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O pastor presbiteriano Hermisten Maia é um dos mais prolíficos eruditos cristãos no Brasil. Aqueles que têm a oportunidade de ler alguns dos seus muitos ensaios e livros se beneficiam não somente das detalhadas bibliografias sugeridas para pesquisa posterior, mas de textos edificados na Sagrada Escritura, em interação respeitosa com a tradição cristã e leais à tradição confessional e reformada. Recomendo com alegria este comentário ao Credo dos Apóstolos, que pode ser usado com proveito no estudo pessoal, em classes de novos membros, grupos pequenos e, em seminários e faculdades teológicas, em cursos introdutórios à teologia sistemática. Que, ao redescobrirmos a beleza e vigor das doutrinas centrais da fé cristã, como expostas nesta obra, sejamos edificados, confortados, guiados e desafiados, e que Deus em tudo seja glorificado. Franklin Ferreira, Diretor do Seminário Martin Bucer

Dr. Hermisten é uma das pessoas mais bem qualificadas no Brasil para sintetizar o pensamento evangélico histórico. A igreja brasileira carece de obras que sejam bíblicas em seu embasamento, teologicamente comprometidas com a interpretação histórica da Igreja Cristã, claras e lógicas em sua exposição e que possam ser aplicadas às necessidades práticas dos cristãos brasileiros. “Creio” reúne todas estas qualificações. Recomendo com entusiasmo. Augustus Nicodemus Lopes, Diretor do Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper.


A despeito do vigoroso espirito combativo demonstrado pela sociedade dos nossos dias contra o cristianismo, não se ignora que este cristianismo consiste no fenômeno mais extraordinário de toda história humana. O Reverendo Hermisten, na sua incessante busca do conhecimento, sua marca indelével, e como arqueólogo do saber teológico, desvenda-nos com grande lucidez as bases e fundações do Cristianismo Bíblico. Analisa as principais “declarações de fé” proferidas pela cristandade. Seu livro pode ser tomado como um manual Histórico-Teológico do pensamento e prática evangélica. Mostra-nos com precisão a “rocha” sobre a qual Cristo, o Filho do Deus Vivo, edifica sua Igreja.” (Mateus 16.18) Wilson Santana, Pastor da Congregação Presbiteriana Memorial - Diadema

Nesta obra encontramos um verdadeiro compêndio de teologia, no mais preciso sentido do termo, caracterizada pela profundidade intelectual, simplicidade pastoral, historicamente contextualizada, intrinsecamente fundamentada na Escritura Sagrada. Leitura essencialmente norteadora para todos que desejam aprofundar-se em conhecer o desenvolvimento histórico de sua fé cristã bíblica, e, por conseguinte, também aspiram explicitá-la de um modo coerente em seu viver. Christian Brially, Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Dr. Hermisten, mais uma vez, nos presenteia com um livro estimulante. Ele demonstra a importância de se estudar o Credo Apostólico, assim como a necessidade de resgatarmos o “Eu Creio” corporativo ao invés do “Eu Creio” individual. Esta é a fé da Igreja do Senhor pelos séculos. Por isto o “Eu Creio” será de grande utilidade para a realidade eclesiástica dos nossos dias. Paulo Brasil, Professor de Hebraico e Exegese do Seminário Presbiteriano do Norte - Recife-PE


A obra “Creio” evidencia muito da personalidade, convicção teológica e zelo ministerial do seu autor. O Rev. Hermisten, há mais de 30 anos no ministério pastoral e docência em seminários, sempre metódico nas suas elaborações e exposições, consegue reunir simplicidade e erudição nas suas aulas, textos e sermões. Além dessas qualidades importantes, o seu temor a Deus e fidelidade às Escrituras, conferem-lhe autoridade. Desde os seus primeiros anos de ministério dedicou-se em preparar cuidadosamente os estudos oferecidos às suas congregações, suprindo-as com material escrito como suporte para acompanhar tais estudos (vários desses textos foram publicados posteriormente por diferentes editoras que zelam pela divulgação da Sã Doutrina). O presente texto, também teve origem como material para a instrução da igreja local, zelosamente preparado. Estendida a sua abrangência, com a publicação, torna-se material de grande relevância para pastores, seminaristas, professores de Escola Dominical e para todos aqueles que se empenham no estudo da doutrina bíblica. A exposição dos temas do Credo Apostólico, analisando o contexto no qual foi produzido, apresentando a sua fundamentação bíblica, dialogando com outras elaborações teológicas de outros períodos, é grande contribuição à Santa Igreja do nosso Senhor Jesus Cristo, para a glória de Deus. José Normando Gonçalves Meira Pastor da Oitava Igreja Presbiteriana de Montes Claros

A importância desta obra está embasada no valor da mais extraordinária expressão cristã, àquela utilizada quando todo crente que ouve as boas novas do Evangelho, por meio do chamado eficaz, faz questão de ressaltar a plenos pulmões: “Eu Creio”. Uma expressão simples e rotineira, que se torna poderosa quando realmente compreendida. Sim, compreendida a expressão “eu creio” significa uma verdadeira Pública Profissão de Fé. Contudo, para dizê-la, em uma época tão relativista nada mais importante do que tomar os caminhos apontados pelas testemunhas verdadeiras que idealizaram o Credo dos Apóstolos, e para nos


conduzir nesta jornada, no valor de cada sentença elaborada pelos nossos pais da fé, é muito bom contar com o pedagogo da Reforma nas terras brasileiras, o professor Hermisten, um teólogo de nosso tempo que sabe como poucos vincular conhecimento teológico a prática vivencial da Igreja. Donizeti Rodrigues Ladeia, Professor de Filosofia e Sociologia no Seminário Teológico Presbiteriano José Manoel da Conceição

O Credo Apostólico é um dos mais antigos e belos documentos da Cristandade. Suas palavras, cuidadosamente selecionadas e precisas, denotam uma riqueza teológica cheia de significado para a fé cristã. Sua fórmula sucinta e fácil de gravar tem sido usada pela igreja cristã há quase dois mil anos, tanto na oportunidade do batismo de novos cristãos como também como expressão de adoração no culto público. É também um poderoso instrumento para a unidade cristã, trazendo a fé cristã a um núcleo confessional fundamental e definindo um perímetro doutrinal seguro. Mas, acima de tudo, o Credo é um compromisso de fé. É a resposta de fé que o cristão sincero pode oferecer à Palavra de Deus, revelada nas Sagradas Escrituras. Neste livro, temos um comentário circunstanciado do Credo, feito com a precisão, clareza, coração pastoral e erudição que caracterizam tudo quanto Dr. Hermisten Maia escreve. Uma obra de referência, que pode ser usada tanto no contexto de ensino na igreja como nas salas de aulas dos seminários. Este é o tipo de livro que não pode faltar em nenhuma biblioteca. Tiago J. Santos Filho, Editor-Chefe Editora Fiel


CREIO

no Pai, no Filho e no EspĂ­rito Santo

Hermisten Maia


C837e

Costa, Hermisten Maia Pereira da Eu creio : no Pai, no Filho e no Espírito Santo / Hermisten Maia Pereira da Costa – São José dos Campos, SP : Fiel, 2014. 608 p. ; 16x23cm. Prefácio de Alceu Davi Cunha. Inclui referências bibliográficas. ISBN 978-85-8132-174-5 1. Credo apostólico. 2. Trindade. I. Título. CDD: 238

Catalogação na publicação: Mariana Conceição de Melo – CRB07/6477

Proibida a reprodução deste livro por quaisquer

Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo

meios, sem a permissão escrita dos editores,

Copyright © 2013 Hermisten Maia Pereira da Costa

salvo em breves citações, com indicação da fonte.

Publicado em português por Editora Fiel Copyright © 2013 Editora Fiel Primeira Edição em Português: 2014

Diretor: James Richard Denham III Editor: Tiago J. Santos Filho Revisão: Editora Fiel Diagramação: Rubner Durais Capa: Rubner Durais ISBN: 978-85-8132-174-5

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária

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ÍNDICE

APRESENTAÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO...................................................9 PREFÁCIO.......................................................................................... 11 PALAVRA EXPLICATIVA........................................................................ 13 1 – OS SÍMBOLOS DE FÉ NA HISTÓRIA: INTRODUÇÃO GERAL................... 17 2 – OS CREDOS E AS CONFISSÕES.......................................................... 39 3 – A INSPIRAÇÃO E INERRÂNCIA DAS ESCRITURAS................................. 87 4 – A FÉ SALVADORA...........................................................................115 5 – A PATERNIDADE DE DEUS...............................................................149 6 – O SOBERANO PODER DE DEUS.......................................................167 7 – O DEUS CRIADOR.........................................................................199 8 – A VINDA DE JESUS CRISTO..............................................................231 9 – A PESSOA DE CRISTO.....................................................................245 10 – A UNIDADE E A NECESSIDADE DAS DUAS NATUREZAS DE CRISTO......255 11 – O FILHO UNIGÊNITO DE DEUS......................................................285


12 – JESUS CRISTO, NOSSO SENHOR.....................................................297 13 – O MINISTÉRIO TERRENO DE JESUS CRISTO.....................................307 14 – OS SOFRIMENTOS DE CRISTO.......................................................317 15 – JESUS, O SALVADOR.....................................................................329 16 – O SACERDÓCIO DE CRISTO..........................................................341 17 – A RESSURREIÇÃO DE CRISTO........................................................355 18 – A ASCENSÃO DE JESUS CRISTO......................................................375 19 – A SEGUNDA VINDA DE CRISTO......................................................385 20 – O JUÍZO FINAL............................................................................419 21 – CREIO NO ESPÍRITO SANTO: SUAS PERFEIÇÕES E DIVINDADE...........437 22 – A IGREJA DE DEUS: UNA, SANTA E UNIVERSAL................................485 23 – AMÉM........................................................................................529 ADENDO..........................................................................................537 O Credo Apostólico em grego, latim e português APÊNDICE 1......................................................................................541 A Igreja Presbiteriana do Brasil e os Símbolos de Fé APÊNDICE 2......................................................................................553 Principais Catecismos e Confissões Reformados: subsídios históricos ÍNDICE SISTEMÁTICO.........................................................................565


APRESENTAÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO

F

oi com muita alegria que recebi o convite da Editora Fiel para publicar a segunda edição deste livro anteriormente publicado pela Editora Parakletos. Já faz quase doze anos quando apresentei a palavra explicativa a respeito da elaboração da primeira edição deste trabalho. Esta nova edição mantém os capítulos originais acrescidos apenas de ampliações de alguns tópicos. Contudo, a teologia é a mesma. Permaneço convencido da necessidade da Igreja permanecer fundamentada na Escritura, valendo-se das contribuições dos diversos servos de Deus ao longo da história, sempre atenta à única autoridade infalível que é Deus falando em sua Palavra. Desejo que este livro continue sendo útil da edificação da Igreja em sua compreensão a respeito de doutrinas ensinadas nas Escrituras e, portanto, fundamentais à nossa fé. Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa Maringá, 20 de janeiro de 2013


PREFÁCIO

A

palavra Credo, cujo significado – creio eu – refere-se ao ato pelo qual o homem reconhece e confessa a realidade e o conteúdo da sua fé. O histórico e precioso documento chamado “Credo dos Apóstolos”, matéria da análise deste livro, tem sido conservado pelos cristãos, e ecoado através dos séculos como uma profissão de fé em que se define a doutrina base da Igreja. Sendo inicialmente elaborado para a confissão de fé batismal dos que iam se tornando cristãos, foi acrescido, posteriormente, de outros artigos, tomando a forma em que o conhecemos hoje. Contudo, desde há muito, até aos nossos dias, em todo o mundo, cristãos de todos os matizes o sabem de cór e o proclamam, liturgicamente, com devoção. No entanto, poucos têm imergido na profundidade doutrinária destas declarações, ou percebido o mundo teológico que as envolve, realçando razões, alicerce e o fundamento bíblico que lhes dão suporte. É isto o que vemos na presente obra do já apreciado e respeitado autor, Rev. Herminsten Maia Pereira da Costa, cuja formação teológica que hoje atinge


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EU CREIO no Pai, no Filho, e no Espírito Santo

a níveis de doutorado, teve sua base no bacharelado do Seminário Presbiteriano do Sul na sua fase pós crise na segunda metade dos anos setenta. Com uma didática de Mestre, trazendo-nos uma soma espantosa de informações, e abrindo-nos, através de substanciosas notas, centenas de obras, o autor esclarece, fundamenta, comunica, informa e, na verdadeira acepção da palavra, ensina a boa doutrina, e o faz com fidelidade e clareza. O pastor, o professor de Escola Dominical, o estudioso da Palavrade Deus vão encontrar neste tratado teológico uma fonte de boa doutrina reformada, desenvolvendo os temas mais importantes da teologia cristã, como Teontologia, Cristologia e Pneumatologia, e outros, inseridos nestes, como Eclesiologia e Escatologia. Todos aqueles que amam a Palavra de Deus, e se deleitam no estudo sério das Escrituras Sagradas, ao compulsarem esta obra serão fortalecidos e perceberão a magnitude e a profundidade que subjazem nesta bendita expressão: "Eu Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo". Ocupando com notável competência, já há quase duas décadas, a cadeira de Teologia Sistemática no Seminário Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição, em São Paulo, o Rev. Hermisten, despretencioso, sempre avesso a honrarias e poder, tem contribuído com sua personalidade, seus livros e aulas, para a formação teológica e ética de algumas gerações de pastores que muito honram o ministério da Igreja Presbiteriana do Brasil. Em meio aos desvios da fé que expressam o tumultuado mundo religioso em que vivemos, chega-nos, em boa hora, esta publicação teológica, bíblica e orientadora, enriquecendo não apenas boas bibliotecas, mas mentes e corações sequiosos da verdade. Somos gratos a Deus pela vida enriquecedora do mestre, teólogo, pastor e amigo, Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, cuja palavra, escrita ou falada, testemunha em verdade o título da sua obra. Alceu Davi Cunha São Bernardo do Campo, outono de 2002


PALAVRA EXPLICATIVA

E

ste livro surgiu basicamente de uma necessidade. Em abril de 1988, percebi a necessidade de elaborar lições para serem estudadas na Escola Dominical da Igreja da qual era pastor: Igreja Presbiteriana de Vila Guarani, São Paulo, Capital. Escolhi o Credo Apostólico como rota de estudo por ver nele uma boa síntese da Fé Cristã. A Igreja começou a estudar os textos no primeiro domingo de julho de 1988, continuando, de modo ininterrupto até agosto de 1991. Na elaboração e análise destes textos, algumas observações devem ser feitas: 1) Os textos foram escritos de maneira mais simples possível a fim de serem acessíveis aos crentes em geral. Neste mister, a Srª Neuraci Maria Toscano Salerno foi de grande valia. Como professora de uma das classes de adultos, eu lhe pedi que lesse boa parte dos textos escritos, a fim de que opinasse quanto à compreensão do mesmo bem como à possibilidade de sua ministração. Ela atendeu o meu pedido com competência e generosidade.


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2) Cada texto foi estudado num período que variou entre quatro e oito semanas. 3) No final de cada capítulo – com poucas exceções –, ao invés de apresentar uma conclusão, indiquei algumas implicações doutrinárias e práticas do assunto abordado. Este método parte da maneira como olho as Escrituras: entendo que toda doutrina ensinada nas Escrituras tem relação com outras doutrinas; e estas, têm implicações direta com a nossa ética. Cada doutrina estudada deve vir acompanhada da questão pessoal e intransferível – e por isso mesmo, de extrema relevância: o que devo fazer? 4) Nos textos originalmente estudados, apresentei, ao final, sugestões de leitura para que o assunto pudesse ser aprofundado por quem se interessasse. Essas sugestões não foram incluídas nesta coletânea. Quanto ao texto que agora temos reunido, devemos destacar algumas coisas. Entre a primeira redação das lições e a sua reunião final, passaram-se vários anos e, algumas modificações foram feitas. Obviamente os textos foram ampliados partindo de algumas novas leituras; no entanto, a estrutura é a mesma do início. Nessas ampliações, os textos ganharam vida própria; assim, alguns comentários feitos em determinados capítulos foram acrescentados a outros para conferir maior sentido na compreensão daquele texto isolado. Deste modo, algumas repetições serão inevitáveis, considerando também que, mesmo reunindo os capítulos, procurei preservar cada um como texto autônomo, para que o leitor, comece por onde começar, tenha sempre um texto completo em cada capítulo. Outro fato, é que, se por um lado os textos foram aperfeiçoados dentro da mesma estrutura, o capítulo sobre o Espírito Santo sofreu aqui um grande corte, tendo em vista que a partir das cinco lições originais, deixei apenas a primeira, com os acréscimos já mencionados. A razão é simples. Esses capítulos tornaramse livro independente, seguindo a mesma estrutura, apenas extremamente maior. No entanto, no capítulo preservado, abordamos o que julgamos essencial a este livro: o tratamento do Espírito como Pessoa Divina.


Palavra Explicativa

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O capítulo sobre o Sacerdócio de Cristo não fazia parte original dessa coletânea. No entanto, o mesmo também foi estudado na Igreja em outro período. Eu o inseri por considerá-lo pertinente à nossa abordagem do assunto. A introdução sobre os Símbolos de Fé, foi apresentada pela primeira vez em 19/5/90, na Igreja Presbiteriana de Pedro Leopoldo, MG., no encontro promovido pela Secretaria de Educação Religiosa do Presbitério Metropolitano. O texto também passou por revisões, no entanto, a estrutura original foi mantida. Finalizando, registro que na redação original de todos esses tópicos, sou devedor a muitas pessoas, que por certo não são responsáveis pelas inevitáveis falhas. Todavia, gostaria de destacar a Srª Neuraci que, como já mencionei, leu grande parte dos primitivos originais; a Igreja Presbiteriana de Vila Guarani – a qual tive a honra de pastorear (1985-1994; 1997-1998) –, que através do seu interesse, sempre me incentivou a continuar escrevendo. Sou grato também, à minha esposa, Eliana, que apesar de seus muitos afazeres domésticos, sempre encontrou tempo para ler meus manuscritos e fazer correções importantes que amenizaram em muito, o meu estilo pedregoso... A todos meus sinceros agradecimentos.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa São Paulo, 19 de abril de 2001.


“A Bíblia é a Palavra de Deus ao homem; o Credo é a resposta do homem a Deus. A Bíblia revela a verdade em forma popular de vida e fato; o Credo declara a verdade em forma lógica de doutrina. A Bíblia é para ser crida e obedecida; o Credo é para ser professado e ensinado” – P. Schaff.1 “O que temos de fazer é reconhecer que somos, muito mais do que reconhecemos, frágeis filhos da tradição, boa ou má, e precisamos aprender a questionar, à luz das Escrituras, aquilo que até aqui aceitamos sem perguntas” – J.I. Packer.2 “Deus permitiu aos heréticos fustigarem sua Igreja exatamente para despertar a mente pelo conflito e para levá-la a buscar a Palavra de Deus” – Abraham Kuyper.3

1  P. Schaff, The Creeds of Christendom, 6ª ed. revised and enlarged, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1977, Vol. II, p. 3. 2 J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 236. 3 Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 57.


Capítulo 1

OS SÍMBOLOS DE FÉ NA HISTÓRIA INTRODUÇÃO GERAL

“N

INTRODUÇÃO

ão devem os filhos entesourar (θησαυριζω)1 para os pais, mas os pais, para os filhos” (2Co 12.14). Paulo entendia que como pai na fé dos crentes coríntios (1Co 4.14-15; 2Co 6.13; 21Co 3.6,10; 9.1)3 deveria alimentá-los e fortalecê-los 1 *Mt 6.19,20; Lc 12.21; Rm 2.5; 1Co 16.2; 2Co 12.14; Tg 5.3; 2Pe 3.7. Para um estudo pormenorizado da palavra, vejam-se: F. Hauck, θεσαυρός: In: G. Friedrich; Gerhard Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, 8ª ed. Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., (reprinted) 1982, Vol. III, p. 136-138; J. Eichler; C. Brown, Posses: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, Vol. III, p. 590-597. 2  “14 Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados. 15 Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores (παιδαγωγός) em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais (πατήρ); pois eu, pelo evangelho, vos gerei (γενναω) em Cristo Jesus” (1Co 4.14-15). “Ora, como justa retribuição (falo-vos como a filhos (τέκνον)), dilatai-vos também vós” (2Co 6.13). 3 Irineu (c. 120-202) usa a mesma expressão, dizendo: “Quem foi instruído por outro por meio da palavra é chamado filho de quem o instruiu e este pai daquele” (Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, IV.41.2. p. 513). Do mesmo modo Agostinho (Veja-se: Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, 1997, Vol. 1, (Sl 44), p. 768). Vejam-se outras referências ao emprego da expressão in: A. Hamman, Pai (Padre) – Padres da Igreja: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Paulinas, 2002, p. 1059-1060; B. Altaner; A. Stuiber, Patrologia, 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 18-20.


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em sua fé. Esta analogia fala-nos, portanto, da responsabilidade do pastor em buscar o suprimento necessário, por intermédio da Palavra, para o progresso espiritual de seu rebanho. Por isso é que “a infidelidade ou negligência de um pastor é fatal à Igreja”.4 Curiosamente a nossa palavra patrimônio (Latim: patrimonium) está associada etimologicamente à palavra pai. Recebemos nosso patrimônio de nossos pais. De fato, de modo especial na infância, com raríssimas exceções, dificilmente podemos contribuir para o aumento dos bens de nossos pais; nós apenas os recebemos. No futuro, possivelmente nossos filhos receberão os nossos bens, muito ou pouco; contudo, certamente entesourados por nós e pelos nossos pais... Salomão, inspirado por Deus, escrevera: “A casa e os bens vêm como herança dos pais....” (Pv 19.14a). O designativo “Pais” foi aplicado aos bispos da Igreja no segundo século. A obra anônima, O Martírio de Policarpo, escrita por uma testemunha ocular do ocorrido, por volta do ano 155 AD, relata que “a turba pagã e judia desejando matar Policarpo, por ser cristão, vociferou: ‘Eis o doutor da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos deuses, que com seu ensino, afasta os homens dos sacrifícios e da adoração’.”.5 (Destaque meu). Isto indica que na época era comum referir-se aos bispos cristãos como “Pais” (no sentido acima descrito, tinha uma conotação pejorativa, como “pai de uma heresia” ou “pai dos hereges”). O emprego dessa expressão disseminou-se de tal forma que, no quarto século, todos os pastores e mestres que haviam participado do Concílio de Nicéia (325), eram chamados de “Pais da Igreja”.6 Entre os cristãos, a expressão aplicada aos bispos assume uma conotação 4 João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 4.16), p. 126. 5  O Martírio de Policarpo, XII.2. In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, p. 39. Para um estudo crítico deste documento, inclusive no que se refere à data do martírio, veja-se: J.B. Lightfoot, The Apostolic Fathers, 2ª ed. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers. © 1989, Vol. I, p. 646-722. Para uma visão abreviada desta discussão, ver: J.B. Lightfoot, The Apostolic Fathers, 10ª ed. Grand Rapids, Michigan: Baker, 1978, p. 103-106. 6  Agostinho (354-430) parece ter sido o primeiro a ampliar o conceito, incluindo São Jerônimo, um presbítero, entre os Pais (Cf. B. Altaner; A. Stuiber, Patrologia, 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 19). Seguindo o exemplo de Agostinho, Vicente de Lérins em 434, aplicou o termo Pai a diversos escritores eclesiásticos sem nenhuma distinção hierárquica. (Ver: Vicente de Lérins, Commonitorium, 31 e 33. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, Vol. XI, p. 155 e 156. (Doravante citado como NPNF2).


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carinhosa, indicando também a sua responsabilidade: “O conceito de ‘Padre da Igreja’ evidencia um aspecto da rica figura paterna: o bispo como autêntico transmissor e garante (sic) da verdadeira fé, aquele que vela pela sucessão ininterrupta da fé desde os apóstolos bem como pela continuidade e unidade da fé na comunhão com a igreja. Ele é o fiel mestre da fé, ao qual se pode recorrer nas dúvidas da fé. Essa autoridade na verdade não torna o Padre da Igreja individualmente inerrante em todos os pormenores – ele deve se ater à Sagrada Escritura e à regula fidei da igreja universal – mas, em sintonia com elas, ele é testemunha autêntica da fé e da doutrina da Igreja”.7 Etienne Gilson (1884-1978), seguindo uma compreensão clássica, diz que um “Pai” deveria apresentar quatro características: “ortodoxia doutrinal, santidade de vida, aprovação da Igreja, relativa antiguidade (até fins do século III aproximadamente)”.8 Curiosamente, na única carta escrita por Calvino a Lutero (25/01/1545), a qual este, ao que parece, jamais recebeu, Calvino se dirige a Lutero como “meu respeitadíssimo pai”, “respeitadíssimo pai no Senhor” e “meu pai sempre honorável”.9 Os documentos da Igreja que recebemos, não são infalíveis (nem mesmo naquilo que é consensual), nem jamais pretenderam isso; contudo, são os tesouros históricos e teológicos que nos foram legados. A sua autoridade é relativa.10 No entanto, a Igreja não pode sobreviver sem a consciência de seu passado, de suas lutas, dificuldades, fracassos e, certamente, por graça, de suas vitórias. Esta consciência deve gerar em nós um espírito de gratidão, humildade e desafio diante da magnitude da Revelação de Deus. Muitas vezes em nossas lutas presentes somos terrivelmente dominados pela sensação delas serem únicas ou as mais violentas. A história de nossos pais 7 Hubertus R. Drobner, Manual de Patrologia, Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, p. 11-12. 8  E. Gilson, A Filosofia na Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1995, “Introdução”, p. XXI. Do mesmo modo: Hubertus R. Drobner, Manual de Patrologia, p. 12; B. Altaner; A. Stuiber, Patrologia, p. 20. 9  João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 53 e 54. 10 Vejam-se: Confissão Gaulesa, Cap. V; François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, Vol. 1, p. 228-234 (com valiosos documentos); Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 13.


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pode ser fonte de grande estímulo, consolo e alerta para nós. Por meio da história de sua vida e testemunho podemos descobrir – às vezes para vergonha nossa –, o quanto nossos irmãos do passado lutaram bravamente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos e da qual somos herdeiros. O nosso presente tende a assumir dentro de alguns contextos o caráter de onipresença, como se fosse um presente contínuo,11 assim, pensamos estar sozinhos em nossa empreitada, nos esquecendo da ação abençoadora e preservadora de Deus ao longo da história que hoje, cabe ser escrita por nós. Crer no Deus Triúno é uma declaração de que não estamos sozinhos; o Pai, o Filho e o Espírito Santo estão conosco; Deus veio a nós criando a nossa fé.12 E mais: todos estamos irmanados pela mesma fé ao longo da história. O Deus em quem cremos é o meu Deus e o Deus de muitíssimos irmãos que ao longo da história têm vivenciado e testemunhado a mesma fé. Veith escreve com propriedade: “Os cristãos modernos são os herdeiros de uma grande tradição intelectual cristã. Essa tradição de pensamento ativo e solução prática de problemas é uma aliada vital dos cristãos que lutam contra as tendências intelectuais do mundo contemporâneo. O uso das perspectivas do passado pode fornecer uma perspectiva valiosa sobre as questões atuais. Podemos, assim, livrar-nos da tirania do presente, a suposição de que a maneira que as pessoas pensam hoje é o único modo possível de pensar”.13

Na Reforma Protestante do século XVI, o uso de Catecismos e Confissões, foi de grande valia para a educação dos crentes, partindo sempre do princípio da necessidade da fé explícita, de que todos os cristãos devem conhecer a sua fé, 11 Dentro de outro contexto e abordagem, o historiador britânico contemporâneo, Eric Hobsbawn (1917-2012), num de seus livros, analisando a nossa presente era, diz que “quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem” (A Era dos Extremos, São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 13). 12 Veja-se: Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 16-17. 13  Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 97.


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sabendo no que creem e porque creem. No Brasil, quando o presbiterianismo foi iniciado (1860),14 o ensino dos símbolos de Westminster teve papel decisivo na consolidação de sua identidade como Igreja Reformada. Hoje, em nome de um suposto “pluralismo” pretensamente acadêmico, o que podemos perceber, é um enfraquecimento desta ênfase, mesmo nos seminários ditos reformados, acarretando um desfiguramento doutrinário por parte de muitos de seus pastores e consequentemente, dos membros da igreja. Por trás de todo pluralismo há o mito da neutralidade acadêmica,15 como se fosse possível alguém ensinar sem seus pressupostos que conduzem a sua perspectiva da realidade. A nossa percepção e ação fundamentam-se em nossos pressupostos16 os quais são reforçados, transformados, lapidados ou abandonados em prol de outros, conforme a nossa percepção dos “fatos”. Os pressupostos se constituem na janela (quadro de referência) por meio da qual vejo a realidade; o difícil é identificar a nossa janela, ainda que sem ela nada enxerguemos.17 Assim, falar sobre a nossa cosmovisão,18 14  Como sabemos o Presbiterianismo brasileiro comemora o seu aniversário em 12 de agosto, tendo como marco a chegada de Ashbel G. Simonton (1833-1867) no Rio de Janeiro, em 12/08/1859. Todavia, usei o ano de 1860, não com o intuito de polemizar a respeito – aliás, porque considero de inteira irrelevância uma discussão deste tipo –, mas sim, porque foi em 22/04/1860 que ele começou uma Escola Dominical em sua casa, sendo este o seu primeiro trabalho evangélico realizado em português. O nosso sistema não é episcopal que entende que onde está o bispo está a Igreja... (Vd. mais detalhes in Hermisten M.P. Costa, Os Primórdios do Presbiterianismo no Brasil: Breves Anotações, São Paulo, 1997). 15 A “neutralidade” é impossível tal qual a “objetividade” completa, no entanto, deve ser buscada. Gilberto Freyre expressou bem isto, ao dizer: “A perfeição objetiva nas Ciências do homem ou nos Estudos Sociais talvez não exista. Mas o afã de objetividade pode existir. É a marca do historiador intelectualmente honesto. E sua ausência, o sinal do intelectualismo desonesto” (Gilberto Freyre, na Apresentação da obra de Davi Gueiros Vieira, O Protestantismo, A Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1980, p. 9). 16  “As pressuposições ainda determinam nossos destinos, mesmo a despeito de alguma inconsistência no caminho” (R.K. McGregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998, p. 15). Dito de forma poética: “Com as ideias, pois, vemos as coisas e na atitude natural da mente não nos damos conta daquelas, do mesmo modo que o olho, ao olhar não se vê a si mesmo. Dito de outro modo, pensar é o afã de captar mediante ideias a realidade; o movimento espontâneo da mente vai dos conceitos ao mundo” (José Ortega y Gasset, A Desumanização da Arte, 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2008, p. 64). 17 “Seria atenuar os fatos dizer que a cosmovisão ou visão de mundo é um tópico importante. Diria que compreender como são formadas as cosmovisões e como guiam ou limitam o pensamento é o passo essencial para entender tudo o mais. Compreender isso é algo como tentar ver o cristalino do próprio olho. Em geral, não vemos nossa própria cosmovisão, mas vemos tudo olhando por ela. Em outras palavras, é a janela pela qual percebemos o mundo e determinamos, quase sempre subconscientemente, o que é real e importante, ou irreal e sem importância” (Phillip E. Johnson no Prefácio à obra de Nancy Pearcey, A Verdade Absoluta: Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2006, p. 11). 18  “Em essência, é um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que sustentamos (consciente ou inconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a formação básica do nosso mundo” (James W. Sire, O Universo ao Lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 21).


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além de ser difícil verbalizá-la, é paradoxalmente desnecessário. Parece que há um pacto involuntário de silêncio o qual aponta para um suposto conhecimento comum: todos sabemos a nossa cosmovisão. Deste modo, só falamos, se falamos e quando falamos de nossa cosmovisão, é para os outros, os estranhos, não iniciados em nossa forma de pensar. Sire resume bem isso: “Uma cosmovisão é composta de um conjunto de pressuposições básicas, mais ou menos consistentes umas com as outras, mais ou menos verdadeiras. Em geral, não costumam ser questionadas por nós mesmos, raramente ou nunca são mencionadas por nossos amigos, e são apenas lembradas quando somos desafiados por um estrangeiro de outro universo ideológico”.19 Tenho observado que se você sustentar uma posição teológica “histórica”, independentemente de sua tradição e de sua argumentação, ela tenderá a ser considerada radical e limitada. Contudo, se você simplesmente se limitar a fazer críticas às tradições teológicas, valendo-se de clichês repetidos e mesmo já abandonados, sem propor nenhuma alternativa bíblica e historicamente viáveis, você será considerado um intelectual profundo, com grande argúcia e capacidade crítica. Talvez até ouça a seu respeito: “aquele cara é meio liberal, mas, é uma capacidade; ele nos faz pensar...”. Esta é uma das falácias do chamado “academicismo” moderno. A epistemologia antecede à lógica e esta, por mais coerente que seja, se partir de uma premissa equivocada nos conduzirá a conclusões erradas e, portanto, a uma ética com fundamentos duvidosos e inconsistentes. Portanto, a questão epistemológica antecede à práxis e em grande parte a determina. Contudo, como nos aprofundar no campo intelectual se abandonamos as questões epistemológicas? As palavras de Machen (1881-1937) no início do século XX não se tornam ainda mais eloquentes nos dias de hoje?: “A igreja está hoje perecendo por falta de pensamento, não por excesso do mesmo”.20 19  James W. Sire, O Universo ao Lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 21-22. 20  J.G. Machen, Cristianismo y Cultura, Barcelona: Asociación Cultural de Estudios de la Literatura Reformada, 1974, p. 19.


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No início do século XIX, ouvia-se o clamor de determinados grupos independentes nos Estados Unidos, que diziam o seguinte: “Nenhum credo senão a Bíblia”.21 Atitude similar ainda hoje é observada em grupos ou pessoas, dentro de denominações chamadas históricas, que manifestam de forma clara o seu desprezo para com os Credos da Igreja ou, de modo velado, não se interessando por eles, como se os Credos fossem apenas uma série de pronunciamentos antiquados, sem nenhuma relevância para a igreja contemporânea ou como se eles pretendessem se constituir numa declaração de fé que rivalizasse com as Escrituras Sagradas, devendo, portanto, ser rejeitados por não estarem de acordo com o espírito da Reforma que, corretamente, enfatizou “Sola Scriptura”. Quando tratamos deste tema, as questões que logo vêm à baila são: Estariam tais grupos ou pessoas errados? Por outro lado, as denominações que têm as suas Confissões de Fé estariam incorrendo em erros? Neste caso, os Credos e as Confissões não estariam sendo colocados no mesmo nível das Escrituras, contrariando, assim, um dos princípios da Reforma, que diz: “Sola Scriptura”? Tais questões parecem-nos de grande relevância e pertinência; cremos poder respondê-las ao longo deste ensaio; todavia, consideramos oportuno realçar preliminarmente, que “Lutero e os reformadores não queriam dizer por Sola Scriptura que a Bíblia é a única autoridade da igreja. Pelo contrário, queriam dizer que a Bíblia é a única autoridade infalível dentro da Igreja”.22 A autoridade dos Credos era indiscutivelmente considerada pelos reformadores – tendo inclusive Lutero e Calvino elaborado catecismos para a Igreja –; contudo, somente as Escrituras são incondicionalmente autoritativas. Um juízo adequado envolve a 21  Cf. M.A. Noll, Confissões de Fé: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, Vol. I, p. 340. Este tipo de declaração também tornou-se comum pelo menos, no início do século XX, quando alguns fundamentalistas além de repetirem a afirmação supra, também bradavam: “Nenhum ‘CREDO’, senão Cristo” (Vejam-se:. R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo: La Santa Iglesia, Grand Rapids, Michigan: SLC., 1985, p. 100; L. Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., c. 1973, p. 22; Gordon H. Clark, Em Defesa da Teologia, Brasília, DF.: Monergismo, 2010, p. 41). Entre o final dos anos 50 e início dos anos 60, Lloyd-Jones disse com tristeza: “No presente século há marcante aversão por credos, confissões e por definições precisas. O cristianismo tornou-se um vago e indefinido espírito de boa vontade e filantropia” (David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: PES., 1994, p. 213). 22  R. C. Sproul, Sola Scriptura: Crucial ao Evangelicalismo: In: J.M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 122.


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justa medida; portanto, nem subestimar, nem superestimar. Por isso, os documentos da Igreja devem ser lidos com reverência e proveito dentro dos limites de sua riqueza e falibilidade.23 Ao iniciar este estudo devemos fazê-lo com espírito de gratidão, tendo como desafio nos apropriar das contribuições de nossos pais (tradição) e, em submissão ao mesmo Espírito, partindo das Escrituras e deste patrimônio riquíssimo buscar respostas para as indagações e questionamentos contemporâneos. “Ouvimos, ó Deus, com os nossos próprios ouvidos: Nossos pais nos têm contado....” (Sl 44.1). Como bons filhos devemos atender ao Mandamento de Deus honrando os nossos Pais.

1. OS SÍMBOLOS DE FÉ: 1.1. ORIGEM DA PALAVRA SÍMBOLO O termo “Símbolo” é proveniente do grego Σύμβολον (“sinal para reconhecer-se”)24, derivado de Συμβάλλειν, (σύν = “junto com” & βάλλω = “atirar”, “lançar”, “semear”25) que significa “comparar” e “lançar junto” e “confrontar”, “pôr junto com”, “fazer coincidir”. O substantivo Συμβολή significa “encontro”, “juntura”, “ajustamento”. “Symbolé pode significar concretamente a articulação do cotovelo ou do joelho: dois ossos diferentes se unem ou se ajustam um ao outro; não se poderia, contudo, conceber concretamente um sem o outro”.26 Na Antiguidade, quando era formalizado um contrato, um objeto era 23 Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, Vol. 1, p. 234. 24 Cf. Emblema: In: J. Corominas; J. A. Pascual, Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico, Madrid: Editorial Gredos, 1980, Vol. 2, p. 562. 25 Vd. Mt 3.10; 13.48; Mc 4.26; 15.24; Ap 14.19. Na voz média, tem o sentido de “deitar em cima de si, pôr sobre si” (βάλλω: In: Isidro Pereira, Dicionário Grego-Português e Português-Grego, 7ª ed. Braga: Livraria Apostolado da Imprensa, (1990), p. 101a). Daí, por analogia: “pensar consigo mesmo”, “ponderar”, “deliberar” (Cf. βάλλω: In: Lindell; Scott, Greek-English Lexicon, Oxford: Humphrey Milford, 1935, p. 126a). 26 Marc Girard, Os Símbolos na Bíblia, 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 26.


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partido e dividido entre as partes contratantes; cada parte do objeto dividido era um “símbolo” de identidade para a junção com o outro pedaço, “um fragmento que exigia ser completado por outra parte para formar uma realidade completa e funcional”.27 Deste modo, as partes reunidas provavam as relações de hospitalidade ou fraternidade já existentes. Posteriormente a palavra passou a significar qualquer sinal ou senha (contra-senha) que transmitisse determinada mensagem.28 Notemos, portanto, que a ideia embutida no conceito de símbolo, é de “dualismo”, separação e junção: as duas partes são separadas para serem “re-unidas”; este estigma de separação o acompanha ainda que apontando para a sua totalidade: a sua perfeita junção.29 O símbolo só tem valor porque aponta para a realidade simbolizada e, a realidade simbolizada carece daquele sinal que a referencia. O substantivo não é empregado no Novo Testamento, no entanto, o verbo συμβάλλω, ocorre seis vezes – somente nos escritos de Lucas –, com o sentido de “calcular”, “considerar”, “consultar”, “contender”, “auxiliar”, “receber” (*Lc 2.19; 14.31; At 4.15; 17.18; 18.27; 20.14)30.31 27 D. Sartore, Sinal/Símbolo: In: Domenico Sartore: Achille M. Triacca, orgs. Dicionario de Liturgia, São Paulo: Paulinas/ Paulistas, 1992, p. 1143b. 28  Ambrósio de Milão, por exemplo, explica: “Símbolo é o termo grego que significa ‘contribuição’. Principalmente os comerciantes se acostumam a falar de contribuição quando ajuntam seu dinheiro e a soma assim reunida pela contribuição de cada um é conservada inteira e inviolável, se bem que ninguém ouse cometer fraude em relação à contribuição. Esse é o costume entre os próprios comerciantes para que, se alguém cometer fraude, seja rejeitado como fraudulento” (Ambrósio, Explicação do Símbolo, São Paulo: Paulus, 1996, 2. p. 23). Vejam-se: F.D. Danker, Simbolismo, Simbología: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Michigan: T.E.L.L., 1985, p. 500; Fernando B. de Ávila, Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo, (Rio de Janeiro), MEC., 1967, p. 457; Símbolo: In: A. Lalande, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia, São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 1015; K.S. Latourette, História del Cristianismo, 4ª ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1978, Vol. I, p. 180-181. Para uma discussão concernente à interpretação da palavra entre os escritores cristãos primitivos, Vd. J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, Salamanca: Secretariado Trinitario, 1980, p. 71ss. 29 Vejam-se: Marc Girard, Os Símbolos na Bíblia, p. 26; Gerd Heinz-Mohr, Dicionário dos Símbolos: imagens e sinais da arte cristã, São Paulo: Paulus, 1994, p. viii-ix. 30  “Maria, porém, guardava (συμβάλλω) todas estas palavras, meditando-as (συμβάλλω) no coração” (Lc 2.19). “Ou qual é o rei que, indo para combater (συμβάλλω) outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?” (Lc 14.31). “E, mandando-os sair do Sinédrio, consultavam (συμβάλλω) entre si” (At 4.15). “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com (συμβάλλω) ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição” (At 17.18). “Querendo ele percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou (συμβάλλω) muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido” (At 18.27). “Quando se reuniu (συμβάλλω) conosco em Assôs, recebemo-lo a bordo e fomos a Mitilene” (At 20.14). 31 Isidro Pereira indica que “συμβάλλω”, na voz média no intransitivo, tem o sentido, entre outros, de “coligir”, “deduzir”, “julgar”, “compreender”, “considerar”. (Isidro Pereira, Dicionário Grego-Português e Português-Grego, 7ª ed. Braga:


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1.2. DEFINIÇÃO DE SÍMBOLO O símbolo está relacionado com algo que ultrapassa o seu valor intrínseco, tendo como caráter intencional apontar para além de si mesmo; ele tem como marca de sua essência o caráter de sua superação, na qual encontra o seu verdadeiro significado.32 Carl Jung (1875-1961), diz o seguinte: “Uma palavra ou imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato”.33 O símbolo é um veículo de comunicação que contribui para romper as barreiras linguísticas,34 permitindo a identificação sem o uso necessário de palavras, as quais por sua vez também são símbolos. A linguagem é sempre um elemento simbólico; a língua é uma espécie daquele gênero. O símbolo não pode ser confundido com o elemento simbolizado e, num primeiro instante, ainda que não seja isso ideal, ele pode não ter nenhuma relação intrínseca com o que representa;35 em muitos casos, a relação estabelecida é apenas no plano de ideia, não do ser em si.36 O valor e limite do símbolo está no fato de que ele representa algo, não o substitui; aponta para o simbolizado, não toma o seu lugar. Substituir o símbolo pelo simbolizado significa destruir o símbolo justamente por eliminar o seu valor instrumental e, pior: esvazia o simbolizado, cuja realidade Livraria Apostolado da Imprensa, (1990), “συμβάλλω”, p. 539b). Talvez indicando a ideia de “cotejar” os fatos. 32 Vd. Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, I.2.2. p. 52-53. 33 Carl G. Jung, org. O Homem e seus Símbolos, 9ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, (s.d.), p. 20. Agostinho já dissera: “O sinal é, portanto, toda coisa que, além da impressão que produz em nossos sentidos, faz com que nos venha ao pensamento outra ideia distinta” (Agostinho, A Doutrina Cristã, II.1.1. p. 93). (Vd. também, Agostinho, De Magistro, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. VI), 1973, p. 319-356). 34  Ernest Cassirer (1874-1945), diz: “.... Nenhum processo mental chega a captar a realidade em si, já que, para poder representá-la, para poder, de algum modo, retê-la tem de socorrer-se do signo, do símbolo. E todo o simbolismo esconde em si o estigma da mediatez, o que o obriga a encobrir quanto pretende manifestar. Assim, os sons da linguagem esforçam-se por ‘expressar’ o acontecer subjetivo e objetivo, o mundo ‘interno’ e ‘externo’; porém, o que captam não é a vida e a plenitude individual da própria existência, mas apenas abreviatura morta. Toda essa ‘denotação’, que as palavras ditas pretendem dar, não vai, realmente, mais longe que a simples ‘alusão’; alusão que parecerá mesquinha e vazia, frente à concreta multiplicidade e totalidade da experiência real” (Ernest Cassirer, Linguagem, Mito e Religião, Porto: Rés-Editora, (s.d.), p. 11-12). 35 É aqui que alguns divergem, aplicando esta conceituação ao “sinal”, entendendo que o “símbolo” tem uma conexão necessária com o simbolizado. 36  Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Literatura Apocalíptico-Judaica, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, p. 40ss.


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sempre é mais ampla do que o símbolo.37 Os símbolos são “imagens de cousas ausentes”.38 Por isso é que o “signum” (signo) é contrastado com a “res” (coisa) que é considerada em si e por si mesma.39 Portanto, a presença do simbolizado, torna desnecessário o símbolo; no entanto, aquilo para o que o símbolo apontava, quando plenificado, pode se constituir em um novo símbolo que aponta para o futuro ou, se transforma num símbolo do que antes era o símbolo, mas que agora é simbolizado. Cito um exemplo que talvez possa elucidar a minha observação: Conheço um homem que todos os sábados viajava 100 quilômetros para construir a sua casa em outra cidade; este empreendimento durou vários anos. Todo este esforço, que envolvia obviamente a participação da família, inclusive no sentido de se conformar com a sua ausência, tinha como meta, a concretização de um sonho em processo de realização. Estive posteriormente na casa desse meu amigo. Conversei a respeito disso. Na realidade, a sua bela casa (e essa qualidade pouco importa quanto ao símbolo) é a presença do que fora ausente e, ao mesmo tempo, serve como símbolo de um esforço contínuo e perseverante de uma família. Num futuro esta mesma casa, pode apontar para uma realidade vivida e para um futuro almejado: o simbolizado, agora, torna-se símbolo de um esforço e de uma esperança. De certa forma podemos dizer que Gilgal nas Escrituras adquiriu uma condição de símbolo da bênção e direção de Deus. Recapitulemos um pouco: Um dos fatos memoráveis registrados nas Escrituras é a travessia do rio Jordão pelo povo de Israel, quando então, adentra à terra prometida; ali Deus ordena que os sacerdotes retirem doze pedras do rio, porque elas “serão para sempre por memorial (rz) (zikârôn)40 (LXX: μνημόσυνον) aos filhos de Israel” (Js 4.7).41 37 Veja-se: F.E. Gaebelein, Simbolismo/Símbolo: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, Vol. 5, p. 630. 38 João Calvino, As Institutas, IV.17.21. 39 Vd. Signum: In: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, 4ª ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1993, p. 282. 40  O nome Zacarias é proveniente desta palavra hebraica (hyrkz)(Zekaryâ), significando: Zacarias (“O Senhor se lembrou”) 41  Vejam-se também: Ex 12.14; 13.9. Nestes textos, a LXX usa a mesma palavra grega.


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“As doze pedras, que tiraram do Jordão, levantou-as Josué em coluna em Gilgal. E disse aos filhos de Israel: Quando no futuro vossos filhos perguntarem a seus pais, dizendo: Que significam estas pedras? Fareis saber a vossos filhos, dizendo: Israel passou em seco este Jordão. Porque o Senhor vosso Deus fez secar as águas do Jordão diante de vós, até que passásseis, como o Senhor vosso Deus fez ao Mar Vermelho, ao qual secou perante nós, até que passamos. Para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor é forte: a fim de que temais ao Senhor vosso Deus todos os dias” (Js 4.20-24).

Cerca de 700 anos depois (c. 725 a.C.), Deus fala ao Reino Norte por intermédio do profeta Miquéias: “Povo meu que te tenho feito? e com que te enfadei? Responde-me. Pois te fiz sair da terra do Egito e da casa da servidão te remi; e enviei adiante de ti Moisés, Arão e Miriã. Povo meu lembra-te (rkz) (zekhâr) (LXX: μιμνήσκω) agora do que maquinou Balaque, rei de Moabe, e do que lhe respondeu Balaão, filho de Beor, e do que aconteceu desde Sitim até Gilgal;42 para que conheças os atos de justiça do Senhor” (Mq 6.3-5). Notemos, portanto, que ao mesmo tempo em que Gilgal tornou-se o símbolo de uma vitória já alcançada (Terra Prometida) servia como símbolo do cuidado abençoador e poderoso de Deus, que preserva o seu povo conduzindo-o à vitória. Os símbolos têm normalmente um duplo significado: objetivo e, obviamente, diversos sentidos subjetivos;43 eles revelam e encobrem;44 o uso dos 42 “Gilgal se tornou a base de operações de Israel, depois da travessia do rio Jordão (Js 4.19), e foi foco de uma série de acontecimentos durante a conquista: doze pedras comemorativas foram estabelecidas quando Israel armou acampamento ali (Js 4.20); a nova geração cresceu no deserto e só em Gilgal foi circuncidada; a primeira Páscoa celebrada em Canaã foi efetuada ali (Js 5.9,10). De Gilgal, Josué liderou as forças israelitas contra Jericó (Js 6.11,14ss.). (...) Gilgal tornou-se ao mesmo tempo um lembrete sobre a libertação outorgada por Deus no passado, um sinal de vitória presente, debaixo de sua orientação, e viu a promessa da herança que ainda seria apossada” (K. A. Kitchen, Gilgal: In: J.D. Douglas, ed. ger. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, Vol. II, p. 671). 43  “O símbolo assemelha-se ao cristal, que reflete a mesma luz de maneira muito diversa” (Gerd Heinz-Mohr, Dicionário dos Símbolos, p. xiii). 44 Analisando a questão pela perspectiva do intérprete, Julien Naud comenta: “Quando um símbolo é familiar a alguém, sua compreensão consiste em seguir o movimento da imagem que espontaneamente conduz àquilo que esta sugere. Mas quando alguém é introduzido num conjunto simbólico que comporta uma distância no tempo e no espaço cultural, é necessário que efetue um longo desvio na interpretação; socorrendo-se de diversos métodos de leitura, pode atingir o que é sugerido pelo texto, isto é, o tipo de mundo que lhe é proposto pelo próprio texto” (Julien Naud, Simbolismo: In: René Latourelle; Rino Fisichella, dirs. Dicionário de Teologia Fundamental, Petrópolis, RJ./Aparecida,SP.: Vozes/Santuário,


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símbolos envolve normalmente um “público alvo” a quem me dirijo, tentando ser compreendido por ele. Por outro lado, de forma explícita ou velada, uso deste recurso para ocultar a minha mensagem, despistar os “estranhos”, não iniciados. É claro que nem sempre isto está em nível de consciência, no entanto, quando nos damos conta disso, tendemos naturalmente a usar desse recurso. O homem é um “animal simbólico”;45 a capacidade de responder a símbolos é própria do ser humano;46 por isso ele se vale deste veículo para se comunicar; os símbolos são puramente funcionais; quando esta sua utilidade desaparece quer por seu desgaste, quer por convenções diferentes em lugares outros, aqueles se tornam desnecessários – já que não funcionam – dentro de seu propósito primeiro. O símbolo também pode ser usado como elemento de convergência de um povo ou de um grupo: reunimos pessoas em torno de um gesto que simboliza os nossos ideais e valores;47 o desenho e as cores de nossa bandeira que nos falam de “pátria” e “nação”; os hinos que nos emocionam conduzindo-nos a uma postura de luta em prol de uma causa que eles tão bem sintetizam em nosso imaginário, ainda que circunstancialmente48... Assim, mudar um símbolo é mais do que mudar uma simples “marca”, é modificar uma concepção, uma perspectiva do mundo e da realidade; este ato envolve a memória e a imaginação, visto que mexe nas estruturas da lembrança de um fato ou no conjunto de fatos que deram origem àquele símbo1994, p. 897b). Na mesma linha, escreveu Gerd Heinz-Mohr na introdução de seu Dicionário dos Símbolos: “Símbolos, na verdade, velam e revelam a um só tempo. Por isso, permanece e sempre permanecerá certa margem de divergências em sua interpretação, sem que se venha a questionar a constatação e a importância do todo” (Gerd Heinz-Mohr, Dicionário dos Símbolos, p. vi). À frente: “A linguagem simbólica é a linguagem da religião com respeito à realidade que supera a compreensão humana. É a um só tempo mistério e revelação. Vela as verdades santas ao olhar profano, mas também as desvela a quantos sabem lê-la” (Gerd Heinz-Mohr, Dicionário dos Símbolos, p. ix). 45  Ernst Cassirer, Antropologia Filosófica, 2ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977, p. 51. 46 Veja-se: F.E. Gaebelein, Simbolismo/Símbolo: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, Vol. 5, p. 626. 47 Os gestos como “moedinhas de circulação indispensável e diária” são ricos em manifestação de pensamentos e sentimentos. A sua interpretação não é unívoca, variando de acordo com os interesses de quem os interpreta ou conforme as convenções múltiplas entre os povos. “Não havendo a obrigatoriedade do ensino mas sua indispensabilidade no ajustamento da conduta social, todo nós aprendemos o gesto desda a infância e não abandonamos seu uso pela existência inteira” (Luís da Câmara Cascudo, História dos Nossos Gestos, Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP., 1987, p. 11,19). 48 Eusébio diz que quando Constantino entrou vitorioso em Roma cantou hinos ao Senhor (Ver Eusébio de Cesarea, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, (Biblioteca de Autores Cristianos, Vols. 349-350), 1973, IX.9.8-9).


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lo e também, no imaginário coletivo que o símbolo concentra e ao mesmo tempo germina: um símbolo tem uma conotação de memória e de esperança; ele marca no tempo o nosso compromisso com o passado – quer de acordo, quer de oposição –, e a nossa responsabilidade para com o futuro que temos de construir sob aquela “marca” que nos distingue e identifica. Mudar um símbolo assemelha-se a mudar as leis ou a Constituição. Maquiavel (1469-1527) percebeu bem isso, ao dizer: “Nunca coisa nenhuma deu tanta honra a um governante novo como as novas leis e regulamentos que elaborasse. Quando estes são bem fundados e encerram grandeza, fazem com que ele seja reverenciado e admirado”.49 Não é à toa que há, com frequência entre os governantes, o desejo de fazer uma nova Constituição. Quando não se consegue, muda-se a “marca”, para que depois, quem sabe, as leis possam ser mudadas. Portanto, não é de estranhar o fato de que quando Constantino (280337) se declarou convertido ao Cristianismo,50 alegando ter uma visão antes da Batalha da Ponte Mílvia (28/10/312),51contra Maxêncio,52 ordenasse que fosse pintado na bandeira, no seu capacete e no escudo de seus soldados um símbolo monogramático , que representava o nome de Cristo.53 Dizendo que agora, conforme vira em sonho, este sinal estava acompanhado da inscrição: “Por este sinal vencerás” (“in hoc signo vinces”). Eusébio relata que Constantino empregou este “símbolo de salvação” contra todas as adversidades e inimigos:54 Aqui, conforme queria Constantino, estava um novo sinal que apontava para a origem de suas vitórias: “Por este sinal vencerás!”. Vejamos as distinções estabelecidas aos símbolos. 49 N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. IX), 1973, Cap. XXVI, p. 114. 50 Vd. Eusébio de Cesarea, Historia Eclesiastica, IX.9.1ss. Idem, The Life of Constantine The Great, I.26-40. In: P. Schaff; H. Wace, eds. NPNF2., Vol. I, p. 489-493. 51 “Numa perspectiva mais ampla, a vitória de Constantino na Ponte de Mílvia foi muito mais importante para a história do Cristianismo do que para a história de Roma” (Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 54) (Há uma bela pintura feita em 1613 por Pieter Lastman (1583-1633), um dos mestres de Rembrandt (1606-1669), A mesma pode ser vista em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Milvbruck.jpg#file). (acessado em 20/07/2010). 52 Constantino era casado com Fausta, irmã de Maxêncio. Maxêncio foi derrotado nesta batalha, morrendo afogado enquanto fugia. 53 Eusebius, The Life of Constantine The Great, I.30-31. In: NPNF2, I, p. 490-491. 54 Eusebius, The Life of Constantine The Great, I.31. In: NPNF2, I, p. 491.


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1.3. TIPOS DE SÍMBOLOS A classificação dos símbolos pode obedecer a diversos critérios, sem contar as diferenças de conceitos que alguns fazem entre símbolo e sinal;55 todavia, para o nosso estudo, no qual este assunto é apenas secundário, não adentrarei à tais questões,56 seguindo uma classificação quase que “convencional”. Ei-la: Convencional, Acidental e Universal.

1.3.1. SÍMBOLO CONVENCIONAL É aquele em que a relação entre o símbolo e o objeto simbolizado é convencionada, não havendo necessariamente nenhuma relação essencial entre eles. Por exemplo: o som da palavra “cadeira” está relacionado com aquilo que estou sentado neste instante. Qual a relação essencial entre as letras C-A-D-E-I-R-A e o objeto “cadeira”? Nenhuma. Nós estabelecemos esta relação mental porque aprendemos assim e, desta forma, a relação foi convencionada. A linguagem é um conjunto de símbolos (= sinais) convencionais que visam a comunicação;57 o mesmo ocorre com as cores do semáforo, a sinalização rodoviária, etc. 55 A palavra sinal (σημε�ον) indica uma marca ou sinal indicativo pelo qual alguma coisa é identificada; aponta para outra coisa cujo significado parece obscuro. (Apresentaremos mais detalhes sobre a palavra em nota posterior). 56 Para uma visão comparativa entre símbolo e sinal, ver, entre outros: Paul Tillich, Dinâmica da Fé, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1974, p. 30ss.; Idem., Teologia Sistemática, São Paulo/São Leopoldo, RS.: Paulinas/Sinodal, 1984, p. 201ss. e 252; Battista Mondin, O Homem, quem é Ele?, São Paulo: Paulinas, 1980, p. 136-138; Marc Girard, Os Símbolos na Bíblia, p. 46-47; Ernst Cassirer, Antropologia Filosófica, 2ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977, p. 59ss.; F.E. Gaebelein, Simbolismo/ Símbolo: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, Vol. 5, p. 626. 57 O Homem é um ser comunicativo! O Homem, “é a única criatura na terra capaz de colocar a comunicação em forma de símbolos sem nenhuma relação com seus referentes, além daquela que a mente humana lhe atribui. Além disso, transcendendo o tempo e o espaço, ele consegue passar informações a outros em lugares remotos ou àqueles que ainda vão nascer” (David J. Hesselgrave, A Comunicação Transcultural do Evangelho, São Paulo: Vida Nova, 1994, Vol. I, p. 23). Portanto, “Comunicar é uma maneira de compreensão mútua” (Rollo May, Poder e Inocência, Rio de Janeiro: Artenova, 1974, p. 57-58), sendo a comunicação fundamental para o desenvolvimento psíquico e social do ser humano. Comunicar, etimologicamente, significa, “tornar comum”. Neste ato de comunicar, formamos uma comunidade, constituída por aqueles que sabem, que partilham do mesmo conhecimento; assim, a comunicação é uma quebra de isolamento individual, para que haja uma comunhão (Vd. José Marques de Melo, Comunicação Pessoal: Teoria e Pesquisa, 6ª ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1978, p. 14). “A ‘comunhão’ encontra-se em códigos partilhados mutuamente” (David J. Hesselgrave, A Comunicação Transcultural do Evangelho, p. 39), porque somente assim poderá o “código” ser “decodificado”, estabelecendo-se deste modo a comunicação. Todo homem é uma ilha, até que resolva fazer parte do continente; isto ele faz por intermédio da comunicação. O filósofo G.W. Leibniz (1646-1716), colocou a questão nos seguintes termos: “Tendo criado o homem para ser uma criatura sociável, Deus não só lhe inspirou o desejo e o colocou na necessidade de viver com os de sua espécie, mas outorgou-lhe igualmente a faculdade de falar, faculdade que deveria constituir o grande instrumento e o laço comum desta sociedade. É daí que provêm as palavras, as quais servem para representar, e até para explicar as ideias” (G.W. Leibniz, Novos Ensaios, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. XIX), 1974, III.1.1).


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A relação entre o símbolo e a realidade simbolizada muitas vezes tem uma ligação bastante tênue, dependendo de uma explicação que – mesmo não esgotando o assunto –, faculta a percepção da relação possível, ainda que outras também o sejam. Na convencionalidade do símbolo, há a priorização de determinada característica, elevando-a ao conceito de ponto dominante ou de univocidade, estabelecendo assim uma relação em nosso imaginário entre o ponto priorizado ou exclusivizado e a coisa simbolizada. Portanto, o símbolo é sempre parcial; ele não esgota a realidade simbolizada nem exaure por completo o sentido do instrumento simbolizante. Como exemplo cito o fato de que mesmo a cruz sendo um símbolo do Cristianismo, sabemos que a cruz não diz tudo a respeito da fé cristã e, por sua vez, a cruz não se aplica apenas a este fim. Encontramos um resumo do que estamos dizendo nas palavras de Schlette: “No exemplo do símbolo cristão da cruz podemos perceber que também a analogia (do ser) entre o objeto simbólico e aquilo que é simbolizado não é absolutamente necessária (embora conveniente) para que surja o símbolo (pelo menos o símbolo cristão) no fato de que uma cruz, antigo instrumento de suplício, possa se tornar o símbolo da fé cristã na salvação, não podemos ver senão um paradoxo e uma prova da superioridade da analogia fidei sobre a analogia entis”.58 A cruz que nos fala de sofrimento, dor e aparente derrota, para o cristão significa também a justiça de Deus, seu amor, santidade e o prenúncio da ressurreição: vitória sobre o pecado, a morte e o diabo. A cruz é o fundamento da ressurreição, ascensão e regresso glorioso de Cristo. “A cruz tanto domina como permeia toda a verdadeira teologia cristã, com seu fio tecido através de sua estrutura”.59 Calvino (1509-1564) comentando as Epístolas de Paulo, evidencia parcialmente isso: “Paulo mostra quão estúpido é desprezar em Cristo a humilhação da cruz, visto que esta se acha associada à incomparável glória de sua ressurreição”.60 Em outro lugar: “Para concluir com poucas palavras, afirmo que 58 H.R. Schlette, Símbolo: In: Heinrich Fries, org. Dicionário de Teologia: conceitos fundamentais da Teologia atual, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1987, Vol. V, p. 234-235. 59  Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 36. 60  João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 13.4), p. 262.


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a cruz de Cristo triunfa definitivamente no coração dos crentes contra o Diabo, a carne, o pecado, a morte e os ímpios quando voltam seu olhar para contemplar o poder da sua ressurreição”.61 Ilustrando aspectos que desenvolvemos no parágrafo anterior, perguntamos: Qual a explicação para as cores de nossa bandeira? Por que a sarça ardente se constituiu durante tantos anos no símbolo da Igreja Presbiteriana do Brasil? E quanto ao símbolo atual? Ou, tomando os exemplos de Girard: “Por que a folha vermelha do ácer se tornou o emblema do Canadá?62 Por que o azul-branco-vermelho simboliza a França,63 e o sol vermelho sobre fundo branco, o Japão?64 A flora canadense está longe de restringir-se a uma só espécie vegetal, mais típica, aliás, do Leste que do Oeste do país; e a cor verde da folha de ácer pode ser observada por muito mais tempo do que sua efêmera cor de outono! A cada uma das faixas verticais da bandeira tricolor francesa é ligada mais ou menos artificialmente uma significação (cor, respectivamente, da cidade capital, da realeza, 61 João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. IV, (17.38), p. 218. Outros exemplos: “A cruz de Cristo triunfa sobre o diabo, a carne, o pecado e a maldade nos corações dos crentes, somente quando estes elevam seus olhos para contemplar o poder de sua ressurreição” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 68). “A morte do Senhor Jesus Cristo na cruz do Calvário não foi um acidente; foi obra de Deus. Foi Deus quem o ‘manifestou’ ali” (David M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1980, p. 3). “Se lhes fosse solicitado responder onde a Bíblia ensina a santidade de Deus mais poderosamente teriam de ir ao Calvário. Deus é tão santo, tão plenamente santo, que nada senão aquela morte terrível poderia tornar possível que Ele nos perdoasse. A cruz é a suprema e a mais sublime declaração e revelação da santidade de Deus” (D. M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997, p. 97). “A cruz é o centro da história e a reconciliação de todas as antíteses” (Herrman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 48). “Na cruz está contida a totalidade da redenção e todas as suas partes, mas a ressurreição de Cristo não nos afasta da cruz” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 6.14), p. 188). “Na cruz, a misericórdia e a justiça divina foram igualmente expressas e eternamente reconciliadas. O santo amor de Deus foi ‘satisfeito’.” (John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Florida: Editora Vida, 1991, p. 79). “Quando (...) tivermos um vislumbre da deslumbrante glória da santidade divina, e formos convencidos de nosso pecado pelo Espírito Santo de tal modo que tremamos no presença de Deus e reconheçamos o que somos, a saber, pecadores que merecem ir para o inferno, então, e somente então a necessidade da cruz ficará tão óbvia que nos espantaremos de jamais tê-la visto antes. O pano de fundo essencial da cruz, portanto, é uma compreensão equilibrada da gravidade do pecado e da majestade de Deus. Se diminuirmos uma delas, diminuímos a cruz” (John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, p. 99). 62 63 As três faixas do mesmo tamanho (azul, branca e vermelha) simbolizam a Revolução Francesa (1789), sendo que o azul representa o poder legislativo, branco o poder executivo e o vermelho o povo, os três dividindo igualmente o poder. Ver: “http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeira_da_ Fran%C3%A7a” 64


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da revolução); mas, pode-se perguntar, por que o azul está à esquerda, ao passo que na bandeira holandesa, marcada pelas mesmas três cores (de interpretação diferente), o azul está na faixa horizontal inferior?65 Enfim, ninguém pretenderá que o sol se levante só no Japão, não obstante no país do sol levante”.66 Outro ponto que gostaria de realçar, é que os símbolos convencionais, conforme vimos, também são usados para ocultar uma mensagem daqueles que não sabem a relação estabelecida entre o símbolo e a sua mensagem. Na literatura apocalíptica judaica os símbolos foram amplamente usados; o seu objetivo era levar uma mensagem de conforto para os judeus – que no caso, tinham condições de discernir e interpretar os símbolos –, e ocultá-la dos opressores estrangeiros.67 A Igreja Primitiva, por exemplo, usou o símbolo do peixe para expressar a sua fé e, ao mesmo tempo para ocultá-la aos seus perseguidores.68 Peixe em grego, se escreve ιχθύς; todavia, os cristãos primitivos tomaram a palavra e a escreveram em forma de acróstico: ̓Ιησου̑ς Χριστός Θεός υἱός Σωτήρ. I – ̓Ιησου̑ς (JESUS) X – Χριστός (CRISTO)

Assim temos:

Q – Θεός (DEUS) U – υἱός (FILHO)

“JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS, SALVADOR”

S – Σωτήρ (SALVADOR) Os cristãos primitivos também chamavam a Jesus de “Peixe”, visto entende65 As cores de forma ascendente são: azul, branca e vermelha. 66 Marc Girard, Os Símbolos na Bíblia, p. 27-28. 67 Vd. Hermisten M.P. Costa, A Literatura Apocalíptica Judaica, p. 43-44. 68 Ver: Peixe: In: Gerd Heinz-Mohr, Dicionário dos Símbolos: imagens e sinais da arte cristã, São Paulo: Paulus, 1994, p. 283. O autor também apresenta outros empregos deste símbolo por parte dos cristãos primitivos e na arte cristã posterior (p. 283-285).


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rem na palavra uma confissão de fé. Além disso, Tertuliano (c. 160-220), escrevendo por volta do ano 200 contra uma seita obscura, denominada “cainitas” – que, entre outras heresias, tentava reabilitar a figura de Caim e de Judas,69 combatendo também o batismo cristão –, emprega a sugestiva figura referindo-se ao batismo: “Mas, nós, os peixinhos, segundo nosso ‘Ichthys’ Jesus Cristo, no qual nascemos, só somos salvos permanecendo na água”.70 Há também uma catacumba do terceiro ou quarto século, encontrada na França, em 1839, que traz um registro referindo-se a Jesus desta forma.71 E este não foi um caso isolado.72 Agostinho (354-430), explicando o emprego desse símbolo, interpreta: “Esse nome místico simboliza Cristo, porque apenas Ele foi capaz de viver vivo, quer dizer, sem pecado, no abismo de nossa mortalidade, semelhante às profundezas do mar”.73 Todavia, o uso corrente deste símbolo logo desapareceu; no princípio do quinto século já não mais o encontramos na arte religiosa.74

1.3.2. SÍMBOLO ACIDENTAL O símbolo acidental é praticamente exclusividade de cada um, diferindo de pessoa para pessoa, sendo por isso, difícil de ser transmitido. Ele representa de forma subjetiva, aquilo que ocorre conosco. Exemplifiquemos: Suponhamos que você haja tido uma boa experiência de vida numa determinada cidade, bairro ou rua onde vive. Posteriormente você se muda para outra cidade ou bairro e, aquele 69 Irineu (c.120-202) que escreveu a respeito dos cainitas, retrata a posição deste grupo gnóstico: “Dizem que Judas, o traidor, sabia exatamente todas estas coisas (a respeito da importância de Caim, Esaú, Coré) e por ser o único dos discípulos que conhecia a verdade, cumpriu o mistério da traição e que por meio dele foram destruídas todas as coisas celestes e terrestres. E apresentam, à confirmação, um escrito produzido por eles, que intitulam Evangelho de Judas” (Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.31.1. p. 122). 70 Tertuliano, O Sacramento do Batismo: teologia pastoral do batismo segundo Tertuliano, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1981 (Col. Os Padres da Igreja/3) Cap. I, p.15. Tertuliano: “Mas nós, peixinhos, nascemos da água segundo nosso ichtys Jesus Cristo” (Apud Peixe: In: Gerd Heinz-Mohr, Dicionário dos Símbolos, p. 284). Mircea Eliade analisa o uso bastante generalizado na antiguidade do “simbolismo aquático” (Ver: Mircea Eliade, Imagens e Símbolos, São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 151ss.). 71 Vejam-se os dizeres da catacumba, In: Henry Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, p. 127. 72 Cf. Justo L. Gonzalez, A Era dos Mártires, São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 159. 73 Agostinho, A Cidade de Deus, 2ª ed. Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Federação Agostiniana Brasileira, 1990, Vol. II, XVIII.23. p. 336-337. 74 Cf. Withrow, Catacumbas, p. 252-255. Apud Benjamin Scott, As Catacumbas de Roma, 4ª ed. Rio de Janeiro: CPAD., 1982, p. 106. Ver também: M. Carletti, Símbolos-Smbolismo: In: Ângelo Di Bernardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades cristãs, Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Paulus, 2002, p. 1291a.


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antigo local de sua residência, transmite a você aquelas lembranças agradáveis, aqueles sentimentos que permearam a sua existência ali, passando a ser o símbolo de uma agradável saudade. Particularmente, Campinas e Belo Horizonte me trazem sentimentos análogos, pois, foi respectivamente onde passei quatro dos melhores anos de minha vida de estudante e, onde comecei o meu ministério pastoral e docente. Ambas as cidades são para mim o símbolo de alegria e aprendizado, embora não possa transferir estes símbolos... Se, por outro lado, alguém tiver passado maus momentos nestas mesmas cidades, ambas terão em sua lembrança um simbolismo bem diferente, daí a impossibilidade de se comunicar o símbolo acidental. A outra pessoa poderá até entender o que estamos dizendo, todavia, isto não faz parte da sua experiência e, dificilmente poderá ser interiorizado como tal.75

1.3.3. SÍMBOLO UNIVERSAL O símbolo universal é aquele em que há uma relação intrínseca entre o símbolo e aquilo que ele representa, podendo por isso, ser compartilhado com todos; desta forma, temos: O choro = tristeza; sorriso = alegria; fumaça = fogo; nuvem escura = chuva iminente; sol = vida; água = pureza, etc. É claro que alguns destes símbolos podem, eventualmente, representar uma imagem diversa: alguém chora de alegria; ri de nervosismo e tristeza; as águas sujas, indicando a poluição dos rios, etc., todavia, estas exceções não invalidam a universalidade destes símbolos, apenas a confirmam.

1.4. A IGREJA E OS SÍMBOLOS A Bíblia está repleta de símbolos: cores, números, animais, nomes de lugares e de pessoas, metais, pedras preciosas, etc. Como já vimos, a Igreja pós-apostólica, sentiu-se à vontade para empregar figuras que expressassem a sua fé em Deus: O acróstico da palavra “peixe” (“Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”); as duas letras 75 Ainda que não usando do mesmo tipo que emprego, Gaebelein apresenta algumas analogias enriquecedoras do que estamos falando. Ver: F.E. Gaebelein, Simbolismo/Símbolo: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, Vol. 5, p. 627.


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iniciais do nome “Cristo”, colocadas uma sobre a outra (X (Chi) e P (Rho)) = (“Cristo”); um círculo (= “vida eterna”); e o triângulo com três lados iguais (= Trindade), são apenas alguns dos muitos símbolos usados pela Igreja.76 Todavia, a palavra símbolo foi usada pela primeira vez no sentido teológico, por Cipriano77 em 250, nas suas Epístolas (76 ou 69), referindo-se ao cismático Novaciano.78 O Credo Apostólico (2º século) – que fora atribuído tradicionalmente aos apóstolos – recebeu o designativo de símbolo, ao que parece no Sínodo de Milão (390), numa carta subscrita por Ambrósio (c. 334-397), sendo designado de “symbolum apostolorum”.79 Lutero (1483-1546) e Melanchthon (1497-1560) foram os primeiros a usarem a palavra “símbolo” para os credos protestantes,80 passando desde então, a designar os Catecismos e Confissões adotados pelas Igrejas Luteranas e Reformadas como elementos distintivos da sua compreensão teológica.

76 Cf. Benjamin Scott, As Catacumbas de Roma, p. 95ss.; F.R. Worth, Simbolism: In: Vergilius Ferm, ed. An Encyclopaedia of Religion, New York: The Philosophical Library, 1945, p. 754; Simbolos, Histórico-Cristãos: In: Russel N. Champlin; João Marques Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, São Paulo: Candeia, 1991, Vol. VI, p. 276-277. 77 Vejam-se os textos das Epístolas In: A. Roberts; J. Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers, New York: The Christian Literature Publishing Company, 1885, Vol. V, (Epístola 76), p. 402-404; (Epístola 69), p. 375-377. (Doravante citado como ANF). 78 Cf. Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6ª ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, Vol. I, p. 3 (Doravante citado como COC) e Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk; Wagnalls, Publishers, (revised edition), (1891) Vol. IV, p. 2276. 79 Ambrósio, Ep. 42,5. (Vejam-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 15; F.D. Danker, Simbolismo, Simbología: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, p. 500; G.W. Bromiley, Credo, Credos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, p. 366). Cipriano, Agostinho e Rufino encontram-se entre aqueles que utilizaram o nome “Símbolo” para referirem-se ao “Credo Apostólico” (Cf. Charles A. Briggs, Theological Symbolics, New York: Charles Scribners’s Sons, 1914, p. 3,4). 80 Cf. In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, IV, p. 2276; Philip Schaff, COC., Vol. I, p. 3-4 (nota).


Capítulo 2

OS CREDOS E AS CONFISSÕES

“A

1. A NECESSIDADE DE DEFINIÇÃO

ciência da definição, da divisão e da classificação, ainda que seja empregada muitas vezes para coisas falsas, não é por si só falsa; nem foi instituída pelos homens, mas descoberta pela própria razão das coisas” – Santo Agostinho.1 Em uma entrevista concedida em 1991, Thomas Kuhn queixando-se do uso excessivo e inadequado da expressão “paradigma”, que marca o seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, admite que no livro não definira “paradigma” tão rigorosamente como deveria”.2 Definir, segundo o sentido etimológico3 é delimitar. A definição procura determinar a compreensão da ideia,4 circunscrevendo a sua abrangência, indicando 1 Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, II.36 p. 143. 2  John Horgan, O Fim da Ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento Científico, 3ª reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 64. 3  As palavras gregas correspondentes são: ὅρος = “termo”, “limite” e ὁρισμός = “delimitação”, “acordo”, “tratado”. 4 É a “expansão do conceito essencial das coisas”. “Definição é uma oração que manifesta a natureza de uma coisa ou de


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todos os seus elementos constitutivos. Como todo conceito possui um conteúdo, a definição nada mais é do que a determinação da natureza deste conteúdo.5 Aristóteles (384-322 a.C.), compreendia a definição como consistindo “no gênero e nas diferenças; e se, por outro lado, não é um desses termos, evidentemente, será um acidente”.6 Do ponto de vista lógico, a ideia é igual a sua definição. A definição lógica consiste de fato em delimitar exatamente a compreensão de um objeto, ou, em outros termos, em dizer o que uma coisa é. Daí o princípio: “A definição é a noção (ideia) desenvolvida e (...) a noção é a definição condensada”.7 A definição se propõe a nos fazer ver com maior clareza o assunto do qual tratamos. A “indefinição” acarreta uma série de omissões e equívocos, justamente por não termos claro diante de nós o objeto do qual estamos tratando ou, em que sentido nos aproximamos de cada ideia. Condillac (1715-1780) assim expressou esta questão: “A necessidade de definir é apenas a necessidade de ver as coisas sobre as quais se quer raciocinar e, se fosse possível ver sem definir, as definições se tornariam inúteis”.8 Como toda a Lógica, a definição respalda-se no “Princípio de Contradição” – “Nada pode simultaneamente ser e não ser”9 –, portanto, uma definição não pode ser contraditória com a própria essência do definido; antes, ela deve convir a todo o definido e somente a ele. Assim sendo, será possível substituir a definição pelo definido sem possibilidade de equívoco, caso contrário não haveria interesse na definição, tantas as confusões que ela provocaria. um termo” (Ernesto Dann Obregón, Lógica, 4ª ed. Santa Fé: Libreria y Editorial Castellví, (1951), p. 89 e 90. 5  Saucy, esclarecendo por que não podemos apresentar uma “definição rigorosa da ideia de Deus”, lança luz sobre o conceito de definição: “Definir, que significa limitar, envolve a inclusão do objeto dentro de certa classe ou proposição universal conhecida e a indicação dos seus aspectos distintivos comparados com outros objetos daquela mesma classe” (R.L. Saucy, Doutrina de Deus: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, Vol. I, p. 440). 6 Aristóteles, Tópicos, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. IV), 1973, I.8. p. 17. 7 L. Liard, Lógica, 9ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979, p. 25. 8  E.B. de Condillac, Lógica ou Os Primeiros Desenvolvimentos da Arte de Pensar, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. 27), 1973, p. 121. 9 Aristóteles, Metafísica, III,2,996 b 30; IV,2,1005 b 24. Cf. Princípio de Contradição: In: N. Abbagnano, Dicionário de Filosofia, 2ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 188b.


Os Credos e as Confissões

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A observação de Espinosa (1632-1677) é-nos orientadora: “A verdadeira definição de cada coisa não envolve nem exprime senão a natureza da coisa definida”.10 O princípio que deve nos nortear é que a definição deve primar pela essência, não pelos “acidentes” que normalmente são efêmeros e não indicam as qualidades intrínsecas do ser.11 Aristóteles está correto ao dizer: “Uma definição é uma frase que significa a essência de uma coisa”.12 O historiador Huizinga (1872-1945), apresenta-nos um bom princípio: “Uma boa definição deve ser concisa, ou seja, expor o conceito que se trata de definir com toda precisão e de um modo completo, no menor número de palavras. A definição descreve o significado de uma determinada palavra, usada para designar um determinado fenômeno. Na definição deve ficar inscrito, incluído o fenômeno em sua totalidade. Se permanecem fora dela partes essenciais do fenômeno, a definição não é boa. Por outro lado, uma definição não precisa entrar em detalhes”.13

Os Credos e Confissões foram necessários, como veremos, para apresentar as diretrizes teológicas da igreja conforme a sua compreensão bíblica.

1.1. ORIGEM E USO A palavra “Credo” é derivada do latim “credo”, que denota uma postura ativa de “eu creio”, uma confiança perene em Deus. Portanto, há na declaração 10  Baruch Espinosa, Ética, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. XVII), 1973, I.8. Escólio 2, p. 91. 11  Mesmo a “definição essencial” sendo a mais adequada, devemos ter em mente que de acordo com a abordagem que faremos de um assunto, o “essencial” pode não ser o mais importante; neste caso, propomos a “definição operacional” que seria aquela que nos daria os “elementos essenciais” para a nossa abordagem (operação), para o fim almejado. (Vd. Definição: In: N. Abbagnano, Dicionário de Filosofia, p. 222a). 12 Aristóteles, Tópicos, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. IV), 1973, I.5. p. 13. 13  Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4ª reimpresión, México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 87.


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credal um ato de adoração a Deus a quem damos crédito. Assim, os credos são antes de tudo uma confissão de gratidão à glória de Deus.14 No credo a Igreja declara a sua fé em Deus visto que somente ele é absolutamente digno de crédito.15 Curiosamente, em hebraico, confessar tem o sentido também de publicar, anunciar os feitos de Deus: Davi, por exemplo, usa a palavra em dois dos salmos penitenciais:16 “Confesso (dgn) (nagad)17 a minha iniquidade; suporto tristeza por causa do meu pecado” (Sl 38.18). “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca manifestará (dgn) (nagad) os teus louvores” (Sl 51.15). A confissão sincera é um ato de benevolência de Deus que inclina o nosso coração ao arrependimento e à confissão. Quando, por graça, assim fazemos, rendemos graças a Deus pela sua justiça e por sua graça. “A ideia de ‘confissão’ era ambivalente, pois, ao reconhecer-se justo o julgamento, confessava-se o extravio e era dado a esta declaração um tom de louvor a Deus”.18 Ainda mais ilustrativas são duas outras palavras hebraicas também traduzidas por confissão; (dy) (yâdâ‘),19 “conhecer”, “pensar”, “reconhecer”, “discernir” e (hdy) (yâdâh),20 “confessar”, “dar graças”, “agradecer”. Ambas comportam vários significados literais e figurados. (hdy)(yâdâh) tem também o sentido de “declarar”, “confirmar”, “homologar”. Isso independe do teor da declaração; podendo, portanto, ser uma confissão de fé ou de pecado,21 envolvendo a ideia de reconhecimento, especialmente de louvor.22 Uma das ideias preponderantes, é o de

14 Vejam-se as sugestivas observações de Thomas H. McDill no prefácio à obra: Paul T. Fuhrmann, An Introduction to the Great Creeds of the Church, Philadelphia: Westminster Press, 1960, p. 9-10. 15 Ver: Paul T. Fuhrmann, Na Introduction to the Great Creeds of the Church, Philadelphia: Westminster Press, 1960, p. 11-12. 16  Os Salmos classificados como Penitenciais são: 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Neles encontramos forte alento para o pecador perdoado. 17 O sentido básico é de “declarar”, “publicar”, “tornar conhecido”, “anunciar”, “manifestar, “expor”. 18  Gerhard Von Rad, Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: ASTE, (1973)(1986), Vol. 1, p. 343. 19  A LXX traduz (Sl 32.5 – “confessei”) por γνωρίζω, “fazer conhecido”, “revelar”, “declarar”, “desvendar”. 20  A LXX traduz (Sl 32.5 – “confessarei”) por ἐξομολογέω “prometer”, “confessar”, “glorificar”. 21 Cf. J.B. Torrance, Confissão: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, Vol. 1, p. 314. 22 Cf. Leslie C. Allen, Ydl: Willem A. VanGemeren, gen. editor. New International Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1997, Vol. 2, p. 405.


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“confessar ou declarar a glória de Deus”.23 É por isso que (hdy) (yâdâh) é traduzida muitas vezes por: a) Render graças: (Sl 7.17;57.9; 107.1,8,15,21,31; 118.19,21,28, 29; 119.7); b) Dar graças (Sl 30.4,12; 35.18; 52.9; 106.47; Is 12.1,4); c) Louvar (Sl 6.5; 9.1;28.7; 30.9; 42.5,11; 43.4-5; 44.8; 45.17; 49.18; 54.6; 67.3 (2 vezes); Is 25.1); d) Glorificar (Sl 18.49); e) Celebrar (Sl 33.2); f) Confessar (os pecados) (Lv 16.21; 1Rs 8.33,35; Ed 10.1; Ne 1.6; 9.2-3; Sl 32.5; Dn 9.4,20); g) Confessar (o nome de Deus) (2Cr 6.24,26). A Bíblia apresenta diversas confissões que consistem em expressões de fé, as quais eram ensinadas. Parece haver acordo entre os estudiosos no que diz respeito às evidências neotestamentárias referentes à um corpo doutrinário específico, considerado como “depósito sagrado da parte de Deus”.24 No Antigo Testamento, encontramos o “Shemá”25 (“ouve”), o “credo judeu”,26 que consistia na leitura de Dt 6.4-9; 11.13-21; Nm 15.37-41 e, possivelmente, Dt 26.5-9.27 O “Shemá” era repetido três vezes ao dia,28 sendo usado liturgicamente na Sinagoga.29 No Novo Testamento deparamo-nos com abundante material que indica 23  “Louvor é uma confissão ou afirmação de quem Deus é do que faz” (Ralph H. Alexander, Yãdâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 595). “A ação de graças acompanha o louvor, pois quando alguém declara os atributos e obras de Deus, não pode deixar de ser agradecido por isso. O louvor conduz regularmente à ação de graças” (Ralph H. Alexander, Yãdâ: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 595). “No Antigo Testamento, a confissão frequentemente se reveste do caráter de louvor, quando o crente, agradecido, declara o que Deus fez pela redenção de Israel ou pela sua própria alma. (...) A confissão pode levar o crente a reconsagrar-se a Deus, a entoar-lhe hinos de louvor, a oferecer-lhe sacrifício de regozijo, e infunde no crente o desejo de falar aos outros sobre a misericórdia de Deus e de Identificar-se com os outros crentes na adoração ao Senhor” (J.B. Torrance, Confissão: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, Vol. 1, p. 314). Vejam-se: Otto Michel, ὁμολογέω: In: G. Friedrich; G. Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982, Vol. V, p. 204; D. Furst, Confessar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, Vol. I, p. 465-466. 24 Ralph P. Martin, Credo: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, Vol. I, p. 342; R.P. Martin, Adoração na Igreja Primitiva, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 64ss 25 É a primeira palavra que aparece em Dt 6.4, derivada do verbo (m) (Shãma’), “ouvir”, envolvendo normalmente a ideia de ouvir com afeição (Vd. Hermann J. Austel, Shãma’: In: R.L. Harris, et. al. eds. Theological Wordbook of the Old Testament, 2ª ed. Chicago: Moody Press, 1981, Vol. II, p. 938-939). 26 Conforme expressão de Edersheim (1825-1889). Vd. A. Edersheim, La Vida y los Tiempos de Jesus el Mesias, Barcelona: CLIE, 1988, Vol. I, p. 491. 27 Cf. G.W. Bromiley, Credo, Credos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 365. 28  Quanto ao emprego desta oração feita pelos judeus individualmente, Vd. Shemá: In: Alan Unterman, Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1992, p. 242. 29 Cf. Hermisten M.P. Costa, Teologia do Culto, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1987, p. 19.


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a existência de um corpo doutrinário fixo da igreja cristã. Temos referências às “tradições” (παραδόσις) (2Ts 2.15), à “Doutrina dos apóstolos” (At 2.42), à “palavra da vida” (Fp 2.16); à “forma (τύπον = modelo) de doutrina” (Rm 6.17), à “Palavra” (Gl 6.6), à “Pregação” (Rm 16.25; 1Co 1.21),30 à “fé evangélica” (Fp 1.27), à “fé” (Ef 4.5; Cl 2.6-7; 1Tm 6.20-21), às “sãs palavras” (2Tm 1.13), ao “bom depósito” (2Tm 1.14; 1Tm 6.20), à “sã doutrina” (2Tm 4.3; 1Tm 4.6; Tt 1.9), à “verdade” (Cl 1.5; 2Ts 2.13; 2Tm 2.18,25; 4.4), à “tradição (dos apóstolos)” (1Co 11.2;Cl 2.6; 1Ts 4.1; 2Ts 2.15), ao “Evangelho” (1Co 15.1; Gl 1.9), à “Confissão” (Hb 3.1; 4.14; 10.23), à “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3; 1Tm 1.19; Tt 1.13), e à “fé santíssima” (Jd 20). 31 Outros textos parecem indicar as primeiras confissões da Igreja, tais como: “Jesus, o Cristo” (At 5.42); “Jesus Cristo é Senhor” (Fp 2.11; 1Co 12.3); “Senhor e Deus” (Jo 20.28); “Deus e Salvador Jesus Cristo” (At 2.13); “Senhor e Cristo” (At 2.36); “Jesus Cristo Filho de Deus” (At 8.37; Mt 16.16; 1Jo 4.15), etc.32 Vejam-se também: Mt 28.19; 1Co 15.3-7; Fp 2.6-11; 1Co 11.23-27. Os Credos em princípio não pretendem ser uma exposição exaustiva da fé, antes consistem numa declaração de fé dos pontos considerados essenciais à existência da Igreja Cristã. Primitivamente, os Credos e Confissões eram empregados principalmente da seguinte forma:

1) Doutrinariamente: Serviam como ensino proposicional a respeito da fé cristã, ao mesmo tempo em que combatiam ênfases ou ensinamentos essencialmente errados,33 resguardando, assim, a Igreja, de ensinamentos heréticos34 concedendo uma certa uniformidade 30  Veja-se: G.W. Bromiley, Credo, Credos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 365; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 24. 31 Entre outros, veja-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 23-45. 32 Veja-se: R.P. Martin, Adoração na Igreja Primitiva, p. 63-76. 33 Vejam-se: At. 2.42; Rm 6.17; Ef 4.5; Fp 2.16; Cl 2.7; 2Ts 2.15; 1Tm 4.6,16; 6.20; 2Tm 1.13,14; 4.3; Tt 1.9, entre outros. 34  Veja-se: Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, p. 45-49.


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de fé nos convertidos.35 No segundo século eles eram conhecidos como “regra de fé”.36 Os candidatos à Profissão de Fé estudavam a “doutrina” a fim de que pudessem, na ocasião própria, declarar publicamente a sua fé de forma responsiva. Os Credos também tiveram outra utilidade: Devido ao medo da perseguição, ao invés deles serem escritos, eram memorizados37 e quando necessário, recitados como testemunho de sua fé. Desta forma, os credos, assumiram papel fundamental na vida dos fiéis que têm a sua fé alimentada e fortalecida na declaração da promessa na qual ele crê. Deste modo, a promessa é a mesma, a fé tem o mesmo fundamento, contudo, em situações diversas assumem contornos mais contundentes e relevantes. 35  Veja-se: Alister E. McGrathTeologia Histórica: uma introdução à história do Pensamento Cristão, ão Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 45; 36 Os “Pais da Igreja” e alguns Concílios usaram com certa frequência a expressão “cânon” que, via de regra visava distinguir os ensinamentos da Igreja cristã das heresias que surgiam. Abaixo, poderemos constatar, dentro da documentação disponível, alguns dos diversos e valiosos testemunhos dos Pais e Concílios da Igreja. Clemente (c. 30-100), bispo de Roma (91-100), por volta do ano 95 AD., deparou-se com uma grave dissensão na Igreja de Corinto, causada por alguns jovens que não estavam obedecendo aos presbíteros da Igreja. Clemente então, no mesmo ano, escreveu uma carta à Igreja, na qual ele os exorta à humildade e obediência, segundo o exemplo de Cristo, para que possam assim, chegar à unidade e paz. Estimulando a Igreja arrependida a uma caminhada segura em Cristo, diz: “Prossigamos para a gloriosa e venerável regra (κανών) de nossa tradição” (Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios, I.7.2). Clemente de Alexandria (c. 150-c. 215), chamou a harmonia entre o Antigo e o Novo Testamento de “um cânon para a Igreja” (Clemente de Alexandria, The Stromata, VI.15. In: ANF., II, p. 506-511. (Vd. também, VI.11; VII.16)). Ele também escreveu um livro contra os judaizantes, intitulado, “Cânon eclesiástico ou contra os judaizantes” (Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, VI.13.3. Irineu (c.120-202), chama o “credo batismal” – que deveria ser guardado sem nenhuma modificação no coração –, de “O cânon da verdade” (Irineu, Against Heresies, I.9.4. In: ANF., I, p. 330. Veja-se também, Against Heresies, I.10.1; III.4.1). Policarpo (c. 70-155), refere-se ao “Evangelho” como “cânon da fé” (Eusebio, HE., V.24.6). Entre os anos de 264 e 268, três Sínodos reuniram-se sucessivamente em Antioquia, tendo como objetivo julgar a conduta e os ensinamentos de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia desde 260. O último dos três sínodos (268) o condenou e o excomungou por “heterodoxia” (ἑτεροδοξίαν). A sua doutrina e conduta foram classificadas como sendo uma “apostasia do cânon” (“ἀποστάς του̑ κανόνος”) (Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiastica, VII.30.6); ou seja, o abandono da fé ortodoxa. Como pudemos observar, o emprego da expressão “cânon” pelos Pais e Concílios da Igreja, tinha o sentido de um padrão aprendido e recebido como verdadeiro. Uma outra expressão usada e, pelo que deduzimos, tinha o mesmo significado, era: “regra de fé” (Cf. o uso feito por Tertuliano, Da Prescrição dos Hereges, 13. In: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos Padres, 2ª ed. (revista e ampliada), São Paulo: Paulinas, 1980. § 254, p. 162 e ANF., III, p. 249; Novaciano, Sobre a Trindade: In: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos Padres, § 309, p. 201) e, “regra dos antigos” (Conforme uso de Basílio, Profissão de Fé: In: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos Padres, § 365, p. 239). Em outras palavras, o “cânon eclesiástico” (κανών τη̑ς ἐκκλησίας), quando não se referia aos Livros da Bíblia, significava a doutrina ortodoxa da Igreja, aquilo que a Igreja sustentava como verdade. (Para mais detalhes sobre este assunto, Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Inspiração e Inerrância das Escrituras: Uma Perspectiva Reformada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998). 37  Ambrósio de Milão (c. 334-397) escreveu: “Os santos apóstolos juntos fizeram um resumo da fé, a fim de que pudéssemos compreender brevemente o elenco de toda a nossa fé. A brevidade é necessária, para que ela seja sempre mantida na memória e na lembrança” (Ambrósio, Explicação do Símbolo, São Paulo: Paulus, 1996, 2. p. 23).


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2) Liturgicamente: a) Batismo: Os fiéis declaravam (no caso de serem adultos)38 responsivamente a sua fé na ocasião do batismo39 (Vejam-se: At 8.37; Rm 10.9)40 e declaratoriamente.41 b) Santa Ceia: Na Eucaristia a Igreja declarava a sua fé por meio de hinos, orações e exclamações devocionais. (Vejam-se: 1Co 12.3; 16.22; Fp 2.5-11). c) Culto: Ao que parece, a partir do quarto século, os credos passaram a ser usados nos cultos regulares, sendo recitados após a leitura das Escrituras. Com o passar do tempo, os credos foram se tornando mais detalhados; isto por três motivos: 1) Devido à compreensão mais aprimorada das doutrinas bíblicas; 2) Considerando o intenso crescimento da igreja (séc. III), instruir os neófitos para que estes não fossem facilmente conduzidos pelas heresias;42 3) Devido à necessidade de, mediante o ensino cristão, combater as heresias que surgiam, marcadamente, relacionadas com a Pessoa de Cristo.43 Neste contexto, são elaborados quatro Credos que são considerados os mais importantes dos cinco primeiros séculos, os quais veremos no momento oportuno.

CREDO APOSTÓLICO O Credo dos Apóstolos tem a sua origem no Credo Romano Antigo, elaborado no segundo século,44 tendo algumas declarações doutrinárias acres38 Veja-se: Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1981, § 44. p. 51. 39 Veja-se: Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, § 46, p. 51-52; Didaquê, São Paulo: Imprensa Metodista, 1957, VII.1. p. 70. 40 Ver também: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 54. 41 Cf. R.P.C. Hanson, Confissões e Símbolos de Fé: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Paulinas, 2002, p. 322b. 42 Cf. J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 125. 43 “A cristologia, como a maioria das doutrinas do Novo Testamento, foi retirada da bigorna da necessidade quando a igreja entrou em conflito com os ensinos errôneos” (Broadus D. Hale, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Rio de Janeiro: JUERP., 1983, p. 299). 44  Sobre a formação deste Credo, Vejam-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 125ss. 469ss.; P. Schaff, COC., Vol. I, p. 14-19; Vol. II, p. 45-55.


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centadas no decorrer dos primeiros séculos,45 chegando à sua forma como temos hoje, por volta do sétimo século. Sabemos, portanto, que a sua origem não é apostólica;46 contudo, a sua autoridade foi derivada de seu conteúdo fundamentalmente bíblico, não de sua suposta origem.47 Os Reformadores tiveram amplo apreço por ele, excetuando o grupo anabatista.48 Paul Tillich (1886-1965), comentando a primeira declaração de fé deste Credo – “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso Criador do Céu e da Terra” –, diz que “deveríamos pronunciar essas palavras com grande reverência, porque, por meio dessa confissão, o cristianismo se separou da interpretação dualista da realidade presente no paganismo (...). O primeiro artigo do Credo é a grande muralha que o cristianismo ergueu contra o paganismo. Sem essa separação a cristologia teria inevitavelmente se deteriorado num tipo de gnosticismo no qual o Cristo não seria mais do que um dos poderes cósmicos entre outros, embora, talvez, o maior deles”.49 45  Cf. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 19-22; II. 45-55; Reinhold Seeberg, Manual de História de las Doctrinas, El Paso, Texas/ Buenos Aires/Santiago: Casa Bautista de Publicaciones/Junta Bautista de Publicaciones/Editorial “El Lucero”, (1963), Vol. I, p. 93-94; O.G. Oliver, Jr., Credo dos Apóstolos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, p. 362-363; K.S. Latourette, História del Cristianismo, Vol. I, p. 180-182; Henry Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 54; Charles A. Briggs, Theological Symbolics, New York: Charles Scribners’s Sons, 1914, p. 40; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 486ss.; Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, p. 47. 46  Pelo menos desde fim do século IV era amplamente aceita no Ocidente a tradição de que cada apóstolo, por inspiração divina, seria responsável pela elaboração de cada artigo do Credo. Esta lenda teve grande aceitação durante a Idade Média. A primeira contestação eficaz desta crença deu-se no Concílio de Ferrara-Florença-Roma (1438-1445) entre os representantes da Igreja Oriental e Ocidental. Posteriormente o humanista Lourenço Valla (c. 1407-1457) tornou-se um crítico veemente da suposta origem apostólica do Credo (Vejam-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 15-21; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 32; J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, São Paulo: Herder, 1970, p. 17-18; João Calvino, As Institutas, (1541), II.4; Herman Witsius, Sacred Dissertations on The Apostles’ Creeds, Escondido, California: The den Dulk Christian Foundation, 1993 (Reprinted), Vol. 1, p. 1-15; P. Schaff, COC., Vol. I, p. 14; R.P.C. Hanson, Confissões e Símbolos de Fé: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Paulinas, 2002, p. 322b; G.W. Bromiley, Credo, Credos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, p. 366; B. Altaner; A. Stuiber, Patrologia. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 95-97; Ulisses H. Simões, A Subscrição Confessional: necessidade, relevância e extensão, Belo Horizonte, MG.: Efrata Publicações e Distribuição, 2002, p. 37-39; Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 20). 47 Vejam-se: Herman Witsius, Sacred Dissertations on The Apostles’ Creeds, Escondido, California: The den Dulk Christian Foundation, 1993 (Reprinted), Vol. 1, p. 14-15; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 20. 48  Cf. J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 435; P. Schaff, COC., Vol. I, p. 15 49  Paul Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE, 1988, p. 34.


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O Credo Apostólico era usado na preparação dos catecúmenos, professado durante o batismo, servindo também para a devoção privada dos cristãos. Posteriormente passou a ser recitado com a Oração do Senhor no culto público.50 No nono século ele foi sancionado pelo Imperador Carlos Magno para uso na Igreja e, o papa o incorporou à liturgia Romana.51 A Reforma valorizou este Credo,52 sendo ele usado liturgicamente em muitas de nossas igrejas ainda na atualidade. Calvino sumariza o seu pensamento a respeito do Credo: “Nele toda a dispensação da nossa salvação é exposta de tal maneira em todas as suas partes que não se omite nem um só ponto. Dou-lhe o nome dos apóstolos, não me preocupando muito com quem terá sido o autor. É grande o número dos que aceitam como certa a atribuição feita pelos antigos da autoria do Símbolo aos apóstolos, quer entendendo que foi escrito por eles em comum, quer pensando que foi uma compilação da sua doutrina, assimilada e filtrada pela reflexão de alguns outros, querendo, contudo, dar-lhe autoridade por meio desse título. Seja como for, não tenho dúvida nenhuma de que, seja qual for a sua origem, desde o início da igreja, e até mesmo desde o tempo dos apóstolos, foi recebido como uma confissão pública e válida da fé cristã. E não é provável que tenha sido composto por algum particular, visto que o tempo todo ele tem tido autoridade inviolável, sempre respeitada, entre os crentes. O que é principal neste caso nos é indubitável, a saber, que toda a história da nossa fé está 50 Cf. Philip Schaff, COC., Vol. I, p. 17; O.G. Oliver, Jr., Credo dos Apóstolos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 363. 51 Cf. Jack B. Rogers, Creeds and Confessions: Donald K. McKim, ed. Encyclopedia of the Reformed Faith, Louisville, Kentucky: Westminster/John Knox Press, 1992, p. 91. 52 O Credo Apostólico pode ser dividido em quatro partes, a saber: 1) Deus Pai 2) Deus Filho: a História da Redenção 3) Deus Espírito Santo 4) A Igreja e os benefícios que Deus nos têm concedido Vd. J. Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra: In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962, Pergunta 186, p. 32.


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nele contida em resumo e em excelente ordem, e que não há nada nele que não seja comprovado por diversos testemunhos da Escritura. Tendo conhecimento disso, já não é preciso que nos atormentemos sobre quem é o seu autor, nem que discutamos com outros, a não ser que não achemos suficiente saber que, por este ou por aquele, temos a verdade do Espírito Santo, e queiramos saber, além disso, por qual boca foi declarada ou por qual mão foi escrita”.53

A analogia feita por P. Schaff (1819-1893), parece resumir bem o significado deste Credo: “Como a Oração do Senhor é a Oração das orações, o Decálogo a Lei das leis, também o Credo dos Apóstolos é o Credo dos credos”.54

CREDO ATANASIANO: Também conhecido como “Symbolum Quicunque”, porque esta é a sua primeira palavra em latim: “Quicunque vult salvus esse” (“Todo aquele que quiser ser salvo...”). Este Credo que reflete a teologia dos quatro primeiros sínodos ecumênicos; tem sentenças breves que são “artisticamente arranjadas e ritmicamente expressadas. Ele é um credo musical ou salmo dogmático”.55 Segundo a tradição, ele teria sido escrito por Atanásio (295-373), Bispo de Alexandria (328-373), conhecido como “Pai da Ortodoxia”. Segundo a mesma tradição, Atanásio o elaborara durante o seu exílio em Roma, tendo-o oferecido ao papa Julius como sua confissão de fé.56 Todavia, esta tradição tem sido rejeitada por muitos estudiosos desde o século XVII, quando o holandês Gerhard Jan Vossius (1577-1649), apresentou em 1642, as suas conclusões que contrariavam a referida crença, o mesmo fazendo James Usher (1581-1656), em 1647.57 53 João Calvino, As Institutas, (1541), II.4. 54  P. Schaff, COC., Vol. I, p. 14. 55  P. Schaff, COC., Vol. I, p. 37. 56 Cf. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 35. 57 Cf. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 35; J.F. Johnson, Credo Atanasiano: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 364. Kelly diz que Vossius e Usher “inauguraram a era moderna de estudos sobre os credos” (J.N. D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 19).


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A teoria mais aceita hoje, é a de que este Credo foi escrito por volta do ano 500, no sul da Gália ou África do Norte58 ou, até mesmo em dois lugares e momentos diferentes.59 Apesar de várias hipóteses quanto à sua autoria (Ambrósio, Hilário de Arles, Virgílio de Tapsus, Vicente de Lérins, Paulinus de Aquileja, entre outros),60 ninguém conseguiu provar de modo incontestável a identidade do seu autor. A ênfase deste Credo é a defesa da Cristologia e da doutrina da Trindade conforme foram definidas nos Concílios de Nicéia (325), Constantinopla (381) e Calcedônia (451), refletindo visivelmente a teologia de Agostinho (354-430).61 Ele foi amplamente considerado na Idade Média: na Igreja latina era quase que diariamente usado nas devoções matinais62 e, ao que parece, também tinha funções catequéticas.63 Os Reformadores o apreciaram bastante (tanto Lutero como Calvino64); as Confissões Luteranas (Augsburgo e Fórmula de Concórdia) e Reformadas (Trinta e Nove Artigos, Primeira e Segunda Confissão Helvética, Belga, Gaulesa), fazem referência a ele. Neste ponto, a Confissão de Westminster se constitui numa exceção, já que não o menciona. Atualmente o Credo Atanasiano é usado liturgicamente com mais frequência pelas Igrejas Romana e Anglicana.

58 Cf. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 36; Johnson, Credo Atanasiano: In: Walter A. Elwell, ed Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 364; James Hastings, ed., Dictionary of the Bible, New York: Charles Scribner’s Sons, (edition revised F.C. Grant and H.H. Rowley), 1963, p. 188; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 103; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, 3ª ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1987, p. 91-92; .P.C. Hanson, Confissões e Símbolos de Fé: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, p. 324b. 59 Conforme sugere Charles A. Briggs, Theological Symbolics, p. 100. 60 Vd. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 36; Johnson, Credo Atanasiano: In: Walter A. Elwell, ed Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 364; Charles A. Briggs, Theological Symbolics, p. 100ss. 61  Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 206; P. Schaff, COC., Vol. I, p. 36ss; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 103. (Veja-se, conforme já indicamos supra: Agostinho, A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994). 62  Cf. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 40. 63  Johnson, Credo Atanasiano: In: Walter A. Elwell, ed Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 364. 64  Compare: T.M. Lindsay, La Reforma y Su Desarrolo Social, Barcelona: CLIE., (1986), p. 102 e L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: PES., 1992, p. 87; Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 198-200.


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CREDO NICENO-CONSTANTINOPOLITANO65 O Credo Niceno primitivo, foi elaborado no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (20/05/325),67 (atual cidade de Iznik, Turquia) na Bitínia no ano 325. Este Concílio teve uma representação significativa (especialmente das igrejas do Oriente): 30068 ou 31869 bispos; cerca de 1/6 de todos os bispos (esti66

65  Quem primeiro o denominou assim, foi J.B. Carpzov (1639-1699), professor da de Teologia da Universidade de Leipzig. (Vd. J.N. D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 353). 66  Esses Concílios foram assim chamados, porque reuniam as Igrejas do Oriente e do Ocidente. A palavra Οἱκουμένη, é derivada de Ο�κος (casa, nação). O conceito desta palavra era primariamente geográfico – terra habitada (Vd. Heródoto, História, Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, (s.d.), IV.110, p. 373) –, tornando-se depois, também cultural e político, (Vd. Michel, ἡ οἱκουμένη: In: TDNT., V, p. 157), indicando o mundo cultural versado e refinado comandado pelos gregos em contraposição ao “barbarismo” (Cf. John H. Gerstner, Ecumenismo: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, p. 183b). Οἱκουμένη tem o sentido de “mundo civilizado”, “todos os habitantes do globo” (Cf. A Lexicon Abridged from Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon, Oxford: Clarendon Press, 1935, p. 477b). A palavra veio a significar: a) A partir de Demóstenes (384-322 a.C.), mundo habitado pelos gregos em contraste com as terras habitadas pelos bárbaros; b) A partir de Aristóteles (384-322 a.C.), mundo habitado, quer por gregos, quer por “bárbaros”, contrastando com as terras não habitadas; c) Adquiriu no Império Romano um sentido político, indicando as terras sob o domínio Romano. Não é à toa que Nero tinha o título de Σωτήρ e Εὐεργετ́ης da Οἱκουμένη, ou seja, “Salvador e benfeitor da terra”. (Cf. O Flender, Terra: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. IV, p. 601-602). Na Septuaginta, a palavra ocorre 46 vezes, especialmente no Livro de Salmos, tendo de modo geral o sentido de terra habitada, sendo muitas vezes traduzida por mundo. Como exemplo, citamos: 2Sm 22.16; Sl 18.15; 19.4; 24.1; 33.8; 50.12; Jr 10.12 (mundo); Is 10.14,23; 13.5,9 (terra); Ex 16.35 (ARA; BJ: “terra habitada”); Pv 8.31 (ARA: “mundo habitável”; BJ; “superfície da terra”). O NT. emprega a palavra 15 vezes (* Mt 24.14; Lc 2.1; 4.5; 21.26; At 11.18; 17.6,31; 19.27; 24.5; Rm 10.18; Hb 1.6; 2.5; Ap 3.10; 12.9; 16.14) – especialmente nos escritos de Lucas (8 vezes) –, primordialmente no sentido geográfico, ainda que Lc 2.1, entre outros textos, indique o sentido político, revelando o poder romano. Assim podemos classificar a sua ocorrência do seguinte modo: a) A terra habitada, o mundo: Mt 24.14; Lc 4.5; 21.26; At 11.28; Rm 10.18; Hb 1.6; Ap 16.14; b) Mundo, no sentido de humanidade: At 17.31; 19.27; Ap 3.10; 12.9; c) O Império Romano: At 24.5; d) Seus habitantes: Lc 2.1; At 17.6; e) O mundo por vir: Hb 2.5. 67  Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, I.13. In: NPNF2, II, p. 19. Ou dia 19, conforme estudos modernos têm indicado (Cf. J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 254). A História mais detalhada deste Concílio é encontrada, entre outras, nas seguintes obras: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 247ss.; K.S. Latourette, História del Cristianismo, I, p. 201ss; Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 107ss.; C.A. Blaising, Concílio de Nicéia: In: Walter A. Elwell, ed Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 309-311; W. Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, Vol. I, p. 157-162; Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, p. 51-70 e, principalmente, J.L. Gonzalez, A Era dos Gigantes, São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 87-98 e Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 23ss. 68 K.S. Latourette, História del Cristianismo, I, p. 202; E.E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p. 107; J.L. Gonzalez, A Era dos Gigantes, p. 92. 69 Philip Schaff, COC., Vol. I, p. 25; A.H. Leitch, Creed, Creeds: In: Merril C. Tenney, ed. ger. The Zondervan Pictoral Encyclopaedia of the Bible, 5ª ed. Michigan: Zondervan, 1982, Vol. I, p. 1027. Devido a participação destes 318 bispos, este Credo é também chamado de “Credo dos 318”. (Ibidem., p. 1027). Convencionou-se, desde a segunda metade do 4º século, a declaração de que houve 318 representantes, “inspirando-se nos 318 servidores de Abraão de Gn 14.14”; todavia as fontes antigas e interpretações modernas são das mais variadas, oscilando entre 194 e 318 representantes. (Vd. Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 25). Noll, por exemplo fala de cerca de 230 bispos (Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, p. 52).


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ma-se a existência de 1800 bispos em toda a Igreja).70 O Concílio foi convocado e subvencionado pelo Imperador Constantino71 – que presidiu a sessão inaugural, fazendo um discurso sobre o perigo da dissensão dentro da Igreja, tendo também, ampla participação no decorrer do Concílio72 – visando tratar da questão Ariana que prejudicava a união da Igreja e, consequentemente, do Império. O Concílio, depois de amplo debate, declarou a igualdade essencial entre o Pai e o Filho. Os ensinamentos de Ário foram condenados e ele, foi deportado para o Ilírico.73 Posteriormente, o Concílio de Constantinopla (381), convocado pelo Imperador Teodósio I, – sendo presidido inicialmente por Melécio de Antioquia (310-381) –, constituído tradicionalmente por 150 bispos, ampliou o Credo Niceno, daí o nome de Credo Niceno-Constantinopolitano. Esse Credo “ampliado”,74 foi lido e aprovado no Concílio de Calcedônia (451).75 O Credo Niceno-Constantinopolitano é usado liturgicamente pela Igreja romana e pelas Igrejas Luteranas e Anglicanas. As Igrejas Reformadas, o usam pouco.76 Ele é sem dúvida um dos mais importantes Credos da Igreja Cristã.

O CREDO DE CALCEDÔNIA: O Quarto Concílio Ecumênico, foi realizado em Calcedônia, perto de Constantinopla (atual Istambul). Reunido de 8 a 31 de outubro de 451, contou 70 Cf. Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, Vol. III, § 120, p. 623-624. 71  Cada bispo poderia levar consigo dois presbíteros e três criados (Cf. Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. III, § 120, p. 623). 72  Cf. Eusebius, The Life of Constantine The Great, III.12. In: NPNF2, Vol. I., p. 523 (Vd. Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. III, § 120, p. 622ss; K.S. Latourette, História del Cristianismo, I, p. 201; C.A. Blaising, Concílio de Nicéia: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 310; J.L. Gonzalez, A Era dos Mártires, p. 93; Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 26s.; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 254). 73 V.L. Walter, Arianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 105. 74  Para uma crítica desta posição, Vd. J.N. D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 356ss. Temos uma defesa da visão tradicional, preservada desde Calcedônia (451), In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 68-70. 75 Cf. Archibald A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 104; J.N. D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 354. Este Credo seria posteriormente reafirmado na oitava sessão do 6º Concílio Ecumênio, realizado em Constantinopla (16/9/680) (Cf. J.N. D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 356). (Os primeiros 4 Concílios Ecumênicos – reuniram as igrejas do Ocidente e do Oriente –, foram: Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451)). 76 Cf. P. Schaff, COC., Vol. I, p. 27. No entanto, a Reforma tornou-o mais conhecido, traduzindo-o para vários idiomas, reafirmando a sua importância. (Cf. J.N. D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 354).


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com a presença de mais de 50077 bispos e vários delegados papais, que como de costume o representavam. Nesta reunião, a já aludida “Carta Dogmática” ou “Tomo”78 redigida pelo bispo Leão I, o “Grande”79 de Roma (13/06/449), foi decisiva na elaboração de seu Credo.80 Como vimos, Calcedônia ratificou o Credo de Nicéia (325) e o de Constantinopla (381). O seu objetivo era estabelecer uma unidade teológica na Igreja. A sua declaração teológica foi rascunhada em 22 de outubro, por uma comissão presidida por Anatólio de Constantinopla († 458),81 encontrando a sua redação final, possivelmente na 5ª Sessão, na quinta-feira, de 25 de outubro.82 Calcedônia rejeitou o Nestorianismo (duas pessoas e duas naturezas) e o Eutiquianismo (uma pessoa e uma natureza), afirmando que Jesus Cristo é uma Pessoa, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem (uma pessoa e duas naturezas). “....Calcedônia pronunciou-se não só contra a separação como contra a fusão”83 das duas naturezas de Cristo. Todavia, a noção de mistério esteve presente nesta confissão, por isso, ela não tentou explicar o que as Escrituras não esclareciam.84 77 J.L. Gonzalez diz 520 (A Era das Trevas, p. 99) ou cerca de 520 (Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, p. 72). Latourette fala de 600 bispos, fora os legados (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, I, p. 220. Vd. também: A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 104). Hodge fala de 630 (Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, p. 192). Outros autores mencionam de forma menos específica, a presença de mais de 500 bispos (Ex. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 256; J.H. Hall, Concílio de Calcedônia: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, p. 306). Sobre as versões diferentes a respeito do número de participantes, Vd. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 93). Destes bispos, 40 “teriam sido incapazes de assinarem o seu nome” (Jean Vial, Técnicas Pedagógicas: Os Rudimentos até ao Renascimento: In: Gaston Mialaret; Jean Vial, diretores, História Mundial da Educação, Porto: Rés, (s.d.), Vol. I, p. 313). 78 Este “Tomo”, é chamado por Berkhof de “um compêndio da cristologia ocidental”. (Vd. L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 97-98). Do mesmo modo, declara Perrone: “O Tomus ad Flavianum representa uma contribuição decisiva para a solução da questão cristológica, tal como tomará forma na definição de Calcedônia” (Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 88). Boa parte deste “Tomo”, encontra-se In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 83-86. 79  Latourette diz que Leão I “foi um dos homens mais capazes que já ocuparam o chamado trono de Pedro” (K.S. Latourette, História del Cristianismo, I, p. 220). 80 Quando o “Tomo” de Leão foi lido, na segunda sessão (10/10/451), ainda que não unânime, houve repetidas aclamações, tais como: “A fé dos pais, a fé dos apóstolos”; “Pedro falou por meio de Leão” e “Leão e Cirilo deram o mesmo ensinamento”. (Cf. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 96). 81 Cf. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 98. 82 Compare as informações de J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 257; P. Schaff, COC., Vol. I, p 29; Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: HCE., p. 97-98.. 83  G. C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, p. 55. 84  Vd. G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, p. 67ss; Carl E. Braaten, A Pessoa de Jesus Cristo: In: Carl E. Braaten; Robert


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EU CREIO no Pai, no Filho, e no Espírito Santo

Segue abaixo a transcrição do Credo Apostólico, do Credo Niceno (Primitivo), do Credo Niceno-Constantinopolitano, como é usado hoje, do Credo de Calcedônia e do Credo Atanasiano:

CREDO APOSTÓLICO Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria; padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.

CREDO NICENO (325) Cremos em um só DEUS, o Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em um só Senhor JESUS CRISTO, o Filho de Deus; gerado como o Unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, mediante o qual todas as coisas foram feitas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, se enW. Jenson, eds. Dogmática Cristã, Vol. I, p. 492.


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carnou e se fez homem e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente virá para julgar os vivos e os mortos; E no ESPÍRITO SANTO. E a quantos dizem: “Houve tempo em que não era”; e “Antes de nascer, Ele não era”, ou que “Foi feito do que não existe”, bem como a quantos alegam ser o Filho de Deus “de outra substância ou essência”, ou “feito”, ou “mutável”, ou “alternável”, a todos estes a Igreja católica85 e apostólica anatematiza.

CREDO NICENO-CONSTANTINOPOLITANO (381) Cremos em um só Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador [do céu e da terra],86 de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, o gerado do Pai [antes de todos os séculos,]87 [Deus de Deus],88 Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado e não feito, da mesma substância que o Pai, por meio do qual todas as coisas vieram a ser; o qual, por nós, os homens, e pela nossa salvação desceu [dos céus]89 e se encarnou [do Espírito Santo e da Virgem 85  O adjetivo “Católico” é uma transliteração do grego “καθολικός”, que pode ser traduzido por “universal” e “geral”. O termo grego é constituído de duas palavras: “κατά” (= cujo significado original é “abaixo”; todavia, em composição assume os mais diversos sentidos; aqui, talvez signifique, “de acordo com” (Vd. H.E. Dana e Julius R. Mantey, Manual de Gramatica Del Nuevo Testamento Griego, Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones © 1975, p. 104-105, 110-111)) e “ὅλος” (= Todo, inteiro, completo). Assim, grego “καθολικός” pode significar: “conforme ou de acordo com o todo”. A palavra só ocorre uma vez no Novo Testamento e, mesmo assim, na forma adverbial, acompanhada de um advérbio de negação, (“καθόλου μὴ) sendo traduzida (ARA, BJ, ARC, ACR) por “absolutamente não” (At 4.18). Até onde vai o nosso conhecimento, o primeiro homem a usar a palavra “católica” para se referir à Igreja, foi Inácio de Antioquia (c. 30-110 AD), na sua epístola à Igreja de Esmirna, escrita por volta do ano 110, quando diz: “Onde quer que se apresente o bispo, ali também esteja a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus também nos assegura a presença da Igreja católica” (Inácio de Antioquia, Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3ª ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984, 8.2. p. 81). 86  Cláusula acrescentada. 87  Cláusula acrescentada. 88 A expressão “Deus de Deus” foi omitida em Constantinopla, porém foi recolocada no III Concílio local de Toledo (589) na Espanha. (Vd. A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 103; H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 56; P. Schaff, The Creeds of Christendom, Vol. I, p. 26-27). 89  Cláusula acrescentada.


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Maria]90 e se fez homem [e foi por nós crucificado sob Pôncio Pilatos]91 e padeceu [e foi sepultado]92 e ressuscitou ao terceiro dia, [segundo às Escrituras,]93 e subiu aos céus [e está sentado à direita do Pai]94 e virá de novo, [com glória],95 a julgar vivos e mortos; [e do seu reino não haverá fim].96 E no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai e do Filho,97 o que juntamente com o Pai e o Filho é 90  Cláusula acrescentada. 91  Cláusula acrescentada. 92  Cláusula acrescentada. 93  Cláusula acrescentada. 94  Cláusula acrescentada. 95  Cláusula acrescentada. 96  Cláusula acrescentada. 97  A expressão “e do Filho” em latim “Filioque”, foi acrescentada no III Concílio local de Toledo (589) e, ao que parece, posteriormente no Quarto Sínodo de Braga (675) e em Hatfield (680).[Cf. O. Semmelroth, Espírito Santo: In: H. Fries, ed. Dicionário de Teologia, Vol. II, p. 100; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, Salamanca, Secretariado Trinitario, 1980, p. 426, 429-430]. Todavia, esta cláusula já havia sido usada no Primeiro (400) e Segundo (477) Concílio de Toledo. (Vd. H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 56; P. Schaff, The Creeds of Christendom, Vol. I, p. 26; Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, p. 109; G.W. Bromiley, Filioque: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, p. 242.; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, 3ª ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1987, p. 93; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 427). Este acréscimo – que reflete especialmente o pensamento de Agostinho (354-430), quem enfatizou com propriedade a unidade da Trindade (A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, II.5.7; IV.20.29.; XV.17-20; 26-27), ainda que não exclusivamente (Vd. J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 425) –, marca de forma definitiva a teologia anti-Ariana sustentada pela Igreja Ocidental, enfatizando a unidade essencial do Pai e do Filho bem como a procedência do Espírito como sendo de ambos. Este acréscimo que se tornou amplamente aceito na Igreja Ocidental [em 1014, o papa Benedito VIII determinou que o Credo Niceno-Constantinopolitano, com a expressão “filioque” deveria ser proferido durante a missa. (Cf. Robert W. Jenson, O Espírito Santo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, Vol. II, p. 159)] e ratificado em 1017, foi o principal motivo doutrinário para a primeira grande divisão da Cristandade, criando a Igreja do Oriente e a do Ocidente em 1054 (As Igrejas do Oriente, diziam: “Do Pai através do Filho”). No entanto, somente no Segundo Concílio de Lyon (1274), é que esta cláusula foi considerada oficialmente como doutrina da Igreja Ocidental. (Cf. H. Brandt, O Risco do Espírito: Um Estudo Pneumatológico, p. 16). Este assunto seria ampla e vagarosamente discutido no Concílio de Ferrara-Florença-Roma (1438-1445) entre os representantes da Igreja Oriental e Ocidental, quando então, os Orientais aceitariam como razoável o acréscimo latino, contudo não ficando imposto à sua Igreja a aceitação do mesmo. Nesta reunião foi formulada uma declaração “conciliatória”, datada de 06/7/1439. (Vd. o texto In: L. Boff, A Trindade e a Sociedade, p. 95-96). (Vd. Umberto Proch, A União no Segundo Concílio de Lião e no Concílio de Ferrara-Florença-Roma: In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 300ss, 305; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, p. 95-96). (Vd. uma boa discussão a respeito do uso da expressão, In: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 424ss.; Reinhold Seeberg, Manual de Historia de las Doctrinas, El Paso, Texas, Casa Bautista de Publicaciones, 1963, Vol. II, p. 45; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 95-103). No entanto, não devemos nos esquecer que a Confissão Ortodoxa de Fé da Igreja Católica e Apostólica do Oriente (1643), reafirma a procedência do Espírito como sendo apenas do Pai. (Vd. o texto In: P. Schaff, The Creeds of Christendom, Vol. II, p. 282).


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adorado e glorificado,98 o que falou através dos profetas; e numa só Igreja santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos pecados, esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.

O CREDO DE CALCEDÔNIA99 Portanto, seguindo os santos Pais, todos nós, em perfeito acordo, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Deidade e também perfeito na humanidade; verdadeiro Deus e verdadeiro homem,100 de alma racional (ψυχὴ λογική)101 e corpo, consubstancial (ὁμοούσιος)102 ao Pai 98 McGrath nos chama a atenção para o fato de que mesmo o Credo afirmando que o Espírito juntamente com o Pai e o Filho devem ser adorados, ele não declara explicitamente que o Espírito é Deus (Ver: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 364-365). 99 O Credo de Calcedônia é precedido pela confirmação dos Credos de Nicéia (325) e Constantinopla (381). A elaboração deste novo Credo pode ser explicada pelo surgimento de novas heresias referentes a Cristo (Apolinarismo, Nestorianismo e Eutiquianismo), que precisavam ser combatidas. (Vd. P. Schaff, The Creeds of Christendom, Vol. II, p. 63-64). 100 Este conceito já estava presente em Irineu (c. 130- c. 200). (Irineu, Irineu de Lião, IV.6.7. p. 382-383. 101 Esta expressão visa combater o Apolinarismo. Apolinário, o jovem (c. 310-c.390), bispo de Laodicéia na Síria (c. 360), teve os seus ensinamentos condenados em vários Concílios: Alexandria (362)(aqui somente o apolinarismo, não Apolinário); Roma (377) (Apolinário e o apolinarismo); Antioquia (378), no 2º Concílio Ecumênico de Constantinopla (381) (Apolinário e o apolinarismo). Apesar destas condenações, Apolinário conseguiu adeptos; um de seus discípulos, Vitális, fundou uma congregação em Antioquia (375), sendo sagrado bispo por Apolinário. “Os apolinarianos tiveram pelo menos um sínodo em 378, e há evidência no sentido de ter ocorrido um segundo sínodo. Depois da morte de Apolinário, seus seguidores dividiram-se em dois partidos, os vitalianos e os polemeanos ou sinusiatos. Por volta de 420, os vitalianos já estavam reunidos com a Igreja Grega. Pouco mais tarde, os sinusiatos fundiram-se no cisma monofisita.” (V.L. Walter, Apolinarismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 98). Devido à sua concepção tricotômica do homem, bem como o seu desejo de preservar a divindade e a unipersonalidade de Cristo, terminou por concebê-lo como sendo totalmente divino e apenas 2/3 humano. A idéia de total humanidade envolvia o conceito de pecaminosidade, por isso, a sua tentativa de resguardar o Filho. Para ele, o homem era constituído de Σω̑μα (carne ou corpo); Ψυχὴ (alma animal) e Πνυ̑μα (alma racional). O Πνυ̑μα é que torna o homem o que ele é. Aplicando estes conceitos a Jesus, Apolinário dizia que Jesus tinha Σω̑μα e Ψυχὴ iguais a de um homem comum; já o Πνυ̑μα fora substituído pelo Λόγος; assim, Jesus possuía um corpo, uma alma, mas não possuía um espírito humano. Assim, para Apolinário há uma única vida; uma perfeita fusão do homem (carne) com o divino, sendo a carne de Jesus glorificada pelo Logos, daí ele falar de “carne divina”, “carne de Deus”, “natureza encarnada da Palavra divina” Os ensinamentos de Apolinário foram censurados pelo fato de que, se o Logos não tomou sobre si a integridade da natureza humana – estando toda ela afetada pelo pecado –, esta natureza não poderia ser redimida, visto que aquilo que o Filho não levou sobre si não pode ser alvo de sua redenção. 102 ὁμοούσιος, na versão latina: “consubstantialem”. Da mesma substância, consubstancial, coessencial. Atanásio, combatendo o Arianismo, já havia usado este termo em Nicéia (325), referindo-se à Trindade, indicando a unidade da essência do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Aqui em Calcedônia, a expressão é utilizada para indicar a verdadeira divindade e verdadeira humanidade de Cristo. Calvino (1509-1564) diz que “essa palavrinha fazia a diferença entre os cristãos de pura fé e os sacrílegos arianos” (As Institutas, I.13.4).


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na Divindade e consubstancial (ὁμοούσιος) a nós na humanidade, ‘em todas as coisas semelhante a nós, exceto no pecado’;103 gerado antes de todas as eras pelo Pai quanto à sua Divindade, e nos últimos dias, por nós e para nossa salvação, nasceu da Virgem Maria, a Mãe de Deus (Θεοτόκος),104 quanto à sua humanidade; um e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, sendo conhecido em duas naturezas, inconfundíveis (ἀσυγχύτως),105 imutáveis (ἀτρέπτως),106 indivisíveis (ἀδιαιρέτως),107 inseparáveis (ἀχωρίστως);108 a distinção das duas naturezas de modo algum é anulada pela união, mas as propriedades de cada natureza são preservadas, e concorrem em uma Pessoa (Πρόσωπον)109 e uma Subsistência (ὕπόστασις),110 não separada ou dividida em duas pessoas (Πρόσωπον), porém 103 Hb 4.15. 104 Θεοτόκος, na versão latina: “Dei genetrice”. [Θεός & Τόκος = Τίκτω = “Dar à luz um menino / gerar, chegar a ser mãe / produzir”: “Mãe de Deus”. A expressão foi usada para indicar que Aquele que foi concebido de Maria, fora obra do Espírito Santo, portanto era Deus. A expressão também ressalta, que Maria não foi mãe simplesmente da natureza humana de Jesus, mas sim, da pessoa Teantrópica de Jesus Cristo (Cf. P. Schaff, The Creeds of Christendom, Vol. II, p. 64). 105 ἀσυγχύτως, na versão latina: “inconfuse”. “Sem confusão”, “sem mistura”. Expressão usada contra o Eutiquianismo, que sustentava que a encarnação fora o resultado da fusão do divino com o humano. 106 ἀτρέπτως, na versão latina: “immutabiliter”. “Sem conversão”, “sem transformação”. Da mesma forma, esta expressão também foi usada contra o Eutiquianismo. 107 ἀδιαιρέτως, na versão latina: “indivise”. “Sem divisão”. Expressão que visava combater o Nestorianismo, que separava as duas naturezas de Cristo, afirmando ser a sua união apenas moral, simpática e afetiva. 108 ἀχωρίστως, na versão latina: “inseparabiliter”. “Sem separação “, “indissolúvel”. Termo também usado contra o Nestorianismo. G.C. Berkouwer, interpretando Korff, comenta que estes quatro advérbios de Calcedônia: inconfundíveis (ἀσυγχύτως), imutáveis (ἀτρέπτως), indivisíveis (ἀδιαιρέτως), inseparáveis (ἀχωρίστως), “Enriquecem a fé e a humildade da Igreja. Esses advérbios assemelham-se a um alinhamento de bóias cercando o estreito canal navegável e alertando os navios contra os perigos ameaçadores dos dois lados. Não são uma definição nem servem para definir, pois tal não foi a intenção da Igreja.” (G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, p. 68. Vd. também: B. Lohse, A Fé Cristã Através dos Séculos, 2ª ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1981, p. 100-101). Num mar tormentoso como aquele vivido em Calcedônia, as “âncoras” foram necessárias – e ainda são –, para preservar segura a Igreja em meio a todas as ondulações heréticas na história, sem se distanciar da plenitude da revelação bíblica. 109  Πρόσωπον, na versão latina: “Personam”. “Pessoa”; significando primariamente, “face” ou “expressão”. A idéia básica da palavra é a de um papel representado por alguém numa brincadeira. Logicamente, este termo é menos técnico e preciso que ὕπόστασις. Os Pais gregos, se apropriaram desta palavra, utilizando-a para referirem-se à Trindade, conferindo-lhe o sentido teológico de “indivíduo”, de uma pessoa que tem uma natureza racional e uma substância individual, própria. (Quanto às discussões teológicas a respeito da interpretação dada a esta palavra, Vd. Persona: In: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, p. 223-227). 110 ὕπόστασις, na versão latina: “Subsistentiam”. “Substância”, “natureza”, “essência”. A palavra denota uma subsistência pessoal e real. ( * 2Co 9.4; 11.17; Hb 1.3; 3.14; 11.1)(Sobre a interpretação desta palavra nos textos aludidos, Vd. Wick Broomall, Su(b)stancia: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, p. 504-505).


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um e o mesmo Filho, Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas do passado e o próprio Senhor Jesus Cristo nos ensinaram a respeito dele e o Credo dos santos Pais nos transmitiu.”

CREDO ATANASIANO (c. 500) Todo aquele que quiser ser salvo: é-lhe necessário, primeiro que tudo, que receba a fé católica: A qual é preciso que cada um guarde perfeita e inviolada ou terá com certeza de perecer para sempre. A fé católica é esta: que adoremos um só Deus em trindade, e trindade em unidade. Nem confundindo as Pessoas, nem separando a Substância. Porque é uma Pessoa do Pai: outra do Filho: e outra do Espírito Santo. Mas a Divindade do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, é uma: a Glória igual e majestade co-eterna. Aquilo que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. O Pai incriado: o Filho incriado: o Espírito Santo incriado. O Pai imenso: o Filho imenso: o Espírito Santo imenso. O Pai eterno: o Filho eterno: o Espírito Santo eterno. E contudo, não são três eternos: mas um só eterno. Como também não são três incriados: nem três imensos, porém um só incriado; e um só imenso. Do mesmo modo o Pai é onipotente: o Filho é onipotente: e o Espírito Santo onipotente. E contudo, não há três onipotentes: mas um só onipotente. Assim o Pai é Deus: o Filho é Deus: e o Espírito Santo é Deus. E contudo não há três deuses: mas um só Deus.

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Assim o Pai é Senhor: o Filho é Senhor: o Espírito Santo é Senhor. E contudo não há três Senhores: mas um só Senhor. Porque assim como somos obrigados pela verdade Cristã: a confessar que cada Pessoa é por si mesma Deus e Senhor. Assim também somos proibidos pela religião católica: de dizer: há três Deuses, ou três Senhores. O Pai não foi feito de ninguém: nem criado, nem gerado. O Filho é só do Pai: não é feito, nem criado: mas gerado. O Espírito Santo é do Pai e do Filho: não feito, nem criado, nem gerado: porém procedendo. Por isso há um só Pai, não três Pais: um Filho, não três Filhos: um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. E nesta Trindade nenhum é o primeiro ou o último: maior ou menor. Mas todas as três Pessoas são co-eternas, e co-iguais. Semelhante em todas as coisas, como supracitado: a Unidade na Trindade, e a Trindade na Unidade, deve ser adorada. Portanto quem quiser ser salvo, deve pensar assim a respeito da Trindade. Mas é necessário para a salvação eterna: que também se creia fielmente na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. É, portanto, verdadeira fé que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo e Filho de Deus, é Deus e homem; Deus, da Substância do Pai; gerado antes dos mundos: e Homem, da Substância de sua Mãe, nascido no mundo. Perfeito Deus: e perfeito Homem, subsistindo em uma alma racional e carne humana. Igual ao Pai segundo a sua Divindade: e menor do que o Pai segundo a sua humanidade.


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O qual, ainda que seja Deus e homem, não é dois, e sim um só Cristo. Um só; não por conversão da sua Divindade em carne; mas sim pela assunção em Deus da sua Humanidade. Um só; não por confusão de Substância: mas sim, pela unidade da Pessoa. Porque assim como uma alma racional e carne são um só homem: assim também Deus e Homem são um só Cristo; O qual sofreu por nossa salvação: desceu ao inferno, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Ascendeu aos céus: assentando-se à direita de Deus Pai Onipotente. De onde virá para julgar os vivos e os mortos. À cuja vinda todos os homens ressurgirão com seus corpos; E darão conta de suas próprias obras. E os que tiverem feito o bem entrarão na vida eterna; e os que tiverem feito o mal, para o fogo eterno. Esta é a fé católica: a menos que um homem creia fiel e firmemente, não poderá ser salvo.111

1.2. OS CREDOS DA REFORMA: Os Credos da Reforma são as Confissões de Fé e Catecismos que surgiram no período da Reforma ou por inspiração daquele movimento, refletindo uma teologia semelhante. Neles não temos a pretensão de uma nova teologia, antes, a explicação dos Credos aceitos pela igreja. Portanto, mais do que uma teologia inovadora, temos uma visão nova e paradoxalmente restauradora das antigas doutrinas das Escrituras. Nos séculos 4º e 5º a Igreja foi intensa e necessariamente ativa em seus pronunciamentos quanto às heresias que afloravam em seu meio. Ali temos a 111 Este Credo encontra-se publicado em latim e inglês in P. Schaff, The Creeds of Christendom, II, p. 66-70. Em obra recente de Teologia Sistemática, o Credo Atanasiano, veio publicado em português (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 997-998).


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elaboração de Credos ((Nicéia (325), Constantinopla (381), Calcedônia (451), Atanasiano (c. 500)) que foram de capital importância para que os fiéis tivessem uma visão clara do que a Igreja cria e ensinava. Num ambiente de efervescência teológica que revelava mais a criatividade humana do que fidelidade bíblica, foi de fundamental importância que a Igreja se posicionasse revelando de modo evidente o seu compromisso com a Escritura Sagrada. De certa forma, podemos dizer que o que foram os séculos 4º e 5º para a elaboração dos Credos, foram os séculos 16 e 17 para a confecção das Confissões e Catecismos. A razão nos parece evidente: Na Reforma, as Igrejas logo sentiram a necessidade de formalizar a sua fé, apresentando sua interpretação sobre diversos assuntos que as distinguia da igreja romana; com o passar do tempo, surgem outras denominações dentro da Reforma, que, discordavam entre si sobre alguns pontos, daí a necessidade de se estabelecer cada um per si, os seus princípios doutrinários. Calvino, já combatera a “fé implícita”112 – que era patente na teologia católica –, declarando que a nossa fé deve ser “explícita”. No entanto, ele ressalta que devido ao fato de que nem tudo foi revelado por Deus, bem como à nossa ignorância e pequenez espiritual, muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita. Calvino depois de um extenso comentário, nos diz: Certamente que não nego (de que ignorância somos cercados!) que muitas coisas nos sejam agora implícitas, e ainda o hajam de ser, até que, deposta a massa da carne, nos hajamos achegado mais perto à presença de Deus, coisas essas em que nada pareça mais conveniente que suspender julgamento, mas firmar o ânimo a manter a unidade com a Igreja.113 Com este pretexto, porém, ador112 Que chama de “espectro papista” (J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 10.17), p. 375) e, “fé forjada e implícita inventada pelos papistas. Pois por fé implícita eles querem dizer algo destituído de toda luz da razão” (João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.1), p. 299), que “separa a fé da Palavra de Deus” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.17), p. 375). 113 Foi com este espírito que Calvino nos advertiu diversas vezes: “As cousas que o Senhor deixou recônditas em secreto não perscrutemos, as que pôs a descoberto não negligenciemos, para que não sejamos condenados ou de excessiva curiosi-


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nar com o nome de fé à ignorância temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. Ora, a fé jaz no conhecimento de Deus e de Cristo (Jo 17.3), não na reverência à Igreja.114 (grifos meus).

Em outro lugar: Que costume é esse de professar o evangelho sem saber o que ele significa? Para os papistas, que se deixam dominar pela fé implícita, tal coisa pode ser suficiente. Mas para os cristãos não existe fé onde não haja conhecimento.115

Pelas palavras de Calvino, podemos observar a necessidade latente do ensino e estudo constante da Palavra de Deus, a fim de que cada homem, sendo como é, responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante de Deus de forma consciente; a fé explícita é patenteada pela Igreja por intermédio do ensino da Palavra.116 dade, de uma parte, ou de ingratidão, de outra” (J. Calvino, As Institutas, III.21.4). “Nem nos envergonhemos em até este ponto submeter o entendimento à sabedoria imensa de Deus, que em seus muitos arcanos sucumba. Pois, dessas cousas que nem é dado, nem é lícito saber, douta é a ignorância, a avidez de conhecimento, uma espécie de loucura” (As Institutas, III.23.8). ”Que esta seja a nossa regra sacra: não procurar saber nada mais senão o que a Escritura nos ensina. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossas mentes de avançar sequer um passo a mais” (J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Rm 9.14), p. 330). 114  João Calvino, As Institutas, III.I.3. (Vd. também III.2.5ss). Em outras passagens, Calvino discorreu sobre a fé; cito aqui algumas delas: “Fé verdadeira, é aquela que o Espírito de Deus sela em nosso coração” (João Calvino, As Institutas, I.7.5). “A fé não consiste na ignorância, senão no conhecimento; e este conhecimento há de ser não somente de Deus, senão também de sua divina vontade” (As Institutas, III.2.2). “É um conhecimento firme e certo da vontade de Deus concernente a nós, fundamentado sobre a verdade da promessa gratuita feita em Jesus Cristo, revelada ao nosso entendimento e selada em nosso coração pelo Espírito Santo” (As Institutas, III.2.7). “Nossa fé repousa no fundamento de que Deus é verdadeiro. Além do mais, esta verdade se acha contida em sua promessa, porquanto a voz divina tem de soar primeiro para que possamos crer. Não é qualquer gênero de voz que é capaz de produzir fé, senão a que repousa sobre uma única promessa. Desta passagem, pois, podemos deduzir a relação mútua entre a fé dos homens e a promessa de Deus. Se Deus não prometer, ninguém poderá crer” (João. Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 10.23), p. 270). “Fé verdadeira é aquela que ouve a Palavra de Deus e descansa em sua promessa” (João. Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 11.11) p. 318). “Nossa fé não tem que estar fundamentada no que nós tenhamos pensado por nós mesmos, senão no que nos foi prometido por Deus” (J. Calvino, Sermones Sobre la Obra Salvadora de Cristo, Jenison, Michigan: TELL, 1988, “Sermon nº 13”, p. 156). 115  João Calvino, Gálatas, (Gl 1.2), p. 25. 116 “A Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual, como nada é omitido não só necessário, mas também proveitoso de conhecer-se, assim também nada é ensinado senão o que convenha saber” (João. Calvino, As Institutas, III.21.3). Para uma visão a respeito das implicações deste conceito na prática educacional protestante, ver: Hermisten Maia Pereira da Costa,


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Tillich (1886-1965) interpretando esse fato, diz: Cada indivíduo deve ser capaz de confessar os próprios pecados, experimentar o significado do arrependimento, e se tornar certo de sua salvação em Cristo. Essa exigência gerava um problema no protestantismo. Significava que todas as pessoas precisavam ter o mesmo conhecimento básico das doutrinas fundamentais da fé cristã. No ensino dessas doutrinas não se emprega o mesmo método para o povo comum e para os candidatos às ordens, ou para os futuros professores de teologia, com a prática do latim e grego, da história da exegese e do pensamento cristão. Como se pode ensinar a todos? Naturalmente, apenas se tornarmos o ensino extremamente simples.117

Essa necessidade determina o uso cada vez mais evidente da razão, a fim de apresentar de forma mais razoável possível a doutrina, e, ao mesmo tempo, de forma simples. Eis dois marcos do ensino ortodoxo: amplitude e simplicidade. O ser humano é responsável diante de Deus; ele dará contas de si mesmo ao seu Criador; portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra de Deus em toda a sua plenitude revelada. Nesse período são compostas diversas “Confissões”, que além de visar preservar a sã doutrina, objetivavam tornar clara e objetiva a fé dos crentes. Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas. Entretanto, precisavam ao mesmo tempo ser simples, para que o crente comum (não iniciado nas questões teológicas) pudesse entender o que estava sendo dito. Confrontando este ensinamento com a Palavra de Deus, o crente teria, assim, uma compreensão bíblica da sua fé. Nesse contexto e, com objetivos eminentemente didáticos, surgem os catecismos (Gr. Κατηχέω = “ensinar”, “instruir”, “informar”. Cf. Lc 1.4; At 18.25; 21.21,24; Rm 2.18; 1Co 14.19; Gl 6.6.), constituídos, ainda que não exO Conceito de “Fé Explícita” e a Educação: Uma Perspectiva Reformada – Ensaio introdutório –, São Paulo, 2004. 117  Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo: ASTE., 1986, p. 41.


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clusivamente, com perguntas e respostas. Até o século XVI, a palavra “catecismo” não tivera sido usada neste sentido.118 Os catecismos visavam servir para instruir as crianças e os adultos;119 este é o motivo que contribuiu decisivamente para a proliferação de catecismos, sendo que a maioria deles jamais passou da forma manuscrita, visto que muitos pastores os elaboravam apenas para a sua congregação local, visando atender às suas necessidades doutrinárias.120 O primeiro trabalho a receber o título de “Catecismo”, foi o do humanista e reformador luterano Andreas Althamer (c. 1500-1539) em 1528.121 Porém, os mais influentes no século XVI, foram os de Lutero (1483-1546): O Catecismo Maior (abril de 1529) e principalmente, O Catecismo Menor (maio de 1529), ambos escritos em alemão. No prefácio do Catecismo Menor, Lutero declara os motivos que o levaram a redigir este Catecismo e, apresenta também sugestões de como ensiná-lo à Congregação. No decorrer dos sete capítulos, ele quase sempre inicia dizendo: “Como o chefe de família deve ensiná-lo à sua casa” ou: “Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa” e expressões similares. Transcreverei apenas o que Lutero disse a respeito das suas motivações: A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador,122 é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo 118  Cf. D.F. Wright, Catecismos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, VoI. I, p. 249. 119  Vd. M. Lutero, Catecismo Maior, Prefácio, II.1-6: In: Os Catecismos, Porto Alegre/São Leopoldo, RS.: Concórdia/ Sinodal, 1983, p. 391. Ver também: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 106. 120 Daqui depreende-se que não foram somente eruditos que escreveram catecismos, mas também pastores, que estavam preocupados especificamente com a sua comunidade local (Vd. David. F. Wright, Catechism: Donald K. McKim, ed. Encyclopedia of the Reformed Faith, p. 60). 121  Cf. D.F. Wright, Catecismos: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, p. 250. 122  Lutero viajou pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, entre 22/10/1528 e 09/01/1529.


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incompetentes e incapazes para a obra do ensino. (...) Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos.123

Durante o inverno de 1536-1537 Calvino elaborou em francês um Catecismo, não sendo constituído em forma de perguntas e respostas, escrito de modo que julgou acessível a toda Igreja. O seu objetivo era puramente didático. Esta obra foi intitulada: Instrução e Confissão de Fé, Segundo o Uso da Igreja de Genebra,124 sendo traduzida para o latim em 1538. Posteriormente, quando Calvino regressou de Estrasburgo, fez uma revisão desse Catecismo – tornando a sua teologia mais acessível aos seus destinatários: as crianças,125 especialmente aquelas entre 10 e 15 anos126 –, e a ampliou consideravelmente, mudando inclusive a sua forma, passando então, a ser constituída de perguntas e respostas, contendo 373 questões. Este Catecismo pode ser assim esboçado: I - Fé (1-130) Introdução (1-18) Segue a exposição do Credo Apostólico, da seguinte forma: a) Deus Pai (19-29) b) Deus Filho (30-87) c) Deus Espírito Santo (88-91) d) A Igreja (92-130) II - Os Dez Mandamentos (131-232) III - A Oração (233-295) IV - A Palavra e os Sacramentos (296-373) 123  Catecismo Menor, In: Os Catecismos, Martinho Lutero, Porto Alegre/São Leopoldo, RS. Concórdia/Sinodal, 1983, p. 363. 124  Este Catecismo (Em português: Instrução na Fé, Goiânia: Logos Editora, 2004) consistiu num resumo da primeira edição das Institutas (1536) (Cf. John H. Leith, em prefácio à tradução da obra de Calvino e Paul T. Fuhrmann em “prefácio histórico” à mesma obra, Instruction in Faith (1537), Louisville, Kentucky: Westminster/John Knox Press, (1992), p. 10 e 16; Cf. Tomas M. Lindsay, La Reforma y su Desarrollo Social, p. 101; John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, New York: Oxford University Press, 1954, p. 140. Vd. também, p. 204). Esta foi a primeira “exposição sistemática do pensamento calvinista na língua francesa” (A.H. Freundt Jr., Catecismo de Genebra: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 246). Marc Venard, O Concílio Lateranense V e o Tridentino. In: Giuseppe Alberigo org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 339. 125 Cf. Tomas M. Lindsay, La Reforma y Su Desarrollo Social, p. 100. 126 Cf. Thomas F. Torrance, (Translated and edited with an Introduction), The Scholl of Faith: the catechisms of the reformed church, London: James Clarke & Co., 1959, p. 3-4.


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a) A Palavra e o Ministro (296-308) b) Os Sacramentos (309-373) - Definição e Significado (309-323) - Batismo (324-339) - Ceia do Senhor (340-373)

Esta nova edição foi publicada entre o fim de 1541 e o início de 1542, tornando-se juntamente com as Institutas um sucesso editorial.127 Em 1545,128 Calvino traduziu o Catecismo para o latim visando dar um alcance maior aos seus ensinamentos, contribuindo deste modo para a maior unidade entre as Igrejas Reformadas.129 A partir de 1561, este Catecismo ganhou maior importância, visto que desde então todo ministro da Igreja deveria jurar fidelidade aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.130 Calvino entendia que a Igreja não permaneceria sem o ensino sistemático por intermédio de Catecismo o qual deveria ser ministrado às crianças numa linguagem adequada a idade delas. O ensino do Catecismo contribuiria para preservar a unidade da Igreja e prevenir contra a invenção de doutrinas fictícias engendradas por pessoas presunçosas.131 Quanto Confissões de Fé, elas basicamente não foram feitas como um texto para a instrução na fé Cristã, já que esta era a função dos Catecismos.132 Elas poderiam ser produzidas por homens individualmente, para o seu uso privado (A Segunda Confissão Helvética); por um Concílio de uma Igreja em particular (Cânones de Dort); por um indivíduo que age como representante de sua Igreja 127  Febvre, diz que, “de 1550-1564 (ano da morte de Calvino), serão publicadas 256 edições, das quais 160 em Genebra. A Institution chrétienne é, então, sozinha, objeto de 25 reedições, nove latinas e dezesseis francesas das quais a maioria provém dos prelos genebrinos; e, mais ainda talvez, o Catéchisme par demandes et réponses que Calvino publica em 1541....” (Lucien Febvre; Henry-Jean Martin, O Aparecimento do Livro, p. 442-443). Wendel nos diz que a primeira edição da Instituição esgotou-se em menos de um ano (François Wendel, Calvin, New York: Harper & Row, Publishers, 1963, p. 113; Justo L. Gonzalez, A Era dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1986 (Reimpressão), p. 111). (Vd. Também, T. George, Teologia dos Reformadores, p. 177-178). 128 A dedicatória de Calvino é de 02/12/1545. (Vd. In: John Calvin, Tracts and Treatises on the Doctrine and Worship of The Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958, Vol. II, p. 36). 129 Cf. Theodoro de Beza, A Vida e a Morte de João Calvino, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 2006, p. 34. 130  Cf. Catecismo de la Iglesia de Ginebra, In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: La Aurora, 1962, p. 7-8. 131  Ver: Calvin to Somerset, Letter 21. In: Letters of John Calvin, Selected from the Bonnet Edition, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1980, p. 96-97. 132  Cf. George S. Hendry, La Confesion de Fe de Westminster, para el día de hoy, Bogotá: CCPAL, 1966 p. 14.


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(Confissão de Augsburgo); por um grupo de teólogos convocados pelo Estado (Confissão de Westminster) ou escrita como uma defesa de sua fé em meio a uma terrível perseguição (A Confissão dos Valdenses),133 etc. Com isto, estamos dizendo, que não havia uma regra fixa para a elaboração de uma Confissão de Fé; os contextos eram variados e, apesar de haver motivações comuns a todas elas, existiam circunstâncias especiais, que conduziam a determinadas ênfases, especialmente no que se refere às questões relativas ao governo e à igreja romana. Isto traz consigo, o problema da unificação das Confissões. Por que não unificá-las?!, é uma pergunta pertinente. De fato, esta preocupação existiu. Por exemplo: Em 1530, Carlos V, Imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo. Objetivo: unificação político-religiosa dos seus domínios. Dali saiu a Confissão de Augsburgo, redigida por Philipp Melanchthon (1479-1560), o “preceptor da Germânia”,134 com a aquiescência de Lutero (1483-1546), que fez um comentário ambíguo a respeito da sua leveza.... Esta Confissão foi lida, em latim e alemão, pelo Chanceler Christian Beyer, da Saxônia Eleitoral, perante toda a Dieta, no dia 25 de junho de 1530, às 15 horas. Mesmo o Imperador não a aceitando, e proibindo a sua divulgação, em pouco tempo ela foi propagada em toda Alemanha.135 133 A Confissão dos Valdenses – que não faz parte de nossa abordagem – é, em parte um resumo da Confissão Gaulesa (P. Schaff, COC., Vol. III, p. 757. Vd. um quadro comparativo das duas, feito por Alberto Revel, In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: Editorial “La Aurora”, 1962, p. 195). Ela foi composta provavelmente por Jean Leger (1615-?) e possivelmente sistematizada por seu tio Antoine Leger, professor da Academia de Calvino em Genebra. Foi publicada num período de forte perseguição religiosa na Itália, quando os Valdenses foram caluniados, martirizados, esbulhados, exilados, etc. A edição Italiana da Confissão intitulava-se: “Confissão de fé das Igrejas Reformadas, Católicas e Apostólicas de Piemonte, confirmada pelo testemunho explícito da Sagrada Escritura”. O texto francês, diz: “Breve Confissão de Fé das Igrejas Reformadas de Piemonte” e, embaixo, acrescentava: “Publicada em seu Manifesto à ocasião do horrendo massacre do ano de 1655”. Ao que parece, esta Confissão só viria a ser aprovada oficialmente, no século XIX. (Vd. J. Alberto Soggin em texto introdutório à Confissão de Fé da Igreja Evangélica Valdense, In: Catecismos de la Iglesia Reformada, Buenos Aires: Editorial “La Aurora”, 1962, p. 189-196; P. Schaff, COC., Vol. III, p. 757). 134  Cf. Herrlinger e Max Landerer, Melanchthon: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Vol. II, p. 1461; Paul Monroe, História da Educação, 11ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 179 e Lorenzo Luzuriaga, História da Educação Pública, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959, p. 8. Monroe, diz que Melanchthon, por ter redigido em 1528, os Regulamentos Escolares da Saxônia, “tornou-se o fundador do sistema escolar do Estado moderno.” (P. Monroe, História da Educação, p. 180). Na presidência da Universidade de Wittenberg, ele “exigiu que os professores ensinassem de acordo com o Credo Apostólico, o Credo de Nicéia, o Credo de Atanásio e a Confissão de Augsburgo” (Hayward Armstrong, Bases da Educação Cristã, Rio de Janeiro: JUERP., 1992, p. 62). 135 Vd. Martin Dreher em Introdução à Confissão de Augsburgo, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1980, p. 7-11; J.M. Drickamer, Confissão de Augsburgo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, p. 328-329.


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Calvino entende que a divergência em questões secundárias não deve servir de pretexto para a divisão da Igreja; afinal, todos, sem exceção, estão envoltos de “alguma nuvenzinha de ignorância”... .... São palavras do Apóstolo: ‘Todos quantos somos perfeitos sintamos o mesmo; se algo entendeis de maneira diferente, também isto vos haverá de revelar o Senhor’ (Fp 3.15). Não está ele, porventura, a suficientemente indicar que o dissentimento acerca destas cousas não assim necessárias, não deve ser matéria de separação entre cristãos? Por certo que estará em primeira instância que em todas as cousas estejamos em acordo; mas, uma vez que ninguém há que não esteja envolto de alguma nuvenzinha de ignorância, impõe-se que ou nenhuma igreja deixemos, ou perdoemos o engano nessas cousas que possam ser ignoradas não somente inviolada a suma da religião, mas também aquém da perda da salvação. Mas, aqui, não quereria eu patrocinar a erros, sequer os mais diminutos, de sorte que julgue devam ser fomentados, com agir com complacência e ser-lhes conivente.136 Digo, porém, que não devemos por causa de quaisquer dissentimentozinhos abandonar irrefletidamente a Igreja, em que somente se retenha salva e ilibada essa doutrina, mercê da qual se mantém firme a incolumidade da piedade e conservado é o uso dos sacramentos instituído pelo Senhor.137 136 “Paulo, pois, nos ensina (Ef 5.11) que, quando não reprovamos os maus, essa é uma espécie de comunhão com as obras infrutíferas das trevas. É certamente um modo de agir muito perverso quando certas pessoas, buscando alcançar o favor humano, indiretamente desdenham de Deus; e todos são coniventes em fazer com que seus negócios sejam do agrado dos perversos. Davi, contudo, sente deferência, não tanto pela pessoa do perverso, mas pelas suas obras. O homem que vê o perverso sendo honrado, e pelos aplausos do mundo se torna ainda mais obstinado em sua perversidade, e que de bom grado dá seu consentimento ou aprovação, com isso não estará enaltecendo o vício, em vez da autoridade, e o envolvendo de soberano poder?” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 15.1), p. 293). 137 J. Calvino, As Institutas, IV.1.12. Em outro lugar: “Onde se professava o Cristianismo, se adorava um único Deus, se praticavam os Sacramentos e se exercia algum gênero de ministério, ali permaneciam as marcas da Igreja. Nem sempre encontramos nas igrejas tal pureza como era de se desejar. Ainda a mais pura tem suas máculas, e algumas têm não só umas poucas manchas aqui e ali, mas são quase que completamente deformadas. Não devemos ficar tão desconcertados pelo ensino e vida de alguma sociedade que, se não ficamos satisfeitos com tudo o que se procede ali, então prontamente


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Não vejo, porém, nenhuma razão por que uma igreja, por mais universalmente corrompida, desde que contenha uns poucos membros santos, não deva ser denominada, em honra desse remanescente, de santo povo de Deus.138 Contanto que a religião continue pura quanto à doutrina e ao culto, não devemos deixar-nos abalar em demasia ante os erros e pecados que os homens cometem, como se com isso a unidade da Igreja fosse dilacerada. Entretanto, a experiência de todas as épocas nos ensina quão perigosa esta tentação se torna quando vemos a Igreja de Deus, que deve prosseguir isenta de toda e qualquer mancha poluente e resplandecer em incorruptível pureza, nutrindo em seu seio um grande número de hipócritas ímpios ou pessoas perversas. (…) Mas Cristo, em Mateus 25.32, com justa razão alega ser seu, com toda propriedade, o ofício peculiar de separar as ovelhas dos cabritos; e por isso nos admoesta que devemos suportar os maus, e que não está em nosso poder corrigi-los, até que as coisas se tornem amadurecidas e chegue o tempo próprio de purificar a Igreja. Ao mesmo tempo, os fiéis são aqui intimados, cada um em sua própria esfera, a empregar todos os seus esforços para que a Igreja de Deus seja purificada das corrupções que nela ainda persistem. (…) O sagrado celeiro de Deus não estará perfeitamente purificado antes do último dia, quando Cristo, em sua vinda, lançará fora a palha. Mas Ele já começou a fazer isso através da doutrina do seu Evangelho, que chama crivo de joeirar. Não devemos, pois, de forma alguma ser indiferentes acerca desse assunto; ao contrário, devemos antes mostrar-nos absolutamente sérios, para que todos nós que professamos ser cristãos possamos levar uma vida santa e imaculada. Acima de tudo, porém, o que Deus aqui declara negamos ser ela uma igreja” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 1.2), p. 25). 138 João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 50.4), p. 401.


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com respeito a toda injustiça deve ficar indelevelmente impresso em nossa memória; ou seja, que Ele os proíbe de entrar em seu santuário, e condena sua ímpia presunção em irreverentemente intrometer-se na sociedade dos santos.139 Todavia, ainda quando a Igreja seja remissa em seu dever, não por isso será direito de cada um em particular a si pessoalmente assumir a decisão de separar-se.140 Há tanta rabugice em quase todos esses indivíduos que, estando em seu poder, de bom grado fariam para si suas próprias igrejas, porquanto se torna difícil acomodarem-se aos modos das demais pessoas.141 É indubitável que a nós compete cultivar a unidade da forma a mais séria, porque Satanás está bem alerta, seja para arrebatar-nos da Igreja, ou para desacostumar-nos dela de maneira furtiva.142

Na sua concepção a humildade se constitui num primeiro passo para alcançar a unidade. Continua: “Donde procede a impudência, a soberba e as injúrias lançadas contra os irmãos? Donde procede as questiúnculas, os escárnios e as exprobrações, a não ser do fato de cada um amar excessivamente a si próprio e de querer agradar em demasia a si próprio? Aquele que se desfaz da arrogância e cessa de agradar a si próprio se tornará manso e acessível. E quem quer que persista em tal moderação ignorará e tolerará muitas coisas nos irmãos.(...) Será inútil ensinar a mansidão, a menos que tenhamos iniciado com humildade”.143 Portanto, “devemos ser unidos, não apenas em uma parte, mas no corpo e na alma”.144 139 João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 15.1), p. 287-289. 140 J. Calvino, As Institutas, IV.1.15. Em outro lugar Calvino diz: “Deus só é corretamente servido quando sua lei for obedecida. Não se deixa a cada um a liberdade de codificar um sistema de religião ao sabor de sua própria inclinação, senão que o padrão de piedade deve ser tomado da Palavra de Deus” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 1.1), p. 53). 141 João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 10.25), p. 272. 142 João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 10.25), p. 273. 143  João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.1), p. 108. 144  João Calvino, Efésios, (Ef 4.1-4), p. 109.


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Em 19 de agosto de 1561, na Dedicatória de seu comentário do Profeta Daniel, Calvino fala de seu esforço por manter a paz – o que nem sempre tem sido possível –, e, ao mesmo tempo, estimula seus irmãos a não ultrapassarem determinados limites. Escreve: Mais ainda, é vossa incumbência, amados irmãos, tomar prudente cuidado para que a verdadeira religião possa novamente readquirir uma posição sã; isto é, até onde cada um tiver o poder e a vocação. Não é necessário dizer o quanto tenho lutado para remover toda e qualquer ocasião geradora de tumultos até agora. Clamo aos anjos e a vós para testemunhardes diante do supremo juiz que não é de minha responsabilidade que o progresso do reino de Cristo não tenha sido calmo e inofensivo. De fato, julgo ser em decorrência de meu cuidado que pessoas particulares ainda não passaram dos limites.145

Ele entende que Satanás muitas vezes se vale de nossos bons sentimentos para fazer com que quebremos a unidade da Igreja, supostamente, em busca de uma Igreja ideal. Para este mister, somos capazes até de reunir textos que falam da santidade da Igreja como pretexto para a nossa atitude.146 “Recordemos sempre, quando o diabo nos empurrar para as controvérsias, que as desavenças dos membros, no seio da Igreja, não nos levam a parte alguma, senão para a ruína e destruição de todo o corpo”.147 Como os jovens são mais irritáveis, dá uma orientação mais específica: “Os jovens, em meio às controvérsias, se irritam muito mais depressa do que os de mais idade; se iram mais facilmente, cometem mais equívocos por falta de experiência e se precipitam com mais ousadia e temeridade. Daí ter Paulo boas razões para aconselhar a um jovem a precaver-se contra os erros 145  João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, Vol. 1, p. 26. 146  Cf. John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Reprinted), Vol. XV, (Ag 2.1-5), p. 351. 147  João Calvino, Gálatas, (Gl 5.15), p. 165.


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próprios de sua idade, os quais, de outra forma, poderiam facilmente envolvê-lo em disputas inúteis”.148 Após argumentar contra aqueles que chamavam os reformados de hereges, ressalta que a unidade cristã deve ser na Palavra: Com efeito, também isto é de notar-se: que esta conjunção de amor assim depende da unidade de fé que lhe deva ser esta o início, o fim, a regra única, afinal. Lembremo-nos, portanto, quantas vezes se nos recomenda a unidade eclesiástica, isto ser requerido: que, enquanto nossas mentes têm o mesmo sentir em Cristo, também entre si conjungidas nos hajam sido as vontades em mútua benevolência em Cristo. E, assim, Paulo, quando para com ela nos exorta, por fundamento assume haver um só Deus, uma só fé e um só batismo (Ef 4.5). De fato, onde quer que nos ensina o Apóstolo a sentir o mesmo e a querer o mesmo, acrescenta imediatamente: em Cristo (Fp 2.1,5) ou: segundo Cristo (Rm 15.5), significando ser conluio de ímpios, não acordo de fiéis a unidade que se processa à parte da Palavra do Senhor.149

Em outro lugar, instrui: “A melhor forma de promover a unidade é congregar (o povo) para o ensino comunitário....”.150 Para os irmãos refugiados em Wezel (Alemanha), que sofriam diversas pressões de luteranos e sobreviviam numa pequena Igreja Reformada, Calvino, em 1554, os consola mostrando que apesar dos grandes problemas pelos quais passava o mundo, Deus lhes havia concedido um lugar onde poderiam adorar a Deus em liberdade. Também os desafia a não abandonarem a Igreja por peque148 João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 2.22), p. 244. 149  João Calvino, As Institutas, IV.2.5. Calvino entendia que “onde os homens amam a disputa, estejamos plenamente certos de que Deus não está reinando ali” (J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Edições Paracletos, 1996, (1Co 14.33), p. 436). T. George comenta com acerto, que “Calvino não estava disposto a comprometer pontos essenciais em favor de uma paz falsa, mas ele tentou chamar a igreja de volta à verdadeira base de sua unidade em Jesus Cristo” (T. George, Teologia dos Reformadores, p. 182-183). 150 João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 125.


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nas divergências nas práticas cerimoniais, sendo tolerantes a fim de preservar a unidade. Contudo, os exorta a jamais fazerem acordos em pontos doutrinários.151 Portanto, mesmo desejando a paz e a concórdia, Calvino entendia que essa paz nunca poderia ser em detrimento da verdade pois, se assim fosse, essa dita paz seria maldita: Naturalmente, há uma condição para entendermos a natureza desta paz, ou seja, a paz da qual a verdade de Deus é o vínculo. Pois se temos de lutar contra os ensinamentos da impiedade, mesmo se for necessário mover céu e terra, devemos, não obstante, perseverar na luta. Devemos, certamente, fazer que a nossa preocupação primária cuide para que a verdade de Deus seja mantida em qualquer controvérsia; porém, se os incrédulos resistirem, devemos terçar armas contra eles, e não devemos temer sermos responsabilizados pelos distúrbios. Pois a paz, da qual a rebelião contra Deus é o emblema, é algo maldito; enquanto que as lutas, indispensáveis à defesa do reino de Cristo, são benditas.152

Em 20 de março de 1552, Thomas Cranmer (1489-1556)153 escreveu a Calvino – bem como a Melanchthon (1497-1560)154 e a Bullinger (1504-1575)155 –, 151  John Calvin, To the Brethren of Wezel, “Letter,” John Calvin Collection, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 346, p. 32-34. 152 J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 14.33), p. 437. 153 Arcebispo de Canterbury, que em 1549 havia elaborado o Livro de Oração Comum, no qual dava ênfase ao culto em inglês, à leitura da Palavra de Deus e, ao aspecto congregacional da adoração cristã. 154 Melanchthon mesmo sendo luterano, e amigo pessoal de Lutero, desfrutou também de boa amizade com Calvino, mantendo com este ampla correspondência. Nos dizeres de Schaff, Melanchthon “permaneceu como um homem de paz entre dois homens de guerra” (Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 260). O seu principal trabalho teológico foi Loci Communes (Lugares Comuns)(abril de 1521). Este tratado foi a primeira obra de teologia sistemática protestante do período da Reforma, marcando época, portanto, na história da teologia. Nele Melanchthon segue a ordem da Epístola aos Romanos. (Ver: Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. VII, 368-370). Melanchthon, aos poucos, expandiu a sua obra; porém o fez de forma assistemática, tornando difícil o seu manuseio no que se refere à sistematicidade dos assuntos. (Cf. Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 110). A tradução francesa do trabalho de Melanchthon foi prefaciada por Calvino (1546). (Cf. W. de Greef, The Writings of John Calvin: An Introductory Guide, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1993, p. 205). 155  Bullinger foi amigo, discípulo e sucessor de Zuínglio (1484-1531), tendo escrito cerca de 150 obras, entre elas, A


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convidando-o para uma reunião no Palácio de Lambeth com o objetivo de preparar um credo que fosse consensual para as Igrejas Reformadas.156 Cranmer tinha em vista também, a realização do Concílio de Trento157 que estava em andamento, estando preocupado de modo especial com a questão da Ceia do Senhor. Calvino então responde (abril de 1552), encorajando Cranmer a perseverar no seu objetivo. A certa altura diz: ...Estando os membros da Igreja divididos, o corpo sangra. Isso me preocupa tanto que, se pudesse fazer algo, eu não me recusaria a cruzar até dez mares, se necessário fosse, por essa causa.158

O próprio Cranmer compôs no Livro de Oração Comum, uma oração para o culto anual anglicano, quando se comemorava a coroação do monarca. A oração diz: Ó Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, nosso único Salvador, o Príncipe da Paz: Dá-nos a graça para com seriedade nos compenetrarmos dos grandes perigos em que nos encontramos por causa de nossas lamentáveis divisões, retira todo o ódio e preconceito e tudo o mais que possa impedir-nos de ter uma união e concórdia piedosas; para que, como existe somente um só corpo e um só Espírito e uma só esperança de nossa vocação, Segunda Confissão Helvética (1562-1566). 156 Cranmer, na carta a Calvino diz: “Como nada mais tende a separar as Igrejas de Deus que as heresias e diferenças sobre as doutrinas de religião, assim nada mais eficazmente os une, e fortalece a obra de Cristo mais poderosamente, que a doutrina incorrupta do evangelho, e união em opiniões reconhecidas. Eu tenho frequentemente desejado, e agora desejo que esses homens instruídos e piedosos que superam outros em erudição e julgamento, constituíssem uma assembléia em um lugar conveniente, onde se realizasse uma consulta mútua, e comparando as suas opiniões, eles poderiam discutir todas as principais doutrinas da igreja.... Nossos adversários estão agora organizando o seu concílio em Trento, no qual eles podem estabelecer os seus erros. E devemos nós negligenciar convocar um sínodo piedoso que nos possibilite refutar os erros deles, e purificar e propagar a verdadeira doutrina?” (Thomas Cranmer to Calvin, “Letter,” John Calvin Collection, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 1998), 16). 157  Cranmer era um teólogo e estadista; a sua preocupação com Trento era pertinente e a história já demonstrou amplamente esse fato. 158 Letters of John Calvin, Selected from the Bonnet Edition, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1980, p. 132-133. Comentando sobre o egoísmo humano que gera divisões na Igreja e, ao mesmo tempo a falta de tolerância, Calvino escreve, exortando-nos à amar os nossos irmãos. Schaff analisa: “A Igreja de Deus era a sua casa, e aquela Igreja não conhece nenhum limite de nacionalidade e idioma. O mundo era a sua paróquia. Tendo rompido com o papado, ele ainda permaneceu um católico na melhor acepção da palavra, e orou e trabalhou para a unidade de todos os crentes” (Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 799).


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um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos nós, assim possamos de agora em diante ser todos de um só coração, de uma só alma, unidos em um único e santo vínculo de verdade e paz, de fé e caridade, e possamos de uma só mente e com uma só boca glorificar-te: por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.159

Todavia, é importante que se diga, que num primeiro momento, era impossível qualquer tentativa neste sentido, visto haver problemas geográficos, políticos, objetivos circunstanciais diferentes e mesmo, problemas doutrinários. Contudo, já no século XVII, algum progresso neste sentido é evidente, por meio de formulações doutrinárias mais completas e, também, após passar o primeiro ardor apaixonado e exclusivista, ainda que surgissem novos debates teológicos nos séculos XVII e XVIII durante o período denominado de “Ortodoxia Protestante”. Mesmo assim, as diferenças permaneceram sem contudo, ferir pontos cruciais da Reforma, tais como: A Bíblia como autoridade final; a Justificação pela graça mediante a fé; o Sacerdócio universal dos Santos; a Suficiência do sacrifício de Cristo para nos salvar, etc. Assim, os Credos da Reforma, tinham três objetivos específicos: 1) Evidenciar os fundamentos bíblicos de seus ensinos; 2) Demonstrar que as suas doutrinas estavam em acordo com os principais credos da Igreja (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano); 3) Distinguir a sua posição teológica em relação à teologia romana e às demais correntes provenientes da Reforma.160 As Confissões provenientes da Reforma (Séculos XVI e XVII), são divididas em dois grupos: Luteranas e Calvinistas (Reformadas). Dentro do nosso propósito, só consideraremos as Confissões Reformadas (Calvinistas). 159 Apud Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, p. 204. 160 Vd. Jack B. Rogers, Autoridade e Interpretação da Bíblia na Tradição Reformada: In: Donald K. McKim, ed. Grandes Temas da Tradição Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1998, p. 41.


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2. O USO DE CATECISMOS E CONFISSÕES REFORMADOS 2.1. LIMITES A história, portanto, evidencia a relevância dos Credos Evangélicos161 no que se refere à sua formulação doutrinária. O ato de depreciar os Credos significa deixar de usufruir as contribuições dos servos de Deus no passado referentes à compreensão bíblica; “é uma negação prática da direção que no passado deu o Espírito Santo à Igreja”.162 Por outro lado, temos de entender – aliás, como sempre foi entendido pelos Reformados –, que os Credos têm o seu limite. O Credo é uma resposta do homem à Palavra de Deus, sumariando os artigos essenciais da fé cristã.163 “Eles (os credos) não são revelação divina, mas parte da resposta da Igreja à revelação que a criou e a renovou na história, e que tem continuidade no presente”.164 Desta forma, eles pressupõem fé; mas não a geram; esta é obra do Espírito Santo por meio da Palavra (Rm 10.17). Os credos podem, equivocadamente, ser professados sem, de fato, a experiência de seu conteúdo, sem o conhecimento experimental do que lhe deu significado. Neste caso, temos um símbolo vazio, que nada diz, esgota-se em si mesmo. O símbolo que se auto-esgota nega a sua condição de 161  Chamo aqui de “Credos”, os Credos propriamente ditos (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano, etc), os Catecismos e Confissões. Sabemos, contudo, que podemos distingui-los de maneira mais precisa, conforme o faz McGrath, dizendo que devido ao fato dos credos sintetizarem os “principais pontos da fé cristã, os quais são compartilhados por todos os cristãos”, o termo “jamais é empregado em relação a declarações de fé que sejam associadas a denominações específicas. Essas são geralmente chamadas de ‘confissões’ (...). A ‘confissão’ pertence a uma denominação e inclui dogmas e ênfases especificamente relacionados a ela; o ‘credo’ pertence a toda a igreja cristã e inclui nada mais, nada menos do que uma declaração de crenças, as quais todo cristão deveria ser capaz de aceitar e observar. O ‘credo’ veio a ser considerado como uma declaração concisa, formal, universalmente aceita e autorizada dos principais pontos da fé cristã” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, p. 54).(Da mesma forma, Alister E. McGrath, Teologia Histórica: uma introdução à história do Pensamento Cristão, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 44). (Vejam-se também: Arthur C. Cochrane (Edited, with Historical Introductions), Reformed Confessions of the 16th Century, London: SCM Press, 1966, p. 26; Ulisses H. Simões, A Subscrição Confessional: necessidade, relevância e extensão. Belo Horizonte, MG.: Efrata Publicações e Distribuição, 2002, p. 18). Contudo, as Confissões podem ser chamadas de Credos ainda que qualificados como luteraros, calvinistas, batistas, presbiterianos, metodistas, etc. 162  Louis Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 22. Stott coloca bem esta questão: “Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a Igreja em todos os séculos” (John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Miami: Editora Vida, 1991, p. 8). 163 Ver: Arthur C. Cochrane (Edited, with Historical Introductions), Reformed Confessions of the 16th Century, London: SCM Press, 1966, p. 25. 164 Edward A. Dowey Jr., Documentos Confessionais como Hermenêutica: In: Donald K. Mckim, ed. Grandes Temas da Teologia Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999, p. 12.


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símbolo: é uma contradição. Contudo, ele serve de itinerário, de rota que auxilia extremamente o que crê a conhecer melhor os caminhos que conduzem ao fim da nossa fé (1Pe 1.9). O crê é obra da graça!165 Os Credos baseiam-se na Palavra, porém não são a Palavra – nem jamais foi isto cogitado pelos seus formuladores; eles não podem substituir a Palavra de Deus; somente Ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1.23; Tg 1.18).166 Para nós Reformados, os Credos têm a sua autoridade decorrente da Palavra de Deus; em outras palavras, o seu valor não é intrínseco mas sim, extrínseco: Eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Escritura; assim, a sua autoridade é relativa. Se isto é assim, alguém poderia insistir: “Para que então, os Credos, se nós temos a Bíblia?”. O Dr. A. A. Hodge (1823-1886), apresenta uma observação relevante: “Todos os que estudam a Bíblia fazem isso necessariamente no próprio processo de compreender e coordenar o seu ensino; e pela linguagem de que os sérios estudantes da Bíblia se servem em suas orações e outros atos de culto, e na sua ordinária conversação religiosa, todos tornam manifesto que, de um ou outro modo, acharam nas Escrituras um sistema de fé tão completo como no caso de cada um deles lhe foi possível. Se os homens recusarem o auxílio oferecido pelas exposições de doutrinas elaboradas e definidas vagarosamente pela Igreja, cada um terá de fazer seu próprio credo, sem auxílio e confiando só na própria sabedoria. A questão real entre a Igreja e os impugnadores de credos humanos não é, como eles muitas vezes dizem, uma questão entre a Palavra de Deus e os credos dos homens, mas é questão entre a fé provada do corpo coletivo do 165 “Deus é o único Pai no âmbito da fé, porquanto regenera a todos os crentes pela instrumentalidade de sua Palavra e pelo poder de seu Espírito, e é exclusivamente Ele que confere a fé” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.2), p. 27). 166 Veja-se: J.M. Boice, O Pregador e a Palavra de Deus: In: J.M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica, p. 162.


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povo de Deus e o juízo privado e a sabedoria não auxiliada do objetor individual”.167

Os Credos são somente uma aproximação e, relativa exposição correta da verdade revelada. Desta forma, podem ser modificados pelo progressivo conhecimento da Bíblia a qual é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomar os Credos como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites de nossa reflexão teológica estão na Palavra, não nos Credos. Os Credos não estabelecem o limite de nossa fé, antes a norteia. Conforme ressaltamos, a Palavra de Deus sempre será mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico por melhor que seja elaborado e por mais fiel que seja às Escrituras.168 No entanto, como ressalta Packer, “Na verdade a abordagem impiedosa seria tentar aprender de Deus como cavaleiro solitário que orgulhosamente ou impacientemente virasse as costas para a igreja e sua herança: isso seria receita certeira para esquisitices sem fim!”.169 “A instrução transmite conhecimento, mas também presume conhecimento”.170 A Confissão de Westminster, capítulo I, seção 10, diz: O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. 167 A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 99. 168 Veja-se: G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, p. 76. 169 J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, p. 236. 170  Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 26. No mesmo parágrafo, Veith escrevera: “O conhecimento, se for preservado e transmitido, pode ser acumulado. Muitos artistas, filósofos e teólogos modernos rejeitam o conhecimento do passado. Assim, eles têm que recomeçar de novo continuamente do zero, sendo sua visão restrita à sua própria perspectiva estreita, tornando-se artificialmente primitivos. (...) A instrução transmite conhecimento, mas também presume conhecimento”.


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A firmeza e a vivacidade da Teologia Reformada estão justamente em basear o seu sistema em todo o desígnio de Deus, submetendo-o ao próprio Deus que fala por meio da sua Palavra.171

2.2. VALOR E IMPORTÂNCIA A ideia de Credos desagrada a muitas pessoas porque os Credos pressupõem caminhos a serem seguidos; imaginam os Credos como um empobrecimento espiritual, um amordaçamento do Espírito... Dentro desta perspectiva, a doutrina tem pouco valor, o que importa de fato é a “vida cristã”; daí as ênfases de tais pessoas ou grupos, nas “experiências” – que, via de regra, pretendem convalidar a Palavra – ou, num “evangelho” puramente ético-social. Todavia, ambos os comportamentos, que revelam o mesmo equívoco, pecam por não compreender que a base de uma vida cristã autêntica, é uma sólida doutrina vivenciada (Vd. 1Tm 4.16). D. M. Lloyd-Jones (1899-1981), acentuou bem este ponto, dizendo: Toda a doutrina cristã visa levar, e foi destinada a levar a um bom resultado prático. (...) A doutrina visa levar-nos a Deus, e a isso foi destinada. seu propósito é ser prática (...) a nossa vida cristã nunca será rica, se não conhecermos e não aprendermos a doutrina.172 Você não poderá ser santo, se não conhecer bem a doutrina. Doutrina é a ligação direta que leva à santidade. É somente quando compreendemos estas verdades fundamentais que podemos atender ao apelo lógico para a conduta e o comportamento agradáveis a Deus.173 171 O teólogo Reformado Geerhardus Vos (1862-1949), conceituou corretamente a teologia, afirmando: “Toda genuína Teologia Cristã é necessariamente Teologia Bíblica porque aparte da Revelação Geral, a Escritura constitui o único material com o qual a ciência Teológica pode tratar” (Geerhardus Vos, Biblical Theology: Old and New Testament, Grand Rapids, Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1985 (reprinted), “Preface”, p. v.). 172  D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 85-86. 173  D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 254. Alhures Jones insiste: “Uma das primeiras coisas que você


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Alinhemos agora, alguns elementos que atestam a importância e o valor dos Credos: 1) Facilita a confissão pública de nossa fé, organizando de forma sucinta os principais pontos doutrinários de uma denominação. 2) Oferecem-nos de forma abreviada o resultado de um processo cumulativo da história, reunindo as melhores contribuições de diversos servos de Deus na compreensão da Verdade. As confissões refletem mais especificamente a compreensão de uma igreja, não de um teólogo em particular. Estas elaborações, ainda que revelem questões locais e circunstanciais, têm a sua fundamentação nas Escrituras, valendo-se de diversas contribuições da igreja, elaboradas, revistas, corrigidas e consolidadas ao longo da história. Ainda que a confissão seja individual, um testemunho de nossa fé, os credos se constituem num patrimônio da igreja.174 Não estamos sozinhos; podemos e devemos nos valer do que o Espírito tem operado por meio de seus servos ao longo da história. Como vimos parcialmente no início deste texto, Veith nos desafia e consola: Os cristãos modernos são os herdeiros de uma grande tradição intelectual cristã. Essa tradição de pensamento ativo e solução prática de problemas é uma aliada vital dos cristãos que lutam contra as tendências intelectuais do mundo contemporâneo. O uso das deve aprender nesta vida cristã e nesta guerra é que, se você estiver errado em sua doutrina, estará errado em todos os aspectos da sua vida. Provavelmente estará errado em sua prática e em sua conduta; e certamente estará errado em sua experiência” (David Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: PES., 1991, p. 101-102). “Não existe nada que seja tão errôneo e tão completamente falso como não perceber a importância primordial da doutrina verdadeira” (Ibidem., 102). “A verdadeira doutrina cristã é sempre urgentemente importante. É de suma importância para toda a vida da Igreja” (Ibidem., p. 103). “Se me pedissem para mencionar o maior problema entre os cristãos atuais, incluindo-se os conservadores, eu diria que é a nossa falta de espiritualidade e de um verdadeiro conhecimento de Deus” (D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 8. Prefácio). “Jamais poderemos conhecer demasiadamente as grandes doutrinas da fé, mas se esse conhecimento não nos leva a uma experiência cada vez mais profunda do amor de Cristo, não passa de conhecimento que ‘incha’ (1Co 8.1)” (Ibidem., p. 8. Prefácio) “O conhecimento é absolutamente essencial; sem conhecimento não pode haver nenhum crescimento. Todavia o conhecimento, no sentido verdadeiramente cristão, nunca é meramente intelectual. É assim, e isso porque é o conhecimento de uma Pessoa. O propósito de toda doutrina, o valor de toda instrução, é levar-nos à Pessoa do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (Ibidem., p. 165). “O evangelho não começa com as minhas dores e penas, minha necessidade de orientação, minha aflição. Não, começa com conhecer a Deus (...). O objetivo do cristianismo é levar-nos ao conhecimento de Deus como Deus, e ao conhecimento do Senhor Jesus Cristo” (Ibidem., p. 127). 174 Veja-se: W. Seibel, Confissão: In: Heinrich Fries, ed. Dicionário de Teologia, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1987, Vol. I, p. 274.


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perspectivas do passado pode fornecer uma perspectiva valiosa sobre as questões atuais. Podemos, assim, livrar-nos da tirania do presente, a suposição de que a maneira que as pessoas pensam hoje é o único modo possível de pensar.175 Os cristãos de hoje podem fazer uso da tradição intelectual cristã, como também podem se tornar um parte dela, que exerceu um tremendo impacto no mundo. Uma das chaves para solucionar os dilemas que um cristão enfrentará no mundo contemporâneo é perceber que nenhum cristão precisa encarar nenhum problema sozinho.176

Em outro lugar, referindo-nos à ciência, enfatizamos que ela não tem pátria nem idade; não sendo privilégio de um povo, menos ainda de um indivíduo; todo cientista – usando a figura de João de Salisbury (c. 1110-1180)177 – equivale a um anão sobre os ombros de gigantes, valendo-se das contribuições de seus predecessores, a fim de poder enxergar um pouco além deles. Podemos aplicar esta figura à teologia. Aliás, Packer já o fez, mais especificamente aplicando à tradição: “A tradição nos permite ficar sobre os ombros de muitos gigantes que pensaram sobre a Bíblia antes de nós. Podemos concluir pelo consenso do maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros Pais até o presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com responsabilidade. Contudo, tais interpretações (tradições) jamais serão finais; precisam sempre ser submetidas às Escrituras para mais revisão”.178 175  Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 97. 176  Gene Edward Veith, Jr, De Todo o Teu Entendimento, p. 99. 177 Cf. N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, p. 203. Parece que esta figura também foi empregada por outro teólogo medieval, “que morreu quase 300 anos antes de Lutero nascer....”, Pedro de Blois (Cf. Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 23). Newton mais tarde (05/02/1676) em carta a Robert Hooke (1635-1703 – seu ferrenho adversário (Cf. Paolo Casini, Newton e a Consciência Européia, São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995, p. 26ss) –, supostamente referindo-se a Kepler (1571-1630), Galileu (1564-1643) e Descartes (1596-1650), entre outros, também faria uso desta analogia. (Veja-se: N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, p. 280; Stephen Hawking, Os Gênios da Ciência: Sobre os ombros do Gigante: as mais importantes ideias e descobertas da física e da astronomia, Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2005, p. XI, 441). 178 J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, p. 235. “Quem examina a tradição encontra aberta diante de si a sabedoria de todas as épocas” (J.I. Packer, Ibidem., p. 237). “Humildade no juízo particular quer dizer que continuamos a examinar as Escrituras até ficar claro o que Deus disse, proibindo nosso intelecto


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3) É uma exigência natural da própria unidade da Igreja, que exige um acordo doutrinário179 (Ef 4.11-14; Fp 1.27; 1Co 1.10; Jd 3; Tt 3.10; Gl 1.8,9; 1Tm 6.3-5). 4) Visto que o cristianismo é um modo de vida fundamentado na doutrina, os Credos oferecem uma base sintetizada para o ensino das doutrinas bíblicas, facilitando a sua compreensão, a fim de que todos os crentes sejam habilitados para a obra de Deus. Não deixa de ser curioso o fato de Spener (1635-1705), o “fundador” do “Pietismo” – que se opunha ao “Escolasticismo Protestante” –, insistir com os pastores que ensinem às crianças e aos adultos, juntamente com as Escrituras, o Catecismo,180 visto ser este fundamental para a sedimentação da fé.181 5) Preserva a doutrina bíblica das heresias surgidas no decorrer da história, revelando-se de grande utilidade, especialmente, nas questões controvertidas, dando-nos uma exposição sistemática e norteadora a respeito do assunto. 6) No que se refere à compreensão bíblica, permite distinguir as nossas Igrejas das demais. 7) Serve como elemento regulador do ensino ministrado na Igreja bem como de seu governo, disciplina e liturgia. James Orr (1844-1913), na sua obra prima, O Progresso do Dogma, escrevendo sobre os “Credos da Reforma” disse: .... A idade da Reforma se destacou por sua produtividade de credos. Faremos bem se não menosprezarmos o ganho que resulta orgulhoso de tirar conclusões sobre aquilo que o Deus da Bíblia deixa em aberto ou de recusar-nos a aceitar ajuda da tradição cristã na interpretação das Escrituras sob a suposição de que um estudante da Bíblia ‘se vira’ perfeitamente bem sem essa ajuda” (J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, p. 241). Carson de forma particular ilustra isso: “Em meu próprio horizonte, reconheço alegremente um senso de dívida para com uma hoste de eruditos de cujo entendimento me beneficio, embora um tanto inadequadamente” (John Piper; D.A. Carson, O Pastor como Mestre e o Mestre como Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 112). 179 Veja-se: A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 100; L. Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 18. 180 No caso, o Catecismo Menor de Lutero, 1529. Spener era luterano. 181  Veja-se: Ph. J. Spener, Mudança para o Futuro: Pia Desideria, Curitiba, PR./São Bernardo do Campo, SP.: Encontrão Editora/Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, 1996, p. 32-33; 57-58; 118.


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para nós destas criações do espírito do século XVI. Cometeremos grave equívoco se, seguindo uma tendência prevalecente (1897), nos permitirmos crer que são curiosidades arqueológicas. Estes credos não são produtos ressecados como o pó, senão que surgiram de uma fé viva, e encerram verdades que nenhuma Igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria vida. São produtos clássicos de uma época que se comprazia em formular credos, com o qual quero dizer, uma época que possuía uma fé que é capaz de definir-se de modo inteligente, e pela qual está disposta a sofrer se for necessário – e que, portanto, não pode por menos que expressar-se em formas que não tenham validade permanente –. (...) Estes credos se têm mantido erguidos como testemunhos, inclusive em período de decaimento, às grandes doutrinas sobre as quais foram estabelecidas as Igrejas; têm servido como baluartes contra os assaltos e a desintegração; têm formado um núcleo de reunião e reafirmação em tempos de avivamento; e talvez têm representado sempre com precisão substancial a fé viva da parte espiritual de seus membros.... Os credos da Reforma dão, e isto praticamente pela primeira vez, uma exposição conjunta de todos os grandes artigos da doutrina cristã.182

8) Quanto a nós hoje os Credos servem, pelo menos deveriam servir,183 como desafio para que continuemos nossa caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos assim, à nobre sucessão daqueles que amam a Deus e a sua Pa182  James Orr, El Progreso del Dogma, Barcelona: CLIE., (1988), p. 226-227. 183  Como já vimos, entre o final dos anos 50 e início dos anos 60, Lloyd-Jones lamenta: “No presente século há marcante aversão por credos, confissões e por definições precisas. O cristianismo tornou-se um vago e indefinido espírito de boa vontade e filantropia” (David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 213).


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lavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem compromisso com o passado na geração do futuro.184 A declaração teológica terá sempre o compromisso de ser formulada em fidelidade à Palavra atentando para os problemas hodiernos. Esta formulação e proclamação não podem significar o barateamento da Verdade revelada, a insensibilidade para com os conflitos e indagações contemporâneos, nem uma síntese cinzenta de ambas as questões – visto que perderíamos a essência do Evangelho, que é poder de Deus (Rm 1.16) –, antes, consiste na proclamação fiel e autoritativa do Evangelho, sensível – como é o Evangelho em sua própria essência –, às necessidades dos seres humanos que continuam perecendo, em última instância, pelo pecado e a ignorância da graça redentiva de Deus. Só estes fatos deveriam, por si só, nos conduzir a uma atitude mais humilde, como assinala Noll: “O estudo da história da igreja deve aumentar a nossa humildade sobre quem somos e aquilo em que cremos. Não há nada que a igreja moderna desfrute que não seja uma dádiva das gerações anteriores do povo de Deus. Na realidade, nós modificamos, adaptamos e ampliamos essas dádivas do passado, mas não as criamos”.185 Portanto, “o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o mundo ao nosso redor, e o que fomos chamados para fazer aqui e agora”.186 Conforme já vimos, o Antigo e o Novo Testamento usaram deste recurso para auxiliar os crentes na sua vida doutrinária e prática cristã, expressando também o que a Igreja cria. 184 “A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição a teologia é como uma flor cortada sem suas raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: ‘A tradição é o prólogo do futuro.’ Por isso, toda dogmática que se preze como tal, deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional” (Gordon J. Spykman, Teologia Reformacional: Um Nuevo Paradigma para Hacer la Dogmática, Jenison, MI.: The Evangelical Literature League, 1994, p. 5). 185  Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 20. 186  J.I. Packer, O Conforto do Conservadorismo: In: Michael Horton, ed. Religião de Poder, p. 241.


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Concluo este capítulo com as pertinentes palavras de Karl Barth: Reservamos à Bíblia uma estima e um amor que não temos, no mesmo grau, pela tradição, nem mesmo pelos mais valiosos de seus elementos. Nenhuma Confissão de Fé datando da Reforma ou da época atual pode, da mesma maneira que as Escrituras, elevar-se à pretensão de solicitar o respeito da Igreja. Mas isso não retira nada do fato de que a Igreja escuta e aprecia o testemunho de seus Pais. Então, mesmo que nós não encontremos nele a Palavra de Deus como em Jeremias ou em Paulo, ele tem para nós um significado elevado. Obedecendo ao mandamento ‘honra teu pai e tua mãe’, nós não nos recusaremos a respeitar, seja na pregação, seja na elaboração científica da dogmática, as afirmações de nossos Pais. Diferentemente das Escrituras, as Confissões não tem autoridade que obrigue, mas devemos, todavia, levá-las seriamente em consideração e lhes atribuir uma autoridade relativa.187

187  Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 13.


Creio - Hermisten Maia  

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