Revista Petro & Química n°388

Page 50

Artigo

Um mundo sem petróleo é o mito da atualidade José Alexandre Altahyde Hage* Começamos este texto dizendo que, nestes dias, o princípio de se ter descarbonização da economia internacional é hipótese distante, um mito mesmo. Porém, isso não significa dizer que um dia não haja menos uso de petróleo, gás natural e carvão mineral na produção mundial de mercadorias, transporte e no processamento de recursos naturais. Tudo depende do andamento que a ciência pode dar aos combustíveis sintéticos. Quem sabe um dia haverá a era para o barateamento do hidrogênio e a massificação do etanol. Os fundamentos do mito não são, obrigatoriamente, simples inspirações ou desejos desenraizados. No decorrer da história, das investigações políticas sobre a natureza do homem, o mito foi encontrado no Cristianismo, como força motivadora em um mundo no qual os(as) fiéis pudessem ser elevados(as) ao encontro do Pai Eterno, desde que não fugissem de determinados mandamentos – princípio também visto no Islamismo e Judaísmo. Da mesma forma, o mito foi encontrado no movimento comunista, ao findar o século XIX. A salvação da classe operária estaria na revolução proletária, contra a ordem capitalista – uma transformação total da vida socioeconômica sobre a Terra, que teria o poder de reiniciar a história sob novos valores. Mas, o importante a sublinhar nesse assunto é que para se realizarem os objetivos do mito não pode haver data marcada ou esperar resultados no curto prazo. O mito, para ser concretizado, necessita de trabalho de longo prazo, sem data pré-determinada, e não aceita voluntarismo. Em outras palavras, não são convenientes ações individuais, de governantes, militantes, burocratas, intelectuais ou empresários(as), que não estejam relacionados com a prática da vida, da realidade propriamente dita. Decisões desse tipo são contraproducentes e seus resultados, geralmente, atrasam ou bloqueiam os desejos do mito. Pois bem, esse descompasso, de caráter político e econômico, vem ocorrendo desde abril de 2020, quando se percebeu que a Pandemia de coronavírus vinha para ficar por um bom tempo, e provocaria efeitos nas relações internacionais que perturbariam nossa compreensão sobre essa questão. Logo de início, a economia internacional parou em grande parte dos países, inaugurando um período cuja compreensão ainda está aberta para análises.

Até a China, chamada a “fábrica do mundo”, teve de aceitar a premissa de que se a produção estacionasse e se o(a) trabalhador(a) ficasse em casa, por certo tempo, isso poderia ajudar o mundo a sair das complicações da Pandemia. Na verdade, o que a China havia feito nada mais era que seguir, ainda que a contragosto, sugestões dos Estados Unidos e, principalmente, da União Europeia, que rapidamente determinaram os lockdowns como possíveis instrumentos de política sanitária, confiáveis e urgentes para os novos desafios da humanidade. Como se houvesse uma lei da natureza, a relativa paralisação da economia internacional promoveu, mesmo sem propósito, a premissa (o mito), de que a descarbonização viria para ficar. Se a produção mundial parou em grande parte no mundo, nada mais crível e inteligente do que suspender voluntariamente o consumo de hidrocarbonetos: petróleo, gás natural e carvão mineral – embora o carvão não seja hidrocarboneto para o pessoal da Geologia; mas o encaremos assim para fins de nosso argumento. Em decorrência disso tudo, a produção de hidrocarbonetos também descera bastante, por falta de consumo. Então, aproveitando o ensejo, a descarbonização seria nosso Santo Graal da questão ambiental planetária: menos queima de combustíveis fósseis, menos emissão de CO2 na atmosfera. Portanto, um passo a mais no combate ao aquecimento global, que se tornou o problema número um da humanidade, ao menos na percepção de setores mais intelectualizados e cosmopolitas do Ocidente. Nessa toada, a premissa da descarbonização, de usar menos hidrocarbonetos, na medida do possível, passou a ser também a agenda dos países industrializados, do Hemisfério Norte. Os Estados Unidos, sob o governo democrata de Joe Biden, praticamente haviam posto o petróleo como elemento nocivo da sociedade norte-americana. A parcial diminuição

* José Alexandre Altahyde Hage é professor no Departamento de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Osasco 1 Trata-se do governo Gerard Schroder, do Partido Social-Democrata Alemão, que permaneceu na Chancelaria entre 1998 e 2005. Cumprimos dizer que a adoção das políticas green power foram implementadas, em variados graus, tanto por partidos socialistas e trabalhistas, quanto por conservadores e da democracia cristã.

50

Petro & Química

no 388