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A Agonia do Cristianismo


Miguel de Unamuno

A Agonia do Cristianismo

Tradução: Alexandre Müller Ribeiro


©La Agonía del Cristianismo : Miguel de Unamuno, 1930 © Tradução: Alexandre Müller Ribeiro, 2017 © Prefácio da edição brasileira: Tiago Amorim, 2017 © Tradução do prefácio da edição inglesa: Evandro Ferreira e Silva, 2017 Imagem da capa:Crocifisso da basílica de San Domenico di Bologna, obra de Giunta Pisano (ca. 1190–1260)

Ficha Catalográfica Unamuno, Miguel de, 1864–1936 A agonia do cristianismo / Miguel de Unamuno; prefácios de Tiago Amorim e Ernest Boyd; edição de Diogo Fontana e Jefferson Bombachim. — 1º ed. — Curitiba, PR: Livraria Danúbio Editora, 2017; 140 pp. ISBN: 978-85-67801-10-0 1.Ensaios. 2. Filosofia. I. Título. CDD – 100

Editor:

Diogo Fontana

Editor-assistente:

Jefferson Bombachim

Tradutor:

Alexandre Müller Ribeiro

Editoração:

Caterina Veneziano Pacce

Capa:

Matheus Bazzo

Distribuição: CEDET - Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico Rua Ângelo Vicentim, 70, Campinas/SP Todos os direitos desta edição pertencem à Livraria Danúbio Editora Ltda. CNPJ: 17.764.031/0001-11– Site: www. editoradanubio.com.br Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do editor.


AGRADECIMENTOS:

O editor agradece aos mecenas que viabilizaram esta edição:

Ana Dalgiza Fontana André Franzin Antonio Carlos C. de Araújo Jr. Antonio Carlos Olivieri Aramis Fontana Bruno Bresolin Caio Cesar Tourinho Marques Carlos Eduardo C. R. Machado Cristiano Xavier Davi Albuquerque Diego Gonçalves de Araújo Djalma Maranhão Marques Douglas Pelegati Douglas Winck Emerson Marinho Felipe Sabino de Araújo Neto Giovanni Brolo Josuel dos Reis Muniz

Julian Ritzel Farret Larissa Leone Isaac Souza Leonardo Boaski Lourisvaldo Júnior Carvalho Luiz Manoel Costa Marcelino P. do Nascimento Mateus Rauber Bois Mauricio Landre Natan Generoso Níckolas Tenório Orlando Tosetto Junior Ovídio Rovella Rafael Cardoso Carvalho Rodrigo Prestes Saule Dias Thiago Sabino

Este livro foi publicado por meio de financiamento coletivo privado. Nenhum centavo de dinheiro público foi usado pela editora.


SUMÁRIO

Prefácio da edição brasileira Prefácio da 1ª edição americana Prólogo da edição espanhola Introdução A agonia Que é o cristianismo? Verbo e letra Abisag a sunamita A virilidade da fé O suposto cristianismo social O individualismo absoluto A fé pascalina O padre Jacinto Conclusão

11 15 21 27 33 39 49 59 71 83 93 101 115 129


PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA Tiago Amorim∗

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e nos deixarmos levar pelas correntes ideológicas vigentes, corremos o sério risco de nos tornarmos partidários — de uma causa política, de um movimento, de uma agenda de interesses agrupados. É isso o que grande parte de nossos intelectuais, artistas e formadores de opinião têm feito ao aderir a coletivos que lhes fornecem os pressupostos e as garantias de sua crítica, ensino e atuação. De alguma maneira, o teatro do mundo tornou-se um palco onde sobrevivem os coros em detrimento dos personagens: enquanto os primeiros são marcados pelo uníssono e o homogêneo, os segundos são identificados pelas idiossincrasias e a irrepetibilidade. Sendo este o cenário onde transcorre a moderna vida humana, é de se imaginar as dificuldades com que seus atores encaram tudo o que desrespeita os princípios e acórdãos de seus argumentos; mais precisamente, a alta cultura, a filosofia e, radicalmente falando, a perspectiva metafísica e religiosa. Quem quer que tome lugar naquilo que Platão chamou de segunda navegação, passando a reconhecer a realidade como sistema ordenado e de sentido transcendente, assume papel dissonante nas cenas do prosaísmo moderno. E isto se dá pelo fato ∗

Professor e palestrante, autor de Abertura da Alma (Danúbio, 2015)


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de que é característico da educação clássica ou da religião pôr o homem frente a si mesmo, numa espécie de convite à posse de si por meio da literatura ou dos ritos que, sem bem encarnados pelo sujeito, devolvem-no ao coração do mundo. Precisamente neste lugar não há repetições — Eis que faço novas todas as coisas (Ap. XXI): a condição mesma para sua existência é a permanente criação, que não cessa de oferecer ao teatro que realizamos os versos ainda não ditos. Nenhuma segunda-feira é igual à outra, nos diria Chesterton. A mais aberrante perversão moderna foi justamente a diminuição do mistério que constitui a vida por um vil artifício de esterilização do novo, do indivisível, do inexprimível — em outras palavras — do criado. A modernidade fez com que o homem não mais se reconhecesse um autor da história, mas apenas um repetidor dos padrões exteriormente projetados. Daí que até mesmo a religião, a cultura ou a filosofia puderam ser aviltadas pela lógica da cópia e da reprodução, e realidades como a vida espiritual se imiscuíssem à sensaboria do mais do mesmo. As conseqüências, tão tipicamente reconhecidas neste mesmo homem moderno que prefere a comodidade da massa ao confronto do protagonismo, são do conhecimento de todos que ora vivem e também as sentem: tédio, crise existencial, solidão, angústia… Mas o mesmo teatro do mundo tem assistido a representações de resistência: são os antifrágeis, homens de carne e osso que enfrentam as questões impostas; e combatem o lugar-comum com a precisão; o discurso com a realidade; a massificação e a indistinção com a individualidade. São também intelectuais, artistas e formadores, porém, não sacrificam suas consciências no altar das mentiras oficiais. É o caso de Unamuno, um dos grandes mestres espanhóis, precursor da Escola de Madri — de Ortega, Marias, Zubiri, Zambrano, Entralgo e tantos outros — que fez da sua própria vida e, por extensão, sua escrita, um monumento de vitalismo;


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um testemunho radicalmente pessoal e intransferível daquilo que ele mesmo chamou o sentimento trágico da vida. Neste Agonia do Cristianismo, Miguel de Unamuno trata com a paixão que lhe é característica — a “febre” companheira sua de ofício — o drama que configura sobremaneira o cristianismo: o fato da verdade brilhar na comunhão entre os homens, mas ser tocada somente na intimidade do indivíduo. Por isso que, assumida a perspectiva cristã, a peça a que somos convidados encenar se revele trágica: a tensão insolúvel entre o agora e o depois, entre a vida e a morte, entre o eu e o nós é como a hamartia que só os que agonizam serão capazes de justificar. Apenas aqueles que se aventuram e dão por perdida a vida melhor a guardarão; e isto significa abrir mão das ilusões deste mundo e confessar que o cenário maior em que acontece cada biografia é feito de lutas que não têm nem a sua origem, tampouco o seu destino, no palco contingente do tempo. A leitura desta preciosa obra pode ser assumida pelo leitor como um exercício de crítica e posse de si, a partir do qual é suposto responder, ao teatro do mundo, quem é o cristão ou não cristão que julga ser; qual a influência do civil ou do coletivo em sua real existência e, por último e não menos importante, por que razões são bem-aventurados aqueles que agonizam.


PREFÁCIO DA 1ª EDIÇÃO AMERICANA Ernest Boyd∗

D

on Miguel de Unamuno nasceu em 1864, em Bilbao, mas passou os anos mais criativos de sua vida em Salamanca. Nessa cidade, tornou-se reitor da universidade homônima, ocupando, antes e depois, a cadeira de grego naquela famosa instituição de ensino. O mais provável é que ele ainda estivesse lá, não houvesse considerado impossível abster-se de criticar a ditadura de Sua Excelência, o General Primo de Rivera 1, que, no outono de 1923, ordenou que o prendessem e o extraditassem para Lanzarote, nas Ilhas Canárias. De lá Don Miguel fugiu para a França, onde, na estranha companhia de Blasco Ibáñez2, deu continuidade a seus protestos contra o regime do “Ganso Real”. Foi também na França que ∗

Crítico, escritor e tradutor, nascido em Dublin, Irlanda, (18871946). Amigo próximo de H.L. Mecken, escreveu mais de 20 livros, e contribuiu para diversas revistas americanas proeminentes como a New Yorker, a American Mercury e outras. 1 Miguel Primo de Rivera governou a Espanha entre 1923 e 1930. [N.do E.] 2 Vicente Blasco Ibáñez (1867 –1928) escritor, jornalista e político espanhol. [N. do E.]


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escreveu a presente obra, originalmente publicada em língua francesa. Naquela época, pouco se sabia, tanto naquele país quanto na Inglaterra, sobre esse escritor e professor que ocupava na Espanha uma posição análoga aquela que ocupavam Croce na Itália, Bergson na França ou Tolstói na Rússia. Hispanistas como J. B. Trend já haviam chamado atenção para ele, Havelock Ellis o admirava e, em Rosinante to the Road Again, John dos Passos explicava a posição peculiar que ele ocupava na literatura espanhola contemporânea. Sua obra mais importante, O sentimento trágico da vida, fora publicado em inglês, mas não gozou de um reconhecimento significativo. Os europeus cujos nomes integravam um manifesto contra sua deportação eram todos escritores continentais. Em seguida, traduziu-se um volume de ensaios selecionados de sua autoria e anunciou-se a publicação da famosa obra Vida de D. Quixote e Sancho. Portanto, A Agonia do Cristianismo é o quarto livro do autor a ser oferecido ao público leitor de língua inglesa. Miguel de Unamuno, conforme observei alhures em um ensaio que lhe dediquei, apresenta uma versão espanhola do “cristianismo muscular” de Charles Kingsley 3 — nesse caso, o protestante inglês típico e o católico espanhol atípico se assemelham pela via do individualismo religioso. Don Miguel foi sempre um individualista ferrenho e o menos ortodoxo dos seres humanos. Ainda que se tenha posicionado do lado da Igreja e do governo na época do caso Ferrer 4, não era de modo algum

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Charles Kingsley (1819 - 1875), romancista inglês. [N. do E.] Francisco Ferrer Guardia (1859 - 1909), pedagogo catalão, executado sob a acusação de instigar a revolta conhecida como Semana 4


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um cidadão leal convencional, como seus artigos no El Liberal bem costumavam demonstrar e como o ilustrava também a forte oposição que suas nomeações na Universidade de Salamanca enfrentavam. Também não era um professor ou reitor convencional, pois, conforme recordam seus alunos, falava de tudo o que se pudesse imaginar em suas aulas, menos dos autores gregos. A maneira como administrava sua universidade foi até mesmo tema de debate no Parlamento, antes da Primeira Guerra. Esse ex-reitor da Universidade de Salamanca é, portanto, helenista e filósofo cristão — o primeiro por profissão e o segundo por vocação. Em um festival no País de Gales, Salvador de Madariaga, um interessante intérprete bilíngüe das literaturas inglesa e espanhola, descobriu semelhanças entre o clero galês e o autor basco: Um homem alto, ossudo, de ombros largos e bochechas altas, nariz aquilino, barba grisalha pontuda e tez da cor das hematitas vermelhas que compõem a paisagem urbana de Bilbao, sua terra natal, e que a cidade arranca impiedosamente de seu próprio corpo para trocar por ouro nos mercados da Inglaterra. Nas órbitas profundas abaixo da testa alta e agressiva que os curtos cabelos agrisalhados alongam, os dois olhos, penetrantes como aguilhões, observam o mundo com avidez através de um par de lentes oculares que parecem apontadas de propósito na direção do objeto, como um microscópio. A expressão é combativa, mas de um combate nobre, superior, desdenhoso dos prêmios deste mundo passageiro — conforme o demonstra o costume peculiar que enverga, cuja negrura invade até mesmo aquele pequeno triângulo de branco que os homens mundanos

Trágica da Catalunha. Sua condenação causou protestos internacionais. [N. do E.]


18 | MIGUEL DE UNAMUNO reservam no peito para acomodar a gravata da frivolidade e os adornos da vaidade e, cegando-o, nada revela senão uma finíssima faixa de colarinho para enfatizar, mais que realçar, o efeito sacerdotal do conjunto. Eis Don Miguel de Unamuno.

Em suas meditações religiosas, ouve-se a nota do combate intelectual de uma mente dividida entre a vontade de crer — fator emocional — e o impulso das faculdades lógicas com sua insistência na razão. Para ele, a história da religião e a história da filosofia são inseparáveis, posto que a “trágica história do pensamento humano” ocupa-se de um único objetivo: a racionalização da vida. Se a razão não engendrasse o ceticismo (felizmente, no entender de Unamuno), não seria possível alcançar “a incerteza santa, doce e redentora” que é “nossa consolação suprema”. Neste volume, assim como nos que o precederam, pode-se testemunhar a mente arguta do autor perscrutando as incertezas que constituem o drama do pensamento religioso. É uma mente mais convizinha do protestante inglês que do tipo católico espanhol. Trata-se de um fervor não mediterrâneo, aquele elemento “alcalóide” no espírito do espanhol, que é como o próprio Unamuno definiu o homem basco. Mas Don Miguel não é apenas o escritor que esta e outras obras já traduzidas revelam. Também escreveu relatos de viagem (restritos à Península Ibérica, é verdade, pois o mundo o procurava em Salamanca), poesia e cinco romances de uma originalidade caracteristicamente excêntrica. Um destes, intitulado Niebla e publicado logo após a eclosão da Primeira Guerra, tem o mérito de prefigurar a peça Três personagens em busca de um autor, de Pirandello. Dois jovens casais, depois de passarem por muitos mal-entendidos e de proporem-se a


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trocar de parceiro algumas vezes, finalmente chegam a um consenso: Mauricio deve casar-se com Rosario e Augusto deve tomar para si Eugenia, que já foi apaixonada por Mauricio. Na última hora, porém, Eugenia muda de idéia e foge com este último. Esgotam-se, assim, os arranjos possíveis. Mas a história não ganha um fim. O que terá acontecido com Augusto? Será que se matou? Ou terá matado os dois? Ao final, o personagem vai a Salamanca atrás de seu autor e lhe conta que decidiu suicidar-se. Unamuno, então, observa que ele não pode fazer isso, pois não existe mais, agora que o autor terminou com ele. Augusto deve viver na imaginação de seu criador, mas acaba morrendo por comer em excesso. Na seqüência, os médicos não conseguem determinar a causa da morte. Como tudo o mais, a morte escapa a qualquer definição e desafia a razão humana. Compostos sobretudo na forma de diálogos e solilóquios, os romances de Unamuno são pouco atraentes desde um ponto de vista convencional, embora sempre agradem àqueles que se interessem pelo homem e sua obra, dos quais são parte integrante. Todos os detalhes supérfluos são rigorosamente suprimidos — até mesmo o nome da cidade, em Niebla. As descrições praticamente inexistem; o cenário é parcimonioso como o de um palco elisabetano, despido, por assim dizer, em prol da interação de paixões e idéias. Mas a ausência de detalhes físicos e o caráter esquemático dos personagens não impedem que obras como Niebla e Abel Sánchez revelem-se portadoras de uma humanidade e vitalidade profundas. Se, como acusam alguns críticos, os personagens de Unamuno são todos encarnações dele mesmo, preenchidos sempre das aflições de seu autor, então são mais uma prova do caráter essencialmente


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real de seu pensamento, de sua famosa definição do “homem de carne e osso” que figura n’O sentimento trágico da vida. Salvador de Madariaga, resumindo seu brilhante ensaio sobre o autor, define-o como “a maior figura literária” de seu país, embora não se iguale, em alguns aspectos específicos, a Pío Baroja, Pérez de Ayala, Ramón del Valle Inclán ou mesmo Blasco Ibáñez: Unamuno ergue-se acima de todos eles na grandeza de seus propósitos, bem como no fervor e na lealdade com que, à maneira de um Quixote, serviu resoluto à sua inacessível Dulcinéia. De resto, há outra razão — a mais importante — que explica sua posição. É que Unamuno, pela cruz que escolheu carregar, encarna o espírito da Espanha moderna. Seu eterno conflito entre fé e razão, entre vida e pensamento, entre espírito e intelecto, entre Céu e civilização, é o próprio conflito da Espanha. País limítrofe por excelência, como a Rússia, onde as águas espirituais do Oriente e do Ocidente se misturam, a Espanha oscila entre duas filosofias de vida e não consegue descansar.

Essas palavras foram escritas antes de que Don Miguel tivesse sua paz destruída e seus meios de subsistência subtraídos pelo infortúnio do exílio; e antes que concebesse e trouxesse ao mundo A Agonia do Cristianismo nesse mesmo exílio. O Señor Madariaga, porém, pouco teria a acrescentar-lhes, pois os eventos que se lhes sucederam, bem como o presente volume, lhes conferem ainda mais valor.


PRÓLOGO DA EDIÇÃO ESPANHOLA

E

ste livro foi escrito em Paris, estando eu emigrado, refugiado ali, em fins de 1924, durante a ditadura pretoriana e cesariana espanhola, e sob singulares condições de ânimo, presa de uma verdadeira febre espiritual e de um pesadelo de expectação, condições que tratei de narrar em meu livro Como se faz uma novela. Integra ainda a sua circunstância o fato de que foi escrito por encomenda, conforme exponho na introdução. Como o escrevi para ser traduzido ao francês, em vista dessa tradução e de um público universal e mais propriamente francês, não cuidei das modalidades de subentendidos e de gostos do público de língua espanhola. Ademais, sequer pensava que havia de aparecer, como hoje aparece, em espanhol. Entreguei minhas folhas escritas e cheias de emendas, ao tradutor, meu entranhado amigo Juan Cassou, tão espanhol como francês, que as colocou em um francês vigoroso com forte sabor espanhol, o que contribuiu para o êxito do livro, pois em seu texto vive o pulso da febre com que escrevi sobre aquelas folhas. Depois esta pequena obra foi traduzida ao alemão, ao italiano, ao inglês. E agora toca-lhe aparecer na língua em que foi composta.


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Composta? Alguém poderá dizer que esta pequena obra carece de composição propriamente dita. De arquitetura, talvez; de composição viva, creio que não. Escrevi-a, como lhes disse, quase em febre, vertendo nela, além dos pensamentos e sentimentos que havia anos — e tantos! — vinhamme arando a alma, os que me atormentavam por causa das desditas de minha pátria e os que me chegavam ao acaso de minhas leituras do momento. Não é pouco, do que se lê aqui, que obedece à atualidade política da França de quando escrevi este livro. Mas não quis suprimir alusões que hoje, sobretudo fora da França, resultam, por inatuais, pouco inteligíveis. Este livrinho reproduz em forma mais concreta e, por ser mais improvisada, também mais densa e mais cálida, muito do que havia exposto em minha obra O sentimento trágico da vida. E ainda me resta dar-lhe mais voltas e darme mais voltas eu mesmo; que é o que dizem fazia São Lourenço enquanto se ia tostando sobre as grelhas de seu martírio. Monólogo? Assim se obstinaram em dizer meus... vou chamá-los críticos: que não escrevo senão monólogos. Poderia talvez chamá-los monodiálogos; mas será melhor autodiálogos, ou seja, diálogos comigo mesmo. E um autodiálogo não é um monólogo. O que dialoga, o que conversa consigo mesmo repartindo-se em dois, ou em três, ou em mais, ou em todo um povo, não monologa. São os dogmáticos que monologam, e mesmo quando parecem dialogar, fazendo-o conforme os catecismos, por perguntas e respostas. Mas os céticos, os polêmicos, os agônicos — não monologamos. Trago bem fundo em minhas entranhas espirituais a agonia, a luta, a luta religiosa e a luta civil, para poder viver de monólogos. Jó foi um homem de contradições, e o foi Paulo, e o foi Agostinho, e o foi Pascal, e creio sê-lo também.


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Depois de escrito e publicado em francês este livrinho, acreditei, em fevereiro deste ano de 1930, poder voltar a minha Espanha, e a ela voltei. E voltei para continuar aqui, no seio de minha pátria, minhas campanhas civis ou, se se quer, políticas. Enquanto ia me aprofundando nelas, senti que me subiam minhas antigas, ou melhor, minhas eternas angústias religiosas; e no ardor de minhas preleções políticas, sussurrava-me aquela voz que diz: “E depois, para que tudo isto? Para quê?”. E para aquietar essa voz ou a quem ma sugeria, seguia perorando em favor dos crentes no progresso, na civilidade e na justiça, para convencer-me a mim mesmo de suas excelências. Mas não quero seguir por esse caminho, e não porque me venham a chamar de pessimista, coisa que, aliás, não me inspira grande temor. Sei tudo o que no mundo do espírito se tem feito por isso que os simples e simplórios chamam pessimismo, e sei tudo o que a religião e a política devem aos que buscaram consolo da luta na própria luta, mesmo sem esperança e até contra a esperança de vitória. Não quero encerrar este prólogo sem fazer notar que uma das coisas a que deve este livrinho seu lisonjeiro êxito é o haver ele restabelecido o verdadeiro sentido, o originário sentido etimológico da voz “agonia”, a luta. Graças a ele, não se confundirá um agonizante com um morrente ou moribundo. Pode-se morrer sem agonia e se pode viver, e por muitos anos, nela e dela. O verdadeiro agonizante é um agonista, protagonista às vezes, outras vezes antagonista. E agora, leitor de língua espanhola, adeus e até que voltemos a nos encontrar no autodiálogo; tu, com tua agonia, eu, com a minha, e que Deus nos bendiga. Salamanca, outubro de 1930.


“Muero porque no muero” Santa Teresa de Jesus


I INTRODUÇÃO

O

cristianismo é um valor do espírito universal que tem suas raízes no mais íntimo da individualidade humana. Os jesuítas dizem que com ele se trata de resolver o negócio de nossa própria salvação pessoal e individual, e ainda que sejam os jesuítas principalmente que o digam, tratando o divino como um problema de economia, havemos de aceitá-lo aqui como um postulado prévio. Sendo um problema estritamente individual, e por isso universal, vejo-me forçado a expor brevemente as circunstâncias de índole pessoal privada em que este escrito que se te oferece, leitor, foi empreendido. A tirania militarista de minha pobre pátria espanhola me confinou na ilha de Fuerteventura, onde pude enriquecer minha experiência religiosa e mesmo mística. Fui dela livrado por um veleiro francês, que me trouxe à terra francesa, para que me estabelecesse aqui, em Paris, onde escrevo isto, em uma espécie de cela próxima ao Arco da Estrela. Aqui, nesta Paris abarrotada de história, de vida social e civil, onde é quase impossível refugiar-se em algum lugar anterior à história, à qual, por isso mesmo, Paris deve sobreviver, aqui não posso contemplar a serra, quase o ano todo coroada de neve,


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que em Salamanca apascenta as raízes de minha alma, nem o páramo, nem a estepe que em Valência, onde se acha o lar de meu filho mais velho, aquieta minha alma, e nem o mar, sobre o qual, todos os dias, eu via nascer o sol em Fuerteventura. Este mesmo rio, o Sena, não é o Nervión de minha cidade natal, Bilbao, onde se sente o pulso do mar, o fluxo e o refluxo de suas marés. Aqui nesta cela, ao chegar em Paris, me apascentava de leituras, e leituras escolhidas um pouco ao acaso. O acaso, que é a raiz da liberdade. Nessas circunstâncias individuais e, atrevo-me a dizer, de índole religiosa e cristã, acercou-se-me o Sr. P.L. Couchoud 5 a pedir-me que fizesse um cahier para a sua coleção Christianisme. E foi ele mesmo quem me sugeriu, entre outros, este título: A agonia do cristianismo. É que conhecia minha obra O sentimento trágico da vida. Quando o Sr. P.L. Couchoud apareceu-me com essa demanda, estava eu lendo a Enquête sur la monarchie 6, do Sr. Charles Maurras — que distante dos Evangelhos! —, na qual nos é servida em latas de conserva carne já apodrecida, procedente do matadouro do defunto conde Joseph de Maistre. Nesse livro tão profundamente anticristão, li aquela asserção do programa de 1903 de L’Action française7, que diz: “um verdadeiro nacionalista põe a pátria acima de tudo e, por conseguinte, concebe, trata e resolve todas as questões políticas em sua relação com o interesse nacional”. Ao lê-lo lembrei-me das palavras: “meu reino não é deste mundo” e pensei que, para um verdadeiro cristão — se é que um cristão verdadeiro é possível na vida civil —, toda questão, 5

Paul-Louis Couchoud (1879-1959), editor, filósofo e escritor francês. [N. do E.] 6 MAURRAS, Charles. Enquetes sur da la monarchie. (Paris, 1924), [N. do E.] 7 Corrente da direita francesa que defende a monarquia e o nacionalismo. [N. do E.]


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política ou seja qual for, deve-se conceber, tratar e resolver em relação com o interesse individual da salvação eterna, da eternidade. E se perece minha pátria? A pátria de um cristão não é deste mundo. Um cristão deve sacrificar a pátria à verdade. A verdade! “Já não se engana a ninguém, e a massa da espécie humana, lendo nos olhos do pensador, pergunta-lhe sem rodeios se, no fundo, não será triste a verdade”, escrevia E. Renan. No domingo 30 de novembro desse ano de graça — ou de desgraça — de 1924, assisti aos ofícios divinos da igreja ortodoxa de Santo Estevão, situada próxima daqui, na rua Georges Bizet, e ao ler acima do grande busto pintado de Cristo, que ocupa o tímpano inteiro, aquela sentença, em grego, que diz: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, voltei a sentir-me em uma ilha e pensei — ou melhor, divaguei — se o caminho e a vida são a mesma coisa que a verdade, se não haverá contradição entre a verdade e a vida, se não será a verdade o que mata, enquanto a vida mantém-nos no engano. E isso me fez pensar na agonia do cristianismo, na agonia do cristianismo em si mesmo e em cada um de nós. Mas acaso se dá o cristianismo fora de cada um de nós? E aqui estriba-se a tragédia, porque a verdade é algo coletivo, social e mesmo civil; verdadeiro é aquilo em que convimos e com o que nos entendemos. O cristianismo é algo individual e incomunicável. E é por isso que agoniza em cada um de nós. Agonia, αγωνία, quer dizer luta. Agoniza o que vive lutando, lutando contra a vida mesma. E contra a morte. É a jaculatória de Santa Teresa de Jesus: “morro porque não morro”. O que vou expor aqui, leitor, é minha agonia, minha luta pelo cristianismo, a agonia do cristianismo em mim, sua morte e sua ressureição em cada momento de minha vida íntima.


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O abade Loyson, Jules Théodore Loyson, escrevia a seu irmão, o Padre Jacinto 8, em 24 de junho de 1871: “Parece a todos aqui, e mesmo àqueles que mais têm te defendido e que não trazem quaisquer prevenções, que escreves cartas em demasia, sobretudo no momento em que todas as preocupações estão absorvidas pelos interesses gerais. Teme-se que isso seja, da parte de teus inimigos, uma tática para atrair-te a esse terreno e aí aniquilar-te”.9 Pois bem. Na ordem religiosa, e sobretudo na ordem da religião cristã, não cabe tratar dos grandes interesses gerais, religiosos, eternos, universais, sem lhes dar um caráter pessoal e, eu diria, mais exatamente, individual. Todo cristão, para mostrar seu cristianismo, sua agonia pelo cristianismo, deve dizer de si mesmo ecce christianus, como Pilatos disse: “Eis o homem!”. Deve mostrar sua alma cristã, sua alma de cristão, o que em sua luta, em sua agonia do cristianismo se fez. A finalidade da vida é fazer-se uma alma, uma alma imortal. Uma alma que é a própria obra. Porque, ao morrer, deixa-se um esqueleto à terra e uma alma, uma obra à história. Isso quando se viveu, quer dizer, quando se lutou com a vida que passa pela vida que permanece. E a vida, que é a vida? Ou mais trágico ainda: que é a verdade? Porque se a verdade não se define, visto que é ela a definidora, quem define, tampouco se define a vida. Um materialista francês, não recordo agora qual, disse que a vida é um conjunto de funções que resistem à morte. Assim, definiu-a agonicamente ou, se se quer, polemicamente. A vida era, pois, para ele, a luta, a agonia. Contra a morte e também contra a verdade, contra a verdade da morte.

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Charles Jean Marie Loison (1827-1912), francês, mais conhecido como Padre Jacinto, pregador e teólogo católico. [N. do E.] 9 HUTIN, Albert. Le Père Hyacinthe, prêtre solitaire, 1893-1912, (Paris, 1924) [N. do A.]


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Fala-se de struggle for life, de luta pela vida; mas essa luta pela vida é a própria vida, a life, e é, ao mesmo tempo, a luta, a struggle. E é coisa para meditar o fato de que a lenda bíblica, a do Gênesis, diz que a morte se introduziu no mundo pelo pecado de nossos primeiros pais porque quiseram eles ser como deuses; isto é, imortais, conhecedores da ciência do bem e do mal, da ciência que dá a imortalidade. E logo, segundo a mesma lenda, a primeira morte foi uma morte violenta, um assassinato: o de Abel por seu irmão, Caim. E um fratricídio. São muitos os que se perguntam como costumam morrer as feras — leões, tigres, panteras, hipopótamos, etc. — nas selvas ou nos desertos em que vivem; se são mortos por outros ou se morrem disso que se chama morte natural, deitando-se a um canto para morrer em solidão, como os grandes santos. Assim como certamente morreu o maior de todos os santos, o santo desconhecido — primeiramente — de si mesmo, o qual talvez já tenha nascido morto. A vida é luta, e a solidariedade para com a vida é luta e se faz na luta. Não me cansarei de repetir que o que une mais a nós homens são as nossas discórdias. E o que mais une alguém consigo mesmo, o que faz a unidade íntima de nossas vidas, são as nossas discórdias íntimas, as contradições interiores de nossas discórdias. Só ficamos em paz conosco mesmos, como Dom Quixote, para morrer. E se assim é a vida física ou corporal, a vida psíquica ou espiritual é, por sua vez, uma luta contra o esquecimento eterno. E contra a história. Porque a história, que é o pensamento de Deus na terra dos homens, carece de última finalidade humana, caminha para o esquecimento, para a inconsciência. E todo o esforço do homem é dar finalidade humana à história, finalidade sobre-humana, diria Nietzsche, que foi o grande sonhador do absurdo: o cristianismo social.


I A AGONIA

A

agonia é, pois, luta. E o Cristo veio a trazer-nos agonia, luta, e não paz. Disse-o ele mesmo: “Não julgueis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer-lhe paz mas espada. Porque vim a separar ao homem contra o seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra: e os inimigos do homem serão seus mesmos domésticos” 10 (Mat., X, 34– 36). Recordava-se de que os seus, os de sua casa, sua mãe e seus irmãos, tomaram-no por louco, como fora de si, alienado, e foram recolhê-lo (Mar., III, 21). E ainda: “Eu vim trazer fogo à terra, e que quero eu senão que ele se acenda?... Vós cuidais que eu vim trazer paz à terra? Não, vos digo eu, mas separação: porque de hoje em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três. Estarão divididas: o pai contra o filho, e o filho contra o seu pai, a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe, a sogra contra a sua nora, e a nora contra a sua sogra” (Luc., XII, 49–54). “E a paz?”, alguém perguntará. Porque se pode reproduzir outras tantas passagens, em número maior e mais 10

As citações bíblicas, nesta edição, são todas da tradução do pe. Antônio Pereira de Figueiredo. [N. do T.]


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explícitas, em que se fala de paz no Evangelho. Ocorre que essa paz se dá na guerra e a guerra se dá na paz. E isso é a agonia. Poder-se-á dizer que a paz é a vida — ou a morte — e que a guerra é a morte — ou a paz —, pois é quase indiferente assimilá-las a uma ou a outra respectivamente, e que a paz na guerra — ou a guerra na paz — é a vida na morte, a vida da morte e a morte da vida, que é a agonia. Puro conceptismo? Conceptismo é São Paulo e Santo Agostinho e Pascal. A lógica da paixão é uma lógica conceptista, polêmica e agônica. E os Evangelhos estão cheios de paradoxos, de ossos que queimam. E, tal como o cristianismo, o Cristo está sempre agonizando. 11 Terrivelmente trágicos são nossos crucifixos, nossos Cristos espanhóis. É o culto ao Cristo agonizante, não morto. O Cristo morto, feito terra, feito paz, o Cristo morto enterrado por outros mortos, é o do Santo Enterro, é o Cristo jacente em seu sepulcro; mas o Cristo a quem adoramos na cruz é o Cristo agonizante, o que clama consumatum est! E é a esse Cristo, ao do “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mat., XXVII, 46), que rendem culto os crentes agônicos. Entre os quais muitos que crêem não duvidar, que crêem que crêem. O modo de viver, de lutar, de lutar pela vida e viver da luta, da fé, é duvidar. Já havemos dito em outra obra nossa, recordando aquela passagem evangélica que diz: “Sim, Senhor, eu creio! Ajuda tu a minha incredulidade” (Mar., IX, 24), fé que não duvida é fé morta. E que é duvidar? Dubitare contém a mesma raiz do numeral duo, dois, a de duellum, luta. A dúvida, porém mais a 11

“Jesus estará em agonia até o fim do mundo; não se deverá dormir durante esse tempo”. Assim escreveu Pascal em Le Mystère de Jésus. E o escreveu em agonia; porque não dormir é sonhar desperto, é sonhar uma agonia, é agonizar. [N. do A.]


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pascalina — a dúvida agônica ou polêmica — que a cartesiana, ou metódica, enfim, a dúvida de vida — vida é luta — , e não de caminho — método é caminho —, supõe a dualidade do combate. Crer no que não vimos, ensinou-nos o catecismo, é a fé; crer no que vemos — e no que não vemos — é a razão, a ciência; e crer no que veremos — ou não veremos — é a esperança, e toda a crença. Afirmo, creio, como poeta, como criador, mirando o passado, a memória; nego, descreio, como raciocinador, como cidadão, mirando o presente; e duvido, luto, agonizo como homem, como cristão, mirando o porvir irrealizável, a eternidade. Há na minha pátria espanhola, entre meu povo espanhol, povo agônico e polêmico, um culto ao Cristo agonizante; mas há também um à Virgem das Dores, a Dolorosa, com seu coração atravessado por sete espadas. Não é propriamente a pietà italiana. Não se rende tanto culto ao Filho que jaz morto no regaço de sua mãe quanto a esta, a Virgem Mãe, que agoniza de dor com seu Filho entre os braços. É o culto da agonia da Mãe. Há também — alguém dirá — o culto ao Menino Jesus, ao Menino da Bola, o culto ao nascimento e à Virgem que dá vida, que amamenta o menino. Nunca em minha vida esquecerei o espetáculo de que fui testemunha no dia de São Bernardo, em 1922, na Trapa de Dueñas 12, perto de Palencia. Os trapistas cantavam uma salve solene a Nossa Senhora em seu templo, todo iluminado de cera de abelhas-neutras. No alto do altar-mor erguia-se uma imagem, sem grande valor artístico, da Virgem, vestida de azul e branco. Talvez estivesse representada após a visita à sua prima, Santa Isabel, e antes do nascimento do Messias. Com seus braços estendidos ao céu, parecia querer voar a ele 12

Mosteiro de San Isidro de San Duenãs, na Espanha, estabelecimento cujas origens remontam ao século VII. [N. do E.]


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com sua carga trágica e doce: o Verbo Inconsciente. Os trapistas, jovens e velhos, uns mal chegados à idade de pais, outros passados dela, enchiam o templo com o canto da litania. Ianua coeli! — gemiam — ora pro nobis! Era uma cantiga de ninar, um acalanto para a morte. Ou melhor, para o “des-nascimento”. Parecia que sonhavam com ir voltando a viver — porém ao contrário — sua vida; com a ir “des-vivendo”, com retornar à infância, à doce infância, com sentir nos lábios o gosto celestial do leite materno, e voltar a entrar no protegido e tranqüilo claustro materno, para então dormir em sonho pré-natal pelos séculos dos séculos, per omnia saecula saeculorum. E isso, que tanto se parece ao nirvana búdico — concepção monástica —, é também uma forma de agonia, ainda que pareça o contrário. No diário do pe. Jacinto — padre, não esqueçamos —, de quem haveremos de falar com mais vagar, lemos, com data de 9 de julho de 1873, quando esperava um filho de seu matrimônio a um tempo místico e carnal, algo sobre a imortalidade da alma e a ressureição da carne: “que repouse ao menos em paz, sob o coração de sua mãe, nesse doce sono de nove meses que lhe está concedido”. Doce sono sem sonhos, o paraíso terrestre pré-natal com que sonhavam os padres da Trapa de Dueñas. Por outro lado, no livro Os trabalhos de Jesus, do místico português frei Tomé de Jesus 13, somos advertidos dos trabalhos que sofreu Nosso Senhor Jesus Cristo durante os nove meses que passou encerrado no ventre de sua mãe. O sofrimento dos monges e das monjas, dos solitários de ambos os sexos, não é um sofrimento de sexualidade, mas sim de maternidade ou de paternidade, quer dizer, de finalidade. Sofrem por que sua carne, que leva ao espírito, não se 13

Frei Tomé de Jesus (ca. 1529-1582), acompanhou Dom Sebastião à Africa, onde foi capturado. Escreveu suas obras escondido na prisão. Morreu em Alcácer Qibir. [N. do E.]


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perpetue, não se propague. Próximos à morte, ao fim do mundo, do seu mundo, tremem ante a esperança desesperada da ressureição da carne. Os trapistas de Dueñas cantavam: Mater creatoris, ora pro nobis! Mãe do Criador! A alma humana quer criar seu criador, que há de eternizá-la. Mater creatoris! Mãe do Criador! Eis o grito de angústia, o grito de agonia. À Virgem chamou-se mãe de Deus: deipara, θεοτόκος. “E bendito é o fruto do teu ventre” (Luc., I, 42) se diz do Verbo por quem se fez tudo o que foi feito (Jo., I, 3). Não somente a alma, mas também o corpo humano, o corpo que deve ressuscitar, quer criar o Verbo, a fim de que este crie a alma e a eternize, e ao corpo, berço e sepulcro da alma, ao corpo onde a alma nasce e desnasce, morre e desmorre. Desnascer é morrer e desmorrer é nascer. E isso é uma dialética de agonia. Talvez algum daqueles trapistas rogasse por minha conversão. E então rogava, embora sem o saber, por sua própria conversão. Assim agoniza o cristianismo. Mas o que é o cristianismo? Porque se deve proceder, como dizem, por definições.


II QUE É O CRISTIANISMO?

H

á que se definir o cristianismo agonicamente, polemicamente, em função da luta. Talvez o melhor seja determinar o que não é cristianismo. Esse fatídico sufixo — ismo, cristian-ismo — leva a crer que se trata de uma doutrina como platonismo, aristotelismo, cartesianismo, kantismo, hegelianismo. E não é isso. Temos, por outro lado, uma bela palavra, cristandade, que, significando propriamente a qualidade de ser cristão — como humanidade a de ser homem humano —, terminou por designar o conjunto dos cristãos. Uma coisa absurda, porque a sociedade mata a cristandade, que é coisa de solitários. Também, ninguém fala de platonidade, aristotelicidade, cartesianidade, kantianidade, hegelianidade. Nem hegelianidade, a qualidade de ser hegeliano, seria o mesmo que hegelidade, a qualidade de ser Hegel. E, contudo, não distinguimos entre cristandade e cristidade. Isso porque a qualidade de ser cristão é a mesma de ser cristo. O cristão se faz um cristo. Sabia-o São Paulo, que sentia nascer e agonizar e morrer nele o Cristo. São Paulo é o primeiro grande místico, o primeiro cristão propriamente dito. E, se bem que a São Pedro por


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primeiro o Mestre tenha aparecido (v. Couchod, “Sobre o Apocalipse de Paulo” e o Capítulo II de Le Mystère de Jésus 14), São Paulo viu ao Cristo em si mesmo, que a ele apareceu, mas acreditou que havia morrido e fora enterrado (I Cor., XV, 19). E quando foi arrebatado ao terceiro céu, sem saber se em corpo ou fora do corpo, pois isso Deus o sabe — Santa Teresa de Jesus no-lo repetirá séculos depois —, foi arrebatado ao Paraíso e ouviu ditos indizíveis — é o único modo de traduzir o αρρητα ρηηατα, antítese muito ao estilo da mística agônica — que é a agonia mística —, a qual procede por antíteses, paradoxos e mesmo trágicos jogos de palavras. Porque a agonia mística joga com as palavras, joga com a Palavra, com o Verbo. E joga ao criá-la. Como talvez Deus tenha jogado ao criar o mundo, não para logo jogar com ele, mas para jogar ao criá-lo, já que a criação foi jogo. E, uma vez criado, entregou-o às disputas dos homens e às agonias das religiões que buscam a Deus. E naquele arrebatamento ao terceiro céu, ao Paraíso, São Paulo ouviu “ditos indizíveis”, que não é dado ao homem expressar (II Cor., 2– 5). Quem não se sinta capaz de compreender e de sentir isso, de conhecê-lo no sentido bíblico, de engendrá-lo, de criá-lo, que renuncie, não só a compreender o cristianismo, mas também o anticristianismo, a história, e a vida, e, ao mesmo tempo, a realidade e a personalidade. Que faça isso a que chamam política — política de partido — ou que se entregue à erudição, que se dedique à sociologia ou à arqueologia. Não apenas com o cristianismo, mas com toda potência humana e divina, com todo homem vivo e eterno a quem se conhece com conhecimento místico, em uma compenetração de entranhas, ocorre o mesmo; e dá-se que o conhecedor, o amante, faz-se o conhecido, o amado. 14

COUCHOUD, Paul-Louis. Le mystère de Jésus (F. Rieder, 1924), [N. do E.]


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Quando, por exemplo, Lev Chestov15 discute os pensamentos de Pascal, parece não querer compreender que ser pascaliano não é aceitar seus pensamentos, mas ser Pascal, fazer-se um Pascal. Por minha parte, tem-me ocorrido muitas vezes, ao encontrar-me em um escrito com um homem, não com um filósofo nem com um sábio ou pensador, ao encontrar-me sim com uma alma, não com uma doutrina, dizerme: “Mas esse tenho sido eu!”. E tenho revivido com Pascal em seu século e em seu âmbito, e tenho revivido com Kierkegaard em Copenhagen, e assim com outros. E esta acaso não será a suprema prova da imortalidade? Não se sentirão eles em mim como eu me sinto neles? Depois que morrer, saberei se revivo assim em outros. E mesmo hoje, não se sentem alguns em mim, fora de mim, sem que eu me sinta neles? E que consolo isso tudo! Lev Chestov diz que Pascal “não traz consigo nenhum alívio, nenhum consolo” e que “mata toda espécie de consolo”. Assim crêem muitos; porém, que erro! Não há consolo maior que o desconsolo, como não há esperança mais criadora que a dos desesperados. Os homens buscam a paz, diz-se. Mas será isso verdade? É como quando se diz que os homens buscam a liberdade. Não, os homens buscam a paz em tempo de guerra e a guerra em tempo de paz; buscam a liberdade quando sujeitos à tirania e buscam a tirania quando vivem a liberdade. Com respeito a isso de liberdade e tirania, não se há de dizer tanto homo homini lupus, que o homem é o lobo do homem, quanto homo homini agnus, o homem é um cordeiro para o homem. Não foi o tirano que fez o escravo, mas sim o contrário. Alguém foi que se ofereceu para levar às costas seu irmão, e não este que o obrigou a que o levasse. Porque a essência do homem é a preguiça e, com ela, o horror à responsabilidade. 15

Lev Isaákovich Chestov (1866-1938), filósofo existencialista russo. [N. do E.]


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E retornando ainda ao conhecimento místico, recordemos Espinosa: Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere: não se deve rir, nem lamentar-se, nem detestar, mas entender. Intelligere, entender? Não, mas sim conhecer no sentido bíblico, amar..., sed amare. Espinosa falava de “amor intelectual”; mas Espinosa foi, como Kant, um solteiro e talvez tenha morrido virgem. Espinosa e Kant e Pascal foram solteiros. Parece que não foram pais, mas tampouco, no sentido cristão, foram monges. É que o cristianismo, ou melhor, a cristandade, desde que nasceu em São Paulo, não foi doutrina, ainda que se expressasse dialeticamente; foi vida, foi luta, foi agonia. A doutrina era o Evangelho, a Boa Nova. O cristianismo, a cristandade, foi uma preparação para a morte e para a ressureição, para a vida eterna. “Se Cristo não ressuscitou de entre os mortos, somos os mais miseráveis dos homens”,16 disse São Paulo. Pode-se falar no Padre Paulo, ou Padre São Paulo, que, tanto como um apóstolo, foi um santo padre. Mas a ninguém ocorrerá falar em Padre Espinosa ou Padre Kant. E pode-se falar – deve-se – no Padre Lutero,17 o monge que se casou, enquanto não se pode falar em Padre Nietzsche, ainda que haja quem creia que além do bem e do mal de Nietzsche, o paralítico progressivo, esteja a sola fide do “servo arbítrio” do Padre Lutero.

16 Mantivemos neste ponto o texto de Unamuno pela função que tem aí a forma “ressuscitou”. Na versão de I Coríntios, 15, 19, do pe. Antônio Pereira de Figueiredo, lê-se: “Se nesta vida tão somente esperamos em Cristo, somos nós os mais infelizes de todos os homens”. [N. do T.] 17

Recorde-se que a palavra espanhola “padre” guarda vivas as acepções de progenitor e de sacerdote, ao passo que, em português, “padre” com sentido de progenitor existe como anacronismo. [N. do T.]


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A cristandade foi o culto a um Deus-Homem, que nasce, padece, agoniza, morre e ressuscita de entre os mortos para transmitir sua agonia a seus crentes. A paixão de Cristo foi o centro do culto cristão. E como símbolo dessa paixão, a Eucaristia, o corpo de Cristo, que morre e é enterrado em cada um dos que com ele comungam. Desde logo há que se distinguir, como muitas vezes foi dito e repetido, entre o cristianismo, ou melhor, entre a cristandade e o evangelismo. Porque o Evangelho sim é doutrina. No que se chamou impropriamente cristianismo primitivo, no cristianismo que se supõe tenha havido antes de morrer o Cristo, no evangelismo, enfim, contém-se outra religião que não a cristã: uma religião judaica, estritamente monoteísta, que é a base do teísmo. O suposto cristianismo primitivo, o cristianismo de Cristo — e isso é ainda mais absurdo que falar no hegelianismo de Hegel, porque Hegel não era hegeliano, mas Hegel — era, como se disse mil vezes, apocalíptico. Jesus de Nazaré acreditava num fim do mundo iminente, e por isso dizia: “Deixai que os mortos enterrem seus mortos” e “Meu reino não é deste mundo”. Acreditava talvez na ressurreição da carne, à maneira judaica, não na imortalidade da alma, à maneira platônica, e em sua segunda vinda ao mundo. As provas disso podem ser vistas em qualquer livro de exegese honrada. Se é que a exegese e a honradez se conciliam. E naquele mundo vindouro, no reino de Deus, cujo advento próximo esperavam, a carne não teria de propagar-se, não teria de semear-se, porque morreria a morte. Conta o Evangelho de São Mateus (XXII, 22–33) — e essa é uma passagem cardeal e essencial do cristianismo — que, depois que os fariseus tentaram a Jesus perguntandolhe se se devia ou não pagar o imposto a César, ao Império — quando então lhes foi dito “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” —, pois conta esse Evangelho


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que naquele dia acercaram-se os saduceus — que não criam, como os fariseus, na ressurreição da carne e na outra vida — e lhe perguntaram: “Mestre, Moisés disse que: se morrer algum que não tenha filho, seu irmão se case com sua mulher, e dê sucessão a seu irmão. Ora, entre nós havia sete irmãos. Depois de casado faleceu o primeiro: e porque não teve filho, deixou sua mulher a seu irmão. O mesmo sucedeu ao segundo, ao terceiro, até ao sétimo. E ultimamente, depois de todos, faleceu também a mulher. A qual dos sete logo pertencerá a mulher na ressurreição? Porque todos foram casados com ela. E, respondendo, Jesus lhes disse: Errais não sabendo as escrituras nem o poder de Deus. Porque depois da ressurreição, nem as mulheres terão maridos, nem os maridos mulheres: mas serão como os anjos de Deus no céu. E sobre a ressurreição dos mortos, vós não tendes lido o que Deus disse, falando convosco: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó? Ora Deus não o é de mortos, mas de vivos. E a gente do povo ouvindo isto estava admirada da sua doutrina”. E segue a agonia do cristianismo, com fariseus de um lado e saduceus do outro. Porém logo que morreu Jesus e renasceu o Cristo nas almas de seus crentes, para agonizar com elas, nasceu a fé na ressurreição da carne e, com ela, a fé na imortalidade da alma. E desse grande dogma da ressurreição da carne à maneira judaica e da imortalidade da alma ao modo helênico, nasceu a agonia em São Paulo, um judeu helenizado, um fariseu que tartamudeava seu poderoso grego polêmico. Quando passou a angústia do iminente fim do mundo e vieram aqueles primitivos ouvintes de Jesus, os que o receberam com folhas de palmeira quando entrava em Jerusalém, e não chegava o reino de Deus à terra dos vivos e dos mortos, dos fiéis e dos infiéis — “venha a nós o vosso reino” —, então previu cada um seu próprio e individual fim do mundo, do mundo que era cada um, pois cada um em si


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o levava; previram sua morte carnal e seu cristianismo, sua religião individual, uma religio quae non religat, um paradoxo. Porque os homens vivemos juntos; contudo, cada um morre só, e a morte é a suprema solidão. Com o desengano do iminente fim do mundo e do começo do reino de Deus sobre a terra, morreu para os cristãos a história. Se é que os primitivos cristãos, os evangélicos, os que ouviam e seguiam a Jesus, tinham o sentido e o sentimento da história. Conheciam decerto Isaías, Jeremias, mas esses profetas nada tinham do espírito de um Tucídides. Tem razão P. L. Couchoud ao dizer (Le mystère de Jésus, págs. 37 e 38) que o Evangelho “não se dá por uma história, uma crônica, um relato ou uma vida”. Intitula-se Boa Nova. São Paulo chama-o Mistério (Rom., X, 15–16). É uma revelação de Deus. Mas essa revelação de Deus, esse mistério, teria de ser doravante para eles sua história. A história é o progresso, é a mudança, e a revelação não pode progredir. Ainda que o conde Joseph de Maistre falasse com dialética agonia na “revelação da revelação”. A ressurreição da carne, a esperança judaica, farisaica, psíquica — quase carnal — entrou em conflito com a imortalidade da alma, a esperança helênica, platônica, pneumática ou espiritual. E essa é a tragédia, a agonia de São Paulo. E a do cristianismo. Porque a ressurreição da carne é algo fisiológico, algo completamente individual. Um solitário, um monge, um eremita, pode ressuscitar carnalmente e viver, se isso é viver, sozinho com Deus. A imortalidade da alma é algo espiritual, algo social. O que faz para si uma alma, o que deixa uma obra, vive nela e, com ela, nos demais homens, na humanidade, tanto quanto estiver viva. É viver na história. Não obstante, o povo dos fariseus, onde nasceu a fé na ressurreição da carne, esperava a vida social, a vida histórica, a vida do povo. Porque a verdadeira deidade dos judeus não


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é Jeová, porém o próprio povo judeu. Para os judeus saduceus, racionais, o Messias é o mesmo povo judeu, o povo escolhido. E crêem em sua imortalidade. Donde decorre a preocupação judaica em propagar-se fisicamente, ter muitos filhos, cumular a terra com eles, a sua preocupação com o patriarcado. E sua preocupação com a prole. E daí que um judeu, Karl Marx, tenha pretendido fazer a filosofia do proletariado e especulado sobre a lei de Malthus, um pastor protestante. Os judeus saduceus, materialistas, buscam a ressurreição da carne em seus filhos. E no dinheiro, claro... São Paulo, o judeu fariseu, espiritualista, buscou a ressurreição da carne em Cristo, em um cristo histórico, não fisiológico — logo direi o que para mim significa história, que não é coisa real, mas ideal —, buscou-a na imortalidade da alma cristã, na imortalidade da história. Disso provém a dúvida — dubium — e a luta — duellum — e a agonia. As Epístolas de São Paulo nos oferecem o mais alto exemplo do estilo agônico. Não dialético, e sim agônico, porque ali não se dialoga, mas se luta, se discute.


CONCLUSÃO

C

hego à conclusão deste escrito, porque tudo tem de concluir-se neste mundo, e talvez no outro. Porém isto conclui? Dependerá do que se entenda por concluir. Se concluir, no sentido de acabar, isto começa ao mesmo tempo que conclui; se for no sentido lógico, não, não conclui. Escrevo esta conclusão fora de minha pátria, Espanha, desgarrada pela mais vergonhosa e estúpida tirania, pela tirania da imbecilidade militarista; longe de minha casa, de minha família, de meus oito filhos — não tenho netos ainda — e sentindo em mim, junto à luta civil, a religião. A agonia de minha pátria, que morre, removeu em minha alma a agonia do cristianismo. Sinto ao mesmo tempo a política elevada à religião e a religião elevada à política. Sinto a agonia do Cristo espanhol, do Cristo agonizante. E sinto a agonia da Europa, da civilização que chamamos cristã, da civilização greco-latina ou ocidental. E as duas agonias são uma e a mesma. O cristianismo mata a civilização ocidental, e esta àquele. E assim vivem, matando-se. E muitos crêem que nasce uma nova religião, uma religião ao mesmo tempo de origem judaica e tártara: o bolchevismo. Uma religião cujos profetas são Karl Marx e


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Dostoiévski. Mas o que há em Dostoiévski não é cristianismo? Os irmãos Karamázov não são um Evangelho? Entretanto diz-se que esta França, de onde escrevo, cujo pão agora como e bebo a água que traz o sal dos ossos de seus mortos, que esta França se despovoa e se vê invadida por estrangeiros, porque morreu nela a fome de maternidade e de paternidade, porque, nela, já não se crê na ressurreição da carne. E se crê na imortalidade da alma, na glória, na história? A agonia trágica de grande guerra deve ter curado a muitos de sua fé na glória. Aqui, a poucos passos de onde escrevo, arde continuamente sob o Arco da Estrela — um arco de triunfo imperial! — o lume aceso sobre a tumba do soldado desconhecido, daquele cujo nome não passará à história. Mas já não é um nome esse desconhecido? Desconhecido não vale tanto quanto Napoleão Bonaparte? Junto a essa tumba têm ido orar mães e pais pensando se aquele, o desconhecido, não seria seu filho; mães e pais cristãos que acreditam na ressurreição da carne. E talvez terão ido orar inclusive mães e pais incrédulos, e mesmo ateus. E sobre essa tumba ressuscita o cristianismo. O pobre soldado desconhecido, talvez um crente no Cristo e na ressurreição da carne, ou um incrédulo ou um racionalista, com fé na imortalidade da alma, na história ou sem ela, dorme o último sono envolvido menos pela terra que pela pedra, sob os ingentes marcos de uma grande porta, que nem se abre nem se fecha, e na qual estão gravados, em letras, os nomes das glórias do Império. Glórias? Não faz muitos dias presenciei uma cerimônia patriótica: uma procissão cívica que desfilou ante a tumba do soldado desconhecido. Junto a seus ossos, não digo enterrados, mas empedrados, o presidente da República da deusa França, com seu Governo e uns tantos generais da reserva disfarçados de civis, todos eles abrigados sob as pedras que com suas letras dizem as glórias sangrentas do Império. E o


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pobre soldado desconhecido terá sido talvez um rapaz que tinha o coração e a cabeça cheios de história, ou que a odiasse. Depois que a procissão cívica se foi e se retiraram a seus lares o primeiro magistrado da deusa França e os que o acompanhavam, depois que cessaram os gritos de nacionalistas e de comunistas, que pela tarde se manifestaram, alguma pobre mãe, crente na maternidade virginal de Maria, acercou-se silenciosa e solitária à tumba do filho desconhecido, e rezou: “Venha a nós o vosso reino!”, o reino de Deus, o que não é deste mundo. E em seguida: “Ave Maria, cheia de graça!, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém!”. Jamais rezou-se assim ante a Acrópole! E com essa mãe rezava toda a França cristã. E o pobre filho desconhecido, que ouvia — quem sabe? — essa oração, sonhou, ao morrer, que ressuscitava seu lar no alto céu de sua pátria, no céu de sua doce França, e que eram acalentados os séculos dos séculos da vida eterna com os beijos de sua mãe, sob o beijo da luz da Mãe de Deus. Junto à tumba do francês desconhecido, que é algo mais sagrado que o francês médio, senti a agonia do cristianismo em França. Há momentos em que imaginamos que a Europa, o mundo civilizado, está passando por outro milênio; que se aproxima o seu fim, o do mundo civilizado, da civilização, como os primitivos cristãos, os verdadeiros evangélicos, acreditavam que se aproximava o fim do mundo. E há quem diga, com a trágica expressão portuguesa: “Isto dá vontade de morrer”. E trata-se de estabelecer a Sociedade de Nações dos Estados Unidos da Civilização em Genebra, sob as sombras de Calvino e de Jean-Jacques. E de Amiel também, que sorri tristemente e olha — desde onde? — essa obra de políticos.


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E sorri tristemente a sombra de Wilson 61, outro político cristão, outra contradição feita carne e feita espírito. Wilson, o místico da paz, uma contradição tão grande como foi o primeiro Moltke 62, o místico da guerra. O furacão de loucura que está varrendo a civilização em grande parte da Europa parece uma loucura de origem que os médicos chamariam específica. Muitos dos agitadores, dos ditadores, dos que arrastam os povos são pré-paralíticos progressivos. É o suicídio da carne. Já há quem creia que é o mistério da iniqüidade. Voltemos outra vez o olhar a essa arraigada tradição que identifica o bíblico pecado de nossos primeiros pais, o de ter provado do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, com o pecado da carne que quer ressuscitar. Mas a carne não intentou inicialmente ressuscitar, não se moveu por fome e sede de paternidade e de maternidade, mas por puro gozo, por mera luxúria. A fonte da vida se envenenou, e com a fonte da vida envenenou-se a fonte do conhecimento. Em um dos Evangelhos da Hélade, Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, texto mais religioso que os de Homero, nos é dito que no reino da paz, quando a terra produz muita vida, o carvalho dá bolotas em sua copa e no seu tronco cria abelhas, e as ovelhas lanígeras ficam prenhes de cordeiros, “parem as mulheres filhos parecidos com seus pais” ἐοικότα τέκνα γονεῦσιν (versos 232–235). O que não parece querer 61

Woodrow Wilson (1856-1924), foi o 28º presidente dos Estados Unidos. [N. do E.] 62 Família aristocrática alemã e dinamarquesa, oriunda de Mecklenburg. Sua linhagem remete ao século XIII e está repleta de figuras militares proeminentes. Unamuno provavelmente refere-se a Helmuth von Moltke (1848-1916), marechal-de-campo alemão durante a Primeira Guerra. [N. do E.]


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dizer legítimos, mas bem conformados.63 Bem conformados, ou melhor, sãos. Em certa ocasião falava eu com um velho camponês, um pobre serrano, próximo de Hurdes, região do centro da Espanha que passa por selvagem. Perguntei-lhe se por ali viviam em promiscuidade. Perguntou-me o que era isso e, quando expliquei-lhe, respondeu: “Ah, não! Agora não mais! Era diferente em minha juventude. Quando todos têm a boca limpa, pode-se beber no mesmo copo. Então não havia ciúmes. Os ciúmes nasceram quando vieram essas enfermidades que envenenam o sangue e fazem loucos e imbecis. Porque isso de ter um filho louco ou imbecil, que depois não sirva para nada, isso não pode acontecer”. Falava como um sábio. E talvez como um cristão. Mas de qualquer forma não como um marido de um drama de Calderón de la Barca, um marido atormentado pelo sentido da honra, que não é um sentimento cristão, mas pagão. Nas palavras do velho e sentencioso serrano compreendi toda a tragédia do pecado original e, ao mesmo tempo, toda tragédia do cristianismo e, ao mesmo tempo, tudo o que significa o dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima. À Mãe de Deus que ressuscita os mortos deve-se eximir do pecado original. E nas palavras do velho e sentencioso serrano compreendi também o que é a agonia da nossa civilização. E lembrei-me de Nietzsche. Mas será esse, o pecado da carne, o mais execrável dos pecados? É esse o verdadeiro pecado original? Para São Paulo, o mais execrável pecado é a avareza. E isso porque a avareza consiste em tomar os meios pelos fins. Mas que é meio? Que é fim? Onde está a finalidade da vida?

63

Ver Hésiode. Les travaux et les jours. Edition nouvelle par Paul Mazon. Paris. Hachette et Compagnie, 1914; nota ao verso 235, página 81. [N. do A.]


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E há avareza de espírito e há avareza de paternidade e de maternidade? Kant postulava como suprema regra moral que tomemos o nosso próximo como um fim em si mesmo, e não como um meio. Era a sua maneira de traduzir o “ama o teu próximo como a ti mesmo”. Mas Kant foi um solteiro, um monge laico, um avaro. Um cristão? E talvez se tomasse a si mesmo como um fim em si. A linhagem humana acabava nele. “Ama a teu próximo como a ti mesmo”? E como amará alguém a si mesmo? E com aquele terrível morbo físico trabalha outro morbo, psíquico, filho da avareza espiritual, que é a inveja. A inveja é o pecado caimita, o de Caim, o de Judas Iscariotes, o de Bruto e Cássio, segundo Dante. E Caim não matou Abel por concorrência econômica, matou-o por inveja da graça que este achava ante Deus, nem Judas matou o Mestre por trinta dinheiros, Judas que era um avaro, um invejoso. Escrevo estas linhas fora da minha Espanha, mas esta, a minha Espanha, a minha filha, a Espanha da ressurreição e da imortalidade, tenho-a aqui comigo, nesta França, no regaço desta França, minha França, que me está alimentando a carne e o espírito, a ressurreição e a imortalidade. E com a agonia do cristianismo sinto em mim a agonia de minha Espanha e a agonia de minha França e digo à Espanha e à França, e nelas a toda cristandade e também a toda a humanidade não cristã: “Venha a nós o reino de Deus... Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte”. Agora, agora que é a hora da nossa agonia. “O cristianismo é como a cólera que passa sobre um país para arrebatar certo número de eleitos e depois desaparecer” — isto ouviu o pe. Jacinto de M. Gazier64, o último dos jansenistas, em uma ceia — um symposium — ocorrido no dia 25 de janeiro de 1880. E a civilização não é uma outra 64

Augustin Gazier (1844-1922), historiador francês, especialista no jansenismo. [N. do E.]


A AGONIA DO CRISTIANISMO

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doença que arrebata, pela loucura, a seus eleitos? A cólera, ao menos, arrasta rapidamente os homens. Para M. Gazier, o cristianismo era uma doença. E a civilização outra. E no fundo talvez sejam uma e a mesma doença. E a doença é a contradição íntima. Escrevo estas linhas, torno a dizê-lo, longe de minha Espanha, minha mãe e minha filha — sim, minha filha, porque sou um de seus pais —, e as escrevo enquanto minha Espanha agoniza, ao mesmo tempo que nela agoniza o cristianismo. Quis propagar o cristianismo à espada; proclamou a cruzada, e à espada vai morrer. E à espada envenenada. E a agonia de minha Espanha é a agonia do meu cristianismo. E a agonia do meu quixotismo é também a agonia de Dom Quixote. Garrotearam há poucos dias, em Vera, uns pobres ingênuos, a quem o Conselho de guerra havia absolvido. Foram garroteados porque assim o exige o reinado do terror. E menos mal que não os fuzilaram! Porque, dizendo uma vez ao atual rei de Espanha — hoje, sábado, 13 de dezembro de 1924 — que se devia acabar com a pena de morte para acabar com o verdugo, respondeu-me: “Mas essa pena existe em quase todos os lugares, na República francesa, e aqui menos mal que é sem efusão de sangue”. Referia-se ao garrote em comparação com a guilhotina. Mas o Cristo agonizou e morreu na cruz com efusão de sangue, e de sangue redentor, e minha Espanha agoniza e talvez morrerá na cruz da espada e com efusão de sangue... redentor também? É de ver se com o sangue vai-se o veneno dela. Mas Cristo não apenas derramou sangue na cruz, o sangue que, batizando Longinos, o soldado cego, fê-lo crer, mas ainda suou “gotas de sangue” — ὡσεὶ θρόμβοι αἵματος em sua agonia no Monte das Oliveiras (Luc., XXII, 44). E aquelas gotas de sangue eram sementes de agonia, eram as sementes da agonia do cristianismo. Entretanto, gemia o


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Cristo: “Não se faça contudo a minha vontade, senão a tua” (Luc., XXII, 42). Cristo nosso, Cristo nosso, por que nos abandonaste?! Paris, dezembro de 1924


Adverte-se aos curiosos que se imprimiu este livro em junho de 2017, em tipologia Ibarra Real, tipo usado na edição de El Quijote de 1780, encomendada pela Real Academia Espanõla.


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A Agonia do Cristianismo - Miguel de Unamuno  

Está é uma prévia do nono livro publicado pela Editora Danúbio. Leia mais em: http://livrariadanubioeditora.com.br/produto/a-agonia-do-cris...

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Está é uma prévia do nono livro publicado pela Editora Danúbio. Leia mais em: http://livrariadanubioeditora.com.br/produto/a-agonia-do-cris...

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