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PELOS MAUS BRASILEIROS


Percival Puggina

PELOS MAUS BRASILEIROS

Crônicas à margem da história contemporânea

Prefácio:

Olavo de Carvalho


A tomada do Brasil pelos maus brasileiros Percival Puggina Copyright 2015 © by Percival Puggina Os direitos desta edição pertencem à Editora Concreta Rua Barão do Gravataí, 342, portaria – Bairro Menino Deus – CEP: 90050-330 Porto Alegre – RS – Telefone: (51) 9916-1877 – e-mail: contato@editoraconcreta.com.br

Realização: Critério - Inteligência em Conteúdo Edição: Editora Concreta - Renan Martins dos Santos Organização, comentários e notas: Mateus Colombo Mendes Capa: Christiaan van Hattem

(Crédito da fotografia: iStock)

Ilustrações: Bebeto Daroz

Ficha Catalográfica Puggina, Percival, 1944P429 A tomada do Brasil [livro eletrônico] / coord. de Mateus Colombo Mendes, edição de Renan Santos. – Porto Alegre, RS: Concreta, 2015. 292p. :p&b ; 16 x 23cm ISBN 978-85-68962-06-0 1. Jornalismo político. 2. Política. 3. História do Brasil. 4. Cultura. I. Título. CDD-070.44932

Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer meio.

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S E LO RE AÇ ÃO

O

s trabalhadores de todo o mundo não se uniram. As idéias abstratas de Karl Marx (e de seu financiador, Friedrich Engels) não encontraram ressonância na vida real. Ao contrário do socialismo, aquilo que Marx chamou de capitalismo não é uma ideologia, mas o resultado de uma relação própria dos seres humanos: a relação de trocas. Da mesma forma, não encontra amparo na realidade aquilo que Marx chamou de “moral burguesa”, da qual, segundo a fábula Manifesto do Partido Comunista, os trabalhadores de todo o mundo viriam a querer libertar-se, por ser artificialmente construída e imposta por quem detém os meios de produção. Chamado de “conservadorismo”, esse conjunto de “regras” também não é um ideário (como o é o socialismo), mas uma percepção acurada do mundo real, do que deu certo e do que deu errado ao longo da História, com a base de uma moralidade sempiterna, de um Direito Natural fundado na Verdade com “v” maiúsculo. Esse eixo de certo e errado, fundador daquilo a que se chama conservadorismo, foi percebido em diferentes civilizações, em distintas regiões da Terra e em diversos momentos da História – e constitui o muro de contenção dos devaneios ideológicos. A realidade refutou (e segue refutando) Karl Marx de muitas maneiras, de modo que os intelectuais marxistas resolveram mudar de estratégia. À primeira metade do século XX, percebendo que a revolução não ocorreria naturalmente e que a imposição pela força não se sustenta, Antonio Gramsci, György Lukács, Jürgen Habermas e Max Horkheimer, entre outros, propuseram uma revolução cultural, através dos costumes, dos hábitos, do senso comum. Sua pretensão era de que o socialismo corroesse por dentro o


edifício da civilização, pondo abaixo as sólidas pilastras da moral judaico-cristã, da filosofia grega e do direito romano. A subversão seria imposta pelos costumes, através da cultura, garantindo à esquerda uma hegemonia que seria a base da tomada do poder através da política ou da revolução. O Brasil foi terreno mui fértil a essa estratégia – e a colheita viria ao começo do novo milênio. Nas décadas de 1960 e 1970, derrotada no campo político e militar, a esquerda se aproveitou da inexistência de uma sólida tradição cultural brasileira e passou a ocupar todos os espaços em redações de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, em universidades e em editoras. Em duas décadas, o marxismo passou a ser a base de toda a educação nacional, a chave de interpretação dos fatos em nosso jornalismo e a inspiração em nossa literatura. Mais duas décadas e, com a hegemonia cultural estabelecida, o poder político já era integralmente da esquerda. Nesse contexto, acostumamo-nos com um padrão de mercado editorial avesso à tradição literária e crítica, em permanente militância contra autores clássicos e suas obras perenes, fundadas na tradição da busca da compreensão e da representação da realidade. Com admirável tenacidade, preparo intelectual e resistência psicológica, poucos brasileiros nadaram contra a maré vermelha nesse tempo todo – um deles é Percival Puggina (outro é Olavo de Carvalho, prefaciador desta obra). Pouquíssimos seguiram buscando a Verdade de cada fato, mas sua insistência foi inspirando cada vez mais pessoas, criando um ambiente minimamente favorável a uma reação no campo cultural. Uma dessas reações se chama Editora Concreta, que, desde 2014, oferece ao malformado e maltratado leitor brasileiro clássicos de Filosofia, Teologia e Crítica Literária. Após anos de letargia generalizada, em que a imensa maioria dos brasileiros assistiu aos maus brasileiros ignorando a Verdade e subvertendo a realidade (primeiro, no campo cultural; depois, no político), começamos a reagir. Alunos do professor Olavo de Carvalho e demais interessados em entender a realidade antes de desconstruí-la se têm organizado para estudar, publicar livros, posicionar-se e, até mesmo, protestar. É neste novo momento, de retomada do Brasil, que surge o Selo Reação, uma iniciativa a qual tenho a felicidade quase-celestial de capitanear, ao lado do Renan Santos e de sua Editora Concreta, a fim de publicar autores contemporâneos que se dedicam a defender a sanidade geral da nação das investidas de ideólogos armados com as perigosíssimas idéias abstratas que, desde 1917, já mataram mais de 100 milhões de seres humanos. Mateus Colombo Mendes Coordenador do Selo Reação


Agradecimentos aos colaboradores

Através de campanha no website da Concreta para financiar A tomada do Brasil, 591 pessoas fizeram sua parte para que este livro se tornasse realidade, um gesto pelo qual lhes seremos eternamente gratos. A seguir, listamos aquelas que colaboraram para ter seus nomes divulgados nesta seção: Adalberto Bueno Adenilton Ferreira Adriano Gabrieli Menegazzo Adriano Giacomelli da Silva Adriano Pereira Adriano Silva Adriano Veiga Adyson da Silva Diógenes Albert Kiss Aldemar Moreira Alexandre Haruo Tamagawa Alexandro Furquim Alfredo Salemi Filho Alice Muniz Retamal

Allan Rocha Silva Álvaro Trois Amantino de Moura Ana Nely Castello Branco Sanches André Arthur Costa André Erichsen Andre Flavio N. Silva Andre Luis de Castro Peixoto André Pimenta Andre Somavilla Andrea Azevedo Andry Soares Rilho Antônio César Landi Jr. Antônio Chiocca


Antonio Marcos Sauna Ari Bebber Arnaldo Bevilacqua Filho Artur Pojo Augusto Carlos Pola Jr. Austenir Maciel Coelho Benício Augusto Daminelli Branca Luiza Vaccari Brunno Adelizzi Bruno Arrienti Ferreira Bruno de Souza Pinto Bruno dos Santos Alves Bruno Gandolphi Bruno Giacomet Borges Bruno Libório Bruno Marinho Bruno Mendes Bruno Vallini Carla Farinazzi Carlos Adalto Wittkowski Carlos Alberto Escobar Carlos Alexander de Souza Castro Carlos Bach Carlos Crusius Carlos Eduardo C. Ribeiro Machado Carlos Eduardo de Aquino de Pádua Carlos Eduardo de Aquino Silva Carlos José Gnoatto Cássio Tagliari Célia Cunha Celio Antonio Pereira Jr. Cesar Cavazzola Jr. Cesar Day César Gavillon Cesar Rey Xavier Christian Marcucci Cibilia Schilahta Cicero Erivanio Araujo de Sousa

Claudia Freire Beux Cláudia Makia Claudio Gomes da Silva Claudio Karapetcov Cláudio Márcio Ferreira Cláudio Tulio Cleiton Krause Clelia Arana Clotilde Grosskopf Cristiano Azevedo Cristiano Beck Neviani Cristiano Eulino Cristiano Nunes Laureano Cristina Garabini Dagoberto Lima Godoy Daniel Camargo Daniel Cirne Daniel Custódio Pereira Daniel Felipe Bonfim da Silveira Daniel Freitas Daniel Klug Nogueira Danilo Cortez Gomes Danilo Henrique da Costa Décio Gröhs Demian Rossetti Denise Alves Diego Gomes Ferreira Diogo de Melo Takeuchi Diogo Fontana Djalma Maranhão Marques Dora Borges Dorian Uhlendorf Ederson Oliveira Eduardo Alves Eduardo Andriolo Eduardo Federizzi Sallenave Eduardo Fernandes Eduardo Juchem


Eduardo Lopes Eduardo Ramos Godinho Eduardo Ribeiro de Sá Eduardo Rodrigues Neto Eduardo Silva da Silva Eduardo Suga Eduardo Timponi de Moura Elaine Santos Elizabeth Sena Elpídio Fonseca Else Mandelli Emerson Baptista da Luz Emerson Silva Enilton Nascimento Enio Meregalli Erick Vilela Ernani Einloft Ernani Jeronimo Jr. Evandro Batista Evaristo Cenatti Everaldo Uavniczak Everton Silva Evilásio Lucena Evilasio Tenorio Silva Jr. Fabiano Dallacorte Fabio Aguilheiro Fabio Dias Fábio José Carvalho Faria Fabio Junglos Fabio Lauton Fabio Pereira Fábio Salgado de Carvalho Fabio Zampronio Fabio Zanlochi Fabricio Bernardi Felipe Moreira Felipe Weis Fernando Henrique Pereira Menezes

Fernando José Silva Fernando Ulrich Filipe Aprigliano Flávio Accioly Garcia de Freitas Flavio Aprigliano Filho Flávio Góis Francisco Carlos Siqueira Moura Francisco de Paula Fischer Ferraz Frank Costa Cavalcante Frederico Correa Filho Gabriel Henrique Knüpfer Gabriela Marotta Genesio da Silva Pereira Genésio Saraiva Geni Maria Batista Geraldo Correa Filho Gilvan Lopes Pires Gio Fabiano Voltolini Jr. Giovani Tesser Giovanni Sponhardi Giuliano Amorim Giuliano Araújo Lucas de Carvalho Giuliano Bastos Estrela Gleidson Macedo de Mesquita Grazielli Pozzi Menegardo Guilherme Batista Afonso Ferreira Guilherme Cerutti Müller Guilherme Ferreira Araújo Guilherme Macalossi Guilherme Péret Gustavo Braga Gustavo Frio Gustavo Rigon Narciso Gustavo Silveira Machado Gutemberg Campos Hamilton Belbute Heitor Utrini Helder Madeira


Hélio Angotti-Neto Hélio Telésforo Henrique Leonardo Maranduba Henrique Zandoná Hermano Zanotta Hermeto Silva Heron Bini da Frota Jr. Hestefani Lira Hilton Silva Jr. Humberto Campolina Humberto de Souza Meireles Humberto Rossitti Isadora Saraiva Israel Palhano Cavalcante Iuri Aguiar Ivo Kuhn Jackson Ferreira Silva Jair Portella Jane Reis Jean Carlos Diniz Lopes João Carlos Guerra João Medeiros Neto João N. Neves Jr. Joao Paulo João Payne João Stumpf João Tronkos Jônatas Alves Jorge Cunha Jorge Henrique Farias Nagel Jorge Ricardo Áureo Ferreira José Alexandre José Cláudio Aguiar Jose Guilherme Saez José Santos Silva Neto Jun Takahashi Junior Volcan Kênio Barro de Ávila Nascimento

Klaus Schumacher Jr. Konrad Scorciapino Krishnamurti Andrade Leandro Casare Leandro Cristóvão Leandro Linhares Rodrigues Leandro Taboni Liamara Silvestrin Polli Lília Fernanda Cardoso S. Ribeiro Lindoberto Ramos Lima Luciane Potter Luciano Gulin Luciano Pires Luciano Villano Almeida Luís Felipe de Aguiar Tesheiner Luiz Afonso Matos Luiz Carlos Vaccaro Filho Luiz Cláudio Ribeiro Luiz Felipe de Oliveira Luiz Hamilton Soares Luiz Mario Gomes de Almeida Jr. Luiz Militão Luiz Souza Luiz Tadeu Viapiana Lysandro Sandoval Manoel Guimarães Marcell Marques Marcelle Jaeger Anzolch Marcelo Assiz Ricci Marcelo Gois Matos Marcelo Rossa Marcelo Toledo Marcia Curvo Marcio Argachof Marcio Slomp Marcius Vinicius Júlio Marco Antonio Longo Marco Antonio Polo


Marco Oliveira Marco Silveira Fernandes Marcos Alves Marcus Kssesinski Margaret Tse Maria Aparecida dos Anjos Carvalho Maria Castanho Maria Cristina Hofmeister Meneghini Maria During Maria Lucchin Maria Martins Maria Rita Sulzbach de Aguiar Mariana Scolaro Marilene Costa Brandalise Mario Antunes Mario Barros Casuscelli Mário Jorge Freire Markian Kalinoski Mateus Corradi Mateus Rauber Du Bois Mateus Wesp Matheus Sturari Maurizio Casalaspro Mauro Matias dos Santos Filho Miguel Angelo A. P. de Barcellos Miriam Silveira Franco Misael Lima Ferreira Myriano Henriques de Oliveira Jr. Natanael Pereira Barros Neemias Félix Nelson de Cicco Nestor Visintim Filho Nilton José dos Santos Jr. Norberto Ximenes Ferreira Oacy Junior Odilon Silveira Santos Rocha Odinei Draeger Ofélia M. Rodrigues

Olivaldo Weiler Andrade Silva Orlando Tosetto Orly Lacerda Ovidio Rovella Paolo Baldini Paulo Eduardo Frederico Paulo Henrique Brasil Ribeiro Pedro Delgado de Paula Pedro Ivo Costa Lampert Pedro Ivo Silva Terra Pietro Pintaude Plinio G. Dutra Rafael Antunes Raquel Bundchen Reginaldo Magro Renan Zundt Gonfiantini Renata de Freitas Renato Albuquerque Guimarães Renato Jardim Renato Schilling Sardi Ricardo Gomes Ricardo Schiavão Rinaldo Oliveira Araújo de Faria Roberto Antonio Becker Roberto Dutra Roberto Granzotto Roberto Miglioli Roberto Smera Rodney Eloy Rodrigo Descalzo Rodrigo Logatti Corrente Rodrigo Moraes de Ataides Rodrigo Portolan Rodrigo Zampieri Castilho Rosani Pereira Samuel da Silva Marcondes Samuel Santos Sidgrei Spassini


Silvia Pagoto Silvio Donatangelo Silvio Livio Simonetti Neto Stefano Moniz Suzy Kummer da Rocha Tatiana Dornel Telmo Bezerra de Menezes Diniz Thales Gauze Thiago Quinalha Canato Thiago Rabelo Thiago Soares Tiago Aurich Tiago Toledo dos Santos Tito Claudio Moura Moreira Urubatan Junior Helou Vagner Regis

Valdemar Kjær Waldemar Penna Wallace Soares Walter Schley Werner Bing Wilson Fernandes Wilson Junior

empresa colaboradora

agradecimento especial Agradeço especialmente àqueles que, com suas contribuições, viabilizaram a primeira edição deste livro, sobretudo aos bons brasileiros Urubatan Junior Helou, Eduardo Suga, Fernando Ulrich e Antônio Chiocca. — Percival Puggina


Que lição esplêndida a juventude brasileira vem proporcionando à Nação! Foram eles, os jovens, rapazes e moças, que, neste ano de 2015, levaram milhões às ruas nas grandes demonstrações de março, abril e agosto. Nenhum deles era nascido quando o PT surgiu. A maioria sequer se equilibrava em skate quando Lula foi eleito. Mas descobriram, em poucos anos, algo que a imensa maioria da população levou três décadas para ficar sabendo. E trataram de agir. Hoje, ensinam civismo aos congressistas. Representam-nos ante aqueles que nos deveriam representar. Falam pelos que calam. Cobram das instituições o cumprimento de seu dever. A eles dedico este livro.


Sumário

Prefácio: Um pinguim no Saara, por Olavo de Carvalho...........................21 Apresentação ............................................................................................23

A verdade não existe. Será verdade?  Um pinguim no deserto.............................................................................31 No gueto, pensando..................................................................................32 Inaceitáveis obviedades.............................................................................33 A tomada do Brasil...................................................................................35

Invasão institucional dos bárbaros Como os maus brasileiros chegaram lá Alerta aos ainda ingênuos – Parte I...........................................................41 Alerta aos ainda ingênuos – Parte II..........................................................44 A crise dos trabalhadores em educação.....................................................46 Qual vacas para touros.............................................................................48 Então como é que é?.................................................................................50 Os donos da educação...............................................................................52


Veias abertas no idioma pátrio..................................................................54 A derradeira flor do Lácio.........................................................................56 Brincando com coisa séria.........................................................................57 Renascimento cultural...............................................................................60 As Cruzadas, a Jihad e certos professores..................................................62 Quando a educação será prioridade?.........................................................64 Tchutchucas e tigrões................................................................................66 Jovens rebeldes, coroas irresponsáveis.......................................................68 Uma pérola da TV Brasil...........................................................................69 A gente não se vê nisso aí..........................................................................71 Pluralismo, multiculturalismo e tolerância................................................74 Vanitas vanitatum.....................................................................................76 Sítio politicamente incorreto.....................................................................77 Olha a cabeça dos caras!...........................................................................79 Ao menos deixem os pregos......................................................................81 Uma guerra nada santa.............................................................................82 Paredes nuas..............................................................................................84 Falemos de injustiça, então!......................................................................86 Sapato 42 para pé 37................................................................................88 Cotas raciais – uma ideia elitista...............................................................89 Não precisa explicar..................................................................................91 Herdeiros de Caramuru.............................................................................93 Quase uma jabuticaba...............................................................................95 Viram no que deu?....................................................................................96 Está tudo dominado..................................................................................98 Elvis morreu, mas Stalin vive...................................................................101 O totalitarismo veste Armani..................................................................103 Notas do cárcere.....................................................................................104 O direito e o direito à burrice..................................................................106 A Comissão da “Verdade”.......................................................................108 Comissariado Nacional da História........................................................109


Eu me lembro muito bem........................................................................111 Um dia, um gato.....................................................................................114 Os inimigos da Anistia............................................................................116 As pernas da mentira...............................................................................118 Joãozinho e a Anistia..............................................................................119 Em busca da verdade...............................................................................122 Mãos ao alto, Brasil!...............................................................................124 Desarmados até os dentes........................................................................125

Procustos à brasileira Quem são os maus brasileiros Carta a um professor petista...................................................................132 Segunda carta a um professor petista......................................................136 O amor é lindo........................................................................................138 Retórica do berro e do silêncio................................................................140 O PT e o povo... QUE POVO?................................................................141 No país das bolsas...................................................................................143 Arco do triunfo, arco do fracasso............................................................145 O PT sonha com controlar a mídia.........................................................147 Briga de polegar com indicador...............................................................149 Dona Zelite e o custo de uma terapia......................................................152 Lula e as elites.........................................................................................154 O filho do Brasil é a cara do pai..............................................................155 O homem que desmoralizou a patifaria...................................................157 Alô, alô, chamando a base.......................................................................159 O legado de Lula.....................................................................................160 Ah, se aprendêssemos com os fatos.........................................................164 A overdose do petismo............................................................................165 A misteriosa origem de muitos votos.......................................................166


Escorpiões e rãs Os companheiros dos companheiros Desde quando partido tem ONG?...........................................................175 A usina da corrupção..............................................................................177 Enxaquecas institucionais........................................................................178 A lebre que mia.......................................................................................180 O cardápio do estadista...........................................................................182 Mais um golpe na federação....................................................................183 Por intolerável que pareça.......................................................................185 O cisco e a trave......................................................................................187 Um comunista absolutamente exemplar..................................................189 Corrupção e sistemas econômicos...........................................................190 Sempre enganando os bobos...................................................................192 Consultem o PCC....................................................................................194 Experiência e grana se associam..............................................................195 Fidel, a História já te condena.................................................................198 O Louvre do comunismo.........................................................................200 Quem quer comprar?..............................................................................201 Não é o Brasil, senhores!.........................................................................203 Quando a esquerda vai a Cuba...............................................................205 Plano perfeito..........................................................................................208 Duas décadas depois, inimaginável..........................................................210 Dança com lobos.....................................................................................213 Montanhas ao mar..................................................................................215 Reflexões de um leigo sobre a CNBB.......................................................217 Até quando, senhores da CNBB?.............................................................218 Sobre péssimos negócios..........................................................................220 A vaidade, a felicidade e a maldade.........................................................222 O supremo de mal a pior.........................................................................224 Muito obrigado, senhores ministros!.......................................................226 A “inconstitucionalidade” da Constituição..............................................227


O AI-5 do Supremo.................................................................................229 Consulte o juiz........................................................................................230 Nas mãos dos ministros-constituintes......................................................232 De onde essa certeza, caras-pálidas?........................................................233

Lanterna na proa 13 incontornáveis razões políticas para o impeachment..........................239 Pois é agora que tudo começa!.................................................................241 Alô, TSE! Que diabo de eleição foi essa?.................................................243 Os indignados e os que ainda não entenderam........................................244 É impeachment, sim!................................................................................246 Os verdadeiros golpistas..........................................................................248 O PT não piorou. Ele sempre foi assim...................................................249 O crime de PT-fobia.................................................................................251 A miséria da educação e a educação da miséria.......................................252 Alerta aos pais.........................................................................................254 A ditadura marxista na educação............................................................255 Comunismo, o filho da inveja..................................................................257 Tudo vai muito bem (nos poderes da República).....................................258 O tráfico de drogas e a pena de morte.....................................................259 Maioridade penal e desonestidade intelectual..........................................261 Somos as próximas vítimas do delírio esquerdista continental.................262 “Solidariedade” ou hipocrisia?................................................................264 Estado Islâmico, coisa nenhuma!.............................................................265 PT e CNBB, 35 anos de união estável......................................................266 Devoção a nossa senhora presidente........................................................268 Um STF para o PT chamar de seu...........................................................270 A revolução através das togas.................................................................271 Brasil, o filho pródigo caiu em si?............................................................272 Acabou! Acabou!....................................................................................274 Confesso que chorei................................................................................276


O melhor do Brasil, em muitas décadas...................................................277 Irresponsável usina de crises....................................................................279 O que fazer?............................................................................................281 Acusam-me!............................................................................................285 Posfácio...................................................................................................287


A verdade nรฃo existe. Serรก verdade?


“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas”, disse Friedrich Wilhelm Nietzsche, o teórico da vontade de poder e do Übermensch (as autorizações filosóficas ao egoísmo do querer sem limites). O Ocidente acreditou; Nietzsche enlouqueceu, morreu e nos legou um não-postulado. Ora, nem mesmo a verdade que proclama que não há verdades é verdade? Se Nietzsche estivesse certo, sua assunção não teria validade e, portanto, Nietzsche não estaria certo. Esse é o homem que acha que matou Deus. Roger Scruton respondeu ao alemão e a seus pares: “O homem que diz que a verdade não existe está pedindo para que você não acredite nele. Então, não acredite.” Do lado de cá, onde um mais um segue sendo igual a dois, ficamos com o filósofo inglês. E com Percival Puggina.


Um pinguim no deserto1

O

mitirei , neste relato, a identificação dos personagens e do local onde ocorreu o diálogo que me levou a este artigo. Direi, apenas, que era um programa de rádio e que o assunto surgiu durante um intervalo comercial. Não foi ao ar, portanto. Aos fatos. Enquanto a emissora cuidava de seus interesses, um dos participantes do programa, dirigindo-se a mim, afirmou: “Puggina, é inegável que tua posição está baseada na moral cristã.” Disse-o como se estivesse apontando um pinguim no Saara. Retruquei que isso era uma obviedade, posto que o assunto em pauta envolvia considerações de ordem moral, e a minha moral tinha, com efeito, fundamento cristão. E aproveitei para perguntar em que se baseava a posição moral que ele estava defendendo. Respondeu-me: “Os direitos humanos. São os direitos humanos.” Argumentei que direitos humanos não podem ser fundamentos de uma moralidade, posto que eles mesmos requerem algum fundamento anterior, a partir do qual os direitos humanos se distinguissem dos direitos dos animais, por exemplo. Diante disso, meu interlocutor deu sinais de surpresa. “Não estou te entendendo”, disse. Dado que nesse momento, outro participante do programa interveio usando a expressão “dignidade da pessoa humana” (que eu estava vendo se extraía espontaneamente do meu interlocutor), ele agarrou a expressão com as duas mãos: “É a dignidade da pessoa humana.” Chegáramos ao ponto que eu queria: “E em que se fundamenta a dignidade da pessoa humana, meu caro?” Ele voltou a dizer que não estava me entendendo e eu a lhe perguntar se as pessoas e os animais eram portadoras da mesma dignidade. Infelizmente, com o término do intervalo comercial, apenas tive tempo de lhe recomendar que meditasse sobre essa questão: em que se fundamenta a dignidade da pessoa humana? Estou convencido de que a única resposta capaz de preencher todos os requisitos filosóficos e de viabilizar corretos parâmetros morais à nossa existência é a que integra a Revelação e a subsequente tradição judaico-cristã: o homem é imago Dei! Imagem de Deus. Com ela e por ela todos somos iguais em essência e dignidade, a despeito das infinitas diferenças. Sem ela, nos tornamos vítimas em potencial das diferenças. No encontro dessa verdade de fé com a sã filosofia, nasce o Direito Natural, vertente de tudo quanto há de valioso no moderno constitucionalismo. 1 13 de agosto de 2011.


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PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

De alguma leitura e muita conversa, sei para onde provavelmente apontará a reflexão daquele meu interlocutor se fizer o que lhe pedi. Ele fundamentará a dignidade da pessoa humana na liberdade. Ora, a liberdade pode ser uma expressão visível dessa dignidade. É um valor moral e um atributo do ser humano. Não serve como vertente de sua dignidade. Tomada a liberdade como fundamento moral absoluto, a dignidade humana convive, por exemplo, com o aborto, a despeito da agressão que representa à dignidade e à vida do feto. É o que já acontece nos países ocidentais cujo Direito vem abandonando as raízes do Direito Natural para adotar o relativismo moral. Este tem fundamentos que repousam na combinação da liberdade com o querer sem limites e transformam a consciência num desconforto a ser removido, numa espécie de verruga que se instala na alma humana. Entre os muitos resultados dessa conduta, que se vai tornando dominante, ao expor convicção moral oposta, o sujeito passa a ser visto como um pinguim no deserto – e se queda sozinho, no gueto, pensando...

No gueto, pensando2 E eis que aos poucos se foi impondo em mim essa sensação de que vivo num gueto. Sim, sim, eu caminho com liberdade, circulo, falo, opino. Correspondo-me com muitos. Vocês me leem. Jornalistas me perguntam o que penso. Eu respondo. E mesmo assim, ou quem sabe por isso, habito um gueto. Somos muitos nas mesmas condições. Estamos contidos num sítio existencial bizarro, cujas bordas são tão invisíveis quanto sensíveis, onde milhões de brasileiros, provavelmente a maioria de nós, vamos perdendo relevância, minguando em cidadania e sendo suprimidos até mesmo do direito de expressar nossas opiniões. A caçamba e a corda foram recolhidas. As instituições jazem no fundo do poço do descrédito. Do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ao estudante da USP, do chanceler da República ao pagodeiro do Piauí, do ex-presidente ao menino birrento que trata a professora aos pontapés, perdeu-se a noção de limites. Mas não lhe passe pela cabeça, leitor, apontar causas para o que vê acontecer! Você acabará no gueto. Repita então, em concordância bovina, que são sinais dos tempos. Preferivelmente, assuma a responsabilidade por tudo. Diga que foi o seu mundo que gerou esse mundo. Ataque a corrupção, mas

2 15 de janeiro de 2012.


A VERDADE NÃO EXISTE. SERÁ VERDADE?

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não faça mais do que falar mal dela (ela se lubrifica com a saliva dos críticos). Toneladas de palavras, hectolitros de saliva. Mas não lhe passe pela cabeça apontar as causas. Jamais aponte causas ou ofereça critérios! Concorde prontamente quando disserem que ela sempre existiu e é igual em toda parte. Jamais mencione os vocábulos “verdades”, “princípios” e “valores”. No Brasil que abre caminho no século 21, quem propuser algo relevante perderá importância. Observe os partidos políticos, por exemplo, e faça como eles. Aprenda a crescer com irrelevância. Quanto menos forem daquilo que deveriam ser, quanto menor seu conteúdo, mais importantes se tornam. Por isso estão fora do gueto. Os programas e ideários em torno dos quais se constituíram só cumprem fins higiênicos quando disponibilizados nos banheiros das sedes. Mas não ouse dizê-lo. E jamais sustente haver coisas que não se fazem porque o caminho dos princípios acaba no gueto. É óbvio que este país passa muito bem com pouco ou nenhum caráter, sem fé religiosa de qualquer espécie (à exceção da fé no grande demiurgo de Garanhuns), submissa à ditadura do politicamente correto, do pensamento fraco, da grosseria. É óbvio. Um país crescentemente macunaímico, cada vez mais canalha, precisa expurgar a virtude. Há que trancar a nação inteira no gueto, se isso for necessário para os arranjos do poder. Depois que as li, ainda adolescente, jamais esqueci as palavras com que Cyrano de Bergerac defendeu o amor próprio. É uma lição inesquecível. E uma condenação. “O que queres que faça? Almoçar cada dia um sapo e não ter nojo? Trazer os joelhos encardidos? Exercitar a espinha em todos os sentidos? Gastar o próprio ventre a caminhar de bojo? Não, muito obrigado!” As coisas de que a nação precisa são tão óbvias quanto incômodas. Por isso, a coerência se converte em vício constrangedor. O sujeito coerente é um antissocial, objeto de intrigas e maledicência. Se não quiser vir para o gueto, livre-se de suas convicções. Tudo isso é tão óbvio para nós quanto é inaceitável para eles, os maus brasileiros que tomaram este país.

Inaceitáveis obviedades3 Recebo muitas mensagens eletrônicas apontando o farisaísmo de quem critica a corrupção que vê e fecha os olhos para o extenso rol dos próprios desvios diários de conduta. Certo, é farisaísmo mesmo. Essa inquietante

3 11 de setembro de 2011 (publicado no jornal Zero Hora).


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PERCIVAL PUGGINA · A TOMADA DO BRASIL

observação sobre os comportamentos individuais conduz, ademais, à conclusão de que não existem sociedades virtuosas. Se as pessoas não o são, a sociedade tampouco o será. Aliás, é esse lado obscuro da natureza humana que, entre outras coisas, torna necessária a existência da lei, dos poderes de Estado e da política. O artigo poderia terminar aqui se as proclamações feitas acima fossem as únicas verdades a serem ditas sobre o assunto, mas não é o caso. Aliás, quanto mais a toalha da renúncia à virtude for jogada no tablado da cultura contemporânea e quanto mais isso for objeto de indiferença social, maior será a corrupção dos corruptos e o farisaísmo dos fariseus. Chegará o dia em que, virado o fio, o vício se converterá em virtude e a virtude em vício. Não, não estamos longe disso, leitor, numa época em que o adjetivo “sacana” pega melhor que o adjetivo “virtuoso”. Ou não? E todos riem. Que somos imperfeitos, sabemos. O que parece haver sumido das nossas reflexões sobre a sociedade é o fato de que somos aperfeiçoáveis. Assim como sempre podemos fazer melhor o que fazemos, sempre podemos ser melhores do que somos. Portanto, as sociedades jamais serão plenamente virtuosas, mas nós, os indivíduos, temos um compromisso moral com o nosso aperfeiçoamento. O que se tornou saudável prática em relação ao condicionamento físico sumiu dos procedimentos em relação ao caráter. Tornamo-nos moralmente sedentários! Abandonamos os exercícios que envolvem a formação da consciência. Eis aí, então, um dos mais graves problemas da sociedade contemporânea. Podemos nos abraçar em muitos erros e vícios, mas fugimos das decorrentes responsabilidades morais e, principalmente, do mais tênue sentimento de culpa. Opa, culpa não! Culpa faz mal à saúde. No entanto, pergunto: como haver arrependimento e retificação das condutas sem que a consciência bem formada acuse o erro? Como corrigir o mal feito a outros sem que a percepção do erro, elaborada no plano da consciência, nos mobilize nessa direção? Em qual laboratório – que não no da consciência – pode nascer algo tão humano quanto o pedido de perdão? Cuidado! São muito claros os sinais de que estamos nos alinhando nos viciosos degraus de uma escada pela qual apenas poderemos descer. Onde anda o hábito de examinar a consciência, de refletir sobre ações e motivações, de corrigir erros, de pedir e oferecer perdão, de buscar o bem e evitar o mal? Todo esse percurso envolve etapas de ponderação e deliberação moral que, pouco a pouco, foram descartadas das práticas pessoais, familiares e mesmo religiosas. É como se a busca do bem tivesse deixado de ser saudável e o arrependimento fosse um desconforto a ser abolido do plano das consciências.


A VERDADE NÃO EXISTE. SERÁ VERDADE?

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Quer ser impopular? Diga que há um desastre civilizacional em curso, motivado pela corrosão dos valores da tradição judaico-cristã. Quer desagradar a muitos? Proclame ser escandalosa a conduta de uma sociedade inteira que joga sua cultura e moralidade nos cínicos labirintos do relativismo até se extraviar totalmente de uma e de outra – e, depois, se queixa das consequências. Quer ser condenado por olhares tão desdenhosos quanto ignaros? Comunique este fato inexorável: o país foi tomado!

A tomada do Brasil4 A nação está com as mãos erguidas e não é para rezar. Ninguém escapa à sanha dos bandidos, aos quais o Estado, miseravelmente, se rendeu. Era previsível. Foi prenunciado por uns poucos, entre os quais eu mesmo. Agora está aí, e todos percebem. Num país com 200 milhões de habitantes, a atividade contra o patrimônio alheio, por exemplo, tornou-se tão intensa que, do pirulito da criancinha à minguada pensão mensal da vovozinha, tudo já foi levado e todos já foram assaltados. Alguns, muitas vezes. Tenho nostalgia, já falei antes, do tempo dos trombadinhas. Eram meninos. Quase digo que eram meninos de boa formação, que sabiam estar fazendo coisa errada. Esbarravam na vítima, tomavam-lhe algo e saíam correndo. Tinham medo da vítima, da polícia e de que outros transeuntes os detivessem. De uns tempos para cá, o ladrão é bandido que ataca, ofende, maltrata e mata, motivada ou imotivadamente. Por uma dessas coisas da memória, vem-me à lembrança a descrição da Queda de Constantinopla, que o grande Daniel-Rops fez em sua História da Renascença e da Reforma. Após oito séculos da jihad contra a Roma do Oriente, Maomé II comandara a arremetida final. Quando a orgulhosa cidade caiu, o sultão entregou-a aos seus janízaros por três dias e três noites, conforme prometera. Sobrou pouca gente para contar a história. Encerrado o prazo, sangue escorria pelas calhas das ruas e era impossível encontrar, em Bizâncio, um simples pires de porcelana. Pois é isso que está acontecendo no Brasil, com a diferença de que o prazo é mais elástico. Sirvam-se os vitoriosos pelo tempo que quiserem! O que nos estão tomando são despojos de uma nação derrotada pelo que de pior nela existe. É a prerrogativa dos vencedores, quando os vencedores são

4 24 de março de 2013 (publicado no jornal Zero Hora).


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criminosos. Sempre foi assim na história. A vitória dos bandidos representa estupro, morte e pilhagem. Coube-nos a fatalidade de viver nestes anos da tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Ensinaram ao trombadinha de ontem que ele é a vítima. Sopraram-lhe uma ideologia de boca de fumo, que fala aos “manos” de seus direitos humanos. Vivendo, ele aprendeu que o crime compensa. Percebeu, com fartura de exemplos, que roubar é direito de todos e dever do Estado – mão grande e hábil para cobrar impostos, miúda e inábil para as tarefas que lhe cabem. À sociedade, esse Estado confessou, por inúmeros modos, sua rendição. Num dia, a polícia fecha pela quarta vez um desmanche de automóveis e prende o mesmo sujeito. No outro, o bandido sai da delegacia antes de o lesado preencher o BO. Não faz muito, um exército de policiais foi mobilizado para prender bandidos que ... estavam presos. Deveriam estar, mas o semiaberto, sabe como é. Num assalto a mão armada, a ação do Poder Público começa e termina em burocrático “registro no sistema”. É crime de baixa lesividade, sabe? E volta e meia a pistola dispara sem quê nem porquê, e mata. Soltam presos porque os presídios estão superlotados. Por excesso de presos? Não. Por excessiva falta de presídios, que diabo! As vítimas, antes de mais nada, são vítimas da inutilidade do Estado. Do Estado que quer desarmar os cidadãos de bem, não move palha pelos lesados e enlutados, mas lastima a morte de cada bandido em confronto com sua polícia. E veja, leitor, eu apenas falei do submundo. Não disse uma palavra sobre o grand monde.


INVASÃO INSTITUCIONAL DOS BÁRBAROS Como os maus brasileiros chegaram lá


Não é obra do acaso a situação quase selvagem em que nos encontramos – e que é explicada na seção que aqui se inicia. Tampouco é por acaso o título deste capítulo. Trata-se de uma atualização do título Invasão Vertical dos Bárbaros, em que o filósofo Mário Ferreira dos Santos distingue as invasões territoriais de antanho das tomadas culturais e anticivilizacionais de agora: Na verdade, a invasão que é a penetração gradual e ampla dos bárbaros não só se processa horizontalmente pela penetração no território civilizado, mas também verticalmente, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do Império Romano, e como começa a acontecer agora entre nós.5

As sementes dessa colheita maldita foram aradas no solo cultural, justamente quando – vejam vocês! – eram os militares os arrendatários do terreno. Temendo a ação da esquerda pelas armas, o regime militar deixou os filhos de Marx brincarem livremente no parquinho intelectual. As universidades, as editorias dos jornais e as emissoras de televisão foram tomadas por esquerdismo cultural, bem ao gosto de Antonio Gramsci, o teórico da revolução pelos costumes. Percebendo a impossibilidade do método marxista puro (os trabalhadores de todo o mundo não se uniram contra o espantalho criado por Karl Marx), Gramsci preconizou que o motor da revolução seriam os intelectuais, os detentores da informação. Com o italiano no bolso, nossos esquerdistas tomaram os meios de produção de notícias e conhecimento. Há quase meio século aquartelados nos gabinetes universitários e nas redações, e hoje no poder, reescrevem a História, com a pena maniqueísta do marxismo. Estabelecem a oposição imaginária entre eles próprios, os mocinhos. A invasão começou vertical e cultural; hoje, é institucional. O invasor despacha em órgãos públicos, diz se você pode construir ou não em determinada área, julga ações de todos os tipos, regula leis inexequíveis, enfim, delibera sobre praticamente tudo.

5 Mário Ferreira dos Santos, Invasão vertical dos bárbaros, São Paulo, É Realizações, 2010, página 14.


A História é uma só. Isso não impede que haja versões dos fatos; des­ de que sejam julgadas, a seu tempo, à luz da verdade, que, ainda que não seja encontrada, deve sempre ser buscada. A esquerda brasileira, contudo, sói contar e recontar a História da forma que mais lhe convém. Seus representantes fizeram isso por dé­ cadas, em salas de aulas e produções editoriais. Desde o começo dos anos 2000, com o acréscimo do poder político a seu já hegemônico poder cultural, a força da caneta e dos decretos lhes tem sido irresistí­ vel. Com verbas públicas, transformaram em heróis gente como Mari­ ghella e Luís Carlos Prestes, que fizeram ensaios bastante verossímeis para tornarem-se ditadores e assassinos (tal qual seus ídolos Lenin e Che Guevara). Com o erário e a caneta, empreenderam esforços em favor da reescrita dos fatos concernentes ao Regime Militar. Haverá uma seção específica sobre a Comissão Nacional da Verdade e tudo que ela representa. Portanto, o texto abaixo não está deslocado por acaso. Fala da instauração da CNV, um tribunal revisionista, extraoficial e unila­ teral, instaurado pelo Governo Federal do Partido dos Trabalhadores (PT). Começar este capítulo com o artigo que segue é começar pelo fim. Pois, agir da forma como descreve Percival Puggina no texto a seguir faz parte dos fins da revolução cultural engendrada pela esquerda. Com a cultura, a linguagem, a moral e os símbolos convertidos em panfletos marxistas, o exercício do poder pela esquerda é facilitado. A tomada do Brasil pelos maus brasileiros começou na cultura. E se consolida hoje no poder político.6

Alerta aos ainda ingênuos – Parte I 7

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m Pombas e gaviões8 aduzi, já na capa, o alerta que caracteriza os dez textos que nele se contêm: os ingênuos estão na cadeia alimentar dos mal-intencionados. É uma preocupação que os últimos anos vieram

6 Todos os comentários aos textos de Percival Puggina são de autoria do coordenador do Selo Reação e organizador desta obra. 7 29 de outubro de 2011. 8 Livro em que Percival Puggina apresenta dez reflexões (advertências) sobre temas sociais,


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acrescentar às que eu já tinha em relação ao futuro de nosso país. Com efeito, tenho como coisa certa, provada pelos fatos: que a única tese efetivamente abandonada pela esquerda para a tomada do poder é a tese da luta armada. O companheiro Gramsci acendeu um farol sobre a formação da hegemonia como estratégia alternativa e mais eficiente. Anote aí à margem: fazer do ENEM porta única para entrada da universidade é parte disso. O Senado Federal aprovou, como se esperava, a criação da tal Comissão da Verdade, constituída para “efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional” (artigo 1º da Lei nº 12.528, de 18/11/2011). Haverá prova mais contundente de que usam e abusam da nossa ingenuidade? E de que os encontram, no parlamento brasileiro, em número suficiente para aprovar uma coisa dessas? A ideia original de Lula e dos seus era bem outra. Era abortar a anistia ainda em 1979. O jornalista José Nêumanne Pinto (autor do livro O que sei de Lula), em entrevista a O Globo, no dia 29 de agosto de 2011, contou ter sido procurado, entre 1978 e 1979, pelo então presidente da Arena, Cláudio Lembo, para cumprir uma missão solicitada pelo General Golbery do Couto e Silva. Golbery queria apoio de Lula para a volta dos exilados. A reunião ocorreu num sítio. Qual a resposta de Lula, ouvida por Nêumanne? “Doutor Cláudio, fala para o general que eu não entro nessa porque eu quero que esses caras se danem. Os caras estão lá tomando vinho e vêm para cá mandar em nós? […]” O elevado critério moral de Lula não prevaleceu. A anistia aconteceu em 1979 e foi constitucionalizada em 1988. Pois eis que coube ao próprio Lula, três décadas depois daquela reunião solicitada pelo general Golbery, enviar ao Congresso Nacional, no ano passado, o projeto da Comissão Nacional da Verdade.9 O mundo deu umas quantas voltas, é certo, mas em nada se comparam ao efeito giratório que as conveniências políticas determinam sobre a moral de certas pessoas. É esse projeto que foi aprovado pela Câmara dos Deputados e acaba de sair do forno do Senado. Como Lula não conseguiu abortar a anistia em 1979 e a tentativa de matá-la quando já tinha 31 anos foi inviabilizada pelo STF, restou a alternativa da Comissão da Verdade.

éticos, religiosos, políticos e institucionais, apontando causas (a ingenuidade da maioria, as "pombas") e consequências (o banquete dos "gaviões", que vivem às nossas custas). [Nota do coordenador do Selo Reação e organizador desta obra; doravante, N. C.] 9 O ex-presidente Lula, que se recusara a colaborar com a volta ao Brasil dos companheiros que tomavam vinho em Paris e em Santiago do Chile nos anos 1970, enviou o projeto de criação da Comissão Nacional da Verdade ao Congresso em 12 de maio de 2010. [N. C.]


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Os ingênuos acreditam no que está estabelecido em seu artigo primeiro, parcialmente transcrito acima. No entanto, qualquer pessoa que junte “b” com “a” para fazer “ba” sabe que o julgamento pretendido pelos que queriam revogar a Lei de Anistia será substituído, agora, por mero linchamento, sem processo nem direito de defesa. Durante dois anos (anote aí que isso será prorrogado pelo tempo que convier politicamente à esquerda10) teremos uma Comissão de sete membros, escolhidos autocraticamente pela presidente Dilma, para investigar metade da verdade, posto que os crimes cometidos pelos guerrilheiros da luta armada não integram o escopo da Comissão, segundo se depreende do conjunto de suas atribuições. A própria presidente tem interesses diretos em que não se acendam luzes sobre roubos, assaltos e assassinatos praticados e cometidos pela organização comunista que integrava. A mim não me convence essa defesa dos direitos humanos com foco ideológico e com as refrações óticas determinadas pelo tempo. O SOS Tortura, telefone de denúncia instalado de outubro de 2001 a setembro de 2002, registrou 25 mil comunicações! Relativas a fatos da atualidade. Mas a única tortura que interessa à esquerda militante é a ocorrida num tempo em que esse tipo de crime, embora sempre repugnante e hediondo, sequer estava tipificado como tal no Código Penal brasileiro antes de 1997. Por fim, esclareça-se: tortura é crime hediondo, coisa de degenerados. Torturador é um monstro que deve arder na cela mais quente do inferno. Junto com seus assemelhados do terrorismo. Mas a anistia pacificou e encaminhou o país para a normalidade institucional ao longo de três décadas. É importante que se acendam luzes sobre o passado, mas sem essas pretensões de linchamento público, de vender meia verdade como verdade inteira, ou de transformar em heróis da democracia aqueles que lutaram por um regime totalitário infinitamente pior do que o regime autoritário que combatiam. A verdade sobre períodos históricos nunca foi e jamais será determinada por uma comissão. Conceder autorização legal para que sete pessoas nomeadas por uma oitava interessada executem tal tarefa é um ato legislativo para cuja aprovação se somam a inequívoca malícia de uns, a inaceitável irresponsabilidade de outros e a ingenuidade das pombas frente à voracidade dos gaviões.

10 De fato, a CNV entregou seu relatório final apenas em 10 de dezembro de 2014, indo dois anos além da previsão inicial, conforme vaticinara Percival Puggina em 2011. E, durante os quatro anos de re-redação da História, chegou ao extremo de revirar uma sepultura. [N. C.]


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Para que o Brasil chegasse a um estágio de dormência capaz de aceitar desmandos como os da Comissão Nacional da Verdade, um longo caminho foi percorrido. O começo desse trajeto se deu nas salas de aula de todos os níveis do ensino nacional. A relativização do conhecimento e a flexibilização da autoridade dos docentes, em favor da lisonja aos discentes, serviram a esse mister à exaustão. Apenas uma nação culturalmente sedada aceitaria tal comissão e, depois, aceitaria uma manobra diversionista como a que foi executada quando do encerramento da CNV. Em meio às denúncias de retumbantes escândalos na maior empresa estatal do Brasil, a Petrobrás, o grupo finalmente encerrava suas atividades, em dezembro de 2014.

Alerta aos ainda ingênuos – Parte II11 Quando a nação fica sabendo que os muitos escândalos da Petrobras são apenas alguns dentre muitos outros, nascidos no seio fértil do governo recém reeleito, a Comissão da Verdade chega, célere, em seu socorro. Veio a lume neste 10 de dezembro de 2014 o relatório final. Sai da pauta a corrupção financeira e entra na pauta a corrupção da história. Imagine, leitor, que durante o governo Sarney, fosse deliberada a criação de uma Comissão da Verdade com o objetivo de examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura de Getúlio Vargas, “a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional”. Foram muitas e graves as violações. E a nação, decorridos, então, 40 anos da ditadura de Getúlio, se agitava indormida e irreconciliada ante a tenebrosa lembrança dos abusos cometidos por Filinto Müller e seus asseclas. Avancemos, com nossas suposições. Para compor a Comissão e desenvolver o histórico trabalho, o governo Sarney nomearia sete membros, escolhidos a dedo entre os remanescentes parceiros mais leais de Carlos Lacerda. Tudo gente da velha e combativa UDN. Uma tal comissão, não fosse apenas fruto de imaginação, concebida para compor o raciocínio que exponho neste texto, seria um disparate, um des11 11 de dezembro de 2014.


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tampatório, motivo de gargalhadas, porque existem bibliotecas inteiras, centenas de trabalhos acadêmicos a respeito da Era Vargas e da ditadura getulista. Ninguém precisaria então, e não precisa ainda agora, de uma comissão para descrever o período e, menos ainda, de uma versão oficial dos fatos de então, narrados por seguidores de seu maior adversário. Acho que não preciso desenhar para ser entendido. A atual Comissão Nacional da Verdade era tão necessária quanto seria a CNV sobre Vargas ao tempo de Sarney. Não é assim que se faz historiografia. Versões oficiais são próprias de regimes totalitários. Nas democracias, abrem-se os arquivos para que os pesquisadores pesquisem e para que os historiadores escrevam, emitindo suas opiniões em conformidade com o conhecimento adquirido e à luz dos respectivos critérios. E já há centenas de trabalhos feitos. A nação custeou uma comissão que não deveria ser criada, cujo objetivo foi o de transformar comunistas terroristas, sequestradores, guerrilheiros, assaltantes, homicidas em “heróis do povo brasileiro”, lutadores por uma democracia que odiavam com o furor ideológico. Com o mesmo furor ideológico que motivou a luta armada dos comunistas, no mundo inteiro, naquele período da Guerra Fria, infelizmente muito quente por estas bandas. Passado meio século, muitos dos reverenciados pela CNV estão no poder e persistem nos mesmos afetos ideológicos e na mesma aversão à democracia representativa. Seu apego aos direitos humanos acaba quando visitam Cuba ou Caracas, ou quando elogiam a tirania comunista na Coreia do Norte. Quanto ao mais, tortura é crime odioso, terrorismo é crime odioso, comunismo e ditaduras são regimes odiosos e a anistia, ampla, geral e irrestrita, foi pedida pelos que hoje a querem revogar. O trabalho dessa Comissão é leviano, violador da lei que a criou, malintencionado, revanchista. E é o equivalente, em colarinho branco e bem remunerado, do popular linchamento. É a Comissão Nacional da Verdade, pois, exemplo do quão devastador pode ser o casamento entre a revolução cultural e o poder na mão da esquerda. Trata-se da invasão institucional dos bárbaros na prática. Mas esse terreno começou a ser preparado muito antes dos trabalhos desse grupo. É o que Percival Puggina explica a seguir.


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A crise dos trabalhadores em educação12 Houve um tempo, longo tempo, tempo que cruza os séculos, em que o professor era símbolo de autoridade no pequeno e gigantesco espaço da sala de aula. Note-se que autoridade é um atributo moralmente superior ao poder, mas, quando era necessário, a valiosa autoridade do professor, fundada no saber e na conduta, vinha respaldada por poder. Nas últimas quatro décadas, infelizmente, a educação brasileira foi atacada em dois flancos pela esquerda delirante. E tanto a autoridade quanto o valor econômico e social do trabalho dos professores, reconhecidos há milênios em todas as civilizações, desabaram fragorosamente em nosso país. Por um dos flancos, fustigou-a aquilo que Nelson Rodrigues chamava de Poder Jovem, acolhido entre aplausos por pedagogos de meia tigela como expressão de libertação para a criatividade. Todo poder ao jovem! A maturidade tornou-se um mal e a imaturidade, um bem a ser preservado. Era imprescindível erradicar as formas negativas da pedagogia. Coisas como certo e errado, sim e não, correção com caneta vermelha, entre outras práticas, precisavam ser substituídas por vaporosas sutilezas que não contrariassem os pupilos. Afinal, eles podem ser portadores natos de uma nova e superior forma de saber. Guardo como pérola desse disparate a frase do vate sergipano que adoça com sua voz aveludada os julgamentos do Supremo Tribunal Federal. No caso da reserva Raposa Serra do Sol, ele, o ministro Ayres Britto, em reverência à sabedoria indígena, lascou, citando Paulo Freire: “Não existe saber maior ou menor; existem apenas saberes diferentes.” De fato, o veterano Marco Aurélio Mello e o garoto Dias Toffoli exemplificam saberes diferentes, quantitativamente iguais, não é, ministro? E viva Paulo Freire. Pessoalmente ainda estou à espera de que algum desses guris mal-educados das universidades brasileiras, depois de tantos anos de sua completa libertação, apresentem alguma contribuição à ciência, à técnica e à cultura nacional. Ao contrário, o que se vê é o país ocupando o 93º lugar no componente educação, entre 169 pesquisados. E não me surpreenderei se encontrar por aí doutos pedagogos convencidos de que o mundo, por pura inveja, se recusa a cair de joelhos diante da qualidade muito peculiar e superior do saber construído por nossos jovens. De minha parte, vejo o sucesso sempre ao alcance dos que queimaram pestana sobre os livros, levaram a sério seus estudos ou cavoucaram com responsabilidade seus espaços na vida pública ou na iniciativa privada, mediante 12 15 de janeiro de 2011.


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capacidade de renúncia ao bem atual com vistas ao investimento no bem futuro maior. Esses jovens agem no contrafluxo do deslizamento que descrevi, arquitetado por uma escola de viés marxista, que está levando três anos inteiros para alfabetizar uma criança, quando nos meus anos de curso primário se aprendia isso em seis meses de aula. A educação, caro leitor, conceitual e deliberadamente, deixou de lado seus objetivos essenciais e se voltou para formar cidadãos conscientes, politicamente engajados. Enquanto não chegam lá, os cidadãozinhos treinam sua cidadaniazinha desrespeitando e espancando os professores. Pelo outro flanco, e no mesmo tom, os professores politicamente engajados, abdicantes de sua autoridade, assumiram-se como “trabalhadores em educação”. O conselheiro tutelar, escolhido em pleito de baixíssimo comparecimento, por força de preceito contra o qual nenhuma voz se ergue com suficiência, exerce mais autoridade nas escolas do que os professores ou os diretores. Estes, a seu turno, são, também eles, eleitos num concurso de promessas e de simpatia, com participação e engajamento dos alunos. No Brasil, amigo leitor, aluno vota para diretor! Vota para reitor de universidade! E ninguém se escandaliza! Por que será que os praças não elegem os comandantes e os pacientes não escolhem os diretores dos hospitais e centros de saúde? Quando o poste passa a desaguar no cachorro e o aluno a meter o dedo na cara do professor, ainda há quem se surpreenda. Por estes primeiros dias de 2011, o Ministério da Educação está veiculando um comercial com o objetivo de ampliar o interesse pela carreira do magistério. Mostra uma obviedade: os povos que melhor se desenvolvem atribuem a seus professores o principal mérito por esses bons resultados. É claro que nossos professores ganham muito pouco, mas os maiores problemas, nesse particular, estão na péssima preparação dos graduados para o magistério e na falta de recursos didáticos nas escolas. De outra parte, veja quais os países bem-sucedidos em seus objetivos sociais, com mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano, que se reportam prioritariamente a fundamentos marxistas nas salas de aula e na formação de seus educadores. Duvido que encontre algum. A crise dos trabalhadores em educação é uma responsabilidade deles mesmos e das idéias que abraçam. É responsabilidade deles mesmos, como professores dos professores nos cursos de Educação, como alunos desses cursos na recepção passiva de ferramentas de trabalho comprovadamente erradas e ineficientes, como reprodutores acríticos do mau conhecimento adquirido. É, também, uma decorrência de suas reivindicações equivocadas, da busca de uma autonomia para fazer o que bem entendem, que só é menor do que o desejo dos alunos de se comportarem do mesmo modo. É uma consequência


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de seus engajamentos, do desmonte que produziram na própria autoridade e dos líderes que vêm escolhendo para representar-lhes. Mas só aos professores, o senhor diz isso? Não, digo-o com muito maior ênfase a eles porque são, de fato, como informa a propaganda do MEC, os principais responsáveis pelo desenvolvimento social de qualquer nação. Enquanto os professores se submeterem às diretrizes de quem, com um tranco ideológico e partidário, os derruba à condição de meros trabalhadores em educação; enquanto se deixarem levar pelas cartilhas da pedagogia dominante; enquanto conviverem passivamente com a destruição de sua autoridade; enquanto tomarem como inegociável planos de carreira que nivelam competentes e incompetentes; e enquanto não refugarem uma organização que transforma o acesso ao comando da escola em concurso de coleguismo e simpatia, viverão uma crise sem fim. E se a seleção para docentes envolve qualquer coisa, menos critérios meritocráticos, a seleção de discentes não haveria de ser lá muito criteriosa...

Qual vacas para touros13 É muito provável que o leitor desconheça o fato relatado na edição de Zero Hora do dia 2 deste mês [janeiro de 2011], em artigo com o título “Mamãe, passei em medicina”. O autor, professor de matemática e engenheiro do ITA foi protagonista da experiência que conta. Chama-se Daniel Lavouras e submeteu-se às provas do ENEM deste ano, sendo qualificado para ingresso no prestigiado e disputado curso de Medicina da Faculdade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Até aí nada de mais. Afinal, supõe-se que um professor de matemática no ITA, engenheiro aeronáutico, seja uma pessoa com preparação escolar e conhecimentos bem superiores à média dos concorrentes. Acontece que ele se confessa, no artigo, absolutamente ignorante nos principais conteúdos com relevo para um curso de Medicina. Transcrevo-o: “Nunca entendi a mitose e a meiose. Não sei a diferença entre eucariontes e procariontes, Darwin, Mendel e seus amigos não me são próximos. Tudo que sei de cromossomos e DNA é o que leio em jornais e revistas. [...] ‘Chutei’ com precisão? Não, ao contrário, errei praticamente todas as questões de Ciências Biológicas. Ah, em compensação eu tive o extremo mérito de entender que a foto de um

13 5 de janeiro de 2011.


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jogador parado fora da quadra com uma bola de vôlei significa que ele vai sacar e também percebi a foto do Mr. Bean no quadro da Mona Lisa. É sim, eu acertei estas! (E para todos que ainda não conhecem a prova do Enem, fica o convite para que o façam, visitem o site do Inep).” O professor não vai cursar Medicina, claro. Sua experiência e o artigo que escreveu bradam contra o absurdo de um exame vestibular nacional que não distingue alhos de bugalhos. E tampouco distingue o curso de Economia do de Artes Cênicas, ou o curso de Publicidade do de Engenharia de Minas. E assim, alguém que erra quase todas as questões de Ciências Biológicas habilita-se a cursar uma das melhores faculdades de Medicina do país. O ENEM não é apenas um recordista em trapalhadas de grande porte. Ele é um mal em si mesmo. Aliás, ele é sintoma específico, no campo da Educação, de um mal genérico que afeta o Brasil: o centralismo e a ruptura com os fundamentos do sistema federativo. Estamos sendo cozinhados como sapos, pelo gradual aquecimento da água da panela, num modelo que privilegia, em tudo e para tudo, aquilo que é nacional e federal. Adotamos, cada vez mais, sistemas centralizados. Brasília deixou de ser tão-somente a capital do país. Ela se tornou a única cabeça pensante, o caixa único, a sede dos sistemas únicos e o ponto de convergência, pela via fiscal, de 23% do nosso PIB. Tamanha concentração de poder e dinheiro transformou a antiga cidade dos candangos no município brasileiro com mais alto Índice de Desenvolvimento Humano. E para ali convergem prerrogativas que aviltam a Federação, transformando estados e municípios ora em pedintes, ora em agraciados com as migalhas que caem de sua mesa. Pois o ENEM é filho desse sistema. Nasceu portador do defeito genético que herdou do papai, o enganoso federalismo brasileiro, no qual a União, cada vez mais, vai dispondo sobre tudo e sobre todos, absorvendo as autonomias ainda residuais na nossa vida social. Um exame de ingresso nos cursos de terceiro grau, com extensão nacional, é um devaneio autoritário, uma coisa de porte descomunal, monstruosa no aspecto e, por óbvio, descomedido na dimensão de seus erros. É desanimadora, contudo, a bovina docilidade com que instituições de ensino superior, de tanta importância na formação da inteligência nacional, se entregam a esse sistema qual vacas para touros. Cedem autonomia e aceitam sua própria degradação. Em troca de um prato de lentilhas. Lentilhas federais, claro.


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Sempre na contramão dos bons exemplos, a esquerda brasileira ignora o fato de que países de grande extensão territorial alcançam desenvolvimento cultural e econômico respeitando as particularidades regionais, descentralizando poder político e administrativo. Bem ao gosto dos ensinamentos soviéticos, fracassados até não mais poderem, os governos do PT têm trabalhado intensamente por mais e mais centralização, concentrando as decisões em uma burocracia ideológica. Não se trata sequer de uma burocracia especializada, preparada para lidar com o tema que ordena. O Ministério da Educação (MEC) e seu Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) retratam o insucesso desses procedimentos. A prova serve à avaliação da qualidade do ensino médio e para classificar candidatos a vagas em universidades públicas brasileiras. O ideal do governo federal petista é que todas as instituições adotem seu exame. E, na mão da esquerda, um instrumento desses pouco ou nada tem a ver com avaliação; trata-se, pura e simplesmente, de doutrinação ideológica. O ENEM é uma das chamas do fogo com que somos cozinhados em banho-maria.

Então como é que é?14 A fábula da rã que se deixa cozer viva, passivamente, em uma panela de água fria que vai ficando morna, depois quente e, por fim ferve, é perfeitamente aplicável a inúmeras estratégias em curso no país. Se, em vez de avançarem aos poucos, seus condutores saltassem etapas e nos jogassem diretamente onde desejam nos levar, haveria resistência social e os projetos fracassariam. Estão nos cozinhando em fogo baixo. Muito se tem escrito sobre o ENEM, esse mastodonte que iniciou como uma avaliação de desempenho do Ensino Médio no país e que, em geral, virou monstruosidade ainda maior – prova de seleção para ingresso nos estabelecimentos de Ensino Superior. Por quê? Porque alguns pedagogos, afinados com o poder político estabelecido, decidiram que era assim que tinha que ser. Já escrevi que quando o “coletivo” aparece com uma ideia, por extravagante que seja, ela acabará prevalente. Não vou discutir, aqui, os aspectos pedagógicos nem as onerosas trapalhadas em que se tem envolvido 14 6 de novembro de 2011 (publicado no jornal Zero Hora).


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o tal provão do MEC. Detenho-me sobre uma pauta que não pode transitar sem ser denunciada, em vista de seu significado para a democracia. A forma federativa de Estado, constitucionalizada no Brasil desde a Proclamação da República, corresponde ao importantíssimo princípio da subsidiariedade, que ordena competências em níveis superpostos, de tal modo que cada nível só age se o nível que lhe é inferior não puder cumprir bem suas atribuições. Esse princípio, que preserva, na base, a iniciativa dos indivíduos e, logo acima, a iniciativa das comunidades locais, e assim sucessivamente, tem óbvias aplicações no campo da Administração, do Direito, da Política e da Ética. Pois eis que, ao conjunto de ações centralizadoras já adotadas no Brasil, sempre pelo reverso desse respeitável princípio, soma-se agora o ENEM, como nova intromissão/cessão de autonomia em favor da União. Num país do tamanho do Brasil, as vagas nos estabelecimentos de Ensino Superior tornam-se disputadas nacionalmente, com estudantes transferindo-se de Garanhuns para Santana do Livramento e vice-versa, como se estivessem tomando lotação para ir ao colégio. Absurdo! O sistema sempre foi descentralizado, regionalizado e, por fim, como convém, foi municipalizando-se. Os investimentos que proporcionaram a maior parte dessas instituições de ensino resultaram de esforço, poupança ou pleitos locais. O provão nacional é uma cessão de autonomia no controle da porta de entrada do Ensino Superior! Li todo o Caderno Amarelo aplicado este ano. Para quem está afeito às relações entre a linguagem e a política fica fácil perceber, em algumas questões, o emprego gramsciano15 do vocabulário e o uso da prova como 15 Em sua frase mais famosa, Karl Marx disse: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!” Entretanto, em vez disso, quando poderiam se unir, entraram em guerra. Trabalhadores ingleses se uniram com a elite inglesa; trabalhadores dos Estados Unidos se uniram com a elite dos Estados Unidos; juntos, lutaram contra os trabalhadores e a elite da Alemanha nazista e da Itália fascista. Marx tentou dividir o mundo em dois, como se ser bom ou mau dependesse de classe social. O mundo todo recusou essa divisão porque seu fundamento é dissociado da realidade. Prova disso é a força que historicamente se usou para impor o socialismo. O que Marx propôs era uma união pela inveja, pelo ressentimento contra quem produz e gera empregos e riquezas. Trabalhadores de todo o mundo recusaram o marxismo porque a imensa maioria das pessoas respeita o próximo e ama a liberdade. Por isso, o socialismo (assim como outras ideologias nefastas, como o nazismo) só chegou ao poder pela força, pela truculência, pelos fuzis. Mas esse poder pela imposição tem vida curta; as balas dos fuzis acabam, o povo se reorganiza e a verdade prevalece. Compreendendo essa situação, intelectuais de esquerda resolveram mudar de estratégia. Percebendo que a revolução não ocorreria naturalmente e que a imposição pela força não se sustenta, o cientista político Antonio Gramsci propôs uma revolução cultural, através dos costumes, dos hábitos, do senso comum. Sua proposta era que o socialismo corroesse por dentro as bases da civilização, pondo abaixo o sólido edifício da moral judaico-cristã, da filosofia grega e do direito romano. Não é preciso muito esforço para aperceber-se de que a linguagem é campo de batalha fundamental no contexto da revolução silenciosa do pensamento


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instrumento de doutrinação e construção da hegemonia política. A centralização serve para muitos males, inclusive para esse específico mal. Serve para a submissão de Estados e municípios. Serve para a cooptação de maiorias parlamentares. Serve para afastar a sociedade de decisões ditas participativas pelo envolvimento de grupos sociais devidamente aparelhados. Serve para a corrupção. Serve, esplendidamente, para o uso da rede de ensino como instrumento de doutrinação (vide livros do MEC!). E, porque tem sido assim, em tudo e com tudo, também esse ENEM vai a serviço dos mesmos instrumentos de centralização e hegemonia. Enquanto a panela aquece para as festas do poder, canta-se como em outras comemorações: “Para a União não vai nada? Tudo! Então como é que é? É big, é big, é big, big, big.” Pobre federalismo brasileiro. E a sanha centralizadora não para por aí. Ao mesmo tempo em que pretende regular tudo quando está no poder, a esquerda (corrente de pensamento da maioria dos maus brasileiros que tomaram conta do Brasil) sempre procurou fazer-se hegemônica na cultura. Quem não faz seu jogo, quem não entra para o clube, não tem sequer o direito de opinar.

Os donos da educação16 Li, recentemente, artigo criticando os que se aventuram a opinar sobre educação sem o preparo acadêmico específico. Educação, a exemplo de outras ciências, segundo aquele texto, somente poderia ser abordada, com propriedade, por profissionais da área. Traduzindo: cada macaco no seu galho. Como também eu, cá no meu canto do arvoredo, tenho dado pitacos, posso explicar perfeitamente o que leva tantos primatas a se imiscuírem nessa sofisticadíssima pauta: estamos todos apavorados com o que vemos acontecer na educação nacional. Não é que as coisas vão mal. Não, as coisas vão de mal a pior, numa decadência acelerada que acende sinais de alerta em todas as direções quando se pensa na sustentabilidade do nosso desenvolvimento através da maior riqueza de qualquer nação – o povo que a constitui. Se estivéssemos em guerra, gente de todas as áreas de conhecimento estaria humano. Nesse sentido, a concentração das bases educacionais (das decisões sobre o que pode ser ensinado, sobre o que e como deve ser dito) nas mãos dos ideólogos do MEC representa uma grande vitória do gramscismo. [N. C.] 16 5 de junho de 2011 (publicado no jornal Zero Hora).


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escrevendo a respeito. E o fato inegável é que os generais da educação conduziram o Brasil para a vitória de uma pedagogia que derrota a nação. O que era perfeitamente previsível quando comecei a escrever sobre isso há quase trinta anos passou a ser constatado e medido. Os indicadores da educação nacional nos arrastam para constrangedoras companhias no ranking mundial. E só os profissionais da área, os mestres dos educadores em primeiríssimo plano, continuam acreditando nas teorias que deram causa ao desastre em curso. São professores que se veem como trabalhadores em educação, fazedores de cabeça, intelectuais orgânicos17 com a tarefa essencial de promover a “formação para a cidadania”. Seguem teses segundo as quais não existe saber maior nem menor, mas tão somente saberes diferentes, de tal forma que alunos e professores, em condições de igualdade, suprem-se de conteúdos mutuamente! Contrastando com esses e em meio a imensas dificuldades, alguns professores ainda preparam seus alunos – sem distinção de classe – para as competências que lhes abrirão oportunidades ao longo da vida. Sabem que Lula é um case. Jamais um modelo. O manuseio da educação para fins políticos e ideológicos passou a ocupar o centro da reflexão acadêmica. Alunos dos cursos de formação para o magistério contam-me que é difícil encontrar, para seus estudos, literatura que não seja marxista. Não sugiro, aqui, que ela não circule. Trato, diferentemente, de apontar o produto visível das ideias dominantes. Eis por que, leitor, não passa ano sem que seja inutilmente denunciada a manipulação ideológica dos livros didáticos. Eis por que o MEC aprovou um livro de história com elogios ao governo Lula e críticas ao governo FHC (imagine-se o resto da história). Eis por que as provas do ENEM contêm perguntas com a mesma orientação. Eis por que o tal kit-gay foi contratado pelo MEC junto a uma ONG de homossexuais para distribuição nas escolas e só foi barrado (se é que de fato foi) porque virou moeda de troca no kit-blindagem do ministro Palocci. Vergonha? Vergonha é para quem tem. Escrevo sobre inevitáveis relações de causa e efeito. Escrevia quando era previsível e agora escrevo sobre o constatado. A educação brasileira, com a malícia de alguns e a dócil ingenuidade de quase todos, deu uma banana para as expectativas sociais, para as necessidades nacionais, para o direito 17 “Intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos políticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja para elaborar, esclarecer e defender sua ideologia de classe.” Olavo de Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural. Disponível em: olavodecarvalho.org/livros/negramsci.htm. [N. C.]


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dos jovens e das famílias, para o futuro da pátria, e passou a fazer o que seus donos desejam. O livro do MEC que denuncia a Gramática como instrumento de dominação cultural tem tudo a ver com isso.

Veias abertas no idioma pátrio18 Pronto, descobriram tudo. Não adiantou disfarçar. Já há até artigos de jornal comentando que alguns brasileiros reacionários tentaram derrubar o governo a golpes de gramática. Puxa vida, estava tudo tão articuladinho! Íamos detonar o ministro da Educação com uma mesóclise, o Palocci com um numeral multiplicativo (mas esse já foi), e a presidente, jóia da coroa do nosso golpismo, seria removida por uma corrente. De orações. De orações coordenadas assindéticas, claro. Toda nossa trama tinha como argumento e cenário as críticas que fazíamos ao livro didático Por uma vida melhor, patrocinado pelo MEC, para utilização na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Esse é o disfarce; mas o objetivo, mesmo, era derrubar o governo. Até parece que estou ironizando, mas não estou. Apenas amplio um pouco as acusações formuladas por intelectuais (orgânicos, diria Gramsci) alinhados com o governo aos que reprovaram aquele livro didático. Nossas motivações seriam apenas políticas. Nenhuma boa intenção, nenhuma apreciação razoável sobre a função do idioma para o desenvolvimento individual e social nos poderia ser creditada. As críticas que fazíamos verteriam de uma oposição “conservadora”, cujas sórdidas motivações não se detinham sequer ante algo tão hermético e acadêmico como o ensino de língua portuguesa – propriedade deles e ante cujas cercas eletrificadas seríamos meros aventureiros e intrusos. Certo, certíssimo, acima de qualquer dúvida ou contestação, estaria o sábio Haddad, sob cujo comando, convenhamos, o MEC se especializou em jogar dinheiro fora e em promover trapalhadas. Mesmo assim, ouriçaram-se os governistas. Era preciso socorrer o ministro. Esgotaram o estoque de sofismas. Como de hábito, levaram palavras ao pelourinho para delas extrair sentidos que, por outros meios, se recusariam a admitir. Entende-se. Não é com pouco esforço que se consegue transformar o certo em errado, o errado em certo, e atribuir satânicas motivações aos que discordam. Você sabe como é. Quando a esquerda governa, toda crítica é recebida como uma punhalada. E mesmo

18 19 de junho de 2011 (publicado no jornal Zero Hora).


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essa oposiçãozinha aí, com diagnóstico de morte cerebral, é vista como uma falange de hunos que atacam por todos os flancos e modos, dignos ou indignos. Até parece que a esquerda, quando fora do governo, se caracteriza pela moderação e pela fidalguia, não é mesmo? Foi instrutivo o livro em questão. Fiquei sabendo, por exemplo, que essa história de idioma bem falado e bem escrito, no ambiente escolar, é coisa de pessoas pernósticas, viúvas do Rui Barbosa, tão enlutadas quanto a mulher dele, dona Maria Augusta Viana Bandeira. Fiquei sabendo que o direito de falar e escrever com correção por bons motivos é privilégio da esquerda. Já eu, suspeita-se, empenho-me em escrever direitinho por motivos ignóbeis. Cá do meu lado pernóstico da cerca, fiquei pensando se os intelectuais de esquerda teriam alguma credibilidade caso não manejassem razoavelmente bem o idioma. Mas consideram que o ensino correto no ambiente escolar afronta as crianças provindas de famílias incultas! Não é engraçado? Eles, socialistas, querem socializar a ignorância. Os conservadores, os não esquerdistas, malvados que são, querem uma educação pública de qualidade para todos. Durante muito tempo acreditei que certas correntes políticas buscassem, mediante meios distintos, os mesmos fins bons. Custei a perceber que os meios são distintos porque os fins são essencialmente diferentes. Foram os fatos da vida, bem mais do que as palavras, que me ensinaram isso. Duvido! Duvido e faço pouco, como se dizia antigamente, de que esses mestres e pedagogos sigam, para educar os próprios filhos, as diretrizes que aplicam aos filhos dos outros. Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão excluídos, aprisionados na sua particularidade e sem acesso à conversação das classes cultas. Tudo depende de saber se preferimos enfraquecê-los pela lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. Há nisso uma escolha moral que os amigos do povo preferem não enxergar. — Olavo de Carvalho19

19 “Quem come quem”. Disponível em: olavodecarvalho.org/apostilas/quem.htm.


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A derradeira flor do Lácio20 Quando me deparei com a notícia de que novos livros didáticos aprovados pelo MEC e pagos com dinheiro do contribuinte eram claramente alinhados com o petismo no poder, não me surpreendi. Livro didático aprovado pelo MEC é prêmio literário para intelectual orgânico, ora essa. Quem conhece o petismo sabe que ele não perde chance de fazer proselitismo. A mesma destapada malandragem se derrama pelos concursos públicos, pelas provas do ENEM e onde quer que surja uma brecha para a semeadura ideológica. Sabe aquele inço que nasce e se infiltra até numa trinca do piso? Pois é. Não há cargo em disputa, nomeação possível, cadeira ou cátedra vazia, título honorário, medalha, redação de jornalismo, microfone livre, espaço cultural, passeata ou procissão onde o PT não se apresente. O PT não deixa livre nem cadeira de engraxate. Faça o teste. Quando estiver frente a um auditório lotado diga assim: “Quem quer ser...” Não precisará terminar a frase. Todos os que levantarem a mão são petistas. Estão sempre prontos para ser. Seja lá o que for. Quando conseguem ser, criam um aparelho e ficam sendo. Vá ao estádio do Beira-Rio em Porto Alegre. No meio da torcida colorada, faça chuva ou faça sol, frio ou calor, haverá uma enorme faixa com a estampa do Che Guevara – aquele vampiro argentino que se dizia com sede de sangue. O que faz ali a faixa? Por que se dão ao trabalho de carregá-la e desfraldá-la num campo de futebol, ano após ano? Proselitismo. Nada escapa do aparelhamento. Estão nas Igrejas, nos sindicatos, nas universidades, nas escolas, nos cursos de preparação para o vestibular, nos cursos organizados para ingresso nas carreiras jurídicas (notadamente naqueles criados pelos órgãos de classe da magistratura e do Ministério Público), estão nas carreiras de Estado, nos conselhos profissionais, nas Forças Armadas, nos seminários, nos grandes jornais e nos boletins paroquiais, nos folhetos das missas e – claro, por que não? – nos livros didáticos do MEC petista. Então, essas coisas não me surpreendem. Plantou, colheu. Elegeu o PT, vai ter isso aí. Tudo aparelhado. Tudo a serviço da causa. O que me surpreendeu foi o retorno a uma fase anterior ao petismo no poder. Aquela segundo a qual o bom é ruim e o péssimo é ótimo. Lembrei-me daquele período e de que já havia escrito algo a respeito. Fui atrás e encontrei o texto. Ele foi publicado em 8 de dezembro de 1997 no jornal Correio do Povo, numa época em que o petismo, chegando ao poder, começava a 20 20 de maio de 2011.


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usar gravata. Lá pelas tantas, eu escrevi assim, referindo-me ao que se observara no esquerdismo dos anos anteriores: “Chegou a ser moda não pentear os cabelos, tomar o menor número possível de banhos, andar malvestido, falar com incorreção, tratar-se com curandeiros. Quem adotasse conduta oposta e ainda por cima lesse artigos de jornal e bons livros acabava malvisto pelos companheiros. Havia políticos que eram incorrigíveis nos seus erros gramaticais cuidadosamente cultivados porque lhes proporcionavam singular identificação com as bases. Conheci alguns cujas esposas eram sempre apresentadas como companheiras porque tal palavra expressava uma relação mais popular e, portanto, mais adequada do que a outra. Ter uma boa formação acadêmica atrapalhava mais do que ajudava quando o assunto envolvia imagem e popularidade. Conheci pessoas que quando precisavam ir a uma vila trocavam de carro, de roupa e de sapato.” O tal livro do MEC que valoriza os erros de linguagem sinaliza, na esteira do lulismo, um retorno àqueles velhos tempos. Falar bem é ruim. Falar mal é bom. Nivele-se tudo por baixo! Na atividade rural, ser produtivo é ruim; ser improdutivo é bom. Os ministros petistas do STF que acusaram a família tradicional de ser uma família voltada para o patrimônio, ao passo que a família gay seria voltada para o amor, andaram na mesma direção: família tradicional é ruim; família gay é bom. Na mesma linha, Venezuela é bom; Chile é ruim. Cuba é bom; Estados Unidos é ruim. Também na linguagem, o petismo quer endeusar Lula. O “cara” sacralizou a linguagem inculta, certo? Logo, precisamos fazer com que as escolas não corrijam quem fala como o chefe, até porque há quem se disponha a pagar R$ 200 mil (!) pelo privilégio de vê-lo atropelar o idioma... Por fim, a produção verbal de Lula, consolidador da derradeira flor do Lácio, ainda mais inculta, mas sempre bela, o habilita ao fardão da Academia Brasileira de Letras. Alô, alô, Machado de Assis, os companheiros estão querendo Lula lá!

Brincando com coisa séria21 O leitor destas linhas, se não for gaúcho, talvez não tenha sido informado sobre a usina de piadas que a base governista na Assembléia Legislativa estadual proporcionou ao aprovar o projeto de lei que torna obrigatória, nestas bandas, a tradução de palavras estrangeiras para o idioma pátrio sempre

21 21 de abril de 2011.


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