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SÉRIE COMENTÁRIOS BÍBLICOS

JOÃO CALVINO

João

Evangelho segundo

Vol. 1


C168e v. 1

Calvino, João, 1509-1564 O evangelho segundo João / João Calvino ; [prefácio de Franklin Ferreira ; tradução de Valter Graciano Martins]. – São José dos Campos, SP : Fiel, 2015. 498 p. ; 21cm. – (Comentários bíblicos. O evangelho segundo João ; v. 1) Tradução de: Calvin’s commentaries: the gospel according to John. Inclui referências bibliográficas. ISBN 978-85-8132-190-5 1. Bíblia. João - Comentários. I. Título. II. Ferreira, Franklin. III. Martins, Valter Graciano. III. Série. CDD: 226.5

Catalogação na publicação: Mariana C. de Melo – CRB07/6477 Evangelho Segundo João Série Comentários Bíblicos João Calvino Título do Original: Calvin’s Commentaries: The Gospel According to John Edição baseada na tradução inglesa de T. A. Smail, publicada por Wm. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, MI, USA, 1964, e confrontada com a tradução de John Pringle, Baker Book House, Grand Rapids, MI, USA, 1998. • Copyright © Editora Fiel 2013 Primeira Edição em Português 2015

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária Proibida a reprodução deste livro por quaisquer meios, sem a permissão escrita dos editores, salvo em breves citações, com indicação da fonte. A versão bíblica utilizada nesta obra é a Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) • Diretor: James Richard Denham III Editor: Tiago J. Santos Filho Tradução: Rev. Valter Graciano Martins Revisão: Paulo César Valle Capa: Edvânio Silva Diagramação: Rubner Durais ISBN: 978-85-8132-190-5

Caixa Postal 1601 CEP: 12230-971 São José dos Campos, SP PABX: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br


Sumário

Prefácio à Edição em Português............................................11 Epístola Dedicatória................................................................19 Argumento da Epístola de Paulo aos Romanos...................25 Capítulo 1 Versículos 1 a 5..............................................................29 Versículos 6 a 13............................................................39 Versículo 14....................................................................49 Versículos 15 a 18..........................................................53 Versículos 19 a 23..........................................................59 Versículos 24 a 28..........................................................63 Versículos 29 a 34..........................................................67 Versículos 35 a 39..........................................................74 Versículos 40 a 42..........................................................76 Versículos 43 a 46..........................................................78 Versículos 47 a 51..........................................................82 Capítulo 2 Versículos 1 a 11............................................................87 Versículos 12 a 17..........................................................96 Versículos 18 a 22........................................................101 Versículos 23 a 25........................................................106


Capítulo 3 Versículos 1 a 6............................................................111 Versículos 7 a 12..........................................................122 Versículos 13 a 18........................................................128 Versículos 19 a 21........................................................136 Versículos 22 a 28........................................................139 Versículos 29 a 34........................................................143 Versículos 35 a 36........................................................150 Capítulo 4 Versículos 1 a 9............................................................153 Versículos 10 a 15........................................................158 Versículos 16 a 21........................................................163 Versículos 22 a 26 .......................................................170 Versículos 27 a 34 .......................................................178 Versículos 35 a 38 .......................................................183 Versículos 39 a 45 .......................................................187 Versículos 46 a 54 .......................................................192 Capítulo 5 Versículos 1 a 9............................................................199 Versículos 10 a 16........................................................206 Versículos 17 a 19........................................................211 Versículos 20 a 24 .......................................................215 Versículos 25 a 29 .......................................................221 Versículos 30 a 32 .......................................................227 Versículos 33 a 36 .......................................................229 Versículos 37 a 40 .......................................................233 Versículos 41 a 47 .......................................................237 Capítulo 6 Versículos 1 a 13..........................................................245 Versículos 14 a 21........................................................252


Versículos 22 a 25........................................................257 Versículos 26 a 29........................................................259 Versículos 30 a 33........................................................265 Versículos 34 a 40........................................................269 Versículos 41 a 45........................................................275 Versículos 46 a 51........................................................280 Versículos 52 a 58........................................................284 Versículos 59 a 64........................................................291 Versículos 65 a 71........................................................298 Capítulo 7 Versículos 1 a 8............................................................305 Versículos 9 a 13..........................................................310 Versículos 14 a 19........................................................312 Versículos 20 a 24 .......................................................318 Versículos 25 a 30........................................................321 Versículos 31 a 36........................................................326 Versículos 37 a 39........................................................331 Versículos 40 a 44........................................................336 Versículos 45 a 53........................................................338 Capítulo 8 Versículos 1 a 11..........................................................345 Versículos 12 a 14........................................................351 Versículos 15 a 20........................................................354 Versículos 21 a 24........................................................358 Versículos 25 a 29........................................................360 Versículos 30 a 38 .......................................................368 Versículos 39 a 42........................................................375 Versículos 43 a 45........................................................378 Versículos 46 a 50........................................................382 Versículos 51 a 55 .......................................................385 Versículos 56 a 59........................................................390


Capítulo 9 Versículos 1 a 5............................................................395 Versículos 6 a 12 .........................................................401 Versículos 13 a 17........................................................405 Versículos 18 a 23........................................................411 Versículos 24 a 33........................................................415 Versículos 34 a 41........................................................419 Capítulo 10 Versículos 1 a 6............................................................429 Versículos 7 a 10..........................................................433 Versículos 11 a 15........................................................438 Versículos 16 a 18........................................................442 Versículos 19 a 30........................................................447 Versículos 31 a 36........................................................454 Versículos 37 a 42........................................................458 Capítulo 11 Versículos 1 a 10..........................................................463 Versículos 11 a 17........................................................469 Versículos 18 a 27........................................................472 Versículos 28 a 38........................................................477 Versículos 39 a 44........................................................483 Versículos 45 a 52........................................................488 Versículos 53 a 57........................................................497


Prefácio à Edição em Português

Este comentário de João Calvino, que o leitor tem em mãos, ocupa um lugar de destaque na história da interpretação do Evangelho de João. Orígenes de Alexandria, João Crisóstomo, Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino e Erasmo de Roterdã escreveram sermões e exposições deste evangelho, mas o comentário de Calvino se destaca sobre todos os seus predecessores.1 Calvino fez uma primeira preleção deste evangelho, em 1539, mas nenhum manuscrito destas pregações sobreviveu. Ele pregou estes sermões no tempo que passou na cidade livre franco-alemã de Estrasburgo, ministrando à comunidade francesa da cidade, nas igrejas de Saint-Nicolas, Sainte-Madeleine e Temple Neuf. Mas, ao retornar a Genebra, ele voltou a pregar este evangelho, e estas exposições se tornaram o primeiro comentário aos evangelhos publicado por Calvino, em meio às turbulências da vida política de Genebra, entre 1546 e 1553. 1 Para a história da interpretação deste evangelho, cf. D. A. Carson, O comentário de João (São Paulo: Shedd, 2007), p. 25-42.


12   • Comentário do Evangelho de João

Desde 1541 o governo da cidade de Genebra era bipartido, com o conselho se dedicando às questões civis, e o consistório tratando das questões eclesiásticas. Em 1547 a oposição a Calvino e a outros pastores de refugiados franceses havia crescido. Esta oposição vinha de uma coalizão contrária a Calvino, conhecida como os libertinos, e que contava com a maioria dos síndicos, que eram os magistrados civis da cidade. Em junho, uma carta anônima, com ameaças, foi encontrada no púlpito da Catedral de Saint-Pierre, onde Calvino pregava. Suspeitando de uma conspiração contra a Igreja e o Estado, o conselho nomeou uma comissão para investigar o caso. Como resultado, um homem, membro da mais antiga família da cidade, foi preso, e provas incriminatórias, inclusive uma carta endereçada ao rei da França, foram encontradas quando sua casa foi revistada. Ele confessou vários crimes, incluindo ter escrito a carta deixada no púlpito da catedral. Como resultado, um tribunal civil condenou o homem por traição, e ele foi executado em julho daquele ano. Em meio a estas agitações, em meados de 1549, a esposa de Calvino, Idelette de Bure, veio a falecer, deixando seus dois filhos, nascidos de seu primeiro casamento, sob os cuidados de Calvino.2 Os libertinos intensificaram a oposição, e os insultos contra os pastores da cidade aumentaram, assim como os desafios à autoridade do consistório, que era formado por pastores e presbíteros, e que julgava as questões de disciplina eclesiástica. O conselho da cidade assumiu uma posição ambígua, alternadamente admoestando e apoiando Calvino. Foi em 1550 que ele começou a expor o evangelho de João, no púlpito da Catedral de Saint-Pierre. Mas, quando um de seus principais rivais foi eleito como primeiro síndico do conselho, em 1552, a autoridade de Calvino na cidade parecia ter chegado ao seu ponto mais baixo. De um lado, o alvo do conselho, sob a liderança dos libertinos, era controlar a disciplina eclesiás2 Para os detalhes e o texto da carta e o medo de uma intervenção militar francesa na cidade, cf. Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), p. 73-75.


Prefácio à edição em português •  13

tica e a liberdade dos cidadãos de Genebra de receber a Ceia do Senhor, exercendo, desta forma, controle sobre a igreja de Genebra. De outro lado, o francês Calvino não era cidadão genebrino, sendo apenas um empregado do conselho municipal, um professor (sacrarum literatum professor), sem poder de voto. Depois de algumas derrotas diante do conselho, ele acreditou que havia sido vencido. Então, em julho de 1553, Calvino pediu ao conselho permissão para se demitir. Embora os libertinos controlassem o conselho, o seu pedido foi recusado. A oposição percebeu que poderia reduzir a autoridade de Calvino, mas não tinha poder suficiente para bani-lo. E, em agosto, o herético espanhol Miguel Serveto, que inexplicavelmente passava pela cidade, foi preso e julgado por ordem dos síndicos libertinos, que, assim, esperavam minar o ministério de Calvino. Em meio a esta confusão, é importante ressaltar que a “influência [de Calvino] sobre Genebra foi exercita de forma indireta, através de pregações, conferências e outras formas de persuasão legítima”.3 E, como escreveu Barbara Pitkin, “em certo sentido, portanto, este comentário [ao Evangelho de João] pode ser visto com uma defesa singular do seu ensino e autoridade pastoral”.4 Em meio a esta situação precária, o Comentário ao Evangelho de João foi publicado em 1553 e a Harmonia aos Evangelhos Sinópticos foi publicada em 1555. Os dois comentários – a Harmonia aos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e o Evangelho de João – foram lançados em conjunto, e apareceram em francês e holandês publicados juntamente com o comentário ao livro de Atos, que havia saído um pouco antes, em 1552. Em cerca de cinquenta anos este comentário foi publicado sete vezes em latim, doze em francês, duas em alemão, uma em inglês e uma em holandês. Reveladoramente, a epístola dedicatória do Comentário ao Evangelho de João foi endereçada “aos honorabilíssimos e ilustrís3 Alister McGrath, A vida de João Calvino (São Paulo: Cultura Cristã), p. 127-137. 4 Barbara Pitkin, “Calvin as a Commentator on John” em Donald K. McKim (ed.), Calvin and the Bible (New York: Cambridge University Press, 2006), p. 169.


14   • Comentário do Evangelho de João

simos senhores, os síndicos e concílio de Genebra”. Como escreve Wulfert de Greef: “Na dedicatória, ele se refere a Genebra como um centro de refúgio para os cristãos que foram forçados a fugir de onde viviam. Isto é significativo à luz da declaração de Cristo, sobre como a hospitalidade aos estrangeiros é considerada como algo feita a ele, pessoalmente. No meio da agitação, que o conselho saiba que Cristo está próximo, protegendo as cidades onde o evangelho pode ser proclamado e onde seu povo tem permissão para morar”.5 Diferente dos comentários anteriores, Calvino não entendia que este evangelho fosse uma defesa das doutrinas ortodoxas da Trindade e da Pessoa de Cristo, mas que tratava essencialmente sobre como pessoas podem ser salvas pela fé em Jesus Cristo. Para ele, como está escrito na análise introdutória à exposição do comentário ao Evangelho de João, este forneceria uma chave para o entendimento dos três evangelhos sinópticos: “Por isso, tenho o costume de dizer que este Evangelho é uma chave que abre a porta para a compreensão dos outros, pois quem quiser entender o poder de Cristo, como aqui notavelmente retratado, prontamente desejará ler com proveito o que os outros relatam acerca do Redentor que se manifestou”. Mas, cuidadosamente, num eco da imagem de Ireneu de Lião do evangelho quádruplo como um “rico mosaico” que revela “o autêntico retrato do rei”,6 Calvino escreveu que “é nosso dever agora combinar os quatro [evangelhos] por meio de uma relação mútua, de modo que nos permitamos ser instruídos por todos eles, como por uma só boca”. Portanto, para ele, o evangelho de João “é a solene publicação da graça revelada em Cristo. (...) E, visto que Cristo é o penhor da misericórdia de Deus e de seu paternal amor para conosco, assim ele é, de uma maneira peculiar, o tema do evangelho”. Calvino não estava sozinho nesta ênfase. Escrevendo um pouco antes, Martinho Lutero afirmou que o Evangelho de João seria um dos 5 Wulfert de Greef, The Writings of John Calvin: An Introductory Guide (Louisville, KY: Westminster Press, 2008), p. 81-84. 6 Cf. Ireneu de Lião, Contra as heresias I.8.1 (São Paulo: Paulus, 1995), p. 52-53.


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melhores e mais belos livros do Novo Testamento, e “é o único evangelho delicado e certo, o principal, sendo que se lhe deve dar considerável preferência e dedicar-lhe respeito”. Portanto, este evangelho, considerado em conjunto com a primeira epístola de João, “te apresentam Cristo e te ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visses ou desses ouvidos a qualquer outro livro ou doutrina”. Lutero também afirmou que os “melhores dentre todos os livros” do Novo Testamento seriam “o Evangelho segundo João e as epístolas de Paulo, em especial aquela aos Romanos, e a Primeira Epístola de Pedro”, e consistiriam no “bom cerne e medula dentre todos os livros” da Escritura Sagrada. Assim sendo, “cada cristão se deveria recomendar que os lesse por primeiro e com maior freqüência, familiarizando-se com eles pela leitura diária como se fosse o pão de cada dia”. Por fim, sem desconsiderar a visão elevada que João oferece de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo; e da glória do Verbo encarnado, o propósito do apóstolo, segundo Lutero, seria delimitar de forma mais clara “como a fé em Cristo supera o pecado, morte e inferno e concede vida, justiça e salvação, o que, afinal, é a característica própria do Evangelho”.7 Ainda que a afirmação da superioridade do Evangelho de João sobre os sinópticos possa parecer um exagero, esta noção do texto do apóstolo João como chave interpretativa dos quatro evangelhos encontra sua culminância em Calvino, que também o considerava um dos mais importantes livros da Escritura. Como Pipkin escreve, “o Evangelho de João oferece a Calvino uma apresentação mais nuançada da fé e da recepção da fé do que fazem as 7 Martinho Lutero, “Prefácio ao Novo Testamento 1546”, em Martinho Lutero: Obras selecionadas, v. 8 (São Leopoldo: Sinodal & Porto Alegre: Concórdia, 2003), p. 127. Este texto é da primeira edição de 1522 do prefácio ao Novo Testamento, mas foi omitido em edições posteriores. Para as pregações de Lutero nos capítulos 14-16 do Evangelho de João, intitulados “os sermões de despedida de Jesus”, cf. Martinho Lutero: Obras selecionadas, v. 11 (São Leopoldo: Sinodal & Porto Alegre: Concórdia, 2010), p. 15-439. Estas exposições foram realizadas entre a Páscoa e o Pentecostes de 1537, em Wittenberg. Foram revisadas, resumidas e editadas no ano seguinte.


16   • Comentário do Evangelho de João

epístolas paulinas. Especificamente, ‘ela oferece um conceito mais amplo dos níveis, estágios ou tipos da fé e uma imagem mais complexa do papel dos milagres, sinais e senso externo da percepção da chegada da fé’. Em seus comentários sobre a fé, Calvino enfatiza que a fé, em última instância, vem pelo ouvir e que não repousa numa visão carnal, e que se trata de um conhecimento correto de Jesus Cristo”.8

O que torna este comentário ao Evangelho de João mais significativo é que esta exposição bíblica é uma afirmação da força e energia do método histórico-gramatical, como estabelecido pelo próprio Calvino.9 Há poucos vislumbres do clima beligerante em que ele estava vivendo nesta época, em Genebra. Corajosamente, ele se dedica a expor as palavras bíblicas inspiradas pelo Espírito Santo com fidelidade e atenção. Isto ocorreu porque este comentário foi escrito motivado pelo inquebrantável compromisso de Calvino com a Palavra de Deus, na medida em que seu interesse primário era o sentido próprio do texto bíblico como almejado pelo apóstolo João. Portanto, o comentário de Calvino ao Evangelho de João é um dos exemplos que levaram Timothy George a afirmar que ele é justamente “chamado ‘o pai da erudição bíblica moderna’, e sua obra exegética é sem paralelo na Reforma”. Esta ênfase na primazia das Escrituras se deu porque “era uma convicção-chave da Reforma que o estudo cuidadoso das Escrituras, bem como o fato de ouvi-las de modo meditativo, que os monges [medievais] chamavam de lectio divina, poderia fornecer resultados transformadores de vida”.10 Que o estudo dessa exposição do Evangelho de João nos conduza não só à reflexão sobre a revelação do Verbo de Deus, do conhecimento de Deus e do advento do Espírito Santo, mas também 8 Barbara Pitkin, “Calvin as a Commentator on John”, p. 181. 9 Para um resumo do método hermenêutico de João Calvino, cf. Franklin Ferreira, Servos de Deus (São José dos Campos: Fiel, 2014), p.214-229. 10 Timothy F. George, “Introdução geral”, em: Gerald Bray (org.), Comentário Bíblico da Reforma: Gálatas e Efésios (São Paulo: Cultura Cristã, 2013), p. 15, 28.


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faça crescer nossa fé naquele que é “o pão da vida” (Jo 6.35), “a luz do mundo” (Jo 8.12), “a porta” para o rebanho (Jo 10.7), “o bom pastor” (Jo 10.11), “a ressurreição e a vida” (Jo 11.25), “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6), a videira verdadeira (Jo 15.1), Jesus Cristo, “o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Franklin Ferreira Diretor do Seminário Martin Bucer, São José dos Campos-SP


Epístola Dedicatória Aos honorabilíssimos e ilustríssimos senhores, Os síndicos e concílio de genebra, João Calvino Suplica do Senhor o Espírito de sabedoria e determinação, e uma próspera administração.

Nunca deixo de meditar naquela declaração de Cristo, na qual ele dá valor extremamente elevado ao dever de receber os estranhos com bondade como se fosse a si mesmo, sem deixar de levar em conta, ao mesmo tempo, a extraordinária honra que lhe aprouve conferir-vos ao tornar vossa cidade um lugar de refúgio, não de um ou de poucos indivíduos, mas de sua Igreja em geral. Entre os países pagãos, a hospitalidade sempre foi recomendada e considerada uma das virtudes capitais; e, consequentemente, quando eles intentavam denunciar alguém como bárbaro e selvagem da mais vil categoria, os tais eram chamados ἀξένους, ou – o que significa a mesma coisa – não hospitaleiro. Muito mais sublime louvor, porém, se vos deve porque, nestes tempos turbulentos e desditosos, o Senhor vos designou para serem as pessoas cujo apoio e proteção devem ser solicitados pelos piedosos e inofensivos homens banidos e expulsos de seus países de origem pela ímpia e cruel tirania do Anticristo. E não apenas isso, mas ele também dedicou ao seu nome uma sagrada habitação entre vós, onde seu culto possa ser preservado em pureza.


20   • Comentário do Evangelho de João

Quem quer que tente, no mais leve grau, publicamente invadir ou secretamente tirar de vós essas duas vantagens, não só laboram em privar vossa cidade de seus magníficos ornamentos, mas miram sua existência e segurança com os olhos da inveja. Pois ainda que os ofícios da bondade que são aqui exercidos para Cristo e seus membros dispersos excitem o ladrar de homens perversos contra vós, ainda deveis mirar a vós mesmos como sobejamente compensados por esta única consideração: que os anjos vos bendizem lá do céu e os filhos de Deus vos enaltecem desde os quatro cantos do mundo; de modo que possais ousadamente desprezar as imundas calúnias dos homens que não podem ser refreados nem pelo escrúpulo da consciência nem pela vergonha de derramarem ultrajantes insultos, mais sobre Deus mesmo do que sobre vós – mais ainda: quando desejam caluniar-vos, começam por blasfemar a Deus. Ainda que nessa mesma ocasião1 se acenda a ira de muitos contra vós, contudo não tendes razão para sentir-vos amedrontados diante de algum perigo que, porventura, provenha dele, enquanto a fúria deles for neutralizada pela proteção de sua mão, que tem prometido que será o fiel guardião daquelas cidades nas quais a doutrina de seu evangelho permanece firme, e nas quais os homens piedosos, a quem o mundo não pode suportar, devem ser permitidos habitar. É desnecessário dizer que certamente enfrentareis dificuldades na tentativa de conciliarem essa classe de inimigos; pois não há homem que vos seja hostil por amor do evangelho, que não desejaria ver-vos arruinados e oprimidos por outras razões. Admitindo, porém, que não haja outra razão pela qual sois odiados pelos inimigos gratuitos da sã doutrina, senão porque vos veem decididos a defendê-la, não obstante, não levando em conta seus estratagemas e ameaças, deveis resolutamente defender estes dois inexpugnáveis baluartes: a pureza do culto cristão e a santa solicitude de proteger a Igreja que Cristo colocou sob a proteção de vossas asas. Assim, no que diz respeito às calúnias lançadas contra nós pelos 1 (“Ascavoir que l’Evngile, et ceux qui y veulent adherer, ont yci leur retraitte”) – (“isto é, que o evangelho, e aqueles que desejam permanecer nele, tenha seu refúgio aqui”).


Epístola Dedicatória •  21

rixentos assalariados do papa – que apostatamos da Igreja porque nos esquivamos da sujeição à Sé de Roma –, gostaria que estivesse em nosso poder a liberdade de protestar com inabalável confiança, diante de Deus e dos anjos, que estamos a uma distância incomensurável daquele charco pútrido, ao ponto de podermos fácil e prontamente defender-nos do crime que costumam lançar em nosso débito. De fato, vangloriam-se no título Igreja Católica, ainda que em parte alguma da doutrina da Lei e do Evangelho se lhes permita permanecer livres de vergonhosas corrupções, ainda que tenham profanado todo o culto de Deus pela imundícia de suas superstições, e não tem escrúpulo de vilipendiar todas as ordenanças de Deus por meio de suas invenções. Mais ainda, tão Católica – tão universal – é a massa de erros pelos quais têm subvertido toda a religião, que seria suficiente para destruir e consumir a Igreja centenas de vezes. Portanto, nunca poderemos enaltecer, em termos tão sublimes quanto a questão merece, a infinita benevolência de Deus, pela qual temos miraculosamente escapado desse destrutivo torvelinho e fixado bem a âncora de nossa fé na sólida e eterna verdade de Deus.2 E, assim, confio que este Comentário será uma prova suficiente de que o papado nada mais é senão um monstro formado a partir do inúmeros enganos de Satanás, e que o que eles chamam igreja é muito mais confuso que Babilônia. Francamente, reconheço – o que infelizmente é verdade! – que não estamos suficientemente longe desse poço imundo, cujo contágio é terrivelmente amplo. O Anticristo se queixa de que temos nos afastado demais dele; nós,3 porém, somos compelidos a lamentar que muito das poluições que têm infectado o mundo inteiro se insinua em nosso meio. Deus graciosamente nos4 restaurou à imaculada pureza da doutrina, da religião em seu estado primitivo, do culto divino sem adulteração e da fiel administração dos Sacramentos, como nos fo2 A versão francesa acrescenta: “à ce qu’elle ne flottast plus parmi les traditions des hommes.” – “para que não mais seja perturbada pelas tradições dos homens.” 3 “Nous qui taschons de remettre l’estat de l’Eglise à son entier.” – “nossa luta é para restaurar a Igreja a sua condição original.” 4 “Dieu par sa grace nous a restitué.”


22   • Comentário do Evangelho de João

ram transmitidos por Cristo. Mas a causa principal que nos impede de atingir essa reforma da conduta e da vida, a qual deveria existir, é que muitas pessoas, sentindo saudades daquela desenfreada licenciosidade que impeliu os papistas a oporem-se ao mandamento de Deus, não conseguem suportar o jugo de Cristo. Por conseguinte, quando nossos inimigos, a fim de incitar contra nós infundada aversão entre os ignorantes, suscitam irritantes protestos, dizendo que temos despedaçado toda a disciplina, sua calúnia é sobejamente refutada (ainda quando permanecemos em silêncio) por esta única consideração: que em nosso próprio país não temos peleja mais árdua do que nossa excessiva severidade – pelo menos assim considerado por muitas pessoas. Visto, porém, que vós sois as testemunhas mais competentes, em meu favor e de meus colegas, de que não somos tão rígidos e severos senão quando o dever nos compele a fazê-lo e quando livremente nos submetemos à decisão de vossa consciência a nosso respeito. Portanto, de um lado, facilmente percebereis, de relance, o atrevimento singularmente ridículo de nossos inimigos sobre este assunto. Agora, passo a vos dizer umas poucas palavras sobre mim mesmo como indivíduo. Embora eu espere que meus numerosos escritos sejam uma prova suficiente ao mundo de como tenho instruído esta Igreja, contudo imagino que seria de grande importância para mim redigir um registro especial sobre este com o vosso nome; pois é muitíssimo necessário que o tipo de doutrina que reconheceis ser ensinada por mim deveria ser exibida aos olhos de todos.5 Embora em todos os livros que tenho até agora publicado, eu tenha me esforçado para que vós e o povo que ora encontra-se sob a vossa responsabilidade extraiam deles grandes benefícios, mesmo após minha morte, e mesmo que seja muitíssimo inconveniente que a doutrina que tem emanado de vossa cidade para as nações vizinhas produza frutos com muita abundância, porém seja negligenciada no lugar de sua origem, não obstante espere que este Comentário, que vos é especialmente 5 A cópia francesa acrescenta: “afin qu’on n’en juge point à l’aventure, ni a credit.” – “para que não a julguemos à revelia, ou sem verificação.”


Epístola Dedicatória •  23

dedicado, exerça um sólido domínio em vossa memória. Para isso, oro a Deus para que os grave tão profundamente com seu próprio dedo em vosso coração, que ele nunca venha a ser obliterado pelas estratégias de Satanás. Pois a ele pertence coroar meu labor com êxito, porque até aqui ele me deu coragem para desejar nada mais senão fielmente vigiar sobre a segurança vossa e de vosso povo. Além do mais, como espontaneamente reconheço diante do mundo que mui longe estou de possuir a cuidadosa diligência e outras virtudes que a grandeza e a excelência do ofício requer de um bom pastor, e como continuamente lamento diante de Deus os numerosos pecados que obstruem meu progresso, assim me aventuro declarar que não estou destituído de honestidade e sinceridade na realização de meu dever. E, se nesse ínterim, os homens perversos não cessarem de me aborrecer, visto ser meu dever – por meio de boa conduta – refutar suas calúnias, assim vos caberá refrear suas calúnias pelo exercício daquela sagrada autoridade com que fostes investidos. Por isso, meus ilustríssimos e mui honrados senhores, recomendo-vos à proteção de nosso bom Deus, rogando-lhe que vos dê sempre o espírito de prudência e virtude para governardes com justiça e tornardes próspera vossa administração, de modo que seu Nome seja com isso glorificado, e que o resultado seja venturoso para todos vós.6 Genebra, 1 de janeiro de 1553

6 Na sentença final foi seguida a forma mais ampliada da versão francesa


Análise do Evangelho de João

O significado da palavra grega εὐαγγέλιον (evangelho) é bem conhecido.1 Na Escritura, ela denota (κατ᾿ ἐξοχὴν), a alegre e prazerosa mensagem da graça a nós exibida em Cristo, a fim de instruir-nos a desprezar o mundo com suas passageiras riquezas e prazeres, a desejar essa bênção de todo nosso coração e abraçá-la quando ela nos for oferecida. É natural em todos nós aquela conduta que percebemos em homens irreligiosos que cultivam extravagantes prazeres nos fúteis deleites do mundo, ainda que sejam poucos, de modo que alguns se deixem afetar pelos encantos das bênçãos espirituais. Com o propósito de corrigir esse erro, Deus expressamente dá o título de evangelho à mensagem que ele ordena seja proclamada concernente a Cristo. Desse modo, ele nos lembra que em nenhuma outra parte se pode obter a genuína e sólida felicidade, e que nele temos tudo de que necessitamos para a perfeição de uma vida feliz. 1 “On scait assez que le mot d’Evangile signifie entre les Grees toutes bonnes nouvelles.” – “É bem notório que a palavra evangelho denota, em grego, qualquer gênero de boasnovas.”


26   • Comentário do Evangelho de João

Há quem considere a palavra evangelho como se estendendo a todas as graciosas promessas de Deus que se acham espalhadas inclusive na Lei e nos Profetas. Tampouco se pode negar que, sempre que Deus declara que se deixará reconciliar com os homens e perdoará seus pecados, ao mesmo tempo exibe Cristo cujo peculiar ofício, onde quer que ele se manifeste, é jorrar por toda parte os raios de sua alegria. Reconheço, pois, que os [antigos] pais foram participantes juntamente conosco do mesmo evangelho, no que diz respeito à fé na salvação gratuita. Visto, porém, que a declaração ordinária do Espírito Santo nas Escrituras é que o evangelho foi proclamado pela primeira vez quando Cristo veio, abracemos também essa forma de expressão, bem como conservemos a definição de evangelho que tenho formulado, a saber: é a solene publicação da graça revelada em Cristo. Por isso o evangelho é chamado o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê [Rm 1.16], porque nele Deus exibe sua justiça. Ele é também chamado embaixada por meio da qual Deus reconcilia consigo os homens [2Co 5.20]; e, visto que Cristo é o penhor da misericórdia de Deus e de seu paternal amor para conosco, assim ele é, de uma maneira peculiar, o tema do evangelho. Por isso, ele veio para que as histórias que narram que Cristo se manifestou na carne, morreu, ressuscitou dentre os mortos e, por fim, foi assunto ao céu tivessem peculiarmente o mérito do título evangelho. Pois ainda que, por razões já expressas, esta palavra signifique o Novo Testamento, contudo o título que denota a totalidade, pela prática geral, representa aquela parte dele que declara que Cristo se nos manifestou na carne, morrendo e ressuscitando dentre os mortos. Mas, como a mera história não seria suficiente, e de fato ela seria de nenhuma valia para a salvação, o evangelista não relata simplesmente que Cristo nasceu, morreu e venceu a morte, mas também explica com que propósito ele nasceu, morreu e ressuscitou, bem como qual o benefício que recebemos desses fatos. Não obstante, existe também esta diferença entre os Evangelhos: que os outros três são mais copiosos em sua narrativa da vida e morte


Análise do Evangelho de João •  27

de Cristo, e que João se delonga mais amplamente na doutrina, por meio da qual se manifesta o ofício de Cristo, associado ao poder de sua morte e ressurreição. Na verdade, eles não omitem a menção de que Cristo veio para trazer salvação ao mundo, fazer expiação pelos pecados do mundo por meio do sacrifício de sua morte, e, em suma, realizar tudo aquilo que era requerido do Mediador (como João também dedica boa porção de sua obra a detalhes históricos). A doutrina, porém, que nos salienta o poder e o benefício da vinda de Cristo é muito mais nitidamente exibida por ele do que pelos outros. E como todos eles tinham o mesmo objetivo em vista, ou, seja, destacar a pessoa de Cristo, os três primeiros salientam seu corpo, se nos é permitido usar esta expressão, enquanto que João salienta sua alma. Por isso, tenho o costume de dizer que este Evangelho é uma chave que abre a porta para a compreensão dos outros, pois quem quiser entender o poder de Cristo, como aqui notavelmente retratado, prontamente desejará ler com proveito o que os outros relatam acerca do Redentor que se manifestou. Crê-se que João escreveu primordialmente com a intenção de defender a Deidade de Cristo, em oposição às ímpias blasfêmias de Ebion e Cerinto. Isso é asseverado por Jerônimo em concordância com a opinião geral dos antigos. Mas, qualquer que tenha sido seu motivo para escrever naquele tempo, não pode haver dúvida de que Deus pretendia que sua Igreja recebesse um benefício muito mais elevado. Ele, pois, prescreveu aos quatro evangelistas o que deveriam escrever, de tal modo que, embora cada um deles tivesse sua própria parte designada, o todo poderia ser coligido em um só corpo; e é nosso dever agora combinar os quatro por meio de uma relação mútua, de modo que nos permitamos ser instruídos por todos eles, como por uma só boca. Quanto ao fato de João ser o quarto na ordem, isso foi feito em decorrência do tempo em que ele escreveu. Mas, ao lê-los, uma ordem diferente deve ser mais vantajosa, a saber, que, quando quisermos ler em Mateus e nos outros que Cristo nos foi dado pelo Pai, devemos antes de tudo ler em João o propósito para o qual ele se manifestou.


Capítulo 1

[1.1-5] No princípio era a Palavra, a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus. Ela estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dela; e sem ela nada do que foi feito se fez. Nela estava a vida; e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas; e as trevas não a abrangeram.

1. No princípio era a Palavra. Neste prólogo, o apóstolo declara a eterna Deidade de Cristo, para informar-nos que ele é o eterno Deus manifestado em carne [1Tm 3.16]. Seu objetivo é demonstrar que a restauração do gênero humano deveria ser efetuada pelo Filho de Deus; porque, através de seu poder, todas as coisas foram criadas, e é tão somente ele que sopra vida e energia a todas as criaturas, para que permaneçam em sua condição. E, conquanto no próprio homem ele exibisse a maior prova de seu poder e graça, mesmo depois da queda e fracasso de Adão, ele nunca deixou de mostrar liberalidade e bondade em favor de sua posteridade. O conhecimento desta doutrina é de primordial importância, pois uma vez que, longe de Deus, jamais buscaríamos vida e salvação, como poderia nossa fé descansar em Cristo se não conhecíamos a infalibilidade desta doutrina? Nestas palavras, pois, o Evangelista nos assegura que não renunciamos ao único e eterno Deus quando cremos em Cristo, e também que a vida é agora restaurada aos mortos através da bondade daquele que foi a fonte e a causa da vida, quando a natureza ainda não estava corrompida.


30   • Comentário do Evangelho de João

O Evangelista denomina o Filho de Deus de a Palavra [Sermo] simplesmente porque, primeiro, ele é a eterna Sabedoria e Vontade de Deus; e, segundo, porque ele é a imagem expressa do propósito divino. Pois assim como no homem se denomina a linguagem como sendo “a expressão dos pensamentos”, então não é fora de propósito aplicar isso a Deus e dizer que ele nos é expresso por meio de sua Palavra. Os outros significados da palavra grega λόγος logos (logos) não são muito apropriados. Para os gregos, certamente significa definição, razão e cálculo; contudo, me recuso a filosofar além da compreensão de minha fé. E descobrimos que o Espírito de Deus está tão longe de aprovar tais sutilezas que, ao balbuciar conosco, seu próprio silêncio proclama quão sóbrio deve ser nosso acesso intelectual em mistérios tão profundos. Além do mais, visto que Deus, ao criar o mundo, revelou-se através da Palavra, anteriormente ele a conservou oculta nos recessos de seu Ser. Por conseguinte, a Palavra exerce uma dupla relação, a saber: para com Deus e para com os homens. Serveto, certo canalha arrogante pertencente a Espanha, imagina que a Palavra eterna só veio à existência quando ela entrou em ação na criação do mundo, como se antes disso seu poder não fosse notório através de sua operação externa! Aqui, o ensino do Evangelista é totalmente diferente, pois ele não atribui à Palavra um princípio temporal, senão que, ao dizer que ela era desde o princípio, tal fato transcende a todos os tempos. Conheço muito bem o ladrar desse cão e os sofismas outrora suscitados pelos arianos, a saber, que no princípio Deus criou céu e terra [Gn 1.1], os quais, contudo, não são eternos, uma vez que princípio indica sequência e não eternidade. O Evangelista, porém, antecipa essa calamidade, quando ele diz E a Palavra estava com Deus. Se porventura a Palavra tivera um princípio temporal, então seria necessário que descobrissem em Deus alguma sequência de tempo. E, aliás, com esta expressão, João pretendia distingui-lo de todas as criaturas. Porquanto muitas perguntas poderiam surgir: Onde realmente estava essa Palavra? Como


Capítulo 1 •   31

ela exercia seu poder? Qual era sua natureza? De que forma poderia ser ela conhecida? Por isso, o Evangelista nega que Cristo fosse parte do mundo e das coisas criadas, já que ele sempre estivera unido com Deus antes que o mundo viesse à existência. Ora, aqueles que tomam princípio como parte da criação do céu e da terra não estariam reduzindo Cristo à ordem comum do mundo, do qual ele é aqui expressamente excluído? Ao fazer isso, não só insultam horrivelmente ao Filho de Deus, mas igualmente ao seu eterno Pai, a quem privam de sua Sabedoria. Se, porventura, for errado retratar a Deus isoladamente de sua Sabedoria, devemos igualmente confessar que a origem da Palavra não deve ser buscada em algum outro lugar senão na eterna Sabedoria de Deus. Serveto objeta que a Palavra não pode ser concebida antes de Deus ser, por meio de Moisés, representado como que falando. Como se ela, porque não havia ainda publicamente se manifestado, não subsistisse em Deus! Como se ela não possuísse existência abscôndita antes que começasse a revelar-se exteriormente! O Evangelista, porém, destrói toda fenda que possibilitasse a passagem de disparates tão absurdos, quando afirma incondicionalmente que a Palavra estava com Deus. Com isso, ele nos afasta para longe de toda temporalidade. Aqueles que inferem do tempo imperfeito do verbo1 um estado contínuo, infelizmente se colocam numa posição incômoda. Afirmam que a forma verbal era [erat] expressa melhor uma série contínua do que se João dissesse tem sido [fuit]. Tais questões, porém, demandam razões mais convincentes. O que tenho exposto deve ser suficiente, a saber: que o Evangelista nos envia ao eterno santuário de Deus e nos ensina que a Palavra estava, por assim dizer, oculta ali antes que se revelasse na estrutura externa do mundo. Portanto, Agostinho está certo quando nos lembra que o princípio mencionado aqui não teve começo, pois ainda que o Pai seja anterior à sua Sabedoria quanto à ordem, não obstante os que inventam algum ápice de tempo para essa 1 “Pource qu’il est dit Estoit, et non pas N’esté.” – “Porquanto se diz Era, e não tem sido.”


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precedência à sua Sabedoria o despojam de sua glória. E este é o eterno Filho [generatio] que, infinitamente anterior à fundação do mundo, esteve oculto em Deus (se me é lícito expressar nesses termos), e que, depois de ser obscuramente delineado aos patriarcas sob o regime da lei por muitos anos sucessivos, finalmente foi plenamente manifestado na carne. Sinto-me surpreso que as versões latinas tenham usado verbum para ὁ λόγος, pois esse termo é, antes, a tradução de τὸ ῥη̑μα. Mas, mesmo que admitamos que essa seja uma possibilidade, não se pode negar que Sermo [Palavra] teria sido muito mais apropriado. Isso revela a bárbara tirania daqueles teólogos da Sorbone2 que hostilizaram Erasmo com tanta fúria apenas porque ele mudou uma única palavra para melhor. E a Palavra estava com Deus. Já deixamos expresso que o Filho de Deus está, portanto, colocado acima do mundo e de todas as criaturas e antes de todos os tempos. Ao mesmo tempo, porém, essa expressão lhe atribui uma hypostasis [pessoa] distinta da do Pai. Pois teria sido absurdo se o Evangelista dissesse que a Palavra estivera sempre com Deus, se não tivesse, em Deus, certa subsistência propriamente sua. Portanto, esta passagem serve para refutar o erro de Sabélio, pois ela demonstra que o Filho é distinto do Pai. Afirmei anteriormente que mistérios tão profundos demandam pensamento sóbrio. Os escritores da Igreja primitiva, porém, eram justificados quando, em função de não poderem de outra forma defender a verdadeira e pura doutrina contra os ambíguos sofismas dos hereges, eram obrigados a cunhar certos termos que, não obstante, nada mais expressavam senão o que está ensinado nas Escrituras em outros termos. Disseram que há três Hypostasis ou Pessoas na essência una e simples de Deus. A palavra ὑπόστασις (hypostasis) tem esse sentido em Hebreus 1, a qual corresponde à palavra latina Substantia (substância), segundo o uso que dela faz Hilário. Denominaram τὰ 2 “Les Theologiens Sorbonistes.”


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πρόσωπα ou Pessoas, propriedades [proprietates] distintivas em Deus

que se apresentam às nossas mentes. Como diz Gregório Nazianzeno: “Não posso imaginar Uma isoladamente das Três [Pessoas] concomitantemente resplandecendo a meu redor.”3 E a Palavra era Deus. Para que não pairasse dúvida alguma no tocante à divina essência de Cristo, o Evangelista claramente afirma que ele é Deus. Ora, já que Deus é um só, segue-se que Cristo é da mesma essência com o Pai e, não obstante, de alguma forma distinto [do Pai]. Mas já discorremos sobre a segunda sentença. Ário se revelou em extremo perverso ao considerar a unidade de essência. Com o fim de evitar ser forçado a confessar a eterna Deidade de Cristo, ele apregoava que Deus era alguma espécie de Deidade imaginária.4 Mas quando ouvimos que a Palavra era Deus, que direito ainda temos de questionar sua eterna essência? 2. Ela estava no princípio com Deus. Para penetrar mais profundamente em nossas mentes o que já havia dito, o Evangelista condensa as duas sentenças precedentes num breve epílogo: a Palavra sempre foi e sempre esteve com Deus – para que o leitor compreenda que esse princípio existia antes que todo e qualquer tempo viesse à existência. 3. Todas as coisas foram feitas por meio dela. Havendo declarado que a Palavra é Deus e havendo proclamado sua divina essência, ele prossegue provando sua Deidade à luz de suas obras. E é neste conhecimento prático que devemos especialmente ser treinados. Porquanto a mera atribuição do título Deus a Cristo, nos deixaria indiferentes, a menos que nossa fé sentisse que ele é, na verdade, Deus. Mas ele declara corretamente sobre o Filho de Deus o que justamente se harmoniza com a sua pessoa. Às vezes, Paulo, de fato, simplesmente diz que “todas as coisas pertencem a Deus” [Rm 11.36]. Mas, quando o Filho é comparado 3 O leitor encontrará os pontos de vista de nosso autor, acerca da Santíssima Trindade, mui plenamente ilustrados nas Institutas da Religião Cristã, Livro I, Capítulo XIII, e ficará perplexo se admirar atentamente a agudeza ou a sobriedade do juízo por meio do qual toda a discussão é entremeada. 4 “Que c’estoit je ne scay quel Dieu qui avoit esté creé, et eu commencement.” – “Que havia não que Deus que foi criado e que teve começo.”


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com o Pai, geralmente é distinguido por essa característica. Consequentemente, o que se emprega aqui é a maneira ordinária de se expressar – o Pai fez todas as coisas por intermédio do Filho, e todas as coisas existem para Deus através do Filho. Ora, como eu já disse, o plano do Evangelista é mostrar que a Palavra de Deus se manifestou pela atividade externa, imediatamente a partir da criação do mundo. Pois havendo sido anteriormente incompreensível em sua essência, ela foi publicamente conhecida pelo efeito de seu poder. Até mesmo alguns filósofos descreveram a Deus como o arquiteto do mundo, de modo a estabelecê-lo como aquela inteligência que é subjacente à edificação dessa obra. Nisso estão certos, pois concordam com a Escritura; mas, como logo se perdem em meditações pueris, não há razão por que devamos desejar seu testemunho como algo de tanto valor. Ao contrário, devemos ficar satisfeitos com este oráculo celestial, sabendo que ele diz muito mais do que nossas mentes podem conceber. E sem ela nada do que foi feito se fez. Embora este versículo tenha sido interpretado de diversas maneiras, não hesito em interpretá-lo como constituído de uma só ideia – nada do que foi feito se fez. Quase todos os manuscritos gregos (ou, no mínimo, aqueles que desfrutam de maior autoridade) concordam neste ponto. Além do mais, o sentido indubitavelmente o exige. Aqueles que separam a frase se fez da sentença anterior, de modo a conectá-la à sentença seguinte, forçam o sentido, ficando assim: o que se fez era a vida nela [a Palavra], ou, seja: “viveu” ou “foi sustentada com vida”.5 Mas não conseguem provar que essa forma de se expressar é sempre aplicada às criaturas. Agostinho, cujo método é platonista extremado, devotou-se à 5 A diferença de redações está totalmente na pontuação, e a disputa é se as palavras ὃ γέγονεν formarão a conclusão do terceiro ou o começo do quarto versículo. Calvino expressa sua concorrência com a maioria dos manuscritos, os quais conectam as palavras em questão com o terceiro versículo, assim: Καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἓν ὃ γέγονεν, e sem ele não se fez coisa alguma (ou, mais literalmente, bem como mais enfaticamente), e sem ele nenhuma coisa foi feita – a qual foi feita. Outros manuscritos, certamente de bem pouca autoridade, as conectam com o quarto versículo: Καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἓν Ο γέγονεν ἐν αὐτῷ ζωὴ ᾖν. E sem ele nenhuma coisa foi feita. O que foi feito teve nele a vida. A preferência de nosso autor repousa em bases que dificilmente podem ser questionadas.


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conceituação desta ideia: antes de Deus haver construído o mundo, ele delineara em sua mente a forma de toda a obra; e já que a criação do mundo fora ordenada em Cristo, a vida dessas coisas ainda não existia nele. Veremos mais adiante quão longe tal ideia estava do pensamento do Evangelista. Agora, volto à primeira sentença. Não há nenhuma redundância defeituosa (περιττολογία) como parece haver. Pois visto que Satanás aplica toda sua energia para tirar qualquer coisa de Cristo, o Evangelista propôs declarar expressamente que nada, absolutamente, se deve excetuar daquelas coisas que foram criadas. 4. Nela estava a vida. Até aqui, ele nos ensinou que todas as coisas foram criadas pela Palavra de Deus. Agora, da mesma forma, atribui-lhe a preservação do que fora criado, como se pretendesse dizer que, na criação do mundo, seu poder não apareceu meramente de súbito para, em seguida, desaparecer, mas que o mesmo se faz visível na preservação da ordem fixa e estável da natureza – exatamente como em Hebreus 1.3 está expresso que Deus sustenta todas as coisas pela Palavra ou comando de seu poder. Além do mais, essa vida pode ser ou uma referência mais extensa às criaturas inanimadas, as quais têm sua vida própria, ainda que lhes falte emoção, ou uma referência exclusivamente à vida animada. Pouco importa a escolha que o leitor faça, pois a ideia simplesmente consiste em que a Palavra de Deus não foi apenas a fonte de vida para todas as criaturas, tanto que as que ainda não existiam vieram à existência, mas que seu poder gerador de vida as fez permanecer em seu estado. Pois se sua inspiração não houvera mantido vivo o mundo, o que quer que florescesse, sem dúvida alguma, murcharia imediatamente ou se reduziria a nada. Em suma, o que Paulo atribui a Deus, que nele temos nosso ser, nos movemos e vivemos [At 17.28], João declara ser efetuado pela agência graciosa da Palavra. É Deus, pois, quem nos outorga a vida; mas ele o faz pela instrumentalidade da Palavra eterna. A vida era a luz dos homens. Deliberadamente, desconsidero qualquer outra interpretação que não esteja em harmonia com a intenção do Evangelista. Creio ser esta uma referência àquela parte da vida


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na qual os homens excedem às demais criaturas animadas. É como se ele quisesse dizer que a vida outorgada aos homens não era a vida em geral, mas a vida associada à luz da razão. Além do mais, ele separa os homens dos demais seres, visto que somos cônscios do poder de Deus através do sentimento existente em nós mais do que através da visão ótica dele à distância. Daí, em Atos 17.27, Paulo nos dizer para não buscarmos a Deus como se ele estivesse longe, já que ele se revela em nosso mundo interior. E assim, quando o Evangelista pôs em evidência uma consideração geral da graça de Cristo, procurando persuadir os homens a prestarem maior atenção, ele põe diante deles o que lhes fora outorgado de forma específica – a saber, que não foram criados à semelhança dos seres brutos, senão que, ao serem dotados de razão, foram postos numa categoria muito mais sublime. Além do mais, visto que Deus eficazmente ilumina suas mentes com sua própria luz, segue-se que foram criados para que pudessem saber que Deus é o Autor de uma benção tão singular. E, visto que essa luz nos flui da Palavra, como sua fonte, ela nos é como um espelho no qual podemos ver claramente o divino poder da Palavra. 5. E a luz resplandece nas trevas. Pode-se suscitar uma objeção, dizendo que os homens são, em muitas passagens da Escritura, chamados de cegos, e que tal cegueira, à qual se acham condenados, é sobejamente notória, porquanto fracassam miseravelmente em todo seu raciocínio. Pois, donde procedem os infindáveis labirintos de erros no mundo, senão do fato de os homens serem guiados tão somente por seu próprio entendimento às ilusões e falsidades? Não obstante, se porventura nenhuma luz é visível aos homens, conclui-se que este testemunho do Evangelista acerca da divindade de Cristo fica destruído. Porque, como já disse, o terceiro passo consiste em que, na vida humana, há algo muito mais excelente do que mero movimento e respiração. O Evangelista antecipa este problema prontamente nos advertindo que a luz outorgada aos homens no princípio não pode ser avaliada em seu presente estado, visto que, nesta natureza arruinada e degenerada, a luz se


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converteu em trevas. E, no entanto, ele nega que a luz da razão esteja completamente extinta, porquanto na densa escuridão da mente humana brilham ainda algumas centelhas desse esplendor. Agora, o leitor poderá perceber a existência de duas ideias nessa frase. O Evangelista diz que os homens são agora muito diferentes daquela natureza íntegra com a qual foram dotados no princípio. Suas mentes, que teriam sido radiantes em todos os aspectos, se acham mergulhadas nas sombras de desditosa cegueira. E assim, nessa corrupção da natureza, a glória de Cristo está como que sombreada. Em contrapartida, porém, o Evangelista afirma que em meio às trevas ficaram ainda certos traços que de algum modo revelam o divino poder de Cristo. O Evangelista mostra, pois, que a mente humana está completamente cega, de tal modo que ela pode ser francamente considerada como que submersa em trevas. Pois ele poderia ter usado um meio termo e dizer que a luz era miserável ou sombria, mas não: ele quis expressar muito mais claramente quão depravada é nossa condição desde a queda do primeiro homem. Sua afirmação de que a luz brilha nas trevas não pretendia absolutamente exaltar a natureza corrupta. Ao contrário, pretendia despir a ignorância de toda e qualquer justificativa. E as trevas não a circunscreveram. Ainda que o Filho de Deus tenha sempre convocado os homens a si, pela instrumentalidade dessa pobre luz que ainda restou em nós, o Evangelista assevera que ela era ineficaz, porquanto, “vendo, não veem”. Porque, depois que o homem foi alienado de Deus, tal foi a ignorância que se apoderou de sua mente, que toda e qualquer luz que porventura nela restou é extinta e inútil. A experiência também comprova tal fato diariamente. Pois mesmo aqueles que não foram ainda regenerados pelo Espírito de Deus exercem certa razão, de modo que somos claramente instruídos de que o homem foi criado não só para respirar, mas que possui também entendimento. Não obstante, guiados por sua razão, o homem não alcança ou não consegue ter acesso a Deus e, assim, toda sua inteligência não prima direção alguma senão rumo à vaida-


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de, donde se deduz que não há qualquer esperança para a salvação dos homens, a menos que Deus lhe proveja um novo recurso. Pois ainda que o Filho de Deus derrame sua luz sobre eles, encontram-se tão entorpecidos que sua obtusidade não lhes permite compreender a fonte dessa luz; obcecados por fascinantes e perversas fantasias, acabam na demência. Há duas partes primordiais nessa luz que ainda permanece na natureza corrompida. Alguma semente de religião está plantada em todos; existe também aquela distinção entre o bem e o mal que está esculpida em suas consciências. Afinal, qual é o usufruto disso, senão que a religião produz mil e uma superstições monstruosas, e a consciência corrompe todo o juízo, confundindo vício com virtude? Em suma, a razão natural jamais guiará os homens a Cristo. O fato de serem eles dotados de sabedoria para dirigir suas vidas e de se formarem em filosofia e ciências se reduz e resulta em nada. Além do mais, devemos ter em mente que o Evangelista está falando unicamente dos dons naturais, e não está tratando ainda da graça da regeneração. Porque há no Filho de Deus dois poderes distintos. O primeiro se manifesta na arquitetura do mundo e na ordem da natureza. No uso do segundo, ele renova e restaura a natureza caída. Ele é a eterna Palavra de Deus; e, por conseguinte, por meio dele, o mundo foi criado. Pela ação de seu poder, todas as coisas conservam a vida que uma vez receberam; de uma forma toda especial, o homem foi adornado com o dom singular do entendimento. E, conquanto, com sua queda, tenha perdido a luz do entendimento, ele ainda vê e entende, já que o que ele naturalmente possui da graça do Filho de Deus não lhe foi totalmente destruído. Visto, porém, que, mediante seu embotamento e perversidade, ele empana a luz que ainda lhe resta, cumpre ao Filho de Deus assumir uma nova função, a saber, a de Mediador, e assim renova o homem perdido através do Espírito de regeneração. Portanto, põe o carro adiante dos bois quem interpreta a luz que o Evangelista menciona como sendo o evangelho e a proclamação da salvação.


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[1.6-13] Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João. Este veio para dar testemunho,6 a fim de testificar da luz, para que todos cressem através dele. Ele não era essa luz, mas veio para testificar a respeito da luz. A verdadeira luz era aquela que ilumina todo homem que entra no mundo. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu. Ele veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a quantos o receberam, a esses lhes deu o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, os que creem em seu nome; os quais nasceram não do sangue,7 nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

6. Houve um homem. O Evangelista começa, então, a examinar a forma pela qual a Palavra de Deus se manifestou em carne. E para que ninguém nutrisse dúvida de que Cristo é o eterno Filho de Deus, ele declara que Cristo foi publicamente proclamado por um arauto – João Batista. Pois Cristo não se contentou em simplesmente manifestar-se aos homens, mas quis também fazer-se conhecido mediante o testemunho e pregação de João. Melhor ainda, Deus o Pai enviou essa testemunha adiante de seu Cristo para que todos prontamente recebessem a salvação por ele oferecida. À primeira vista, porém, parece absurdo que outro testificasse de Cristo, como se ele necessitasse de tal expediente, uma vez que ele declara não buscar o testemunho dos homens. A resposta é simples e óbvia. Esse testemunho foi ordenado não por causa de Cristo, mas por nossa causa. Se, porventura, alguém objetar dizendo que o testemunho humano é demasiadamente frágil para comprovar que Cristo é o Filho de Deus, a solução é também fácil: João Batista não é citado como uma testemunha particular, mas como alguém que, tendo recebido a autoridade divina, veio a público mais no papel de um anjo 6 “Pour (porter) tesmoignage.” – “para dar testemunho.” 7 “Nais de sangs, ou, de sang.” – nascido dos sangues, ou, do sangue.”


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do que de um homem. Portanto, ele não é exaltado por suas próprias habilidades, mas justamente por ser o embaixador de Deus. Tampouco se contradiz o testemunho pessoal de Cristo na pregação do evangelho a ele confiada, pois a razão de ser [raison d’être] João um arauto tinha por finalidade atrair a atenção dos ouvintes para o ensino e milagres de Cristo. Enviado por Deus. Ele não menciona a vocação de João, mas simplesmente a menciona de relance. Para as pessoas que se promovem e se gabam de que são enviadas por Deus, essa garantia não é suficiente. O Evangelista, porém, tencionando dizer mais adiante sobre esse testemunho, pensou que uma só palavra seria por ora suficiente – ele recebera de Deus sua comissão. Veremos mais adiante como João declara contundentemente que Deus é o autor de seu ministério. O que temos de compreender agora é (como já mencionei) o seguinte: o que se diz de João Batista aqui é exigido de todos os mestres da Igreja: devem clamar a Deus, a fim de que a autoridade de ensinar não tenha nenhuma outra base senão unicamente Deus. Cujo nome era João. Ele expressa o nome, não só para identificar o homem, mas porque o significado do nome estava associado à sua pessoa. Pois é indubitável que o Senhor estava se referindo ao ofício para o qual fora ele destinado, quando, através de seu anjo, o Senhor ordenou que ele fosse chamado João, a fim que, desse fato, todos reconhecessem que ele era o arauto da graça divina.8 Pois ainda que 9 [Jehohannan] possa ser tomado como passivo, e, portanto, se referia a ele pessoalmente, ou, seja, que João faria a vontade de Deus, não obstante, sem qualquer hesitação, aplico-o aos frutos que dele seriam colhidos.10 7. Ele veio para dar testemunho. Ele relanceia de forma breve o propósito da vocação de João –preparar a Igreja para a chegada de Cristo. Pois, ao convidar todos a virem a Cristo, ele mostra com muita 8 “Herant et ambassade de la grace de Dieu.” – “Arauto e embaixador da graça de Deus.” 9 “Le nom de Jean, qui signifie Grace.” – “O nome João, que significa Graça.” 10 Para o significado do nome João, derivado do hebraico Jehohannan, o leitor pode consultar de nosso autor, Comentário sobre a Harmonia dos Três Evangelhos, Vol. 1, p. 15.


Capítulo 1 •   41

clareza que não viera por sua própria causa. Portanto, João Batista carecia muito pouco da enfática recomendação do Evangelista, dizendo que ele não era a luz, no caso de um imoderado esplendor a ele atribuído viesse a ofuscar a glória de Cristo. 8. Ele não era a luz. João estava tão longe de depender de recomendação, que o Evangelista formula esta advertência para que seu excessivo fulgor não obscurecesse a glória de Cristo. Pois alguns se apegaram a ele de uma forma tão extremada, que chegaram ao ponto de negligenciar a Cristo. Justamente como a pessoa que, fascinada pela luz da aurora, não se digna de olhar para o sol. Agora, podemos examinar que sentido o Evangelista atribui à palavra luz. Todos os santos são “luz no Senhor” [Ef 5.8] no sentido em que, iluminados pelo Espírito Santo, não só são vistos, mas também, por meio de seu exemplo, dirigem outros no caminho da salvação. Os apóstolos são chamados luz [Mt 5.14] porque são os castiçais especiais do evangelho, dispersando as trevas do mundo. Mas aqui o Evangelista está discutindo a única e eterna fonte de iluminação, como demonstra imediatamente a seguir de maneira sobejamente clara. 9. A verdadeira luz. O intuito do Evangelista não era contrastar a verdadeira luz com a falsa; ele queria distinguir Cristo de todas as demais pessoas, para que alguém não chegasse à conclusão de que a luz que ele possuía era a luz comum que possuem os anjos e os homens. A diferença consiste em que a luz celestial e a terrena procedem de um único esplendor. Cristo, porém, é a luz, irradiando-a de si mesmo e através de si mesmo, e com isso lançando seus fulgurantes raios sobre o mundo inteiro. A fonte ou causa de seu esplendor não se encontra em qualquer outro lugar. É por isso que o Evangelista o chama a verdadeira luz, uma vez que sua natureza é intrinsecamente a plena luz. A qual ilumina a todo homem. O Evangelista põe esse fator em relevo a fim de aprendermos que Cristo é a luz a partir do efeito que cada um de nós sente em si próprio. Ele poderia ter adicionado mais sutileza em seu argumento, dizendo: uma vez que Cristo é a luz eterna, ele possui um esplendor inerente, não derivado. Mas, em vez disso,


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ele põe diante de nós aquela experiência que é comum a todos. Pois já que Cristo faz a todos nós participantes de seu esplendor, é preciso reconhecer que se deve atribuir exclusivamente a ele a dignidade de ser chamado luz. Quanto ao mais, este versículo é comumente explicado de duas formas. Alguns limitam o termo universal, todo homem, aos que, regenerados pelo Espírito de Deus, se tornam participantes da luz vivificante. Agostinho lança mão do símile de um professor, dizendo: Se sua escola é a única na cidade, será chamado o professor de todos, mesmo que muitos não frequentem sua escola. Portanto, essa ala considera esta frase em termos relativos: todos são iluminados por Cristo, visto que ninguém pode gabar-se de ter obtido a luz da vida de outra forma, senão mediante sua graça. Mas, como o Evangelista menciona em termos gerais: “ilumina a todo homem que vem ao mundo”, prefiro o outro significado, a saber: que os raios dessa luz são projetados sobre toda a raça humana, como eu disse supra. Pois sabemos que os homens tem esta única qualidade acima de todos os animais, a saber: são dotados de razão e inteligência e levam a distinção entre o certo e o errado esculpida em suas consciências. Portanto, não há homem em quem não penetre alguma noção da luz eterna. Visto, porém, que os fanáticos avidamente se apoderam deste versículo e o torcem, fazendo-o afirmar que a graça da iluminação é oferecida a todos sem distinção, tenhamos em nossa memória que ele está simplesmente se referindo à luz comum da natureza, algo muito mais inferior que a fé. Pois ninguém jamais ultrapassará os umbrais do reino de Deus pela habilidade e perspicuidade de sua própria mente; o Espírito de Deus é o único que abre os portões celestiais para seus eleitos. Além do mais, devemos lembrar que aquela luz da razão que Deus comunicou aos homens se tornou tão entenebrecida pelo pecado que, em meio às densas trevas, obscena ignorância e abismos de erros, ainda há algumas poucas centelhas que não foram completamente extintas. 10. Ele estava no mundo. O Evangelista acusa os homens de ingratidão, com base no fato de que eram, por assim dizer, volunta-


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riamente cegos; tão profundamente cegos que não sabiam qual era a causa da luz de que desfrutavam. E essa é a terrível realidade de todos os tempos. Cristo revelou seu poder por toda parte, mesmo antes de manifestar-se em carne. Portanto, esses efeitos diários devem corrigir a morosidade humana, pois o que poderia ser mais irracional do que tirar água de um ribeiro sem nunca ponderar sobre o manancial donde ela emana? Consequentemente, o mundo não tem como alegar ignorância como legítima justificativa de não conhecer a Cristo antes que ele se manifestasse em carne. Pois tal ignorância é oriunda da frouxidão e de um gênero de embotamento naqueles que sempre o tiveram ao alcance de suas faculdades. Eis a suma de tudo isso: Cristo nunca esteve tão ausente do mundo que os homens não pudessem ser despertados por seus raios e poder olhar para ele. À luz desse fato, deduz-se que eles são culpados. 11. Ele veio para os seus. Aqui o Evangelista comprova amplamente a deplorável perversidade e depravação do homem, sua impiedade mais que maldita, a saber: quando o Filho de Deus se revelou visivelmente em carne (e isso aos judeus, a quem Deus havia separado para si dentre as nações para que o mesmo fosse sua propriedade peculiar), ele não foi reconhecido nem recebido. Este versículo é também explicado de diferentes formas. Há quem pense que o Evangelista está falando de todo o mundo em geral, pois não há sequer uma partícula do mundo que o Filho de Deus não possa com justiça reivindicar como lhe pertencendo. Portanto, segundo esse ponto de vista, este deve ser o significado: quando Cristo veio à terra, ele não entrou num país estrangeiro, porquanto toda a raça humana lhe pertencia por herança. Quanto a mim, porém, aprovo mais a opinião dos que afirmam que a referência aqui é exclusivamente aos judeus. O Evangelista salienta a ingratidão humana com uma comparação implícita. O Filho de Deus havia escolhido uma habitação para si numa nação específica. Ao fazer-se presente ali, foi rejeitado. E isso revela claramente quão viciosa é a cegueira humana. Ao fazer essa afirmação, o único objetivo do Evangelista era simplesmente remover a ofensa que a incredulida-


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de dos judeus poderia colocar no caminho de muitas pessoas. Pois quem o reconheceria como Redentor do mundo quando era desprezado e rejeitado pela mesma nação à qual havia sido especificamente prometido? Eis a razão por que vemos Paulo se digladiando tão ardorosamente com esse mesmo problema. Além do mais, a ênfase é posta tanto no verbo quanto no pronome: ele veio. O Evangelista diz que o Filho de Deus veio para aquele lugar onde estivera anteriormente. Ele, pois, tem em mente um novo e extraordinário modo de presença por meio do qual o Filho de Deus se manifestou para que os homens o vissem bem de perto. Ao dizer, para os seus, o Evangelista está comparando os judeus com outras nações; pois foi mediante um privilégio singular que haviam sido eleitos para comporem a família de Deus. Cristo, pois, primeiro ofereceu-se a eles como se fossem sua própria família e pertencessem ao seu reino por direito legítimo. A censura de Deus em Isaías 1.3 é do mesmo teor: “O boi conhece seu possuidor, e o jumento, a manjedoura de seu dono; mas Israel não tem conhecimento, meu povo não entende.” Pois ainda que exerça domínio sobre toda a terra, seu senhorio é exercido especificamente sobre Israel, a quem ele reuniu, por assim dizer, num rebanho santo. 12. Mas a todos quantos o receberam. No caso de alguém ser influenciado pelo escândalo posto pelos judeus, desprezando e rejeitando a Cristo, o Evangelista eleva até o céu a pessoa que piedosamente crê em Cristo. Ele diz que o resultado de sua fé é a glória de serem reconhecidos como filhos de Deus. O termo universal, “tantos quantos”, sugere uma antítese, ou seja: os judeus foram dominados por uma cega jactância,11 como se Deus fosse somente deles. E, assim, o Evangelista declara que sua sorte se reverteu, pois os gentios preencheram a vaga deixada vacante pelos judeus deserdados. É precisamente como se ele houvesse transferido os direitos de adoção para pessoas estranhas. Isso confere com o dito de Paulo: a queda de 11 “D’une vanterie aveuglee; c’est à dire, n’entendans pas ce qu’ils disoyent.” – “por uma cega arrogância; isto é, deixando de entender o que diziam.”


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uma nação significou vida para o mundo inteiro [Rm 11.12]. Pois ao ser o evangelho, por assim dizer, expulso deles, o mesmo começava a ser difundido por toda a vastidão do mundo. E, assim, eles se viram despojados da gloriosa graça divina. Sua impiedade, porém, não trouxe a Cristo nenhum dano, porquanto ele assentou as bases do trono de seu reino por toda parte e, sem qualquer discriminação, chamou à esperança da salvação todas as pessoas que anteriormente pareciam rejeitadas por Deus. Deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus. Aqui, tomo o termo ἐξουσία no sentido de um direito ou reivindicação, e seria melhor traduzi-lo assim, para que se refute a ficção papista. Sua ímpia deturpação deste versículo consiste em que nos foi dada a liberdade de escolha, privilégio este do qual somos capazes de nos valer. Encontrar livre-arbítrio nessas palavras, como fazem, é o mesmo que extrair fogo da água. À primeira vista, há certa justificativa para tal adulteração, pois o Evangelista não diz que Cristo os transforma em filhos de Deus, e sim lhes dá o poder de serem feitos filhos de Deus. Então deduzem que esta graça nos é meramente oferecida, e a capacidade para se fazer uso dela ou para rejeitá-la está em nós mesmos. O contexto, porém, pulveriza esse desprezível sofisma com uma só palavra, pois o Evangelista prossegue dizendo que são feitos filhos de Deus, não pela vontade da carne, mas por nascerem de Deus. Pois se a fé nos é dada para sermos regenerados e adotados como filhos de Deus, e se Deus sopra em nós a fé celestial, a graça da adoção que nos é oferecida por Cristo é obviamente não só em potencial, mas real, como eles dizem. Aliás, em grego ἐξουσία é tomada ocasionalmente por ἀξίωσις, ou ter direito, significado que se enquadra melhor nesta passagem. A perífrase da qual o Evangelista faz uso tende mais a enaltecer a excelência da graça do que se ele houvera dito numa só palavra que todos os crentes em Cristo são feitos por ele filhos de Deus. Pois aqui, ele está falando dos impuros e profanos que, condenados à desgraça perpétua, são arrancados das trevas da morte. Dessa maneira, Cristo revelou um extraordinário exemplo de sua graça, ao conferir essa hon-


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ra a tais pessoas, de modo tal que de repente começaram a ser filhos de Deus. O Evangelista, com razão, enaltece a grandeza dessa benção. De forma semelhante, faz Paulo em Efésios 2.4. Mas, ainda que alguém prefira o sentido comum do termo, contudo, como o Evangelista o usa aqui, poder não é usado como alguma sorte de faculdade incompleta que não inclui o efeito pleno e completo. Ao contrário, significa que Cristo deu aos impuros e incircuncisos o que parecia ser impossível. Porque essa era uma mudança humanamente impossível, a saber: que Cristo, das pedras, gerasse filhos de Deus. Portanto, o poder é aquela idoneidade (ἱκανότης) de que Paulo fala em Colossenses 1.12, quando rende graças a Deus “que vos fez idôneos para participardes da herança dos santos na luz”. Que creem em seu nome. Ele indica resumidamente como Cristo deve ser recebido – a saber: através da fé nele. Implantados em Cristo mediante a fé, granjeamos o direito de adoção como filhos de Deus. E visto que ele é o unigênito Filho de Deus, esta honra de forma alguma nos pertence, exceto como membros de seu corpo. Uma vez mais, isso refuta a ficção acerca do ‘poder’. O Evangelista declara que esse poder é outorgado aos que já creem, e é indubitável que eles já são realmente filhos de Deus. Os que dizem que ao que crê só é concedido que se torne filho de Deus caso ele o queira, estão subestimando terrivelmente a fé. Substituem um resultado presente por uma capacidade indecisa. A contradição se sobressai, mesmo ao mais obtuso, à luz das próximas palavras. O Evangelista diz que aqueles que creem já nasceram de Deus. Não significa, pois, que lhes é oferecida apenas a faculdade de escolher, porquanto são premiados com a própria coisa oferecida. Embora em hebraico nome (), às vezes, seja usado em lugar de poder, aqui ele é usado em referência à pregação do evangelho. Pois cremos em Cristo quando ele nos é oferecido na pregação. Estou falando da forma usual pela qual o Senhor nos guia à fé. E é preciso observar isso com muita prudência, posto que muitos estultamente inventam para si uma fé confusa e sem qualquer discernimento do evangelho. Nenhum termo é mais trivial entre os papistas do que crer, porém é expresso


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sem aquele conhecimento de Cristo oriundo do ouvir o evangelho. Assim, Cristo se nos oferece através do evangelho, e nós o recebemos mediante a fé. 13. Os quais não nasceram do sangue.12 Endosso de bom grado a opinião dos que pensam que essa é uma referência indireta à presunção perversa dos judeus. A preeminência de sua linhagem estava sempre a bailar em seus lábios, como se fossem inerentemente santos só porque haviam nascido de uma descendência santa. Poderiam com toda razão orgulhar-se de que haviam descendido de Abraão, caso fossem filhos legítimos, e não filhos degenerados. Mas a glória da fé não reivindica absolutamente nada para a geração carnal, senão que declara que ela recebeu tudo o que é bom unicamente da graça divina. João, portanto, está afirmando que aqueles gentios imundos que creem em Cristo não são filhos de Deus por procederem do ventre, mas que começam a ser filhos de Deus quando são recriados por ele. Tudo indica que sangue foi expresso no plural – sangues – com o fim de realçar a ideia de uma longa sucessão de linhagem. Pois uma parte da vanglória dos judeus consistia no fato de poderem eles traçar sua descendência através de uma linhagem ininterrupta até chegar aos patriarcas. Nem da vontade da carne, nem da vontade do homem. Em minha opinião, ambas as frases tem o mesmo sentido. Porquanto não vejo por que carne deva ser considerada equivalente a mulher (como muitos supõem, entre os quais Agostinho). O Evangelista está simplesmente reiterando a mesma ideia com palavras diferentes, com o fim de imprimi-la e fixá-la mais indelevelmente em nossas mentes. E mesmo que ele estivesse pensando especificamente nos judeus, que se gloriavam na carne, pode-se depreender uma doutrina geral deste versículo, a saber: que somos reconhecidos como filhos de Deus, não por conta de nossa própria natureza, nem por nossa própria iniciativa, mas porque o Senhor nos gerou voluntariamente [Tg 1.18], ou seja, com base 12 Aqui nosso autor, ou de propósito ou inadvertidamente, adotou a frase do sangue, em vez do que ele seguiu em sua versão do texto de sangues – a tradução literal, ainda que não idiomática, de ἐξ αἱμάτων, que por si só é de rara ocorrência, porém não destituída de autoridade clássica.


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em seu amor imerecido. Daqui se deduz, primeiramente, que a fé não provém de nossa própria ação, senão que é fruto de regeneração espiritual. Pois o Evangelista afirma que ninguém pode crer, a não ser que seja gerado por Deus. Daqui se depreende que a fé é um dom celestial. Além do mais, a fé não é um mero e frio conhecimento, porquanto ninguém pode crer se porventura não for renovado pelo Espírito de Deus. É como se o Evangelista estivesse mudando a ordem das coisas, colocando a regeneração depois da fé, como se ela fosse o resultado da fé e, portanto, a seguisse. Minha resposta é que as duas ordens estão em perfeita harmonia: pela fé concebemos a semente incorruptível pela qual nascemos de novo para uma vida nova e de caráter divino; além disso, a fé propriamente dita é obra do Espírito Santo que não habita em nenhum outro além dos filhos de Deus. Portanto, em muitos aspectos a fé é uma parte de nossa regeneração, um ingresso no reino de Deus, para que ele pudesse incluir-nos no número de seus filhos. A iluminação de nossas mentes, efetuada pelo Espírito Santo, pertence à nossa renovação. Dessa forma, a fé flui da regeneração como sua fonte. Visto, porém, que, mediante essa mesma fé, recebemos a Cristo que nos santifica através de seu Espírito, ela é chamada o começo de nossa adoção. Naturalmente, pode-se tentar outra distinção que seja mais clara e mais completa. Quando o Senhor nos sopra a fé, ele nos regenera de uma forma íntima e secreta, a qual nos é desconhecida. Uma vez, porém, que a fé nos tenha sido outorgada, percebemos, por meio de um vivo senso da consciência, não só a graça da adoção, mas também a novidade de vida e outros dons do Espírito Santo. Pois já que, como já dissemos, a fé recebe a Cristo, em certo sentido ela nos leva a tomar posse de todas as suas bênçãos. E assim, no que tange à nossa atitude, só começamos a ser filhos de Deus depois de crermos. Porque, visto que a herança da vida eterna é o resultado da adoção, percebemos que o Evangelista atribui toda nossa salvação exclusivamente à graça de Cristo. E de fato, por mais que os homens se examinem, não encontrarão nada digno da condição de filhos de Deus além do que Cristo mesmo lhes outorgou.


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[1.14] E a Palavra se fez carne e habitou entre nós, cheia de graça e de verdade, e vimos sua glória, glória como do unigênito do Pai.

14. E a Palavra se fez carne. Ele agora ensina a natureza da vinda de Cristo de que havia falado, a saber: que, vestido de nossa carne, ele se manifestou publicamente ao mundo. Embora o Evangelista toque apenas de leve no inefável mistério de o Filho de Deus assumir a natureza humana, tal brevidade é maravilhosamente clara. Aqui, alguns dementes se divertem de forma pueril, fazendo uso de alguns sofismas desprezíveis, tais como: diz-se que a Palavra se fez carne no sentido em que Deus enviou seu Filho ao mundo para tornar-se homem como um conceito mental – como se a Palavra fosse alguma espécie de ideia fantasmagórica. Mas já demonstramos que isso expressa uma genuína hypostasis ou existência pessoal na essência de Deus. O termo carne expressa a ideia com mais eficácia do que se o Evangelista houvesse dito que ele se fez homem. Ele queria mostrar a que estado vil e abjeto o Filho de Deus desceu, deixando a amplidão de sua glória celestial por nossa causa. Quando a Escritura fala do homem em seu caráter deprimente, ela o chama ‘carne’. Quão imensurável é a distância entre a glória espiritual da Palavra de Deus e a abominável vileza de nossa carne! Não obstante, o Filho de Deus se humilhou de forma tão extrema que tomou para si essa carne permeada de profunda miséria. Carne aqui não é usada para a natureza depravada (como em Paulo), mas para o homem mortal. Denota desdenhosamente sua natureza frágil e transitória: “toda carne é erva” [Is 40.6] e textos semelhantes [Sl 78.39]. Ao mesmo tempo, porém, é preciso observar que aqui temos uma sinédoque retórica – a vileza abrange o homem por inteiro.13 Portanto, Apolinário procedeu nesciamente ao imaginar que Cristo se vestiu com um corpo humano destituído de alma. Pois não é difícil deduzir, à 13 “Car sous la chair et la partie inferieure tout l’homme est comprins.” – “pois sob a carne e a parte inferior está incluído o homem como um todo.”


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luz de inumeráveis afirmações, que ele foi igualmente dotado com um corpo e uma alma. E as Escrituras, ao qualificar os homens de carne, nem por isso os apresentam destituídos de alma. O sentido pleno, portanto, é que a Palavra, gerada de Deus antes de todas as eras e habitando eternamente com o Pai, se fez homem. Temos aqui dois importantes artigos de fé. Primeiro: em Cristo as duas naturezas foram unidas numa só pessoa, de tal forma que um e o mesmo Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Segundo: a unidade de sua pessoa não impede suas naturezas de permanecerem distintas, de tal modo que a divindade retém o que lhe é inerente, e a humanidade, de igual modo, mantém separadamente o que lhe pertence. E assim, quando Satanás usa os hereges para subverterem a sã teologia por meio desta ou daquela sandice, ele sempre introduz um ou outro destes dois erros: ou que Cristo foi o Filho de Deus e do homem de forma confusa, de modo que nem sua divindade permaneceu intacta nem foi ele circundado pela verdadeira natureza humana, ou que ele foi revestido de carne ao ponto de tornar-se um ser duplo, convertendo-se em duas pessoas distintas. Dessa forma, os nestorianos reconheciam expressamente cada natureza, porém imaginavam um Cristo que era Deus e outro que era homem. Êutico, por outro lado, reconhecia que um só Cristo é o Filho de Deus e do homem, porém o destituiu de ambas as naturezas, crendo que foram fundidas. Hoje, Serveto e os anabatistas inventaram um Cristo que é a confusa combinação das duas naturezas, como se ele fosse um homem divino. Certamente que ele declara verbalmente que Cristo é Deus, mas quando se lhe permite expressar suas insanas imaginações, descobre-se que a divindade foi temporariamente mudada em natureza humana, e agora a natureza humana foi uma vez mais absorvida na Deidade. As palavras do Evangelista foram expressas de forma a refutar ambas essas blasfêmias. Ao dizer que a Palavra se fez carne, podemos deduzir claramente a unidade de sua pessoa. Pois não faz sentido dizer que o que agora é homem seja outro diferente do que sempre foi Deus, uma vez que se diz que foi Deus quem se fez carne. Além disso,


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visto que ele atribui distintamente ao homem Cristo o título a Palavra, segue-se que, quando se fez homem, Cristo não cessou de ser o que sempre fora antes, e que nada foi mudado naquela eterna essência do Deus que assumiu a carne. Em suma, o Filho de Deus começou a ser homem de tal forma que ele é ainda aquela eterna Palavra que jamais teve princípio temporal. E habitou entre nós. Os que afirmam que a carne foi como que um lar para Cristo não conseguiram penetrar o pensamento do Evangelista. Ele não atribui a Cristo residência permanente entre nós, mas simplesmente diz que ele exerceu por algum tempo o papel de hóspede. Pois o termo que ele usa, ἐσκήνωσεν, é derivado de tabernáculo.14 Com isso, ele quer dizer simplesmente que Cristo desempenhou na terra seu ofício; em outros termos, ele não só surgiu por um instante, mas que viveu entre os homens enquanto cumpria a trajetória de seu ofício. É incerto se a frase “entre nós” se refere aos homens em geral ou a João e aos demais discípulos que foram testemunhas oculares dos eventos que ele narra. Prefiro a última interpretação, pois o Evangelista adiciona imediatamente: E vimos sua glória. Pois ainda que a glória de Cristo pudesse ser vista por todos, ela seria ignorada pela maioria por causa de sua cegueira; apenas uns poucos, cujos olhos o Espírito Santo abrira, viram essa manifestação da glória. A essência dela consiste em que Cristo foi reconhecido como um homem que exibia em si algo muito maior e mais sublime. Portanto, segue-se que a majestade de Deus não foi aniquilada, ainda que estivesse circunscrita pela carne. Ela ficou, de fato, oculta pela vil condição da carne, mas de modo a não impedir a manifestação de sua glória. Como do unigênito do Pai. Neste versículo, a expressão não denota uma comparação imprópria, mas, antes, uma prova genuína e forte. Precisamente como Paulo faz em Efésios 5.8, ao dizer: “Andai como filhos da luz”, querendo que realmente demos testemunho através de 14 “Est deduit d’un mot qui signifie Tabernacles, c’est à dire, tentes et pavillons.” – “derivase de uma palavra que significa tabernáculos, isto é, tendas ou pavilhões.”


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nossas obras do que na realidade somos – filhos da luz. Portanto, a intenção do Evangelista é que em Cristo tinha que ser vista uma glória compatível com o Filho de Deus, testemunhando sua Deidade de uma forma infalível. Assim, ele qualifica a Cristo em razão de ser ele, inerentemente, o Filho unigênito do Pai. É como se o Evangelista tivesse proposto colocá-lo acima dos homens e anjos, e reivindicar para ele, com exclusividade, aquilo que não pertence a nenhuma criatura. Cheio de graça e de verdade. Esta é uma confirmação da última sentença. A majestade de Cristo certamente manifestou-se também em outros aspectos, mas o Evangelista escolheu este exemplo em vez de outros com o fim de nos exercitar no conhecimento prático dele, em vez do conhecimento especulativo – fato este que requer observação mui criteriosa. Quando Cristo caminhou sobre as águas com seus pés enxutos [Mt 14.26; Mc 6.48; Jo 6.19]; quando ele pôs em fuga os demônios e revelou seu poder em outros milagres; então pôde realmente ser reconhecido como o Filho unigênito de Deus. O Evangelista, porém, põe no centro essa parte da prova de que a fé recebe o sazonado fruto de Cristo, declarando que ele é inquestionavelmente a inexaurível fonte da graça e da verdade. De Estevão também se diz que estava “cheio de graça” [At 7.55], contudo em outro sentido. Pois a plenitude da graça15 em Cristo é aquele bem do qual todos nós devemos beber, como sucintamente se dirá mais adiante de uma forma mais plena. Tal coisa pode ser expressa fazendo uso de uma expressão de linguagem, como sendo “a genuína graça”. Ou, segundo outra explicação: “Ele era cheio de graça, ou, seja, de verdade ou perfeição.” Visto, porém, que ele imediatamente repete a mesma forma de expressão, considero o significado como sendo o mesmo em ambos os passos. Logo a seguir, ele contrasta esta graça e verdade com a lei, o que entendo simplesmente no sentido em que Cristo devia ser reconhecido pelos apóstolos como Filho de Deus, já que ele tinha em si a plenitude 15 Este deve ter sido um lapso da memória da parte de nosso autor; pois as frases aplicadas a Estêvão são diferentes, ainda que paralelas. Ele foi chamado um homem cheio de fé e do Espírito Santo [At 6.5], cheio de fé e de poder [At 6.8], e cheio do Espírito Santo [At 7.55].


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de todas as coisas pertencentes ao reino espiritual de Deus. Em suma, em todas as coisas ele realmente demonstrou ser o Redentor e Messias, que é o característico mais importante e pelo qual ele tem de ser distinguido de todos os demais. [1.15-18] João dá testemunho16 acerca dele, e clamou, dizendo: Esse é aquele de quem eu disse: Aquele que vem após mim é preferido a mim, porque tem a preeminência sobre mim.17 E todos nós temos recebido de sua plenitude, e graça sobre graça. Pois a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus; o próprio Filho unigênito, que está no seio do Pai, o tem declarado.

15. João dá testemunho acerca dele. O Evangelista descreve agora a proclamação de João. Ao usar o tempo presente, testifica (μαρτυρεῖ),18 ele denota uma atividade contínua. E essa proclamação deve de fato florescer continuamente, como se a voz de João estivesse soando continuamente nos ouvidos dos homens. Pela mesma razão, ele então usa a palavra clamar para indicar que a pregação de João não era absolutamente obscura nem envolvida por ambiguidades nem sussurrada entre uns poucos.19 Ele proclamou a Cristo publicamente e em voz altissonante. A primeira sentença refere-se ao fato de João ter sido enviado por causa de Cristo, de modo que teria sido algo estranho fosse ele exaltado enquanto Cristo era humilhado. Esse é aquele de quem eu falei. Com essas palavras, ele quis dizer que desde o princípio seu propósito era fazer Cristo conhecido e que esse era o alvo de sua pregação; pois de nenhuma outra forma 16 “Jean rend (ou, a rendu) tesmoignage de luy.” – “João dá (ou deu) testemunho dele.” 17 “Plus excellent que moy, out, premier que moy.” – “mais excelente do que eu, ou, antes de mim.” 18 “En usant du verbe du temps present, à scavoir, Rend tesmoignage, et non pas, Rendoit.” – “fazendo uso do verbo no tempo presente, dá testemunho, e não deu testemunho.” 19 “Qu’il n’a point parlé entre ses dents, et communiqué la chose comme en secret à peu de gens.” – “que ele não falou por entre os dentes, e não comunicou a matéria como se ela fosse secreta, a umas poucas pessoas.”


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poderia ele levar a bom termo sua missão como embaixador senão convocando seus discípulos a vir a Cristo. Aquele que vem após mim. De fato, João era uns meses mais velho que Cristo, porém não é de idade que ele está tratando agora. Como desempenhara o ofício de profeta por algum tempo antes que Cristo aparecesse em público, ele apareceu antes quanto ao tempo. Portanto, Cristo seguiu a João no tocante à sua manifestação pública. O que vem a seguir pode ser assim traduzido: “ele veio antes de mim, porque era meu superior” [primus meus]. O significado, porém, consiste em que Cristo era merecidamente preferível a João por ser ele mais excelente. Ele, portanto, rende-se a Cristo e, como diz o provérbio, põe a tocha em suas mãos. Como Cristo, porém, veio algum tempo depois, João nos adverte que o fato de ser ele preferido não deve constituir obstáculo para a dignidade de sua posição. Portanto, todos quantos excedem, quer nos dons divinos quer em algum grau de honra, devem permanecer em sua própria condição: abaixo de Cristo. 16. E de sua plenitude. João agora se põe a pregar sobre o ofício de Cristo, o qual contém uma abundância tal de todas as bênçãos, que nenhuma parcela de salvação deve ser buscada em algum outro lugar. Aliás, em Deus está a fonte de vida, justiça, poder e sabedoria; essa fonte, porém, se acha oculta e inacessível a nós. Em Cristo, contudo, a riqueza de todas essas coisas se acha exposta diante de nós para que as busquemos nele. Ele espontaneamente está disposto a fazê-las jorrar sobre nós, se apenas lhe dermos espaço pela fé. Ele declara sucintamente que não devemos buscar qualquer benção fora de Cristo. Esta oração, contudo, compõe-se de várias frases. Na primeira, ele mostra que todos nós somos totalmente destituídos e vazios de bênçãos espirituais. Pois Cristo é rico para socorrer-nos em nossa pobreza, suportar nossos fracassos e saciar nossa fome e sede. Na segunda, ele nos adverte que, tão logo nos esquecemos de Cristo, passamos a buscar em vão um ínfimo bocado de bem, visto que aprouve a Deus que todo bem que existe seja encontrado unicamente nele. Portanto, encontraríamos ressequidos anjos e homens, vazios os céus,


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estéril a terra e destituídas de valor todas as coisas, caso queiramos participar dos dons divinos de outra forma que não seja através de Cristo. Na terceira, ele nos lembra que não carecemos de temer que nos falte alguma coisa, uma vez que extraímos tudo da plenitude de Cristo, a qual é, em todos os aspectos, tão perfeita, que descobrimos ser ela uma fonte inexaurível. João se classifica como parte do todo, não movido por modéstia, mas para realçar ainda mais que absolutamente ninguém é excetuado. É incerto se ele está falando de toda a raça humana em geral ou apenas daqueles que, desde que Cristo se manifestou em carne, têm participado mais plenamente de suas bênçãos. É verdade que todos os santos que viveram sob o regime da lei experimentaram dessa mesma plenitude; visto, porém, que João faz uma breve distinção entre as dispensações, é mais provável que ele esteja aqui exaltando aquela abundante riqueza de bênçãos que Cristo revelou quando veio ao mundo. Pois sabemos que, sob o regime da lei, eles tinham uma experiência muito escassa dos benefícios de Deus; e quando Cristo se revelou em carne, as bênçãos foram derramadas, por assim dizer, a mão cheia, à plena saciedade. Não que algum de nós desfrute de uma maior abundância da graça do Espírito do que Abraão, mas refiro-me à dispensação ordinária de Deus e de sua forma e método. Portanto, João Batista, fazendo o máximo para atrair seus discípulos a Cristo, declara que nele é oferecido a todos a abundância das bênçãos de que carecem. Mas não haveria absurdo algum se alguém preferisse forçar um significado adicional – ou, melhor, não é absolutamente contra o curso do argumento. Desde o princípio do mundo, todos os patriarcas extraíram de Cristo todos os dons que tiveram. Pois ainda que a lei fosse dada por intermédio de Moisés, contudo não foi dele que obtiveram a graça. Mas já deixei esclarecido qual é a explicação que adoto, a saber, que João aqui nos compara com os patriarcas para que, com isso, pusesse em evidência aquela proeminência que nos foi outorgada. E graça sobre graça. É bem notória a interpretação que Agostinho faz deste versículo: todas as bênçãos que nos são continuamente outorgadas


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por Deus, e extensivamente a vida eterna, são não um ressarcimento por conta de nosso crédito, como se fossem salários por nós granjeados, mas provêm simplesmente da bondade de Deus que assim nos remunera com sua graça prévia e nos coroa com seus próprios dons. Essa é uma santa e sábia observação, mas que não se adéqua bem ao presente versículo. O significado se torna mais simples quando o leitor toma a preposição ἀντὶ comparativamente, como se João estivesse dizendo que todas as graças divinas sobre nós acumuladas fluem igualmente dessa fonte. Poderia também ser tomada como indicativo de propósito final – recebemos graça agora para que Deus finalmente conclua a obra de nossa salvação, a qual é a consolidação da graça. Mas concordo mais com a opinião dos que dizem que somos regados com aquelas graças que foram derramadas sobre Cristo. Pois o que recebemos de Cristo, ele não no-lo concede como sendo Deus, mas o Pai lhe comunica o que nos deve fluir como que através de um canal. Essa é a unção que foi liberalmente derramada sobre ele para que pudesse ungir a todos nós com ele. É também por essa razão que ele é chamado Cristo (o Ungido) e nós, cristãos. 17. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés. Ele fala em termos de antecipação com o fim de realçar uma objeção que provavelmente surgiria. Pois a figura de Moisés se tornou tão proeminente para os judeus, que dificilmente permitiriam qualquer coisa que diferisse dele. O Evangelista, pois, nos ensina quão humilde era o ministério de Moisés comparado com o domínio de Cristo. Tal comparação também põe nitidamente em relevo o poder de Cristo, pois o Evangelista adverte os judeus, que rendiam a Moisés a mais elevada deferência, que sua contribuição era extremamente escassa em comparação com a graça de Cristo. Pois teria sido uma grande decepção esperar da lei o que é possível obter somente pela mediação de Cristo. Mas é preciso que observemos a antítese no contraste que ele traça da lei com a graça e a verdade; porquanto ele insinua que a lei carecia de ambas.20 Pois, em meu entendimento, a palavra verdade 20 “Que la Loy n’a eu ne l’un ne l’autre.” – “que a lei não possuía nem uma nem a outra.”


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denota a firme e sólida estabilidade das coisas. Pela palavra graça, entendo o cumprimento espiritual daquelas coisas das quais a mera letra estava contida na lei. Ou ambas as palavras podem referir-se à mesma coisa à guisa de hipálage, uma figura de linguagem bem conhecida, como se ele dissesse que a graça, em que consiste a verdade da lei, foi afinal revelada em Cristo. Mas, como o sentido permanece o mesmo, não importa se o leitor as conecte ou as distinga. O certo é que o Evangelista tem em mente que, na lei, havia meramente esboçada a imagem das bênçãos espirituais, mas que, em Cristo, elas são exibidas em toda sua plenitude. Daí se conclui que, se o leitor separar a lei da pessoa de Cristo, nada ficará nela senão formas vazias. Essa é a razão por que Paulo diz em Colossenses 2.17, que na lei há “sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo”. Entretanto, não se deve supor que tudo o que na lei se exibia era falso; porquanto Cristo é a alma que vivifica o que de outra forma estaria morto na lei. Aqui, porém, estamos tratando de uma questão distinta – a validade da lei, em si mesma e à parte de Cristo. E o Evangelista nega que fosse encontrado nela qualquer substância antes que Cristo viesse. Além do mais, a verdade consiste no fato de que através de Cristo obtemos a graça que a lei não poderia dar. Portanto, tomo a palavra graça em termos gerais, como sendo tanto o perdão gratuito dos pecados quanto a renovação do coração. Pois quando o Evangelista, de forma sucinta, indica a diferença entre o Velho e o Novo Testamentos (o que é mais plenamente descrito em Jr 31.31), ele inclui em suas palavras tudo quanto se relacione com a justiça espiritual. Ora, há nisso duas partes: Deus, graciosamente, nos reconcilia consigo mesmo, não nos imputando nossos pecados; e também gravou sua lei em nossos corações e transforma o coração do homem, mediante a operação de seu Espírito, para a obediência à lei. Disto se faz evidente que a apresentação da lei será incorreta ou falsa, caso ela escravize o homem a si ou o embarace de ir a Cristo. 18. Ninguém jamais viu a Deus. Esta adição confirma eficientemente o que acaba de ser exposto. Pois o conhecimento de Deus é a porta pela qual temos acesso ao usufruto de todas as bênçãos. Portan-


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to, visto que Deus se nos revela exclusivamente por meio de Cristo, segue-se que temos de buscar todas as coisas só em Cristo. Esta sequência doutrinal tem de ser detidamente observada. Nada parece mais óbvio do que cada um de nós tomarmos o que Deus nos oferece segundo a medida de nossa fé. Mas apenas uns poucos compreendem que o recipiente da fé e do conhecimento de Deus tem de ser restaurado. Ao dizer que ninguém jamais viu a Deus, tal expressão não deve ser entendida como uma referência à visão externa dos olhos físicos. Ele quer dizer, em termos gerais, que, já que Deus habita em luz inacessível [1Tm 6.16], ele não pode ser conhecido senão em Cristo, que é sua imagem viva. Além do mais, geralmente se expõe este versículo assim: visto que a majestade nua de Deus está oculta em seu Ser interior, ele jamais poderia ser compreendido senão até onde se revela em Cristo. Por isso, foi somente em Cristo que Deus se deu a conhecer aos antigos patriarcas. Reconheço, porém, que o Evangelista está aqui estendendo a comparação já feita – quão superior é nosso estado ao dos patriarcas, no fato de que Deus, que subsistia então velado em sua glória secreta, agora, em certo sentido, se fez visível. Pois, indubitavelmente, quando Cristo é chamado “a imagem expressa de Deus” [Hb 1.3], a referência é à benção especial do Novo Testamento. Assim também, neste versículo, o Evangelista aponta para algo novo e inusitado, quando diz que o unigênito, que estava no seio do Pai, nos revelou o que de outra forma continuaria oculto. Ele, pois, enaltece a revelação de Deus, comunicada a nós pelo evangelho, por meio do qual ele nos distingue dos patriarcas como sendo superiores a eles. Paulo trata disso de forma mais ampla em 2 Coríntios 3 e 4, declarando que não resta mais nenhum véu a interpor-se à lei, mas Deus é publicamente contemplado na face de Cristo. Se, porventura, parecer ridículo que os [antigos] pais fossem privados do conhecimento de Deus, quando seus profetas empunhavam suas tochas que ainda servem para nós hoje, respondo: o que nos é outorgado não é simples ou absolutamente negado a eles, mas (como se diz) o que se faz aqui é uma comparação entre o menor e o maior; pois


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o que eles tinham nada mais era senão pequenas fagulhas dessa luz de vida, cuja plena resplandecência nos ilumina hoje. Se, porventura, alguém objetar, dizendo que mesmo naquela época Deus era visto face a face [Gn 32.30; Dt 34.10], digo que essa visão não era absolutamente comparável à nossa; visto, porém, que Deus, naquele tempo, costumava revelar-se por meio de figuras e cerimônias21 e, por assim dizer, de longe, àqueles a quem ele aparecia mais claramente diz-se que o viam face a face. Eles falavam relativamente de seu próprio tempo. Apenas viam a Deus envolto em muitos véus. A visão que Moisés teve no monte [Êx 33.23] foi única e excedeu a quase todos os demais; e, no entanto, Deus declara: “me verás pelas costas; minha face, porém, não se verá.” Com esta metáfora, Deus quis dizer que o tempo para a plena e clara revelação ainda não havia chegado. Devemos também notar que, quando mesmo os pais queriam ver a Deus, sempre volviam seus olhos para Cristo. Significa não apenas que contemplavam a Deus em sua Palavra eterna, mas também volviam decidida e sinceramente seus olhos para a prometida manifestação de Cristo. Por essa razão, Cristo dirá no capítulo 8.56: “Abraão viu meu dia.” E sucessão não significa contradição. Isso, portanto, é certo – que Deus, que anteriormente era invisível, agora se tornou visível em Cristo. Ao dizer que o Filho estava no seio do Pai, ele usa uma metáfora humana. Diz-se que os homens só admitem em seu seio aqueles a quem comunicam todos seus segredos. O seio é a sede do conselho. Ele, pois, ensina que o Filho conhecia os segredos mais secretos de seu Pai, para que soubéssemos que temos, por assim dizer, o seio de Deus plenamente aberto para nós no evangelho. [1.19-23] E este é22 o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: 21 “Envelppemens de figures et cereminies.” 22 “C’est ici aussi (ou, c’est donc ci) le tesmoignage.” – “este é também (ou, este é portanto) o testemunho.”


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Quem és tu? E ele confessou, e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo. E perguntaram-lhe: E então? És tu Elias? E ele disse: Não sou. És tu profeta?23 E ele respondeu: Não. Então lhe disseram: Quem és, para que demos resposta àqueles que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo? Ele disse: Eu sou a voz daquele que clama no deserto:24 Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.

19. E este é o testemunho de João. Até aqui, o Evangelista relatou a costumeira pregação de João acerca de Cristo. Ele agora descreve um exemplo ainda mais extraordinário disso, o qual foi dado aos embaixadores dos sacerdotes para que levassem de volta a Jerusalém. E assim ele diz que João francamente confessou por que fora enviado por Deus. Mas podemos, antes, perguntar qual fora o propósito dos sacerdotes em abordá-lo. A suposição comum é que trouxeram a João uma velada manifestação de aversão por Cristo em forma de honra. Naquele tempo, porém, Cristo ainda não era conhecido deles. Outros supõem que João lhes era persona grata, visto que o mesmo procedia da linhagem e ordem sacerdotal. Mas isso é também improvável; pois, por que voluntariamente inventariam um falso Cristo para si quando buscavam de Cristo toda prosperidade? Creio que foram movidos por outra causa. Pois desde muito tempo viviam sem profetas. João apareceu súbita e inesperadamente, e a mente de todos ficou excitada e esperançosa. Além disso, todos eles criam que a vinda do Messias estava próxima. Para que não parecessem descuidosos de seus deveres, negligenciando ou ocultando um assunto de tal envergadura, os sacerdotes perguntam se porventura João era o Messias. À primeira vista, pois, eles não agiam com malícia; mas, ao contrário, movidos de anseio pela redenção, queriam saber se João seria o Cristo, porque ele está começando a mudar a ordem costumeira da Igreja. E, no entanto, não 23 “Es-tu Prophete, ou, le Prophete?” – “És tu um Profeta, ou, o Profeta?” 24 “De celuy qui crie au desert.”


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nego que a ambição, o desejo de reter sua autoridade tivesse alguma influência sobre eles; mas com certeza nada estava mais distante de suas mentes que transferir a honra de Cristo para outro. Nem estavam eles agindo de maneira incompatível com seu ofício. Pois ainda que mantivessem as rédeas do governo da Igreja de Deus, tinham o dever de se precaver para que ninguém se insinuasse repentinamente, para que não se erguesse nenhum fundador de uma nova seita, a unidade da fé não fosse interrompida na Igreja e que ninguém introduzisse cerimônias novas e estranhas. É evidente, pois, que a linguagem de João era comum e excitava a mente de todos. Tal coisa, porém, foi ordenada pela maravilhosa providência divina, a fim de que este testemunho fosse mais notavelmente completo. 20. Confessou. Isto é, ele confessou francamente e sem qualquer evasiva ou hipocrisia. A forma verbal confessou significa, em termos gerais, que ele declarou o fato como era. O segundo exemplo de confessou é uma repetição para expressar a forma da confissão. Portanto, respondeu definitivamente que não era o Cristo. 21. És tu Elias? Por que fizeram menção de Elias e não de Moisés? Porque aprenderam da profecia de Malaquias [4.5] que, quando o Messias se manifestasse, Elias seria como sua estrela matutina. Mas formularam tal pergunta com falsa pressuposição. Pois crendo, como criam, na transmigração das almas, imaginaram que quando o profeta Malaquias anunciou que Elias seria enviado, queria dizer o mesmo Elias que viveu sob o reinado de Acabe. João, portanto, responde franca e apropriadamente que ele não é Elias, usando a palavra em seu sentido próprio. Cristo, porém, afirma que ele é Elias a partir de uma correta interpretação do profeta [Mt 11.14; Mc 9.13]. És tu profeta? Incorretamente, Erasmo restringe isso a Cristo, pois a adição do artigo (ὁ προφήτης, o profeta) não recebe nenhuma ênfase neste versículo; e os mensageiros posteriores declaram com bastante clareza que tinham em mente um profeta distinto de Cristo, quando sumariaram tudo com a afirmação: “Se não és o Cristo, nem Elias, nem um Profeta” [v. 25]. Portanto, percebemos que pessoas dis-


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tintas estão envolvidas. Outros pensam que eles estavam perguntando se ele era um dos profetas antigos. Mas não aprecio também essa exposição. Ao contrário, com esta pergunta estão fazendo referência ao ofício de João, como se perguntassem se ele era um profeta designado por Deus. Ao negar isso, ele não está usando de falsa modéstia, mas está honesta e sinceramente se excluindo do número dos profetas. E, no entanto, tal resposta não entra em conflito com a descrição que Cristo fez dele. Cristo conferiu a João o título de profeta e ainda acrescenta que ele é “mais que um profeta” [Mt 11.9]. Mas, ao fazer uso dessas palavras, ele simplesmente granjeia crédito e autoridade para o ensino de João, ao mesmo tempo que enaltece a excelência do ofício a ele confiado. Nesta passagem, porém, João tem um objetivo distinto – mostrar que ele não tem uma comissão pessoal, como sucedeu com os profetas, mas que foi designado para ser pura e simplesmente o arauto de Cristo. Tal fato se fará ainda mais claro à guisa de uma metáfora. Mesmo os embaixadores que são enviados com assuntos não de grande importância recebem o nome e autoridade de embaixadores, caso de fato sejam detentores de missões pessoais. Tais eram todos os profetas que, desde que tivessem profecias definidas, desempenhavam o ofício profético. Suponha-se, porém, que surja uma questão de grande importância e dois embaixadores sejam enviados, um dos quais anuncia que o outro logo virá para conduzir todos os negócios e com a responsabilidade de levar a bom termo toda a negociação. O primeiro não será considerado como que uma parte e apêndice do principal? Assim foi com João, a quem Deus nenhuma outra coisa ordenou senão que fosse o preparador de discípulos para Cristo.25 E esse significado é facilmente extraído de todo o contexto da passagem; pois devemos considerar a sentença negativa imediatamente a seguir. Diz ele: “Eu não sou um profeta, mas uma voz que clama no deserto.” A distinção está no fato de que a voz que clama, dizendo que se prepare um cami25 “Sinon de preparer les Juifs à donner audience à Christ, et estre ses disciples.”


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nho para o Senhor, não é a voz de um profeta, com uma função distinta peculiar a si, mas, por assim dizer, meramente um ministro assistente, e que sua pregação é apenas uma espécie de preparação para que se ouça outro mestre. Dessa forma João, embora mais excelente que todos os profetas, não é, contudo, um profeta propriamente dito. 23. A voz daquele que clama. Visto que teria sido acusado de temeridade se assumisse o ofício de mestre sem que lhe fosse confiado um ministério, ele mostra qual era sua função e o confirma com o testemunho de Isaías [40.3]. Daqui, conclui-se que ele nada fazia senão o que Deus lhe ordenara. Isaías não está falando ali somente de João; mas, prometendo a restauração da Igreja, ele prediz que vozes de alegria seriam ouvidas ordenando que se aplainasse o caminho para o Senhor. Ora, ainda que ele aponte para a vinda de Deus, quando trouxe de volta o povo do cativeiro babilônico, no entanto o verdadeiro cumprimento estava na manifestação de Cristo na carne. Portanto, dentre os arautos que anunciaram que o Senhor estava próximo, João era o principal. É fútil filosofar com sutileza, como fazem alguns, sobre o significado da palavra voz. João é chamado voz por causa do dever que lhe foi imposto de clamar. Em termos figurativos, Isaías qualifica o miserável estado da Igreja de deserto, o qual parecia obstruir o regresso do povo; como se quisesse dizer que o caminho para o povo cativo estava bloqueado, mas que o Senhor encontraria uma via pelas terras inóspitas. Mas aquele deserto visível no qual João pregava era uma figura ou imagem do ermo solitário onde não havia nenhuma esperança de livramento. Se o leitor ponderar sobre esta comparação, logo perceberá que as palavras dos profetas não foram torcidas. Deus dispôs tudo de tal maneira como se pusesse um espelho desta profecia diante dos olhos de seu povo, esmagado por suas misérias. [1.24-28] E os que tinham sido enviados eram da parte dos fariseus. Portanto, perguntaram, e lhe disseram: Por que, pois, batizas, se não és nem o Cristo, nem Elias, nem um profeta? João lhes res-


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pondeu, dizendo: Eu batizo com água; mas no meio de vós está um a quem não conheceis; ele é quem, vindo depois de mim, está acima de mim, cujas correias da sandália não sou digno de desatar. Essas coisas se deram em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.

24. Eram da parte dos fariseus. O Evangelista diz que eram fariseus, que então conservavam um lugar de muita eminência na Igreja, com o intuito de ensinar-nos que os mesmos representavam não figuras irrelevantes da ordem levítica, mas que eram homens dotados de autoridade. Essa é a razão por que perguntam sobre o batismo. Ministros ordinários teriam ficado satisfeitos com qualquer tipo de resposta; mas esses homens, já que não obtiveram a resposta que esperavam, acusam João de temeridade em ousar introduzir uma nova cerimônia religiosa. 25. Por que então batizas? Seu argumento parece assumir uma forma decisiva, quando estabelecem estes três graus: “Se não és o Cristo, nem Elias, nem um profeta”. Visto que instituir a prática do batismo não é prerrogativa de qualquer um. Toda a autoridade tinha de ser deixada nas mãos do Messias. De Elias que estava para vir, formaram a opinião de que ele começaria a restauração do Reino e da Igreja. Também estabeleceram que os profetas de Deus deviam desempenhar o ofício a eles confiado. Concluem, pois, que para João batizar permitia-se a entrada de uma inovação ilícita, já que ele não havia recebido de Deus nenhum ofício público. Mas ainda que João negue ser o Elias da imaginação deles, falharam em não reconhecê-lo como o Elias mencionado em Malaquias 4.5. 26. Eu batizo com água. Isso deveria ter sido suficiente para corrigir seu equívoco; mas ainda que o ensino seja suficientemente claro, ele não se destina aos surdos. Ao enviá-los a Cristo e declarar que ele já se encontra presente, é evidente que ele não só se declara divinamente designado para ser ministro de Cristo, mas também que é o genuíno Elias enviado para testificar a restauração da Igreja. A antítese


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completa não está expressa aqui; pois o batismo espiritual de Cristo não é distintamente contrastado com o batismo externo de João, senão que a última sentença sobre o batismo do Espírito pode muito bem ser adicionada. Aliás, logo depois o Evangelista registra ambos. Há duas ênfases nesta resposta: primeiramente, João nada reivindica além do que lhe é por direito, pois o autor de seu batismo é Cristo, em quem consiste a realidade do sinal. Em segundo lugar, ele não faz mais que administrar o sinal externo, enquanto que todo o poder e eficácia estão exclusivamente nas mãos de Cristo. Portanto, ele defende seu batismo, ainda que sua realidade dependa de outro. Mas, embora ele deixe de mencionar o poder do Espírito, contudo exalta a dignidade de Cristo, a fim de que todos olhem somente para ele. Eis a mais elevada e melhor moderação regulamentada: quando ele toma por empréstimo de Cristo a autoridade que ele reivindica para si, dizendo que o crédito é todo de Cristo mesmo, atribuindo-lhe tudo quanto possui. Entretanto, é um louco equívoco supor alguém ser o batismo de João diferente do nosso. João não está aqui argumentando sobre a utilidade e conveniência de seu batismo, mas está simplesmente comparando seu papel com o de Cristo. Assim como hoje, se formos indagados sobre qual é nossa participação no batismo e qual é a de Cristo, teremos que reconhecer que unicamente Cristo é quem realiza o que o batismo representa, e que outra participação não temos senão a mera administração do sinal. A Escritura fala dos Sacramentos de duas maneiras. Às vezes, ela nos diz que são “a lavagem de regeneração” [Tt 3.5], que ali nossos pecados são lavados [1Pe 3.21], que somos enxertados no corpo de Cristo, que nosso velho homem é crucificado e que ressuscitamos em novidade de vida [Rm 6.4-6]. E, nesses exemplos, ela une o poder de Cristo com o ministério humano, de modo que o ministro nada é senão a mão de Cristo. Tais formas de expressão revelam, não o que o homem pode realizar por si mesmo, mas o que Cristo efetua por meio do homem e do sinal como seus instrumentos. Visto, porém, que os homens tendem a cair em superstição, e movidos por seu inerente orgulho arrebatam de Deus a honra


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que lhe pertence, e a guardam para si, a Escritura, para refrear essa blasfema arrogância, ocasionalmente distingue a pessoa dos ministros da de Cristo, como nesta passagem, para que aprendamos que os ministros nada são e por si mesmos nada podem fazer. No meio de vós está um. Ele indiretamente censura a estupidez deles em não conhecer a Cristo, de quem deviam ter recebido notícias em particular. E ele, sempre cuidadoso, insiste em que nada pode ser conhecido de seu ministério até que os homens venham ao encontro de seu Autor. Ele diz que Cristo está entre eles, a fim de que se empenhem entusiasticamente em conhecê-lo. A suma da ideia é que ele quer aviltar-se o máximo possível a fim de não ter o mínimo grau de honra caso inadvertidamente lhe viessem atribuir, obscurecendo assim a superioridade de Cristo. É provável que essas frases estivessem frequentemente em sua língua, ao ver-se imoderadamente enaltecido pela opinião distorcida dos homens. 27. Que vem depois de mim. Aqui ele diz duas coisas: que Cristo às vezes o seguia; mas que em grau de dignidade ele estava muito acima dele. Pois, na preferência do Pai, ele era antes de todos. Logo depois, ele acrescentará um terceiro item – que a razão por que Cristo era preferido a todos os demais, se devia ao fato de que ele por direito excedia a todos. 28. Essas coisas se deram em Betânia. O local é mencionado, não só com o fim de autenticar o relato, mas também para informar-nos que esta resposta foi apresentada a uma assembleia numerosa. Pois muitos iam ao batismo de João, e esse era um lugar comum para a realização do batismo. Pensa-se também que poderia ter sido numa travessia do Jordão; e derivam o nome desse fato, pois o interpretam como “a casa da travessia”. É provável que alguns prefiram a opinião daqueles que a mencionam como sendo a memorável travessia do povo, quando Deus abriu um caminho para eles no meio das águas, sob a liderança de Josué [Js 3.13]. Outros julgam que se deve ler Bethabara. O nome, Betânia, posto aqui por alguns, é fruto de um equívoco; pois leremos mais adiante quão perto Betânia ficava de Jerusalém. A


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localização de Bethabara que os topógrafos descrevem concorda mais com as palavras do Evangelista. Quanto a mim, porém, não discuto a pronúncia da palavra. [1.29-34] Na manhã seguinte, João viu Jesus que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Este é aquele de quem eu disse: Após mim vem um homem que foi preferido a mim, porque era mais excelente que eu. Eu não o conhecia; mas para que ele se fizesse manifesto a Israel, por isso vim batizando com água. E João deu testemunho, dizendo: Eu vi o Espírito descendo do céu como pomba, e repousou sobre ele. Eu não o conhecia; mas aquele que me enviou a batizar com água, me disse: Sobre quem vires o Espírito descer e repousar, esse é aquele que batiza com o Espírito Santo. Portanto, tenho visto e testificado que este é o Filho de Deus.

29. Na manhã seguinte. Não há dúvida de que João havia falado previamente da manifestação do Messias; mas quando Cristo se manifestou, ele quis que sua proclamação fosse divulgada rapidamente; e então chegara o tempo quando Cristo levaria o ministério de João à conclusão, precisamente como a alvorada repentinamente desaparece com o nascer do sol. Portanto, quando ele testificou à embaixada de sacerdotes que aquele em quem deviam buscar a verdade e poder de seu batismo já se encontrava presente e vivendo entre o povo, no dia seguinte ele o fez conhecido publicamente. Pois esses dois atos terão muito mais força em mover suas mentes em decorrência de sua associação temporária. Essa também é a razão por que Cristo se manifestou na presença de João. Eis o Cordeiro de Deus. O principal ofício de Cristo é explicado de forma incisiva, porém com clareza. Ao tirar os pecados do mundo por intermédio do sacrifício de sua morte, ele reconcilia os homens com Deus. Cristo certamente derrama outras bênçãos sobre nós, mas


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a principal, da qual dependem todas as demais, é aquela que, ao apaziguar a ira de Deus, ele nos leva a sermos considerados justos e puros. A fonte de todos os mananciais de bênçãos consiste em que, não nos imputando nossos pecados, Deus nos recebe em seu favor. Consequentemente, João, com o intuito de nos levar a Cristo, começa com o perdão gratuito dos pecados, o qual só obtemos através dele. Pelo termo Cordeiro há uma alusão aos antigos sacrifícios da lei. Ele estava tratando dos judeus que estavam acostumados com os sacrifícios e não podiam ser instruídos sobre satisfação de alguma outra forma, a não ser que tivessem um sacrifício como mediação. Mas como havia vários tipos, ele emprega sinédoque. Provavelmente, João esteja pensando no Cordeiro Pascal. A questão primordial é que João empregou uma forma de expressão que era mais eficaz e viva para instruir os judeus. Assim como hoje, através do rito do batismo entendemos melhor o que significa o perdão de pecado através do sangue de Cristo, quando ouvimos que, por meio dele, somos lavados e purificados de todas as nossas imundícies. Ao mesmo tempo, como os judeus comumente mantinham noções supersticiosas acerca dos sacrifícios, propositalmente ele corrige o erro, lembrando-lhes o objetivo designado em relação a todos eles. Era um áspero abuso do sacrifício, quando se depositava confiança nos sinais externos. Portanto João, pondo Cristo em realce, testifica que ele é o Cordeiro de Deus, querendo dizer com isso que, quaisquer que fossem as vítimas que os judeus usassem para oferecer, sob o regime da lei, não tinham absolutamente poder algum para expiar os pecados; ao contrário, não passavam de figuras cuja realidade era revelada em Cristo mesmo. Que tira o pecado do mundo. João expressa [pecado] no singular, denotando algum gênero de iniquidade, como se ele quisesse dizer que Cristo remove toda sorte de injustiça que aliena os homens de Deus. E ao dizer: o pecado do mundo, ele estende essa benevolência indiscriminadamente a toda a raça humana, para que os judeus não imaginassem que o Redentor fora enviado exclusivamente a eles. À luz desse fato, inferimos que o mundo inteiro está submetendo-se à


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mesma condenação; e visto que todos os homens, sem exceção, são culpados de injustiça diante de Deus, por isso necessitam de ser reconciliado com ele. João, portanto, ao falar do pecado do mundo em termos gerais, sua intenção era fazer-nos sentir nossa própria miséria e exortar-nos a buscar o antídoto. Ora, para que nos apossemos da bênção oferecida a todos, é preciso que cada um de nós determine em seu íntimo não permitir que algo o impeça de buscar em Cristo a reconciliação divina; deixando-se guiar pela fé, encontre nele um refúgio seguro. Além disso, ele proclama um único método para a remoção dos pecados. Sabemos que desde o princípio do mundo, quando suas próprias consciências os convenciam, todos os homens se esforçavam avidamente para granjear o perdão. Daí o espantoso volume de todos os tipos de oferendas expiatórias, pelas quais erroneamente criam poder aplacar a Deus. Confesso que todos os ritos propiciatórios espúrios tiveram sua origem num princípio santo, significando que Deus havia ordenado os sacrifícios que levassem os homens a Cristo. Entretanto, todos criaram seu próprio meio de aplacar a Deus. João, porém, nos atrai de volta a Cristo tão somente, e nos informa que não existe nenhum outro método pelo qual Deus se reconcilia conosco a não ser através de sua agência, já que ele é o único que remove os pecados. Ele, pois, não nos deixa outra via de escape do pecado senão a fuga para Cristo. E, assim, exclui toda e qualquer satisfação humana, toda e qualquer expiação e redenção, visto que tais artifícios nada mais são que invenções ímpias arquitetadas pela astúcia do diabo. O verbo tirar (αἴρειν) pode ser explicado de duas formas. Ou que Cristo tomou sobre si o peso sob o qual éramos esmagados, como está expresso em 1 Pedro 2.24, que “ele levou nossos pecados no madeiro”; e Isaías 53.5, que “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas pisaduras fomos sarados”; ou que ele apaga nossos pecados. Visto, porém, que a última depende da primeira, de bom grado aceito a ambas – que Cristo, ao carregar nossos pecados, os elimina. Portanto, embora o pecado insista em permanecer em nós,


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não obstante, no juízo divino, ele não existe, pois já que ele é abolido pela graça de Cristo, então ele não pode ser-nos imputado. Nem me desagrada o ponto de vista de Crisóstomo, a saber, que o tempo presente do verbo – ὁ αἴρων, que tira – denota uma ação contínua, pois a satisfação que Cristo ofereceu uma vez para sempre está em pleno vigor. Ele, porém, não nos diz simplesmente que Cristo tira o pecado, mas também nos apresenta o método – que ele nos reconciliou com o Pai por intermédio de sua morte; pois isso é precisamente o que ele tinha em mente dizer com o termo Cordeiro. Aprendamos, pois, que somos reconciliados com Deus por intermédio da graça de Cristo, seguindo uma única via: recorrendo a sua morte e crendo que, aquele que foi cravado na cruz, é a única vítima sacrificial por meio da qual toda nossa culpa é removida. 30. Este é aquele de quem eu disse. Ele envolve tudo em poucas palavras, ao declarar que Cristo é aquele de quem ele havia dito ter a preferência acima dele. Daqui se conclui que João nada mais é senão o arauto enviado com esse expresso propósito. E daqui se estabelece uma vez mais que Cristo é o Messias. Aqui se mencionam três coisas: ao dizer que um homem estava vindo após ele, sua intenção é deixar claro que ele veio antes de Cristo no tocante ao tempo, com o fim de preparar-lhe o caminho, segundo o testemunho de Malaquias: “Eis que eu envio meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim” [3.1]. Ao dizer que Cristo tinha a preferência sobre ele, a referência é à glória com que Deus adornou a seu Filho, quando ele veio ao mundo exercer o ofício de Redentor. Finalmente, acrescenta-se a razão – que Cristo está muito acima de João Batista em dignidade. Portanto, a honra com a qual o Pai o revestiu não era adventícia, mas era o direito relativo a sua eterna majestade. Mas já fiz menção desta expressão: “Este é aquele que vem após mim, mas que é antes de mim.” 31. Eu não o conhecia. Para que seu testemunho não fosse suspeito de proceder de amizade ou favor, ele antecipa a dúvida, negando que tivesse algum outro conhecimento de Cristo além do fato de que


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Deus lho enviara. A suma, pois, é que João não fala movido por sua própria iniciativa, nem com o intuito de agradar aos homens, mas instigado pelo Espírito e pelo mandato de Deus. Vim batizando com água, diz ele. Isto é, fui chamado e ordenado para este ofício, a fim de manifestá-lo a Israel. O Evangelista mais adiante explica este ponto com mais clareza e o confirma quando introduz João Batista, testificando que ele não tinha conhecimento de Cristo senão o que obtivera através de um oráculo divino, isto é, por informação ou revelação de Deus.26 Em vez do que encontramos aqui, eu vim para batizar, ele ali declara expressamente [v. 33] que fora enviado. Pois é somente pela vocação divina que os ministros da Igreja se tornam legalmente efetivados. Quem quer que se apresente sem ser convidado, seja qual for a erudição ou eloquência que o mesmo possua, esse não recebe autoridade alguma, porquanto não veio da parte de Deus. Ora, visto que João, para batizar regularmente, tinha que ser enviado pessoalmente por Deus, assim o leitor deve entender que ninguém tem direito algum de instituir Sacramentos. Tal direito pertence exclusivamente a Deus. Por isso, Cristo em outra ocasião, para provar o batismo de João, pergunta se ele era do céu ou dos homens [Mt 21.25]. 32. Vi o Espírito descendo como pomba. Esta não é uma forma de expressão literal, e, sim, figurada; pois com que olhos ele veria o Espírito? Como, porém, a pomba era um sinal certo e infalível da presença do Espírito, ela é chamada o Espírito, por meio de uma figura de linguagem na qual um nome é substituído por outro; não que ele seja na realidade o Espírito, e, sim, que aponta para o Espírito, até onde a capacidade humana o possa admitir. E esta linguagem metafórica é amiúde empregada nos sacramentos; pois, por que Cristo chama o pão meu corpo senão porque o nome do elemento é propriamente transferido para o sinal? Especialmente quando o sinal é, ao mesmo tempo, um penhor genuíno e eficaz, por meio do qual somos certificados de que a própria coisa significada nos é outorgada. No entanto, não se deve entender 26 “Par oracle; c’est à dire, advertissement ou revelation de Dieu.”


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que a pomba contivesse o Espírito que enche o céu e a terra [Jr 23.24], mas que ele estava presente através de seu poder, de modo que João sabia que tal exibição não se apresentava inutilmente ante seus olhos. De modo semelhante, sabemos que o corpo de Cristo não é conectado ao pão, e, no entanto, somos participantes de seu corpo. Então se suscita uma pergunta: Por que o Espírito, naquele momento, se manifestou na forma de uma pomba? É preciso ter sempre presente que há distinção entre o sinal e a realidade. Quando o Espírito foi comunicado aos apóstolos, eles viram línguas de fogo e divididas [At 2.3], significando que a proclamação do evangelho tinha de ser difundida através de todos os idiomas, e ele tinha de possuir o poder do fogo. Neste versículo, porém, Deus quis exibir publicamente aquela mansidão de Cristo que Isaías [42.3] tanto enaltece: “A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega.” Essa foi a primeira vez que o Espírito foi visto descer sobre ele. Não significa que antes disso ele estivesse vazio do Espírito, mas é que agora, por assim dizer, ele está sendo consagrado numa cerimônia solene [e pública]. Pois sabemos que ele permaneceu por trinta anos oculto como indivíduo, porquanto o tempo de sua manifestação ainda não havia chegado. Quando, porém, quis tornar-se conhecido ao mundo, seu ponto de partida foi o batismo. Portanto, recebeu o Espírito naquela ocasião, não tanto por sua própria causa, mas causa de seu povo. E o Espírito desceu visivelmente para que soubéssemos que em Cristo habita a abundância de todos os dons dos quais por natureza somos destituídos e vazios. Tal fato pode facilmente deduzir-se das palavras de João Batista. Pois quando ele diz: “Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo” [v. 33], é como se ele dissesse que o Espírito era visto de uma forma visível e repousava sobre Cristo para que ele pudesse dar de beber de sua plenitude a todo seu povo. O que significa batizar com o Espírito, eu já toquei de leve, a saber, que Cristo comunica ao batismo sua eficácia, a fim de que o mesmo não seja sem efeito e destituído de real valor; e isso ele faz mediante o poder de seu Espírito.


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33. Sobre aquele que vires descer o Espírito. Aqui surge uma pergunta difícil: se João não conhecia a Cristo, por que sua recusa em admiti-lo ao batismo? Com toda certeza, ele não devia dizer a ninguém que não o conhecia: “devo antes ser batizado por ti” [Mt 3.14]. A resposta de alguns consiste em que ele o conhecia tão vagamente que, embora o reverenciasse como um eminente profeta, contudo não sabia ser ele o Filho de Deus. Essa, porém, é uma solução pobre, pois qualquer um deve obedecer à vocação divina sem qualquer respeito por pessoas. Nenhuma dignidade ou excelência humana nos deve impedir de cumprir nosso dever. Portanto, João teria desrespeitado a Deus e ao seu batismo, caso ele tivesse falado assim em relação a alguma outra pessoa, e não ao Filho de Deus. Portanto, ele deve ter conhecido Cristo previamente. Primeiro, devemos notar que isso se refere a um conhecimento oriundo de familiaridade íntima e recíproca. Embora reconheça a Cristo assim que o vê, continua sendo verdade que não se conheciam mutuamente da forma usual pelo prisma da amizade humana, porquanto o princípio de seu conhecimento veio de Deus. A pergunta, porém, não está ainda totalmente respondida, porquanto ele diz que a visão do Espírito Santo seria o sinal de reconhecimento. Ele, porém, não havia ainda visto o Espírito quando se dirigiu a Cristo como o Filho de Deus. De bom grado, concordo com a opinião daqueles que pensam que esse sinal foi adicionado para confirmação, e que ele não foi dado tanto por causa de João, mas por nossa causa. Com toda certeza, somente João o viu, porém mais por causa dos outros do que de si mesmo. Bucer, com propriedade, cita Moisés em Êxodo 3.12: “E isto te será por sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado este povo do Egito, servireis a Deus neste monte.” Indubitavelmente, quando saíram já sabiam que Deus guiaria e dirigiria sua libertação; mas essa foi, por assim dizer, uma confirmação a posteriori. Semelhantemente, ela veio como uma adição à primeira revelação que fora dada a João. 34. Eu vi e testifiquei. Ele queria dizer que não alimentava dúvida alguma; pois a Deus aprouve dar-lhe total e profundo conhecimento


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daquelas coisas das quais teria que ser testemunha perante o mundo. E é digno de nota o fato de João testificar que Cristo era o Filho de Deus, porquanto aquele que desse o Espírito seria o Cristo, visto que a honra e o ofício de reconciliar os homens com Deus não poderiam pertencer a nenhum outro. [1.35-39] No dia seguinte, João estava outra vez ali, e dois de seus discípulos; e ele olhou para Jesus que passava, e disse: Eis o Cordeiro de Deus! E os dois discípulos ouviram-no dizer isso, e seguiram a Jesus. E Jesus, voltando-se e vendo que eles o seguiam, então lhes disse: Que buscais? E eles lhe disseram: Rabi (que traduzido, quer dizer: Mestre), onde moras? Então lhes disse: Vinde, e vede. Foram, pois, e viram onde ele morava, e ficaram com ele aquele dia; e era quase a hora décima.

36. Eis o Cordeiro de Deus! Nesta expressão fica ainda mais evidente o que eu já disse, a saber, que quando João sentiu que chegava ao término de seu curso, ele avança sem cessar procurando pôr a tocha na mão de Cristo. Sua persistência imprime mais peso a seu testemunho. Mas, ao insistir tão ansiosamente, dia após dia, em reiterar seu louvor a Cristo, ele mostra que sua própria jornada chegava ao fim. Além do mais, vemos aqui quão impreciso e humilde foi o início da Igreja. É verdade que João preparara discípulos para Cristo, mas até agora Cristo não havia ainda começado selecionar uma igreja. Ele apenas conta com aqueles doze homens obscuros e insignificantes, mas, mesmo assim, sua glória se manifesta; de modo que, dentro em pouco, sem contar com o auxílio do poder humano ou de um forte grupo, ele expande seu reino de uma forma maravilhosa e inusitada. Devemos também observar especialmente aonde ele leva aqueles homens – a descobrir em Cristo o perdão dos pecados. E ainda quando Cristo tivesse expressamente se apresentado aos discípulos para que fossem a ele; então, ao irem a ele, benignamente os encoraja e os exorta; pois não espera que falem primeiro, e então lhes fala: “Que buscais?”


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Esse cativante e amoroso convite, uma vez feito a dois homens, agora pertence a todos. Portanto, não devemos temer que Cristo se afaste de nós ou que nos recuse fácil acesso, contanto que nos veja empenhados por ele. Ao contrário disso, ele nos estenderá sua mão e nos sustentará em nossos esforços. E, porventura, não apressará aqueles que o buscam, ele que sai em busca dos que andam errantes e transviados, querendo trazê-los de volta à vereda certa? 38. Rabi. Este título era comumente atribuído aos homens da elite ou detentores de alguma honra especial. Aqui, porém, o Evangelista registra outro uso contemporâneo dele: com este título eles se dirigiam aos mestres e expositores da Palavra de Deus. Portanto, embora não soubessem que Cristo é o único mestre da Igreja, não obstante, movidos pelo relato que João faz acerca dele, o respeitam como um profeta e mestre, que é o primeiro passo para se receber instrução. Onde moras? À luz deste exemplo aprendemos dos próprios primórdios da Igreja a cultivar um prazer tal por Cristo, que se aguça nosso anseio por progresso. Nem devemos ficar satisfeitos com uma mera busca passageira, mas devemos buscar seu espaço permanente para que nos receba como seus hóspedes. Porque muitos simplesmente sentem o cheiro do evangelho à distância, e então deixam Cristo desaparecer como névoa, e tudo quanto aprenderam sobre ele vira fumaça. Ainda que não se tornassem seus discípulos de tempo integral, não há dúvida de que ele os instruiu mais plenamente aquela noite, para que pudesse tê-los inteiramente devotados a si logo depois. 39. Era quase a hora décima. Ou, seja, a noite se aproximava, pois só faltavam umas duas horas para o pôr-do-sol. Naquela época, o dia era dividido em doze horas, o qual era mais longo no verão e mais curto no inverno. E à luz da questão de horário, deduzimos que aqueles dois discípulos se sentiam tão ansiosos por ouvir a Cristo, e conhecê-lo mais pessoalmente, que não se preocuparam com seu pernoite. Nós, porém, na maioria das vezes, somos muito diferentes deles, porque prorrogamos indefinidamente, uma vez que seguir a Cristo nunca nos é conveniente.


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[1.40-42] Um dos dois que ouviram João falar e o seguiram era André, irmão de Simão Pedro. Ele encontrou primeiro a seu próprio irmão, Simão, e lhe disse: Encontramos o Messias (que, traduzido, é Cristo). Ele o levou a Jesus. Jesus, olhando para ele, disse: Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).

40. Um dos dois era André. O objetivo do Evangelista, já no final do capítulo, é informar-nos como pouco a pouco os discípulos eram levados a Cristo. Aqui ele relata acerca de Pedro, e logo a seguir acrescentará Filipe e Natanael. O fato de André trazer imediatamente seu irmão expressa a natureza da fé, a qual não mantém a luz guardada no íntimo nem a extingue; ao contrário, a projeta em todas as direções. André não tem mais que uma escassa fagulha; no entanto, com ela, ele ilumina ao seu irmão. Ai de nossa apatia, se porventura nós, muito mais iluminados que ele, não nos esforçarmos em fazer os outros participantes da mesma graça! Realmente podemos observar em André duas coisas que Isaías requer dos filhos de Deus [Is 2.3] – que cada um de nós deve tomar o vizinho pela mão e dizer-lhe também: “Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine seus caminhos, e andemos em suas veredas.” Pois André estendeu sua mão a seu irmão, com um único objetivo: para que ele se tornasse com ele um colega e aluno na escola de Cristo. Além do mais, é preciso que atentemos bem no desígnio de Deus. Ele quis que Pedro, que estava para ser o mais eminente, fosse levado ao conhecimento de Cristo pela agência e ministério de André; de modo que nenhum de nós, por mais excelente que seja, recuse ser instruído por alguém inferior. Pois Deus castigará severamente àquela pessoa obstinada ou, melhor, arrogante que, por desprezar um seu igual, não se dignar em vir a Cristo. 41. Encontramos o Messias. O Evangelista interpretou o termo hebraico, Messias (Ungido), para o grego, Cristo, com o fim de publicar a todo o mundo o que fora conhecido secretamente aos judeus. Era o títu-


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lo ordinário dos reis, visto que a unção era uma prática usual entre eles. Entretanto, estavam cônscios de que um Rei seria divinamente ungido, em quem esperavam aquela felicidade perfeita e perene, especialmente quando aprenderam que o reino terreno de Davi não teria fim. E assim, quando Deus os instigava, dominados e oprimidos com muitas tribulações, a olhar para o Messias, estava avivando em sua mente com mais nitidez que sua vinda estava próxima. A profecia de Daniel é mais clara do que as demais no tocante ao nome de Cristo [Dn 9.25, 26]. Pois ele, assim como os profetas mais antigos, não está falando de reis, mas está indicando de forma única aquele futuro Redentor. Portanto, essa maneira de falar prevaleceu de tal forma que, sempre que se mencionava o Messias ou Cristo, não pensavam em nenhum outro senão no Redentor. E assim, no capítulo 4 [deste Evangelho] lemos o que disse a mulher samaritana: “o Messias virá”, o que torna ainda mais espantoso o fato de que tantos o esperassem e dele falassem, com tão ansiosa expectativa, e tão poucos realmente o tenham recebido. 42. Tu és Simão. Cristo atribui a Simão um nome, não, segundo o costume, motivado por algum acontecimento passado, nem com base no que vê nele, mas porque estava para convertê-lo em Pedro. Antes de tudo, ele diz: “Tu és Simão, filho de João.” Ele usa o nome de seu pai em sua forma abreviada, um costume bastante comum quando os nomes são traduzidos para línguas estrangeiras. No final do capítulo se fará ainda mais óbvio que ele era filho de Yohannan ou João. Tudo isso, porém, é como se Cristo houvera dito que ele seria muito diferente do que é agora. Pois a menção que Cristo faz do pai de Simão não é porque ele desfrutasse de prestígio, senão que, apesar de Pedro ter nascido de família obscura e de não desfrutar de nenhum prestígio entre os homens, Cristo declara que tal fato não o impedirá de fazer de Simão um homem de resolução inquebrantável. O Evangelista, pois, registra esse fato como uma predição, dizendo que um novo sobrenome era dado a Simão. Entendo como uma predição, não só porque Cristo previu o futuro de Pedro possuindo uma fé inabalável, mas também que estava predizendo o que estava para comunicar a Simão. E assim,


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agora, na forma de aforismo, Cristo enaltece a graça que determinara comunicar-lhe mais tarde; e assim, ele não diz que esse é seu nome agora, senão que o adia para o futuro. Serás chamado Cefas, diz ele. Realmente pertence a todos os santos que os Pedros estejam alicerçados em Cristo, a fim de sejam aptos para a edificação do templo de Deus. Em sua excelência singular, porém, ele é o único a ser assim denominado. Os papistas, porém, agem de forma ridícula quando o põem em lugar de Cristo como o fundamento da Igreja, como se ele, também, não estivesse fundamentado em Cristo, como os demais. E são duplamente ridículos quando, de uma pedra, fazem um cabeça. Um cânon inconsistente traz o nome de Anacleto, entre as rapsódias de Graciano, o qual, ao mudar uma palavra hebraica por uma grega, e não distinguindo a palavra grega κεφαλὴ (kephale) da palavra hebraica Cephas, sugere que, com esse nome, Pedro foi designado a Cabeça da Igreja. Além do mais, Cephas é palavra aramaica, não hebraica, mas que era a pronúncia usual dela depois do cativeiro babilônico. Não há, pois, ambiguidade alguma nas palavras de Cristo. Ele promete a Pedro o que este jamais teria esperado, e assim exalta nele sua graça para todos os tempos, a fim de que seu estado anterior não testemunhe contra ele, uma vez que este sublime título proclama que ele foi feito um novo homem. [1.43-46] No dia seguinte, determinou Jesus ir para a Galiléia, e encontrou Filipe, e disse-lhe: Segue-me. Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e Pedro. Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Achamos Jesus de Nazaré, o filho de José, de quem Moisés escreveu na lei, e também os profetas. E Natanael disse-lhe: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Filipe disse-lhe: Vem e vê.

43. Segue-me. A mente de Filipe foi inflamada por esta única palavra para seguir a Cristo; e daqui inferimos quão poderosa é a eficácia da Palavra, ainda que ela não se evidencie em todos indiscri-


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minadamente. Porquanto Deus incita muitos sem qualquer resultado, como se ele estivesse soprando em seus ouvidos sons sem sentido. Portanto, a pregação externa da Palavra é por si só infrutífera, a não ser que ela fira mortalmente os réprobos, de modo tal que os faz indesculpáveis diante de Deus. Mas quando a graça secreta do Espírito vivifica [a mente dos réprobos], todos os sentidos inevitavelmente serão afetados de tal maneira que a pessoa se sente preparada a ir aonde quer que Deus a chame. Devemos, pois, orar para que Cristo derrame em nós o mesmo poder do evangelho. É verdade que Filipe seguiu a Cristo de um modo especial, pois ele foi intimado a seguir, não só como qualquer um de nós, mas como um companheiro [contubernalis] íntimo e inseparável. Não obstante, este é um padrão geral da vocação [eficaz]. 44. Era de Betsaida. É provável que o nome da cidade tenha mencionado para revelar mais claramente a bondade divina para com os três apóstolos. Aprendemos de outras passagens quão veementemente Cristo ameaça e amaldiçoa aquela cidade. Consequentemente, para que alguns dentre essa raça ímpia e maligna fossem recebidos no favor divino, deve-se considerar que os mesmos foram arrebatados do inferno. E o fato de Cristo ter julgado dignos de tal honra homens que foram salvos desse abismo insondável, para que fossem designados apóstolos, se constitui numa esplendorosa e memorável benção. 45. Filipe achou Natanael. Por mais que a soberba despreze esses rudimentares começos da Igreja, devemos ver neles maior glória de Deus do que se a condição do reino de Cristo tivesse sido nobre desde o início, excelente em todos os aspectos. Pois sabemos quão imensa colheita esta minúscula semente aos poucos produziu. Além disso, vemos demonstrado em Filipe a mesma solicitude pela edificação que vimos em André. Vemos também em relevo sua modéstia, anelando e se esforçando simplesmente por levar outros a aprender, juntamente com ele, do Mestre comum a todos. Achamos Jesus. A pequenez da fé de Filipe surge do fato de ele não poder dizer quatro coisas sobre Cristo sem incluir dois estúpidos


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equívocos. Ele o chama o filho de José, e erroneamente faz de Nazaré sua cidade natal. E, no entanto, visto que ele realmente deseja ajudar seu irmão e fazer Cristo conhecido, Deus aprova sua sinceridade e a faz vitoriosa. Cada pessoa, na verdade, precisa conservar-se sóbria dentro de seus limites; e o Evangelista certamente não menciona o ato de Filipe desonrar a Cristo duas vezes como sendo algo louvável, mas apenas relata que seu ensino, ainda que deficitário e envolvesse erro, era útil porque, a despeito de tudo, perseguia o propósito de fazer Cristo realmente conhecido. Ele tolamente chama Jesus o filho de José e ignorantemente o faz um nazareno; mas, ao mesmo tempo, leva Natanael a nenhum outro senão ao Filho de Deus que havia nascido em Belém. Ele não forja uma imitação de Cristo, mas apenas deseja que ele seja conhecido como aquele que fora apresentado por Moisés e os profetas. Por conseguinte, descobrimos que o principal desígnio da pregação é que, os que nos ouvem, devem vir a Cristo de um modo ou de outro. Muitos há que se envolvem em obscuras inquirições acerca de Cristo, mas que lançam tanta dificuldade e o envolve em tal complexidade e sutilezas que nunca conseguem achá-lo. E assim, os papistas não dirão que Cristo é o filho de José, pois sabem precisamente qual é seu nome. Não obstante, esvaziam-no de seu poder e assim exibem um fantasma em seu lugar. Não seria melhor gaguejar ignorantemente com Filipe, e, no entanto, conservar o verdadeiro Cristo, do que introduzir uma ficção em linguagem engenhosa e imprecisa? Mais ainda, grande número de homens comuns e pobres, hoje, desajeitados e inexperientes no manejo da língua, proclamam a Cristo mais fielmente do que todos os teólogos do Papa com suas profundas especulações. Esta passagem, pois, nos adverte a não rejeitarmos desdenhosamente tudo o que as pessoas simples e incultas dizem deficitariamente sobre Cristo, desde que estejam nos levando a Cristo. Mas para que não sejamos extraviados de Cristo pelas falsas imaginações dos homens, tenhamos sempre em mãos o antídoto, a saber: busquemos aquele perfeito conhecimento dele na lei e nos profetas.


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46. De Nazaré pode sair alguma coisa boa? A princípio Natanael, confundido pela descrição de Filipe sobre o lugar de nascimento de Cristo, recua. Mas, antes de tudo, ele é enganado pela palavra irrefletida de Filipe. O que Filipe insensatamente pensava, Natanael tomou como certo. A isso se acresce uma crítica imponderada oriunda do ódio ou desprezo pelo lugar. É preciso observar cuidadosamente ambas essas questões. Esse santo homem não estava muito longe de fechar a porta no próprio rosto de Cristo. Por quê? Porque ele foi demasiadamente precipitado em crer na afirmação incorreta de Filipe sobre ele, e também porque sua mente estava saturada da opinião preconcebida de que não se podia esperar de Nazaré nada de bom. A não ser que nos municiemos de precaução, correremos o mesmo risco. Usando obstáculos semelhantes, Satanás diariamente se esforça para barrar nossos passos de irmos a Cristo. Pois ele se acautela em espalhar infindáveis boatos falsos, os quais tornam o evangelho detestável ou suspeito a nossos olhos, de modo que não nos aventuramos a degustá-lo. Além do mais, há outra pedra que ele não deixa de usar para fazer Cristo desprezível a nossos olhos. Pois percebemos que terrível escândalo aos olhos de muitos é a ignomínia da cruz, tanto em Cristo, o Cabeça, quanto em seus membros. Mas, visto que dificilmente seremos suficientemente cautelosos para evitar que sejamos atingidos pelas tramas de Satanás, que pelo menos recordemos das palavras de Cristo. Vem e vê. Natanael permitiu que seu duplo erro fosse corrigido pelo que disse Filipe. E assim, seguindo seu exemplo, primeiro sejamos generosos em aprender e condescendentes; e a seguir, não deixemos de inquirir quando Cristo mesmo está disposto a remover as dúvidas que insistentemente nos perseguem. Estão grandemente equivocados os que tomam esta frase no sentido afirmativo. Quão banal isso seria! Repetindo, sabemos que a cidade de Nazaré não desfrutava de bom conceito naquela época, e a resposta de Filipe claramente denuncia hesitação e desconfiança.


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[1.47-51] Jesus viu Natanael vindo para ele, e disse-lhe: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo. Disse-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu Jesus, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi. Respondeu Natanael, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel. Respondeu Jesus, e disse-lhe: Só porque eu disse que te vi debaixo da figueira, tu crês?27 Ainda verás coisas maiores que essas. E disse-lhe: Em verdade, em verdade vos digo: Daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.

47. Eis aqui um verdadeiro israelita. Cristo não dirige esse enaltecimento particularmente à pessoa de Natanael, mas, apoiado em sua pessoa, ele ministra uma lição de cunho geral. Pois, visto que muitos dos que se denominam crentes sejam tudo menos crentes de fato e de verdade, é importante que se tenha algum sinal para distinguir o verdadeiro e honesto do falso. Sabemos quão arrogantemente os judeus se gloriavam em seu pai Abraão, quão ousadamente ostentavam a santidade de seus antepassados. E, no entanto, raramente se achava um em cem que não fosse completamente degenerado e totalmente alienado da fé dos patriarcas. Cristo, portanto, com o intuito de rasgar a máscara dos hipócritas, diz sucintamente o que é ser um israelita autêntico, e ao mesmo tempo remove a ofensa que logo fluiria da ímpia obstinação da nação. Pois aqueles que desejavam ser tidos na conta de filhos de Abraão e do santo povo de Deus, logo depois se tornariam os implacáveis inimigos do evangelho. E assim, para que a impiedade que permeava quase todas as classes não desalentasse ou afligisse alguém, ele ministra em tempo uma advertência, dizendo que há apenas uns poucos israelitas autênticos entre aqueles que reivindicavam o título de israelitas. 27 “Tu crois, ou, crois-tu?” – “Tu crês, ou crês tu?”


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Além do mais, visto que esta passagem é também uma definição de Cristianismo, não devemos ignorá-la precipitadamente. Ora, a fim de sumariar em poucas palavras o que Cristo tinha em mente, é preciso observar bem que dolo é contrastado com sinceridade.28 Daí ele chamar de astuciosos29 ou dolosos aqueles que, em outras partes da Escritura, são caracterizados como tendo coração doble [Sl 12.2]. Tampouco tal referência se restringe apenas à hipocrisia daqueles que são cônscios de que, sendo perversos, pretendem passar por bons, mas também àquela hipocrisia secreta, quando os homens são tão cegados por seus pecados, que enganam não só aos outros, mas até mesmo a si próprios. O que faz um cristão é a integridade aos olhos de Deus e a retidão diante dos homens. O que Cristo está principalmente enfatizando é aquele engano de que fala o Salmo 32.2. ἀληθῶς [verdadeiramente] aqui significa algo mais que certamente. O termo grego é, às vezes, usado como uma simples afirmação; mas, como devemos apresentar uma antítese entre a realidade e o mero título, ao dizer, “em verdade”, é a realidade que está subentendida. 48. Donde me conheces? Embora Cristo não tivesse a intenção de lisonjeá-lo, contudo queria ganhar a atenção para uma nova pergunta, por meio de uma resposta que provaria ser ele o Filho de Deus. Nem é fora de propósito a indagação de Natanael, donde Cristo o conhecia, pois um homem tão sincero que se vê isento de dolo é um modelo raro, e o conhecimento dessa pureza de coração pertence tão somente a Deus. A resposta de Cristo, contudo, parece destituída de sentido. Ter visto Natanael debaixo de uma figueira não é prova suficiente de que ele pudesse penetrar os recônditos mais profundos do coração. A razão, porém, é outra. Assim como pertence a Deus conhecer os homens quando não são vistos, assim também [lhe pertence] ver o que é invisível aos olhos [humanos]. Visto que Natanael percebeu que Cristo pôde vê-lo não da forma como os homens veem, mas por meio de uma visão verdadeiramente divina, assim pôde deduzir que Cristo 28 “Rondeur et syncerité.” 29 “Canteleux et Frauduleux.”


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não estava falando agora como um mero homem. Portanto, a prova é extraída das coisas que são semelhantes; porquanto não pertence menos a Deus ver o que está além da vista do que julgar a pureza do coração. Devemos extrair também desta passagem uma lição prática, ou, seja, que mesmo antes de pensarmos em Cristo, já estamos sendo observados por ele; e é preciso que seja assim, para que ele nos traga de volta quando suceder nos desviarmos da reta vereda. 49. Tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel. O fato de Natanael reconhecer ser ele o Filho de Deus, à luz de seu divino poder, é algo que não surpreende. Entretanto, por que ele o chama Rei de Israel? As duas coisas não parecem ter conexão. Natanael, porém, ergue seus olhos mais ao alto. Ele já ouvira que Cristo é o Messias, e para que isso fosse crido, ele adiciona a confirmação que lhe fora dada. Ele sustenta também outro princípio: que o Filho de Deus não virá sem revelar-se como Rei sobre o povo de Deus. E, no entanto, a fé não deve apreender somente a essência de Cristo, por assim dizer, mas deve também atentar para seu poder e ofício. Porque seria de pouco proveito saber quem é Cristo, a menos que o segundo elemento seja adicionado, isto é, o que ele deseja ser em relação e com que propósito foi ele enviado pelo Pai. Daí suceder que os papistas nada possuem senão um Cristo esotérico, porque toda sua solicitude está posta na apreensão de sua essência nua. Seu reino, que consiste no poder de salvar, esse eles têm negligenciado. Além disso, quando Natanael declara ser ele o Rei de Israel, ainda que seu reino se estenda até os confins da terra, a confissão se limita à medida da fé. Pois ele não havia ainda avançado tanto que soubesse que Cristo fora designado para ser o Rei sobre o mundo inteiro; ou, melhor, que de todas as regiões fossem reunidos os filhos de Israel, de modo que o mundo inteiro fosse reconhecido como o Israel de Deus. Nós, a quem a extensão do reino de Cristo já se revelou, devemos exceder esses tacanhos limites. Não obstante, que sigamos o exemplo de Natanael e apliquemos nossa fé em ouvir a Palavra e a fortalecê-la por todos os meios possíveis, não permitindo que ela fique sepultada, senão que, impetuosamente, saia em confissão.


Capítulo 1 •   85

50. Jesus respondeu. Ele não dirige reprovação a Natanael, como se ele fosse demasiadamente crédulo. Ao contrário, por seu assentimento aprova sua fé, promete a ele e a todos os demais uma confirmação por meio de argumentos mais contundentes. Além disso, era algo peculiar ser alguém visto por Cristo debaixo de uma figueira, quando ausente e distante dele; mas agora Cristo apresenta uma prova que seria comum a todos, e assim, como se interrompesse seu discurso, ele se volta de um para todos. 51. Vereis o céu aberto, diz ele. Em minha opinião, incorrem em erro os que avidamente inquirem quanto ao lugar onde, e o tempo quando Natanael e os outros viram os céus abertos. Pois ele está, ao contrário, indicando algo contínuo que seria sempre existente em seu reino. Por certo que reconheço que os discípulos, às vezes, viam anjos, os quais não são vistos hoje. Reconheço ainda que a manifestação da glória celestial, quando Cristo ascendeu ao céu, foi diferente do que é agora para nós. Mas se ponderarmos com mais atenção, veremos que o que aconteceu então é de perpétua duração. Pois o reino de Deus, outrora fechado para nós, foi verdadeiro aberto em Cristo. Um exemplo visível desse fato foi mostrado a Estevão [At 7.55] e aos três discípulos no monte [Mt 17.5], bem como aos demais discípulos na ascensão de Cristo [Lc 24.51; At 1.9]. Mas todos os sinais pelos quais Deus se mostra presente conosco estão relacionados com essa abertura do céu, especialmente quando Deus se comunica conosco para ser nossa vida. E os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem. Esta segunda sentença está relacionada com os anjos. Aqui se diz que “sobem e descem”, pois é assim que eles exercem seu ofício como ministros da benevolência divina em relação a nós. Portanto, com esta expressão nota-se uma comunicação recíproca entre Deus e os homens. Ora, é preciso reconhecer que este benefício foi recebido em Cristo, porque sem ele os anjos nutririam mais mortal inimizade contra nós do que um amigo cuidando em nos proteger. Diz-se que eles “sobem e descem” sobre ele, não porque ministrem exclusivamente


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a ele, mas porque, por sua causa e sua honra, incluem todo o corpo da Igreja em seu cuidado. Tampouco ponho em dúvida que ele esteja fazendo alusão à escada que foi mostrada ao patriarca Jacó em sonho [Gn 28.12], pois o que aquela visão esboçava é realmente cumprido em Cristo. Finalmente, a suma desta passagem consiste em que, embora toda a raça humana estivesse excluída do reino de Deus, o portão celestial está agora aberto a todos nós, de modo que somos concidadãos dos santos e companheiros dos anjos [Ef 2.19]; e que eles, designados guardiães de nossa salvação, descem daquele bendito repouso da glória30 celestial para amenizar nossas misérias.

30 “De la glorie celeste.”


O Evangelho Segundo João - Volume 1 - João Calvino  

Editora Fiel

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