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para alex viany [1985]

[aleX ViaNy]

Vamos logo ao que interessa: 1964 vinte anos

depois. Fale aí, como é que foi voltar ao Cabra marcado para morrer? [eduardo coutinho] Eu previa o seguinte: tinha de

fazer o filme em dois meses. O máximo que eu poderia conseguir eram dois meses de férias seguidos. Acumular dois anos de trabalho e tirar dois meses de férias. O plano de filmagem era fácil, reatar o contato com as pessoas, saber se elas estavam vivas, não é? Reatar o contato, voltar para o Rio, pegar a equipe, viajar e filmar. Tudo isso em dois meses. E deu, voltei ao Rio com tudo filmado três dias antes de se completarem os dois meses. Quer dizer, fiz quase tudo, ficou faltando uma coisa aqui, outra ali, que fui fazendo ao longo do tempo. Mas a parte dura mesmo, a direção, deu exatamente nesses dois meses. Por isso é que eu digo, a sorte ajudou tudo. Quando se trabalha bem, a sorte ajuda. Mas a sorte foi grande, sabe? Realmente dava tudo certo. Eu voltei lá e em uma semana estive em Galileia e encontrei todas as pessoas. Fui a uma região próxima e encontrei mais três que tinham mudado de cidade. Só não encontrei dona Elizabeth, mas tinha acertado um negócio com o filho, muito penosamente, mas enfim, preparei tudo para filmar. E quando chegou a hora de filmar deu tudo certo… aí você encontrou dona elizabeth? Encontrei dona Elizabeth. A primeira pessoa que filmei foi dona Elizabeth. Cheguei a Recife e logo em seguida fui para o interior do Rio Grande do Norte. Os outros eu tinha visto na preparação da filmagem, tinha tido um primeiro contato e avisado: “Olha, eu vou voltar aqui e vou filmar”. Mas com dona Elizabeth eu fui direto, ela nem sabia que eu estava chegando lá para filmar, fui chegando e filmando. Mas essa história é tão complicada que se um dia tiver coragem, faço um livro para contar as coisas que aconteceram dentro do filme, contar as circunstâncias que conduziram as coisas. Porque não dá para contar tudo no filme, daria um filme de quatro horas, ou mais. Não dá para botar tudo. Mas tem um monte de coisas que estão atrás do filme que são, não sei, vendo hoje, até mais interessantes. Publicar um livro com o roteiro do filme não me interessa, sabe? Não quero fazer isso, não tem por que publicar. Mas se tiver condições, eu quero fazer um que tenha mais que o roteiro, que tenha informações


sobre mil coisas que aconteceram no filme. A política, a busca dos personagens, meu confronto com eles, tudo isso. O filme pronto foi uma surpresa para você? O filme pronto não. Para mim não, para mim era o seguinte: filmei a Elizabeth em três dias, dois dias e meio. Filmei lá, com ela, dois dias e meio. Daí nós íamos fazer a primeira parte na Paraíba e depois a parte de Pernambuco. Mas, quando acabei de filmar a Elizabeth, já senti o filme com tal vida que decidi: “Vamos direto para Pernambuco. Vamos liquidar Galileia, porque se for bem na Galileia o filme está pronto”. Daí nós fomos para Pernambuco e fizemos aquela cena da projeção. Antes de começar a projeção, enquanto estávamos preparando as coisas, o João Virgílio deu aquele grande depoimento sobre a tortura, aquela história toda. A projeção foi complicada, porque tivemos de buscar os atores que moravam longe, e foram todos, foi maravilhoso, tudo correu bem, não pifou o projetor nem nada. Naquela noite já sabia que tinha o filme, tinha certeza, um filme fortíssimo, certeza absoluta. Continuei a filmar, filmei muitas outras coisas, e só pude completar a filmagem dos filhos aqui. Mas desde que filmei Elizabeth e a Galileia tinha certeza absoluta de que o filme era bom, entende? Que o filme era bom, a palavra é essa. Enfim, o que eu pretendia fazer tinha conseguido. Tinha conseguido algo que nunca conseguira antes – os meus outros filmes tinham sido o contrário. Mas esse, eu tinha certeza. Então, para mim não foi surpresa o filme depois de pronto. Prêmio é um negócio relativo, isso sim para mim foi surpresa, os prêmios. Mas, quanto ao sucesso, eu pude até sentir antes, eu esperava até um pouco mais, o que é um absurdo, não é? Prêmio não esperava, porque depende de tantos fatores… Mas tinha certeza de que o filme tinha força. Comercialmente eu tinha dúvidas, é claro que eu tinha dúvidas, mas achava que tinha possibilidades de chegar ao espectador. Achava que, para as pessoas que tinham interesse político ou estético, era impossível que não chegasse, inclusive no exterior, eu tinha certeza. Eu tinha confiança,

sessem que o filme era chato, aí… Mas fiz umas primeiras projeções em moviola. Você viu uma delas, não é? é, eu vi em moviola.

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uma reação contrária, ia perder a minha certeza. Se as pessoas dis-

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muita, muita confiança nisso. É claro que se, na prática, encontrasse


Cheguei a fazer projeções quando o filme estava ainda com três horas, para a Embrafilme, precisava mostrar para o Conselho Mundial de Igrejas, que dava um dinheiro. Olha que duas horas e quarenta e cinco minutos de filme não ia ser mole, hein? Eu passei uma sessão para o Carlos Augusto Calil e outras pessoas na Embrafilme. Quase três horas. E mesmo assim – apesar do que ele tinha de excesso, ainda não era nem a história que se organizou depois de terminada a montagem – o filme pegava, porque tinha uma coisa, uma força baseada no fato de que nenhum filme era igual a ele. Respondia ao fato de ser único, de ter sido feito em condições únicas e de mostrar isso na tela. Era uma coisa nova, um filme que se mostra como é e como era anos antes. Acho que isso é que é importante no filme. Não se trata de ser genial. De ser um bom ou mau filme. Sua importância se deve ao fato de o filme ter uma história única. Eu sempre tive confiança, isso era muito forte, entende? Naquelas sessões na moviola as pessoas se interessavam, ficavam… E quando chegou a sessão de São Paulo, eu fiz uma sessão no Masp para umas cinquenta pessoas, foi a primeira vez que foi apresentado publicamente – tinha uma mostra do Masp de filmes novos, e eu fui lá na última hora, o filme tinha acabado de ser liberado pela Censura – foi uma sessão às onze horas da noite, tinha umas quarenta ou cinquenta pessoas, não deu para perceber como era o filme. A projeção era meio ruim. Mas no dia seguinte – 30 de março de 1984, um dia antes dos vinte anos do golpe, não é? Um dia antes dos vinte anos do golpe – nova sessão. Você foi lá, Alex. eu fui, estava lá. Foi uma sessão maravilhosa. É verdade que tinha muita gente conhecida, amiga, mas independente disso… Foi muito bom. E ao mesmo tempo, do ponto de vista internacional, tinha levado uma porrada, em janeiro. Eu tinha uma paranoia com a Censura, nunca tive dúvida de que o filme ia ser bom, agora… Eu tinha muito medo da Censura. Por sorte, enquanto eu estava montando, o Brasil mudava e o filme acabou passando. Em janeiro de 1984, o filme pronto, eu mandei para a Censura. Mas tinha uma cópia em cassete do filme, com alguns defeitos, mas assim mesmo mandei para Berlim, para o Festival. Achava que se estivesse preso pela Censura, eles poderiam


ajudar a liberar – uma ingenuidade dessas. E mandei para Berlim porque o Peter Schumann tinha estado no Brasil seis meses antes e viu uns trinta minutos na moviola e me disse: “Eu quero que o filme vá a Berlim, para o Fórum”. Mandei o cassete para ele, embora sabendo que sem tradução seria difícil – ele sabe espanhol, mas português… Dez dias depois falei com o Ulrich Gregor, que dirige o Fórum de Berlim, e com o Schumann, que me disseram assim – a frase é extraordinária, porque era para participar do Fórum, não para participar da competição – a resposta deles foi a seguinte, em francês: “O filme não pode ser aceito, porque a meia hora final é insuportável”. Fiquei com vontade de lembrar de um palavrão em francês e xingar. Mas não xinguei, fui muito humilde. Desliguei e fiquei com aquela coisa revanchista. Dizia: “Eu vou pegar esses caras um dia”. Até que o Luís Carlos Barreto me disse: “Fique calmo, este filme é muito difícil para estrangeiro, mesmo para um festival, porque tem muitos detalhes da história do Brasil, e eles não conhecem. É normal que seja assim”. Eu me conformei até. Mas quando ia mostrando o filme, ainda em 16 mm, para algumas pessoas de fora, sabe, eu sentia que passava, para algumas pessoas, passava. O diretor do Festival de Rotterdam esteve aqui, viu o filme com tradução simultânea, com uma pessoa do lado que ia traduzindo o que se dizia no filme, e gostou. Convidou o filme, disse que pagava uma cópia se precisasse. E no final do ano, no Fest Rio, eu conheci pessoalmente o Gregor, que logo depois da primeira projeção veio me procurar para convidar o filme para Berlim. Daí eu disse: “Mas vocês não podem me convidar, vocês disseram para mim que o filme era horrível, que a última meia hora era insuportável, e que vocês não poderiam aceitar. Por que agora vocês mudaram de ideia?”. E ele disse: “O filme agora é diferente, você mexeu na montagem”. Eu respondi: “Não mexi, é exatamente igual”. E era exatamente igual, eles nunca se convenceram de que era exatamente igual. “Foi um boliviano que traduziu o filme e a gente não entendeu direito…” Eu falei: “Bom, então vocês dissessem que não podiam julgar, que não tinha sido

Quantos prêmios esse filme já ganhou? Olha, foram dez em festivais internacionais – três em Berlim, o do Cinéma du Réel, em Paris, o de Havana e mais três aqui, o da

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culpas, o filme passou lá e acabou ganhando três prêmios.

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aceito por um problema de legenda”. Bom, o fato é que pediram des-


EDUARDO COUTINHO  

Trecho do livro EDUARDO COUTINHO, de Milton Ohata (org.). Cosac Naify e Edições Sesc São Paulo, 2013.

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