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escala

arquitetos + decoradores + designers + vips...

ano 07 nÂş29 junho de 2009

Peter Zumthor + Richard Rogers + Helio Pellegrino + Luiz Eduardo Indio da Costa + Jean Pierre Crousse + Sandra Barclay + Guto Indio da Costa + AmĂŠlia Portela + Andreas Strauss + Matali Crasset + Gabriel Joaquim dos Santos + Jean Fontes + Pier Giacomo + Achille Castiglioni + Dorys Daher + Ignez Ferraz + Lee McCormack 1 + Richard Best + Mateu Velasco + Bragga + Christine Bachl + Paul Christian


2 junho 2009


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Editorial ESCALA é uma publicação da

Da Favela do Vidigal a Dubai

www.altherswanke.com.br altherswanke@altherswanke.com.br (21) 2284-9605/ (21) 9919-2292

Jornalista responsável

D

esta vez, nossa indignação vai para o fim da obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalista no Brasil. Agora, qualquer pessoa, mesmo só com ensino médio, pode atuar como jornalista. O STF diz que a exigência de um diploma afronta a liberdade de manifestação e de expressão do pensamento. Ora! A decisão é política. A intenção é clara: minar “o quarto poder”, numa época cheia de escândalos no cenário político. E, tão logo houve a decisão, o presidente Lula passou a assinar uma coluna jornalística. Que vergonha! Na contramão disso, falemos dos projetos bonitos e criativos desta edição. Vários deles vêm do escritório Barclay & Crousse Architecture, vencedor do Premio a la Calidad Arquitectónica 2008/ Colegio de Arquitectos del Peru. Matali Crasset continua “aprontando”! A designer, agora, “plantou” árvores escultóricas e interativas em uma escola em Sain-Bel, França. E já colhe os frutos do projeto. E que tal quarto de hotel em tubo de esgoto? Parece não cheirar bem, mas a idéia do designer Andreas Strauss faz sucesso na Áustria. Do Brasil, temos de Helio Pellegrino, às voltas com um ambicioso projeto no Vidigal, a Gabriel Joaquim dos Santos (da Casa da Flor), passando pela surpreendente Ecowood, feita com fraldas descartáveis, dinheiro moído e outros “ingredientes” não menos inusitados. Em outubro, uma missão de arquitetos brasileiros irá para Dubai.

Andréa Magalhães MTb 17.287

Conselho Consultivo

Adriana Figueiredo, arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estácio de Sá Andréa Menezes, arquiteta Carlos Alcantarino, designer Carlos Fernando Andrade, arquiteto Carlos Murdoch, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estácio de Sá Carolina Wambier, arquiteta Christiane Laclau, decoradora Franklin Iriarte, arquiteto e professor da Escola Candido Mendes de Interiores Jorge Lopes, coordenador do Laboratório de Modelos Tridimensionais do Instituto Nacional de Tecnologia Francisco Martins, especialista em implementação de projetos, da Gerência de Novos Negócios em Tecnologia, do Sistema Firjan Jerônimo de Moraes Neto, arquiteto Lygia Niemeyer, arquiteta

Projeto Gráfico

Altherswanke Comunicação

Edição de Arte Cadu Marques J. Albuquerque

Publisher de Escala Diretora da andrea@altherswanke.com.br

Consultor Financeiro

Peter Wanke, engenheiro de produção, Doutor em Logística ESCALA não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados.

Publicidade

4 junho 2009

Para anunciar em ESCALA: (21) 2284-9605/ (21) 9919-2292 www.altherswanke.com.br altherswanke@altherswanke.com.br revistaescala@uol.com.br


escala

no mundo por Jean Fontes

As reportagens de ESCALA fazem tanto sucesso com os entrevistados estrangeiros — arquitetos e designers gostam tanto do que vêem e lêem na revista —, que a maioria deles escaneia o que foi publicado a seu respeito na publicação e coloca em seus sites, na parte dedicada à imprensa. Com isso, o conteúdo de ESCALA se propaga velozmente pelo mundo todo, desde o seu lançamento, há oito anos. Páginas de ESCALA estão em sites dos mais variados países: da Argentina ao Japão; da Itália a Israel... Nesta edição, damos, abaixo, um bom exemplo, vindo da Itália.

Destaque em site italiano... No site dos designers italianos Andrea Fino e Samanta Snidaro, ESCALA aparece com direito à capa e à reprodução de toda a matéria que publicamos a respeito da dupla. Pelo número de revistas que já escreveram sobre eles, dá para se ter uma idéia da qualidade do design de Samanta e Fino, sócios no escritório Sand & Birch Design.

ESCALA no Brasil 12/06/2009 Cara Andréa, Aguardo a Escala sempre na maior expectativa. Parabéns a você e ao seu time. As matérias são sempre ótimas e muito diferentes do que costumo ver nas outras revistas de arquitetura e design. Carla Sampaio (arquiteta) 06/06/2009 Recebi a Escala e a trouxe para casa para ler com calma. Fiquei passado com aquela casa redonda, cujas paredes giram no mesmo eixo, permitindo inúmeras configurações. O tipo de coisa que a gente só vê publicada na Escala. Parabéns! Marcelo Guidine (assessor de imprensa) 26/05/2009 Gostaria de fazer uma sugestão ao chefe de reportagem de Escala. Por que não fazer uma matéria sobre a relação do design com o universo

infantil? A Vitra, por exemplo, tem uma linha de móveis clássicos adaptados para o tamanho das crianças. Fica aqui a sugestão. Angélica Dias (designer) 18/05/2009 Oi, Andréa. Obrigada pelas revistas. Estão muito bacanas! Li tudo no final de semana. Joana Angert (designer) 09/05/2009 Estimadíssima Andréa, Estamos apoiando, via Secretaria, uma mostra de design brasileiro no MoMA, em NY. São 45 designers de todo o Brasil. Achei que você talvez tenha interesse em realizar alguma matéria em sua super cuidadosa revista. Camila do Valle (assessora para assuntos internacionais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro) Nota da Redação: Para assinar ESCALA, basta enviar 5 um e-mail para altherswanke@altherswanke.com.br ou telefonar para (21) 2284-9605.


Conteúdo

Capa: foto principal Barclay & Crousse Architecture (Casa B, Peru). No destaque (acima), detalhe do “Can of ham” (Targetfollow + DP9, Inglaterra)

05 Escala no mundo

29 ArqNow

08 Exclusivo

30 Exclusivo

12 Exclusivo

35 Artigo

16 Reportagem

36 Reportagem

20 360º

38 Reportagem

22 Exclusivo

42 Livros, Agenda & Sites

por Jean Fontes

Feira mostra design que parece ficção por Heloísa Righetto

“Árvores” de Matali

Hotel em tubos de concreto

por Taciana de Abreu e Silva

Entre o seco e o molhado

6 junho 2009

por Suzy Castañeda

Do Vidigal a Ibitipoca

Tendência pra quê? por Dorys Daher

Salvando árvores

Arquitetura espontânea


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Exclusivo

por Heloísa Righetto

Feira mostra design que parece ficção

U

ma feira de design e interiores que saiu da televisão para a vida real. Baseada em um famoso programa de TV britânico com o mesmo nome, a Grand Designs Live teve a sua 5ª edição no início de maio, em Londres. Este ano, a “protagonista” da feira foi a “House of the Future”, um espaço destinado aos mais novos gadgets para casas e escritórios. Coisas de ficção de televisão ao vivo e a cores. Da F1 para nossas casas e escritórios. Os engenheiros da McLaren (é isso mesmo!) desenvolveram um produto para esses espaços, bem longe das pistas de corrida: a Ovei, uma cápsula multimídia. Idealizada pelo designer Lee McCormack, trata-se de uma cápsula mesmo, individual, climatizada, onde a pessoa se refugia para relaxar, estudar, trabalhar, jogar... Tudo graças ao moderníssimo aparato digital que existe dentro. Dá para ouvir músicas, assistir a vídeos, fazer videoconferências, usar a Internet... McCormack conta que sempre foi interessado pela idéia do que contém e do que é contido; por formas que protegem e encapsulam. “Além de serem esteticamente bonitas por fora, uma cápsula pode formar um ambiente íntimo, pessoal, como um útero materno”, analisa o designer inglês. Quem está achando que não passa de protótipo, engana-se. A Ovei já existe no nosso planeta e é vendida por uma boa quantia de “mil libras”. Individualista demais? Sem dúvida, mas não há horas em que todos nós só precisamos de um cantinho só nosso? Fone gigante — Pensada para funcionar como um home theater pessoal, a Sonic Chair — também já está no mercado — parece um fone de ouvido gigante, com alto-falantes instalados em pontos estratégicos da sua estrutura. O áudio é perfeito: onde quer que você esteja, poderá ouvir música em qualquer volume, sem atrapalhar o vizinho. Também é possível conectar iPod ou laptop. Ou seja, pode ser também um home office pessoal.

Ovei 8 junho 2009


Algumas das atrações da “Casa do Futuro” priorizam a questão ambiental. É o caso do W+W, sistema de pia e vaso sanitário, que reutiliza água e maximiza espaço. A descarga funciona com a água utilizada na pia, economizando, assim, aproximadamente 25% do volume de água, se compararmos com as descargas comuns. Antes de ser reutilizada, porém, a água passa por um sistema de filtragem interno, para que não haja qualquer problema relacionado à higiene. Economia de espaço e mobilidade são os conceitos principais do Globus, móvel projetado para escritórios tradicionais e home offices, que pode ser transportado facilmente — pois possui rodízios — e que também pode ficar fechado e ser armazenado, quando não está em uso. E esse produto é pra lá de futurístico: um assistente wireless para a cozinha. O Sook mostra receitas para sua “patroa”, não só as criadas por ela, mas também as de outros usuários conectados. Ele utiliza uma série de sensores que detectam quais ingredientes estão sendo usados e, dessa maneira, pode sugerir novas receitas e analisar se os ingredientes combinam entre si. Que dá água na boca pensar num assistente desses, isso dá, porém,

por enquanto, será preciso esperar. O Sook ainda é um produto conceitual. Ele é um dos nove finalistas do concurso Electrolux Design Lab 2008. Outro projeto conceitual criado para a Electrolux, e que também estava na Grand Designs Live, é o Stratosphere. Tratase de um cabideiro, que desodoriza e refresca as roupas penduradas nele, adiando, assim, a necessidade da lavagem. A idéia é simples: germes e micropoluentes (como cheiro de cigarro e produtos que usamos no corpo, como hidratantes) são sugados. Esse “ar sujo” passa por um filtro e é descontaminado.

Grohe Ondus

Outra novidade na feira foi a Napshell (concha para cochilo). Um produto high tech em prol do descanso. Criação de sete estudantes de arquitetura alemães — Britta Szorg, Markus Abele, Martin Nerukar, Paul Christian,Christine Bachl, Nicolas Reber e Fritz Mielert —, a Napshell foi desenvolvida inteiramente baseada em estudos sobre movimento do corpo humano e ergonomia. Seu estofamento especial proporciona conforto para qualquer tipo de usuário, independentemente de peso e altura, e o produto possui também efeitos audiovisuais para ajudar o descanso.

Democracia — Um diferencial da Grand Designs Live, comparando-a com outras feiras de design, é o fato de ela ser aberta também para o consumidor final, não apenas para designers, arquitetos e profissionais de interiores. Nessa edição, os ingressos variavam de 10 a 18 libras (de, aproximadamente, R$ 32,00 a R$ 58,00) e permitiam o acesso a todos os setores do evento. Dos cinco setores da feira — interiores, construção, cozinhas, banheiros e jardins —, o Grand Interiors é o mais visitado. Além de apresentar as novidades de importantes marcas, como Vitra e BoConcept, possui stands com produtos à venda, o que acaba sendo irresistível. Nesta edição, um dos stands mais legais era o The Icon Pop Up Show, um delírio para os apaixonados por design. Nele, era possível encontrar e comprar almofadas, luminárias, espelhos e diversos acessórios de decoração de famosas marcas do design britânico, como black+blum, Suck UK e Established & Sons.

Napshell 9


No stand, também era possível aprender que o futuro pode ser feito de papelão. A consciência vinha de uma das grandes promessas do design inglês, Giles Miller, e os produtos (à venda) eram a poltrona Pool Rocker e o relógio de mesa Mantle Clock, ambos fabricados em papelão. Lindos! A feira também teve palestras e workshops com profissionais e celebridades inglesas, cobrindo assuntos que iam do tradicional “faça você mesmo” até aulas de culinária. E não podemos esquecer o concurso Grand Designs Awards, este ano, em sua 4ª edição. O objetivo da premiação é encontrar projetos de residências (novas ou reformadas) e produtos, que tenham demonstrado inovação e excelência em design. A importância desse prêmio pode ser comprovada pelo seu time de jurados, que, este ano, apresentou nomes como Sebastian Conran (diretor da Conran & Partners) e George Ferguson (ex-presidente do Royal Institute of British Architecture).

Sonic Chair

Dentre os produtos vencedores, merece destaque um misturador, todo automatizado, para pia. Basta escolher a temperatura e o volume de água e ela cai do jeito que o usuário deseja. O Grohe Ondus, da Grohe, foi considerado pelo júri uma peça futurística, sofisticada e de fácil utilização. O Torch Light, da tradicional empresa britânica Established & Sons, também foi um dos produtos vencedores. Ele é um sistema de luminárias pendentes, que apresenta três formatos e pode ser utilizado como uma única peça ou em grupos de 10 ou 20, que dão um efeito impressionante. Além desses dois produtos, todos os finalistas e vencedores do Grand Designs Awards podem ser vistos no site do concurso (www.granddesignsawards.com). No mais, é esperar os próximos capítulos, ou melhor, as próximas edições, da Grand Designs Live. Com certeza, campeãs de audiência. ■ Grohe Ondus

10 junho 2009


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Exclusivo

por Andréa Magalhães

m “Árvores” é l A de Matali

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essa “árvore”, o que se colhe é banco de plástico. Um a um, como se fossem frutos. E com uma grande vantagem: não é preciso esperar a época certa do ano. Todo dia é perfeito para fazer a “colheita” no Lycée Germaine Tillon, em SainBel, na região de Ródano-Alpes, onde está a “L’arbre à poufs” (“A árvore com pufes”, em português). É só esperar o recreio. Os alunos da escola aprovaram durante a estação passada. Quem “plantou” a idéia foi a designer francesa Matali Crasset. A proposta dela era transformar a área verde da escola mais interativa para os estudantes. Então, nasceram as “sementes” de três “árvores” esculturais e interativas: “L’arbre à poufs”, “Le dôme d’oiseaux” (“O ninho dos pássaros”) e “La prairie de son” (“A campina do som”). “Eu sonhava com um lugar de encontro natural para os alunos na área verde da escola”, explica a designer, em entrevista exclusiva à ESCALA. E a designer sabe muito sobre árvores desde a sua infância. “Freqüentemente plantava árvores com meu pai, que é fazendeiro”, conta Matali.

L’arbre à poufs

12 junho 2009


La prairie de son

Pufes “maduros” — Os “frutos” ficam enganchados nos “galhos” da “L’arbre à poufs”. São laranjas. Plástico rotomoldado. Os alunos são encorajados a colhê-los e, depois, sentar neles em volta da árvore. “São um convite a relaxar, a ficar com os amigos”, diz a designer. Nas palavras de Matali, é claro que existe uma relação de semelhança com colher frutos reais. “Mas não é somente uma vez por ano; é a cada recreio na escola”, compara. Se “L’arbre à poufs” é para tocar, “La prairie de son” é para ouvir. A proposta é entrar, sentar, deitar..., ouvindo, se houver vento, os sons da “árvore”, composta por vários sinos verdes. Eles ficam nos “galhos” e balançam como folhas. “La prairie de son” tem estrutura de aço, acabamento de pintura epóxi e sinos em forma de tubos de aço. “Escolhi metal pelo som”, conta Matali, acrescentando que o espaço é confortável para 15 alunos. A terceira e última “árvore” foi criada pensando nos estudantes, mas, “se passarinhos quiserem usá-la, serão bem-vindos”, diz Matali. O nome dela, “Le dôme d’oiseaux”, parece fazer o convite. A estrutura também é de aço e o acabamento é de pintura epóxi. Bons frutos — Se os alunos estão felizes, Matali estará também. A proposta do projeto foi aceita e, hoje, todos na escola querem interagir com as “árvores” esculturais. Segundo a designer, os estudantes entenderam imediatamente como usar as três “árvores”, que eles amam. “A felicidade das pessoas na escola é o melhor fruto que colhi. Ela me dá energia para novos projetos”, finaliza a designer. Boas “colheitas”, Matali! ■

Le dôme d’oiseaux 13


Exclusive

by Andréa Magalhães

Matali’s “trees”

P

lastic seat is what one picks from this “tree”. One by one, as they were fruits. And with a great advantage: there is no need to wait the right time of the year. Each day is perfect to pick the “crop” at Lycée Germaine Tillon, in Sain-Bel, in the Rhône-Alpes region, where “L’arbre à poufs” (“The cushion tree”, in English) is. One has just to wait the break. The students approved it during the last season. French designer Matali Crasset “planted” the idea. Her proposal was to transform the green area of the school more interactive for the students. So, the “seeds” of three sculptural and interactive “trees” were born: “L’arbre à poufs”, “Le dôme d’oiseaux” (“The birds’ nest”), and “La prairie de son” (“The acoustic grassland”). “I dreamed about a natural meeting place for the students on the green area of the school”, explains the designer, in exclusive interview to ESCALA Magazine. And the designer knows a lot about trees since her childhood. “I often planted trees with my father, who is a farmer”, tells Matali.

The cushion tree

“Ripe” poufs — The “fruits” are hooked in the “branches” of “L’arbre à poufs”. They are orange. Roto-moulded plastic. The students are encouraged to pick them and, afterwards, to sit on them around the tree. “They are an invitation to relax, to stay with friends”, says the designer. According to Matali, of course there’s a similarity with picking real fruits. “But it’s not only once a year; it’s at each break at school”, she compares. If “L’arbre à poufs” is to touch, “La prairie de son” is to listen to. The proposal is to enter, sit, lay down..., hearing, if there’s wind, the sounds of the “tree”, composed of several green bells. They are attached to the “branches” and swing like leaves. “La prairie de son” has steel structure, epoxy paint finishing, and bells in the shape of steel tubes. “I chose metal for the sound”, tells Matali, adding that the place is comfortable for 15 students. The acoustic grassland

The third and last “tree” was created thinking about the students, but, “if birds want to use it, they will be welcome”, says Matali. Its name, “Le dôme d’oiseaux”, seems to make the invitation. The structure is also made of steel and the finishing is made of epoxy paint. Good fruits — If the students are happy, Matali will be too. The proposal of the project was accepted and, today, everybody in the school wants to interact with the sculptural “trees”. According to the designer, the students understood immediately how to use the three “trees”, that they love.

The birds’ nest

14 junho 2009

“People’s happiness in the school is the best fruit that I have picked. It gives me energy for new projects”, finishes the designer. Good “crops”, Matali! ■


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Viviane Cunha Associados • Tel.: 55 21 2226 0424 • projetos@vivianecunha.com.br

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Reportagem

Hotel em tubos de concreto

E

ntrar pelo cano por vontade própria... e pagando pra isso. Não no sentido da gíria, lógico. Mas no sentido físico da coisa. Se a proposta já é inusitada, imagine pensar que o cano, na verdade, é um “quarto” de hotel. Das Park Hotel, em Linz, na Áustria, é, sem dúvida, um dos hotéis mais diferentes que já passaram pelas páginas de ESCALA. E por aqui já tivemos “hotel de um quarto só” (Everland, Suíça/ ESCALA n° 6), “o hotel mais sexy do mundo” (Nordic Light Hotel, Suécia/ ESCALA n° 16), “o mais gélido” (Ice Hotel, Suécia/ ESCALA n° 16)... Mas hotel feito com canos de esgoto é a primeira vez. Além do fato de ele só funcionar de maio a outubro (porque não há calefação nos quartos) e de só possuir

16 junho 2009

três quartos, há mais uma peculiaridade inacreditável: uma noite no Das Park Hotel custa somente o que o seu hóspede puder ou quiser pagar. A quantia recebida ajuda a manter o projeto. Hotel sem recepção, nem room service. Mas com quartos que são cilindros de concreto, no meio de um parque austríaco. O que parece louco demais está em seu quarto ano de sucesso. Fechar as portas só no inverno. Criador e criatura — A criação é do designer Andreas Strauss. Ele transformou canos de esgoto, feitos de concreto, em quartos de hotel, simplesmente dando a eles uma parede de fundo, uma porta na frente e perfurando uma janela lateral, para entrar um pouco de luz natural. Simples, sim, mas cheio de criatividade.


Strauss escolheu os canos por dois motivos principais: porque são pré-fabricados e porque suas paredes de concreto de 20cm oferecem muita segurança contra vândalos e outros sem boas intenções. Os quartos, de 2m de comprimento, são surpreendentemente luminosos e com boas propriedades térmicas — com paredes tão espessas, até mesmo no verão, nunca fica tão quente. A colaboração de fabricantes austríacos foi fundamental para tornar realidade o sonho do designer. A empresa C Bergmann, por exemplo, forneceu os três “canos-quartos” e o transporte deles. Isso sem falar nas boas parcerias que garantiram os detalhes internos das acomodações. No “quarto-cano”, há cama de casal, lençóis, travesseiros, abajur, saco de dormir... Conceito — É claro que quem reserva um quarto no Das Park Hotel não está à procura de conforto, luxo, mimos de um hotel cinco estrelas... O que se procura é acomodação básica: cama, luz, eletricidade. E isso ele oferece. “É uma casa descomplicada para se ficar por um certo tempo”, explica o designer. Se não for para ficar, pelo menos, para dormir. Principalmente, para estudantes, aventureiros e outras pessoas com pouco dinheiro.

Como se vê nas imagens, os quartos ficam juntos, um do lado do outro, todos em cima da grama. “É um lugar para estar sozinho”, resume Strauss. Todos os aparelhos e serviços não incluídos (toilet, chuveiro, minibar, café da manhã, almoço e até piscina) são oferecidos na redondeza. Com certeza, o sistema “pague o quanto quiser” leva em consideração essas coisas que faltam no “cardápio” do Das Park Hotel. Cano com maçaneta — Ao fazer a reserva, o hóspede recebe, via e-mail, um código pessoal, que abrirá a porta do seu quarto. Esse código de segurança é ativado no check-in, às 15h, e é válido até as 11h59 do dia do check-out. Segundo Strauss, reservas devem ser realizadas exclusivamente via e-mail (www.dasparkhotel.net/ reservation). Podem ser feitas durante o ano todo, mas devem ser confirmadas com, no mínimo, um dia de antecedência em relação à chegada. Caso contrário, o quarto ficará disponível para outros clientes. Para aqueles que gostam de experiências originais e únicas, passar uns dias no Das Park Hotel tem tudo para ser inesquecível. ■ 17


Report

Hotel in concrete pipes

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as Park Hotel, in Linz, Austria, is, without a doubt, one of the most different hotels that have already been divulged in ESCALA Magazine up to now. Remember “the hotel of just one room” (Everland, Switzerland/ ESCALA nº 6), “the sexiest hotel in the world” (Nordic Light Hotel, Sweden/ nº 16), “the most frozen” (Ice Hotel, Sweden/ nº 16)… But this is the first time we talk about a hotel made of sewer pipes.

Strauss has chosen pipes for two main reasons: because they are pre-fabricated and because its 20cm concrete walls provide a lot of safety against vandals and others without good intentions. The rooms, 2 meters long, are surprisingly bright and with good thermal properties — with such thick walls, even in summer, it never gets too hot. That sounds good.

Beyond the fact that it only opens from May till October (there is no insulation in the rooms) and of possessing only three rooms, there is one more incredible peculiarity: a night in Das Park Hotel costs just as much as you can afford or want to pay. The received amount helps to support the project.

The collaboration of Austrian manufacturers has been fundamental to transform this dream into reality. C Bergmann Company, for example, has supplied the three “pipe-rooms” and their transport.

It is a hotel with neither reception desk, nor room service. But with rooms that are concrete cylinders in the middle of an Austrian park. What seems to be crazy is in its fourth successful year. Only in winter it doesn’t open. Creator and creature — Andreas Strauss is the author of the idea. The designer has transformed standard concrete sewer pipes into hotel rooms, simply by giving them a back wall and a front door, and drilling a lateral window for a little bit of natural light. It is simple, but very creative. 18 junho 2009

Other good partnerships have guaranteed important internal details. In the “pipe-room”, there are double bed, sheets, pillows, lamp, sleeping bag … Concept — It is obvious that one who books a room in Das Park Hotel is not looking for comfort, luxury, and five stars facilities… What is searched is basic accommodation: bed, light, power connection. And Das Park Hotel offers these things. “It is an uncomplicated home for a certain time”, explains the designer.


If it is not to stay inside, at least, it is to sleep. It is mainly for students, adventurers, and other people with little money. As it is seen in the images, the rooms are together on the grass. “It is a place to be alone”, he summarizes. All the non-included devices and services (toilet, shower, minibar, breakfast, lunch, and even swimming pool) are offered in the neighborhood. For sure the “pay as you wish” system takes this missing things into consideration. Pipe with door handle — Upon booking, the guest receives, via e-mail, a personal code that will open the door of his room. This safety code is activated in the check-in (3pm) and it is valid until the check-out, always before 12am. According to Strauss, reservations must be made exclusively via email (www.dasparkhotel.net/ reservation). They can be made at any time of the year, but they must be confirmed, at least, one day ahead of the arrival. Otherwise, the room will be available for other prospective customers. For those who like original and unique experiences, Das Park Hotel has everything to be unforgettable. ■

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360°

Cheiro de infância

por Taciana de Abreu e Silva taciana.abreu@nbscom.com.br

Back to the 60’s

digital. 2009

Não poderia concordar mais com a italiana Brionvega: por que não dar nova vida a clássicos do design, inflando-os com novas tecnologias? Afinal, as novas mídias deixaram as coisas mais fáceis, mas, nem sempre, mais bonitas. Eis a tacada de mestre da empresa: relançar o icônico Radiofonografio RR126, de 1965, assinado pelos irmãos Pier Giacomo e Achille Castiglioni, agora, com CD e DVD. Notem: o novo RR226 tem design tal qual o original. Genial! Agora, é aguardar a versão 3.0 com mp3 e pick-up digital.

Continuando a sessão nostalgia, outro resgate louvável está no trabalho dos arquitetos da M Moster and Associates para a agência de propaganda Ogilvy & Mather, de Guanghou. Eles criaram, dentro da agência, um ambiente com cara de infância, com direito a carrossel e tudo. Afinal, nada mais inspirador do que brincar. O projeto ganhou o prêmio “China’s Most Successful Design Award 2008”.

20 junho 2009

Se o livro “Love Design” for tão quente quanto a sua campanha publicitária de lançamento, vai tirar o fôlego de muita gente. Em bom português, a campanha é um tesão! Ponto para a Exquisite, que lançou o livro — com 20 projetos surpreendentes relacionados com o tema “amor” — e que tem chamado atenção por olhar com carinho o que todos amamos.

Nata do grafite

Hot design

1965

Paredes que falam muito. Na HomeGrown (Ipanema), as paredes são decoradas com a nata do grafite carioca. Pintura multicor-streettech, do Bragga, gravuras mangue beat, de Big, ilustrações sensíveis, de Mateu Velasco, e telas ripadas, de Vagner do Nascimento. Preços entre R$ 200,00 e R$ 2.300,00. A loja fica na Maria Quitéria, 68.


Murillo Meirelles

Natureza não se destrói, se reinventa

Ban dej ad es em ent e

Moda e objetos de decoração feitos com sementes, fibras naturais, frutos secos...

Atelier Monica Carvalho

Rua Maestro Francisco Braga, 442 / 101 I Bairro Peixoto I Copacabana Tel.: (21) 2547 9989 I monica@monicacarvalho.com.br I www.monicacarvalho.com.br

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de aça í


Exclusivo

por Andréa Magalhães

Casa Equis

o c e s o A e

r t n

arquitetura de Sandra Barclay e Jean Pierre Crousse faz pensar em água no deserto. Uma experiência que para muitos pode ser impensável, mas que, para eles, vencedores do Premio a la Calidad Arquitectónica 2008/ Colegio de Arquitectos del Perú, é expertise. O casal de arquitetos descobriu no árido deserto peruano — onde água da chuva é raridade — o ambiente fértil para construir suas casas dicotômicas com vista para o Oceano Pacífico, logo em frente.

E

Dicotômicas, porque são desérticas e costeiras, tradicionais e modernas, fechadas e abertas, pesadas e leves, opacas e transparentes... Cada uma delas sendo encarada como um verdadeiro experimento, que nutre a seguinte, conforme explica Crousse, peruano, descendente de franceses e italianos. Sandra é peruana, descendente de escoceses. Dentre esses projetos, o mais famoso é a Casa Equis. Por causa da água. Água do Pacífico, mas também de sua piscina, com parede transparente. Sandra e Crousse conseguiram um efeito visual muito interessante: a ilusão que a água da piscina está sobre a água do oceano. Duas camadas diferentes de água; uma piscina suspensa entre céu e mar. Este projeto ficou conhecido mundialmente e ganhou vários prêmios, como Record Houses Award (USA, 2004) e IV Bienal Iberoamericana de Arquitectura (Peru, 2004), segundo lugar. Em entrevista exclusiva à ESCALA, os arquitetos falam sobre “a reconciliação com o deserto peruano; uma tentativa de fazê-lo habitável, física e existencialmente”. Para descobri-lo, foi preciso morar e trabalhar em Paris. 22 junho 2009


e o molhado Casa Equis

ESCALA: Imagine que a Casa Equis seja um experimento de laboratório. No tubo de ensaio, água do mar embaixo. Água de piscina em cima. O que garantiu o sucesso deste experimento? Crousse: No visual, a associação dos elementos. A água da piscina se associa com a do oceano, como um cubo de água flutuando no Pacífico. Isso é o que chama a atenção. Contudo, além disso, há a transformação da arquitetura fechada, muda, opaca, convexa e pesada, vista do deserto, em algo aberto, eloqüente, transparente, côncavo e leve, quando se atravessa a soleira da entrada, ingressando na intimidade da casa. ESCALA: A piscina reflete esta transformação, não? Crousse: Certamente. Ela aparece extremamente pesada vista do exterior e completamente leve vista do interior.

ESCALA: Quais as principais características da Casa B, Casa M e Casa Playa Escondida? Crousse: Todas estas casas são uma tentativa de reconciliação com o deserto peruano; uma tentativa de fazê-lo habitável, física e existencialmente, sendo cada uma delas um verdadeiro experimento, que nutre a seguinte. ESCALA: Nesses seus experimentos, quais são os elementos usuais? Sandra: Volumes simples e fechados, muros, cores tiradas das casas pré-colombianas e coloniais... ESCALA: A Casa B, também em Cañete, é um projeto singular. Sandra: A casa tem três níveis independentes, ligados por uma escadaria externa. O programa funcional propõe uma autonomia vertical, com os pais habitando o nível superior e as crianças, a parte mais baixa. Ambos os níveis são ligados pelos espaços sociais. ESCALA: É mais difícil projetar no deserto do que em outros ambientes? Crousse: Não, cada paisagem possui suas características particulares e desafios. Nos desertos, há menos precedentes arquitetônicos do que em outras paisagens — isso implica uma menor cultura arquitetônica sobre como intervir nesses lugares —, mas, por outro lado, suas condições extremas têm gerado respostas criativas e singulares, que podem ser excelentes referências.

ESCALA: Como vocês mergulharam neste projeto? Sandra: Tudo começou com a primeira casa que nós projetamos em Cañete, Peru, desenhando-a no nosso studio, em Paris. A Casa Equis é o resultado de um processo. Crousse: Nós começamos concebendo um sólido puro, que parecesse sempre ter estado lá. Durante o processo de desenho, nós “escavamos” este sólido teórico, removendo matéria pouco a pouco, exatamente como arqueólogos removeriam areia, para descobrir ruínas pré-colombianas nessa região. ESCALA: Água e a arquitetura de vocês. Isso foi premeditado? Sandra: A água está quase sempre presente na nossa arquitetura mais conhecida, porém isso não foi premeditado.

ESCALA: A arquitetura de vocês tem tudo a ver com o quê? Sandra: Revelar as potencialidades ocultas da paisagem, urbana ou natural, partindo de uma consideração essencial: o homem permanece o motivo e o centro da arquitetura. 23


ESCALA: Por que vocês foram para Paris? Crousse: Depois do casamento, viajamos para a capital francesa, porque eu consegui um emprego lá, no escritório de Enrique Ciriani. Peruano, ele havia se mudado para Paris nos anos 60. Depois, em 1994, abrimos nosso próprio escritório em Paris, o Barclay & Crousse Architecture. Em Paris, Sandra estudou na Ecole Nationale Supérieure d’Architecture de Paris-Belleville, onde dei aula. Sandra lecionou na Ecole Nationale Supérieure d’Architecture de Paris-La Villette.

ESCALA: E a França? Sandra: Rigor e cultura.

ESCALA: É verdade que vocês precisaram ir para Paris para descobrir o deserto peruano? Crousse: Quando fomos para Paris, aprendemos como é maravilhoso trabalhar num deserto; as possibilidades arquitetônicas que nós temos. Sandra: Precisávamos do distanciamento para refletir sobre como nós deveríamos fazer arquitetura em nosso país. Crousse: Lá, nós notamos que, no Peru, o sol às vezes está vertical, algo que dá uma iluminação clara, nada quente, como ocorre onde o sol está mais inclinado. Aqui, o frio é o mesmo dentro e fora. Como não chove, não é necessário cobrir. Todos esses dados nos ajudaram a desenvolver uma arquitetura que nós não podemos fazer em qualquer outro lugar no mundo.

ESCALA: Na França, quais são os principais projetos de vocês? Sandra: O projeto de remodelação do Museo Malraux — selecionado para o prestigioso prêmio l’Equerre d’Argent, em 1999 —, Victor Hugo Housing, Casa H, Le Gambetta Building...

ESCALA: Quais são as melhores coisas que o Peru dá para a concepção da arquitetura de vocês? Sandra: Liberdade e abstração.

24 junho 2009

ESCALA: Como peruanos, como vocês se sentiram trabalhando em Paris? Algum preconceito? Crousse: Apesar da enorme dificuldade para obter trabalho, Paris é um lugar incrível para se trabalhar. O acesso à cultura e à inteligência é muito mais imediato do que na América Latina.

ESCALA: Quais as principais diferenças entre a arquitetura desenvolvida em Paris hoje em dia e a arquitetura desenvolvida em Lima? Crousse: Na Europa, a arquitetura está regida por convenções e normas, cujo objetivo é “normalizar” o produto arquitetônico, reduzindo-o a seus valores puramente econômicos. Só os arquitetos do “Star System” escapam disso. No Peru, a sociedade começa apenas a reconhecer na arquitetura um valor social e cultural, mas a ignorância é esmagadora, o que não impede de encontrar brechas para novas propostas. Nos dois lugares, é imprescindível ter uma atitude resistente e perseverante, que rompa a inércia e faça a arquitetura avançar para lá do que a sociedade pensa ser necessário.

Casa B


Casa B

ESCALA: O que você diria sobre arquitetura sustentável em Paris e em Lima? Crousse: Em Paris, a sustentabilidade tem sido “engessada” em normas e certificações. No Peru, ninguém sabe ainda a importância da sustentabilidade na arquitetura. ESCALA: Quando vocês voltaram para Lima? Crousse: Em 2005. Mas nós continuamos desenvolvendo projetos na França, com nossos sócios e amigos Jean Marc Viste e Guilhem Roustan, sob o nome de “Atelier Nord Sud”. ESCALA: Como professora, qual é a sua maior felicidade? Sandra: Quando um aluno encontra o seu próprio caminho. ESCALA: O que você diria para brasileiros que estão começando suas carreiras como arquitetos? Crousse: Eu diria a eles para buscar fortemente cultura e trabalho. Cultura e trabalho são ingredientes indispensáveis para tornar-se um verdadeiro arquiteto. Sandra: E cultura não é adquirida só nos livros. Arquitetos precisam aprender a observar. Viajar.

Crousse: E, sem a perseverança do trabalho contínuo, nós não chegamos a lugar algum. Nós precisamos lembrar Le Corbusier, “la recherche patiente”. ESCALA: Algum experimento arquitetônico hoje em dia? Sandra: Atualmente, pensando sobre nossos projetos, estamos tentando conciliar a organização labiríntica do espaço pré-colombiano peruano com o espaço fluido da modernidade arquitetônica. É um trabalho difícil, que exige muita pesquisa. ESCALA: Casados e sócios: como este fato reage no “laboratório” de vocês? Sandra: O bom de trabalharmos juntos é que, quando um está bloqueado, vem o outro com um olhar mais fresco. Você tem uma opinião crítica permanente. Crousse: Sandra e eu continuamos a levar trabalho para casa e a casa para o trabalho. Então, decidimos ter escritório e casa no mesmo edifício. A nossa saúde, física e mental, nos agradece. ■

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Exclusive

by Andréa Magalhães

Between dry

W Houses

S

andra Barclay and Jean Pierre Crousse’s architecture makes one think about water in the desert. An experience that can be unthinkable for many, but which, for them, winners of Premio a la Calidad Arquitectónica 2008/ Colegio de Arquitectos del Perú, is expertise. The couple has discovered in the barren Peruvian desert — where rainwater is rare — the fertile environment to construct their dicotomic houses with ocean-front view. Look at the beautiful Pacific Ocean! Dicotomic, because they are desert-like and coastal, traditional and modern, closed and open, heavy and light, opaque and transparent... Each one of them being faced as a true experiment that nourishes the following, as explains Crousse, Peruvian, descendant of Frenchmen and Italians. Sandra is Peruvian, descendant of Scotchmen.

Among these projects, the most famous is Casa Equis. Because of the water. Water from the Pacific but also from its swimming pool, with transparent wall. 26 junho 2009

Sandra and Crousse have obtained a very interesting visual effect: the illusion that the water of the swimming pool is upon the water of the ocean. Two different layers of water; a swimming pool suspended between sky and sea. This project has become known all over the world and has won several prizes, like Record Houses Award (USA, 2004) and IV Bienal Iberoamericana de Arquitectura (Peru, 2004), second place. In exclusive interview to ESCALA Magazine, the architects speak about “the reconciliation with the Peruvian desert; an attempt to make it inhabitable, physical and existentially”.To discover it, it was necessary to live and to work in Paris.

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ESCALA: Imagine Casa Equis is a lab experiment. In the test tube, sea water below. Pool water above. What guaranteed the success of this experiment? Crousse: In appearance, the association of the ingredients. The water of the swimming pool associates itself with the water of the ocean, like a water cube floating in the Pacific. This is what calls the attention. But beyond this, there is the transformation of the closed, dumb, opaque, convex, and heavy architecture, seen from the desert, into something open, eloquent, transparent, concave, and light, when one crosses the threshold of the entrance, getting into the intimacy of the house. ESCALA: The swimming pool reflects this transformation, doesn’t it? Crousse: Certainly. It appears extremely heavy seen from the outside and completely light seen from the inside. ESCALA: How did you dive into this project? Sandra: Everything has begun with the first house we have projected in Cañete, Peru, drawing it in our studio in Paris. Casa Equis is the result of a process. ESCALA: Water and your architecture. Was this premeditated? Sandra: Water is almost always present in our most known architecture, but this was not premeditated. ESCALA: Complete, please: “Our architecture has everything to do with…”. Sandra: To disclose the hidden potentialities of the landscape, urban or natural, departing from one essential consideration: man remains the reason and the center of architecture. ESCALA: What are the main characteristics of Casa B, Casa M, and Casa Playa Escondida? Crousse: All these houses are an attempt of reconciliation with the Peruvian

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desert; an attempt to make it inhabitable, physical and existentially, being each one of them a true experiment that nourishes the following. ESCALA: In these experiments of yours, what are the usual elements? Sandra: Simple and closed volumes, walls, colors taken from preColumbian and colonial houses… ESCALA: Casa B, also in Cañete, is a singular project. Sandra: The house has three independent levels, linked by an external staircase. The functional program proposes a vertical autonomy, with the parents inhabiting the upper level and the children, the lower one. Both levels are linked by the social spaces. ESCALA: Is it more difficult to project in the desert than in other environments? Crousse: No, each landscape has its particular characteristics and challenges. In the deserts, there are less architectonic precedents than in other landscapes — this implies a smaller architectonic culture about how to intervene in these places —, but, on the other hand, their extreme conditions have generated creative and singular answers, which can be excellent references. ESCALA: Why did you go to Paris? Crousse: After the wedding, we traveled to the French capital, because I got a job there at Enrique Ciriani’s practice. Peruvian, he had moved to Paris in the 60’s. Afterwards, in 1994, we opened our own practice in Paris, Barclay & Crousse Architecture. In Paris, Sandra studied at Ecole Nationale Supérieure d’Architecture de Paris-Belleville, where I taught. Sandra taught at Ecole Nationale Supérieure d’Architecture de Paris-La Villette.

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Casa Equis

ESCALA: Is it true that you needed to go to Paris to discover the Peruvian desert? Crousse: When we went to Paris, we learned how wonderful it is to work in a desert; the architectural possibilities that we have. Sandra: We needed distance to reflect about how we should make architecture in our country. Crousse: There, we noticed that in Peru the sun is sometimes vertical, something that gives a light illumination, nothing hot, like where the sun is more inclined. Here, the cold is the same inside and outside. As it doesn’t rain, it is not necessary to cover. All these pieces of information helped us to develop an architecture that we can’t do in any other place all over the world. ESCALA: What are the best things Peru gives to the conception of your architecture? Sandra: Freedom and abstraction. ESCALA: And France? Sandra: Rigor and culture. ESCALA: As Peruvians, how did you feel working in Paris? Any prejudice? Crousse: In spite of the enormous difficulty to obtain work, Paris is an incredible place to work. The access to culture and intelligence is much more immediate than in Latin America. ESCALA: In France, what are your main projects? Sandra: The remodelation of Museo Malraux — selected for the prestigious prize l’Equerre d’Argent, in 1999 —, Victor Hugo Housing, Casa H, Le Gambetta Building... ESCALA: What are the principal differences between the architecture developed in Paris nowadays and the architecture developed in Lima? Crousse: In Europe, architecture is conducted by conventions and rules, whose objective is “to normalize” the architectural product, reducing it purely to its economic values. Only the architects who belong to the “Star System” escape from this. In Peru, society only starts to recognize a social and 28 junho 2009

cultural value in architecture, but the ignorance is smashing, what does not hinder to find breaches for new proposals. In both places, it is essential to have a resistant and persistent attitude, which breaks inertia and makes architecture to advance beyond what society thinks to be necessary. ESCALA: When did you return to Lima? Crousse: In 2005. But we continued developing projects in France, with our friends and partners Jean Marc Viste and Guilhem Roustan, under the name of “Atelier Nord Sud”. ESCALA: What is your greatest happiness being a teacher? Sandra: When a student finds his own way. ESCALA: What would you say to Brazilians who are beginning their careers as architects? Crousse: I would tell them to search strongly for culture and work. Culture and work are indispensable ingredients to become a true architect. Sandra: And culture is not acquired only in books. Architects need to learn to observe. Crousse: And, without the perseverance of the continuous work, we don’t get anywhere. We must remember Le Corbusier, “la recherche patiente”. ESCALA: Any architectural experiment nowadays? Sandra: Currently, thinking about our projects, we are trying to conciliate the labyrinthic organization of the pre-Columbian Peruvian space with the fluid space of architectural modernity. It is a difficult work, which demands much research. ESCALA: Couple and partners: how does this fact react in your “lab”? Sandra: The good thing about working together is that, when one is blocked, the other comes with a fresher glance. You have a permanent critical opinion. Crousse: Sandra and I continue taking work home and taking home to work. Thus, we decided to have office and home in the same building. Our health, physical and mental, thanks us. ■


ArqNow

por Suzy Castañeda

“Lata de presunto”

Arquiteto suíço ganha Pritzker 2009 Peter Zumthor, 65, é o vencedor do “Oscar da arquitetura”, edição 2009. Depois de dois anos seguidos premiando “estrelas” — Richard Rogers, em 2007, e Jean Nouvel, em 2008 —, o júri do Pritzker resolveu premiar este ano um exmarceneiro, que vive recluso em uma vila nos Alpes suíços.

Um possível novo ícone arquitetônico de Londres tem nome para lá de gastronômico: “lata de presunto”. E parece que a inspiração para a forma do prédio veio daí mesmo. O novo arranha-céu, com 90m, 18 andares de escritórios e lojas comerciais no térreo, tem preocupações ambientais, mas nem por isso foi aprovado de cara. O projeto, empreendimento da Targetfollow, com consultoria urbanística da DP9, ainda está às voltas com o OK da prefeitura de Londres.

Grandiosidade chinesa

Parece que a China quer mesmo ser grande em tudo. Olhem só este top resort chamado Songjiang, que está previsto para nascer perto de Xangai. O projeto é do escritório Atkins Architecture, conhecido por seu design grandioso e de impacto. Todo o empreendimento terá água ao seu redor e haverá, inclusive, partes submersas. Arquitetura sustentável, com telhado gramado e uso de energia geotermal.

Arquitetos do BR em Dubai Em outubro, uma missão de arquitetos brasileiros irá para Dubai. O objetivo? Divulgar, nos Emirados Árabes, projetos e serviços brasileiros de arquitetura. A idéia é que eles passem a construir lá, mas também atraiam empreendimentos construtivos para o BR. Além desse marketing de relacionamento, os arquitetos participarão da renomada feira City Scape e conhecerão a arquitetura local. A ação é promovida pela AsBEA e pela Apex. Para 2010, a meta global de ambas é exportar US$ 3,5 milhões em serviços de arquitetura. Quem já faz sucesso em Dubai é o arquiteto Luiz Eduardo Indio da Costa e um de seus filhos, o designer Guto Indio da Costa.

Arquiteto ganha US$ 1 milhão A “onda” de reality shows fez mais um milionário. O arquiteto norte-americano Richard Best venceu o “The Hydra Executives 2009”, uma espécie de “O Aprendiz”, nos Emirados Árabes. Ganhou US$ 1 milhão e doou US$ 100 mil para uma instituição das Nações Unidas de combate à fome. Este honrou a categoria. 29


Exclusivo

por Andréa Magalhães Daniel Plá

Do Vidigal a c o p i t i b I a

Vidigal

P

ara conhecer os novos projetos do nosso entrevistado é preciso “pellegrinar”. Na nossa linguagem, no melhor dos sentidos, isso significa caminhar por uma rua íngreme na Gávea. Subir, subir, parando para descansar e apreciar a exuberância da natureza local. Recusar carona e subir, entrando num condomínio fechado. Subir mais, mais, e, já na casa-escritório (escritório-casa), finalmente, ser recebido de braços abertos pelo arquiteto Helio Pellegrino. Em entrevista exclusiva à ESCALA, entre palavras empolgadas sobre um projeto novo e outro, ele pára para recitar Fernando Pessoa, mostrar quadros de sua autoria, falar de política e almoçar. Naturalmente, comida natural. O grand finale vem com o convite para conhecer in loco seu projeto no Vidigal, um dos mais recentes. Convite feito, convite aceito. Crise? — A lista é extensa. Em menos de cinco minutos, Pellegrino cita mais de dez novos projetos. Bar Renascimento, hotel em Ibitipoca (MG), pizzaria em Juiz de Fora, megaprojeto no Vidigal, casas na Praia do Canto e em frente à enseada da Ferradura, em Búzios, bangalôs em Itacaré (BA)... Crise? Certamente, com ele, nem de criatividade, nem de trabalho. Conforme conta, a casa em frente à enseada da Ferradura, em Búzios, é uma autêntica “casa Pellegriniana”: possui teto de treliça de taquara, piso cimentado e com uma parte feita

30 junho 2009

Reserva do Ibitipoca


de madeira de demolição, painéis assinados pelo arquiteto e um generoso pé-direito de 8m. “É uma casa franciscana, sem firulas”, resume. Lobos-guarás, gaviões, micos e uma flora rica em espécies. Segundo Pellegrino, o “melhor do Brasil” estará no hotel (Reserva do Ibitipoca), em Ibitipoca, Zona da Mata mineira. “Serão 18 quartos, cinco bangalôs e um paiol, que será usado como espaço para massagem”, ele adianta.

Reserva do Ibitipoca

No local, reinarão absolutos móveis com madeira de demolição. No mais, ele diz: “Estamos deixando o capim crescer em paz”. Em Itacaré, na Bahia, a área para o projeto é gigantesca. Segundo Pellegrino, lá, serão construídos 60 bangalôs palafitados. “Você não vai pisar na natureza”, explica o propósito das palafitas. Sem cortar árvores — Madeira feita de fralda, dinheiro moído e fibra de coco é coisa de Helio Pellegrino. O material reciclado (Ecowood) está no projeto do Vidigal, uma de suas novidades na capital carioca. O arquiteto foi contratado pelo empresário alemão Rolf Glaser, para ajudar a transformar a favela em um pólo turístico. Isso inclui projetos de hotel, restaurante, lanchonete, bares, um pequeno shopping...

Casa Ferradura I 31


Casa Ferradura I

Para tanto, muitos novos imóveis serão construídos, mas vários já existentes serão comprados e reformados. De acordo com Pellegrino, a idéia é preservar o estilo arquitetônico da favela. Estilo este que ele chama de “orgânico lindo”. Na favela, junto com a equipe de reportagem de ESCALA, Pellegrino parece criança diante do brinquedo preferido. Não se furta de parar o carro para nos mostrar alguns dos locais de obras e, em cada parada, fala empolgado do que imagina para aquela determinada área. As obras ainda estão no início, mas dá para perceber que o projeto é ambicioso e que envolve bastante dinheiro: aproximadamente R$ 50 milhões (o projeto todo de transformação do local em pólo turístico). “Vou usar materiais do Rio Antigo; muito material reciclado. Muita pedraria, janelas e madeira de demolição, ladrilhos hidráulicos...”, conta Pellegrino. Aproveitando a ida até o lugar, ele faz questão de dar orientações a operários envolvidos no projeto, que prevê ainda um deck para se apreciar a estonteante vista. E locais para capacitação de mão-de-obra. “O social é o grande mote. As obras vão gerar emprego para os moradores e dar uma vida mais digna para eles. Sem dúvida, o que existe no Vidigal é muito mais humano do que a vida no Fasano”, compara o arquiteto. Para quem conhece a obra de Pellegrino, fica a certeza de que muita coisa boa está vindo por aí. ■

32 junho 2009


Exclusive

by Andréa Magalhães Daniel Plá

Pellegrino’s office

From Vidigal to Ibitipoca

T

o know the new projects of this architect, we need to “pellegrinar”. In our language, this means to walk on an inclined street in Gávea, Rio de Janeiro. To go up, stopping to rest and appreciate the exuberance of the local nature. To refuse hitchhiking and go up, entering a private condominium. To go up and, inside the house-office (office-house), to be received with open arms by Helio Pellegrino, one of the most prestigious architects in Brazil.

Ibitipoca, pizza restaurant in Juiz de Fora, big project in Vidigal slum, houses in Búzios (one at Praia do Canto and the other in front of Ferradura’s cove), bungalows in Itacaré… Crisis? Certainly, he has no creative and labor crisis. The house in front of Ferradura’s cove, in Búzios, has everything to do with his work: it has taquara ceiling, floor made of reusable demolition wood and cement, panels signed by the architect, and eight meters from ceiling to floor. “It is a simple house, without excesses”, he summarizes.

In exclusive interview to ESCALA Magazine, he talks a lot about his new projects, but stops to recite Fernando Pessoa, to show pictures of his own, speak about politics, and lunch. Of course, vegetarian food. The grand finale comes with the invitation to know in loco his project in Vidigal slum, one of his most recent. We accept.

Guará wolves, hawks, monkeys, and a rich flora. According to Pellegrino, “the best of Brazil” will be in the hotel in Ibitipoca (Reserva do Ibitipoca), Minas Gerais state. “There will be 18 rooms, five bungalows, and one barn, which will be used for massages”, he tells.

Crisis? — The list is big. In less than five minutes, Pellegrino cites more than ten new projects. Bar Renascimento, hotel in

There, furniture will be made of demolition wood. “We are letting the grass grow”, says Pellegrino. 33


Reserva do Ibitipoca

In Itacaré, in Bahia state, the area for the project is huge. According to Pellegrino, there will be 60 bungalows poised on stilts. “You will not walk on nature”, he explains why he has chosen bungalows poised on stilts. Without cutting trees — Wood made of diapers, money, and fibers of coconut is something that has everything to do with Helio Pellegrino. The recycled material (Ecowood) is in his Vidigal’s project, a new work in the capital of Rio de Janeiro city. The architect was contracted by the German entrepreneur Rolf Glaser, in order to help to transform the slum into a tourist area. This includes projects of a hotel, restaurant, snack bar, bars, small shopping… Many new properties will be built, but several that already exist will be bought and reformed. According to Pellegrino, the idea is to preserve the architectural style of the slum. “Pretty organic” as he calls it. In the slum, together with ESCALA’s team, Pellegrino reminds a child in front of the favorite toy. He stops his car to show us some places of the project, and, in each stop, he speaks about what he imagines for that specific area. The 34 junho 2009

constructions are still at the beginning, but it is obvious that the project is ambitious and that it involves a lot of money: approximately R$ 50 million (the entire project). “I will use materials of the past of the city; a lot of recycled materials. Stones, demolition wood and windows, hydraulic floor tiles…”, tells Pellegrino. There, he gives orientations to the workers linked to the project, which is probably going to have a deck in order to give people the chance to admire the wonderful view. And also places to train workers. “The social intention is what interests me. This project will generate jobs for the inhabitants of the community and will give them a worthier life. I have no doubt that what exists in Vidigal is much more human than life in Fasano hotel”, compares the architect. For those who know Pellegrino’s work, there is the certainty that a lot of great things are coming. ■


Artigo

por Dorys Daher*

Tendência pra quê?

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arece prepotente e pretensioso alguém querer traduzir um evento em poucas palavras, mas, ao mesmo tempo, é uma atitude que é exigida por nós, enquanto profissionais ou consumidores. Todos nós queremos saber o que está na moda, o que é novidade, enfim, qual é a tendência. E é por isso que sempre aparece alguém para nos ditar tais regras. Alguém para dizer qual é a tendência e, assim, influenciar os hábitos e comportamentos de milhões de pessoas. Fui à 48ª edição do Salone Internazionale del Mobile (a Feira de Milão ou Salão do Móvel, como nós o chamamos) e, na volta, o que mais ouvi foi: “Qual a tendência?”; isso sem parar. O Salão do Móvel é um megaevento. Na edição deste ano, foram 200.000m² de exposição, 2.700 expositores (de 152 países), 400 eventos paralelos espalhados pela cidade de Milão. Diante de um universo tão grandioso, diante de tantas coisas diferentes vistas, e de tantas outras não vistas — porque é impossível ver tudo —, não parece empobrecedor pensar em rotular tendências? Quem é “fulano” para ditar que isso ou aquilo é tendência? Será que os designers e expositores do mundo inteiro combinam, em reuniões a portas fechadas, expor, em um determinado ano, a mesma cor, os mesmos elementos

ou, até mesmo, fazer uma criação coletiva préestabelecida? Fica a pergunta para refletirmos. É um paradoxo: as pessoas querem tanto ser diferentes e, quando têm a chance de ver coisas diferentes, pensam no igual e em ser iguais. Prefiro fazer o caminho contrário: pensar no que vi de diferente, de criativo, de único, no Salão do Móvel. E foram muitas as coisas que vi nesse sentido... Um bom exemplo foi o banco pintado como se fosse madeira, trompe l’oeil que enganava a todos. Todos batiam “na madeira” para conferir se era ou não madeira. E não era. Módulos de sofá, que se encaixavam, sem qualquer preocupação com simetria e que lembravam um quebracabeça desalinhado. O stand delimitado por uma tela tensionada transparente, que instigava a curiosidade sobre o que havia dentro e o desejo de tocar. E faltaria página de revista para citar tudo que era criativo e não era tendência. Então, se alguém insistir em me perguntar “Qual a tendência da Feira de Milão deste ano?”, já tenho a resposta na ponta da língua: “A criatividade foi a tendência que mais vi no Salão do Móvel 2009”. E ponto final. ■ * arquiteta, pós-graduada em Arquitetura de Ambientes de Saúde pela UFRJ e autora do livro “Cimento, batom e pérolas: Quem tem medo de arquiteto?” 35


Reportagem

Salvando árvores

Rodrigo Sack

Casa da Praia do Canto

E

m vez de árvores, fraldas descartáveis. E outros componentes também inusitados, como dinheiro moído, bambu e fibras de coco. Em vez de madeira natural, madeira plástica. Batizado de Ecowood, o material é novo, certificado por pesquisadores da UniSantos (SP) e vem atraindo a atenção de arquitetos brasileiros, porque é ecológico, bonito e lembra madeira de verdade. A tecnologia é européia, mas sofreu adaptações aqui. Resumindo, o processo de intrusão transforma diversos tipos de resíduos em madeira plástica, mas com aparência de madeira natural. Dentre os resíduos que podem ser reciclados para fabricar a Ecowood estão: plásticos recicláveis, fibras naturais, borracha, tecidos, gesso... Ou seja, a Ecowood é feita utilizando lixo. “A madeira ecológica pode ser mais macia ou rígida, mais clara ou escura, fina ou grossa. Nós adaptamos a fórmula de acordo com as propriedades requisitadas. Cada cliente quer uma composição”, diz Marcelo Queiroga, fundador e sócio da empresa, que leva o mesmo nome do material (o nome completo da empresa é Ecowood Rio Industrial Plásticos Ltda.) e que fica localizada em Duque de Caxias (RJ).

36 junho 2009

Definidos os resíduos a serem usados, eles recebem calor (200°C) em alta pressão, gerando uma massa que será moldada e resfriada. “A fabricação da madeira ecológica exige baixo


o

consumo de energia; não polui o meio ambiente, previne o desmatamento e reduz significativamente a quantidade de resíduos no meio ambiente”, explica Queiroga. Funções diversas — Como a madeira natural, a Ecowood pode ser usada na fabricação de pisos, decks, varandas, piers e móveis. Pode ser serrada, cortada, pintada e pregada. Segundo Queiroga, além da vantagem ambiental, a madeira plástica é perfeita para ambientes hostis à madeira natural, como locais úmidos ou com excessiva exposição ao sol. Além disso, não requer qualquer tipo de manutenção, não solta farpas, não trabalha, é resistente, impermeável e totalmente imune a cupins. Rodrigo Sack

Amélia Portela, arquiteta e representante da Ecowood Rio, conta que o produto está conquistando clientes, inclusive no Governo. “Projetos públicos já pensam em usar a Ecowood. O material salva árvores e isso é maravilhoso”, diz a arquiteta. Em vez de só área de serviço e exteriores, áreas sociais e internas também. “Este é um outro avanço. O material está chegando aos espaços nobres da casa”, conta Amélia, acrescentando que, na Casa da Praia do Canto, projeto de Helio Pellegrino em Búzios, foram usados 400m² de Ecowood, inclusive, em áreas internas e sociais. Mais números — No projeto da Favela do Vidigal (ver matéria “Do Vidigal a Ibitipoca”), também de Pellegrino, Amélia calcula que serão usados aproximadamente 70m² de Ecowood, por casa. A matéria-prima será utilizada em telhados e pisos. “O preço é atraente: R$ 126, o metro quadrado”, informa a arquiteta. Segundo Queiroga, cada 50 pallets fabricados pela Ecowood Rio evitam a derrubada de 3,3 metros cúbicos de madeira, economizam aproximadamente 2,5 metros cúbicos de derivados de petróleo e retiram do meio ambiente 2,5 toneladas de resíduos. “No Brasil, apenas pouco mais de 3% dos resíduos são reciclados. Na Europa, a média é de cerca de 20%”, diz o fundador da empresa. Números que nos convidam a pensar e a agir. ■

Casa da Praia do Canto

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Reportagem

Arquitetura

38 junho 2009


espontânea

U

ma casa “brotou” em São Pedro da Aldeia (RJ). Demorou décadas para isso. Precisou de alguém que a “semeasse” e cuidasse muito bem dela enquanto viveu: Gabriel Joaquim dos Santos. A Casa da Flor é um exemplo evidente do que pode ser chamado de “arquitetura natural, arquitetura espontânea”. Uma equipe de ESCALA visitou o local e mostra, aqui, o que viu e aprendeu sobre a construção, toda feita com sucata, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural e que, hoje, precisa de pessoas, como o “Seu Gabriel”, para amá-la, recuperá-la e preservá-la. Valdevir Soares dos Santos, sobrinho-neto do artista, e a professora Amelia Zaluar já fazem a sua parte. Por que arquitetura espontânea? Porque foi criada por alguém que nunca freqüentou uma Faculdade de Arquitetura — na verdade, nunca freqüentou escola alguma —, nunca se apegou a regras e modelos, nem sabia o que era um estilo arquitetônico. A Casa da Flor nasceu graças à intuição e ao trabalho árduo, obsessivo, de Gabriel Joaquim dos Santos (1892-1985). É fruto (e flor) da manifestação do inconsciente, do imaginário dele. Não à toa, muitos críticos estrangeiros traçam paralelos de sua obra com a do espanhol Gaudí e com a de outros artistas que fugiam de convenções. Assim, a Casa da Flor foge completamente dos padrões e não poderia estar em maior sintonia com o tema da sustentabilidade: ela foi feita com lixo doméstico e lixo das obras civis do local. Familiares do criador contam que vizinhos abasteciam-no com sucata, para sua criação contínua. Ou seja, o “Seu Gabriel” embelezava a sua casa e o meio ambiente, pois tirava dele resíduos que só faziam enfeiá-lo e polui-lo. Nada mais atual. Cronologia — Sobre datas, a construção começou em 1912, pelas mãos do “Seu Gabriel”, um trabalhador negro das salinas da região, semi-analfabeto e naturalmente criativo, poeta. Lentamente, à medida que conseguia o material necessário, foi erguendo a casa de pau-a-pique, simples, de pé-direito bem baixo e três cômodos, utilizando também pedras para o assoalho e algumas paredes.

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No ano de 1987, foi criada a Sociedade de Amigos da Casa da Flor, depois, transformada em Instituto Cultural Casa da Flor. Seus objetivos são divulgar e preservar o monumento. Premiações — Pelo trabalho em prol da preservação da Casa da Flor, a associação recebeu, em dezembro de 2000, o Prêmio Estácio de Sá, na categoria Patrimônio, outorgado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em 2007, o Instituto recebeu o Prêmio Culturas Populares, outorgado pela Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura. A poesia do “Seu Gabriel” e de sua criação é evidente. Espontânea, como sua arquitetura, absolutamente sustentável. Afinal, tudo o que ele construiu garimpou do lixo urbano. Sabiamente, ele comentava que fez uma casa “do nada”. Na opinião de ESCALA, do “tudo” que era sua criatividade. ■

Frases do “Seu Gabriel” Em 1923, aconteceu o grande divisor de águas desta história, quando “Seu Gabriel” sonhou com um enfeite para a sua casa. Mas como fazer se ele não tinha dinheiro para tal? Foi então que ele teve a idéia de garimpar o lixo da região e, do lixo, criar os enfeites para sua casa. Garrafas de refrigerante, conchas, pedrinhas, tampas de metal, faróis de automóvel, lâmpadas queimadas, cacos de cerâmica, de louça, de vidro, de ladrilhos... Tudo isso e muito mais sucata era visto e empregado, no interior e no exterior da construção, como materiais nobres pelo “Seu Gabriel”. Com essas coisas tidas como emprestáveis, ele criou flores, folhas, mosaicos, colunas e esculturas fantásticas. Criou a sua Casa da Flor, de 1923 a 1985, quando faleceu.

40 junho 2009

“Às vezes, saio para ver essas coisinhas que eu mesmo faço e eu mesmo fico satisfeito, me conforta”. “Esta casa não é uma casa, isto é uma história; é uma história, porque foi feita por pensamento e sonho”. “Deus me deu essa inteligência. Vêm aquelas coisas na memória e eu vou fazer tudo perfeitinho como eu sonhei”. ”Vem uma pessoa com um azulejo, eu boto. Vem uma pessoa com um caramujo, eu boto”.


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Livros

BIGLIETTI DA VISITA 2

ARCHITECTURE WATER

Editora: Logos Autor: Michael S. Dorrian e Liz Farrelly Uma coleção de boas idéias para serem aplicadas em projetos de cartões de visita. E o legal é que o livro é repleto de imagens, para analisarmos cores, tipos de letras, grafismos... É o tipo de livro útil na biblioteca de designers gráficos.

Editora: Gribaudo Autor: Mariarosaria Tagliaferri Este livro apresenta criativos projetos arquitetônicos contemporâneos de algum modo relacionados com a água. Um ponto bastante positivo da obra é o fato de ela reunir projetos dos mais variados lugares do globo: da Síria aos Estados Unidos; de Cingapura ao Chile...

Sites ■ Lista “quente”: Presente de ESCALA para seus leitores: no site www.designws.com/page/00p10.htm encontra-se uma lista poderosa com os melhores designers contemporâneos do mundo todo. E o melhor: com direito aos sites de cada um deles. É só escolher os seus preferidos e clicar. ■ Para “pilotar”: “Altas” fotos de autos. No interessante site www.cardesignnews.com/site/home/ quem gosta do universo do design automotivo pode conferir em primeira mão novos modelos, participar de discussões sobre temas afins, informarse sobre eventos, ler entrevistas de designers que possuem esta especialização... Muito legal de “navegar”. Ou seria “pilotar”? ■ Letra boa: Sucesso no YouTube é o vídeo que ensina a escrever

como um arquiteto (“How to write like an architect”). A aula é dada em pouco mais de dois minutos e é divertido ver a agilidade do “professor”. Para quem quiser assistir ao vídeo, o endereço é www.youtube.com/watch?v=Ky5p-L_m6BQ

■ “Antenado”: Nunca é demais ressaltar a qualidade do site da arquiteta Ignez Ferraz. Muito mais do que self-promotion, o espaço reúne textos interessantes e atuais sobre artes plásticas, arquitetura, moda, gastronomia... Não fica só na divulgação dos projetos da arquiteta. Quem não conhece deve visitá-lo (www.ignezferraz.com.br/). 42 junho 2009

THE MODERN ARCHITECTURE POP-UP BOOK Editora: Universe Autores: Anton Radevsky e David Sokol Ver projetos arquitetônicos em duas dimensões pode ser frustrante. Este livro foi feito para tocar e experimentar 20 importantes obras, meticulosamente desenhadas e recriadas em linguagem pop-up. O livro inclui a Torre Eiffel, a Brooklyn Bridge, o Guggenheim de Bilbao...

Agenda ■ 8º Seminário Docomomo Brasil: O Docomomo (International

working party for Documentation and Conservation of buildings, sites and neighbourhoods of the Modern Movement) é uma organização internacional, sem fins lucrativos, que visa zelar pela integridade das edificações e sítios urbanos importantes do movimento moderno, promover a troca de idéias sobre tecnologia de conservação, história e educação e estimular o interesse pelo patrimônio do movimento moderno. O seminário, cujo tema geral será “Cidade Moderna e Contemporânea: Síntese e Paradoxo das Artes”, ocorrerá de 1 a 5 de setembro, no Palácio Capanema (MEC), na cidade do Rio de Janeiro.

■ Congresso SiGraDi: O próximo congresso SiGraDi, de 16 a

18 de novembro, terá como sede a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. O tema será “Do Moderno ao Digital: Desafios de uma Transição”. Mais informações: www.mackenzie.br/sigradi.html

■ Ergonomia: O II Encontro Nacional de Ergonomia do Ambiente Construído (ENEAC 2009) ocorrerá de 4 a 6 de outubro, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife. Paralelamente ao evento, acontecerá o III Seminário Brasileiro de Acessibilidade Integral. Os interessados podem obter mais informações no site www.abergo.org.br/eneac2009 ou através do telefone (81) 2126-8797.


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