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Voluntariado

Grupo de Campinas se reúne e viaja para ajudar moradores de Pág. 11 Mariana

Resistência

Desde 2006

14 de dezembro de 2015

Faculdade de Jornalismo - Puc Campinas

Foto: Souhela Ka

Em Paris

Esquina do Bataclan, casa de shows onde morreram cerca de 90 pessoas no dia 13 de novembro: homenagens aos mortos e medo de novos ataques Pág. 12 Foto: Divulgação

Em São Paulo

Alunos protestam em frente à E.E. Carlos Gomes, ocupada desde 13 de novembro; mesmo com adiamento de mudanças, movimento foi mantido Pág. 3


Opinião

Página 2 RÁPIDAS

Por Matheus Martinelli

Prefeitura inicia projeto de inclusão digital

CARTA AO LEITOR

ISABELA RIZZA E JACQUELINE SOUZA

A Prefeitura de Campinas inaugurou no dia 02, o telecentro do Programa Municipal “Juventude Conectada - Caia na Rede”, instalado na sede do Centro Pop 2, Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua. O programa é uma iniciativa do Governo Municipal para promover inclusão digital e social da população. O trabalho realizado no Centro Pop 2 tem por objetivo fortalecer os vínculos familiares e a construção de novos projetos de vida. Os usuários recebem alimentação, participam de oficinas socioeducativas, de atividades em grupo e individuais entre outras ações propostas. O Centro Pop 2 fica na rua José Paulino, 603, no Centro, com capacidade para atender 120 pessoas/dia e funciona das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Campinas terá área de proteção estelar Campinas será a primeira cidade brasileira a possuir uma Área de Proteção Estelar. O projeto, pedido antigo dos astrônomos do Observatório Municipal Jean Nicolini, tem por objetivo diminuir efeitos da poluição luminosa aos redores do observatório. O excesso de iluminação impede a visualização de estrelas e constelações. Para evitar que isso aconteça, não é necessário reduzir a iluminação, mas fazê-la da forma adequada. Ao invés de posicionar as lâmpadas voltadas para cima, elas devem ser direcionadas para baixo. A intenção é de que, em alguns anos, toda a cidade seja iluminada de forma a proteger o céu e as estrelas. Segundo o astrônomo Júlio Lobo, o novo trecho da Francisco Glicério já tem uma iluminação que facilita a visualização das estrelas.

Feira expande horários perto do Natal A feira de arte e artesanato Vila das Artes, em Sousas, será realizada em três domingos do mês de dezembro, na Praça Beira Rio: dias 6, 13 e 20. O evento que, tradicionalmente, acontece no primeiro domingo de cada mês, terá outras duas edições devido ao Natal e ao Réveillon. A programação também contará com opções gastronômicas e música ao vivo para os visitantes. Criada em 1998, a partir da união de artistas moradores do distrito de Sousas, a Vila das Artes já se tornou um conhecido ponto turístico dos distritos de Sousas e Joaquim Egídio. Reúne trabalhos de cerca 27 expositores fixos e também convidados de toda região de Campinas. Nos dias 6 e 20, a feira funcionará das 9h às 14h. Já no dia 13, o horário será das 11h às 17h. A entrada é gratuita.

Expediente Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Comunicação e Linguagem (CLC): Diretor: Rogério Bazi; Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo; Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza. Tiragem: 2 mil. Impressão: Gráfica e Editora Z Professor responsável: Fabiano Ormaneze (Mtb 48.375). Edição: Isabela Rizza e Jacqueline Souza Diagramação: Beatriz Matheus e Gabriela Massaro

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A

turma 44 do período noturno, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, apresenta sua 3ª edição do jornal Saiba+. O destaque fica por conta de três grandes acontecimentos: um estadual, outro nacional e um terceiro, internacional. Mais perto de nós, está o fato de que escolas foram ocupadas por estudantes que lutam pela continuidade do oferecimento das aulas nas unidades em que estão matriculados. Os outros dois temas envolvem grandes tragédias. Mas, em grandes tragédias, também vemos histórias de superação e solidariedade inspiradoras. São Paulo, Mariana e Paris ganharam os noticiários nacionais e internacionais não apenas por ser cenário de atos trágicos, mas pela resistência e luta de

Desejamos um ano novo próspero e que estes personagens nos tragam esperança para recomeçar, sempre. Boa leitura!

MATHEUS MARTINELLI

CRÔNICA

Lembranças ordinárias de fim de ano

sua população. A cidade de Mariana (MG) começa a se reerguer após o rompimento das barragens de Fundão e Santarém, que deixou ao menos 631 desabrigados. Paris convive com o medo de um novo ataque terrorista, como o que aconteceu em novembro deste ano, alterando a rotina de todos os habitantes. Mesmo com a reorganização adiada, os estudantes mantiveram as ocupações, pois querem o cancelamento e não a suspensão. Para tanto, enfrentaram a polícia de frente, resistiram e fizeram ser ouvidos. Tais atos inspiram solidariedade e esperança.

O

lhando a cidade pela sacada em busca de inspiração, imagino como gostaria que esse texto saísse. Um texto de final de ano sobre aprendizado, sobre a contribuição deste ano para a minha bagagem pessoal. É dezembro. O último mês antes de um novo ano. Período final em que a terra completa, mais uma vez, sua volta em torno do Sol. E é nesse momento de finalidade, nesse clima de festa e renovação que você, em alguma hora, para e reflete sobre tudo o que passou. E me dei conta de que o que passou foi um ano. Um ano a mais ou a menos em nossas vidas. Depende do ponto de vista. O que quero dizer é que nós estamos aqui de passagem e o que vivemos durante um ano fará parte da nossa história. Não importa se, com esse ano, você aprendeu muita coisa ou não aprendeu nada; se fez viagens maravilhosas ou só foi à cidade vizinha; se experimentou coisas novas ou teve aquela rotina de sempre.

A vida é como se fosse uma grande viagem e nós somos os passageiros, tentando planejar o trajeto, sempre pensando: “Quando eu tiver 18 anos...”; “Quando eu morar sozinho...”;“Quando começar um novo ano...” Pensamos tanto nas paradas ate o destino final que esquecemos de aproveitar a viagem. No fim, pensar sobre o que eu aprendi com esse ano foi pequeno comparado com o que vivi. Foram quase 12 meses de aprendizado constante. Apenas uma parte da minha viagem que foi cumprida. E, agora, com a eminência de um novo ano chegando, novos planos serão feitos e novas situações surgirão, como de costume. Mas devemos sempre lembrar que, como disse Drummond de Andrade, é apenas uma ideia genial que tiveram de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano. O tempo, então, deve ser vivido não importa qual fatia você esteja e a viagem aproveitada até o final.


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Educação

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O dia a dia numa escola ocupada

Estudantes criam esquema de segurança, participam de oficinas e dividem tarefas como cozinhar e limpar Mesmo com o anúncio de suspensão do projeto de reorganização feito no dia 4 de dezembro, os estudantes não desistiram das ocupações em escolas públicas estaduais. O movimento começou em meados de novembro, quando o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou o fechamento de escolas e o remanejamento de estudantes para outras unidades. No ápice do movimento, foram 190 escolas ocupadas. Em Campinas, o número chegou a dez. A reportagem do Saiba+ visitou uma delas, a E.E. Carlos Gomes, no Centro, no final de novembro. A ocupação na unidade, umas das mais tradicionais de Campinas, teve início na sexta-feira, dia 13 de novembro, após os alunos buscarem uma explicação na Diretoria de Ensino da região e não obterem resposta. Se ocorrer (por enquanto, trata-se apenas de um adiamento), as principais mudanças que a reorganização trará serão o fechamento do período noturno, da Educação para Jovens e Adultos (EJA) e a transferência dos alunos do Ensino Fundamental do período da tarde para a E.E. Francisco Glicério – também ocupada. O sentimento de indignação dos jovens estudantes é claro: “Se seremos nós os afetados, nos vemos no direito de questionar a medida proposta e cobrar uma real melhora na educação pública”, declaram os ocupantes da E.E. Carlos Gomes em manifesto escrito coletivamente, afixado na porta da escola e entregue aos visitantes. Apesar da promessa de abertura de diálogo com a população estudantil (ocorrida no dia 1) e da suspensão do projeto de reorganização (no dia 4), os alunos continuam ocupando as escolas. Para isso, a gestão do governo tucano já dá indícios de estratégias que serão utilizadas para desocupar as escolas. O uso de forças policiais é uma delas. A ocupação, passo a passo No dia da ocupação, todas as turmas foram liberadas, após o horário das aulas. Na saída do corpo docente, houve uma disputa por espaço: funcionários da escola foram obrigados a restringir os alunos de terem acesso a banheiros, água e comida, mas foi em vão. Havia funcionários a fa-

vor do movimento estudantil, mas que não poderiam se manifestar naquele momento. A maioria dos professores apoia os alunos e está presente todos os dias na ocupação. “Muita gente está falando por aí que foram os professores que nos induziram a fazer a ocupação, o que é uma mentira. Todo o movimento foi organizado pelos alunos. Eles estão aqui para nos dar apoio!”, declara uma adolescente de 16 anos, uma das pioneiras no movimento de ocupação da escola Carlos Gomes. Em todo o Estado, além de lutar contra a reorganização proposta pelo governo tucano, os ocupantes querem a contratação de mais professores e funcionários, a criação de um grêmio estudantil, a proibição de superlotação das salas de aula (no máximo 25 alunos por classe) e a proibição ao corte de verbas na educação. Em uma carta aberta, divulgada após a decisão do governo de adiar a reorgani- Fachada da E.E. Carlos Gomes: à noite, estudantes mantém luzes acesas e o acesso é restrito zação, estudantes da Carlos Gomes declararam que não irão desocupar a escola enSegurança Programação quanto não houver a garantia O revezamento é presente em todas as ativiEntre 14h e 18h, professores, alunos e intede matrícula para todos os grantes de movimentos sociais, que apoiam dades da ocupação. Os turnos de ronda muestudantes de todas as escolas o movimento estudantil, oferecem oficinas dam a cada seis horas. Há também a flexibido estado de São Paulo, resculturais e discussões para os alunos que lidade, caso um indivíduo responsável pelo peitando as demandas de cada também são abertas para o público externo. cargo se sinta cansado. Alunos responsáveis uma e dos estudantes quanto Uma dessas oficinas foi o bate-papo sobre pela segurança da ocupação se dispõem no ao local de estudo. Em relação preconceito racial realizado no último dia portão, ao redor do prédio na área externa à pauta interna, os alunos rei20, a batalha de MC’s e a roda de samba fe- e nas janelas do terceiro andar – que por vindicam a renúncia da gestão minista com o grupo “Samba das mina” que ser mais alto, permite uma visão melhor atual da escola, pois, segundo do terreno. As lâmpadas das salas permaocorreu no dia 2 de dezembro. eles, seria a garantia de que necem sempre acessas, o que é facilmente nenhum integrante do moviobservável por quem passa em frente à esAliados mento sofrerá algum tipo de cola à noite. Alunos e professores da Unicamp, PUCperseguição ou retaliação – Campinas e USP demonstraram apoio aos visto que já houve ameaças estudantes da ocupação Carlos Gomes. O terceiro andar/ sono de punições no dia anterior à Apoio é sempre bem-vindo pelo grupo. In- Para dormir, os alunos utilizam a próocupação. dependente da forma, seja ela em dinheiro, pria sala de aula. Barracas, colchonetes Famosos como Criolo, em alimentos e até em oficinas. Mensagens e mochilas pelo chão formam um grande Tuilipa Ruiz, Paola Caroapoiando o movimento chegam das mais va- quarto. Não há a divisão por sexo. “Não sella e Maria Gadu postaram riadas formas: pessoas que passam em frente estamos aqui para se divertir ou qualquer em suas respectivas páginas à escola e gritam declarações de força. Na coisa do tipo. Por isso, não há problema no Facebook mensagens em página criada no Facebook (www.facebook. em dormirmos todos juntos”, diz um ocuapoio aos estudantes. “Esse com/OCUPACG) e até mesmo em cartas es- pante. ano foi muito duro para o critas à mão por crianças de 10 anos. Brasil. Tanta coisa horrorosa, Sem hierarquia, todos juntos errada... Esses meninos estão Alimentação Não existe um cargo com maior poder. Não sendo uma luz para a gente, Os alimentos chegam por meio de doações e existe alguém que mande mais. Todos são sabe? Esses meninos são masão preparados na cozinha da escola por uma responsáveis por tudo, exercem qualquer ravilhosos”, disse Criolo em ocupante. Lá fi cam cerca de cinco jovens resfunção para que haja maior possibilidade de um vídeo para a revista Trip. ponsáveis das refeições diárias e pela limpe- revezamento e nenhuma tarefa seja comproEm apoio, a jurada do prograza do material utilizado. metida. Para decidir qualquer medida a ser ma de TV Masterchef, Paola tomada, uma assembleia é feita pelos alunos Carosella ajudou os estudanLimpeza para que haja a discussão do tema em questes da ocupação da Escola Todos os alunos da ocupação são responsá- tão. Isso ajuda a evitar possíveis conflitos Fernão Dias Paes, em Pinheiveis por limpar e organizar a escola, tanto a tanto internos quanto externos. ros, a preparar refeições. área interna quanto externa. Eles prezam pelo Na capital paulista o morespeito ao local onde estudam, impedindo Manifestação vimento “Virada Ocupação” que uma imagem de desordem apareça na No último dia 4, houve a paralização da reuniu mais de 20 artistas mídia, o que pode enfraquecer o movimento. Av. Anchieta (na frente do colégio ocupara um evento em prol ao pado) como sinal de manifesto. Junto a movimento estudantil. Shows Banho cartazes, baterias e apitos, o evento conforam realizados dentro das Pela escola não possuir chuveiros, há o reve- tou com a participação de representanescolas, com a participação de zamento dos alunos. Enquanto uns vão para tes de outras escolas da região e teve o Pitty, Criolo, Clarice Falcão, casa tomar banho, outros ficam na escola. acompanhamento da Polícia Militar. Tiê e a banda Vanguart.

Foto: Gabriel Furlan

Gabriel Furlan

Dia a Dia


Profissão

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Contratações de Natal têm tempo menor

Serão 6,4 mil novos empregos em dezembro, mas tempo médio de trabalho é de 30 dias; em 2014, eram 45 Apesar de 6,4 mil vagas temporárias sendo ofertadas para o final de ano no comércio de Campinas, as contratações passaram por ajuste no tempo de serviço contratado. Hoje, segundo a Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), as vagas disponíveis são para contratos de apenas 30 dias no mês de dezembro. Ainda de acordo com a Acic, essa redução já havia sido registrada no ano passado. Em 2014, os contratos tinham duração de 45 dias, enquanto o ano anterior, 2013, duravam por até três meses. Essa alteração na duração dos contratos vem acompanhada também pela redução do número de vagas. Em relação a 2014, foi registrada a redução de 40% nas contratações. Para a Acic, a justificativa é a falta de movimento que o comércio enfrenta em meio à crise. O gasto médio por consumidor que se tinha em 2014 era de R$ 305,00 nessa

época do ano. A estimativa que se tem para 2015 é a queda para R$ 295,00. Para a gerente de uma loja de roupas Maria Tereza Ribeiro, a crise no comércio fez com ela reduzisse as vagas de fim de ano para apenas três ofertas. “A demanda que a gente tem nessa época foi sempre muito grande. Nós temos um quadro de dez funcionários efetivos na loja e, a partir de novembro, costumávamos contratar mais cinco ou seis temporários. Esse ano só podemos pagar três”, conta. A gerente ainda ressalta que, com a quantidade de vendas reduzida, até as metas da loja tiveram que ser alteradas. De acordo com Maria Tereza, cada funcionário possui uma quantidade pré-determinada de peças a serem vendidas no mês e o percentual pago a cada um se baseia no valor de cada item. “Nós tínhamos metas apenas de quantidade, não de valores. O problema agora é que já faz meses que

mesmo os efetivos não conseguem atingir o combinado. Entendemos que a crise prejudicou as vendas e tivemos que reduzir a meta”, explica. A gerente ainda conta que, quando a loja atingia os objetivos, os funcionários ganhavam bonificações adicionais, o que está difícil de acontecer. “Muita gente está com medo de gastar esse ano”, completa. O estudante Daniel Conti, de 25 anos, está à procura das vagas temporárias, período em que está sem aulas e, apesar de já ter tido experiência com o comércio, ainda não obteve resposta. “Eu comecei a entregar o meu currículo de loja em loja faz mais ou menos um mês. Fiz até o meu cadastro online pelo CPAT, para o qual a gente tem que enviar os currículos. Mesmo com a antecedência e o cadastro concluído, até agora não fui chamado.” O estudante ainda conta que chegou a trabalhar como vendedor em uma loja de sa-

Arte: Marília Sisti

Marília Sisti

patos no mesmo período em 2013, mas que agora a dificuldade é ainda maior. Segundo a Acic, a prioridade que o comércio dá é para aqueles candidatos que já tiveram bastante experiência com vendas, principalmente

em épocas de grande movimento. A justificativa é de que o atendimento daquele que já trabalhou no setor é mais ágil e de maior qualidade, visto que já possuem conhecimento e não há necessidade de treinamento.

CFM proíbe selfies de médicos e paciente A medida, de acordo com órgão, pretende garantir ética; profissionais se dividem sobre o uso de tecnologias

O Conselho Federal de Medicina publicou em setembro deste ano uma resolução que proíbe médicos de postar na internet selfies (autorretratos) com pacientes. Além desse tipo de fotografia, também há outras proibições, que, segundo o presidente da Associação Paulista de Medicina, Florisval Meinão, vêm reafirmar algumas questões da ética médica, como a de não expor seus pacientes. Dentro das proibições, está a participação de médicos em comerciais e anúncios, a autodivulgação em páginas da internet e a consulta via mensagens (e-mail, SMS, WhatsApp...). Meinão explica que não vê problema no fato de o médico divulgar informações, “contanto que seja algo já pesquisado e reconhecido pelo Conselho”. O ginecologista Ayrton Daniel Filho recebeu recentemente uma notificação solicitando que sua página profissional no Facebook fosse tirada do ar. Ele conta que, após esse pedido, foi até o Conselho Regional (CRM) e lá havia algumas impressões de sua fanpage, justificando o motivo de precisar tirá-la da

rede. Dentre algumas dessas advertências, estavam fotos de cursos promovidos dentro da clínica dele e de fotos em que aparece. Em alguns casos, eram imagens sem nenhuma relação com pacientes, como uma em que a secretária lhe desejava parabéns pelo aniversário. Para Daniel Filho, a medida do CRM é necessária, uma vez que alguns profissionais podem utilizar das novas tecnologias de maneira antiética e acabar divulgando informações que não são verdadeiras. Porém, ele afirma que algumas advertências não fazem sentido. “Fiquei meio confuso com a notificação da divulgação dos cursos. Não vejo esbarrar na ética, afinal é uma atividade social”. Meinão explica que a decisão do CRM partiu da constatação de que houve grande aumento na utilização de meios de comunicação para utilização indevida, ferindo o Código de Ética Médica. A notificação e a regulamentação, segundo ele, foram preventivas. Ele explica ainda que, caso algum médico não cumpra as regras estabelecidas, o Conselho tem instrumentos para puni-los. São cinco degraus de punição, que

vão desde uma advertência à cassação do diploma. O processo pode ser aberto por denúncia ou pela identificação do próprio Conselho de que há algo errado. Atendimento via Whatsapp A resolução publicada pelo CRM também cita o atendimento a distância, por mensagens, telefonemas e principalmente pelo WhatsApp. Meinão explica que esse tipo de atendimento pode colocar a vida do paciente em risco, mas que não há necessidade de ser extremista: “Tudo deve ser feito com bom senso. Se eu já atendo o paciente e tenho o diagnóstico, posso dar uma recomendação simples e orientá-lo para que, assim que possível, vá ao consultório”. Ele afirma ainda que, no caso de pacientes que não se consultam há tempos ou até mesmo no caso de um sintoma mais sério, a orientação é de que vá até um pronto-socorro, caso não esteja dentro do horário de atendimento. Daniel Filho comenta que sua demanda de mensagens via WhatsApp é muito grande, principalmente com suas pacientes grávidas. Para ele, a facilidade de comunicação é positiva em muitos aspectos:

Foto: Giovanna Lima

Giovanna Lima

O ginecologista Ayrton D. Filho foi obrigado a excluir página do Face

“Esse contato é importante, o paciente sente segurança. Não dá para fazer uma consulta, mas dá para responder uma necessidade da paciente.” No entanto, para o ginecologista Cássio Arruda Soares, o atendimento a distância não é tão benéfico assim. Ele recebe em média 15 mensagens por dia e conta que a necessidade da paciente em uma resposta imediata faz com que, se em 10 minutos, não responda, a pessoa insista em enviar mais mensagens: “Atrapalha a vida social, porque elas não se preocupam com o horário da mensagem. Atrapalha o sono, porque meu celular fica

ligado caso o hospital precise me contatar”. A estudante Ana Carolina Padovani, de 20 anos, conta que, desde que se mudou para a cidade de Niterói (RJ), por causa da faculdade, não encontrou nenhum médico para se consultar, então frequentemente recorre à sua médica em Campinas, mas não vê problemas nisso, pois, antes de se mudar, já havia se explicado para ela: “Acredito que não seja obrigação dela me responder, porém, no meu caso, o combinado foi de que sempre que eu precisasse, eu entraria em contato via e-mail e ela responderia quando pudesse”.


Saúde

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Mercado de estética cresce 70%

Instituições médicas recomendam cautela em relação a clínicas não autorizadas e a procedimentos invasivos De acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil é o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos no mundo. Essa alta reflete diretamente no mercado de estética do País que cresceu mais de 70% no último ano. O problema é que muitos profissionais sem formação específica oferecem tratamentos que só deveriam ser realizados por médicos, levando alto risco para pacientes. A gerente de vendas Marissol Carvalho conta que, aos 46 anos, quis fazer algo que não fosse tão invasivo quanto uma cirurgia para “tirar a gordurinha”, e optou por um procedimento chamado de criolipólise, que promete congelar células de gordura a temperaturas negativas, eliminadas na urina. Ela procurou por uma clínica de estética sem mé-

dico e, na semana seguinte, marcou o procedimento. Porém, a falta de informação lhe custou queimaduras graves e a necrose de uma parte do tecido da barriga. Após todo o transtorno, precisou fazer uma cirurgia plástica. “Foi, além de muito doloroso, decepcionante. O resultado prometido não chegou nem perto e acabei tendo que recorrer ao bisturi, o que não queria”. Uma outra mulher, que preferiu não se identificar, no final do ano passado fez a aplicação de toxina botulínica em uma clínica de estética também sem supervisão médica. Ela não sabia que havia a necessidade de ter um médico responsável para realizar o procedimento, o que levou a paralisia de outros músculos que não eram os da região tratada. Foi comprovado que o erro foi gerado por inexperiência profissional e hoje ela move um processo contra o local. O médico Luiz Henrique Trillo, cirurgião plástico, ex-

plica a necessidade um médico para realizar procedimentos. “Há pessoas que fazem esse serviço e não tem a competência nem a formação para saber onde estão colocando a agulha. É importante saber se a pessoa estudou isso. Senão, é mais fácil errar do que acertar”, diz. Além disso, o médico diz que, apesar de a criolipólise ser liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ele não recomenda o procedimento. “Eu fujo disso, porque pode dar mais problemas do que solução, principalmente se não for feito da maneira correta.” Segundo a legislação brasileira, a indicação e execução de procedimentos invasivos, sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos, é uma atividade privativa de médicos. É o que alerta o Conselho Federal de Medicina. A Anvisa considera que, no exercício da atividade fiscalizadora, as Vigilâncias Sanitárias de estados e mu-

Foto: Natália Villagelin

Natália Villagelin

A gerente Marissol Carvalho já fez várias intervenções estéticas

nicípios deverão observar, entre outros requisitos e condições, a adoção de medidas de biossegurança pelos serviços de estética que não

necessitam de médicos. A Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), em Campinas, não quis se pronunciar sobre o assunto.

Depressão atinge até 12% de crianças Índice é maior entre meninas, de acordo com pesquisa realizada por instituto nos Estados Unidos e no Brasil

Isolamento, irritabilidade, rebeldia, melancolia: essas características consideradas típicas da adolescência podem ser indícios de uma depressão. Estudos realizados por pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos estimam que entre 7% e 11% dos adolescentes apresentam sintomas claros de depressão. De 2% a 3% têm quadros graves da doença. No Brasil, as estatísticas do mesmo órgão indicam que os adolescentes apresentam incidências semelhantes, sendo a depressão mais comum em meninas (12%) do que nos meninos (5%). A Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê que, até o ano de 2020, a depressão passe a ser a segunda maior causa de incapacidade e perda de qualidade de vida na população mundial, atrás apenas das dores nas costas. O estudante A., de 21 anos, que pediu para não ser identificado, conta que a depressão teve início aos 17, com o fim de seu namoro e com a pressão dos pais sobre que faculdade

faria. “Mas a gota que faltava foi saber que minha avó estava doente e eu não poderia fazer nada. Foi difícil. Ela era meu porto seguro, até que, em 2013, ela faleceu e, com isso, nada mais teve sentido.” Segundo a psicóloga Carolina Marson, a depressão é um problema sério com grande impacto na vida de um adolescente. Se não for tratada, poderá conduzir a problemas na escola e em casa, abuso de drogas, ódio de si mesmo e até tragédias irreversíveis como homicídios ou suicídios. “Mau-humor e rebeldia são normais na idade, mas a depressão na adolescência é muito diferente. A depressão pode destruir a essência da personalidade do adolescente, causando tristeza, desespero, ou raiva”, afirma. Foi o caso do estudante A., que o via como o culpado de todos os fatos ruins que lhe aconteciam. “A partir desse ponto, alguns pensamentos foram tomando conta de mim e comecei a descontar em meu próprio corpo todas as minhas frustrações. Confesso que o pensamento de suicídio passou por várias vezes em minha cabeça”, conta.

Apesar de não serem claras as causas dessa incidência mais elevada, Carolina acredita que a atual sociedade colabora para o aumento de depressão entre os adolescentes. “Cada vez mais, a sociedade pede consumo. A mídia impõe padrões que, muitas vezes, são impossíveis de serem alcançados”, explica. O tratamento da depressão para A. foi complicado, porque ele não contou com o apoio da família. “Eu não queria compartilhar com ninguém. Meus pais até hoje não fazem ideia das coisas que aconteciam. Apenas uma vez, minha mãe decidiu me levar a um psiquiatra e, quando ele disse que eu tinha depressão, ela se recusou a aceitar e começou a chorar. Tive que guardar tudo para mim e me virar para ir a consultas sem que eles ou outras pessoas soubessem,” diz Para o universitário, a ajuda do psicólogo e do psiquiatra foram essenciais para conseguir superar a depressão. “Apesar de, hoje em dia, eu não ir com tanta frequência a consultas, o tratamento continua. Não é algo sobre o que temos controle. Hoje eu

Arte: Mariana Antonacci

Mariana Antonacci

estou bem, amanhã eu posso ter uma recaída, não é fácil. É algo que eu não desejaria para ninguém,” diz. O tratamento, segundo a psicóloga, deve ser conjunto: medicação e terapia. “A medicação vem como um suporte para que o paciente dê conta do processo, não deve ser algo definitivo e que acabe por camuflar sua

angústia”, salienta. O maior desafio que o estudante enfrentou com a depressão foi achar algo que o motivasse, “algo que me desse um novo sentido para tudo aquilo à minha volta, para minha vida. Depressão é viver sem sentido, sem motivos, sem nada que te faça feliz, que te complete”, finaliza.


Terceiro Setor

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Arrecadação de ONGs caem até 40%

Instituições relatam que ano foi difícil devido à crise e precisam encontrar alternativas para manter atividades Foto: Divulgação

Breno Scarano e sua amostra de produtos comprados no exterior: preço é a facilidade

Voluntários da ONG Hospitalhaços ajudam a alegrar crianças internadas em hospitais de Campinas: 600 voluntários tentam encontrar alternativas para dificuldades financeiras

Minéya Fantim A crise econômica que o Brasil vem enfrentando em praticamente todos os segmentos da sociedade tem afetado também o terceiro setor, formado por associações e entidades sem fins lucrativos. Muitas empresas e pessoas que antes realizavam doações mensais para fins assistenciais hoje já não o fazem mais. Só em Campinas, entidades relatam diminuição no total arrecadado entre 20% e 40%. Na Organização Não Governamental (ONG) Hospitalhaços, que tem como objetivo levar descontração e diversão aos hospitais, a média geral de queda nas arrecadações por meio de doações nos últimos quatro meses foi de 20%. De acordo com Mario Eduardo Paes, coordenador geral da ONG, 2015 já se iniciou com uma arrecadação menor em relação aos anos anteriores, situação que se agravou a partir do segundo semestre do ano. Atualmente, a ONG atua em 22 hospitais, sendo 12

deles em Campinas. No Lar dos Velhinhos, que atende 130 idosos, a queda no percentual de doações foi ainda maior: 40%. Segundo a assessora de imprensa da instituição, Natália Rodrigues Chaves, as contribuições vêm caindo desde maio deste ano, devido ao número cada vez maior de desempregados no País. Natália acredita que, apesar de a crise ter chegado para todos, os mais afetados têm sido os brasileiros que compõem as classes C e D, que são os que mais contribuem com o Lar. “Incontestavelmente, a perda ou a diminuição da renda fazem com que as pessoas se preocupem mais com as necessidades básicas da família, como alimentação, saúde e segurança. A doação só acontece quando a pessoa está com todas as carências assistidas”, explica. Apesar dos números preocupantes, os serviços oferecidos pelas duas entidades não foram afetados. Paes conta que, em função do contexto da crise, a Hospitalhaços realizou um pla-

nejamento mais rigoroso no início do ano, para que as atuações não fossem afetadas. “Além disso, estamos aumentando as divulgações e cortando custos onde ainda é possível”, conta. No caso do Lar dos Velhinhos, a compensação para o atual momento econômico veio da criação de mecanismos de arrecadação mais abrangentes. “Temos um padrão de serviço a ser oferecido e não podemos simplesmente retirar algum item desse processo. Por isso, expandimos a divulgação e, hoje, comercializamos os trabalhos feitos na instituição, como os artesanatos produzidos por nossas idosas. É uma ação pequena, mas que nos traz algum retorno”, diz Natália. Voluntários Em tempos de crise, a presença dos voluntários nas entidades é cada vez mais fundamental para sustentar os trabalhos. O Lar dos Velhinhos conta, atualmente, com 77 deles, que se distribuem entre acompanhamento nas atividades te-

rapêuticas, artesanato, reflexologia, grupos de lanche e em atividades administrativas. “O voluntário tem um papel de suma importância para o desenvolvimento do Lar, pois proporciona gratuitamente atividades que melhoram a qualidade de vida do idoso e auxilia no desenvolvimento do relacionamento pessoal e interpessoal”, conta Natália. A ONG Hospitalhaços, por sua vez, possui cerca de 600 voluntários ativos, sendo 380 palhaços humanizadores, 80 brinquedistas, 20 colaboradores e 120 voluntários de apoio, atuantes na administração, no bazar, na organização de eventos e na comunicação. “O voluntário é e sempre será o coração da ONG. Ele move as ações e precisa estar sempre ciente e motivado para tal”, diz Paes. Perspectivas Segundo o Gestor do Departamento de Gestão Social da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac), Lincoln César Moreira, ainda não há dados sobre a queda na

quantidade de doações para entidades assistenciais. Os resultados mais detalhados sobre o assunto estarão concluídos apenas na segunda quinzena de janeiro de 2016, quando serão fechadas as análises sobre o total de receitas e despesas das entidades. Moreira adianta, contudo, que a crise econômica realmente chegou às entidades, e que houve queda nas doações. “De modo geral, a maioria delas têm convênios com o Poder Público, seja Municipal, Estadual ou, até mesmo, Federal. Essas receitas continuam entrando normalmente. O que impacta é a entrada de recursos advindos de pessoas físicas ou jurídicas privadas”, explica. A projeção do gestor para o ano que vem é a de que as doações de pessoas físicas ou jurídicas continuem caindo. “O cenário é bem pessimista. Se as entidades conseguirem manter a mesma receita de 2015, já é um avanço”, conclui.


Cidades

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Aumentam reclamações contra baladas Foto: Flávio Castilha

Casas noturnas são acusadas de preconceito e de barrarem pessoas devido às roupas e à aparência física

Balada em Campinas: jovens têm usado as redes sociais para reclamações, que vão desde filas a preconceito

Barbára Martins Reclamações contra estabelecimentos como casas noturnas, bares e karaokês em Campinas têm se tornado cada vez mais comuns. Situações como barrar clientes por causa de roupa/aparência, gênero e aumentar o valor da entrada contabilizam a maior parte das reclamações. O local escolhido para as denúncias são as redes sociais e as páginas dos próprios estabelecimentos. A casa noturna Banana República, inaugurada recentemente no Distrito de Barão Geraldo, é suspeita de selecionar quem entra ou não no

estabelecimento. A estudante C.B., de 19 anos, afirma ter sido impedida de entrar, junto com seus amigos, no dia 3 de outubro. “Quando nós chegamos, eles disseram que só iam deixar entrar quem estivesse fazendo faculdade. Na verdade, eles estavam criando problemas só com os rapazes, mas percebi que era mentira. Eles estavam deixando entrar só quem estava vestido de determinada maneira”, conta. Ainda segundo a estudante, eles disseram que estavam selecionando quem entraria ou não na balada por causa de brigas. C.B. entrou novamente na fila e alegou que viu um promoter dizendo aos

seguranças que não era para deixá-los entrar. “Daí chegaram para nós e disseram que, se quiséssemos, teríamos que pagar R$ 200,00. Se quiséssemos o camarote, que custa R$ 1.000,00, teríamos que pagar R$ 5.000,00”, afirma. Para a cientista social Maria José Duarte Osis, esse tipo de comportamento reflete os paradoxos da sociedade. “Entendo que os estabelecimentos que ‘selecionam’ quem pode e quem não pode entrar, participar, fazer parte do grupo, estão situados dentro de uma constante tensão entre igualdade e diferença. Subjacente, penso que se encontra a

disputa pelo capital simbólico associado às atividades de lazer e culturais”, explica. A estudante Branca BacciBrunelli, de 22 anos, também passou por uma situação constrangedora na casa noturna Banana República. Transexual, foi obrigada a pagar o ingresso como homem, por conta do nome que constam no RG. Branca, que já havia frequentado o estabelecimento e sempre pagou como mulher, surpreendeu-se com a atitude. “Tirei da bolsa o meu laudo clínico, documento que informa que sou uma mulher, e devo ser tratada como tal. De nada adiantou. Fiz o gerente ser chamado e, educadamente, expliquei a situação, apresentei o documento, o qual nem foi lido, apenas questionado se tinha firma reconhecida”, conta ela. Após algum tempo de conversa, Branca decidiu entrar na balada pagando o valor do ingresso masculino. “É vergonhoso, em pleno 2015, uma pessoa ser forçada a passar por esse tipo de situação embaraçosa e humilhante”. Ela fez um Boletim de Ocorrência e pretende mover um processo. Emerson Luz Correa, diretor social da Banana República, explicou que o ocorrido com a estudante Branca

decorreu de um despreparo de uma das promoters. “Ela ficou com medo de ser descontado do salário e acabou tomando tal atitude”, conta. O diretor ainda afirmou que a política da casa respeita todos os direitos LGBTT e não tem nenhum tipo de preconceito. Correa explica ainda que a casa utiliza um método de contenção, uma vez que o público principal são os universitários, que, inclusive, pagam menos ao apresentar a carteirinha. “Os próprios universitários começaram a reclamar de outras pessoas”, explica. Desorganização, falta de educação por parte de gerentes e promoters, além do envio de mensagens sem consentimento também estão entre os principais problemas citados pelos usuários. O estudante Henrique Borges, de 21 anos, reclama do Club 88. Segundo ele, o local é desorganizado, o que gera grande fila e prejudica quem comprou entrada VIP. Fabio Leite, assessor de imprensa, explica que todas as reclamações recebidas são lidas e apuradas com os funcionários. Um contato com os clientes insatisfeitos também é feito. “Enquanto muitas casas noturnas bloqueiam comentários, o Club 88 aceita os elogios e também as críticas”, defende o jornalista.

Cinemas descumprem lei para idosos

Legislação municipal garante entrada gratuita para maiores de 60 anos, mas usuários encontram dificuldade

A Lei municipal nº 11.193/2002, em vigor desde agosto de 2014, garante a entrada gratuita nos cinemas de Campinas para idosos de 60 anos ou mais. Porém, os cinemas não têm cumprido a legislação. O benefício é válido para qualquer sessão de segunda a sexta-feira, bastando o idoso apresentar um documento de identidade legalmente reconhecido. Antônio Marcatto tem 73 anos e costuma ir ao cinema levar seu neto, porém sempre pagou o valor da meia-entrada. “É uma lei que poderia incentivar a minha geração a dar mais valor a essa arte, mas, a nenhum cinema a que fui, os funcionários me avisaram desse direito e não tem nenhum aviso”, conta. Já a Lei nº 8.432, em

vigor desde 19 de julho de 1995, estabelece que as empresas de cinema são obrigadas a colocar cartazes informando sobre o acesso gratuito, em local visível, ao lado das bilheterias. Essa lei também não é cumprida. Os funcionários das redes de cinema de Campinas dizem não conhecer a lei e por isso cobram a meia entrada. “É bom a gente ter conhecimento e ir atrás dos nossos direitos”, afirma Marcatto. “Porque, se depender da boa vontade dos donos em cumprir com a lei, pagaremos sempre a meia-entrada”. O descumprimento dessa lei acarreta diversas punições. O advogado Sérgio Helena explica que o estabelecimento recebe uma multa de R$ 1 mil. A pena também pode ser de até 180 dias de suspensão das atividades e o

estabelecimento está sujeito à cassação do alvará de funcionamento. “Mas, além das punições judiciais, o descumprimento pode prejudicar a imagem dos estabelecimentos para seus clientes, o que pode ser pior que a multa”, afirma. A reportagem do Saiba+ entrou em contato com as duas principais redes de cinemas que atuam nos shoppings Iguatemi e D. Pedro, com o maior número de salas da cidade. No entanto, nenhuma das empresas deu retorno para se posicionar sobre o descumprimento da lei. “Quando uma lei como essa é aprovada, as empresas envolvidas são, obrigatoriamente, avisadas sobre a mudança”, explica Helena. “Para eles, é mais fácil fugir da responsabilidade do que cumprir com a lei”, completa.

Foto: Juilia Leme

Julia Leme

Cinemas devem manter cartazes avisando do benefício para idosos


Cidades

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14 de dezembro de 2015

Barão tem pontos ‘oficiais’ para caronas

Grupo de estudantes instala banners para identificar locais em que se pode conseguir uma viagem gratuita

Um grupo de sete universitários da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) organizou dois pontos de carona na Avenida Atilio Martini (Avenida 2), em Barão Geraldo. O coletivo, denominado Barão Samaritano, justifica a criação em razão dos longos percursos que estudantes costumam fazer a pé. A ideia surgiu a partir de um treinamento de Design Thinking, que tinha como tema “resolução de desafios da sociedade”. Ciro Aloisio de Paula Duarte, que cursa Engenharia de Computação, integrante do grupo, conta que, desde que os pontos de caronas foram criados, no dia 23 de agosto, o coletivo tem recebido muitos comentários positivos sobre a ação, e, cada vez mais, estudantes e moradores têm aderido à pratica. “Nós não temos os dados da quantidade de pessoas que usam as caronas nem o de caroneiros [como são chamadas as pessoas que oferecem caronas]. No entanto, sempre conversamos e ouvimos que, diariamente, há pessoas pegando carona, principalmente, no trecho final da Avenida 2”. Nos dois pontos – um no começo da Avenida – próximo à Praça Henfil, saída da Unicamp – e outro, no entroncamento com a Avenida Albino José Barbosa de Oliveira – há um banner, de lona, que indica o local de espera. Em média, segundo os membros do grupo, uma pessoa fica quatro minutos até conseguir uma carona. O cartaz orienta as pessoas que também façam sinal com a mão para chamar a atenção dos motoristas. “O grupo tem se reunido e buscado alternativas e, é claro, a colaboração de toda comunidade nos ajuda muito”, explica Duarte. Apesar de achar perigoso dar carona para desconhecidos em algumas situações, a universitária Maria Paula Ribeiro, de 24 anos, moradora de Barão Geraldo, conta que, se passasse pelos pontos e visse um estudante aguardando, pararia. “Eu já precisei de muita carona! Então, eu costumo oferecer, não só aqui em Barão, mas quando vou ou volto de São Carlos”, conta, referindo-se à sua cidade natal. Do ponto de vista legal, a advogada Caroline Ambrosin, diz que oferecer carona não é ilegal, nem mesmo receber um valor que auxilie nas

Foto: Carolina Amaral

Carolina Amaral

Ponto de carona na Avenida Atílio Martini: destino mais procurado é a Unicamp ou, então, a rodoviária de Campinas

les, com homens, que EXPERIÊNCIA aparentavam ter entre 30 e 40 anos. Nenhum DA deles demonstrou que REPÓRTER iria parar, até que um ara veículo com dois uniconhecer melhor versitários estacionou o sistema de cae me perguntou se eu ronas, decidi utilizar um dos pontos insta- gostaria de uma calados na Avenida 2. rona. Disse que sim e Escolhi o da Avenida entrei no carro. Eram Albino José Barbosa 13h25. Sendo assim, o de Oliveira, próximo ao tempo de espera pela Mc Donald’s, por acre- carona foi de, exataditar que aquele trecho mente, três minutos. Assim que entrei possui um fluxo maior no carro, o casal me de veículos. Às 13h22, perguntou se eu estame posicionei embaixo do banner que anuncia va indo para a Univera carona, e, enquanto sidade Estadual de aguardava, alguns car- Campinas (Unicamp) ros passavam e obser- e se poderiam me vavam. A maioria de- deixar no portão mais

P

despesas do motorista com o trajeto. Contudo, ela faz um alerta. “É importante ressaltar que, mesmo as pessoas que oferecem carona de forma gratuita, desinteressada, podem ser responsabilizadas por eventual dano causado por dolo ou culpa grave, nos termos da Súmula 145 do Superior Tribunal de Justiça”. A advogada se refere, no primeiro caso, a acidentes ocasionados intencionalmente. Já no segundo, não há intenção.

Conscientização A conscientização também faz parte dos projetos do Barão Samaritano. Por meio de minicartazes com mensagens irreverentes como “Não use buzina, use paciência”, o coletivo Barão Samaritano chama a atenção de motoristas, pedestres e ciclistas para boas práticas. “Ao passo que identificamos a ausência de uma comunicação informativa que incentive boas práticas para um convívio em sociedade e

próximo. Disse que sim e, então, fomos. Os caroneiros eram a estudante de Engenharia de Alimentos, Gabriela, e seu namorado, Sérgio, que cursa Biologia, ambos na Unicamp. Eles contaram que era a segunda vez que davam carona para alguém e que acreditavam que eram os únicos a fazer isso. Durante o trajeto, percorrido rapidamente, devido à proximidade entre o ponto inicial e o ponto final, fomos conversando e os caroneiros foram muito simpáticos e que evite pequenos incidentes, buscamos criar, em conjunto, ideias e ações que ofertassem uma solução viável, de baixo custo e de fácil implementação a essas problemáticas”, explica Duarte. A fim de expandir a atuação, os membros contam que farão uma ‘sorvetada’ com o objetivo de arrecadar fundos para aplicar em projetos futuros, como a instalação de placas de carona também nas avenidas 1 e 3. Para ajudar a

educados. Por conta disso, em nenhum momento me senti insegura. Acredito que o fato de serem universitários e possuírem a minha faixa etária tenha colaborado para essa sensação de segurança. Mesmo não sendo longo, seria exaustivo percorrer a pé o trajeto. Tive uma ótima experiência ao utilizar o serviço e optaria pelo ponto de carona outras vezes se estivesse a pé e precisasse me locomover por Barão Geraldo. estimular o engajamento social e ser o mais transparente possível em relação ao uso dos fundos angariados, o coletivo criou uma página no Facebook (https://www.facebook.com/baraosamaritano). “Poderemos conectar essas e novas intervenções, disponibilizando instruções, arquivos e formas de implementação para todos que estejam dispostos a mudar os pequenos problemas da nossa comunidade”, afirmam na página.


Tecnologia

14 de dezembro de 2015

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Serviço de streaming cresce 15,8%

Brasil já tem 2,2 milhões de usuários do sistema; 1 a cada 3 internautas já usa o sistema para ver filmes

A migração do público de TV paga para o serviço de streaming já coloca o País entre os primeiros em números de usuários. Desde 2012, o número de assinantes de TV paga vem decrescendo anualmente, o que levou a Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) a projetar crescimento zero em 2015. Enquanto isso, o maior serviço de streaming no Brasil cresceu aproximadamente 15,8%, entre 2013 e 2015, chegando a 2,2 milhões de usuários, segundo o site de notícias Valor Econômico. A tecnologia streaming é uma forma de transmissão instantânea de dados de áudio e vídeo por meio de redes. Com o serviço, é possível assistir a filmes ou escutar música sem a necessidade de fazer download, o que torna mais rápido o acesso ao conteúdo online. O presidente-executivo da ABTA, Oscar Vicente Simões de Oliveira, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, afirma que a queda do número de assinantes é resultado da crise econômica que o Brasil vive em 2015, o que tem levado muitos a recorrer à internet como forma de entretenimento. “As pessoas estão apreensivas”, afirmou Simões. Já o consultor Juarez Quadros, ex-ministro das Comunicações (governo FHC), na mesma entrevista à Folha, argumentou que a situação não é explicada com a crise. Segundo ele, na verdade, as pessoas já vinham buscando os serviços de séries, filmes e esportes antes da recessão começar. Mesmo com as promoções e descontos das operadoras de TV por assinatura, a queda nos números de assinantes é iminente. O estudante do segundo ano de Engenharia Civil e supervisor de contratos em uma imobiliária, Matheus Santos Araújo, de 21 anos, é um exemplo de que, talvez, ambas as explicações citadas sejam plausíveis. Há um ano e meio, ele

Foto: Giovanna Lima

Pedro Nogueira

Matheus Santos Araújo, estudante, cancelou o serviço de TV paga e agora só usa o streaming, pelo qual paga, no máximo, R$ 20,00 mensais

optou por cancelar a assinatura da TV paga para passar a usar um serviço de streaming. “Como trabalho e estudo à noite, não via utilidade em ter mais de 100 canais e não usar nem cinco por final de semana”, conta. Segundo o estudante, existe também a vantagem financeira no uso de canais de streaming, cuja assinatura não passa de R$ 20,00 mensais. “Acho também muito mais prático. Você não fica refém da programação do canal, você assiste à série e ao filme que deseja na sua hora”, complementa. O ilustrador Tiago Almeida Barreto, conhecido como Ots, de 29 anos, ainda mantém a assinatura da TV paga, mas confessa que usa mais o streaming. “Como tenho o combo, continua a TV paga aqui em casa, mas

quase não uso. Acostumei a escolher o que vou ver e que horas vou ver”, explica. A Netflix, maior canal de vídeos por streaming, comemorou quatro anos no Brasil em setembro deste ano. Hoje, o serviço cresce mais fora dos Estados Unidos e tem focado em produções próprias em outras línguas. Uma pesquisa divulgada no dia 1° de outubro pela Conecta, empresa do Ibope, indica que um em cada três internautas brasileiros (34%) já assiste a filmes e programas de TV por demanda pelo menos uma vez por semana. O que vem ganhando destaque no quesito uso da internet para fins de televisão é a procura por esportes transmitidos ao vivo pela web. Desde setembro, o canal Esporte Interativo vem transmi-

tindo ao vivo pela internet jogos da Liga dos Campeões. O canal não exige assinatura e é visto como uma ameaça às grandes operadoras do País. A pressão dos serviços de vídeos por demanda é tamanha que as operadoras já se movem no sentido da adaptação ao invés da resistência. A Net, por exemplo, já possui a Net Now, com vídeos disponíveis para compra, aos quais o assinante pode assistir quando quiser, mediante pagamento. A adaptação, no entanto, como os números mostram, não tem se mostrado suficiente para combater a queda nos números de assinatura. No dia 10 de setembro deste ano, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto do relator Walter Ihoshi (PSD-SP), que atualiza a lei do Impos-

to Sobre Serviços (ISS), acrescentando a Netflix na cobrança, já que ela não contava com uma tributação específica. O ISS é um imposto definido por cada município que o consumidor não paga diretamente: quem precisa arcar com esse gasto é o próprio prestador de serviço, ou seja, a Netflix. Entretanto, como é um gasto adicional não previsto, isso pode significar um aumento na mensalidade, por exemplo, caso a empresa de streaming ache necessário para equilibrar as contas. A Netflix, quando questionada, não se pronunciou. Caso o projeto seja sancionado, a taxa mínima de 2% sobre o serviço será aplicada como tributo mínimo — ou seja, em alguns locais, esse valor pode ser até maior.


Esporte

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14 de dezembro de 2015

Clubes investem em famosos para lucrar

Jogadores com atenção da mídia são apostas para times menores, como o Tanabi, conseguirem patrocinadores

Nos últimos anos, devido à grande exposição de jogadores na mídia e ao endividamento exagerado dos clubes, o futebol se tornou mais que um esporte. Transformou-se em um negócio e, a cada ano que passa, muito rentável. Um exemplo disso são os times “menores” que, sem dinheiro para contratações de peso, resolvem investir o pouco que têm no salário de jogadores mais conhecidos da mídia, que podem trazer um retorno em patrocínios e maior tempo na televisão. O Tanabi é um exemplo disso. O time, até então desconhecido do grande público, ainda se utiliza desse meio para aparecer. Em 2012, contratou o atacante Túlio Maravilha, que buscava seu milésimo gol. No ano seguinte, foi buscar no Paraguai o atacante Salvador Cabañas, que tem uma bala alojada na cabeça depois de ter sofrido uma tentativa de homicídio enquanto

jogava no América, do México. “No meio do futebol, isso se tornou muito normal, não só aqui no Brasil. Por exemplo, o Real Madrid faz muito disso: contrata o jogador pela exposição que ele tem. O James Rodrigues foi um desses casos. Ele fez uma bela Copa do Mundo e só. Hoje é camisa 10 do time e, nos primeiros meses em que ele estava lá, as vendas de camisa superaram 25 milhões de euros”, diz o especialista em marketing esportivo Marcelo Pereira. Esses números do James não param de aumentar. Hoje, o retorno gerado por ele, em venda de camisas, patrocínios e exposição na mídia já paga o que o Real Madrid investiu pelo jogador. O caso mais recente desse investimento foi do campineiro Guarani, único time do interior do Brasil a ser campeão nacional. Atualmente, no entanto, o Bugre vive uma crise sem fim: está na terceira divisão nacional e na segunda do

Foto: Divulgação

João Crumo

O jogador Flávio Caça-Rato e o presidente do Guarani F.C, Horley Senna, aposta para patrocínio

estadual. Por isso, com um orçamento muito reduzido, o jeito foi investir em um jogador folclórico do futebol nacional. No meio do mês de novembro, o Guarani anunciou a contratação do atacante Flávio Caça-Rato, que fez muito sucesso no futebol nordestino e virou um ícone. Os torcedores do Brasil até colocaram o apelido de CR7, em comparação ao português, três vezes melhor do mundo, Cristiano Ronaldo.

Marcelo Pereira diz que nem sempre o investimento vale a pena para um clube: “O caso do Caça-Rato com o Guarani é a mesma coisa, puro marketing. Ele estava lá no Nordeste jogando campeonatos amadores, desde quando acabou o contrato que ele tinha com o Santa Cruz. Mas, por causa dele, conhecido do grande público, vão existir empresas que investirão no clube, na camisa do jogador, e

isso, para o Guarani, que sofre muito com dinheiro, é essencial. O problema é: será que ele vai conseguir jogar o que os torcedores, a mídia e os patrocinadores esperam? Ou vai ser um fiasco?”. Se vai ser um fiasco ou não, só o início do campeonato Paulista da série A2 vai dizer, mas que, CR7 do Nordeste já deixou o Bugre mais em evidencia na mídia, isso ninguém pode negar.

Futebol de sucesso, sem grandes cifras Ponte Preta fez sucesso na Série A com orçamento que chega à metade dos investimentos de grandes times Foto: Divulgação

Jogadores da Ponte Preta comemoram gol e excelente campanha

Gustavo Porto Não é só com dinheiro que se faz um grande time de futebol. Prova disso é a Ponte Preta, que, mesmo com um dos menores orçamentos da Série A do Campeonato Brasileiro, fez sua melhor campanha na história do atual formato da competição. Para chegar aos atuais 51 pontos, a Macaca deixou para trás “ricos” do futebol nacional como Palmeiras, Flamengo e Fluminense. Ao fim da temporada passada, o Conselho da Ponte Preta aprovou o orçamento do clube de R$ 35 milhões para 2015, sendo que R$ 24

milhões foram usados para a construção do elenco. Mesmo com troca de técnico e saídas de jogadores importantes como Renato Cajá, o time manteve-se forte e chega à reta final sob o comando do interino Felipe Moreira. Para se ter uma noção do dinheiro que a Ponte Preta utilizou perto dos times ricos do futebol brasileiro e que estão atrás na tabela, Palmeiras e Fluminense tiveram um orçamento de R$ 200 milhões para a temporada, enquanto o Flamengo, clube que mais arrecada com dinheiro de TV e patrocínios, teve um orçamento em torno de R$ 350 milhões.

O meio para a Macaca construir um elenco forte e barato foi contratar jogadores com vínculos no fim e por empréstimo. Por exemplo, o experiente atacante Borges estava encostado no Cruzeiro e não renovaria. Atenta ao mercado, a diretoria agiu rápido e contratou o jogador. Além do camisa 9, a diretoria ainda acertou com o meia Cristian, que estava no Ituano na modesta Série D e chegou para substituir Renato Cajá, que deixou o time no meio do ano. Sem gastar um centavo para contratar Cristian, a diretoria da Ponte parece ter acertado mais do que a do Palmeiras, que gastou milhões no início da temporada para um time que demora a engrenar. Um exemplo disso é o zagueiro Leandro Almeida, ex-Coritiba, já que o Verdão usou cerca de R$ 2 milhões para acertar com um jogador que é reserva e contestado pela torcida. Para Gustavo Bueno, gerente de futebol da Ponte Preta, o essencial era conquistar a permanência na Série A da próxima temporada, já que é muito comum os times que recebem menos dinheiro fazerem o tradicional “bate-vol-

ta”, como aconteceu com o Joinville, rebaixado na 36ª rodada após perder para o Vasco por 2 a 1. “Desde 2002, quando foi implementado o sistema de pontos corridos, 64% dos clubes com orçamento pequeno e médio não permanecem mais que dois anos. 78,4% não ficam mais de três, sendo o Coritiba a única exceção”, afirma. Mesmo com uma campanha brilhante, o elenco atual ainda luta para superar a trajetória do time que disputou o Brasileirão de 2015, quando foram conquistados 51 pontos – na ocasião, o campeonato contava com 22 clubes. Faltando duas rodadas para o final, a Macaca precisa de um simples empate contra Avaí e Sport, ou então duas vitórias contra os adversários caso ainda sonhe em chegar à Libertadores. Segundo o técnico Felipe Moreira, uma vaga à competição intercontinental serviria para coroar a campanha feita pelo elenco, que superou as adversidades para chegar a uma boa posição na tabela. “O nosso time tem condições. A Ponte joga de igual para igual. A gente trata o jogo. Esse time, se alcançar uma vaga para a Libertado-

res, entra para a história”, diz o comandante. E para 2016? Depois de um ano com poucos gastos, a Ponte Preta deve gastar um pouco mais na próxima temporada. Isso porque, quando um time sobe da Série B à A, e garante a permanência para o ano seguinte, o dinheiro de cota da TV aumenta, possibilitando assim um gasto maior com o futebol. “Esse valor que estamos prevendo aplicará o corresponde a 71,5% da receita total. Isso nos garante uma ‘gordura’ necessária para emergência e um arranque final ao término da temporada”, disse Gustavo Valio, diretor financeiro. No início de novembro, o Conselho Deliberativo aprovou um orçamento de R$ 43,6 milhões para 2016. Desse montante, R$ 31,9 milhões serão destinados diretamente ao futebol, possibilitando aos dirigentes um dinheiro a mais para buscar reforços de peso e que ajudem o elenco na próxima temporada. A Ponte Preta vai disputar o Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro, Copa Sul Americana e Copa do Brasil.


Crime ambiental

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Campineiros viram voluntários em MG Terapeuta reúne grupo de nove pessoas e parte para auxiliar desabrigados em rompimento de barragem

Malas prontas para visitar o Rio de Janeiro. Não. Não eram férias. O terapeuta Robson Teixeira Gondin, de 40 anos, estava com tudo pronto para embarcar a São Gonçalo, na baixada fluminense, e dar continuidade a um projeto assistencial iniciado há um ano. Antes, nada melhor do que assistir a um pouco de TV para relaxar. O jornal listava os destaques do dia. Alguma coisa acontecera em Minas Gerais, na cidade de Mariana, região central do estado. Uma das barragens de uma empresa mineradora chamada Samarco rompeu-se. Mal se encerra a reportagem e ele cancela o voo. A reportagem a que assistira falava sobre aquele que já é considerado o maior desastre ecológico da história brasileira: em 5 de novembro, a barragem de Fundão da Samarco, empresa resultante da união das gigantes Vale e BHP Billinton, ao romper-se, liberou mais de 30 milhões de metros cúbicos de rejeitos, destruindo distritos da cidade de Mariana e contaminando o Rio Doce. Foi assim, de imediato, que o campineiro, especializado em dependência química, e que já fundou dois projetos assistenciais em Campinas e em Hortolândia, mudou a rota: em vez de terras fluminenses, reuniu uma equipe de nove pessoas - todas voluntárias - para ir até à cidade mineira de 20 mil habitantes, cujos sete dos nove distritos foram soterrados pela lama tóxica. Era madrugada e os dois carros – lotados com os passageiros, água e remédios – partiam para uma viagem de oito horas. Não foi difícil reunir os colegas – a prática e a rede de

relacionamento adquirida ao longo dos anos permitiram a rapidez e a eficiência na captação de ajuda e recursos para a nova viagem. Robson é fundador do projeto “Há Esperança”, que há 15 anos atua no campo da prevenção de drogas dando assistência a moradores das ruas de Campinas e região. Há oito, realiza também trabalhos em comunidades carentes, desenvolvendo projetos de saúde, educação, habitação, esporte e infraestrutura. Sem noções exatas de como e onde atuar, o grupo, que contava com cinco profissionais da área da saúde, dirigiu-se ao ginásio municipal de Mariana, aonde pessoas chegavam à medida que eram resgatadas de suas casas. Cabia-lhes a tarefa de separar os donativos que chegavam gradativamente. Na manhã do dia 8, o prefeito da cidade, Duarte Júnior, de 35 anos, enquanto ajudava as vítimas, passou mal. Teve um princípio de infarto. Coincidentemente, os únicos médicos do local eram os campineiros da equipe de Robson e deram o atendimento inicial de primeiros socorros, para que fosse encaminhado ao Hospital Monsenhor Horta da cidade. “Depois do acontecido, as portas políticas se abriram”, afirma Robson, referindo-se à permissão que passaram a ter para atuar ao lado do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil no resgate às pessoas que ainda estavam ilhadas nos distritos. “Tem lugar que ainda não dá para chegar por terra”, relata Robson, 25 dias depois. Antes de responder à pergunta sobre o que mais lhe marcara em Minas, Robson precisar parar. O fôlego não lhe é suficiente. À memória, veio-lhe a história de um pai e suas duas

Foto: Robson Gondin

Pedro Nogueira

Caminhão carregado com água mineral arrecadada em Campinas parte para Mariana e cidades vizinhas

filhas – uma de 2, outra de 5 anos. Na tentativa de protegê-las, ele abraçara suas meninas, uma em cada braço, e firmara os pés no chão. A força da lama, porém, o derrubara. Quando o resgate chegou, ele e sua filha mais velha foram encontrados vivos. A mais nova desaparecera em meio à enxurrada. Ele suportou mais um dia, mas não resistiu aos ferimentos. A caravana de Robson ajudou como pôde. Ele e o restante dos voluntários voltaram para Campinas cinco dias depois. Vieram buscar mais água, remédio, comida e roupas. Já ciente da dimensão so-

cial, econômica e geográfica do desastre, Robson reuniu 15 toneladas de doações aos desabrigados. O destino foi a cidade de Barra Longa, a 60 km de Mariana, onde ele ficou quatro dias para distribuir o material coletado. “Mariana já estava bem suprida de doações e ajuda. O problema são as cidades de que a mídia não fala”, explica.

Foto: Jornal Mix Noticias

Governador Depois de Barra Longa, mais uma vez Robson retorna a Campinas para reunir doações, dessa vez para Governador Valadares, uma das cidades mais afetadas pela chegada da lama, pelo Rio Doce. O envio de cada caminhão custa R$ 5.000,00 para transportar água, mas o terapeuta usou, mais uma vez, da confiança de seus doadores para sustentar financeiramente a assistência. “Você não tem noção da calamidade que está Governador Valadares”, relata. Segundo Robson, filas enormes para pegar água se espalham pela cidade nos pontos de distribuição. “A água da torneira não tem como beber, nem tomar banho. Ela está deixando feridas no corpo das pessoas”, conta. É comum ver famílias inteiras nas filas esperando Robson Gondin (de bermuda amarela) e os voluntários que angariou para ajudar desabrigados em Mariana pelo caminhão de água. A

estratégia permite que cada membro pegue um galão. “A água que chega acaba muito rápido”. Há também caixas d´água de 5 mil litros instaladas a cada três quarteirões pela prefeitura, mas são insuficientes para os 270 mil habitantes. Para evitar que pessoas percam tempo em filas e corram o risco de serem demitidas por justa causa, Robson decidiu levar os caminhões até empresas e hospitais, onde a concentração de pessoas é maior. Atento às carências, o terapeuta campineiro planeja seus próximos passos. Para ele, o sistema de doação de garrafas e galões de água não é suficiente para suprir a carência da região. Por isso, Robson pretende levantar recursos para a construção de poços artesianos, que têm mais eficiência no abastecimento da população. Um poço atende cerca de 3 mil pessoas. Ajuda O espírito altruísta de Robson aflorou quando soube da possível repercussão da matéria através do jornal Saiba +, da PUC-Campinas. Por isso, fez o pedido para que seu número de celular fosse aqui divulgado. Caso o leitor queira e possa ajudá-lo, entre em contato pelo número (19) 982867095.


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Internacional

14 de dezembro de 2015

Moradores de Paris narram tragédia Uma parisiense e dois brasileiros contam como está o país um mês após os atentados terroristas à França

Monumentos da cidade-luz estão lotados de bandeiras, flores e nomes de vítimas mortas pelos terroristas Foto: Souhela Ka

Dia seguinte Para Souhela, no dia seguinte, Paris estava com uma atmosfera jamais sentida. “Quando aconteceram os ataques ao Charlie Hebdo, nós ficamos muito preocupados, já o que aconteceu agora é indescritível! Moveu o mundo todo de uma forma brutal”, afirma. Atualmente, a professora tenta tocar a vida, inclusive com o excesso de segurança em lugares públicos: “Fui comprar umas coisas básicas no supermercado, como pães e frios, e tive que abrir minha bolsa duas

Flores e cartazes deixados nas ruas próximas ao local dos ataques de 13 de novembro: solidariedade às vítimas Foto: Souhela Ka

Souhela Ka é parisiense e trabalha como professora de matemática perto do Bataclan, casa de show atacada por terroristas no dia 13 de novembro. Gabriel Andrade é brasileiro, estudava na França há um ano e meio, mas desistiu de continuar na cidade-luz com medo. Eliane Yan mora em Toulouse, Sul da França, e tem receio do que pode acontecer ao seu país. Em comum, os três relatam um País em que nunca houve tanto preconceito e, ao mesmo tempo, tanto policiamento. Souhela trabalha a duas quadras da casa de show onde foram confirmadas ao menos 120 mortes. Naquele dia, resolveu estender o horário de trabalho, uma vez que queria somar horas para as festas do fim de ano: “Era um pouco mais de oito horas da noite quando ouvi um intenso barulho na rua. Já senti que algo atípico estava acontecendo por causa dos gritos”, relata. No mesmo momento, ela ligou a televisão e viu o que estava acontecendo e correu para sua residência: “Não pensei direito. Agora eu vejo o perigo. Mas como moro muito perto do meu trabalho, saí correndo”, comenta. Quando pisou em casa, toda a sua família estava em frente à televisão e contaram que o futebol fora interrompido para mostrar o que estava acontecendo a poucos metros dalí.

Foto: Souhela Ka

Ana Ardito

Fachada do Bataclan interditada após os ataques; casa de espetáculos permaneceu fechada por quase um mês

vezes para dois seguranças diferentes. ” ressalta. Brasileiro Gabriel foi estudar engenharia de alimentos em Paris e por lá ficou por um ano e meio. O estudante estava em sua casa quando recebeu a notícia: “Todos os amigos que moravam perto de mim me ligavam para saber se tudo estava bem. Só fui entender a gravidade do problema quando entrei em alguns sites”, afirma. Gabriel relata que o governo de François Hollande tem dado mais oportunidade para os muçulmanos, uma vez que eles estão por toda a parte da França e fazem serviços que, geralmente, os franceses não querem fazer, como a limpeza. Após o terror do dia 13 de novembro, a segurança aumentou drasticamente e, segundo Gabriel, era explícito a preconceito em relação aos muçulmanos: “Estávamos nas ruas, os policiais pediam os documentos de todas as pessoas que aparentavam ser árabes, inclusive de idosos e crianças”, diz. Interior da França Eliane tem 43 anos, mora com o marido e filho. Para ela, embora os acontecimentos tenham ocorrido em Paris, a França toda está comovida. “Vocês veem mais coisas que nós. A televisão daqui tem como ordem a descrição, uma pelo Estado de Emergência e outra pelo luto da população, por conta das mortes e de todas as pessoas feridas. ” Além disso, Eliane conta que as aulas de seu filho foram suspensas por dois dias, devido ao medo. Para ela, não há o que comemorar neste fim de ano. “Não tem mais alegria e nem vontade da população para as festas de fim de ano. Estamos naquele dilema: Quando e onde será o próximo?.”

Assista as imagens do atentado no Youtube: https://www.youtube.com/ watch?v=LSAFcnryoEw

Saiba + - Dezembro 2015  
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