao longo dos últimos tempos com alguns escritores que, por apenas terem editados um livro ou dois, por sinal pagos para serem editados, se julgam já importantes no panorama da nossa literatura, se metem em bicos dos pés tal os semi-deuses de que Fernando Pessoa fala. Parecem ter bastante no seu interior e pouco precisarem do exterior. A sobriedade é uma qualidade que nem todos têm, infelizmente. É pena. Ser escritor é ser-se um exemplo, sobretudo para os mais novos, sejam de idade sejam de quem só agora começa a escrever. Eu ajudo sempre quem queira escrever porque, para mim, é um momento de grande ternura. Quem me conhece e tenha oportunidade de ler esta entrevista sabe que é verdade. Diz-se que não se pode ser bom pela metade e essa é a realidade. Escrever um ou dois livros não me dá o direito de olhar com deselegância para quem só agora começa a fazê-lo e vai lá saber-se Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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porquê por vezes tão tarde. Senão, tal como disse Martin Luther King “aprendemos a voar como pássaros, a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”. Mas, a aurora chegará um dia. Acredito que todos os escritores sem excepção, começando pelos mais consagrados que têm evidentes responsabilidades, possam até não servir de exemplo a ninguém, mas que venham a servir pelo menos de lição. Falando de mim, prefiro que me considerem um escritor amador mas humilde e sempre disposto a salvar a Literatura do meu país do que um escritor profissional e de curta memória, que se esqueceu que também precisou um dia de alguma ajuda, algum aconselhamento, alguma reportagem que pudesse elevar os seus trabalhos. É que, de facto, foram os profissionais que construiram o transatlântico Titanic mas não nos podemos esquecer de que foram os amadores que fizeram a Arca de Noé. Divulga Escritor - O que acha das editoras hoje em dia só editarem contra a entrega de valores pecuniários por parte do escritor? João Bernardino - Já dei um pouco a minha ideia em resposta anterior. O escritor George Orwell considerou que “em tempos de embustes universais, dizer a verdade se torna um acto revolucionário”. Pois bem: podem apelidar-me do que acharem por bem, mas o certo é que considero uma deslealdade enorme pagar-se para se editar. Não o digo como um gesto revolucionário, bem longe disso, pois até já disse publicamente que compreendo a atitude accionis10

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ta de uma Editora que não está no mercado para perder dinheiro. Confesso até que a presença destas Editoras tornaram o nosso mercado mais dinâmico, aberto e até mais competitivo, com imaginação e trabalho, dando maiores benefícios e oportunidades aos escritores. Mas, para sair vencedor do Euromilhões tenho que arriscar e “perder” dinheiro na aposta. Tenho que arriscar na vida, até porque diz o ditado “quem não arrisca não petisca”. Ou serão as Editoras hoje em dia umas meras empresas de capital de risco que apenas gerem “fundos” onde sabem que têm uma capitalização assegurada? Será que apenas os ricos ou os mais abonados (que devem ser muito poucos) conseguem editar? Por isso se vê tantos livros de péssima qualidade à venda. Felizmente apenas são vendidos nos sites das Editoras, porque se estivessem nos escaparates das livrarias seria bem pior, tamanha a falta de rigor e de revisão que grande parte têm. O meu receio é de que este seja o começo do descalabro da nossa literatura. Falo no geral, obviamente, pois há Editoras que se preocupam com a qualidade do que se publica, independentemente do autor pagar a sua edição. Mas há tanta aberração, meu Deus! Quando deveriamos ter bons best-sellers ou perto disso, só encontramos lixo editorial. Essa é a verdade e não devemos ter medo de apontar o dedo! Divulga Escritor - Quer dizer então que hoje em dia é um negócio editar? João Bernardino - Existem dúvidas? Publica-se a um ritmo quase

industrial a troco de verbas por vezes consideráveis e os autores pensam que, assim e a partir daí, se tornam escritores, desconhecendo que a decisão de publicar por parte da Editora dependeu mais da capacidade de mobilização do escritor do que da qualidade da sua obra. Não faço desta entrevista uma reclamação mas antes um apelo. Suspeito que a Literatura portuguesa esteja a extinguir-se e só poderá continuar iluminada e incorruptível, perdurando no tempo, se este tipo de negócio se alterar. Não se procure escritores com uma obra-imortal mas as Editoras devem permitir-se a apostar em bons autores e não aniquilarem a escrita a troco de dinheiro. Divulga Escritor - O que o JPB pretende num futuro próximo? João Bernardino – Pessoalmente só quero ser feliz, pois não há nenhuma outra forma de amor. Quanto mais velho fico mais desejo amar sem medida, incondicionalmente, talvez porque não podemos negar a passagem do tempo por nós. Por isso devemos amar, porque a vida não é apenas lembrança. Tem que haver sempre amor e por isso, nesta fase da minha vida, não me importo de viver por ele até ao meu último suspiro. Amo a minha família, a minha mulher e a minha filha que é o maior tesouro e que guardarei para o resto da minha vida. Ninguém deveria permitir-se passar pela vida sem experimentar pelo menos uma vez o amor. Sem ele, estou certo de que não teria estrutura emocional para existir. E adoro amar porque o amor não


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se obtém quando o recebemos mas quando o damos. É isso que procuro apenas. O resto virá por acréscimo, estou certo. Divulga Escritor - Como escritor, como gostaria de ser recordado daqui a muitos anos? João Bernardino – Gostaria de ser recordado como romancista e não tanto como poeta, talvez porque sou muito exigente comigo próprio e perfeccionista no que concerne à minha escrita. Contar grandes histórias sempre foi o meu forte mas estou a adorar escrever poemas porque é curiosa a forma como um poeta não se limita, por exemplo, a escrever “LUA”. Ele acumula adjectivos ou qualquer outro acréscimo de forma a não escrever “LUA” mas antes “aéreo-claro sobre escuro-redondo ou celeste alaranjado-ténue-do-céu”. É incrível e apaixonante este jogo de palavras. Mas só os leitores poderão avaliar o meu trabalho e, quem sabe, no futuro, decidam como deva ser recordado. Por ora, a minha garganta não anseia pela corda (risos). O certo é que escrevo prosa e poesia com a mesma intensidade e sentimento, com toda a alma. Disso ninguém me poderá acusar nunca e, seja pela prosa ou pela poesia, quem sabe me torne um génio como o escritor argentino Jorge Luis Borges (risos). Divulga Escritor - Estamos a chegar ao fim da entrevista, agradecemos a sua participação no projecto Divulga Escritor. Foi muito bom conhecer melhor o Escritor João Bernardino, e despedimo-nos perguntando-lhe que mensagem quer deixar para os nossos

leitores e todos os demais escritores? João Bernardino – A mensagem para quem começa agora a escrever é que leiam muito antes de começarem a escrever pois o trabalho que vos espera não vai ser fácil. É preciso muito esforço e dedicação e, para tal, recomendo que nunca desanimem. Isso é o pior que pode acontecer ao iniciante. Acreditem nas vossas capacidades e não se menosprezem. E, pelo menos como aconteceu comigo, não tenham a urgência de um recém-nascido, pois sempre me questionei no que importa o sucesso e o fracasso, desde que no final possamos mostrar os nossos trabalhos e sermos felizes por o conseguir?! Mas, como dizia o escritor Nobel da Literatura José Saramago, “não tenham pressa e não percam tempo”. Àqueles que já andam neste mundo da escrita há mais tempo como eu, deixo o pedido para que se ajude os mais novos a escrever ainda mais e com maior paixão. Não podemos deixar os mais novos para trás mas antes dar-lhes alento para nunca pararem e melhorarem. Temos que os ajudar a escrever com maturação, sem pressas e com a certeza de que quem ganhará é a Literatura portuguesa. Acreditem! Mas, sobretudo, uns e outros, nunca deixem de escrever. Nunca! Obrigado pela consideração e pela entrevista. Foi um prazer enorme participar no Divulgar Escritor a quem desejo o maior dos sucessos na pessoa da sua mentora Shirley Cavalcante. Bem-haja. E nunca deixem de escrever! JAMAIS! E unam-se! Sempre, pois a nossa Literatura não pode morrer nunca!

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Entrevista Escritora Albertina Fernandes EU, Albertina Fernandes Fui professora do Ensino Secundário, sempre na minha terra natal, Arcos de Valdevez, de onde saí apenas para fazer o estágio pedagógico, no ainda Liceu Sá de Miranda, de Braga. Fiz a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Francês), a Alliance Française (onde dei aulas), um mestrado em Língua e Literatura Francesas e outro em Educação Artística. Tenho quatro filhos (dois rapazes, duas raparigas, todos casados) e seis netos, (um rapaz entre seis raparigas). Aos netos devo o início da minha entrega à escrita, enquanto publicação. Sempre que me pediam para lhes contar histórias, eu contava, mas variava as versões, porque me esquecia das anteriores, e eles não gostavam, exigiam a ‘verdade’ dos factos. Emociono-me muito com as Artes – a literatura, a pintura, o canto.

Por João Paulo Bernardino Escritor

Antes de mais os meus agradecimentos por ter aceitado em dar à DIVULGA ESCRITOR a possibilidade de a conhecermos um pouco melhor. O facto de a Albertina Fernandes ter casado muito cedo e ter tido filhos quando ainda frequentava a Universidade, serviu para amadurecer a sua escrita e, quiçá, melhor compreender mais tarde a forma como deveria escrever contos infantis ou foi algo que lhe surgiu naturalmente? Albertina Fernandes – Sou eu que devo sentir-me honrada e grata pelo vosso convite. Respondendo à pergunta, acho que tudo quanto vamos capitalizando ao longo do nosso percurso de vida vai enriquecer a nossa escrita. O facto de ter “Poderia enumerar todos os sido mãe aos dezanove anos e livros que, com os alunos, os aos vinte e oito ter tido os meus encarregados de educação e até quatro filhos permitiu-me escom funcionários, transformei tar, talvez, mais próxima das em textos dramáticos. Orientei a motivações das crianças. Fui, disciplina de Expressão Dramática também, professora do ensino durante alguns anos e isso básico durante algum tempo e permitiu-me a escrita de pequenas a conjugação dessas realidades peças em parceria com os próprios com, mais tarde, o nascimento dos meus netos, trouxe-me, nealunos que, ao sentirem-se cocessariamente, mais-valias para autores, se enchiam de orgulho.” a literatura infanto-juvenil. Foi, efectivamente, com a escrita Boa Leitura! para crianças que eu me estreei.

Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

O que a levou a escrever desde muito nova, talvez até numa época em que as mulheres eram desmotivadas a escrever, e qual o livro que escreveu que melhor demonstra a sua resiliência enquanto escritora? Albertina Fernandes – Não poderei dizer que comecei muito nova. Comecei, sim, muito nova a amar a literatura. Era uma criança devoradora de livros, e esse gosto foi ganhando cada vez mais espaço na minha vida. Sabia que era nas Letras que eu iria mover-me profissionalmente. Ser professora era o caminho. Tendo em conta os sacrifícios que a minha formação académica implicaria para os meus pais, a opção pelo curso do Magistério Primário era a via mais plausível, porque dois anos volvidos, entraria no mundo do trabalho. A escrita veio depois, na idade Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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madura, às portas da aposentação. Foi uma espécie de vulcão que surgiu no meu cérebro, parecendo querer deitar cá para fora o que lá andava guardado desde sempre. A paixão pela Literatura dos escritores consagrados de que me alimentava transmutou-se em surpresa para mim própria ao descobrir que também era capaz do meu próprio acto de criação. Daí à publicação foi um passo, porque a primeira editora para a qual enviei alguns dos textos respondeu favoravelmente. Não direi, pois, que se trata de resiliência, mas sim de um entusiasmo difícil de travar. Cada livro que sai sinto-o como um pedaço de mim. Mas creio que o romance “EU VOU COM AS AVES” a ser publicado em Dezembro, me preenche mais. A sua preocupação com as mudanças que acontecem em catadupa no mundo e o facto dos homens cada vez menos se preocuparem com o seu passado monstruoso, faz com que queira dar um forte cunho de positivismo e elevação à sua escrita. Porquê? Albertina Fernandes - Diz-me a minha memória que, enquanto criança, me sentia bem a ler histórias pensando nas personagens como se fossem reais, de carne e osso, sentia-lhes a respiração ao meu lado, falava com elas, era a vida real que fervilhava em torno de mim. Quando adolescente, acreditei cegamente no infortúnio das personagens do Amor de Perdição. Li o livro de um só fôlego, banhada em lágrimas e pedindo aos Santos que protegessem a Teresa e o Simão, embora cheia de pena da desgraçada Mariana. Para mim, a Literatura era assim: verdade e vida. Não me sinto, hoje, uma pessoa dominada por um pessimismo exacerbado,

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ainda creio nos valores que podem nortear a conduta do ser humano, e, como tal, acho que não deveremos fazer como a avestruz. Penso que os meus livros, embora com alguma turbulência a atravessá-los, enviam sinais de luz que o leitor vai perscrutando até serenar, com um certo optimismo no final. A literatura – e particularmente a de ficção - não me parece que tenha apenas uma função ‘digestiva’. E a arte da palavra é uma das mais nobres.

dar vida a personagens ‘de papel’, colocá-las em interacção, levar os participantes (actores e espectadores) a reflectirem sobre a problemática que se equaciona na peça. Isso é muito bom. Torna-nos, penso eu, menos egoístas, mais solidários, mais críticos também. Lamento que as escolas estejam pouco motivadas para esta forma de expressão artística. As escolas deveriam ser o epicentro da cultura e isso infelizmente não acontece.

Acompanho há algum tempo a sua escrita e não posso deixar de me alegrar ao saber da sua paixão pelo teatro. Para quem escreve poesia diariamente, contos infanto-juvenis e ficção como o belo livro de contos “BRUMAS” que teve a amabilidade de oferecer, de que forma escrever teatro a fascina, logo uma área da literatura cuja prática quase não faz sentido em Portugal? Albertina Fernandes – Fascina-me, em primeiro lugar, a representação. Enquanto fui professora, sempre me preocupei em levar os meus alunos para o palco, era assim que procurava incentivá-los para a beleza da Literatura. Digo isto com emoção, porque foram sempre momentos muito bonitos e produtivos, estreitavam-se laços, desenvolvia-se o sentido de grupo e de respeito pelo outro. Poderia enumerar todos os livros que, com os alunos, os encarregados de educação e até com funcionários, transformei em textos dramáticos. Orientei a disciplina de Expressão Dramática durante alguns anos e isso permitiu-me a escrita de pequenas peças em parceria com os próprios alunos que, ao sentirem-se co-autores, se enchiam de orgulho. O teatro permite-nos

Com a bonita idade de 66 anos de idade e mente de mulher bem mais nova, o que a levou a escrever “ESPERANÇA”, um livro que não sendo de todo autobiográfico, tem muito da sua pessoa? Será por querer deixar um forte testemunho aos seus descendentes? Albertina Fernandes – Não sei bem que razões presidiram à escrita deste livro. Vem, creio eu, na linha do que referi anteriormente, isto é, os temas e a necessidade de os escrever vêm ter comigo e eu deixo-me conduzir, não existe em mim um plano prévio. A narradora começou a tomar forma consistente, descobri nela algumas das minhas características, do meu modo de olhar o mundo, e o texto foi ganhando corpo. Costumo dizer que ninguém pode escrever sobre aquilo que não sabe. E eu vi-me a lançar para as personagens que me foram convocando vivências e modos de sentir que me eram familiares. Um dos meus filhos, quando leu o livro comentou que muitas das passagens já mas tinha ouvido. Talvez isto aconteça com outras pessoas que escrevem ficção. Afinal, a ficção assenta em tantos factos reais… E nesse sentido tem um pouco de verdade a velha frase que diz que todos os livros são autobiográficos.


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Ainda acredita, tal como escreveu no livro “ESPERANÇA”, de que o Amor é o único sentimento que nos resta para ter esperança na literatura portuguesa e essencialmente neste país cujo futuro arriscamos em deixar culturalmente degradado aos nossos filhos e netos? Albertina Fernandes – Eu ainda acredito que o Amor consegue mover montanhas e acredito noutros valores que dignificam o Homem. Acredito de forma muito especial que a Arte nos pode salvar do abismo, embora tenha consciência de que não estará ao alcance de todos. Será, talvez, uma visão elitista, mas a Arte faz-nos sentir o caminho menos penoso. Nesse aspecto, considero-me uma privilegiada. No caso da Literatura Portuguesa, quero mesmo acreditar que ela vai continuar bem viva, apesar de estarmos a ser cada vez mais comandados por interesses económicos. As escolas estão mais voltadas para a frieza dos números e o futuro pode não ganhar muito com isso. Acho que os escritores e outros artistas poderão/ deverão ter um papel preponderante na formação humanista dos que vierem depois de nós. Meu Deus, com uma vida recheada de livros, experiências dedicadas às letras, trabalhos de ensaios e poesias, participação em mais de uma dezena de coletâneas e apresentações de livros editados pelos seus amigos, que mais podemos esperar da Albertina nos próximos anos? Albertina Fernandes – Não sei responder. Descobri que escrever, para mim, é uma espécie de força vital como caminhar ou ler ou ouvir música ou estar com a família. Acredito, porém, que a inspiração - ou como

lhe queiramos chamar - não deverá ser uma fonte inesgotável e que de um momento para o outro poderei reconhecer que já não tenho mais nada para dizer. Se isso acontecer, terei de parar. Aliás, gostaria muito de ver os meus livros com uma projecção mais alargada a nível nacional, mas, por temperamento, remeto-me ao meu espaço e não faço nada para promover o meu trabalho. Amigas minhas que também escrevem incitam-me a agir, tal como elas fazem, mas eu não, não sei se é uma espécie de pudor que me trava, enfim… Para quem já publicou tantos livros e ensinou ao longo de tantos anos, como é que uma Mestre em Língua e Literatura Francesa vê a literatura em Portugal, essencialmente a publicada pelos jovens escritores, possivelmente até por alguns dos seus ex-alunos? Albertina Fernandes – É altamente encorajador reconhecer que temos escritores jovens a escrever tão bem. Penso, por exemplo, no Valter Hugo Mãe, com uma escrita tão enxuta, tão musical e despretensiosa e poética que me deixa encantada. Quem esteve no ensino durante quarenta anos, vê alunos seus em diversos sectores de actividade – cantores, médicos, escritores. A Paula Teixeira de Queiroz, que está a fazer um percurso literário bonito é um desses casos. São os jovens que amam a escrita e a ela se entregam que não deixarão agonizar a Língua Portuguesa, nos seus múltiplos registos. Foi com o livro “PALAVRAS DA AVÓ” que deu início ao mundo da edição, por insistência dos seus netos. Acredita que eles, com a actual crise em Portugal a arrasar

por completo a Educação e a Cultura, possam um dia apenas falar do que a avó escrevia há 20-30 anos, ou haverá futuro na literatura portuguesa para eles e todos os demais? Albertina Fernandes – Como já disse, e não sendo profeta, acredito que o futuro não deixará morrer o fulgor de nossa língua e da nossa literatura. É, hoje, a nossa grande fortuna e deve ser motivo de orgulho, porque a sua riqueza é extraordinária. Os livros que deixarei aos meus netos servirão apenas para sustentar a memória desta pessoa que os amou profundamente e que pensou neles e que por eles entrou no universo da escrita. Infelizmente chegamos ao fim da nossa belíssima entrevista, que agradeço imenso ter-me concedido. Na verdade, se me pedissem para a descrever em termos de ser humano diria apenas que a Albertina é uma mulher enorme. Mas, como se descreve a Albertina enquanto escritora e o que deseja ainda conseguir daqui para a frente? Albertina Fernandes - Sou uma pessoa modesta, emociono-me com as alegrias e com o sofrimento dos outros, emociono-me com a música, a dança e a pintura. Gosto de ouvir as crianças cantarem as canções com as minhas letras. Gostaria de ter mais visibilidade no âmbito da escrita. Narcisismo? Talvez. Não o seremos todos um pouco? Agradeço, uma vez mais, a oportunidade desta entrevista.

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Entrevista Escritora Ana Pereira Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

Chamo-me Ana Pereira e nasci a 8 de Abril de 1987 na cidade de Viana do Castelo, Portugal, onde resido atualmente. Licenciei-me em 2009 na área da Educação pela Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Na mesma Instituição terminei em 2013 o 2º ciclo de estudos: Mestrado em Didática da Matemática e das Ciências. Desde cedo tive um fascínio particular pela Língua Portuguesa, começando no gosto pela leitura e, posteriormente, o gosto pela escrita. Apesar do meu gosto pela escrita, só em 2009 criei um blogue onde a fui cultivando e aperfeiçoando. Em 2013 lancei a minha primeira obra: Coração de Tinta.

Escritora Ana Pereira, é um prazer contarmos com a sua participação no projeto Divulga Escritor, como a escrita esta inserida em seu dia-a-dia? Ana Pereira - Quando comecei a escrever, censurava-me pois receava as criticas, mas convenci-me que se me censurasse, deixaria de ser autêntica. Numa fase inicial escrevia todos dos dias (prosa) mas depois comecei a escrever semanalmente poesia. Tive de me disciplinar. Para escrever é importante que haja “fluência literária” ou seja, inspiração. Não me sento à espera que ela surja. Disciplinei-me e sei que ao fim da semana tenho de escrever. Já faz parte da rotina. Assumo as situações descritas mas é o meu eu poético que fala. Apenas partilho o poema se sentir que é suficientemente bom. Como em tudo, sou critica relativamente ao que escrevo e há poemas de que gosto mais do que de outros

“Por outro lado, parti do princípio que outras pessoas poderiam identificar-se com o que eu escrevia e que as levaria a refletir e, quem sabe, tambem a escrever.”

Que temas você aborda em seus textos literários? Ana Pereira - Quando escrevo parto de um sentimento ou ideia e assumo a realidade desses acontecimentos, vestindo esses sentimentos como se fossem meus. De um modo geral a minha poesia assenta em sentimentos como a Saudade, o Amor, a Ausência, o Desejo. Neste momento a minha

Boa Leitura!

poesia aproxima-se mais da poesia romântica, sendo que o sentimento mais presente é o Amor. Como se dá esta transição, da escrita, de texto em prosa para poesia? Ana Pereira - Durante cerca de 2 anos apostei numa escrita mais pessoal, prosa, fazendo do papel um confessionário mas apercebi-me de que não era a melhor opção. Nunca me considerei uma boa contadora de histórias, pois tal exige uma grande capacidade para cativar o leitor ao longo de dezenas de páginas. Não sou capaz de o fazer mas a poesia utiliza o lado lirico e metafórico da linguagem e permite dar asas à imaginação. Li diversos blogs de poesia, poetas Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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consagrados. Após diversas tentativas falhadas passei a escrever poesia criando imagens poéticas. Considero que as pessoas quando leem devem visualizar o que as palavras transmitem. Ana, como foi a escolha do nome para o seu blog “Alma Inspiradora”? Ana Pereira - Quando criei o blog foi com o intuito de fazer dele um diário virtual onde desabafaria e falaria sobre mim. Como seria uma desconhecida para os leitores, assumi-me como mais uma “alma” que escrevia. Por outro lado, parti do princípio que outras pessoas poderiam identificar-se com o que eu escrevia e que as levaria a refletir e, quem sabe, também a escrever. Seria, por isso, Inspiradora. Daí a ideia chave do blog ser Inspirem-se: deixem-se levar pelas palavras e digam o que vos vai na alma. Que temas você aborda em seu livro “Coração de Tinta”? Ana Pereira - Coração de Tinta aborda os sentimentos que poderão surgir ao longo de uma história de Amor. Inicialmente falo sobre do modo como eu vejo a poesia e do meu processo de escrita. Depois começo a contar a história propiamnete dita. Ao longo do livro existem citações para que o leitor se situe na história e saiba qual o sentimento que irá ser abordado nos poemas seguintes. Os sentimentos ou ideias abordadas são a Solidão, o Amor romântico, o Desejo, a Saudade, a Tristeza e a Esperança. Idependentemente da história, cada poema existe por si só. 18

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Como foi a construção desta obra literária? Ana Pereira - A obra Coração de Tinta foi uma obra do acaso. Num determinado momento apercebi-me de que o que escrevia era suficientemente bom para partilhar com os outros. Foi por entre as minhas inspirações e vontades que escrevi poemas sobre diversas temáticas (Amor, Saudade, Tristeza, Solidão…). Contudo, senti que só faria sentido escrever um livro se pudessse criar um fio condutor, uma história, algo que fizesse sentido para quem me lesse. Face à diversidade de temas, organizei os poemas com o intuito de contar uma história de Amor porque o Amor romântico é um sentimento multifacetado e que desencadeia diversas emoções. Onde podemos comprá-la? Ana Pereira - O Coração de Tinta está disponível no site da editora Chiado Editora e em diversas livrarias espalhadas por Portugal. Também pode ser encomendado online na FNAC, WOOK, Berthrand, Sitío do Livro ou Book it (atual Note it). Se forem às lojas FNAC, WOOk ou Berthrand podem também encomendar. Quais os seus principais objetivos como escritora? Ana Pereira - Tenho uma enorme paixão pela poesia e poderia dizer que é um vício. É algo que já faz parte de mim. Não me imagino sem escrever, mesmo que nunca seja um sucesso nessa área. Contudo, como qualquer escritor desejo ser reconhecida pelo meu trabalho literário e que me reconheçam como poetisa. Claro que

isso dependerá da qualidade atribuída ao que escrevo e isso, está na mão dos leitores. Para mim “o céu é o limite”. Como você vê o mercado literário em Portugal? Ana Pereira - O que se verifica é que a nivel literário de um modo geral, quem tem lugar cativo são os autores estrangeiros, os autores já consagrados e os que são figuras públicas. Olhando para a poesia, ainda há a ideia de que a poesia é so para alguns e que é complicada de ler. Torna-se, por isso complicado haver uma “afirmação” nesta área pois acaba por não ser rentável pois ainda há esse perconceito em relação ao campo poético.

lativamente à minha obra e em relação ao que escrevo e que se aventurem a “descobrir-me” poeticamente. Acima de tudo abram os vossos horizontes literários e partam à descoberta. Talvez também vocês descubram a vossa veia literária e se inspirem e escrevam o que vos vai na alma.

Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário em Portugal? Ana Pereira - Mais do que olhar para os autores estrangeiros e para os autores que são já consagrados, é importante dar destaque aos novos talentos literários. É preciso sangue novo. As editoras deveriam dar mais destaque e promover o género poético. O mercado não se pode apoiar apenas no dinheiro. Felizmente já vai havendo alguma preocupação com a divulgação poética mas é preciso bem mais. Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos a sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor a Escritora Ana Pereira, que mensagem você deixa para nossos leitores? Ana Pereira - Espero que os leitores tenham ficado curiosos re-

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Participação Especial Catarina tinha que escrever - sempre que lhe dava vontade num teclado velho. Não lhe restara mais nada. Um curso, mil oportunidades, tudo lhe tinha escapado. Aquele onde os seus dedos deslizaram anos a fio tinha sido vendido. Preservava ainda memórias de tempos áureos. Filha de pai enfermeiro e mãe jornalista, tivera uma vida estável. Dotada duma inspiração resplandecente publicou dois livros que pouco renderam. Sobrevivia com uma pensão. Chegou a namorar na sua juventude, mas não daquela forma que gostaria, nem com quem mais quis. Encostava-se, agora, naquele sofá cinza, onde já teria sonhado vezes sem conta… e lembrou-se do Gustavo, homem simples, mas muito amável, cabelos negros e detentor de uma voz radiofónica. Conhecera-o há alguns anos. Nunca soube o que vira exatamente naquele jovem com olhar de menino, ou o que ele vira nela. Seriam aqueles dentes desencontrados quando abria o sorriso para ela?! Talvez o olhar brilhante acompanhado das covinhas que lhe penetravam a pele com vestígios imparáveis de sede… Falar em arrepios seria desmistificá-lo. Foi no exacto momento em que largou o computador portátil, encostando-o a uma qualquer almofada velha e gasta para fechar os olhos e concentrar-se nas lembranças baças do rosto do Gustavo que alguém bateu à porta. Pensou que seria a vizinha, sempre a chateá-la pedindo coisas ou a perguntar-lhe por marido. Já não aguentava mais. Nem se levan-

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Escritora Eli Rodrigues

tou. Entretanto, ouviu uma música qualquer que não reconheceu. Ficou curiosa com o que se passaria lá fora. Tocaram à campainha. Correu para a porta, uma vez que a vizinha nunca tocaria à campainha do prédio. Perguntou quem era. Lembrou-se de como seria inteligente se tivessem colocado um Intercomunicador com vídeo para que ela conseguisse perceber quem estaria a maçá-la. Como morava no primeiro andar, pensou descer os poucos degraus e satisfazer a curiosidade. Mas, não iriam bater à porta, se estavam fora do prédio. Alguém deixara a porta aberta. Espreitou pelo visor e o seu olhar não alcançou ninguém. Consultou o relógio e o calendário: 16 horas, domingo, 2 de Novembro. De repente, conseguiu ver a mão de alguém que bateu novamente e assustou-se. Ouviu uma respiração. Observou a velhota do primeiro esquerdo a aproximar-se. - Boa Tarde! Ela está em casa. Nem sempre ouve a baterem à porta. Deve ser meio surda! - Boa Tarde… conhece a pessoa que mora aqui? Diga-me como ela se chama. Um grito entoou na mente de Catarina quando ouviu a voz inconfundível de Gustavo.

- É a Senhora Dona Catarina Gonçalves. Sei-o, porque vejo nas cartas que o carteiro deixa na minha caixa por engano. O que lhe quer? - Quero falar-lhe… - Ele pensou que ela continuava com o nome de solteira. - Nunca lhe vi marido… - Ficou em silêncio à espera de saber mais, mas ele dispensou-a gentilmente, imaginando que aquela coscuvilheira iria ficar à escuta junto à porta. Nesse momento, Catarina, estava sentada no chão e abafava o choro, escondendo a face nas mãos… como se alguém a conseguisse ver. Sentia tanta vergonha e ao mesmo tempo tanto orgulho por ele cumprir a promessa. Ele bateu suavemente à porta. Ela destrancou e abriu, ainda de joelhos no chão. Iria permitir que a visse prostrada, só ele a conhecia, só ele fumaria as mesmas dores que ela. Só ele a compreendia. Fecharam a porta. Sentou-se junto dela. - Tenho tanto para te contar, minha querida, olha para mim… - Beijou-a nos lábios. - Pensei que não vinhas. O ano estava a acabar e eu tinha deixado de acreditar. Amo-te. Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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Entrevista Escritora Angela Caboz Por João Paulo Bernardino Escritor

Angela Maria Custódio Gaspar Caboz, natural de Tavira ( Santiago) onde nasceu 1966. Conclui o ensino secundário em 1986 na Escola Secundária de Tavira, no curso de Humanidade. Trabalho há mais de 20 anos como assistente administrativa, na área comercial Adoro coleccionar amizades e conhecer novas pessoa. Apaixonada desde sempre por leitura, música e cinema. Fui ao longos dos anos ganhando o gosto pela escrita, escrevo alguns desabafos, mas estou longe de uma escritora. Em Setembro de 2014 arrisquei a publicação do meu primeiro livro “ À procura de um sonho”. Boa Leitura!

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Ângela Caboz, antes de mais os meus agradecimentos em nome da DIVULGA ESCRITOR por aceitares esta minha entrevista. Sei que lançaste muito recentemente o teu primeiro livro de poesia “À PROCURA DE UM SONHO”. Consideras que o estado da literatura portuguesa, com esta malfadada crise financeira e cultural, corre o risco de se desmorenar no vazio ou ainda há esperança para jovens escritoras como tu que sonham editar os seus originais? Ângela Caboz - Eu é que agradeço o convite e a oportunidade que tu e a DIVULGA ESCRITOR me estão a dar para divulgar o meu livro e dar a conhecer um pouco de mim. De facto, se os portugueses já pouco tinham o hábito de ler, então agora, com está crise, ainda são menos aqueles que gastam o seu tempo e dinheiro com a literatura. Assim sendo, o sonho dos jovens escritores está muito complicado, porque como é óbvio, na hora de escolher um livro para comprar, dá-se sempre preferência a um escritor já consagrado e a um best-seller que conste da lista dos mais vendidos. O que faz com que quem ainda não é conhe-

cido tenha muita dificuldade em singrar neste mundo que é a literatura. Mas quero acreditar que sempre existirá um lugar para o aparecimento de novos escritores, porque sempre fomos e somos um país de poetas. É algo que nos corre nas veias e que acho que nunca acabará. Só lamento que os portugueses não sejam leitores mais atentos e assíduos. Esse teu livro de poesia foi inspirado em alguma circunstância e instantes da tua vida ou apenas na escrita compilada ao longo de vários anos e que agora quiseste dar a conhecer aos leitores? Ângela Caboz - Como tu bem sabes, o poeta e o escritor tiram sempre alguns ensinamentos da sua própria vida que depois apli-


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cam na escrita, se bem que camuflados e misturados com outros sentimentos que não são propriamente seus. Como tal, este livro tem muito de mim, na forma de pensar e na maneira de sentir, mas no fundo são poemas que fui escrevendo ao longo dos anos, alguns têm já mesmo muitos anos, outros são um pouco mais recentes e foram escolhidos ao acaso entre as centenas que já tenho escritos. É, no fundo, uma aventura a que me propus com o incentivo de alguns amigos que há muito insistiam para que eu realizasse este que era já um sonho antigo. O que consideras haver de mais forte e marcante na tua poesia que se distinga de outros poetas e poetisas? Ângela Caboz - Eu sou da opinião de que cada poeta tem o seu género muito próprio que o distingue dos restantes. Na poesia, para mim, ninguém é igual a ninguém. Como tal, não acho que exista algo que me distinga dos restantes poetas, sendo que tenho muita dificuldade em me assumir como poetisa. Ainda não consigo deixar de ficar surpreendida quando escuto alguém a chamar-me desse modo. Como já te disse algumas vezes, sempre achei que o que escrevo são simples frases que não passam de meros desabafos que transmitem o que estou a pensar no momento, os sentimentos com que sonho, a minha opinião sobre algo, etc. A haver algo de forte na minha poesia só poderá ser o facto de ela mostrar um pouco do que sou, alguém sem grandes pretensões literárias, que simplesmente é apaixonada pela leitura e pela escrita. Alguém que escreve de maneira simples e espontânea. Leio muito do que escreves e

sinto em ti toda uma imensa adrenalina de quem cria a ânsia de liberdade e os riscos de criar imagens e sentimentos bastante fortes. Conta-nos qual o segredo para escreveres sempre grandes poemas, imagens simplesmente lindas. Ângela Caboz – Obrigado por leres e gostares do que escrevo. É sempre bom ter o feedback dos leitores sobre a nossa escrita, porque também aprendemos a melhorar e a corrigir os nossos erros ouvindo os comentários e as críticas de quem nos lê. Por vezes não tenho a noção exacta da intensidade daquilo que escrevo, porque no momento em que estou a escrever não me preocupo com esse pormenor. Pego numa frase, numa palavra, numa ideia ou em algo parecido e deixo-me levar pela escrita, entrego-me literalmente nas mãos da inspiração. São muitas as vezes, inclusive quando termino e leio o que escrevi, que acho que tudo o que ali está não faz sentido e penso que ninguém irá gostar. Daí que durante tantos anos tenha guardado os meus poemas só para mim, por pensar que eles não tinham qualquer valor. Não existe qualquer segredo na minha poesia, ela é tão simples quanto eu o sou. Não sei se serão grandes poemas, mas são a minha maneira de ver as coisas, o modo como as sinto. Transcrevo para a poesia tudo o que está em mim. Num dos teus magníficos poemas dizes que “escrevo-te sobre o amor profundo/ escrevo-te sobre as estrelas/ escrevo-te sobre as minhas lágrimas/ escrevo-te pensando no teu carinho/ escrevo-te gritando para o mundo”. Qual a tua principal mensagem quando escreves poesia? Ângela Caboz - A de transmitir a

minha ideologia de que devemos amar a vida, aproveitar a ilusão do tempo que é sempre pouco para realizar todos os nossos sonhos, a minha necessidade de acreditar nas pessoas que me rodeiam, o meu gosto por fazer amizades e conservá-las eternamente. É tudo isso que eu tento transmitir nos meus poemas. E como tu, enquanto escritora e também poeta, sabes que um poeta é sempre um fingidor e, por isso, às vezes escrevo sobre aquilo que sonho e não sobre aquilo que me acontece no dia-a-dia. Escrevo sobre o mundo em que gostava de viver, pintando na minha simples poesia o mundo da cor como o vejo, podendo desse modo deixar de ver aquilo de que não gosto. Escrever em antologias/colectâneas é encontrar no final histórias paralelas, sempre surpreendentes de alguma forma. Tenho acompanhado o teu percurso como escritora nessas antologias, tais como “A Essência do Amor”, “Eu tenho um Sonho”, “Confissões” e “Terra Luz”. O que achas de escrever nesse tipo de formato e qual o teu propósito ao fazê-lo com enorme frequência? Ângela Caboz – Escrever em antologias é a oportunidade de participar em grandes obras ao lado de grandes escritores, como é o teu caso em particular e o de outros escritores com quem já tive o prazer de compartilhar o espaço de um livro. É a possibilidade que as editoras nos dão de mostrar de uma forma simples o que escrevemos, bem como o facto de também podermos conhecer de perto os outros escritores. Permite-nos uma troca de ideias e de opiniões, porque naquela ocasião não somos concorrentes, mas sim elos de uma mesma corrente. Da Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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mesma forma que nos dá uma primeira opinião por parte da editora e por parte dos leitores sobre o que escrevemos. Gosto desta modo de partilhar literatura porque dá ao leitor a possibilidade de, num só livro, ler textos de vários autores. Em quase toda a tua obra já publicada admites uma escrita de inspiração unicamente feminina ou o universo masculino também consegue abarcar o que pretendes passar para o leitor? Ângela Caboz – Enquanto mulher é óbvio que escrevo mais no feminino. Não quero com isso dizer que o público masculino não goste de ler o que escrevo e até já tenho tido muito bons comentários provenientes de homens. Como já deves ter reparado, sou uma romântica incorrigível, uma sonhadora, e por isso escrevo muito sobre o amor, o que tenho, o que gostaria de ter, o que sonho que possa um dia acontecer. Enfim, às vezes vivo um pouco no mundo cor-de-rosa do amor e isso é algo que não consigo ocultar na minha poesia. Para mim, o tema do amor é eterno e em que, no feminino, encaixa muito melhor. Só uma mulher literalmente pode morrer de amor. Quando passamos essa imagem para o masculino, desculpa-me, mas não têm a mesma intensidade. Mas em paralelo também gosto de escrever sobre outros temas e por isso acho que a minha poesia pode chegar a ambos os universos. Muitas vezes considera-se que os jovens escritores aspiram a grandes rasgos estéticos nos seus livros mas não respeitam a inteligência do leitor. Comenta, por 24

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favor, sabendo que és uma pessoa de gostos simples e cuja obra reflecte o que és e o que pensas. Ângela Caboz – É verdade. Os jovens escritores (e não só) usam por vezes grandes floreados literários, recorrem muito a metáforas e a palavras muito elaboradas que podem afastar um leitor mais simples. Mas não entendo isso como um desrespeito pela inteligência do leitor. Acho que tem mais a ver com a maneira de cada um de escrever e de sentir as coisas. Há escritores que têm um grande poder visual e que o conseguem transcrever minuciosamente em palavras. Pessoalmente acho que escrevo com a mesma simplicidade com que todos nós temos os sentimentos, escrevo de um modo que as pessoas se identificam com o que lêem. Por isso são muitas as pessoas que por vezes me comentam, que se reveem na poesia que escrevo. Já me disseram inúmeras vezes “até parece que sabes o que eu estou a sentir” ou “ essa poesia parece a história da minha vida”. Confessas que foste ao longo dos anos ganhando o gosto pela escrita, escrevendo apenas alguns desabafos, mas que estás longe de seres uma escritora (quanto a mim acho que o és garantidamente!). O que mudou em ti nos últimos cinco anos como escritora e o que achas que acontecerá contigo dentro de uma década no panorama da literatura em Portugal? Ângela Caboz - De facto, o gosto pela escrita foi crescendo comigo. Apaixonei-me pela poesia quando um dia uma professora de Português nos deu para interpretar-

mos o poema “A pedra filosofal”, de António Gedeão. Confesso-te que foi amor à primeira vista. A partir daí nunca mais deixei de ler poesia. Depois, ao longo dos anos fui escrevendo mas não de uma forma exaustiva porque passava longos períodos sem o fazer. Neste últimos anos senti uma maior necessidade de escrever e hoje tenho que o fazer diariamente. Acho que esta necessidade tem muito a ver com a maturidade dos sentimentos, que é hoje muito maior do que na juventude. Agradeço o teu comentário sobre o facto de achares que sou realmente uma escritora, mas digo-te que não consigo imaginar o que me poderá acontecer daqui por uma década. A única coisa que te posso garantir é que estarei mais velha. Mas posso dizer, como curiosidade, é que neste momento tenho preparados mais seis ou sete livros. Este primeiro foi um sonho e uma aventura. Agora vou esperar para ver no que vai dar. Chegámos ao final e agradeço uma vez mais teres proporcionado este excelente momento para nos dares a conhecer. Mas não quero deixar, talvez por ser um tema recorrente, de perguntar-te se consideras que as editoras independentes que proliferam no nosso país aliciam os escritores com a promessa de consagração ou apenas fazem da edição um simples negócio? Ângela Caboz – Eu é que te agradeço o tempo dispensado, e é e será sempre um prazer falar com alguém que eu tanto admiro. Quanto ao tema de que falas, de facto hoje em dia a publicação


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de um livro está mais facilitada. Qualquer um de nós, em troca de algumas centenas de Euros, pode editar um livro, o que faz com que se julgue que nem sempre o que se edita têm qualidade. As editoras por vezes podem levar-nos a sonhar com a possibilidade de consagração rápida e fácil. Mas o que todos nós deveríamos saber é que não é essa a realidade porque, pelo facto de termos de pagar a edição de um livro, não nos garante que ele seja um sucesso. E hoje em dia existem muitas editoras a colocar anúncios a aliciar os escritores tendo em vista o lucro garantido para a editora, sem que exista a garantia de sucesso para o autor. Por isso, o escritor paga e por vezes os livros acabam esquecidos nos armazéns dos livreiros por falta de leitores ou por falta de divulgação da obra pela editora.

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Entrevista Escritora Conceição Carraça Nasci e cresci no Alentejo, mais propriamente em Santiago do Cacém, no ano 1956.a 17 de Dezembro. Descendo de uma família humilde, mas honesta e trabalhadora. Parei os estudos aos 17 anos, altura em que fiquei órfã de pai, e resolvi trabalhar. Mas nunca abandonei os livros, a leitura, era uma viciada por livros, ao ponto de guardar o dinheiro das refeições para os poder comprar. Nunca me tinha passado pela cabeça escrever, aconteceu em Janeiro de 2014, de repente escrevi um texto, e a partir desse dia escrevo diariamente. “Mas o melhor de tudo seria a minha homenagem ao herói da minha vida: o meu pai! A única pessoa que acreditava nas minhas capacidades e me incentivava sempre. A pessoa que mais me marcou na vida.” Boa Leitura!

Por João Paulo Bernardino Escritor

Os nossos agradecimentos por aceitar amavelmente o convite para nos conceder esta entrevista à DIVULGA ESCRITOR. Sei que começou a escrever ainda este ano de 2014, essencialmente poesia. Já participou em algumas colectâneas com trabalhos poéticos e foi entrevistada em algumas rádios locais. Como se sente a Conceição com esta sua nova faceta de escritora e o que pretende alcançar no futuro? Conceição Carraça - Sinto-me muito feliz por ter a sorte de descobrir que escrever é algo que me alimenta, me faz sentir útil numa fase da vida em que me sentia desvalorizada. Estava desempregada, fechada em mim própria (e sem o saber) e muito próximo de uma depressão. O futuro não está nas minhas mãos, mas como sou uma mulher de fé, acredito que ainda serei muito feliz como escritora. Gostaria imenso que os meus leitores também sentissem o mesmo ao lerem os meus trabalhos. Adoraria editar individualmente…é um sonho que gostaria de ver realizado. Gostaria que o meu trabalho servisse para divulgar a poesia junto dos jovens, que são o futuro, não como uma “coisa massuda”, mas uma leitura fácil e prazerosa. Que os sentimentos passassem…a mensagem fosse entendida, que

deixassem de ser os meus poemas mas os de todos os que se identificam com eles. Sei que é Alentejana e isso reflecte-se nos seus poemas, talvez por nos falar muito da terra, dos cheiros, da paisagem única que parece dar-lhe esperança e abrir novos ciclos. É, na verdade, uma mulher que preza as suas raízes a ponto de as realçar fortemente nos seus trabalhos? Porquê? Conceição Carraça – Sim! Sou uma Alentejana orgulhosa das minhas origens. Conheço bem o povo Alentejano, que mesmo o menos culto, é sensível. E penso que a maneira mais fácil de os homenagear é fazer com que descubram que a Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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poesia é uma mensagem e que, escrita com palavras simples, chega até todos, dos mais e aos menos letrados. A poesia é cultura, a que todos devem ter acesso. Não aceito a poesia de elites, porque todos temos direito ao conhecimento e ao prazer da leitura. Muitos (e eu já fui uma delas) não liam poesia porque não entendiam. Muitas vezes as palavras usadas eram de forma tão nobre que era necessário um dicionário à mão. Penso que por isso os poetas do povo eram os que escreviam duma maneira tão simples (Aleixo, por exemplo). Amar ao próximo inclui principalmente ter amor-próprio. Noto que, para si, o mais importante é ser você mesma. Considera que nem sempre a valorizam como pessoa ou como escritora ou, pura e simplesmente, porque se preocupa com tudo e todos e raramente tem o retorno da mesma moeda? Conceição Carraça – Verdade! Amo o próximo, estou sempre na defesa dos direitos e valores em que acredito, mas para isso tenho necessariamente que ter amor-próprio. Parte tudo daí. Mas não me arrependo de ser quem sou como ser humano. Nem me conseguia ver de outra maneira… às vezes a falta de compreensão não é agradável, mas é perdoável. Acredito na lei da sementeira. Colhemos o que semeamos. Eu creio. Sou realmente muito preocupada com o que se passa ao meu redor, tenho um coração grande e muito mole, e isso muitas vezes traz-nos dissabores. Não julgo ninguém, não tenho esse direito, gosto de dar e receber força…um pequeno gesto pode fazer a diferença, mas aceito e respeito as ideias e feitios de cada um. Mas aprendi uma 28

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coisa ao longo dos ano: cada um só pode dar o que tem…Graças a Deus, eu dou mais do que recebo. Isso é positivo. Há um poema seu em que diz que “é valioso o nosso tempo/impossível voltar atrás”. Todavia, se o pudesse fazer, o que acha que faria e alteraria na sua vida? Conceição Carraça – Muita coisa seria diferente, aprendi que a vida é curta, e muitas vezes, achamos que temos tempo para tudo, e não o valorizamos. Não aproveitamos a vida como merecemos. Quando descobrimos isso, só podemos fazer do hoje o nosso melhor e esquecer as nossas falhas. Aprendi a ser mulher quando devia ser menina, quando se perde a pessoa que mais admiramos e que sentíamos que nos amava como nós éramos. O pai é o herói de qualquer menina, e o meu partiu cedo de mais. Não estava preparada para enfrentar a vida, não tinha experiência e perdi muitos anos, muitas oportunidades. Por isso hoje tenho consciência que temos que lutar contra o tempo, ele não tem volta. Mas uma coisa eu sei: nunca é tarde para recomeçar. É preciso é coragem. Em 1992 aprendeu a aceitar Jesus como único salvador. De que forma a Fé restaura o seu corpo e mente e alimenta os seus poemas? Que mensagem nos quer verdadeiramente transmitir nesses trabalhos? Conceição Carraça – Vida na sua plenitude. Esperança, Amor, Liberdade, Igualdade. Mostrar que todos somos importantes. Todos somos carentes e devemos respeitar-nos a todos como pessoas, esquecendo as origens, os ideais, os costumes e as religiões. O impor-

tante é sermos generosos uns com os outros, fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós. Acreditar que o amor é o melhor dos remédios Eu sou Cristã, tento seguir a mensagem de Cristo. Paz e Amor entre os Homens. Fazer o bem, sem olhar a quem. Ajudar quem de mim precisar, tentar fazer sorrir os que choram. Proteger, respeitar e amar muito as crianças, que são seres tão desprotegidos, uns felizmente bem-amados e desejados, mas outros tão abandonados. Isto mexe muito com as minhas emoções. Sou uma mulher de afectos. Escreve normalmente sobre as suas vivências e estados de alma. Como se define enquanto poetisa e o que poderemos esperar de si enquanto tal na próxima década? Conceição Carraça – Sinceramente sei que quero continuar, crescer, aprender…possivelmente haverá diferença na escrita, mas só o tempo o dirá…Eu quero a cada dia fazer melhor…mas o futuro é desconhecido ao Homem. Lutarei…isso eu prometo, darei o meu melhor mas o futuro a Deus pertence. Mas se daqui a dez anos eu fosse reconhecida pelo meu trabalho, seria uma mulher realizada. Sentiria que tinha vencido a guerra, batalha a batalha. Seria o orgulho dos meus netos, (já o sou), mas eles são agora crianças e nessa altura serão crescidos. Mas o melhor de tudo seria a minha homenagem ao herói da minha vida: o meu pai! A única pessoa que acreditava nas minhas capacidades e me incentivava sempre. A pessoa que mais me marcou na vida. Escreveu há bem pouco tempo que o mundo está diferente, as


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estações do ano descontroladas e que apenas nos resta amar e respeitar a vida. Sendo mãe e avó babada, que valor tem o amor na sua vida e de que forma tenta passar esse sentimento para os seus leitores? Conceição Carraça – penso e acredito que o amor (e falo em amor sem interesse e sem esperar nada em troca, não o amor carnal) é a única arma, a grande “bomba” que poderá mudar o mundo. Só com esse amor poderá haver paz! É difícil? Eu sei, parece loucura, mas o AMOR é a solução. Acredito que quando os Homens acordarem, se ainda forem a tempo, poderão falar todos a mesma linguagem. Há lugar para todos, é preciso saber viver e aproveitar todos os momentos A vida é uma passagem, uma aprendizagem que sabemos quando começa mas não sabemos quando termina. Temos que ser rápidos não esquecer os afectos mas sim usá-los e partilhar-lhos Nada mais tem valor. Quem escreve e edita… esse deixa um pedaço de si para os que hão-de vir. “Sofrer às vezes é preciso”, disse-o recentemente. Levando o tema para a literatura em Portugal, considera que os novos escritores terão de sofrer ainda mais para que vejam os seus trabalhos editados? O que faria para mudar a situação usual de ter de se pagar para se editar? Conceição Carraça – Os escritores já sofreram até de mais com isso. Só quem tem dinheiro e se pode financiar pode editar. Isso não é admissível, para bem da Cultura Nacional. Nem para a minha maneira de ver as coisas. Isso é desigualdade e para mim não faz sentido! Revolta-me. O dinheiro não faz ninguém melhor ou pior.

Ele é necessário mas não deve interferir com a cultura dum povo. Deveria haver condições de igualdade de oportunidades, pelo valor do trabalho, e não por interesses mesquinhos. A cultura é uma riqueza dum povo, não deveria ser usada como negócio de alguns. Deveria ser olhada pelo governo do país! Com coerência, e sem compadrios. Serei muito dura? É o meu ponto de vista. Imagine-se daqui a vinte anos com vários livros de poesia publicados. Se os seus dois netos lhe pedissem ajuda para que lhes dissesse o que deveriam fazer para escreverem como a Conceição, que conselhos lhes transmitiria e porquê? Conceição Carraça – Não é fácil a resposta. Mas certamente lhes diria para fazerem o que lhes desse prazer, serem eles próprios, e se o fizerem que o façam com amor. Quero que sejam felizes, e para isso têm que ser eles próprios. Ninguém é igual a ninguém. Somos todos iguais, mas sentimos diferente. Gostaria que os meus netos tivessem orgulho na avó, não só como pessoa mas como escritora, mas eu também quero ter orgulho na mulher e no homem que eles serão. Quero-os felizes e realizados, isso é o mais importante para mim. Se gostarem e tiverem o gosto pela escrita terão o meu apoio incondicional. A nossa entrevista chega ao fim e agradeço-lhe toda a consideração que depositou na DIVULGA ESCRITOR e na minha pessoa. Não queria deixar passar a oportunidade para referir que pertence aos Confrades da Poesia. Explique-nos o que é isso de ser-se Confrade e o que altera ou

alterou em si enquanto escritora e a sua forma de escrever? Conceição Carraça – Ser confrade, é uma honra! Fui convidada para um círculo restrito que eu desconhecia. É mais um envolvimento, um reconhecimento e a possibilidade de mostrar o meu trabalho. Conviver e participar activamente num projecto onde a cultura é privilegiada, em especial a poesia. Para mim foi um prémio e um incentivo! Nada foi alterado a não ser a responsabilidade de cumprir com os meus deveres perante a instituição e a alegria de ver os meus trabalhos terem visibilidade. Fazem vários eventos, tenho lá a minha janelinha (página) on-line. É mais um motivo para ir em frente, ser conhecida no meio da poesia e dos poetas que fizeram o favor de me receber de braços abertos. Digo-vos uma coisa: o ano de 2014 foi um ano de grande mudança na minha vida. Eu é que agradeço. O meu muito obrigado, foi uma honra e um privilégio: bem-haja DIVULGA ESCRITOR e bem-haja Escritor João Bernardino.

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Participação Especial Escritora Helena Santos

COM AMOR…FILHO

LAVA DE AMOR

A ti filho Terei sempre muito a dizer Por ti filho Terei sempre muito a fazer Pensando em ti Intercedo a Deus e rezo agarrada à minha fé Pedindo para que ilumine o teu caminho Guie os teus passos Mantenha o teu coração doce, sempre E permita que sejas FELIZ… eternamente Para tudo, uso amor simplesmente E ainda que por vezes seja difícil a tua compreensão O importante é que sei, sinto Que tens a plena noção De que o meu amor é insubstituível Não tem, nem terá comparação possível E continuaremos ligados pelo cordão E magia Que é mãe e filho em …divina união!!!

O mar em que navegávamos era de ondas mansas As nuvens em que viajava quando nos amávamos eram de algodão doce E ao meu ouvido, sussurravas versos de poemas de amor feitos com calor de um coração que não tinha medo de amar e se entregava nas mãos de quem sabia, por ele morrer de paixão Nada do que acontecia, era em vão! O que o vento me trazia de ti eu agarrava com as duas mãos O que recebias das asas da imaginação guardavas como se fosse um tesouro e quando nos tocávamos, fazíamos magia A nossa pele orvalhava, os olhos vidravam, perdíamos o Norte e caíamos no vulcão da excitação só de lá saiamos, expelidos pela

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força da explosão e a lava resultante escorria pelas lombas dos nossos corpos e ali ficávamos, extasiados, lambuzados com amor transformado em VIDA, sem pudor!


Entrevista

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Entrevista Escritora Elisabete Salreta Beth Salreta é uma amante da vida e da natureza. Isso está bem presente em toda a sua escrita. Nela, pode-se sentir o amor pelos animais e a preocupação pelo próximo. Fala-nos de sentimentos como se os tivesse vivido e mostra-nos que ser fraco, não é um sentimento desprezível, mas antes a prova de que cada um é diferente dos demais. Viveu em África o que a ensinou a ser amante dos grandes espaço e da luz. Estudou contabilidade, mas o seu sonho passa por tudo o que tem a ver com a vida e a natureza. Como costuma dizer: “pinto com as palavras”. Mora a norte de Lisboa, nas Lezírias, um espaço que a inspira. Apenas com um livro editado (Jantar de fim de verão), tem muitos projetos na gaveta á espera do momento certo para os fazer chegar aos seus leitores. “Tenho uma leitora que diz gostar de ler um dos meus livros sempre que está triste. Magnífico. Eu quero fazer chorar, rir, tremer, provocar emoções. Fazer os leitores se sentirem vivos. Parte da história. Querer ser um personagem. Andar na rua e tentar achar aquele personagem em cada pessoa que passa.” Boa Leitura! 32

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Obrigado Elisabete pela oportunidade que dás à DIVULGA ESCRITOR de te conhecermos um pouco melhor. Gostava que nos falasses resumidamente como te defines como escritora e quais os temas predominantes nas tuas obras? Elisabete Salreta - Eu é que agradeço a vossa disponibilidade e a de todos os que lerem estas linhas. Celebro a vida, a conquista por um mundo melhor e mostrar que o amor ainda é possível. Criar sempre. É isso que me move. Ver algo se tornar grande e importante para alguém. Fazer a diferença na vida de alguém. Tenho uma leitora que diz gostar de ler um dos meus livros sempre que está triste. Magnífico. Eu quero fazer chorar, rir, tremer, provocar emoções. Fazer os leitores se sentirem vivos. Parte da história. Querer ser um personagem. Andar na rua e tentar achar aquele personagem em cada pessoa que passa. Nisso o autor tem sorte. Pode ser quem quiser. Vestir qualquer personagem. Acredito em histórias curtas e fluídas de fácil leitura. Tendo sido o teu livro “JANTAR DE FIM DE VERÃO” publicado em plena crise imple-

mentada em Portugal, poderei chamar-te de uma “guerreira” que faz frente a um processo cultural deficiente? Elisabete Salreta - É pena que a sociedade esteja cada vez menos cultural. Mas, os que se interessam pela cultura são cada vez mais exigentes e isso é um desafio para os autores. Temos de ser verdadeiramente bons. Realmente, editar em Portugal é muito caro, o que faz com que muitos autores desistam e se percam boas obras. O preço final dos livros é proibitivo e a margem do autor muito baixa. É preciso gostar do que se faz. Para mim não foi diferente. Foi um desafio em termos pessoais. Contei com a ajuda psicológica da minha filha que sempre me apoiou. É um pi-


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lar para mim. Desisti de algumas coisas para poder levar este projecto adiante. Mas o “bichinho” ficou e agora o caminho é sempre em frente. Esta luta faz-se todos os dias, não só em termos monetários, mas também pessoais. A nossa sociedade não nos deixa tempo para a cultura, nem para sermos pessoas. Sei que a vida e a natureza estão sempre presentes em toda a sua escrita. O que este teu romance “JANTAR DE FIM DE VERÃO” traz de mais importante e significativo em relação às restantes obras do género publicadas em Portugal por portugueses? Elisabete Salreta - Tem sentimento. Tem verdade. Falo de uma gata, conhecendo gatos. Falo de uma árvore, sentindo-me ao abrigo da sua sombra. Eu calcorreei aqueles caminhos nos meus sonhos. Aqueles amigos foram os meus enquanto escrevi. É uma história plausível com personagens credíveis. Não tem fantasia embora seja uma história fictícia. É uma obra positiva, muito. Para um povo que tem o fado no coração (risos).Vivi em África, tenho uma outra visão da vida. Talvez mais simples. É tua intenção editares em breve contos infantis e, assim, tal como gostas, poderes pintar as palavras. Sabendo que existe uma franja infantil que está em crescendo em Portugal, decidiste enverdar por esta área por oportunidade de mercado ou porque escrever para crianças te entusiasma verdadeiramente Elisabete Salreta - Escrever entusiasma-me. Ponto. As histórias infantis que tenho foram escritas para a minha filha. À noite ela dava-me um tema ou um mote e a partir daí era construída toda

uma história. Normalmente tinha a ver com um acontecimento do dia, mas são factos que ocorrem com todas as crianças. Uma fala daquele trauma de quando um peluche vai para a máquina de lavar, ou o amiguinho que está doente ou até sobre um sonho que me tenha contado. Todas as minhas histórias assentam na verdade e no sentimento. Escrevo sobre sentimentos. Tens publicado os teus trabalhos no Facebook e participado em alguns concursos literários e Antologias (caso da “Café e Chocolate‘, editado pela Papel D’Arroz’). Agora, mais vocacionada para escrever contos infantis, pensas vir a ter uma maior visibilidade nas redes sociais e no mundo editorial português? Elisabete Salreta - Espero conquistar o meu espaço como autora, seja de romance ou histórias infantis. As antologias em que participo e até os desafios e concursos literários, são uma forma de me dar a conhecer e de lerem o que escrevo. É um prazer cada participação.O Facebook é um veiculo ao nosso alcance que nos permite chegar a um grande número de pessoas. Só acho que por vezes são emitidas poucas opiniões. Não tenham medo de opinar. Isso é muito importante para o autor. Um gosto é mais uma estrela que brilha em nós. As editoras deveriam olhar mais para os novos autores. Não temos nome, mas podemos ser muito bons também. Apostem. Tenham a coragem. Nathalie Sarrante afirmou “não costumo ler os novos autores”. Sendo tu uma jovem escritora, de que forma comentas esta frase no actual panorama português, sabendo desde já que consideras

que ser-se fraco é um sentimento desprezível. Elisabete Salreta - (Risos) Tenho pena dessa escritora. Está a perder tanta coisa boa. Ela e todos os outros que nos olham de lado, quando olham. Por vezes pego em certos livros desses autores de renome e digo cá para mim: « Por favor, gastaram papel nisto?» (Risos). Grande parte dos livros e textos publicados são escritos por mulheres. Consideras ser uma forma de enigma ou porque nos conseguem transmitir uma visão mais cor de rosa do mundo? Elisabete Salreta - A mulher é mais dada ao sentimento e tem uma maior facilidade em o expressar. Só isso. Além de que cada uma de nós é uma professora e uma cuidadora. Também seremos mais(mulheres) como leitoras, não? És uma escritora muito preocupada com o próximo, com o teu semelhante. O que consideras importante fazer-se em Portugal para promover escritores como tu? Elisabete Salreta - As Editoras deveriam de disponibilizar anualmente uma cota para novos autores, de forma a terem oportunidade de mostrar o que valem, tendo as mesmas ferramentas. As autarquias também podem e devem ter um papel activo na cultura. Depois temos outro problema. A divulgação. Aqui é importante a rádio, a televisão, os jornais. Estes também poderiam ter um espaço dedicado à divulgação semanal, por exemplo. Os novos autores trabalham muito para se darem a conhecer. Esse tempo poderia ser usado para criar. Muitas pessoas desistem, não porque não tenham Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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valor, mas porque não souberam chegar mais além. E a culpa não é delas. É de quem pode e nada fez.

ta do âmago do Autor. Suor e Lágrimas fazem parte da equação.” É mesmo isto.

Como te revês como escritora daqui a dez anos? Que tipo de facilidades e obstáculos tencionas encontrar ou contornar? Elisabete Salreta – Daqui a 10 anos quero ter uma pegada bem delineada. Tenciono ter as minhas obras editadas também fora de Portugal e chegar a muitos mais leitores. Os obstáculos vão-se transformar em vitórias. As facilidades não existem. Para quem escreve por paixão, a vida não é fácil. São muitas horas. Os leitores nem imaginam. É muita entrega. Mas vou estar feliz. Tenho um amigo autor (Pedro Silva) que escreve:” Uma obra não nasce do nada. Bro-

A nossa entrevista está a terminar e agradeço-te a honra que nos concedeste. Ainda assim, gostaria que comentasses se “ter talento é muito importante, trabalhar ainda mais mas ter padrinhos é de uma importância especialíssima” para se poder vingar no mercado editorial em Portugal. Elisabete Salreta - Infelizmente em Portugal é preciso “padrinhos” para se singrar seja no que for. Poucos são os realmente bons por mérito. Espero muito sinceramente que as pessoas comecem a ter vergonha na cara e a dar valor ao que realmente é bom. A mentali-

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dade leva trezentos anos a mudar, mas eu tenho esperança. Grata pela tua entrevista e obrigado à DIVULGA ESCRITOR.

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Participação Especial

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Elisabete Salreta

O que é o amor Amor, esse vadio que me tolda o espírito e me aquece a alma, que me acalma e me contradiz. É amor quando os teus olhos se fecham em resposta às minhas carícias e eu, languidamente, te mimo uma e outra vez. Quando te beijo de boa noite e abro os olhos a cada manhã. Quando olho o céu e tento achar-te em cada farrapo de nuvem, sempre que te olho e sinto uma necessidade inumana de te tocar. É amor quando sinto o teu cheiro que me envolve e me abraça. Sempre que as minhas mãos indecentemente e incessantemente percorrem o teu corpo num vai e vem relaxante. Sempre que sinto o teu abraço apertado, a tua mão na minha ou apenas o teu toque suave quando numa multidão te destacas. Sempre que a tua voz enche a minha alma e traz um sorriso ao meu rosto. É amor sempre que um repasto preparo, dando-lhe um tempero de sonho. Sempre que a tua boca se abre num OH! que tudo diz. Sempre que o sonho comanda a vida e coroa todas as nossas esperanças.

Sempre que tocas todo o meu ser com um sorriso aberto e sincero, ou quando a tua gargalhada invade tudo de mim, querendo eu ser parte da piada. Quando te sinto perto, mesmo estando longe, e te busco na solidão de um momento. Quando uma cor me transporta para a lembrança de ti, no meio do nada enches a minha mente e me fazes sorrir. Quando olho a lua e leio o teu recado. Quando em cada gota do orvalho da manhã sinto o teu cheiro e desejo-te perto de mim. Quando em cada amanhecer me desperto. Quando me tocas, mesmo sem o quereres, porque os nossos corpos se atraem e não tem piada a dor da separação. Quando os nossos dedos se entrelaçam não deixando que o espaço tenha tempo de existir. Quando o meu sonho, tem o teu nome. Quando em cada despedida me envolves num olhar doce e me beijas com o teu ser. Quando a minha pele se funde na tua, numa carícia sem fim. Quando preciso de arrego e nos teus olhos me perco. Quando enxugas as minhas lágrimas com os teus beijos. Quando a

lembrança de um sorriso me faz dar mais um passo. Quando o sol me queima a pele e tu és a brisa que me acalenta. Quando te escondes por detrás de um ramo de flores. Quando o brilho dos teus olhos se torna a minha luz em cada madrugada. Quando acodes em pensamento ao meu grito mudo de socorro. Quando acordo e és o meu primeiro pensamento. Quando o meu íntimo te procura numa multidão. Quando te tento descrever mas o dicionário não tem adjectivos que te façam justiça. Estás em cada cor que os meus olhos abarcam, no sabor que a minha boca sente, no ar que me enche e me dá a vida, no sono que me transporta ao vale dos sentidos. Estás em cada sentimento, em cada pétala, em cada suavidade de um toque, em cada arrebatamento que sinto. Em cada ilusão que carrego no peito, em cada dor que me faz crescer. Tudo isto é amor, tudo isto és tu, sou eu, somos todos nós, a vida. Tão importante quanto respirar e necessário quanto a água que escorre da fonte e me sacia a sede. Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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Entrevista Escritora Florinda Dias De nome, Florinda (Flor) para os amigos Portuguesa, distrito de Lisboa, residente numa aldeia nos arredores de Sintra. Sou o sorriso que muitas vezes esconde a lágrima, sou a paz que abraça o próximo, sou a menina que cresceu e não parou de sonhar, sou a luz do meu olhar, sou tudo sou nada, sou o jardim o céu a alvorada, sou a Paz que caminha ao longo da estrada... Tudo, posso... Afasta-te pedra, não te atravesses na minha caminhada não ‘derrubo’, construo pontes... Tenho luz, por Deus, sou abençoada... Sou Eu... Apenas Eu, dentro do meu ‘Eu’. “Até na mais profunda dor, ela nos transporta, nos alivia a alma, o coração e nos leva a voar por aí, como se voássemos nas asas de um condor. O poeta é um sonhador e, definitivamente, defino-me apaixonada pela poesia.” Boa Leitura!

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Os meus agradecimentos por aceitar mostrar à DIVULGA ESCRITOR um pouco mais de quem é a mulher e a escritora Florinda Dias. Começo com uma frase sua que muito me emocionou “A menina sorriso sonhou... E mesmo sendo mulher, continua a sonhar”. Explique-nos, que sonhos ainda tem em mente como escritora e, para uma mulher que passou um vida dura, o que recomenda aos escritores que começam agora a dar os primeiros passos? Florinda Dias - A menina sorriso sonhou porque sempre sonhou, sempre acreditou num dia melhor do que outro! Sou positiva por natureza e mesmo quando não sinto o chão como já o tem acontecido, eu acredito. Não é fácil, pois, dentro da realidade da vida, muitas vezes as pedras no caminho e os tropeços são enormes, mas com vontade e optimismo a vida segue. Sem dúvida, eu nasci pra sonhar, “sem limites” o sonho comanda-me a vida! Não quero perder a vida num sonho! Tenho muitos sonhos, dentro do possível e das minhas possibilidades, claro! Não sou de luxurias, não vivo de ilusões e sei muito bem até onde posso ir. Gosto de saber estar na vida e até aqui tenho sabido. Quanto aos sonhos sobre a escrita, foram situ-

ações menos boas que me levaram a escrever, nesses ditos mágicos momentos em que aliviava a alma e o coração e tudo isso muito me ajudou a ultrapassar certos obstáculos. Aos escritores peço-lhes e aconselho-os ‘’para nunca desistirem! Acreditem que são capazes e o sonho um dia será a vossa realidade”. Foi o que fiz e vou fazendo ao longo da minha vida. É o seu “EU” ao longo dos seus 58 anos de vida que retrata nos seus trabalhos. No seu 1º livro, de poesia “Na essência de uma Flor”, não é excepção. Porquê essa necessidade de retratar a sua pessoa, a sua luz, o seu olhar da vida e do mundo? Florinda Dias - Esta pergunta-me emocionou-me imenso, ao ponto de cair uma lágrima, acredite! Este


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meu 1º livro foi de facto um desafio e o que eu podia escrever senão o meu ‘’EU’’? Sou Sagitariana, o que me dá o Alto Astral de ser uma pessoa que gosta de viver a vida em liberdade. Vejo-me como uma pessoa deveras simples e humilde e, além disso, muito sensível. E embora possa ser suspeita ao falar de mim, ninguém me conhece melhor do que ‘’EU” nem sente o meu “EU” tanto quanto ‘’EU’’ e, modéstia à parte, se eu não gostar de mim, quem gostará? Quando comecei a escrever, habituei-me a uma escrita muito simples e própria, sem ser muito elaborada para que todos aqueles que a leem a saibam interpretar da melhor forma possível. Quem me conhece (ou não) irá ler no meu livro uma poesia pura, sentida e emocionante, talvez um todo, um romance poético. “EU’’ me doo assim na transparência. Os meus poemas talvez levem algumas pessoas a senti-los verdadeiramente ao lê-los, deixando cair uma lágrima, porque neles está escrito a minha realidade. Talvez por algumas vezes me sentir mal compreendida, ‘’EU’’ quisesse deixar escrito alguns desabafos, embora não o tivesse feito para provar nada a ‘’ninguém’’. Sei o que sou: da Paz, porque isso me dá saúde, é a base de tudo na vida. Depois de uma vida dura, como já falámos, hoje será com certeza um prazer ver-se no seio de um casamento feliz, rodeada dos seus filhos já formados e dos seus três netos que abençoam os seus dias. Esse bem-estar, aliado à sua sensibilidade enquanto mulher e à mistura de alguma rebeldia e teimosia, torna-a numa poetisa ainda mais amante da vida? Florinda Dias - Ah, sim, sem dúvida! Sei e tenho a perfeita noção

da esposa que sou, da mãe que fui e continuo a ser, embora os meus filhos já tenham uma vida própria. Também me vanglorio da avó que sou, não tenho dúvidas nenhumas que mais não posso fazer. É o que tenho de pensar e salvaguardar na minha consciência e é isso que me leva a retratar um casamento feliz, é ter a noção que por mais que eu ame os meus pais, filhos e netos, o meu marido é o meu companheiro do dia e da noite, é dele e do seu sorriso que preciso para estar bem na vida. Quanto à rebeldia ou à teimosia não é muita por aí-além (risos), mas tenho noção que já fui bem mais passiva e não lucrei muito com isso. Acho que temos que nos fazer à vida sem medos, embora eu não o seja muito devido à minha sensibilidade! Cada vez mais me convenço que o mundo é dos fortes, e que dos fracos não reza a história! Mas sou o que “basta” para me sentir bastante determinada, sem prejudicar outrem. Senão o fosse, não estava aqui neste momento a responder a esta entrevista. Essa sua necessidade de soltar o seu grito, de desabafar as suas dores entre sorrisos, emoções e lágrimas, fá-la chegar ao cimo da montanha de forma mais consciente e feliz? De que forma projecta tudo isso nos seus trabalhos e o que pretende ao fazê-lo? Florinda Dias - O que pretendo ao fazê-lo? Pois bem, aos leitores que gostam de me ler em poesia e aos que leem esta entrevista digo-vos de alma e coração que escrevi um livro onde expus sentimentos, onde deixei deslizar a caneta e as palavras saíam das minhas mãos melodiosas e acreditem que chorei ao escrever. Tentei no papel atender ao chamado de uma menina já senhora, que sentiu necessidade

de se expressar perante o mundo! Sim, digo perante o mundo porque filosoficamente falando, toda a pessoa que escreve passa a deixar ao mundo um pouco de si própria. Ficamos mais expostos, deixamos o segredo de lado, porque na verdade o que escrevemos são sonhos ou verdades, sentimentos ou revoltas interiores, ou chamados, o que por vezes é quase um grito que nos sai e que se vai alojar numa simples folha de papel. O que pretendo? Não sei bem, mas de uma coisa tenho a certeza: quero continuar! Qualquer dia poderá sair em livro algo mais, quiçá… “Eu amo a vida, eu amo-me” por certo não será uma frase egocêntrica mas de quem tem um ego forte de quem venceu aprendendo. Pensa que essa é a mensagem principal a passar nos seus trabalhos? O que dizem os seus leitores a esse respeito? Florinda Dias - Sem dúvida ‘’Eu amo a vida, eu amo-me”. Não é uma frase egocêntrica, é ego sim. Já passei por algumas situações que me fizeram ficar assim, algumas experiências profissionais e vivência com muita gente de muitos feitios, onde a palavra respeito para mim foi sempre a base. E para isso há que ter uma certa personalidade. Aí eu não poderia ser de outra forma, sei a pessoa que sou, e há que ter no mínimo alguma auto-estima, primando pela delicadeza para saber estar na vida. Senão todo mundo é um tapete para o outro pisar. O que passo aos meus leitores só pode ser a real candura da vida em que vivo. Gosto de estar a bem com o mundo e comigo e quem não quiser viver assim não vive bem ao meu lado. Eu espalho amor quanto baste para todos aqueles que saibam estar comigo. Como já disse, não Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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sou do bem nem do mal, sou da PAZ. O que os leitores vão dizer ao meu respeito só eles o poderão dizer! Sei de fonte segura que por certo uns irão gostar, outros não, é lógico. Agradar a gregos e a Troianos é difícil. Mas é preciso muita coragem para pegar num projecto e escrever um livro. Não é qualquer pessoa que o sabe fazer, porque escrever poesia não se aprende... É um dom, um sublime e suave chamado interior que nos assalta e nos alimenta a veia poética, que nos corre no sangue. Achei curiosa a forma bem vincada como me confessou que “Fui uma criança que se pode dizer feliz”. Tendo três netos meninos, que legado lhes deseja deixar enquanto escritora? Crê que eles, mesmo com toda esta crise cultural por que atravessamos, poderão também ser escritores? Florinda Dias – Fui feliz sim e repito-o. Sou compreensiva e lembro o passado, embora pesado foi um passado feliz, e fui mesmo uma criança feliz. Quanto aos meus netos, vejo e sinto no mais velho de 8 anos (os outros são mais pequeninos ainda não o entendem) muita curiosidade acerca da escrita, e um certo orgulho na avó quando diz “Oh avó, tu és autora podes ajudar-me a criar uma frase para um Brazão, para um trabalho da escola? A avó é escritora!” Ou quando a minha sobrinha neta viu a capa do livro e disse “Oh tia, tu mereces!” Estas palavras vindas de Crianças, que são o que de mais puro tem o mundo, é brutal e lindo de se ouvir. Dá-nos ego e vontade de continuar por eles, por nós, sei lá, e deixar as raízes crescerem. Quanto 38

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à segunda pergunta, não sei, mas quem sabe. Mas o meu neto mais velho é um menino muito sensível e vejo nele uma certa veia poética. A opção será dele, vamos esperar a resposta no futuro. Sublinho que o meu Pai também se sente muito orgulhoso de mim uma vez que foi uma pessoa ligada à arte, pois tocou durante muitos anos numa

orquestra e ultimamente numa banda filarmónica. Tem participado em várias colectâneas, uma delas no Brasil, sempre com poemas. Apenas agora se lançou a solo com o livro “Na essência de uma Flor”, publicado há muito pouco tempo. A que se deve essa demora na edição de


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um livro seu? Ao receio de que a sua família não a aceitasse enquanto poetisa ou ao facto das editoras hoje em dia não possibilitarem veleidades aos novos escritores? Florinda Dias - As colectâneas foram acontecendo em concursos. Fui selecionada e aí acreditei em mim, acreditei que seria capaz, pois, com uma escrita cautelosa, lembro-me que quando os desafios eram mais elaborados tinha uma certa dificuldade em participar. Mas persisti na luta e ganhei. Estamos sempre a aprender e com isso elaboramos melhor. Terei também a sublinhar que tenho pessoas no mundo da poesia que me ajudaram a chegar aqui dando-me a devida força quando eu me sentia a fraquejar. Vejo muita partilha e amizade neste mundo da poesia. Quanto à aceitação da família e ao meu receio, talvez mentisse se não dissesse que sim! Comecei por ir a Eventos de poesia com a minha filha e aí apaixonei-me completamente pela poesia e pelo seu Mundo. Depois vieram os lançamentos de antologias em que eu entrava como coautora, em que o meu marido me acompanhava e até gostava. Se o meu marido não o aceitasse seria difícil eu estar aqui onde estou! A demora a escrever um livro nem por isso foi muita! Foi mais a indecisão e algumas noites sem dormir para ter coragem de conversar com meu marido. Mas foi lindo quando me respondeu: “aquilo que tu queres sempre tens feito, porque que não o há-des fazer agora?” E agora aí está o meu Livro (“Na Essência de uma Flor”) com todo o apoio de amigos e família.

“Existe no mundo um único caminho por onde podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!” (Nietzche). Como se vê daqui a uma década enquanto escritora? O que pensa, nessa altura, ter alcançado e quais os seus verdadeiros objectivos na escrita? Florinda Dias – Aqui serei breve na resposta: só o futuro o dirá! O que penso? Um dia de cada vez, mas sempre sonhando e lutando para dar sempre o melhor de mim. E o melhor é continuar a escrever e a sonhar para ser feliz. Quanto a esse lindo pensamento de Nietzche que me dedicou e sublinhou, acho que “o meu caminho é a minha ambição, é a minha história de vida. Não pergunto, simplesmente quero seguir!” Muito obrigada, gostei da sua escolha, tem muito a ver comigo.

lizmente ao seu final mas gostaria de saber se, porventura um dia, os seus netos falarem aos seus próprios filhos quem foi a Florinda Dias (A Flor) enquanto mulher e escritora, o que gostaria que eles falassem de si e o que espera deixar-lhes para que isso aconteça? Florinda Dias - Quem foi a Florinda Dias, “Flor”, diminutivo do meu nome, que tão carinhosamente as pessoas amigas me tratam! Os meus netos! As minhas riquezas pessoais, um dia (decerto) gostava, mas também não sei se assim o será! Gostava que lembrassem a avó com o carinho necessário, tal como a avó sempre teve por eles e que, com grande orgulho, pudessem guardar e lembrar a Avó com AMOR na verdadeira Essência de uma Flor. Nada mais. Obrigada pela atenção.

O seu registo tem sido, pelo menos até agora, o da poesia. Como define um poeta e, já agora, como se define enquanto poetisa, sabendo desde já que, para si, “o poeta é um viajante de sonhos”? Florinda Dias - Tanto a dizer o poeta sobre a poesia, essa bendita magia que nos faz levitar por aí, que nos transporta através do mar, do céu, da lua, do brilho do sol, do arco-íris, dum jardim em flor, o amor vivido do amor sonhado, e até... Até na mais profunda dor, ela nos transporta, nos alivia a alma, o coração e nos leva a voar por aí, como se voássemos nas asas de um condor. O poeta é um sonhador e, definitivamente, defino-me apaixonada pela poesia. A nossa entrevista chegou infe-

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Participação Especial Escritora Maria Carolina Sá

Fim de tarde

Estamos no início do Outono e o Sol resplandece já próximo do mar, pincelando-o com laivos de ouro e prata. Pouco a pouco, lança fios de fogo de um vermelho rosáceo tingindo o céu e a imensidão do mar. “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”… Suavemente, a voz do cantor, espraia-se pela marginal. E, numa caminhada descontraída de regresso a casa, acompanhada pelas sonoras gargalhadas das crianças que correm alegremente à frente dos pais, mais um dia faz a sua despedida numa tela de uma beleza incomparável. Aqui, ao meu lado, um par de namorados sentado na orla da praia, vai trocando carícias e juras de amor. Acolá, um jovem casal empurra o carrinho do seu maior tesouro (um bebé rosadinho que dorme repousadamente abraçado a um pequeno ursito de peluche). Jovens atléticos conduzem as suas bicicletas e improvisam corridas ou artísticas cavalgadas. “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”… Que todos nós saibamos aproveitar cada um dos dias da nossa vida e que, neste fim de dia em que o crepúsculo já se avizinha, consigamos dizer que hoje vivemos intensamente, amanhã o faremos com o mesmo entusiasmo e sempre assim será até que chegue o último dia e o possamos fazer com todo o esplendor do sol poente. A beleza esfumar-se-á, uma doença nos abalará, um acidente virá ao nosso encontro e o nosso corpo acabará por sucumbir. Mas, a recordação que deixarmos a todos quantos se cruzaram connosco, será o exemplo de uma vida digna, repleta de força e entusiasmo que se assemelhará à beleza inconfundível de um pôr-do-sol deslumbrante.

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Entrevista Escritor Francisco Grácio

Francisco Grácio Gonçalves ou Lefteris Kablianis (pseudónimo/ heterónimo) nasceu em Atenas. É historiador, autor e escritor. Desde o lançamento da sua primeira obra poética “O Beijo do Silêncio” tem participado em várias publicações literárias, em prosa e em poesia. É também autor e colaborador em obras e artigos científico-pedagógicos e literários. Foi recentemente vencedor na categoria Conto Internacional em Itália, pela Academia de Letras de Itália. Tornou-se comendador por honra e mérito com a atribuição da Comenda Castro Alves e com a Comenda Luís de Camões pela sua colaboração na Cultura Lusófona Mundial. “Não interessa se escreves bem ou mal. Interessa que sejas rentável. Para conseguires algo tens de ser tu próprio a apostar em ti, para que não exista o mínimo de prejuízo para a editora. Em Portugal não se fazem escritores, em Portugal os escritores têm de se fazer.” Boa Leitura!

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Obrigado Francisco Grácio Gonçalves pela oportunidade que me dás de poder entrevistar-te. Gostava que nos dissesses como te defines como escritor e do que trata sobretudo a tua obra? Francisco Grácio - A minha obra trata de tudo o que nos rodeia. Do passado, do presente e do futuro. Os meus olhos são a minha obra, assim como o meu sentir. Sou um escritor da pessoa humana enquanto motor da sociedade. Escrevo de tudo um pouco, deixo a minha imaginação fluir ao sabor do real e do irreal. Sou um clássico e ao mesmo tempo poderei ser moderno ou contemporâneo. Escrevo sobre situações reais mas também fantásticas. Um escritor sem limites com uma escrita variada. Sabendo que escreves maioritariamente contos, achas que as histórias nos contos devem submeter-se sempre aos jogos de inteligência, do amor, do ciúme, da morte? E no caso dos teus contos é assim? Francisco Grácio - Escrevo prosa e poesia. Se bem que ultimamente esteja efetivamente mais virado para a prosa. Contudo o meu primeiro livro é de poesia. Os contos

têm sempre em si jogos de inteligência, de saberes e de paixões de variados estilos. Os diversos tipos de amor estão sempre presentes. Nem sempre o ciúme e a morte são retratados em si, ou porque são exteriores à trama ou porque não serão inerentes à própria história que se conta. Existem uma série de sentimentos que se contam numa prosa, mesmo que seja do fantástico que são inerentes à vida, dessa forma um conto tem sempre uma carga emotiva que abarca uma serie de sentires que devem ser plenos para agarrar o leitor. Dizes que Os Maias (Eça de Queiróz), Guerra e Paz (Leo Tolstoy) e Gente Pobre (Fyodor Dostoevsky) são clássicos que te marcaram em diferentes fases


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da tua vida. E de que forma te influenciaram na maneira como escreves os teus contos e poesias? Francisco Grácio - Em tudo, tenho nos clássicos a base da minha forma de escrever. Lembro-me que li aos 16 anos “As Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar. Nunca mais a esqueci, e fiquei literalmente fascinado. Depois disso, li muitos outros que me forneceram muitas competências que me ajudaram a desenvolver a minha escrita. Enriqueceram-me verdadeiramente enquanto ser humano e enquanto escritor. Não escreveria como escrevo se não tivesse passado pela experiência de os ler. No texto “A morte em Bretville” dizes que “as decisões sempre me foram complicadas”. Sentes que necessitas dar um grande passo como escritor mas que ainda falta tomares uma grande decisão? Comenta, por favor. Francisco Grácio - “A morte em bretville” é um conto que ainda não está publicado. Um conto do fantástico com emoções da atualidade. Retrata da morte não como um fim mas como uma passagem. Todos nós necessitamos de um grande passo enquanto escritores. Necessitamos que acreditem em nós e que nos valorizem, o que não acontece em Portugal. Gostaria de tomar a grande decisão de me dedicar unicamente à escrita mas tal não me parece possível. Gostaria de escrever “as decisões sempre me foram complicadas, mas decidi escrever, só escrever…” Com o teu livro “O BEIJO DO SILÊNCIO” mostras o teu lado poético. Gostava que nos dissesses se consideras, como muitos poetas, que toda a poesia deve ter a sua dose de profecia?.

Francisco Grácio - “O Beijo do Silêncio” foi o meu primeiro livro de poesia, e sim toda a poesia tem uma dose de profecia. Neste caso, “O Beijo do Silêncio” é um livro intimista com uma sensibilidade extrema em que tento passar para o leitor todos os sentimentos que se têm e que muitas vezes não se conseguem exteriorizar. Foi um exercício muito difícil, mas penso que conseguido uma vez que toca naquilo que todos nós prezamos mais… a vida, a nossa vida. Os sentimentos. No texto “Conversas com Marguerite” escreves com o teu pseudónimo Lefteris Kablianis. De que modo o facto de teres nascido na Grécia te influencia na escrita dos teus textos? Francisco Grácio - Em tudo, tenho uma grande paixão, invulgar até, pelos clássicos, penso que será pelo facto de ter essas raízes. A minha escrita vai sempre buscar algo à Hellas. Penso que a minha escrita se distingue por isso, pelos pormenores que coloco muitas vezes em algumas histórias e que têm a ver com essa cultura que foi e é absolutamente fascinante e única. Tens publicado na tua página de Facebook alguns poemas de Pablo Neruda. Imagina-te a seu lado numa bela tarde de encontro de escritores amigos. Que gostarias de lhe perguntar e porquê? Francisco Grácio - O Pablo Neruda é assim… uma referência maior da poesia para mim. A forma como retrata as coisas é tao invulgar e ao mesmo tempo tão real, que até arrepia. Os sentimentos que coloca nas palavras são tão fortes que a nossa sensibilidade explode ao lê-las. Gostaria de lhe pedir para me ensinar a escrever

e para escrever comigo. Para me passar os seus ensinamentos… Foste recentemente galardoado como vencedor na categoria Conto Internacional em Itália, pela Academia de Letras de Itália. Achas que com este prémio que irás receber em breve haverá por parte das editoras uma maior e definitiva aposta na tua pessoa para que publiques mais inéditos teus? Francisco Grácio - Não. As editoras em Portugal não estão preparadas para apostar em novos autores. O que interessa para as editoras é unicamente o lucro. Não interessa se escreves bem ou mal. Interessa que sejas rentável. Para conseguires algo tens de ser tu próprio a apostar em ti, para que não exista o mínimo de prejuízo para a editora. Em Portugal não se fazem escritores, em Portugal os escritores têm de se fazer. Depois de te tornares Comendador por honra e mérito com a atribuição da Comenda Castro Alves e com a Comenda Luís de Camões pela tua colaboração na Cultura Lusófona Mundial, de que forma consideras que poderás ajudar a promover mais activamente os jovens escritores em Portugal e além-fronteiras? Francisco Grácio - Tento sempre incentivar os meus alunos e os meus amigos a escreverem e a lutarem pela escrita. Para mim escrever é uma paixão, um gosto e um desafio. Dessa forma, tento promover a escrita de todas as maneiras, incentivando todos os jovens que mostram vontade de escrever e que têm na escrita uma referência cultural para o progresso de uma sociedade. A nossa entrevista está a termiRevista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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nar e agradeço-te a honra que nos concedeste. Ainda assim, como escritor que começa a ganhar prémios de realce e a ter nome como escritor em Portugal, o que consideras importante fazer-se para que os jovens escritores como o Francisco Grácio Gonçalves tenham uma participação mais activa no mercado literário no nosso país? Francisco Grácio - Seria importante que as editoras pensassem nos seus autores, que os promovessem, que investissem neles, e não no lucro que poderão ter. Depois não desistir nunca. Insistam, escrevam e escrevam. É difícil, mas não é impossível. Poderemos nunca ser escritores famosos ou reconhecidos, mas deixaremos a nossa marca e os nossos textos, estarão lá, escritos e prontos a serem lidos. Boas escritas!!!

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Entrevista Escritora Joana Salgado

Joana Rita Versteeg Guedes Salgado, mora em Santarém, Portugal. Sempre escreveu, o que chamava a “escrita caseira”, escrevia porque gostava de o fazer. Nunca teve a intenção de publicar nada, estava muito longe dessa ideia. Quando viveu no Brasil, no secundário ganhou vários concursos de poesia e contos para autores menores de 18 anos. Quando entrou para a faculdade, deixou de concorrer. Licenciada em psicologia clinica, com pós-graduação em hsst e mediação familiar. Boa Leitura!

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Obrigado Joana Salgado por me concederes o privilégio de te entrevistar para a DIVULGA ESCRITOR. Fala-nos um pouco sobre o teu livro “AS DESVENTURAS DO MALAQUIAS” e do papel das suas personagens principais (que são animais). Foi pensado apenas para as crianças e poderes divulgá-lo sobretudo nas escolas ou os adultos também se revêm nele? Joana Salgado - Sou uma apaixonada por gatos, desde miúda que convivo com gatos. Sempre gostei muito de crianças, fui baby-sitter na minha adolescência. Escrevi estes contos, tendo em mente um dos meus gatos e as aventuras dele com os meus filhos. Um pouco da família do Malaquias é reflexo da minha família. Como os adultos por excelência são contadores de histórias, escrevi para filhos e para pais, para que ambos se pudessem rever neste mundo imaginário. Foi uma forma dos adultos recuarem até à sua infância recordando histórias passadas que depois contassem aos filhos. Posteriormente, surgiu o convite das educadoras dos meus filhos para apresentar o Livro. Achei que seria uma experiência muito interessante contar

um dos contos nas turmas deles. Depois disso, continuei a contar as minhas histórias no jardim-de-infância e no primeiro ciclo. Tudo começou em Santarém, agora já conto as histórias do meu livro noutros distritos e estou aberta a conta-las no país inteiro, se assim o quiserem. É uma experiência extraordinária. A receptividade é muito grande e recebo desenhos lindos que as crianças fazem depois do conto. Qual consideras ser a tua identidade, a tua marca, enquanto escritora? Joana Salgado - Gosto de escrever coisas simples, que sejam de fácil leitura, divertidas e com ritmo. Escrevo quase como penso e falo, é


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corrido e muito imaginativo. Gosto de prender o leitor até ao fim, que ele sinta o personagem principal como seu e o fim deixo sempre em aberto. Cada um escolhe ou imagina como gostaria de terminar a história que conto. Quando escrevo para as crianças e jovens, deixo sempre o lado lúdico bem visível e de fácil compreensão. Há sempre uma moral na história. Desde que frequentaste o secundário, no Brasil, onde residias na altura, sente-se na tua escrita a busca incansável de escreveres sempre grandes histórias. Crês que se deve a algo em especial? Joana Salgado - Sempre gostei de ler, li muito e ainda leio. Ler faz-me viajar pelo imaginário de cada história. Quando comecei a escrever vivia no Brasil, escrevia de forma mais inocente, sem preocupação com o leitor. De lá para esta data, as histórias foram mudando, assim como eu, que fui amadurecendo com a vida. Hoje escrevo de forma mais leve, descontraída. Deixo o meu imaginário fluir, a minha criatividade espalhar-se na escrita. Procuro dar sempre uma base moral nas minhas histórias para crianças e jovens. E deixo os adultos imaginarem-se na pele do personagem principal. Não escrevo para mulheres ou homens, escrevo para todas as pessoas. Como os finais são abertos, tenho sempre a possibilidade de dar continuidade à história e já o fiz algumas vezes. Escreves com enorme frequência em antologias/colectâneas, poderei testemunhar que sempre com surpreendentes histórias que nos cativam. O que achas de escrever em antologias e qual o teu maior propósito ao fazê-lo? Joana Salgado - A partir do mo-

mento que editei o Malaquias, e a adesão foi muito boa, comecei a estar atenta aos concursos que surgiam. Comecei pelas colectâneas por mero acaso. Neste momento participo em concursos de coletâneas em prosa. Em todas as coletâneas que participei, e já são 7 editadas e 4 por editar, os meus contos foram aceites e apreciados. Escrever foi-se tornando um vício e uma procura imediata de melhorar cada vez mais a minha escrita. Participo essencialmente por dois motivos. Porque me submete a uma melhoria na minha escrita, conduz-me a aprimorar o conteúdo e a ser versátil nos temas. Depois, porque quero que a minha escrita seja divulgada pelo nosso país e pelo mundo a fora. Nada melhor do que uma coletânea para ser lida por todos os públicos. Só assim posso mostrar quase que de imediato quem eu sou como escritora e criativa. Ao ler-te fico com a sensação de que existe uma relação emocional bastante forte das tuas personagens com a própria escritora. Há mesmo uma enorme empatia ou é tudo imaginação da autora? O facto de seres psicóloga clínica tem alguma importância extra nessa relação? Joana Salgado - Em cada conto, seja infantil ou não, há sempre um pouco de mim. Quem me conhece muito bem, identifica-me no conto. Descobre o meu traço pessoal até o da minha vida pessoal. A empatia com o personagem tem a ver com o facto de o próprio personagem ser simples, divertido e dinâmico, como eu sou. Escrevo muito para mim, para que eu própria me prenda na leitura e na dinâmica de cada história. Tenho de gostar do que escrevo senão não tenho história. A

prática clinica ao longo de mais de 20 anos, o facto de ter sido formadora durante 20 anos, dá-me uma base fundamental para construir cada personagem, a sua família, os seus afetos, a sua personalidade, a sua conduta, ética e moral. Na conjunção de quem eu sou como pessoa, da minha bagagem profissional como psicóloga clinica, formadora, mãe de 3 filhos, com a maternidade depois dos 40 anos e o facto de gostar muito de animais, faz-me construir cada personagem delicadamente e sem exagero nas suas acções. O que mudou em ti como escritora residente no Brasil e o que achas que acontecerá contigo, aqui em Portugal, dentro de 10 anos no panorama da literatura em Portugal? Joana Salgado - A vida fez-me amadurecer mas sem nunca me tornar numa pessoa azeda. O facto de morar no Brasil mais de 14 anos ajudou-me muito a ter uma bagagem cultural muito diversificada, o que me ajuda a construir enredos. Espero ser reconhecida como uma escritora de valor, não como a melhor, pois cada autor escreve para um público distinto ou diversificado. Cada um tem o seu modo ou a sua marca. Somos todos iguais e diferentes. Apenas uns conseguem mais facilmente captar a atenção do leitor do que outros. Crês que o estado da literatura portuguesa, com esta malfadada crise essencialmente cultural, corre o risco de se desmorenar no vazio ou ainda há esperança para jovens escritoras como tu? Joana Salgado - A cultura nunca morre. Os hábitos de leitura é que ainda são de pouco investimento por parte dos pais e educadores, embora se faça um esforço para que as crianças gostem de ler. Mas Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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os próprios pais têm de também gostar de ler e incentivar a leitura. Acredito que os escritores sempre terão lugar na cultura nacional. Haverá sempre novos e talentosos escritores, independentemente da sua idade, que irão emergir e nos encantar com as suas histórias. O ser humano é por natureza criativo e sonhador. Haverá sempre quem escreva e quem leia as histórias. Muitas vezes considera-se que os jovens escritores aspiram a grandes rasgos estéticos nos seus livros mas não respeitam a inteligência do leitor. Sabendo dos problemas pessoais que tiveste, crês que, mais do que ninguém, sabes dar valor aos sentimentos de quem te lê? Joana Salgado - A minha vida, como me dizem os amigos mais chegados … daria um livro, mas eu diria que daria mais do que as páginas de um grande livro. Creio que a minha história de vida, sobrevivente de vários problemas graves, reconstrução da minha vida depois dos 40 anos, com dois filhos pequenos, numa luta de dia-a-dia, faz-me não ser lamechas, mas sim praticar e com a esperança no dia de hoje e no de amanhã. Toda esta vivência facilita-me a criação de personagens, pois dou-lhes a esperança de lutar pela vida. Não há desistentes, há lutadores, sempre. Sou uma pessoa simples e positiva. A minha escrita é como eu, simples e positiva. Não escrevo sobre a minha vida, escrevo sobre a vida. Tal como eu me prendi nas centenas de livros que li, gosto de prender o leitor no que eu escrevo. Hoje para além de 48

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tudo isso, sou também a escritora que usa conhecimentos de psicologia, da mistura cultural de ter vivido no Brasil e em Portugal, a minha maternidade e a minha postura diante da vida. Dizem que só enquanto permanecemos desconhecidos é que podemos levar a cabo o nosso trabalho. O que pensas disso, sendo que escrever para ti é um prazer enorme e publicas regularmente em várias antologias para dares a conhecer o teu trabalho. Joana Salgado - Não é só quando permanecemos desconhecidos que podemos levar a cabo o nosso trabalho. Mesmo quando somos conhecidos somos desconhecidos para alguém. Ser conhecido ou não o importante é que a minha escrita fique registada, para que possa ser lida. Se gostava de ser conhecida, gostava e quero. Mas se não for conhecida, serei desconhecida, mas sempre conhecida por alguém, e isso é o mais importante. Escrevo para isso. Agradeço-te imenso a tua disponibilidade e, antes mesmo de terminarmos esta nossa entrevista. confidenciaste-me teres já sido contactada por editoras para publicares com elas. Porém, nenhuma delas te fez qualquer proposta de edição por sua única conta e risco. Consideras que as editoras independentes que proliferam no nosso país aliciam os escritores com a promessa de consagração ou apenas fazem da edição um negócio? O que falta na tua opinião aos jovens escritores para “mostrarem” os bíceps

sob a camisa da luta para poderem editarem? Joana Salgado - Não acredito nas editoras, como a maioria dos meus colegas não acredita. As editoras em Portugal promovem apenas o seu lucro e não os verdadeiros escritores. Um escritor verdadeiro tem de lutar e nunca desistir e é isso que eu faço. Um dia as editoras ainda me irão procurar e nessa altura eu decidirei se estou interessada nelas ou não. Acredito em mim.

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A eternidade para a tua chegada… Em silêncio, caminhámos pelo átrio da estação de comboios. Os nossos passos são lentos. De mãos dadas firmemente presas uma na outra com a cola do nosso amor, dificilmente se conseguirão soltar no momento da despedida. Não quero nem posso pensar nisso. Observo as pessoas em passo apressado. Puxam as suas malas fazendo-as deslizar pelas rodinhas. As crianças fogem dos pais, brincando nos bancos da grande sala de espera. Há casais felizes no seu reencontro. Outros, de coração apertado, de fraco sorriso no rosto. Falam pouco, caminham de cabeça baixa. Há mulheres bonitas que deixam os homens espantados. Há homens lindos dos quais as mulheres segredam ao ouvido das amigas desejos sobre eles. Há

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o vai e vem de pessoas desconhecidas e que assim permanecerão. Há o reencontro que mata a saudade. Há tudo e nada enquanto o relógio central marca as horas. O bilhete já está comprado, evitamos assim as longas filas nas bilheteiras. Contínuo sem saber como te vou largar a mão, largar a tua boca, afastar-me do teu abraço para te deixar partir. Imagino diversos cenários e ainda no meio deles as lágrimas saltam-me dos olhos e descem pelo meu rosto. Enxugo-as e elas insistem em continuar a nascer. Distraio-me com os rostos que passam por mim, dou-lhes uma história de vida de final feliz ou de esperança que ao passarem por aquela porta de saída da estação o destino lhes mudará a vida para melhor. Tento abstrair-me dos meus pensamen-

tos, de como vou deixar-te partir. Embora a tua ausência seja breve, senti-la-ei como perto da eternidade. O amor tem destas coisas: transforma o sem importância em quase mortal. Morrerei de tédio, de saudades, de solidão, sem o teu cheiro na minha pele, sem o teu abraço que me adormece todas as noites, sem os teus beijos suaves que me acordam de manhã. És o único que consegue eliminar o meu mau-humor matinal, e agora como vou fazer? Voltarei a refilar com todos, serei novamente apelidada de “rabugenta-mor”? Olho novamente para o relógio no alpendre da estação e noto como o tempo voou quando não lhe era permitido fazer. Falta muito pouco para ires e muito para voltares. Pouco para te deixar con-


Participação Especial

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Escritora Joana Salgado

tra a nossa vontade, muito para voltares. A partir de hoje o meu regresso a casa será chuvoso na minha alma, no meu rosto. Vou conduzir de olhos embaciados. Sei que vou devagar porque a pressa de chegar a casa hoje não existe, amanhã também não e durante algum tempo será apenas uma obrigação.Tremo e arrepio-me toda a cada toque de campainha que anuncia a voz do altifalante, pedindo o encaminhamento dos passageiros à linha onde encontrarão o comboio que partirá em breve. Aguardo a qualquer momento o som dessa voz suave a anunciar a tua partida. Vejo as despedidas, quem sabe se me inspiro numa delas e não faça figura de adolescente enamorada pela primeira vez. Mas o amor é o viver eterno da adoles-

cência na sua forma apaixonada. Fazemos sempre a figura de parvos, dependentes um do outro, obedientes aos nossos desejos e a uma pequena birra quando não somos mimados, surpreendidos pelo romantismo que desde pequenos lemos e imaginamos como nosso nos contos de príncipes e princesas. Paramos. Paraste os nossos passos antes de chegarmos à tua linha de embarque. Apertas ainda com mais força a minha mão. Sei que o meu pensamento é também o teu. Olhas-me nos olhos, vejo água neles. Sinto água nos meus. Abraças-me. Sinto os ossos a doer mas não tenho coragem de me afastar. Quero na realidade levar este abraço comigo de volta a casa. Afastas-te. Seguras-me o corpo com as duas

mãos, os teus olhos continuam afogados em água e os meus também. Não dizes nada. Não digo nada. Este silêncio diz tudo. Beijas-me. Abraças-me. Afastas-te e vais, por fim, em direcção ao comboio. Permaneço aonde me deixaste. Não olhas para trás. Não consigo sair daqui. Os meus pés colaram-se ao chão. Vejo a tua figura diminuir no horizonte. Nunca olhaste para trás. Entras na carruagem. Não te vejo. Não me vês. Continuo parada, cimentada ao chão. As lágrimas correm pela minha face abaixo, o nariz funga. As mãos estão a ficar frias … o comboio apita. Inicia a sua lenta marcha. Não vejo o teu aceno. Não vês o meu. Toca o telefone, oiço a nossa música. Deixo-a tocar … partiste …

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Entrevista Escritor Jorge Ferreira Comecei a escrever aos 47 anos. Tenho tido diversas profissões desde segurança privada a técnico de gás. A escrita apareceu como um passatempo, um escape para o dia – a – dia. Há 2 anos para cá, tenho vindo a juntar-me a pessoas ligadas ao meio literário. Este meio tem permitido uma enorme fonte de inspiração para poder continuar com a minha escrita. “A idade não é um obstáculo, nem um estado de alma, é aquilo que cada um quer que seja, basta haver determinação, vontade e espírito criativo que pretendo nunca perder e escrevê-lo nas próximas décadas, nas obras, que já fervilham dentro de mim.” Boa Leitura!

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Antes de mais os nossos agradecimentos por aceitar conceder-nos esta entrevista para a Divulga Escritor. O Jorge Ferreira é talvez, um dos escritores que tive o prazer de entrevistar que mais trabalhos publicou nas mais diversas editoras, sejam livros em que é o único autor, sejam em colectâneas. Talvez por isso, se sinta mais à-vontade para nos confessar o que acha do facto de hoje em dia, os autores terem de participar financeiramente para que as editoras publiquem os seus textos? Acha que haverá possibilidade de mudar esta situação em breve ou considera algo normal nos dias que correm? Jorge Ferreira – Nos dias que correm as dificuldades neste âmbito são sentidas com grande intensidade sendo praticamente um reflexo da ausência de apoios. Embora exista alguma ajuda da parte de poucas editoras que facilitam em participar financeiramente na publicação de textos, como por exemplo o “Instituto Camões de Portugal – “Apoio à Edição de Obras Literárias de Língua Portuguesa”, elas são uma gota de água. A maioria dos autores têm que suportar financeiramente a publicação dos seus textos, e, a quase ine-

xistência de patrocínios limita sem dúvida a concretização de muitos sonhos. Eu conheço muitos escritores e todos eles se encontram nesta situação. As suas criações intelectuais do domínio literário muitas vezes de surpreendente qualidade não chegam ao domínio público. O ideal seria o apoio incondicionável aos escritores, com a criação de recursos económico-literários, criação de mais espaços estimulantes de leitura (Leitura de rua, Bibliotecas, escolas,…), livros economicamente mais baratos, maior produção e distribuição literária para que as obras literárias chegassem a mais leitores. Deveria também haver uma atenção especial para uma maior divulgação de autores e obras literárias, mas,


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porém, no contexto do panorama atual português e internacional, parece que neste momento não há forma de conseguir inverter o sistema de modo a dar ao escritor e às suas obras o valor cultural merecido. Mas acredito que se houver esforço entre todos, escritores, editoras, distribuidoras e meios culturais pouco a pouco tudo irá mudar, será uma questão de tempo e mudança de mentalidades. Pressinto que seja um homem determinado e que segue os seus sonhos enfrentando todos os obstáculos que lhe surjam pela frente. Foi pela sua determinação de querer escrever que se decidiu definitivamente pelo seu primeiro romance “Amores & Separações”, à venda em Portugal mas também no Brasil? O que quis transmitir aos seus leitores e amigos? Jorge Ferreira - Quando pensei em escrever este romance ele não passava de uma simples história real mas que merecia por si só torná-la inesquecível. Com o passar do tempo e depois de um período de reflexão começou a surgir no papel algo inesperado que fui criando pouco a pouco com muito carinho e intensidade. De repente, e sem me aperceber, tornou-se um escape ou algo terapêutico para descrever um estado de alma. Com a continuação do mesmo que fui dando a conhecer a outros, para minha surpresa, verifiquei o interesse e a crítica positiva e assim fui incentivado a continuar. Quando o finalizei não tinha qualquer intuito de publicar mas, fui convencido de tal forma, que o enviei para as diversas editoras. Fiquei grato e satisfeito ao saber que após algumas semanas, a Chiado Editora, acreditou nes-

se meu projeto e aceitou editar o meu romance. Esta obra transmite um labirinto entre a realidade e a ficção. Relata a vida de um casal com todos os problemas do dia-a-dia, e com a problemática do aparecimento de um terceiro elemento, que provoca múltiplas mudanças radicais no seio familiar dessa família. É um romance em cujo contexto, o amor, a paixão e a aventura estão bem patentes desde o seu início até ao final. O escritor e Prémio Nobel da Literatura José Saramago disse-me um dia, quando lhe confessei que também eu escrevia, de que “não tenha pressa e não perca tempo”, exatamente porque também ele começara a escrever tarde. O Jorge, com 47 anos, iniciou-se na escrita de espírito e alma há apenas dois anos. Partilha da opinião de Saramago e o que espera conseguir no mundo da literatura na próxima década? Jorge Ferreira - Longe de mim discordar de Saramago, vulto inconfundível da literatura mundial, até porque estou totalmente de acordo com ele. As vivências nesta fase da Vida fazem-nos olhar à nossa volta o Mundo de outra forma, e seguir o trilho da Vida literária com outros olhos. Os olhos de quem observa as folhas que caem no outono, ou o voo ainda trémulo de um jovem pássaro ou ainda a essência verdadeira do amor… é como participar numa viagem na qual sei o seu ponto de partida, mas não faço ideia qual será o seu ponto de chegada. A idade não é um obstáculo, nem um estado de alma, é aquilo que cada um quer que seja, basta haver determinação, vontade e espírito criativo que pretendo nunca perder e escrevê-

-lo nas próximas décadas, nas obras, que já fervilham dentro de mim. “Nós somos os heróis de nós próprios”, “ A União faz a força” e “ Por vezes lutamos contra as coisas que pensamos ser nossas inimigas” são três frases brilhantes que retive de si e que espelham bem a intensidade de “As Crónicas do Capitão Galo”, o seu último livro. Que mensagem quis de facto transmitir e porquê deixá-las tão bem vincadas na história que conta? Jorge Ferreira - As Crónicas do Capitão Galo, resume a força de vontade, o espírito criativo que há no ser humano, e que pretendo transmitir às gerações vindouras. Neste caso, como o livro se trata de uma fábula adaptei os valores intrínsecos à história, criando um herói, neste caso um galo que irá transpor todas as barreiras para concretizar o seu sonho. Na verdade, foi mais fácil criar uma fábula, criando um meio fictício no reino animal para divulgar a minha mensagem com um lema combativo, a todos,“ A União faz a Força”, e principalmente à camada mais jovem que tanto necessitam destes valores. “I AM STRONGER THAN FEAR “ é um dos seus últimos poemas em homenagem declarada ao actual Prémio Nobel da Paz Malala, mostrando a profundidade dos seus sentimentos. É um escritor e um homem de grandes sentimentos e afetos pelas pessoas que fazem o Bem neste mundo e sente “necessidade” de os espelhar nos seus textos? Jorge Ferreira - Entrei no mundo da poesia há menos de meio ano, senti que o tinha de o fazer, tenRevista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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to ser versátil no que escrevo e este é um dos poemas temáticos entre outros. Estou a lembrar-me do poema que dediquei ao Robin Williams e um outro poema dedicado às mulheres que sofrem de violência doméstica. O poema dedicado ao Robin Williams traduziu-se numa singela homenagem à sua carreira, um verdadeiro ícone do cinema e do mundo artístico. O meu poema dedicado às mulheres que sofrem de violência doméstica é um grito do silêncio que é partilhado infelizmente por milhões de mulheres. Quanto à Malala, não pude ficar indiferente, pois, há milhares de Malalas por todo o mundo. Esta rapariga inspirou-me ao afirmar que “ um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”. À partida uma frase muito simples, mas, com grande poder, manifestado por ela que tem vindo a conseguir mudar a consciência colectiva. Pertence à recente criada “MAR D’ARTES - Associação de Cultura e Arte – Portugal “, cujo intuito principal é a de promover e dinamizar as Artes e a Cultura, pautada pela criatividade e liberdade de expressão artística. Até que ponto é que considera, com tantas Associações do género no nosso país e numa altura de enorme crise cultural em Portugal, que esta nova Associação e o Jorge em particular poderá trazer de novo para que os jovens escritores possam ter uma palavra cativa? Jorge Ferreira - As associações nunca são demais quando pautadas pelo mesmo objetivos, princi54

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palmente na conjuntura atual em que a cultura está sendo tão esquecida e tão maltratada pelos nossos governantes. Quanto à Associação Cultural -A MAR D’ARTES pretende cultivar entre os seus associados, a paixão pelas Artes e pela Cultura, promovendo o são convívio e a partilha, acções de divulgação e formação no âmbito das técnicas e métodos respeitantes às várias artes. Pretende desenvolver e manter estreitas relações com outras associações, com as autarquias locais e com todas as instituições, nacionais ou internacionais, participando em iniciativas que conduzam à melhoria das condições para a exposição, divulgação e prática das várias artes criativas. Pretende ainda, organizar e promover convívios, exposições, intercâmbios, formação, ou outras actividades que vierem a ser consideradas úteis e dentro do contexto dos seus objectivos, entre os seus associados ou com outras entidades, que se insiram no mesmo contexto. Esta Associação é pautada pela criatividade e liberdade de expressão artística. O amor é, talvez, o sentimento que mais define nos seus trabalhos, quer nos seus contos mas essencialmente na poesia que partilha no Facebook. “Ama o próximo como a ti mesmo/Ama como se não houvesse amanhã/ Ama sem lamentos / Ama e esquece os tormentos ...”. Posso dizer sem reservas de que se define como um apaixonado e que ao mencionar “Que o amor seja o farol que ilumina e encaminha a minha vida”, quer concluir que o amor é o sentimento mais im-

portante na sua vida e enquanto escritor? Jorge Ferreira – O amor é o sentimento mais importante da minha vida é um facto incontestável. Os meus poemas são o reflexo disso mesmo, daquilo que eu observo, vivo e sinto. O amor é a locomotiva que transporta as minhas palavras para o Mundo. Tanto na minha poesia, contos ou até mesmo livros já editados, o amor é a palavra mais dita e emblemática da minha escrita assim como na minha vida. Poemetizou a frase “O passado ficou lá atrás/O presente vivo agora/O futuro quem sabe…”... Como acha que será o futuro da literatura portuguesa em Portugal e o papel dos jovens escritores como o Jorge que começam a dar os seus primeiros passos? Jorge Ferreira - Como o citado acima eu gostaria que o futuro do meio literário fosse mais risonho e que os novos escritores tivessem mais portas abertas e mais meios para divulgarem os seus livros. Gostaria de acreditar que um dia, as pessoas pudessem divulgar a sua criatividade nas várias formas de expressão existentes, sem barreiras e fossem apreciadas como merecem. Em tão pouco tempo quis diversificar a sua escrita da poesia e do romance para os contos infantis. A que se deve tal alteração? A alguma visão de um mercado em crescendo em Portugal no que respeita ao mundo infantil ou apenas porque quer ser eclético na sua forma de escrever? Jorge Ferreira - Eu tento con-


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siderar-me eclético e enfrentar desafios e não a visão de mercado. Considero o livro infantil atraente, aliciante e muito importante. Na minha perspetiva a literatura infantil é fundamental pois é nessa fase que as crianças travam contacto com os livros, aprendem a conhecê-los: textura, formato, cheiro, manuseamento e mais importante ainda o seu “universo”contido em cada letra, em cada palavra, em cada frase, em cada estrofe, enfim um mundo de imaginação que a transporta para lá da realidade, criando bons hábitos de leitura que se manterão pela vida fora. Foi um ótima entrevista mas não queria terminar sem antes agradecer a sua gentileza para comigo e com a Divulga Escritor e perguntar-lhe se no seu livro “As crónicas do Capitão Galo”, podermos considerar o Jorge como o próprio Capitão Galo, aquele que não pretende perder a sua identidade e, com determinação, inteligência e coragem tudo consegue resolver na sua vida, essencialmente na de escritor que agora tão bem abarca? Jorge Ferreira -Tanto no Capitão Galo como todos meus trabalhos são um pouco do meu Ser, do meu estado de alma. Os valores intrínsecos criados para esta e outras personagens, revelam a essência que no fundo existe em cada um de nós, mas, muitas das vezes não manifestamos de forma tão clara, tão límpida, tão pura. Quanto a esta entrevista, considero de extrema importância tanto para mim, como para qualquer escritor como rampa de lançamento para o co-

nhecimento crucial dos escritores, da sua visão do Mundo, das suas obras, dos seus projetos. Agradeço o terem-se lembrado de mim. Qualquer meio de divulgação é uma fonte motivadora que nos dá, a nós escritores, mais alento para continuar.

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Entrevista Escritora Maria Fernanda Comenda Sou uma mulher que sei o que quero, tive e tenho sempre projetos na minha vida. Não desanimo com facilidade e se desanimar , reflito e consigo seguir em frente. Considerome uma pessoa como tantas outras que lutam com trabalho e persistência pelo seu presente e futuro. Gosto de sonhar, viajar e escrever. A escrita é um meio de deixar o meu mundo interior saltar cá para fora, é, por outro lado, uma forma de criar realidades, mundos, de ressuscitar pessoas (personagens) de eternizar as suas vivências e pensamentos. “Escrever não é um acto estático, é dinâmico, todo o nosso ser se concentra, ao escrevermos estamos a vivenciar a história: os acontecimentos, as emoções, encarnamos as personagens. Posso, portanto, dizer-lhe que nunca me sentirei realizada como escritora, faltar-me-á sempre algo.” Boa Leitura!

Por João Paulo Bernardino Escritor

Gostaria por lhe agradecer a amabilidade em aceitar o convite da DIVULGA ESCRITOR para que possamos conhecer um pouco mais quem é a Maria Fernanda Comenda. O escritor Carlos Drummond de Andrade afirmou um dia de que “perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes”. Sendo a Maria Fernanda uma mulher determinada e persistente na vida, o que considera que ainda lhe falta descobrir no mundo da literatura para se sentir verdadeiramente realizada enquanto escritora? Maria Fernanda – Muito obrigada pela vossa amabilidade em entrevistar-me. Em relação ao mundo e à literatura estou sempre a aprender e a evoluir a cada instante. Como nos diz o filósofo grego Sócrates “Só sei que nada sei.” A cada momento estou a formar-me como pessoa e escritora. A escrita vai-se desenvolvendo consoante a vida se vai desenrolando. Quanto mais leio melhor escrevo, quanto mais escrevo melhor fluem as ideias e mais a escrita se vai aperfeiçoando. Hoje já não sou exatamente a pessoa nem a escritora de ontem…hoje há mais experiência,

mais conhecimento e segurança. No entanto, há sempre algo a aperfeiçoar, a descobrir. Com o tempo, a escrita vai amadurecendo, modificando-se, tornando-se mais complexa ou mais simples, conforme o que se descreve, o que se narra, por vezes até mais “sensual”. Escrever não é um acto estático, é dinâmico, todo o nosso ser se concentra, ao escrevermos estamos a vivenciar a história: os acontecimentos, as emoções, encarnamos as personagens. Posso, portanto, dizer-lhe que nunca me sentirei realizada como escritora, faltar-me-á sempre algo. Quando o escritor Oscar Wilde comentou que “A maioria das pessoas é outra pessoa. Seus pensamentos são as opiniões de outra pessoa, suas vidas uma míRevista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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mica, suas paixões uma citação”, pensa que estaria a referir-se a escritores como a Maria Fernanda que, ao escreverem as suas personagens e os seus enredos, se transformam num outro “eu”? Maria Fernanda - Penso que Oscar Wilde estava a referir-se às pessoas em geral que castram os seus próprios pensamentos, que se movimentam na vida como a sociedade exige, que não demonstram amar quem realmente amam, ou seja, que vivem a vida que os outros querem e não os seus próprios desejos e sonhos. Vivem uma vida de mentira. É claro que também poderá abranger os escritores como eu que criam personagens como se fossem os seus vários “eus”, no entanto, a ficção neste caso está presente, faz parte do imaginário e não da realidade. O escritor cria através da sua escrita situações, personagens, deixa transparecer sentimentos, emoções, palavras, olhares que no mundo em que estão inseridos são verdadeiros, reais. O escritor sente-os porque ele é como um deus que cria o seu próprio universo, que maneja as suas marionetas, criando-lhes o seu próprio destino. No entanto, na maioria das obras não são os verdadeiros sentimentos do escritor, esses pertencem ao escritor e não às suas personagens. “O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença” (frase do escritor Érico Veríssimo). Acha que as editoras em Portugal são hoje indiferentes para com os escritores que, tal como a Maria Fernanda, se quiserem ver as suas obras publicadas terão de pagar antecipadamente para 58

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que, dessa forma, não venham a ter riscos com a edição? Maria Fernanda - As editoras em Portugal são, naturalmente, o que podem ser, tendo em conta a conjetura em que todos nós estamos inseridos. Sendo a Maria Fernanda uma mulher emotiva, em que cada texto seu demonstra fielmente o espelho dos seus sentimentos, nota-se que cada dia que passa entende que na vida não existe sorte e nem destino, mas sim determinação e fé. De que forma isso a ajuda na sua escrita e na sua vida? Maria Fernanda - Eu acredito em Deus/Universo portanto acredito que se tivermos Fé e confiarmos na sua ajuda e em nós próprios, conseguimos atingir os nossos objetivos. Claro que, muitas vezes, temos de trabalhar muito e esperar bastante tempo pelo que desejamos, outras não conseguimos, no entanto, nunca devemos baixar os braços. O trabalho, a persistência e o acreditar ajudam-nos a viver e a ser. Acredito no livre arbítrio. Acredito que existem vários caminhos. Nós estamos numa encruzilhada e somos livres de escolher e seguir pelo caminho que nos parece mais plausível. Este pensamento e portanto esta fé dá-me força e coragem para ir em frente em todas as situações da minha vida e superar todos os obstáculos com que me deparo. Sinto-me protegida porque sei que não estou só, tenho Deus/Universo a acompanhar-me e a apoiar-me. Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que

já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É por isso que gosta de escrever para saltar cá para fora os seus sonhos, de criar novas realidades que captem a atenção dos seus leitores? Maria Fernanda - Eu gosto de escrever porque me faz sentir bem, porque faz parte da minha maneira de ser, de viver. Escrever não é “abandonar roupas usadas que têm a forma do nosso corpo nem esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares”, escrever é abrir novos caminhos que nos levam a lugares novos, é confecionar novas roupas que nos assentem bem, a partir das existentes, é muitas vezes reciclar o que já existia. O “velho” dá-me a experiência e abre-me novos horizontes, criando novas obras. Escrevo para os meus leitores, a fim de os levar em “viagens”, de os envolver nos acontecimentos, de sentirem as personagens, de chorarem e rirem com elas. Por outro lado, escrevo também para mim, porque escrever, criar novas realidades, é uma necessidade como respirar, beber, comer, andar e dormir. Preciso da escrita para me sentir totalmente viva. A escrita é também um acto de amor que dou a mim própria e aos outros. Os momentos bons da vida nunca se apagam. Eles ficam apenas guardados num lugar a que vulgarmente chamamos de memória. É por isso que a Maria Fernanda tenta também preservar as suas vivências e os pensamentos mais emblemáticos da sua vida escrevendo em antologias/


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colectâneas para que, assim, fiquem eternizados? Maria Fernanda - Toda a obra de um escritor é, segundo a minha opinião, para ser lida e eternizada, caso contrário é uma obra morta, por isso, tenho publicado os meus textos de prosa em coletâneas/antologias por estas aparecerem no meu caminho como um meio de dar a conhecer o meu trabalho. São oportunidades que me vão surgindo e empurrando para o mundo literário. Estas coletâneas/ antologias são compilações de textos selecionados de vários autores, cujos textos são subordinados a temas específicos, o que nos leva, a nós escritores, a desenvolvermos a nossa escrita, imaginação e portanto a revelar o nosso talento e capacidade, eternizando os nossos contos, ou pelo menos dando-os a conhecer ao leitor actual. As antologias de poesia já são diferentes, pois não restringe o tema. Os nossos poemas revelam, no meu caso, a minha essência, a mais genuína e pura. Na sua prosa gosta de retratar convenientemente assuntos da vida quotidiana, do sofrimento, da felicidade e do amor. Dizem que as mais lindas frases de amor são ditas no silêncio de um olhar. O que representa para si o amor e de que forma o descreve nos seus livros para que os seus leitores o entendam verdadeiramente? Maria Fernanda - O amor é um dos sentimentos mais fortes, e para mim, o mais valioso e o mais rico, por isso nos meus textos ele está presente como a força, a energia que faz o mundo girar positivamente em oposição ao ódio que faz o mundo avançar para a

desgraça. Na minha obra as várias espécies de amor: romântico, social e humano estão presentes, sendo eles as armas das minhas personagens para transformarem o mundo e a sua própria vida. O amor, na minha prosa, é real, verdadeiro, ele é descrito ao pormenor, materializado através dos gestos, do olhar, das palavras. O leitor pode senti-lo arrebatador, intenso, de uma forma crescente ou decrescente, consoante a situação, consoante as palavras saírem da boca das personagens, consoante os beijos, o brilho do olhar e a linguagem corporal desfilarem na leitura, perante os olhos do leitor que, na minha opinião, tornar-se-á espetador. Nos poemas, apenas o amor ou o amor em oposição ao ódio, ou a beleza de uma paisagem fazem-se sentir através de imagens levando o leitor ao sentir e contemplar transmitido. Li um dia uma frase no seu mural de Facebook de que “Os medíocres é que singram por todo o lado!”. Replicando-a para a área da literatura e essencialmente dos livros, considera que em Portugal só publica quem tem dinheiro (e aí os medíocres têm tendência a singrar mais, me desculpem a observação) ou, na verdade, a nossa literatura está bem entregue e é apenas uma observação despropositada? Maria Fernanda - Na verdade apenas comentei uma frase de um filósofo num post que partilhei no Facebook. Sou adepta da frase “O bem e o amor devem singrar por todo o lado!”. Não me cabe a mim, nesta entrevista falar da literatura em geral. No entanto, posso dizer-

-lhe que toda a escrita só será verdadeiramente literatura (literatura viva) se perpetuar no tempo, caso contrário morrerá. Há bem pouco tempo escreveu que “O que me apetecia era saltar de um mundo para outro, era sobrevoar os países em guerra e acalmá-los e dizer-lhes que Deus não está decerto feliz…e que nenhum ser humano merece o que se está a passar… Apetecia-me agarrar em todas as crianças que estão a morrer de fome, sede e miséria e levá-las para um futuro risonho”. Acha que esse mundo de que fala apenas poderá existir na cabeça dos escritores/poetas ou tem esperança de que, quem sabe se com as mensagens dos seus livros, possa haver esperança nesta vida e neste nosso mundo? Maria Fernanda - Gostaria que fosse verdade, que as mensagens dos meus livros ajudassem a humanidade, o mundo, mas sei que os meus pensamentos, os meus desejos são simples e pequenas gotas na imensidão de um oceano. Quiçá, se as minhas pequenas gotas com as gotas de outros autores farão a diferença? Só o tempo o dirá!... No entanto, não vou desmoralizar e as mensagens de amor continuarei a escrever, porque mesmo que não transforme o mundo na totalidade, poderei abrir caminho e largar sementes que a pouco e pouco poderão germinar e tornar o mundo um pouco melhor, nem que seja o de algumas pessoas. A nossa entrevista chegou ao fim e agradeço-lhe profundamente a sua consideração. E deixei Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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para o fim esta pergunta propositadamente. A 26.10.2014 vai ser lançado o seu 1º livro com o título “MATILDE LIBÂNIA DOROTEIA”, no Palácio do Sobralinho, local lindíssimo para o lançamento de qualquer livro. Com uma capa especialmente desenhada por uma amiga sua e com um Palácio lindo para a sua apresentação, só poderá ser um sucesso. Fale-nos um pouco da história deste romance e a que se deve esse título? Maria Fernanda - Em primeiro lugar agradeço-lhe os seus votos de sucesso. Em segundo, tenho o prazer de lhe dizer que o meu livro é muito especial, não só porque é o meu primeiro romance mas também porque é uma forma de honrar a personagem que deu nome ao livro, uma mulher, mãe de família que vive uma vida de amor e sofrimento para criar os seus filhos e dedicar-se ao seu marido de corpo e alma. Matilde é a grande mulher por detrás de um grande homem. É um romance baseado na história verídica de uma família do século XIX que se movimenta no espaço real de uma aldeia, Aveiras de Cima, e na capital do nosso Portugal, Lisboa. Esta família deu muito de si à sociedade da época. É uma história repleta de sensações e emoção. Dedico este romance a todas as mulheres que abdicaram de si próprias para criarem uma família honesta e educada. A capa do livro é maravilhosa, uma pintura exclusiva da pintora Maria Augusta Loureiro (Margusta) e a editora Pastelaria livros. Participe do projeto Divulga Escritor https://www.facebook.com/DivulgaEscritor

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Participação Especial

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Escritora Maria Helena Guedes

Maria Helena Guedes nascida a 18 de Abril de 1958 na Pontinha. Começou a trabalhar em 1975 em Cartografia, onde desenvolveu a sua carreira como Directora de Projetos. Estudou em regime pós-laboral, frequentando o Curso de Biologia da FCL e concluído a Especialização em “Gestão e Avaliação de Projetos” na U. Católica. Actualmente exerce as funções de Assistente Técnico-Administrativa. Recomeçou a escrever em 2012 e sob a chancela da Pastelaria Estúdios Editora, Chiado Editora, Lua de Marfim e Papel D’Arroz publicou alguns contos e textos poéticos em várias antologias e colectâneas e tem dois livros a aguardarem publicação.

AMAR EM ESPERANÇA

AMAR-TE

Pensamos que já vimos tudo. Que tudo já foi sentido… E, nada mais, vamos aprender e ser. Surpresa! Do mais inesperado, Chega um novo sentimento. A certeza de que somos aprendizes. Corpos de adultos e almas de crianças. E voltamos a aprender a andar e a amar. Balbuciamos palavras perdidas no tempo. O sorriso da música aquece-nos. E queremos mais e muito mais… Queremos ser…! Ser gente e ser feliz! A felicidade simples de coisa nenhuma. Apenas porque sim…! Um olhar que nos fala, Dizendo, em silêncio, o que o coração grita. Falando de um amor tranquilo. Ensinemo-nos a amar… Dá-me a tua mão… Vamos ser felizes!

Amar-te dói… Não te amar dói… Sentir a tua falta magoa. O meu coração chora. Devo dizer-te adeus…?! Ou simplesmente amar-te? Estás só… Estou só… Quero secar o rio de lágrimas. Fecho os olhos e choro… Mas sinto-te junto a mim. Digo-te adeus …? Ou simplesmente até já? Quero-te apenas aqui… Sentir a tua mão na minha. A minha pele respirando a tua. Será medo…?! Ou falta de amor…?! Quero fazer uma festa, Apenas porque te amo… E o amor faz-nos voar. Como seria bom, Voarmos juntos pelo céu… Um céu com sol e nuvens. O céu das nossas vidas… Amo-te… E sonho contigo.

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Entrevista Escritora Maria João Botelho Maria João Botelho Gonçalves nasceu a 11 de maio de 1979, em Peso da Régua - Trás os Montes e Alto Douro. É licenciada em educação, com média de 16 (dezasseis), pela Escola Superior de Educação de Bragança. Fez as primeiras publicações quando cursava na Escola Superior de Educação: desta feita, no jornal semanário de Bragança “Mensageiro de Bragança”. Em 2013 publicou crónicas no jornal semanário de Tomar “Templário”. “Depois comecei a desmotivarme para com as antologias. Sim, sem dúvida, as editoras são quem mais lucra com as antologias… é uma boa estratégia de marketing, com lucros assegurados. Em termos de publicidade… o impacto para o autor, não é assim tão grande.” Boa Leitura!

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Muito obrigado Maria João por permitir aos leitores da DIVULGA ESCRITOR conhecê-la um pouco melhor enquanto escritora. E começaria por confessar-lhe que, para escrever um livro, costumo dizer que sou como um soldado preparando-se para uma batalha. Como é o seu caso: a sua preparação é extensa, medita muito sobre o que vai escrever,…? Conte-nos o seu processo de escrita. Maria João – Não, não faço qualquer trabalho de preparação para a parte literária. (O que foi diferente no “Um Amor que Nasceu dos Alicerces do Ódio” pois tive de fazer pesquisa sobre a guerra colonial, a leucemia, e até sobre algumas localidade em Portugal continental). Ou seja, surge um tema, surgem as personagens e surge o enredo. Se é o caso de um enredo extenso, faço um esquema de capítulos para orientação. Escrevo a narrativa como quando era jovem fazia uma toalha de quadrados em crochet: vou escrevendo num qualquer capítulo. Às vezes tiro à sorte, o capítulo onde escrevo naquele dia. Quando estou com um projecto que quero terminar em breve, tento elaborar cinco páginas por dia: normalmente não faço grandes alterações

– tento atingir os meus objetivos no primeiro texto para não “perder” tempo na “menos prazerosa” tarefa de revisar. Adoro escrever, gosto menos de revisar. Depois de o texto estar completo, reviso três vezes: uma para detalhes “maiores” normalmente de conteúdo, algo que escapou, outra para arranjo de parágrafos e uma última, para detalhes de pontuação. “UM AMOR QUE NASCEU DOS ALICERCES DO ÓDIO” (2013) foi o seu primeiro livro editado, um romance histórico onde coloca a possibilidade de se amar algo que se odeia. Como se consegue retratar dois sentimentos antagónicos e porque o fez? Maria João – A origem dessa his-


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tória remonta à minha infância quando me seduzia ouvir o meu pai a contar a sua experiência pessoal na guerra. Ao longo do percurso académico fui escrevendo textos, que estão na gaveta, outros de opinião que estão publicados no semanário regional Mensageiro de Bragança, mas sempre desejei que o meu primeiro livro “público” tivesse origem nas memórias do meu pai que eu ouvia deleitada como se estivesse a ver um filme: era o meu herói a passar por aquelas aventuras. O livro foi à guerra colonial para servir de esqueleto ao racismo… um tema difícil e que pode gerar opiniões dispares, neste caso, a personagem principal é racista (extremamente racista) mas quando começa a amar contra a sua vontade, é obrigada a mudar de opinião. Depois descobre que contra o apelo invisível dos laços de sangue, não há sentimento negativo que sobreviva. Ao longo dos 64 capítulos do seu segundo livro “O GATO BRANCO DO BAR 42“, o Gato Merlim, todo ele branco fluorescente, é a vedeta. Conte-nos o que a levou a contar a história de um gato que nasceu com o karma de fazer magia e praticar o Bem. Maria João – Esse livro… foi um parto muito fácil. Ainda hoje não sei se o escrevi ou ele me escreveu. A ideia surgiu sem eu a procurar: num fim de semana que fui passar ao norte, pensei em juntar um grupo de personagens, aparentemente, sui generis: um funcionário de um hospício, um treinador de cães, um carteiro que escrevia cartas de amor… num determinado espaço físico. Os traços gerais foram pensados na viagem de regresso e anotados nas mensagens

de telemóvel: a “sede” de escrita foi tão forte que, ainda no domingo, após uma viagem de três horas, dar o jantar à família e desfazer as malas… ainda escrevi duas horas. Terminei o livro na quarta-feira: demorou dezasseis horas a ser escrito e escrevi-o na biblioteca do Instituto Politécnico de Tomar… num determinado “cantinho” forrado com madeira e bastante reservado. Adorei fazer esse projecto: é singelo, cada capítulo estrutura-se sob a forma de pequenas crónicas que “quase” podem ser lidas fora da ordem, e com sentido de humor. Aparentemente de mensagem simples faz-nos refletir na forma como vivemos a vida… e mais não digo (risos). “Amar não é para entender é para viver, é para sentir”, diz-se. Quando escreveu esse seu romance conseguiu escrever tudo o que este sentimento lhe transmite ou sentiu, agora à distância temporal, que poderia e deveria ter dito algo mais aos seus leitores? Maria João – Para ser sincera não me lembro dessa frase (Não é minha, pois não?) Nunca se diz tudo quando se escreve: a escrita é uma arte inesgotável e depende do nosso estado de espírito… apesar de a “toalha de crochet” ter um modelo que a orienta, a pintura dentro dos capítulos depende do momento: do estado de espírito. Para mim, os meus livros são pinturas: enquanto o pintor pinta com cores, eu pinto com letras. E, dentro deles, independentemente da história que pode ser qualquer uma, há um traço caraterístico – uma marca de água – só minha: o meu estilo de escrita. Não me refiro a recursos estilísticos ou alguma forma gramatical que eu tenha adotado… não! Refiro-me ao modo como eu

“agarro” na imaginação do leitor e o prendo ao livro. No meio de todos os livros do Universo, a minha particularidade é essa, agarrar o leitor pela descrição e pelo suspense. Escreveu um texto “Eu quero sentir-me eternamente criança”, lembrando o célebre desejo de Peter Pan. Será que teremos contos infantis em breve, aproveitando a boa onda neste tipo de literatura no mercado livreiro no nosso país ou essa área está fora de questão? Comente, por favor. Maria João – Adorava! Sou Educadora de Infância e Professora (com licenciatura distinta nas duas áreas e experiência profissional em ambas) e, sou mãe de dois rapazes de 4 e 6 anos. A nossa casa “respira” literatura, desde os livros em tecido aos romances “tijolo”: há mais livros que roupa ou qualquer outro tipo de bem de necessidade básica. Cá em casa todos inventam histórias e saem títulos curiosos como “O Pirata da Teia de Aranha” (Guilherme 4 anos). Tenho imensos trabalhos nessa área que escrevi enquanto mãe e que adorava ver em papel mas é muito caro editar um livro infantil, logo é um projecto que está adiado. Fui convidada pela escola dos meus filhos para ir ler um conto meu, no Dia do Conto Infantil e foi uma experiência… sou escritora mas não tenho palavras para avaliar. (…) Para quem não gosta de falar si mesma, encontra nos filhos a sua maior paixão. Enquanto escritora, que gostaria de lhes deixar como legado e porquê? Maria João – Enquanto escritora? Uma biblioteca recheada (risos). O maior legado que quero deixar aos meus filhos é que lutem para ser livres, e que aprendam que os Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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por mérito ou apenas porque se tem dinheiro para pagar a sua obra? Maria João – Infelizmente é muito difícil “entrar” numa editora boss. Portugal é um país que não investe na literatura; quando olhamos para o exemplo do Brasil, por exemplo, temos de baixar os olhos com a vergonha. Sempre que faço uma sessão de autógrafos tenho dois objectivos: promover a escritora Maria João Gonçalves e tentar, “tentar” fazer, do hábito de ler: uma moda.

sonhos são possíveis de realizar. Não pretendo dar essa lição em teoria mas em exemplo: o exemplo é muito mais pedagógico que a teoria! Publicou dois romances em ou64

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tras tantas editoras, ambas com o cunho de se “pagar para se ser editado”. Acredito que não fosse esse o seu desejo, mas o que acha de em Portugal ser agora uma prática corrente? É-se publicado

É uma mulher sentimental, que adora flores frescas, “uma pessoa simples com defeitos e qualidades: em luta diária contra os defeitos...”, disse-o. Sendo formada em Educação e Professora, como vê o ensino, a leitura e a escrita nos tempos correntes e o que prevê e deseja para superar esses defeitos? Maria João – (Risos) A essa pergunta, eu vou “fugir” de mansinho, até porque já lhe “toquei” na resposta anterior. Sim, adoro flores: depois de um livro, é a melhor prenda que me podem dar. Adoro as cores, as formas, o cheiro e a manifestação de poder de vida que elas transbordam… tenho quase sempre na consola do hall para ser a primeira “coisa” que vejo quando entro em casa: isso, e a fotografia com um sorriso rasgado..., já percebeu de quem. Uma casa “onde há amor” não dispensa flores. Quanto à segunda parte da questão… a escola, no modelo actual, não motiva o suficiente a criança, para ser um adulto-leitor. (E esse tema (escola-leitura-escrita) dava pano para muitas entrevistas!)


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Escreveu um texto que coloca frente-a-frente a carreira profissional e a família, onde acaba por questionar “se eu não existo eu sou invísivel/se sou invísivel, eu não existo”. Nesta dualidade carreira vs família, considera que no actual panorama conseguia vir a fazer carreira como escritora e poder assim dar mais atenção à família ou é uma mera miragem neste país cada vez mais pobre de sentimentos e valores? Maria João – Esse texto foi escrito num momento de revolta: não é justo ao fim de catorze anos no ensino ser colocada a cinco horas de viagem diária para trabalhar, deixar os filhos na cama a dormir e não os poder ir buscar à escola e ver as emoções, do seu dia, estampadas no rosto (os comentários sobre as namoradas – nesta idade são fantásticos –, as vitórias e até as derrotas): a revolta contra o país que me fez isso, o MEU país: é muito grande! (…) Auferir rendimentos mínimos para viver como escritora? Em Portugal? Não acredito que seja possível: sou optimista q.b. mas sou realista. Em

Portugal, o limite de vendas, de um livro, é 2.000, isto num autor já com um nome bastante conhecido… isso diz tudo. Chegámos ao fim da nossa entrevista, a que agradeço uma vez mais a consideração que nos disponibilizou. Tem participado bastante regularmente como coautora em antologias de poesia, contos e crónicas. É usual a Editora XPTO dizer que no momento não está recebendo originais para avaliação e, como tal, os escritores, talvez para evitarem desapontamentos, minimizem as expectativas e publiquem em antologias. Será esta uma possibilidade para o escritor de ver o seu nome conhecido ou uma oportunidade para a editora de até ganhar bom nome na praça com bons escritores iniciantes que não podem pagar pela edição de um livro a solo? Maria João – Sinceramente, já não me seduz muito participar em antologias. Adorei a primeira experiência a convite da autora Maria Isabel Loureiro que reuniu uma

série de “bons” autores num livro de muita qualidade. O conto que aí publiquei “A matança do porco cilíndrico”, ainda hoje, é uma das pinturas que mais amo e, se os livros fossem manuscritos, isto é, únicos, esse conto estaria na minha coleção muito privada e não no mercado. Depois comecei a desmotivar-me para com as antologias. Sim, sem dúvida, as editoras são quem mais lucra com as antologias… é uma boa estratégia de marketing, com lucros assegurados. Em termos de publicidade… o impacto para o autor, não é assim tão grande.

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Entrevista Escritora Marisa Alves

Professora de Português e Inglês há 15 anos. Desde pequena sempre quis ser professora de Português e consegui-o. Licenciei-me em PortuguêsInglês e tirei o Mestrado em Literatura Portuguesa. Adoro a minha profissão e ensinar é a minha vida. Ainda mal sabia falar (contam os meus pais), já dizia que era isso que queria fazer pela vida fora. A escrita sempre esteve presente na minha vida. Não dispenso um bloco de notas e uma caneta, para registrar momentos e coisas importantes. Amo a vida. Considero-me uma lutadora, pois fui operada ao coração em criança e hoje estou aqui para contar a história. Sou muito ligada à família. Fui uma criança feliz e os valores que os meus pais me incutiram mantêm-se ainda hoje presentes em mim: a responsabilidade, o amor pela família, a amizade, a entreajuda, a solidariedade. Tento, através da minha escrita, passar nos contos infantis alguns desses valores, que considero importantes para o crescimento da «gente pequena» que lê os meus contos. Sonho que os meus contos possam um dia vir a ser lidos por crianças em todo o país. “Muitas vezes não sei logo para que serve o que registro, mas depois vai ganhando orma. A meu ver, o papel principal do escritor é conseguir chegar ao leitor com os seus textos. Se conseguir isso, deve sentir-se realizado.” Boa Leitura!

Por João Paulo Bernardino Escritor

Marisa, agradeço-te antes de mais pela oportunidade de nos concederes esta entrevista que muito nos honrará. Muitos escritores preferem escrever mais sobre o que acontece à sua volta do que sobre as fantasias do mundo em que vivem. Como é o teu caso, sabendo que já editaste livros infantis, de culinária e de pesquisas? Marisa Alves - Obrigada. Eu é que agradeço a oportunidade de poder ser entrevistada. Em relação à pergunta que me colocas, realmente os livros que publiquei até agora não têm nada de comum entre eles, apenas o facto de me ter dedicado a todos da mesma forma e Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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água. Habituei-me a observar a beleza que a Natureza nos dá, a mudança das estações, as lides agrícolas das gentes da terra. O que me levou a escrever para crianças foi algo muito casual, mas engraçado. Surgiu de um texto que eu escrevi sobre a neve, onde me dirigia a ela, pedindo que se fosse embora, isto depois de, na minha zona, ter nevado três vezes em duas semanas. Mostrei esse texto ao meu irmão, que é professor de primeiro ciclo, e foi ele que me incentivou a escrever para crianças. Assim nasceu o conto «O sono da Primavera». Já antes alguns amigos tinham sugerido que eu o fizesse, mas escrever para crianças não é tarefa fácil e eu tinha noção disso. Além disso, é uma grande responsabilidade, pois é nos contos que muitas vezes as crianças encaram dificuldades, enfrentam perigos, aprendem a distinguir o Bem do Mal.

da minha paixão pela escrita, que penso ser o grande motor. Desde pequena que adoro escrever. Escrevia discursos para festas de Natal, escrevia pequenas histórias, algumas das quais ainda guardo em casa. Já como professora, organizei dois livros sobre determinados temas e assuntos. Por isso, a escrita esteve e está sempre presente na minha vida. Apesar de os meus livros publicados serem de registos diferentes, sei que surgiram das minhas vivências entre família e como professora. 68

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Os teus livros falam maioritariamente de contos infantis, com enorme realce pela Natureza, onde acabas por encontrar as tuas personagens. O que te levou a escrever para crianças e como trabalhas esta área em especial? Por oportunidade de mercado em Portugal ou unicamente por gosto? Marisa Alves - João Paulo, eu nasci em Vinhais, uma vila transmontana rodeada de Natureza. Ali brincava na rua, arrancava as flores do campo, fazia bolinhos com terra e

O livro “O SONO DA PRIMAVERA E OUTROS CONTOS” é o teu ponto de partida nesta viagem como escritora de literatura infantil, presenteando-nos com contos lindíssimos como “O ninho do Papá Cegonha”, “O sono da Primavera” ou “A Papoila que queria morar na estufa”. Que caminhos pensas ainda passar nessa viagem pela literatura infantil e qual o teu destino como escritora? Marisa Alves - Bem, na minha viagem pela literatura infantil, quero escrever muito mais e melhor. Mas, como se costuma dizer, «O futuro a Deus pertence» e eu não sei o que vai acontecer. O que posso sim dizer é que vou continuar a escrever para crian-


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ças. É algo recente na minha vida, mas sinto necessidade de o fazer. Tenho mais alguns contos infantis escritos, que penso virem a ser publicados em breve. Alguns retratam, da mesma forma, ambientes e personagens baseadas na Natureza; outros tocam de perto temas importantes como as alterações climáticas, a dislexia e a lateralidade. Espero, ao tratar esses temas, poder mostrar às crianças que lêem os meus textos a lidarem com a diferença. Acima de tudo, anseio que os meus contos sejam lidos pelos pequenotes, pelos pais aos filhos, pelos avós aos netos, permitindo, com a sua leitura, que as crianças enriqueçam a sua imaginação e os pais e avós possam regressar à infância. Em Portugal são editados 1.500 títulos por mês. O que têm os teus livros de diferente que levem o leitor (sobretudo as crianças) a escolhê-los em detrimento de outros? Marisa Alves - Essa pergunta é curiosa. Penso que será mais fácil ao leitor dos meus contos responder, mas vou tentar. O que têm os meus contos de diferente? Talvez a escrita, os valores, os temas tratados… Quem conhece a minha escrita sabe que eu gosto de escrever bastantes diálogos e descrições. Acho que permitem aos leitores uma melhor apreensão da história. Tento fazer com que nos meus contos apareçam valores como a amizade, a entreajuda, a preocupação com o outro, a felicidade, a família, pois muitas vezes as crianças identificam, no seu dia-a-dia, determinadas atitudes das personagens dos seus contos in-

fantis. É só falar com uma criança para perceber a influência que têm na sua vida, comparando-se ou distinguindo-se das personagens, conforme o que acha correto ou errado. Em “O SONO DA PRIMAVERA E OUTROS CONTOS”, o próprio título dá logo uma ideia do que poderá tratar a história. Acho que isso pode ser uma motivação para escolherem os meus contos em detrimento de outros. Tens igualmente um outro livro, este sobre culinária. Fala-nos um pouco sobre o teu livro “DE SUPLICAR POR MAIS…” e do facto de o dividires em nove partes, como se de uma refeição se tratasse. Marisa Alves - Desde sempre fui uma apaixonada pela culinária e muito nova comecei a frequentar os meandros da cozinha. Como eu costumo dizer: «Estraguei muitos ovos à minha mãe, gastei muito açúcar e muita farinha». (Risos) O livro “DE SUPLICAR POR MAIS…” acaba por ser um pouco a junção entre a minha paixão pela escrita e pela culinária. As receitas presentes nele foram escolhidas dentre muitas por serem práticas, fáceis de elaborar e porque algumas podem ser feitas aproveitamentos de comida que sobra, o que nesta época de crise é uma vantagem para se poder poupar no orçamento familiar. Encontra-se dividido como se de uma refeição se tratasse principalmente porque, para mim, uma refeição é a altura em que se confraterniza em família, em que se valoriza o que se come. Além disso, eu dou muito valor à culinária, que considero uma arte.

O centro nevrálgico do teu livro “DE SUPLICAR POR MAIS” prende-se com o registo de algumas memórias culinárias da tua mãe e uma homenagem às tradições gastronómicas transmontanas. É uma questão fundamental para ti, uma vez que amas a vida e és imensamente ligada à família? Marisa Alves - Como sabes, Portugal é tão rico em variedades linguísticas como em gastronómicas. Cada zona tem um linguajar específico, com vocabulário particular, assim como tem também uma gastronomia própria. Prova disso são as receitas que existem em todo o país, em cada zona, com as suas especificidades tradicionais, culturais e históricas. A elaboração de receitas está presente na nossa vida: nos banquetes de casamento, nos batizados, nas festas de aniversário, nos almoços de negócio, nos jantares de final de curso. É à mesa que se cumprem os mais variados rituais dos momentos mais importantes da nossa vida social e familiar. Com esta publicação, quis registar algumas das memórias culinárias da minha mãe, que é a grande responsável por eu gostar tanto de cozinhar. Sei que ao colocar neste livro alguns pratos da minha zona das gentes de Vinhais (Bragança), fiz também uma séria homenagem às tradições gastronómicas transmontanas. Alguns escritores escrevem apenas para deixarem o seu legado aos descendentes. Achas que esse é o teu caso e que deve ser este também o papel principal do escritor? Marisa Alves - Escritor é quem Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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usa a escrita para se expressar. Muitos pensarão, ao fazê-lo, no futuro. Eu, porém, penso mais no presente. Escrevo no momento para o leitor do presente, mas sei que nós passamos com o tempo e o que escrevemos perdura. Escrevo porque sinto necessidade de o fazer e de registar as ideias que vão surgindo na minha cabeça. Muitas vezes não sei logo para que serve o que registro, mas depois vai ganhando forma. A meu ver, o papel principal do escritor é conseguir chegar ao leitor com os seus textos. Se conseguir isso, deve sentir-se realizado. Tens um outro livro “CONTANDO MEMÓRIAS…”, por sinal o teu primeiro livro editado, resultado de uma pesquisa da literatura e da cultura do povo alentejano. O que julgas necessário num livro com esta temática para prender a atenção do leitor como um náufrago que se agarra, em plena tempestade, a um pedaço de madeira? Marisa Alves - O livro «CONTANDO MEMÓRIAS…» tem um pouquinho do que é ser-se alentejano. Nasceu de um interesse enorme que eu tenho pela etnografia e, acima de tudo, pela vontade de ver registados os conhecimentos, muitos deles memórias de infância, dos meus alunos da Oficina de Escrita e Leitura, na Universidade Sénior de Borba. Eles estiveram apenas contando memórias, memórias esquecidas, memórias relembradas. Nele estão registados exemplos de Literatura Popular Alentejana, de medicina popular e apontamentos etnográficos da região. Em relação à tua pergunta, 70

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penso que um livro deste tipo deve ser o registo da alma do povo, sem esquecer o que somos, mas, mais que tudo, de onde vimos e o que fizemos, para podermos cimentar sobremaneira a nossa Identidade. Embora seja suspeito, uma vez que conheço a tua obra literária, a que pensas dever-se a tua escrita nobre e atraente, com textos fraseados estilisticamente impecáveis e exemplares? Marisa Alves - Escrever. A escrita é um caminho que se faz escrevendo e a minha pauta-se por algum esforço e dedicação, aliados a pesquisa. Tem de haver responsabilidade no que se escreve. Eu escrevo e reescrevo constantemente os meus textos. Não podemos, de forma alguma, escrever incorrectamente ou dar informações erradas. Lembro-me, a esse respeito, do conto «O ninho do Papá Cegonha», em que, para o escrever, verifiquei aspectos como o período de nidificação, a zona onde vivem e a alimentação de algumas aves, que serviram de personagens. Sou uma escritora «à moda antiga», ando sempre com um bloco de notas e uma caneta, não me vão surgir ideias e eu não tenha onde as registar (Risos). A escrita esteve sempre presente na minha vida, é verdade, mas sei que a frequência do Mestrado em Literatura Portuguesa me permitiu aprender a escrever de outro modo, além de me dar esse cunho de investigadora, que creio ser essencial para consolidar ideias. A nossa entrevista está a chegar ao fim. Agradeço a tua amabilidade para com a DIVULGA ES-

CRITOR, mas os nossos leitores não quererão deixar de saber o que te levou a escrever. Foi o facto de quereres alterar alguma coisa no nosso quotidiano? Que mensagem desejas deixar com os teus livros? Marisa Alves - Eu é que agradeço, João Paulo, pela tua entrevista. Aproveito para agradecer também à DIVULGA ESCRITOR, pela promoção da escrita, principalmente da que diz respeito aos novos escritores, muitas vezes deixados um pouco de lado. O que me levou a escrever? Talvez o facto de me ter apercebido que os meus textos podiam ser lidos por alguém mais que a família, para quem fui escrevendo ao longo da vida. A mensagem que eu pretendo deixar com a leitura dos meus livros é a de que nunca devemos deixar de lado os nossos sonhos, eles é que nos fazem viver. Devemos sempre lutar por conseguir o que queremos, mesmo que por vezes pareça algo quase impossível de alcançar. As histórias presentes nos meus contos são exemplo disso mesmo. Obrigada, mais uma vez!

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Participação Especial DE MÃO DADA

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Escritor José Lopes da Nave

O conhecer-te fez-me admirar as cores do arco-íris, todas vozes do vento, cada estrela, cada respiração, cada recôndito de beijos desejados, cada sonho que me alcança. Cada palavra da história existirão para testemunhar o nosso amor. Antes de te conhecer, não me sentia só, era feliz comigo, mas tu fizeste saber que algo me faltava.

QUANDO TE OLHEI

Aguardei o tempo e nada perpassava pelo meu pensamento, até abrires os meus olhos e, comecei a imaginar-te na minha vida, a partilhá-la.

Será que o amor é como um rio que afoga e sufoca, corta como uma faca, a deixar a alma a sangrar, que é uma fome, uma necessidade, uma dor sem fim?

No meu sonhar cantarei no teu caminho, pensando em ti, a cada momento, porque sei que a vida futura será bondosa para nós, com o desejo da tua alegria e felicidade. Nesse doce tempo, comecei a pensar querer fazer-te feliz, ficando a rever-te todo o dia e, fechando os olhos, sentia-te: era singular! Com os braços abertos, esperando-te, dando-nos força mutuamente. E, pensando em ti, Tudo faria para ver a alegria do teu rosto, a um imaginário beijo teu, nada se compararia. Despertaste os meus olhos, como uma primavera precoce. És para mim um apelo que espero ouvir em sensitivos ventos, minha doce fonte de vida. De mão dada fizeste a alma sorrir.

Quando te olhei, senti a sensação do amor.

Não. O amor é uma flor, uma semente num coração assustado, a ensinar a dançar o sonho com receio de despertar na noite, adormecendo solitário, e a alma com receio de falecer. Amor é aprender a viver um caminho duradouro. E, as palavras são insuficientes para serem pronunciadas, mas quando eu disser, simplesmente, amo-te, saberás que é verdade. Diz quando me verificarás, me recordarás constantemente, nos beijaremos e alcançaremos uma ternura e amor deliciosos, pois cada manhã, sonho com um novo tempo de vida. Deixa mostrar-te uma aurora de alegrias incomparáveis. Sê a minha promessa. Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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Entrevista Escritora Otília Martel Os dados biográficos de Otília Martel são, enquanto escrevinhadora, a emoção que gosta de transmitir através das palavras que oferece a ler. É esse o seu verdadeiro cartão de visita. Semestralmente, desde 2004 tem publicado na Revista Singularidades, Modos de Ser Inconformista. Em 2008 edita o seu 1.º livro de poemas, Menina Marota Um Desnudar de Alma. Ainda, em 2012, edita o segundo livro de poemas e pequenas histórias Olhos de Vida em versão digital para iBooks. Foi representante portuguesa no Jornal Digital Mhário Lincoln do Brasil, entre muitos. O seu nome consta em vários sites portugueses e brasileiros bem como em várias colectâneas integradas na internet. Patrocinou vários Concursos de Poesia que deram a conhecer novos poetas entre Portugal e Brasil. É detentora de 7 blogues maioritariamente dedicados à divulgação de poetas e poesia, entre eles Menina Marota. Boa Leitura!

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Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

SMC - Escritora, Otília Martel, é um prazer contarmos com a sua participação no projeto Divulga Escritor. Parabéns pelo lançamento de seu livro “Olhos de Vida”. O lançamento de um livro costuma mudar a rotina de um escritor, conte-nos sua experiência de como a escrita vem moldando o seu dia-a-dia? Otília Martel – Em primeiro lugar quero agradecer a oportunidade que me é dada de participar no projecto Divulga Escritor. São raras as publicações (pelo menos em Portugal) que ousam divulgar autores anónimos e, muito menos, os que escrevem poesia. Por isso, os meus parabéns por este Projecto. Escrever para mim é, desde muito jovem, uma libertação. Uma forma de, através das palavras, olhar-me e olhar o mundo que me rodeia. A doença de um familiar muito próximo, de quem cuidei nos últimos catorze anos, moldou o meu dia a dia e procurei na escrita um refúgio de coragem e força para a minha própria sobrevivência mental. A escrita, nomeadamente a poesia, foram o balão de oxigénio da minha existência. Que temas você aborda nesta obra literária? Otília Martel – Temas sociais, da actualidade. Um olhar pelo mundo. A simplicidade. A família. O ser humano. E o amor em todas as suas vertentes.

Como foi a escolha do título para o livro “Olhos de Vida”? Otília Martel – Surgiu naturalmente. Pretendia um título que englobasse a visão do mundo que me rodeia, que transparecesse, num olhar, toda a argúcia que encontramos no universo interpessoal. Escrever é uma aventura que por vezes dói e abrange sentimentos transponíveis de factos e ideias. “... Esta noite voltei a ser a rapariga que foge dos sonhos, olhando os olhos da vida, mas que apesar de tudo por ela quer ser seduzida e deixar-se embalar.” in, Olhos de Vida O livro é composto por poemas ilustrados, pela ilustradora, Catarina Lourenço, temos uma ilustra-


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ção para cada poema? Conte-nos um pouco sobre esta experiência. Otília Martel – Bem… começo por explicar que “Olhos de Vida” principiou por ser um desafio que me foi proposto pelo realizador André Gaspar que queria produzir um livro digital para iPad, que incluía som, vídeo, fotografias e… ilustrações. Foi através deste desafio que conheci a Catarina Lourenço. Após ter lido os poemas que disponibilizei para aquele desafio, a Catarina presenteou-me com ilustrações que me apaixonaram ao primeiro olhar. Nem todos os poemas foram ilustrados. Fica-se com o desejo de mais ilustrações, de aliar as palavras ao “movimento” que as ilustrações nos oferecem. Deixei ao critério da ilustradora o sentir a poesia e transmiti-la pelo risco e colorido das suas imagens. Na actual versão em papel de “Olhos de Vida”, editada pela Modocromia, só a capa é que é a cores. As ilustrações interiores não são. Na versão digital as ilustrações são a cores. A quase candura e leveza que cada uma encerra, traduzem a sensibilidade criativa da Catarina Lourenço. Podes nos dar um exemplo? Otília Martel – É difícil dar um exemplo porque a significância de cada ilustração no que concerne ao poema retratado é de uma absoluta subtileza. Assim, de repente, lembro a ilustração do poema “Entre a lama e o amor”: a leitura da ilustração casa na perfeição com a leitura do poema. Nossos leitores estão convidados para o evento de lançamento? Conte-nos onde vai ser? Otília Martel – Com certeza. Todos os que possam deslocar-se à margem esquerda do rio Douro,

junto ao Cais de Vila Nova de Gaia, local do evento. Será um prazer recebê-los. O lançamento de “Olhos de Vida” ocorrerá num monumento de grande valor patrimonial e arquitectónico, o Mosteiro Corpus Christi. A sua edificação remonta a meados do século XIV; destaca-se, para visitarem, a Capela, o Coro-Alto e o Cadeiral, bem como a Arca Tumular de Álvaro de Cernache, alferes da bandeira da Ala dos Namorados na Batalha de Aljubarrota. Escritora Otília, onde podemos comprar o seu livro? Otília Martel – O livro poderá ser adquirido através do site da editora http://editoramodocromia.blogspot.pt/, pelo email da editora modocromia.editora@gmail.com ou ainda pedidos à autora através do email OMartel@sapo.pt E ainda nas Livraria Barata, Bertrand, Porto Editora, Livraria Dargil, distribuído por Crivo das Letras. Semestralmente, você escreve para a Revista Singularidades, que temas você aborda em sua coluna? Otília Martel – Maioritariamente, poesia. A Revista Singularidades é editada em papel há vários anos e aborda vários temas: desde história social, ecologia e até a temas tão controversos como a violência na sua generalidade. É vendida em cidades como Lisboa, Porto, Faro, Paris, Bruxelas, etc.

municação social e jornalística. Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor a Escritora Otília Martel, que mensagem você deixa para nossos leitores? Otília Martel - De Esperança, o título do poema que vos deixo e que consta do meu primeiro livro de poesia “Menina Marota, Um Desnudar de Alma” Desenha em ti cores vivas de felicidade mesmo que adiada mesmo que não consentida não deixes que o negro tome conta de ti. Exala o perfume das flores o aroma dos frutos e pinta a Vida de mil cores mil pensamentos felizes audazes coloridos.

Como você se vê no mercado literário em Portugal? Otília Martel – Uma gota no oceano de um mercado de difícil acesso. A poesia apesar de ser uma vertente literária muito citada (até por políticos), a sua divulgação está circunscrita a autores já consagrados e com facilidades de acesso às redes de co-

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Era uma vez… um autocarro Já lá vão quarenta anos. Ao fim da tarde, quando findava a labuta do dia, saía do Instituto e dirigia-me para a paragem do autocarro que me levaria de regresso a casa. Nesse dia ia acompanhado por uma jovem simpática que habitualmente me acompanhava até ao primeiro transbordo. Quando estava prestes a atravessar a estrada e me dirigia para a paragem, vi junto a esta uma menina de longos cabelos loiros que desciam suavemente até à cintura. O sol, se bem que já ténue a essa hora, refletia-se e o seu brilho era um encanto. Aproximei-me, mal conseguindo disfarçar uma certa inquietude nervosa. Os seus olhos estavam ocultos por uns óculos de sol. Mesmo assim, trocámos um olhar furtivo e aparentemente desinteressado. Ao meu lado, a jovem que me acompanhava lançava-me um sorriso maroto: - Vou engatá-la – segredei. - Convencido! – retorquiu. O autocarro chegou. Cheio. Entremos e seguramo-nos como pudemos, em pé. E lá seguimos. A viagem era curta. - Pode dizer-me onde devo sair para apanhar o autocarro para Vila do Conde? – ouvi uma voz melodiosa ao meu lado. - Na próxima paragem – respondeu o cobrador do autocarro. 74

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- Eu também vou para lá – disse-lhe – vou no mesmo autocarro. Deixou escapar um subtil sorriso e agradeceu. Quando chegamos, dirigimo-nos para a paragem seguinte. Ali nos esperava uma fila enorme! - Siga-me ou vai ficar em terra – disse com certa frieza e disfarçando um desinteresse total. Na dúvida, com um ar desconfiado e até com certo espanto, seguiu-me. Encostamo-nos à parede, fora da fila de espera, e aguardamos. Passado um tempo infinito, o autocarro chegou. Cheio, como sempre. O embrutecimento que nos trouxe a mecanização do dia-a-dia habituou-nos a esperar conformados, sentados naquela poltrona de melancolia. O cobrador abriu a porta traseira, olhou, viu-me e gritou: - Só tenho um lugar para aquele senhor, marcado na origem. Fiz-lhe um gesto disfarçado com a mão direita, dizendo que eram dois. E ele repetiu: - Só tenho lugar para aquele casal. Aguardem pelo próximo autocarro que vem atrás. Parecia adivinhar que nesse dia a gratificação seria a dobrar. A jovem esboçou um sorriso de agradecimento e entrou comigo.

Na verdade, havia dois lugares no autocarro: um, ao meio do corredor; outro, no banco grande atrás, a que chamávamos a “cocheira”. O cobrador acomodou a menina na frente e eu fiquei. Para nosso espanto, o seu companheiro de viagem levantou-se e chamou-me: - Posso trocar consigo. Venha para junto da sua namorada. A jovem, corada, fingiu que não ouvir mas agradeceu. Depois de uma amena conversa, fiquei a saber que o seu pai tinha sofrido um enfarte miocárdio e se encontrava internado no hospital central, ao lado do Instituto. Duma forma quase maquinal, puxei da cigarreira, abri e ofereci-lhe um cigarro. Rejeitou liminarmente e repreendeu: - Então, o senhor trabalha no Instituto de Oncologia e fuma? Agora quem corou fui eu. Fechei a cigarreira e continuamos a nossa amena cavaqueira. O tempo voou. Num ápice, estávamos em Vila do Conde. Embora o meu destino fosse a Póvoa de Varzim, saí em Vila do Conde e acompanhei-a a casa. Aos poucos, estávamos a criar uma certa empatia que parecia agradar aos dois. Deixei-a em casa e lá segui para a Póvoa com a cabeça repleta de sonhos. Passaram-se alguns dias e a cena repetiu-se. Desta vez, aproximei-me e perguntei: - O seu pai, como vai? - Melhor, obrigado - Um destes dias vou lá vê-lo, quando voltar aqui. Os tempos foram-se passando devagar. Quantas peripécias pelo caminho. Um ano depois, namo-


Participação Especial

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Escritor José Sepúlveda

Carta de Amor Encanto de minha alma, em cada instante Tu nasces e renasces no meu peito, Tu és a minha amada, eterna amante E, envolto nos teus braços, me deleito Ai, doce companheira, doravante, Proclamarei o amor e o respeito Que sinto por te amar e nesse canto Serás no meu jardim o amor-perfeito rados declarados – nessa altura Já não trabalhava no Instituto - a Amy aproximou-se e disse: - Precisamos conversar. - Vamos a isso, quando quiseres. E marcamos encontro numa lanchonete na Póvoa, frente ao mar, alguns dias depois. Perto da varanda, explicou: - O meu pai foi mudado para outra localidade. Longe daqui. Tinha que te dizer, para que possamos tomar algumas decisões para a nossa vida. - Quais são as hipóteses? - Se acompanhar os meus pais, é longe e dificilmente nos iremos ver. A outra alternativa é casar. - Casamos – respondi E embarcamos nessa aventura. Para nosso espanto e espanto de todos, casámos. Desde esse dia, aquela cabeleira loira permaneceu intocável, acompanhando-me em cada passo da minha vida. Obrigado, Amy. Quarenta e um ano depois: três filhos lindos; três noras invejáveis; três netos carinhosos; duas netas de sonho. Parafraseando a Condessa de Segur: - …E foram felizes para sempre…

Vem, dá-me o teu abraço, o teu carinho,, Ensina-me a trilhar esse caminho Que um dia prometemos caminhar, Quando surgiram pedras de tropeço, Galgá-las-emos sempre, a qualquer preço, Sorrindo, de mãos dadas, a cantar!

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Entrevista Escritora Rosa Coelho Nascida a meados do século passado, foi baptizada à pressa, para se salvar a sua alma de doença súbita, e ainda recorda o cheiro do pão com omelete no cesto do lanche do irmão. Tirou o curso de Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra, sendo farmacêutica de oficina há pelo menos de 35 anos, deixando assim para trás o sonho de um dia ser ginasta de profissão. Com fama de extrovertida, o que é um disfarce, é profunda em tudo o que sente e rasa em tudo o que faz. “Escrevo tendo como pedra basilar o que vejo mal e gostaria de mudar, o que vejo bem e gostaria de exaltar. Escreverei sempre, mesmo que nunca ninguém me leia.” Boa Leitura!

Por João Paulo Bernardino Escritor

Estimada Rosa Coelho, os meus agradecimentos por ter aceitado colaborar com a DIVULGA ESCRITOR e dar-nos a possibilidade de a conhecermos um pouco melhor. Diga-nos como, depois de tantos livros publicados, onde prevalecem o amor e o desamor, a negação à rejeição, à traição e violência, apelando aos mais altos valores da vida como a fraternidade e a honestidade, tem ainda em mente a publicação de quatro novos livros (uma narrativa “Vozes do Destino”, um conjunto de contos/poesia, um terceiro de poesia com o nome “Abraços” e um conto infantil). O que pretende confessar aos leitores nesta fase da sua vida e porquê? ROSA – Desde que o mundo é mundo que está sempre em contante mudança. Há sempre novas coisas a acontecer que despertam os nossos sentidos a que eu, como a maioria das pessoas, não fico indiferente. Escrever faz parte de mim. É uma fonte que jorra água, pingando sempre. E olhando as pessoas, o mundo em que vivo, a crise que a todos afecta, o meu ser tem cada dia mais desejo de continuar a gritar a este mundo o que sinto pelo que observo e dele consigo captar. Há gente que sofre, outra que ri, sucessos e insucessos, violência atroz, pais que o são outros que não sabem sê-lo, fome,

miséria…tanto desamor…Como calar tudo isto? Escrevo tendo como pedra basilar o que vejo mal e gostaria de mudar, o que vejo bem e gostaria de exaltar. Escreverei sempre, mesmo que nunca ninguém me leia. Sempre apreciei a forma como escreve e noto, possivelmente por a Rosa ter criado o Grupo Célula de Evangelização, que Deus está muito presente nos seus textos, sobretudo apelando ao Bem e à Justiça, valores cada vez mais raros neste mundo. Porque razão, os seus livros e trabalhos são um reflexo dessa procura incessante e o porquê de tanto foco Nele nos seus trabalhos? ROSA – Se não vivermos em estreita comunhão, uns com os outos, unidos em Jesus, que de facto foi Homem e deu a Sua vida por Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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nós, morrendo na Cruz, por vontade do Seu Pai, a vida não terá sentido. Será um fazer por fazer, não sendo mais que isso, segundo o meu ponto de vista católica praticante. Deus está comigo em cada passo que dou, conhece-me inteira, e a todos nós, por completo. Abri-lhe há muito a minha porta, (já que a Dele está SEMPRE aberta a cada um de nós), pois sei que sem Ele a meu lado, nada conseguiria. Preciso pedir-Lhe pelo mundo perverso em que vivemos, por todos que não O crêem, por mim e pelos que amo. Ele é o meu Guia, é Ele que me tem ajudado em todos os momentos dolorosos que tenho vivido, e que têm sido alguns. Mas sobrevivi. Estou aqui, de pé, com Ele a meu lado a dizer-me “escreve, continua”. Só deixarei de escrever se, um dia, sentir no meu coração que Deus procura em mim algo diferente para eu fazer. Sendo assim, como posso deixar de O procurar, através do que tão simplesmente escrevo, relevando o bem, valorizando o que penso ser mais correcto? É difícil de se encontrar nos escritores em Portugal alguém que retrate tão bem o amor como a Rosa o faz. Será por acrescentar nas vidas dos leitores algo tão maravilhoso e inesperado como o sonho e o desejo de amar o próximo, o seu semelhante, tal como a Rosa sempre o fez ao longo da vida? ROSA – Isto que diz, é um elogio para mim, não o mereço! Obrigada. Tantos poetas cantaram e cantam o amor de formas tão diversas, maravilhosas e eloquentemente. Eu apenas sou uma escrevente que 78

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escrevo o que a minha alma me dita. E ela diz-me que o amor é urgente na alma de toda a gente. Sempre lutei pela paz, por amar e ser amada, compreender e ceder, tentando ser compreendida sem desistir. É o que faço: amo e procuro dizer a todos como o amor é importante nas nossas vidas. Nem sempre a vida é o que desejaríamos que fosse e quem procura o amor, também sofre, por muitas vezes sentir a negação e a rejeição. “Quantas vezes a mãe canta, com vontade de chorar…”. E é isto um pouco. Amar dá dor e lágrimas, encobre muita coisa, não dá só alegria e nem sempre se é correspondido. Mas um homem que viva e morra sem ter amado, sem ter sentido e vivido o amor, não viveu de verdade, apenas vegetou. Amarei tudo e todos, incondicionalmente e sempre, até que a lucidez me habite. A escritora Anais Nin escreveu que “ajusto-me a mim, não ao mundo”, enquanto o poeta Emily Dickinson disse que “todo o meu património são meus amigos”. A Rosa, que é uma mulher deveras sentimental, mãe apaixonada e ansiosa por um neto que transformará positivamente a sua vida, católica praticante cujo seu livro de eleição é a Bíbilia e onde se baseia para que Deus lhe dê sempre inspiração para escrever, como comenta estas duas frases? ROSA – Sim, concordo com Emily e revejo-me totalmente na sua afirmação. Que seria de mim sem amigos? Quanta dignidade e amor cabem nessas suas palavras. E que bom seria se todos pensassem assim! Vivemos uma vida

que voa. Os bens materiais fazem-nos falta, mas que seria de nós, com eles, se estivéssemos sós. E o amor continua a perseguir-me porque o amor não existe só entre duas pessoas, ele existe de formas e cores. Deus disse, “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Ele amou-nos até à morte e pediu que nos amassemos como nos amou …Sim, sem os meus amigos eu seria diferente. Depois, sofri um furto de muito valor e continuo a viver. Aquilo que me levaram, foi-se, mas os amigos, esses ficaram. Ficam sempre para além de nós partirmos, pois sempre nos hão-de recordar. Ajusto-me ao mundo e a mim, não só ao mundo, não como diz Anais, que se ajusta só a ela…E os outros? Ela não existe só! Tento viver como numa balança, mantendo o fiel a meio, ora tombando para um lado, ora para o outro, evitando o desequilíbrio completo. Seria o caos, imagino. Há muito que ouço dizer que “a vida toda é um doer”. A Rosa já sentiu a dor da perda (retratada em parte no livro “O SACO DE NOZES”, que a ajudou a aliviar) e a dor dos sonhos que procurou ansiosamente e possivelmente nunca os encontrou (“AQUI FICA O LENÇO”). Há também uma frase sua que me reteve de que “ninguém vive constantemente repleto de felicidade”. Sabendo disso, considera que os seus trabalhos literários possam atenuar a dor e salvar uma vida apenas com um forte abraço? (“ABRAÇOS” – 3º livro de poesia). ROSA – Na verdade, para mim, a felicidade existe, sim, mas em pe-


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quenos momentos que devemos viver intensamente. Ninguém é, todos os dias, cada segundo do dia, feliz. Não pode ser, senão viveria numa euforia que seria doença. É o que imagino. E na vida sofre-se. Perdem-se amigos, familiares, somos roubados, traídos, temos doenças, algumas muito graves, vemos famílias com fome, sem tecto, assassinatos loucos, guerras, somos confrontados com a fome, o desemprego, a droga, os sem abrigo, a prostituição, o desamor, a crise, a falta de auto estima (seja pelo que for)…como não sofrer? Sim sofro! Fui roubada, em casa, de todos os valores que juntei uma vida e sofri também por isso, mas passou. O amor não me caiu aos pés como o sonhei e sofri. Sou uma irremediável romântica. Desde pequena fui confrontada com muita violência doméstica e sofri. Na escola, talvez porque nunca saía de casa, suponho eu, fui preterida, tal como em casa, onde por ser mulher ficava em 2º plano e sofri. Na escrita encontrei uma porta de libertação, uma aragem que me refrescou e transformou, com a ajuda de Deus, lentamente. Mas contudo ainda sofro… O que realmente encontra de verdade em tudo o que escreve e publica para que os leitores escolham os seus livros em detrimento de outros? ROSA – Quando imagino uma história vou buscar o rochedo (enredo) que a sustentará até ao final, a algo que aconteceu no mundo, a alguém que conheço ou conheci e viveu algo que preciso dizer ao

mundo por ser muito importante, por ser bom ou mau. Sinto urgência em fazer essa divulgação, ainda que por vezes as pessoas já o saibam mas vivam encobrindo sem reagir. Depois recrio tudo. O ambiente, os personagens, os locais… tudo feito com pesquisa, mas os valores fundamentais que me levaram a escrever aquela história, baseando-me numa situação determinada, estão lá. Não acredite contudo que me escolhem em detrimento de outros, não o creio. A distribuição das editoras é menos boa, e assim só me lê quem gradualmente me vai conhecendo, num boca a boca entre leitores. Ao escrever com o pseudónimo de INÊS MAOMÉ, pretende re-

alçar a sua revolta para com o mundo onde vive e gritar a sua dor e desamor apenas porque é mulher ou sobretudo porque, enquanto escritora e cidadã livre neste planeta, quer demonstrar o quanto devemos louvar a Deus e escrever com verdade o que sentimos em determinado momento das nossas vidas? ROSA – Nem por isso. De facto sinto essa revolta e quero realçá-la, assim como Louvarei e sempre darei Graças ao Senhor, por tudo que nos dá, mas Inês Maomé, surgiu de uma forma muito natural. Rosas Marias há muitas…seria mais uma, e como algumas tão boas, eu não iria a lado algum com o meu nome, não querendo com isto dizer que com o nome Inês irei, mas seguindo. Um dia, antes de editar o meu 1º livro, num jantar de família, éramos 6. Cada um escreveu num papel um nome próprio e noutro, um apelido. Na verdade na altura, queria mesmo um pseudónimo, coisa que talvez não fizesse agora. Mas resumindo, Inês teve 4 votos (curiosamente o nome de minha mãe) e eu aceitei. Quanto ao apelido nada aconteceu, pois cada um escreveu um diferente. Então pensei, pensei, e eu que sou uma mãe galinha, imaginei um apelido que tivesse algo a ver com João, José (meu filho e filha, e mãe…Tanto disse estes nomes que de repente me veio à boca MAOMÉ ( mãe+João+José). E assim ficou. Num país que atravessa sérias dificuldades económicas, políticas e culturais, o que julga ter Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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de existir ou acontecer para que os escritores como nós possam singrar verdadeiramente neste meio? ROSA – Se eu soubesse, seguiria esse trilho. Decerto precisamos de apoio do Estado, na área da Cultura. Devia existir uma forma de descentralizar os eventos que acontecem essencialmente na capital. As editoras deviam ser controladas, com legislação igual para todas, para não aparecerem aos montes, cada uma com regras diferentes, levando-nos a assinar contratos que não são cumpridos. Mas penso que o fundamental é acreditar e não desistir pesquisando no mercado a editora que mais nos convém e menos falha. Na verdade só aos famosos, no nosso país se dá valor, se prestigia. Eu sou, e serei sempre, uma ilustre desconhecida. Mas, livre de ambições, espero continuar a escrever, enquanto Deus me ajudar e eu conseguir editar os meus livros, como já disse, mesmo que ninguém me leia. Gosto particularmente da forma como consegue induzir os leitores a reflectir sobre a vida. Será que consegue chegar a esse nível por ser uma mulher que reza muito e uma escritora preocupada com valores tão reais como o amor e a honestidade, ou existe algo mágico que queira revelar à DIVULGA ESCRITOR? ROSA – Obrigada mais uma vez. Peço sempre a Deus que me inspire, mas se as pessoas que me lêem gostam, é porque de facto lhes consegui transmitir algo que as tocou, e isso é muito bom e deixa-me feliz. Não tenho nada de mágico em mim. Sou muito simples e 80

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a minha escrita singela e muito coloquial é que pode atrair as pessoas pelo facto de perceberem bem o que lhes quero transmitir, pois não utilizo as chamadas “palavras caras”. Claro que será sempre sobre as coisas da vida que falarei, pois do que poderia falar? Como tal peço a Deus que me inspire e diga como hei-de fazer, por onde seguir, para depois melhor ser entendida pelos leitores. A nossa entrevista chegou ao fim e agradeço toda a sua consideração e amizade, sem que não antes lhe faça uma última questão. Sendo que há um ditado que diz que “as glórias que vêm tarde já vêm frias” e que é a sua própria escrita prazerosa que transforma os seus dias e a sua vida em algo de especial, teme que o reconhecimento dos seus livros e dos seus trabalhos venha longe ou isso é uma matéria de somenos importância nesta fase da sua vida em que está mais concentrada na sua pessoa? ROSA – Apesar de não estar assim tão concentrada na minha pessoa como refere, como já o referi anteriormente, concordo com o que diz quando refere “que a minha escrita me é prazerosa e transforma os meus dias e a minha vida em algo de especial”. Mas não espero louros, nem ser reconhecida, pois sei bem que pouco valho sabendo bem a mediada do meu valor. Sim, sei que nunca subirei qualquer degrau, mas isso não me preocupa muito. Porque haveria de me preocupar? Precisamos ser realistas no mundo que habitamos. Vivo numa aldeia, até já fui várias vezes à televisão, mas não foi isso que

me fez mais conhecida ou vender mais. Precisava ser uma figura pública, fazer algo estranho, como casar com o Pinto da Costa (risos), fazer um disparate qualquer, ou então, e isso SIM, ser mesmo muito boa, coisa que não acontece, para ser conhecida e reconhecida um dia. Mas não! Espero ter netos, pelo menos um, se Deus assim o entender, e nessa altura, escrever sempre a olhar esse presente divino com mais amor e muito maior e melhor inspiração.

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Participação Especial

Noite de luar

Escritora Amy Dine

Noite de verão tão serena e bela… Olho o céu através da janela. Estrelas cintilam na imensidão E a ternura invade meu coração. Contemplo esse belo luar de Agosto, Bem de mansinho, a iluminar teu rosto E vejo-te sorrindo para mim Olhando-me com ternura sem fim. A lua com seu brilho prateado Envolve-nos agora com cuidado… Em teus braços então sou enlaçada. Sinto-me tão bem…que bom ser amada! Nossos lábios se tocam de mansinho, Nossas línguas se envolvem com carinho E no meu corpo tuas mãos deslizam Sabendo de antemão o que pesquisam. A paixão pouco a pouco vai crescendo, O amor nossos corpos envolvendo E sob o indiscreto olhar da lua Tu és meu e eu sou somente tua. Amamos como se o mundo parasse Como se nada ao redor importasse. O coração e a alma em sintonia Cantam do amor terna melodia. Uma nuvem que passa lá no céu Encobre a bela lua, como um véu E por momentos ficamos os dois Como se já não houvesse um depois. Mas , eis que a lua espreita sorridente Cobrindo-nos com seu brilho, contente Por ver-nos ternamente entrelaçados; Sorrimos…Somos dois apaixonados! Noite de Luar, noite dos Amantes Às vezes perto outras vezes distantes E que trazes a cada coração O sonho, a saudade, a ilusão… Lua de Agosto, cálida e brilhante Prolonga em cada dia este instante A fim de que todos os namorados Vivam eternamente apaixonados. 82

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Vem Por favor… Vem cedo, Amor! Vem deitar-te a meu lado Para que eu possa descansar Meu corpo tão cansado Das fadigas da vida! Quero ouvir-te chamar-me querida. Estende o teu braço… Quero no teu ombro Minha cabeça pousar, Quero poder-te abraçar, Encostar meu peito ao teu, Sentir-me tua e saber que és meu… Dá-me teus lábios, vamo-nos beijar, Quero poder amar… Preciso dia-a-dia do teu carinho, Não quero percorrer sozinha o meu caminho, Vem, quero sentir o teu calor, Vem depressa, vem dar-me o teu amor!


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Entrevista Escritor Rui Carreto Depois de ter estudado teatro durante um ano no Instituto de Artes e Espetáculos, optou por seguir filosofia e licenciou-se pela Universidade Nova de Lisboa. Desde então tem realizado alguns projetos, alguns deles culturais, e também aprofundado estudos sobre pensamento oriental, também sobre mitologia a partir do trabalho do americano Joseph Campbell — provavelmente o maior estudioso de mitos que viveu no século XX. A Tribo da Pontuação é o seu segundo livro, um que o autor considera ter uma abordagem mitodológica (tendo mitos como método como afirma o estudioso do imaginário Gilbert Durand). Este seu segundo trabalho — uma obra que nos leva a entrar dentro da geografia interior de um livro e a conhecer uma civilização de seres pontuais — prima pela originalidade, criatividade, imaginação e profundidade, algo com que este autor começa a habituar os seus leitores. “...o leitor entra num mundo povoado não só por livros como por outros seres orgânicos de papel, pois nas cidades de papel, papiro e papel – onde se desenrola a trama da obra – vivem não só livros mas também outros seres de papel, como é o caso jornais barulhentos; revistas sedutoras;” Boa Leitura!

Por João Paulo Bernardino Escritor

Antes de mais os meus agradecimentos por ter aceitado o convite para podermos entrevistá-lo para a DIVULGA ESCRITOR. Sabendo que os dois livros que publicou até hoje são romances metafísicos, despertar a imaginação do leitor é a mensagem principal que procura passar através daquilo que considera ser uma “escrita vital” e fazer-lhes ver o mundo de uma forma diferente? RUI- Se entendermos a metafisica como o onírico, ou falar do que existe através da liberdade que a ficção literária permite: sim, são. Na realidade e a meu ver: a melhor forma de falar do mundo é através de metáforas, uma escrita conotativa, que nos ponha em contacto com as formas simbólicas do imaginário, e há uma nítida distinção entre a escrita de devaneio e a escrita que nos remete, pela ficção, para os problemas mais concretos do ser humano; e eu pretendo exactamente isso com a minha escrita: utilizar a imaginação sempre tendo como referencial o mundo e a vida humana. Por vezes é preciso isso mesmo que referiu: fazer com que o leitor veja o mundo de uma forma diferente, fantasiá-lo portanto, mas que a fantasia tenha

como referência algo que faça o leitor olhar o mundo de um prisma original, novo, e, por isso mesmo, que a imaginação seja uma aliada da reflexão. Sendo formado em Filosofia e um apaixonado pela mitologia e pelo pensamento oriental, a genuinidade é o seu segredo base para que os leitores acreditem na imortalidade da escrita e possam, assim, entrar… no interior de um livro (como sugere no seu romance “LIVROLÂNDIA- A terra dos livros”)? RUI - A genuinidade na escrita é importante, ela é como uma flor que nasce depois de um escritor absorver a tradição de toda a árvore da escrita, à qual deve juntar depois as suas questões pessoais; para isso deve pôr de parte qualquer tentativa de imitar seja quem for e seguir o seu caminho e pro-

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cesso criativo. No caso do meu primeiro livro “Livrolândia- A terra dos livros” penso que é um livro muito genuíno, encontramos lá algumas questões platónicas (sobretudo do “Fédon”, que fala sobre a imortalidade alma) aqui postas da perspectiva de uma civilização seres orgânicos de papel, pois o objectivo foi exactamente esse: pôr o leitor na pele (neste caso no papel) de um livro; o leitor entra num mundo povoado não só por livros como por outros seres orgânicos de papel, pois nas cidades de papel, papiro e papel – onde se desenrola a trama da obra – vivem não só livros mas também outros seres de papel, como é o caso jornais barulhentos; revistas sedutoras; sebentas imundas; exércitos de perigosos livros de bolso e pérfidos almanaques, entre outros seres orgânicos de papel criados, e que pululam por lá, dando a este universo de livros uma plasticidade imagética muito rica. Considera que a sua formação filosófica ajuda-o a melhor escrever sobre o ser humano e os mistérios que circundam o facto de estarmos vivos aqui e agora, ou é, sem alguma vez ser esotérico, apenas o primor da sua imaginação aprofundando metaforismos? RUI - Eu não acredito muito na escrita de alguém que apenas pela sua formação académica faz uma exercício retórico de imaginação para enredar leitores na sua escrita; acho que a maior parte dos grandes escritores nem sequer foram académicos, mas partiram de algo que os perturbava para escrever... e isso depois sente-se na 84

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grande qualidade das suas obras. No meu caso sempre fui um apaixonado pelos problemas mais fundamentais com que lidamos no nosso aqui e agora que quase se resumem em três ditames: de onde viemos; quem somos; para onde

vamos; por isso utilizo a minha imaginação para criar ambientes onde essas e mais questões possam surgir noutros contextos imagéticos, e só não crio romances mais convencionais porque acho que tenho mais jeito para o que


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estou a fazer, também porque retiro frutos disso, já que eu mesmo acabo por poder reflectir à medida que escrevo. O seu primeiro livro, “LIVROLÂNDIA” (editado em 2011), representa, do meu ponto de vista, uma ideia estupenda e original: o de os livros serem imaginados como seres vivos, os clássicos da literatura mundial ganharem vida real. Que clássicos marcaram a sua escrita e se pudesse estar à conversa com um deles (diga qual), o que não deixaria de querer saber? RUI - Na realidade nunca fui um leitor de todo o cânone de clássicos, sempre fui um pouco investigador, procurei ler mais o que realmente me fascinava sem ter que seguir o que estava institucionalizado, e muitos dos livros que mais me marcaram foram obras de autores meio desconhecidos, mas tivesse eu que escolher um clássico dos que li, escolheria talvez o D. Quixote, talvez por ser tão divertido, profundo e espirituoso; não deixaria de querer saber dele o seguinte tendo em conta a interrogação que percorreu o meu primeiro romance: se são os livros escritos por um autor ou se sempre existiram? Ou se eles se serviram de um autor para ganharem de novo corpo escrito? Em suma: perguntaria a D. Quixote se o universo é na sua essência feito de narrativas que querem ganhar corpo, ou se os autores realmente criam algo de novo e mudam o mundo com isso. Acho que ele ia ficar pensativo com isso... lutando contra moinhos de vento da sua própria imaginação... ou então tal-

Como é que, tendo estudado teatro no Instituto de Artes e Espetáculos, de se formar em Filosofia e se iniciar na escrita, acaba por se tornar num adepto da mitologia, sobretudo a inspirada dos índios nativo-americanos e na sua relação com o Cosmos? Ao escrever de uma forma imaginária e cinematográfica, que tipo de reflexão pretende que se tire dos seus romances com esse seu interesse? RUI - A mitologia como diz um estudioso de mitos: é a canção na qual dançam as letras e palavras de toda a literatura. O mito tem várias funções, uma delas é ser transparente e pôr o ser humano em contacto imediato com o mistério do universo, por isso, e como as sociedades vão mudando, é tão necessário irem-se criando novas histórias que continuem a desafiar o ser humano, ajudá-lo a dissolver-se no mistério e a encontrar o herói que existe em cada um de nós, e os meus romances pretendem dar essa vitalidade ao leitor: a continuar na senda do mistério e a procurarem o herói que há dentro deles (que há em cada um de nós). Daí também ter essa dimensão cinematográfica, pois, mais que contar uma história, procuro dar a ver uma história; dar uma sensação de presença ao leitor nos ambientes que crio, a sentir-se envolvido, levá-lo mais pela emoção de forma a que ele tire depois as suas ilações psicológicas.

tre uma fábula negra e um luminoso canto de sabedoria antiga. Sei que para si, o ser humano quer viver para sempre, tal como os livros (estes representam a alma humana). Numa altura em que se considera que os livros entraram em decadência e parecem não ter energia vital, considera que este seu romance vem desmistificar essa particularidade ou as metáforas que usa neste livro demonstram que a literatura e os livros em Portugal estão bem e recomendam-se? RUI - São as duas coisas ao mesmo tempo. No actual momento a literatura está de cama a delirar que é um atleta de alta competição quando já não o é, infelizmente para a cultura humana (só para minorias a literatura é algo essencial), no entanto, e acreditando que a alma humana é mais feita de narrativas do que de imagens comerciais, há sempre a Livrolândia, esse local mágico onde existe o olho primordial (nota: o olho primordial é o Deus dos livros nesse meu primeiro romance) onde os livros podem ser lidos para todo o sempre, e esperarem, esperarem que um dia possam regressar do seu mundo encantado para nos encherem a inteligência de energia vital, tal como nós também às páginas deles, lendo-os com atenção, continuando o caminho sinérgico começado há milhares de anos desde que surgiram os primeiros livros escritos em tábuas de argila, com eles surgiu a tradição da escrita e com ela a civilização tal como a conhecemos.

“A TRIBO DA PONTUAÇÃO”, seu segundo romance, oscila en-

Em “A TRIBO DA PONTUAÇÃO”, os sinais de pontuação

vez não, talvez me respondesse a essa questão.

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(que funcionam como personagens do romance) acabam por falar da alma humana, colocando o leitor a refletir sobre a aldeia global. Considera tratar-se de uma obra complexa e ao mesmo tempo simples para todas as idades, sem ter um público definido, talvez porque o seu toque onírico e surreal baste para captar o imaginário do leitor? RUI - No livro “A Tribo da Pontuação – a vida sentimental dos sinais de pontuação”, procurei desde logo cortar com a ideia de ser um livro sobre pontuação, por isso pontuei à minha maneira (o que provocou desde logo polémica, que procurei deliberadamente), é uma obra onde as personagens são inspiradas nas regras de pontuação (e isso é algo completamente diferente e mais interessante a meu ver) tem vários graus de leituras, vários graus de significância, para que possa ser lido como uma simples história de entretenimento ou lida com o hipertexto daquilo que realmente quero fazer passar...; de facto o toque onírico e surreal capta logo muita gente para este romance, mas depois, e se nos lembrarmos de obras como por exemplo “Alice no país das maravilhas” ou “Fernão Capelo Gaivota”, procuro para lá disso, procuro fazer passar para o leitor mensagens, as que procuro transmitir para esta nova Era, a Era global, onde ainda estamos a dar os primeiros passos. É verdade que ser eclético enquanto leitor e dono de um bom background cultural, além de uma dose elevada de originalidade e genuinidade, é o que o 86

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distingue dos demais escritores? Escrever assim de uma forma mais livre faz com que o leitor entre mais facilmente nas suas histórias? RUI - Depende muito do leitor. Eu costumo dizer que escrevo para adultos que andam na busca da segunda infância. Por exemplo na China, na filosofia Taoista, costuma dizer-se que o ciclo da vida só é cumprido quando o adulto recupera a sua infância perdida, no entanto, desta feita, com consciência dela, pois quando era criança o adulto não tinha consciência da infância (era criança e pronto, não podia ser mais nada), para eles (os taoistas) a maturidade é voltar a ser criança mas de uma forma consciente, uma espontaneidade emerge a quem siga esse caminho, no entanto o regresso à infância não é voltar a ser infantil (um eterno Peter Pan), é sim a maturidade plena do adulto que voltou a encantar-se com o mundo mas à luz da sabedoria adquirida; os meus livros vão muito nessa corrente filosófica, quem os lê precisa de ter vontade de se encantar com os universos que crio, no entanto vai sentir muita seriedade nas metáforas usadas por mim. Infelizmente chegamos ao fim da nossa entrevista que volto a agradecer ter-nos concedido. Não queria no entanto terminar sem referir que, um dia perguntou a um outro escritor se ele acreditava na literatura como forma de transformação do homem, talvez por o Rui partilhar do lema “o homem é bom, mas os homens são maus”. Eu irei mais longe e pergunto-lhe se acredita, e em

que moldes, que a literatura possa transformar definitivamente o mundo e, sobretudo, este nosso país que passa por momentos tão difíceis, em especial na Cultura? RUI - A literatura poderia transformar o mundo, se o mundo (o homem, entenda-se) deixasse também de transformar a literatura segundo alguns apetites duvidosos. Os escritores são por vezes vistos como marginais ou como excêntricos, e as editoras tornaram-se meras publicadoras do que vende. Ainda para mais em tempos de crise. Se só vender interessa, isso mata a boa literatura, pois deixa a literatura de fazer o seu papel essencial que é, e parafraseando um escritor Português que admiro, o Gonçalo M. Tavares, ele diz mais ou menos o seguinte: que os livros são máquinas de lentidão, que nos permitem entrar num outro registo do tempo, e dialogar com a nossa própria alma, e por isso não estão de acordo com o tempo cronológico que nos instigam a caminhar sempre com rapidez e sem reflexão. Na realidade, e muito pouca gente pensa nisto, a má cultura é tão ou mais perigosa que uma má política, pois é a cultura que forma homens a serem bons homens, entenda-se bons não tanto aqui no sentido moral, mas como homens atentos e interessados na civilização.

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Entrevista Escritora Sofia Moreira Psicóloga Clínica de Formação, 13 anos de experiência hospitalar. Gosto de luz. De amor e paixão. De pessoas dedicadas e intensas. Adorei exercer a minha profissão, fui feliz e realizada na relação humana e terapêutica com cada pessoa com quem tive o privilégio de me cruzar.Neste momento planeio workshops com o legado de tudo o que aprendi, e investindo nos pressupostos da Psicologia Positiva. Empenhada na divulgação dos meus livros. Que já passearam nos “ Livros do Parque” em Loures. Vão passear por Oeiras, por Faro, nas bibliotecas municipais destas cidades que se interessam por “novidades”. Estou em modo terceiro livro quase pronto. Co autoria com amiga e cega de Profissão. Um livro surpreendente, apesar do tema ser complexo. Um livro que alimenta a esperança na adversidade. O mais importante. Sou mãe. O meu filho é lindo. Tem 4 anos e chama-se Vicente. Sou muito ligada à família e a pessoas generosas. Tenho poucos, mas excelentes amigos. Boa Leitura!

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João Paulo Bernardino Escritor

Obrigado Sofia Moreira por me conceder esta entrevista. Gostava que nos falasse resumidamente de como se define como escritora e do que tratam as suas obras? Sofia Moreira - Grata fico com a delicadeza. É engraçado que, não me defino como escritora. Ainda não vesti essa “pele”. Escrevinho sentimentos. No entanto, o que me sai da alma apela, SEMPRE, ao meu lado de contadora de histórias e com base no material afectivo que em mim habita. Os meus livros são transversais. Gostaria que fossem bonitos para as famílias. Retratam amor, apego, fantasia, partilha, generosidade e sobretudo a necessidade de transmitir mensagens, vivências da minha cosmovisão.São ilustrados, porque considero que as palavras não se dissociam da imagem. Têm cor porque a vibração que desejo que emanem está inscrita numa paleta arco-íris. Sendo a sua área profissional de Psicologia Positiva, crê que quem leia os seus livros infantis ou os seus textos em revistas nota o quanto privilegia na vida a relação humana e terapeutica? De que modo? Sofia Moreira - Estou em crer que a minha formação de base, bem como a experiência que adquiri,

estão impressas na leitura. E acredito que aquilo que “ganhei” (que foi por certo muito mais do que dei) se encontra dentro de mim. O respeito pela dignidade humana. A aposta em que devemos dar a mão ao “outro” e olhar para dentro “dele” premeia e enriquece a minha intenção de ser altruísta, de procurar que faça sentido a quem me lê, pese embora a vida tenha muitas adversidades, podemos e devemos sempre compreender, aceitar e marcar a diferença, por mínima que possa ser. Os Psicólogos não têm receitas milagrosas, mas devem acreditar que no “entre” (laçados) junto de quem nos procura, somos quem escuta activamente, quem não julga e não condena.


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No livro “PARA TI” denota-se o quanto a família e sobretudo o seu filho Vicente, de 4 anos, é importante na sua vida e, sobretudo, na sua escrita. O que a levou a escrever esta história e qual a mensagem que pretende passar? Sofia Moreira - O Vicente é “a” maravilha da vida. Escrevi este livro para que ele, um dia, sinta o quanto foi, é e será o amor incondicional da vida dos pais. E porque numa gravidez nem tudo é um romance, também, pretendo que seja um desmistificar do processo. Sabendo que cada momento é único e irrepetível. O Vicente é aquele que vence. Neste caso, ambos ultrapassámos com mérito, 34 semanas de amor, de enlevo profundo, de sustos, de medos, de risco de vida. E para que a memória nunca me possa atraiçoar, fica tudo que julgo importante. Todos os simbolismos associados a uma história com final feliz. Considero-a uma pessoa que priviligia o bem estar da família e a solidareidade entre as pessoas. No seu livro “PINGO PERNALTA NAS LUZES DA RIBALTA” quis realçar estes valores e a sua visão sobre a vida por alguma razão específica? Sofia Moreira - A visão que pretendo deixar é que vivemos tempos conturbados. E retratei um Flamingo, que privilegia a amizade (que nos escapa tantas vezes), a curiosidade em aprender e reflectir (que não nos imponham as coisas como verdades absolutas), a viajar por outras paragens (mesmo que estejamos sentados no sofá), a deslumbrarmo-nos (e sentir que afinal não é assim tão fantástico), o sentido de pertença (tão fugidio actualmente), o sentido de família (tão descrente nos dias de hoje) e

sobretudo, ser corajoso, arriscar, partilhar e voltar ao porto de abrigo, à zona de conforto. Colaborou regularmente no curso de Operadores de Prevenção de Alcoolismo e Toxicodependências no Centro de Segurança Militar. Sente necessidade em algumas das suas obras de falar sobre drogas, alcoolismo e doenças oncológicas? Qual a verdadeira mensagem que quer transmitir? Sofia Moreira - Colaborei enquanto psicóloga e formadora no âmbito da saúde militar. Trabalhos completos, onde os poemas de Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa abriam a porta ao tema. Com uma especificidade “viciante” mas não dependente. Informei. Partilhei experiências e saber, de acordo com o experienciado num contexto hospitalar com patologias extremamente complexas e difíceis de tratar. Sentimentos de frustração, mas também o sabor doce de ter contribuído para o bem-estar de alguém. O ser humano é sobejamente perfeito. Por isso sempre apelei à essência e não à consequência de estados de alma alterados por substâncias devastadoras. Nós bastamo-nos. É colaboradora na Revista Virtual BLISS, do Colégio Atlântico, com artigos dirigidos aos adolescentes? Como vês estes jovens inseridos numa sociedade que atravessa actualmente graves problemas sociais e sobretudo culturais? Sofia Moreira - Curiosa a pergunta. A propósito do tema anterior, a porta foi mais ou menos fechada. Sugeriram-me que falasse apenas de coisas “bonitas”. Fiz dois artigos, desmistificando o processo da adolescência e entendi que qualquer jovem, professor, tutor, deve

estar informado. E como sinto que a vida é repleta de “armadilhas” não prossegui a colaboração. Mas gostei do convite que me fizeram e dei o meu melhor. Muito se fala que apenas quem tem dinheiro é capaz de publicar neste país. Se pudesse, que medidas tomaria para que os escritores que querem dar os seus primeiros passos pudessem editar com maior quantidade e qualidade? Sofia Moreira - Gostaria que as Editoras fossem honestas, acima de tudo. Senti, no meu primeiro livro, lá está, deslumbrei-me com o adocicado que me propuseram. Desiludi-me. Atrevo-me a dizer que fiquei extremamente desmotivada e triste. Angariam o dinheiro e a partir daí, o interesse termina. Não divulgam, não ajudam genuinamente. Caí no engodo. No segundo livro, correu bem. Excelentes profissionais que em nada falharam. Acredito que tinha de acontecer assim. Escrever em colectâneas, sem a pressão de pagar, é autêntico. Sem o peso aos ombros…”investi tanto e agora?”. É interessante a perspectiva de escrever e ler com ilustres desconhecidos, que se deste modo não fosse, nunca conheceria, nunca teria o prazer de me cruzar. Crê nos sonhos dos homens? Como escritora, quais são os seus? Sofia Moreira - Creio que há muitos sonhos, mas sinto-os, por vezes, inconsequentes. Não acredito no facilitismo. Sem dedicação, esforço, empenho e resiliência, os sonhos são utópicos. Embora, a perspectiva onírica também me interesse e suscite a minha curiosidade, um sonho para mim é fazer acontecer. Sonho que, fruto da miRevista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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nha entrega, a vida será generosa comigo. Já o é. Tenho saúde, família, amigos verdadeiros e projectos em concretização. Sonhar é agir. A que estaria disposta a fazer para promover uma maior participação activa dos mais jovens escritores em relação à literatura portuguesa? Sofia Moreira - Levá-la ao berço. Caminhar nas estantes de casa. Dar a conhecer o bom que temos. A diversidade. A beleza. Ler histórias aos nossos filhos, alunos, pais, avós. Convidar a escola a ir a bibliotecas e vice-versa. Tornar a leitura mais lúdica e menos aborrecida. As canções da Maria, são um bom exemplo de que é possível aprender a cantar, porque não aprender a teatralizar, a dinamizar grupos, a ler poemas com música, a seduzir com afectividade os jovens que se detêm no mais fácil e a meu ver no menos prazeroso. Agradeço uma vez mais a disponibilidade e carinho que nos deu para esta entrevista. Para terminar, diz-se que “escrever é um acto de amor”. Sendo a Sofia uma mulher apaixonada pela vida, uma pessoa que transmite luz e esperança na adversidade, que pretende transmitir com o seu livro a editar em breve como co-autora? Sofia Moreira - Um livro que embora retrate um universo de cronicidade física, possa ser lido com magia e fantasia, com histórias reais e outras que surgiram da nossa criatividade. Um kit de humor, amor, medicação, rigor, mas acima com esperança renovada e reciclada. Como diz o cliché “há males que vêm por bem”. É esta a nossa 90

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missão e mensagem. Não pretendemos que as pessoas se acomodem, mas que se inquietem e que procurem o lado “solar” mesmo nos dias em que só apetece acordar quando o pesadelo terminar. Há mais vida para além da doença, é o que desejamos enfatizar. Obrigada pela cordialidade, pelo sorriso e pelo sentido prático, genuíno e autêntico.

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Escritora Sofia Moreira

Amor, Eu respiro! Eu suspiro! Eu vivo! Amor! Sem dar por isso, em movimentos dançantes, em uníssono, inspiramos o ar que nos faz respirar. Respiro, transpiro. O bater acelerado direciona o caminho. Vertebrados, num sentimento peculiar e arrebatador. Num só, vislumbramos a essência da existência. Envoltos, apaixonada e ardentemente, perdemos a noção do tempo, do espaço. Colhidos pela beleza que nos faz transpirar. Numa sonata a vibração eleva-se. Respiro, suspiro. Num frenesim de amor, encontramos um compasso de aromas que nos alimenta os sentidos. Colados em enamoramento, sus-

piramos de desejo. Num coro de seres celestiais, saciados. Respiro, vivo. Só nesta amálgama é possível viver em pleno. Corre amor pelas veias. Distribui-se harmoniosamente pelo corpo todo. Numa orquestração de fadas, de duendes, de mistérios, a música no coração é um pedaço de nós. Respiro, amor. Em conjugação com o universo, o mapa-mundo do amor, é o mapa das nossas imagens, viagens, viragens. O tilintar das estrelas quando o céu olha para nós, brilhante de afecto, carregado de mensagens. A nossa mensagem é lida nos olhos. Na lisura de um momento, um instante, um toque. Numa harpa, alada, não há despojos do dia. Há embalo, quente e feliz.

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Entrevista Escritor Francisco Laraya (Tito)

O escritor Francisco Mellão Laraya, conhecido como Tito, mora em São Paulo, nasceu com 100% de surdes no ouvido direito e 70% de surdes no esquerdo, graças a uma cirurgia aos 14 anos, recuperou a audição só do ouvido esquerdo, é apaixonado pela leitura. Quando começou a escutar iniciou curso de violão clássico no Conservatório Beethoven, aonde se formou, fez pós em interpretação no Mozarteum, Direito na USP no Largo São Francisco, especialização em mercado de capitais na Pace University. Fez faculdade de direito por que queria ser escritor, mas é muito difícil se manter como tal, só depois de mais velho é que assumiu o gosto pelo dom. Livros editados: Textos Barrocos, Exames, Tito e o pé de sonho, A Descoberta: o não tempo, O Grão de areia e Um sonho dentro de um sonho. “Eu gostaria que houvesse um incentivo maior a popularização da cultura, mais livros sendo entregues em bibliotecas, o saber é universal, não pode ser sempre de uma elite. Um povo mais culto, é um povo mais consciente e mais difícil de ser dominado por inescrupulosos.” Boa Leitura!

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Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

Escritor Francisco, é um prazer tê-lo conosco no projeto Divulga Escritor, conte-nos como começou o seu gosto pela escrita? Francisco Mellão Laraya - TitoPrimeiro gostava de contar estórias, desde pequeno, minha mãe guardava consigo, depois me entregou, as estórias que aos 2 anos contava a ela, sempre tinham um fundo moral. No primário ganhei um prêmio do Governo do Estado de São Paulo de redação, era a melhor daquele ano, aí a gostar de me exprimir escrevendo, esta paixão tomou conta de mim no início do colegial. Quando escolhi a faculdade, tinha que ser a de Direito no Largo de São Francisco,


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berço de escritores, poetas, etc... Não queria ser advogado, queria ser escritor. Este sonho, abandonei por anos, só com a maturidade, fazendo uma limpeza no meu passado que me auto descobri, aí me reinventei. O que mais lhe inspira a escrever? Tito - O quotidiano, meu escrever é o rito do eterno desabafo, por que meu papel não chora, não me repreende, apenas compreende, conto e choro a ele as minhas coisas mais íntimas, e ele vai clamando a cada espaço em branco por mais palavras, vou escrevendo o que falta, ora fácil, às vezes aos trambolhões, como o meu pensar, o meu sentir. Quais são as suas referências literárias? Que autores influenciaram em sua formação como escritor? Tito - Nasci surdo, meus amigos eram os livros, achava, desde cedo, bonita a palavra escrita, lia tudo o que vinha na mão, minhas avós que eram apaixonadas pela leitura, e meu pai também, de modo que tinha uma coleção de clássicos para ler, e era ali que eu deliciava o meu intelecto. Aos 15 anos comecei, graças a uma cirurgia, a escutar, aí senti vontade de transmitir meu mundo, e a forma, palavras escritas. A sinceridade e a forma de escrever de Fernando Pessoa, muito me influenciou, achava ele o máximo, e se tem alguém que me levou a escrever da forma com que faço: foi ele. Também me influenciou o romance de Drácula e sua escrita impressionista, bem como Simon Tigel no Jornal de um Amante, esta é a minha forma, escritor impressionista, aonde precisa de

uma cor, eu ponho a que completa, e o leitor que imagine. Uma curiosidade, porque Tito, podemos dizer que é este seu nome artístico? Tito - Tito é meu apelido, trago ele desde a mais tenra idade, as pessoas me conhecem mais por Tito. Cheguei a escrever, em um poema que queria ser apenas um Tito de quatro letras e só. Tito como foi publicado o seu primeiro livro? Que dificuldades para conseguir publicar a sua primeira obra? Tito - A publicação foi fácil, havia alguns textos auto biográficos, artigos, e um trabalho de forma resumida sobre o mais controvertido julgamento da história, o julgamento de Jesus, este livro teve até artigo falando sobre ele em jornal, havia um texto que chamava a tenção sobre os evangelhos apócrifos e como foram escolhidos os quatro bíblicos, o motivo para tanto furor, foi o mesmo para retirarem ele de circulação, aí, apesar de brasileiro, me voltei para Portugal e comunidade Européia. O livro “Tito e o pé de sonho” e “Exames” foram publicados em Portugal, o que diferencia um livro do outro? Tito- Enquanto Tito e o pé de sonhos, conta um mundo meu, e como queria que ele fosse, Exames, de uma certa forma é um auto retrato, conto a estória de um amor para falar de mim, para me definir e me explicar como ser humano, já o primeiro é um grito de liberdade, de atenção, sobre o mundo que aí está. Como foi a escolha do título para

o seu livro “ A Descoberta: O não tempo”? Tito - O título havia sido escolhido para outro livro: Um sonho dentro de um sonho, a pasta que guardava os rascunhos deste, continham este título. Um dia resolvi reescrever o livro, e ao invés de contar a história de um eterno amor, acabei contando o meu dia a dia e o meu encontro com o criador, tal como ele é para mim. Descreva para nossos leitores o enredo que compõe o seu livro “Um sonho dentro de um sonho”? Tito - Este livro conta a estória de uma amor adolescente, que não morreu, mas mudou de enfoque, acredito que o que amávamos um dia, continuamos amando sempre, só muda de endereço, mas as coisas que nos atraiam, sempre vão nos encantar. Conte-nos sobre o seu livro em italiano “L’essanza Dell’anima? Tito - O livro Italiano é uma junção de “Exames” e “A Descoberta: o não Tempo”, trata da essência do meu ser, da minha forma mais íntima de ver a vida, daí surgiu o nome, que em português quer dizer “A Essência da Alma”. Onde podemos comprar os seus livros? Tito - No site da Wooks e da Bertrand em Portugal se acha para vender, são vendidos on line e são entregues pelo correio na casa de quem comprar. Meu e-mail é larayaescritor@hotmail.com Quais são os seus principais objetivos como escritor? Tito - Divulgar minhas idéias, meus pensamentos, pois acho que o ato de escrever é um dom, e temos uma obrigação moral com os Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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dons recebidos, não como qualquer pessoa, mas com o criador que nos dotou deles, por isso o meu escrever tem uma razão moral e social. Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil? Tito - Eu gostaria que houvesse um incentivo maior a popularização da cultura, mais livros sendo entregues em bibliotecas, o saber é universal, não pode ser sempre poder de uma elite. Um povo mais culto, é um povo mais consciente e mais difícil de ser dominado por inescrupulosos. Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor¸ muito bom conhecer melhor o escritor Francisco Laraya (Tito) , que mensagem você deixa para nossos leitores? Tito - Eu vou deixar como mensagem, a minha maneira de pensar, “ A literatura tem um cunho moral e social, é assim que se justifica como arte”.

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Entrevista Escritora Mariza Sorriso A cantora, compositora, atriz, poeta e locutora, Mariza Sorriso é petropolitana, residente no Rio de Janeiro desde 85. Herdou de sua mãe, o gosto pela música e foi com ela que aprendeu a cantar. Com apenas 4 anos subiu ao palco para declamar, aos 7 para apresentar-se no teatro e aos 8 para cantar pela primeira vez. Foi na adolescência que começou a escrever e a participar de festivais estudantis de música. Na música foi apresentada a noite carioca pelo cantor e compositor Nelson Sargento, em 1987, com quem fez diversos shows até 1996. Atriz formada pela escola Le Mond de Formação de Atores em 2007/2008 – DRT 40382 Autora, intérprete e produtora fonográfica associada a AMAR - 17787/11 Locutora formada pelo SENAC em 2007 – DRT 16065, tendo produzido e apresentado programa próprio: E você, como vai?, na radio Mare Manguinhos - FIOCRUZ, que tinha como público alvo, pessoas da comunidade da Maré 2007/08. Bacharel em Ciências Econômicas formada pela UCP – 1983. Técnico em Contabilidade – Colégio Padre Corrêa – Petrópolis - 1978 “O Brasil é um um filho de Portugal e portanto vem de Portugal a nossa base cultural. Penso porém que a miscigenação de vários povos e o clima nos tenha tornado mais expansivos e que a história das navegações e o clima tenha tornado o povo português um pouco mais reservado e melancólico.” Boa Leitura!

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Por João Paulo Bernardino Escritor

Os meus sinceros agradecimentos por conceder esta entrevista à DIVULGA ESCRITOR, o que nos deixa muito honrados. Nesta edição especial dedicada apenas a escritores portugueses, quisemos abrir uma excepção e os leitores saberão a razão. O Brasil deixou de ser colónia portuguesa há pouco mais de 200 anos. No entanto, ainda hoje a cultura atravessa a distância além-mar e mantém os dois países unidos mas «a diferença que existe entre Portugal e o Brasil de hoje é a mesma diferença que existe entre o fado e o samba», dizem por vezes. Concorda com esta expressão tantas vezes falada, já que conhece ambas as realidades? Mariza Sorriso - Concordo. O Brasil é um um filho de Portugal e portanto vem de Portugal a nossa base cultural. Penso porém que a miscigenação de vários povos e o clima nos tenha tornado mais expansivos e que a história das navegações e o clima tenha tornado o povo português um pouco mais reservado e


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melancólico. Essa mesma correlação acontece entre entre o fado e o samba. São estilos musicais que têm sua origem na modinha portuguesa, portanto com o ingrediente sentimento bem acentuado. Ao samba acrescentamos o lundu africano. Há quem diga que também o fado tem a raiz no lundu. Porém o ritmo impresso e os instrumentos utilizados em ambos os estilos musicais é que produzem a principal diferença. Enquanto no samba a letra e a percussão nos conduz diretamente para um estado mental de alegria, no fado, a letra e os acordes da viola clássica nos embala para a melancolia, paixão, ternura. Amo os dois, fado e samba! Uma amiga sua chamou-a de “poeta, cantora, actriz, sonhadora e bela senhora”. O actor e poeta carioca Eduardo Tornaghi comentou ainda de que “a poesia de Mariza está antes do que ela escreve, no que ela é: um enorme, lindo e cativante Sorriso”. Como se sente o seu ego quando alguém fala de si desta forma tão sublime e cativante? Mariza Sorriso - Sinto-me muito feliz, tanto com o ego quanto com o espírito. Pois se o ego necessita de elogios para existir, também o espírito necessita de Amor para se expandir. Porém o que busco mesmo é ser amada e ainda que o elogio não existisse, existindo o Amor bastaria para que eu me sentisse validada como Ser. É por isso que sou artista. O meu desejo é que a minha arte encontre e toque o coração de cada pessoa, seja lendo os meus poemas, seja ouvindo-me declamando, cantando, ou mesmo actuando. É isso que me move. Esteve recentemente em Portugal no 1º Encontro de Poetas da Língua Portuguesa – entre o Fado e o

Samba, com poetas de Portugal, Angola e Brasil, promovendo as culturas de todos esses países. Enquanto brasileira, que diferenças encontra na cultura de Portugal e do Brasil e como vê a cultura em Portugal no momento mais conturbado da nossa nação, com uma crise acentuada que demove a Educação e a Cultura? Mariza Sorriso - Tive a alegria de ter um sonho meu concretizado pela Editora Paula Oz, ao fazer acontecer o “Encontro de Poetas da Língua Portuguesa Entre o Fado e o Samba”, em Setembro último, em Lisboa. Do Brasil vieram poucos poetas, todos com recursos próprios. No meu país, como acredito acontecer também em Portugal, a Arte e a Cultura ainda estão longe de ter a sua real importância reconhecida. Hoje vejo com bons olhos o surgimento de uma nova geração de fadistas em Portugal e de sambistas no Brasil, para que assim possam ser perpetuados esses dois estilos musicais, considerados Patrimónios Históricos Imaterias da Humanidade (o samba desde 2005 e o fado desde 2010). Observo ainda, um movimento literário muito grande em relação a poesia no Brasil inteiro, por parte de todas as faixas etárias. Fico muito feliz que a poesia esteja na moda novamente, assim nós os poetas teremos sempre mais espaços para mostrar nosso trabalho. Em Portugal percebo esse movimento um pouco mais tímido, e não tenho visto muitos jovens nos meios poéticos, embora esteja a observar um crescimento no número de Tertúlias. Integrada ao projecto “Ano de Portugal no Brasil”, houve em Brasília o espectáculo inédito “O mundo é de quem não sente”. A peça usou dois elementos típicos

de cada país: o fado e o samba. A figura do sambista ficou no imaginário social ligada à figura do malandro. No fado, ao contrário do samba, no imaginário fadista a mulher canta de olhos fechados e usa algumas vezes vestidos longos e sempre um xale nos ombros. Para quem canta frequentemente estes dois estilos como a Mariza Sorriso, como você consegue tocar estes dois pólos que, à primeira vista, parecem tão distantes? Que sentimentos lhe passam pela alma e como julga que eles chegam a quem a escuta? Mariza Sorriso - Não sou fadista, sou cantora de Música Popular Brasileira que inclui também o samba. Mesmo arriscando cantar um fado de vez em quando, não tenho pretensão de sê-lo, pois falta a vivência de quem nasceu no fado e também o sotaque. Entretanto, no meu repertório tenho muitas músicas românticas, que tocam minha e a alma do público. Invariavelmente interpreto essas músicas de olhos fechados, como é o caso por exemplo de Todo Sentimento do Chico Buarque e o samba-canção As Rosas Não Falam, de Cartola. São músicas que falam da paixão, da saudade, do infortúnio. Já o samba, na sua maioria das vezes, mostra um quadro mais alegre, que somado ao ritmo e a batida estimulante, é mais aberto, expansivo. De qualquer forma, sempre que me apresento, preciso perceber que o público está sentindo comigo aquilo que estou cantando. Se é uma música sentimental, que eles se envolvam na aura sentimental. Se for um samba que fale da alegria, que eu os contagie com a alegria. A sua poesia é, em grande parte, virada para a Fé e a Esperança, para o amor a Deus e a relação com todos os seres. Para um ateu Revista Divulgar Escritor • novembro de 2014

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ou agnóstico, de que forma crê que ele conseguirá ele entender a sua mensagem? Como pensa que os cativa e eleve a sua poesia a outros tantos leitores? Mariza Sorriso - Eu escrevo sobre todos os seres: humanos, natureza, planeta, divinos. Meu mote é levar Fé e Esperança através da minha arte. O ateu só não acredita em Deus, mas acredita na vida. Todas as características humanas existe dentro de um ateu, inclusive o sentimento. Eu conheço pessoas agnósticas e ateus que adoram poesia, se sensibilizam com as questões sociais, que trabalham pela preservação do planeta e o melhor de tudo, se apaixonam. Brilham-lhe os olhos do mesmo modo que os crentes em Deus. É para essas pessoas que escrevo e canto, para todas que se se deixam tocar pela minha arte. Afinal, Deus está em todas as coisas e pessoas. Deus é o Todo. Independente de alguém acreditar ou não. É formada em Ciências Económicas, cantora, compositora, poetisa, actriz. Um dia escreveu de que “há quem nasça para ser poeta de ideais” e de que “não conquistamos sozinhos os nossos sonhos, em primeiro lugar contamos com Deus que nos sustenta, mostra o caminho e orienta. Em segundo lugar os amigos e a família, muitas vezes nessa ordem mesmo, que nos impulsionam para frente cada vez que mostram admiração, validação, respeito e fé pelos nossos sonhos.“ Imagine-se privada de tudo isso... Quem seria a Mariza Sorriso? Nasceria uma poeta de ideais? Quem seria na verdade? Mariza Sorriso - Simplesmente não existiria. Seria outra pessoa. Co98

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mecei muito novinha no palco. Tinha apenas 4 anos quando o experimentei pela primeira vez. Não sei ser diferente. Acredito que só existimos a partir do outro e das relações com todos os seres. Nunca me imaginei sem o Espírito de Amor me orientando. Também não sei o que seria se não tivesse o retorno do público ou do leitor. Aí de mim, se não existissem os amigos. Simplesmente não seria a Mariza, não seria artista, teria outra profissão. Mesmo enquanto estive exercendo por 16 anos a função de economista numa grande empresa, mesmo lá eu era conhecida como a Mariza cantora. Também me sirvo da arte para tocar as pessoas e levar esperança e fé, como já disse antes. No meu poema Pescaria digo ‘Ando pescando gente. Pessoas andam famintas de serem vistas’. Quanto a frase “há quem nasça para ser poeta de ideais” foi uma qualificação escrita, pelo poeta Emanuel Lomelino, em relação a mim, na Colectânea Entre o Fado e o Samba, não é minha. A mulher “Com um sorriso especial, conquista e dislumbra/E é na flor da paixão, que a poetisa brilha para todo o mundo/Com um sorriso de mil sóis e olhos de menina” (como alguém a definiu) é na verdade a mesma mulher que pede para “que Deus continue abençoando a todos, os amigos, a família, os amigos virtuais, os seres humanos todos, sem excepção, no planeta. Que Deus abençoe também o planeta. Que tudo seja de acordo com a Sua vontade e que tenhamos sabedoria para receber essa vontade com amor.”? Deus é

na verdade a sua essência enquanto mulher tão virtuosa, Aquele que lhe dá esse sorriso permanente? Comente. Mariza Sorriso - Sim. Somente Ele é capaz de manter a nossa alegria, nossa paz e nossa luz interior. Capaz de nos fazer sorrir. Ele é a fonte de toda a Abundância. Também é Nele que confio sempre, para tudo que me acontece incluindo as frustações. Quando peço que Ele nos conceda sabedoria para reconhecer a Sua vontade, devo acrescentar também que nos conceda aceitação. Tenho tido muitas provas na minha vida, de acontecimentos que se mostram ruins no momento que ocorrem, e quando passam, percebo perfeitamente que me foi tirado algo menor, para que eu tenha possibilidade de atingir algo maior. Entretanto, reconhecer a Sua vontade, significa fazer também a parte que nos cabe. “Mariza Sorriso irradia a sonoridade da poesia, sonhos, memórias perfumadas, realidades e histórias, a paz no reino da beleza não esquecendo a natureza, o universo, os olhos do luar”, palavras da editora Paula OZ. Confesso-lhe que a pergunta seguinte é da


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minha inteira curiosidade, dado que um dia testemunhou em poema “Preciso me reintegrar/Tenho sido vários rios a desaguar/É hora de voltar a ser mar.” Quando é que a Mariza Sorriso chora? O que a leva a chorar verdadeiramente, de corpo e alma? O que sente nesses momentos e o que faz para os ultrapassar? Mariza Sorriso - Quando digo que é hora de voltar a ser mar, falo do sentimento de totalidade, de inspiração, de luminosidade, enfim, tudo o que nos remete quando observamos o mar. Quando é que eu choro? Choro sempre! Sou pura emoção. Quando não choro para fora, choro para dentro. Mas prefiro mostrar o meu sorriso, pois essa é a minha melhor face. Fico mais bonita. Se “os olhos são os espelhos da alma”, no sorriso, a alma sai voando por ele. Mas sempre fui um misto de sensibilidade e de alegria. Costumo chorar do nariz para cima e sorrir do nariz para baixo. E o que me faz chorar é a injustiça com as outras pessoas, com os animais, com a natureza, comigo. Também a violência, a fome, a miséria, o desamor, a exclusão, a rejeição, a invalidação. Tudo isso me faz chorar. O que me faz ultrapassar? Uma força me impulsiona, vou em direcção à vida. Além disso a entrega das minhas impotências nas Mãos de Deus e o compartilhar de experiências com pessoas dignas de confiança, chá quentinho, colo e afecto costumam ser infalíveis. O seu show “Rio de Todas as Cores”, tem sempre censura livre e entrada franca, expressão que considero demasiado interessante, homenageando a cidade maravi-

lhosa do Rio de Janeiro. Ao longo de cerca de 90 minutos, eleva a sua cidade, as suas nuances e cores, os melhores pontos turísticos, e sobretudo os ritmos e a alegria. Por outro lado, enquanto escritora do seu livro “Na Flor da Paixão” e aproveitando o Prefácio de Mariete Lisboa Guerra, “a Mariza Sorriso desprende-se e goza a liberdade de escrita fora de todas as regras, estando a paixão nas suas mãos”. Afinal, quem é a cantora e quem é a escritora? O que nos quer transmitir numa e noutra arte? Mariza Sorriso - Cada trabalho que realizo tem uma motivação, um impulso. A maioria deles tem censura livre. Entrada franca, só quando tenho patrocínio, o que é muito raro. O show Rio de Todas as Cores, é o show de divulgação do meu CD de mesmo nome, é um trabalho bem rico de informação e cultura. Ainda pretendemos apresentar esse show em escolas. Com o músico Fábio Pereira, no show Mariza Sorriso de Mulher pra Mulher, eu interpreto clássicos que fizeram sucesso nas vozes de divas. É um show bem divertido, eclético e também instrutivo. O meu livro Das Raízes do Coração lançado em 2013, embora sendo um livro de poesia, tem-se tornado um “livro de cabeceira” de alguns leitores que afirmam sentirem-se melhor quando o lêem. Esse retorno do leitor e a experiência que tive com um programa de rádio que apresentei durante quase dois anos aqui no Brasil, tem-me estimulado a preparar outro livro com poesias direccionadas à auto-ajuda. Já o livro Na Flor da Paixão, que acabo de lançar em Lisboa, pelas Edições Oz, fala das minhas várias paixões, entretanto, a minha poesia, mesmo as

que falam de paixão são profundas, intensas, porém subtis. A nossa entrevista chegou ao fim e creio que ficou bem definido o porquê desta bela excepção que abrimos com muita honra, pois ficou bem patente para os nossos leitores, através do seu próprio conhecimento e experiência, a ideia das diferenças e/ou semelhanças entre ambos os países. Por isso, agradecendo antes de mais a consideração que nos deu com a sua disponibilidade, gostaria de terminar com uma pergunta muito simples: O que diz o seu sorriso? Mariza Sorriso – O meu sorriso mostra a alegria da minha alma, a minha ânsia por viver e a vontade de transmitir isto aos outros seres humanos. Ao terminar gostaria de deixar a todos o meu ‘ABRAÇO – Há braços e também coração. Deve ser por isso, tão bom!’

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Participação Especial Escritora Maria Tavares

“MEU AMOR” Quero cantar este poema Só para ti, meu amor Para que sirva de dilema Pelo bem e pelo louvor... Para que exista a esperança A esperança de te querer A esperança nunca cansa Eu quero por ti morrer... Talvez eu queira uma utopia Mas se o mundo quisesse meu amor por ti morria se o teu amor me vencesse...

“A TERNURA” Amo devagar a ternura que apenas me despe... no silêncio da noite escura onde a ternura se aquece... Madrugada de doçura ternura sempre apetece é mal que não tem cura quando o amor acontece... Silêncio folha despedida e nua de tudo ou nada na minha pacata vida o amor é um sortudo... nesta sorte abençoada ao amor agradeço tudo...

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“AI DE MIM” Quem me deram os meus dias meu amor? Odio? Tristeza? Ai de mim... caminho Por aí E já não sou Quem era... Sei que vives sozinho Que se passa em mim? Tanto sonho Tanta expetativa, Tanto começar de novo... Olho a sombra que projeto Sigo em frente E nela não me reconheço Porque me falta o teu afeto Será isto que eu mereço? Meu amor nunca te esqueço...


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