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O Fabuloso Livro Vermelho


Tradução:

Márcia Xavier de Brito Evandro Ferreira e Silva Hugo Langone Marcela Saint Martin William Campos da Cruz


O Fabuloso Livro Vermelho, Andrew Lang © Editora Concreta, 2017 Título original: The Red Fairy Book Os direitos desta edição pertencem à Editora Concreta Rua Dr. Vale, 24, conj. 402 – Bairro Floresta – CEP: 90560-010 Porto Alegre – RS – Telefone: (51) 9916-1877 – e-mail: contato@editoraconcreta.com.br Editor: Renan Martins dos Santos Coordenadora editorial: Camila Abadie Tradutores: Márcia Xavier de Brito (coord.) Evandro Ferreira e Silva Hugo Langone Marcela Saint Martin William Campos da Cruz Revisão: Márcio Scansani Ilustrações: Carolina Pontes Capa & Editoração: Hugo de Santa Cruz Ficha Catalográfica Lang, Andrew, 1844-1912 L2691o O Fabuloso Livro Vermelho [livro eletrônico] / edição de Renan Santos. – Porto Alegre, RS: Concreta, 2017. – 440p. ISBN 978-85-68962-24-4 1. Literatura infantil. 2. Contos de fadas. 3. Folclore. 4. Coletânea. I. Título. CDD-808.899282

Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer meio.

www.editoraconcreta.com.br


Q

uem acompanha os dados referentes ao sistema educacional brasileiro tem visto, ano após ano, uma nítida e acentuada decadência. Pesquisas recentes indicam que estamos na penúltima posição entre os 36 países investigados pela OCDE para o ranking internacional de educação. Agravando ainda mais o quadro nacional, metade dos nossos universitários são analfabetos funcionais. As trágicas repercussões disso fazem-se sentir de muitas formas em toda a sociedade. Enquanto os governantes repetem infinitamente as soluções de sempre à situação, seja propondo aumento da carga horária de aulas, aumento do número de anos de frequência obrigatória, melhor remuneração aos professores, (a clássica) “mais investimentos em educação”, ou ainda uma combinação de todas as opções anteriores, pouco ou nada revelando, contudo, sobre o que de fato têm em mente ao falar em educação, acredito que grande parte da solução do problema passa por uma distinção entre educação e escolarização. Em termos gerais, pode-se dizer que a primeira envolve a totalidade do sujeito, conduzindo-o de maneira autoconsciente para além de si mesmo em direção aos outros, ao mundo e à realidade; já a segunda diz respeito basicamente a um conjunto de habilidades que têm por objetivo a preparação da pessoa para o mundo do trabalho. Assim, compreen-


der que educação e escolarização são coisas diferentes, sendo a primeira muito mais ampla, profunda e podendo ou não abarcar a segunda, gera então a pergunta sobre quem seriam os responsáveis por este processo que extrapola em muito o âmbito da escola. A resposta contempla duas possibilidades: em se tratando de indivíduos adultos, eles próprios são os responsáveis pela promoção de seu crescimento; por outro lado, no entanto, em se tratando de crianças, os pais são os responsáveis por conduzi-las neste caminho para além de si mesmas, ampliando seus horizontes e possibilitando sua inserção no mundo de modo muito mais pleno. E é pensando nelas, nas crianças, que o selo Homebooks vem a público. Ao contrário do que afirmam os especialistas, acredito que os pais têm condições de educar seus filhos, adotando ou não, paralelamente, o apoio da escola. Baseada nessa convicção, confirmada pela realidade de um incontável número de famílias brasileiras que praticam o homeschooling, o selo Homebooks pretende oferecer aos leitores conteúdos de qualidade que contribuam para a restauração do protagonismo familiar na educação dos filhos. Para isso, estão entre os alvos contos de fadas em suas versões originais, manuais de homeschooling, apostilas de diferentes disciplinas e muito mais. Espero que esta iniciativa, empreendida por uma simples dona de casa e mãe homeschooler, e acolhida tão calorosamente por um jovem e entusiasmado editor, encoraje você, leitor, a não esperar pelas velhas “soluções” governamentais, mas a assumir o seu quinhão de responsabilidade pela conquista de uma formação melhor para suas crianças e, consequentemente, de um futuro melhor para o nosso país. Quiçá a longo prazo consigamos auxiliar na reversão do triste cenário atual. Com um abraço, Camila Abadie Coordenadora do selo Homebooks


Agradecimentos aos colaboradores

Através de campanha no website da Concreta para financiar O Fabuloso Livro Vermelho, 836 pessoas fizeram sua parte para que este livro se tornasse realidade, um gesto pelo qual lhes seremos eternamente gratos. A seguir, listamos as que colaboraram para ter seus nomes divulgados nesta seção: Átila Medino da Silva Ramos Adaylson Wagner S. de Vasconcelos Adilmar Antonio Mota de Camargo Adriana Alves da Silva Adriana Cerqueira Lima Adriana Maria Magalhães de Moura Adriane Anger Davi Adriano Dal Molin de Oliveira Adriano Favero Adriano Pereira Silva Alan Rennê Alexandrino Lima Alanis Mariah M. T. Cavalcante Dias Aldo Gomes de Moraes

Alex Quintas de Souza Alexandre Alves de Macedo Alexandre de Souza Gomes Alexandre Firmeza Alexandre Queiroz de Almeida Alexandre Rocha Alexandre Souza Franco Alexsandro Rodrigues Alfredo Salemi Filho Allan Rocha Silva Alline Rodrigues Cadecaro Amanda Bezerra Amanda Timm de Oliveira


Amantino de Moura Ana Beatriz G. do Nascimento Lisboa Ana Beatriz Moraes de Oliveira Paula Ana Beatriz Valente Ana Borba Ferrari Carrati Ana Carolina Vieira Ferrini Ana Nely Castello Branco Sanches Ana Paula Martins Pereira Ana Paula Munsberg Ana Raquel de Brito Anderson Cleiton Sales Rocha Anderson Herbert Anderson Mello de Carvalho Andre Betzler de Oliveira Machado André C. Tasca André Cerutti Franciscatto André Cordeiro Lopes André Longo André Luz da Rosa André Medeiros Grangeiro André Merlin Cassilha André Ortlieb Quinto André Pereira André Pimenta André Schaefer Pasold Andressa Borges Andressa Francisca Ribeiro de Souza Andrey Gomez Kopper Anielle Paixão Anisia Francisca dos Santos Soares Anna Luiza Lopes Felix Annamel Vallenttina L. Lanfranchi Antônia Ribeiro Antonio Gomes da Silva Jr. Antonio Jorge De Paula Vicente

Antônio Rafael da Silva Filho Antonio Soares Argemiro Ferreira Arthur Sá Artur Andrade Artur Duarte Pinto Artur Kazuhiro Shirakawa Augusto Carlos Pola Jr. Augusto Peretti Barrozo Bárbara Galvão Barbara Monteiro de Oliveira Benjamin Carson V. de Albuquerque Benjamin Hochmüller Abadie Bianca Milanez Breno Braz Zanchetta Pinhal Brunno Adelizzi Bruno Augusto Moreira Peixoto Bruno dos Santos Alves Bruno Vallini Caio Cardoso Caio d’Acampora Caio Garcia Jardini Jorge Camila Rocha Vieira Sarcinelli Camilo Soares Leite de Lima Carina Araujo Carla Farinazzi Carla Manzzini De Carli Carlos A. Crusius Carlos Alexander de Souza Castro Carlos Alexandre de Moraes Leme Carlos Bach Carlos Eduardo de Aquino de Pádua Carlos Eduardo de Aquino Silva Carlos Eduardo de Freitas Alves Carlos Eduardo Monteiro


Carlos Eduardo Weiss Guerra Carlos Fonseca de Albuquerque Carlos Henrique Barth do Amarante Carlos Henrique Isse Dias Carlos Soriani Carolina Alves Catarina Novaes Ferreira Falcão Freire Catarine Ribeiro Ferdinandes Cecília Caprara dos Santos César Pacheco Charles Barbosa Chloe Hochmüller Abadie Christian Rocha Cibele Scandelari Clara Mítia de Paula Cláudia Makia Claudia Márcia Pompein L. Gomes Claudia Regina Pereira Aca Claudio Ferreira Claudio Santos Cleber Augusto da Silva Cleiton Afonso Machado Cleto Marinho de Carvalho Filho Conceição Carvalho Crisleidi C. Z. Marchesini Cristiano Beck Neviani Cristiano Eulino Cristiano Nunes Laureano Daiane Cechinel Demessiano Nezzi Daniel Anacleto Daniel Cerviglieri Daniel Felipe Bonfim da Silveira Daniel Marquato Jr. Daniela Cristina Rubi Brecci Danilo Flávio Soares

Danilo Xavier Davi Moura David Ricardo Damasceno Davy Monteoliva Debora Novais Villa do Miu Deisiane Cechinel Demessiano Deisson Diedrich Delania Gomes Vieira Denise Maimoni Diegho Cavalcanti Santana Diego Antonio Onetta Diego Gonçalves de Araújo Diego Jácome Diego Pessi Diogo Ferreira Ribeiro Laurentino Dirceu Soares de Souza Douglas Oliveira Pessoa Douglas Zanardi Drayfine Moura Ederson Oliveira Ederson Oliveira Edleno Alves de Sousa Machado Eduardo da Silva Gomes Eduardo dos Santos Piva Eduardo dos Santos Silveira Eduardo Fernandes Eduardo Gonçalves Eduardo Higa Eduardo Mecenas Nina Eduardo Reis Pinto Cirne Eduardo Ribeiro de Sá Eduardo Rosa Leite Elaine Cristina dos Santos Miranda Elaine Sales Elba Valéria da Silva Vieira


Elena Lanza Volcan Eliabeth de Mello Santos Oliveira Eliane Aparecida Munhoz Haveroth Eliane Lopes Eliane Pereira da Fonceca Elis Souza Dos Santos Elisabete Babolim Elivelton Ribeiro de Brito Elpídio Fonseca Else Mandelli Emerson Ricardo C. R. Couto Emílio Silva Emily Natasha Camargo Erica Anhelli Erick Bezerra Erick Robles Lima Ernane Alves Siqueira Ernani Morais Pereira Filho Ester Andrade Saint Martin Esther Gutjahr Ettore Nicolau Jose da Rocha Etyenne Ramos Evandro Cássio Maraschin Evandro Paiva de Lima Everton de Britto Policarpi Fabia Ferreira de A. da Cunha Fabiano Landim Soares Fabio Dias Fabio Kurokawa Fabio Lima Bezerra Fabio Luis de Mello Fábio Salgado de Carvalho Fabio Seiji Koguti Fábio Yoshinori Nakashima Fabiola Brossi

Felícia Ferezin Gonçalves Felicio Borges Aguiar Borges Felipe Caetité dos Santos Felipe Cavalcanti da Costa Gonçalves Felipe Cury Felipe Dias Felipe Ferrero Felipe Oquendo Felipe Pina Ferdinando Costa Fernanda Dal Molin do Amaral Fernanda Teixeira de Oliveira Fernando Antonio Sabino Cordeiro Fernando Henrique Pereira Menezes Fernando Luiz Ferreira de Almeida Filipe Peliccioni Flavia Formaggio de Lara Azevedo Flavia Saraiva Flaviany Marques Martins Mourão Flavio Aprigliano Filho Flora Xavier de Brito Brehmer Francisca de Assis Arruda Francisco A. L. Silva Francisco Assis Corrêa Barbosa Jr. Francisco Augusto Leidemer Garcia Francisco Conrado Ferreira Penço Francisco Igor de Souza e Silva Francisco Yukio Hayashi Frank Costa Cavalcante Frederico Mendonça Gabriel de Paula Gabriel Henrique Knüpfer Gabriel Hugo Camilo Gabriel Schaf Gabriel Warken Charczuk


Gabriela Marotta Vidigal Gabriela Martins Pereira Geane Ferreira da Fonsêca Marques Gedalias Ferreira dos Santos Filho Geisy Almeida Bambirra George Silva Gianna Maria Oliveira Fernandes Gilberto Justi Gilson César Gio Fabiano Voltolini Jr. Giovane Goulart Fiorentino Giovani Dambros Vieira Giselle Marques de Godoi Velasco Giuliano Sasso Teixeira Glória Maria Ferreira Santos Gracian Li Pereira Guilherme Batista Afonso Ferreira Guilherme Oliveira Guilherme Ranal Guilherme Stein Gustavo Alves Sousa Gustavo Araujo Gustavo Barnabé Gustavo Fadda Hector Barbosa Heitor Dias Antunes Pereira Helder Madeira Helena Beatriz R. Petersen Schiffner Hellen Botelho Hellyandro Ferraz Heloísa do Nacimento T. de Oliveira Henrique Bolfe Passig Henrique de Sá Alves Henrique Spanghero Herick Morais

Hugo Araújo Hugo Leonardo de Oliveira Gomes Hugo Souto Kalil Humberto Laudari Ian Freitas Ines Elizabeth Morais Guedes Irene Myrelle Cavalcante Torres Isaac Barcellos Isabella Bortone dos Santos Isabelle Freitas Isadora Vicentini Silveira Ivan da Cunha Jackson Viveiros Jacqueline Camillo Jamile Araújo Jaqueline Costa Jayro Trench Jean Carlos Diniz Lopes Jeanderson Olveira Jefferson Zorzi Costa Jéssica de Oliveira Palacio Jéssica Orth da Silva Jhordana Vilela Bezerra Capanema Jhose Capanema Bezerra Vilela Joana Decnop Leitão da Cunha João Andrade João Carlos Crestani Jr. João Coelho Tavares João Gonçalves Pereira Jr. João Guilherme João Henriques João Luís Ferreira Batista João Paulo Oliveira Hansen João Pedro Krebs de Moraes Joelson Severo dos Santos Azevêdo


Joemy Lopes Palhano Johann Alves Johnny Rottava Jônatas Alves Jorge Barbosa Jorge Donizetti Pereira Jorge Ferraz Jose Augusto Dias José Francisco Bandeira Rangel José Francisco Oliveira José Menezes Josilaine Moraes Juan Rezende Lobo Judá Montiel Alves Ferreira Júlia Franca de Oliveira Júlia Gabriele Gomes Reis Juliana Maria Antunes Juliana Moreira de Menezes Juliane Patricia Mensch de Almeida Julio Belmonte Julio Cesar Ferrão Pinheiro Julio Cesar Sousa Dias Karen Crystyna Arrais Karina Bastos Karina Lorraine R. Silva e Martins Karon Mury Araujo Nobre Kátia Barboza da Silva Katiucia Scariot Comin Krishnamurti Andrade Lais Diniz Laís Martinho Lara Oliveira Boschetti Larissa Ferreira Laura Woerner de Oliveira Leandro Christofoletti Schio

Leandro Marchezan Leandro Marcio Teixeira Leonardo Andrei Marques Leonardo Bruno Galdino Leonardo de Carvalho Rocha Leonardo Ferreira Boaski Leonardo Gouveia Leonardo Santanna Maués Leonardo Souza Leonilia Pereira Bandeira de Souza Leopoldo Ferezin Letícia Bastos de Andrade Lian Carlo Palavicini Lílian Candida da Silva Carmo Lilian Giane Costa de Arruda Lílian Seligman Crocomo Lincoln Almeida Livia Holanda Villagelin Lívia M. Costa Lorena Moreira Tenório Lucas de Almeida Santos Lucas Mendes Lucas Paliotta de Carvalho Lucas Pereira Luciano Grohs Luciano Roberto Moura e Silva Lúcio Flávio Jr. Lucio Novais dos Santos Luis Fernando Ferreira Luiz Afonso Dias Matos Luiz Antônio Luiz Fernandes Luciano Filho Luiz Ulrich Lysandro Sandoval Manuela Lócio Mallmann Sampaio


Marcel Cézar Silva Trovão Marcelo Hipólito Marcelo Pereira Marcelo Santos Pinto Marcelo Victor dos Santos Góis Márcia B. Daldon Márcio André Martins Teixeira Marcio Pereira de Souza Marco Antônio Oliveira e Silva Marco Aurélio Martins Fernandes Marcos E. P. V. Zurita Marcos Oliveira Jr. Marcos Vinicius Vital da Costa Maria Antônia Pessoa Maria Cecilia Martins Manckel Maria Clara Appel Mendes Maria Clara Pereira Coan Maria Eduarda Maria Fernanda Fernandes da Silva Maria Fernanda M. dos Santos Bento Maria F. R. L. Costandrade de Aguiar Maria Ines Coelho Mariana Andreis Mariana Belmonte Mariana Oliveira Braga Alves Mariana Roderjan Mariana Scolaro Marilú Giongo Pfeffer Marina Correia Marina Fonseca Martins Marina Pessini Marinaldo Cavalari Markian Kalinoski Marquiana Silva Mateus Carvalho

Mateus Cruz Mateus Mendes Mateus Mota Lima de Oliveira Matheus Antonelli Matheus Ferrari Hering Matheus Noronha Sturari Matheus Paiva de Oliveira Matheus Paiva Moscardini Matheus Schaf Mauricio de Miranda Silva Mauricio Nunes Martins Mauricio Pagnussat Maurício Paraboni Maurilene Miranda Maurizio Casalaspro Mauro S. Ribeiro Micheline Oliveira Miciara Pinto Serafim Baia Miguel Angel Concha Soares Milena Groetares Rosa Milena Orrillo Milene Goes Milton Santucci Monica Pereira Serafim Morena Maggi de Moraes Moreno Garcia e Silva Naira da Silva Faria Natalie Pessoa de Souza Clark Nathaniel Hochmüller Abadie Nayara Yone Bueno Yamashita Nicolas Barbieri Beoni Nike Hertha Xavier de Brito Brehmer Nilceia Bianchini Nilson de Resende Nilton José dos Santos Jr.


Nilton Moura Nilza Russo Ferreira Oacy Junior Odair José Machado Olívia Martins dos Santos Faria Orlando Tosetto Jr. Oscar José Chamma Neto Pablo Barboza Cardoso Pâmela Arumaa Paolo Scalea Patricia Frantz Patrícia Marraschi Toledo de Oliveira Patricia Parreira Paulo Brito Paulo De Tarso Pereira Paulo Eduardo Frederico Paulo Henrique Brasil Ribeiro Paulo Luiz Sonego Paulo Marcelo Moraes Santana Paulo Rocha Paulo Rogério de Pinho Filho Pedro Chudyk Huberuk Pedro Corrêa Pedro de Fraipont Castañon Philomena Hochmüller Abadie Priscila Rosa Ferreira Garcia Rafael Almeida Carvalho Rafael Badotti Rafael Brenner Machado Silveira Rafael Caetano dos Santos Conceição Rafael Cursino Rafael Henrique Torres Rafael Porfírio de Aguiar Rafael Rocha Matias Rafael Salvan Fernandes

Rafaela Caetité dos Santos Rafaela Freire Machado Raimundo Felipe de Aguiar Raimundo Soares Viana Neto Raphael Feitosa Raquel Maria da Silva Rezende Raul Gonzaga Reginaldo Passero Jr. Reginaldo Paulino Leite Renan Malagó Tavares Renan Massoto Mendes Renata Jardim Meneses Renato Emydio da Silva Jr. Rener Almeida Costa Ricardo Felipe Ferreira Rodrigues Ricardo Gonçalves Silva Ricardo Ribeiro da Costa Ricardo Schiavão Roberto Domingos Mânica Robson Galluci Rodolfo Melchior Lopes Rodrigo Cesar Tavares dos Reis Rodrigo Domingos dos Reis Reis Rodrigo Donizete Santana de Pádua Rodrigo Dórea Rodrigo Dubal Veiga Rodrigo Franca Rodrigo Luchesi Rodrigo Santos Ramos Rogério Lima Ronaldo Vicente Rosana Helena Gracioli Dias Vitachi Rosane Moretti Rosaria Maria Guarino Roscio Chaves


Rosemar Dias de Almeida Almeida Rossana Sousa e Silva Rubem Seixas Samuel da Silva Marcondes Samuel Novaes Ferreira Falcão Freire Sarah Alexandre Costa Nunes Sarah Magalhães Gomes de Aguiar Sarita M. Guerra de Almendra Freitas Saulo Daniel Silva Saulo Rodrigo do Amaral Sávio Domingos de Oliveira Sergio Araujo Sérgio Valério Mendonça Silva Sideval Ramos de Paula Sidicleia dos Santos Jesus Silvério Vale Silvia Maria Dario Freitas Silvio José de Oliveira Sofia Albrecht Sofia Raddatz Bastos Sonia Mendes Brito Stefan Lucius Burkhardt Suzana Mensch de Carvalho Suzana Vieira de Freitas Tácito Garcia Scorza Taís Alcalá Chaves Talita Martins Coelho Lopes Tammy Alcala Chaves Tarcisio Moura Télia Cristiane Oliveira Alves Thalles Gabriel Raineri Thamyres Rodrigues Tharsis Madeira Thays Costa Cunha Thiago Barbosa de Sousa

Thiago Blaka Thiago Henrique Avelino Cruz Thiago Junglhaus Thiago Nascimento Thiago Rizzato Thiara Laranjeira Passos Tiago Aurich Tiago Campos Rizzotto Tiago da Silva Tiago Heringer Tiago Stefanon Tiego Batista de Almeida Ugo Barberi Gnecco Uilca Maria Cardoso dos Santos Uirá Nunes Nunes Valdemira Oliveira Vanessa Costa Lima Vanúsia Silva Araújo Victor Rossi Ramirez Vitor Ferreira Vitor Fonseca de Melo Vivian Ferreira Xavier Vivian Marassi de S. A. e Freitas Viviane Dapper Waleska Montenegro de Melo Dantas Wendy Fumis Consolmagno Werbson Silva Wilson Arnhold Chagas Jr. Wlamir Amós Saint Martin Yasmin Leite Coutinho Yramaia Auler Rolim Kayser Yure Carvalho Silva Yuri Bandin Sátiro Yuri Gagarin da Ponte Ribeiro Yuri Magadan


Sumário

Prefácio à edição brasileira 19 Prefácio à edição original 33 As Doze Princesas Bailarinas

35

A Princesa Flor-de-Maio

49

O Castelo de Soria Moria

67

A Morte de Koschei, o Imortal

79

O Ladrão Negro e o Cavaleiro do Vale Estreito

91

O Ladrão-Mestre

107

Irmão e Irmã

123

Princesa Rosette

133

O Porco Encantado

149

O Norka

163

A Bétula Maravilhosa

171

João e o Pé de Feijão

183

O Ratinho Bom

197


Graciosa e Percinet

211

As Três Princesas da Brancolândia

229

A Voz da Morte

237

Os Seis Tolos

241

Kari Vestido-de-pau

245

Rabo de Pato

257

O Apanhador de Ratos

265

A verdadeira história da Chapeuzinho Dourado

273

O Ramo de Ouro

279

Os Três Anões

297

Grimsborken, o Tordilho Terrível

305

O Canário Encantado

317

Os Doze Irmãos

335

Rapunzel 343 A Fiandeira de Urtigas

349

O Fazendeiro Barbatempo

357

Senhora Holle

367

Minnikin 371 A Noiva-arbusto

387

Branca de Neve

395

O Ganso de Ouro

407

Os Sete Potrinhos

413

O Músico Prodigioso

421

A História de Sigurd

427


Prefácio à edição original Em um segundo respigar pelos campos da terra encantada, não podemos esperar encontrar um segundo Perrault. No entanto, ainda sobraram histórias muito boas, e esperamos que O Fabuloso Livro Vermelho tenha o atrativo de ser menos familiar que muitos de nossos antigos amigos. As histórias foram traduzidas ou, no caso das longas histórias de Madame D’Aulnoy, adaptadas. Pela Sra. Hunt, as histórias do norueguês, pela Srta. Minnie Wright, as de Madame D’Aulnoy, pela Sra. Lang e a Srta. Bruce, as de outras fontes francesas, pela Srta. May Sellar, Srta. Farquharson e a Srta. Blackley, as do alemão, ao passo que a história de Sigurd foi condensada pelo editor a partir da versão em prosa da Saga dos Volsungos, do Sr. William Morris. O editor tem de agradecer ao amigo, M. Charles Marelles, pela permissão de reproduzir sua versão do francês de O Apanhador de Ratos, de Rabo de Pato e da Verdadeira História de Chapeuzinho Dourado, e a M. Henry Carnoy pelo mesmo privilégio em relação à história Os Seis Tolos de La Tradition. Lady Frances Balfour gentilmente copiou uma antiga versão de João e o Pé de Feijão, e as Sras. Smith e Elder permitiram a publicação de duas versões do Sr. Ralston a partir do russo. Andrew Lang, 1890


As Doze Princesas Bailarinas

I á muitos e muitos anos, vivia no vilarejo de Montignies-sur-Roc um jovem vaqueiro sem pai nem mãe. Seu nome verdadeiro era Miguel, mas era sempre chamado de Mira-Estrelas, porque quando guiava o gado pelos campos em busca de pasto, sempre os acompanhava com a cabeça levantada, olhando, pasmo, para o nada. Como tinha a pele alva, os olhos azuis e o cabelo todo encaracolado, as moças do vilarejo costumavam lhe perguntar: — Bem, Mira-Estrelas, o que estás a fazer? E Miguel respondia: — Oh, nada! – e prosseguia pelo caminho sem ao menos voltar-lhes o olhar.


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Na verdade, ele as achava muito feias, com as nucas queimadas pelo sol, as mãos grandes e rubras, as anáguas ordinárias e os sapatos de madeira. Ouvira que em algum lugar do mundo havia moças cujas nucas eram alvas e as mãos, pequenas, sempre vestidas nas mais finas sedas e rendas e eram chamadas de princesas. Enquanto seus companheiros ao redor do fogo nada viam nas chamas senão imagens corriqueiras, ele sonhava que teria a felicidade de se casar com uma princesa. II Certa manhã, em meados de agosto, justo ao meio-dia, quando o sol estava a pino, Miguel fez sua refeição de um pedaço de pão seco e foi dormir debaixo de um carvalho. Enquanto dormia, sonhou que apareceu diante dele uma bela dama, vestida em um traje de ouro, que lhe disse: — Vá para o castelo de Beloeil, e lá deverás casar-te com uma princesa. Naquela noite, o jovem vaqueiro, que estivera pensando muito sobre o conselho da dama do vestido de ouro, contou o sonho às pessoas da fazenda. No entanto, como era natural, elas riram do Mira-Estrelas. No dia seguinte, no mesmo horário, ele foi dormir novamente debaixo da mesma árvore. A dama apareceu-lhe uma segunda vez e disse: — Vá para o castelo de Beloeil, e lá deverás casar-te com uma princesa. À noite, Miguel disse aos amigos que sonhara o mesmo sonho novamente, mas eles riram dele mais do que antes. “Deixe estar”, pensou consigo mesmo, “se a dama aparecer pela terceira vez, farei o que ela me disser”. No dia seguinte, para grande espanto de todo o vilarejo, por volta de duas horas da tarde, ouviram uma voz a cantar: — Ô, ô, vai, boizinho! Era o jovem vaqueiro levando o gado de volta para o estábulo. O fazendeiro começou a ralhar com ele, furioso, mas o rapaz respondeu calmamente: — Vou embora. Juntou as roupas em uma trouxa, disse adeus para todos os amigos e, seguro de si, saiu em busca da sorte. 36


As Doze Princesas Bailarinas

Houve grande alvoroço em todo o vilarejo e, do alto da colina, as pessoas seguravam o riso enquanto assistiam ao Mira-Estrelas caminhar penosamente, com bravura, ao longo do vale, com a trouxa amarrada na ponta de uma vara. Por certo, a cena era o bastante para fazer qualquer um dar risadas. III Por vinte milhas ao redor, todos sabiam que no castelo de Beloeil viviam doze princesas de prodigiosa beleza, tão orgulhosas quanto belas e que, além disso, eram muito sensíveis e de sangue real tão verdadeiro que sentiriam imediatamente a presença de uma ervilha na cama, mesmo que os colchões a estivessem cobrindo. Os rumores é que levavam exatamente a vida que as princesas deveriam levar, dormiam até tarde pela manhã, e nunca acordavam antes do meio-dia. Tinham doze camas, todas no mesmo quarto, mas o fato extraordinário é que ficavam trancadas por três ferrolhos e, todas as manhãs, seus sapatos de cetim eram encontrados gastos e cheios de furos. Quando perguntadas a respeito do que faziam a noite toda, sempre respondiam que dormiam; e, de fato, nunca se ouviu nenhum barulho no quarto. Entretanto, os sapatos não poderiam gastar-se sozinhos! Por fim, o duque de Beloeil ordenou que tocassem a trombeta e proclamassem que se alguém descobrisse como suas filhas gastavam os sapatos, poderia escolher uma delas em casamento. Ao ouvir a proclamação, vários príncipes foram até o castelo tentar a sorte. Observaram a noite toda atrás da porta aberta do quarto das princesas, mas quando a manhã chegava, todas desapareciam e não havia quem dissesse o que fora feito delas.

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IV Quando chegou ao castelo, Miguel dirigiu-se ao jardineiro e ofereceu seus serviços. Ora, aconteceu de o ajudante do jardim ter acabado de ser demitido, e assim, embora o Mira-Estrelas não parecesse muito forte, o jardineiro concordou em empregá-lo, pois acreditava que o seu belo rosto e os cachos dourados agradariam às princesas. A primeira coisa que soube é que quando as princesas acordavam ele deveria presenteá-las, cada uma, com um buquê. Miguel pensou que, se não tivesse nada mais desagradável para fazer, ele faria isso muito bem. Desta maneira, postou-se atrás da porta do quarto das princesas com doze buquês em uma cesta. Deu um para cada uma das irmãs, que os pegaram sem nem mesmo concederem um olhar para o rapaz, exceto a mais nova, Lina, que fixou os grandes olhos negros e suaves como veludo no moço e exclamou: — Oh, como nosso novo florista é belo! As outras irromperam em risos, e a mais velha chamou-lhe a atenção dizendo que uma princesa nunca deveria se rebaixar a olhar para um ajudante de jardineiro. Ora, Miguel sabia muito bem o que acontecera a todos os príncipes, mas ainda assim os belos olhos da princesa Lina inspiraram-lhe um desejo intenso de tentar a sorte. Infeliz, não ousou apresentar-se, com medo de que fizessem chacota ou mesmo lhe mandassem embora do castelo por conta dessa imprudência. V Entretanto, o Mira-Estrelas teve outro sonho. A dama de vestido dourado apareceu-lhe mais uma vez, segurando em uma das mãos duas arvorezinhas de louro, um loureiro-cereja e um loureiro-rosa. Na outra mão, trazia um ancinho dourado, um baldinho dourado e uma toalha de seda. Assim, dirigiu-se a ele: 38


As Doze Princesas Bailarinas

— Planta esses dois loureiros em dois vasos grandes, afofa a terra com o ancinho, rega com o balde e seca com a toalha. Quando estiverem tão crescidos como uma menina de quinze anos, diga a cada um deles: “Meu belo loureiro, com o ancinho dourado te afofei, com o balde dourado te reguei, com a toalha de seda te sequei”. Depois disso, peça qualquer coisa que quiseres, e os loureiros te darão. Miguel agradeceu à dama de vestido dourado e, quando acordou, encontrou dois pés de louro ao seu lado. Então, obedeceu diligentemente às ordens dadas pela senhora. As árvores cresceram muito rápido, e quando estavam altas como uma menina de quinze anos, ele disse para o loureiro-cereja: — Meu adorado loureiro-cereja, com o ancinho dourado te afofei, com o balde dourado te reguei, com a toalha de seda te sequei. Ensina-me como tornar-me invisível. Então, no mesmo instante, apareceu no loureiro uma linda flor branca, que Miguel colheu e colocou na casa do botão de sua roupa. VI Naquela noite, quando as princesas foram se recolher no andar de cima, ele as seguiu descalço, de modo que não pudesse fazer barulho, e se escondeu debaixo de uma das doze camas, para não ocupar muito espaço. As princesas imediatamente começaram a abrir os guarda-roupas e os baús. Deles tiraram os vestidos mais magníficos, que trajaram diante dos espelhos. Quando terminaram, viraram-se para todos os lados para admirar a aparência. Miguel nada podia ver de seu esconderijo, mas podia escutar tudo e ouviu as princesas rindo e saltitando com prazer. Por fim, disse a mais velha: — Sejam rápidas, irmãs, nossos parceiros ficarão impacientes! Ao fim de uma hora, quando o Mira-Estrelas não ouviu mais barulho, espiou e viu as doze irmãs em trajes esplêndidos, com sapatos de cetim nos pés e, nas mãos, os buquês que ele lhes trouxera. 39


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— Estais prontas? – perguntou a mais velha. — Sim – responderam as outras onze em coro, e tomaram seus lugares, uma por uma, atrás da mais velha. Nessa altura, a princesa mais velha deu três palmas e o alçapão se abriu. Todas as princesas desapareceram por uma escada secreta e Miguel rapidamente as seguiu. Ao seguir os passos da princesa Lina, por descuido ele pisou no vestido. — Há alguém atrás de mim! – gritou a princesa – e está prendendo o meu vestido. — Bobinha! – disse a mais velha. – Sempre estás com medo de alguma coisa. Foi um prego que te prendeu. VII Desceram muitos e muitos degraus até que, por fim, chegaram a uma passagem com uma porta no fundo, que só estava trancada por um trinco. A princesa mais velha a abriu e viram-se imediatamente em um bosque adorável, onde as folhas eram salpicadas de gotas de prata que cintilavam à luz brilhante da lua. A seguir, atravessaram outro bosque onde as folhas eram polvilhadas de ouro, e depois desse, ainda passaram por um outro bosque, cujas folhas reluziam como diamantes. Finalmente, o Mira-Estrelas percebeu um grande lago e, nas margens do lago, doze barquinhos com toldos em que se sentavam doze príncipes de remos em punho a aguardar as princesas. Cada princesa entrou em um dos barcos e Miguel entrou furtivamente naquele que levava a princesa mais nova. Os barcos deslizaram pela água rapidamente, mas o barco de Lina, por estar mais pesado, ficava sempre atrás do restante. — Nunca fomos tão devagar antes – disse a princesa –; qual será o motivo? — Não sei – respondeu o príncipe. – Asseguro-te que estou remando o mais que posso. 40


As Doze Princesas Bailarinas

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Do outro lado do lago, o ajudante de jardineiro viu um belo castelo, esplendidamente iluminado, de onde vinha uma música animada de violinos, tímpanos e trombetas. No momento que tocaram a terra e o grupo saiu dos barcos, os príncipes, após amarrar bem firme as embarcações, deram os braços às princesas e levaram-nas ao castelo. VIII Miguel os seguiu e entrou no salão de baile junto com o cortejo. Havia espelhos, luzes, flores e cortinas adamascadas em todos os lugares. O Mira-Estrelas estava bastante desconcertado com a visão magnífica do lugar. Postou-se fora da passagem, em um canto, admirando a graça e a beleza das princesas. Eram graciosas de várias maneiras. Algumas tinham cabelos claros; outras, escuros; algumas tinham cabelos castanhos claros ou cachos ainda mais escuros e, outras, madeixas louras. Nunca foram vistas tantas belas princesas juntas de uma só vez, mas a que o vaqueiro achava mais bonita e mais fascinante era a princesinha de olhos de veludo. Com que ânsia dançava! Apoiada no ombro do parceiro, deslizava como um redemoinho. Suas faces coravam, os olhos brilhavam e estava claro que ela amava dançar mais do que qualquer outra coisa. O pobre rapaz invejou os jovens e belos homens com quem ela dançava tão graciosamente, mas não sabia por que tinha tantos ciúmes deles. Os rapazes, ao menos uns cinquenta, eram realmente os príncipes que tentaram roubar o segredo das princesas. As princesas fizeram com que bebessem algo como uma poção mágica que congelava o coração e nada mais restava senão o amor pela dança. IX Dançaram até os sapatos das princesas ficarem gastos e com buracos. Quando o galo cantou pela terceira vez, os violinos pararam e uma ceia deliciosa foi servida por meninos negros que traziam flores de laranjeira 42


As Doze Princesas Bailarinas

açucaradas, pétalas de rosa cristalizadas, violetas polvilhadas, biscoitos crocantes, biscoitos finos e outros pratos que são, como todos sabem, os favoritos das princesas. Depois da ceia, todos os dançarinos voltaram para os seus barcos e dessa vez o Mira-Estrelas entrou no da princesa mais velha. Cruzaram novamente o bosque reluzente de diamantes, o bosque polvilhado de ouro e o bosque cujas folhas eram salpicadas de gotas de prata e, como prova do que vira, o rapaz quebrou um galhinho de uma árvore no último bosque. Lina virou-se ao ouvir o barulho feito pelo galho quebrado. — O que foi este barulho? – perguntou. — Não foi nada – respondeu a irmã mais velha –; foi apenas o grito da coruja-de-igreja que se empoleira em uma das torres do castelo. Enquanto ela falava, Miguel tratou de passar à frente e, correndo escada acima, alcançou primeiro o quarto das princesas. Abriu rapidamente a janela e, descendo pela trepadeira que subia pelas paredes do castelo, viu-se no jardim assim que o sol começava a raiar e já era hora de ir para o trabalho. X Naquele dia, quando confeccionava os buquês, Miguel escondeu o galho com gotinhas de prata no ramalhete que iria para a princesa mais jovem. Quando Lina descobriu o galhinho, ficou muito surpresa. No entanto, nada disse às irmãs, mas encontrou o rapaz, por acidente, enquanto caminhava sob a sombra dos elmos. Subitamente parou como se fosse falar com ele; depois, mudando de ideia, continuou a caminhar. Na mesma noite, as doze irmãs foram mais uma vez para o baile, e o Mira-Estrelas novamente as seguiu e cruzou o lago no barco de Lina. Dessa vez foi o príncipe que reclamou de o barco parecer muito pesado. — É o calor – respondeu a princesa. – Eu também estou muito acalorada. 43


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Durante o baile, ela procurou em todos os lugares pelo ajudante de jardineiro, mas não o viu mais. Ao voltar, Miguel colheu um galho do bosque de folhas polvilhadas de ouro, e nesse momento, foi a mais velha das princesas que ouviu o barulho que o galho fez ao quebrar. — Não é nada – disse Lina; – é apenas a coruja que se empoleira em uma das torres do castelo. XI Assim que a princesa Lina acordou, encontrou o galho em seu buquê. Quando as irmãs desceram, ela se deixou ficar um pouco para trás e disse ao vaqueiro: — De onde veio este galho? — Vossa Alteza real sabeis muito bem – respondeu Miguel. — Então, tu nos seguiste? — Sim, princesa. — Como conseguiste? Nunca te vimos. — Escondi-me – respondeu o Mira-Estrelas de maneira sossegada. A princesa ficou calada por um momento e depois disse: — Conheces o nosso segredo! Guarda-o. Eis a recompensa pela tua discrição. – E arremessou uma bolsa de ouro para o rapaz. — Não vendo o meu silêncio – respondeu Miguel, e foi-se embora sem pegar a bolsa. Por três noites Lina não viu ou ouviu nada de extraordinário; na quarta noite, ouviu um farfalhar entre as folhas do bosque de diamantes reluzentes. Neste dia, havia um galho dessa árvore no buquê de Lina. Chamou o Mira-Estrelas à parte e disse-lhe em tom severo: — Sabes o preço que meu pai prometeu pagar por nosso segredo? — Sei, princesa – respondeu Miguel. — Não pretendes contar-lhe? — Esta não é minha intenção. 44


As Doze Princesas Bailarinas

— Estás com medo? — Não, princesa. — Então, o que te faz ser tão discreto? Miguel ficou calado. XII As irmãs de Lina viram-na conversando com o ajudante de jardineiro e zombaram dela por isso. — O que impede que te cases com ele? – perguntou a mais velha. – Tornar-te-ias também uma jardineira, uma profissão encantadora! Poderias viver em um chalé no fundo do parque e ajudar teu marido a tirar água do poço e, quando acordássemos, poderias levar nossos buquês. A princesa Lina estava furiosa, e quando o Mira-Estrelas a presenteou com um buquê, recebeu-o com desdém. Miguel comportou-se o mais respeitosamente que pôde. Nunca levantou o olhar para ela, mas quase o dia todo a princesa o sentiu ao seu lado, mas nem mesmo voltou-se para ele. Um dia, tomou a decisão de contar tudo para a irmã mais velha. — O quê! – exclamou. – Esse maroto conhece nosso segredo e tu nunca me disseste! Não devo perder tempo para livrar-me dele. — Mas, como? — Ora, fazendo com que seja levado para a torre das masmorras, é claro! Este era o modo como, nos tempos antigos, as belas princesas se livravam das pessoas que sabiam coisas demais. No entanto, a parte surpreendente era que a irmã mais nova não parecia gostar desse método de calar a boca do ajudante de jardineiro, que, afinal, nada dissera ao pai delas. XIII Ficou acordado que a questão deveria ser submetida às outras dez irmãs. Todas ficaram do lado da mais velha. Então, a irmã mais nova 45


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declarou que se elas encostassem um dedo sequer no rapaz do jardim, ela mesma iria ao pai e contaria o segredo dos furos nos sapatos. Por fim, decidiram que Miguel deveria ser testado; elas o levariam ao baile e, ao final da ceia, lhe dariam a poção mágica para encantá-lo como os demais príncipes. Mandaram chamar o Mira-Estrelas e perguntaram-lhe como conseguira aprender o segredo; ainda assim, continuou calado. Nessa altura, em tom de comando, a irmã mais velha deu-lhe a ordem que as irmãs tinham acordado. Ele respondeu apenas: — Obedecerei. Na verdade, ele estivera presente, invisível, no conselho das princesas e ouvira tudo; mas decidiu beber a poção mágica e sacrificar-se pela felicidade daquela que amava. Não desejando fazer má figura no baile ao lado dos outros dançarinos, foi imediatamente aos loureiros e disse: — Meu adorado loureiro-rosa, com o ancinho dourado te afofei, com o balde dourado te reguei, com a toalha de seda te sequei. Veste-me como um príncipe. Apareceu uma linda flor cor-de-rosa. Miguel a colheu e, no mesmo instante, viu-se vestido em roupas de veludo negro como os olhos da princesinha, com uma capa combinando, um penacho de diamante e a flor do loureiro-rosa na casa do botão de seu traje. Vestido dessa maneira, apresentou-se naquela noite diante do duque de Beloeil e obteve permissão de partir e tentar descobrir o segredo de suas filhas. Tinha uma aparência tão distinta que dificilmente alguém saberia de quem se tratava. XIV As doze princesas subiram para dormir. Miguel as seguiu e depois esperou atrás da porta aberta até que dessem o sinal para partir. Dessa vez ele não cruzou o lago no barco de Lina. Deu o braço à irmã mais velha, dançou com cada uma delas e era tão elegante que todos es46


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tavam encantados com ele. No final, chegou o momento de dançar com a princesinha. Ela descobriu nele o melhor parceiro do mundo, mas ele não ousou dirigir-lhe uma palavra sequer. Quando a conduzia de volta para seu lugar, ela disse-lhe em tom zombeteiro: — Eis-te no auge dos teus desejos: ser tratado como um príncipe! — Não temas – respondeu gentilmente o Mira-Estrelas. – Nunca serás esposa de um jardineiro. A princesa o olhou com espanto, com uma expressão amedrontada, e ele a deixou, sem esperar por resposta. Quando os sapatos de cetim já estavam gastos, os violinos pararam e os rapazes negros puseram a mesa. Miguel foi colocado ao lado da irmã mais velha e em frente à mais jovem. Serviram-lhe os pratos mais requintados para comer e os vinhos mais delicados para beber e, para deixá-lo completamente tonto, encheram-no de elogios e lisonjas de todos os lados. No entanto, ele tomou cuidado para não embriagar-se, nem de vinho e nem pelos elogios. XV Ao final, a mais velha das irmãs fez um sinal e um dos pajens negros trouxe uma grande taça dourada. — O castelo encantado guarda mais segredos para ti – disse ao Mira-Estrelas. – Bebamos ao teu triunfo! Lançou um olhar prolongado para a princesinha e, sem hesitar, levantou a taça. — Não beba! – gritou, de repente, a princesinha –; preferiria casar com um jardineiro. E irrompeu em lágrimas. Miguel lançou o conteúdo da taça para trás, saltou sobre a mesa e atirou-se aos pés de Lina. O restante dos príncipes fez o mesmo e todos caíram de joelhos diante das princesas, cada uma escolheu um marido e ergueu-o, colocando-o ao lado. O feitiço foi quebrado. 47


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Os doze casais entraram nos barcos, que cruzaram o lago muitas vezes para carregar os outros príncipes. Todos atravessaram os três bosques e, quando cruzaram a porta da passagem subterrânea, ouviram um grande barulho, como se o castelo encantado estivesse ruindo por terra. Foram direto ao quarto do duque de Beloeil, que acabara de acordar. Miguel tinha nas mãos a taça dourada e revelou o segredo dos sapatos furados. — Escolha, então – disse o duque –, a que preferir. — Minha escolha já foi feita –, respondeu o ajudante de jardineiro, e ofereceu a mão à princesa mais jovem, que corou e abaixou os olhos. XVI A princesa Lina não se tornou a esposa do jardineiro. Ao contrário, foi o Mira-Estrelas que se tornou príncipe: mas antes da cerimônia do casamento, a princesa insistiu que o seu amado lhe contasse como veio a descobrir o segredo. Assim, ele mostrou-lhe os dois loureiros que o ajudaram, e ela, como uma moça prudente, pensando que as árvores lhe davam muitas vantagens sobre a esposa, lhas cortou pela raiz e lançou ao fogo. É por isso que as camponesas cantam: Não iremos mais ao bosque, Os loureiros estão cortados.* E dançam no verão, à luz do luar.

* No original: Nous n’irons plus au bois,/ Les lauriers sont coupe.

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ra uma vez um rei e uma rainha cujos filhos tinham morrido, um depois do outro, até que, enfim, sobrou só uma garotinha, e a rainha não sabia o que fazer para encontrar uma aia verdadeiramente boa, que cuidasse dela e a educasse. Um arauto foi enviado a tocar trombeta em todas as esquinas, ordenando que as melhores aias se apresentassem à rainha, pois esta escolheria uma delas para a jovem princesa. Então, na data marcada, todo o palácio estava apinhado de aias, que vinham dos quatro cantos do mundo oferecer-se, até que a rainha proclamou que, para ver a metade delas, se apresentassem, uma a uma, enquanto estaria sentada num bosque sombreado perto do palácio. Assim procederam, e as aias, depois de ter feito reverência ao rei e à rainha, dispuseram-se numa fila diante desta, para que fizesse sua escolha. A maioria delas eram bonitas, gordas e encantadoras, mas havia


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uma que era de pele escura e feia, e falava uma língua estranha que ninguém entendia. A rainha perguntava-se como ela ousava oferecer-se, e mandaram-na embora, uma vez que certamente não seria a escolhida. Ao passar, ela resmungou alguma coisa e prosseguiu, mas escondeu-se num buraco numa árvore, de onde podia ver tudo que acontecia. A rainha, sem pensar duas vezes, escolheu uma aia de rosto rosado. Tão logo a escolha foi feita, uma cobra, que estava escondida na grama, mordeu exatamente o pé daquela aia, e esta caiu como morta. A rainha ficou perplexa com o acidente, mas logo escolheu outra, que mal deu um passo à frente, quando uma águia voou e derrubou uma tartaruga enorme na cabeça dela, a qual se partiu em pedaços como a casca de um ovo. Neste momento, a rainha ficou horrorizada; mesmo assim, escolheu uma terceira vez, mas não teve melhor fortuna, pois a aia, correndo, esbarrou no galho de uma árvore e cegou-se num espinho. Então a rainha, tomada de desgosto, gritou que deveria haver alguma influência maligna em ação, e que não escolheria mais naquele dia; tinha acabado de levantar-se para voltar ao palácio quando ouviu às suas costas o estrépito de uma gargalhada malévola. Ao virar-se, viu a estranha horrenda que dispensara, a qual estava se divertindo com os desastres e zombando de todos, sobretudo da rainha. Isso incomodou muito Sua Majestade, que estava prestes a ordenar sua prisão, quando a bruxa – pois ela era uma bruxa –, com duas pancadas de sua varinha, invocou uma biga de fogo movida por dragões alados e disparou pelos ares proferindo gritos e ameaças. Quando o rei viu o que se passara, exclamou: — Pobres de nós! Estamos perdidos, pois aquela não era outra senão a Fada Carabosse, que guarda rancor de mim desde que eu era garoto e um dia pus enxofre em seu mingau só por diversão. A rainha, então, começou a chorar. — Se tão somente eu soubesse de quem se tratava – disse –, teria dado o melhor de mim para fazer as pazes com ela; agora imagino que tudo está perdido. O rei lamentou tê-la assustado tanto e propôs que reunissem um conselho para averiguar o melhor a ser feito a fim de evitar os infortúnios que Carabosse certamente pretendia lançar sobre a princesinha. 50


A Princesa Flor-de-Maio

Assim, todos os conselheiros foram convocados ao palácio e, depois de terem fechado todas as portas e janelas e tampado todos os buracos de fechadura para que não fossem ouvidos, trataram do assunto e decidiram que todas as fadas num raio de até cem léguas deveriam ser convidadas para o batizado da princesa e que o momento da cerimônia seria mantido em profundo segredo, para que não se passasse pela cabeça de Carabosse comparecer. A rainha e suas damas de companhia começaram a trabalhar para preparar os presentes das fadas convidadas: para cada uma, um manto de veludo azul, uma anágua de cetim alaranjada ou um par de sapatos de salto alto, algumas agulhas afiadas e um par de retalhos de ouro. De todas as 51


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fadas que a rainha conhecia, somente cinco puderam vir no dia marcado, mas começaram imediatamente a dar presentes à princesa. Uma prometeu que ela seria perfeitamente linda; a segunda, que compreenderia qualquer coisa – não importa o quê – na primeira vez em que lhe fosse explicado; a terceira, que ela cantaria como um rouxinol; a quarta, que ela seria bem-sucedida em todos os seus empreendimentos. A quinta estava abrindo a boca para falar quando se ouviu um tremendo estrondo na chaminé, e Carabosse, toda coberta de fuligem, desceu rolando: — Digo que ela será a mais azarada das azaradas até que tenha vinte anos! Então a rainha e todas as fadas começaram a suplicar e implorar que pensasse melhor e não fosse tão cruel com a princesinha, que nunca lhe tinha feito nenhum mal. A fada velha e medonha apenas grunhiu e nada respondeu. Então, a última fada, que ainda não tinha dado seu presente, tentou ajeitar as coisas prometendo à princesa uma vida longa e feliz depois que o período agourento tivesse findado. Neste momento, Carabosse riu malignamente, e saiu pela chaminé, deixando a todos em grande consternação, em especial a rainha. Ainda assim, ela recebeu as fadas esplendidamente e deu-lhes lindas fitas, das quais gostaram muito, além de outros presentes. Quando estavam indo embora, a fada mais velha disse que eram da opinião de que seria melhor encerrar a princesa em algum lugar, com sua dama de companhia, de modo que não pudesse ver ninguém até que tivesse vinte anos. Sendo assim, o rei mandou construir uma torre com este propósito. A torre não tinha janelas, logo era iluminada por velas de cera, e o único caminho até aquele lugar era uma passagem subterrânea, com portas de ferro a apenas seis pés de distância uma da outra, e guardas por toda parte. A princesa chamava-se Flor-de-Maio, porque era viçosa e radiante como a própria primavera.* Ela cresceu em estatura e beleza, e tudo que fazia e dizia era encantador. Sempre que o rei e a rainha iam vê-la, * No Hemisfério Norte, o auge da primavera é no mês de maio.

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ficavam cada vez mais fascinados. Embora estivesse cansada da torre, e com frequência implorasse a eles que a tirassem dali, os pais sempre recusavam. A aia da princesa, que jamais a deixara, às vezes falava sobre o mundo fora da torre, e, mesmo sem jamais ter visto nada por si mesma, ela sempre entendia com precisão, graças ao dom da segunda fada. Amiúde, o rei dizia à rainha: — Somos mais sagazes que Carabosse, no fim das contas. Nossa Flor-de-Maio será feliz apesar de suas predições. E a rainha ria até cansar com a ideia de terem sido mais espertos que a velha fada. Ordenaram que fosse pintado um retrato da princesa e enviado a todas as cortes vizinhas, pois em quatro dias ela completaria seu vigésimo aniversário, e era a hora de decidir com quem ela se casaria. Toda a cidade estava regozijando com a ideia de que a liberdade da princesa se aproximava e, quando chegaram as notícias de que o rei Merlin estava enviando seu embaixador para pedi-la em casamento para seu filho, ficaram ainda mais jubilosos. A aia, que mantinha a princesa informada de tudo que se passava na cidade, não deixou de repetir as novidades que tão de perto lhe interessavam, e descreveu de tal maneira o esplendor com que o embaixador Fanfarronada entrou na cidade que a princesa ficou ansiosa para ver a procissão com os próprios olhos. — Pobre criatura sou – lamentou –, encerrada nesta torre deplorável como se tivesse cometido um crime! Nunca vi o sol, nem as estrelas, nem um cavalo, nem um macaco, nem um leão, exceto em figuras, e embora o rei e a rainha digam-me que serei libertada quando tiver vinte anos, creio que só dizem isso para manter-me distraída, quando não têm nenhuma intenção de deixar-me sair. Em seguida, começou a chorar, e a aia, a filha da aia, o encarregado de embalar o berço e a babá, que a amavam ternamente, choraram juntas, de modo que nada se ouvia senão suspiros e soluços. Era uma cena trágica. Quando viu que todos se compadeciam dela, a princesa decidiu seguir o próprio caminho. Declarou que faria greve de fome até a morte se não encontrassem meios de deixá-la ver a entrada magnífica de Fanfarronada na cidade. 53


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— Se realmente me amais – disse ela –, conseguireis isso, de uma maneira ou de outra, e o rei e a rainha jamais saberão nada a respeito. A aia e as outras choraram mais que antes e disseram tudo o que conseguiam pensar para demover essa ideia da princesa. No entanto, quanto mais falavam, mais determinada ela ficava, e enfim consentiram em fazer um pequeno buraco na torre do lado que dava de frente para os portões da cidade. Depois de arranhar e raspar dia e noite, fizeram em seguida um buraco através do qual podiam, com grande dificuldade, empurrar uma agulha bem fininha, e assim a princesa viu a luz do sol pela primeira vez. Ficou tão deslumbrada e encantada com o que viu, que permaneceu ali, sem tirar os olhos do buraquinho um minuto sequer, até que num instante a procissão do embaixador apareceu à vista. À frente dela, o próprio Fanfarronada montava um cavalo branco, que se emproava e caracolava ao som das trombetas. Nada podia ter sido mais esplêndido do que os trajes do embaixador. Seu manto estava quase escondido sob um bordado de pérolas e diamantes, suas botas eram de ouro maciço, e de seu capacete planavam plumas escarlates. Assim que o viu, a princesa perdeu o juízo completamente e decidiu que se casaria com Fanfarronada e com nenhum outro. — É impossível que seu senhor tenha metade da beleza e do encanto dele. Não tenho grandes ambições e, tendo passado toda a minha vida nesta torre entediante, qualquer coisa – até mesmo uma casa no campo – parecerá uma mudança prazerosa. Tenho certeza de que pão e água compartilhados com Fanfarronada me agradarão muito mais que frango assado e guloseimas com qualquer outra pessoa. E assim continuou a falar, falar, falar, até que a dama de companhia se perguntou de onde ela tirou tudo aquilo. No entanto, quando tentaram fazê-la parar, e objetaram que sua alta linhagem tornava perfeitamente impossível que fizesse tal coisa, ela não deu ouvidos e ordenou que se calassem. Assim que o embaixador chegou ao palácio, a rainha mandou buscar a filha. Todas as ruas estavam forradas com carpetes, e as janelas estavam 54


A Princesa Flor-de-Maio

cheias de damas que esperavam ver a princesa, e traziam cestos de flores e doces para lançar sobre ela à medida que passasse. Mal tinham começado a aprontar a princesa quando chegou um anão, montado num elefante. Ele veio das cinco fadas, e trouxe para a princesa uma coroa, um cetro e um manto brocado de ouro, com uma anágua maravilhosamente adornada com asas de borboleta. Também enviaram um porta-joias, tão esplêndido que ninguém jamais vira algo assim antes, e a rainha estava completamente deslumbrada quando o abriu. A princesa, por sua vez, só deu uma olhadinha de relance para esses tesouros, pois não pensava em nada senão em Fanfarronada. O anão foi recompensado com uma moeda de ouro, e decorado com tantas fitas que era quase impossível vê-lo. A princesa mandou para cada uma das fadas uma roca nova com um fuso de madeira de cedro, e a rainha disse que ela tinha de vasculhar seus tesouros e encontrar algo fascinante para enviar também. Quando a princesa arrumou as coisas lindas que o anão trouxera, estava mais linda que nunca, e, à medida que caminhava pelas ruas, o povo gritava: — Como é linda! Como é linda! A procissão era constituída pela rainha, a princesa, cinco dúzias de outras princesas, suas primas, e dez dúzias que vieram dos reinos vizinhos; enquanto passavam com um passo majestoso, o céu começou a escurecer. De repente luziu um relâmpago e começou uma chuva torrencial, com granizo e tudo. A rainha pôs o manto real sobre a cabeça, e todas as princesas fizeram o mesmo com suas caudas. Flor-de-Maio estava prestes a seguir-lhes o exemplo quando se ouviu um ganido horripilante, como de uma imensa horda de gralhas, corvos, urubus, corujas e todas as aves de mau agouro, e no mesmo instante uma coruja enorme sobrevoou a princesa e lançou sobre ela um lenço tecido de teias de aranha e adornado com asas de morcego. Então o estrépito de uma gargalhada zombeteira ressoou nos ares, e imaginaram que esta era outra das piadas desagradáveis da bruxa Carabosse. A rainha ficou apavorada com tamanho mau agouro e tentou puxar o lenço negro dos ombros da princesa, mas ele realmente parecia estar grudado. 55


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— Ah! – exclamou a rainha. – Nada pode satisfazer esta nossa inimiga? De que serviu ter-lhe enviado mais de cinquenta libras de guloseimas, e o mesmo tanto do melhor açúcar, sem mencionar dois presuntos da Westfália? Ela está furiosa como sempre. Enquanto lamentava assim, e todos estavam tão molhados como se tivessem sido tragados por um rio, a princesa ainda pensava tão somente no embaixador, e exatamente neste momento ele apareceu diante dela, com o rei, e houve um grande estrugir de trombetas, e todos gritaram mais alto que antes. Fanfarronada em geral não ficava confuso para dizer algo, mas, quando viu que a princesa era tão mais linda e majestosa do que esperava, ele só conseguiu gaguejar umas poucas palavras e esqueceu completamente a arenga que tivera de aprender por meses e sabia bem o suficiente para repeti-la até dormindo. A fim de ganhar tempo para lembrar ao menos parte do discurso, fez diversas reverências à princesa, que, por sua vez, fez meia dúzia de mesuras sem parar para pensar, e então disse, para minimizar seu evidente constrangimento: — Senhor embaixador, tenho certeza de que tudo que pretendes dizer é encantador, uma vez que és tu quem o pretende dizer; mas apressemo-nos ao palácio, pois está chovendo a cântaros, e a perversa bruxa Carabosse vai se divertir ao ver-nos pingando aqui. Quando estivermos abrigados, podemos rir dela. Neste momento, o embaixador recuperou a fala e respondeu corajosamente que a fada tinha evidentemente previsto as chamas que seriam lançadas pelos olhos brilhantes da princesa, e tinha enviado este dilúvio para extingui-las. Então ofereceu sua mão para conduzir a princesa, e ela disse gentilmente: — Como não podes adivinhar quanto gosto de ti, Senhor Fanfarronada, sou obrigada a dizer-te claramente que, desde que entraste na cidade com seu lindo cavalo saltitante, lamento que tenhas vindo falar em nome de outro e não em teu próprio. Então, se pensas como eu, casar-me-ei contigo em lugar de teu senhor. É claro que sei que não és um príncipe, mas gostarei de ti como se o fosses, e podemos morar em 56


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qualquer cantinho do mundo, e nossa felicidade será tão certa quanto um dia segue a outro dia. O embaixador pensou que estava sonhando, e mal podia acreditar no que a adorável princesa dissera. Não ousou responder, mas apenas apertou a mão da princesa até que realmente machucou o dedinho dela, mas ela não se queixou. Quando chegaram ao palácio, o rei beijou a filha em ambas as bochechas, e disse: — Meu cordeirinho, estás disposta a casar-te com o filho do grande rei Merlin, pois este embaixador veio em seu nome para buscar-te? — Se te agrada, papai – disse a princesa, fazendo uma reverência. — Também dou meu consentimento – disse a rainha. – Prepare-se o banquete. Isso foi feito a toda velocidade, e todos se regalaram, exceto Flor-de-Maio e Fanfarronada, que, entreolhando-se, esqueceram-se de tudo o mais. Depois do banquete veio um baile e depois do baile um ballet, e ao final estavam todos tão cansados que caíram no sono onde se sentavam. Somente os amantes estavam bem acordados como ratos, e a princesa, vendo que não havia nada a temer, disse a Fanfarronada: — Apressemo-nos e fujamos, pois jamais teremos chance melhor que esta. Então ela tomou a adaga do rei, que estava numa bainha de diamante, e o lenço de pescoço da rainha, e deu a mão a Fanfarronada, que levava uma lanterna, e fugiram juntos por uma rua enlameada descendo até à praia. Ali, entraram num pequeno bote em que o pobre barqueiro dormia, e quando este acordou e viu a adorável princesa, com todos os diamantes e com o lenço de teia de aranha, não sabia o que pensar, e obedeceu-a na hora quando ela ordenou que partissem. Não podiam ver nem a lua nem as estrelas, mas no lenço de pescoço da rainha havia uma gema que brilhava como cinco tochas. Fanfarronada perguntou à princesa onde ela gostaria de ir, ao que ela respondeu apenas que não importava onde fosse, desde que ele estivesse junto. — Mas, princesa – disse ele –, não ouso levar-te à corte do rei Merlin. Ele julgaria que a forca é boa demais para mim. 57


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— Oh, neste caso – respondeu ela –, é melhor irmos à Ilha do Esquilo; é deserta o bastante e longe demais para que alguém nos siga até lá. Então ordenou que o barqueiro os levasse à Ilha do Esquilo. Enquanto isso, raiava o dia, e o rei, a rainha e todos os cortesãos começaram a acordar, coçar os olhos e a pensar que era hora de finalizar os preparativos para o casamento. A rainha perguntou pelo lenço de pescoço, para que ficasse elegante. Então, houve um corre-corre, e uma caçada por toda parte: procuraram em todos os lugares, dos guarda-roupas ao forno, e a própria rainha percorreu do sótão ao porão, mas o lenço não estava em lugar algum em que pudesse ser achado. Agora, o rei tinha sentido falta de sua adaga, e a busca começou de novo. Abriram caixas e baús cujas chaves haviam sido perdidas há centenas de anos, e acharam inúmeras coisas curiosas, mas não a adaga. O rei arrancou a barba, e a rainha arrancou os cabelos, pois o lenço e a adaga eram as coisas mais valiosas do reino. Quando o rei viu que a busca era vã, disse: — Não faz mal, apressemo-nos e preparemos o casamento antes que algo mais se perca. E então perguntou onde estava a princesa. Nessa hora, a aia deu um passo à frente e disse: — Senhor, tenho-a procurado nas últimas duas horas, mas ela não está em lugar algum. Isso era mais do que a rainha podia suportar. Ela deu um sinal de alarme e desmaiou, e tiveram de derramar dois barris de água de colônia sobre a cabeça dela antes que se recuperasse. Quando voltou a si, todos estavam procurando a princesa em grande terror e confusão, mas, como ela não apareceu, o rei disse a seu pajem: — Encontra o embaixador Fanfarronada, que sem dúvida está dormindo em algum canto, e dize-lhe as más notícias. Assim o pajem caçou a torto e a direito, mas Fanfarronada também não pôde ser encontrado, assim como a princesa, a adaga e o lenço! Então o rei convocou os conselheiros e os guardas e, acompanhado pela rainha, dirigiu-se ao salão central. Como não teve tempo de prepa58


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rar o discurso de antemão, o rei ordenou que se guardasse silêncio por três horas. Ao final deste período, disse o seguinte: — Ouvi, nobres! Minha filhinha Flor-de-Maio sumiu: se foi sequestrada ou se simplesmente desapareceu, não sei dizer. O lenço de pescoço da rainha e também minha adaga, cujo valor é pesado em ouro, desapareceram, e, o pior de tudo, não se acha o embaixador Fanfarronada em parte alguma. Temo muitíssimo que o rei, seu senhor, por não receber notícias a respeito dele, há de procurá-lo entre nós, e acusar-nos-á de ter feito picadinho dele. Talvez eu pudesse suportar isso se tivesse dinheiro, mas asseguro-vos que as despesas do casamento arruinaram-me por completo. Aconselhai-me, meus prezados súditos, o que é melhor que eu faça para resgatar minha filha, Fanfarronada e as outras coisas. Este foi o discurso mais eloquente que o rei jamais fizera, e quando tinham expressado sua admiração, o primeiro-ministro respondeu: — Senhor, todos lamentamos ver vosso sofrimento. Daríamos tudo que mais estimamos no mundo para acabar com vossa aflição, mas esta parece outro dos ardis da bruxa Carabosse. Os vinte anos de azar da princesa ainda não se cumpriram e de fato, verdade seja dita, notei que Fanfarronada e a Princesa admiravam-se grandemente um ao outro. Talvez isso dê alguma pista do mistério de seu desaparecimento. Aqui a rainha interrompeu-o, dizendo: — Cuidado com o que dizes, senhor. Crê-me, a princesa Flor-de-Maio foi educada demais para pensar em apaixonar-se por um embaixador. Nesse momento, a aia adiantou-se e, prostrando-se diante dela, confessou como tinham feito um buraquinho na torre e como a princesa dissera, quando viu o embaixador, que se casaria com ele e com ninguém mais. Então a rainha enfureceu-se e deu à aia, ao embalador do berço e à babá tal repreensão que os fez tremer da cabeça aos pés. Mas o almirante Tricórnio interrompeu-a: — Vamos atrás deste Fanfarronada imprestável, pois sem dúvida ele fugiu com nossa princesa. 59


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Houve, então, um grande aplauso e todos gritaram: — Certamente, vamos atrás dele! Enquanto rumavam para o mar, os outros corriam de reino em reino tocando tambores e estrugindo trombetas, e, sempre que reuniam uma multidão, bradavam: — Quem quiser uma linda boneca, guloseimas de todos os tipos, uma tesourinha, um manto dourado, um chapéu de cetim, tem apenas de dizer onde Fanfarronada escondeu a princesa Flor-de-Maio. Mas a resposta sempre era: — Tereis de ir adiante, não os vimos por aqui. Entretanto, aqueles que foram por mar tiveram melhor fortuna, porque, depois de navegar por algum tempo, perceberam uma luz diante deles, que ardia como um grande fogo. A princípio, não ousaram aproximar-se dela, mas pouco depois ela ficou parada sobre a Ilha do Esquilo, pois, como já adivinhais, a luz estava brilhando na gema. Quando a princesa e Fanfarronada desembarcaram na ilha, deram ao barqueiro uma centena de moedas de ouro e fizeram-no prometer solenemente não contar a ninguém para onde os tinha levado; mas a primeira coisa que aconteceu foi que, conforme remava de volta, entrou no meio da esquadra, e antes que pudesse escapar, o almirante viu-o e enviou um barco atrás dele. Enquanto era revistado, encontraram as moedas de ouro em seu bolso e, uma vez que as moedas eram novas, cunhadas em honra do casamento da princesa, o almirante teve certeza de que o barqueiro havia sido pago pela princesa para ajudá-la em sua fuga. Ainda assim não respondia nenhuma pergunta e fingia-se de surdo e mudo. Então disse o almirante: — Ah, ele é surdo e mudo? Amarrai-o ao mastro e dai-lhe um gostinho do chicote de nove pontas. Não conheço nada melhor do que isso para curar um surdo e mudo! Quando o velho barqueiro viu que o almirante falava a sério, contou tudo que sabia acerca do cavalheiro e da dama que levara até a Ilha do Esquilo, e o almirante sabia que haviam de ser a princesa e Fanfarronada; então ordenou que a esquadra cercasse a ilha. 60


A Princesa Flor-de-Maio

Enquanto isso, a princesa Flor-de-Maio, que a essa altura estava muito sonolenta, encontrara uma campina verdejante na penumbra e deixara-se cair num sono profundo, quando Fanfarronada, que estava com fome e sem sono, veio acordá-la dizendo mui grosseiramente: — Dize-me, madame, quanto tempo pretendes ficar aqui? Não vejo nada que comer e, embora sejas muito charmosa, olhar para ti não me impede de morrer de fome. — O quê?! Fanfarronada – disse a princesa, sentando-se e coçando os olhos –, é possível que enquanto estou contigo queiras alguma outra coisa? Tinhas de pensar todo o tempo em quão feliz estás! — Feliz! – bradou. – Eu diria antes infeliz. Desejo de todo o coração que estivesses de volta em tua torre escura. — Querido, não fiques zangado – disse a princesa. – Verei se encontro alguma fruta silvestre para ti. — Que encontres um lobo que te devore – rosnou Fanfarronada. A princesa, com grande desalento, correu aqui e acolá por todo o bosque, rasgando o vestido e machucando suas mãozinhas brancas em espinhos e abrolhos, mas não encontrou nada de bom para comer, e enfim, tomada de pesar, teve de voltar a Fanfarronada. Quando ele a viu de mãos vazias, levantou-se e deixou-a resmungando consigo. No dia seguinte, procuraram de novo, mas sem melhor sorte. — Ai de mim! – disse a princesa. – Se tão somente pudesse encontrar algo para comeres, não pensaria que eu mesma também estou faminta. — Tampouco eu pensaria nisso – respondeu Fanfarronada. — É possível – disse ela – que não te importes se eu morrer de fome? Ó, Fanfarronada, disseste que me amavas! — Isso se deu em outro lugar e eu não estava com fome – disse ele. – Faz uma grande diferença nas ideias de alguém estar morrendo de fome e de sede numa ilha deserta. Nessa hora, a princesa ficou terrivelmente aflita, e sentou-se sob uma roseira branca e começou a chorar amargamente. — Felizes as rosas! – pensou consigo. – Basta que floresçam à luz do sol e sejam admiradas, e não há quem lhes seja indelicado – as lágrimas 61


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correram por seu rosto e respingaram nas raízes da roseira. Imediatamente, a princesa surpreendeu-se em ver todo o arbusto sussurrar e chacoalhar-se, e a voz suave do botão mais lindo disse: — Pobre princesa! Olha no tronco daquela árvore e encontrarás um favo de mel, mas não sejas tola de compartilhá-lo com Fanfarronada. Flor-de-Maio correu até a árvore e de fato havia mel. Sem perder um segundo, correu com ele até Fanfarronada gritando alegremente: — Vê, aqui está um favo de mel que encontrei. Podia tê-lo comido sozinha, mas preferi dividi-lo contigo. Sem olhar para ela e sem agradecer, ele tomou-lhe da mão o favo de mel e comeu-o todo de uma vez, sem oferecer a ela nem um pouquinho. De fato, quando a princesa pediu humildemente um pouco, Fanfarronada disse zombeteiramente que era doce demais para ela e que lhe estragaria os dentes. Flor-de-Maio, mais abatida que nunca, dirigiu-se, triste, a um carvalho a cuja sombra se sentou, e suas lágrimas e suspiros eram tão comoventes que o carvalho refrescou-a com suas folhas sussurrantes e disse: — Sê valente, linda princesa, nem tudo está perdido. Toma este jarro de leite e bebe-o. E, haja o que houver, não deixes uma gota para Fanfarronada. A princesa, muito surpresa, olhou em volta e viu um jarro cheio de leite, mas antes que o levasse aos lábios, pensar em como Fanfarronada devia estar com sede depois de comer pelo menos quinze libras de mel a fez correr de volta para ele e dizer: — Eis um jarro de leite. Toma um pouco, pois decerto estás com sede. Mas rogo que deixes um pouco para mim, pois estou morrendo de fome e de sede. Ele, porém, pegou o jarro e bebeu todo o seu conteúdo num gole só, e então o partiu em pedaços numa pedra, dizendo com um sorriso malicioso: — Como não comeste nada, não podes estar com sede. — Ah! – suspirou a princesa. – Estou sendo punida por decepcionar o rei e a rainha e por fugir com este embaixador a respeito de quem nada sabia. 62


A Princesa Flor-de-Maio

Ao dizer isso, afastou-se para a parte mais densa do bosque e sentou-se sob um espinheiro, onde um rouxinol cantava. Imediatamente, ouviu-o dizer: — Procura sob o arbusto, princesa; encontrarás um pouco de açúcar, amêndoas e algumas tortas ali. Mas não sejas boba de oferecer a Fanfarronada. Desta vez, a princesa, que estava desmaiando de fome, ouviu o conselho do rouxinol e comeu sozinha tudo que encontrou. Fanfarronada, vendo que ela tinha encontrado algo bom e não estava indo dividir com ele, correu até ela com tamanha fúria que a princesa rapidamente apertou a gema da rainha, a qual tinha a propriedade de tornar as pessoas invisíveis se estivessem em perigo. Quando já estava escondida dele e segura, repreendeu-o gentilmente por sua indelicadeza. Enquanto isso, o almirante Tricórnio despachara o Marinheiro-Tagarela-das-Botas-de-Palha, o mensageiro a serviço do primeiro-ministro, para dizer ao rei que a princesa e o embaixador haviam desembarcado na Ilha do Esquilo, mas que, sem conhecer o país, não os seguiu, temendo ser capturado por inimigos ocultos. Suas Majestades ficaram felizes com a notícia, e o rei mandou buscar um grande livro, cada folha com oito varas de comprimento. Era a obra de uma fada muito inteligente e continha a descrição de toda a Terra. Ele logo descobriu que a Ilha do Esquilo estava desabitada. — Vai – disse ele ao Marinheiro-Tagarela – e dize ao almirante que desembarque de uma vez. Estou surpreso por não ter ele feito isso mais cedo. Assim que essa mensagem chegou à esquadra, fizeram todos os preparativos para a guerra, e o barulho era tão grande que alcançou os ouvidos da princesa, que imediatamente voou para proteger seu amado. Como não era muito corajoso, este aceitou a ajuda de bom grado. — Fica atrás de mim – disse ela –, e segurarei a gema que nos manterá invisíveis e, com a adaga do rei, posso proteger-te do inimigo. Então, quando os soldados desembarcaram, nada podiam ver, mas a princesa tocou-os um por um com a adaga, e caíram inconscientes na areia, de modo que, enfim, o almirante, vendo que havia algum encantamento, 63


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rapidamente deu ordens de recuar por razões de segurança, e encaminhou seus homens de volta às embarcações, sob grande confusão. Fanfarronada, sendo mais uma vez deixado com a princesa, começou a pensar que, se conseguisse livrar-se dela e tomasse posse ele mesmo da gema e da adaga, poderia escapar. Então, enquanto caminhavam por um despenhadeiro, tentou empurrar a princesa com toda força, esperando que ela caísse no mar; ela, no entanto, esquivou-se com tanta agilidade que tudo que aconteceu foi ele mesmo desequilibrar-se, cair e afundar-se no mar como um pedaço de chumbo, e nunca mais se ouviu falar dele. Enquanto a princesa ainda estava procurando-o tomada de horror, o barulho de uma agitação chamou-lhe a atenção e, olhando para cima, viu duas bigas aproximarem-se, vindas de direções opostas. Uma, brilhante e reluzente, era movida por cisnes e pavões, enquanto a fada nela assentada era linda com um raio de sol; a outra era movida por morcegos e corvos e trazia uma anãzinha assustadora, vestida de pele de cobra e com um grande sapo sobre a cabeça como capuz. As duas bigas encontraram-se numa batida assustadora nos ares, e a princesa observava angustiada e sem ar enquanto se desenrolava uma batalha violenta entre a fada adorável com sua lança de ouro e a anãzinha medonha com sua alabarda enferrujada. Logo ficou evidente que a Bela estava levando a melhor, e a anã virou a cabeça dos morcegos e partiram em retirada com grande estardalhaço, enquanto a fada desceu para o lugar em que a princesa estava e disse, sorrindo: — Vês, princesa, derrotei definitivamente aquela velha malvada Carabosse. Acredita! Ela de fato queria exercer autoridade sobre ti para sempre, porque saíste da torre quatro dias antes de completarem-se os vinte anos. No entanto, acho que dei um jeito em suas pretensões, e espero que sejas muito feliz e desfrutes a liberdade que conquistei para ti. A princesa agradeceu de todo coração, e em seguida a fada despachou um dos pavões para seu palácio, a fim de que trouxesse um manto lindíssimo para Flor-de-Maio, que decerto precisava dele, pois o dela estava todo rasgado pelos espinhos e abrolhos. Outro pavão foi enviado ao almirante, para contar-lhe que agora podia desembarcar em perfeita segurança, o 64


A Princesa Flor-de-Maio

que ele fez imediatamente, trazendo consigo todos os seus homens, até mesmo o Marinheiro-Tagarela, que, passando pelo espeto em que o jantar do almirante estava assando, arrebatou-o e trouxe-o consigo. O almirante Tricórnio estava muitíssimo surpreso quando chegou à biga de ouro, e ainda mais em ver duas moças encantadoras caminhando sob as árvores um pouco à frente. Quando chegou até elas, é claro que reconheceu a princesa e prostrou-se a seus pés e beijou-lhe a mão com grande alegria. Então ela apresentou-lhe a fada e contou-lhe como Carabosse finalmente fora derrotada, e ele agradeceu e parabenizou a fada, a qual lhe foi muito amável. Enquanto estavam conversando, ela gritou de repente: — Sinto o cheiro de um saboroso jantar! — Sim, madame, ei-lo aqui – disse o Marinheiro-Tagarela, segurando o espeto em que faisões e perdizes crepitavam. – Queres provar algum deles, Alteza? — Sem dúvida – disse a fada –, especialmente porque a princesa certamente ficará feliz em ter uma boa refeição. Então o almirante mandou providenciar tudo que era necessário, e festejaram alegremente sob as árvores. Quando acabaram, o pavão tinha voltado com um manto para a princesa, em que a fada a vestiu. Era verde brocado de ouro, adornado com pérolas e rubis, e seus longos cabelos dourados estavam amarrados com fitas de diamantes e esmeraldas, e traziam uma coroa de flores. A fada fê-la montar ao seu lado na biga de ouro e levou-a a bordo do navio do almirante, onde se despediram. A fada mandou lembranças à rainha e pediu à princesa que lhe contasse que foi a quinta fada que comparecera ao batismo. Saudaram-se, a esquadra içou âncoras e logo chegaram ao porto. Ali o rei e a rainha esperavam, e receberam a princesa com tanta alegria e bondade que ela não tinha palavras para dizer o quanto estava arrependida de ter fugido com um embaixador tão pobre de espírito. Mas, no final das contas, isso também deve ter sido culpa de Carabosse. Nesse momento auspicioso, quem estava para chegar era o filho do rei Merlin, que ficara preocupado por não receber notícias de seu embaixador e começara ele mesmo, com uma escolta de mil cavaleiros e trinta guarda-costas em uniformes 65


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escarlates e dourados, a investigar o que podia ter acontecido. Como ele era cem vezes mais bonito e mais corajoso que o embaixador, a princesa achou que podia gostar muito dele. Então, o casamento foi consumado de uma vez, com tanto esplendor e júbilo que todos os infortúnios passados foram completamente esquecidos.*

* La Princesse Printaniere, de Mme. d’Aulnoy.

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O Castelo de Soria Moria

ra uma vez um casal de vida simples que teve um filho de nome Halvor. Desde o princípio, foi ele um garotinho indesejoso de levar a cabo todo e qualquer trabalho; tudo o que fazia era sentar-se no meio das cinzas para remexê-las. Seus pais queriam que aprendesse muitas coisas, mas em lugar nenhum Halvor permanecia; após dois ou três dias, sempre escapava de seu mestre, corria para casa e sentava-se no canto da chaminé para cavoucar as cinzas novamente. Certa feita, no entanto, o capitão de um navio veio ter com ele e lhe perguntou se não gostaria de acompanhá-lo mar adentro, a fim de contemplar terras estrangeiras. E, uma vez que o menino gostaria de fazê-lo, não tardou para que se aprontasse. Por quanto tempo navegaram, desconheço, mas após um longuíssimo período, veio uma tempestade pavorosa. Quando terminou e tudo regressou


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à calmaria, eles não sabiam onde estavam, pois tinham sido levados a uma costa estranha, da qual ninguém tinha conhecimento algum. Como não havia vento, todos simplesmente ficaram imóveis, ao que Halvor pediu autorização ao comandante para descer à costa e observar em derredor, pois preferia fazer isso a ficar ali deitado e dormir. — Porventura te julgas em condição de ir aonde possam ver-te? – disse o comandante. – Não tens traje além destes trapos com que andas por aí. Halvor continuou a implorar por sua permissão, conseguindo-a enfim; no entanto, deveria retornar tão logo o vento começasse a soprar. Ele foi então à costa. Tratava-se de região encantadora; onde quer que estivesse, encontrava planícies amplas, com campos e prados, mas não via ninguém. O vento começou a soprar em seguida, porém Halvor achava que ainda não tinha visto o bastante e quis caminhar um pouco mais, a fim de tentar encontrar alguém. Então, após breve período, deparou-se com uma grande estrada, tão aplanada que seria possível rolar por ali um ovo sem quebrá-lo. Halvor caminhou e, quando a noite se aproximou, viu à distância um enorme castelo em que havia luzes. Como estivera andando o dia todo e não trouxera nada consigo para comer, sentia-se terrivelmente faminto. Não obstante, quanto mais chegava perto do castelo, mais seu medo crescia. Ali estava acesa uma lareira. Halvor adentrou a cozinha, que era mais suntuosa do que qualquer outra que ele jamais contemplara e onde havia vasilhames de ouro e prata, mas nenhum ser humano. Estando Halvor no local já há certo tempo, sem que, porém, ninguém aparecesse, ele se introduziu e abriu uma porta. Do lado de dentro, uma princesa estava sentada à sua roda de fiar. — Mas quê!? – gritou ela. – Porventura um cristãozinho pode vir até aqui?! O melhor que podes fazer é retornar; caso contrário, o troll chegará para devorar-te! Um troll com três cabeças mora aqui. — A mim, seria igualmente agradável se tivesse outras quatro, pois me divertiria muito ao vê-lo – declarou o jovem. – Tampouco partirei, pois mal nenhum cometi. Deves, porém, dar-me algo para comer, pois estou terrivelmente faminto. 68


O Castelo de Soria Moria

Halvor satisfeito, a princesa quis saber se ele poderia empunhar a espada que pendia da parede, mas o menino não conseguiu. Não era capaz sequer de erguê-la. — Nesse caso, deves beber daquela garrafa que pende a seu lado, pois é isso o que o troll faz sempre que sai e deseja usar a espada – disse a princesa. Halvor deu um gole e, num instante, viu-se capaz de menear a espada com grande tranquilidade. Pensava, então, que já estava passando da hora de o troll dar as caras, e foi nesse exato momento que ele apareceu, ofegante. Halvor se pôs atrás da porta. — Hutetu! – disse o troll ao passar a cabeça pela porta. – Pelo cheiro, o sangue de um cristão esteve aqui! — Você logo descobrirá que sim! – exclamou Halvor, que cortou todas as suas cabeças. A princesa ficou tão contente ao se ver liberta que se pôs a dançar e cantar, mas logo recordou-se de suas irmãs e falou: — Ah, se ao menos minhas irmãs também estivessem livres... — Onde se encontram elas? – quis saber Halvor. Então a princesa lhe respondeu. Uma fora levada por um troll até seu castelo, que ficava a seis milhas de distância; a outra fora conduzida a um castelo localizado mais nove milhas adiante. — No entanto – disse ela –, deves antes me ajudar a tirar este cadáver daqui. Halvor estava tão forte que retirou tudo de vista e muito rapidamente limpou e arrumou todas as coisas. Ambos, felizes, então comeram e beberam, e na manhã próxima o jovem partiu sob a luz parda do alvorecer. Halvor não se deu descanso, caminhando ou correndo ao longo de todo o dia. Quando avistou o castelo, tornou a ficar um pouco temeroso. Era muito mais esplêndido do que o outro, mas também ali não havia ser humano à vista. O jovem então adentrou a cozinha, onde mais uma vez não se demorou, passando direto. — Mas o quê! Porventura ousa vir até aqui um cristãozinho?! – gritou a segunda princesa. – Já não me recordo o quanto se passou desde 69


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que eu mesma cheguei, mas durante todo esse tempo jamais vi cristão. Melhor será se partires o quanto antes, pois mora aqui um troll de seis cabeças. — Não partirei de modo algum – disse Halvor. – Não o faria nem se ele tivesse outras seis. — Mas ele te engolirá vivo! – decretou a princesa. As palavras dela, porém, foram em vão, pois Halvor não partiria. Não temia o troll, mas desejava um pouco de carne e algo para beber, pois a viagem lhe fizera faminto. Ela então lhe deu tanto quanto bastava e tentou, mais uma vez, convencê-lo a partir. — De modo algum – disse Halvor. – Não partirei porque nada fiz de errado, e não tenho motivos para ter medo. 70


O Castelo de Soria Moria

— Ele pouco se importará com isso – disse a princesa –, pois se apoderará de ti impiedosamente. Como, porém, não desejas ir, tenta, se fores capaz, empunhar aquela espada que o troll usa em combate. Halvor não conseguiu manejar a espada; disse-lhe a princesa, portanto, que bebericasse do frasco que pendia a seu lado. Ao fazê-lo, o jovem se mostrou capaz de empunhar a arma. O troll chegou logo em seguida, e era tão grande e corpulento que se via forçado a ficar de lado para adentrar a porta. Assim que sua cabeça passou por ela, ele bradou: — Hutetu! Sinto aqui odor de sangue cristão! Com isso, Halvor cortou-lhe a primeira cabeça, passando então às outras. A princesa ficou profundamente contente, mas logo recordou-se de suas irmãs e desejou que também elas estivessem livres. Halvor julgou que seria possível consegui-lo e quis partir de imediato, mas não sem antes ajudar a princesa a remover o corpo do troll dali. Por isso, só conseguiu viajar na manhã seguinte. O caminho que conduzia ao castelo era longo, e para chegar ali a tempo foi necessário caminhar e correr. Avançada a noite, o jovem enfim o avistou, e era muito mais deslumbrante do que os outros dois. Dessa vez, ademais, Halvor não ficou nem um pouco apavorado, adentrando a cozinha e seguindo direto para a parte de dentro, onde uma princesa mais bela do que qualquer outra estava sentada. Ela voltou a dizer o mesmo que as anteriores haviam dito, isto é, que jamais um cristãozinho estivera naquele lugar desde sua chegada. Em seguida, rogou-lhe que retornasse, sob o risco de que um troll o comesse vivo. O troll tinha nove cabeças, disse-lhe a princesa. — Se ele tivesse ainda outras nove além das nove, e até mesmo mais nove, eu não partiria – respondeu Halvor, que então se pôs ao lado da estufa. Graciosamente, a princesa suplicou que regressasse, a fim de evitar que fosse devorado pelo troll; Halvor, no entanto, declarou: — Deixa que ele venha quando bem entender! Ela então lhe ofereceu a espada do troll e ordenou que bebericasse do frasco para conseguir manejá-la. 71


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Nesse mesmo instante chegou o troll, resfolegante. Muito maior e mais robusto do que os outros, também precisou ficar de lado para passar pela porta. — Hutetu! Que cheiro de sangue cristão sinto aqui! – exclamou. Halvor cortou-lhe em seguida a primeira cabeça e passou às outras. A última era a mais rija e o obrigou ao mais árduo trabalho que tivera de levar a cabo na vida, mas o jovem nutria a certeza de que era forte o bastante para consegui-lo. Todas as princesas foram então ao castelo e voltaram a se reunir. Jamais haviam ficado tão felizes! Estavam também fascinadas com Halvor e Halvor com elas, de modo que ele deveria escolher a que mais lhe aprouvesse. Das três irmãs, contudo, a mais nova era a que mais o amava. Halvor, porém, mostrava-se tão estranho, pesaroso e quieto que as princesas quiseram saber se ele sentia saudades de algo e se não gostava de estar com elas. Halvor respondeu que gostava, sim, pois elas tinham o bastante para viver e ele se sentia um tanto confortável ali; no entanto, ansiava por ir para casa, uma vez que seu pai e sua mãe estavam vivos e ele nutria forte desejo de vê-los de novo. Segundo as princesas, tratava-se de algo que podia ser feito com facilidade. — Irás e voltarás em plena segurança se seguires nosso conselho – comentaram. Halvor então lhes disse que não faria nada que elas não quisessem. Em seguida, as princesas o vestiram de modo tão deslumbrante que ele ficou parecido com o filho de um rei. Num de seus dedos, puseram um anel que lhe permitiria ir e voltar quando assim o desejasse, mas o alertaram de que não deveria nem jogar o objeto fora, nem dizer a outrem como elas se chamavam. Caso contrário, toda a sua magnificência teria fim e ele jamais as veria novamente. — Ah, mas se eu estivesse em casa mais uma vez, ou se minha casa ficasse aqui... – exclamou Halvor. Tão logo expressou seu desejo, foi atendido. Antes que caísse em si, pegou-se do lado de fora da casa de seu pai e de sua mãe. A escuridão da 72


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noite caía, e quando seus pais viram entrar um estranho tão sublime e altivo, ficaram de tal modo espantados que passaram a fazer-lhe reverências. Halvor perguntou-lhes se poderia passar a noite ali. De modo algum: — Não temos condições de vos oferecer abrigo –, disseram, – uma vez que não possuímos nada do que é necessário quando se recebe um grande lorde como o senhor. Melhor será que subais até a fazenda. Ela não fica longe; é possível ver as chaminés daqui. Lá o senhor terá tudo em abundância. Halvor não deu ouvidos a nada daquilo. Estava determinado a permanecer onde estava. Os dois, porém, não arredaram o pé e lhe disseram que deveria seguir até a fazenda, onde poderia conseguir carne e bebidas, ao passo que eles não possuíam sequer uma cadeira para lhe oferecer. — Nada disso – disse Halvor. – Não irei para lá até que amanheça; deixai-me passar aqui a noite. Posso me sentar pela lareira. Não havia como se opor àquilo, e assim Halvor se sentou perto da lareira e começou a cavoucar as cinzas como costumava fazer no passado, quando ficava ali a passar o tempo. Os dois falaram muito e sobre muitas coisas, contando-lhe ora isto, ora aquilo... Por fim, Halvor quis saber se haviam tido filhos. — Sim – responderam-lhe. Tinham um menino chamado Halvor, mas não sabiam para onde fora e sequer eram capazes de dizer se estava morto ou vivo. — Mas... porventura não seria eu? – perguntou Halvor. — Eu o conheço muito bem – disse a senhora, pondo-se de pé. – Nosso Halvor era tão desocupado e preguiçoso que nada fazia! Além disso, era tão maltrapilho que um furo se ligava a outro em toda a sua roupa. Alguém como ele jamais se tornaria um homem como o senhor. Logo em seguida, a senhora teve de ir à lareira a fim de atiçar o fogo; e, assim que a labareda iluminou Halvor, como costumava fazer quando ele permanecia em casa cavoucando as cinzas, ela o reconheceu. — Deus do céu! Halvor, és tu? – disse, e os dois foram tomados de uma felicidade tão grande que não havia limites para ela. O jovem teve então de contar tudo o que lhe havia ocorrido, e a senhora ficou 73


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tão contente que quis levá-lo até a fazenda a fim de exibi-lo às garotas que outrora o tinham desdenhado. Ela foi na frente e Halvor a seguia. Quando chegou lá, contou-lhes como Halvor retornara para casa e que agora veriam o quão deslumbrante estava. — Parece um príncipe! – declarou ela. — Veremos que se trata do mesmo maltrapilho de sempre! – disseram as garotas, meneando a cabeça. Nesse mesmo instante entrou Halvor, e as garotas ficaram tão desconcertadas que deixaram suas túnicas aos pés da chaminé e fugiram trajando tão somente as anáguas. Quando retornaram, estavam tão constrangidas que mal ousavam olhar para o rapaz, diante de quem haviam sempre se mostrado orgulhosas e arrogantes. — Mas, ah!, vos julgáveis tão belas e tão delicadas que ninguém vos poderia igualar – disse Halvor. – No entanto, deveríeis ver a princesa mais velha que libertei. Pareceis meras pastoras se comparadas a ela, e a segunda também é muito mais bela que vós. A mais nova, porém, que é a dona do meu coração, supera em beleza tanto o sol quanto a lua... Como gostaria que estivessem aqui, para que pudésseis contemplá-la! Mal ele havia dito isso, estavam elas a seu lado. Halvor, no entanto, ficou profundamente triste, pois as palavras que as três lhe haviam dito vieram-lhe à cabeça. Na fazenda, um grande banquete foi logo preparado para as princesas, a quem muitas reverências eram prestadas; elas, porém, não queriam ficar por ali. — Desejamos descer até a casa dos teus pais – disseram a Halvor. – Sairemos e contemplaremos o que há ao redor. Ele as acompanhou até o lado de fora, e todos chegaram a um grande lago próximo à casa da fazenda. Muito perto da água havia um belo banco de cor verde, no qual as princesas quiseram se sentar durante uma hora, pois acreditavam que seria aprazível ficar ali e observar a água. Elas ali se sentaram. Passado pouco tempo, a princesa mais nova declarou: — Gostaria também de pentear um pouco teu cabelo, Halvor. 74


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Então Halvor repousou a cabeça em seu colo, ela o penteou e, muito em breve, ele adormeceu. Em seguida, ela retirou dele o anel e colocou no lugar outro, dizendo às irmãs: — Abraçai-me do mesmo modo como vos estou abraçando. Gostaria que estivéssemos no Castelo de Soria Moria. Quando Halvor acordou, descobriu que havia perdido as princesas e começou a chorar e se lamentar. Estava tão infeliz que seria impossível consolá-lo. A despeito das súplicas de seu pai e de sua mãe, ele não quis permanecer; antes, despediu-se deles e disse-lhes que jamais os veria novamente, pois, caso não encontrasse as princesas mais uma vez, viver não lhe valeria a pena. Tendo consigo trezentos dinheiros, Halvor os colocou no bolso e partiu. Uma vez percorrida certa distância, encontrou um homem com um cavalo aceitável. Porque ansiava por comprá-lo, começou a barganhar. — Bem... Eu não cheguei a cogitar vendê-lo... – disse o homem. – Mas se chegássemos a um acordo, quem sabe... Halvor perguntou o quanto ele desejava pelo animal. — Foi pouco o que dei por ele, e de fato não vale muito; para montar, trata-se de cavalo excelente, mas não consegue puxar nada; sempre será capaz, no entanto, de transportar tua sacola com as provisões e também tu, caso alternes entre caminhar e montá-lo. Chegaram enfim a um acordo quanto ao preço, e Halvor pôs a sacola sobre o cavalo. Às vezes caminhava, às vezes montava o animal. À noite, deparou-se com um campo verdejante, onde erguia-se uma enorme árvore, sob a qual se sentou. Em seguida, deixou solto o cavalo e deitou-se para dormir, mas não sem antes retirar do animal a sacola. Ao alvorecer, Halvor partiu de novo, pois não se sentia disposto a descansar mais. Caminhou e montou o dia inteiro, através de uma extensa floresta com trechos verdes enormes que cintilavam de modo um tanto deslumbrante entre as árvores. Ele não sabia onde estava nem para onde seguia, mas jamais se demorava, ao chegar a um desses trechos verdejantes, mais do que o necessário para que o cavalo se alimentasse um pouco, enquanto ele mesmo se valia de sua sacola de provisões. 75


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Halvor caminhou e cavalgou assim, sob a impressão de que a floresta jamais encontraria termo. Entretanto, na noite do segundo dia, pôde enfim vislumbrar uma luz por entre as árvores. — Se ao menos houvesse gente ali, eu poderia me aquecer e conseguir algo para me alimentar – pensou. Quando Halvor chegou ao local donde a luz vinha, avistou uma casinha deplorável, por cuja vidraça pôde ver um casal de idosos. Pareciam os dois muito velhos, grisalhos como pombos, e o nariz da senhora era tão comprido que ela se sentava à chaminé e o utilizava para atiçar o fogo. — Boa noite, boa noite! – disse a velha maltrapilha. – Que encargo poderia trazer-te a estas bandas? Mais de cem anos se passaram desde que pisou por aqui um cristão. Halvor contou-lhe que desejava chegar ao Castelo de Soria Moria e quis saber se ela conhecia o caminho até lá. — Não – respondeu a velha –, o caminho eu desconheço, mas a Lua logo se fará presente; eu lhe perguntarei e ela no-lo saberá dizer. A Lua pode ver o castelo com facilidade, uma vez que brilha sobre todas as coisas. Quando então a Lua se fez clara e cintilante sobre a copa das árvores, a velha saiu. — Lua! Lua! – gritou. – Não poderias revelar o caminho para o Castelo de Soria Moria? — Não – respondeu a Lua –, isso não vos posso dizer, pois quando lá brilhei, havia diante de mim uma nuvem. — Espera um pouco mais – disse a velha a Halvor –, pois o Vento do Oeste logo se fará presente. Ele saberá a resposta, uma vez que, suavemente ou não, sopra por toda parte. E, ao voltar para dentro: — Mas quê!? Tens um cavalo também? Ah! Solta o pobrezinho em nosso pequeno pasto cercado. Não o deixes faminto à nossa porta! Será que não o trocarias comigo? Temos aqui um par de botas velhas, com as quais podes percorrer seis quilômetros num só passo. Fica com elas 76


O Castelo de Soria Moria

em troca pelo cavalo, e assim chegarás mais rapidamente ao Castelo de Soria Moria. Halvor anuiu sem pensar duas vezes, e tão contente ficou a velha com o cavalo que esteve prestes a dançar. — Pois agora também eu conseguirei cavalgar até a igreja – disse. Halvor não desejava descansar e quis partir de imediato. A velha, no entanto, disse-lhe que não havia motivo para pressa. — Deita-te sobre o banco e dorme um pouco, pois não temos cama alguma a oferecer-te – declarou ela. – Ficarei à espera do Vento do Oeste. Em pouco tempo, chegou o Vento do Oeste com um rugido tão alto que fez as paredes rangerem. A velha saiu e bradou: — Vento do Oeste! Vento do Oeste! Podes revelar-nos o caminho para o Castelo de Soria Moria? Há alguém aqui que gostaria de ir até lá. — Sim, eis que o conheço bem – disse o Vento do Oeste. – É exatamente para lá que sigo, a fim de secar as roupas para o casamento que ocorrerá. Caso tenha pés velozes, o interessado poderá acompanhar-me. Do lado de dentro precipitou-se Halvor. — Precisarás ser rápido caso queiras ir comigo – decretou o Vento do Oeste, que então se pôs a percorrer colinas e várzeas, páramos e pântanos, enquanto Halvor fazia o suficiente para acompanhá-lo. – Bem, tempo não tenho para ficar mais contigo. Devo, afinal, colocar abaixo uns abetos antes de seguir ao lavadouro e secar as roupas. Segue, porém, ao largo da colina e encontrarás meninas lavando roupas. Dali, não terás de caminhar muito antes de chegar ao Castelo de Soria Moria. Pouco demorou para que Halvor encontrasse as meninas que lavavam as roupas. Elas logo lhe perguntaram se trazia notícias do Vento do Oeste, que deveria secar as peças para o casamento. — Sim – respondeu Halvor. – Foi apenas derrubar uns abetos. Não tardará até que esteja aqui. Em seguida, ele quis saber como chegar até o Castelo de Soria Moria, ao que as meninas o puseram no caminho certo. Chegando lá, Halvor viu o castelo tão cheio de cavalos e pessoas que até parecia um enxame. O rapaz, porém, ficara tão esfalfado por acompanhar o Vento do Oeste 77


Andrew Lang · O Fabuloso Livro Vermelho

pelos arbustos e atoleiros que se manteve à parte da multidão até o dia derradeiro, quando ao meio-dia haveria um banquete. Chegava, então, segundo a prática e os costumes, a hora de brindarem todos à noiva e às jovens ali presentes, e o escanção encheu as taças da noiva e do noivo, dos cavaleiros e dos servos, vindo enfim, depois de muito tempo, até Halvor. O rapaz brindou à saúde da noiva e das jovens e, depois, deixou cair dentro da taça o anel que a princesa colocara em seu dedo quando sentados à beira d’água. Em seguida, ordenou que o escanção oferecesse a taça à princesa em seu nome e a saudasse. Da mesa, a princesa ergueu-se de pronto e perguntou: — Quem seria mais digno de tomar para si uma de nós: aquele que dos trolls nos fez livres ou quem aqui senta na condição de noivo? Quanto a isso, pensaram todos, só poderia haver uma opinião; e, quando Halvor tomou conhecimento do que foi dito, pouco teve de esperar antes de livrar-se de seus farrapos e assumir as roupas de noivo. — Sim, é ele mesmo – bradou a princesa mais jovem ao pousar o olhar em Halvor. Então, lançou o outro pela janela e celebrou seu casamento com o rapaz.*

* P. C. Asbjornsen.

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A Morte de Koschei, o Imortal

um certo reino vivia o príncipe Ivã. Ele tinha três irmãs. A primeira era a princesa Maria, a segunda, a princesa Olga e a terceira, a princesa Anna. Quando o pai e a mãe estavam prestes a morrer, assim intimaram o filho: — Dá tuas irmãs em casamento aos primeiros pretendentes que vierem cortejá-las. Não as mantenhas ao teu lado! Os pais morreram e o príncipe os enterrou. Em seguida, para aplacar a dor, foi caminhar com as irmãs no jardim verdejante. De repente, o céu cobriu-se de uma nuvem negra; surgiu uma terrível tempestade. — Vamos para casa, irmãs! – gritou. Mal chegaram ao palácio, o trovão ribombou, o teto se abriu e, no aposento onde estavam, voando, adentrou um falcão de cores vívidas. O falcão pousou no chão e transformou-se em um jovem vistoso, e disse:


O Fabuloso Livro Vermelho - Andrew Lang  

Originalmente lançado no Natal de 1890, O Fabuloso Livro Vermelho é o segundo dos doze volumes de contos de fadas compilados pelo renomado f...

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