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P U BLICA ÇÃ O TRIM ES TRA L JU NHO 2018 IS S N 2183-1734

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Havia um ponto de partida para este número do Enquadramento: uma mulher, cineasta, portuguesa. O nome óbvio seria o de Bárbara Virgínia, realizadora de “Três Dias Sem Deus”, uma obra única no contexto do cinema português, que foi escolhida para a primeira edição do Festival de Cannes, ao lado de “Camões”, de Leitão de Barros, no ano de 1946.

outras obras da sua autoria é uma tarefa complicada. A escassa informação de que partimos para este número e a dificuldade em encontrá-la fez aumentar o interesse por ela. Noémia Delgado esteve intrinsecamente ligada ao momento fundador do Novo Cinema Português. Estava na sala de montagem com Margarete Mangs, com quem estagiava na produtora de António da Cunha Telles, quando Carlos Paredes gravava a inesquecível música que serve de banda sonora ao filme “Verdes Anos” (1963) – também o nome da música – de Paulo Rocha.

Todavia, Bárbara Virgínia, nome artístico de Maria de Lourdes Dias Costa, nunca quis ser realizadora – aconteceu-lhe ser. Entre o canto, os recitais de poesia e a representação. Ela própria não se auto-intitulava como realizadora e, desde cedo na sua vida, afastou-se do cinema em direção às outras artes, que tinham sido as suas paixões iniciais.

Além disso, fez parte da cooperativa de cinema, o Centro Português de Cinema. No entanto, muito raramente – ou nunca – o seu nome é referido quando se fala nos realizadores que compunham esse grupo, que ajudou a alavancar a produção de cinema em Portugal com o financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, e que está intrinsecamente ligado ao período do Novo Cinema.

O que se procurava era uma mulher que dominasse a técnica e quisesse fazer cinema. Nesse sentido, a primeira realizadora portuguesa foi Noémia Delgado. Já explicaremos porquê. Mas Noémia Delgado é uma espécie de mistério. Não é fácil encontrar informação sobre a realizadora, os seus retratos escasseiam e, além de “Máscaras” (1976), o seu filme fundamental, o acesso a

Entre 1974 e 1975, enquanto o país vive o período revolucionário, Noémia Delgado filma “Máscaras”, a sua 5


obra principal e a única em toda a sua carreira que foi financiada pelo Instituto Português do Cinema, criado em 1973.

a Roterdão. Havia um carro à minha espera, flores e eu não apareci. Nem o filme. Mais tarde, precisei de críticas sobre o filme e pedi à Justina Bastos, do Instituto Português de Cinema, algumas que ela tivesse. É então que leio uma crítica, de 1980, que dizia que se o meu filme tivesse ido ao Festival de Roterdão teria ganho seguramente um prémio, tendo em conta os filmes que tinham sido exibidos.”

Este é um belíssimo filme (com fotografia de Acácio de Almeida, figura incontornável do cinema português), uma obra pioneira que cruza a linguagem do filme etnográfico, do documentário e da ficção. A obra, apesar do seu carácter inovador e do lugar que tem na história do cinema em Portugal, não teve estreia comercial, como várias dezenas de filmes portugueses concluídos no mesmo período. Numa entrevista para a publicação “Cineastas Portuguesas 1874-1956”, uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, editada em 2000, Noémia Delgado explica: “Devia ter ido a Roterdão, logo em 1975 ou 76. O Vieira Marques, director do Festival da Figueira da Foz, tinha-me dito que queria absolutamente apresentar o filme em Roterdão, o que me pareceu óptimo. Entretanto, nesta altura, no Palácio Foz estava o Eduardo Prado Coelho, e no Centro Português de Cinema estavam o Fernando Lopes, o José Fonseca e Costa, o António Pedro Vasconcelos e discutiram todos o problema das minhas viagens. O Vieira Marques já se tinha ido embora, convencido que eu iria

Noémia Delgado acabou por ser expulsa do Centro Português do Cinema devido a uma série de lutas internas. A razão oficial foi que tinha acedido ser entrevistada por Alfredo Tropa, também realizador, para a televisão e a direção não gostou. José Fonseca e Costa também tinha sido entrevistado, mas não sofreu o mesmo castigo. A vida política de Noémia Delgado nem sempre terá ajudado a sua carreira. Esteve presa pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a polícia política do Estado Novo) durante um mês, em 1965. Esse facto impediu-a de ingressar na London School of Film Technique. Mais tarde, no pós-25 de Abril, ter-se-á juntado à Luar (Liga de União e de Acção Revolucionária), grupo político que deixou após a saída de Camilo Mortágua.

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Depois de “Máscaras”, Noémia Delgado não voltou a obter financiamento das entidades competentes para fazer cinema – e não foi por falta de projectos. “Tenho uma coleção de longas-metragens que nunca mais acaba. Por amor de Deus! Tenho imensas coisas! Quando morrer não sei onde é que as vou deixar. Tinha uma série de filmes, mas eles deram-me sempre para trás”, afirmou na publicação de 2000 já citada.

ração dos actores da Seiva Trupe, companhia de teatro sediada no Porto. Virou-se então para a televisão, na altura, um monopólio da RTP, onde a muito custo consegui produzir duas séries e alguns documentários televisivos. Realizou o último filme para a RTP em 1988, a convite de Fernando Lopes, sobre José Cândido Dominguez Alvarez, pintor luso-galaico. A sua vida como realizadora tinha terminado aí.

A cineasta foi incansável na quantidade de projectos que elaborou e apresentou, entre eles um projectos chamado “Ciclo de Verão”, logo a seguir ao “Máscaras” – que funcionaria como díptico em relação a este, baseado no Ciclo de Inverno. Noémia Delgado tinha já uma carta com selo branco a confirmar a atribuição do subsídio, mas o Centro Português do Cinema decidiu atribuir esse montante a José Álvaro Morais para fazer um filme sobre a pintora Vieira da Silva – “Ma Femme Chamada Bicho” (1978).

Na mesma entrevista acima citada, a realizadora conclui: “Hoje, que estou à parte, percebo que realmente era uma mulher muito só no meio de tantos homens. Na altura, eu lutava, esbracejava, mas lutava com eles como igual, não pensava que era uma mulher a lutar contra os homens. Nessa altura, não punha o problema desta maneira. Pensava que tinha os mesmos direitos que eles, mas não era por causa de ser mulher, era por ser uma profissional.”

Outro grande projecto que teria na gaveta (e de onde não saiu) chamava-se “5.ª Avenida”. Projecto ainda elaborado com a ajuda do filho e fotógrafo, Alexandre Delgado O’ Neill. O filme passar-se-ia no bairro da Sé do Porto e envolveria drogas e prostituição e teria a colabo-

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Maria Noémia de Freitas Salgado nasceu em 1933 em Angola, mas mudou-se ainda muito jovem para Moçambique. É no Instituto de Portugal (liceu em Lourenço Marques, actual Maputo) que começa a interessar-se por arte, principalmente escultura. Acabou por juntar-se ao Núcleo de Arte, onde começou a frequentar aulas de escultura à noite (sempre acompanhada pelo pai). No fim do curso liceal, começou a trabalhar na Câmara Municipal de Lourenço Marques, com a tarefa de desenhar projecções de terrenos a partir de cartas tipográficas. O cargo burocrático podia ser apenas uma nota passageira na sua biografia, mas o papel com que Noémia Delgado trabalhava no município moçambicano era de tão grande qualidade que não resistiu a utilizá-lo para as suas próprias criações – na janela do seu gabinete, usava costas das folhas A4 para desenhar tudo o que via: homens do lixo, vendedores, etc. Com esses desenhos fez a sua primeira exposição individual, vendida por completo no dia seguinte à sua inauguração. É por essa altura que começa a desenvolver preocupações sociais e políticas com um grupo de amigos de que 8


faziam parte os irmãos Fernando e José Gil (ambos filósofos), Fonseca Amaral (poeta), Rui Knopfli (poeta) e Hélder Macedo (escritor). Com a ajuda de uma livraria em Lourenço Marques, estes compravam e trocavam entre si livros proibidos pelo regime.

Desencantada com as Belas Artes, conseguiu arranjar dinheiro vendendo algumas peças de escultura e partiu para Paris em Julho de 1956. Em Paris, conhece Mário Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, e Marcelino Santos, membro da FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique. Estas relações ajudam Noémia Delgado a conhecer com mais profundidade os problemas sociais do país e ex-colónias.

Nuno Craveiro Lopes, arquitecto também na Câmara de Lourenço Marques, convenceu Noémia Delgado a mudar-se para Lisboa e a inscrever-se na Escola Superior de Belas Artes. Em Novembro de 1955, Noémia Delgado chega à capital. O seu primeiro grande choque foi a diferença entre o contacto humano que havia em Moçambique e aquele que (não) encontrou em Lisboa. O segundo terá sido a falta de preparação e de cultura dos seus colegas.

Ainda em França, concorreu à Escola de Belas Artes de Paris, onde foi aceite. No entanto, não teve meios para se manter na capital francesa e acabaria por regressar a Portugal e retomar o curso de escultura. Em Dezembro do ano seguinte, 1957, casou com o poeta Alexandre O’ Neill, com quem teve um filho, passado dois anos – que viria a falecer em Janeiro de 1993, marcando indelevelmente a realizadora.

A sua estreia nos confrontos políticos deu-se ainda na Escola Superior com uma entrevista que lhe é feita por um jornalista de Moçambique para o “Diário de Notícias” de Lourenço Marques, mas que acabou por ser publicado num jornal afecto ao regime salazarista, onde teria desancado no academismo da Escola, no ensino dos mestres. O atrevimento valeu-lhe uma reprimenda e por pouco escapou à expulsão. 9


Realizadores do Novo Cinema com quem Noémia Delgado colaborou no “Cine Almanaque”: Paulo Rocha, Fernando Lopes e António de Macedo

Em 1963, enquanto procurava emprego, Noémia Delgado encontrou um anúncio no jornal para trabalhar em cinema – arte sobre a qual então nada sabe – com o produtor António da Cunha Telles. O seu primeiro trabalho em cinema foi como anotadora para um filme francês, do qual Cunha Telles era produtor. Depois saltou para a sala de montagem, para aprender a montar com Margarete Mangs, cineasta sueca, esposa de António da Cunha Telles. É nessa altura que se dá o episódio com Carlos Paredes e a música para “Verdes Anos” (1963) de Paulo Rocha. Foi também assistente de montagem do filme “Mudar de Vida” (1966), do mesmo realizador. Em 1965, iniciou-se na realização, colaborando no “Cine Almanaque”, uma série de actualidades, feita com a colaboração de Fernando Lopes, Paulo Rocha, António de Macedo, produzida por António da Cunha Telles para a Ulysses Filmes. Para esse formato realizou três curtas: “Amoladores”, “Fotógrafos Ambulantes” e “Escultura de João Cutileiro”.

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Noémia Delgado trabalhava na montagem final do filme de Manoel de Oliveira “O Passado e o Presente” (1972), quando, em 1971, recebeu uma bolsa da Gulbenkian para um estágio em Paris com o realizador etnográfico Jean Rouch (autor de “Os Mestres Loucos” (1954) e “Crónicas de um Verão” (1961), por exemplo). A realizadora acabou por ficar um ano em Paris. Assistiu ao primeiro Congresso Etnográfico Europeu. Foi também o ano em que mais cinema viu. Para além de ter visto a obra integral de Jean Rouch e imenso cinema africano, tinha conseguido um cartão especial de acesso à Cinemateca Francesa junto de Henri Langlois, co-fundador do Comité do Filme Etnográfico em Paris, com a desculpa de ter origem moçambicana, uma vez que os portugueses gozavam então de má fama em Paris. Foi assim que Noémia Delgado mergulhou na Nouvelle Vague francesa e conheceu autores como Éric Rohmer, Jacques Rivette, Jean-Marie Straub, entre outros.

No mesmo ano, e com o objectivo de ter formação para poder ser realizadora, concorreu ao subsídio anual do Secretariado Nacional de Informação (SNI). Foi aceite em Londres, na London School of Film Technique, mas o SNI suspendeu o concurso, no qual era a única concorrente e não lhe renovou o visto, por razões políticas.

De volta a Portugal, em 1972, realizou a sua primeira curta-metragem, “Mafra e o Barroco Europeu”, resultante de uma encomenda da empresa Torralta. Dois anos depois, o Instituto Português de Cinema atribui-lhe um financiamento para realizar a sua única longa-metragem, “Máscaras”, onde mostra o seu potencial como realizadora, que não teria oportunidade de aproveitar e desenvolver

É que nesse mesmo ano, a 28 de Maio, Noémia Delgado tinha sido presa. A razão da prisão estava relacionada com a sua primeira viagem a Paris e com a alegação de que a União Soviética teria financiado em parte a sua estadia. Em Caxias, pela primeira vez, Noémia Delgado tinha contacto com camponesas e operárias. Tinha crescido num meio social muito diferente, mas integrou-se rapidamente. A realizadora comunicava com as militantes do Partido Comunista presas em outras celas por código Morse. Escrevia cartas em nome das colegas de cela, ensinava outras a ler. Iniciou uma greve de fome devido à má qualidade da comida que lhes era servida. Passado um mês, foi libertada.

Apesar de este ser um filme marcante no panorama do documentário português, “Máscaras” nunca foi exibido comercialmente em Portugal. Estreou na Biblioteca Nacional de Lisboa a 14 de Junho de 1976. Sobre este filme, o crítico Jorge Leitão Ramos diz ser “um filme muito belo, um exemplo de documentarismo modesto de meios, mas rico de intervenção e encantamento”, no seu livro “Dicionário do Cinema Português 1962-1988”. 11


“Máscaras” é um belíssimo exemplo do filme etnográfico, mas não se esgota aqui. Filmado maravilhosamente, ou não estivesse ao seu lado Acácio de Almeida, que soube tirar melhor partido do que Trás-os-Montes tem para oferecer. E é neste ponto que “Máscaras” ganha. Este não é um mero registo de tradições numa parte recôndita do país. As máscaras (o objecto) servem apenas de pretexto para Noémia Delgado documentar a vida em Trás-os-Montes: os locais, o trabalho, a comida, a religião, os costumes.

Estas palavras são da autoria de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira. Estes dois etnógrafos são essenciais a esta obra – foram as pesquisas desses autores que levaram Noémia Delgado a Trás-os-Montes.

Fá-lo com um olhar curioso e intencional. No meio das festas, Noémia Delgado questiona o lugar da religião, a divisão de género, a diferença de classes. Como a própria afirma, “este filme não é um filme inocente” (“Cineastas Portuguesas 1874 – 1956, 2000, CML”). E não o é, porque ela interfere no objecto documentado, cria ligações, interroga.

De forma a registar as Festas de Inverno, a rodagem iniciou-se no Natal de 1974 e prolongou-se até à Quarta-Feira de Cinzas do ano seguinte, mudando de localização consoante a festa e a ocasião que iria ser registada. O documentário segue o tempo das festividades: a Festa dos Rapazes em Varge (25 de Dezembro), Santo Estevão em Grijó da Parada (26 de Dezembro), o Fim de Ano na Bemposta (31 de Janeiro), o Dia de Reis em Rio de Onor, o Entrudo em Podence e a Quarta-Feira de Cinzas em Bragança.

E encena e recria também. Quando Noémia Delgado chegou, no Inverno, com o seu assistente Henrique Paulo Nogueira, imaginava que nessa altura as localidades 12

Filme “Máscaras”, 1976

“Máscaras” avisa-nos logo de início ao que vem. Pela voz de Alexandre O’ Neill, ouvimos na primeira frase do filme a possível ligação entre a geografia e clima de Trás-os-Montes e as Festas de Inverno, como acontece em outros países “alpinos, gelados e balcânicos”.


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lo. “Caretos”, intelectuais, turistas e media”, 1999) essa atribuição é clara: “Já só havia na altura uns três ou quatro fatos, os moços novos eram poucos e muito pessoal estava emigrado! Quando a Noémia esteve cá a filmar o pessoal ganhou gosto naquilo e depois retomou-se a tradição. O filme depois parece que até passou aí na rua… Estendeu-se um lençol na parede…” (conversa com António Carneiro, presidente da A. M. F. F. de Podence, e Ti Albano, executante dos trajes atuais). Mais do que as Festas de Inverno, Noémia documentou uma forma de vida, uma estranha forma de vida, ainda que para isso tenha sido necessário recorrer à ficção. Esta tensão entre ficção e documentário está bem explícita numa conhecida citação de Godard - “Se queres fazer um documentário deves recorrer automaticamente à ficção, e se queres fortalecer a tua ficção, tens de voltar à realidade. Este filme mostra bem que Godard sabia do que estava a falar.

À data, Noémia Delgado não saberia o impacto que “Máscaras” acabaria por ter: a revitalização de tradições que estavam praticamente em desuso. Num artigo do antropólogo Paulo Raposo (“Do ritual ao espetácu14

Filme “Máscaras”, 1976

estariam cheias de mascarados. Enganou-se. A tradição estava praticamente extinta. O primeiro passo foi convencer os mais velhos a irem buscar os fatos guardados, a procurarem as máscaras e a serem eles os mascarados – por norma este papel pertence às gerações mais novas. Com ajuda dos locais – o objecto de trabalho – a realizadora resgatou os fatos, as máscaras, os rituais. Cria-se então uma relação íntima e de cumplicidade entre a documentarista e as pessoas. As Festas de Inverno que vemos registadas no filme, são fruto desta relação. Aqui, Noémia Delgado não é a documentarista que observa e não participa; ela, em conjunto com os locais, recria e reinventa a tradição.


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No mesmo ano em que termina “Máscaras”, Noémia Delgado recebe uma proposta para ir trabalhar para Roma, como consultora do realizador Thomas Harlan para o documentário “Torre Bela”. Torre Bela era uma herdade no Ribatejo com dois mil hectares que foi ocupada por trabalhadores agrícolas sem trabalho nem terra, que num momento quente do Processo Revolucionário em Curso, período que se iniciou com o 25 de Abril e que terminou com o golpe militar de 25 de Novembro de 1976, decidem organizar-se em cooperativa.

Alain Delon, frequentador do mesmo local, costumava sentar-se à mesa com elas. No ano seguinte, Noémia Delgado regressou a Portugal e, sem trabalho, procurou João Martins, produtor que estava a trabalhar numa série de filmes sobre escritores portugueses, a que chamou de “Palavras Herdadas”, para a RTP. A maioria dos filmes tinha sido encomendada a outros realizadores, mas ainda sobravam alguns que ninguém parecia querer fazer: Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha e Eça de Queiroz. A realizadora aceitou de imediato o desafio. Estes filmes foram exibidos na televisão portuguesa entre 1978 e 1979 e podem ser hoje vistos no arquivo online da RTP.

Em Roma, Noémia Delgado trabalhava nos estúdios da Internacional Recording. Todos os dias de manhã, a realizadora cruzava-se com Fellini a tomar o pequeno-almoço. Ocasionalmente, Bertolucci também aparecia. Mas foi com o actor Alain Delon que a realizadora travou amizade. O hotel onde Noémia Delgado estava hospedada tinha uma simpática esplanada em frente, onde esta se costumava encontrar com uma colega argentina.

Em 1979, Noémia Delgado aceita novo desafio para a RTP. Dentro da série “Contos Tradicionais Portuguaes” realiza uma curta-metragem “O ladrão de pão”, baseada num verso com o mesmo nome do ainda marido 16


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Da esq. para a dir: “ A Princesinha das Rosas”, 1979; “Tiaga (ou a Reincarnação Deliciosa) ”, 1979; “O Visconde”, 1980; “O Defunto”, 1980; “O Canto da Sereia”, 1981; “A Noite de Walpurgiss”, 1981


“Quem Foste Alvarez?” , 1988

Alexandre O’ Neill. Com a participação dos actores João Mota e Isabel Alves da Costa, a curta é musicada por José Mário Branco.

facto. Em 1983, foi convidada a fazer parte do Júri Internacional do Fantasporto e, em Janeiro de 1986, publicou um livro de poemas com o título “Jacarandá no Coração”.

Noémia Delgado continuava a escrever guiões e trabalhar em projectos à espera que fossem aprovados pelo IPC, algo que nunca aconteceu. Assim, vai tentando também elaborar projectos para a RTP e entre os anos 1980 e 1981 consegue, com o apoio do então diretor da Cinemateca, Luís de Pina, financiamento para realizar uma série baseada em contos fantásticos.

Ao longo dos anos 1980 e 1990, a realizadora foi-se dedicando às artes plásticas. A maior parte dos trabalhos resulta de encomendas feitas por clientes particulares do então companheiro Teixeira Lopes. Em 1988, a realizadora é convidada por Fernando Lopes para fazer aquele que seria o seu último filme. A proposta foi fazer um filme sobre o pintor Dominguez Alvarez, que seria incluído numa série para a RTP sobre grandes pintores portugueses. O documentário chamou-se “Quem Foste, Alvarez?” e estreou na televisãoem Novembro de 1988 (também pode encontrar-se no arquivo online).

“Lembrei-me de que o fantástico era um género pouco visto na televisão e propus filmar uma série de contos fantásticos, de cerca de três quartos de hora de duração, adaptados de obras da nossa literatura”, disse numa entrevista, citada pelo investigador João Monteiro num artigo para a revista “Blimunda” (2014). Escolheu sete contos de uma antologia, levando ao pequeno ecrã obras de Fialho de Almeida, Aquilino Ribeiro, Júlio Dinis, Mário de Sá-Carneiro, entre outros.

Após a morte do único filho (1993), Noémia Delgado desligou-se do cinema e da televisão. Nas suas palavras: “Depois do meu filho falecer nunca mais pensei em cinema. Nunca mais vou fazer cinema na minha vida. Nunca mais.”

Em 1982, Noémia Delgado conheceu o arquitecto Teixeira Lopes, com quem começou a viver em união de 18


1965 _“Amoladores” (curta-metragem, colaboração com Cine-Almanaque)

1982 _ “Artistas” (Série TV): Rogério Paulo, Ruy de Carvalho, Simone de Oliveira

1965_ “Fotógrafos Ambulantes” (curta-metragem, colaboração com Cine-Almanaque)

1982/85 _ “Regiões Vinícolas Portuguesas” (documentário TV)

1965_ “Escultura de João Cutileiro” (curta-metragem, colaboração com Cine-Almanaque)

1985 _ “Arte Nova e Deco no Norte de Portugal” (Série TV)

1972 _ “Mafra, O Barroco Europeu” (curta-metragem)

1986/87 _ “O Trabalho do Ouro e da Prata no Norte” (Série TV)

1976 _ “Máscaras” 1977 _ “Palavras Herdadas” (Série TV): Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha, Almeida Garrett, Eça de Queiroz “Contos Fantásticos” (Série TV): 1979 _“A Princesinha das Rosas”. 1979 _ “Tiaga (ou a Reincarnação Deliciosa)” 1980 _”O Visconde” 1980 _ “O Defunto” 1981 _ “O Canto da Sereia” 1981 _ “A Noite de Walpurgis” 1981 _ “A Estranha Morte do Professor Antena”

1988 _ “Quem Foste, Alvarez?” (vida e obra do pintor José Cândido Dominguez Alvarez) (Série TV)


Profile for Cineclube Guimarães

Enquadramento #15: Noémia Delgado  

Revista Enquadramento, do Cineclube de Guimarães

Enquadramento #15: Noémia Delgado  

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