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Ficha técnica

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Propriedade, edição e distribuição: Gomes & Canoso, Lda. Rua São João, nº. 39, Repeses 3500-727 Viseu Telefone: 232 407 544 Telemóvel: 969 474 853 Directora: Olinda Martins Redacção: Ana Margarida Gomes e Lino Ramos

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Design e paginação: Miguel Gomes e Tiago Canoso Publicidade e marketing: Tiago Canoso Telefone: 232 407 544 Telemóvel: 969 474 853 Visite o nosso website em www.descla.pt

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06 — Muito mais que uma estrada 12 — “A rota da Nacional 2 é uma rota cultural” 18 — Chaves 22 — Vila Pouca de Aguiar 26 — Vila Real 30 — Santa Marta de Penaguião 34 — Peso da Régua 38 — Lamego 42 — Castro Daire 44 — São Pedro do Sul 46 — Viseu 52 — Tondela 54 — Santa Comba Dão 56 — Mortágua 58 — Penacova 60 — Vila Nova de Poiares 62 — Lousã 64 — Góis 66 — Pegrogão Grande 68 — Sertã 72 — Vila de Rei 76 — Sardoal 78 — Abrantes 80 — Ponte de Sôr 84 — Mora 86 — Coruche 88 — Montemor-o-Novo 90 — Ferreira do Alentejo 92 — Viana do Alentejo 94 — Aljustrel 96 — Castro Verde 98 — Almodôvar 100 — São Brás de Alportel 102 — Loulé 104 — Faro 106 — Atravessar a N2 numa Fiat Ducato

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Editorial

Cascalheira, Almodôvar | Fotografia: CM Almodôvar

Em Março deste ano a Associação de Municípios da Rota da Nacional 2 desafiou-nos a fazer uma edição temática sobre este percurso. Após percebermos o grande valor presente neste projecto, aceitámos a demanda e deitámos mãos à obra. Queríamos que esta Rota que vai promover Portugal de Norte a Sul também fosse um bocadinho nossa. São 739,8 quilómetros de estrada repleta de paisagens pitorescas, monumentos, património religioso, estâncias termais, gastronomia típica e bons vinhos. Engloba ainda quatro patrimónios da humanidade classificados pela UNES-

CO: o Chocalho, o Cante Alentejano, o Douro Vinhateiro e o Barro de Bisalhães. Desde Chaves até Faro, esta Rota atravessa 33 municípios, cada um com características únicas e distintivas que merecem ser visitadas. Viaje connosco nas próximas páginas, fique a conhecer melhor estes municípios e aproveite para planear as suas férias e visitar alguns destes locais. De carro, mota, bicicleta, caravana ou a pé; de uma vez só ou por etapas, a N2 pode ser feita de variadas formas. Viaje connosco, A equipa da Descla

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RodaClássica Zona Industrial de Mundão, Rua C, Lote 12 | 3505-459 Viseu, Portugal GPS 40º 40’ 46,05’’ N 07º 53’ 50,87’’ W Tel: +351 232 440 515 | Telm: +351 925 903 982 Fax: +351 232 432 408 geral@rodaclassica.com | facebook.com/RodaClassica


Muito mais do que uma estrada Fotografia: Tiago Canoso

Património cultural, gastronómico, termal, religioso, vínico e desportivo unem-se numa só rota, a Rota da Nacional 2. Viva tudo isto em 738,5 quilómetros de estrada, de Norte a Sul de Portugal. A Estrada Nacional 2, que liga Portugal de Norte a Sul, desde Chaves até Faro, é a terceira estrada mais extensa do mundo, com 738,5 quilómetros, logo a seguir à rota 66 dos Estados Unidos da América (EUA) e à rota 40 da Argentina. Durante muitos anos esta estrada foi a via de comunicação entre o Norte e o Sul de Portugal. Apesar de alguns dos seus troços existirem há mais de um século, havendo nomeadamente referências aos

fontanários, a Estrada Nacional 2 só foi consagrada a 11 de Maio de 1945, altura que em saiu um novo decreto relativo ao plano rodoviário e foi necessário proceder a uma nova classificação das estradas. Com o objectivo de promover e valorizar a estrada e os vários municípios que a integram, foi criada uma Associação de Municípios da Rota da EN2 em Novembro de 2016. Actualmente, pertencem a esta Associação 33 municípios: Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Vila

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Luís Machado, presidente da Associação de Municípios da Rota da EN2 e presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião

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de, Almodôvar, São Brás de Alportel, Loulé e Faro. Uma paixão e um privilégio

Real, Santa Marta de Penaguião, Peso da Régua, Lamego, Castro Daire, São Pedro do Sul, Viseu, Tondela, Santa Comba Dão, Mortágua, Penacova, Vila Nova de Poiares, Lousã, Góis, Pedrógão Grande, Sertã, Vila de Rei, Sardoal, Abrantes, Ponte de Sor, Mora, Coruche, Montemor-o-Novo, Ferreira do Alentejo, Viana do Alentejo, Aljustrel, Castro Ver-

Foi em Santa Marta de Penaguião que nasceu este projecto, da paixão que o município e o presidente da autarquia nutrem pela estrada. “Cresci a paredes meias com a N2, joguei à bola e fiz muitos jogos de criança na N2. Vivemos momentos inesquecíveis, principalmente nas corridas de Vila Real e nas romarias, nomeadamente na Senhora dos Remédios, em Lamego, em que contávamos os autocarros que passavam aqui”, relembra Luís Machado, presidente da Associação de Municípios da Rota da EN2 e presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião. “Quando iniciámos este projecto criámos uma grande aldeia de vizinhança, que neste momento “só” tem 681 mil habitantes. É a maior aldeia de

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Portugal, a aldeia da Estrada Nacional 2”, refere. A Rota da N2 engloba quatro patrimónios mundiais da humanidade: o Chocalho, o Cante Alentejano, o Barro de Bisalhães e o Alto Douro Vinhateiro. Tem um roteiro termal, barragens, turismo cultural e religioso. Reúne grande parte da gastronomia portuguesa e quase todos os vinhos. Para promover a gastronomia, pretende-se criar ementas características de cada local, que levem o turista a conhecer os produtos endógenos de cada região. Actualmente, já estão a ser planeadas a recuperação das casas dos cantoneiros e de alguns fontanários. “Fazer a Nacional 2 e principalmente viver a Nacional 2 é uma experiencia inesquecível”. Esta estrada pode ser feita a pé, de bicicleta, de mota, de carro, de caravana... Num dia, dois, uma semana ou até um mês. Seguida ou por etapas. “Queremos que a estrada seja uma referência para a

valorização dos nossos territórios e uma grande oportunidade para quem lá vive mostrar aquilo que de bom se tem no interior do país. Temos pela primeira vez a oportunidade de complementar o turismo de praia. Esta oportunidade nunca existiu antes. Estamos convencidos de que vai ser uma grande oportunidade e um grande privilégio para todos os que a possam fazer”, frisa. A associação já tem solicitações de vários grupos de turistas de várias nacionalidades que querem fazer a Nacional 2 e pretendem obter mais informações. “Penso que internacionalmente e na Europa está aqui de facto uma oportunidade para nós, diferenciadora”. Um projecto de experiências “Estou convencido de que quem fizer a Estrada Nacional 2 vai chegar à conclusão de que foi, de longe, uma das

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melhores férias que fez, um dos melhores programas turísticos que fez, porque vai ter a oportunidade de ganhar e sentir experiências. Este é um projecto de experiências, porque é um projecto de proximidade. E o nosso envolvimento e empenhamento são tão grandes que o turista que quiser fazer a Nacional 2 e ser recebido pelos autarcas de cada município vai poder fazê-lo. Estamos convencidos de que já neste Verão lançaremos o passaporte, para assegurar os carimbos de visita a cada município, e também a informação turística daquilo que já existe”, sublinha. Para além dos municípios envolventes, este projecto conta com o apoio das Infra-estruturas de Portugal, das entidades regionais de turismo e do Turismo de Portugal. “Conseguimos reunir num só projecto, num só produto, a maior oferta nacional. Mas se formos mais à frente e criarmos uma base de dados de

todos os produtos e de todas as oportunidades que cada um de nós pode oferecer, vamos ter certamente a maior base de dados nacional de oferta turística e de produtos regionais”. Uma das prioridades da Associação é tornar esta rota segura, cómoda e confiável. É preciso investimentos de segurança e de sinalização. O médio/longo prazo, a ideia de uma associação à Route 66 é aliciante. “Se daqui a cinco ou seis anos conseguirmos uma geminação com a Route 66, temos aqui um potencial fabuloso. Estou convencido que vêm muitos americanos de propósito para a fazer, mas estou convencido que todos os americanos que venham a Portugal a vão fazer”, afirma. “É um projecto que já não é nosso, porque ele vai viver anos e anos para além de nós. Esperamos que quando estivermos no sofá, de chinelos, nos lembremos que este projecto sempre cresceu e está vivo”, conclui.

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“A rota da Nacional 2 é uma rota cultural” Fotografia: Tiago Canoso

Cada um dos municípios que integram a rota da N2 tem algo distintivo e único, seja monumentos, paisagens naturais, termas, gastronomia, vinhos ou património religioso. A Rota da Estrada Nacional 2 é, antes de mais, um produto cultural. É com estas palavras que Odete Paiva, vice-presidente da Associação de municípios da Nacional 2 e vereadora da cultura da Câmara Municipal de Viseu, define este projecto. “A minha primeira preocupação é que desta estruturação resulte um produto cultural, uma identidade e uma mostra daquilo que Portugal tem de melhor de Norte a Sul”, afirma.

Com o aumento exponencial que o turismo tem sofrido nos últimos anos e, sendo este um dos eixos prioritários para a próxima década em Portugal, torna-se preponderante uma estratégia para atrair turistas, especialmente nas zonas que não se encontram no litoral. “Criar um produto turístico num país que está a aumentar significativamente a procura, inevitavelmente, vai trazer pessoas. Acreditando nisso é

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dete Paiva, vice-presidente da Associação de municípios da Nacional 2 e vereadora da cultura da Câmara Municipal de Viseu

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que criámos este projecto e estamos a desenvolvê-lo e estruturá-lo”, frisa. Cada um dos 33 municípios que integram a Rota da Nacional 2 tem algo distintivo. Seja pelos monumentos, paisagens naturais, termas, gastronomia, vinhos ou até por terem alguma região ou tradição considerada património da Unesco: “Cada município tem que trazer ao de cima aquilo que em si é melhor, é mais identificador, mais significativo e identitário. A partir dessa identidade constrói-se esta experiência nacional. Aquilo que nos une é a estrada nacional 2 e à volta dela havemos de crescer e estruturar um produto muito interessante”, sublinha Odete Paiva. Mas, como em todos os locais que começam a atrair turistas, é muito importante preservar a autenticidade das paisagens e dos locais, pois é isso que faz da rota aquilo que ela é. “Quando olhamos para

isto percebemos que temos um diamante ainda por lapidar e que temos aqui um espaço que é absolutamente fantástico para receber turistas e para lhes dar aquilo que eles procuram. Porque na maior parte dos sítios a autenticidade das experiências já está a ser posta em causa. Esta rota tem capacidade de se oferecer de forma autêntica e genuína com produtos autênticos”. A nacional 2 é uma oportunidade de conhecer Portugal. “Hoje, na Europa, há um interesse muito grande pelas rotas culturais: se dissermos a um turista estrangeiro que em 700 quilómetros pode conhecer o nosso país de Norte a Sul e ficar a conhecer diferentes modos de vida, é muito aliciante”. É este perfil de turista, que tem interesse na cultura e nas paisagens e que vai percorrer o país devagar, demorando-se em cada local para poder usufruir, que se pretende atingir neste projecto.

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Castro Daire - Eurico Moita, vice-presidente Acho que a N2 terá um impacto muito positivo, principalmente na área da restauração, do alojamento local e da gastronomia.

São Pedro Sul – Pedro Mouro, vice-presidente Todos os projectos que sejam supramunicipais têm uma valorização e projecção muito maiores. Como este projecto envolve muitos municípios de Norte a Sul do país com alguma projecção, vejo a rota daqui a alguns anos como um grande produto turístico nacional, e que de alguma forma pode ajudar a dinamiza esta zona interior do país e a trazer uma procura turística que não existia até aqui.

Sardoal – António Miguel Borges, presidente O que queremos é concertar de modo a que as pessoas percebam que Portugal não é só praia, mar, Algarve, mas é também toda esta riqueza que o interior tem. Temos uma diversidade enorme no nosso país. Além do mar temos a serra, a planície, temos tudo. Temos uma cultura, uma diversidade enorme, que pode ser percorrida pela Rota da Nacional 2.

Almodôvar – António Bota, presidente Não é só ter a estrada como uma passagem, é também relembrar o histórico do que foi a Nacional 2 e mostrar às pessoas que esta nova era do turismo permite utilizar o nosso património antigo, aquilo que tínhamos como mais importante, e reutilizá-lo com tecnologia moderna. 16 | Maio de 2017 | Rota da Estrada da Nacional 2 ...by Descla


Vila Pouca de Aguiar - Rita Dias, vice-presidente “Penso que terá um impacto muito positivo, até porque com as novas acessibilidades que foram feitas houve um desvio das pessoas para a extremidade da vila e do concelho. E, portanto, implementando este projecto as pessoas vão voltar a lembrar-se da estrada Nacional 2 e passar a história da N2 às gerações vindouras.” Tondela – Pedro Adão, vereador Acho que estamos a valorizar algo que estava esquecido. Sabemos que há muito investimento que tem que acontecer porque realmente há espaços que estão completamente abandonados. Há zonas do país onde eram criadas zonas de lazer com pequenos chafarizes, pequenos bancos e floreiras, que eram o descanso das pessoas. Hoje é preciso recuperar isso tudo para também valorizar mais a estrada. Isso vai levar algum tempo, mas se cada município fizer o seu trabalho acho que dentro de alguns anos temos aqui um projecto muito interessante e único na Europa. Mortágua Júlio Norte, presidente Temos muito potencial no inPenacova – Humberto Oliveira, presidente terior, ao contrário do que se Temos vários recursos para aqueles pensa, temos qualidade de que queiram fazer a Nacional 2 de vida e turismo de natureza, uma forma mais lenta, que queiram que é excelente. Temos a usufruir mais do território do que só a barragem da Aguieira que, passagem por ele. Queremos que as a nível de turismo de barrapessoas emerjam pelo território todo gem no interior não haverá e que, preferencialmente, visitem melhor a nível nacional, até todo o concelho. pela marina que tem e pela quantidade de utilizadores, nomeadamente estrangeiros praticantes de canoagem. A grande maioria dos medalhados dos últimos Jogos Olímpicos passou por Mortágua e pela pista de Rota da Estrada da Nacional 2 ...by Descla | Maio de 2017 | 17 canoagem que temos.


Chaves Fotografia: CM Chaves

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em Chaves que começa a nossa viagem. Vão ser cerca de 739 quilómetros a admirar belas paisagens, visitar monumentos, provar iguarias acompanhadas de um bom vinho e, quem sabe, relaxar nalgumas das estâncias termais que Portugal tem para oferecer.

Começamos pelas termas de Chaves, com uma água termal rara e única na Península Ibérica. Situadas na margem direita do Rio Tâmega, as termas de Chaves são exploradas desde o tempo dos romanos, há mais de 2.000 anos. As suas águas promovem o tratamento de patologias das vias respira-

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Vidago Palace

tórias, do aparelho digestivo e de doenças reumáticas e músculo esqueléticas. Perto das termas encontra-se a bonita Ponte de Trajano, com 12 arcos e 150 metros de comprimento. Com quase 2.000 anos, esta ponte constitui um dos melhores legados romanos da antiga Aquae Fla-

viae, nome dado antigamente a Chaves. Já dentro do centro histórico podem ser visitadas algumas igrejas e o castelo, do qual apenas permanece erguida uma torre de menagem e parte da muralha. Destaque ainda para os dois fortes que existem na cidade: o Forte São

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Francisco de Chaves e o Forte de São Neutel. Dentro do primeiro encontra-se actualmente instalado um hotel. Recentemente inaugurado, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em homenagem ao arquitecto flaviense com o mesmo nome, está num edifício imponente, branco e de linhas direitas, com a assinatura de Siza Vieira. Indepen-

dentemente do que estiver em exposição no momento, vale a pena a visita só para ver o edifício exterior. Antes de partirmos temos de provar alguns dos maravilhosos petiscos transmontanos, como o famoso fumeiro, os enchidos (salpicão, linguiças, alheiras), o cozido transmontano e para sobremesa, os pastéis de Chaves.

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18 a 21 Maio

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Arrastão da Grandre Pedra na EN2

Fotografia: CM Vila Pouca de Aguiar

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Vila Pouca de Aguiar

sta é uma das localidades em que a N2 atravessa o centro da Vila, apesar de esse troço de estrada ter outro nome, Rua Comendador Silva. Não se preocupe, está no caminho certo. Vamos passar por outras localidades ao longo da Nacional 2 que também deram nomes diferentes a pequenos troços da estrada quando esta atravessa o centro do município.

Esta vila situada no concelho de Vila Real já é considerada a capital do granito, pois tem mais de 100 pedreiras de onde são extraídas cerca de 40 mil toneladas de rocha anualmente, constituindo, assim, um dos motores da economia local. Um dos pontos mais interessantes a visitar em Vila Pouca de Aguiar é o Complexo Mineiro Romano de TresminasAliás, está a ser preparada uma

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Cabrito assado

candidatura deste espaço a património da UNESCO. Neste complexo mineiro produzia-se, além do ouro e da prata, chumbo e outros minerais. Recentemente requalificadas num projecto do arquitecto Álvaro Siza Vieira, as Termas de Pedras Salgadas são um local de relaxamento e descanso que merecem uma visita. A Água das Pedras, que provém de quatro nascentes de Água Mineral Natural de Pedras Salgadas, é aconselhado para

Nascente Pedras Salgadas

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Castelo de Aguiar

o tratamento de doenças do aparelho digestivo, colesterol e diabetes. Vila Pouca de Aguiar tem uma enorme diversidade de espécies, tais como lontras, o lobo ibérico e águias. O nome da Vila vem precisamente da quantidade de águias existente na região. Se gosta de desporto pode ver algumas das espécies de fauna e flora da região enquanto faz a ecopista de Vila Pouca de Aguiar, que tem três

percursos possíveis. Admire a paisagem e conheça algumas das aldeias típicas, tais como Tourencinho e Zimão. Nesta localidade que pertence ao Caminho Português Interior de Santiago, a castanha, o cogumelo e o cabrito reinam. Há anualmente, em Novembro, uma mostra gastronómica na vila onde se podem degustar ementas feitas à base destes produtos nos vários restaurantes aderentes.

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Casa de Mateus

Vila Real Fotografia: CM Vila Real

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oi em Vilarinho de Samardã, concelho de Vila Real, que viveu um dos mais importantes nomes da literatura portuguesa: Camilo Castelo Branco. Actualmente, a casa senhorial construída pelo avô do escritor é conhecida como Casa das Brocas e encontra-se situada na Rua

Camilo Castelo Branco. Terra de grandes nomes da História de Portugal, é também em Vila Real que se situa a Casa de Diogo Cão que, segundo diz a tradição, é o local onde terá nascido o marinheiro português que partiu rumo aos descobrimentos no século XV. Obra do estilo barroco e de

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Museu da Vila Velha

admirável expressão arquitectónica, o Palácio de Mateus foi construído pelo mesmo arquitecto que construiu a Torre dos Clérigos: Nicolau Nasoni. Este solar do século XVIII tem belíssimos jardins e um espólio museológico interessante, onde se destaca a edição dos Lusíadas de Luís de Camões, editada em 1816. Vila Real reúne dois dos quatro patrimónios da UNESCO

existentes nos municípios que integram a Rota da N2: o Douro Vinhateiro e o Barro Preto de Bisalhães. O processo de fabrico deste último está em vias de extinção, pelo que se encontra na lista de patrimónios da UNESCO que necessita de salvaguarda urgente. Antes de seguirmos para Santa Marta de Penaguião temos de provar uma vitela maronesa ou um cabritinho,

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Parque Corgo

acompanhados de um bom vinho do Douro. Para sobremesa há muitos doces típicos, difícil é escolher: Cristas de Galo, Pitos de Santa Luzia, Gancha ou Cavacórios. Destaque ainda para os Covilhetes,

uma espécie de empadas que devem o seu nome à pequena forma de barro preto de Bisalhães em que iam ao forno. Apesar de hoje em dia o molde já não ser de barro, o nome da especialidade mantém-se.

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Santa Marta de Penaguião Fotografia: CM Santa Marta de Penaguião

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is que chegamos a Santa Marta de Penaguião, aqui a estrada faz algumas curvas e contracurvas, mas é isso que permite admirar o cenário envolvente. A paisagem encontra-se pintada de encostas cheias de vinhas, com uvas que darão origem ao famoso vinho do Douro. Para degus-

tar estes famosos vinhos e conhecer um pouco melhor a sua história, pode visitar o Museu das Caves Santa Marta, que proporciona ainda uma visita guiada às antigas Destilarias. Há outros espaços de enoturismo no concelho que podem ser visitados, como a Quinta da Gaivosa, a Adega Horta Osório

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e a Quinta da Azinheira. O património religioso desempenha um papel muito importante na vila, existindo mais de 50 capelas, igrejas e santuários em todo o município, cada um com características distintivas e únicas. Santa Marta de Penaguião é um dos municípios que tem uma das casas de cantoneiro que se encontram ao longo de Rota da Estrada da Nacional 2 ...by Descla | Maio de 2017 | 31


toda a Nacional 2, a qual vai ser reabilitada para se transformar num espaço de lazer para os turistas. Ao passar pela estrada Nacional 2 podemos contemplar a Serra do Marão. Nesta localidade podemos provar vários pratos típicos como anho e cabrito com arroz no forno, açorda de Medrões,

caldo de castanhas, arroz de feijão com bacalhau cozido, manjar branco do Douro, cozido à Portuguesa, massa de feijão, feijoada à Transmontana. Para sobremesa propomos leite-creme, pão-de-ló e castanha assada. Os apreciadores de queijo podem deliciar-se com bons queijos de ovelha, cabra e vaca e requeijão.

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Peso da Régua Fotografia: CM Peso da Régua

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cada curva desfeita descobrimos novas imagens e sensações. Os socalcos dominam o cenário em e é difícil encontrar palavras que descrevam a sua beleza. Peso da Régua é o centro oficial da Região Vinhateira do Alto Douro, na mais antiga região demarcada do mundo,

património da humanidade desde 2001. Uma boa forma de contemplar esta paisagem é subir aos miradouros de São Leonardo de Galafura e Santo António de Loureiro. O rio Douro aparece lá no fundo. Antes da construção das barragens era a principal via de comunicação

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e transporte do vinho para o entre posto de Gaia. Para tal, criou-se um barco específico, o Barco Rabelo, assim chamado pela forma do leme (rabo) comprido. O Douro era de difícil navegação e os naufrágios frequentes, daí terem sido construídas capelas e ermidas nas margens junto aos pontos mais perigosos, onde os marinheiros apelavam à protecção divina.

Os passeios de barco e cruzeiro são, ainda hoje, uma boa forma de conhecer a beleza natural de Peso da Régua. É nesta cidade que fica o Museu do Douro, onde podemos ver diversos objectos materiais e imateriais representativos da identidade, da história e do desenvolvimento do Douro. Outra paragem obrigatória é o Palácio de Mateus, uma obra-prima do barroco desenhada

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Museu do Douro

pelo arquitecto Nicolau Nasoni, o mesmo que projectou a Torre dos Clérigos, no Porto. Enquanto caminhamos pelos jardins envolventes podemos saborear a doçaria conventual e os fa-

mosos “Rebuçados da Régua”. Quem chega à cidade é saudado com essa expressão pelas Rebuçadeiras, que, de bata e lenço brancos, vendem o doce mais apreciado da região.

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Santuário da Nossa Senhora dos Remédios

Lamego Fotografia: CM Lamego

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is que chegamos ao Santuário da Nossa Senhora dos Remédios. Vir a Lamego e não passar por aqui é como ir a Roma e não ver o Papa. Para lá chegar há que subir 686 degraus, dispostos em nove lances, ornamentados com capelas estátuas, fontes e obeliscos.

Num desses patamares, o “Pátio dos Reis», encontramos as imagens de dezoito reis de Israel, pertencentes à árvore genealógica da Virgem, e na base do escadório há quatro figuras alusivas às estações do ano. A Romaria de Lamego, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, é uma das maiores

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de Portugal. O momento mais alto da celebração é a grandiosa Procissão do Triunfo, realizada a 8 de Setembro, na qual os andores ostentam imagens sagradas puxadas por juntas de bois, como manda a tradição. As ruas ficam ricamente ornamentadas e as festas culminam com uma admirável sessão de fogo pelos quatro

cantos da cidade. A Sé Catedral, fundada em 1129, é uma das mais antigas do país e mantém a torre quadrada original, mas o resto do edifício  reflecte as mudanças feitas nos séculos XVI e XVIII, incluindo um claustro renascentista com uma dúzia de arcos. Um dos eventos mais conhecidos de Lamego é o Entrudo

Sé de Lamego

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Teatro Ribeiro Conceição

de Lazarim, na aldeia com o mesmo nome, considerado o mais genuíno entrudo de Portugal. Os Caretos, ostentando máscaras criadas por artesãos locais a partir da madeira do amieiro, saem à rua para fazer os testamentos da “comadre” e do “compadre”, revelando em público e em ambiente jocoso o que muitas vezes fica por dizer e que de outra forma

nunca seria dito. Não podemos sair de Lamego sem provar a tradicional bôla, feira de presunto, fiambre, vinha d’alhos, atum, frango, sardinha e bacalhau. O coelho bravo, o cabrito assado, os petiscos de presunto e os enchidos de porco são outras hipóteses, na companhia do biscoito da Teixeira ou dos “Lamegos”.

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Capela das Carrancas

Castro Daire Fotografia: CM Castro Daire

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s Termas do Carvalhal situam-se a quase 500 metros de altitude na freguesia de Mamouros, concelho de Castro Daire, e unem de forma exemplar o termalismo ao campo, à natureza, às tradições seculares e à gastronomia regional. Estamos em plena Beira Alta. A paisagem de fundo une a Serra de Montemuro ao rio Paiva num cenário memorável.

Na encosta desse rio fica a Igreja da Ermida, que é monumento nacional. Fundada no século XII por D. Roberto, monge francês, era constituída pela igreja e um mosteiro anexo, do qual restam algumas ruínas dos seus claustros. Também é conhecida por Templo das Siglas, devido aos numerosos símbolos gravados nas pedras. Pensa-se que sejam marcas dos

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canteiros que trabalharam na construção do templo, servindo como método para contabilizar o trabalho de cada artífice. Um outro templo, a Capela das Carrancas, destaca-se pela planta octogonal. Foi construída em 1776 por ordem de D. Manuel de Vasconcelos Pereira, Bispo de Lamego natural de Castro Daire, em conjunto com a Casa da Cerca, ao lado, servindo-lhe de capela privativa. Este e outros pontos de interesse podem ser admirados do alto de um dos oito miradouros

que existem no concelho. Para quem quer conhecer mais de perto o território, há os percursos pedestres do Paiva, dos moinhos e carvalhos, das minas e levadas, entre outros. À mesa não falta o Cabritinho de Montemuro nem a Vitela Arouquesa. Outros pratos típicos são o Arroz de Feijão com Salpicão, as Trutas de Escabeche do Rio Paiva ou as Migas, antes de chegar à sobremesa e ao singular Bolo Podre, ex-libris gastronómico de Castro Daire.

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São Pedro do Sul

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Orgão de Tubos, Convento de São José | Fotografias: CM Chaves

o maciço montanhoso do “Monte Magaio”, em S. Pedro do Sul, há quatro aldeias onde as casas são feitas de xisto: Fujaco, Covas do Monte, Covas do Rio e Pena. Esta última é uma das candidatas às “7 Maravilhas Aldeias de Portugal”. As povoações são abençoadas pelas centenárias capelas de S. Macário de Cima e a ermita S. Macário de Baixo. É um local envolto em tradições, rituais, mitos, lendas, crenças de cabras que matam lobos, de serpentes que comem homens e de santos que transportam brasas acesas nas mãos. O ex-líbris do concelho é, no entanto, o complexo termal de origem romana, com mais de 2.000 anos de história. As Termas de São Pedro do Sul são as maiores a nível nacional e estão entre as maiores e melhores da Europa. O primeiro

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rei de Portugal, D. Afonso Henriques, veio aqui para recuperar da fractura que sofreu na Batalha de Badajoz, em 1169. Outros monarcas lhe copiaram o exemplo, como de D. Manuel I (1469- 1521) e D. Amélia (1865-1951). S. Pedro do Sul é procurado não apenas pela qualidade das águas termais, mas também pela sublime paisagem natural que as envolve e que é propícia a actividades como passeios de jipe e BTT, rappel, slide, escalada, tiro com arco, canoagem ou rafting. A vitela assada é o prato mais conhecido, dada a qualidade da carne e a mestria dos temperos. O Cabrito à Lafões, assado no forno de lenha, o Arroz de Vinha d’Alhos e o de Carqueja, o Bacalhau com Broa e a Sopa de Feijão com Couve à Lafonense são outras ementas muito apreciadas, na companhia dos Vinho de Lafões, que estão a ser redescobertos. No fim podemos provar o Pão-de-ló de Sul, o Folar, os Caladinhos ou os Vouguinhas.

Aqueduto em São Cristovão de Lafões

Aldeia da Pena

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Sé de Viseu

Viseu Fotografia: CM Viseu

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Cava de Viriato é um dos locais mais emblemáticos da cidade de Viseu e, ao mesmo tempo, um dos mais misteriosos. De historiadores a arqueólogos, ninguém sabe ao certo quan-

do foi construída. Poderá ter sido um acampamento romano reconstruído pelos muçulmanos, mas a última teoria aponta para o projecto de uma cidade de poder na Alta Idade Média. Viriato, o herói lusita-

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Estátua de Viriato

no da luta contra os romanos, mantém-se indiferente a esses estudos. De espada na mão desafia quem passa junto ao monumento. No alto da cidade impõe-se a Sé de Viseu, uma das mais antigas de Portugal, construída junto a um primitivo templo suevo-visigótico que dataria

do século X, época em que a povoação foi capital de um extenso território limitado entre os rios Douro e Mondego. O edifício, começado em finais do século XIII, é um acervo de estilos decorativos – gótico, tardo-gótico, renascentista –, com um claustro que é um ex-líbris do Renas-

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Solar do Vinho do Dão

cimento em Portugal. O altar é de finais do século XX e, atrás dele, a capela-mor esconde o sublime cadeiral dos cónegos. Viseu é uma cidade de eventos culturais e de lazer. O Festival de Street Art, o Festival de Música de Primavera, os Jardins Efémeros, os Vinhos de Inverno e a bem conhecida Feira de São Mateus, uma das mais antigas feiras francas da Península Ibérica, são algumas das atracções ao longo do ano. Os turistas estrangeiros, sobretudo, admiram-se pelo facto de muitos destes eventos terem acesso gratuito.

Na hora de nos sentarmos à mesa, o rancho à moda de Viseu é o prato mais típico. A vitela de Lafões é uma especialidade que provém da região que lhe dá o nome e que inclui os concelhos de Oliveira de Frades, Vouzela e São Pedro do Sul e algumas freguesias dos concelhos de Sever do Vouga, Viseu e Castro Daire. Para adocicar a boca há os viriatos, as “rotundinhas” – afinal, estamos em Viseu –, a castanha de ovos, o pastel de Vouzela, a cavaca de Resende e o pastel de feijão, entre muitas outras iguarias.

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Tondela

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ara quem visita Tondela é obrigatório passar pelo Museu Terras de Besteiros, em pleno centro histórico, que conta a realidade passada, presente e futura deste território e dos seus habitantes. Recordamos, entre outros momentos, a chegada do caminho-de-ferro, o cultivo do linho, a pisoagem do burel com que se fabricavam as tradicionais capuchas e o desenvolvimento dos sanatórios na vila do Caramulo. É essa vila que queremos descobrir de seguida. Não tem a importância do tempo em que a ela acorriam pessoas de todo o país e até do estrangeiro para respirar os ares puros da serra a assim curar a tuberculose e outras doenças, mas guarda um exemplar museu, com obras de arte de inegável valor, entre as quais um quadro oferecido por Pablo Picasso, e uma colecção

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Museu do Caramulo | Fotografia: CM Tondela

automóvel não menos impressionante, onde podemos encontrar o primeiro carro produzido em série, o Ford T, entre outras viaturas históricas. Esta é uma terra de sabores apurados. O cabrito no forno, com batata assada e arroz de miúdos, a chanfana na padela e vitela assada no forno são confeccionados nas famosas assadeiras de Barro Negro de Molelos, que lhe conferem um

paladar particular. Os enchidos, os fumados e os peixes do rio com molho de escabeche completam a mesa regional. O mel do Caramulo, conhecido por “O Ouro da Montanha”, as nozes, as castanhas, os licores, a aletria, as mais variadas compotas e outros produtos endógenos destacam-se não só pelo paladar mas também pelas suas características intrínsecas.

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Senhora da Ribeira

Santa Comba Dão Fotografia: CM Santa Comba Dão

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m Santa Comba Dão reparamos na Casa dos Arcos, residência solarenga do século XVII cuja fachada de galerias e varandas alpendradas constituem o grande atractivo visual de Santa Comba Dão. Junto ao portal há uma lápide alusiva à visita a esta casa de D. Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra, em 1692, e de D. Pedro II de Portugal, seu irmão, em 1704.

António de Oliveira Salazar, ditador que governou Portugal durante quase 40 anos, é a personalidade mais conhecida da vila, mas restam poucas memórias físicas da sua vivência. Os únicos sinais são o largo que ainda mantém o seu nome e, na freguesia do Vimieiro, a Escola Cantina Salazar, avenida Dr. Oliveira Salazar, a casa onde nasceu e aquela que comprou quando já era presidente

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do Conselho de Ministros. Uma boa forma de descobrir o concelho é percorrer a Ecopista do Dão, que segue o trajecto da antiga Linha do Dão, encerrada em 1988 – são 49,2 quilómetros para fazer a pé ou de bicicleta, ligando Santa Comba Dão a Tondela e Viseu. Para revigorar forças há diversos pratos à escolha, do javali ao coelho, passando por ementas mais tradicionais como a chanfana, a lampreia e o bacalhau, os enchidos de porco, as bolas de bacalhau e carne com míscaros ou a broa de milho, entre muitos outros, tudo regado com o bom vinho do Dão.

Ecopista do Dão

Vista aérea de Santa Comba Dão

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Albufeira da Aguieira

Mortágua Fotografia: CM Mortágua

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Albufeira da Aguieira é um recanto paradisíaco com belas margens recortadas e arborizadas, pequenas ilhotas e ancoradouros. As suas águas são procuradas por atletas portugueses e estrangeiros de vela, canoagem, remo e sky aquático, mas também por visitantes desejosos

de experimentar um passeio de barco. O verde da floresta preenche 85% do território de Mortágua, quase se perde nos confins do horizonte. Ao percorrê-lo descobrimos paraísos naturais quase virgens, algumas espécies florestais autóctones, além de diversas cascatas, peque-

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Lampantana

nas cachoeiras e labirintos serpenteados de grande beleza. O concelho está ligado à célebre Batalha do Buçaco, que no século XIX opôs as tropas luso-inglesas ao exército de Napoleão Bonaparte. A memória persiste no Moinho de Sula, Posto de Comando do General Wellington, e no Moinho da Moura, Posto de Comando do General Massena. A esse acontecimento histórico está ligado um prato tradicional do concelho, a Lampan-

tana, feito com carne de ovelha e vinho e servido em caçoila de barro, peça do artesanato local. Os segredos de tempero e textura foram sabiamente guardados até aos nossos dias. Com o objectivo de divulgar e preservar a tradição o município realiza anualmente, em Outubro, o Fim-de-Semana da Lampantana. A ementa fica completa com arroz doce, Bolo de Cornos, Pastel Juiz de Fora e um dos vinhos do Dão aqui produzidos.

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Penacova

Doçaria Conventual do Mosteiro de Lorvão

Fotografia: CM Penacova

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Barca serrana do Mondego

s pedras estão dispostas como os livros numa estante. São quatzíticos silúricos com cerca de 400 milhões de anos e formam o mais importante monumento natural do concelho de Penacova e um dos mais originais de Portugal, a Livraria do Mondego, na margem direita do rio. Seguimos para o Mosteiro de Lorvão, um dos mais antigos da Europa, possivelmente fundado em meados do século VI. O edifício é conhecido por ter sido aqui que, no século XII, se fizeram as iluminuras de um dos 22 livros do Apocalipse existentes no mundo. A obra está actualmente na Torre do Tombo, em Lisboa, e em 2015 foi classificado “Memória do Mundo” pela Unesco.

Na margem esquerda do Mondego fica a Praia Fluvial do Reconquinho, com bar, apoios de praia, fluvioteca e animação garantida ao longo de toda a época balnear. Aqui perto há uma pista de pesca muito conhecida onde é possível encontrar espécies como a truta, a boga, o barbo e a enguia. A iguaria mais famosa de Penacova é, no entanto, a lampreia, existindo mesmo um festival a ela dedicado. E para completar cada refeição, nada melhor do que a doçaria conventual do Mosteiro de Lorvão. Uma boa forma de descobrir o concelho é a pé ou de bicicleta, pois existem vários circuitos pedestres, trilhos de BTT e trail running. Ou então descer o Mondego de canoa…

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Vila Nova de Poiares Fotografia: CM Vila Nova de Poiares

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ila Nova de Poiares é uma terra de emoções, saberes e sabores, ou não fosse a “Capital Nacional do Artesanato e da Gastronomia”. A chanfana, o arroz de bucho e os negalhos são alguns dos pratos mais conhecidos por aqui, assim como os objectos feito em barro preto, a cestaria, a latoaria, a tecelagem e a canastraria. A paisagem surpreende em cada recanto, do alto das serras do Carvalho e do Bidueiro às margens dos rios Alva e Mondego, passando pelo Parque das Medas e pelo Complexo de Piscinas da Fraga,

com seis piscinas naturais, espaços de recreio e lazer. Para emoções mais fortes há o Kartódromo de Poiares e as serras que envolvem o concelho estão cheias de trilhos para um agradável passeio a pé ou todo-o-terreno, em 4x4, BTT ou downhill. No centro da vila podemos visitar a Igreja Matriz, que possui uma torre com relógio de sol datada de 1744, bem como o Monumento “O Cristo”, com 17 metros de altura, que é um ponto de encontro da população em épocas festivas, romarias ou feiras populares.

Chanfana e doçaria tradicional

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Castelo de Arouce

Lousã Fotografia: CM Lousã

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astelo de Arouce. Segundo a lenda foi construído por um rei ou um emir de nome Arunce para proteger a sua bela filha Peralta enquanto ele se encontrasse em campanha no Norte de África. A imponente fortaleza tem origem duvidosa, algures entre os séculos X e XI, e impõe-se no alto da Serra da Lousã. O concelho é famoso pelas cinco Aldeias do Xisto, com destaque para a Cerdeira, onde os carros não entram, e

que é muitas vezes refúgio de artistas, havendo residências preparadas para o efeito. Ao longe podemos observar veados e javalis à solta, principalmente no mês de Setembro. Numa outra aldeia, o Candal, fica a Loja do Xisto, gerida por um grupo de artesãos de diversas áreas e onde podemos encontrar vários produtos como doces, licores, vinhos, enchidos e mel. No morro frente ao Castelo de Arouce fica a Ermida da Nossa Senhora da Piedade,

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Praia fluvial de Serpins

um importante santuário mariano. São três capelas, a mais antiga das quais e também a maior, de S. João, construída entre os séculos XIII e XIV. Seguem-se as capelas da Agonia e de Nossa Senhora da Piedade. As paredes caiadas de branco contrastam com o fundo verde-escuro da paisagem. Longe vão os tempos em que a gastronomia da Lousã se resumia a castanhas, hortaliças, trigo, centeio, caça e alguns produtos de animais domésticos. Hoje os pratos mais típicos variam entre as migas, a chanfana, a sardinha albardada e a tibornada no lagar.

Aldeia do Xisto de Cerdeira

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Pedra Letreira, monumento rupestre

Góis Fotografia: CM Góis

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s colossais Penedos de Góis, a 1043 metros de altitude, são rochedos escarpados junto à aldeia de xisto da Pena que formam desníveis únicos, com quedas de água e ribeiras impetuosas. Daqui vemos a Serra da Estrela, a Serra do Açor e o alto de Trevim. As montanhas são procuradas para diversas actividades de natureza, desportos náu-

ticos, motorizados, de caça e pesca. Os rios envolventes, de águas puras e cristalinas, dão origem a várias piscinas e praias fluviais, com destaque para a Penedo/Pego Escuro, com uma ilha de areia. Em redor de Góis podemos passear por um vale cruzado por pontes centenárias e paisagens dominadas pelo socalco ou então procurar recantos onde o rio

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Vila Nova do Ceira

salta sobre a majestosa fraga na qual se ergue a ermida da Nossa Senhora da Candosa. Mais para Sul, na freguesia de Alvares, encontramos um importante monumento de arte rupestre conhecido por “Pedra Letreira”. É uma plataforma de xisto rebaixada, na superfície da qual foram esculpidas diversas gravuras com um machado de pedra polida. Neste conjunto figuram, entre outras representações, um arco e flecha, pontas de seta e alabardas e

ainda figuras antropomórficas. Ao passar por este concelho vale a pena estar atento ao artesanato, em especial às miniaturas de casas em xisto, de alfaias agrícolas e de cortiços. E é quase pecado sair sem provar pelo menos um dos pratos típicos, a sopa de castanhas ou a sopa seca à moda de Alvares, a chanfana, a galinha corada, as papas de nabos com sardinha frita, terminando o banquete com um bolo da Várzea ou um bolo de Góis.

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Ponte Filipina do Cabril

Pedrogão Grande

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Igreja Matriz de Pedrogão Grande Fotografia: CM Pedrogão Grande

s íngremes escarpas ladeiam o caminho até à ponte, construída numa garganta do rio Zêzere, entre Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno. É a Ponte do Cabril, que terá sido feita durante o período da dinastia filipina, no século XV ou XVI, para substituir uma travessia romana que segundo a tradição local existiria nas imediações. Um dos espaços mais agradáveis do concelho é a Praia Fluvial do Mosteiro, onde existe um antigo lagar de azeite transformado em bar/restaurante e um moinho de rodízio – é um testemunho da importância que a indústria da moagem teve no concelho, facto reforçado pela presença de pelo menos um moinho, de 500 em 500 metros,

ao longo da Ribeira de Pena. Pedrogão Grande é uma das terras mais ricas do país em belezas naturais, resultado da combinação entre as linhas de água e o verde pujante que as envolve. Da Parede de Escalada temos vista privilegiada para a ponte filipina do Cabril e para as albufeiras de Cabril e Bouçã. Já no centro da vila encontramos o sublime Jardim da Devesa, junto ao edifício da Câmara Municipal. A gastronomia é variada: além do bucho recheado e dos maranhos, típicos da região, podemos escolher sopa de peixe, cabrito ou trutas grelhadas, entre outras ementas, acompanhados de pudim de pão, sonhos de abóbora, bolo de mel e uma aguardente de medronho.

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Sertã Fotografia: CM Sertã

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Sertã tem um castelo de cinco quinas, algo raro no país. Foi dentro das suas paredes que ocorreu a lenda de

Selinda, mulher que ao saber do ataque romano subiu às ameias e atirou sobre os inimigos uma frigideira (sertage) com azeite a

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ferver, obrigando-os a recuar. A história terá dado nome à vila, cuja figura mais ilustre é Nuno Álvares Pereira, considerado por muitos o maior estratega e génio militar português, decisivo na Batalha de Aljubarrota. A Sertã é conhecida pelo

Centro Náutico do Zêzere, local propício a passeios de jangada, campismo e actividades desportivas como wakeboard e canoagem. Ainda no concelho, mas na freguesia de Pedrógão Pequeno, fica a Barragem do Cabril,

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uma das mais altas de Portugal, com 136 metros, e que origina uma das maiores reservas de água do país, com uma capacidade total de 720.000m³. Um dos pratos mais conhecidos da Sertã é o maranho, um pequeno saco feito de carne de bucho de borrego ou carneiro, arroz, presunto, chouriço, pimenta e vinho branco e fortemente condimentada com hortelã. O bucho recheado é outra

das sugestões quando nos sentamos à mesa: consiste em bucho e lombo de porco, galinha, presunto, chouriço magro, ovos, arroz, pão, salsa picada, vinho branco, sumo de laranjas e limão misturado com salsa picada, sal e cravinho. E não se pode concluir a refeição sem provar os Cartuchos de Amêndoa de Cernache do Bonjardim, uma espécie de cone recheado com amêndoas, gemas e açúcar.

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Centro geodésico de Portugal

Vila de Rei Fotografia: CM Vila de Rei

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hegámos ao centro geodésico de Portugal continental. O marco trigonométrico que assinala o ponto exacto fica no cume da serra da Melriça. A 600 metros de altitude podemos observar

uma paisagem vastíssima, em que se destaca a Serra da Lousã e, com tempo limpo, a Serra da Estrela, quase a 100 quilómetros de distância. Lá em baixo fica a aldeia de xisto Água Formosa, abriga-

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da por uma encosta soalheira. Ainda resistem os fornos a lenha e há um caminho calcetado que nos leva à fonte de água que deu nome à povoação, bem como uma ponte pedonal, recuperada há pouco tempo, que atravessa a Ribeira da Galega.

Um dos locais mais conhecidos de Vila de Rei é o Penedo Furado. É a estância balnear mais procurada do concelho, sobretudo pela sua água límpida e cristalina que lentamente vai correndo pelo leito através de uma passagem natural na rocha. Escalada, canoagem,

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Aldeia do Xisto de Água Formosa

slide e rappel são algumas actividades possíveis. O nome da praia vem de um rochedo gigantesco com uma enorme abertura de feitio afunilado onde foi criado o Miradouro do Penedo Furado, de onde podemos admirar a magnífica paisagem de serras e montes revestidos de pinhais, a ribeira do Codes, a albufeira da Barragem do Castelo do Bode e algumas casas das povoações envolventes. Na zona

mais baixa do penedo encontramos a “Bicha Pintada”, um fóssil que, segundo alguns estudiosos, terá mais de 480 milhões de anos. No fim das aventuras naturais o mais difícil será escolher o que pedir à mesa. Sopa de peixe, bucho recheado e bacalhau à cobra são algumas das hipóteses, terminando a refeição com bolos fritos, tigeladas ou broas de mel, entre outras sobremesas de deixar água na boca.

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Sardoal Fotografia: CM Sardoal

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que é, afinal, o “Sardoal antigo”? A pergunta acompanha-nos à entrada na pequena vila e só começamos a perceber quando entramos na Rua da Amoreira: as casas rodeadas de flores lembram um cenário único que perdurou até ao século XVI. Esta rua é que melhor caracteriza essa época e a que conserva mais vestígios. A vila cresceu depois para Norte, fruto dos descobrimentos portugueses, dado que

muitos sardoalenses embarcaram nas naus para a Índia e para o Brasil na companhia de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Outros foram aventureiros com Fernão Mendes Pinto nas longínquas paragens da China e do Japão. O Sardoal é conhecido também pelas árvores históricas, algumas classificadas de interesse público devido ao seu porte, desenho, idade e raridade. É o caso dos freixos trazidos da Índia por esses marinheiros

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Rua da Amoreira

e de um eucalipto com cerca de 64 metros de altura, 25 metros de diâmetro de copa e 16 metros de diâmetro na base. Já na hora do almoço somos atraídos pela Cozinha Fervida, um dos pratos mais conhecidos por aqui. Trata-se de aproveitar as sobras de outras refeições, como a Sopa de Couves com Feijão. Segundo a tradição oral, quando ao fim de alguns dias a sopa ia escasseando, era necessário acrescentar água ao entulho, bem como alho, cebola, louro, azeite e pão de milho esfarelado. A mistura era confeccionada em fogueiras, pois nem todos possuíam fogão, e acompa-

nhada de azeitonas. Em dias especiais juntava-se uma ou duas sardinhas fritas em azeite, que eram repartidas em pequenos pedaços pelos membros da família. Com a progressiva melhoria das condições de vida, a Cozinha Fervida foi enriquecida com outros acompanhamentos, em especial bacalhau assado e entrecosto grelhado. Antes de abandonar o Sardoal ainda há tempo para provar as tigeladas, um dos doces mais típicos da região e que muitas terras se arrogam de ter criado. O nome advirá do facto de tradicionalmente serem cozidas em tigelas de barro não vidrado.

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Castelo de Abrantes

Abrantes Fotografia: CM Abrantes

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orre de Menagem de Abrantes. A vista é irrepreensível: uma rara panorâmica de 360º sobre o Rio Tejo, o Ribatejo, o Alto Alentejo, a Beira Baixa e o Outeiro de S. Pedro, pequeno morro transformado em reduto militar. Em dias de céu limpo, o olhar alcança os 80 quilómetros. O edifício fica dentro do castelo que terá sido conquistado aos mouros por D. Afonso Henriques, no século XII. Ainda na fortaleza podemos visi-

tar a Igreja de Santa Maria do Castelo, cuja origem é incerta mas onde se sabe que terá existido um templo romano, pois no solo do actual edifício foi encontrada enterrada uma estátua romana acéfala em mármore, que é possível ver exposta. A cidade está intimamente ligada à história de Portugal. Em 1385, o rei D. João V, juntamente com D. Nuno Álvares Pereira, esteve aqui com as suas tropas antes de partir para

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a batalha de Aljubarrota. Já no século XIX, em 1807, Abrantes foi ocupada pelas tropas francesas comandadas pelo General Junot, a quem Napoleão concedeu o título de Duque de Abrantes. É nesta época que surge a famosa frase “Tudo como dantes, Quartel-general em Abrantes!”, que terá sido uma espécie de senha militar. Abrantes ergue-se em colina na margem direita do rio Tejo, que dá nome a um parque com múltiplas funções, do campismo aos desportos náuticos, passando pela cultura e pelo lazer. É quase um pecado visitar o concelho e não comprar uma peça de artesanato, um santinho, um ovo bordado ou um boneco regional que retrata as profissões de outrora. Pior ainda será não provar o melhor da região, o mel, os licores, o azeite, os enchidos feitos de modo artesanal em charcutarias familiares e, no fim, a Palha de Abrantes, doce conventual feito com gema de ovo com amêndoa e coberto por fios de ovos ligeiramente tostados no forno bem quente.

Parque Tejo

Aquapolis

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Moinho da Pontinha

Ponte de Sôr Fotografia: CM Ponte de Sôr

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osé Saramago, já de cabelo branco, olha-nos sisudo por trás dos óculos grandes. Cerca de 4.000 rolhas de cortiça compõem-lhe a expressão, naquele que é o maior mosaico do mundo do

género. O Nobel da Literatura haveria de gostar. A obra do artista albanês Saimir Strati está no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, cidade que agora alcançamos. O bom tempo convida a um

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Barragem de Montargil

mergulho na Albufeira de Montargil, um espelho de água de beleza ímpar cuja areia fina das margens dá origem a praias idílicas. O espaço é ideal para a prática de vela, wakeboard, canoagem e jet-ski, bem como para actividades como a observação de aves. A barragem

foi inaugurada em 1958 e alterou radicalmente a geografia local, criando um lago artificial com uma capacidade de mais de 164 milhões de metros cúbicos de água. A paisagem de Ponte de Sor é ainda marcada, desde a Idade Média, pelos moinhos de

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Centro de Artes e Cultura

água de rodízio espalhados ao longo de diversos cursos de água do concelho e enquadrados por uma rara paisagem verdejante. Junto a eles encontramos diversos tipos de aves, algumas espécies de peixes de rio e, com sorte, lontras. O maior de todos é o Moinho da Pontinha, do velho moleiro João Marcelino. Imaginamos como se moíam os cereais e isso abre o ape-

tite. O peixe do rio, assado, frito ou cozido, é uma opção, assim como os típicos pratos de caça, entre coelho, lebre, pombo, perdiz ou javali. Mas o que é mesmo obrigatório é o ensopado de borrego, a açorda alentejana e o sarrabulho. Por fim, as tentações: doces de amêndoa e gila, bolos de bolota, boleima de Ponte de Sor ou bolo cigano de Montargil, entre muitas outras.

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Mora Fotografia: Fluviário de Mora

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homem de barba e cabelo compridos faz placas de xisto sentado num tronco. É um antepassado nosso com milhares de anos e vive no Museu do Megalitismo de Mora, no centro da vila alentejana. Um filme 3D retrata a vida num povoado neolítico e as mesas interactivas informam sobre as centenas de peças expostas, algumas com mais

de 6.000 anos. Foram maioritariamente cedidas pelo Museu Nacional de Arqueologia e provêem das dezenas de escavações arqueológicas realizadas no concelho de Mora desde 1914. Com mais de 750 metros quadrados, o museu inclui espaços de lazer para os jovens e crianças, uma sala de internet e biblioteca e mais uma sala de actividades com diversos

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jogos interactivos, que, de forma lúdica, alargam o nosso conhecimento. A escassos quilómetros encontramos o Fluviário de Mora, o primeiro grande aquário público de água doce da Europa, no qual vivem, entre outras espécies, as piranhas, a anaconda, a enguia eléctrica, as rãs-seta-venenosas e as enguias dinossauro. O oceanário fica na margem direita da Ribeira do Raia, cuja pista de pesca, com um quilómetro de extensão e capaci-

dade para 60 pesqueiros, está classificada pela Federação Internacional de Pesca Desportiva em Água Doce como Património Mundial de todos os Pescadores. Além dos pratos à base dos peixes que aqui são capturados, como o barco, o pimpão e a enguia, as ementas de Mora incluem ainda ensopado de javali ou veado, pombo estufado com cogumelos, peito de pato bravo com mostarda ou coelho frito com castanhas, entre outras iguarias.

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Balonismo em Coruche

Coruche Fotografia: CM Coruche

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m Coruche sempre existiram muitas corujas. Diz a lenda que o primeiro rei de Portugal, ao passar por este território, ter-se-á inspirado nisso para dar o nome à vila. D. Afonso Henriques conquistou em 1166 o castelo de Coruche, que terá origem moura.

A sua localização estratégica, entre as cidades de Santarém, Lisboa e Évora, tornou-o muito importante durante o longo processo da Reconquista Cristã, dado que era um posto de observação privilegiado de controlo do vasto território que se estendia a Sul.

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Coruche é a Capital Mundial da Cortiça. No concelho é extraída 8% desta matéria-prima em Portugal e nas unidades fabris produzem-se cinco milhões de rolhas de cortiça por dia. Para valorizar este recurso foi inaugurado, em 2009, o Observatório do Sobreiro e da Cortiça, um espaço único no país, revestido a cortiça no exterior e interior do auditório. O edifício, desenhado pelo arquitecto Manuel Couceiro como homenagem ao montado e ao sobreiro, possui ainda laboratórios, oficinas, um centro de documentação e um espaço de exposição temporária de peças inovadoras em cortiça ou ligadas ao sector corticeiro. Estamos num dos maiores municípios de Portugal, com cerca de 20.000 habitantes e mais de 1115 quilómetros quadrados. A espinha dorsal do concelho é o rio Sorraia, afluente do Tejo, que é possível descer de canoa. A tauromaquia é uma das tradições mais antigas – entre cavaleiros, forcados, matadores e bandarilheiros aqui encontramos várias figuras de reconhecido valor no panora-

Anta Pequena do Caminho da Fanica

ma taurino nacional, alguns já retirados, como David Ribeiro Telles ou António Badajoz. A observação de aves é outro dos atractivos de Coruche, em especial o Monte do Areeiro, inserido numa herdade com 800 hectares de montado de sobro. A águia-calçada, o pica-pau-malhado-grande, a carriça e a galinha-d’água são apenas algumas das espécies que aqui podemos ver. E que dizer de um passeio de balão pelos céus de uma vila que até tem um festival especializado? Depois das voltas lá no alto, nada melhor do que acalmar o estômago com uma canja de toiro bravo, uma farinheira de sangue e, para terminar, um bolo de nozes ou um nógado de pinhão e mel, entre outras propostas.

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Ermida da Nossa Senhora da Visitação

Montemor-o-Novo Fotografia: CM Montemor-o-Novo

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stamos no alto, no castelo de Montemor-o-Novo, que dizem ter sido conquistado aos mouros por D. Afonso Henriques no ano de 1166. Era este o recinto original da primitiva vila, hoje cidade, a qual cresceu entre três montes: o maior, que é o do castelo, o do Convento de Nossa Senhora da Conceição e o da Ermida de Nossa Senhora da Visitação. Esta última, do século XVI,

é famosa pelo estilo manuelino-mudéjar e pelos painéis de azulejos alusivos à vida de Maria. Na sacristia há uma colecção de cerca de duas centenas de ex-votos – retábulos pintados, fotografias, partes do corpo em cera, fitas e dois animais embalsamados, uma jibóia e um jacaré. Do castelo avistamos todo o casario de Montemor-o-Novo e os campos envolventes, a per-

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Grutas do Escoural

der de vista. Muito mais há para ver no resto do concelho, a começar pelas Grutas do Escoural, onde os homens do Paleolítico deixaram pinturas e numerosas gravuras rupestres que mostram como era o seu quotidiano. Milhares de anos mais tarde, pastores e agricultores construíram nesta terra diversos menires, cromeleques e antas. Uma das mais conhecidas é a Anta-capela de S. Brissos ou de Nossa Senhora do Livramento, raro exemplar de monumento megalítico transformado em templo cristão, provavel-

mente no século XVII. O Alentejo é de resto conhecido pelas inúmeras construções megalíticas, algumas das quais são das mais antigas do mundo. O concelho pode ser percorrido a pé ou de bicicleta, pois existem vários trajectos, além de uma ecopista, com cerca de 13 quilómetros, que começa na cidade e percorre uma antiga linha férrea. Depois do exercício há que repor energias: ensopado de borrego, migas, carne de porco preto, vitela, javali e sopa de cação são alguns dos pratos à disposição.

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Ferreira do Alentejo Fotografia: CM Ferreira do Alentejo

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eis que chegamos à “Capital do Azeite”. Ferreira do Alentejo é uma terra de contrastes e transições: dos bairros para as areias, do montado para os pinhais, do continente para o oceano. Dá vontade de fazer tudo a pé, sentir o ar fresco e puro do campo, calcar os caminhos de terra batida ladeados de papoilas e pequenas flores silvestres. A vila alentejana carrega séculos de história. Sentimo-la nas capelas, ermidas, solares e diversas casas de arquitectura peculiar – são testemunho de um rico e vasto património, muito empobrecido, no entanto, pela implantação da República, em 1910. O Solar dos Frades, a Casa Verde, Casa Borges e o Solar

dos Três Irmãos são alguns dos edifícios mais conhecidos. Alguns foram transformados em turismo de habitação ou rural, como o Solar dos Frades e a Casa Verde, respectivamente. O símbolo do município, contudo, é uma pequena uma capela, a do Calvário, de arquitectura arrojada e que evoca o martírio de Cristo. O ar puro do campo abre o apetite, é hora de nos sentarmos à mesa. Por onde começar? Enchidos, açorda de alho, ensopado de enguias do Sado, carne de porco à alentejana, açorda de beldroegas ou de carrasquinhas, as famosas migas, o gaspacho… E, para coroar a refeição, os ferreirenses, bolos de amêndoa e chila…

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Capela do Calvรกrio

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Santuário Senhora d’Aires

Viana do Alentejo Fotografia: CM Viana do Alentejo

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freguesia de Alcáçovas tem pouco mais de 2.000 habitantes, mas guarda um património da humanidade, o fabrico de chocalhos. Desde o século XVIII que a arte vem sendo transmitida de geração em geração e as oficinas mantêm o aspecto de há 200 anos. Mas se há 40 anos havia 40 estabelecimentos, hoje são apenas três. Sinais dos tempos e do declínio do mundo rural.

Os chocalhos eram pendurados ao pescoço de alguns animais, os “guias”, à volta dos quais se juntavam os outros enquanto pastavam. Também serviam para indicar o paradeiro das reses mais gulosas quando estas se afastavam da manada. Actualmente, as zonas de pastagens têm cada vez mais cercas aramadas, pelo que esta espécie de GPS do gado está a cair em desuso.

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Castelo de Viana do Alentejo

Um chocalho pode ter entre 2 e 50 centímetros de altura. Os maiores são aplicados em vacas ou bodes guias, os médios em cabras e ovelhas e os mais pequenos em animais domésticos. Hoje são vendidos sobretudo para fins decorativos e os compradores e coleccionadores preferem chocalhos usados. Outro património mundial, o cante alentejano, marca a cultura de Viana do Alentejo, vila de tradições, costumes e vivências milenares. A Anta do Zambujeiro é um importante monumento megalítico que

conserva a câmara funerária e a laje de cobertura, que se encontra tombada. Na vila propriamente dita, chama a atenção o Santuário de Nossa Senhora d’Aires, de traça barroca com elementos rococó e uma notável colecção de ex-votos. A gastronomia é variada, mas a carne domina as ementas de Viana do Alentejo, especialmente o porco e o borrego, este último usado também na sopa. Para adocicar a boca há pudim de ovos, tarte de natas ou mousse de café, entre outras iguarias.

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Aljustrel

Fotografia: CM Ajustrel

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m Aljustrel sabemos de um prato já muito raro que temos vontade de provar. Dá pelo nome de feijão com molhinhos e leva-nos a começar este texto ao contrário, falando primeiro da gastronomia. Às mesas de Aljustrel é obrigatório o pão alentejano, para comer sozinho ou meter na sopa de tomate, uma das mais conhecidas da região. O gaspacho, uma sopa fria à base de hortaliças, é bom para os dias mais quentes. A vila é conhecida pela abundância de cobre, que começou a ser explorado pelo menos desde o milénio III antes de Cristo. A mina de Aljustrel é, ainda hoje, o grande património do concelho. Do património mineiro ainda existente são de realçar os malacates (elevadores) com os respectivos edifícios adjacen-

tes por onde subiam e desciam homens, máquinas e minério até às profundezas da terra, bem como a sala dos compressores, hoje musealizada e onde era produzido o ar comprimido para os trabalhos mineiros. A paisagem é dominada pelo típico montado e pelas searas a ondular ao vento que coexistem com campos de girassóis a perder de vista. Do Castelo de Aljustrel, em ruínas, persiste a Igreja de Nossa Senhora do Castelo. Na vila há ainda a Igreja de S. Salvador, do século XV, que possui a maior nave em abóbada do Alentejo, apenas suportada pelas paredes laterais. Em Aljustrel podemos ainda visitar a aldeia de Ervidel e o seu lugar de azeite, bem como as adegas onde o vinho é feito em talhas de barro.

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Cante alentejano

Castro Verde Fotografia: CM Castro Verde

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qui nasceu Portugal. E não, não estamos em Guimarães mas em S. Pedro de Cabeças, concelho de Castro Verde, onde segundo a lenda D. Afonso Henriques terá derrotado os exércitos de cinco poderosos reis mouros. No dia 24 de Junho de 1143 o príncipe teve uma visão de Jesus rodeado de Anjos que lhe prometeram a vitória. A lendária Batalha de Ourique originou, quatro anos depois, a indepen-

dência do reino. Foi para homenagear o triunfo português que o rei D. Sebastião mandou construir, no século XVI, a Basílica Real de Castro Verde, cujas paredes da nave central estão cobertas de azulejos que imortalizam a luta. Castro Verde é conhecido, há milhares de anos, pela riqueza de metais, sobretudo o cobre, a prata, o estanho e o ouro. Não foi por acaso que os romanos aqui construíram estruturas de

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armazenamento, quando a região teve um papel importante na expansão da metalurgia. A presença romana é particularmente notada na freguesia de Santa Bárbara de Padrões. Junto à Igreja Matriz, e ao longo de toda a encosta nascente da aldeia, encontra-se um importante povoado dessa época onde foi descoberto um depósito de lucernas – lamparinas usadas para gerar luz artificial –, datadas entre os séculos I e III d.C. Ao todo foram recolhidos fragmentos de mais de dez mil objectos, uma colecção que pode ser visitada no Museu da Lucerna, localizado em Castro Verde. O casario branco domina a paisagem habitada da vila e do concelho, cuja imagem de marca é o Cante Alentejano, património da humanidade, e o montado, florestas de sobreiros típicas do Mediterrâneo. Castro

Basílica Real

Verde tem ainda uma Zona de Protecção Especial onde nidificam espécies tão raras como o cortiçol, o sisão, o peneireiro das torres ou a abetarda. Abre-se o apetite no caminho pela natureza. Borrego, lebre, perdiz e porco alentejano são alguns dos pratos típicos por aqui, acompanhados por sopas de pão, açorda e migas. Despedimo-nos da mesa com folhados de gila, queijados de requeijão e popias, uma sobremesa que parece um enchido e não é muito doce.

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Seara alentejana

Almodôvar Fotografia: CM Almodôvar

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l-Mudura. É assim que a vila de Almodôvar aparece assinalada na cartografia islâmica medieval. A palavra significa “a coisa em redondo” ou “cercada em redondo”. Aquando da invasão muçulmana da Península Ibérica, a povoação foi cercada por muralhas e construiu-se um castelo, cujos vestígios já

desaparecera. Muitos anos depois, em 1573, o rei D. Sebastião terá pernoitado em Almodôvar, mais precisamente nos Paços do Concelho, edifício que depois foi transformado em cadeia e que hoje acolhe o museu municipal, dedicado ao artista Severo Portela, que a ele doou parte do seu espólio.

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Um outro ponto icónico da vila é o Museu da Escrita do Sudoeste, que mostra a forma ancestral que os povos que habitavam este território há mais de 2500 anos usavam para comunicar. Situado em pleno centro histórico, nele podemos aprender a evolução da grafia e do conhecimento escrito. A sua peça mais notável é a Estela de São Martinho, achada no sítio arqueológico de  São Marcos da Serra, em  Silves, com cerca 60 signos, considerada uma das inscrições mais extensas de escrita tartéssica ou cónia. Almodôvar é uma vila de tradições. E basta passar pela Escultura do Sapateiro para saber que este é um ofício ancestral por aqui, outrora meio de subsistência de muitas famílias do concelho, que chegou a ter cerca de 200 sapateiros no activo. A obra em ferro velho, com seis metros de altura, é assinada por Aureliano Aguiar. Deixamos por momentos

Igreja Matriz de Almodôvar

o centro da vila para ir até ao Pêgo da Castanheira, na freguesia de Santa Cruz, uma paisagem ribeirinha onde podemos apreciar as águas límpidas que atravessam a Ribeira do Vascão, pertencente à Zona de Protecção Especial do Vale do Guadiana, e apreciar as espécies raras, redescobrir os moinhos de água e os açudes. A natureza abriu o apetite. É hora de voltar a Almodôvar e provar o tradicional pão, o queijo e os enchidos, adocicar a boca com mel e regar a ementa com uma aguardente de medronho.

Açorda Alentejana

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São Brás de Alportel “Calhou no mundo eu vir ver Nos Machados este cantinho Um poeta pode nascer No lugar mais pobrezinho”. Fotografia: CM São de Brás de Alportel

Ponte Férrea

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Sabia que… São Brás de Alportel é uma Centro museológico

vila mas pertence à rede das Cidades

A

s palavras do poeta popular António de Sousa Rosa encontram-se no Parque dos Poetas, dedicado aos poetas do Algarve, em São Brás de Alportel, mesmo junto à Estrada Nacional 2. Estamos numa “terra de bons ares”, assim chamada devido ao rico património natural. Num outro parque encontramos a Azinheira de Alportel, uma imponente árvore com 4,10 metros de perímetro à altura do peito, 15 metros de altura e 25 de diâmetro de copa. Centro museológico Mas o que mais queremos ver é a Estação da Biodiversidade, onde vivem 80 espécies de aves, 46 de borboletas e 28 de libélulas, entre muitos ou-

tros animais, insectos e répteis. Também queremos percorrer a Rota da Cortiça: pelos sobreirais conhecemos as histórias desta matéria-prima, aprendemos as técnicas da sua preparação e transformação e pelo caminho ainda descobrimos uma enorme paleta de sabores e sensações. Por falar em sabores, há muito por onde escolher na hora de se sentar à mesa: gaspachos, a açorda de grão com galinha, cabrito com ervilhas, coelho bravo temperado com vinho, para além das inúmeras sopas. Não podem faltar os deliciosos figos cheios e as típicas amêndoas tenras de São Brás, entre outros doces regionais à base de mel, alfarroba, figo e amêndoa acompanhados de aguardente de medronho e licor de alfarroba.

Cittaslow,

uma organização não governamental  que tem por objectivo reduzir a velocidade da vida nas cidades para melhorar a qualidade de vida nas mesmas.

Ensopado de Borrego

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Mercado de Loulé

Loulé Fotografia: CM Loulé

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oulé é uma cidade cheia de história e animação turística. Chegamos a Loulé, estamos perto do final da nossa viagem. Faro, o último ponto, é logo a seguir. Temos tempo. Antes disso queremos ir ao complexo turístico de Vilamoura, considerado o maior da Europa, com cerca de 1600 metros quadra-

dos – tem marina, academia e campos de golfe, clubes de ténis e mergulho, casino, discotecas e bares famosos, um deles propriedade do antigo futebolista português Luís Figo. Estamos no Algarve e por isso a praia é sempre uma boa opção, mas para quem se interessa mais pela história dos locais há o Castelo de Loulé, de

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origem árabe, reconstruído no século XIII, no qual sobressai uma torre albarrã, de alvenaria, datada da Baixa Idade Média. A influência muçulmana faz-se sentir na cidade de Loulé. O mais importante vestígio são os banhos islâmicos descobertos há poucos anos no centro histórico. Em bom estado de conservação, são os únicos conhecidos no país. Os trabalhos arqueológicos ainda decorrem, pelo que apenas uma parte do antigo edifício

se encontra actualmente escavada. O edifício mais icónico da cidade é, no entanto, o Mercado de Loulé, de fisionomia árabe, inaugurado em 1908. A gastronomia é tão variada quanto a localização do concelho, que abrange uma extensa área de serra, barrocal e litoral. Entre salada de polvo, arroz de lingueirão, camarão, caracóis, perdiz estufada, ensopada de galo ou de borrego e feijoada de javali, o que não falta são pratos para todos os gostos.

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Faro Fotografia: CM Faro

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uase 739 quilómetros depois, chegamos ao fim da Rota Nacional 2. O concelho de Faro é conhecido pelo sol, pelas praias, pela emblemática Ria Formosa, uma das Sete Maravilhas Naturais de Portugal, onde vive a maior colónia de cavalos-marinhos do mundo. O que nem todos sabem é que foi nesta cidade que, em 1487, o judeu Samuel Gacon imprimiu o primeiro livro em Portugal, o Pentateuco, com os caracteres inventados por Gutenberg. Ocupada pelo menos desde

o tempo dos fenícios, no século XVIII, a cidade de Faro viveu ainda sob domínio romano, bizantino e visigodo. Da época romana persistem as importantes Ruínas de Milreu, na localidade de Estói, cujo ex-líbris é o templo paleocristão. Um dos espaços culturais mais conhecidos de Faro é o Museu Etnográfico e Regional, onde através de uma interessante amostra fotográfica é possível revisitar os 16 concelhos e um Algarve quase desaparecido. A maior parte do espólio, cerca de 1.100 peças,

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é composta por utensílios de trabalho, da pesca ao trabalho agrícola e artesanal, por mobiliário e utensilagem doméstica, algum traje e vários exemplos da chamada “arte popular”, nomeadamente a cestaria. Estes e outros patrimónios são visitados todos os anos por milhares de turistas, muitos deles estrangeiros que aterram no Aeroporto Internacional de Faro, o segundo mais movimentado de Portugal, a seguir ao Humberto Delgado, em Lisboa, com mais de cinco milhões de pas-

sageiros por ano. O peixe domina a gastronomia farense: carapau, biqueirão, sardinha, amêijoas, berbigões ao natural, arroz de lingueirão, cataplanas e caldeiradas são alguns dos pratos típicos. Também há papas de milho e, para sobremesa, doçarias à base de frutos secos, como bolos de amêndoa, figo e alfarroba. Com região vinícola demarcada, o concelho produz néctares de alta qualidade com sabor a fruto, baixa acidez e graduação elevada por causa do sol.

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Atravessar a N2 numa Fiat Ducato Fotografia: Cerveja Rapada

Foi de Sul para Norte que três colegas resolveram fazer a mítica Estrada Nacional 2, ao volante de um furgão. De Faro até ao norte do país, foi assim que Rui Figueiredo, proprietário da empresa que produz a cerveja artesanal Rapada, fez a Estrada Nacional 2, juntamente com dois colegas, no verão de 2016. Foi numa Fiat Ducato, um furgão utilizado para dar a conhecer a cerveja, que decorreu esta aventura. A viagem não foi planeada, surgiu “numa brincadeira”. “Íamos ter um evento com a cerveja artesanal Rapada em Faro e um outro, no fim-de-semana seguinte, em Caminha. Resolvemos fazer uma brincadeira no caminho: em vez

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de virmos directos decidimos fazer a estrada Nacional 2. E foi absolutamente fabuloso”, conta Rui Figueiredo. Apesar de na altura haver falta de sinalização nalgumas localidades, a viagem correu sem grandes percalços. “É interessante numa semana ver, num país tão pequeno como o nosso, diferenças paisagísticas, gastronómicas, de sotaques. Fomos parando em quase tudo: tanto estávamos a tomar banho num rio como a seguir mandávamos um mergulho numa albufeira. Foi absolutamente delicioso por isso. Descobrimos coisas que a maior parte dos portugueses não deve conhecer. Tínhamos todos acabado de fazer 40 anos e isto foi quase um voltar a 20 anos antes, à adolescência”, relembra.

Ao chegar a Caminha, destino dos viajantes, a recepção das pessoas foi calorosa. Grande parte dos cervejeiros com quem se reuniram em Caminha também tinham estado reunidos em Faro e acompanharam pelo facebook as aventuras destes três viajantes. “O feedback que nos iam dando era extraordinário. Não foi uma aventura só nossa. Chegámos lá acima e parecíamos quase estrelas de rock. Gostava de ter levado uma equipa para depois produzir um filme de promoção da cerveja e desse caminho. Foi isso que falhou na nossa viagem”, refere. Para o próximo ano Rui Figueiredo planeia fazer novamente a N2, desta vez numa viagem mais planeada e com “outra dimensão”.

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Rota da Estrada Nacional 2 ...by Descla  

Viaje connosco nas próximas páginas, fique a conhecer melhor estes municípios e aproveite para planear as suas férias e visitar alguns deste...

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