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P U BLICA ÇÃ O TRIMES TRA L S ETEMBRO 2019 IS S N 2183-1734

Julio Medem

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Julio Medem:

POR ACASO, ATÉ


INTROITVS

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As ondas sonoras reverberam dentro do tubo metálico de um corrimão até que este se quebra nas mãos de um homem que, precisamente naquele momento, decide o seu destino.

«— Mamá, ¡que buena eres!, te quiero mucho. — ¡Mi niña, tú si que eres buena! Demasiado buena. Vas a sufrir mucho!» Enquanto em seu torno decorre um período entre duas guerras civis, a última das quais sangrenta para lá da memória, as vacas continuam a ruminar, abrindo e fechando vagarosamente os seus olhos plácidos, alheias aos problemas dos homens. O mesmo sucede com as hemípteras que infestam as vinhas e não querem saber se o néctar com sabor a terra agrada a uns e não a outros. A terra, todavia, não é só cultivada, é também sangue, identidade, cultura e transição. Mas o que é que isto significa realmente? E que dizem de tudo isto os mortos?

A morte? «La muerte no es nada, pero si estuvieras completamente muerto, no me oirías.» Dizer que Julio Medem Lafont é apenas um realizador de cinema assemelha-se a forçar aquele tubo metálico que se nos acabará por quebrar nas mãos. Todo o seu percurso pessoal é feito por caminhos curvos e desvios, o que enriqueceu a sua experiência enquanto indivíduo ao ponto de, em poucos anos, e apesar dos seus sessenta e um anos de idade, se ter tornado num dos grandes autores do cinema espanhol contemporâneo. Mais do que tudo, Medem pertence àquela estirpe de homens que atraem toda a sorte de circunstâncias, personalizando aquilo que nos atreveremos a chamar de homens-documento. É que a vida do cineasta basco é, em si mesma, um verdadeiro repositório da história da sociedade espanhola dos últimos cinquenta anos. Não será por acaso (e já lá iremos ao acaso) que é também de um espanhol, José Ortega y Gasset, a célebre frase: «Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo.» (Meditaciones del Quijote, 1914).

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Vacas, 1992

El espĂ­ritu de la colmena, 1973


CORTA PARA: Conta Julio Medem que, ainda adolescente, ficou bastante impressionado enquanto assistia a um filme, por não acreditar até então que era possível fazer cinema daquela maneira. A prodigiosa película a que se refere é El espíritu de la colmena, realizada, em 1973, por Víctor Erice. O mesmo aconteceu comigo por volta de 1999, quando assisti a Vacas (1992), precisamente no ano em que fui estudar para Faro; cidade que, a par de Guimarães, mantém um dos mais antigos cineclubes do país ainda em operação. A minha relação com o cinema mudou a partir do momento em que este filme entrou na minha vida. Revi-o vezes sem conta — eu que não sou de rever nem de reler nada, por faltar-nos vida para tudo! —, e confesso que ainda mantenho pelo filme uma certa obsessão. Este seria o filme que realizaria fosse eu realizador, apenas o cenário seria o Alto Minho de meu nascimento e o simbólico machado dos aizkolari substituído pela enxada que ainda me vai servindo. O resto está tudo lá. Por isso passei a ver o cinema de outra forma, o que coincidiu com a minha abertura a novos universos musicais e literários. Naturalmente que todo este novo mundo que se me abria perante os olhos era-me dado a ver pelos meus colegas e professores, mas Vacas foi uma descoberta profundamente pessoal e do acaso: decidi, naquela noite cálida a cheirar a Ria Formosa, deslocar-me à velha sala do IPJ de Faro, onde os filmes eram projectados sem som stereo, apenas numa obsoleta coluna mono. Também posso estar enganado, podia não ter sido lá, que a memória, como sabemos, não é de fiar; mas também é bom recordar aquela sala esconsa e a Anabela, cá fora, saudando quem entrava, muitas vezes maldisposta com a coisa pública algarvia — e com razão… O que é certo é que Vacas foi o meu filme simultaneamente agregador e deflagrador, uma hora e trinta e seis minutos exactos que certamente mudaram para sempre a minha forma de aproximação à criação artística. É necessário que esclareça neste ponto o seguinte: eu estava a entrar na idade adulta e tinha já várias referências cinematográficas, algumas delas até bem caras a Julio Medem, mas foi o Vacas que me atingiu em cheio, naquele preciso momento. Por que razão foi este o filme e não outro? Bem, o melhor é voltar novamente a Ortega y Gasset. E, a bem da verdade, pouco depois vi o 8½ (1963), de Fellini, e também não quis acreditar novamente…

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EUSKARA POR SERLO

do pelo estabelecimento de bases militares americanas em Cádiz e Madrid, permitindo que Espanha experimentasse, ainda que de forma passageira, uma relativa acalmia económica que esteve na origem do pequeno baby-boom. Julio Medem Lafont foi uma destas crianças, tendo nascido no seio de uma família de classe média-alta do País Basco, na belíssima Donostia (San Sebastián), a 21 de Outubro. A infância de Julio foi passada na cidade costeira, mas o nascimento do seu irmão Alberto, em 1960, e da sua irmã Ana, em 1962, forçou a família a deslocar-se para a capital espanhola. Julio reteria, então, muito poucas memórias sobre a sua infância no País Basco, o que será crucial para o desenvolvimento futuro da sua obra, largamente centrada na redescoberta da sua terra-natal.

O ano de 1958 continua a ser o que detém o maior número de nascimentos registados em Espanha. Como é do conhecimento geral, o país vizinho vivia sob um regime fascista dominado pelo aparelho arquitectado por Francisco Franco em conluio com a poderosa Igreja Católica espanhola. As democracias ocidentais, vencedoras do conflito mundial, desconfiavam por norma das ditaduras que tinham moralmente derrotado, mas o anti-comunismo primário do franquismo («contra los rojos») significava o apoio incondicional dos Estados Unidos da América, através da máquina montada e bem oleada nos anos anteriores pelo senador Joseph McCarthy. Esta pequena abertura fomentou um acordo comercial e uma vaga de investimento estrangeiro, complementa-

Em Madrid, a mãe do futuro realizador, Margarita Lafont Mendizábal, uma estilista dedicada à criação de uma marca de roupa juvenil, abriu uma loja que fez sucesso entre a nova classe média emergente e a aristocracia madrilenas. As suas origens eram francesas e bascas. O seu pai, Julio Medem San Juan, era um desenhista de algum sucesso, filho de uma valenciana e de um alemão obrigado a fugir à Hitlerjugend. 8


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Gran Via, Madid, anos 60.


NERABEZAROAN

«Haveria de tratá-la como a um ovo, cuja casca removemos antes de o comer; e tirar-lhe-ia a máscara e beijaria a sua carinha laroca.»

Aristófanes, Os Pássaros, c. 414 a.C.

Com 14 anos, Julio Medem apaixonou-se loucamente por uma vizinha. Profundamente inspirado, iniciou a escrita de um romance e de alguns poemas. O amor, no entanto, não lhe seria correspondido, um acontecimento que o iria marcar para a vida.

quenos filmes caseiros, que transformavam as suas actividades de caça em micro-ficções, tendo por actores os elementos da própria família.

NUESTRA SEÑ DEL PILAR, OR NOBIS

Preparar um bom copo e (re)ver, com atenção: La ardilla roja (1993; 1h54m) Lucía y el sexo (2001; 2h08m) Muito mais tarde, Medem descobriria que a sua grande paixão tinha por avó a amante do seu próprio avô. Eram, por isso, família. A vida pode ter destas coincidências, é necessário falar delas, filmá-las… Tal como muitos jovens da sua geração, a paixão pela arte de filmar de Julio Medem Lafont nasce com a câmara Super 8 adquirida pelo seu pai. Pela noite ia buscá-la e, com a sua irmã Ana servindo de modelo, montou os seus primeiros filmes, uma experiência que iria influenciar profundamente parte da obra Los amantes del círculo polar (1998). Notando o seu entusiasmo, o pai, um amador com algum talento para o bom enquadramento, ensinou-lhe os rudimentos da filmagem. A obra de Julio está pejada de pais disfuncionais, personagens largamente baseadas na sua própria relação com o seu progenitor. Criança bastante introvertida, esforçou-se durante toda a sua infância e juventude por obter a atenção paterna. À excepção do tempo passado em torno da Super 8, quando Medem pai sentia o gosto demonstrado pelo filho ao compor com ele pe-

Com catorze anos, Julio Medem é enviado para o El Pilar, em Madrid, um colégio de frades e padres marianistas, famoso por educar vários membros das elites do país vizinho. Foi um choque absurdo: «Os padres faziam-nos crer que nós seríamos os líderes de uma Espanha que tinha obrigatoriamente de ser da maneira que nos diziam, e não de uma outra qualquer. O resto da população era escumalha.» (Julio Medem, entrevistado por Rob Stone, 2007: 21). Entre os seus colegas de turma, ou alunos da escola na altura, contavam-se um neto de Francisco Franco, e José María Aznar, assim como muitas figuras da política e da alta finança das últimas décadas. Os seus anos de formação secundária tiveram em Medem um efeito contrário ao pregado pelos marianistas: cedo 10


virou ateu, e tornaram-se muito mais claras na sua cabeça as divisões sociais e políticas que inquinavam toda a Espanha. O isolamento dos restantes colegas torna-se inevitável: chamam-lhe «O Basco». Quando a ETA estoura, com cem quilos de explosivos, o carro onde seguia o Almirante Luis Carrero Blanco, em Dezembro de 1973, Medem é o primeiro a afirmar no recreio que tinha acontecido «uma coisa boa». A Espanha estava pronta para a liberdade.

ÑORA RA PRO

Alguns ALUNOS estão nervosos, outros meneiam a cabeça, outros ainda estão estupefactos com a cena. O PADRE MARIANISTA vem à janela: a sua cara é de poucos amigos. O PARDAL voa finalmente. Baseado em factos verídicos. A consciencialização política d’«O Basco» começou logo na infância. Com excepção do seu pai, a família era bastante dada a furiosos debates quando se juntava, estes concentrando-se sobretudo no que à autonomia das diversas regiões espanholas dizia respeito e no papel da centralidade imposta por Madrid, reforçada sobremaneira durante o franquismo. Medem cresceu numa família que se dividia entre a extrema-direita, ligada ao regime, e o lado basco, dos que o combatiam, muitas vezes na clandestinidade.

CORTA PARA:

EXT. COLÉGIO DE NUESTRA SEÑORA DEL PILAR — DIA SOBREPOSIÇÃO: 20 de Novembro de 1975. Num RÁDIO a pilhas, colocado no parapeito de uma janela entreaberta de um gabinete, discute-se a morte do Generalíssimo Franco. O PADRE MARIANISTA pousa lentamente o cigarro num cinzeiro prateado e mexe-se na cadeira com algum desconforto. Um PARDAL vem pousar mesmo ao lado do rádio.

EXT. RECREIO DO COLÉGIO DE NUESTRA SEÑORA DEL PILAR — DIA

Por entre os largos campos andaluzes, com reservas próprias de caça e onde os cavalos e os touros corriam livres, pertencentes aos primos de seu pai, observava a riqueza de quem vivia confortavelmente encostado ao regime; mas, nas muitas viagens a Gipuzkoa, ouvia o seu avô, apoiante claro de dissidentes bascos, homem que tinha perdido um irmão nas trincheiras na Grande Guerra e que tinha fugido aos Nacionais Socialistas alemães.

«O BASCO» e um COLEGA celebram sozinhos, com cigarros e uma garrafa de espumante.

Preparar um café e um bagacinho e (re)ver: La pelota vasca. La piel contra la piedra (2003; 1h50m)

CORTA PARA:

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SUPERMEDEM «A profissão médica é legitimamente conservadora. A vida humana não deve ser considerada material adequado para a experimentação selvagem.»

Com dez anos, Julito descobre que é mais rápido do que quarenta crianças contra as quais corria. Ele é mesmo muito rápido: chamam-lhe o «SuperMedem».

Sigmund Freud, Die Traumdeutung, 1899.

Os desamores anteriormente sofridos pela vizinha, incentivam-no a virar a cabeça para o atletismo: corrida de 1000 metros; salto em altura; salto em comprimento; salto à vara… No entanto, onde «SuperMedem» se destacará é nos 110 metros barreiras, tendo batido o recorde nacional espanhol e ficando a ponto de quase participar nos Jogos Olímpicos de Montréal, em 1976.

Espanha mudava tão rapidamente na medida em que Julio Medem se tornava adulto; e, tal como as mudanças no corpo e na mente, o país avançava à nova velocidade permitida pela inexistência de censura. Entretanto, era preciso formar-se, encontrar um rumo. A escolha foi a medicina, mas, antes, caiu nas suas mãos A Interpretação dos Sonhos, de Freud, uma leitura que muito o perturbou :

A escrita, entretanto, clamava do interior, o atletismo teria sido uma válvula de escape para os amores amargamente destilados. Era necessário regressar. Alinhar: Frank Zappa, Sheik Yerbouti, Zappa Records, 1979.

Eu fiquei fascinado e li-o todo. E li tudo o que pude acerca do subconsciente e da psicanálise. E quando fazia os meus filmes em Super 8, eu dizia sempre que um dia iria conseguir capturar em filme um pedaço de tempo e de espaço do meu subconsciente. Eu sempre pensei que um dia eu iria descarregar o meu subconsciente em filme sem me aperceber disso, sem sequer pensar racionalmente nisso.» (Julio Medem, entrevistado por Rob Stone, 2007: 22).

FADE IN: Julio Medem pai adquire uma nova câmara de filmar e obriga o seu filho, Julio, na altura com dezassete anos, a comprar-lhe a antiga com o seu próprio dinheiro. O rapaz tem agora o material inteiro à sua disposição, mas ainda não chegou a hora. Nota: não nos parece que ele tenha alguma vez revelado quanto tempo andou a escrever o romance Mi primer día, que descrevia a história de toda a sua vida em apenas um dia, apesar de, adolescente, a sua vida ser ainda demasiado curta e caber perfeitamente num dia — considerando que teria de alinhar perfeitamente os episódios desde o berro inicial do nascimento até à paixão assolapada e tensão sexual pela vizinha. Não há pudor nos filmes de Medem. ¡Pobre chico! Hay que perdonarlo, estaba enamorado.

Noutra entrevista, ao The Telegraph, em 2004, diria: «Comecei por analisar os meus próprios sonhos — eu trabalho frequentemente nas minhas ideias enquanto estou a adormecer. Eu queria explorar o inconsciente, um pouco como um psicanalista, mas de um ponto de vista intuitivo. Dentro de nós está um magma completo de filtros, hormonas e sensações.» 12


Rembrandt van Rijn (1632), Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, Mauritshuis, Haia. Óleo s/ tela. 216.5 cm × 169.5 cm.

Entretanto, como dizíamos, era preciso formar-se numa profissão. Mas como, se estava tudo a mudar tão depressa? Medicina. A explosão demográfica de 1958 significou que, no seu ano, as matrículas eram tantas que Medem teve de estudar inicialmente na Universidade Complutense, frequentada por alunos provenientes de classes socialmente desfavorecidas, ao invés da Autónoma, conotada com os estudantes oriundos das escolas de elite, caminho mais natural para «O Basco». O facto deveu-se às notas um pouco mais baixas do que o habitual. A experiência de contacto com os colegas mais pobres, no entanto, iria marcar novamente a sua vida e foi lá que conheceu a sua primeira esposa, Lola Barrera.

Com dezoito anos, Julio muda-se para Soria, mas a aura do pai da psicanálise não o tinha ainda largado, pois estava «decidido a convertirse en psiquiatra, enfocando claramente su vida hacia una de sus obsesiones: el estudio de los oscuros rincones de la mente humana.» (Julio Medem, biografia no site oficial, consult. a 08 Set. 2019). Terminaria a sua carreira académica regressando à sua terra-natal de San Sebastián, onde o meio académico menos competitivo e mais terra-a-terra da Universidade do País Basco permitiu-lhe estudar com sucesso Medicina e Cirurgia, especializando-se em anatomia. O estudo do corpo físico seria uma vantagem que Medem não deixaria por explorar na sua futura obra cinematográfica. Tal como o pintor George Stubbs (1724-1806), que


#tarkovsky

#lanouvellevague pendurava por correntes e ganchos os cavalos e os observava até à ligação do último nervo com o osso para melhor os poder pintar, Medem teve a oportunidade de assim analisar corpos humanos. Talvez a melhor imagem para isto seja a Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1632), exposto na Mauritshuis, em Haia; mas a verdade é que Medem não se chocaria com a visão de Stubbs na sua quinta de Lincolnshire, a esventrar cadáveres de cavalos, até porque os corpos animais são também centrais nas suas obras.

CRÍTICA A aplicação do método científico no estudo da prática médica e cirúrgica, com a constante presença e manipulação de corpos defuntos, para além do entendimento do funcionamento da máquina humana sob o ponto de vista da análise racional, cedo fizeram Medem esquecer todas as angústias existencialistas prévias e reforçaram o seu ateísmo.

CORTA PARA:

Se um homem ou uma mulher funcionam apenas cobertos por um receptáculo frágil, origem de todas as maleitas e de todas as experiências sensoriais e metafísicas, seriam as características físicas que analisaria doravante enquanto indivíduo:

Em 1796, na aldeia de Horkstow, onde Stubbs se estabeleceu para estudar a anatomia cavalar, foi encontrado um mosaico romano bastante completo representando figuras da mitologia grega em singelas cenas equestres. Não sei se George Stubbs algum dia teve conhecimento disto, mas apraz-me pensar que sim, e a coincidência é verdadeiramente notável. Também não sei se Medem já leu sobre o episódio, mas algum dia, se calhar, vai dar para contar-lhe esta história curiosíssima.

«A realidade começa a um milímetro da nossa própria pele.»

Enquanto escrevo este texto, sou chamado para a mesa em casa dos meus pais. No rótulo do vinho, lê-se: «[Este vinho] é uma homenagem ao cavalo enquanto símbolo de força, poder e liberdade, distingue-se pela sua audácia, imponência e coragem. Os seus instintos permitem-lhe grandes conquistas, reinando como herói.»

Em 1985, Julio receberia o diploma de medicina e cirurgia geral, mas nunca iria dele fazer uso: desde 1974 que vinha filmando algumas curta-metragens, sendo a primeira El ciego, seguida de Los jueves pasados (1977), Fideos (1979), Si yo fuera un poeta (Antonio Machado) (1981) e Teatro en Soria, no ano seguinte, o seu último filme em Super 8.

O melhor é mesmo parar com isto…

Por estes anos, deixou-se imbuir pelos seus mestres: 14


#wenders

#bergman

#fritzlang

#victorerice

#buĂąuel

#fellini

#visconti #pasolini #antonioni

#fassbinder

#malik

#yasujiroozu

#herzog #kieslowski

A mĂşsica que Medem rodava, obsessivamente, era a de Zappa.

#almodovar

#lynch 15


O REALISMO MÁGICO

Enquanto se dedicava à escrita e à crítica, Medem vai descobrindo e absorvendo obras literárias incontornáveis, como Cien años de soledad, de Gabriel García Marquez (1967), ou a obra de Alejo Carpentier — e quem ficará indiferente depois de fechar o Concerto Barroco (1974)? No entanto, o único livro que alguma vez Medem quis adaptar para cinema foi Obabakoak, do autor basco Bernardo Atxaga (1988). Para sua grande tristeza, viria a ser ultrapassado pelo realizador navarro Montxo Armendáriz, que filmou Obaba, em 2005, mas o livro já tinha exercido uma profunda influência aquando da escrita do guião para Vacas.

Entretanto, como já mencionámos, Espanha mudava a uma velocidade estonteante. Corria pela geração de Medem e pela anterior o sentimento de que tudo era possível e obtido muito rapidamente. Ainda a semana passada, a 29 de Agosto de 2019, quando lhe foi anunciado que seria agraciado, pelo Festival de Veneza, com o Leão de Ouro pela sua carreira, Pedro Almodóvar confirmava que, por esses tempos, este era o seu país novo que importava representar, que «Me sentía, sobre todo, muy orgulloso de representar a una España ultramoderna.»

Julio Medem passará os finais da década de 80 a escrever freneticamente, condensando todo o seu próprio caldo primordial, repleto de conhecimentos e influências adquiridas até então. Neste tempo de aparente indefinição (e de depressão), aprende também a dominar cada vez mais as componentes técnicas de vídeo e filme, e envolve-se também em projectos para televisão. Entretanto, tinha nascido o seu primeiro filho, Peru, um futuro actor que o pai dirigiria em Los amantes del círculo polar (1998).

A aproximação concreta aos autores que iriam seguir Julio Medem para sempre, levou a que se dedicasse à crítica de cinema nas páginas de revistas como Casablanca e Cinema 2002; mas, especialmente, no jornal La voz de Euskadi, cujo ponto máximo era atingido anualmente durante o Festival de San Sebastián. Medem concentrava os seus textos maioritariamente em filmes de autor. A década de 80 do século passado foi também um tempo de procura por uma identidade cinematográfica basca; ou melhor, pelo questionamento se esta existiria de facto. Medem não sabia responder claramente a essa questão, exigindo mais investimento e, consequentemente, a oportunidade para maturar o trabalho dos cineastas euskaldunak.

Em 1985, tinha realizado Patas en la cabeza com um grupo de amigos — alguns dos quais continuariam a ser seus preciosos colaboradores, como o compositor Alberto Iglesias e o fotógrafo Gonzalo Fernández Berridi —, tendo sido o seu primeiro filme em 35mm, aproveitando os incentivos do governo autónomo à produção de um novo cinema basco. Apesar dos seus treze minutos de duração, a película apresenta já alguns dos ingredientes que serão apanágio de Medem, como a invenção de amantes por parte das personagens e a sua profunda contradição interior. Patas en la cabeza seria também projectado no Festival de San Sebastián e ganhou o prémio principal em Bilbao.

Este processo pessoal de assimilação, (re)aprendizagem e de defesa da cultura basca, que se seguiu aos anos de faculdade, teria grande impacto na carreira de Julio Medem, culminando, muito mais tarde, no documentário La pelota vasca: la piel contra la piedra — Euskal pilota: larrua harriaren kontra (2003), um filme que se tornaria bastante polémico no país vizinho ainda durante a fase de produção.

Dois anos se passaram até apresentar ao público, novamente no Festival de San Sebastián, Las seis en punta, um

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filme de forte pendor surrealista cuja ideia brotou no processo já citado de queda longa para o sono. Medem inicia a sua obsessão pelas montagens cirúrgicas — passe-se a expressão — e exigentes. A câmara é ágil, com planos estudados ao detalhe, e Alberto Iglesias destaca-se pelo trabalho de som que se cola à narrativa, arrastando o espectador no vórtice. O tema central é a infância, ao qual o realizador voltará várias vezes. O filme seria novamente premiado em Bilbao, e o seu relativo sucesso acabaria por colocar Julio Medem em contacto com o produtor Elías Querejeta, nada mais nada menos do que o produtor de El espíritu de la colmena, que lhe encomendou um projecto para a TVE, o canal da televisão nacional de Espanha. Por ser encomenda, Martín (1988), o resultado desse trabalho, não ficou do agrado de Medem. Todavia, no decorrer das negociações, um dos guiões por ele propostos, intitulado Mari en la tierra, resultaria nos alicerces para uma das suas grandes obras: Tierra (1996). Nesta fase da sua vida, portanto, «O Basco» e «SuperMedem» estavam já perdidos nos confins da sua cronologia pessoal — o tempo aproximava-se, era preciso apontar a algo maior. Julio Medem tinha-se transformado, por experiência e experimentação em si mesmo, a sua própria personagem maior.

Martin, 1988

«Imperocchè in vano si tira l’arco, se prima non hai designato il luogo dove tu vuoi indirizzare la freccia.»

Leon Battista Alberti, De Pictura, c. 1435.

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O clima político agrava-se no País Basco pelos inícios da década de 90 do século passado, arrastado pelos escândalos de corrupção do governo de Felipe González e pela continuação dos ataques terroristas que geravam, por sua vez, respostas pesadas por parte do governo espanhol. Isto significou que o apoio às artes e, em concreto, ao cinema, decaiu fortemente nestes anos por parte do governo autónomo, obrigando artistas como Julio Medem a procurar financiamento noutras paragens. Foi com este propósito que o jovem realizador se desloca a Madrid com o guião de Vacas na mão, recusado por todas as produtoras a que se desloca. O texto era demasiado arrojado e, além disso, profundamente basco. Desapontado, Medem regressa a San Sebastián e inicia a escrita de uma outra história que, porventura, interessasse a quem tinha contactado. Esta seria a semente para La ardilla roja (1993).

VACA 1992

Alinhar: Johann Sebastian Bach, Musikalisches Opfer (BWV 1079), Les Concert des Nations (dir. Jordi Savall), Alia Vox, 2001. Deixem-me ouvir um pouco de música e relaxar no sofá antes de voltar a rever Vacas, a ver se volto a ter energia e cabeça capaz para me sentar em frente ao computador e continuar isto. Folheio O Concerto Barroco, de Alejo Carpentier (trad. Helena Pitta, ed. Antígona, 2013), ao acaso. Lembrem-se de que Bach continua em fundo: «Acorde final. Antonio soltou o arco. Domenico bateu com a tampa do teclado.» (p. 59). Oh raio! Vivaldi soltaria o arco de que Alberti falava, ou o do violino?! E Scarlatti, bateu com a tampa do teclado do cravo ou fechou com estrondo o meu portátil?! Vou mas é dormir um bocadinho… 18


AS A primeira longa-metragem de Medem acaba financiada pelo Ministério da Cultura de Espanha, mas apenas no apoio à criação do guião. Esta primeira pequena vitória havia de entusiasmá-lo, pensando que a bolsa estatal funcionaria como garantia da qualidade do seu trabalho, mas o resultado perante as produtoras continuou nulo. Dez dias depois, já em San Sebastián, Medem receberia um telefonema de Fernando de Garcillán, da produtora Sogetel. Conta este a Rob Stone (2007: 37, trad. nossa):

Vacas inauguraria um novo método de angariação de fundos no país vizinho, baseado na venda prévia dos direitos e financiado por produtores independentes. Acrescia a esta novidade um investimento alto em publicidade, ao género do que já há muito vinha sendo praticando nos Estados Unidos, e vendia-se o realizador como autor, integrando-o na máquina promocional (ibid.: 36-37). As filmagens de Vacas iniciaram-se em Julho de 1991, com um orçamento de 165 milhões de pesetas, um tecto claramente insuficiente para o projecto.

«E um dia, por entre montanhas de guiões que por lá tinha, estava um com uma capa curiosa, uma colagem de fotografias, intitulado Vacas. Peguei nele, li-o e era maravilhoso. Estou a falar do guião original, porque o que foi filmado é muito mais curto. O original era simplesmente bonito, uma obra de museu. Li-o e telefonei ao Julio.» Medem recordase desse telefonema: «Ele disse-me que queria algumas vacas bonitas para o ano seguinte, para o Festival de Berlim. Foi um sonho tornado realidade.»

«A sublimidade é o eco de uma mente nobre.»

Longinus, De Sublimitate, , séc. I d.C.

Vacas é um filme com um guião técnico absolutamente milimétrico, uma peça de escrita sublime, elaborada por Medem em parceria com Michel Gaztambide Muñoz. Dividido em quatro capítulos, que se repartem por anos-chave entre a Terceira Guerra Carlista (1876) e o início da Guerra Civil Espanhola (1936), a câmara segue duas famílias bascas rurais que vivem envenenadas por uma rivalidade que as corrói. Passivas a tudo, as vacas vão observando os acontecimentos numa posição metafórica de imutabilidade. Este mesmo sentido está expresso numa visão Carrolliana do que se encontra do

A abertura do mercado de televisão aos privados iniciou-se em Espanha em 1989. Isto permitiu uma injecção fresca de capital e a necessidade de produção de novos conteúdos, dada a nova e ávida procura por parte de uma população já conquistada pelo ar de liberdade que lhes entrava pelas casas. 19


“If the new language of images were used differently, it would, through its use, confer a new kind of power. Within it we could begin to define our experiences more precisely in areas where words are inadequate. (Seeing comes before words.)”

«outro lado» de um buraco escavado num tronco moribundo no bosque: «O mesmo que aqui ou parecido. Tu estás no outro lado.» E é nos olhos do gado, que nos fixam, mas que, outrossim, nos atraem, que Medem nos obriga a perdermo-nos no pensamento e na acção, provocando não só as nossas reacções, como o estímulo à participação no que se vai desenrolando na tela (Fraser, 2010: 367). A paisagem basca em toda a sua glória verde e o olho aberto do bovídeo como um portal, que muitos viram como citação directa ao olho de Buñuel em Un Chien Andalou (1929).

John Berger, Ways of Seeing, 1972.

Muito se pode falar sobre Vacas, um filme simbolicamente inesgotável, primoroso do ponto de vista técnico; mas, posto em contexto histórico — o meu defeito de fabrico, como o/a leitor/a mais atento/a já deve ter notado —, a obra é uma clara chamada de atenção para o clima tenso e de violência que se vivia na sua terra-natal. O filme surpreendeu a crítica, deixando-a quase muda. No caso da revista Fotogramas, o crítico não encontrou nada de gracioso para dizer sobre a película, excepto que esta era a oportunidade para ver a actriz Emma Suárez, já no estrelato… de tranças! Por sua vez, Suárez recorda que participar em Vacas foi como «viver num conto de fadas.» O filme seria destinguido com o Prémio Goya para melhor novo realizador e arrecadou honras em muitos festivais pelo mundo fora. Continua a ser visto como uma obra de culto do cinema espanhol contemporâneo. 20


Vacas, 1992


LA ARDILLA R 1993 de Julio Medem, cujo destino parecia carregado de ideias inovadoras na abordagem às narrativas que apresentava. Stanley Kubrick gostou tanto do filme que comprou uma cópia em película a Medem, e, entusiasmado, falou dele a Steven Spielberg, que ofereceu a Julio a oportunidade de realizar The Mask of Zorro (1998), cuja estrela escolhida para protagonista tinha sido o seu conterrâneo Antonio Banderas, actor que, coincidentemente, convidaria para interpretar em Tierra (1996). O famoso realizador americano propôs ainda a Emma Suárez o papel de Elena, que acabaria a ser desempenhado por Catherine Zeta-Jones. Ambos recusaram, e o filme, que obteve um sucesso estrondoso, seria realizado por Martin Campbell, embora Medem viesse mais tarde a confessar que, não raras vezes, chegou a reconsiderar a oferta.

Como já vimos, o projecto para La ardilla roja iniciou-se enquanto Medem esperava a resposta das produtoras em relação a Vacas. O realizador vai querer trabalhar novamente com Emma Suárez, no papel de Lisa / Sofia, a quem se juntou Nancho Novo, no papel de Jota. A história lida com uma mentira que se desdobrará em muitas mais. É uma visão refrescante e bastante pessoal de uma nova Espanha que Medem idealizava limpa de machismo, liberta sexualmente e cheia de desejo, contada em registo de comédia e de mistério, numa teia de intrigas finamente tecida.

Um pouco antes da estreia de La ardilla roja, nasceu a sua segunda filha, Alicia, com síndrome de Down. Medem dedicar-lhe-ia o nome da sua produtora, Alicia Produce, mais tarde, em 1997, e filmaria com Alicia a curta-metragem Clecla (2001), inspirado pelos amigos imaginários que ela criava. Medem ofereceria também o guião de La culpa del alpinista, estreado em 2004, ao amigo Daniel Sánchez Arévalo. Neste pequeno exercício, foi também a imaginação e a interpretação de Alicia Medem a principal fonte de inspiração para a ideia original do pai.

Novamente com um apontamento animal, cabe desta vez ao ardiloso esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris Linnaeus, 1758) servir de ponte conceptual entre o que separa, ou une, os homens e as mulheres; mais centrado nas artimanhas próprias desta espécie, famosa por conseguir ludibriar até os seres humanos mais inteligentes quando tem um objectivo a atingir: uma rodela de calamar frito num parque de campismo, por exemplo.

“Fray Felipe: This is the house of God! Captain Harrison Love: Don’t worry Padre, we’ll be gone before he gets back.”

É curioso que Medem fala, numa entrevista, com uma certa nostalgia de ter filmado La ardilla roja quando «Yo era ese joven que la hizo. Porque era joven, realmente.» É um filme, portanto, que brilhou, de alguma forma, por ter sido realizado precisamente naquela altura e numa fase especial da vida

The Mask of Zorro (1998), dir. Martin Campbell, Amblin Entertainment / TriStar Pictures. 22


ROJA

La Ardilla Roja, 1993

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to para nuestro gusto; y... el Hombre..., esa especie que vive a la altura de nuestros ojos, es la luz de todo. Estamos aquí.», escreveu Julio Medem na memória descritiva do filme. O realizador explicou ainda que uma das suas grandes influências na criação do pensamento que deu origem ao filme foi A Origem da Tragédia, de Nietzsche (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), onde o filósofo alemão coloca em cima da mesa a proposta de não haver propósito para nada, nem para a vida humana, justificando-se apenas chegar ao mundo para almejar a grandes metas estéticas.

Ángel está parado entre a vida e a morte e crê-se a si mesmo como um híbrido humano-anjo. Recentemente libertado de uma instituição de saúde, a personagem principal desloca-se a um pueblo com o propósito de livrar os campos de uma praga de hemípteras que infestam as vinhas e deixam no néctar de Baco um sabor a terra. Com uma voz sempre presente na cabeça, que lhe fala das profundezas do cosmos, a imaginação prodigiosa de Ángel e a sua paixão por duas mulheres (a parte homem devotada a Mari, a parte anjo devotada a Ángela) vai virar a povoação rural do avesso.

Freud também não tinha caído ainda no olvido, conseguindo ler-se perfeitamente o balanço entre o «dionisíaco, que constitui a irracionalidade, paixão e instinto, que tem muito a ver com memória da [nossa] espécie, com o ego descrito por Freud, e o apolíneo, que é estruturado e completo, centrado no eu.» (Julio Medem, entrevistado por Rob Stone, 2007: 98).

O filme inteiro angustia sobre a dicotomia vida / morte, chamando-nos à razão sobre a efemeridade da nossa duração na Terra e sobre a necessidade de equilibrarmos a vida no mundo físico, na prática (trabalhar, fumigar as vinhas), ou viver encantados pelo sonho:

O filme entronca também na própria vida pessoal do artista e seria alterado ao longo do trabalho por isso mesmo: durante as filmagens, Julio Medem apaixona-se pela sua segunda esposa, Montse Sanz, ajudante de decoração e, doravante, directora artística das suas equipas.

«La muerte es la nada, así que no hay que perder el tiempo pensando en ella; el Universo es excesivamente violento y vas-

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Tierra, 1996

TIERRA 1996


LOS AMANTES DEL CÍRCULO POLAR 1998*

Com esta obra, Julio Medem cumpriu uma das etapas principais para se tornar um realizador de referência incontornável: de um filme profundamente autoral, conseguir o aplauso de um público vasto. [PAUSA]

A varanda está convidativa e, para além disso, está calor. Procuro nas estantes A Origem da Tragédia, não a encontro logo à primeira. Ah!

«Se nos fosse possível imaginar, enfim, a dissonância feita criatura humana — e que é o homem senão isso? —, essa dissonância teria necessidade, para poder viver, de uma maravilhosa ilusão que lhe ocultasse a sua verdadeira natureza debaixo de um véu de beleza: tal é a verdadeira finalidade artística de Apolo, cujo nome resume para nós essas inumeráveis ilusões da bela aparência que em cada instante tornam a vida digna de ser vivida e nos estimulam a vivê-la no instante seguinte (…). Em toda a parte onde presenciarmos as potências dionisíacas em exaltação violenta, é desejável que Apolo envolvido em nuvens tenha já descido sobre nós; os seus efeitos mais luxuriantes de beleza serão certamente contemplados pela geração seguinte.» (Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, trad. de Luís Lourenço, Lisboa Editora, *1998). Car****! 25


Los amantes del Círculo Polar, 1998

ANA E OTTO

[REGRESSO DA PAUSA] Depois de Vacas, a que assisti já depois do lançamento do filme que ora nos ocupa, só muito mais tarde voltei a lembrar-me de Julio Medem, quando um amigo veio falar-me de um filme espanhol «Muita, muita bom!» Corria o ano de 2006 e, nessa altura, já tinha regressado a Viana do Castelo, mas isso não interessa para o caso.

Los amantes del Círculo Polar é resultado de um período de incerteza na vida de Julio Medem. Em 1996, Tierra não tinha sido acolhido em Cannes com o sucesso desejado e a morte do pai, uma semana antes, afectou o realizador. O divórcio levou-o também à casa do seu irmão, em Paris, de onde saiu com dois guiões: um sobre o ódio, Aitz: viaje al fondo del mar, que reescreveria mais tarde como Aitor, que, por sua vez, iria dar origem a La pelota vasca; e um outro guião sobre o amor, com o título de Los amantes del Círculo Polar, «baseado nos meus sentimentos de me ter desapontado a mim mesmo, em estar furioso comigo mesmo e com o amor também.» (Julio Medem, entrevistado por Rob Stone, 2007: 125).

A redescoberta de Medem através de Los amantes del Círculo Polar foi verdadeiramente a sensação descrita por Nietzsche. Entrei numa fase de amar o país vizinho, não só cinematograficamente: a proximidade com a Galiza ajudava. À boleia de Medem, vi, ou revi — e atenção que eu não sou de reler / rever nada! —, as obras de Álex de la Iglesia, Alejandro Amenábar, Pedro Almodóvar, da dupla Jaume Balagueró e Paco Plaza, &c.

O encontro de duas crianças no recreio da escola inicia uma história de amor enternecedora e poderosa, contada circularmente como se sob o símbolo do ouroboros se encontrasse.

Poderia afirmar aqui que a Espanha a sério descobri-a por causa de Medem, mas posso estar enganado, pois estou sempre a encontrar coisas novas que me levam a querer lá estar constantemente…

Otto e Ana, sozinhos perante o mundo, no que pode ser o Éden, contando cada um a sua versão, pela metade, da sua paixão incondicional e idealizada, percorrendo o interior (novamente) dos seus olhos — um grande amor suspenso no tempo como o sol da meia-noite que Medem observara na Finlândia, aquando da sua apresentação de Vacas. 26


Los amantes del Círculo Polar, 1998

Este é talvez o filme onde as experiências pessoais e as influências de Medem mais se condensam — difíceis de enumerar aqui —, talvez porque o amor é o tema, conquanto este seja tratado não apenas pela componente do desejo, mas na sua (des)ordem mais transcendente, chegando a tocar, inclusive, a barreira do incesto, tal como já tinha acontecido com Vacas.

É de nota que a sua primeira esposa, Lola Barrera, contribuiu para o filme e que os dois mantiveram uma relação de amizade após a separação; e o filho de ambos, Peru, tem uma prestação notável como Otto enquanto criança. A participação do seu filho enquanto actor é uma consequência da morte do seu próprio pai e a fórmula que Medem descobriu para lidar com todo o peso que acarretava desde menino, dada a relação por vezes difícil entre os dois.

É ainda a primeira vez que Medem tem a oportunidade de filmar fora de Espanha, revelando por isso uma outra visão não muito comum do seu país, ou do que significa ser espanhol e/ou basco a partir da lente da alteridade, o que voltaria a acontecer mais tarde em Habitación en Roma (2010).

CORTA PARA: EXT. AO LARGO DA COSTA DA NORUEGA — DIA SOBREPOSIÇÃO: Mar da Noruega, 1985.

«Quando realizei Los amantes del Círculo Polar, eu estava despojado de amor. Melhor dizendo, eu vivia uma ausência de amor, que não é insensível, é muito intensa, é muito arrebatadora. Tu sofres muito. Tal como com a morte, também acontece com o amor. A ausência de alguém é como se esse alguém estivesse morto. As tragédias devolvem-te à vida, porque tu estás a viver uma parte de ti que é muito vívida e muito humana. Este amor que sentimos pela pessoa ausente cresce. Faz-nos sentir o imenso valor de sermos humanos e nós adoramos sentirmo-nos assim.» (Julio Medem, entrevistado por Rob Stone, 2007: 135, trad. nossa).

Afastámo-nos de um belo e alto fiorde em direcção ao azul infinito do Mar da Noruega. Em cima de uma ondulação serena, e por entre uma névoa fina, distinguimos, com alguma dificuldade, um velho navio bacalhoeiro oxidado e bamboleante, navegando com pavilhão português. RAUL (V.O.): Toda a gente deveria conhecer o meu pai. Chama-se João. 27


LÚCIA Y EL SE 2001 «Lúcia y el sexo es una historia de amor» entre Lucía e Lorenzo, bastante centrada nas casualidades, no destino e na capacidade que o amor e o sexo têm de tornar a nossa existência no planeta um pouco mais tolerável. O maravilhamento de Ángel em Tierra pelo cosmos e a luta por um ideal estético de Medem transita neste filme para a capacidade que Eros tem de ultrapassar e fazer esquecer tudo isso. A personagem de Lorenzo foi, segundo Julio Medem, um receptáculo de todas as suas frustrações criativas, daí o ter transformado em escritor aquando da redação do guião. Há uma ilha não nomeada (Formentera), onde (novamente) existe um buraco que funciona como pólo concentrador de todas as linhas traçadas na narrativa, tal como Lorenzo, que as une a todas em si mesmo. A pequena ilha é descrita por uma personagem como «uma jangada», uma «tampa» que oscila ao sabor do mar e que, vista por baixo, está cheia de milhares de cavernas e sem ligação alguma ao fundo do Mediterrâneo. Um cenário de escapismo ideal, mais uma vez confirmando a preferência de Medem em colocar as suas personagens longe da urbanidade.

O final trágico de Ana, em Los amantes del Círculo Polar, leva Julio Medem a tentar, de certa maneira, recuperar a personagem no seu filme seguinte, Lúcia y el sexo. É uma homenagem à sua irmã, também com o nome de Ana, que viria a falecer durante as filmagens num acidente de automóvel, e cuja influência na vida do realizador teria uma homenagem mais concreta e extensa em Caótica Ana (2010). Ana é também a personagem principal de El espíritu de la colmena, de Víctor Erice (1973), o filme seminal de Medem. Lúcia y el sexo seria o primeiro filme espanhol a ser rodado em formato digital de alta-definição (HDCAM, 1080p) e explora, com base na experiência pessoal de Medem, uma personagem (Lucía, representada pela irrepreensível Paz Vega) que tenta dar a volta por cima após outra tragédia, invertendo assim o sentido com que terminou a sua obra anterior.

É curioso perceber que, no dealbar do séc. XX para o actual, o cinema espanhol já era notoriamente reconhecido pela sua carga erótica incomum, mas a chave de Medem foi ter conseguido com este trabalho fazer com que a componente sentimental ultrapassasse largamente a carga sexual. Isto deve-se sobretudo a momentos pontuais de extremo dramatismo, de episódios de grande violência e a uma sensibilidade de escrita bastante rara.

Perante o pessimismo de Los amantes del Círculo Polar, Medem imaginou que «la estructura de la nueva historia debía ser simétricamente opuesta a la anterior, por lo que a Lucía le esperaría un final cálido y esperanzador. Alguien que se empeña de esa manera en dar otra oportunidad al destino, se merece un buen regalo.» 28


Lúcia y el sexo, 2001

EXO


OUTRA VEZ O ACIDENTAL E UM ACIDENTE

altura, coincidências entre invenção e realidade? Poderão existir outros realizadores-autores que fazem o mesmo (…), mas apenas Medem conseguiu torná-lo parte integral para o seu entendimento e essencial às considerações sobre o seu trabalho de autor.» (ibid.: 163, trad. nossa). Os seus filmes são dedicados a membros da sua família: Vacas à sua primeira esposa, Lola; La ardilla roja a Alicia; Tierra a Peru; Los amantes del Círculo Polar ao pai; Lucía y el sexo a sua irmã Ana. Inúmeras personagens secundárias são também espelhos de pessoas importantes na sua vida.

No carro onde viajava Ana, irmã de Julio Medem, seguia também Olga, companheira do irmão Álvaro, grávida de um rapaz que ia ser chamado de Otto. Este Otto, que recebeu o nome de um tio de Julio, Álvaro e Ana, um piloto, seria, portanto, filho de Álvaro e Olga, o nome dos pais em Los amantes del Círculo Polar, em que Otto criança é representado pelo filho de Medem, Peru. A sua irmã Ana, que tinha em parte inspirado a Ana de Los amantes do Círculo Polar, morre precisamente num acidente, tal como a personagem. E é esta personagem que Medem tentava agora «ressuscitar» em Sexo y Lucía. Lucía, do verbo lucir, aquela que dá luz. Julio teria de recuperar do impacto emocional até conseguir voltar a trabalhar para proceder à montagem final do filme (Stone, 2007: 161-162).

O reconhecimento em Espanha e no estrangeiro deixou Julio Medem à vontade para embarcar no seu projecto mais arriscado até à data, pois de política se tratava — e de política do País Basco. Quando Medem emerge do grande buraco na ilha, traz já em si um longo caminho transformador que lhe permitirá regressar à sua terra de nascimento. O caminho a seguir seria, no entanto, árduo.

«Y nos lo quitarán todo Menos el traje sucio De comunión, éste, el de siempre, el puesto. Lo de entonces fue sueño. Fue una edad. Lo de ahora No es presente o pasado, Ni siquiera futuro: es el origen.»

«Como um declarado surrealista, Medem vive de coincidências como excepções que confirmam a regra de um universo verdadeiramente desordeiro (…), mesmo quando são fabricadas, como quando deu o nome de Ana à sua segunda filha, nascida em 2004. Mas se ele dá às suas personagens nomes da sua família, tais como Peru, Sofía, Ana, Otto e Álvaro, e integra as suas experiências de divórcio e morte de entes queridos nos seus guiões solipsistas, como é que isto não poderá originar, a dada

Claudio Rodríguez, «Ode a la niñez», in Alianza y condena, 1965.

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LA PELOTA VASCA. LA PIEL CONTRA LA PIEDRA

EUSKAL PILOTA. LARRUA HARRIAREN KONTRA

2003

Medem decide retornar ao País Basco para trabalhar no seu projecto Aitor: la piel contra la piedra, um filme que pretendia ser uma obra épica sobre o pano de fundo do conflito basco. La pelota vasca seria, portanto, uma forma de se preparar para as filmagens de Aitor, sistematizando as ideias e opiniões de várias pessoas acerca de uma situação extraordinariamente complexa.

Para a construção do documentário, Medem utilizou como artifício uma espécie de diálogo a partir dos excertos dos entrevistados: «Lo primero que me planteé de LA PELOTA VASCA, la piel contra la piedra, fue abarcar el mayor número posible de voces diferentes, como una polifonía humana en la que cada cual cantara a su aire. De alguna manera lo opuesto al coro, o un anticoro de voces del que se pudieran distinguir los timbres de cada una. Quería individuos hablando de su preocupación personal por un problema social como es el vasco.» (Julio Medem, memória descritiva de La pelota vasca no site oficial, consult. a 08 Set. 2019).

O que iniciou com um propósito aparentemente simples, gerou um enfoque mediático tamanho em Espanha que Medem, acossado violentamente e de repente, decidiu pugnar pela liberdade de se expressar, e sentiu-se obrigado a prosseguir o trabalho e a abandonar Aitor. Não está também alheia na sua origem a ascensão ao poder de Aznar, «el auge del nacionalismo ultraespañol», nas palavras de Medem. 31


FINIS T(I)ERRA Medem realizará, nos anos seguintes, Habitación en Roma (2010), o seu primeiro filme em língua inglesa, uma história sobre o amor intenso de uma noite entre duas mulheres que se desconhecem completamente e que tentam, no pouco tempo em que estão juntas, descobrir os segredos uma da outra; Ma ma (2015), um filme com uma carga emocional fortíssima, protagonizado por Penélope Cruz no papel de Magda e pelo excepcional Luis Tosar no papel de Arturo, com enfoque no amor, na esperança e na força vital que move montanhas após a descoberta de um cancro; e, por último, no ano passado, em Outubro de 2018, lançou, com distribuição Netflix, El árbol de la sangre, onde Medem volta a Euskadi e a algumas das suas vivências passadas. No filme, vê-se um casal que se isola no campo para tentar escrever a sua história comum, mas à medida que vão desenhando a sua árvore genealógica, vão descobrindo uma sucessão de relações íntimas cruzadas, loucura e traição que porá à prova a sua própria relação.

A partir de Caótica Ana (2007), não consigo ainda distância suficiente para avaliar o impacto dos filmes realizados por Julio Medem. O tempo o dirá da sua importância em mim. Caótica Ana segue uma jovem que larga uma vida hippie com o seu pai, numa gruta ao pé do mar, para continuar a pintar os portais que lhe surgem na cabeça a partir de visões de violência contra as mulheres que recuam séculos e viajam por continentes. Ao seu lado, terá uma mecenas estrangeira (Justine, interpretada por Charlotte Ramplimg) dona de uma escola de artes privada e nada convencional mesmo no centro de Madrid, onde a protagonista irá continuar o seu caminho de descoberta. Esta Ana é, indubitavelmente, uma memória cara da irmã de Julio, ela própria também pintora, falecida num desastre automóvel a caminho da inauguração de uma das suas exposições. Por causa disto mesmo, o realizador basco investirá consideravelmente, tanto financeiramente como pessoalmente, na feitura deste filme, que, no entanto, não obteve o sucesso esperado em bilheteira, deixando Medem numa situação complicada.

Julio Medem participou e produziu também projectos com outros realizadores, filmou curtas-metragens, publicidade e até participações interpretando-se a si mesmo. 32


Habitaciรณn en Roma , 2010

Caรณtica Ana, 2007


«O Basco», o «SuperMedem», Julio, é um homem que transporta praticamente toda a história de Espanha recente no próprio corpo. E fá-lo sendo também profundamente basco, ainda que grande parte da sua vida tenha ocorrido «no exílio». A sua prodigiosa imaginação marcou profundamente o cinema contemporâneo espanhol, mas foi a sua experiência individual a marca indelével da sua autoria, aspecto que transparece a cada segundo de filme que rodou. Ver Medem é, efectivamente, um risco, porque a nossa própria humanidade é constantemente tocada no âmago. Tal como no espelho de Alice(ia), cruzamos a barreira da realidade, ainda que do outro lado possa não estar a Rainha Vermelha, mas a nossa própria imagem a olhar-nos fixamente. O seu cinema alerta-nos ainda para outro perigo sempre iminente: é que, se reflectirmos demasiado sobre a nossa presença no Universo e nos atrevermos a verbalizá-lo, poderemos ser facilmente considerados loucos. Para quem fica sempre na dúvida: resistem o amor e a criação. Em todas as suas infinitas formas. FADE PARA NEGRO: FIM RAVLVS FECIT SEPT MMXIX

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El รกrbol de la sangre , 2018

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Ma ma , 2015


FILMOGRAFIA (como realizador)

El ciego (1974), curta-metragem de 8mm. Los jueves passados (1977), curta-metragem de 8mm. Fideos (1979), curta-metragem de 8mm. Si yo fuera un poeta (Antonio Machado) (1981), curta-metragem de 8mm. Teatro em Soria (1982), curta-metragem de 8mm. Patas em la cabeza (1986), 13 min. Las seis en punta (1987), 16 min. Martín (1988), 30min. El diário vasco (1989), 30 min. Vacas (1992), 96 min. La ardilla roja (1993), 114 min. Oceáno de sol (1994), videoclipe para António Vega Tierra (1996), 125 min. Así se hizo ‘Airbag’ (1997), 125 min. Los amantes del Círculo Polar (1998), 112 min. Lucía y el sexo (2001), 123 min. Clecla (2001), 3 min. La pelota vasca. La piel contra la piedra (2003), 117 min. ¡Hay motivo! (2004), 3 min. Caótica Ana (2007), 119 min. En las ramas de Ana (2007), 5 min. Concha (2008), 6 min. Habitación en Roma (2010), 109 min. “La tentación de Cecilia” (7 días em La Habana) (2012), 128 min. (filme completo) Ma ma (2015), 110 min. “La ballena real” (Kalebegiak) (2016), 112 min. (filme completo) El árbol de la sangre (2018), 130 min.

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ALGUMAS LEITURAS http://www.juliomedem.org/ (consult. a 08 de Set. 2019) FRASER, Benjamin (Set. 2010), “Hacia uma teoria de lo desconocido: la aportación visual de Vacas de Julio Medem a la filosofia de la representación”, in Hispanic Research Journal: Iberian and Latin American Studies, vol. 11, n.º 4, London, Queen Mary University of London: Department of Hispanic Studies. MONTERO, Rosa (1995), “Political Transition na Cultural Democracy: Coping with the Speed of Change”, in Spanish Cultural Studies: An Introduction: The Struggle for Modernity, New York, Oxford University Press. RICHARDSON, Nathan (2002), “Posthuman Nationalism and the Renewal of Rural Spain: Julio Medem’s Vacas and Suso de Toro’s Calzados Lola”, in Letras Peninsulares, vol. 15, n.º 2, Davidson, N.C., Davidson College: Department of Spanish. RODRIGUEZ, Marie-Soledade (dir.) (2008), Le cinéma de Julio Medem, col. Monde Hispanophone, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle. (Disponível em: http://books.openedition.org/psn/1867) SANTAOLALLA, Isabel C. (1998), “Far From Home, Close to Desire: Julio Medem’s Landscapes”, in Bulletin of Hispanic Studies, vol. LXXV, n.º 3, Liverpool, Liverpool University Press. — (1999), “Julio Medem’s Vacas (1991): Historicizing the Forest.”, in Spanish Cinema: The Auterist Tradition, New York, Oxford University Press. STONE, Rob (2007), Julio Medem, col. Spanish and Latin American Filmmakers, Manchester, Manchester University Press.

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FICHA TÉCNICA Edição:

Cineclube de Guimarães

Coordenação Editorial: Paulo Cunha Rui Silva Samuel Silva

Texto:

Raul Pereira

Design:

Alexandra Xavier

ISSN:

2183-1734 12 de Setembro de 2019

Profile for Cineclube Guimarães

Enquadramento #17: Julio Medem  

Revista Enquadramento, do Cineclube de Guimarães

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