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Método sintotermal é alternativa ao anticoncepcional: sem efeitos colaterais Pág. 8 Desde 2006

Março de 2017

Faculdade de Jornalismo - PUC Campinas

Burocracia barra eventos

Foto: Divulgação/ Daniele Zezza/16-03-2016

O aumento nas exigências da Secretária de Cultura de Campinas para a produção de eventos alternativos em espaços públicos, como a Estação Cultra, trouxe dificuldades para os organizadores e diminuiu o número de festas produzidas nesses locais. Entre os pré-requisitos, está a necessidade de contratação de mais seguranças. Os organizadores solicitam mais incentivo da Prefeitura para esse tipo de evento. Já o secretário da pasta, Ney Carrasco, garante que as exigências são impostas pelo corpo de Bombeiros e o Poder Público não conta com recursos financeiros para auxiliar. Pág. 12 Sound Rua, em abril de 2016, na Estação Cultura: exigências da Prefeitura dificultam realização do evento, que costuma reunir até 1,2 mil pessoas

Foto: Igor Batista

Subsídios ao transporte de alunos varia na RMC

ESPORTE: O crescimento do rúgbi ultrapassa o das artes marciais e do vôlei no Brasil, com aumento de 17% no número de praticantes da modalidde. Pág. 7

ECONOMIA Flexibilidade de horários e dificuldade para encontrar trabalhos fixos leva profissionais à busca de freelas Pág. 6

Estudantes de cidades na Região Metropolitana de Campinas (RMC) que dependem de transporte coletivo para irem às suas universidades em outras cidades sofrem as consequências dos cortes de gastos municipais e das diferenças de regras para concessão dos subsídios. A Prefeitura de Vali-

nhos alterou as exigências impostas aos que se candidatam à ajuda de custos, desconsiderando o valor da renda familiar, tornando um número de jovens incompatíveis à ajuda de 100%. No momento, das 20 cidades que compõem a RMC, apenas cinco oferecem algum tipo de ajuda de custo para o transporte de

AUTOMÓVEIS Custo mensal da manutenção de um carro popular pode chegar a quase R$ 1 mil, com combustível, seguro e depreciação Pág. 7

estudantes a outras cidades. Com exceção de Valinhos, onde existe essa variação, em Nova Odessa todos têm 50% de subsídio. Em Itatiba, o auxílio depende da distância a ser percorrida. Em Paulínia e Vinhedo, 100% dos estudantes recebem ajuda referente ao custo total do transporte. Pág. 3

COMPORTAMENTO Número de adultos entre 25 e 34 anos que moram com familiares, a geração-canguru’, atinge 25% no Brasil Pág. 10


Opinião

2 RÁPIDAS

CARTA AO LEITOR

Tawane Larini

Laura Pompeu e Pedro Massari

Projeto prevê ônibus grátis para vítimas de violência

editores

Um projeto de lei que isenta mulheres vítimas de violência doméstica do pagamento da tarifa de ônibus tramita na Câmara de Campinas. De autoria do vereador Carmo Luiz (PSC), a proposta veio como uma medida alternativa, pois muitas mulheres deixavam de fazer a denúncia ou continuar o inquérito por não terem condições de deslocamento para locais seguros. O benefício só terá validade no período entre o registro do boletim de ocorrência e a concessão da medida protetiva.

Foto: Tawane Larini

Sesc-Campinas recebe Mostra Itinerante

O Sesc-Campinas recebe até o dia 30 de abril a Mostra Itinerante da 32ª Bienal de São Paulo, com o tema “Incerteza Viva”. A exposição traz um recorte diferente para circular em Campinas. Além disso, as obras foram feitas exclusivamente para a bienal. Um CRÔNICA dos principais destaques é a obra “Vale de Alícia”, da colombiana Alicia Barney. A visitação é gratuita e funciona de terça a sexta, das 8h30 às 21h30, e sábaTawane Larini dos, domingos e feriados, das 9h30 às 18h.

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izer que “Vida de estudante não é fácil!” ganhou mais força para os alunos de Valinhos e Vinhedo que dependem de um transporte diário para Campinas. Como é abordado numa das reportagens de capa dessa edição do Saiba+, devido a cortes dessas prefeituras, esses estudantes perderam uma ajuda de custos importante. Quem vê a compra de um carro como uma solução pode se surpreender com os gastos de manutenção e combustível que vão além do previsível boleto mensal. Além disso, significa abrir mão do conforto de asssitir vídeos enquanto se locomove, já que, como mostra outra reportagem, o consumo de mídia via streaming cresce. Quem busca leitura sobre economia encontra também nessa edição uma reportagem sobre sistemas de troca que chegou no Brasil como forma de

Março de 2017 se sustentar durante à crise. A situação econômica, inclusive, catalisou mudanças como a procura por frilas, que possuem vantagens e desvantagens. Essa situação econômica parece afetar inclusive o lado emocional do brasileiro. Nossa redação destaca de uma pesquisa da ONU o dado que mostra o Brasil como o país mais ansioso da América Latina. O mais preocupante é que essa doença afeta majoritamente os jovens e, se não for tratada, pode se agravar. A popularidade dos hábitos alternativos ganha também espaço nessa edição. O rúgbi é o esporte que mais cresce. Alternativas para o anticoncepcional podem frear seu consumo abusivo e festas na Estação Cultura estão cada vez mais raras, em função da burocracia exigida pela Prefeitura. Que 2017 não siga os mesmos passos de 2016. Boa leitura!

Meu querido provável assassino

Crise faz número de ações trabalhistas subir O número de ações trabalhistas, registradas em Campinas, aumentou 13% nos últimos dois anos, segundo dados da Coordenadoria de Pesquisa e Estatística do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15). Segundo o presidente do TRT-15, Fernando da Silva Borges, 50% delas têm relação direta com a falta de pagamento de verbas rescisórias. A outra metade dos processos tem origem em razões como brigas entre empregador e trabalhador, assédio moral, pagamento de horas extras e recolhimento de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Em geral, um processo pode demorar até cinco anos para ser julgado. O crescimento das ações, de acordo com Borges, está relacionado à crise econômica, quando muitas empresas não tiveram condições de honrar os compromissos legais. Expediente Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Comunicação e Linguagem (CLC) Diretor: Rogério Bazi; Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo; Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza. Tiragem: 2 mil. Impressão: Gráfica e Editora Z Professor responsável: Fabiano Ormaneze (Mtb 48.375) Edição: Laura Pompeu e Pedro Massari Diagramação: Bárbara Camilotti e Giovanna Rossini

“Quando ela tinha 5 anos, sonhava em ser princesa. Aos 7, sonhava em ser veterinária. Com 9, queria ser adulta. Aos 11, desejava ser médica. Aos 13, queria ser linda. Aos 14, ela teve seu coração quebrado. Com 16, ela se automutilou. Aos 18, se matou”. Era o que dizia um texto de autor desconhecido que encontrei em uma rede social. O texto me fez pensar como podemos ser nossos próprios assassinos e me questionei: “Quão desesperada uma pessoa deve estar para tirar a própria vida?”. Parece uma reflexão estúpida, já que não é um assunto muito discutido. No entanto, o suicídio já mata mais que a Aids. No Brasil, são registrados 12 mil casos ao ano, segundo a OMS. A doença causada pelo HIV, faz, por ano, 6,3 mil vítimas. Você é seu provável assassino e, sim, você

também é a vítima. Dá um certo medo pensar nisso. “Eu posso me matar”, tentei repetir isso algumas vezes em frente ao espelho, como uma forma de provar que é uma ideia impossível, mas, bem no fundo, sabemos a verdade. Eu sei a verdade. Talvez, se eu gostasse um pouquinho mais das minhas coxas ou se eu aceitasse melhor o som da minha risada ou então se eu tivesse uma vida financeira estável, um bom namorado e uma família equilibrada, talvez isso evite que meu provável assassino me mate. Sou a vítima de mim mesma e você também é. Vai muito além de nossas cobranças, sonhos não realizados e das infinitas críticas. É muito mais que uma sociedade que pressiona, do emprego que eu gostaria de ter, do tempo que perdi. Foi ela, a depressão, a culpada, ela que virou sinônimo

dessa época, a doença que já atinge três em cada cinco pessoas. Evitá-la não se trata apenas de ser feliz, tentar sorrir ou sair com os amigos. É uma doença silenciosa, causada por alterações químicas no cérebro. Ela começa com dias nos quais não quero sair da cama, há culpa, angústia, tristeza e baixa autoestima. Devagar vai se arrastando até me levar ao ponto final. E só há um jeito de se safar, o que pode ser difícil para os orgulhosos: pedindo ajuda. Frequentar um psiquiatra, muitas vezes, não é bem visto pela sociedade, mas o que há de mais importante na vida se não for viver? Remédios, terapias e muitas outras formas se aproximam da cura, podem tirar essa angústia e fazer com que seu provável assassino repense e não o mate. Não tomar uma atitude também é um jeito de morrer.


Cidades

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Benefícios para estudantes variam na RMC

Subsídios oferecidos por 5 prefeituras para quem é aluno em outra cidade vai de 50% a 100%

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studantes de Valinhos vivem apreensivos em relação ao transporte para as faculdades em outras cidades. Isso porque, na gestão municipal anterior, estudantes que tivessem renda familiar de até R$4.919,40 eram beneficiados com 100% de subsídio. A partir desse valor, havia um escalonamento. Agora, o critério foi alterado: é considerada a renda per capita. Apenas estudantes com renda de até R$983,88 recebem 100% do benefício. Ana Paula Cyrino, de 26 anos, mora em Valinhos e estuda em Jundiaí. Ela não tem como fretar uma van para ir à faculdade. Com a nova legislação aprovada neste ano, a Prefeitura também não é mais responsável pela contratação das empresas de fretamento. Cada estudante deve se organizar para conseguir o próprio transporte. Para a estudante de Enfermagem, isso dá liberdade para que haja um superfaturamento no valor do serviço. “A van para Jundiaí está R$590,00. Estou desempregada. A renda da minha família é de três salários mínimos. O aluguel é R$650,00 e ainda tem água, luz, telefone. Não posso retirar esse valor de dentro da minha casa. Vai faltar”, explica. Sem ter como pagar o fretamento, ela vai para a faculdade de ônibus de linha regular e, por isso, precisou mudar o período do curso, pois, se estudasse à noite, como sempre fez, não teria como voltar para casa. Por mês, ela gasta nesse sistema, cerca de R$ 344,00. Em consequência, por não poder trabalhar de manhã, está mais difícil arrumar um emprego. Segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Valinhos, em nota, a alteração nos benefícios foi necessária, pois metade do orçamento municipal está comprometido para o pagamento de dívidas da gestão passada. “Diante do caos, não restou outra alternativa”. Além disso,

OS VALORES DO SUBSÍDIO

50% do transporte é subsidiado

100% do transporte é subsidiado

de 50% a 100% é subsidiado, dependendo da renda

60 a 240 reais, dependendo da distância

informa que o subsídio não é uma obrigação da Prefeitura, pois a Constituição determina, apenas, que 25% do orçamento seja destinado à educação até o nível médio. A Prefeitura de Valinhos não soube informar a quantidade de estudantes que recebem algum benefício atualmente, pois, segundo a Assessoria de Imprensa, está sendo realizado um recadastramento. Vinhedo Em Vinhedo, os universitários passaram por uma situação semelhante no início do ano. Segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura, por lei, não seria possível renovar alguns contratos com as empresas de fretamento, então algumas linhas não iriam

mais circular. Foi quando a Associação Vinhedense Comunitária de Educação e Cultura (Acovec) se propôs a fazer um convênio com a Prefeitura para poder contratar as empresas de ônibus em nome do município. Essa medida foi aprovada, por unanimidade, em sessão extraordinária da Câmara no dia 3 de fevereiro e estaria em vigor até o dia 7 de abril. Porém, no dia 10 de março, após reunião com vereadores e a comissão de estudantes, o prefeito Jaime Cruz (PSDB) anunciou que a medida continua valendo até o final do ano. “Nós sabemos a importância do transporte universitário para os nossos estudantes que estudam fora do município, em várias cidades. Passamos por dificuldades

financeiras? Sim. Mas por isso temos que priorizar.” Para Bruna Botelho, uma entre os 2017 estudantes da cidade, o começo do semestre foi difícil. “As aulas oficialmente só voltaram dia 20 de fevereiro, mas como estou no último semestre, eu já estava tendo orientação de TCC. Por conta do ônibus, acabei faltando em quatro orientações”. A estudante de 23 anos cursa Rádio e TV em uma universidade de São Paulo e explica que apenas uma companhia de ônibus faz o trajeto até a capital. Como ela precisa, em função das orientações, ir três vezes por semana à faculdade, seriam cerca de R$ 454,00 por mês só em passagens. Com os pais desempregados e trabalhando como

Infográfico: Bárbara Camilotti

Beatriz Bermudes

freelancer, não teria como desembolsar esse valor. “Me dá um alívio, ainda mais porque me formo esse ano, então tenho certeza que conseguirei me formar”, conta. Na região Em 2017, das 20 cidades que compõem a Região Metropolitana de Campinas, apenas cinco oferecem algum tipo de auxílio-transporte aos universitários. Nova Odessa oferece subsídio de 50% a todos. Em Itatiba, os estudantes recebem um desconto proporcional à distância até a universidade. Em Valinhos, com base na renda, o auxílio varia entre 50% e 100%. Já em Paulínia e em Vinhedo, todos os estudantes têm 100% de subsídio.


Economia

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Cai TV por assinatura, aumenta streaming

Pesquisa Brasileira de Mídia indica redução de 105 mil pessoas com canais a cabo em casa Foto: Natália Leme

A estudante Anna Lídia Biasini, de 17 anos, prefere os serviços de streaming pela possibilidade de ganhar tempo e se divertir com as séries no ônibus, assistindo pelo celular

Natália Leme

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Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada no ano passado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), mostra que 31% das pessoas entre 16 e 24 anos assistem pelo menos uma hora de TV por dia usando plataformas de streaming, como Netflix, HBO Go e Hulu, entre outras. Esse novo jeito de assistir a programas vem acompanhado de uma redução no número de assinantes de TV paga no País. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) registrou, em janeiro de 2017, uma diminuição de 105,40 mil assinantes, em comparação com dezembro do ano passado. Esse número

representa 0,5% ao mês. A estudante universitária Giovana Labriola, de 26 anos, cancelou a TV por assinatura no ano passado e agora assiste TV pelo Netflix. “Era cliente há muitos anos. Porém, o custo foi subindo cada vez mais e ficar apenas com a Netflix passou a ser uma alternativa melhor para minha renda. Mesmo comprando um pacote com mais possibilidades, não tenho intenção de cancelar minha assinatura [de streaming]”. O comportamento de Giovana é uma tendência de acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia. Somente 3% dos respondentes do levantamento informaram intenção de cancelar o serviço de streaming. Enquanto isso,

84% disseram que continuarão a pagar pelo uso da plataforma, por apresentar grande variedade e novidades toda semana. O professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) João Massarolo vem acompanhando o processo de migração da TV por assinatura para essas plataformas. “Os jovens estão preferindo assistir sua programação em outras janelas, como internet e celulares. O conteúdo pode ser acessado da forma que o espectador quiser e do modo que desejar. Também existe a possibilidade de fazer maratonas de séries, o que se tornou um hábito social e chama atenção de empresas”, explica o professor. Ele ainda salienta que a TV, nos moldes tradicio-

nais, representa um papel muito importante nas casas. Massarolo lembra que “48% a usam para assistir os vídeos sob demanda. Ainda é a fonte primária de informação de muitos. O que as novas plataformas de entretenimento e informação formam é um universo que transforma a TV num portal de acesso a conteúdos que estão conectados”. Anna Lídia Biasini, de 17 anos, está na fase de cursinho e raramente tem tempo de acompanhar os programas que passam na TV aberta. As plataformas de streaming passaram a ser uma opção para acompanhar as séries preferidas. “Eu acabo assistindo pelo celular no ônibus voltando para casa. Assim, economizo tempo de estu-

do, também consigo saber o episódio que parei sem me preocupar se perdi um dia, como na TV aberta.” A tendência, de acordo com Massarolo, é de aumento do número de plataformas de vídeos sob demanda (VOD), com oferta de conteúdo segmentado, distribuído por nichos e a preços cada vez mais acessíveis. Outros suportes Não é só na televisão que os serviços de streaming estão chamando atenção. Os aplicativos de música como Spotify ou Applemusic fizeram o serviço crescer 500%, ajudando a recuperar a indústria da música que há muito tempo não tinha perspectiva de crescimento.


Economia

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Brasil é líder em economia compartilhada Modelo baseado em trocas, aluguéis e empréstimos é solução para tempos de crise

Fernanda Perez

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criadas desde então. Rodrigo Vieira da Silva, de 30 anos, está desempregado desde fevereiro de 2016 e viu na economia compartilhada uma forma de reduzir os gastos de casa. Ele mora com a mãe no bairro Nova Europa, em Campinas e usa o aplicativo Tem Açúcar? para alugar objetos dos seus vizinhos como furadeira, caixa de som e até uma bicicleta. Após ver que o aplicativo era uma boa forma de economizar, ele mostrou para os amigos e também começou a realizar trocas de eletrônicos e eletroeletrônicos entre os familiares, como o ferro de passar que a tia não

Foto: Fernanda Perez

e acordo com pesquisa realizada pela empresa de consultoria PWC, divulgada em dezembro de 2016, a economia compartilhada – baseada em aluguéis de curto prazo e troca – deve crescer até 65% nos próximos 8 anos. Brasil, México, Argentina e Peru são os países que contam com o maior número de iniciativas nessa área. Os quatro países representam 69% das iniciativas na América Latina, de acordo com o Primeiro Relatório de Economia Compartilhada, elaborado pela Escola de Negócios IE e pelo fundo

Multilateral de Investimentos (Fomin). Só o Brasil, representa 32%. A economia compartilhada ou colaborativa, movimento que surgiu em 2008, quando o mundo começava a encarar uma recessão e as pessoas buscavam pela internet produtos e serviços mais baratos, baseia-se nos conceitos de alugar, trocar, colaborar, emprestar e compartilhar, que passaram a ser usados com mais frequência, principalmente nos setores de eletrônicos, prestação de serviços, ferramentas elétricas, itens domésticos, bicicletas e vestuário. Até aplicativos e feiras com essa finalidade já foram

Rodrigo Vieira da Silva, desempregado há dois meses, usa aplicativo para alugar e emprestar objetos

usava mais, trocado por uma batedeira antiga da mãe dele. “Depois que eu passei a usar a economia compartilhada na minha vida, eu tenho conseguido guardar uma boa parte do dinheiro que ganho fazendo bicos e ajudar a minha mãe. Só com as coisas que trocamos, já conseguimos economizar pelo menos uns R$ 600”, afirma Silva. O aplicativo Tem Açúcar?, disponível para Android e IOS, foi criado em 2014 pela carioca Camila Carvalho, que trabalhava como modelo. Como propósito, ela pretendia facilitar o contato com pessoas que pudessem fazer as trocas, os empréstimos ou pequenos aluguéis, como uma opção ao consumismo exagerado e desnecessário. O aplicativo tem cerca de 126 mil usuários e já está presente em 23 países. No Brasil, está presente em 12,5 mil bairros. Ao se cadastrar, a pessoa escreve o que está precisando. O aplicativo manda, então, um aviso a todos os usuários do bairro, usando a georreferenciação. Assim, quem tiver o produto disponível entra em contato e os “negócios” são fechados. Segundo o economista Eli Borochoviski, professor de finanças da Faculdade de Administração da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), a sociedade brasileira, de forma generalizada, tem por hábito não pensar na coletividade. Porém, com o aumento do desemprego no País e com a diminuição da renda das famílias, surgem ideias que acabam sendo compartilhadas. São roupas que passam por transformações e podem ser reutilizadas, caronas que ajudam na redução de veículos em circulação melhorando o tráfego e diminuindo a emissão de gases na atmosfera, eletrônicos que não são usados com frequência e tem até gente abrindo a cozinha de casa para receber convidados. Giovana Cuginotti, de 34 anos, e Damaris Adamucci, de 29, forma-

das em Relações Públicas, se conheceram na faculdade. As duas desenvolveram um projeto que tem como objetivo realizar feiras para trocas, reaproveitamento, reciclagem e hábitos sustentáveis. A iniciativa, já realizada em várias cidades do Estado, como Vinhedo e na Capital, reúne pessoas que querem trocar roupas, acessórios, pequenos objetos e livros. Para participar, basta levar até sete itens em bom estado, que passarão por uma triagem e, caso aprovados, receberão vouchers para troca. Com periodicidade a cada três meses, o Trocaí, como foi batizado, já realizou sete feiras desde novembro de 2015. Foram cerca de 3 mil pessoas envolvidas, 5 mil trocas e cerca de 600 quilos de roupas, objetos, brinquedos e livros doados para diversas instituições de caridade. Para Borochoviski, quando o indivíduo deixa sua zona de conforto, tende a criar e empreender. “A economia colaborativa tem sido uma aliada para essas pessoas. Muita gente tem encontrado soluções alternativas, mais baratas e ecologicamente corretas para driblar as dificuldades financeiras impostas pela crise política e econômica. Não é raro encontrar novos empreendedores que se dizem satisfeitos e muito mais felizes com o seu novo trabalho”, explica. Aplicativo é negócio O Tem Açúcar? tornouse a principal fonte de renda de Camila Carvalho. A cada download ou clique, ela recebe uma porcentagem direto do site e dos suportes de smartphones. Além disso, para melhorar os serviços digitais de apoio e as funcionalidades da plataforma, Camila Carvalho criou uma campanha e com o apoio de 395 internautas, ela conseguiu arrecadar R$ 61.562,00 através da página do Tem Açúcar? na web, vendendo camisetas, canecas, adesivos, tapetes e kit com enfeites para a casa, tudo com a marca do aplicativo.


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Mercado de trabalho

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Freelancers devem se atentar a direitos

Autonomia e liberdade de horários são vantagens, mas instabilidade exige cálculos

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Leis trabalhistas O advogado José Mário Alcocer, especializado na área trabalhista, explica que a Lei 6.019/74 assegura direitos e deveres aos empregadores e empregados de freelas. Segundo ele, existem duas situações quando se trata do mercado freelancer. A primeira é referente a empresas que contratam freelas por um período máximo de três meses. Nesse caso, o trabalhador tem direito a um contrato

Renata Dias e Camila Sutte são estudantes e, apesar de abertas a outras possibilidades, atuam como freelas

firmado por escrito e também à remuneração correspondente a dos funcionários da mesma categoria. “A jornada de trabalho deve ser igual, oito horas diárias com 20% de acréscimo em caso de horas-extras”, afirma. Ele também ressalta a existência de outros direitos como repouso semanal remunerado, adicional noturno, gratificação de natal, benefícios da previdência, FGTS, 13º salário proporcional ao tempo de serviço, férias, vale-transporte e seguro de acidentes. Já a segunda situação é marcada por empresas que optam por contratar freelas por um ou dois dias, livre de vínculos de contratos com os empregadores. “Isso ocorre com

Foto: Isabela Lopes

iberdade para fazer seus próprios horários, não ter um chefe e ainda poder variar suas atividades. Viver de freelas pode ter algumas vantagens, no entanto, antes de colocar a carteira de trabalho na gaveta, é preciso fazer muitas contas e pensar em ações em longo prazo. A dificuldade em achar um trabalho fixo fez com que a estudante de Direito Renata Dias, de 21 anos, se dedicasse a trabalhar temporariamente em divulgações de eventos, blitz de rádios, figurações, panfletagens e até mesmo como modelo. “Meu primeiro trabalho foi aos 18 anos, como modelo de noiva para um programa de TV e, a partir daí, nunca mais parei”, diz. Renata mora com os pais e o dinheiro que recebe de seus freelas é apenas uma renda extra para ajudar nas despesas de casa. A estudante, que ganha de R$ 120 a R$ 270 por dia de trabalho, afirma que é fundamental ter uma boa imagem e saber lidar com todos os tipos de públicos. “Você precisa saber se relacionar e ser muito comunicativo. Infelizmente, o salário varia muito, depende das horas de trabalho e, principalmente, do tipo de evento. É apenas um ‘bico’, não dá para ganhar a vida com isso”, comenta. Em contrapartida, Tatiane Franco, de 38 anos, hoje em dia ganha sua vida

somente com freelas. Ela mora sozinha e toda sua renda é voltada às despesas, não sobra nada para poupar. “Com essa crise, tive que arrumar meios para me virar. Ser freelancer é um trabalho digno como todos”, disse. Tatiane trabalha para empresas terceirizadas de Campinas, que sempre a chamam para fazer a segurança e as divulgações de eventos, como festas de faculdade, casamentos e formaturas. Porém, quando faltam eventos, o dinheiro também acaba fazendo falta no final do mês. “É preciso todo um planejamento para manter as contas em dia. É água, luz e despesas no mercado, mas eu dou conta do recado”, diz ela. Apesar da flexibilidade de horário, um freela precisa garantir que trabalhe o necessário para ganhar quanto espera no fim do mês. Fazer todo um planejamento e ter ciência das leis trabalhistas é fundamental para todo empregado.

Foto: Divulgação

Isabela Lopes

Tatiane Franco, 38 anos, vive de freelas, reconhece a instabilidade da função e se preocupa com previdência

empresas que preferem não assinar os direitos dos funcionários temporários, o que por lei não é considerado ilegal, já que não ocorre o vínculo empregatício. Nesse caso, o trabalhador temporário passa a ocupar também a posição de trabalhador autônomo. Acaba sendo vantajoso à empresa”. Além disso, Alcocer expõe que não é qualquer empresa que pode contratar diretamente um funcionário temporário, já que isso pode ser caracterizado como terceirização de atividade-fim da empresa, o que é proibido pela legislação brasileira. Por isso, é necessária a intermediação de uma empresa prestadora de serviço. Essa empresa intermediária precisa ter um cadastro específico junto ao Ministério do Trabalho (MTE) para poder fazer a contratação temporária. Nesse caso, o empregado será registrado pela empresa prestadora de serviço — não pela companhia onde ele irá, de fato, trabalhar. Questionada sobre contratos, Renata conta que nunca assinou nenhum contrato com empresas de freelas e que trabalha de semana e finais de semana para várias empresas com que mantém contato. “Eu sempre fico de olho nas redes sociais, porque é lá que as empresas postam que

precisam de ‘x’ funcionários, tantas horas, para determinados eventos”, diz a estudante. Segundo ela, após isso, a empresa faz uma seleção, entra em contato com a pessoa que se candidatou a vaga e marca o horário para comparecer na cede da empresa. Por sua vez, Tatiane também nunca assinou contrato com nenhuma empresa de freelas. Ela trabalha em alguns dias úteis e praticamente todos os finais de semana. Chega a ganhar por mês cerca de R$ 900,00. Sua única preocupação é com a previdência social, com que, por sinal, ela não contribui. Porém, o que a freelancer não sabia é que o tempo trabalhado como temporário também conta como tempo de contribuição para a aposentadoria, caso haja o contrato. Diferente de Renata, que almeja se formar, ter um trabalho fixo e não precisar se preocupar com o dinheiro incerto no fim do mês, Tatiane pretende seguir no ramo dos trabalhos temporários e ter sua liberdade de rotina e autonomia, mas não hesita em afirmar que se melhores oportunidades surgirem, ela estará disposta. “Temos que estar abertos a todas oportunidades, basta cada um avaliar o que convém ou não. Cada pessoa tem um estilo de vida, o que importa é ser feliz”, afirma.


Esporte

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Rúgbi é a modalidade que mais cresce

Pesquisa indica crescimento de 17% no número de praticantes; vôlei aumenta 11% Foto: Igor Batista

A equipe Cougars, de Vinhedo, treina em espaço cedido pela Prefeitura Igor Batista

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e acordo com uma pesquisa da empresa inglesa de auditoria e consultoria Deloitte, o rúgbi (forma aportuguesada de rugby) é o esporte que possui o maior crescimento no Brasil. Desde 2011, a modalidade apresenta, anualmente, um aumento de 17% no número de praticantes, seguido pelas artes marciais com 16% e o vôlei com 11%. Em contrapartida, também é o esporte menos conhecido no País, onde 26% das pessoas que responderam à pesquisa revelaram não ter conhecimento sobre a modalidade. Algumas equipes que tiveram dificuldades em sua formação inicial passam por uma fase de crescimento. Um

exemplo disso é o atual campeão da Copa RMC (competição disputada por times da Região Metropolitana de Campinas), Cougars Rugby, formada por atletas da região que representam a cidade de Vinhedo. A Prefeitura do município disponibiliza o campo para os treinamentos. A equipe surgiu em 2011, quando o rúgbi passou a apresentar o maior crescimento. O capitão do time adulto e vice-presidente do Cougars, Luis Barbi, lembra que o grupo surgiu a partir de um agrupamento de vários amigos de cidades diferentes que criaram uma ata e um estatuto, além de solicitarem o CNPJ do clube. “Acompanhei esse crescimento. A equipe veio justamente na época em que o rúgbi começou a aparecer como o esporte que mais

crescia”, conta Barbi, ao se recordar da época em que o time foi fundado. O vice-presidente dá destaque a um motivo que acredita ter sido fundamental para o aumento do número de praticantes: “O rúgbi virou um esporte olímpico. Em 2010, foi inserido no programa e, em 2016, no Rio, foi disputado pela primeira vez em uma Olimpíada”, afirma. Além disso, cita outro fator que contribui. “O rúgbi é extremamente democrático. Você consegue introduzir em um time desde um baixinho de 1,60 metros e 60 quilos até um brutamonte de dois metros e 130 quilos. Então, há posições específicas para cada porte físico. Normalmente, alguém rápido joga pelas pontas e o mais pesado joga mais perto da base, onde

é necessário o porte físico.” Quem também explica o desenvolvimento é o professor da faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Sérgio Giglio. “Me parece que o rúgbi tem atraído pessoas que se unem por certos princípios em comum, para além do simples jogar, é claro. Cria-se assim um grupo que compartilha de elementos para além do jogo. Além disso, tal como o futebol, o rúgbi não necessita de grandes equipamentos e pode ser jogado em qualquer lugar”, diz. Mas, mesmo com o crescimento, há dificuldades enfrentadas pelos times. “Nós buscamos geralmente um atleta, porque jogador profissional é muito difícil. O esporte é pouco disseminado,

apesar de hoje já ouvirmos falar um pouco mais dele”, explica Barbi. De acordo com ele, por causa das desistências, é preciso trazer cerca de 10 atletas para os treinos para que um deles permaneça no time. Fatores como a falta de tempo por causa dos estudos ou do trabalho dificultam o ingresso de novos praticantes. O estudante de Jornalismo Rafael Dell Anese, de 27 anos, conta que se interessou pelo esporte e chegou a participar de dois treinamentos pelo time da PUC-Campinas, universidade onde estuda, mas a falta de tempo e fato da equipe se preparar exclusivamente para os Jogos Universitários de Comunicação e Artes (Juca) não permitiram que ele continuasse.

Automobilismo

Manter carro pode custar até R$ 1 mil por mês Usar transporte público ou Uber, nos mesmos trajetos, representa economia de quase 30% Felipe Foltran

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grande maioria dos jovens, quando completa 18 anos, sonha em comprar seu próprio carro. Mas poucos pensam no que vem após a aquisição. Mantê-lo é uma tarefa difícil e que, muitas vezes, demanda muito cálculo, uma vez que, nessa idade, a vida profissional está começando e os salários, em geral, não são os melhores. Usar o transporte público ou aplicativos como o Uber pode custar cerca de 30% menos. O caso de Rodolfo Trinca, de 23 anos, técnico de informação, ilustra bem. No começo do ano, conseguiu comprar um Citroen C3, mas, logo depois, alguns problemas surgiram. “Assim que comprei o carro, tive

um acidente e precisei mandá-lo para a oficina, além de acionar meu seguro. Mesmo cobrindo boa parte, ainda precisei pagar a franquia. Acabei tendo uma despesa que não estava prevista.” O problema de comprar um carro popular é ter que arcar com um alto valor de seguro. Nem sempre a escolha por um veículo mais barato irá garantir despesas menores. Quando analisamos as tabelas, vemos que os automóveis mais populares, como o Gol 1.0 e o Celta 1.0, têm valores de seguro mais altos, pois, embora com depreciação menor, são mais visados por criminosos. Carros mais caros, como o HB20, têm seguros menores. Após o carro retornar para sua garagem, Trinca conta que pôde perceber que

o veículo estava dando mais dor de cabeça do que ajudando. “Tinha que colocar gasolina toda hora. Eu não tinha pesquisado sobre o consumo e, infelizmente, ele ‘bebia’ demais. Viajava muito, pois moro em Americana, mas trabalho em Jaguariúna. Isso também desvalorizava meu carro, pois a quilometragem aumentava e esse é um ponto muito relevante na hora de revender.” A solução de Trinca é parecida com a de muitas

pessoas. Depois dos cálculos, concluiu que, por mês, gastava cerca de R$ 850, e preferiu usar o transporte público e o ônibus fretado. “Depois que eu vi que não valia mais a pena ter o carro, consegui vender por um valor muito abaixo do que paguei. Hoje em dia, gasto muito menos com transporte, podendo aproveitar meu dinheiro com outras coisas. Gasto R$ 620 com transportes, o que é uma boa diferença para mim.”

Outra alternativa é o Uber. De acordo com o veterinário Fábio Vilares, de 22 anos, o aplicativo é uma saída mais barata. “Eu não cheguei a comprar um carro, pois fiz os cálculos. Como trabalho perto de casa e a maioria das coisas ficam perto, resolvi usar o Uber.” Sobre os motivos para não usar o transporte público, Vilares explica que o Uber não tem os atrasos, as lotações nos horários de pico e é mais confortável.

Preço do automóvel

Seguro DPVAT

Combustível/ 300km*

Depreciação anual

Celta 1.0

R$ 29.821

R$ 93,87

R$ 450,00

R$ 3.881

Palio Fire 1.0

R$ 25.990

R$ 93,84

R$ 480,00

R$ 5.150

Gol 1.0

R$ 35.060

R$ 93,87

R$ 468,00

R$ 2.807

HB20 1.0

R$41.655

R$ 93,87

R$ 552,00

R$ 7.000

*Cálculo feito usando o preço atual da Gasolina


Saúde

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Março de 2017

Método alternativo descarta anticoncepcionais Estratégia considera, principalmente, temperatura do corpo e fluído cervical Melina Marques

U

do livro Contraceptive Technology, escrito pelo ginecologista e professor da Universidade de Atlanta, Robert A. Hatcher, o método, quando usado perfeitamente, tem 2% de chances de falha, a mesma da camisinha masculina. O Dispositivo Intrauterino (DIU) hormonal e a pílula anticoncepcional aparecem na lista como os mais eficazes com, respectivamente, 0,2% e 0,3% de falha quando usados perfeitamente. Mas, para as mulheres que optam por abrir mão do uso de hormônios, Maria Gabriela orienta combinar os métodos naturais com o

uso da camisinha. “Os ciclos variam muito de mulher para mulher e de mês para mês. Para uma completa eficácia, indico o uso da camisinha, principalmente durante o período fértil. É preciso lembrar também que apenas a camisinha, tanto masculina, quanto feminina, pode proteger o casal contra DST’s”, pondera. Se, para algumas mulheres, o método sintotermal pode significar a proteção contra uma possível gestação, como para a estudante Patrícia, para outras saber o dia mais fértil do ciclo pode ser a informação chave para conseguir

engravidar. É o caso da técnica judiciária Maíra Favier, de 29 anos. Depois de abandonar a pílula anticoncepcional, ela recorreu à percepção da fertilidade natural durante quatro meses. De “evitante”, como dizem, Maíra virou “tentante”. Grávida de oito meses, hoje Maíra espera por Luísa e reconhece os benefícios do sintotermal. “A adaptação é difícil, mas depois você acostuma. O que fica é o autoconhecimento, a importância de saber os dias férteis para se ter relação e o regaste de nossa própria fertilidade”, afirma. Arte: Melina Marques

m símbolo de liberdade sexual feminina dos anos 60, a pílula anticoncepcional passou a ter o uso questionado por algumas mulheres após a “viralização” de relatos em redes sociais que associavam o uso de hormônios com a ocorrência de trombose e acidente vascular cerebral (AVC). Uma alternativa encontrada por essas mulheres é a percepção natural da fertilidade. Os métodos, como o sintotermal, exigem habilidade, paciência e observação da mulher sobre o próprio corpo e prometem identificar o período exato em que está apta a engravidar. Preocupada com os efeitos colaterais, como as frequentes dores de cabeça, indisposição e falta de ar, a estudante de pedagogia Patrícia Bonami, de 22 anos, entrou para lista de mulheres que preferiram aderir aos métodos contraceptivos não hormonais. Após quatro anos de uso contínuo, ela trocou a pílula pelo método sintotermal, uma forma de percepção natural da fertilidade feminina que conheceu por meio de um grupo no Facebook, “Adeus hormônios: contracepção não-hormonal”, que conta com quase 125 mil usuárias. O método, como o nome já adianta, consiste em analisar, perceber e interpretar conjuntamente os sintomas do período menstrual, como as características do fluido cervical (produzido pelo útero para aumentar a sobrevivência dos espermatozóides dentro do aparelho reprodutor feminino), a posição, a textura e abertura do colo do útero, bem como a temperatura do corpo da mulher, que varia de acordo com ciclo. “Todos os dias pela manhã, antes de levantar, meço minha temperatura e anoto no gráfico. O termômetro basal, específico para esse uso, deve ser colocado embaixo da língua ou na vagina durante um minuto”, explica Patrícia, que contou com o acompanhamento de seu ginecologista durante o período de adaptação.

A temperatura do corpo da mulher, naturalmente em torno de 36 graus, altera-se conforme a progesterona, hormônio liberado na ovulação, aumentando até meio grau. Outras mudanças que podem ser analisadas são a coloração e consistência do muco vaginal. A ginecologista e obstetra Maria Gabriela Loffredo D’Ottaviano explica que, à noite, com o auxílio de um papel higiênico ou pela percepção do fluido na calcinha, pode-se perceber o quão fértil a mulher está. “Quanto mais úmido, transparente e lubrificante o muco estiver, maior será a probabilidade de a mulher engravidar neste período. Nos dias da ovulação é também possível notar o colo do útero macio, alto e bem aberto”, completa. Segundo o best-seller “Tomando conta de sua fertilidade” (em inglês Taking charge of your fertility), escrito por Toni Weschler, após três ciclos, a mulher já consegue estabelecer um padrão do período fértil. Os dados devem ser anotados em gráficos no papel ou em aplicativos gratuitos disponíveis para celulares. Patrícia, por exemplo, usa três: o Kindara, Clue e Meu Calendário, disponíveis para IOS e Android. Os nomes em inglês dos livros e aplicativos indicam a carência de literatura sobre o método no Brasil, difundido entre as mulheres pelas redes sociais e por traduções de obras estrangeiras. Pouco conhecidos entre os médicos, os métodos de percepção de fertilidade natural, como o sintotermal, dividem opiniões pela comprovabilidade de sua eficácia, que acreditam ser semelhante ao uso da tabelinha. Um estudo da Universidade de Oxford, realizado na Alemanha com cerca de 900 mulheres, mostrou que o método sintotermal é “altamente efetivo para o planejamento familiar”. Segundo dados


Saúde

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Brasil tem o maior número de jovens ansiosos No total, 9,3% apresentam condição; dado vem de pesquisa da OMS na América Latina Foto: Primella Leite

Primella Leite

O

s jovens brasileiros são os mais ansiosos da América Latina, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados, de uma pesquisa divulgada em fevereiro, mostram que 264 milhões de pessoas ao redor do mundo são ansiosas. No Brasil, de 207,2 milhões, 18,7 milhões apresentam algum transtorno de ansiedade, o que representa 9,3% da população no país. Esse dado significa que quase um em cada dez brasileiros enfrenta problemas de ansiedade, que inclui a chamada síndrome do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo e desordens de estresse pós-traumático, ansiedade social e ansiedade generalizada. Um outro estudo, agora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conhecido como Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (Erica), mostrou que quase um em cada três adolescentes brasileiros sofre de transtornos mentais comuns, caracterizados por tristeza frequente, dificuldade para se concentrar ou para dormir, entre outros sintomas. E, se não tratado, um problema desse tipo pode evoluir para distúrbios mais sérios. De acordo com o médico psiquiatra Fabio Barbirato, especialista em transtornos de ansiedade em adolescentes, um dos dados mais intrigantes dos relatórios é o aumento da ansiedade ser justamente entre os jovens, fenômeno que, segundo o especialista, tem em seus alicerces a popularização de novas tecnologias e o vício à internet: “Geralmente, as pessoas usam as redes sociais para mostrar só a parte legal da vida - fotos, viagens, amigos. Isso gera uma ansiedade nos jovens dessa geração, que se cobram para ter uma vida social e profissional bemsucedida”, comenta. Ele ainda acrescenta que, “se há a necessidade de estar o tempo todo conectado e isso acaba tomando conta da vida da pessoa ao ponto

O estudante de Engenharia Civil Pedro Diniz, de 19 anos, associa a ansiedade à tecnologia; remédios prescritos desde a adolescência

de ela se sentir mal quando não está conectada ou deixar de fazer outras coisas que são importantes para ela, então, a ansiedade pode ser ligada à tecnologia”. Pedro Diniz, de 19 anos, é estudante de Engenharia Civil e desde criança sofre com a ansiedade. “Desde pequeno, sempre fui muito ligado à tecnologia, videogame e computador. Hoje em dia as crianças aprendem isso com 6 anos, né?! Então eu passei a ter muitas crises de ansiedade. Não conseguia dormir e minha imunidade caía muito, pela falta de sono e de fome. Meus pais achavam que isso era por conta da idade, já que as crises pioraram com 14 anos, mas chegou uma hora em que eles precisaram procurar um psiquiatra que me

diagnosticou com a TAG [transtornos de ansiedade generalizada]. Na situação, o médico me contou que muitos jovens e crianças sofriam do mesmo mal que eu, já que estamos em uma geração 24 horas ligada à internet, jogos e redes sociais”, conta. Barbirato disse também que muitas pessoas confundem os sintomas de ansiedade e de depressão. “A ansiedade pode ser ligada a situações específicas, como a ansiedade ao falar em público, por exemplo. Também pode haver crises de ansiedade aguda em determinados momentos, mas em outros não, ou a pessoa ter ansiedade crônica, ficando o tempo todo com sentimentos e comportamentos de ansiedade. Essa última deve ser tratada

com remédios e é diagnosticada como doença”, explica. O caso de Diniz precisou ser tratado com benzodiazepinas, conhecidos como ansiolíticos, remédios específicos que variam conforme o grau de ansiedade. “Hoje, um pouco mais velho, mesmo com o remédio, sinto que minha ansiedade piorou um pouco. Ver essa ‘vida feliz’ dos outros pelas redes sociais, onde tudo é perfeito, nos deixa com medo de estarmos perdendo algo em nossas próprias vidas. Uma rede social não deveria ter esses efeitos. Ela deveria apenas tirar o melhor das pessoas”, desabafa. Segundo o psiquiatra, as crises de ansiedade podem provocar diversos sintomas físicos como taquicardia, dores

musculares e no estômago, falta de ar e tremores. Isso não significa que a pessoa vai sentir tudo isso ou passar por crises frequentes. O tratamento também não é generalizado e muda caso a caso. “O tratamento pode ser com medicamento e terapia. Existem quadros que são passageiros e tratando desaparecem. Há outros que, mesmo com o tratamento, podem ser apenas controlados, mas persistem. O certo é procurar um psicólogo ou psiquiatra, que poderá entender o caso e diagnosticar ou não como doença. Quanto à ansiedade devido à rede social, o jovem precisa entender que a vida de ninguém é perfeita e que o Facebook, o Instagram e outras redes são apenas vitrines sociais”, finaliza.


Comportamento

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‘Geração-canguru’ atinge nível recorde Jovens entre 25 e 34 anos que ainda moram com os pais somam 25% do total no Brasil

A

“geração-canguru”, formada por adultos entre 25 e 34 anos que moram na casa dos pais, chegou ao maior número já registrado no País, no qual uma a cada quatro pessoas dessa faixa etária moram com os familiares. Entretanto, esse aumento está longe de ser exclusivo do Brasil e está cada vez mais forte ao redor do mundo, especialmente com a crise econômica. Segundo um levantamento feito pelo site inglês Quartz, com dados da União Europeia e Estados Unidos, há uma grande quantidade de adultos morando com os pais em vários países pelo mundo. Na Eslováquia, que estava com grandes dificuldades financeiras na década passada, a porcentagem de “cangurus” chega a 56,6% de pessoas da faixa etária. Outros países que viveram fortes crises têm números parecidos, como a Grécia, com 51,6% de “cangurus” e a Itália com 46,6%. Por outro lado, países com elevada taxa de escolaridade, de renda per capita e um ótimo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), como a Dinamarca, Finlândia, Suécia e Noruega, são os que têm menor porcentagem de adultos que moram com os pais, chegando no máximo a 5%. Conflito de gerações Apesar de o financeiro ser apontado como o maior motivo para esse grande número de “cangurus”, essa não é a única causa para esse aumento. Para o psicólogo Elídio Almeida, especialista em Terapia de Casal e Famílias, um dos motivos para esse crescimento é o conflito entre as gerações. “Muitos pais tiveram um tratamento diferente nessa fase de transição para a vida adulta do que eles oferecem para os seus filhos hoje. Há quatro ou cinco décadas atrás, muitos pais empurravam os filhos para o trabalho para

ajudar no sustento de casa e também para casarem logo. Por isso, hoje, quem sofreu com isso não quer que os filhos passem pela mesma situação”. Esse medo acaba dificultando a saída dos “cangurus” de casa. Os pais são mais inseguros e preferem ter o filho por perto, enquanto que o filho pode aprofundar nos estudos, juntar dinheiro para comprar uma casa, viajar. Esse é o caso da Mirela Lunardi, de 34 anos. Após completar a faculdade de pedagogia, foi realizar o sonho de viver nos Estados Unidos e trabalhou por dois anos como babá de uma família americana. Após esse tempo longe da família, era de se esperar que ela procurasse o seu próprio lugar, mas não foi o que aconteceu. “Muita coisa pesou na hora de voltar a morar com os meus pais. Dinheiro, o desejo de conhecer o mundo, me especializar na profissão”. Morando com os pais, Mirela teve a oportunidade de fazer a sua pós-graduação em língua inglesa, entrou nas faculdades de Administração e de Letras, apesar de não ter completado os cursos. Também teve oportunidade de voltar aos Estados Unidos duas vezes, a passeio, e conheceu o Chile. Porém alguns problemas aconteceram nesse caminho. Sem um lugar próprio para morar, a relação com a família chegou a ficar muito desgastada. “Todo mundo tem um lugar para descarregar os problemas e o meu era em casa. Então nos meus momentos difíceis, sempre sobrava para a minha família. Teve épocas que eram brigas todos os dias, por motivos bem bobos”. Privacidade A falta de privacidade também é um fator que causa muita discórdia. Para Mirela, ter um tempo só para ela mesma, sem ninguém por perto, ter a liberdade de controlar o seu próprio horário, são detalhes que faltam em sua vida.

Foto: Rodrigo Sales

Rodrigo Sales

Mirela Lunardi, de 34 anos, mora com a mãe, Liduina, de 58 e teve oportunidade para cursos e viagens

Quem também reclama da falta de privacidade é Sara Dias, de 30 anos, formada em Moda. Para ela, um grande problema é o jeito que os pais a tratam, mesmo sendo adulta. “Os meus pais não entendem que eu cresci, que eu sei cuidar da minha vida”. Apesar de já ter condições financeiras de sair, ela não abre mão das vantagens de estar em casa “Tenho outros planos à frente, como fazer alguns

investimentos, além de que teria que abrir mão de muitos benefícios que eu tenho, como viajar, sair à noite, os luxos que eu tenho que, se morasse sozinha, com o tanto de gasto que isso dá, não seria possível ter”. Morar sozinho assim que possível pode ser bem desafiador, especialmente para quem não tem uma estabilidade financeira. Mas para o psicólogo Elídio Almeida, a pessoa tem

grandes chances de ganhar em maturidade e experiência. “Existe um amadurecimento propiciado por essa situação, de enfrentar o mercado de trabalho, junto com a vida independente, fora das garras dos pais, pois a pessoa já tem um contato com a realidade mais cedo e mais adequado que os “cangurus”, ela consegue construir um repertório de experiência mais amplo”, completa.

Termo vem de peça teatral Logo após a crise financeira mundial de 1988, uma peça teatral intitulada “Mr Kangaroo” era muito popular. Ela retratava um grupo de pessoas que viviam com os pais após a graduação e não conseguiam entrar no mercado de trabalho. No mesmo ano, o jornal francês L’Express noticiou que, entre os jovens de 20 a 25 anos, 80% deles na França, 60% na Espanha e 45% na Alemanha, ainda eram dependentes de seus pais e foram apelidados pelo veículo de “Geração-Canguru”.


Comportamento

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Voluntariado altera carreira de profissionais Recém-formados e universitários mudam rotina ao se envolverem com causas sociais

J

éssica Almeida tem 27 anos e decidiu largar a carreira de engenheira ambiental para se dedicar a trabalhos sociais na Jordânia. Daniele Ferreira, de 24 anos, está se formando em Ciências Contábeis, mas de números mesmo ela só quer saber daqueles que podem melhorar a vida na Comunidade Buraco do Sapo, para onde ela se mudou. Essas são apenas duas histórias de jovens que mudaram suas rotinas para ajudar o próximo. De acordo com Jéssica, ela e o marido, Cesar Almeida, perceberam a vontade de ajudar pessoas e viram na Jordânia uma oportunidade. “Descobrimos que nossa vocação e desejo era trabalhar com desenvolvimento comunitário e levar transformação para comunidades carentes ao redor do mundo”, conta ela, que criou o projeto GeraMais, uma ferramenta de geração de renda para refugiadas (sírias, iraquianas e egípcias), atualmente frequentado por 25 mulheres. O projeto tem como principal atividade a produção de artesanato e capacitação por meio de palestras e cursos. Do valor arrecado, 75% é repassado para as refu-

giadas e o restante usado para manutenção do GeraMais. Para desenvolver o trabalho no Oriente Médio, o casal arca com todas as despesas. Com passagens, foram gastos R$ 6 mil. Além disso, eles tiveram que levar o dinheiro para o aluguel: “Eles não aceitam pagamento mensal. O mínimo são seis meses. Então, gastamos mais R$ 9 mil”, conta Jéssica. O

ção em que a maioria encontra resposta no amor ao próximo e a Deus”. Essa inquietação foi o que fez Danielle mudar o estilo de vida, ao olhar a realidade do Buraco do Sapo, próxima ao local em que morava. Ela se perguntava como poderia desenvolver algum trabalho lá. Em 2016, conheceu o Projeto Filhos, em Bragança Paulista, e, por meio de uma escola de intervenção urbana, trouxe uma extensão para Campinas. Hoje, a jovem mora na comunidade com outros seis voluntários e oferece, junto com uma equipe, dez oficinas, dentre as quais aulas de HipHop, balé, artesanato, inglês, música, circo e costura. “A minha motivação é mostrar para essas crianças que existe outra possibilidade. Nós, do projeto, acreditamos que a arte, cultura e educação podem transformar a vida de uma criança pobre”, afirma Danielle. De acordo com Sofia de Almeida, presidente da unidade de São Carlos da organização não governamental (ONG) Aiesec (sigla formada por palavras de vários idiomas: Association Internationale des Etudiants en Sciences Economiques et Commerciales), a procura por voluntariado é grande. No ano passado, cerca de

Foto: Arquivo Pessoal

Alana Romão

Foi uma oportunidade única de autoconhecimento e de me redescobrir como pessoa

Yuri Matsumoto

casal, atualmente, vive de doações e solidariedade de amigos e apoiadores do projeto. De acordo com Lucas Cabral, líder da organização Jovens com uma Missão de Campinas (Jocum), somente no ano passado foram enviadas 47 pessoas para viagens fora do Brasil, dentre as quais, duas caravanas para a Turquia, ajudando os refugiados com roupas, alimentos e fraldas infantis. Para Cabral, muitos jovens se cansam da rotina que estão vivendo e “isso gera uma inquieta-

Yuri Matsumoto atuou como voluntária na Índia por meio de ONG

2 mil jovens se inscreveram para um intercâmbio voluntário na unidade. Na maioria dos casos, buscando uma experiência diferente da universidade. “Eles têm o anseio de ajudar o próximo, mas ainda não sabem como. O intuito da organização é desenvolver a liderança jovem, geralmente em um ambiente desafiador. O programa de voluntariado pode ser feito durante as férias. Com isso, podem conciliar com os estudos e, com o tempo, realizar algo maior.” Esse é o caso de Yuri Matsumoto, de 22 anos.

Pela Aiesec, foi para a Índia ensinar matemática. Ela arcou com os gastos de documentos, seguros e passagens, enquanto a ONG, com uma taxa fixa pré-determinada, custeou a acomodação e, pelo menos, uma refeição diária. Segundo a estudante, o intercâmbio de caráter social “foi uma oportunidade única de autoconhecimento e de me redescobrir como pessoa”. Com a ajuda de outros voluntários, ela também levantou recursos para reformar a escola, conseguir novos materiais e instalar Energia Elétrica.

Foto: Alana Romão

Foto: Arquivo Pessoal

Danielle Ferreira chegou a se mudar para o Buraco do Sapo para ser voluntária

Jéssica e César Almeida gastaram R$ 15 mil para irem à Jordânia ajudar refugiados


Cultura

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Março de 2017

Novas exigências dificultam eventos

Cena alternativa fica prejudicada, por causa da burocracia e falta de apoio da Prefeitura Foto: Pedro Massari 23-04-2016

Festa Sound Rua, em abril de 2016, realizada na Estação Cultura; antes, mensal, em razão do aumento das exigências será realizada a cada três meses em 2017

Amanda Pita

P

rodutores culturais da cena alternativa de Campinas reclamam que novas exigências da Prefeitura estão impedindo a realização de eventos. Jords MC, produtor da Sound Rua e Batalha de DJs, encontros que reúnem público de até 900 pessoas, diz que, após mudanças, a Secretaria de Cultura ficou mais burocrática e que, se antes, ele chegava a fazer entre dois e três eventos por mês na Estação Cultura, hoje não faz nenhum. Dentre outros pré-requisitos, passou a ser exigida a contratação de mais seguranças durante as festas. De acordo com Jords, as atividades que promove não geram lucro e tem como objetivo movimentar a cena hip hop na cidade. “O pequeno retorno financeiro ia para a

manutenção. De uma certa forma, a gente fica com prejuízo, pois tem a manutenção do aparelho de som, pelo menos dois seguranças externos”, diz. Ainda de acordo com ele, “essas questões culturais sempre tiveram vários problemas e um pouco de elitização dos espaços”. As mudanças, nomeadas por Jords, como “burocratização do espaço” começaram no meio do ano passado, após a mudança de algumas direções na Prefeitura. Antes, existia um apoio cultural na Secretaria de Cultura que viabilizava o feitio dos eventos. Isso deixou de existir desde que não existe mais o cargo de coordenador de cultura e tudo fica a cargo do secretário, Ney Carrasco. “Os eventos com porte maior, movidos por agências particulares dentro do espaço público, tiveram acesso mais rápido. Nós, que

fazemos esses eventos alternativos, que buscamos levar essa pluralidade para a cultura na região central, estamos tendo dificuldade para alcançar esse espaço”, observa Jords. Carrasco garante que as exigências são do Corpo de Bombeiros, que, desde os acidentes no rodeio de Jaguariúna, em 2009, e na boate Kiss, em 2013, está sendo mais rigoroso nas normas de segurança necessárias para a liberação dos espaços. “Se os coordenadores não seguiam a lei, eu não sei”, defende-se Carrasco. Questionado se a Prefeitura não poderia dar assistência, o secretário disse que, com a crise, está sem recursos e a Guarda Municipal não consegue colocar na rua o número de seguranças exigidos, calculado pela expectativa de público. “Não é desprezo, nem falta de vontade de incentivo. Esta-

mos sem recursos”, diz. Além das exigências, Jords garante que existe um preconceito dos funcionários da Secretaria em relação às festas organizadas na Estação Cultura. “Quando começou a evolução e a ter público, passaram a olhar de uma forma a tentar impedir essa e até outras ações que possam ser espontâneas. São eventos que têm o público alternativo maior, mais diversificado e que, aos olhos de uns, não é agradável esteticamente”, conta. De acordo com ele, já houve situações em que ouviu funcionários se referirem aos eventos e aos frequentadores de forma pejorativa. Carrasco rebateu e diz que sempre apoiou e defendeu vários segmentos, não só o do hip hop e que essas realizações ajudam a “tirar o estigma e educar o público”. Jords defende que os espaços públicos de-

vem ser ocupados e dar acesso a todas as pessoas. “Eu acho que está faltando as pessoas que trabalham lá [na Secretaria de Cultura] conhecerem o trabalho feito pela cultura alternativa. Está faltando ter essa conversa. A princípio, eles não estão se mostrando muito amistosos nessa questão. A gente está tentando pleitear uma reunião com o atual secretário e está tendo um pouco de resistência, com muitas exigências de documentos. Sobre esse assunto, Carrasco diz que é mentira: “Quem quer falar comigo fala. Não recebi nenhum requerimento”. Além de Jords, outros produtores culturais procurados pela reportagem não quiseram comentar o assunto, pois acreditam que podem sofrer represálias e terem ainda mais dificuldades para realizar os eventos.

Saiba+ Março 2017  
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