O ideal é dedicar uma aula toda para discutir o texto de Aristóteles, que oferece alguma dificuldade. Você pode, antes de tudo, contextualizar a passagem, falando a respeito do sistema político ateniense e, em particular, sobre os debates constantes dos quais participavam os cidadãos da democracia ateniense. Em seguida, pode conduzir uma análise em grupo de cada um dos parágrafos do texto, estruturando a leitura dos alunos através de uma série de perguntas estrategicamente formuladas. A Situação de aprendizagem é pensada com esse intuito. Ainda em torno da citação de Aristóteles, proponha aos alunos a seguinte reflexão: que tipo de regra ele está sugerindo adotarmos? Discuta a metáfora utilizada na última sentença do texto. Note que o carpinteiro representa o juiz que deve formar sua opinião a partir das razões apresentadas pelos oradores. Essas razões, quando são boas, funcionam como a régua usada pelo carpinteiro, garantindo a existência de uma proporção correta
mais é meramente acessório. Apesar disso, esses estudiosos nada dizem a respeito dos argumentos, que são o corpo da persuasão racional; eles se ocupam muito mais de coisas que não dizem respeito ao assunto. Apelar para os preconceitos, para a compaixão, para o ódio e emoções desse tipo nada tem a ver com aquilo que é essencial à retórica. Provocar essas emoções é só um meio de manipular a pessoa que irá decidir uma questão. Daí que muitos professores e livros de retórica já não teriam mais nenhuma utilidade, se fossem sempre aplicadas as regras a esse respeito que existem em certas cidades, especialmente nas bem governadas. No fundo, todos acham que essas regras deveriam existir. Mas ocorre que apenas em alguns lugares essas regras são seguidas, como acontece no Areópago, onde não é permitido falar de coisas que não sejam essenciais à discussão do caso em pauta. Esse é um decreto e um costume muito sadio. Não é correto atrapalhar o discernimento de quem julga provocando raiva, inveja ou compaixão. Fa-
zer isso é como entortar a régua que será usada pelo carpinteiro.” (Aristóte-
les, Retórica, 1354a. Nossa versão indireta a partir da tradução inglesa de J. H. Freese. Cambridge; Londres: Harvard University Press; Heinemann, 1926)
Você é capaz de convencer um júri?
lógica e argumentação
Foto: CC-BY-SA-3.0 Joanbanjo
Análise de texto e debate em sala de aula
livro do professor
O Aerópago era um conselho existente na Atenas antiga, formado por aristocratas que desempenhavam funções políticas. A retórica tinha papel crucial nos debates.
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• Analise o trecho da Retórica aqui citado. Conduza sua análise procurando responder a essas questões: – Qual a opinião de Aristóteles a respeito do ensino da retórica em sua época? – Que críticas ele dirige aos autores de livros de retórica? – Quais são, segundo Aristóteles, os elementos essenciais da retórica? – De outro lado, quais são os elementos que não são essenciais a ela? • Em seguida, formando um par com um(a) colega, discutam juntos a seguinte situação: imaginem que vocês vivem em Atenas à época da democracia antiga, em que as audiências eram realizadas no Tribunal, ao ar livre, congregando muitos cidadãos. Suponham que um homem está sendo acusado de roubo e vocês estão tentando condená-lo. Vocês não têm provas de que ele é culpado, mas irão apelar para coisas que nada têm a ver com o roubo em si, de modo a fazer os jurados sentirem raiva desse homem. Como vocês poderiam fazer isso? Suponham então que, inversamente, vocês estão tentando absolver esse homem, mas todas as provas parecem incriminá-lo. O que vocês podem fazer para que os jurados sintam compaixão desse homem, e acabem por absolvê-lo ou ao menos atenuem a sua pena? • Apresentem aos demais colegas de classe os seus resultados.
Aristóteles Nasceu na cidade de Estágira, na Macedônia, em
página 85
Obras de Aristóteles e sua edição crítica
384 a.C., e morreu em Atenas em 322 a.C. Foi, du-
Para a localização precisa de textos de Aris-
rante algum tempo, responsável pela educação do
tóteles, a comunidade de pesquisadores con-
jovem Alexandre, filho do rei Filipe da Macedônia,
vencionou tomar como referência a edição de
que iniciou um domínio sobre os Gregos que seu
August Immanuel Bekker das obras do filósofo.
filho iria expandir, obtendo o mais vasto império até
O motivo é simples: o filólogo alemão Bekker
então conhecido, que alcançou a Índia.
(1785-1871) foi o primeiro a realizar uma edição
Antes disso, com cerca de dezoito anos, Aristóteles viajou a Atenas e logo entrou para a Academia,
crítica dessas obras, a qual serviu de base para as posteriores.
escola fundada por Platão (428-348 a.C.). Nela per-
O que significa “edição crítica”? Basicamente,
maneceu por vinte anos, deixando-a apenas após a
que numa edição dessas são confrontadas e anota-
morte do mestre. Depois de retirar-se de Atenas por
das todas (ou as principais) fontes documentais de
Em português, crescem em quantidade e qualidade as traduções dos textos de Aristóteles. A Universidade Estadual de Campinas vem publicando traduções de importante especialista, Lucas Angioni, de livros da Física e da Metafísica, com comentários: • Aristóteles, Metafísica, Livros IV e VI, trad. L. Angioni. Clássicos da Filosofia: Cadernos de Tradução n. 14. IFCH – UNICAMP, Setembro de 2007. • Aristóteles, Metafísica, Livros VII e VIII, trad. L. Angioni. Clássicos da Filosofia: Cadernos de Tradução n. 11. IFCH – UNICAMP, Setembro de 2005. • Aristóteles, Metafísica, Livros IX e X, trad. L. Angioni. Clássicos da Filosofia: Cadernos de Tradução n. 9. IFCH – UNICAMP, Novembro de 2004. • Aristóteles, Metafísica, Livro XII, trad. L. alguns anos, retorna e funda sua própria escola, o
que dispomos de determinado texto. Como você
Liceu, no qual ensina até o fim de sua vida.
pode imaginar, pode ser bastante trabalhoso o
A filosofia de Aristóteles consiste numa tentati-
processo de confrontar essas fontes, para localizar
va de pensar questões e problemas filosóficos her-
diferenças de um documento a outro (chamadas
dados do platonismo, mas por vias e por meio de
variantes: acréscimos, supressões, discrepâncias e
soluções que frequentemente se
variações de ortografia e gramáti-
distanciam desse mesmo plato-
ca etc.). Feito isso, o editor crítico
nismo. Assim como seu mestre,
terá de decidir, com base em uma
Aristóteles foi um autêntico fun-
pesquisa mais abrangente, quais
dador de temas filosóficos, não
dessas variantes o texto principal
somente em áreas que ainda
deve seguir no corpo da página;
hoje consideramos como tipica-
as outras variantes são anotadas
mente filosóficas, como metafí-
em pé de página. Voltando à edição de Bekker
sica, lógica, ética, como também
em assuntos que posteriormente ganharam autonomia científica, como a física ou a biologia. Al-
guns de seu principais escritos
para as obras de Aristóteles: a numeração ali utilizada, e que depois virou padrão nas referências às obras do filósofo, com-
são: Metafísica, Ética a Nicômaco, Primeiros analíticos,
põe-se de três elementos: o número da página,
Segundos analíticos, Partes dos animais, Física.
a coluna (a ou b) e a linha. Assim, para o seguinte
A influência exercida por Aristóteles na Anti-
trecho (citado no corpo desta Unidade): “[...] é proi-
guidade tardia, na Idade Média (especialmente a
bido falar de coisas que não sejam essenciais à dis-
partir da recuperação de importantes livros seus,
cussão do caso em pauta. Esse é um costume muito
à época desconhecidos no Ocidente, conservados
sadio. Não é correto atrapalhar o discernimento de
por pensadores árabes) e no início da Modernidade
quem julga provocando raiva, inveja ou compaixão”,
foi extraordinária, provavelmente inigualada. Sua
a referência é 1354a 14-18.
metafísica e seu pensamento moral forneceram
“1354”: essa página pertence ao livro da Retóri-
elementos analíticos e conceituais para a teologia
ca (aliás, é a primeira, uma vez que, na edição de
cristã durante a Idade Média, e os principais pensa-
Bekker, o livro vai dessa página à página 1419);
dores da Modernidade nele tiveram seu grande adversário, no intuito de propor uma nova concepção
de ciência. Sua ética ainda é vivamente debatida por pensadores contemporâneos.
Cabeça de Aristóteles em mármore . Kunsthistorisches Museum, Viena/The Bridgeman Art Library/Keystone
página 84, Situação de aprendizagem
entre as diversas partes do móvel que ele está construindo. O juiz também deve manter uma “proporção” correta entre as diversas sentenças dadas no tribunal. Uma retórica enganadora, que lance mão de fatores que nada têm a ver com o caso em exame, faz com que ele incorra em erro e seja injusto. Se você quiser aprofundar com os alunos o início desta história acerca da importância da argumentação na Grécia clássica, um texto muito útil e bastante introdutório é o capítulo escrito por Marcelo P. Marques, “Os sofistas: o saber em questão”, no livro Filósofos na sala de aula 2 (São Paulo: Berlendis & Vertecchia Editores, 2007, pp. 11-45). O autor reconstitui a origem das técnicas de argumentação utilizadas pelos sofistas da Antiguidade, inscrevendo seu desenvolvimento no contexto social e política das cidades-Estado gregas.
lógica e argumentação
Lógica informal (São Paulo: Martins Fontes, 2012) de Douglas Walton é outro livro que pode ser usado por você para se aprofundar no assunto e extrair numerosos exemplos para uso em sala de aula. O quarto capítulo, intitulado “Apelos à emoção”, é especialmente útil para discutir o texto da Retórica que citamos, pois examina casos concretos de apelo à piedade, à ameaça e aos preconceitos que são usados para induzir pessoas e auditórios a aceitarem determinadas teses.
“a” indica que o texto referido está na primeira
coluna da página.
“14-18” indica as linhas da coluna em que se
encontra o trecho citado.
6/30/17 11:22 AM