Page 1

Tiago Soares

ESPORTE

Rúgbi é o que mais cresce no país PÁGINA 9

Um produto da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas

*

14 de abril de 2015

*

Distribuição Gratuita

Campinas perde meio bilhão por falta de investimento em Turismo Faturamento do setor poderia ser até 40% maior, segundo diretoria da Prefeitura

Páginas 6 e 7 Bruna de Oliveira

Glicério em obras di�iculta mobilidade Lucas Badan

Principal via do Centro de Campinas, a Avenida Francisco Glicério está passando por obras de revitalização desde o início de fevereiro, causando transtornos para o trânsito e dificultando a vida dos moradores da região. Página 8

Nome social pode ser usado em escolas Foi aprovada a resolução que assegura o direito de estudantes travestis e transexuais de utilizarem o nome social em todas as escolas municipais. A medida atende às leis federais e estaduais que já previam esse tratamento nas instituições.

À procura de um lar

Página 4

Cresce apelo para doação de medula Campanhas para incentivar o registro de doadores de medula óssea movimentaram municípios da região, como Mogi Mirim e Jaguariúna, em ações recentes. Página 3

Acolhimento familiar sofre para encontrar pais temporários

Página 5

MEMÓRIA

CULTURA

MÚSICA

CINEMA

Sebo ganha destaque no restauro de discos

Museu itinerante bene�icia estudantes

Lollapalooza representa cultura dos festivais

Con�ira quais são as expectativas para Cannes

PÁGINA 10

PÁGINA 10

PÁGINA 11

PÁGINA 12


OPINIÃO

2

EDITORIAL

14 de abril de 2015

O alto custo da ine�iciência

É surpreendente (para não dizer estarrecedora) a informação trazida com exclusividade na manchete desta edição do jornal Saiba+. A cidade de Campinas deixa de arrecadar R$ 500 milhões ao ano simplesmente por não dar a devida atenção e investimento ao Turismo local. Isso significa que em um período de quatro anos, o mesmo de um mandato político, o município deixa de contar com R$ 2 bilhões em receita, mesmo que indiretamente. Em tempos de crise ecônomica e de possível recessão, com direito a cortes absurdos promovidos pelos governos de Dilma Rousseff (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) até mesmo na Educação, R$ 500 milhões por ano seriam mais do que

bem-vindos ao orçamento de qualquer prefeitura. Essas cifras representam mais que o dobro do prometido em 2013, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para as obras de pavimentação de dez bairros campineiros. Essa é mais uma prova de que a ineficiência do Poder Público custa caro. É mais uma evidência da práxis dos governantes brasileiros, que nas campanhas eleitorais privilegiam apenas o tripé essencial (Saúde, Segurança e Educação) e quando eleitos sequer colocam em prática seus planos de governo, em um verdadeiro estelionato eleitoral que se repete a cada quatro anos. Limitados, sem visão nem políticas de Estado administram os cofres públicos sem compromisso

CRÔNICA

As borboletas CAMILA MAZIN Não acreditava ser possível mais um dia sequer de espera. O coração parecia mais com a bateria frenética de uma banda de rock tocando em pelo Maracanã que outra coisa. Já se somavam 40 semanas, 280 dias mais precisamente. Mas naquele dia o sinal foi dado, soube que aquele era o momento. O desespero toma conta de tudo. A única coisa que eu conseguia enxergar eram borboletas voando ao meu redor, uma mais linda e mais brilhante que a outra. A leveza das suas asas levavam a minha alegria para longe. Em casa já estava tudo preparado. Até ali tudo normal, a dor aparecia mas logo ia embora. Deu-me uma vontade louca de dançar. Liguei o rádio e me dispus a bailar algumas músicas. Ao acelerar do ritmo as dores começaram a aparecer. A cada movimento, uma contração. Meu marido percebeu que desligar a música me faria muito bem, e assim o fez. As doulas já estavam em casa, as dores já estavam constantes, me sentia inquieta, sem posição e o suor era inevitável, mas ainda sim meu coração batia aceleradamente e as borboletas continuavam voando. Estava contando os minutos, os segundos.

algum com a população que os elegeram. Ainda assim, em Campinas, o esquecido Turismo representa 5% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal. Sem grandes investimentos, mas na mão de pessoas competentes, o setor contribui em R$ 1,5 bilhão para a cidade. Poderia ser mais. Com a devida atenção da Prefeitura e um bom planejamento, injetaria meio bilhão de reais a mais na cidade. Faria a roda da Economia local girar mais rápido. No entanto, é raro o administrador público que se preocupa em executar projetos com resultados de longo ou médio prazo. Todos buscam ações instantâneas, que lhe rendam bons dividendos eleitorais para se perpertuarem o máximo possível no

poder. Os interesses pessoais e mesquinhos se sobrepujam aos da coletividade. Essa é a regra, não a exceção. É por isso que urge agora uma reforma política sem precedentes que, em verdade, deve começar com cada eleitor, na cabine de votação. Talvez seja a única maneira de expurgar da política nacional os sanguessugas que dão de ombros para o interesse coletivo e que não fazem a mínima questão de bem governar, seja em esfera federal, estadual ou municipal. A ineficiência do Poder Público, aliada à latente corrupção da classe política brasileira, é nociva a ponto de levar ao colapso qualquer município, estado ou país. Faça o teste. Utilize os serviços públicos custeados pelos impostos pagos por

nós, contribuintes. Constate a qualidade do transporte, do serviço médico, do sistema de ensino, da segurança preventiva. Agora compare com a carga de taxas que somos obrigados a honrar. Por isso se fazem necessários governantes que levem a sério a Administração Pública. O eleitorado precisa ter a maturidade necessária para descartar os aventureiros. Não podemos mais perder tempo. Não podemos mais perder dinheiro. Não podemos mais perder a oportunidade de renovar a política. E, principalmente, não podemos perder a esperança de um país melhor. FLÁVIO MAGALHÃES Editor-chefe desta edição do Saiba+

ARTIGO O relógio apitou 15:30 em ponto. “Agora é com você. Força!”. As borboletas se desesperaram. E agora, o que eu faço? Minha vida está há poucos minutos de se transformar. Minhas noites de sono estavam saindo de férias, conseguia ver a minha casa cheia de brinquedos, as contas aumentando, as noites em claro no hospital, a preocupação com o horário, os amiguinhos, as namoradas... Enquanto minha cabeça borbulhava, só consegui respirar fundo e gritar. Talvez de alívio ou dor, quem sabe até medo. Mas de uma coisa tenho certeza, foi o melhor grito da minha vida. Nesse momento o mundo parou. Pude ver meu marido chorando, as doulas comemorando, a cortina balançando com o vento e ao fundo aquele chorinho que se aproximava. Meus olhos molharam e ali estava ele, o meu coração, a minha segunda vida. As contas, as noites de sono, a preocupação, nada mais importava, e agora, mais do que nunca as borboletas voavam. Em ordem me cercavam, me envolviam. Suas asas dançavam a mais linda valsa que pudesse existir, e as suas cores refletiam a minha alma, exalando o mais doce e agradável perfume. Se eu tivesse o supremo poder de parar o tempo, aquele seria o momento exato. E a única coisa que faria era voar com as borboletas.

O jornalista (e o diploma) como bem social PRISCILLA GEREMIAS Há quem diga que qualquer um possa exercer a profissão de jornalista. Afinal, nós temos o direito e a liberdade de nos expressarmos. Essa foi uma das razões defendidas por Gilmar Mendes, ministro-relator do processo que derrubou a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo em 2009, pelo Supremo Tribunal Federal. “A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade, tais como Medicina, Engenharia, Advocacia – nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão’’, disse Mendes na época. Ao refletir sobre o dano à coletividade, podemos citar vários casos em que o Jornalismo, ou jornalistas, foram os maiores responsáveis. Desde o caso “Escola Base” até mesmo em situações em que pessoas (não diplomadas) utilizaram da liberdade de expressão para a difusão de informações, como no caso da mulher que, após boatos e a divulgação de um retrato falado, foi linchada até a morte no Guarujá ao ser confundida com uma suposta

sequestradora de crianças que praticava rituais de magia negra. A ineficiência ou desonestidade de nós, jornalistas, pode acabar com vidas, ajudar a derrubar governantes e justificar crimes injustificáveis. A defesa pela obrigatoriedade do diploma não é pelo canudo, é pela valorização da profissão. Grandes grupos de mídia visam maior produção de conteúdo a um menor custo e a não obrigatoriedade resultaria na redução de contratações e na precarização do trabalho jornalístico. A exigência do diploma seria uma vitória para a sociedade e para os profissionais de jornalismo, que lutam por melhor piso salarial e pela regulamentação da profissão. De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os pisos atuais no Brasil variam de R$ 1,1 mil a R$ 3,5 mil. A retomada do diploma impulsionaria a aprovação de um projeto de lei que fixa o piso em R$ 3,2 mil. Ser jornalista não trata-se apenas de saber comunicar, mas de entender o processo de comunicação, como uma informação é elaborada, qual a relação do profissional com as

fontes, as técnicas de apuração, redação, edição e, principalmente, os interesses em jogo de cada veículo midiático. Há bons jornalistas que não passaram pela Academia, mas são exceções. Exemplos são colunistas, comentaristas, articulistas, que utilizam o espaço dos meios de comunicação para discutir e abordar o tema do qual são especialistas. Não podemos confundir a exigência do diploma com limites na liberdade de expressão, que por sua vez não deve ser confundida com liberdade de imprensa. Defender a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo é defender a regulamentação do exercício da profissão e a qualificação da atividade profissional. Contrariando a jornalista Lúcia Guimarães, que disse em 2012 que “o jornalismo é um bem social importante demais para ficar na mão de jornalistas diplomados”, eu afirmo que o jornalismo é um bem social importante demais para que a formação e o diploma sejam desprezados, visto que, assim como engenheiros e médicos, o jornalista pode causar danos à sociedade.

Um produto da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas - Desde 2006 CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO DIRETOR: Rogério Bazi DIRETORA-ADJUNTA: Cláudia de Cillo DIRETOR DA FACULDADE: Lindolfo Alexandre de Souza PROFESSOR RESPONSÁVEL: Luiz Roberto Saviani Rey (MTB 13.254)

EDITOR-CHEFE: Flávio Magalhães EDITORES: Ana Luiza Sesti Torso e Thalita Souza DIAGRAMAÇÃO: Flávio Magalhães e Vinícius Paráboa TIRAGEM: 2 mil exemplares IMPRESSÃO: Gráfica e Editora Z


SAÚDE

14 de abril de 2015

3

Mogi e Jaguariúna cadastram cerca de 600 doadores de medula óssea Municípios da região mobilizaram voluntários através de campanhas nas últimas semanas Flávio Magalhães

Campanha em Mogi supera expectativas do hemocentro

FLÁVIO MAGALHÃES Campanhas para incentivar o registro de doadores de medula óssea estão movimentando cidades da região. Em ações recentes, os municípios de Mogi Mirim e Jaguariúna conseguiram mobilizar aproximadamente 600 pessoas para o Registro Nacional de Doadores de Medula Òssea (Redome). Em ambos os casos, foi solicitado o apoio do Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para realizar a coleta de sangue e o cadastro dos voluntários. Em março, uma ação realizada na Faculdade de Jaguariúna (FAJ) atraiu cerca de 270 pessoas. A campanha foi encabeçada por estudantes dos cursos da área da Saúde. Os voluntários assistiram a uma palestra, preencheram um formulário para o cadastro e em seguida passaram

pela coleta da amostra de sangue. Após o exame, os dados dos doadores foram para o Redome. Trabalho semelhante foi realizado no Hospital 22 de Outubro, em Mogi Mirim. Mesmo marcada para a véspera da Páscoa, a campanha conseguiu mobilizar um número de voluntários maior que o planejado pela Unicamp. Foram 320 doadores. A expectativa é de que o Hemocentro retorne à cidade nos próximos meses. “Uma nova data já foi solicitada, mas ainda não há nada confirmado”, disse a assistente social da captação de doadores da universidade, Roberta Aparecida dos Santos. A ação em Mogi Mirim foi motivada a partir do caso do estudante Lucas Sanavio Borges, de 21 anos. Diagnosticado com leucemia e sem doadores de medula compatíveis na família, Lucas se tornou símbolo de uma campanha

criada pela irmã, Fernanda Sanavio Borges, e pela namorada, Gabriela Vischi. Batizada de #ForçaLucão, a corrente ganhou força através das redes sociais e da imprensa local, chegando a atingir mais de 18 mil pessoas pelo Facebook. Hoje, Lucas está recuperado da doença, mas ainda precisa do transplante para eliminar qualquer chance de recaída, de acordo com os médicos. O transplante de medula óssea é necessário para a cura de portadores de leucemias e outras doenças do sangue. Para ser um doador, é preciso ter entre 18 e 55 anos de idade, estar em bom estado geral de saúde e não ter doença infecciosa ou incapacitante. Atualmente, o Redome conta com cerca de 3,5 milhões de cadastros. A chance de um paciente encontrar uma medula compatível é de uma em 100 mil, segundo dados da Unicamp.

Uso de celular durante exercícios na academia pode afetar desempenho ISABELLA ROBAINA

ge concentração e foco, sem contar que o aluno atrapalha outros ocupando por mais tempo um determinado equipamento”, afirma a educadora física. O estudante Michel Canazava frequenta diariamente a academia e sempre está com o celular enquanto pratica musculação. “Não utilizo o

tempo todo, mas sempre que tenho um intervalinho entre uma série e outra respondo algumas mensagens. Acredito que ficar o tempo todo realmente pode atrapalhar meu desempenho”, conta o estudante. A discussão sobre o uso excessivo dos celulares expande o ambiente Isabela Robaina

Utilizar o celular durante o dia inteiro se tornou uma prática mais que comum na atual sociedade. Uma pesquisa realizada pelo aplicativo Locket em 2013, constatou que, em média, as pessoas checam o aparelho 110 vezes por dia. As academias não fogem à regra e cada vez mais os alunos praticam exercícios ao mesmo tempo em que mandam mensagens de texto, tiram fotos, ouvem músicas e diversas outras atividades. Para a educadora física da Academia Iron Company, Roberta Helena Carneiro, usar o celular durante as atividades físicas na academia pode influenciar tanto positivamente como negativamente o desempenho do aluno. “Hoje existe uma série de aplicativos fitness no mercado, que permitem copiar treinos, marcar intervalos, números de séries, entre outras

práticas, o que é bastante positivo para alguns alunos que já treinam há algum tempo e tem o mínimo de conhecimento”, destaca Roberta. “Entretanto, se utilizado para responder mensagens e ficar nas redes sociais pode influenciar de forma negativa no treino, pois a execução do mesmo exi-

O estudante Michel aproveita o intervalo na musculação para conferir o celular

das academias e pode ser um problema que vai muito além. “Ao observar o quanto a tecnologia ocupa seu tempo, energia e emoções, a pessoa já pode ter uma ideia se a relação está saudável ou começando a entrar no exagero. Se os contatos pessoais e as atividades habituais estão frequentemente sendo substituídos pelo uso de computadores, celulares, e outros meios, devese ficar alerta e começar a diminuir. Uma vida saudável inclui a diversidade de atividades”, explica a psicóloga e coach, Shirley Miguel. Ainda segundo a psicóloga, as tecnologias não são um mal na sociedade, mas o uso exagerado pode gerar problemas “Algumas pessoas podem usar da tecnologia de forma compulsiva e isso pode causar danos em sua vida social, financeira, gestão de tempo e até em aspectos de segurança pessoal”, alerta a especialista.


COTIDIANO

4

14 de abril de 2015

Travestis e transexuais poderão usar nome social em escolas municipais Medida inclui também capacitação de funcionários, mas não assegura nenhuma punição A Prefeitura de Campinas aprovou neste mês uma resolução que assegura o direito de estudantes travestis e transexuais de utilizarem o nome social em todas as escolas municipais. A resolução foi publicada no Diário Oficial e atende às leis federais e estaduais que já previam esse tratamento nas instituições. O nome social corresponde aquele adotado pela pessoa e identificado na comunidade. Para alunos menores de 18 anos será necessário a solicitação diretamente do responsável. Para a integrante do coletivo TransTornar, Amara Moira, a proposta é boa, mas não é suficiente e precisa ser melhorada. “A visibilidade que a resolução traz é ótima, pois vai deixando cada vez mais claro que nós existimos e temos direito à cidadania. No entanto, é um tanto quanto insuficiente no seu propósito, seja por não prever punição para quem a desrespeite ou por submeter os direitos de travestis e transe-

xuais menores de idade à aprovação de pai ou mãe. E que família apoia uma criança travesti ou transexual?”, apontou Amara. Segundo o professor do Centro de Formação, Luis Carlos Cappellano, que ajudou a elaborar o documento, a resolução é importante porque visa que não deve haver discriminação com qualquer um que queira adotar o nome social. “Essa resolução é histórica porque ela se posiciona muito bem em prol dos direitos humanos, para tratar todos com justiça e garantir que todos dentro das escolas tenham direito à liberdade de gênero”. Para garantir que a resolução seja implantada com sucesso, é previsto que ações pedagógicas ocorram nas escolas a fim de debater a diversidade de gênero para tentar minimizar as reações preconceituosas que podem surgir. De acordo com Cappellano, a medida pode ter um grande impacto na vida dessas pessoas e ajudará a diminuir o preconceito, estendendo o

tempo de estudo que é normalmente interrompido por conta de bullying homofóbico. “Esse segmento abandona precocemente a escola por causa de preconceito, e isso faz com que elas tenham subempregos, trabalhem à margem da sociedade. Se a escola passa a tratá-la como ela quer, isso vai diminuir o preconceito e essa pessoa não será obrigada a abandonar a escola em função do bullying homofobico”. Atualmente, algumas escolas têm parceria com o Centro de Referência LGBT, da Secretaria de Cidadania, para cursos de capacitação de funcionários e para cumprir com a norma da nova resolução, essa colaboração será ampliada para outras escolas. Apesar das diversas ações propostas, o diretor de Cidadania, Fábio Custódio, afirmou que extinguir totalmente o preconceito não é algo que provavelmente aconteça. “Não temos a ilusão de que o problema e de que todas as intolerâncias se resolvam pela educação, mas é necessário que a superação se dê também

Lú Santana relata que a aceitação não foi difícil, mas que chegou a ter dificuldades

Fotos: Paula Fonseca

PAULA FONSECA

Medida é boa, mas ainda insuficiente para Amara Moira pelo campo da informação e capacitação”. Como a resolução está amparada em leis federais e estaduais, não há nenhum tipo de punição previsto para quem a desacatar. Para Custódio, leis proibitivas devem ser implantadas para fortificar a resolução e garantir que ela seja colocada em prática. “Leis proibitivas têm de ser que ser implantadas, não há dúvida que a questão a fundo é educacional, mas são necessárias punições tendo em vista o alto índice de violência. A resolução precisa ser radicalizada”, afirmou Custódio. ESCOLA X ESTUDANTE A Administração prevê a aproximação de travestis e transexuais com o ambiente escolar. Para a estudante Lú Santana, de 15 anos, a aceitação não foi um processo tão difícil, mas houve dificuldades em relação ao nome social.

“Uma professora já havia me chamado duas vezes pelo nome de registro sendo que nas listas já constava meu nome social. Às vezes eu fico nervosa quando entra algum professor novo, mas eles me veem como uma imagem feminina, então têm que me chamar de Lú”, afirmou a estudante. A situação requer adaptação de ambos os lados, estudante e escola, e a diretora do colégio Francisco Glicério, Marielisa Andrade, que já teve uma aluna travesti, conta que mesmo com orientação alguns professores não seguiam o previsto na lei. “Eu me dava muito bem com ela, mas na época um professor a chamou pelo nome de registro e isso ocorreu mais de uma vez. Foi uma confusão, porque a aluna não queria que isso acontecesse e tivemos que ir acertando a situação”. Para Marielisa, o medo de sofrer preconceito é um dos fatores que os afasta do colégio.


COTIDIANO

14 de abril de 2015

5

Sem divulgação, acolhimento familiar sofre para atrair pais temporários Serviço pretende atingir 20 famílias, mas crescimento é comprometido por falta de difusão O projeto de acolhimento familiar da cidade de Campinas, conhecido como Sapeca (Serviço de Acolhimento e Proteção Especial à Criança a ao Adolescente), atualmente conta com somente 12 famílias acolhedoras. Sua meta é atingir o número de 20 famílias para ter um trabalho de qualidade. Para a coordenadora da instituição, Adriana Pinheiro, no Brasil não existe uma cultura de acolhimento familiar e garante que a falta de divulgação é o que prejudica o crescimento desse trabalho voluntário. O acolhimento é uma alternativa aos abrigos, em que famílias cadastradas acolhem, por no máximo dois anos, crianças e adolescentes de 0 a 18 anos incompletos, em medida de proteção, afastados de suas famílias de origem devido a problemas familiares, como maus-tratos, negligência, abusos sexuais, abandono e agressões. A partir do acolhimento é possível trabalhar no desenvolvimento e proporcionar uma convivência estável em um ambiente familiar. Enquanto as crianças estão em acolhimento familiar, a Vara da Infância e da Juventude irá avaliar se a família biológica tem condições de ficar com a guarda. São feitas todas as tentativas possíveis e quando determinam que não há possibilidade da criança voltar para essa família,

elas vão para a adoção. Em Campinas, são 29 abrigos entre casas de passagens, orfanatos, casa lar e acolhimentos familiares. Além do Sapeca, existe outro projeto de acolhimento familiar em campinas, o Conviver. “Não há um perfil especifico de família acolhedora, são dos mais diversos arranjos familiares, casal com ou sem filho, casal que já adotou, homens e mulheres sozinhos, viúvos ou separados, casais homoafetivos, enfim, independente da característica familiar o acolhedor deve acima de tudo cuidar e proteger”, explica a assistente social e coordenadora do Sapeca. Rosely Cardoso e Luis Cardoso, realizaram seu primeiro acolhimento familiar com duração de dois anos, e há 40 dias o casal entregou o bebê para a família que estava na fila da adoção. “A experiência foi ótima, uma das poucas coisas que fizemos corretamente e finalizou na forma que a gente gostaria. Entregar uma pessoa com uma saúde perfeita, para uma boa família”, diz o acolhedor. Sua esposa, a professora Rosely, explica que a parte mais difícil foi a despedida. “Participamos de tudo, desde quando ela chegou parecendo uma ‘Barbie’, até as primeiras palavras. O sentimento é de abandono, mas sei que ela está bem e foi para uma ótima família”, conta Rosely, emocionada.

Bruna de Oliveira

BRUNA DE OLIVEIRA

Lei prevê que crianças e adolescentes têm direito á convivência familiar e comunitária Para a coordenadora do Sapeca, o momento mais difícil é quando a família termina o acolhimento. Cada uma, no entanto, reage de uma forma diferente. Já para a criança o impacto não é de grande proporção, pois desde o inicio do acolhimento, a criança sabe que é algo temporário, que ela tem uma família, ou vai ter um lar. É dever de toda família acolhedora montar um álbum com toda a história da criança. Um dos pontos levantados pelo casal, é a falta de contato com os pais biológicos ou com os que adotaram a criança. Luis explica que era preciso ter um contato antes de entregar a criança, como dizer como é a rotina, seus gostos e entre outros. A política do Sape-

ca, entretanto, não permite um primeiro contato, apenas se a família que recebeu a criança permitir. Tratando-se de adoção, a família que acolhe não tem preferência no momento de adotar, é apenas um lar temporário, em que a família recebe uma guarda provisória e se a família que acolheu tiver interesse em adotar, é preciso seguir todos os tramites legais e entrar na fila da adoção. Para se tornar uma família acolhedora é preciso passar por um processo, em que o interessado entra em contato com a instituição, participa de reuniões, cadastramento e acompanhamentos com a equipe do Sapeca, formada por psicólogos e assistentes sociais. Após todo o processo, é realizado uma

análise com as famílias e depois recebem a resposta se estão aptos ou não para acolher.

Arte: Bruna de Oliveira

O SAPECA É o serviço público de acolhimento familiar mais antigo em funcionamento no país, e pioneiro nesse ramo. Foi criado em 1997, por duas assistentes sociais, que tinham como ideia o acolhimento ser uma alternativa aos abrigos. Na época, a proposta recebeucríticas, e iniciou com poucas famílias acolhedoras. No Sapeca ocorrem reuniões quinzenais com famílias acolhedoras, para sanar dúvidas. Em uma das reuniões, a equipe do Saiba Mais participou e ouviu diversos depoimentos das famílias, muitos assuntos foram levantados como a falta de um profissional, exemplo: Vara da infância e da juventude, psicólogos, especialistas e pesquisadores. As famílias acolhedoras pretendem implantar uma Associação de pais acolhedores, atualmente é uma ideia inicial, mas pretendem investir.

INFORMAÇÕES Serviço de Acolhimento e Proteção Especial à Criança e ao Adolescente (19) 3256-6067 sapeca@acolhimentofamiliar.org.br. Rua Latino Coelho, 540, Alto Taquaral, Campinas (SP)


ESPECIAL

6

14 de abri

Campinas deixa de arrecadar meio bilhã Cidade aposta em turismo de negócios e arrecada um bilhão e meio por ano; outra parcela do CRISTIANE DOURADO A cidade de Campinas deixa de arrecadar meio bilhão de reais por ano em Turismo. Isso porque 5% do Produto Interno Bruto (PIB) campineiro, ou seja, aproximadamente R$ 1,5 bilhão, vêm do setor e essa fatia poderia ser até 40% maior, o que significaria cerca de R$ 500 milhões por ano a mais em receita. A informação foi dada pela diretora de Turismo do município, Alexandra Caprioli, em entrevista ao jornal Saiba+. Um dos principais motivos apontados para essa perda de arrecadação é a falta de divulgação interna dos pontos turísticos e de lazer da cidade. “O campineiro conhece muito pouco a história da cidade, o que dificulta a divulgação dos pontos históricos e turísticos”, acredita Alexandra. “O morador tem que perceber que ele é uma peça essencial para atrair o turismo na cidade.” O cálculo da arrecadação é feito com base nos setores mais atingidos, principalmente o alimentício e o hoteleiro. A estimativa, porém, é de que 50 setores diferentes sejam movimentados. A Secretaria de Desenvolvimento Social, Econômico e de Turismo trabalha com pesquisas quantitativas, mas ainda é ineficiente. Alexandra conta que a Diretoria de Turismo estuda criar uma ferramenta mais eficiente para quantificar e qualificar o turismo na cidade. Políticas públicas de incentivo também são necessárias. Um exemplo é o Passe Lazer, que oferece desconto na tarifa de ônibus duas vezes ao mês, uma iniciativa da Prefeitura para impulsionar o mercado de turismo de lazer e de compras. Mesmo não sendo o ponto forte de Campinas, o turismo de lazer está presente. “Na parte de parques ele é mais explorado. Todo mundo já foi pelo menos uma vez na Lagoa do Taquaral”, diz Alexandra. Outro ponto são os patrimônios histórico-culturais, um tipo de turismo ainda não explorado nem divulgado na visão da diretora. “As

pessoas passam em frente, batem o olho, mas não sabem o que é aquilo e a história que tem por trás.” Alexandra aponta ainda alguns pontos importantes da região que são pouco visitados. “O MIS (Museu da Imagem e Som de Campinas), que fica no Palácio dos Azulejos, antiga sede da Prefeitura da cidade, o Jockei Club, que é uma entidade privada mas que é um patrimônio histórico, o mercado municipal e até a Praça Carlos Gomes”, lista. Uma das ações promovidas pela Diretoria de Turismo para solucionar a falta de informação dos campineiros sobre a cidade e seus pontos históricos é o passeio cultural de Natal, em que um guia acompanha os visitantes e conta a história de Campinas desde a sua fundação, passando pelo seu desenvolvimento, até os dias de hoje. Enquanto a divulgação interna é quase inexistente, a divulgação externa funciona muito bem. Mesmo sem possuir atrativos naturais como praias, montanhas ou neve, a cidade de Campinas é considerada turística, isso porque o turismo de negócios é muito forte. Por ano são visitadas cerca de 14 feiras no exterior, com o objetivo de apresentar Campinas e atrair empresas e empresários para o município. O turismo de negócios, aquele que atrai o viajante a trabalho, é o principal responsável pela alta taxa de ocupação dos hotéis da cidade, que em baixa temporada registram 67% dos quartos ocupados, podendo chegar a 100% nos finais de semana. Políticas de incentivo, como a baixa nos impostos, também atuam para fortalecer cada vez mais o turismo de negócios. “Mas ainda falta um grande espaço de eventos na cidade”, diz Alexandra. “Falta um espaço para mais de cinco mil pessoas, que possa abrigar eventos maiores”, acredita. ROTEIROS DISPONÍVEIS A Diretoria de Turismo, divisão da Secretaria de Desenvolvimento Social, Econômico e de Turismo, cria folders de divulgação com roteiros indicados

CAMINHOS TORTUOSOS

Rota turística de Campinas tem potencial inexplorado

PEDREIRA DO CHAPADÃO Revitalizada, a Pedreira do Chapadão é alternativa para a prática de esportes que oferece em seus 130 mil m2 dois playgrounds, academia ao ar livre, pista de skate, palco de eventos, dentre outros atrativos

MUSEU DA IMAGEM E DO SOM Referência de boa programação cultural na área do audiovisual, o MIS, localizado no Palácio dos Azulejos, reúne importante acervo sobre a história social e cultural da cidade e região

para quem quer conhecer a cidade, sua história, com pontos históricos de Campinas. O objetivo é apresentar os monumentos históricos do município. Os folders contém informações como localização, preços, passeios disponíveis, a história do local e sua importância histórica para a cidade. Os

roteiros preparados ficam à disposição do viajante em locais estratégicos, como a rodoviária, o aeroporto e a entrada do município. Um dos roteiros à disposição apresenta as “sete maravilhas de Campinas”, que são sete pontos turísticos escolhidos pelos campineiros em votação como os mais bonitos, visitados

e importantes da cidade. Atualmente, a Diretoria de Turismo trabalha em um roteiro afro, que destaca a relevância da cultura negra e das fazendas cafeeiras para o desenvolvimento da cidade. Outros roteiros estão disponíveis, como o Rural, com fazendas com passeios em meio a natureza, e o Mapa


ESPECIAL

il de 2015

7

ão de reais por não investir em Turismo setor que está na mira são os moradores da região metropolitana que buscam lazer e diversão Fotos: Anderson Epifano / Arte: Flávio Magalhães

JOAQUIM EGÍDIO Importante roteiro gastronômico de Campinas, o Distrito de Joaquim Egídio e Sousas são boas opções para o turista interessado em história, natureza e variada diversão noturna

Turístico, com todos os moradores da região mepontos históricos e cul- tropolitana que antes iriam até São Paulo para jantar turais da cidade. ou passear. “Campinas tem um destaque grande na ‘MINI SÃO PAULO’ Alexandra vê um gastronomia, é uma mini grande crescimento do São Paulo”, compara. Além da Gastronomia, Turismo campineiro nos últimos anos, especial- Campinas tem atraído um mente na Gastronomia. grande número de moraHoje, Campinas é um polo dores dos municípios da gastronômico, atraindo os região,principalmente aos

finais de semana, com teatros e eventos esportivos. Alexandra coloca que “nossa primeira meta, além de atrair o morador da cidade, é o morador da região metropolitana”. É um público possível de um milhão e trezentas mil pessoas, das cidades ao redor que vêm para Campinas atrás de diversão.

ANDERSON EPIFANIO A alta demanda que colocou Campinas no centro do Turismo de negócios e lazer terá pelo menos cinco novos empreendimentos relacionados a área nos próximos anos. Esses investimentos vão desde o sertor hoteleiro, ampliação de Centros de Convenções e transporte aéreo, até obras públicas visando o lazer do visitante. Uma das principais portas de entrada de turistas na cidade, o aeroporto de Viracopos, eleito o melhor terminal aéreo do país, prevê em seu projeto de expansão a construção de hotéis, shopping center e centro de convenções. Com investimento de R$ 9,5 bilhões nos 30 anos de concessão, o aeroporto se prepara para receber mais de 80 milhões de passageiros/ano e deve se transformar no maior e mais moderno aeroporto da América Latina. Só no primeiro bimestre de 2015 recebeu cerca de 1,8 milhão de passageiros, um aumento de 10,1% em comparação ao mesmo período do ano passado. Outra vitrine que vem atraindo os investidores é o espaço para feiras e convenções, localizado no anexo do Parque Dom Pedro Shopping, a Expo Dom Pedro tem capacidade para abrigar desde eventos para 30 pessoas, feiras de 7.000 m² e congressos para mais

de 2.000 pessoas, e pretende ampliar as suas instalações. Em decorrência de sua importância, o empreendimento abrigou entre os dias 10 e 11 de abril a 38º Aviesp (Associação das Agências de Viagens Independentes do Interior do Estado de São Paulo), considerada a maior Feira de negócios em turismo do interior. Outro importante investimento na área de turismo de negócios e lazer é o megaempreendimento que está sendo projetado pelo grupo Royal Palm Plaza Hotels & Resorts, que prevê investimentos de R$ 400 milhões para implantar um centro de convenções, dois hotéis, duas torres comerciais e um shopping. O novo complexo, inicialmente previsto para ficar pronto até o segundo semestre de 2015 ao lado do Royal Palm Plaza, foi adiado para o final de 2017 ou início de 2018. Em entrevista ao Saiba +, a diretora da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Social e Turismo, Alexandra Caprioli, disse que outros empreendimentos voltados ao entretenimento ainda estão em estudo, um aquário, uma pista de skate gigante e o túnel do vento. Desses três projetos somente a pista poderá receber verba da prefeitura, os outros dois são iniciativas de empresários. Divulgação

FAZENDA ROSEIRA Uma das últimas regiões do país a abolir a escravidão, Campinas possui no roteiro Afro uma ótima oportunidade para o turista conhecer a história da cidade. A sede da Fazenda Roseira e principal reduto da elite cafeeira no século XIX possui vasta programação cultural

Setor ganhará novos empreendimentos

Viracopos se prepara para passar por obras de expansão


ESPECIAL

8

14 de abril de 2015

Obra na Glicério promete melhorias, mas atrapalha mobilidade do Centro Avenida tem média de 43 mil veículos circulando por dia e sofre intervenção desde janeiro

Principal via do centro de Campinas, a Avenida Francisco Glicério está passando por obras de revitalização desde o início de fevereiro, causando transtornos para o trânsito e dificultando a vida dos moradores da região. O objetivo da obra é melhorar o trânsito do centro da cidade sem agravar a mobilidade urbana, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do município. Entretanto, há controvérsias sobre a real utilidade das obras. De acordo com o professor Fábio Muzetti, Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, “para quem anda de carro, vai ficar mais difícil o trânsito. Mas para quem usa ônibus e passa a pé, vai melhorar”, avalia. A avenida tem uma média de 43 mil veículos circulando diariamente e possui cinco faixas, sendo uma usada para estacionamento, que sofrerá interversão para ampliação da calçada, melhorando a circulação de pessoas no local, segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC). Durante as obras, as principais vias que serão afetadas por serem rotas alternativas são Rua José Paulino, Avenida Orosimbo Maia, Rua Delfino Cintra, Rua Sacramento, Rua Marechal Deodoro, Rua Barão de Jaguará e a Rua Isolete Augusta de Souza Aranha. Os moradores da região já estão sentindo na pele as consequências da revitalização. “O trânsito ficou muito complicado para quem mora na

Lucas Badan

LUCAS BADAN NATHÁLIA BUENO

Trecho a ser revitalizado na altura da Orosimbo Maia foi prometido para este mês região, tudo isso por conta da primeira fase da obra”, explica Eunice Rodrigues, moradora da região. “Fico imaginando como será quando as próximas quadras forem fechadas, pois

é após a Rua Delfino Cintra que realmente o trânsito fica carregado. A falta de chuva também está trazendo grande quantidade de pó por conta da obra afetando a saúde dos

moradores que moram aqui perto”, afirma. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico Social e Turismo, as melhorias com a revitalização serão a re-

tirada da fiação elétrica dos postes para serem colocadas no subterrâneo, melhoria na iluminação, substituição da canalização da rede de água e esgoto. Também serão estabelecidos padrões para propagandas e a padronização de bancas e pontos de ônibus, trazendo uma despoluição visual. O primeiro trecho a ser modificado é na altura da Orozimbo Maia. São duas equipes trabalhando dos dois lados da rua e a previsão de entrega é de 40 dias, que se completam agora em abril. A partir da Marechal Deodoro, na Francisco Glicério, a obra será feita quadra a quadra e, segundo a Prefeitura de Campinas, o prazo é de 30 dias por quadra até a conclusão das obras na Moraes Sales, em novembro deste ano. O transporte público também está sendo afetado. “Essa obra já está atrapalhando muito a gente, porque o trânsito já piorou, e nossas linhas ainda não foram afetadas, imagina quando forem”, conta o motorista de ônibus José Edvaldo da Silva. “Vamos ter que andar por ruas estreitas, e os passageiros vão ficar nervosos com a demora”, acredita. A revitalização tem seus pontos positivos e negativos, é um investimento na cidade, explica Muzetti. “É uma tentativa de recuperar o comércio de rua e valorizar a passagem de pedestres e tem seu valor”, destaca o Diretor do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, que também propõe soluções para sanar a questão do transito na cidade. “Está mais do que na hora de investir em metrô, ciclo-faixas, ciclovias, e ônibus articulados”, avisa. Fotos: Divulgação

Revitalização prevê novos pontos comerciais e paradas de ônibus, numa tentativa de valorizar o fluxo de pedestres que circulam pela avenida


ESPORTES

14 de abril de 2015

9

Rúgbi é modalidade esportiva que mais cresce no Brasil, diz pesquisa Apesar de ser confundido com futebol americano, rúgbi lidera crescimento, a frente do vôlei TIAGO SOARES

po da Associação Atlética Rugby Jaguariúna, ou Jaguars, como são popularmente conhecidos. O campo da cidade de Jaguariúna (SP), município vizinho de Campinas, é referência em toda região, por ter as dimensões recomendadas e pelo gramado adequado.

e mais preparados do que no passado”, disse, referindo-se ao crescimento da modalidade e ao jogo contra o Uruguai que acontecerá dia 18, pelo Campeonato Sul-Americano. Outro fato que comprova a presença do interior inserida no esporte é o cam-

Tiago Soares

O rúgbi é a modalidade esportiva que mais cresce no país atualmente. Segundo pesquisa feita pela Deilotte, empresa de auditoria, consultoria e finanças corporativas, o rúgbi tem crescimento constante de 17% ao ano. Em comparação, o esporte também foi eleito o menos conhecido com 26% dos votos da pesquisa. Um dos fatores que contribui para o crescimento do esporte é o retorno do rúgbi como modalidade olímpica em 2016, fato que não ocorria desde 1924. Para Plínio Sampaio, presidente do Pasteur, time da primeira divisão, “o rúgbi está crescendo principalmente no interior de São Paulo, que é onde tem mais espaço, porque tem apoio da prefeitura, tem mais campo. Em São Paulo tem trânsito, não tem espaço pra treinar e torna tudo mais

complicado”. Fato que comprova a aceitação e crescimento da modalidade no interior é o campineiro de destaque da seleção brasileira de rúgbi, Lucas Apud. “Nosso jogo evoluiu muito em pouco tempo de treino e com certeza estamos me-lhores

Jogador corre rumo ao “tento”, para marcar cinco pontos e ir para a “conversão”

Para o jogador do Jaguars Pedro Marquez, “o campo é referência técnica e nacional por ser o melhor de toda a região. E antes desse campo ficar pronto treinávamos no terrão com material improvisado, muitas vezes”, lermbrou. A própria transição do Jaguars de um campo de terra para um referência nacional, com ajuda da prefeitura, mostra a evolução da categoria. Outro fato que os estudiosos se perguntam é se o sucesso do rúgbi durará por muito tempo. O jogador do Keep Walking Felipe Barbosa responde. “Eu tenho três filhos e todos amam o rúgbi e a cada jogo que eu vou tem mais crianças que amam o esporte. Eu acredito num futuro ainda melhor”, destacou. Os interessados em praticar o esporte devem se comunicar com os clubes e desembolsar, em média, R$ 500 com materiais e R$ 20 com mensalidades.

Ballet Fitness é a nova aposta de exercício aeróbico das academias ANA LUIZA SESTI TORSO THALITA SOUZA O chamado ballet fitness é a mais nova modalidade das academias. A aula é diferenciada, mes-

clando passos técnicos do clássico ballet com sessões de agachamento, abdominais e flexões que podem eliminar em média 1,5 mil calorias por aula. O exercício ainda aju-

da a trabalhar a postura, respiração, equilíbrio além de agilidade, alinhamento corporal e força abdominal. Alana Carvalho, de 27 anos, é personal trainer e professora da Divulgação

Atividade mescla passos do ballet clássico com sessões de agachamento e abdominais

modalidade e afirma que “a dança, além de queimar muitas calorias, aproximadamente 790 em apenas meia hora de aula no nível avançado, trabalha a mente, pois exige concentração e esforço”. A profissional ainda complementa que o ballet fitness promove a perda de peso e a definição muscular. E para praticar a dança não é necessário ter conhecimentos de ballet. Alana diz que o ideal é a realização de aulas em uma frequência de duas a três vezes por semana. “Desse modo, é possível substituir a musculação pelo ballet fitness, sem atividades complementares”, explica a personal trainer. Quem adotou a prática do esporte foi a estudante de arquitetura Rosana Pinheiro, de 23 anos. Ela relata os benefícios da prática. “Faço o ballet fitness há três meses e consigo dormir melhor, porque

minha respiração melhorou muito. Eu me sinto muito mais feliz e disposta, todos deveriam praticar, inclusive os homens”, resalta. Para Alana, a modalidade é ideal para ambos os sexos, basta apenas disposição. “A procura é grande pelas mulheres, os homens são um ou outro. Há um preconceito pela dança, pelo ballet, mas todos podem praticar, tem que apenas estar preparado”, diz a professora. “No começo, por conta do circuito dos exercícios entre barra e chão, os alunos, principalmente aqueles que não estão acostumados com atividades físicas mais intensas, podem sentir dores musculares no dia seguinte, já que a atividade trabalha todo o corpo. Depois o corpo se acostuma, mas isso não significa que você pode relaxar”, explica Alana.


CULTURA

10

14 de abril de 2015

Sebo campineiro é destaque no restauro de discos de vinil e livros Estabelecimento já comercializou produtos com valores que variaram de R$ 1 à R$ 4 mil A particularidade e o carinho do aposentado Gilberto Vieira, 70 anos, pelos produtos clássicos (desde livros a discos de vinil) fez com que o sebo Casarão se tornasse o que é hoje, referência em mercadoria. Gilberto restaura LPs (long plays) e livros e os vende no melhor estado. A restauração é peculiar, com o objetivo de manter a aparência perfeita do produto. Os discos passam por um processo de verificação. Se houver riscos no produto, não vai à venda, a menos que o comprador queira usar somente para exposição. “Analisamos com muito cuidado o disco. Se tem como restaurar, a gente limpa, passa tinta na capa, tudo para manter o aspecto de novo e manter o produto bonito”. O sebo Casarão, de Campinas, traz inovação, cuidado e um diferencial na

Marina Lopes

MARINA LOPES

O aposentado Gilberto Vieira encontrou no restauro de discos uma fonte de lucro venda dos seus produtos. E seu proprietário carrega algumas paixões pela vida: a música, os discos de vinil e os livros. Há dez anos, Gilberto inaugurava o sebo no Centro de Campinas, onde per-

manece até hoje. Gilberto, que já tinha certa experiência nesse mercado por ser proprietário de mais dois sebos na cidade, um no Parque Dom Pedro Shopping e o outro no Campinas Shopping desde 1995,

estava seguro quando inaugurou o casarão. Com os livros, o manuseio também é de extremo cuidado. Por estar lidando com capas e páginas antigas, Gilberto garante que os livros também passam

por processo de restauração, deixando as capas e as páginas com aspecto de novos. Antes disso, os livros não são colocados à venda. Mesmo com essa peculiaridade e diferencial o proprietário garante que não encarece o produto. Os discos variam muito de preço. O que encarece ou não o disco, segundo Gilberto, é o tipo de venda e a especificidade do produto. “Chegamos a vender um disco por R$ 4 mil, por ser um disco raro, com poucos exemplares no Brasil e muita procura”, afirmou, garantindo ainda que vende discos à R$ 1 dependendo do caso. Com os livros não é diferente, os preços variam de R$ 10 e R$ 80. Durante a entrevista, Gilberto falava com entusiasmo sobre seu comércio. A diversidade de clientes – desde jovens a idosos, mostra que esse mercado ainda tem muito que crescer.

Alunos e professores de Campinas são beni�iciados por museu itinerante O projeto “O museu vai à escola: proposta de democratização do Museu Universitário da PUC-Campinas” conduzido pela coordenadora, professora Dra. Janaina Valéria Pinto Camilo, cria um museu itinerante para levar parte de seu acervo até alunos e professores de escolas estaduais de Campinas. Ao todo, 17 unidades pertencentes a Diretoria Leste da Secretaria Estadual de Educação foram beneficiadas. A proposta tem como objetivo a educação, valorização e preservação do patrimônio cultural da cidade de Campinas. Segundo Janaina, a fruição desse patrimônio para dentro das escolas públicas é um meio de inclusão social e cidadania para os alunos da cidade, já que se trata de um museu que conta com peças que começaram a ser catalogadas nas décadas de 1940 e

1950. Estima-se que o museu abrigue cerca de 15 mil itens, entre peças museológicas e documentos históricos, livros e outras categorias. O Acervo Museológico é composto por cerca de dez mil peças, divididos em cinco coleções temáticas. Além de atender aos alunos da rede estadual, o museu exposto nas escolas será aberto ao público, benificiando a comunidade. O programa irá capacitar seus professores, principalmente os de História e Artes, a fim de torná-los multiplicadores junto com o processo do projeto. A iniciativa de democratização do Museu Universitário ganhou vida em razão do prêmio recebido, por meio do certame do Edital Programa de Apoio Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo (Proac) 2014 específico para difusão de acervos museológicos, onde

o Museu Universitário da PUC-Campinas foi o único do interior de São Paulo a ser contemplado. Segundo Simone Peixoto, que além de ser sócia de um ateliê de arte itinerante em Campinas, tem pesquisa em doutorado sobre colaboratividade na criação artística, “toda forma de arte deve ser tratada com pluralidade e não por exclusão”, já que algumas coisas são impossíveis de serem verbalizadas. Para o museu itinerante estão sendo priorizadas peças que fazem parte do acervo arqueológico, etnográfico e de cultura popular, pois através delas consegue-se falar mais sobre a diversidade cultural brasileira principalmente a diversidade indígena e o folclore popular. Todas as peças selecionadas pela equipe do Museu Universitário da Puc-Campinas serão fotografadas e impressas em banners para serem expostas nas escolas estaduais.

Lucas de Lima

LUCAS DE LIMA

Janaina Camilo é mentora do projeto ‘Museu vai à Escola’


CULTURA

14 de abril de 2015

11

Lollapalooza representa cultura dos maiores festivais de música do Brasil Como funcionam esses festivais e sua influência sobre o comportamento de uma geração Original de Chicago, o Lollapalooza chega em sua quarta edição no Brasil. O evento, realizado nos dias 28 e 29 de março, foi sediado pela segunda vez no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, e reuniu nomes como Pharrell Williams, Foster The People e The Kooks. Quase 140 mil pessoas ocuparam o autódromo entre os dois dias. Considerado o maior festival de música de São Paulo (ficando atrás, talvez, apenas do eletrônico Tomorrowland, que chega ao Brasil em sua primeira edição em maio), o evento se destaca por ser não só uma oportunidade de assistir a diversos artistas internacionais em um único dia, como de proporcionar, na capital paulista, a experiência da cultura de festivais internacionais. “Quando o show é solo, o público está lá apenas pela música do artista específico, enquanto em um festival nem sempre a música é, necessariamente, prioridade. As pessoas estão lá por diferentes motivos, para conhecer novos artistas, pela experiência, para passar um dia com os amigos e até pelo status”, avaliou Mariana Torres, estudante de promoção, organização e estrutura de eventos como o Lollapalooza. De fato, festivais de música de grande porte no Brasil, como o Rock in Rio ou o próprio Lolla, proporcionam ao público não apenas uma série de apresentações e de acordo com a psicóloga Juliana

Divulgação / Acervo Banda Zimbra

VANESSA DIAS

Banda Zimbra toca no Lollapalooza, em sua primeira apresentação em um festival internacional de música Marques “há toda uma cultura pop em cima dos festivais de música”. “É um momento ímpar em que várias tribos se juntam para um único propósito, já visto e consumido antes nas edições internacionais. Há um certo padrão de comportamento, e isso se reflete até na maneira que o público se veste”, disse Juliana. A estudante de jornalismo Beatriz Brito assistiu ao Lolla duas vezes, e emenda: “Existe uma diferença gritante entre um show visto num festival e um show solo. No festival, você tem contato com atrações e públicos diversos. A experiência de passar um dia dentro de um evento assim é única

– apesar do show ser mais curto, passar mais rápido. É, na minha opinião, uma experiência indispensável para alguém que gosta de música”. Por dentro do Lollapalooza Foram mais de 40 atrações a se apresentarem na quarta edição do Lollapalooza Brasil. Apesar de alguns imprevistos – como o cancelamento repentino de Marina and The Diamonds, uma das principais atrações – as 70 mil pessoas acumuladas por dia se mostraram satisfeitas com o som de Pharrell Williams e Foster The People. Há também, claro, o público apreciador da músi-

ca nacional presente no evento. Esse ano, além de nomes como Pitty e Mallu Magalhães, o festival abriu portas para bandas menores, como a Banda Baleia e a Banda Zimbra, que se apresentou pela primeira vez em um festival de porte internacional. “Já nos apresentamos em alguns festivais nacionalmente conhecidos, mas do tamanho e da relevância do Lollapalooza, nunca. Foi uma experiência sem precedentes para todos nós”, contou o baterista da banda Pedro Furtado. “Só nos influenciou de forma positiva. Em festivais, a banda toca não somente para seu próprio público, mas também para pessoas que nunca nem ouviram

sua música, que estão lá para ver outro artista. Isso é extremamente positivo pois, além de nos tirar de nossas zonas de conforto, nos dá a possibilidade de apresentar nossa música para novos ouvintes”, completou Pedro. Para Mariana Torres, estudante especializada na organização de eventos, festivais de música são de extrema importância para o cenário da música nacional. “Às vezes uma banda é conhecida em certo país ou região, mas não é tão conhecida no local do festival. É uma imensa oportunidade para o artista mostrar sua música e seu talento e ganhar espaço no meio musical da região ou do país”, disse ela.

EM ALTO E BOM SOM

Os maiores festivais de música do Brasil Arte: Vanessa Dias


CULTURA

12

14 de abril de 2015

As time goes by

Sono de Inverno

Cannes homenageia atriz de Casablanca no pôster de 68ª edição; confira o que vai rolar no festival em maio “Toque, Sam. Toque ‘As Time Goes By’”, diz uma melancólica Ilsa Lund (Ingrid Bergman) para o pianista Sam (Dooley Wilson) no clássico Casablanca, de 1942. É uma das frases mais marcantes do cinema, e a atriz que proferiu essas palavras, Ingrid Bergman, não levou nem mesmo uma indicação ao Oscar pelo papel que marcou sua filmografia. Difícil encontrar, mesmo assim, prêmio que essa sueca não tenha colecionado em sua carreira. Entre três Oscar, quatro Globos de Ouro, dois Emmys e até um César, no entanto, a atriz nunca saiu do Festival de Cannes com o reconhecimento por uma atuação. Agora, no ano do centenário de Bergman (que faleceu em 1982), o festival francês compensa esse esquecimento colocando-a como estrela do pôster da edição de 2015, que começa no próximo dia 13 de maio. “Eu acho, e isso não é uma unanimidade, que é o festival mais importante que a gente tem hoje no mundo. Eu acho mais importante do que o Oscar, porque o Oscar é muito voltado pro cinema americano, e Cannes não, ele é internacional de fato”, diz o cineasta e professor da PUC-Campinas, Cauê Nunes. Ele é diretor de Ao Redor da Mesa, curta-metragem baseado em um conto de Maurício de Almeida, que já está selecionado para participar de uma das mostras do festival. Focado na interação entre membros de uma

Divulgação

CAIO COLETTI

Ingrid Bergman é estrela em cartaz da edição de 2015 família reunidos para uma refeição, o curta será exibido na mostra Short Film Corner, onde as produções ficam disponíveis para executivos de estúdios e canais de televisão que porventura quiserem adquirir os direitos de exibição. “A concorrência em Cannes é muito grande, é gente do mundo inteiro querendo colocar seus filmes lá, então existe uma seleção bastante difícil, mas eu acho que o cinema brasileiro tem tido uma participação razoável no Festival de Cannes nos últimos anos, em curta-metragem principalmente”, analisa o diretor. O crítico João Nunes destaca o papel que Cannes desempenha desVanessa Dias

Ricardo Pereira, colunista de cinema do Bom Dia Campinas

de sua criação como plataforma para cineastas independentes. Ele cita Quentin Tarantino, que ganhou notoriedade em 1994 ao vencer a Palma de Ouro por Pulp Fiction. A seleção também costuma trazer à luz o trabalho de diretores ignorados pelo circuito comercial, caso do tailandês Apichatpong Weerasethaku, que venceu a competição principal em 2010. “Cannes não é um produto comercial vendável como o Oscar. É comum as pessoas assistirem a um ganhador de Cannes e não gostarem”, destaca o jornalista. A edição 2015 já decidiu também os presidentes do júri que vai escolher os filmes para a competição pela Palma de Ouro. Os Irmãos Coen, cineastas americanos com duas premiações em Cannes no currículo, foram os eleitos. “Esse ano tem uma característica diferente – esse ano vai ser comemorado também o aniversário do nascimento do cinema, e foi com os irmãos Lumière. Então Cannes já fez uma relação entre essa comemoração e a escolha desses dois cineastas para presidir o júri”, destaca Ricardo Pereira, colunista de cinema do Bom Dia Campinas.

Desde o lançamento da lista de filmes selecionados para a competição pela Palma de Ouro em Cannes 2014, Sono de Inverno (Kys Uykusu, Turquia/França/Alemanha, 2014) foi imediatamente tido como um dos favoritos à premiação maior do festival. Como sempre, uma série de fatores determinou esse favoritismo, mas o maior deles foi o currículo impecável do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, que já tinha cinco outras seleções para Cannes na bagagem, e um prêmio de direção em 2008, por 3 Macacos. Passando das 3h15m de duração, Sono de Inverno tinha toda a pinta de ser a culminação épica de uma carreira brilhante. Embora criar expectativas em Cannes muitas vezes já tenha se mostrado um exercício frustrante, dessa vez o diretor turco não decepcionou: seu colossal drama foi saudado, desde a primeira exibição, como um estudo profundamente acertado da solidão e da melancolia que domina a vida moderna. Emprestando muitos princípios filosóficos do trabalho do escritor russo Anton Tchekhov, Sono de Inverno é um exercício de aridez e empatia, mergulhando no mundo de seus personagens e mostrando como cada um deles funciona como uma ilha, isolada daqueles a sua volta, mesmo que em cons-tante contato social. Essa temática cai particularmente bem ao cinema de Cela, um mestre em localizar seus personagens no ambiente, compondo belíssimas paisagens que externam tanto sobre seu estado emocional quanto qualquer dos diálogos do filme, sempre intensos. O protagonista é Adin (Hall Beline), um ator aposentado que cuida do seu hotel em uma pitoresca região da Anatólia, e tira muito orgulho do seu status como monarca desse reino em miniatura. Tanto que aliena até a esposa, Ninhal (Melissa Soem), que desesperadamente tenta cavar algum espaço em sua vida em que não seja controlado pelo marido. Em seu melhor, Sono de Inverno é um retrato pungente das formas como nos afastamos uns dos outros com cada subterfúgio egoísta que escolhemos para fugir do nosso próprio vazio existencial.

Sono de Inverno é um exercício de aridez e empatia

Nem tudo são flores, no entanto. Quando se dá ao diálogo, o filme costurado por Ceylan (que assina o roteiro ao lado da esposa) os faz densos e, especialmente na segunda hora do filme, bastante longos. A inspiração literária do filme se mostra nessas passagens, necessárias para a construção de uma obra que faz de sua hercúlea duração um elemento importante para comunicar a mensagem, mas excessivas em seu desprezo pela tração dramática. Todo o resto de Sono de Inverno é surpreendentemente imersivo, fazendo um trabalho brilhante em não alienar o espectador com hermetismos e altas pretensões – são só essas passagens que expõem alguma fragilidade na forma como o diretor conduziu sua ambiciosa história. O trabalho que venceu a competição de cinema mais importante do mundo no ano passado é uma obra-prima imperfeita, que exige do espectador tanto quanto o recompensa. Bastante adequado que seja assim, visto que Cannes sempre foi um espaço que valorizou a vontade de experimentar e testar aquele que assiste. (Por Caio Coletti)

Saiba+ - Edição Abril de 2014  
Saiba+ - Edição Abril de 2014  
Advertisement