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APRIGIO LYRIO

ENSAIOS 1975


pesquisa e revisao fabricio fernandez juan goncalves


O terceiro volume da série focalizando a obra de George Gershwin, com grande brilhantismo GERSHWIN CLÁSSICO VOLUME 3 (COM A Orquestra Nacional da ópera de Monte-Carlo, Sarah Vaughan e Hal Mooney e orquestra, álbum Philips/- Phonogram – Recentemente lançada pela Phonogram – e incluída em sua série super de luxo, com os requintes necessários – a coleção revivendo os momentos mais conhecidos da obra de um dos maiores nomes da música americana, clássica e popular, o compositor George Gershwin e dividida em três volumes sob o nome Gershwin Clássico, enquanto o terceiro da série chega agora às lojas. A iniciativa não poderia ser mais louvável: enquanto o primeiro álbum preocupou-se em apresentar, em forma integral, o seu conhecidíssimo Concerto em Fá para Piano e Orquestra, a Rhapsody in Blue e as variações para piano e orquestra sobre a canção I Got Rhythm (em revisão de William C. Schoendelf ) e o segundo deteve-se em outros três momentos importantíssimos de Gershwin, suas sinfonias Um Americano em Paris, a Abertura Cabana e a obra cênica Porgy and Bess (lançada em 1935 e posteriormente levada para o cinema, já na década de 50), este terceiro volume mostra sua obra orquestral Rapsódia nº2 para Piano e Orquestra, três prelúdios e algumas de suas mais conhecidas canções, gravadas por todos os cantores americanos de alguma importância. Com o espírito de documentação, Gershwin surgiu numa época em que o jazz estava passando por profundas modificações – de pequenos conjuntos que raramente abrangiam mais de seis músicos compondo dois grupos, um rítmico e outro melódico, passando depois para uma fase de expansão para grandes orquestras e lideradas por maestros brancos (mas o negro continuou a ser o melhor instrumentista, exprimindo verdadeiramente tudo o que tinha, naturalmente, em sua alma sem receber influências externas). E, nos anos 20, quanto maiores se tornaram as orquestras, tanto mais depressa desapareceu a improvi-

sação característica do movimento, até que passou a ser praticamente impossível, nos casos de orquestras sinfônicas envolvidas com o jazz. O movimento em si não foi muito longe, pelo contrário, o jazz sinfônico logo iniciou uma retirada quase que completa, mas serviu para divulgar mundialmente o nome de George Gershwin (mas teve uma continuação na Broadway com os seus espetáculos e também no cinema, em trilhas sonoras) sendo que ele levou os ritmos de jazz (e não, em termos de elementos populares) para as salas de concertos, produzindo obras aclamadas até hoje e deixando uma enorme contribuição à música americana como inteligente e profundo pesquisador de suas verdadeiras raízes, assim como influenciou a maioria dos músicas que surgiram depois dele. Nascido a 26 de setembro de 1898, em Nova Iorque, muito cedo Gershwin revelou enorme paixão pela música. Desde então dedicou toda sua vida a arte musical e apenas com 13 anos já havia começado a tomar lições com o maestro Charles Hambitzer que orientou o aluno para a música erudita. Mas o estudante era um apaixonado pela música popular e dizia que a música do homem comum era sua música dominante, sempre querendo expressar-se através do ritmo da rua. Sua experiência no manejo da música popular veio quando iniciou trabalho numa casa editora de peças musicais, dando ao joven Gershwin a oportunidade de interpretar muitos ritmos e canções. Em 1919, já trabalhando para a Broadway, compôs Swanee para um musical e celebrizada por Al Jolson. Mas o primeiro projeto do compositor tentando unir o popular ao erudito, o qual foi motivo de severas críticas, principalmente por suas orifens, como filho de imigrantes russos judeus que não teve muito contato com as raízes reais folclóricas americanas (principalmente o jazz negro), o que realmente só aconteceu de forma total nos últimos anos de sua vida, foi ao compor, à pedido de Paul Whiteman, chefe

de uma orquestra sinfônica de jazz, a célebre Rhapsody In Blue que foi apresentada para público pela primeira vez em 1924 e com o tempo se converteria numa obra clássica, em suas expressões mais características, ainda hoje, da música norte americana. Com o destaque recebido, no ano seguinte escreveu o Concerto em Fá para Piano e Orquestra, também recebida com enorme sucesso. Incluída no terceiro volume, sua Rapsódia nº2 para Piano e Orquestra nasceu da ida de Gershwin para Hollywood na época em que o cinema começava a fazer suas primeiras experiências sonoras e o filme musical era a maior atração do momento, tirando os melhores compositores da Broadway. E não seria motivo de surpresa a ida de Gershwin para lá. Ao compor a partitura para o filme Delicius, estrelado por Janet Gaynor e Charles Farell, sua tarefa era de fazer um grupo de canções e uma sequência de seis minutos para ilustrar, em música incidental, as visões e os sons da cidade, incluindo uma passagem em que rebitadores eram vistos no trabalho. Ao descobrir que no filme apenas um pequeno trecho seria usado, Gershwin decidiu torna-la base para uma obra mais extensa. O título inicial e pelo qual a obra até hoje é conhecida “Rapsódia em Arrebites” seria logo mudado para “Segunda Rapsódia” e no início da peça que ocupa praticamente todo o primeiro lado deste terceiro volume do Gershwin Clássico, ouve-se motivos da cena pelo piano de Wern Hass em conjunto com a Orquestra Nacional da Ópera de Monte Carlo regida pelo maestro Eliahu Inbal. A estreia da peça deu-se em 1932 e como era de costume, Gershwin apareceu como solista na primeira mostra. Ainda com a orquestra regida magistralmente por Inbal, famoso maestro israelense que teve seu nome apresentado para o mundo e com enorme destaque quando, ao ingressar no terreno da ópera depois de uma fase dedicada à maior exploração da música barroca passando até à música contemporânea, são apresentados três prelúdios onde pode se sentir claramente a influência que o jazz teve no trabalho de Gershwin: o primeiro e o terceiro são essencialmente rítmicos e vêm com a indicação – Allegro bem ritmado e deciso – Mas o momento mais importante e de rara beleza entre os prelúdios acontece com o segundo mostrado, em movimento Andante com Moto e poco Rubato, onde o tema se articula sobre um blues simples e ao mesmo tempo de grande expressão. E o segundo lado do disco dedica-se integralmente a mostrar algumas das canções de George Gershwin (aqui, todas com textos de seu irmão Ira Gershwin) e cantadas por Sarah Vaughan. Sobre a cantora, pode-se dizer que é uma das três maiores cantoras que o jazz já teve sendo que começou a estruturar sua carreira musical ainda como principal nome do coro da Igreja Batista de Mont Sion. Depois estudou piano e órgão e também canto e entrou para a orquestra de Earl Hines como vocalista no Teatro Apolo, em Nova Iorque. Integrou a orquestra de Billy Eckstein pela qual passaram nomes como Carlie Parker, Dizzy Gillespie e Miles Davis, entre outros, tendo nesta época sido figura central e ativo no que pode ser considerado como o nascimento do jazz moderno. Depois da Segunda Grande Guerra passa a dedicar-se ao trabalho de cantora solista. Sua participação aqui não lhe exige muitos malabarismos, assumindo, simplesmente e com todo seu cantar tecnicamente bem dotado, o papel de documentar as canções mais destacadas de Gershwin. Entre elas estão a famosíssima The Man I Love (que apareceu pela primeira vez em 1924 no musical Lady Be Good, estrelado por Fred e Adele Astaire). Outra canção importante do compositor, I’ve Got a Crush on You foi mostrada pela primeira vez em 1930 no show Strike Up the Band e Bindin’ My Time vem do musical estrelado por Ethel Merman e Ginger Rogers, Girl Crazy, onde também pôde ser ouvida I Got Rhythm. As outras canções incluídas no disco são Aren’t You Kind of Glad We Did (só foi lançada tempos depois da morte de Gershwin, em 1947), Looking for a Boy (que vem do show Tip=-Toes, estrelado em 1925 na Broadway por Jeannete McDonall e He Loves and She Loves vem do musical de teatro Funny Face, todas cantadas por Sarah Vaughan em grande e delicado estilo apoiada pela orquestra de Hal Mooney, também impecável. Um importantíssimo registro e completamente indispensável para os apreciadores (APRIGIO LYRIO).


Em dois álbuns duplos, as quatro primeiras sinfonias de um compositor pouco lembrado. Num período ultra modernista, a música Anton Bruckner pareceu simples e pouco aventureira, ainda que a sua natureza pouco sofisticada fosse produzir composições gigantescas. Ele era um católico devotado, mas ao mesmo tempo seu espírito era atormentado e ele foi constantemente assombrado por fantasias terríveis. Aos quarenta e três anos sofreu uma crise nervosa, e seus medos apenas aumentaram durante a sua vida, assim como algumas obsessões, por exemplo, com o casamento, história mórbidas e críticos de música. Para escapar a essas obsessões, ele se refugiou na música e em Deus. Um biógrafo criou para Bruckner a bela expressão “o músico de Deus”. E é dessa pessoa, artista tranquilamente confiante nos poderes divinos e infatigavelmente dedicado ao trabalho que não buscava êxitos sensacionais, que viveu quase despercebido pelo mundo a maior parte de sua vida – pela sua natureza simples e rústica, de camponês – que a Phonogram oferece agora (em selo Phillips) uma vultosa edição de criação sinfônica, apresentando, em dois luxuosos álbuns duplos lançados ao mesmo tempo, as versões integrais de suas quatro primeiras sinfonias, todas com a Orquestra de Concertgebow, de Amsterdan (uma das mais fiéis documentadoras de Bruckner), sob a regência sóbria, incisiva e completamente elegante e satisfatória do holandês Bernard Haitink que, tendo começado a se projetar definitivamente nos anos 50, impôs seu nome com indelével solidez na década seguinte, quando foi nomeado regente principal e depois diretor artístico da Orquestra Filarmônica de Londres. Bruckner nasceu na cidade austríaca de Ansfeld, em 4 de setembro de 1824, e morreu em Viena com 72 anos. Pertencia a uma família de músicos e professores, o que possivelmente o levou a começar a trabalhar como mestre-escola, nas cidades de Windhag e Kornsdorf. Sua formação musical começou com os monges do monastério de Saint-Florian, onde ele estudou órgão com afinco, tornando-se um virtuoso desse instrumento. Aos 32 anos obteve, por concurso, o cargo de organista da catedral de Linz e, pouco depois, foi nomeado regente do coro masculino do mesmo estabelecimento. Em 1833, ele passou a estudar com Simon Sechter, famoso mestre de contraponto (a quem mais tarde sucedeu no Conservatório de Viena). A partir de então, decidiu dedicar-se com mais assiduidade à composição, orientando-se para música coral e sinfônica. Contudo, enquanto as suas atividades de professor (órgão, harmonia e contraponto) e de organista (concertos em Nancy, Paris e Londres) lhe trouxeram glórias e sucesso, a carreira de compositor, na maioria das vezes, trazia-lhe aborrecimentos e humilhações. A estreia de sua Terceira Sinfonia, dedicada a Wagner (a quem ele admirava profundamente), foi um tremendo fracasso. Entretanto, quase deixou o teatro devido a reação negativa do público e dos músicos da orquestra que, influenciados pelo crítico Hanslick e seus antiwagnerianos, mostrando-lhe hostilidade e descaso. No entanto, nesse mesmo ato, o compositor teve suas intenções e esforços recompensados pela proposta de publicação da obra, que lhe foi feita pelo editor Theodor Helm. Apesar de organista, Bruckner não escreveu muitas obras pelo órgão. De sua extensa produção, destacam-se 11 sinfonias (entre elas, dois trabalhos de juventude, sem numeração. A Nona ficou inacabada, pela sua morte), um grandioso Te Deum, sete missas, cinco salmos, cantatas para coro misto, peças corais profanas para vozes masculinas, além de algumas obras de câmara e peças para órgão e piano. Embora sem o vigor de Wagner e o equilíbrio formal de Brahms, a obra de Bruckner impressiona pela inventividade das ideias e pela perfeição do contraponto. Seus trabalhos são um retrato fiel, de sua longa, existência: neles está sempre presente a intensidade religiosa, às vezes coexistindo paradoxalmente com a sensualidade e a alegria da dança. Excessivamente longas (como as de Mahler), suas sinfonias primam pela originalidade e, hoje em dia, são amplamente apreciadas, sobretudo quando executadas em suas versões originais, sem deturpações ou condensações que lhes têm sido impingidas frequentemente por editores e regentes inescrupulosos. Entre os defensores da música de Bruckner – geralmente citada como solene mas sem paixão ou emoção real – estiveram muitos dos seus próprios alunos, entre eles Gustay Mahler, que mais tarde se tornaria mais célebre do que seu mestre. Mahler – responsável pela primeira redução para piano da Terceira Sinfonia e pela estreia da Sinfonia Nº 6, que regeu em 1899 – foi um incansável divulgador da obra brucknieriana entre o público austríaco e alemão. Com o correr do tempo, Anton Bruckner foi-se tornando respeitado e admirado. Hoje, segundo o maestro Wolfram Roehring (um especialista na regência de suas obras), ele constitui para os alemães “o quarto B da música”, depois de Bach, Beethoven e Brahms. E muitos críticos de agora veem nas monumentais construções de suas sinfonias – verdadeiras catedrais sonoras, esplêndidos monumentos de estilo barroco – características como segurança, tranquilidade, infinito, abundância, enlevo, força e grandeza, domínio do terreno e glorificação do que é divino. A sua obra ainda hoje se expande e é cada vez mais acolhida, mesmo nos países que se acham, espiritualmente, muito longe do magnífico barroco que ela encarna. Isso pode significar que, atrás da forma sempre discutida, há um conteúdo eterno que todos os homens sentem. “Bruckner é canção da Grande Montanha: nele se reflete a magnificência do nascer do Sol, o

frêmito do distante e do profundo, e a glorificação vespertina sobre a qual se estende um céu estrelado...” Assim o descreve Ernest Decsey, um dos biógrafos que o tratou mais carinhosamente. E essas respeitáveis edições da Phonogram permitem, de forma requintada e digna, a avaliação de uma parte dessa mencionada vastidão da música de Anton Bruckner, Da Simfonie Nº 1, que prosseguiu a grande tradição austro-alemã após o intervalo que sucedeu a morte de Schumann até a de Nº 4, em mi bemol maior, a mais conhecida e chamada Romântica, título que, se considerarmos a essência e natureza dos traços individuais, muito bem se ajusta a toda a música do compositor. Nos dois álbuns duplos, em que cada uma das sinfonias ocupa um disco inteiro, essas porções do universo de Bruckner, além do bom tratamento orquestral, são enriquecidas por textos amplamente informativos e elucidativos, no que diz respeito aos detalhes estruturais e históricos dos trabalhos. O que, sem dúvida, aumenta o valor e importância da luxuosa – e necessária – edição. Que é também um símbolo brilhante do cuidado, interesse e qualidade que marcam, em nível absolutamente superior ao da maioria, o setor de lançamentos eruditos da Phonogram.

Para interessados, um pouco de sub-música POEMA DO MORRO (com Sandra Mara, álbum Epic/CBS) – Revelada pelo sambista Zuzuca – que não acrescenta nada em sua carreira – diz o release da gravadora que mantém a cantora Sandra Mara entre sua lista de contratados: “Ela é, a esta altura, uma das mais importantes sambistas da nova fase de intérpretes brasileiros. (Mesmo que este Poema do Morro seja seu primeiro disco gravado). E a mulatíssima, ex-crooner da vida noturna carioca e do elenco de Osvaldo Sargentelli, dá mostras do samba que sabe fazer neste disco que começa a aparecer, como líder na preferência popular em todo o país” – e sendo executado nos lugares mais obscuros... E entre as doze canções registradas por Sandra Mara nesta estreia, foi preparado um esquema para que o disco não caísse em completo desastre. Com uma cantora que, simplesmente, não consegue dar notas altas sem desafinar (onde estaria aquela sambista algumas vezes grande, Elza Soares), entre canções desconhecidas de autores obscuros, foram incluídos alguns momentos importantes: Sandra Maria canta, com alguma expressão e bastante favorecida pelo material, Celeiro de Bamba (Mano Décio da Viola-Bilinho), Você Mudou Demais (Anastácia, aquela que dividiu algumas parcerias com o excelente “sanfoneiro pop” Dominguinhos), duas canções de Wilson Moreira, por sinal, interessantes, e grava seu descobridor e também responsável pela direção artística do álbum de Sandra Mara, Não É Mais do que Eu (Zuzuca-Fuzarca). E o restante se perde em repetições e nem os arranjos, buscando o clima original para sambistas, consegue ser interessante. Como registro, de estreia, uma ausência. APESAR DOS PESARES (com Aluísio Machado, álbum CBS) – Também em estreia, este é o primeiro Aloísio Machado. Diz a contracapa: “Quem vive sem a música quer na alegria quer na dor, já não vive. O compositor poeta de uma forma ou de outra, aviva as mais cruéis e doces lembranças conseguindo se aprofundar nos sentimentos humanos e nos levando até mesmo a superar a dor. E Aloísio Machado, na sua bagagem musical, exterioriza uma maneira própria de ver o sofrimento, o amor-sentimento, Deus e a certeza no amanhã”. Tudo indica que a filosofia (no caso, barata) começa a invadir o cenário dos sambistas comuns, exaltando a Vila Isabel, escola do sambista e com seus partidos-altos que apresentam situações rotineiras, estas são sempre enfocadas em tom de críticas e ironias. Alcides Aluísio Machado nasceu em 1939, em Campos, e fez sua primeira composição ainda com 16 anos. Tendo como ídolo o famoso sambista Silas de Oliveira, na mudança para o Rio de Janeiro viveu seus grandes momentos em Vila Isabel, bairro de tantos sambistas, o que não deixa de ser algo chi em se tratando do sambista – que apresenta neste Apesar dos Pesares, doze composições suas, todas completamente desinteressantes, mas com os requisitos necessários para que seu disco venda para público mal informado mesmo que alguns dos seus sambas tenham como título coisas como Causa e Efeito, Cabeça e Espinha, Sou Gente Homem, etc. Como cantor, Aluísio Machado já aparece tarimbado – teve momentos no Teatro Opinião, Orfeão, Portugal, Primeiro Encontro de Compositores e Concurso Cidadão Samba – e não sofre dos mesmos problemas de Sandra Mara. Mas mesmo assim, seu disco é um povoado de “desinteressâncias”. Fica o registro. ESPECIALMENTE PARA VOCÊ (com Tony Damito, álbum EPIC/CBS) – Com direção artística do conhecido Rossini Pinto (famoso na década passada por sua participação no movimento da Jovem Guarda) o primeiro Especialmente para você de Tony Damito promete uma série, já que o disco vem com perigosa informação: Volume de número 1. O cantor e compositor Damito pode ser considerado como um misto de Roberto Carlos, Ronnie Von e passando pelos desvarios de um Valdick Soriano. E toda a música do Sr. Tony Damito (o nome escolhido para uma carreira artística não poderia ser pior) pode ser sintetizada pela (autobiógrafica) letra do bolerão Rei dos Cafonas (César-Cirus): “De que adianta ser um rei sem ter coroa/ De que adianta tentar ser o que não é/ De que adianta ser artista sem sucesso/ De que adianta ser a cópia de alguém/ Na mais alta sociedade/No mais pobre cabaré/ O importante é ser um homem de verdade/ No amor e na amizade, sem desprezo por ninguém/ Cafona, tanta gente assim me chama/ Mas meu público me ama/E me aceita como sou...” (APRIGIO LYRIO)


Mesmo depois de cinco anos da edição original, ainda um trabalho brilhante. ROUND TRIP (com Sadao Watanabe e grupo, álbum CBS) – Tendo sido registrado em 15 de julho de 1970 – precisamente no Allegro Sound Studio em Nova Iorque – o álbum individual de Sadao Watanabe, saxofonista e flautista nipônico, poderia ter sido lançado hoje e não faria muita diferença ou, não iria contra as principais normas da chamada música contemporânea. Mesmo que o clima que envolveu a gravação dessa Round Trip: em jazz e rock esteja mais próximo do free jaz (gênero brilhantemente desenvolvido por uma série de músicos americanos da metade dos anos 60) do que das cósmicas e pirotécnicas inovações de um Mahavishnu Mclaughlin ou mesmo Chick Corea, com o seu grupo Return to Forever. Tudo poderia ter começado com as alucinadas manifestações no plano de Thelonious Monk, ou as criativas evoluções de Eric Dolphy com instrumentos de sopro. Ornette Coleman, Roland Kirk, parafernático e, certamente, John Coltrane e Mîles Davis. Praticamente desconhecido no Brasil, Watanabe não foge ao previsto e, principalmente apresentando seu trabalho ao lado dos consagradíssimos Jack Dejohnette (com frutíferas passagens pelo Charles Lloyd Group). Miroslav Vitous (ex-Weather Report) e Chick Corea (como curiosidade, ex-Miles Davis Group) todos músicos competentíssimos e bastante solicitados, o seu estilo está muito próximo a estas tendências do jazz (contemporâneo) – como instrumentista e compositor. Das quatro músicas que compõem o álbum o destaque principal vai para o tema Pastoral, com excelentes momentos de Watanabe, em flauta e sax, sendo que o solo de Chick Corea constitui-se em algo de especial com o músico fazendo uso de piano simples, num drive contundente com o apoio de Vitous e Dejohnette. A faixa que dá nome ao álbum, Round Trip: Going and Coming como indica o título, é um conjunto de sons experimentais e a faixa mais longa do LP, sendo o único momento em que Watanabe usa parceria na composição, com Masuo. O desenvolvimento também é perfeito e apuradíssimo, com instrumentações violentamente ricas fazendo uma perfeita entra para o tema Nostalgia, o momento romântico do trabalho. E o climático São Paulo, um samba-jazz com tendências afro, serve como final para a Round Trip de Sadao Watanabe, com a participação de Ulpio Minucci dividindo teclados com Chick Corea E o apurado tipo de “som” feito por Watanabe – ao lado dos músicos escolhidos – é completamente fundamental, edificante e importante pelo fato de ser um registro do início de toda uma fase evolutiva do free que culminaria, no momento, com os brilhantes e sensoriais movimentos dos dois maiores nomes do jazz-rock: Miles Davis e John McLaughlin. Ao mesmo tempo, a edição brasileira do Round Trip é um passo importante dado pela Columbia Broadcasting System brasileira, mesmo que o disco tenha aparecido com cinco anos de atraso, o que não impede o interesse dos admiradores do gênero pelo disco, com um desenvolvimento em todos os seus momentos e completamente atual. Sobre a carismática presença dos músicos escolhidos para compor o Round Trip, o virtuosismo – principalmente – do baixista Mirolasv Vitous é algo de sensacional, já dando mostras, com seu singular uso do baixo acústico quando tocado com arco mais pesado, parecendo um instrumento de sopro, de sua vital participação no grupo Weather Report, Jack DeJohnette continua fazendo inigualável uso dos seus instrumentos de percussão e Chick Corea deveria sempre estar com piano simples, como em fases anteriores e neste disco, para ser ouvido – e sentido – pelos aficionados do gênero, com deleite. APRIGIO LYRIO. WATANABE COM CONVIDADOS SELECIONADOS.

Como antigamente, os momentos maiores do tango em gravação realizada no Brasil. A ERA DE OURO DO TANGO (com a Gran Orchestra Porteña, álbum Fontana/Phonogram, à venda breve) – A ideia original não deixa de ser interessante, apesar de tratar-se de um projeto pouco rentável e, ainda, aparece com a sombra de ser um trabalho feito de encomenda sem ter muito a ver com a origem do tema, precisamente, o tango. Como influência e destaque foi o primeiro álbum latino – seguido logicamente por todo um espírito existencial, já que o tango retratava em suas músicas e textos um tipo de vida, a marginalidade dos boêmios argentinos – a receber reconhecimento mundial desde o seu aparecimento ainda na segunda década deste século. Mas o seu florescimento não foi muito fácil: em 1910, quando deu-se a estreia de Gardel, por exemplo, não havia o tango-canção. O gênero limitava-se à melodia simplesmente e servia como estímulo dançável e restrito a dancings e cabarés e, como toda música popular, permanecia de início repudiada pelos nomes mais ricos. E ainda citando Gardel que até 1917 só interpretava canções folclóricas em Buenos Aires, sua apresentação neste mesmo ano no Teatro Esmeralda consegue (sacode) o público presente ao cantar Mi Noche Triste de Pascual Contursi e Samuel Castriota incorporando o tango-canção a segunda etapa da época de ouro. (Antes o cantor gravava tonadas, cifras, milongas, estilos). E foi também o principal divulgador do tango-canção fazendo com que este rodasse pelo mundo. Na década de 20, o tango já era moda e principalmente apoiada na imagem do latin lover Rudolph Valentino, espalhou-se pelo mundo de forma sensacional e permaneceu intocável por PAULINHO EM SUA TRIP. muito tempo, mesmo depois da morte do seu principal nome, como intérprete e compositor, Carlos Gardel em meados de 1933. Mas o gênero continuou intimista, boêmio e romântico e hoje enriquecido por alguns músicos que sem quebrar o tradicionalismo transformaram o tango em música contemporânea, com todos os requintes necessários, como é o caso de Astor Piazzola, nome que não necessita (mais) de apresentações. E surge com alguma surpresa esse A Era de Ouro do Tango, gravado no Brasil, reunindo 24 dos mais famosos tango-canção em estilo de coletânea muito usado há vinte anos atrás, um conjunto semi-obscuro, a Gran Orchestra Porteña, que tem em Miguel Cidras seu principal criador (responsável pela parte de piano e arranjos/regência, mais Oldimar Caceres (bandoneon) e Juan Roberto Copoblanco (baixo) fazendo tango como se fazia antigamente, num disco mais nostálgico que qualquer outra coisa e ainda, curiosamente, tendo como diretor de produção o músico Perinho Albuquerque, destaque após integrar a banda de suporte de Caetano Veloso e a mais recente aquisição da Phonogram para o cargo. O trabalho resulta correto, sem outros objetivos. E para o público ouvinte tarefa das mais fáceis ao colocar A Era de Ouro do Tango no prato, este imediatamente transporta-se para o mundo de Nostalgia, Mano a Mano, Madressilva, Percal, Cafetin de Buenos Aires, Cristal, A Média Luz, Esta Noche me Emborracho, Por Uma Cabeza, Mi Buenos Aires Querido, Yira... Yira, Caminito, Cambalache, Uno, Madressilva e outros hits do tango, sem a menor cerimônia. Apesar do espírito banal e pouco inventivo, ainda, algo delicioso mesmo que as canções sejam todas orquestradas e tenham tempo mínimo, um minuto para cada música. Os recursos de gravação, aqui, foram usados com cuidado e o material é destinado, exclusivamente, a um certo tipo de público. Nada além. (APRIGIO LYRIO)


A estreia brasileira do grupo inglês Queen.v

E para os fãs de Eric Clapton, uma agradável surpresa.

SHEER HEART ATTACK (com o grupo Queen, álbum EMI/Odeon, em Golias Discos) – Depois de quase três anos de atividades – o primeiro disco foi lançado em princípios de 1973 – o grupo de rock que se considera bissexual, o Queen, começou a ser alvo de atenção por parte dos apreciadores do rock-teatral e com tendências “brilhantes”, mais pelo fato da pantomina que acompanha as apresentações ao vivo do conjunto do que, propriamente, por sua música, que vem sendo atacada pela crítica internacional que chegou a compará-la com algumas das suspeitas manifestações da baixista americana Suzi Quatro, o que não impede que o Queen tenha rompido o difícil mercado americano em seu último tour por lá, provocando histeria nos fãs e altos e altos índices de venda do terceiro álbum do grupo, este lançado no Brasil e marcando a estrei do grupo em cenários nacionais, o elétrico Sheer Heart Attack. Formado pelos músicos Freddie Mercury (vocal e teclados), Brian May (guitarra). John Deacon (baixo) e Roger Taylor (bateria), o Queen criou suas bases em Londres e pode ser considerado como tipicamente inglês, apesar do líder do conjunto, o tecladista, vocalista e principal compositor e letrista Mercury ter nascido em Zanzibar e com educação na Índia, mas já com quinze anos estudava na English School of Art e tinha seu conjunto de rock. No início da década conheceu Roger Medows, Taylor e Brian May – que juntos integravam um grupo com o nome Smile – e logo começaram a formar as bases do Queen, contando com a participação de John Deacon e antes do sucesso e consequente aparecimento do primeiro álbum (Queen) tocaram em vários clubes londrinos ao lado de outros grupos desconhecidos. Em seguida, fizeram o LP (Queen II) e em maio foi lançado aqui um compacto com duas faixas do Sheer Heart Attack, que passou despercebido mas contando com o rock Flick of the Wrist, este o primeiro grande sucesso em vendagem do grupo. E baseando-se no sucesso alcançado pelo grupo perante o público infanto-juvenil, principalmente na Inglaterra onde os mais puristas aficionados por rock condenam o tipo de música feito pelo grupo, a Odeon colocou no mercado o último do Queen, lançamento original do final do ano passado. E, basicamente, o trabalho do Queen é caracterizado pelos excelentes efeitos criados em estúdio, campo em que o grupo é considerado como um dos mais profundos pesquisadores e seguindo a linha das também estrelas inglesas Beatles e David Bowie, e musicalmente coeso e instigante. Sem se limitar a seguir um estilo único, o Queen viaja por vários ritmos e estilos fazendo do seu recente álbum um trabalho de colagem, pode-se dizer, perfeito. E, para aqueles que pensavam que nada mais poderia ocorrer com as novas estrelas do rock pertencentes à última geração do movimento, resta ouvir o Queen, parafernálico na faixa de abertura Brighton Rock, semi-Alice Cooper em Killer Queen, brilhante em Flick of the Wrist e sugestivo em Now I’m Here, com Mercury vocalizando como Mick Jagger e lembrando alguns refrões de Little Queenie. O segundo lado também tem alguns momentos grandiosos como In The Lap of the Gods (com duas versões diferentes) e She Makes Me, intercaladas com canções curtas. Para os apreciadores, do gênero, um disco ideal. (APRIGIO LYRIO)

Ainda na swinging London, de 1965, começava a nascer o mito Eric Clapton. Na época, tocando com os legendários Yardbirds, depois fez estágio com o não menos “clássico” John Mayall: mais tarde foi um dos criadores do Cream – considerado como um dos maiores grupos de rock nascidos na Inglaterra e hoje transformado em legenda – ao lado de Jack Bruce e Ginger Baker: depois veio o Blind Faith, em carreira relâmpago como supergrupo, tocou sob o pseudônimo Derek and The Dominos: fez algumas aparições ao lado de grandes estrelas da música pop e em 1971, simplesmente afastou-se, já como grande mito e com desaparecimento de Jimi Hendrix ocupou o posto de maior guitarrista no mundo – sem citar as inscrições até hoje encontráveis em muros e estações de subways em Londres, Clapton is God (Clapton é Deus). O reencontro com o público – apesar do sucesso do disco 161 Ocean Boulevard (em 1974) ou mesmo antes, em fugazes aparições no Concerto para Bangladesh e no all-stars Rainbow Concert de Londres, em 1973 (ambos lançados em disco) – este veio com rótulo amargo: “Eu tinha me exposto demais, trabalhado tanto, e tocado diante de tanta gente, que me assustei e tive que me esconder. E acho que provavelmente isso acontecerá por mais três anos, e então nos próximos três vou de novo hibernar em algum lugar. Você não pode manter o esquema durante todo o tempo, estou certo disso”, declarou o músico. Em 1971, havia atingido o ápice de uma crise por ele mesmo descrita como “a fraqueza de não poder me encarar”. E depois de um tratamento de eletroacumputura, e um período “voltando às raízes”, Clapton deixou o exílio

voluntário, amargurado porém pronto para aceitar as regras do jogo: “Eu não consigo antever o amanhã. Serão mais três anos antes que me despedacem de novo. Também por problemas de dinheiro e de impostos, terei de deixar o país por um ano, volto para a estrada. Mas não importa”. Esta é a fase atual de Clapton, que ele consegue segurar com cuidado e alguma esperança. Seu último disco, como curiosidade, aquele inspirado em motivos latinos, e já com edição brasileira. There’s One in Every Crowd, é antes de tudo, um trabalho alegre e luminoso. E no momento o que se fala, quando o assunto é Eric Clapton, é de sua batida mais baixa (ou calma) musicalmente falando, do que em fases anteriores de sua atribulada carreira, principalmente nos últimos oito anos, reflexo encontrado nos dois últimos discos, seguindo uma linha variada e bastante americanizada, passando do rock para o blues, rock dançável, funky, como a escola de Shelter” e o reggae do soul jamaicano), naturalmente. E, como surpresa maior, a edição, no Brasil, de um compacto duplo feito para lançar a versão ao vivo de Clapton para o conhecido tema de Charles Chaplin Smile, trilha sonora do filme Tempos Modernos, um dos mais considerados do cineasta. A música é apresentada com grande feeling, com Clapton – como nos últimos tempos – dando mais importância aos vocais e deixando a guitarra famosa em segundo plano dividindo o solo vocal com a assídua Yvonne Elliman. As outras faixas são conhecidas do público e recordam os momentos mais concisos do 461 Ocean Boulevard: o reggae I Shot the Sheriff (em termos comerciais, o maior sucesso do músico), Get Ready (Clapton e Elliman) e o tradicional Steady Rollin’ Man. O lançamento é RSO Phonogram e pode (e deve) ser encontrado em Golias Discos. (A.L.)

“CLAPTON IS GOD”


Depois de quase cinco anos da edição original, o lançamento brasileiro da mais importante coletânea de Bob Dylan BOB DYLAN’S GREATEST HITS VOL. I (com Bob Dylan, álbum 137 904 CBS, em Golias Discos) – Com frases ásperas, fortes e semi-revolucionárias, aliadas com baladas regionais em sua voz fanhosa e cortante, sem dúvida, Bob Dylan contribuiu para modificar os pensamentos, musicais ou não, desde seu aparecimento quinze anos atrás. E de sua poesia refinada e completamente ligada às reflexões dos poetas “beat”, certamente Dylan foi um dos principais responsáveis pelo nascimento, nos jovens, de um impulso de abandonar convenções e sair sem rumo pelas estradas, tornando-se cada um uma pedra rolante, verso de sua música mais conhecida, o clássico Like a Rolling Stone. E hoje, com 33 anos e quase a idade média de seus seguidores, o cantor/compositor/instrumentista já não pode se sentir tão livre como em seu período inicial –de fantasias, necessidades e espírito descompromissado – mas, pelo menos, tenta: depois de sua volta aos palcos fazendo tour pelos EUA no ano passado e envolvimento mamute em termos de turnês que rendeu o álbum Before the Flood, neste final de ano Bob Dylan, ao lado de nomes como Joan Baez e Roger McGuinn e outros, faz apresentações pelos Estados Unidos em cidades menores e sem se preocupar com anúncios antecipados para não despertar atenção ao mesmo tempo em que o grupo mambembe intitulado The Rolling Thunder Revue só se apresenta em pequenas salas. Após dois álbuns magníficos (Planet Waves e Blood on the Tracks), Dylan já tem pronto um novo disco e a faixa escolhida para fazer o single, Hurricane, já está em listas dos mais vendidos enquanto um outro trabalho reunindo faixas não aproveitadas anteriormente foi lançado, com o título The Basement Tapes (“As Fitas de Base”) gravadas ainda na década de 60 e ao lado do grupo The Band, ambos inéditos no Brasil. E depois de quatro anos guardado em suas gavetas, a CBS decidiu-se a editar por aqui este Greatest Hits Volume I, que se não reúne o melhor de Dylan, em suas dez faixas, mostra o que ficou mais marcante em seu trabalho até o início os anos 70. Sem deixar de ser um álbum de grande interesse par aos colecionadores do sempre instigante e musicalmente perfeito trabalho de Bob Dylan – já que grande parte dos seus álbuns iniciais foram retirados de catálogo ou então nunca lançados no Brasil – este Greatest Hits ganha importância real. Com deleite podem ser reouvidas as magníficas e gravadíssimas Blowing in the Wind, Like a Rolling Stone, Mr. Tambourine Man, I Want You ou as mais recentes It Ain’t Me Babe, If Not For You, Just Like a Woman e Lay Lady Lay, a mais recente de todas desta coletânea e retirada de seu álbum Nashville Skyline que chegou a marcar uma nova fase para Dylan, cantando melhor e trabalhando com mais carinho suas folk musics que começariam a perder a característica inicial para um desenvolvimento mais aprimorado sem perder em nada o talento inovador, sarcástico e cáustico das canções-marca-registrada-Dylan. Resta dizer que em 65 Dylan’ decidiu-se a incorporar em sua banda de apoio instrumentos elétricos, o que lhe valeu uma enorme vaia no Newport Festival e ali estava morto o vagabundo-cantor para ceder lugar ao Dylan rocker, a personalidade mundial que chegou até a fazer filmes e trilhas sonoras. (APRIGIO LYRIO)

Mais um exemplo, recentíssimo, do jazz-rock sofisticado da Chick Corea WHERE HAVE I KNOWN YOU BEFORE (Com o grupo Return to Forever, disco Polydor/Phonogram, em Golias Discos) – O tecladista Chick Corea (ou Armando Anthony Corea) depois de passar pelos conjuntos de Mongo Santamaria e do flautista Herbie Mann, ambos envolvidos com ritmos afro em suas experiências sonoras, teve sua fase mais importante, enquanto músico participante de outros conjuntos, era seu estágio com o trompetista Miles Davis um dos maiores nomes do jazz contemporâneo, desenvolvendo uma técnica em instrumentos elétricos e sintetizadores até então desconhecidos pelo excelente músico. A entrada de Chick Corea para o grupo de Miles Davis aconteceu quando da saída de Herbie Hancock, que partiu para uma carreira individual ainda em 1968. Antes de formar o conjunto Return To Forever, precisamente dois anos atrás, Chick Corea já havia feito alguns discos individuais sendo que o único lançado no Brasil foi Bliss, gravado em 67 (editado por aqui em fins de 74) numa fase em que o free jazz estava em grande evidência, não como modismo mas uma fonte renovadora iniciada principalmente por Thelonious Monk, Eric Dolphy (inigualável saxofonista morto em 65), continuada por John Coltrane, Miles Davis e mais recente, John Coltrane, Miles Davis e mais recente, John McLaughlin que com sua Mahavishnu Orchestra tem influenciado em assustadora escala praticamente todos os guitarristas jazz-rockers. Dos três discos do grupo Return to Forever, só o primeiro recebeu edição brasileira, o Light As A Feather e agora o recentíssimo Where Have I Known You Before, lançado com uma

rapidez inexplicável pela Phonogram, já que os apreciadores do tipo de som feito por Corea podem ser contados a dedo. Definindo sua música como sofisti-funk, a fusão jazz e rock feita por Chick Corea apesar de todo o apuro técnico e inegável elegância musical e filosófica (completamente ligada ao existencial), está longe dos inspiradíssimos momentos de um Ornette Coleman ou mesmo Monk, diga-se, vários anos atrás já fazendo um tipo de música nada convencional, pungente e completamente elétrica/eletrizante, e só como curiosidade, sem fazerem uso de qualquer instrumento elétrico. Certamente os melhores momentos deste Where Have I... estão longe dos temas pirotécnicos e longos compostos pelos integrantes pelo RTF (além de Corea nos mais variados teclados, a participação de Lenny White como percussionista, Stanley Clarke no baixo e órgão e Al Dimeola em guitarras), todas bastante afastadas dos propósitos de Corea em fazer música divertida e dançável de forma sofisticada. Os temas são complexos e fica quase fora da imaginação pensar em alguém dançando ao ritmo de guitarras bastante influenciadas por McLaughlin, o que dá um certo ar de reprise ao som feito pelo conjunto. Das faixas longas, as únicas que conseguem se impor pelo ineditismo são Beyond The Seventh Galaxy e Song For The Pharoah Kings onde Corea domina com sua técnica e a repetitiva guitarra de Dimeola aparece em termos diminutos, e os momentos líricos representados por três faixas também de Corea Where Have I Loved You Before, Where Have I Danced With You Before e Where Have I Know You Before com o compositor em sereno piano, sua real especialidade. Mas já que as bases principais do tipo de música feita por Chick Corea e conjunto são climáticas e segundo declarações do autor “o que importa é o feeling emocional alcançado”, sob esses aspectos o disco satisfaz completamente. (APRIGIO LYRIO)


Das mais recentes experiências de David Bowie e algumas considerações sobre o novo trabalho em disco

Bowie: PASTICHE SOUL?

Bastante sujeito a modismos e, obviamente, uma personalidade mutante dentro do cenário da música pop internacional, as novas investidas do cantor/compositor David Bowie – agora definitivamente radicado nos EUA – em terrenos de soul music não foram muito bem sucedidas. Apesar de vir acompanhado de grande campanha publicitária. Teria declarado o cantor, mesmo antes do seu álbum duplo lançado em fins do ano passado registrando uma apresentação sua no palco do Tower Theater, na Filadélfia que em seu próximo trabalho de estúdio (talvez para cativar outro tipo de público americano) estaria fortemente “inclinado” a desenvolver um certo tipo de soul – talvez, o estilo musical mais pobre legado pelos negros americanos, uma fusão comercialóide do tradicional jazz com o rhythm’n’blues. Os primeiros vislumbres deste envolvimento de Bowie pôde ser comprovado no seu Diamong Dogs na faixa 1984 que mostrava alguma inclinação, em sua melodia, para os tema (pouco) desenvolvidos de um Isaac Hayes ou mesmo Barry White, o milionário do soul. Agora, este novo casamento do músico pode ser degustado no seu mais recente álbum, intitulado Young Americans e já lançado nos mercados americano e inglês. Se Diamond Dogs com suas pretensões “a inteligência literária” foi uma espécie de versão em vinil de futuros choques, o trabalho em Young Americans está sendo considerado por críticos especializados como deliberadamente básico. E as sempre constantes mudanças de David Bowie estão sendo encaradas como modas que passam, o que de certa forma não teria a menor importância se o cantor tivesse conseguido com este trabalho sobreviver às acusações de pastiche, frio e processado em computador. E, ainda, no cenário mecânico do álbum as únicas ressalvas são feitas para os músicos que acompanham o glitter cantor em sua grande maioria participando pela primeira vez ao seu lado com exceção do tecladista Michael Garson, do percussionista Pablo Rosário e do excelente saxofonista David Sanborn presença-destaque no David Live e considerado o salvador das faixas Fascination e Somebody Up There Likes Me, assim como o baterista Andy Newmark e o baixista Willie Weeks. Com um tratamento de backing vocals também elogiado e trazendo a marca registrada do cantor, além da faixa-título Young Americans já lançada em compacto (e no momento entre os singles mais vendidos na Inglaterra) os destaques aparecem para a regravação de Across the Universe (de John Lennon e incluída no Let It Be dos Beatles). Inclusive Lennon participa como guitarrista em algumas faixas e principalmente na canção Fame, feita em conjunto por Bowie, o guitarrista Carlos Alomar e o próprio Lennon, que consegue algum balanço e certamente indicada, com seus riffs “emprestados”de James Brown, para figurar entre as mais executadas em todas as discotheques.Ver para crer.

Com dois anos de attraso, a primeira mostra do grupo Uriah Heep em gravação ao vivo

URIAH HEEP LIVE (com o grupo Uriah Heep, álbum Bronze/ Phonogram) – Gravado durante o tour que o Uriah Heep empreendeu pela primeira Inglaterra em janeiro de 73, só agora foi lançado no Brasil esta primeira experiência do grupo inglês em gravação ao vivo e contendo o material do show apresentado num álbum duplo, em luxuosa edição fartamente ilustrada e com sleeve notes sobre o grupo e seus integrantes feita pelo jornalista

Geoff Brown, do semanário Melody Maker. Num momento em que os conjuntos de rock pesado estavam saindo de cena devido a uma certa saturação, o Uriah Heep apareceu e desde o seu primeiro disco lançado, o Very ‘Umble and Very ‘Eavy, com enorme campanha publicitária (já que o grupo nunca havia feito uma apresentação para público), recebeu grande aceitação principalmente pelos fãs envolvidos com o tipo de música feita pelos também ingleses Black Sabbath e Deep Purple. Seus discos mais recentes têm aparecido bem nas paradas de sucessos, o que prova que, pelo menos, perante o público o grupo tem um número considerável de adeptos. Mas mesmo assim, ninguém pode dizer que o Uriah Heep é um conjunto da moda ou que também pertenceu à chamada intteligentzia do rock. O grupo, no início, era formado pelo guitarrista Mick Box e David Byron (que começaram a tocar juntos no Stalkers e depois formaram o Spice) e por influência do produtor Gerry Bron, convidaram o tecladista Ken Hensley (que já tinha experimentado o sucesso num grupo intitulado God, do qual saíram ainda dois nomes famosos, Greg Lake e Mick Taylor). Vários baixistas passaram pelo Urah Heep mas só depois do terceiro álbum gravado e durante uma excursão pela América que os músicos Lee Kerslake (também ex-God) e Gary Thain uniram-se ao grupo dando uma contribuição mais eficiente, não só como músicos instrumentistas mas também como compositores, com todos os outros membros. E, para os ainda fãs do Heep, este disco ao vivo não poderia ser mais eficiente ao mostrar o grupo em seus melhores momentos de hard-rock – fazendo um apanhado do seu material, estão no disco alguns antiques tradicionais como Easy Livin’ e Look at Yourself (faixa título do terceiro LP) e

algumas canções mais recentes como Sunrise e Sweet Lorraine. Os lados dois e três do álbum apresentam faixas longas onde os malabarismos do Heep podem ser apreciados (ou não). Mas o detalhe curioso vai para o medley final, apresentando clássicos da idade de ouro do rock‘n’roll como Roll Over Beethoven, Blue Suede Shoes, ‘Hound Dog, Whole Lotta Shakin’ e outras onde o grupo se mostra em “interessante” forma. Recentemente em entrevista o maior contribuidor do Uriah Heep, o tecladista Ken Hensley declarou o estado do grupo, atualmente quase perto do fim por incompatibilidades entre seus membros: depois de gravar o seu primeiro disco solo (Proud Words on a Dusty Shelf ) estava preparando material para o segundo quando, por imposição da gravadora que mantém o grupo sob contrato, o disco Wonderworld (lançado no Brasil em novembro) foi feito e contendo material que teria como destino o segundo disco individual de Hansley, mas acabou por sair como trabalho do grupo já que nenhum dos outros músicos tinha canções apropriadas para serem colocadas no álbum. E o tecladista afirma que tanto o fracasso do LP quanto o recente, tour pelos Estados Unidos foram motivados pela falta de interesse dos músicos que não se preocupam em buscar novos caminhos para sua música. “No momento trabalhamos como zumbis principalmente por um pacto que fizemos que para o bem do grupo, tentaríamos engolir nossas diferenças. Se eu acho que o grupo perdeu sua identidade, ou que o cantor gravou mal uma canção não tenho com quem discutir. Durante a temporada americana tocávamos uma canção satisfatória em cinco e não consigo suportar a ideia de sair frustrado do palco. No momento só penso no meu disco gravado (Eager to Please), (...) lançado em abril”. (APRIGIO LYRIO).


LANÇAMENTO INTERNACIONAL O mais recente disco de Bob Dylan e o terceiro feito em menos de um ano BLOOD ON THE TRACKS (com Bob Dylan, álbum CBS) – Depois da comentada saída de sua gravadora habitual, numa rápida incursão pela Elektra/Asylum – que resultou no lançamento, no ano passado, em dois álbuns Planet Waves e o “ruidoso” Before The Flood que foi a gravação do seu show pelos Estados Unidos no início de 74, depois de um grande período de afastamento dos palcos, onde nos últimos anos só havia aparecido para apresentações coletivas – Bob Dylan (ou Robert Allen Zimmerman), o grande troubadour da América (e do mundo) fez sua volta à Columbia e em setembro começou a trabalhar em seu novo disco, que depois de um anunciado lançamento para o Natal foi repentinamente regravado porque o músico não estava satisfeito com algumas vocalizações. E imediatamente após o lançamento de Blood on the Tracks (Sangue nas Trilhas) em meados de fevereiro o álbum já estava na lista dos mais vendidos na Inglaterra e Estados Unidos, mais uma vez solidificando a perpetuação do mito Bob Dylan no cenário da música popular internacional. E desde sua aparição, em início da década de 60. Dylan foi considerado como um dos maiores fenômenos de criação musical que a América já teve. De sua vida peregrina, seu inicial devotamento à música negra americana (principalmente dedicada às figuras de Hank Williams, um dos grandes cantores da música rural norteamericana e autor da conhecidíssima Jambalaya e ao glitter-rock de Little Richard) sua imagem criada, e essencialmente vivida, de trovador inquieto, vagabundo de verdade e poeta visionário e a sua própria história confundem-se com a história da formação da América destes dias, principalmente como registro do nascimento de uma geração. E Dylan foi um dos poucos a contar/cantar, com sua estupenda capacidade de absorção e uma inteligência agudíssima, todos os conflitos que envolveram a América contemporânea em maneira definitiva e universal. De criança tímida, nascida de uma família judaica de classe média para um grande envolvimento com a música não foi necessário muito esforço. E no caso, a música serviu como válvula de escape para Dylan com todo o repressivo sistema familiar. Depois de fundar o seu primeiro conjuntinho de rock, o The Golden Achords, os primeiros encontros de Bob Dylan com a folk music deram-se quando ele começou a cursar universidade em 59, numa época em que o rock’n’roll já tinha tomado rumos comerciais e de grande resfriamento em sua estrutura inicial. Começou a tocar em bares a troco de comida e seu repertório (nesta época ainda não compunha) era uma mistura – um pouco folk, uma dose de blues rural, um pouco de rhythm’n’blues o que de certa forma resume seu estilo musical, até hoje. E vivendo como beatnik, logo abandonou a Universidade e tendo começado a idolatrar Woody Guthrie (um dos maiores estradeiros americanos, que cantava em todos os lugares por onde passava) transfere-se para New York e vai viver em Greenwich Village, cantando em bares e contando as histórias mais estranhas sobre sua vida, certamente inventadas, um mundo de personagens fictícios que povoariam suas músicas posteriores. E com seu prestígio aumentando consideravelmente entre os jovens protestadores, logo foi contratado pela Columbia, mas antes já havia participado de gravações com Harry Belafonte e Victoria Spivey (grande cantora negra de blues) tocando violão e gaita. E com sua voz rouca e dedilhando com grande eficiência seu violão produzindo sons ásperos, Dylan segura a linha do talking blues (cantando com bases longas em cima de um só acorde) e suas prostest songs (como Blowing In The Wind, Like a Rolling Stone, A Hard Rain’s Gonna Fall, The Times They Are A-Changing) foram ouvidas em todo o mundo. Em 65, no Festival de Newport o músico apresenta-se com guitarra elétrica e foi duramente criticado e um maior amadurecimento em sua música surgiu depois do acidente que sofreu. Na década de 70 Bob Dylan já aparece de forma mais refinad com o seu Nashville Skyline ou antes, com o álbum Self Portrait certamente um dos seus trabalhos mais importantes. E suas criações mais recentes refletem um Dylan mais preocupado com sua própria pessoa, seus bitter-sweet rocks mais preocupados com experiências individuais e uma certa volta ao passado (anteriormente Dylan

havia renegado sua vida familiar mas no início de 70 converte-se ao judaísmo e visita Israel). Com seu estilo inconfundível, inquieto, sua poesia contundente e suas frases cortantes na harmônica Dylan construiu este Blood On The Tracks com grande estilo. Apesar do sangue não ser claramente visível, ele está presente em todas as faixas do disco nas desilusões, desesperanças, nas glórias e amarguras (da vida). E os destaques principais vão para as baladas apresentadas, um passeio por caminhos mais polidos e contando com instrumentação mais discreta (participam do disco o violonista Buddy Cage, do grupo New Riders Of The Purple Sage, mais o baixista Tony Brown, o organista Paul Griffin e a banda de Eric Weissberg, Deliverance). E com sua enorme fertilidade o excepcional músico/poeta tem grandes momentos na s faixas Simple Twist Of Faith e You’re a Big Girl Now (canções de amor, longe de serem “simples canções de amor”) consegue ser elétrico e completamente crítico em Idiot Wind (uma certa revisão do seu conhecidíssimo tema Blowing In The Wind e romântico em If You See Her Say Hello. Certamente este Blood On é um dos lançamentos mAais importantes deste ano e no momento o disco só pode ser encontrado no mercado dos importados mas a edição brasileira não deve demorar muito. O que seria muito gratificante. (APRIGIO LYRIO).

“E DESDE SUA APARIÇÃO, EM INÍCIO DA DÉCADA DE 60, DYLAN FOI CONSIDERADO COMO UM DOS MAIORES FENÔMENOS DE CRIAÇÃO MUSICAL QUE A AMÉRICA JÁ TEVE”

Sobrevivendo a várias mudanças, um trabalho interessante de um veterano grupo inglês

THE MIRROR (com o grupo Spooky Tooth, álbum Island/Phonogram, à venda breve) – Fundado em 1967, o grupo Spooky Tooth foi um dos primeiros a fazer uso de rock com elementos jazzísticos, nas instrumentações, ao mesmo tempo em que o também inglês Traffic recorria aos mesmos recursos. A diferença fundamental entre os dois grupos fica com a solidificação do gênero pelo Traffic, enquanto o Spooky dedicou-se a um público mais jovem e adepto de um certo psicodelismo religioso e, inclusive, teve sua carreira um pouco dificultada por constantes mudanças, rompimentos e voltas. E após várias fases – a de maior aceitação e consequentemente de maior fama e grande vendagem em discos foi até o início dos anos 70, quando Mike Harrison, vocal e teclados e o fundador do grupo, ao lado de Gary Wright, abandonou o conjunto para fazer carreira individual sem muito sucesso e durante esse tempo o Spooky Tooth esteve parado – em 1973 aconteceu a volta, com o álbum You Broke My So... I Busted Your Jaw (com edição brasileira Phonogram) assim como Witness, lançado aqui no final do ano passado e ambos não foram bem recebidos principalmente pelo lugar – como dos temas aproveitados como motivo para as letras infantis que acompanham as melodias, em sua maior parte compostas por Gary Wright, por curiosidade, um dos músicos mais solicitados, no momento, para participações especiais em jam sessions sendo a mais recente e citável sua participação no último disco de George Harrison (ou se preferirem, Harl Georgeson nome que o músico adotou “de uns tempos para cá”). Mas este The Mirror, lançado na Inglaterra em julho do ano passado – o sétimo gravado pelo Spooky Tooth – aparece novamente sem a presença maçante de Mike Harrison, mais uma vez em busca de reconhecimento individual como havia feito em 70 – e surge com o grupo reforçado com duas gratificantes adesões: o tecladista/vocalista/baterista Mike Patto, ex-líder do extinto grupo Patto e a do baixista Val Burke.

Sem a produção de Jimmi Müler, responsável pelo trabalho do Traffic e alguns momentos do Rolling Stones e o principal conselheiro do grupo no início, The Mirror não perde em nada para os álbuns anteriores do Spooky Tooth pois o tipo de música feito pelo grupo sempre foi de boa qualidade, mesmo com as constantes mudanças e altos e baixos. Inclusive The Mirror pode ser considerado como sua melhor realização, apesar do estilo conservar-se o mesmo dos discos anteriores: dois tecladistas que se alternam nos vocais mais baixo, guitarra e bateria. Algumas combinações de Wright e Patto chegam a ser brilhantes como em Fantasy Satisfier a faixa de abertura, The Mirror a faixa título e The Hoofer, uma interessante (e variação de rock com blues. O álbum é interessante e destaca-se, pela enorme quantidade de discos semelhantes lançados no mercado atualmente, do mesmo gênero mas sem a mesma classe. (APRIGIO LYRIO)


MÚSICA BRASILEIRA Evocações latinas. Sinuosas, brilhantes e audaciosas

festivalesco também é material forte. Resta aos ouvintes apreciar o novo trabalho do inquieto Ney Matogrosso, elaborado, desordenado, brilhante, político, debochado, sério, atual, teatral e sobretudo extremamente musical. E fiel, porque o cantor conseguiu criar uma imagem, apesar de já contada, perfeita para o tipo de trabalho que pretende desenvolver. (APRIGIO LYRIO).

MÚSICA POPULAR “Feito Gente” à Wanderléa, agora em disco

NEY MATOGROSSO (com Ney Matogrosso, disco Continental, na casa Pianna) – Como dizia o líder e fundador do extinto Secos e Molhados João Ricardo, Ney de Souza Pereira, depois Matogrosso, sempre foi o outdoor do grupo (e com razão). Em início de sua carreira (solo) Ney teria declarado que “talvez procure a indefinição porque, quanto mais indefinido, mais aberto e amplo. Quero ser tudo, uma figura que pode ser qualquer coisa”. Enquanto isso armava seu voo individual no final do ano passado e depois do lançamento do segundo disco do seu antigo grupo que chegou às lojas marcado pelo disbandm Ney audaciosamente viaja para Roma e grava um compacto ao lado do consagradíssimo Astor Piazzola, lançado na Itália na época e agora incluído, como brinde, neste seu primeiro disco. Também não foram poupados esforços para suas apresentações ao vivo: com o enorme esquema publicitário que envolve o aberto/ amplo cantor, três meses de ensaios e uma excelente banda de apoio a sinuosa figura esteve em opulência no Hotel Nacional, Cervejaria Canecão e Teatro Tereza Rachel, envolvido por cenários elaborados por Vicente Pereira, evocações de selva ressecada, cipós, cordas, etc., em show de estreia, com sucesso. E agora o disco. Diz-se que: por cada hora gasta no estúdio Vice Versa (de Rogério Duprat e Gutemberg Guarariba), Ney Matogrosso, ou sua gravadora, pagou Cr$ 700,00. E entre aluguel de equipamentos de som, divulgação, equipe e outros aparatos como a excelente embalagem do disco – criação do artista plástico Rubens Gerchman – o disco ficou em 300 mil cruzeiros, num cálculo otimista. E com todo o espírito forte, ágil, alucinante e fascinante e mesmo com as banalidades do tempo dos Secos e Molhado, Ney Matogrosso nunca pôde ser considerado com um artista qualquer. E para criar o clima evocativo das estranhezas latinas, antes de tudo o cantor declara que ao lado de sua banda não é um líder mas o instrumentista de número nove – com brilhantismo, participam Guilherme Vaz (piano e sintetizador, ex-compositor de trilhas sonoras para filmes e artista plástico), Bruce Henry (baixo, ex-Soma e com passagens pelo grupo de Gilberto Gil), Marcio Montarroyos (trompete, flugelhorn e ex-integrante do grupo de Vitos Assim Brasil), mais dois músicos anteriormente participantes do Secos e Molhados, Jorge Omar e Sérgio Rosadas (violão acústico e viola e flauta, respectivamente), o percussionista Chacao,participando com instrumentos de sua criação,Elber Bedaque (bateria) e Claudio Gabis,guitarrista argentino com mais de trinta discos gravados e descoberto (para o grupo) com Marcio Montarroyos. O repetório usado não poderia ser mais sofisticado. Das gravações com Piazolla, duas canções assinadas pelo músico: a surpreendentemente bela As Ilhas (com letra de Geraldo Carneiro) e 1964 (II). E do disco, mostrando um Ney Matogrosso dominando completamente, com seu falsete cada vez mais apurado e ao mesmo tempo agreste, intercalado por sons aleatórios (chuvas, ruídos inexplicáveis, trompetes, pios e outros) entre as faixas, logo a primeira canção escolhida define o espírito do álbum. O Homem de Neanderthal (de Luiz Carlos Sá), com mistério no texto e gritos alucinantes do cantor, seguida por O Corsário, um dos melhores trabalhos da dupla João Bosco e Aldir Blanc e aproveitada, com grande criatividade, por Ney que está sensual em Açúcar Candy (uma obra prima provocativa de Sueli Costa e Tite de Lemos): e a primeira face do disco é completada por Pedra de Rio, também um momento supremo de Ney na composição Luli, Lucinha e Paulo César, e Idade de Ouro ( Jorge Omar e Paulo Mendonça). Já o resto do material apresentado traz três composições conhecidas: a retomada do tema Bodas (Milton Nascimento e Rui Guerra), a excelente Mãe Preta (Barco Negro), fado de sucesso na voz de Amália Rodrigues, e a antiga rumba Coubanakan, terminando com o tema de Paulo Machado, América do Sul, que apesar de letra comum e o acompanhamento ser em forma

FEITO GENTE (com Wanderléa, álbum 2451 065 Polydor/Phonogram, à venda breve) – A abertura para um novo trabalho pode ser considerado, somente, pelo título escolhido para definir o novo show e agora disco da cantora Wanderléa, Feito Gente, música do polêmico Walter Franco e gravada pelo autor em um compacto que passou despercebido. E do diálogo com diferentes compositores, para a montagem do espetáculo, consequência de um trabalho de equipe com Arthur Laranjeira e Rosinha de Valença, respectivamente produtor e diretora artística, este provocou uma grande alegria e quase que um surgimento de uma nova cantora. Pois Wanderléa Salim, nascida em Governador Valadares, Minas Gerais, em 1946, começou a cantar ainda menina e aos dez anos já era participante ativa de programas infantis. Tornou-se profissional em 1962 e desde então sua carreira sempre esteve em constante ascensão. E na época da ilusão da Jovem Guarda – para adolescentes – a cantora, ao lado de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, foi uma das principais responsáveis pelo movimento. E, de repente, a descoberta, e a mudança: “Desde 73, quando fiz o show Wanderléa Maravilhosa, eu já estava nesta busca, querendo fazer um trabalho mais solto. Eu vinha de uma tradição musical em que, sem exceção, a música que eu menos gostava era geralmente a que estourava”. E continua a exTernurinha, em recente entrevista: “Quando uma pessoa começa a carreira muito cedo, a tendência é fazer uma música ingênua, como aconteceu comigo na fase da Jovem Guarda. Mas aos poucos começa-se a mudar e sente-se necessidade de realizar algo que esteja mais próximo da gente. Essa fase de transição – busca de algo novo ainda não muito delineada – é algo delicado e que precisa ser discutido com as pessoas. Na época de Wanderléa Maravilhosa, que logo virou disco, não obtive essa chance e a história se repetiu: tanto no show como no disco eu cantava músicas maravilhosas, mas a mais tocada foi justamente Mate-me Depressa, que se aproximava do meu estilo anterior”. E depois de uma viagem para os Estados Unidos onde ficou um ano, “a continuação da busca, estudos e ouvindo o que melhor aparecia. Era uma questão de definir bem as coisas, pois ao mesmo tempo em que gosto de uma canção romântica, não posso deixar de lado o embalo, essas possibilidades de movimentação cênica, uma experiência que trago a algum tempo. O que desejava, e agora sei que encontrei, era reunir tudo isso,integrando a minha pessoa,com a do artista,através das letras das músicas.É isso mesmo o que eu quero. Jogar tudo que tenho de lírico, de romântico, de forte, de covarde, de autêntico, de amor”. E com sua juventude, com seu mineirismo, maneirismos, vícios, sua proposta rítmica (mistura de bajão com banda americana),acrescidos de uma carga de pesquisas,estudo e até mesmo sofrimento,este foi o clima para o show Feito Gente,que teve estreia no primeiro semestre deste ano,no Rio e depois de casas sempre lotadas e mudanças para outros teatros,no momento Wanderléa faz turnê pelas principais cidades do Brasil. E da antiga cantora tímida, açucarada e pouco maleável, uma mudança, principalmente, mais cautelosa – como intérprete e também na escolha daquilo que canta. Um fato que não pode ser notado no disco foi uma divisão que o espetáculo sofreu: como primeira parte, a inspiração através da música se Sueli Costa Verdes Varandas e uma segunda parte mais forte,motivada pela canção de Walter Franco, Feito Gente. E ponto primordial – antes de qualquer consideração sobre o material gravado – a forte presença de Rosinha de Valença como diretora artística do espetáculo e contando com alguns músicos que fazem parte do seu conjunto: os excelentes Helvius (piano), Fredera (guitarra), Chiquito Braga (guitarra e violão), Rubão Sabino (baixo), Celinho (trumpete), Copinha (sax, flauta e clarineta), Ivo Moreira (bateria), Alberto das Neves (percussão). E como surge no disco/retalho, as canções românticas foram misturadas àquelas de grande impacto e o resultado, antes de tudo surpreendente. Os autores usados são aqueles que têm se destacado ultimamente junto a música popular brasileira atual.Ecomgrandefeeling,mesmoligada(ainda)aalgumasdependênciasvocaisdostemposdaJovemGuarda, Wanderléa não só sobrevive a este pomposo Feito Gente como transforma-o em material forte e indispensável. Bastante amadurecida como pessoa, o que facilmente é refletido em sua música, Wanderléa passa por Luiz Gonzaga Jr. (Eu Nem Ligo e Palavras, esta talvez um dos melhores momentos do “drama à todo vapor” Feito Gente), Sueli Costa (Poeira e Solidão, Lua, Verdes Varandas, sendo que as duas últimas foram feitas especialmente para o acontecimento), relembra Bidú Reis (Que Falem de


Mim), brinca com Conversa Mole de Hermínio Bello de Carvalho-Vital Lima) e Ginga da Mandinga ( Jorge Mautner-Rodolpho Grani Jr.), fica forte mas com agressividade mal filtrada em Segredo (Luiz Melodia) e em Feito Gente (Walter Franco); e um destaque para a faixa Carne, Osso e Coração ( Joyce) onde Wanderléa mostra que em baladas ainda continua soberba. Existe o espírito climático, o envolvimento, resultando num trabalho coeso, de ataque e com grande garra. Para os fãs da cantora, material indispensável. (APRIGIO LYRIO).

O QUE ACONTECE Na metade da década de 50 e embora nunca tenha feito grande sucesso – talvez por ser negro fazendo rock ‘n’ roll, quando o movimento ganhou maior destaque principalmente depois de Bill Haley,aquele que filtrou o novo som feito pelos negros,para público branco – Bem E.King foi cantor e compositor marcante.E agora está de volta com o álbum eSupernaturalThing.Recentemente,um dos seus maiores sucessos – nem tudo esteve perdido – a balada Stand By Me foi recriada diga-se, com elegância, por John Lennon em seu álbum de memorabilies Rock’n’roll. Como registro. É toque. Também em destaque: o trabalho que o mais quieto do extinto Secos e Molhados está lançando como primeiro álbum solo depois de diabano, e feito com a atriz-cantora Zezé Motta. E enquanto Gerson Conrad anuncia que tira a máscara e depois de um show – o primeiro individual declara, em entrevista: “O Ney fez um disco que lhe garante, apesar dos altos custos, a permanência na música popular brasileira moderna, enquanto João Ricardo partiu para uma variante. Sob o disfarce de um pretenso álbum individual, este surgiu impregnado do antigo trio, inclusive nos esquemas e armações publicitárias”. São apresentadas as novas composições de Gerson Conrad com seu parceiro Paulinho Mendonça no álbum feito para a Som Livre e já lançado, esta semana, sem muitos gastos. E do disco de Gerson e Zezé (quem ouviu já pensa em envolve-lo com o já “passado” rock-rural) este é especialmente pouco musical, mesmo com o trabalho de Eduardo Souto Neto, responsável pela direção musical, Ver e ouvir.

“Abacateiro, acataremos seu ato, nós também somos do mato como o pato e o leão/Aguardaremos, brincaremos no regato até que nos tragam frutos, teu amor, teu coração/Abacateiro, teu reconhecimento é, justamente, o significado da palavra temporão: enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão/ Abacateiro, sabes ao que estou me referindo, porque todo tamarindo tem seu agosto azedo, cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também/Abacateiro, serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar/ Abacateiro, saiba que na refazenda tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar” (Refazenda, de Gilberto Gil).

Música popular na Semana de Arte de São Mateus, que teve início ontem e se prolonga até o próximo dia 11. Na segunda-feira, 6 de outubro e às 20 horas na Cidade Velha de São Mateus, show de músicos/compositores capixabas, entre eles. Arlindo Castro, Paulo Branco, Afonso Abreu, Mario Rui Nogueira e Marco Grijó. No repertório: Peter Banana, Não me Canso, Duro de Roer (de autoria dos músicos) mescladas com alguns hits como Pode Vir Quente Que Estou Fervendo (Roberto e Erasmo Carlos) e Don’t Let Me Down (Lennon e McCartney). E para quem for a São Mateus, uma prévia do espetáculo Mistura Fina, que Arlindo, Afonso, Mario e Marco apresentarão nos dias 25 e 26 deste mês no Teatro Carlos Gomes. Também em São Mateus, dia 10 de outubro, sexta-feira, apresentação do grupo de música progressiva (na falta de melhor definição) de Campos, de nome Lúcia Lúcifer. Participam – fazendo momentos instrumentais e cantados – os músicos Luiz Ribeiro, Chico Olyntho, Wellington Chaves e João Augusto Pimentel. Em estreia, neste Estado. E o grupo inglês Deep Purple volta, no próximo mês, como o primeiro álbum realizado ucdepois da súbita saída de Ritchie Blackmore. E o álbum, Come Taste The Band, serve para anunciar a mamute turnê mundial que o novo Purple faz, breve e já com presença do guitarrista Tommy Bolin fazendo a posição do Blackmore, este já com disco-solo lançado. Entre os discos mais vendidos nos Estados Unidos, o mais recente do Jefferson Starship, Red Octopus tirando o primeiro lugar da lista o recordista Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, do infalível Elton John. Na Inglaterra quem lidera a lista é Rod Stewart (do Faces) com seu novo álbum Atlantic Crossing, ainda inédito no Brasil.


Já falando no “alquimista” Elton John, ele já está com seu novo LP pronto com lançamento previsto para novembro – e será seu último trabalho para a DIM Records. O novo álbum, intitulado Bottled and Brained, junto com um LP ao vivo – o qual já foi gravado – marca o fim das obrigações de Elton para sua antiga gravadora e, seus discos agora sairão pela etiqueta Rocket, do músico e fundada dois anos atrás para produzir os álbuns de Kiki Dee. A mudança acontece: a Rocket será etiqueta da EMI Records que ganha os direitos da gravadora Island. Eu me aborreci com a banda porque só se tocava em casas com acomodações para 300 pessoas, o que era muito deprimente, ao mesmo tempo em que estava ficando completamente surdo porque a banda estava indo muito alto. E tudo chegou ao ponto em que eu não era nem mais criativo”. A declaração é de Alphone Mouzon, o baterista estrelar de jazz rock, que deixou o Eleventh House de Larry Coryell. No momento – depois de dois anos ao lado de Coryell, e antes, com o Weather Report – Mouzon está em Genebra e gravando com Patrick Moraz (do Yes) nos estúdios do tecladista inglês. Já lançados no mercado internacional: o novo George Harrison, depois do fracasso em vendas do álbum anterior intitulado Dark Horse (inaugurando a gravadora do exBeatle, com o mesmo nome) e causando grandes procuras. Junto ao álbum Extra Texture sai também um compacto You. Também o novo disco da vocalista country’n’pop Melanie – no momento, em turnê pela Inglaterra – já lançado, com o título Sweet and Other Begginings. Walter Franco, o cantor/compositor paulista, controvertido, depois do lançamento de um LP (o da mosca) em 1973 – agora reeditado – e alguns compactos que não apareceram, teve sua antiga canção Feito Gente (Eu Te Amei Como Pude), gravada por Wanderléa. Diz o músico: “Por isso eu canto aqui, agora, feito gente, feito fase, como quem vai dormir e depois partir para outra, o repouso do guerreiro”, certamente merecido. “Feito gente, feito fase, eu te amei como pude/Fui a faca e a ferida, eu te amei como pude/Feito bicho que se espanta, eu te amei como pude/Feito chama quando arde, eu te amei como pude/Fui capacho, já fui lama, eu te amei como pude/Fui herói, fui covarde, eu te amei como pude/Feito a dor, cedo ou tarde, eu te amei como pude/Dói no corpo e mói a alma.../ Feito água, feito vinho, eu te amei como pude/Feito mágoa, feito espinho, eu te amei como pude/ Fui um poço, pensamento: eu te amei como pude/ Fui a calma e a revolta, eu te amei como pude/Fui a vela, fui o vento, eu te amei como pude/ Da partida fui a volta... (Feito Gente, de Walter Franco).

Muito vidrilho, muito paetê (e Barbra Streisand, a estrela, mostrando as unhas). FUNNY LADY (em exibição no cine Glória) - Esta prolongada sequência de Funny Girl é uma “narrativa ficcional” - segundo admitiu seu produtor Ray Stark - do que seria (de acordo com visão dos roteiristas Jay Preston Allen e Arnold Schullman) a maturidade de miss Fanny Brice. Mas é difícil perdoar a série de lugares comuns do filme, que evidentemente não teriam ocorrido na vida da célebre clown da era Ziegfield do show business americano. A “história” se detém no encontro de Fanny Brice com o compositor Billy Rose e na sua persistência no amor do ex-marido Nick Arnstein, recheada com evocações musicais - com rendimento muito lento, na maioria das vezes - de suas principais aparições no palco e também de seus estados psíquicos. Felizmente, a vocalização é realizada com típico esmero por Barbra Streisand, nunca antes tão superestimada - a câmera invariavelmente se detém não apenas em seu rosto, mas folcloriza as mãos e suas unhas, sempre à mostra. Estes e outros detalhes tornam o filme simpático - porque miss Streisand, embora caricata, é desembaraçada o suficiente para importar a morosidade do roteiro e a direção sem muita imaginação de Herbert Ross, que se tornou conhecido nos Estados Unidos com a coreografia que realizou para a versão de As Cidades, de Jean Genet e em seguida foi desprezado com o primeiro filme, O Fim de Sheila (The Last of Sheila) para ser novamente - e com um pouco de pressa - amado pelos críticos por ter dirigido Sonhos de um Sedutor (Play It Again, Sam), com Woody Allen. Todas as coreografias de Funny Lady são de Herbert Ross - e todas, sempre, medíocres. Há muito luxo, muito vidrilho, muito paetê, muita miçanga, muito brilho para miss Streisand entrar em cena toda luminosa, mas falta a aura de fantasia e inventividade dos verdadeiros musicais. Funny Lady prefere sempre mostrar trechos

Um trabalho para ser ouvido com muita calma. E respeito.

POWER OF SOUL (com Idris Muhammad e conjunto, álbum CTI/Top Tape) – Gravado em 1974, mais precisamente em março, este disco do baterista Idris Muhammad (pelo menos, este é o nome pelo qual o músico se apresenta e sem incluir na ficha técnica o original sem envolvimento com orientalismos, ainda bastante em voga na América, principalmente entre músicos ligados ao jazz) aparece de peças para o teatro e não criar em cima delas. E tudo de forma mais fácil, com alguns momentos agradáveis e simpáticos, porque, afinal, a estreia do filme e sua razão de ser é Barbra Streisand, muito bem penteada e usando vestidos muito bonitos de Shirloe Strahm (um para cada cena, evidentemente). Mas o filme em si não convence, nem mesmo quando entra em cena Ben Verren, astro da Broadway em Pippin dançando bem em Clap Hands Here Comes Charley ou quando miss Streisand, agressiva, canta no escuro Oh How Lucky Can You Get. Ou, ainda, na única solução cinematográfica bem realizada quando o fotógrafo James Hong Howle (o mestre de Picnic) ilustra mais uma canção que começa com um corredor sem fim e prossegue com um carro à beira-mar e conhece o auge num pequeno avião. A canção se chama Let’s Hear It For Me - a letra pede para que se bata palmas para miss Fanny Brice, o que sugere que tenha sido sua intenção, também dá essa impressão. James Caan (o astro de Poderoso Chefão), Licença de Amar Até Meia Noite) faz o possível para não parecer que fez em A Dama Enjaulada, em 1964 - o que prova que ele é um ótimo ator, capaz de fazer coisas de nível quando lhe concedem um papel à altura de sua capacidade dramática. Mas é que existe também Omar Sharif, felizmente aparecendo em pequenas cenas, totalmente desprezado depois por Barbra Streisand. Funny Lady,na verdade,não é um musical que segue à risca o preceito “all singing, all dancing”. Trata-se de um melodrama ilustrado com canções,sempre de bom nível em que se destaca o antigo clássico More Than You Know (cantado por Barbra em primeiro plano, é claro). Mas, em última análise, Funny Lady poderia ser definido através de uma frase dita pela própria Barbra Streisand - “Buffalo Chic” (A.A.)


com um pouco de atraso, não em lançamento no Brasil onde o nome de Muhammad é praticamente desconhecido, mas no próprio estilo de jazz feito no disco (com arranjos e direção de conjunto do tecladista Bob James) completamente desvinculado das novas experiências sonoras em termos jazzísticos, mesclados com rock, desenvolvidas por John McLaughlin, Miles Davis (um dos principais nomes e praticamente pioneiro) ou, os mais recentes em termos de grupo, Chick Corea e Larry Coryell. O que não diminui em nada este trabalho de Idris Muhammad e o seu conjunt, neste LP, formado pelos músicos Grover Washington, Jr. (saxofones), Bob James (teclados), Gary King (baixo), Joe Beck (guitarra), Randy Becker (trompete) e Ralph MacDonald (percussão, tendo participado de vários grupos de música soul acompanhando cantores, assim como no Queen of the Night da escocesa Maggle Bell, no momento com disco novo e ainda inédito no Brasil Suicide Sal onde a intérprete esquece o rhythm and Blues, usado com grande eficiência no seu primeiro álbum individual), para investir por terrenos do rock puro). Dividido em quatro faixas, o primeiro momento é uma homenagem ao guitarrista célebre Jimi Hendrix com sua composição Power of Soul (incluída no LP Band of Gypsys, grupo que Hendrix formou ao terminar seu Jimi Hendrix Experience) completamente deslocada do resto do material usado no LP, que só não chega a ser um completo engano pela excelente qualidade dos músicos participantes. As três faixas restantes estão mais ligadas ao jazz tradicional e romântico, - do tipo que se fazia nos primeiros anos da década de 60, com um som bastante parecido com a Art Blakey Jazz Messengers, ou mesmo com a Miles Davis Band, antes do trompetista começar a pesquisar pelo jazz livre (Free) – mas com nova roupagem, inclusive fazendo uso de guitarras e instrumentos sintetizadores, tudo com grande espírito lírico e grande sensibilidade. Como na música Peace of Mind do tecladista e arranjador Bob James, toda a sensibilidade nostálgica do jazz moderno (simplesmente, um maior apuro do estilo musical criado pelos negros americanos) ou na elegantíssima balada The Saddest Thing do guitarrista Joe Beck onde o grande destaque é o seu solo, em diálogo com o piano elétrico de Bob James e no momento mais agradável e de grande beleza no disco, a ritmada composição Loran’s Dance do saxofonista Grover Washington, Jr.

E do baterista e líder Idris Muhammad, apesar de, neste seu primeiro álbum editado no Brasil, não conter nenhum tema composto por ele, sua participação como músico é impecável, assim como todos os outros elementos que participam deste Power of Soul, um disco indispensável não só para os amantes do jazz, tradicional ou não, ou para os apreciadores de música romântica dançável, mas, principalmente para os amantes da boa música tenha ela qualquer nacionalidade ou estilo. Aqui neste caso, está se falando em jazz, da melhor qualidade e sem saudosismos. (APRIGIO LYRIO)

Nem tudo é possível com o poder da “soul music” SWEET SIXTEEN (com o cantor Jerry Butler, álbum Mercury/Phonogram) – Assim como no seu disco anterior (Power of Love), o cantor compositor Jerry Butler continua a fazer o seu estilo calmo de soul, considerada por alguns como um dos principais representantes da corrente conhecida como cool de Chicago, uma espécie de rhythm and blues sereno e equilibrado, especialmente para os apreciadors. Neste mais recente, Sweet Sixteen, segundo suas próprias palavras, foi feito para comemorar dezesseis anos de carreira musical (por sinal, das mais obscuras) “já que certamente pela insegurança da profissão tenho medo de não poder comemorar 25, 50 ou 100 anos de atividades como fazem todas as pessoas”. E aproveita para dedicar seu disco aos músicos que o acompanharam num verdadeiro O milionário Jerry Butler exército), a sua mulher Annette, aos técnicos, aos ouvintes, aos compradores, aos programadores de rádio, aos compositores responsáveis pelo material usado, ao arranjador Richard Evans e também aos encarregados de sua editora musical “tudo para afirmar que os anos de carreira foram doces”. E o milionário do soul Jerry Butler faz suas dez faixas, com elegância, muitos instrumentos elétricos contidos por vários arranjos de cordas, todos muito iguais e feitas especialmente para um público despretensioso, romântico e dançante, onde nada poderia ser destacado, senão pelos verdadeiros apreciadores da soul music, cada vez mais em voga e cada vez mais perdendo suas características principais. Mas em relação a este Sweet Sixteen nem tudo está perdido: a voz de Jerry Butler é bastante agradável e bem conduzida, e tudo aparece muito equilibrado neste LP, talvez até demais. E este não é o problema principal. (APRIGIO LYRIO)

O drama passional de uma cantora em estilo soul: quem suporta? CAUGHT UP (com a cantora Millie Jackson, álbum Polydor/ Phonogram) – Se por um acaso a cantora Millie Jackson gravou algum disco antes deste Caught UP não se tem notícia, o que de certa forma não tem a menor importância. Aproveitando o marasmo que paira sobre o gênero (americano) de soul music, Ms. Jackson faz sua festa, ou melhor, talvez aconselhada por algum psicanalista, coloca toda sua neurose para fora, ou quase, ao atravessar os quarenta minutos de duração do seu disco falando do seu amor impossível por um homem casado, sem interrupções entre as nove faixas apresentadas, de vários autores. E não seria pelas qualidades vocais da intérprete que este Caught Up, no final de uma atenta audição, transforme-se algo completamente único e, provavelmente, sincero na música soul com sua voz quente e sensual lembrando os exageros da famosa Tina Turner, Millie Jackson fala de toda sua paixão avassaladora como quer deixar bem claro no título do LP, quase chegando aos lamentos do blues mas, logicamente, sem a classe de uma Billie Holiday (até hoje inesquecível quando o assunto principal é amor e sofrimento. M illie Jackson: ao telefone

E usando de uma objetividade desnecessária, Ms. Jackson inicia sua sinfonia sobre o amor impossível com a canção If Loving You Is Wrong I Don’t Want To Be Right, passando para um texto recitativo de cinco minutos, The Rap, sobre a espera do seu amor e voltando ao tema inicial: depois canta All I Want Is a Fighting Chance, um estranho diálogo pelo telefone com sua rival, quando conta o seu relacionamento com o marido alheio e deixando bem claro que seu desejo é ter uma chance de brigar, sendo que na faixa seguinte I’m Tired of Hiding diz que está cansada de se esconder e diz ao amante, sem arrependimentos, que contou tudo à rival. Na segunda face do disco a cantora já está mais calma e passa as quatro faixas falando numa separação sem muitos danos, tudo inútil, já que as pessoas que poderiam se interessar pelo Caught Up de Millie Jackson não estão nem um pouco interessadas em seus problemas sentimentais e sim com o ritmo quente que serve como envólucro do seu mal elaborado e terrivelmente cansativo trabalho, que poderia ser bem melhor. Mas a sutileza e inspiração não são as constantes, quando [ilegível] soul music. (A.L.)


MÚSICA E Bowie volta em estilo mais popular, sem perder as principais características: elegância e sutileza

David Bowie dando alguma alma para a “soul music”

YOUNG AMERICANS (com David Bowie, álbum RCA, disponível no mercado de importados) – Depois da explosão no mercado americano com o seu Diamond Dogs, onde na faixa 1984 já se sentia as primeiras investidas de David Bowie nos terrenos da soul music e mais recentemente com o David Live, o músico inglês, mais voltado para o mercado americano produziu este Young Americans – “ligado” no Philly Sound, o som da Filadélfia, a base do soul – e fazendo uso das principais características do gênero, dançável porém marcado pela incomparável qualidade de sua poesia e ainda, com a consistência sonora e requintadas feições de imagem que o deixam mais próximo da área intelectualizada do rock. Dizer que o envolvimento do Bowie com o soul é pastiche

não passa de um grande engano: desde seu aparecimento, com (sérias) passagens pelo rock de impacto até seus “retalhos espaciais” que culminaram com o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust, Bowie, inquieto e berrante, muda de estilo como quem muda de roupa e ditando leis fundamentais de comportamento para os jovens (pobres daqueles que não vêem em seu trabalho algo mais que isso) e em tentativas, diga-se frutíferas, de mudança de estilo decide-se pelo soul e suas últimas apresentações foram marcadas por uma maior descontração em seu rock teatral, eliminando maquilagem e dando maior estimula à presença, em cena, de bailarinos e coro composto por negros, tudo muito coerente com suas novas tendências musicais que ele explora com grande requinte e inteligência e sobretudo despojamento, apesar do material incluído no disco que marca a nova mudança ainda não se constituir em embalagens facilitadas para ouvintes despretensiosos e acostumados com o soul comum. Simplesmente, Bowie traz alguma alma para a soul music, há tempos esquecida e abandonada pelos excessos repetitivos de alguns Barry Whites desta vida. Cercado por excelentes músicos, em sua maioria renovados em seu grupo e participantes de seu último tour (o resultado foi registrado no David Live, ainda encontrável no Brasil) e como curiosidade, o músico no momento está fazendo apresentações na Inglaterra depois de uma ausência de quase dois anos acontecendo mamutes extravaganzas, mais por parte do público, o tema escolhido para abertura do álbum, título e o compacto carro-chefe, Young Americans, é uma sensacional amostra de sua magnânima força como compositor e vocalista, cada vez mais perfeito e conduzida com um drive estonteante sendo, talvez, um dos melhores textos do álbum e explorando com sua inigualável finesse as atribulações que acontecem nos EUA, e não foi à toa que este álbum deu para Bowie grandes índices de vendagem. E as ideias que sempre explorou com brilhantismo, como documento, essas, sexo, perversões, apocalipse, morte, decadência e futurismo brotam do disco com enorme sutileza já que agora o cantor/compositor/guitarrista/saxofonista não se preocupou em criar uma imagem definida – simplesmente fazer música de efeito e rock da melhor qualidade, instrumental e poética. O álbum também é marcado por uns certos textos pessoais, como na faixa Win, uma balada lenta, Fascination é um momento completamente provocante e bastante funky (da letra: “toda vez que eu sinto fascinação, eu simplesmente não consigo ficar parado, e tenho que usá-la toda vez que penso...”). Com um coro em grande atividade, incluindo uma instigante seção de sopro, a faixa Right é a que está mais perto da brincadeira de estilo soul, e não só como divertimento. O momento mais longo do álbum acontece com a faixa Somebody Up There Likes Me (como curiosidade, título do filme que James Dean faria e que foi impossível, por sua morte, sendo que foi substituído por Paul Newman em início de carreira), um dos momentos mais fortes e essencialmente sérios, na letra falando “nas esperanças”. Existe amor em Can You Hear Me, com certa dose de decadência e um dos momentos mais satisfatórios acontece com a regravação de Bowie da Beatlelish Across the Universe, com John Lennon participando, dos vocais e guitarra, uma esplendorosa recriação do tema LennonMcCartney e Lennon também divide a autoria da composição Fame, a última canção do álbum, com Bowie e o percussionista Carlos Alomar, uma trip sobre a fama e seus envolvimentos, também com o ex-beatle e o mais frutífero, nos vocais e guitarra. E como denúncia, um lançamento que a RCA ainda não teve a preocupação de incluir em seus próximos suplementos (pelo menos nada foi anunciado) e mostrando o brilhante David Bowie, como sempre estonteantemente forte, vital, único e renovado. Material indispensável para um certo tipo de público preocupado e além, material dançável, até. (APRIGIO LYRIO).


COLETÂNEA

LANÇAMENTO Uma agradável surpresa: o mais recente trabalho de Roger Trower

Quem lembra do conjunto Aphrodite’s Child? APHRODITE’S CHILD (da série Autógrafos de Sucesso, disco Fontana/Phonogram, em Golias Discos) – O grupo de rock romântico Aphrodite’s Child, natural da Grécia assim como todos seus integrantes, depois de uma carreira pontilhada de sucessos feitos especialmente para figurar entre os mais vendidos nas paradas de sucesso e que durou quatro anos, com grande aceitação principalmente na Europa (onde, com exceção da Inglaterra e recentemente, a Alemanha, o cenário de rock é praticamente inexistente, tendência com seus impulsos musicais em 72 e o líder do conjunto Demis Roussos deu início a uma carreira individual, bastante conhecida do público brasileiro por suas investidas no finado Festival Internacional da Canção (recentemente recussitado nos mesmos antiquados moldes) ou shows através de clubes pelo Brasil afora. Logo após a separação do Aphrodite’s Child, Demis Roussos gravou sozinho a canção We Shall Dance que foi um dos maiores sucessos (em vendagem) de 72, ano em que Roussos se apresentou pela primeira vez no Brasil. Entre os dotes do líder do ex-Aphrodite’s Child podem ser citados falar fluentemente cinco línguas, músico-vários-instrumentos, morar em Paris (onde tem uma editora de músicas) em companhia de dez gatos angorás e segundo suas próprias palavras “a música é parte de mim e sendo grego, carrego toda a musicalidade do meu povo e desde pequeno que canto tendo começado em igrejas, principal motivo da minha voz bastante harmoniosa. Não tenho nada da música agressiva de hoje, dos Rolling Stones ou Led Zeppelin ou de qualquer grupo de rock barulhento”. E esse espírito é refletido nas músicas do Aphrodite’s todas bastante comerciais e facilmente assimiladas pelo grande público. Das dez faixas incluídas nesta coletânea podem ser encontrados vários pop hits sendo a primeira faixa o maior sucesso da carreira do conjunto Marie Jolie que da época do lançamento emocionou muitos corações pueris. Entre baladas e rocks, nenhuma homogeneidade ou coerência nos trabalhos do Aphrodite’s Child. Simplesmente o cansativo lugar comum. E, somente para os fãs do conjunto grego, se é que ainda existem, as outras músicas incluídas são: Babylon, End of the World, Wake Up, It’s Five ‘O Clock, Spring, Summer, Winter and Fall, Break, I Want to Live entre outras. Nada Além. (APRÍGIO LYRIO)

BRIDGE OF SIGHS (com o grupo Robin Trower, álbum Chrysalls/ Phonogram) – Depois do aparecimento ou, se preferirem, fenômeno do guitarrista Tom Jobim: os bons momentos Jimi Hendrix, na Inglaterra em meados dos anos 60, recém saído de envolvimentos com o rhythm and blues – quando foi acompanhante de muitos cantores famosos (inclusive Aretha Franklin) e participou de vários grupos de rock quando formou o seu primeiro conjunto, ainda com o nome de Mimmi James e depois juntou-se ao músico Curtis Knight, gravando alguns discos – Hendrix, ao deixar a América para formar as bases do seu “Jimi Hendrix Experience” em Londres, ao lado dos instrumentaristas Noel Redding e Mitch Mitchel, estava iniciando um trabalho nunca antes visto em termos de conjuntos “elétricos” de rock’n’roll, com uma base de pulsação ininterrupta, fortíssima e completamente sensual, o que motivava Jimi Hendrix, em suas apresentações ao vivo, a usar um mise-em-scene muitas vezes considerado imoral envolvido por guitarristas flamejantes e fumaças coloridas, provocando verdadeiros delírios de público. (E, nesta época, os Beatles ainda faziam suas primeiras experiências com o falso espírito da psicodélica geração). Muitos foram seus seguidores e a grande maioria dos guitarristas de rock passaram a fazer uso dos mesmos recursos de Hendrix, com suas guitarras distorcidas e multiplicadas (em gravações) mas depois de uma maior sofisticação ocorrida com o rock, principalmente na década de 70, houve um quase desaparecimento de grupos com a célebre formação guitarrabaixo-bateria. E causa bastante surpresa o aparecimento de um conjunto com o Robin Trower, formado neste mesmo esquema. E neste LP do grupo lançado agora no Brasil, Bridge of Sighs, que vem com o guitarrista Robin Trower acompanhado pelos músicos James Dewar (baixo e vocais) e Reg Isodore (bateria) a presença de Hendrix é uma constante, nas composições, todas de Robin Trower, nos arranjos das oito músicas e nas vocalizações de James Dewar, tudo bastante eficiente e completamente vivificante, no melhor estilo funky. Misturando temas de rock puro com outros ligados a influências do blues americano, Roger Trower consegue reunir duas correntes da música americana com a vitalidade produzida pela música pop inglesa (que tem excelentes qualidades, perfeitamente demonstradas por famosíssimos grupos como o Led Zeppelin e o Cream, sem citar outros) e todo o material usado no disco é muito agradável. Com boas letras, os melhores momentos acontecem nas composições Bridge of Sighs e About to Begin, os melhores blues do álbum e nos inspirados rocks Day of the Eagle e Too Rolling Stoned. E para os fãs do rock’n’roll bem feito e, essencialmente sério sem envolvimentos com paradas de sucessos ou feito para agradar os mais despretensiosos, nada melhor do que este Bridge of Sighs, uma boa surpresa entre os parcos lançamentos internacionais neste ano. (APRÍGIO LYRIO)

“a música é parte de mim e sendo grego, carrego toda a musicalidade do meu povo e desde pequeno que canto tendo começado em igrejas, principal motivo da minha voz bastante harmoniosa. Não tenho nada da música agressiva de hoje, dos Rolling Stones ou Led Zeppelin ou de qualquer grupo de rock barulhento”


MÚSICA BRASILEIRA JOÃO GILBERTO EN MÉXICO (com João Gilberto, álbum Orfeon/Tapecar, na casa Pianna) – Lançado anteriormente, no Brasil, em 1970 ainda na fase em que só algumas edições mereciam tratamento estereofônico, só agora e editado por outra gravadora o álbum que João Gilberto ou no México pode ser melhor apreciado pelos fãs do compositor/cantor/guitarrista. Substituindo a capa americana que mostrava, com o nome João Gilberto, o mais destacado dos músicos populares brasileiros recostados num bucólico cenário natural de verdes (da edição da Phonogram) esta edição apresenta a capa original mexicana que vem acompanhada de algumas notas do músico sobre o trabalho em questão. E já que em se tratando de João Gilberto, com quase vinte anos de carreira sem perder o seu carismático poder de criatividade e inovação, tudo é surpresa como ele próprio conta, este disco feito no México foi resultado de uma temporada de três semanas em uma boate mexicana que acabou por fazer com que João ficasse morando no México por mais de um ano. E com todas as características que fizeram de João Gilberto um dos músicos mais importantes para o desenvolvimento da música brasileira, ele interpreta com vigor e graça, grande sensibilidade e perfeito domínio voz-violão as conhecidas Ela é Carioca (Tom e Vinícius) e Esperança Perdida (Tom Billy Blanco) ambas da fase áurea da bossa nova, a instrumental João Marcelo feita para seu filho, a excelente Astronauta, ou Samba da Pergunta (Pingarrilho e Marcos Vasconcellos). O Sapo (de João Donato que recentemente ganhou letra de Caetano Veloso e mudou de título para A Rã em gravação de Gal Costa) e Trolley Song (cantada por Judy Garland no filme Meet Me in St. Louis, de Irvin Berlin, com versão de Haroldo Barbosa). E com a mesma versatilidade e grande poder de adaptação, João Gilberto faz homenagem: recria Farollo (Augustín Lara), Besame Mucho (Consuelo Velásquez) e Eclipse (Ernesto Lecuona) e Acapulco, de sua autoria. E o disco é mais que indicado para os apreciadores do estilo do baiano de 43 anos, engrandecido pelos incentivadores arranjos de Oscar Castro Neves e a participação de Chico Batera e principalmente agora, que o músico está envolvido ema mais um processo de gravação de um disco, trabalho que em se tratando de João Gilberto não ocorre muito assiduamente. E recordando os tempos da garota de Ipanema, João faz seu novo disco que tem como título Getz/Gilberto Once Again, e como quer indicar, marca seu novo encontro com o saxofonista Stan Getz. O disco já está sendo lançado pela CBS americana e conta ainda com a participação de Miúcha ou Heloísa Buarque de Hollanda (ou Gilberto) em algumas faixas. Com orquestração de Oscar Castro Neves e acompanhada pelos músicos Sonny Caar, Alberto Dally e Steve Swallow, Miúcha (com compacto duplo lançado pela Phonogram, no mê passado) canta Double Rain, aliás Chovendo na Roseira de Tom Jobim e com João lembra sua primeira gravação Izaura (incluída no trabalho anterior de João Gilberto), recriam Águas de Março e Just One Of Those Things enquanto João canta Light (de Tom Jobim e recentemente gravada por Chico Buarque) entre outras. E, já que mais que toda a excentricidade de João Gilberto é pouca para o trabalho da CBS brasileira, o disco não tem lançamento marcado no Brasil. Fica o registro. (APRÍGIO LYRIO)

DISCO O terceiro, do arranjador/compositor Eumir Deodato, depois da fama DEODATO/FIRST CUCKOO (com Eumir Deodato, álbum 407 404 100 Decca/MCA/Chantecler, em Golias Discos) – “O Dinheiro – o mercado – é o mais importante: o artista tem que se adaptar a ele pois não adianta fazer arte para meia dúzia” (uma das primeiras declarações de Eumir Deodato depois da fama, ou melhor, depois do álbum onde jazzificou, a seu modo, Also Sprach Zarathrusta). Depois veio o segundo álbum após sucesso. Deodato 2, onde o tecladista brasileiro (um dos casos de imigração musical brasileira para os Estados Unidos de maior destaque comercial) dedicou-se a Ravel (Pavana) e Gershwin (Rhapsody in Blues), também a seu modo. O terceiro da fase foi o Artistry (ou “Artisteria”), gravado ao vivo no Mississippi River Festival, reunindo, em sua maior parte, material já gravado em outros discos e, certamente, os puristas – no caso, do jazz – não sentiram nenhuma emoção ao ouvir St. Louis Blues (o clássico de W. C. Handy) em ritmo de samba e, como nos anteriores, composições conhecidas mescladas com os próprios trabalhos do músico. Pelo menos existe outra coerência: “Meu negócio é fazer arranjos. Não quero compor nem inventar

MÚSICA POPULAR O líder do Uriah Heep, ainda elegante em suas experiências individuais EAGER TO PLEASE (Com Ken Hensley, álbum Bronze/Phonogram, à venda breve) – Num momento em que os conjuntos de rock pesado estavam saindo de circulação devido a uma certa saturação, o Uriah Heep apareceu e desde o primeiro álbum lançado, o Very ‘Umble and Very ‘Eavy, com enorme campanha publicitária (já que na época o grupo nunca tinha feito uma apresentação para público) recebeu grande aceitação, principalmente pelos fãs envolvidos com o tipo de música feita pelos também ingleses Deep Purple e Black Sabbath. E apesar de muitas gravações, sempre cercadas por altos índices em vendas, ninguém pode considerar o trabalho do Heep como pertencente à chamada inteligentzia do rock. Saído do grupo God, o tecladista Ken Hensley entrou para o grupo já em sua segunda fase. Recentemente e em entrevista, o mais ativo músico do Uriah Heep, o tecladista Hensley, declarou o estado do grupo, atualmente quase perto do fim (ainda não foi feito um anúncio oficial) por incompatibilidade entre seus membros: depois de gravar seu primeiro disco solo (Proud Words on a Dusty Shelf ) estava preparando material para o segundo quando, por imposição da gravadora que mantém o grupo sob contrato, o disco Wonderland (lançamento no Brasil em novembro passado) foi feito e contendo material que teria como destino o segundo álbum individual de Hensley, mas acabou por sair como trabalho do grupo, já que nenhum dos outros integrantes do Heep tinha canções apropriadas para serem colocados no álbum. E o tecladista afirma que tanto o fracasso do LP quanto o recente tour pelos Estados Unidos (um dos principais motivos para o disband) foram motivados pela falta de interesse dos músicos que não se preocupam em buscar novos caminhos para sua música. “No momento trabalhamos como zumbis, principalmente por um pacto que fizemos que para o bem do grupo, tentaríamos engolir nossas diferenças. Se eu acho que o grupo perdeu sua identidade ou mesmo, se o cantor gravou mal uma canção, não tenho com quem discutir. Durante a temporada americana tocávamos uma boa canção em cinco números e não consigo suportar a ideia de sair frustrado do palco”. E com este Eager to Please, lançamento original de abril, mostras do trabalho de Hensley, completamente eficiente na guitarra, teclados e vocal, ao lado dos músicos Mark Clarke (baixo e vocal) e Bugs Pemberton (bateria e percussão) e, distante dos malabarismos do Uriah Heep. Nas onze faixas incluídas no disco, predomina o equilíbrio mesmo que vários estilos sejam explorados e, principalmente, o apuro nas instrumentações. Um trabalho ao mesmo tempo revolucionário e delicado mesmo que consiga ser repetitivo em alguns momentos/faixas como Secret e Stargazer (esta do baixista Clarke) contribuem para maior interesse em relação ao álbum. (APRÍGIO LYRIO) sons loucos e novos. O que realmente me dá prazer é pegar uma grande obra e dar-lhe uma vestimenta contemporânea. No momento, sou um dos artistas brasileiros que mais se preocupa em divulgar o que existe de melhor da nossa música”. Quanto a contemporaneidade musical de Deodato, esta é um pouco duvidosa e repetitiva e como divulgador maior de material brasileiro, o músico certamente só pensa em material dançável e agradável o bastante ao sabor da classe média americana, ou universitários interessados. Mas o talento e a técnica de Eumir Deodato em frente a seus teclados não podem ser negados: tendo nascido no Rio, em 1943, iniciou carreira tocando acordeão. Participante do movimento inicial da bossa nova e depois, como arranjador da Odeon, Eumir foi para os Estados Unidos em 67, e após um início complicado, em 70 já estava fazendo arranjos para alguns cantores famosos, como Frank Sinatra. E com o “estouro” depois da adaptação de Zaratustra seu sucesso – ou mesmo posição musical – pode ser comparado, em termos, à explosão de Sérgio Mendes na década passada também em cenários americanos. Enquanto Mendes aproveitava-se do sucesso da bossa nova nos Estados Unidos, fazendo sua macumba para ouvintes turistas, Deodato faz o mesmo tentando se envolver com as últimas tendências da música mas com a comercialidade muito patente. Como não podia deixar de ser, First Cuckoo (faixa título do álbum) é uma adaptação, ao seu estilo, do poema sinfônico On Hearing The First Cuckoo, do autor inglês Frederick Delius, do começo do século e cujo estilo tendia à corrente impressionista. (A obra do autor ficou no anonimato por muitos anos, até que um maestro, Thomas Beccham, gravou uma grande parte dela). E em sua batalha para transformar a música popular em mais popular, Deodato colocou no disco um rock pesado do Led Zeppelin (Black Dog), passando por Marcos Valle (Adam’s Hotel), até chegar a uma agitada versão, do clássico de Duke Ellington Caravan, a conhecida balada Speak Low mais, com algumas manifestações funky de Eumir. Enfim, mais outro para que o músico não faça sua arte para meia-dúzia e, de olhos nos royalties. (APRÍGIO LYRIO)


MÚSICA BRASILEIRA Uma pequena amostra, de grande valor, da obra do consagrado Tom Jobim. AUTÓGRAFOS DE SUCESSO (com o compositor/cantor/maestro Antônio Carlos Jobim, disco Phonogram) – apesar do pouco eficiente esquema de divulgação da gravadora Phonogram, fazendo com que a maioria dos discos de seu Autógrafos de Sucesso não possam ser encontrados nas lojas especializadas, assim como aqueles da recente série Pop Giants (com alguns dos maiores nomes do rock atual), essa coletânea reunindo momentos da frutífera e gratificante carreira de Tom Jobim (basicamente feita de material gravado nos Estados Unidos) já está à venda. Tom Jobim: os bons momentos O maestro, compositor, arranjador, músico e também cantor Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, carioca da Tijuca mas desde um ano de idade vivendo em Ipanema, 48 anos, foi um dos principais nomes do movimento depois definido como “bossa nova” apesar do músico dizer que “numa fase pré-bossa nova gravei com Silvinha Telles, Dick Farney, fiz arranjos para Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Lúcio Alves, Os Cariocas, além de ser o autor da Sinfonia do Rio de Janeiro (com Billy Blanco) e Brasília, Sinfonia da Alvorada (com Vinícius de Moraes), o que prova que pelo menos, diga-se de passagem, oitenta por cento da minha obra não têm nada a ver com bossa nova”. Para Tom Jobim a vida musical veio cedo: de uma família de vários músicos, começou a ter lições de piano ainda com treze anos, com o maestro Joachim Koelreuter, o introdutor do dodecafonismo no Brasil e responsável pela formação de maestros como Guerra Peixe e Cláudio Santorno. Estudou composição com Lúcia Branco e Tomás Terán depois de tocar em casas noturnas, um emprego na Continental de “botar na pauta as músicas que os compositores cantavam batucando na caixa de fósforo. Sua grande oportunidade veio com o convite de Vinícius de Moraes para musicar Orfeu da Conceição, que foi encenado no Municipal em 56, depois virou filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e Oscar para melhor filme estrangeiro. Veio a fase de diretor artístico da Odeon e lá conheceu João Gilberto. Com orquestração de Tom, João Gilberto fez um 78 com Chega de Saudade e Bim Bom. Depois gravaram outros discos juntos e através deles, a bossa nova estourou e foi parar no mundo. Em 59, músicos do cool jazz do west coast dos Estados Unidos começaram a gravar bossa nova (nessa época os parceiros habituais de Tom eram Newton Mendonça e Vinícius), ouvindo discos de João Gilberto. Stan Getz gravou Desafinado com o saxofonista Charlie Bird, o que provocou o famoso concerto do Carnegie Hall, em Nova York. No tempo do espetáculo, em 62, Tom estava com 36 anos e nunca havia saído do Brasil. Apesar do pouco sucesso no Carnegie Hall, João Gilberto e Tom resolveram ficar na América e vender músicas, tendo gravado toda a bossa nova por lá. Da coletânea, a falta imperdoável sobre as datas das gravações ou créditos dos músicos que acompanharam Tom Jobim, ou mesmo de quais discos foram retiradas as faixas, fato desagradável que acontece em qualquer lugar mas com maior incidência no Brasil... mas está presente a delicadeza de Tom ao cantar, principalmente, Ela é Carioca, A Felicidade, Água de Beber, ou o destacado e não menos sutil piano, com sua inconfundível capacidade de economia de notas numa simplicidade “completamente agradável”, única. Entre as faixas orquestrais destacam-se, pelos belos e atuais arranjos, Garota de Ipanema, Corcovado, Vivo Sonhando e a atualíssima apesar de considerada como o primeiro impulso que viria a dar projeção ao movimento bossa nova, Chega de Saudade. Um disco para os apreciadores, de excelente qualidade. (APRÍGIO LYRIO)

Perfeitamente dispensável, o novo disco de um grupo que prometia... VAMOS PRO MUNDO (com o conjunto Novos Baianos, disco Som Livre, à venda em Golias Discos) – o conjunto Novos Baianos surgiu em 1970 como sendo “a grande promessa para o cenário da música popular brasileira moderna”, numa época em que seus dois representantes mais ativos e considerados, Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam fora do país. O seu primeiro disco gravado (apesar do fracasso comercial) tinha na contracapa apresentações dos novos “talentos”feitos por Caetano e o escritor Augusto de Campos, que vinha indicar ao menos atentos que mesmo com a pouca aceitação do conjunto pelo público, esses estavam muito bem apadrinhados; fato que não comoveu a gravadora Phonogram, que não se preocupou em investir em algum novo trabalho do grupo baiano. Da mudança para a RGE, os baianos fizeram somente um compacto duplo, talvez o seu trabalho mais coeso e inovador. Do disquinho, saíram os sucessos De Um Rolê, posteriormente gravado por Gal Costa, 29 Beijos e o bolero Você Me Dá um Doce, esta cantada por Baby Consuelo, que com sua voz agressiva e rude tinha praticamente tudo para transformar-se numa das cantoras mais representativas da nova geração de intérpretes brasileiros. O verdadeiro sucesso do grupo veio com o álbum Acabou Chorare gravado em 72, e com os integrantes dos Novos Baianos já em sua formação atual (os acompanhantes), mais os principais responsáveis pelo grupo, Moraes, Galvão, Baby Consuelo e Paulinho Boca de Cantor, todos contratados pela Som Livre que guardou o conjunto por algum tempo, preparando com cuidado a anunciada “volta”. Devidamente ajudados pelos seus conterrâneos, as canções Preta Pretinha, Acabou Chorare, o Swing de Campo Grande, Besta é Tu e A Menina Dança transformaramse em verdadeiros hits e o disco de estreia na Som Livre ficou por vários meses na lista dos mais vendidos, de 72/73. Depois fizeram mais dois trabalhos em longa duração, Novos Baianos Futebol Clube e Novos Baianos (lançados em 73 e 74 respectivamente) que passaram despercebidos, pelo pouco interesse à despertar do material usado e mostrando o conjunto decidido a ter sua imagem, apesar das longas cabeleiras e modo de vida “hippie”, ligada aos mais puros estilos da MPB. Em seu instrumentais contavam com cavaquinhos, zabumbas, bandolins, bumbos afoxés, agogôs... E o esquema se repete neste Vamos Pro Mundo, que tanto poderia ser lançado em 72 ou fins de 74 que não faria a menor diferença. As melhores faixas do disco, quase irritante pela insistência dos mesmo clichês e filosofia ultrapassada e barata dos “Novos Baianos”, são justamente as quatro músicas instrumentais América Tropical, Chuvisco, Um Dentro do Outro e Um Bilhete para Didi (regravada do disco Acabou Chorare), que tem como base o trio formado por Pepeu (guitarra), Dadi (baixo), Jorginho (bateria) que individualmente poderiam tornar-se um forte grupo de músicos. As canções são completamente medíocres, e Vamos Pro Mundo, Guria, Ô Menina, Tangolete e Escorrega Sebosa, as novas composições do grupo (agora sem a presença do compositor/cantor Moraes que partiu para carreira individual) são desalentadoras [ilegível], também no LP, uma versão carnavalesca de Preta Pretinha e uma recriação aceitável do samba de Ataulfo Alves mais Paulo Gesta Na Cadência do Samba. Mas o disco prima pela desigualdade, pela indefinição e grande desperdício do potencial dos baianos, já comprovado, como nos discos anteriores. Por enquanto, ficam devendo um disco realmente novo ou, quem sabe, um Novos Baianos fim sem furores? (A.L.)


COLETÂNEA Das tentativas de domínio alemão nos meios musicais: com atraso

GERMAN ROCK SCENE VOLUME I (com vários grupos, álbum Brain/Top Tape, da série Sábado Som) – Embora a grande maioria dos comentaristas musicais, nacionais e internacionais, estejam classificando os últimos “aparecimentos” dentro do cenário do rock’n’roll mundial como os representantes da última geração do rock – não em termos de os mais recentes, mas um pouco mais do que simbolicamente, anunciando o fim de toda uma estrutura artística (e comercial), pelo menos na forma em que se apresenta nos dias atuais – outros países fora dos considerados os mais férteis, ou maiores centros de atividades da música pop. Estados Unidos e Inglaterra, embora tardiamente, iniciaram de dois anos para cá o lançamento de grupos de rock, em massa e na grande maioria, sem apresentar nada de novo. E o grande afoito, em relação a disputar com os “dois grandes” países, o mais que vantajoso domínio do comércio musical parece ser a Alemanha, colocando no mercado internacional, só agora, discos de seus maiores talentos e pelo que parece não está conseguindo muito sucesso. Isto é o que prova a recente coletânea feita pela gravadora Top Tape (representante brasileira da Brain/ Melotronome) que de início editou por aqui, no ano passado, álbuns do grupo Nektar (constituído por alguns integrantes do Man, de nacionalidade inglesa, e que só conseguiram algum destaque quando mudaram para a Alemanha), do Jane (tipicamente alemão, mais precisamente de Hannover) e do Guru Guru (também alemão e de alguma importância, do qual foram lançados dois álbuns, quase simultaneamente): com suas prateleiras lotadas das musicalidades germânicas e com o fracasso em vendagem das edições anteriores (diga-se, também por questões preconceituosas), resolveu simplificar de maneira mais que acertada, os novos trabalhos dos grupos alemães em forma de coletânea (no caso, em três volumes). Neste primeiro exemplar da série German Rock Scene, são apresentadas faixas dos mais novos discos dos grupos Jane, Curly Curve, Lava, Sperrmull, Creative Rock, Scorpions, Novalis e Grobschnitt. A primeira faixa do disco é dedicada ao Jane (já conhecida no Brasil pelo álbum Jane) com um blues Daytime retirada do terceiro LP do grupo intitulado Together e, seguindo a

linha da maioria dos rockers alemães, fazendo uma espécie de head rock cujo destaque principal é a brilhante performance dos músicos. Do grupo Grobschnitt retirada do álbum do mesmo nome e liderado pelo músico Elias Grobschnitt está a faixa mais longa, Symphony, unindo uma brilhante execução e com um ritmo seguro e atraente a uma vocalização também bastante agradável e em nada perdendo para os representantes famosos do chamado rock sinfônico, que encontra mais adeptos na Inglaterra, principalmente depois da bem aventurada carreira do Pink Floyd, ou o mais recente Yes. O momento mais lírico e também romântico do álbum acontece com a faixa Inside of Me retirada do álbum Banished Bridge do grupo Novalis. A segunda face do disco concentra-se em faixas curtas e mostra criações dos grupos Lava, com a faixa Tears Are Goin’ Home (do LP de mesmo nome) e entre as credenciais, ou excentrencidades do Lava está o fato de nunca apresentar o seu “volumoso” e famoso som (só na Alemanha, é claro) para seus inúmeros e desesperados fãs, em concertos ao vivo. Do Scorpions, grupo liderado pelo excelente guitarrista Michael Schender está o hard rock It All Depends, do LP Lonesome Crow: do Creative Rock que faz um tipo de música bastante identificável com aquela feita pelos conjuntos americanos Blood Sweat and Tears e Chicago (uma “mistura” de jazz, rock e blues nem sempre convincente), a faixa Natron do seu disco de estreia Gorilla. Dos dançáveis Spermull e retirado do LP de mesmo nome, a faixa Pat Casey, e do Curly Curve, um dos primeiros grupos alemães e que já conta com alguma projeção internacional é mostrada a faixa Queen of Spades onde o grupo usa e abusa, nos cinco minutos de duração da faixa, de instrumentos sintetizadores. E desta boa ideia da gravadora Top Tape em reunir vários grupos praticamente desconhecidos, apresentando uma maior variedade sonora e ainda possibilitando a apresentação dos grupos de forma mais imediata, minimizando o pouco interesse que álbuns individuais poderiam despertar, com a característica principal, ou vício, dos grupos alemães sempre preocupados com as possibilidades oferecidas pela esterofonia, explorada ao máximo, assim como arranjos bastante pesados e [ilegível] na maioria das vezes enxertados por letras fúteis e repetitivas. (APRÍGIO LYRIO)


Para apreciadores e colecionadores: os primeiros e importantes momentos do “guitarrista de Deus” MY GOALS BEYOND (com John McLaughlin, ál Brew, Tribute to Jack Johnson e Live-Evil. Sempre com sua Gibson de dois braços, seu trabalho imediatamente foi reconhecido como importante através de sua enorme agilidade, o extasiante clima criado e a sua elevada concepção como músico,usando vários recursos anteriormente só admitidos no rock, mas com uma nova estrutura e brilho. Seu primeiro disco individual, Devotion, marcou suas furiosas investidas pelo rock instrumental, feito em 1970 e ao lado do tecladista Larry Young e o baterista Buddy Miles - o som produzido por McLaughlin, completamente orgânico e uma comunhão espiritual e física. E foi nessa época que o músico encontra com Sri Cinmoy e junto com sua mulher passa a ser um dos mais fervorosos adeptos da comunidade espiritual de Sri, que logo batizou o casal de Mahavishnu e Mahalakshmi. Completamente influenciado pelo trabalho religioso do líder espiritualista, tendo mudado para sua comunidade, em Queens, um subúrbio de Nova Iorque, gravou então um LP, juntamente com a mulher (tocando harpa), o baterista Billy Cobham, o baixista Charlie Haden, o percussionista brasileiro Airto Moreira, o violonista Jerry Goodman mais o clarinetista Dave Liebman e o percussionista indiano Badal Roy. O disco era dedicado a Sri e na capa, uma foto sua. E é esse My Goal’s Beyond que cinco anos depois da gravação e com o relançamento no mercado internacional, por outra gravadora, embalado por outra capa chega agora ao Brasil, constituindo-se em interessante e importantíssima surpresa. Nesse tempo quando perguntavam ao guitarrista sobre sua conversão e a espécie de música que fazia, ele respondia: “Basicamente o Ocidente, com raras exceções, só pensa em categorias existenciais racionalistas. Já o pensamento hindu, por exemplo: abarca os mesmos problemas em um enfoque que vai além do racionalismo, satisfazendo os anseios do instinto e a ânsia inexplicável do misticismo do homem: Estou tentando deixar que a música de Deus venha ao meu encontro para me transformar em um instrumento de Deus”. Logo depois fundaria sua Mahavishnu Orchestra (em 72 e lançada com o álbum The Inner Mouting Flame) recentemente desmembrada e dando lugar a temente desmembrada e dando lugar a segunda Mahavishnu Orchestra que tem como destaque a participação do violonista Jean-Luc Ponty Mas neste [ilegível] de John McLaughlin agora lançado, seu trabalho mesmo depois de cinco anos, não perdeu em nada de seu envolvente clima, quase mágico nas duas primeiras faixas que ocupam o primeiro lado do disco, Peace One e Peace Two, com o guitarrista em instrumento acústico. Enquanto o segundo lado preocupa-se em oito faixas fazer algumas homenagens aos mais famosos jazzistas e apresentar um trabalho menos “experimental” do Mahavishnu: foram usadas com intensa categoria e clima os temas Goodbye Pork-Pie Hat (de Charles Mingus), Wake for Bill Evans (de Chick Corea), Blue in Green (de Miles Davis) entre outras e a famosíssima e suprema Follow Your Heart (incluída no álbum Extrapolation e também em um trabalho feito em conjunto por Joe Farrell) mais Song for My Mother e Phillip Law, também composição do guitarrista. (APRIGIO LYRIO)

McLaughlin: os anseios do instinto.

Um lançamento internacional (de destaque) que certamente não aparecerá no Brasil STORIES TO TELL (com Flora Purim, álbum M9058 Milestone/Fantasy, importado) – As possibilidades da edição brasileira deste segundo álbum solo da vocalista brasileira Flora Purim (o primeiro foi Butterfly Dreams, lançado em abril de 1974, fazendo com que a cantora/compositora ganhasse o segundo lugar como vocalista feminina no Melody Marker, um primeiro no Japão, além do prêmio máximo de Down Beat, quando recebeu mais de 300 votos que a celebérrima star Ella Fitzgerald) são remotas, mesmo que a Fantasy Records, a responsável pela distribuição do disco, no Brasil tenha sua gravadora representante. E Flora Purim, carioca de 32 anos, é de fato a primeira brasileira e a primeira branca a ganhar o prêmio da revista

Flora Purim: “histórias para contar”.


Down Beat, tanto na categoria de melhor vocalista para leitores como para os próprios críticos do magazine – o tão cobiçado prêmio, nas três décadas de existência da pesquisa. Ao se falar em Flora não pode ser esquecido o nome de seu marido Airto Moreira, considerado como o maior percussionista do mundo e solicitadíssimo músico de estúdio. E esse triunfo para o casal chega depois de oito anos de lutas nos Estados Unidos, nem sempre nas melhores condições. Eles se conheceram quando o catarinense Airto, hoje com 33 anos, era revelação em meados de 60, com o integrante do Quarteto Novo e perambulava pelas boates do Rio e São Paulo. Na mesma época, Flora gravou um excelente disco brasileiro Flora MPB, com todos os nomes mais importantes dos músicos envolvidos com o samba-jazz e no mesmo ano (1966) lançou um compacto duplo – certamente material que não pôde ser incluído no álbum, por problemas de espaço, e intitulado Flora A. Em 1967 Flora foi para os Estados Unidos, ainda vivendo com o baterista Do Um Romão mas logo depois, com a ida de Airto, ficaram juntos. “Durante um ano e meio eu fiquei sem tocar e com frio”, diz Airto. “Eu e Flora vivíamos da gente, dividindo prato de sopa e morando na Broadway, Rua 42, zona pesada de Nova Iorque. A sorte surgiu primeiro para Airto: através de músicos conhecidos recebeu, um dia, importante telefonema para um ensaio no dia seguinte na casa de Miles Davis. E o resultado foi o clássico de Miles, Bitches Brew, que fez com eu Airto ficasse na Miles Davis Band por mais de dois anos. Depois tocou com Chick Corea, com participações de Flora na combinação de música latina e americana com jazz, de Corea. Airto fundou seu próprio grupo, Fingers e já têm cinco discos nos Estados Unidos sendo que, no momento, Airto Moreira mais Egberto Gismonti e alguns músicos brasileiros formam um conjunto para gravações e turnês, com todos os aparatos reservados para grandes estrelas. Flora Purim não fica por menos: depois de participar dos discos de Airto, ou de outros músicos famosos de jazz ou mesmo de rock (como Carlos Santana), dando aos jazzistas um sabor de Terceiro Mundo, imediatamente seu talento foi reconhecido, não como exemplo de algum exostismo, mas por sua enorme vitalidade como intérprete e sua participação atuante em cenários musicais americanos. E, agora, requisitadíssimas, morando em Los Angeles e com uma filhinha de dois anos, Flora ainda está emocionada com o sucesso, assédio de jornalistas e incontáveis cartas de fãs e declara: “Eu canto comigo mesma, às vezes contra mim. É música de música para mim”. Sua apresentação no Festival de Montreaux ao lado de outros brasileiros foi o passo final para o reconhecimento. Ao sul de Los Angeles fica Terminal Island, nome melancólico para uma instituição penal. E quatro anos após ser formalmente acusada de possuir cocaína com intenção de distribuí-la, e sete meses depois de começar a cumprir uma sentença de até três anos, foi aberto um precedente: uma prisioneira fazendo um espetáculo na prisão, com um elenco all-stars, passando por Carlos Santana, George Duke (o tecladista de Frank Zappa), Miroslav Vitous, Airto Moreira e Cannonball Adderlev. – No início não conseguia me adaptar ao afastamento de minha vida, família e outras coisas. Quando me entreguei para cumprir a pena, não sabia que estava sendo escolhida como a melhor vocalista pelo Down Beat e tinha acabado de fazer meu segundo disco. Surgiram tantas ofertas de trabalho e tanta gente me procurando que não pude mais me esconder. Mas hoje me sinto diferente e só estou preocupada em evitar um posterior processo de deportação”, diz Flora. E deste Stories to Tell o repertório usado foi o mesmo daquele apresentado no espetáculo feito no auditório do Terminal Islands. E assim como na metade dos anos 60, no momento, em que a música brasileira popular urbana passava de uma fase simples de influência de jazz para as criativas – porém – forçadas evoluções em samba-jazz de conjuntos e cantores, a voz de Flora continua tão (ou mais) quente e sensual e trabalhada. O mesmo acontecendo com sua consciência, no caso, jazzy: e isto pode ser comprovado pelos poemas de Flora (nas faixas em conjunto com os famosíssimos McCoy Tyner – a bela Search for Peace – ou com Miroslav Vitous – a faixa título) ou em I Just Want To Be Here, música de George Duke, Airto, Vitous, Flora e King Errison que a cantora liga com O Cantador (Dori Caymmi-Nelson Motta) e Chove Chuva ( Jorge Bem), um dos momentos supremos deste brilhante trabalho, onde a cantora ainda lembra To Say Goodbye (Pra Dizer Adeus) de Edu Lobo, Insensatez (Tom e Vinícius), Casa Forte (Edu Lobo) e Vera Cruz (Milton Nascimento). Existe também um momento de improviso vocal, na envolvente Silver Sword (Miroslav Vitous). E mesmo que alguns críticos internacionais tenham citado a falta de liderança de Flora, ou sua desagradável barreira de linguagem ao cantar em inglês, Stories to Tell surge completamente perfeito, em arranjos aprimoradíssimos e Flora melhor que nunca. Ou melhor definido, com seus próprios verso: “Esta noite eu canto sobre o amor, até aonde o amor possa ir. Palavras não são bastante – então eu sussurro, talvez com sentimentos você possa entender”, faixa Search for Peace. (APRIGIO LYRIO)

David Bowie ao vivo: o que faltava na carreira do músico DAVID LIVE (com David Bowie, gravado ao vivo, disco RCA, à venda em Golias Discos) – para os fãs, o que mais poderia ser dito sobre David Bowie, profeta, superestrela, poeta cintilante, fashioned, pirata, ambíguo, amargo, sarcasticamente amargo, singer da Broadway, e principalmente, sobre o ineditismo (oficial), até recentemente, de uma gravação sua registrando uma apresentação ao vivo, e mostrando o tour de force do cantor, compositor, guitarrista, tecladista e saxofonista em contato direto com público, uma das personalidades mais marcantes no show-biz mundial, ídolo maior do rock, fenômeno à altura de um Elvis Presley ou Mick Jagger. Espetacular Bowie. E já pode ser encontrado nas lojas, em edição brasileira e lançamento de dezembro, o álbum duplo David Live, disco gravado ao vivo no Tower Theatre, Filadélfia, dias 14 e 15 de julho do ano passado, durante uma turnê-monstro que o músico empreendeu pela América. Na luxuosa capa dupla com fotos bem cuidadas de Bowie, encontra-se um pequeno texto, esclarecendo que o disco não foi reprocessado em estúdio, nenhuma guitarra ou voz superposta artificialmente,e que contém o espetáculo em sua forma integral sem mudança na continuidade para melhor adaptação em disco, o que de certa forma é fato raríssimo em casos de gravações de shows. Durante o tour-magnífico (o que pode ser provado com uma audição atenta do disco), Bowie deixa de lado sua usual e espetacular pantomima parafernálica para ceder lugar ao cantor/espetáculo e se faz acompanhar pelos músicos: Tony Newman (bateria), Pablo Rosario (percussão), David Sanborn (sax e flauta), Mike Garson (piano e mellotron), Earl Slick (guitarra), Herbie Flowers (baixo), Gui Andrisano e Warren Peace (vocais de fundo) e Michael Kiman (piano elétrico, oboé e moog), todos eficientíssimos e fazendo um som perfeito de apoio para a estrela David Bowie dá escape a sua enorme criatividade. No repertório usado, Bowie faz revisão dos momentos mais importantes de sua carreira, apresentando números desde seu disco Hunky Dory até o mais recente, Diamond Dogs que apesar de ser importante trabalho, depois desse David Live mais parece um estágio (simplesmente) em sua carreira pela grandiosidade do álbum ao vivo, que tem como início (com novos arranjos) a música 1984 e imediatamente após Rebel Rebel, eletrizantes (ambas do Diamond Dogs), Moonage Daydream (do Ziggy Stardust, o disco que deu fama mundial a Bowie e talvez um dos melhores) seguida por Sweet Things e Candidate com sax em improviso sensacional. Um dos grandes momentos está em Changes (do Honky Dory em delicioso soul, assunto que o músico está anunciando tratar com maior atenção em seu novo disco, já gravado, também na Filadélfia), Sufragette City, atrevida e importante músicadenúncia também com arranjo simples e chegado à alma, um Alladin Sane magnífico em ritmo mambo e com um improviso final povoado de percussões afro abrindo para Cracked Actor (ambas do disco Alladin Sane) mais Watch That Man, When You Rock’n’Roll With Me (com brilhante performance de Bowie em estilo blues), Rock on Wood (única música não assinada por Bowie]. Depois o tema Diamond Dogs e Big Brother mais All The Young Dudes (gravida também pelo conjunto inglês lançado por Bowie, Mott The Hoople) e terminando o disco, a sensacional Rock’n’Roll Suicide. O David Live não contém momentos de grande explosão de público, mais preocupado em ver/ouvir o recente trabalho de David Bowie em palco, em todos os momentos esplendoros e sutil, violento e amoroso e completamente enfeitiçante. (APRÍGIO LYRIO)


Apesar de tudo, um disco interessante do grupo de rock alemão Guru Guru

Previsões consideráveis, no novo catálogo da Phonogram (a sair).

Eddie Cochran, o homenageado.

GURU GURU (com o grupo Guru Guru, disco Brain/Top Tape) – Só na década de 70, os conjuntos de música jovem (leiase rock) surgidos fora dos Estados Unidos e Inglaterra conseguiram alcançar alguma projeção, em seus países de origem ou fora deles. O grupo holandês Focus pode ser considerado com o mais importante exemplo, apesar do disco que revelou-o ao mundo (Hamburger Concerto) ter sido feito em Londres. Em relação ao movimento de rock na Alemanha, este tem-se apresentado de forma bastante auto-suficiente, tanto em revelação de novos talentos como refugo de nomes consagrados, como os grupos Rolling Stones ou Deep Purple que procuram a Alemanha para fazerem gravações, fugindo dos altos impostos ingleses. Entre os principais grupos surgidos na Alemanha, podem ser citados o Jane, o Nektar (formado na Inglaterra mas só conseguiu sucesso na Alemanha) e o Guru Guru que, formado em 70, só no ano passado fez sua estreia no Brasil com o álbum Kan-Guru que recebeu alguns elogios, com o grupo pesquisando por terrenos de rock-espacial e ainda contando com a participação do antigo baixista/vocalista Uli Trepte. Estranhamente, em menos de dois meses o Guru Guru tem o seu mais recente disco lançado e desta vez como trio (Mani Neumeier na bateria, Ax Genrich na guitarra e Bruno Schaab no baixo e vocais) investindo no puro rock’n’roll com boa atuação que lembra, ou deixa alguma saudade dos antigos grupos de rock como o Cream ou Jimi Hendrix Experience na clássica formação guitarra-baixo-bateria. O Guru Guru consegue bons momentos nas faixas mais longas do disco Der Elektrolurch (experiências sonoras chegando perto da música concreta, com guitarras distorcidas e alucinantes e várias vozes superpostas declamando textos em alemão) e The Story of Life também construída nos mesmos moldes da anterior. As faixas curtas, Samantha’s Rabbit e Woman Dream (têm letras em inglês e são menos eficazes, em suas tentativas de fazer música no estilo de Frank Zappa. Mas o maior destaque desse Guru Guru é o medley feito em homenagem ao antigo rock’n’roll Eddie Cochran, que fez sucesso na década de 50 e hoje é considerado um dos principais nomes do gênero, ao lado de Chuck Berry, Little Richard ou Bo Didley. Cochran apareceu em 38 e fez estrondoso sucesso com a canção Summertime Blues. Entre as suas músicas usadas no medley estão as rebolativas e deliciosas Weekend, Something Else e o clássico Twenty Flight Rock (esta lembrando bastante Hendrix, pelas vocalizações) com letra brilhante, e muito distante das simplicidades romântico-sexuais usadas pelos primeiros rockers (“pessoa, ouça e tenta entender/você conhece muito de música e teve chance de ouvir todas as bandas importantes/alguns gatos sabem como fazê-lo/ outros esquecerem suas metas/entrando em caminhos plásticos e deixando você e eu bastante mornos...”). No mais, um disco interessante e construído de forma satisfatória que certamente será apreciado pelos fãs do gênero, simples em sua forma (quase primária) mas, bastante eficiente. (APRÍGIO LYRIO)

Com todos os seus lançamentos previstos para distribuição ainda neste mês, o novo catálogo internacional da Phonogram, por entre as tradicionais e semi-inexplicáveis obscuridades, inclui uma série bastante considerável de álbuns editados há pouco tempo no exterior, sendo que alguns deles foram recebidos pela crítica, no original, com unânimes e consagradores elogios. Três exemplos muito expressivos são os novos discos da cantora escocesa Maggie Bell, do guitarrista Robin Trower e do baterista Ginger Baker, Suicide Sal foi considerado como a imposição definitiva de Maggie Bell na cena do rock, e merecedor do sucesso que o seu primeiro álbum solo (Queen of the Night), apesar de excelente, não conseguiu. Gravado na Inglaterra (o outro foi feito nos EUA), Suicide...conta, em algumas faixas com a participação do guitarrista Jimmy Page, do Led Zeppelin. O guitarrista Robin Trower, que tem sido comparado a Jimi Hendrix – e teve seu segundo trabalho, Bridge of Sighs, editado no Brasil também pela Phonogram há dois meses -, retorna com For Earth Below. Sobre o disco, a crítica internacional, além de elogiar o flamejante comportamento de Trower na guitarra, profetizou um sucesso mais rápido e decisivo que o de Bridge..., que, no exterior, vendeu milhares de cópias, mas de maneira vagarosa, apesar de sólida e constante. Ginger Baker, transformado em mito do rock por sua atuação no histórico Cream (com Eric Clapton e Jack Bruce), chega com o álbum Baker-Gurvitz Army, gravado com seu novo grupo (mesmo nome do disco) formado no ano passado, depois do


insucesso de duas experiências posteriores ao Cream, ou de um período de “quietude” na Nigéria (África). Lançado originalmente no final de dezembro de 74, foi saudado simplesmente como o melhor “presente do ano novo” que uma gravadora poderia ter oferecido, na Europa. Tanto pela atuação do baterista e do guitarrista Adrian Gurvitz, quanto pela qualidade do material, quase todo composto pelos dois. Antecipando-se às distribuidoras de filmes, a Phonogram lança este mês o álbum duplo com a trilha sonora original do filme Tommy, dirigido por Ken Russell, baseado na famosíssima ópera-rock do grupo inglês The Who (ou do seu líder, Pete Townshend). A gravação, onde foram incluídas algumas músicas novas escritas especialmente por Townshend, foi elogiada pela dramatização adotada, que parece ter feito com que a peça finalmente fosse conduzida de acordo com o seu rótulo de ópera. E também pela presença, no elenco, de nomes como o de Tina Turner e Elton John – e até mesmo do ator Oliver Reed (Mulheres Apaixonadas), cuja “péssima performance vocal” no papel do Tio Frank de Tommy acabou sendo “cosmicamente apropriada”. O tecladista Chick Corea, muito respeitado no ambiente do jazz desde a época do free music (segunda metade dos anos 60) até a corrente atual de intercâmbio com o rock – depois de sua passagem pela banda transformadora de Miles Davis tornou-se um dos nomes mais famosos da eletrificada, híbrida e delirante fusão do jazz-rock –, tem o seu No Mistery editado agora. Ajudando a completar o fluxo de seus trabalhos (por muito tempo despreocupados aqui), que já conta com duas edições nacionais do álbum feitos com o grupo Return To Forever (Light As a Feather e Where Have I Known You Before, o mais recente) e do antigo [Miles], lançado há três meses pela CID. Outros lançamentos da Phonogram são dos grupos Greenslade (Spyglass Guest), que a crítica inglesa aponta como uma boa promessa, Steeleye Span (Parcel of Rogues), o mais famoso da cena atual do folk-rock, Chopyn (Grand Slam), uma esteia ainda nebulosa, e Procol Harum, cujo único sucesso foi A Whiter Shade Of Pale, e que aparece com o lançamento mais atrasado entre todos: o luxuoso e frio álbum Grand Hotel editado no original há mais de um ano.

Mesmo depois de um ano do lançamento original, um trabalho ainda atraente ILLUSIONS ON A DOUBLE DIMPLE (com o grupo Triumvirat, álbum Harvest/Odeon, em Golias Discos) – Enquanto em 1975 a total e ineficiente infiltração do rock alemão no mercado internacional da música conseguiu atingir o ápice do tédio e repetição no início do segundo semestre de 74, tal material, principalmente no Brasil, ainda podia ser considerado como novidade. E o grupo germânico Triumvirat teve o seu álbum Illusions on a Double Dimple editado aqui quase que simultaneamente com a Inglaterra (apesar do trabalho ter sido registrado em estúdios alemães, a responsável pela distribuição foi a gravadora Harvest) e um dos primeiros grupos alemães a receber o interesse devido por parte das representantes nacionais. Tendo como principal função divulgar a música de Jurgen Fritz – responsável pelo que há de mais agradável ou mais apurado na parte instrumental do Triumsvirat, como todos os tipos de instrumentos com teclado, além de ter o principal compositor e vocalista líder – o grupo ainda conta com as intervenções da pulsativa e hipnótica sessão de percussão de Hans Bathck mais a participação de Helmut Kollen no baixo, guitarra e os convidados Hans Pape que faz baixo na maior parte das faixas, um coral, a voz de Peter Cetera recitando na faixa Illusions e a participação da Cologne Opera House Orchestra. E com todos esses elementos, sob a tutela de Jurgen Fritz o Triumvirat apresenta nos dois momentos do disco – o lado A é ocupado pelo rock-sinfonia que dá nome ao álbum Illusions on a Double Dimplo enquanto a segunda face mostra o Mister Ten Percent, ambos divididos em várias partes – interpretações seguras, fortes e coesas num trabalho até certo ponto atraente. Todo o brilho do trabalho de Jurgen Fritz permanece intocável e a distância dos outros conjuntos de rocksinfônico da Alemanha que se preocupam em imitar, somente, sem muito talento desenvolvido pelo famosíssimo Pink Floyd. Os arranjos dados aos dois trabalhos são bastante criativos enquanto as vocalizações embora relegadas a segundo plano também colorem o trabalho da Triumvirat, que apesar de mais de um ano depois do lançamento deste Illusions... ainda promove o álbum e no momento está fazendo a primeira parte dos shows do Grande Funk no tour inglês do conjunto. (APRÍGIO LYRIO)

Dominguinhos: nem a devida orientação

Apesar dos projetos (sérios) em realizar uma antologia de baiões, um desperdício O FORRÓ DE DOMINGUINHOS (com Dominguinhos, álbum Fontana/Phonogram, na casa Pianna) – Esta não é a primeira vez que o músico Dominguinhos, aliás José Domingos Moraes, grava um elepê individual. Praticamente descoberto por Gilberto Gil – na época, responsável pela direção musical do show de Gal Costa que serviu para lançar a guarânia de Assunción Flores com versão de José Fortuna Índia – pelo seu envolvimento com os músicos da “ala moderna” da música brasileira popular e também por sua carismática presença em palco, Dominguinhos rapidamente transformouse no “sanfoneiro pop” em auto-definição (na gravação de Forró Tema em compacto Phonogram).


Antes havia participado de apresentações com o Quinteto Violado, Luiz Gonzaga Jr., e, ainda, em 1972 participou do espetáculo/festa de Luiz Gonzaga no Teatro Rachel Luiz Gonzaga Volta Para Curtir e em gravações, com oito álbuns realizados para a Cantagalo, distribuídos pela Tropicana/CBS, contendo “músicas mais pra terra, mais forró, coisa assim de triângulo e zabumba, já que a sanfona grita muito e que só são tocadas na faixa das 5 às 6 da manhã no rádio, ou em alguns lugares do Nordeste”. Na verdade a chegada de Dominguinhos “no sul” deu-se há mais de 20 anos, por incentivo de Luiz Gonzaga mas depois o músico criou o seu próprio trio mais ou menos em meados da década de 50 num tempo em que a sanfona ou mesmo a música nordestina só conseguia atingir um público específico. E o próprio Dominguinhos esclarece: “para completar o triste quadro da música nordestina o maestro Mário Mascarenhas, nesse tempo, resolveu fazer um concerto com mil acordeons. Não há quem aguente mil acordeons de uma vez só tocando aberto e isso foi o suficiente para enterrar o instrumento. Passei a tocar em buate e dancings para não passar fome, tendo abandonado o trio. Foi a época em que Sivuca chegou do Norte e com ele mais Chiquinho do Acordeon que fui aprendendo a tocar de forma mais apurada, mais apurada, mais suave e em acordes”. Da fase em que esteve ao lado de Gal Costa – por quase dois anos, até que num processo de renovação em seu grupo a cantora resolveu incluir entre seus músicos o recém chegado dos Estados Unidos João Donato, responsável pela direção musical de seus impulsos musicais desde o show/disco Cantar – Dominguinhos pôde entrar em contato com um outro tipo de sonoridade e sofisticação musical e o resultado foi comprovado, principalmente, na gravação de um compacto que o músico fez contendo Forró Tema e De Amor Eu Morrerei (esta também gravada por Gal) logo depois do retumbante sucesso de Eu Só Quero Um Xodó, em show por Gal e em gravação, com Gilberto Gil, em 1973. O compacto do Domingos, saiu no início de 74 e apesar de pequena amostra, deu para sentir-se o músico atravessando nova e, essencialmente, fértil e bastante criadora fase, bisada nas composições Lamento Sertanejo e Planalto Central em parceria com Gilberto Gil (sendo que a segunda foi censurada e só pode ser interpretada sem alguns trechos). Depois de todo o período de ajustamento mas, sem perder as características principais de sua música regionalistíca – no ano passado esteve percorrendo o Brasil como integrante convidado do Quinteto Violado no espetáculo A Febre – seria plano de Dominguinhos e também da companhia que o mantém sob contrato fazer um disco que não tivesse o destino de acabar nas prateleiras, mas por infelicidade e também por falta absoluta de maior orientação, o mais recente Forró de Dominguinhos faz com que o músico volte ao mesmo esquema dos tempos em que registrava música nordestina para deleite de raros ouvintes. Entre os pecados principais desse seu novo disco, mesmo contando com a participação do competente Perinho de Albuquerque na direção de produção,mais Toninho Horta (ex-Som Imaginário) na guitarra, Sérgio Barroso no baixo e percussão com Mamão e Paenal, os arranjos de Dominguinhos são ineficientes, sem nenhum apuro e completamente monótonos e, certamente, um fato triste para um músico que já deu provas que pode fazer, e muito bem, um trabalho musical que não seja limitado a nenhum padrão ou gosto popular. E mesmo em sua anunciada tentativa (projeto praticamente impossível) de fazer uma antologia de baiões, o projeto não vinga já que não existe um registro completo das músicas incluídas e sim trechos. Até a brilhante desenvoltura do músico em seu instrumento se perde num eterno lugar comum, marcado por um ritmo invariável e cansativo. A audácia foi tão pouca que Dominguinhos esqueceu de incluir seus mais recentes sucessos de sua autoria registrou um

material medíocre e o que é pior, cantado por um coro (?) chamado JOAB que nada faz a não ser, num conhecimento uníssono, repetir músicas já bastante executadas e gravadas como Baião, O Xote das Meninas, Respeita Januário (de Luiz Gonzaga e parceiros), Sebastiana (Rosil Cavalcanti), 17 Léguas e Meia (Carlos Barroso e Humberto Teixeira), entre outras. Das novas composições de Dominguinhos estão: a consagrada Xodó, O Forró Tema em nova gravação, Tenho Sede, São Jõao Bonito, Lá e Cá, Na Fogueira e Forró em Petroalha. Mesmo já lançado há dois meses, esse disco de Dominguinhos passou completamente despercebido e em última análise é um desperdício completo. (APRÍGIO LYRIO)

As grandes e duvidáveis “orquestras para dançar” ainda existem, com sua música falsa e ambígua A proposta nunca foi sincero. Sempre tentou filtrar as músicas mais executadas em paradas de sucesso dedicadas a um público despretensioso, mas com única intenção: divertir, acalmando os incautos ouvintes acostumados, ou melhor, servir de fundo para festinhas, embalar pares românticos – naquela época não existiam, ainda, as excitantes discotecas com soul music e similares. E o que resta são momentos completamente medíocres (vendo-se hoje) mesmo que o material usado tenha alguma ligação com as canções colunáveis de hoje, todas tratadas com primarismo e nenhum cuidado em estilo ou o que o valha. E como exemplos, os últimos suplementos de algumas gravadoras. FEELINGS (com Jay Richfon e Gary Stevens, álbum TT-067 Carovello/Top Tape) – Neste, o primeiro lado é dedicado ao músico – frequentemente desconhecido – Jay Richford do qual não se têm maiores informações. Ritchford é responsável pela música e regência das cinco canções apresentadas no primeiro lado do álbum e ainda ganha uma participação – de uma faixa – no segundo lado deste fora de tempo Feelings. Para esclarecimento, o álbum não foi gravado depois ou em função do agora hit internacional do brasileiro Morris Albert. Em compensação, a vulgaridade é a mesma e criada para público específico: nada além. Com um certo espírito balançado e que pode ser ligado ao movimento soul music. Richford apresenta Flying Home, Going Home, Walking In The Dark, Fighting For Life, Feeling Tense e Having Fun – todas de sua autoria e mantendo esquema conhecidíssimo, principalmente para os mais dançantes. Já a outra parte do álbum reserva quatro momentos do compositor e regente Gary Stevan, Running Fast, Loving Tenderly, Fearing Much e Being Friendly – e do material apresentado no álbum, este pode ser considerado como: um pouquinho atraente, mesmo que os músicos participantes permaneçam no anonimato e, sem nenhuma faixa vocalizada. Os arranjos são old-fashioned, porém rebolativos. Nada mais pode ser dito. BESÁME MUCHO/THE CLEBANOFF STRINGS AND ORCHESTRA (com a Clebanoff Strings, álbum 307 3258 (Premier/RGE/Fermata) – Este último misterioso da RGE já não trata com grande sensibilidade suas nostalgias. O esquema é comum, assim como os arranjos e os temas aproveitados. Para os mais interessados, recriações (banais) de Besame Mucho, Granada,


Malaguena. La Paloma, Taboo, El Manicero, Hava Nagila e até Orfeu Negro, entre outras, com muitas cordas e também, sem um vocalista. E mesmo com sua ilustração de capa lembrando fielmente os discos feitos, no espírito, há mais de vinte anos e típico da série “Evocações Latinas”, o conhecido. Para os mais lacrimejantes. E só. A BUTTON DOWN PARTY (com Ray Davis and The Button Down Brass, álbum 307 3259 Premier/RGE/Fermata) – Para a realização deste disco do comercialíssimo trompetista Ray Davis, o adjetivo, usado em release, serve para definir o espírito da música que emana deste A Button Down Party: aquilo que ficou definido como funky (dançável, divertido). O músico, com sua banda que lembra os escândalos musicais de Sérgio Mendes nos Estados Unidos, ou melhor, o million-plus-seller Herb Alpert, faz com seus metais, versões para Baby Elephant Walk (a conhecidíssima e de encomenda de Henry Mancini) e outros sucesso, mais modernos, como You Are The Sunshine of My Life (Stevie Wonder) e até um medley com canções de Gilbert O’Sulivan: Alone Again Naturally, Get Down e Clair, entre outras. Para os mais condescendentes, até que o álbum seve para embalar algumas festinhas regadas a guaraná e docinhos caseiros. LAFAYETTE APRESENTA OS SUCESSOS – VOLUME 19 (com Lafayette e orquestra, álbum 104 321 CBS) – O “maestro” Lafayette não é desconhecido de ninguém e nesta série Apresenta os Sucessos que já alcançou o volume nº 19, o mesmo esquema dos anteriores, fazendo uso das canções, nacionais e internacionais. O “maestro”, que tem carreira bastante longa no Brasil e participando ativamente de todas as mediocridades, em disco, neste mais novo trabalho passa da soul Shame, Shame, Shame, para o comercial balada Mandy (grande sucesso em vendas este ano com Barry Manilow), Laughter In The Rain (de Neil Sedaka e que serviu como marca para a volta do antigo rock-baladista), indo até La Balanga (Claude Morgan) e El Bimbo (Claude Morgan) dois exemplos da mediocridade do desconhecido autor. Também indicado para bailarinos amadores sem muita percepção. Mas existem, até, aqueles que gosta, do tipo de música feita por Lafayette. Mas estes, certamente, não frequentam discotecas. EU QUERO APENAS (com Caravelli e orquestra, álbum 144 144 Epic/CBS) – Já este comercialíssimo Eu Quero Apenas do “maestro” Caravelli, alguns sucessos nacionais (como a canção de Roberto e Erasmo Carlos que dá nome ao disco) mescladas de forma comum com hits internacionais, modernos ou não. O “maestro” usa When Will I See You Again (da dupla soul Gamble-Huff ), o tema de Nino Rota para O Poderoso Chefão Segunda Parte, intitulado Love Said Goodbye, passa por Alain Barrière, Morris Albert (certamente Feelings) e outras mediocridades que fazem sucesso. Também indicado para público acostumado (e desinformado) com mais de 30 anos e nada além. Para quem quiser tirar a prova, o disco está à venda. Antes não tivesse acontecido. (APRÍGIO LYRIO)

Duas importantes reedições Tendo começado a [ilegível] novamente dos meios artístico musicais ainda na década de 50, o poeta (e ex-diplomata) Vinícius de Moraes, além de letrista de músicas, foi autor de dois momentos importantes do teatro musicado brasileiro: junto com Antônio Carlos Jobim foi responsável pela encenação de Orfeu de Carnaval, que estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 56 (depois virou filme premiado, feito pelo diretor francês Marcel Camus) e também da peça Pobre Menina Rica, com Carlos Lyra. Dos dois trabalhos, resultaram canções consagradas e até hoje temas obrigatórios, como A Felicidade, Manhã de Carnaval, Minha Namorada, Primavera, etc. Na década de 60, o poeta Vinícius passa a comunicar-se de forma diferente com o público, assumindo carreira de cantor e, depois de algumas gravações esparsas, é o primeiro convidado a fazer um disco, na então iniciante etiqueta Elenco (da gravadora RCA), criada pelo músico Aloysio de Oliveira. Nesse disco da série Autógrafos de Sucesso, agora lançado pela Phonogram focalizando vários momentos da carreira de Vinícius de Moraes, cinco de suas faixas foram retiradas do primeiro LP do compositor, feito em conjunto com a também iniciante, nos meios musicais, Odete Lara. Os discos [ilegível] sempre primaram por uma qualidade e respeito para com a música brasileira, até então nunca vistos, e nesse clima de esmerada produção, estão registradas e ainda bastante “vivas”, as gravações, feitas em conjunto com o parceiro Baden Powell, das músicas Samba de Benção, Berimbau e Astronauta, mais Samba em Prelúdio e Labareda (essas em conjunto com Odete Lara). De um show feito com Dorival Caymmi no Zum Zum (na realidade gravação feita em estúdio com palmas de amigos), e do vigésimo terceiro disco da Elenco, foram retiradas as faixas Formosa (com Baden), Broto Maroto e Minha Namorada (com Carlos Lyra), todas com a participação do Quarteto em Cy. E de fase mais antiga, estão incluídas nesse Autógrafos de Sucesso as canções Lamento no Morro e Água de Beber (feitas com Tom Jobim). Para os apreciadores e colecionadores, um retrato dos melhores momentos em música de Vinícius de Moraes, hoje cada vez mais ativo em gravações e shows, numa parceria com o violonista Toquinho da qual não se pode dizer que seja uma associação das mais felizes, em termos de criatividade. Também lançado recentemente pela Phonogram, um compacto duplo, feito em homenagem ao compositor gaúcho Lupiscínio Rodrigues, redescoberto recentemente pela nova geração dos músicos brasileiros (felizmente), mas depois de sua morte ano passado, tem sido insistentemente gravado por vários intérpretes, nem sempre empenhados em fazer um trabalho sério, simplesmente como modismo. No compacto, com três faixas retiradas de outros discos e somente uma inédita, as presenças eficientes, respeitadoras e elegantes de Caetano Veloso, Gal Costa, Elis Regina e Gilberto Gil interpretando temas consagrados de Lupiscínio, um dos compositores brasileiros mais autênticos, considerado o renovador da “dor de cotovelo”, ou então um dos precursores de bossa nova com sua voz simples e econômica lembrando o estilo depois aperfeiçoado por João Gilberto. Além de músico renovador, com suas dissonâncias, Lupiscínio Rodrigues foi excelente poeta, usando com classe o lugar comum, como em Cadeira Vazia, “...eu sofri demais quando partiste/ passei tantas horas triste/nem quero lembrar esse dia/mas de uma coisa podes ter certeza/o teu lugar aqui na minha mesa/tua cadeira ainda está vazia…” (gravação de Elis Regina, do disco As 14 Mais da Difusora), ou em Felicidade Foi Embora, “...a minha

casa fica lá dentro detrás do mundo/onde eu vou em um segundo, quando começo a cantar/o pensamento parece uma coisa atôa/ mas como é que a gente voa, quando começa a pensar/Felicidade foi embora…” (gravação de Caetano Veloso, do disco Temporada Verão) ou em Volta, “...volta/vem viver outra vez ao meu lado/não consigo dormir sem teu braço/pois meu corpo está acostumado… (gravação de Gal Costa, do disco Índia). A única faixa inédita e gravada para a ocasião é a recriação de Esses Moços, Pobres Moços, feita de forma simples e delicada por Gilberto Gil, com letra sentimental: “...esses moços, pobres moços/ah! se soubessem o que eu sei/não amavam, não passavam/aquilo que eu já passei/por meus olhos, por meus sonhos, por meu sangue, tudo enfim…”. Duas reedições importantes colocadas no mercado pela Phonogram, que devem ser “olhadas” com atenção. (APRÍGIO LYRIO)


O mais recente álbum gravado pela cantora inglesa Shirley Bassey NOBODY DOES IT LIKE ME (com Shirley Bassey, álbum United Artists Records/Copacabana, na casa Pianna) - Apesar de, mesmo depois de quase dez anos ainda ser conhecida como a intérprete do tema de 007 Contra Goldfinger (Goldfinger), o terceiro filme da série explorando o célebre personagem criado (para o sucesso) por Ian Fleming, a cantora inglesa Shirley Bassey ainda não esqueceu o motivo de sua fama e continua a ser tão comercial e plástica quando interpretava com todo o seu vigor o tema Goldfinger, com sua voz forte, semi-operística e com fraseado limpo mas bastante frio. E neste seu novo disco, originalmente gravado em 74 e lançado no Brasil em início de 75 o esquema continua o mesmo sendo que o engano começa a partir do título do álbum, Nobody Does It Like Me (Ninguém o faz como eu). Mrs. Goldfinger continua com seus treinados de cantora de music-hall, “terrivelmente” afinada, mas destinada a um público tão alheio como ela em suas experiências pelos meios musicais. No momento, descobriu uma fonte de inspiração na pessoa de Liza Minelli e que de certa forma acrescentou algo de mais agradável às suas interpretações, apesar do clima de déjà-vu, presente em todos os momentos desde Nobody Does It... o que não impede que a cantora tenha certa fama. No Brasil, em um dos Festivais Internacionais da Canção sua presença foi bastante elogiada principalmente pelo público de mais de 30 anos e, recentemente, em shows no Space Cardin (teatro do “versátil” Pierre Cardin) sua apresentação foi considerada como um dos pontos altos da casa de espetáculos. Segundo alguns entendidos, “acompanhada por 36 músicos, Shirley Bassey com todo o seu magnetismo confirmou suas três qualidades básicas e duvidáveis para o sucesso: talento, inteligência e físico”. Mas a cantora apresenta-se, pelo menos, de forma coerente desde que despontou para o sucesso: continua cantando baladas românticas e de sucesso fácil e fazendo usabuso de suas qualidades vocais, diga-se, sem apresentar nenhuma atualização ou pior, em uma audição atenta de qualquer um dos seus discos gravados a impressão é a mesma: um certo estado de irritabilidade. O que também não impede a cantora de cada vez produzir discos, sempre presentes em discotecas açucaradas, mornas e descompromissadas. E no seu mais recente LP Mrs. Goldfinger continua a ser uma das principais rainhas do lamê internacional). Mesclando nas dez faixas do disco temas conhecidos e presentes em paradas de sucessos, a cantora recria o conhecidíssimo de Stevie Wonder You Are The Sunshine of My Life, All That Love That Went Away (tema do filme Um Toque de Classe), Nobody Does It Like Me (a mais conhecida canção do musical da Broadway Seesaw), o também sucesso de Paul Anka I’m Not Anyone e outras menos badaladas. E bem de acordo com o estilo da cantora, todas as faixas são povoadas por incansáveis violinos e pesadas orquestrações, sendo que os mais agradáveis são aqueles assinados por Gene Page. A cantora ainda se faz acompanhar pelo cantor Bernard Ighmer (?) na faixa Davy, tão pobre e acostumada como todo o resto do material mostrado. O álbum é indicado para seus fãs, principalmente os mais ardorosos. O resto é silêncio. (APRÍGIO LYRIO)

Duas surpresas A gravadora Phonogram é bastante misteriosa, na maioria das vezes criteriosa - mantém em seu quadro de contratados nacionais o que se poderia chamar de “a fina flor do samba” – e, capaz de provocar espanto nos mais interessados pelo trabalho dessas finas flores. Como foi o caso de um compacto lançado no ano passado como complemento do álbum/show de Maria Bethânia Drama, um dos discos mais vendidos de 73/74 sendo que o disquinho, contendo em suas seis faixas cinco composições de Chico Buarque, passou completamente despercebido do público certo e entusiasmo da cantora mais bem sucedida do Brasil. Agora e ainda como curiosidade, simplesmente, já que certamente a ideia não será das mais bem sucedidas (em termos de vendagem) foi colocado no mercado um compacto de Gal Costa, surpreendentemente. Porque, indicando em seu selo que o compacto seria uma pequena mostra retirada do seu recente longplaying Cantar, são representadas as canções Flor de Maracujá ( João Donato e Lysias Enio), Barato Total (Gilberto Gil) e A Rã (do mesmo Donato e Caetano Veloso). A surpresa está na inclusão do samba antigo Teco Teco, de Pereira da Costa, que foi um dos pontos altos do show que a cantora Gal fez no ano passado e que merecia um lançamento individual, logicamente ao lado de outro tema que a intérprete recriou, emprestado da bossa nova e já gravado e não aproveitado: Se É Tarde Me Perdoa (de Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli, cantando em áureos tempos por João Gilberto e Silvinha Telles). Enquanto isso, cogita-se o lançamento de um LP de Gal registrando o seu último encontro com o público. Fica o registro. Já o percussionista Chico “Batera”, apesar de ser praticamente desconhecido do grande público, é um músico atuante. Veterano da bossa nova, já tocou ao lado de Sérgio Mendes e depois de uma

fase afastado dos cenários brasileiros, apareceu em gravações e shows ao lado dos “velhos” baianos. Agora, com o seu recém-formado conjunto, lança um compacto simples contendo duas composições feitas sob estranhas circunstâncias - a primeira delas é o instrumental Ha, Ha, Ha que vem a ser o tema de abertura de telenovela “Cuca Legal” e composto por Gilberto Gil e consegue ser simpático nesta gravação original e bastante rebolativo. O mesmo acontece com o merengue Tiu, Ru, Ru um dos resultados das seis horas de gravação que o cantor/compositor Cat Stevens deixou na Phonogram, de suas passagens pelo Brasil. O tema recebeu letra de Gilberto Gil: “Menina veja você/O Trem só anda por cima da linha/Tanto faz ser ou não ser/O certo mesmo é que você é minha”) e mantendo a linha latina do trabalho de Stevens, testou bastante com a sua Cozinha Manteca.Também como registro. (A.L.)


Um disco bem cuidado (somente) do conjunto vocal MPB-4

PALHAÇOS E REIS (com o conjunto MPB-4, disco Phonogram) – o quarteto vocal formado por Ruy, Miltinho, Achilles e Magro (este, sempre o responsável pelos arranjos vocais e instrumentais do conjunto ), em seu nono disco gravado (o anterior Antologia, uma revisão em dez medleys, com 29 músicas de algum dos mais considerados compositores brasileiros disco que não foi bem recebido, pelo estilo do MPB-4 sempre repetitivo) não se preocupa em mudar seu gênero, e no dizer de Rui, um dos integrantes “o grupo é essencialmente de música brasileira e não se obriga a mudança porque essa ou aquela moda surgiu”. O grupo formou-se em Niterói no extinto Centro Popular de Cultura frequentado principalmente por universitários, onde seus integrantes cantavam e faziam teatro e outas atividades amadorísticas. Em ‘65 foram para São Paulo, na época o maior centro de divulgação da música brasileira, com seus festivais e acontecimentos paralelos, e lá conheceram Sérgio Ricardo e Chico de Assis, que os apresentou a Chico Buarque. Depois apresentaram-se no programa Fino da Bossa. Daí, Aloysio de Oliveira contratou-os para a gravadora Elenco e gravaram o primeiro compacto lá. Fizeram o show Samba Pede Passagem, ao lado de Araci de Almeida, Ismael Silva e Baden Powell e a partir daí juntaram-se a Chico Buarque e até hoje acompanham o compositor/cantor em apresentação ao vivo, fazendo fundo vocal.

Mas o trabalho individual do MPB-4 sempre foi repetitivo, manso e apesar de ser o único grupo vocal brasileiro que conseguiu chegar perto do gênero desenvolvido pelos Os Cariocas, desaparecido há oito anos (foi lançada uma coletânea, recentemente, do conjunto com seus maiores sucessos da fase da bossa nova, não conseguiram captar o virtuosismo atingido por esses, por seus excessos em malabarismos vocais. E tal fato se repete neste Palhaços e Reis, todo feito com um repertório sem variações, com ligeiríssimas exceções. São desalentadoras as interpretações do conjunto das músicas Tá Certo, Doutor (de Luiz Gonzaga Jr.) ou Fé Cega Faca (de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) e a recriação da “antiga” de Edu Lobo Chegança. As outras faixas, Nosso Mal e Agora é Portela 74 (ambas de Maurício Tapajós, sendo que a última já foi lançada em compacto), Mordaça, Conversa com o Coração e o indecifrável bolero Maldição de Ravel (?) todas de Paulo César Pinheiro, são canções moderadas e soníferas, assim como a faixatítulo Palhaços e Reis (de Ivan Lins, também responsável pelos arranjos, instrumental e vocal da faixa). E talvez, nem os fãs do MPB-4 vejam motivo para uma audição mais atenta nesse novo trabalho do conjunto, que apesar de bem cuidada produção, e da participação de alguns músicos considerados (Antonio Adolfo, Ely Arcorverde, Ivan Lins, Wilson das Neves e outros) não consegue ser, por nem um minuto, convincente. (APRÍGIO LYRIO)

Um trabalho estimulante e indispensável ACADEMIA DE DANÇAS (com Egberto Gismonti, álbum EMI/Odeon, em Golias Discos) – Definitivamente Egberto Gismonti é um grande músico, não só como compositor mas também como competentíssimo instrumentista e arranjador depois de seus vários anos de estudos. Nascido no interior de Minas e tendo passado a maior parte de sua vida em Friburgo, Gismonti iniciou carreira de músico popular (estudou em conservatório desde os 5 anos de idade) em 1958, num Festival da Canção. No ano seguinte este novamente no Maracanãzinho, quando foi convidado para ser chefe de orquestra da atriz e cantora francesa Marie Laforêt, fazendo seu primeiro show na Europa no encerramento do Festival de San Remo. E segundo palavras do próprio Gismonti, esquecido os festivais e bastante envolvido com o lado erudito da música mas sem uma preocupação específica de rotular seus trabalhos. “A música popular veio na medida em que eu morava no Carmo, lá no interior de Minas, e meus tios e primos eram músicos de banda. Tanto que sou muito chegado a esse negócio de bandas e dobrados ao mesmo tempo em que eu ouvia Beethoven. Meu pai achava que eu era um cidadão musical e me dava completo apoio, numa época em que músico era considerado um vagabundo. Como comecei muito cedo tive oportunidade de fazer o curso todo no Conservatório”. Quando terminaram seus estudos, ganhou uma bolsa para Viena. Mas ele confessa que seu negócio não era ser concertista: estava decidido a fazer composição. No Festival em que apresentou sua música O Sonho, conseguiu espantar muita gente ao fazer o arranjo de orquestra, escrevendo para mais de cinquenta figuras e direto para os instrumentos. Fez dois discos, o primeiro simplesmente Egberto Gismonti e quando o segundo foi lançado, Sonho 70, Egberto já estava na Europa. Ao lado de Marie Laforêt, desenvolveu também um trabalho individual. Quase dois anos depois voltou ao Brasil, deixando gravado um LP na Alemanha Orfeu Novo, alguns compactos da França e teve editado na Itália seu primeiro disco. Ficou um ano em Teresópolis, fez músicas para filmes (Em Família, Confissões do Frei Abóbora e A Penúltima Donzela) alguns shows e o disco Água e Vinho. Recentemente declarou: “Vou À Europa toda vez que preciso de uma injeção. Aqui tem muita


coisa que preciso ouvir, mas, ou não foram gravadas ou a gente não tem acesso. Sei que vários músicos fariam uma música que me estimularia mas por qualquer motivo ainda não fizeram. Aí eu chego lá fora e assisto a 30 concertos em dois dias, saio “baratinado” e já no avião a coisa se arrumando e em 15 dias começa a assimilar tudo: depois são seis meses de trabalho”. Recentemente Egberto foi contratado pela Warner para que gravasse um disco nos Estados Unidos mas o músico estava envolvido com a gravação deste Academia de Dança e o lançamento do disco foi adiado para que, em termos de qualidade sonora, o LP pudesse competir com o nível das gravações estrangeiras e o resultado não poderia ser mais gratificante e este talvez seja até o melhor trabalho registrado pelo músico. Com excelente desempenho, Gismonti se faz acompanhar pelos músicos Roberto Silva (bateria), Luis Alves (baixo), Tenório Júnior (piano), Danilo Caymmi (flauta baixo), Paulo Guimarães (flauta) e a participação de Dulce Nunes em vocais, Egberto faz piano, piano elétrico, órgão, violão, voz, harpsichord Odyssey, flauta indígena e pios diversos nas duas faixas do disco - o primeiro lado dividido em cinco momentos, Corações Futuristas e o Academia de Danças em seis peças distintas, um casamento perfeito entre o erudito e o popular englobando diversas tendências musicais com grande brilho e perfeito domínio. E do trabalho estonteantemente belo e eficiente, três faixas são cantadas destacando-se, em termos de letra, Bodas de Prata e Quatro Cantos de Geraldo Carneiro. No momento, depois da vinda ao Brasil de Airto Moreira, percussionista elogiadíssimo e bastante solicitado na América casado com a cantora Flora Putim, em longas conversas com Gismonti concretizou um antigo sonho: o de fazer um conjunto “com músicos que dividam entre si a responsabilidade de criação, sem um líder determinado”. A Airto e Gismonti se juntarão Raulzinho (trombone e percussão), Ted Lee (teclados, guitarra, violino elétrico e canto), David Amaro (violão e guitarra de doze cordas) e John Williams (baixo elétrico e acústico). Um rigoroso esquema espera o grupo: depois de três meses de ensaios, um LP e um tour pela América e Europa, tudo sob contrato da Arista Records, recémfundada por Clive Davis. Fica o registro. (APRÍGIO LYRIO)

Gismonti: brilhantemente progressivo.

A Inglaterra exporta sua “Morbeza Romântica” GRAND HOTEL (com o grupo Procol Harum, álbum Chrysalis/Phonogram, à venda breve) – O lançamento deste trabalho do Procol Harum foi envolvido por grandes festividades, no ano passado, no Plaza Hotel de New York e embora se diga que o grupo está no momento vivendo nos Estados Unidos seu nome sempre estará ligado à música pop inglesa. Formado em 1967, o Procol Harum conheceu o primeiro sucesso mundial com a canção Whiter Shade of Pale que já mostrava um pouco da ligação musical do grupo com algumas das mais fortes e importantes tendências da música popular americana: o blues, no caso reestruturado, e um pouco de jazz no movimento dos instrumentos – assim como outro grupo inglês, o Traffic que desenvolveria o mesmo tipo de influências. Desde a formação do grupo, cujo nome foi tirado de um gato pertencente a Keith Reid (o mentor intelectual do PH e o letrista das canções, todas de autoria do tecladista e líder do grupo Gary Brooker), somente três mudanças básicas foram verificadas entre seus integrantes: a do guitarrista Robin Trower (no momento fazendo brilhante carreira individual e com três álbuns editados, os dois últimos Bridge of Sighs e For Earth Below já lançados no Brasil este ano, pela Phonogram), substituído por Mick Grabham, o organista Mathew Fisher que cedeu lugar para Chris Chopping e B.J. Wilson que veio substituir David Ball com grande apuro e dinâmica na percussão, talvez o forte do som produzido pelo Harum aliado aos teclados de Gary Brooker, também responsável por todos os vocais. Sobre Grand Hotel, chega agora ao Brasil com um atraso de um ano e pouco falido em sua apresentação: a luxuosa capa dupla original cedeu lugar a uma econômica capa simples, de certa forma, eficiente porque o trabalho em si não merece muitos destaques. Sóbrio em seu espírito e com algum brilho nos arranjos, contando inclusive com participação de orquestra mais The Pahene Recorder Ensemble e a cantora Christianne Legrand do famosíssimo e respeitado – na década passada – conjunto vocal semi-erudito francês The Swingle Singers, o Procol Harum não pode certamente ser confundido com algum grupinho mais preocupado em fazer rock fácil para uma plateia também fácil. E com todos os requintes da produção e mesmo do material usado, o resultado desse Grand Hotel chega perto do enfadonho, cansativo e desinteressante não por faltar algum elemento ou mesmo estilo mas pela intenção do grupo. Seguindo uma linha romântica, as composições de Gary Brooker são, a um tempo pomposas e eficientes e arrumadas de forma irrepreensível e as letras de Keith Reid seguem o mesmo tom, numa análise existencial mórbida e tensa dos últimos acontecimentos que, certamente, atingem o autor. Aliado, Gary Brooker é brilhante em seus vocais, instrumentações e piano. A canção A Rum Tale vem com um certo ar de deboche, momento único no disco e é uma das melhores coisas do álbum: Fires (Which Burnt Brightly) quebra um pouco da monotonia intencional com uma Christianne Legrand completamente deslocada e repetindo o conhecido: A Souvenir of London também é outro momento interessante, porém rígido. E esta experiência de número nove para o Procol Harum (em gravação) atinge seus objetivos, como trabalho impecável, com bons arranjos e excelente mixagem, indicado principalmente para os fãs do conjunto. (APRÍGIO LYRIO)

Grupos de diversas etnias para ambos os sexos

The Blue Notes: um dos focalizados.

BLACK BEAT 3 (com vários intérpretes, álbum EPIC/ CBS) – Alguns podem considerar como o melhor da música americana comercial e outros, como o pior da música americana. (O termo comercial entra por conta da situação da música, evidentemente um produto). E com a intenção de reunir vários grupos musicais sem muita importância, mas um trabalho completamente válido e em alguns momentos até estimulante para frequentadores assíduos de discotecas, a CBS brasileira lança seu terceiro exemplar da série Black Beats. Não que o trabalho seja acintosamente desinteressante: talvez para um ouvinte mais exigente encontrar de vez em quando The Isley Brothers interpretando seu sucesso Midnight Sky descompromissadamente, a situação pode passar, sem dar margem a muitos comentários. Assim como os recém-apresentados no Brasil Harold Melvin and The Blue Notes, conjunto formado em 1967 por Melvin, até então cantor do coro da Igreja Presbiteriana de Boston e que mesmo tendo começado a gravar no início da década de 70 só agora consegue algum destaque. Mas o problema (ou dilema) principal reside no fato do agrupamento de tantos conjuntos, instrumentais ou simplesmente vocais numa coletânea que para ser ouvida com atenção tornase tarefa quase impossível. Mas o material, como foi dito anteriormente funciona perfeitamente, conforme o desejado. Então, não existem surpresas – o Black Beat da CBS surge para um tipo de público pré-estabelecido e não deve ser encarado de forma diversa. Entre os popularescos grupos apresentados cita-se o trio vocalista The Three Degrees com a canção I Like Being a Woman: o Love Committee com One Day of Peace: The Isley Brothers com Brown Eyed Girl e o [ilegível]: Midnight Sky (Part. 1ª, o rebolativo soul de Harold Melvin em Bad Luck: a novata e esquisita Rita Fortune com Sisters and Brothers, o grupo Trammps (que faz questão de apresentar suas canções de forma recitativa como o “rei” do soul (Barry White) com duas amostras, Where Do We Go From Here e Trusting Heart, assim como outros grupos, num total de doze faixas, menos citados. O disco poderia ser indicado para diversas camadas de público interessadas em música mas que o julgamento, ou melhor, aceitação e, consequentemente, a compra e devida apreciação depende do gosto ou espírito de cada pessoa. Fica o registro, sem margens à solução. (A.L.)


A primeira mostra da banda de Rosinha de Valença e o oitavo disco de sua brilhante carreira

Rosinha de Valença: perfeita, com sua banda

ROSINHA DE VALENÇA E BANDA “AO VIVO” (com Rosinha Valença, álbum SMOFB 3866 Odeon, à venda breve) – De seu álbum anterior e lançado simultaneamente no Brasil e na França foi dito que é uma fase que a violonista já havia formado sua banda e fazendo apresentações, com sucesso teria sido melhor se fosse gravado ao vivo. E agora, liberada do antigo contrato com a gravadora Barclay, Rosinha de Valença, aliás Maria Rosa Canellas, está com novo disco inaugurando sua fase na Odeon e um retrato das apresentações que Rosinha e banda vêm sendo feito para o público, mesmo que o álbum tenha sido feito em estúdio com presença de público para animar o acontecimento, o que sempre acontece com os acontecimentos “ao vivo” da gravadora Odeon. Desnecessário. A primeira impressão que se tem do álbum é o espírito de falsidade amigável para com o trabalho da sempre competente instrumentista que não precisa – no caso –

de apuros familiares para um maior feeling. E chega a ser chocante, quando uma quase tímida Rosinha, por ter dito que o andamento estava muito rápido (na única canção em que ela mostra sua voz, a antiga Testamento do Sambista), recebe muitos aplausos dizendo: “Chega”. O material escolhido para o álbum não poderia ser mais atraente e perfeito para o clima de um show com Rosinha de Valença, assim como os músicos que ela escolheu para gravar alguns participantes ativos de sua banda e outros, convidados para a ocasião: estão presentes os veteranos João Donato, Alberto das Neves e cantora Ivone Lara e entre os novos, Frederico, Oberdan Magalhães, Helvius Vilella (perfeito em alguns momentos em piano elétrico), Tuti Moreno e as cantoras Telma (irmã de Sueli Costa e em estreia) e Miucha Buarque de Hollanda, entre outros. Falar de técnica ou da habilidade musical de Rosinha de Valença seria o lugar comum. Desde 1963, quando foi para o Rio de Janeiro e logo já estava contratada pela Elenco, de Aloysio de Oliveira, a jovem violonista tem recebido grandes elogios e instrumentista ativa desde início de carreira. A música, para Rosinha de Valença, começou na cidade de Valença em família, com todos gostando muito de música e formando um regional em casa: logo depois já estava tocando em bailes e também na rádio de Valença, acompanhando cantores. Depois de sua primeira gravação, fez turnê pelos Estados Unidos com o Sérgio Mendes Brasil 65. Fez um disco com o conjunto e outro, ainda na América (Bud/ Donato/Rosinha), ao lado de Bud Shank e João Donato. E entre várias excursões pela Europa, União Soviética e África, já contratada pela Barclay, Rosinha mostrou seu talento ao executar em violão algumas peças clássicas do popular brasileiro. Em 1973 aconteceu a parada e a preparação para uma nova fase: Rosinha resolveu

“Tudo é válido se for verdade do artista. Na música não existe prostituição. Eu aprendi nos Estados Unidos que os maiores músicos acompanham até pequenos cantores. O importante é trabalhar sem estrelismo”, reclama a violonista.

assumir o problema do músico brasileiro, organizando uma banda: “Não existe programa de televisão musical brasileiro, as buates cada vez mais tocam fitas e o intérprete, cantor ou cantora normalmente economiza no seu acompanhamento, uma vez que pra ele o mercado de trabalho não está fácil... É nessa realidade que o músico tem que sobreviver. Tudo é válido se for verdade do artista. Na música não existe prostituição. Eu aprendi nos Estados Unidos que os maiores músicos acompanham até pequenos cantores. O importante é trabalhar sem estrelismo”, - reclama a violonista. E vai além: em seu novo disco, além de um pôster informativo da discografia completa e dados sobre os músicos, além de algumas críticas sobre seu trabalho, um importante manifesto. “Agora, que a atenção das pessoas começa a ser despertada no sentido de valorizar o músico brasileiro e tomar conhecimento das necessidades que ele atravessa, é que se faz necessária a participação de todo o público para que sejam solucionados os problemas que estão impedindo os instrumentistas de sobreviverem”. E tudo indica que para Rosinha de Valença e sua excelente banda, este envolvimento não tem sido dos mais complicados: suas apresentações em teatros levam público interessado (breve a instrumentista faz show em Vitória a exemplo do que tem feito em várias cidades brasileiras já que os detalhes foram acertados durante a apresentação de Martinho da Vila com quem Rosinha trabalha em discos e show há quatro anos) e este seu disco resulta quase perfeito, em seus momentos e registros. A recriação para Do Amor Eu Morrerei (Dominguinhos e Amnastácia) é soberbo, assim como na faixa Colagem onde alguns tradicionais nacionais são envolvidos pelas notas de um cálido With a Little Help From My Friends. Nada mais justo. (APRÍGIO LYRIO)

Este coral prova: tudo pode virar “Natal”


Com alguns atrativos, amostras de recentes grupos germânicos

O jazz rock do grupo Emergency.

GERMAN ROCK SCENE VOLUME 2 (com vários intérpretes, álbum Brain/Top Tape, da série Sábado Som Internacional) – Continuando com a edição, econômica, dos mais recentes lançamentos, da música pop alemã (leia-se rock, em todos os gêneros) já pode ser encontrado nas lojas especializadas o segundo volume da série German Rock Scene, que, em várias faixas, apresenta os últimos lançamentos representantes da música jovem atual alemã – de dois anos para cá tentando dominar o mercado fonográfico atual (e, bastante sabido por todos, com enormes lucros tanto para os músicos como para as gravadoras) – em

CLIMB EVERY MOUNTAIN (com o Mormon Tabernacle Choir dirigido por Richard Condie e a Columbia Symphony Orchestra regida por Arthur Harris, álbum 160228 Masterworks/ CBS) – O canto coral, de uma certa forma, sempre lembra qualquer coisa de religioso ou de ufano, o que pode ser motivo para seu quase total esquecimento por parte dos diversos tipo de público. Mas, nos Estados Unidos estão sempre acontecendo cerimônias comemorativas para as quais a música de coro parece ideal – especialmente festas religiosas, frequentemente promovidas pelas musicalíssimas Igrejas Batista, Metodista, Adventista, Mormon e, inclusive, a Católica. Talvez por isso o coro Tabernáculo Mormon sobreviva há tanto tempo como instituição – e como constante realizador de discos. Atuando dentro do exigente sistema americano de produção, o coro do Tabernáculo Mormon é sempre obrigado a adotar certas originalidades, para poder continuar a se reproduzir em disco. E tenta acompanhar, na medida do possível, as tendências de cada época do ano. Assim, são frequentes os Natais comemorados ao som dos seus álbuns específicos. No último, a CBS editou mais um, pressurosamente, em que a grande atração era o secular órgão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – um nome que sugere apocalipses e, inclusive, a vinda e

forma de coletânea, excelente ideia já que uma atenta audição de long-playings de conjuntos germânicos torna-se bastante cansativa, principalmente pela incansável mania, ou vício, da maioria dos grupos alemães que apesar de, gerados de diversas tendências, desde o final da década de 60, não partiram como o rock inglês do tipo de música para jovens feita pelos americanos, mas do próprio som inglês floydiano que, na época, refletia o (já desmistificado) movimento flower power, que teve origem principalmente em São Francisco. E além do tipo de rock-sinfônico explorado sem medidas por grupos como o Nektar (de origem inglesa e constituído por alguns integrantes do grupo Man) que teve, em menos de três meses nada menos que três álbuns editados no Brasil, ou o Guru Guru (com dois álbuns), o Jane (também com dois) e o Cornucopia, o rock alemão reflete em sua música suas influências de país de formação musical erudita (essencialmente) por compositores mais antigos, ou os contemporâneos como Stockhausen e Maurice Xagel que foram muito assimilados por uns, os engenheiros eletrônicos tornaram-se os [ilegível] de alguns grupos, mas a música considerada “clássica” continua dominando outros. Neste segundo volume da série, foram usados materiais dos grupos Emergency, Embryo, Thirsty Moon, Kollektiv e Wolfgang Dauner Group. A primeira faixa do disco é ocupado, em 12 minutos, pelo grupo Emergency que numa execução brilhante (por que seria que a maior parte dos músicos germânicos são eficientíssimos instrumentistas nas suas composições tão calcadas em gêneros de rock já bastante conhecidos, e por isso sem nenhum atrativo?) na música Get Out To The Country retirada do LP de mesmo nome, lembrando bastante o estilo de conjuntos semi-conhecidos como o Blood, Sweat and Tears ou o Chicago. O grupo Emergency surgiu depois da montagem germânica da peça “Hair” e tem como seu líder o músico-vários-instrumentos Hanus Berka. E entre excitantes momentos instrumentais, bastante ritmados, a vez de Peter Bischop destaca-se por seus histerismos desnecessários, tentando parecer um cantor de blues negro, em vão. Segue a faixa Big City do grupo Thirsty Moon, e retirada do álbum do mesmo nome e o primeiro do grupo que foi uma das grandes descobertas, junta com o Curly Curve, para o german rock no ano passado. A música Big City, num trabalho aprimorado, tenta captar todo o espírito “sonoro” das grandes cidades, numa boa apresentação entrecortada por vocais declamativos do organista e vocalista Hans-Werner Keawing, com entusiásticas percussões e forte atmosfera. Do grupo Embryo, que tem em seus integrantes, músicos de várias nacionalidades lideradas pelo baterista e vibrafonista Christian Buchard está a faixa A Place to Go retirada do álbum Rocksession, música instrumental, com tendências, pode-se dizer, orientais no início, para cair num eficiente hard-rock. E os dois momentos mais interessantes deste German Rock Scene 2 ficam por conta das duas últimas faixas apresentadas,dos grupos Kollektiv e Wolfgang Dauner Group.O Kollektiv,com a faixa Gageg retirada do LP Kollektiv, denota sua inclinação musical para um espírito mais jazzístico com um tipo de som atraente e cativante e ao mesmo tempo delicado com eficiente solo de flauta elétrica feito pelo músico Klaus Drapper. E o Wolfgang Dauner Group, que apresenta a faixa mais peculiar do disco, Jive Samba retirada do LP Rischkas Soul, assim como as duas anteriores, música instrumental, com bom desempenho do pianista Wolfgang Dauner na composição do músico de jazz americano Nat Adderley (irmão de Julian “Cannonball” Adderley). Fica também um destaque para o guitarrista Siefried Schwab que consegue sons estranhos com o seu instrumento e para os dois bons percussionistas do conjunto. (APRÍGIO LYRIO)

imposição no mundo do reinado da Babilônia, a mãe de todas as desvalidas e rainha de todas as fornicações (copyright da Bíblia Sagrada). Esse órgão emitiu a sua primeira nota, depois de um longo e exaustivo trabalho de construção (em que as peças foram transportadas através de estradas agrestes por 60 juntas de bois), em 1867. E se comportou impecavelmente ao acompanhar o coral em sua investida natalina mais recente. O Natal parece ser a ocasião exata para o aparecimento de discos do grupo, porque exige uma certa aura de religiosidade no ar. E a essa altura dos acontecimentos, a única crença que pode manter o coral funcionando é a de que, além de ganhar dinheiro com isso, pode transmitir algo de religioso, ou, podese dizer, inspirador. Por isso, o seu diretor musical – diante da ideia de gravar, em pomposos arranjos corais, temas populares – foi justificar, na contracapa, que, desta vez, “embora essas canções possam não ser consideradas religiosas, elas são, no sentido mais alto da palavra, inspiradoras”. Ou seja, também se prestam para o Natal, mas podem perfeitamente servir de veículo para um álbum “meio de ano” com o coro do Tabernáculo Mormon. E quais seriam os exemplos escolhidos dessa música popular que, ainda segundo o diretor musical Thomas Frost, “pode ampliar nossa força e revigorar nossa fé, pode ajudar-nos a alcançar a serenidade, pode nos impulsionar a grandes feitos

e pode ajudar-nos a tornar realidade os nossos sonhos”? Para os mentores do volumoso e afinado coral – que aqui ainda se torna mais rotundo pela rigidez das orquestrações de Arthur Harris, à frente de uma sinfônica de estúdio –, essa música inspiradora foi feita, preferencialmente, para os musicais do cinema. A Noviça Rebelde, A História de Elza, Oklahoma, O Homem de La Mancha e O Mágico de Oz, entre outros, foram revisitados pelo Coro do Tabernáculo, nos seus temas mais empolgados. E o resultado está aí, para provar que os objetivos foram conseguidos: The Sound of Music (traduzido como “A Excelência da Música”), Born Free, Oh What a Beautiful Morning, The Impossible Dream, Over the Rainbown ou a faixa-título, e mais outros clássicos do musical cinematográfico, agora servem perfeitamente como décor para o Natal convencional, da mesma forma que as muitas espécies de lâmpadas coloridas, arbustos artificiais dos mais variados tipos, a imagem abdominosa de um velho de barba branca – e pequenos papéis finamente ilustrados, contendo ternas mensagens destituídas de qualquer significado, que devem ser enviados a alguém pelo correio, o que sempre provoca uma sobrecarga e consequente deficiência nos serviços.


MÚSICA BRASILEIRA O primeiro volume de uma série, primorosa, focalizando momentos importantes da MPB Rita Lee, Erasmo Carlos e Raul Seixas: presenças

BRAZILIAN ROCK Os momentos mais frenéticos do recente festival de música jovem brasileiro HOLLYWOOD ROCK (com vários intérpretes, álbum Polydor/Phonogram, à venda breve) – Realizado no início deste ano no campo do clube Botafogo no Rio de Janeiro, e depois de vários contratempos que quase impediram o acontecimento festivalesco – de música pop nacional – que sob o nome e Hollywood Rock reuniu em pleno verão “iluminado” carioca alguns dos mais ativos representantes do rock nativo, eis que o projeto (num país que não tem entre as suas tradições musicais o gênero rock’n’roll) teve grande êxito e enorme aceitação por parte do público jovem e o resultado do evento, embora minimizado, foi lançado esta semana em forma de disco (simples) e depois de uma árdua tarefa, os pesquisadores decidiram que

os nomes escolhidos para representar esta corrente da música brasileira, recaíram sobre os talentos do veterano Erasmo Carlos, mais Raul Seixas, Ritta Lee e o estreante grupo Peso, apesar de inúmeros conjuntos de rock terem feito apresentações no palco improvisado no campo do Botafogo, em várias noites de sábados. E, apesar do grande murmúrio (por parte do público presente) atrapalhar o som dos músicos consequentemente prejudicando esta gravação ao vivo, fato que pode se transformar num incômodo par os ouvintes mais preocupados, o Hollywood Rock consegue ser bastante agradável nesta mudança para vinil, sem o natural resfriamento, e sem exceção, os “apresentados” no disco comportam-se de maneira completamente coerente e extremamente profissional. (Nota-se um ligeiro deslize por parte do grupo Peso ainda imaturo em suas experiências e a participação do seu vocalista é completamente desalentadora nas duas faixas que lhe são de direito). Os primeiros acordes do álbum são dados por Ritta Lee (e seu grupo Tutti Frutti) que teve em 1974 o seu grande ano e sucesso individual, depois do desligamento do grupo Os Mutantes, que teve um passado com algumas glórias quando responsáveis pela eletricidade no trabalho tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Ritta Lee Jones apesar do seu frágil LP lançado ano passado, Atrás do Porto Tem Uma Cidade, consegue fazer, como sempre – e aqui privilegiada por uma pequena parcela de tempo disponível – uma apresentação convincente apoiada por seus músicos de certa forma interessantes e em seu medley mostra suas composições Mamãe Natureza (famosa

depois que Caetano Veloso incluiu-a em seu repertório) e E Você Ainda Duvida, recria o antigo rock de Roberto e Erasmo Carlos Minha Fama de Mau com eficiência e lembra o oldie Tutti Frutti terminando com uma das músicas com uma frase completamente coerente: “It’s Been A Hard Days Night”. O primeiro lado do disco ainda mostra Erasmo Carlos cantando três faixas do seu LP lançado em fins do ano passado, 1990•Projeto Selvaterra e, principalmente apoiado pelo som do seu recém-formado conjunto (contando com a participação dos versáteis músicos Ion Muniz, Antônio Perna, Rubão Sabino, Gabriel O’Meara, Jorge Amiden) já que suas qualidades vocais não são das mais recomendáveis e o mesmo pode ser dito em relação a suas performances no palco. Erasmo tem o seu melhor momento cantando Negro Gato (Getúlio Cortes). Ainda tem um momento “quente”, no rock-miscelânia Bolas Azuis e, nada consegue aumentar o baixíssimo impacto do seu 1990•Projeto Selvaterra uma espécie de rock/denúncia calcado no 1984 de David Bowie, mas de uma inocência e ausência de criação lastimáveis. Já o alternativo Raul Seixas, no momento em grande atividade em meio a projetos para um filme e comemorando os seus vinte anos de rock (fazendo circuito universitário) considerando uma gravação feita aos sete anos como a pedra fundamental de todo seu trabalho, quase transcendendo os pioneiros, apresenta três fases (pouco) distintas de seu trabalho: Al Capone do seu primeiro LP Krig-Ha, Bandolo, Não Pare na Pista do LP Gita e a recente Como Vovó Já Dizia lançada em compacto este ano. Os fãs recentemente ficarão deliciados com Raul Seixas Live pela primeira vez. E este Hollywood Rock ainda guarda dois momentos para o grupo Peso, nas faixas Só Agora (Estou Amando Você) e a quase ridícula, por sua linguagem barata, Cabeça Fria dos insípidos Tibério Gaspar e Guilherme Lamounier. Mas não tem problema a essas alturas dos acontecimentos, já que os ouvintes estarão certamente embevecidos com a grande dinâmica que o rock assumiu recentemente no Brasil, até pouco tempo terrivelmente prejudicado por problemas como qualidade sonora ou melhores instrumentos. O que na melhor das hipóteses significa uma maior aceitação. Tanto, que os produtores do disco, para que não paire nenhuma dúvida, sabiamente resolveram incluir na contracapa, em destaque, o rótulo Made in Brazil. (APRÍGIO LYRIO)

MAIS DE MEIO SÉCULO DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA (com o grupo 10, 101 e Vocal Documenta, álbum RCA/Camden, em Golias Discos) – “Em 1917 Estados Unidos e Brasil entram na I Guerra Mundial: verificamse os primeiros movimentos socialistas no Brasil: a China faz sua guerra civil; Manoel Bandeira lança seu primeiro

Como Pixinguinha...


livro de poesias, A Cinza das Horas; nasce Indira Gandhi; Charles Chaplin filma O Imigrante; nascem também “Laurindo de Almeida, violonista e compositor e Odete Amaral, cantora, e Severino Araújo, maestro e compositor, e David Nasser, jornalista e compositor; o Fluminense ganha o campeonato carioca; é lançada pela Odeon a gravação do samba Pelo Telephone”. Com este espírito de documentação, aliado a um pouco de malícia, a gravadora RCA lança o primeiro volume de sua série focalizando a música popular brasileira desde Pelo Telephone, o sucesso recém destronado de autoria de Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos) com letra de Mauro de Almeida e detendo-se, neste primeiro exemplar, em doze músicas e passando pelos anos compreendidos entre 1917 e 1928. Com uma “apreciável” foto de capa, do primeiro conjunto brasileiro de sucesso, nacional e internacional, Os Oito Batutas, com músicos da primeira geração do samba (gravado) e formado em 1922 por Pixinguinha (sax e flauta), Donga (violão), Otávio Viana (vocal e violão), Luis de Oliveira (bandola e reco-reco), José Alves (bandolin e ganza), Nelson dos Santos (cavaquinho), Raul Palmieri (violão) e Jacob Palmieri (pandeiro) – para tocar na sala de espera do Cinema Palais e logo depois contratado para apresentações no Scheherazade, de Paris e também na Argentina: enquanto o Brasil “começava a civilizar-se” (expressão bastante usada na época) sua música também começava a tomar forma, definitiva. O cuidado com que a série é apresentada é algo de inigualável num país que só agora descobre a real importância de sua história e, consequentemente, começa a registrá-la. O trabalho da contra capa é perfeito: escrita por Sérgio Deodoro Gomes, o autor preocupou-se em dar ao ouvinte uma visão dos acontecimentos mais importantes do ano em que as músicas focalizadas foram lançadas. Do maestro Pixinguinha, aliás, Alfredo da Rocha Viana Filho, filho de músico e desde pequeno acostumado a ouvir em casa os ritmos quentes das polcas, lundus e valsas da época estão no disco Patrão, Prenda seu Gado (1918) em parceria com Donga e João da Baiana –

...Donga...

“nasce Geraldo Pereira, compositor: diagnosticada a doença conhecida como gripe” – o seu choro Lamento (1926), que na década de 60 receberia letra de Vinícius de Moraes e Já te Digo (1919) – “morre o pintor francês Renoir, nasce Isaurinha Garcia, Chico Alves estreia em disco (gravadora Popular)”. Além do seu Pelo Telefone, outra canção de Donga é apresentada: Nosso Ranchinho (1925) – “Oswald de Andrade lança seu livro de poesias Pau Brasil, nasce Angela Maria; F. Scot Fitzgerald lança O Grande Gastsby“. O músico José Barbosa da Silva, o Sinhô, tipo perfeito do carioca e dotado de extraordinária musicalidade, foi o principal fixador do samba e sua obra, das mais vastas, é uma crônica viva da cidade. Sinhô era pianista do conjunto Flor do Abacate, da gafiera do Catete, e entre seus principais sambas estão: Jura, Cansei, A Favela Vai Abaixo e as incluídas no disco Pé de Anjo (1920), Ora, Vejam só (1972) e Amara a Uma Só Mulher (1928), “neste ano são lançados no Rio a revista O Cruzeiro; pela primeira vez foi feita a entrega dos prêmios Oscar do cinema; Ismael Silva e outros fundam a primeira escola de samba do Rio, no Estácio e chamada Deixa Falar”. Em 1923 o sucesso foi Tatu Subiu no Pau de Eduardo Souto, também sambista marcante da primeira fase; em 1942 Fubá de Romeu Silva faz sucesso e outro sambista aparece com destaque, José Luis de Moraes, o Caninha – mais conhecido por sua canção É Batucada, excluída deste Mais de Meio Século... para ceder lugar a Essa Nega que me Dá (1921) e Me Leva, Me Leva, Me Leva Seu Rafael (1922). Depois desta primeira fase do samba inicia-se a considerada “época de ouro” da música popular brasileira quando os compositores – principalmente – Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo ensaiam seus primeiros e importantíssimos passos. O primeiro volume deste Mais de Meio Século de Música Popular Brasileira apresenta, interpretando as canções, o grupo 10001 e o Vocal Documenta que apesar do esquema rígido, em interpretação e arranjos (talvez com o acréscimo de um solista o grupo vocal não pareceria tão monótono) consegue satisfazer inteiramente, dentro do espírito de registro e documentação. (APRÍGIO LYRIO)

...e Sinhô...

Kent “Lobo” Lavole: calmo

Mesmo que seja um caubói com medo de cavalos o músico Lobo fez um disco de autor. Com apuro. A COWBOY AFRAID OF HORSES (com Lobo, álbum Philips/Phonogram, à venda breve) – Anteriormente anunciandose apenas como um cantor – em seu álbum lançado no Brasil em final do ano passado, Just A Singer – o músico americano Lobo, aliás Kent Lavoie, de relativo sucesso em programas de televisão americanos (e nada além) tem agora o seu novo disco editado e seguindo um caminho completamente oposto ao anterior mas com a mesma vitalidade, carinho e apuro, mesmo que o material apresentado não tenha aqueles requisitos especiais que possam fazê-lo um músico de impacto ou de grandes inovações. Enquanto em Just A Singer a pouca profundidade do trabalho do cantor/guitarrista/compositor manifestava-se através de trabalhos de outros autores, um disco de cantor, e fazendo parte do repertório alguns hits, como Reason to Believen (Tim Hardin), I’m Only Sleeping (Lennon e McCartney), Lodl ( John Fogerthy), Rings (Alex Harvey), entre outros, neste A Cowboy Afraid of Horses, Kent “Lobo” Lavoie apresenta-se com um disco mais pessoal e só incluiu, nas doze faixas, material de sua autoria – todas canções muito bonitinhas e bem cantadas, acompanhamento eficiente (ainda é inesquecível a principal influência no trabalho de Lobo, o trovador Bob Dylan). Mas seu envolvimento com o gênero folk dançável e calmo com baladas fáceis e sentimentais está longe do trabalho do quase desaparecido e grandioso sucesso nos primeiros anos da década, James Taylor, com seus interessantes temas bitter-sweet, e não só, um sofisticado pesquisador do terreno que cobre suas manifestações musicais. Essas características faltam no trabalho de Lobo, apesar de sua inegável tentativa ao desenvolver um estilo pessoal. O novo álbum tem, pelo menos, duas faixas que certamente constituíram-se em sucesso, como foi o single retirado do Just A Singer, a canção Rings: a rimada My Mamma Had Soul, cercada por um certo sarcasmo em sua letra e a balada Morning Sun, atraente por sua agradável melodia. Apesar de uma seção instrumental de suporte eficiente e condizente com o espírito da música de Lobo, inexplicavelmente o nome dos músicos presentes não pode ser encontrado nos créditos do disco. Mas o elepê mostrando um cantor envolvido por certos vícios estilísticos, não chega a ser desagradável mas é destinado a um público específico, e por que não, saudável? (A.L)


MÚSICA POPULAR

Os produtores de Larry Coryell querem fazer dele um novo Mahavishnu. Nada mais gratificante. THE RESTFUL MIND (com Larry Coryell, álbum Vanguard/ Copacabana, em Golias Discos ) – Tendo surgido para o sucesso ainda bastante jovem e muito considerado ente os inovadores do jazz da década passada, o guitarrista americano Larry Coryell passou quase uma década tocando em clubes de jazz ou fazendo discos e apresentações ao lado de outros músicos e após o rompimento com o seu antigo, pode-se dizer, grupo Foreplay, em fins de 1973 formou The Eleventh House, ao lado dos músicos Alphonse Mouzon (ex-Weather Report), Mike Mandell (ex-Foreplay) e John Lee que veio a substituir o baixista Danny Trifan, segundo o músico “para que eu pudesse tocar o material que eu havia composto, que parecia frustrar a habilidade do meu grupo anterior, sem levar em consideração a dificuldade que tínhamos em ensaiar juntos, inclusive. Tudo isso contribui para a dissolução natural do velho grupo, mas o que restou não foi na verdade qualquer sentimento de animosidade, apenas certa desilusão”. E trazido, em novos lançamentos, pela mesma corrente responsável pela edição, no Brasil, da maior parte dos discos gravados pelo mais considerado (e sucesso em vendas) guitarrista do mundo e um dos principais inovadores do seu instrumento, inclusive tendo feito vastíssima escola, o Mahavishnu John McLaughlin , Larry Coryell repentinamente passa a ser encarado como superstar e deste agora lançado The Restful Mind, a indicação na contra capa de todos os discos individuais do músico e outros toques promocionais. O que não poderia ser mais gratificante. Ao lado dos eficientíssimos Ralph Como Pixinguinha... Towner (guitarra), Collin Walcott (tabla, congas) e Glen More (baixo acústico), o clima de serenidade, o virtuosíssimo e a grande técnica aliada ao espírito de enorme sensibilidade, surgem grandiosos nas mãos de Coryell, em todos os momentos dedicado e sublime. Mesmo que o material do álbum seja antigo e ainda venha com certa dose de orientalismos, etc.

A adaptação da camarística Pavane pour une Infante Défunte de Maurice Rayel resta excitante, enquanto o tema de Coryell Song for Jim Webb é uma das faixas mais interessantes assim como a intrigante e brilhante Julie La Balle. E com sua guitarra afiadíssima,intercalada a solos de guitarra acústica o álbum proporciona grandes momentos de deleite e excelente música, para iniciados ou não (em jazz, rock, jazz-rock, ou qualquer outro rótulo). Para os interessados, mesmo que o lançamento brasileiro do primeiro The Eleventh House tenha passado completamente despercebido, já pode ser encontrado no mercado de importados o segundo álbum do novo grupo de Coryell. (APRÍGIO LYRIO)

O que acontece Segundo o press-release do show musical Mistura Fina, a ser apresentado no Teatro Carlos Gomes dias 25 e 26 de outubro: “Vai mostrar uma seleção de músicas de oito compositores capixabas, entre os quais estão três dos participantes do espetáculo. Afonso Abreu, Mário Nogueira e Arlindo Abreu, Mário Nogueira e Arlindo Castro. E para tornar bem clara a intenção de situar esta apresentação como uma mostra do produto musical capixaba, Mistura Fina recebeu um subtítulo: “Música do Espírito Santo”. O resultado é um trabalho original concebido como uma “mistura fina” dos estilos musicais que influenciaram e influenciam os músicos do quarteto e que, por isso mesmo, estarão presentes nos arranjos do show: samba tradicional, música latino americana, bossa nova, free jazz, música clássica, folclórica, Rock‘n’Roll, etc. Para uma mistura tão heterogênea, um objetivo homogêneo: a apresentação da música doEspírito Santo, neste caso particular, da MPB que se está fazendo aqui. E dos músicos participantes: Afonso Abreu (baixo, vocal, percussão e sanfonete) começou a tocar ainda a metade dos anos 60 e integrando trios típicos daquele período da bossa (ou sambajazz) e além de poeta-letrista geralmente compondo no violão, é um dos músicos de sua geração que mais shows fez aqui tocando

e cantando: Mário Rui Nogueira (guitarra, violão, percussão e vocal) começou com a música, na fase da influência do cooljazz no popular brasileiro e, originalmente baterista, passou da música acústica para a elétrica com o advento do heavy rock, no final dos anos 60 sendo que hoje, ele fica com as duas: Arlindo Castro (vocal, guitarra, flautas, percussão e violões) assim como Mário, um ex-aluno de Maurício de Oliveira (que assim mostra os frutos do seu trabalho em prol da formação de uma geração de violonistas e guitarristas capixabas), voltado para o clássico e para o popular; e aluno da EMES e da SMVB, Arlindo escreve os arranjos, que também são criados coletivamente durante os ensaios do grupo; Marco Grijó (bateria e percussão) vem com estilo essencialmente jazzístico, na utilização de ritmos dobrados, alternados, etc. com o sabor do ritmo brasileiro cujo sucesso (ou influência ) é notório. Mais: musicalmente, Marco é o mais viajado deste grupo. Como registro. E ação. Considerando a música popular brasileira (exageradamente) como “o único movimento atual válido, em termos de criatividade e valor artístico em todo o mundo”, Astor Piazzola, o músico argentino que praticamente criou uma nova forma de interpretar o tango de Buenos Aires, depois de duas apresentações no Rio, uma em Curitiba e extenso programa para a Argentina e Uruguai, este mês, declarou não acreditar no futuro da música de seu país. “A Argentina - afirmou - possui um folclore muito pobre, a juventude não aprecia o tango e vive numa esfera musical totalmente importada dos Estados Unidos e Inglaterra. Mas não é somente na Argentina que isto acontece. Em todo o mundo, a violência, a incerteza, a pressa em viver e a correria dos anos 70 não deixam muito tempo para a inspiração artística. No meu tempo, ou melhor, nos anos 40, o café da manhã durava pelo menos duas horas e agora não é possível nem tomar o café da manhã. A juventude, simplesmente, não tem tempo para pensar. A diferença básica que favorece o brasileiro em comparação com a Argentina é a extroversão natural do povo. Apesar do rock, é possível existir movimento (ou mudanças) autenticamente brasileiro. Falta inspiração e criatividade nos jovens argentinos, não por questões políticas mas a violência e a pressa atrasam o desenvolvimento da arte. Mas o que importa é a boa música, independente de movimento ou revoluções. Não considero minha música como uma revolução dentro do estilo do tango mas, apenas uma derivação da música”. Sensatez e desconsuelo. Também como registro. Importante. Ainda da Semana de Arte de São Mateus: o encerramento será hoje, com a apresentação de Coral da Fundação Cultural do Espírito Santo, às 20 horas. Ontem, foi a noite do grupo de música pop, de Campos, Lúcia Lúcifer mostrar pela primeira vez em cenários capixabas, suas experiências sonoras. Mais uma vez no Brasil, desta vez para apresentações em sedes de clubes futebolísticos, o veterano-famoso-adoçante americano Johnny Mathis. Seu mais recente álbum When Will I See You Again, já está nas lojas e com o mesmo estilo que o cantor insistentemente frequenta,há mais de 15 anos.Para os mais emotivos. Liderando as paradas de mais vendidos: na Inglaterra, Rod Stewart (do Faces) com seu álbum individual Atlantic Crossing (lançado no Brasil esta semana). Nos Estados Unidos, uma surpresa: durante cinco semanas consecutivas, o álbum Red Octopus do Jefferson Starship, no primeiro lugar. E mesmo que alguns considerem o trabalho anterior do Jefferson, Dragon Fly (editado limitadamente aqui), como sendo mais importante, uma reviravolta na carreira do novo grupo de Paul Kantner e Grace


LANÇAMENTO Slick que na década passada foram responsáveis por uma série de inovaçãos na música pop americana quando da fase do Jefferson Airplane e do acid rock californiano.

Astor Piazzola: desconsolo.

On tour: The Rolling Stones faz a Europa antes do Natal, durante três semanas mas, datas para a Inglaterra ainda não foram marcadas principalmente pela situação de taxa que o grupo tem que pagar ao governo (quase noventa porcento dos lucros). O guitarrista Ron Wood, o momento fazendo excursão com seu grupo, o Faces, pelos Estados Unidos, repete na Europa sua participação ao lado dos Stones, em palco. Mas sua posição como integrante do grupo não é fixa. E depois de dois anos, The Who volta a se apresentar em Londres (e cidades importantes da Inglaterra) sendo que o encerramento climático será feito, em três noites, no Wembley Empire Pool, em Londres, dias 21, 22 e 23 deste mês. Ao mesmo tempo, já está sendo distribuído o novo álbum do grupo, The Who By Numbers.

Dois exemplos de rock (pesado) para o público viciado no gênero (part.1)

Certamente pioneira e consideravelmente veterana - em atividades artísticas capixabas - a pianista Edith Bulhões faz espetáculo amanhã, no Teatro Carlos Gomes, às 21 horas, com a Banda Militar do Espírito Santo. Existem especulações (?) em se formar uma sinfônica, no Estado com os integrantes da banda. Ver e crer. Também on tour pela Inglaterra o músico Todd Rundgren, que já foi diretor artístico do Grand Funk e agora, de volta total aos meios artísticos como figura em palco. Seu último álbum, Utopia, já lançado no mercado internacional. Depois de vários anos inativos, a cantora Adelaide Chiozo voltou e fez sucesso, com o show Cada Um Tem o Violão Que Merece. Depois de casas lotadas no Rio, a mudança para um novo teatro e uma temporada popular que tem como encerramento uma festa amanhã. Ainda: depois de uma semana, termina amanhã o espetáculo do versátil compositor/ tecladista Guilherme Vaz, no Museu de Arte Moderna, no Rio, com o título Quatro Composições e Dois Tiques. Tudo para definir sua música, que é também progressivo. Bob Dylan: novo álbum

Jards Anett da Silva, aliás Macalé, em entrevista: “Considero o compositor como uma espécie de jornal que comenta a experiência do cotidiano, em termos de sua própria vida e da de várias pessoas com pontos comuns a ele. E as pessoas ficam curiosas em saber o que eu quero, digamos, com esta antipublicidade. Acontece que nas minhas apresentações, além do dado musical, há outros símbolos. A minha formação artística inclui também o teatro e o cinema. A música, para mim, sempre esteve cercada do aspecto visual. Eu não me proíbo de nada. Pelo contrário, vou fazendo e criando. Claro, tenho minhas repressões, minhas defesas, mas o que faço é tentar anulá-las. Alice Cooper, incansável, prepara-se para gravar um álbum com Raquel Welch. O título será Welcome To My Cleavage (“Bem vindo a minha rachadura”). Diz que Muscle of Love (título de uma de suas canções) também estaria muito bem para título do álbum. Do grupo Pink Floyd: seu mais recente álbum, Wish You Were Here, está sendo destruído pela imprensa especializada internacional. E do novo trabalho o célebre grupo inglês, iniciador do movimento“rock-sinfônico”e famosíssimo depois do disco anterior,o Millionplus-seller Dark Side of The Moon, o jornal Melody Maker foi fatal: “Um vazio criativo”.

Bob Dylan: novo álbum

Com seu novo álbum sendo comparada aos banda a ser formada Klaus Voorman e Jim

Extra Texture, a linha usada por George Harrison está espiritualismos de John Lennon. Já se fala em uma pelos dois ex-Beatles, contando com as presenças de Keltner. O sonho revisitado. Ou futurismo e tradição.

Agora que as mixagens estão terminadas, já foram revelados alguns dados sobre o mais novo álbum de Bob Dylan, ainda sem um título. O grupo Kokomo e o guitarrista Eric Clapton, aparentemente, só participam de uma das dez faixas do disco. O resto do material combina os talentos de Emmylou Harris (vocal de suporte), Scarlett Rivers (violino), Rob Stoner (baixo), Howie Wyeth (bateria), Shenn (percussão) e certamente Dylan nos vocais, piano, guitarra e harmônica. Do Melody Marker e seu pool anual de leitores: como resultado internacional, melhor cantor, Robert Plant; melhor banda. Led Zeppelin; melhor cantora: Joni Mitchell; melhor álbum, Physical Graffiti (Led Zeppelin); melhor no palco, Led Zeppelin; melhor guitarrista, Jimmy Page (assim como o cantor Plant, do Led Zeppelin). Para interessados. (APRÍGIO LYRIO)

Nazareth com mudanças raras.

HAIR OF THE DOG (com o grupo Nazareth, álbum Vertigo/ Phonogram, à venda breve) – A comunhão dos quatro músicos que formam o grupo de hard rock Nazareth, natural da Escócia mas de destaque na Inglaterra – precisamente Dan McCafferty (vocal), Manuel “Manny” Charlton (líder e guitarras mais sintetizador), Pete Agnew (baixo e antigo companheiro do vocalista Dan em experiências anteriores) e Darrell Sweet (bateria) – significa um grande número de jovens adeptos e, não só na Inglaterra, como em todo o mundo. Inicialmente desconhecido, o grupo só conseguiu destaque a partir do terceiro álbum gravado, Raramoon. E vindos da última geração do rock, o Nazareth, além de produzir um tipo de som sofisticado, fazendo uso de sintetizador e outros recursos de estúdio, por sinal, bem aproveitados, não passa de uma tentativa de atuar no terreno de outros grupos famosos na penúltima (?) geração, como o Status Quo ou mesmo o Deep Purple sem apresentar nada de novo ou mesmo original. Nem por isso deixa de gravar assiduamente nem de ter fãs, principalmente teenybopers apaixonados por seus gritinhos e pouco sussurros. No ano passado tiveram lançado o álbum Leud’s Proud (demonstrando extrema coragem) com produção (sem curiosidades) de Roger Glover, ex-Deep Purple, e editado no início deste ano, Rampant e agora este Hak of the Dog, que traz alguma diferença no som do grupo: mais força, maior estabilidade e fazendo uso – até agora fato desconhecido para o Nazareth – de material acústico, ou melhor, semi-acústico (as faixas Guilty, de Randy Newman e uma das melhores coisas do álbum e a longa Please Don’t Judgme Me, que praticamente ocupa a metade do segundo lado do Hair of..., certamente deleite para os aficionados do conjunto. Existe até sofisticação no trabalho do guitarrista/tecladista Manny Chariton, mais apurado e convincente em seus impulsos mas a parte vocal, encargo de McCafferty, continua perseguindo um Rod Stewart ou mais, Robert Plant, o ídolo dos conjuntos de rock pesado ingleses, e não só. E da histeria que os caracteriza, um perfeito estímulo para os dançantes agora tratados com maior carinho e cuidado, mas continua saindo da massa guitarras/vozes um espírito déja vu, com seus riffs usadíssimos que neste álbum (somente) foge dos já tão percorridos caminhos do rock pesado. (APRÍGIO LYRIO)


The Tubes: no palco com Al Kooper.

Vergueiro: pouco inflamável.

O primeiro trabalho em estúdio do recente grupo de “rock de ataque” americano THE TUBES (com o grupo The Tubes, álbum AcM SP.4534, importado) – O mais novo representante de rock (de ataque) teatral surgido nos EUA e, mais precisamente na Califórnia, logo com seu primeiro álbum e após uma excelente receptividade por parte do público (de ataque) americano, quando de sua turnê pelos principais centros do sul dos Estados Unidos e agora com várias tentativas de dominar o cenário musical europeu teve seu álbum, intitulado The Tubers, em material de propaganda, definido como: “Se The Tubes não for a próxima grande banda saída de São Francisco, eu como meu chapéu. E se a banda interessantíssima não conseguir isto, não existe justiça no mundo”. Enquanto isso, outro jornal especializado (o informante apressado Melody Maker), assim como o Sounds, diz: “Suas músicas contam com acordes progressivos pouco usados e notória influência da música desenvolvida pelos grupos de Frank Zappa, o Jefferson Airplane, em seu tempo... e The Who”. Já o produtor do álbum,o compositor/guitarrista Al Kooper,assim definiu este primeiro álbum do grupo The Tubes: “Eles têm um completo e original estilo sonoro; e o LP se mantém por seu próprio conteúdo”. Certamente, o produtor Kooper (um conhecido músico de estúdio e com participações esporádicas em vários envolvimentos musicais com os nomes mais famosos do mundo rock) fez suas declarações sem mesmo antes ver The Tubes em palco, porém com conhecimento bastante para se envolver com o grupo (no momento, estão juntos no palco), o grande destaque da temporada americana, este ano. E em setembro passado, ainda em Los Angeles, o principal campo de ação do grupo, depois de apresentações anteriores. The Tubes, com sua forma atraente, o estilo forte e vital, o completo domínio daquilo a que se propõe, lotou auditórios, como Santa Monica Civic – capacidade 10000 pessoas – mostrando seu tipo de rock teatral de forma diferente dos seguidores do gênero, estes sempre em ação mas com vários exemplos de falta de criatividade. E The Tubes, com o que pode ser considerado como válvula necessária para fazer uma forma de arte acessível e agradável, e sem perder em nenhum momento todas as modalidades que sua música sarcástica proporciona, foi insistentemente descrito pela imprensa especializada como diferente dos outros do rock teatral porque seus visuais realmente atingem os propósitos, com os dançarinos e

toda a pantomina no palco, as roupas sempre diferentes, a posição “desrespeitosa” para com os tabus da classe média e os ultrajantes “antiques” que parecem soar muito bem fincados no rock tradicional. E todo o espírito teatral do Tubes, diga-se fértil, está presente neste disco de estreia – antes o grupo havia lançado um compacto em outra gravadora com a versão ao vivo de White Punks on Dope, o sucesso. O grupo é definido, em seu espírito, pelo principal compositor, o guitarrista Bill Spoonck: “Finalmente fomos descobertos. Nós sempre merecemos isto. Não penso em rock puro, acho que já é tempo das pessoas reconhecerem que rock teatral também é uma forma de se mostrar a ofensa real, o que também amplifica a música. Alguns músicos podem muito bem ficar por trás de cortinas, você compra o disco e pronto. Pensando bem, detesto jams de vinte minutos ou improvisos de três horas. Nós fazemos o essencial para sermos compreendidos. Acho que tudo é muito sério. A arte da comédia. E agradando a audiência. Nada é mais engraçado do que ver Fee em suas altíssimas performances ditando palavras de ordem. Isto é tudo que preciso. E nem só o attack rock do Tubes acontece. Sua música singular, até certo ponto – é notória a influência de Alice Cooper no trabalho do grupo, que conscientemente responde a quem se interessar, na canção Haloes (uma brincadeira com o Halo of Flies, de Alice): “Em minha mente eu sinto que este mundo é pequeno/ Penso que gostaria de ver algo mais...” – é completamente cativante e explosiva com guitarras voando, ritmo bem marcado com riffs conhecidos porém bem tratados e um sintetizador (Vincent Welnick) mirabolante,sem citar o eficaz desempenho de Fee Waybill nos vocais. Passa-se por Up From The Deep (que serviria como apresentação do grupo), Space Baby (um deboche para os envolvimentos “espaciais”), uma sarcástica recriação da conhecidíssima Malaguena Salerosa, a instigante e talvez a melhor do disco What Do You Want From Life, um tratado sobre os vícios em Boy Crazy e outro sucesso do grupo White Punks On Dope, a própria definição para a posição marginalizada do Tubes. Um trabalho atraente e que certamente logo recebe edição nacional já que The Tubes pretende fazer a Europa até o fim deste ano, para confirmar o sucesso americano e ampliando sua legião de fãs. (APRÍGIO LYRIO)

Apesar de tudo, os bons frutos (em disco; do recente musical competitivo da Rede Globo ABERTURA FESTIVAL DA NOVA MÚSICA BRASILEIRA (com vários músicos, álbum Som Livre, em Golias Discos) – Mesmo tendo conhecimento da opinião geral de que festival de música popular, em esquema de classificações e júris, transformouse em algo obsoleto ou então, alvo de severas críticas a Rede Globo de Televisão não hesitou em colocar no ar – fazendo parte das comemorações de dez anos de existência – mais um musical deste gênero, depois de um intervalo de três anos desde seu finado Festival Internacional da Canção. E apesar de vir acompanhado do pretensioníssimo nome Abertura – Festival da Nova Música Brasileira o que foi visto e/ou ouvido no vídeo, pelos interessados, contraria totalmente as intenções iniciais. O que era de se esperar.

Dois exemplos de rock (pesado) para o público viciado no gênero (part.2) FLY MY HEART (com o grupo Rush, álbum Mercury/ Phonogram, à venda breve) – Num período ilegível certo – separados por três meses – chega agora no Brasil o segundo álbum do grupo canadense Rush, um pouco estranhamente já que o público, no geral, não tem muito conhecimento do seu trabalho [ilegível] do grupo não são alvo de [ilegível] por parte da imprensa especializada. Depende do estado de espírito ou experiência, do ouvido


Melodia: eficiente elegância.

E em menos de um mês do acontecimento, a Som Livre (gravadora que além de alguns lançamentos internacionais, preocupa-se em colocar no mercado as bem sucedidas trilhas sonoras das novelas da TV Globo) já editou o disco das finalistas do festival, diga-se, incompleto já que num longplaying não existe espaço suficiente, sem causar danos, para 16 faixas, total das canções classificadas (os compositores que permanecem inéditos – quem sabe, algum dia será lançado um compacto complementar – são Hermeto Paschoal com a sua prafernálica Porco na Festa, o samba do autor paulista Geraldo Firme de Souza e interpretado por Clementina de Jesus A Morte de Chico Preto, a canção do estreante José Márcio Dança Espanhola Sobre a Cabeça e a provocante Trabalhadores do Metrô de José Barreto e Walter Marcos). Do “saldo” geral não se pode dizer que o resultado, em disco, seja desagradável. Na primeira face do LP estão as músicas Tamanco Malandrinho da dupla baiana Tom e Dito, responsável por alguns sucessos fáceis como a apresentada: a canção que viria a ser a vencedora Como um Ladrão do compositor Carlos Vergueiro, com excelente letra e “esfriada” pela interpretação pouco entusiasmada do autor (que teve seu primeiro disco lançado no ano passado, Brecha). Vou Danado

Prá Catende de Alceu Valença e interpretada pelo autor mais o grupo Ave Sangria (também um dos melhores momentos do disco, que sofreu corte em relação à apresentação ao vivo quando o músico recitava trechos do poema “Trem de Ferro” do escritor nordestino Ascenso Ferreira). Sobre Alceu Valença, depois de ter gravado um LP em 71, esteve algum tempo parado e voltou no ano passado com um novo trabalho em disco Molhado de Suor, inexplicavelmente inédito em Vitória e fez também trilha sonora do filme A Noite do Espantalho de Sérgio Ricardo. Ainda incluídas, as composições Antes que eu Volte a Ser Nada da sambista Leci Brandão (que não apresenta nada de novo) no momento com seu primeiro disco a ser lançado pela Discos Marcus Pereira: a cansativa e pedante composição de Ednardo, ex-integrante do grupo Pessoal do Ceará, Vaila e o frevo BemTe-Vi de Jorge Mautner, despretensioso e bastante agradável. Das faixas restantes, os melhores momentos ficam com as composições Ébano de Luis Melodia, conhecido do público pelo seu primeiro disco, gravado em 73 e pela gravação de Gal Costa de sua Pérola Negra: em Ébano, Melodia continua a fazer letras com a mesma temática usada anteriormente, essencialmente urbana, com linha melódica atraente e o seu samba-blues foi um dos melhores momentos do festival: o chorinho O Princípio do

Prazer de um dos mais férteis compositores brasileiros, o carioca Jards Macalé que a exemplo do ocorrido no FIC em 69 quando apresentou Gothan City foi impedido de cantar sua agressiva música por apupos desairosos por parte do público ansioso com Walter Franco, um dos mais “difíceis” compositores brasileiros que teve sua Muito Tudo impedida (pelo público), um trabalho interessante mas calcado em sua música de sucesso (em gravação de Chico Buarque de Hollanda) Me Deixe Mudo e interpretada nos mesmos moldes. A composição tipicamente country da dupla Burnier e Cartier Ficaram Nús consegue afirmar-se pela brilhante interpretação dos dois músicos paulistas (que estão com o primeiro disco já lançado): Fato Consumado premiada em segundo lugar e de autoria do alagoano Djavan Caetano Viana, cantor de boate e praticamente inédito em gravações é um samba facilmente assimilável e O Tempo de Reginaldo Bessa tem letra romântica e bastante antiquada. A maior parte das canções gravadas são prejudicadas pelos arranjos com orquestrações pesadas e povoadas de violinos inexpressivos, com exceção daquelas cuidadas pelos próprios autores e só duas músicas tiveram gravações ao vivo: a toada agreste (não só intencional) de Alceu Valença e o choro, de Macalé bastante coerente com o espírito do acontecimento. (APRÍGIO LYRIO)

ou mesmo dependendo do mood de cada um, apesar de todos os esquemas conhecidos do grupo só fluir seu rock pesado o Rush pode ser tolerado com algum ilegível sem chegar a constituir um material completamente desagradável. E nada melhor para definir o som do grupo, que teve seu álbum de estreia lançado no mercado internacional no final do ano passado com o nome também Rush como o próprio nome usado pelos músicos Geddy Lee (líder, baixista e vocalista), Alex Lifeson (guitarras) e Neil Peart (bateria) que reuniu-os como conjunto: um movimento violento, sem muita preparação. Só que a direção usada pelo Rush tanto no disco de estreia como neste Fly By The Night não conduz ou pertence a nenhuma posição extremista. Muito pelo contrário, apesar de conseguir algum destaque nos bons arranjos, instrumentação eficiente, assim como os recursos de gravação usados e mixagem o grupo peca, principalmente, por um conhecimento prévio do

seu estilo, por todos os apreciadores do rock de alta voltagem. E assim como vários outros grupos surgidos depois de grande febre no final dos anos 60, a fonte básica de inspiração do semi-novato Rush está no tipo de som pesado desenvolvido pelo famosíssimo grupo inglês Led Zeppelin, e (fazendo uso de um recurso bastante citado antigamente) o Rush ainda adverte que – o disco é para ser ouvido em volume máximo, para o desespero de alguns e deleite de outros. Sendo que do som feito, para os dançantes infatigáveis, pode até ser um privilégio desenvolver sua variável arte sob auspícios do Rush, que pretende ser sério e, como nos seus primórdios, denunciar em suas letras algumas “incompatibilidades” de comportamento da juventude em relação às outras gerações, sem conseguir esconder um certo estado pueril em suas músicas e principalmente nos textos que acompanham estas (ao estilo falar-por-falar da famosa Soul Quatro) e inclusive fazendo uso de alguns artifícios muito em voga hoje em dia.

Mas o Rush pretende ser purista em suas manifestações e não excede para os modernismos que assolam o rock atual com instrumentos sintetizadores ou algo semelhante, faz rock na antiga formação, guitarra-baixo-bateria, sem muitos exageros a não ser pela amplificação dos instrumentos e vocalizações multiplicadas o que não compromete em nada, mesmo que o baterista inicial do grupo, John Rutsey tenha sido substituído nesse novo álbum pelo também eficiente e forte Neil Peart. Das oito faixas apresentadas, pouco poderia ser comentado já que todas guardam o mesmo espírito. Predominam os rocks pesados com raros momentos acústicos sendo que a voz de Geddy Lee, em seus falsetes, parece um pouco forçada, inclusive nas tentativas de lembrar Robert Plant com seus soberbos momentos à frente do Zeppelin. Mas o trabalho é considerável e pode ser ouvido descompromissadamente, como divertimento nem tão sadio assim. (A.L.)


Para os menos desavisados, O senso crítico de Frank Zappa continua funcionando. Com cuidado: um disco de frescor e inegável eficiência. Michael Jackson relançado com outro nome ONE DAY IN YOUR LIFE (com Michael Jackson, álbum Motown/Top Tape) – Bastante consumidos e consolidados como ídolos da juventude despretensiosa, desinformada e desinteressada e apesar de, só no Brasil, a média em vendagem dos discos gravados pelo conjunto vocal Jackson Five (num total de 16) é de mais de 50 mil cópias, o grupo já sofre, hoje, um amadurecido processo de desgaste em sua imagem mesmo na ala mais comercial do rock, embora seus integrantes tenham mostrado, recentemente, maior preocupação com o aspecto musical e instrumental do seu trabalho. Mas certamente ainda aparecerão vários outros discos do conjunto, tão supérfluos como os anteriores, principalmente agora que a exemplo de Michael e Jermanie os outros irmãos resolvem gravar discos individuais – que em nada diferem dos originais do grupo porque todos os elementos participam e a festa, particular e/ou alheia é a mesma, sempre. O Jackson Five já tinha gravado dois compactos para a gravadora Dynamo, com sucesso em vendas, quando em 1969 foi visto pela cantora Diana Ross que encarregouse e apresentar o conjuntinho estreante composto por cinco “simpáticos” irmãos ao executivo da Motown Records e dois anos depois eram conhecidos em todos os lugares do mundo. E filhos do cantor e instrumentista Joe Robinson que algum dia fez parte do conjunto Falcons, o Five transformou-se em fenômeno, principalmente pela comunicação fácil com o público. Mas a vedeta do grupo é Michael, até pouco tempo the main atraction por ser o mais jovem e o vacalista líder, que já tem três discos individuais lançados (Go To Be There, Ben e Music and Me) e o número foi aumentado agora com este esquisito One Day In Your Life. O que poderia ter acontecido com a Top Tape, que lançou o mesmo disco este ano e no mês de maio, sob o título Forever, Michael pela sua etiqueta Tapecar e agora repete a dose com um álbum mais “preparado”, com a original capa dupla e outras futilidades do gênero, já que o jovem Michael será simplesmente ouvido por alguns pares escurecidos pelas luzes difusas de alguma discoteque? E em meio à toda confusão que havia, das dez faixas do disco só se pode dizer o mesmo. Como convém ao gênero explorado pelo cantor, todas as canções são românticas e bem gravadas com arranjos que pretendem ser enérgicos e inflamantes mas o repertório usado não ajuda, passando por canções completamente ridículas, como a besteira romântica intitulada Cinderella Stay Awhile ou então Dear Michael que fala, em seus versos, sobre uma carta recebido pelo cantor, de uma fã. Enquanto isso, o resto do material usado não passa de: fabricado para atingir o público admirador do Jackson Five, em todo o mundo, diferentes entre si pela situação geográfica mas muito parecidos em se tratando de sensibilidade e desinformação. E diga-se dois discos iguais de Michael Jackson, lançados com títulos diferentes, já chega perto do desrespeito e abuso. (APRÍGIO LYRIO)

Zappa: “Um tamanho serve para todos”

ONE SIZE FITS ALL (com Frank Zappa e The Mothers of Invention, álbum 304 404 044 Reprise/Continental, em Golias Discos) – Ainda as coisas de um dos mais famosos (e veteranos) contestadores sociais eletrônicos. E depois de dez anos de carreira, devidamente comemorados este ano, além de sólido músico e inventivo, como uma espécie de comentarista do ambiente, caricaturista da sociedade e satírico impiedoso, o guitarrista americano Frank Zappa prossegue no seu trabalho e ao mesmo tempo em que lançou este One Size Fits All, no primeiro semestre deste ano – e para os mais interessados, o sétimo disco do músico lançado no Brasil – já está com o seu mitológico grupo Mothers of Invention com nova formação e duas séries de concertos nos Estados Unidos. Para tal, Zappa anuncia em texto explicativo encontrado na contra capa do álbum que “se pronuncia pronto para voltar para a estrada”.

Depois de uma fase em que esteve envolvido com um processo contra o Royal Albert Hall, um dos teatros mais elegantes de Londres, que o proibiu de fazer apresentações, acusando-o de mau gosto e obscenidade e o resultado foi o cancelamento dos espetáculos, Zappa anunciou em entrevista: “O lançamento do disco foi adiado devido a alguns problemas contratuais. E o trabalho, tem algumas músicas do tipo daquelas com história mas é bastante orientado no sentido do rock’n’roll. Poderia mesmo servir para dançar. E para o lançamento, tive que me encarregar de tudo. Se a gente deixa isso para alguém da gravadora, se dana todo. Eles não têm consideração por seu trabalho, não têm conceito do que a música seja e nenhuma razão para promover mais o seu trabalho que o de outro qualquer. Gastei muito tempo nesse álbum. Estive no estúdio por quatro meses. 10 a 14 horas por dia e, por Deus, eu quero que as pessoas ouçam a coisa. Fui


na Warner e toquei a fita para o presidente da companhia e dois ou três executivos, e os observei enquanto ouviam, então eu sei que eles ouviram pelo menos um dos meus álbuns”. E o resultado não poderia estar melhor, apesar de, para uma certa camada de cobradores, o material One Size Fits All não se constituir em novidade para o público acostumado com o espírito sempre “alarmante” de Frank Zappa. Logo depois de ter integrado uma banda de colégio, no fim dos anos 50, Zappa conheceu Paul Bull, responsável pela construção, na Califórnia, de um sofisticado (para a época) estúdio de som. Enquanto as mais avançadas máquinas limitavam-se a duas pistas, Bull conseguia fazer gravações usando cinco canais. E, ainda em 1966, com formação do Mother of Invention (nome que Zappa sempre usou para seu grupo, mesmo que este mude constantemente de integrantes), o impacto e a espontaneidade, com Zappa pavimentando o caminho para a maioria das “progressividades” no rock dando também a impetuosidade necessária para um desenvolvimento mais apurado dos grupos envolvidos com rock’n’roll. Quando o Mothers fez seu début com o álbum Freak Out e logo a seguir, com o Absolutely Free, o grupo pareceu tão contemporaneamente desenvolvido que simplesmente não poderia ser enquadrado ao lado de nenhum outro nas mesmas condições e passou a ser enquadrado ao lado de nenhum outro nas mesmas condições e passou a ser encarado como entidade separada dentro da música popular americana. E mundial. Mesmo antes dos Beatles terem construído um álbum como peça inteira (o Sgt. Pepper’s) Zappa já havia elaborado o Freak Out, ou mesmo esquema e fazendo uma mistura de rockrhythm’n’blues com ruídos eletrônicos. E em sua irreverência anárquica, não só em termos dos poemas que ilustravam suas intrincadas melodias, em performances no palco, a persistência chegou a antecipar as atuais (?) tendências do rock-anos-70 tipo David Bowie e outros: já em 1967, Zappa fazia com que seu grupo usasse maquilagem e surgisse em palco travestido, provocando um estridente contraste com as barbas dos músicos. Quando da primeira ruptura entre os Mothers, em 1969, Zappa passou a se preocupar em fazer concertos musicais – ou melhor, música de câmara eletrônica e recebeu severas críticas. Mas o músico reconstruiu seu grupo, mudando radicalmente seu trabalho: da sátira social encontrada nos primeiros trabalhos, aconteceu a mudança baseada em improvisações jazzísticas mas sempre mantendo aparência não convencional nas instrumentações, cada vez mais ricas e elaboradas, fazendo verdadeiros estudos sonoros. Ainda: Frank Zappa foi o primeiro músico pop a criar sua própria etiqueta, a Bizarre Records, foi o responsável pelo (real) lançamento de Alice Cooper e em 71 teve seu filme (o primeiro) 200 Motels lançado. E no momento, em grande atividade, Zappa anuncia seu terceiro filme, tentou formar um grupo de rock protótipo da degeneração e intitulado XS (excesa, ou excesso) e volta a fazer apresentações para público. De novo álbum, uma certa volta ao sarcasmo e as críticas sociais. Sugeriram ao músico – que no momento já está com um grupo completamente reestruturado e contando, inclusive, com a participação de Captain Beefheart – que o álbum venderia bem, até pelo título (“Um Tamanho Serve Para Todos”) que poderia criar associações com coisas tão diversas quanto certos anticoncepcionais de borracha ou chaves-inglesas ajustáveis. Mas Zappa, imediatamente, eliminou esta possibilidade: É um bom título quando você considera que a capa mostra o retrato de um sofá e a contra capa tem referência ao Universo, em geral. Eu acho que é apropriado”. E em relação às histórias que Zappa tem para contar ou mesmo música para dançar, estas surgem completamente atraentes: com um brilhante solo de George Kuke (neste álbum aparecendo

com maior destaque) a longa Inca Road está perfeita, assim como as severas (no mesmo tempo rebolativas) Can’t Afford No Shoes e Po-Jama People. Outra canção, intitulada San Ber’dino, surge completamente satisfatória dentro do seu espírito crítico: a faixa Andy é deliciosa (falando em Andy Warhol com uma só frase: “Se existir alguma coisa boa dentro de você eu quero saber”) e como grand-finale a canção Sofa Nº2 [cantada em] alemão, mesmo que a letra incluída no álbum venha em inglês. Para os admiradores da música de Zappa, um sofá completo ou para quem quiser, o Universo, nada além. APRÍGIO LYRIO

Para os interessados, um pouco da história das escolas de samba e seus enredos

Zappa: “Um tamanho serve para todos”

HISTÓRIAS DOS SAMBAS ENREDO com Os Caretas, álbum duplo 2488258/9 Polydor/Phonogram) – Um pouco de história, para aqueles que não se lembram das manifestações do gênero e que sempre acontecem anualmente, quando o carnaval chega e principalmente em 1975, quando os discos que mais vendem são aqueles que vêm com a marca samba, provocando até intérpretes que nunca estiveram envolvidos com o estilo musical a fazer seus disquinhos para que estes apareçam melhor, e isto também é história mas não a mais destacável, no caso. O samba de enredo, criação dos compositores das escolas de samba para cantar em versos a história escolhida como tema do desfile carnavalesco, surgiu de maneira rastejante no início da década de 30, mas só veio a adquirir, sua forma definitiva dez anos depois como contrapartida da progressiva estruturação das escolas sob a forma de óperas-balé ambulantes. Na verdade, durante os quinze primeiros anos de existência das escolas de samba – ou seja, de inícios de 1930 a meados da década de 40 – os grupos de foliões das camadas mais baixas do Rio de Janeiro (cidade onde o samba teria surgido com sua força

estilizada, talvez pela situação geográfica), que saiam em blocos no carnaval declarando orgulhosamente sua qualidade pedagógica de “escolas de samba”, não tinham grandes compromissos com os enredos que escolhiam para suas passeatas. E embora esses grupos se inspirassem de forma pioneira, na estrutura dos ranchos – cujas fantasias sempre ilustravam o tema escolhido para o desfile – inicialmente as escolas não tinham nem mesmo alegorias. A preocupação dos organizadores das primeiras escolas de samba não era desenvolver dramaticamente um tema, mas apenas conferir uma certa respeitabilidade aos seus blocos. De fato, como a maior parte dos integrantes das nascentes escolas de samba era constituída por pequenos profissionais e artesãos sem emprego fixo e pela massa flutuante de mão-deobra não especializada, o objetivo inicial das escolas era conferir um certo status aos seus componentes. O que levava muitos deles a desfilar de terno. Assim, não seria surpresa o fato das escassas informações sobre os primeiros anos das manifestações das escolas indicarem sempre a presença do elegante e bem falante Paulo da Portel em quase todas as iniciativas que resultaram na estruturação definitiva das escolas de samba. E foi Paulo, o primeiro a organizar um conjunto de sambistas para gravar suas composições (mais conhecido como Paulo e Sua Rapaziada) e depois, um outro conjunto para realizar temporadas artísticas em moldes profissionais (ao lado de Heitor dos Prazeres e Cartola). E a ele deveria, em 1935, a institucionalização das alegorias nos desfiles e talvez, até a introdução do próprio samba de enredo propriamente dito. Paulo da Portela, aliás, seria dos primeiros a baterse, em 1945, pela obrigatoriedade do uso de fantasias por todos os componentes da sua escola, a Portela, pois até então só os grupos de baianas contribuíam com uma característica capaz de diferenciar as escolas dos blocos durante o carnaval. Outro fato importante para o reconhecimento oficial das escolas de samba foi o poema musical descritivo exaltando um certo espírito patriótico, a pedido de Getúlio Vargas com sua propaganda patriótica, durante seu governo. E assim, a partir de 1935 todas as escolas foram solicitadas a estimular com seus temas as glórias nacionais. E não foi por coincidência que a primeira composição de escola a ganhar a popularidade em disco chama-se Natureza Bela do Meu Brasil, composto por Henrique Mesquita para a Escola de Samba Unidos da Tijuca. E depois, os temas ganhariam grande sofisticação sendo que até Os Lusíadas, de Camões, ou a Ilíada, de Homero viraram temas para as escolas. De maneira geral, no entanto, o estilo mais comum de samba de enredo – chamado a partir dos anos 50, simplesmente, de samba-enredo ia ser até os anos 60, o dos longos poemas descritivos, revestidos de melodia ampla e solene e apoiados naquele ritmo de marcação mais segura constituindo uma das características de percussão das escolas desde o início do movimento. Depois veio o samba-enredo feito diretamente para atingir o grande público com melodias simples e bem definidas, assim como a entrada de autores profissionais nas alas de compositores das escolas de samba. Neste História dos Sambas-Enredo, foram aproveitados temas desde 1932 até 1975 e apresentados pelo conjunto Os Caretas, que tem sido usado para fazer várias coletâneas com motivos brasileiros, pela sua gravadora, a Phonogram. E entre material de pouca importância, encontra-se: Graças Pardas (Zé da Zilda-Cartola), Homenagem (Carlos Cachaça), Guanabara (Paulo da Portela), Tiradentes (Mano Décio da Viola-PenteadoEstanilau Silva), Brasil, Pantheon de Glória (Candela-Waldir 59), Quilombo dos Palmares (Noel Rosa de Oliveira-Nascarzinho) e os temas mais recentes como Memórias de Um Sargento de Milícias (Martinho da Vila). O Mundo Encantado de Monteiro Lobo (Batista da Mangueira), O Mundo Melhor de Pixinguinha ( Jair Amorim-Evaldo Goveia-Velha). Para os apreciadores e colecionadores, material de grande interesse. (APRÍGIO LYRIO)


O floydiano Rock Alemão GERMAN ROCK SCENE VOLUME 3 (com vários intérpretes, álbum Brain/ Top Tape, da série Sábado Som Internacional) – Já que uma atenta audição de long playings de conjuntos de rock germânicos se torna bastante cansativa – principalmente pela incansável mania, ou vício, da grande maioria dos grupos alemães que apesar de, vindos desde fins da década de 60 desenvolvendo várias tendências musicais, não partiram, como o rock inglês, do tipo de música jovem feita pelos americanos, mas do próprio som inglês floydiano que, na época, refletia o já desmistificado movimento Frank Zappa: ainda o mesmo flower-power que teve origem principalmente em São Francisco – a gravadora Top Tape, continuando com sua coletânea German Rock Scene, já colocou no mercado o terceiro volume da série. São apresentados momentos dos grupos Neu, Harmonia, Guru Guru, Cluster, e Yatha Sidhra e todas as faixas mostradas refletem trabalhos dos grupos, preocupados sob o aspecto instrumental. O primeiro lado do álbum mostra dez minutos de rock experimental do grupo Neu, a faixa Hallogallo retirada do LP Neu 1. O grupo é liderado pelos tecladistas Michael Rother e Klaus Dinger, ambos músicos eficientes mas o trabalho apresentado é bastante cansativo e pouco inspirado. Assim como a longa Der Elektrolurch retirada do LP Guru Guru do grupo de mesmo nome que não apresenta nada de novo, nem mesmo as intervenções vocais de Bruno Schabb cortando os malabarismos dos instrumentos. O álbum Guru Guru não foi economizado e foi editado no Brasil este ano em forma integral. E este cansativo Rock Scene e talvez o pior álbum da coletânea ainda tem faixas do LP Harmonic que junta o “talento” do Neu Michael Rother com dois músicos do grupo Cluster um resumo do LP Cluster II apresentando a faixa I’m Sudden (também com longa e cansativa faixa instrumental. A rigidez quase mórbida do álbum é cortada na última faixa, uma pequena mostra do Meditation Mass do grupo Yatha Sidha (anteriormente atuava com o nome Brontossaurus) o momento delicado e agradável do disco. Nada Além. (APRÍGIO LYRIO)

Com quase dois anos de atraso, o último disco do mais revolucionário músico popular americano APOSTROPHE’ (com Frank Zappa e vários músicos, álbum Reprise/ Continental, em Golias Discos) - Durante os anos 70 o trabalho de Frank Zappa parece não ter conseguido o impacto e espontaneidade que eram evidentes quando nos tempos do Mothers of Invention, que abriram quase que violentamente nossas consciências, ainda em 1966, apesar de Zappa ter “pavimentado” o caminho para a maioria das progressividades no rock dando também a impetuosidade necessária para um desenvolvimento mais apurado dos conjuntos de rock. Quando o Mothers fez seu début com o álbum Freak Out e logo a seguir com o Absolutely Free, o grupo pareceu tão contemporaneamente desenvolvido que simplesmente não poderia ser enquadrado ao lado de nenhum outro nas mesmas condições e passou a ser encarado como uma entidade separada dentro da música americana (e mundial). Mesmo antes dos Beatles, jogando com elementos populares, ter construído um álbum como peça inteira (Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band) Zappa já havia elaborado desde o Freak Out uma mistura de rock-rhythm’n’blues com ruídos eletrônicos e, principalmente, fazendo uso de recursos da música contemporânea de Edgar Varese e Anton von Webern. E em suas irreverência quase anárquica, não só em termos de música como nos poemas que ilustravam essas, e em perfomances no palco, a persistência acabou por antecipar as atuais (?) tendências do rock nostálgico e lamê, de Alice Cooper e David Bowie, para não citar outros: já em 1967, Zappa fazia com que seu grupo usasse maquilagem e aparecesse vestido de mulher, provocando um estridente contraste com as barbas dos músicos. Sem esquecer sua posição de contestador mais radical que Bob Dylan, quando fez distribuir um pôster onde aparecia placidamente sentado numa privada enquanto gravava material feroz e quase pornográfico contra a classe média americana. E apesar de todas essas criações, o pai da invenção Frank Zappa, 35 anos, americano de Baltimore e descendente de gregos e italianos, continua a ser um quase desconhecido ilustre no Brasil e este Apostrophe’ em dez anos de carreira ativa é simplesmente o sexto álbum de Zappa editado no Brasil. Logo depois de ter integrado uma banda de colégio, no fim dos anos 50, Zappa

“um álbum de canções e histórias para o seu maior prazer durante o jantar ou alguma sessão dançante com FZ e alguns dos seus amigos com os quais gosta de gravar”

conheceu o feiticeiro eletrônico Paul Buff (que curiosamente era um ex-funcionário de uma companhia de mísseis) responsável pela construção, na Califórnia, de um aperfeiçoadíssimo estúdio de som. Enquanto as mais avançadas das máquinas, na época, limitavam-se a duas pistas, Buff conseguia fazer gravações usando cinco canais. Quando da primeira ruptura entre os Mothers, em 1969, Zappa passou a se preocupar em fazer concertos musicais - ou melhor, música de câmara eletrônica e recebeu severas críticas. Mas Zappa reconstruiu seu Mothers, sempre mutante em sua formação desde a oficial quebra de 69, mudando radicalmente seu trabalho: da sátira social encontrada nos primeiros trabalhos, aconteceu a mudança baseada em improvisações jazzísticas, mas sempre mantendo aparência não convencional nas instrumentações, cada vez mais ricas e elaboradas, fazendo verdadeiros estudos sonoros. E Zappa ainda foi o primeiro músico pop a criar sua própria etiqueta, a Bizarre, foi o lançador oficial de Alice Cooper e em 71 teve o seu filme 200 Motéis lançado, um dos primeiros trabalhos em condições quase comerciais feito em Vídeo-Tape e depois ampliado para os 35 milímetros normais de todos os filmes. E deste Apostrophe’, não acrescenta nada para o trabalho de Zappa, ainda envolvido com “as coisas de contestador social eletrônico”. Embora sua música ainda consiga ser estonteante por suas inovações instrumentais o álbum em questão é povoado por suas nada acessíveis letras, desta vez, como quer o próprio músico “um álbum de canções e histórias para o seu maior prazer durante o jantar ou alguma sessão dançante com FZ e alguns dos seus amigos com os quais gosta de gravar” (entre eles Jim Gordon e Aynsley Dunbar, Tom Flower, Erroneous, Sugar Cane Harris, Jean Luc Ponty, Ian e Ruth Underwood, Sal Marquez, Bruce Fowler e Zappa como líder vocal e guitarrista). Mas o deleite é pouco, nos 30 minutos do disco que contam a história de um jovem que sonha em ser esquimó, e daí várias atribulações acontecem em sua vida. Zappa continua o mesmo satírico de sempre, mas um pouco cansativo em suas proposições e o disco é praticamente salvo pela única faixa não cantada, o instrumental Apostrophe’, que conta com a participação influente do célebre baixista Jack Bruce e do guitarrista Tony Duran, no heavy rock. Mas Frank Zappa continua bastante chic em suas experiências musicais, neste LP, originalmente gravado em 73 e só agora lançado no Brasil. (APRÍGIO LYRIO)


Um pouco “old-fashioned” mas sem problemas PINBALL (com Brian Protheroe, álbum Chrysalis/ Phonogram, à venda breve) - Considerado como a grande revelação do ano passado na Inglaterra, o cantor/compositor Brian Protheroe tem o seu primeiro disco editado no Brasil e certamente uma agradável surpresa. Embora usando alguns elementos que há três anos atrás poderiam causar alguma admiração, como diz em um dos seus poemas “minha música não passa de exótica porém comum, tropical mas fria”. E usando citações conhecidas que passam por Marilyn Monroe, Mao Tsé Tung, Andy Warhol, coca-cola, Jean-Luc Godard, Picasso, luz de neon, Soho, Malibu, Mickey Mouse e outros. Protheroe – com um bom grupo de suporte e com arranjos, de cordas e sopros, eficientes feitos por Del Newman que também é o produtor do disco – a exemplo de David Bowie e Frank Zappa, mostra que é um fã do sarcasmo, embora no seu caso suas imagens já estejam um pouco diluídas pelo uso constante em várias manifestações artísticas. Mas ele usa sua roupa muito bem, um pouco old-fashioned mas sem maiores problemas. Quando começa a primeira faixa do disco, parece que vai se ouvir a um cantor baladista comportado e bem cuidado mas esta imagem desaparece na continuidade. Existem até momentos quase geniais: as faixas Pinball certamente com a letra mais coerente, o Goodbye Surprise e Clog Dancer sem falar na delícia nostálgica The Moon Over Malibu (título retirado de peça de Noel Coward), tudo indicando que Brian Protheroe com sua música bastante chegada ao glamour é uma pessoa bastante entendida. O único deleito deste Pinball é a grande quantidade (ao todo 13) de músicas usadas – certamente o álbum ficaria melhor com um aproveitamento mais elaborado (instrumentalmente) e mais longo de algumas canções. Mas é um disco que não pode ser olhado sob um prisma único em termos de estilo, chegado levemente ao glamour simples e alegre, sem grandes compromissos, onde os méritos estão nos arranjos, no balanço atraente, na base instrumental – como solos e intervenções perfeitas – e nas vocalizações de Protheroe. A gravação e mixagem são excelentes e a edição brasileira respeita a original reproduzindo as interessantes letras do autor. (APRÍGIO LYRIO)

Certamente Marcel Proust morreria de vergonha

Peso: Pseudo-heróis

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (com o grupo Peso, álbum Polydor, à venda breve) – O recém fundado grupo de “rock brasileiro” Peso diz: “O público de rock no Brasil anda meio contrariado porque a maioria dos grupos afastou-se da realidade popular. Para desmistificar o rock brasileiro, fizemos o nosso primeiro disco com músicas bem marcadas, como uma forma de expressão e não manifestação do rock’n’roll, o Peso faz sua festa particular, naturalmente com a preocupação básica de agradar os mais puristas amantes do gênero por eles escolhidos. Formado pelos músicos Luiz Carlos Porto (vocal), Gabriel O’Meara (guitarra) que conta como sendo um dos seus mais gratificantes momentos musicais ter acompanhado Chuck Berry e Little Richard. Constant Papineu (teclados), Carlinhos Scart (baixo) e Carlos Graça (bateria) e, na gravação, contando com alguns convidados o Peso não passa de mais um conjunto brasileiro de pseudo-heróis envolvidos com rock, já que em termos totais não existe a menor possibilidade de se fazer rock num país que

não dá a menor possibilidade, técnica e cultural, para que se encare o movimento com algum espírito de seriedade. E das tentativas de recriar o despretensioso espírito do rock dos anos 50, que só falavam em amor e revolução na escola, etc., que mais tarde ficaria conhecido como o movimento dos “rebeldes com causa”, quase nada pode ser aproveitado do material usado nesta Em Busca do Tempo Perdido (que só encontrará alguma coerência no futuro) todo composto por Gabriel O’Meara (música) e Luis Carlos Porto (letras), que não consegue apresentar nada de agradável e nas intensas pesquisas para fazer música simples e despretensiosa estas são irritantemente cansativas. O peso peca, principalmente, pela semi-amadorística participação instrumental dos seus integrantes e para aqueles que tiveram a oportunidade de ouvir a primeira gravação do grupo no disco Hollywood Rock (série de concertos de rock realizados no Rio reunindo vários adeptos do gênero) a canção que recebeu registro naquela coletânea, Cabeça Feita dos duvidosos Tibério Gaspar e Guilherme Lamounier, também foi bisada no disco de estreia do grupo que não afasta, em nenhum instante, os pecados cometidos na apresentação ao vivo, nesta transposição para estudo. Enquanto isso a voz de Rod Stewart (quase impossível de se imaginar, quanto mais conceber de forma incansável faz as dez faixas do álbum. E o grupo comete mais um pecado: numa das faixas, intitulada Blues dedica o trabalho ao mestre B. B. King. É claro que os grupos novos de música jovem não devem ser desprezados pelas gravadoras já que de vez em quando aparece um talento coerente com a cultura nacional, como Alceu Valença e o famoso Raul Seixas. E vivem os ouros dos tolos, as vovós que já diziam, as sociedades alternativas, os alcapones, e as moscas nas sopas. (A.L.)

A volta, em grande estilo, de um dos mais famosos músicos ingleses ligado ao rock Ginger Baker (ex-Cream) e os irmãos Gurvitz THE BAKER-GURVITZ ARMY (com o grupo The Baker-Gurvitz Army, álbum Vertigo/ Phonogram, à venda breve) – Primeiro foi um período de reclusão que se expandiu por dois anos, resultado do desastroso envolvimento com uma banda intitulada Salt que acabou logo em sua primeira turnê americana, antes que o trabalho pudesse chegar a estúdio para registro e uma ida para a Nigéria – como divertimento – que veio por fazer de Peter “Ginger” Baker, um homem de negócios, envolvido com um estúdio de gravações. Onde teve problemas com outros diretores, estruturação e financiamento, mas que não pretende abandonar, mesmo agora depois da volta e em plena atividade como músico e deseja,

inclusive, dar maior incentivo ao seu estúdio: depois de trabalhar na Inglaterra com 24 canais considerou o seu estúdio com apenas 16 completamente obsoleto e tenta modificá-la, pensando mesmo em atrair bandas americanas para a África e colocar a Nigéria no mercado mundial de discos, porque conseguiu, depois de tudo,apaixonar-se pelo país e diz: “eu adoro o jeito com que eles fazem as coisas,e amo as pessoas”. Mas Ginger Baker durante este tempo não esteve completamente parado, nem relegou seu instrumento a segundo plano: fez até algumas gravações com músicos africanos, de pouca receptividade. Mas do principal envolvimento do célebre músico, depois de passagens pelos grupos Graham Bond


Para apreciadores, dois exemplos do que ficou conhecido como “O Som da Filadélfia”

Ginger Baker (ex-Cream) e os irmãos Gurvitz

Organization, o famosíssimo Cream (ao lado de Eric Clapton e Jack Bruce) e o Blind Faith (também supergrupo, de duração meteórica com Clapton e Steve Winwood) até os desapontamentos com Ginger Baker airforce e o desastre com o Salt, nada poderia ser mais gratificante para Ginger Baker do que a realização do Baker-Gurvitz Army: “eu tinha decidido não excursionar mais e, naturalmente, depois de tocar com Eric Clapton pensei que nunca poderia encontrar um outro guitarrista [ilegível], à altura”. E toda a energia de Baker está de volta neste seu encontro com os irmãos Gurvitz – inclusive a ligação foi tão satisfatória para os próprios músicos da banda que só com seis meses de entrosamento já partiram “para a estrada”, e até no ambiente frio e distante do Olympia de Paris o sucesso foi estrondoso. Tudo teria sido iniciado em uma das raras visitas de Baker a Londres quando viu o guitarrista Adrian Gurvitz (que já havia tocado com Buddy Miles) e achou que valeria a pena um encontro. Adrian com seu irmão Paul Gurvitz, anteriormente haviam formado um conjunto com o nome Curtis Brothers (falso) e a base do grupo estaria formada com a entrada em cena do tecladista John Mitchell, músico apreciado pelo baterista há longo tempo. As primeiras reuniões foram completamente satisfatórias, a ponto de Ginger Baker não hesitar em produzir rapidamente um trabalho sério. Indo para o estúdio do conjunto The Who, o Ramport, em Battersea e gravando em regime de completo segredo durante o último verão londrino o encontro entre os músicos foi imediato e em oito dias as bases já estavam prontas, sem qualquer ensaio – claro que depois foram feitos o trabalho de mixagem e complementação de cordas em algumas faixas, de responsabilidade de Martyn Ford e John Bell – e o álbum foi calorosamente recebido quando do seu lançamento no início deste ano na Inglaterra. Composto quase que exclusivamente com material produzido pelo guitarrista Garvitz, as oito faixas do disco (sendo que quatro delas foram feitas em parceria com Baker) revela um compositor eficientíssimo e um guitarrista excelente, enquanto o dinamismo de Ginger Baker em seus instrumentos de percussão está mais excitante que nunca; assim como Paul Gurvitz no baixo e vocalizações, esta tarefa dividida entre os três músicos; é a participação de John “Norman B. Normal” Mitchell em teclados diversos é cuidadosa e contribui para a força, em rock e blues, da Baker-Gurvitz Army. E no clima festivo apresentando rock’n’roll vital e completamente eletrizante os músicos ainda encontraram tempo (e espaço) para incluir uma faixa com sentido semi-explicativo (principalmente para Ginger Baker) e I Wanna Live Again. O blues 4 Phil (instrumental) também é uma das faixas mais consideráveis do disco, se é que seria possível selecionar entre material tão fértil, assim como a instigante Mad Jack. Um disco indispensável e em seu todo, perfeito. (APRÍGIO LYRIO)

O’Jays, em disco individual e Harold Melvin e grupo: para o “soul ilegível”

SURVIVAL (com o grupo O’JAYS, álbum EPIC/CBS) – Em um longínquo 1967, os produtores - e também compositores - Kenny Gamble e Leon Huff criavam as bases para sua Philadelphia Internacional Sound, dedicada exclusivamente à música de artistas negros, mas a real explosão só aconteceu em 1973, nos Estados Unidos, quando outras gravadoras já estavam preocupadas em registrar as novas manifestações musicais negras, já há alguns anos fazendo o que hoje está mais que conhecido como soul music - na maior parte, uma união sem muito carinho e criação de dois dos maiores gêneros musicais americanos de todos os tempos, o blues e o jazz (em se tratando de rótulos, para um melhor e imediato reconhecimento) - e que, inclusive, já tem até representante, como o reggae: o balanço do soul e sua despretensão harmônica e romântica com alguns condimentos jamaicanos. E o som ou a música saída da Philadelphia International Sound, o Philly Sound se espalhou pelo mundo sendo uma das maiores forças musicais do mundo, em termos de execução e vendas, e serviu também para estabelecer uma fronteira de ideias musicais de futuro promissor, beneficiando assim os seus artistas contratados, com enorme campanha publicitária, aliada ao “talento musical” de todos e principalmente servindo como veículo para maior divulgação das composições da dupla produtora Gamble-Huff, o que lembra o “Rei” do soul Barry White, com início musical idêntico. E deste Survival, com o conjunto vocal O’JAYS e o primeiro álbum do grupo no Brasil (sem falar nos incontáveis compactos, assíduos em programas de rádio e algumas discoteques - sendo que as canções de maior sucesso do grupo estão incluídas no disco), das oito faixas, somente duas não são de autoria dos produtores, todas satisfatórias em seus propósitos (sem comentários), principalmente pelos arranjos de Bobby Martin, todos apurados e bastante ritmados - para aqueles que precisam de motivações - e fator inegável em se tratando de música internacional. O mesmo pode ser dito em relação ao desenho de capa, bastante psicodélico e old fashioned ou mesmo em se falando da foto do trio O’JAYS do tipo cartão postal. E entre as faixas, as conhecidas Survival, Give the People What They Want e a balada romântica How Time Flies. Para os interessados, o disco de estreia do grupo vocal já pode ser encontrado nas lojas.

soul music - na maior parte, uma união sem muito carinho e criação de dois dos maiores gêneros musicais americanos de todos os tempos, o blues e o jazz


TSOP/THE SOUND OF PHILADELPHIA (com vários intérpretes, álbum Epic/CBS) - E da empresa em que se transformou a música soul, através da Philadelphia Internacional Sound, na série de lançamentos brasileiros do gênero, existem também edições do tipo coletânea, feitas especialmente para

A mais recente tentativa de uma sambista veterana NOS BRAÇOS DO SAMBA (com Elza Soares, álbum LPX. 34 Tapecar, em Messias Discos) - Depois de várias fases em sua carreira e/ou vida, a cantora Elza Soares continua fiel a seus (antigos) propósitos: ser considerada como uma intérprete do mais popular gênero musical brasileiro, o samba. E apesar de não ser uma artista muito preocupada em melhor escolha de repertório ou de melhor domínio ou apuro vocal, Elza conserva a qualidade necessária para seus intentos, a simplicidade ou pureza de estilo, tão escassos hoje em dia. E apesar de tudo (novamente) Elza Soares consegue convencer como sambista, diga-se, com algum feeling e longe das interpretações frias tipo Maria Creuza, Clara Nunes, etc. Mesmo que esteja mais contida em seus arroubos vocais neste seu mais recente álbum de sambas cariocas. Tendo começado há uns vinte anos e cantando em gafieiras, em 1959 foi descoberta por um público mais selecionado, no Texa’s Bar, em Copacabana e iniciou sua fase de gravações, sendo destaque por sua maneira diferente de cantar, bem gutural e que depois chega a se transformar em manifestação irritante. Depois do seu álbum do ano passado, preocupado em mostrar os sambas-enredo para 1975, Elza fez um disco reunindo bons músicos

(do gênero) e boas composições (do gênero), mas só consegue ser mais um álbum de samba e o fato, certamente, acontece pela nova febre de discos de samba, e como a preocupação é que estes se espalhem por todo tipo de público o material sai rebuscado e falso. Neste novo Elza Soares, por exemplo, o arranjador das músicas, no caso o maestro Ed Lincoln - o pianista, baixista e organista cearense Eduardo Lincoln Barbosa Sabóia - resolveu agradar a todos com uma série de providências dignas do seu tempo de conjuntos de baile, primeiro ao lado de Djalma Ferreira e depois, com sua série infindável de discos “feitos para dançar”. Mesmo assim, Elza consegue sobreviver a todos os apelos, gravando material de alguns considerados compositores brasileiros dedicados ao samba, como Nelson Cavaquinho/Guilherme Brito, Noel Rosa de Oliveira, Romildo da Portela nas doze faixas deste Nos Braços do Samba. Mas chega a ser chocante ouvir enxurradas de violinos acompanhando Elza em momentos de partido alto ou um violão de bossa nova num sambão. Mas, para os interessados, o disco pode acontecer, mesmo que Elza Soares com toda sua vida dedicada à música, depois de vinte anos de carreira, não consiga ser sucesso de público, em termos de discos. Nada além. (APRÍGIO LYRIO)

A ciciante Claudete Soares em novo disco divulgar, em conjunto, os nomes menos importantes da lista de contratados intercalados àqueles já superstars e nada pode ser destacado pensando-se em estilo: já que os desejos são um só. As canções vêm com o mesmo espírito, diminutas diferenças em interpretações e arranjos mantendo as mesmas características. Neste TSOP/The Sound Of Philadelphia, podem ser encontrados: o MFSB ao lado dos vocais do Three Degrees, fazendo a faixa que dá o nome ao disco ou no tema Familly Affair, com a participação do tecladista Leo Huff (esta, anteriormente, sucesso com Sly and The Family Stone); o grupo vocal O’JAYS fazendo seus dois maiores sucessos, Survival e Give The People What They Want; os recém-vindos ao Brasil Harold Melvin and The Blue Notes (motivo para o lançamento na época de um álbum do grupo) com a faixa If You Don’t Know Me By Now. E, ainda, momentos com os menos conhecidos do público brasileiro, vocalista Bunny Sigler (canção That’s How Long I’ll Be Loving You); grupo City Limits (canção Love Is Everywhere); os já conhecidos Trammps, com sintomática Trammps Disco Theme e a futilidade Stop and Think: um certo destaque para o Soul Survivors, semi-poéticos na canção City of Brotherly Love: a tentativa de lançamentos, do vocalista Anthony White, na faixa Hey Baby, o mesmo ocorrendo com o grupo The Ebonys, com a canção Nation Time. E para os incautos, a lembrança de que a soul music está presente, para o que der e vier e, com o signo Philly Sound além dos produtores Kenny Gamble e Leon Huff, toda uma família de músicos, arranjadores e compositores, respeitáveis (somente) pela venda de mais de 10 mil singles em todo o mundo com a marca registrada, o balanço inconfundível, e a inegável força - em termos de aceitação - do soul e da família formada na Filadélfia. Nada além. (APRÍGIO LYRIO)

CORPO E ALMA (com Claudete Soares, álbum SMOFB 3874 EMI-Odeon) - Ao se falar em Claudete Colbert Soares, não se pode esquecer da menina que, em 1949, foi lançada como “Princesinha do Bolso” e devidamente apadrinhados pelos nomes mais famosos da música popular brasileira em termos de vocalista, assim como sucesso, em seus 17 anos, para as revistas da época, tipo: Revista do Rádio, Radiolândia e Cinelândia, está em sua coluna de música. E passando por boleros intérpretes de veredas românticas e sambas também românticos, a sussurrante Claudete foi encontrar, uma fase pós-Bossa Nova e um novo revigoramento dado à música popular brasileira na metade da década

passada, movimento motivado pelos festivais ou com os Finos da Bossa de Elis Regina, um novo alento para sua carreira e tal iniciativa continua lamentável, mesmo dez anos depois. Então, Claudete Soares decide-se a fazer um álbum intitulado Corpo e Alma (para os observadores mais preocupados, uma citação do clássico blues Body and Soul) mas o título não confere com a realidade mostrada, nas doze faixas do disco. Como sempre, a cantora lembra compositores importantes e comerciais (brasileiros) como Francis Hime/ Ruy Guerr, Jorge Ben, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Reginaldo Bossa (revelação do festival Abertura), Edu Lobo, Antonio Adolfo, Ivã Lins/Ronaldo Monteiro de Souza ou Johnny Alf, sem a menor consciência daquilo que está gravando: ela só sente; e transmite seus sentimentos muito mal. Por exemplo, sua recriação da antiga da Edu Lobo As Mesmas Histórias resulta em completo desastre e Beijo Sideral (dos irmãos Valle) deveria continuar no anonimato, como sempre esteve desde que foi gravada pelo agora congestionado Marcos Valle. Já a canção O Tempo, que lançou Reginaldo Bessa em Abertura, com seu conteúdo pastoso, vai muito bem na voz da cantora mas quando se ouve a última faixa deste esquisito Corpo e Alma, com arranjo do pianista Antonio Adolfo (recentemente perfeito, comandado instrumentações para o disco Meu Primeiro Amor, de Nara Leão), a canção Minha Serenata ( Johnny Alf ), o susto é inevitável: com trompetes a espanhola junto com a cantora fazendo versos românticos. Algo inconcebível. (A.L.)


Reedição de gravações do mais famoso conjunto vocal brasileiro

E esta moça insiste em dizer que é cantora LONG LIVE LOVE (com Olivia Newton-John, disco Odeon/EMI, à venda em Golias Discos) – a australiana Olivia Newton-John é um daqueles não raros exemplos de cantoras despreocupadas e insossas, representante direta da chamada easy music, apesar de tentar parecer séria em seus envolvimentos com o gênero country, e, radicada na Inglaterra, consegue ser sucesso lá e na América para um tipo de público não menos despreocupado. As origens de Miss John vêm de anos atrás, quando foi vencedora de um concurso nacional de calouros em sua terra natal, aos 15 anos. Olivia começou a “despontar” para o sucesso quando gravou ao lado do cantor Cliff Richards, participando em algumas faixas. Lançado no Brasil em dezembro último, este Long Live Love ainda está em tempo de ser presente para alguma tia romântica ou para alguns jovens lacrimejantes. Em sua apologia ao amor, e ilustrado pelo seu lindo rostinho de adolescente alegre e seus longos cabelos de moda), a cantora fez suas baladas que falam no amor eterno (daqueles só vistos em tele ou fotonovelas) em Lovin’ You Ain’t Easy, Have Love Will Travel, I Honestly Love You, Long Live Love, fala no diabo em Free The People e em Deus God Only Knows, todas ridiculamente soníferas e indigestas assim como o resto do material usado em Long Live... Consta, para total alegria dos complacentes, que Olivia Newton-John com sua voz murmurante, falsa e, consequentemente, desinteressante já fez disco novo gravado na Inglaterra com título First Impressions e como seus trabalhos anteriores, pessimamente recebido pela crítica e, na lista dos mais vendidos. É uma pena... (A.L.)

Ainda na década de 40, o conjunto vocal Os Cariocas já aparecia para o sucesso, cantando boleros e versões, depois de sua estreia na Rádio Nacional em 46. Organizado por Ismael Neto, a primeira formação do conjunto contava com os músicos Severino Filho (piano),Badeco (violão),mais Jorge e Emanuel (no ritmo). Já na década de 50, o conjunto passou a dar maior destaque aos temas brasileiros e com a morte de Ismael Neto em 56 (autor da até hoje obrigatória Valsa de Uma Cidade) o conjunto sofreu modificações em sua formação, com o ingresso de Hortênsia, irmã de Ismael (na época era moda uma presença feminina em conjuntos vocais) e a liderança passou para Severino Filho, responsável também pela maior sofisticação nos arranjos usados pelos Cariocas. Com a bossa nova, o conjunto revelou-se um dos seus maiores intérpretes e divulgadores, tendo gravado praticamente todas as canções de maior sucesso. E é desta fase que foi retirado o material usado para compor o disco Autógrafos de Sucesso (lançamento Phonogram) colocado na praça recentemente. O estilo alcançado por Severino Filho, Badeco e os então estreantes Luiz Roberto (baixo) e Quartera (bateria) foi bastante imitado, mas nenhum conjunto vocal brasileiro conseguiu igualar-se ao virtuosismo dos Cariocas em suas perfeitas e muito elaboradas vocalizações. Estão no oportuno relançamento, já que oito anos Os Cariocas não fazem gravações, suas interpretações de Garota de Ipanema, Só Danço Samba, Amor em Paz, Ela é Carioca (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), Samba de Avião e Vivo Sonhando (de Tom), Devagar com a Louça (Haroldo Barbosa e Luis Reis),Samba de Verão (Marcos e Paulo Sérgio Valle),Rio e Telefone (Menescal e Boscoli), Inútil Paisagem e Só Tinha de Ser com Você ( Jobim e Aloysio de Oliveira), Também Quem Mandou (Carlos Lyra e Vinícius) e Prá que Chorar (Baden Powell e Vinícius). Com suas faixas reprocessadas para som estereofônico, o disco torna-se indispensável para os amantes e colecionadores da música brasileira, e também para aqueles que não conheceram o trabalho dos Cariocas, até hoje atual. (APRÍGIO LYRIO)

A História das Escolas de Samba em quatro volumes, da Discos Marcus Pereira Continuando com o seu espírito (quase heroico) de, séria e apuradamente, reconstituir ou documentar fatos e/ou artistas menos privilegiados, para não dizer erroneamente esquecidos, da música popular brasileira a Discos Marcus Pereira – surgida em 1974 e uma das gravadoras brasileiras mais preocupadas com um trabalho tipicamente nacional e, quando se fala na Marcus Pereira é impossível deixar de citar o nome de J. C. Botetezelli produtor e diretor de estúdio competentíssimo e responsável, antes de sua fase nesta gravadora, pela produção do excelente disco de Nelson Cavaquinho gravado no ano passado na Odeon – colocou recentemente no mercado fazendo parte de seus lançamentos para 75 a coleção História das Escolas de Samba, dando destaque às quatro grande oficiais do Rio de Janeiro: Estação Primeira da Mangueira, a Acadêmicos do Salgueiro, o Império Serrano e a Portela, cada uma dela tendo recebido um disco especial que pode ser vendido separadamente e com farto histórico de suas atividades feito pelo cronista Sérgio Cabral. E do material usado, não houve a preocupação específica de só serem incluídos aqueles sambasenredo que foram para a avenida, mas também sambas de quadra, do terreiro os outros que de uma forma ou de outra estão ligados às escolas que começaram suas atividades, até hoje conservados para a alegria geral, em 1932 quando o jornal Mundo Esportivo, logo depois desaparecido, promoveu o primeiro desfile de escola de samba da “história” realizado na velha Praça Onze no qual se apresentava pela primeira vez de maneira organizada a “música dos malandros” (como era conhecida na época) para a classe média.. E a primeira escola de samba vencedora foi a tradicionalíssima Mangueira. Em 1933 o jornal


Não só para os colecionadores: um disco apresentando a arte de Jacob do Bandolim AO MESTRE JACOB DO BANDOLIM COM SAUDADE (com Jacob do Bandolim, álbum RCA Camden, em Golias Discos) – Um dos mais técnicos e mais sensíveis músicos brasileiros de todos os tempos Jacob “do Bandolim” Bittencourt sempre disse que não gostava que o chorinho admitisse a galas e as luzes dos palcos e que o choro requer a placidez das tardes dos subúrbios, sombras de árvores no quintal, uma roda de cadeiras no chão de terra e músicos de pijamas e chinelos tocando sem compromisso, nas pasmaceira dos domingos. Só que o espírito descompromissado do gênero choro transformou-se num dos mais importantes na música popular nacional e durante décadas, com dedicação e minucioso cuidado, Jacob recolheu tudo o que julgou importante para sua carreira e para a música popular. E apesar da fama, principalmente na fase gloriosa da rádio, o conjunto Época de Ouro só fez seu primeiro disco na década de 60, Chorinho e Chorões, mas o palco do conjunto, mais frequente, continuava a ser a casa de Jacob, onde os músicos se revezavam e o conjunto não tinha, praticamente, uma formação fixa. Com o nome inicial de Jacob do Bandolim e seu Conjunto já nos anos 40 começava a aparecer e na época era formado pelos músicos César Faria (pai de Paulinho da Viola), Mário Silva, Chico du Pandeiro, além de Jacob. Mas o chorinho não surgiu nesse tempo. Tipicamente carioca, pois surgiu no Rio no final do século passado, primeiro designou um grupo de músicos – os chorões – para, só depois, identificar uma maneira de tocar. Esta forma, afinal, ficou sendo a que se apóia num instrumento solista, que faz o centro amparado pela base harmônica de um cavaquinho e pelos baixos em terças dos violões. E a partir de um tema, são feitas improvisações simultâneas, criando o caráter contrapontístico do choro.

O Globo passou à frente e, aproveitando-se da organização feita pela revista, promoveu o desfile introduzindo algumas novidades. Escolas de Samba de todos os pontos do Rio participaram mas a vencedora foi novamente a Mangueira, da qual as atividades se confundem com a própria história do samba carioca. No disco reservado para ela destacam-se as várias composições apresentadas de autoria do mestre Cartola como Vale do São Francisco (sambaenredo da escola em 1945) feito em parceria com Carlos Cachaça, outro grande nome ligado à Mangueira. Fiz por Você o que Pode (1950) e Chega de Demanda; o samba-enredo que a escola cantou em 34, Homenagem de Carlos Cachaça, o famoso e até hoje obrigatório em festividades carnavalescas Lourdes do Abaeté sambaenredo de 71 de autoria de Preto Rico, Jajá e Manoel e aquele cantado neste ano Imagens Poéticas de Jorge de Lima de Tolito e Tojal. As outras faixas são dedicadas aos sambas de quadras. A Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, que é resultado de fusão de duas escolas tradicionais do morro (a Depois Eu Digo e a Azul e Branco) que nunca conseguiram destaque nos desfiles até que em 1963 seus dirigentes resolveram unir seus esforços. Entre as músicas apresentadas no disco, estão composições do seu autor mais fértil Noel Rosa de Oliveira, entre elas Chica

E Jacob do Bandolim além de um dos maiores divulgadores e incentivadores foi o músico de maior importância para o choro e este espírito de intensa pesquisa é o reflexo nessa mais recente reedição do seu trabalho, pela RCA, com título Ao Mestre Jacob do Bandolim com Saudade no qual o mestre Jacob apresenta o conhecidíssimo Brejeiro de Ernesto Nazareth, passando pelo também famoso André de Sapato Novo de André Victor Corrêa, Não Me Toques de Zequinha de Abreu até o recente Lamento de Pixinguinha, que recebeu letra de Vinícius de Moraes, tudo intercalada por alguns choros do próprio Jacob como Assanhada, Vibrações, Doce de Coco, Isto é Nosso, e Receita de Samba, entre outros. Morto em 1969, aos 51 anos, sendo que a maioria deles, apesar da despretensão própria do autor, dedicada à música brasileira, na época sua viúva decidiu entregar a Ricardo Cravo Albin, então diretor do Museu da Imagem e do Som, todo o seu acervo, entre outras coisas, 6000 partituras, 100 livros, 1000 revistas, 180 catálogos, 400 fotografias, 15 fichários, 120 fitas gravadas, e 1400 discos de 78, 45 e 33 rotações mas o material não foi comprovado pelo Governo do Estado (na época o responsável era Francisco Negrão de Lima) por falta de verba. E num país, ainda não muito acostumado a preservar sua história, os 18000 cruzeiros pedidos foram recusados e, logo após, a viúva de Jacob do Bandolim recebeu a proposta do Governo do Estado de São Paulo: comprar o acervo, certamente mais do interesse da população do Rio, por 60000 cruzeiros, o que não deixa de ser melancólicos. Mas a melancolia maior ou mesmo desespero foi a decisão, depois de cinco anos sem definição, da viúva em queimar todo o acervo. Fica a registro. (APRÍGIOLYRIO)

da Silva (samba-enredo de 48), Quilombo dos Palmares (sambaenredo de 60 posteriormente gravado pela “pesquisadora” Nara Leão) e Assim Não é Legal; outro sambista famoso do Salgueiro é Geraldo Babão que faz trabalhos para a escola desde os tempos da Azul e Branco e são mostrados com interpretação sua, os sambas História de Carnaval Carioca (samba-enredo de 65), Homenagem a Antenor Gargalhada e Morro Inspiração, ambos sambas de quadra. Ainda destacável, o samba As Minas do Rei Salomão, enredo que fez do Salgueiro a grande vencedora deste ano. A história da Portela e sua fama entre as escolas de samba do Rio vem dando sua fundação, ainda na década de 30 e é a escola que conseguiu mais títulos desde o momento que começou o movimento na Praça Onze e entre seus principais compositores está o nome de Paulo da Portela, que exerceu várias atividades na escola, desde organizador e relações públicas até compositor dos mais inspirados. De sua autoria são mostrados Cidade-mulher (samba-enredo de 1936) e Quitandeiro (partido alto de 1993). Dos autores mais novos e saídos de Portela, dois nomes consagrados e já firmados no cenário da música brasileira: Paulinho da Viola e Candeia. Do primeiro, está incluída e entre as faixas do disco o samba Ronda e de Candela (que teve o seu terceiro disco lançado no fim do

Entre os créditos do Império Serrano está o fato de ter inovado a sonoridade das baterias na avenida, introduzindo instrumentos como pratos e frigideira até então nunca usadas e quando apareceu, em 1948, foi logo a vencedora do carnaval...

Jacob do Bandolim: placidez

ano passado Samba de Roda) quando fazia parte do “Grupo do Morro” o samba-enredo Brasil, Pantheon da Glória cantado em 1957. Destaques ainda para o samba Sentimento de Mijinha (posteriormente gravado por Paulinho da Viola) e o sambaenredo deste ano, Macunaíma de David Correa e Norival Reis. Entre os créditos do Império Serrano está o fato de ter inovado a sonoridade das baterias na avenida, introduzindo instrumentos como pratos e frigideira até então nunca usadas e quando apareceu, em 1948, foi logo a vencedora do carnaval, fato que se repetiu por mais três anos seguidos. Também foi a primeira escola a ter um dos seus sambas-enredo que as transformou em sucesso fora do esquema das escolas: o imortal Exaltação a Tiradentes de Mano Décio da Viola, Penteado e Stanilasv Silva e no disco dedicado a ela, estão alguns temas de figura e importantes para o Império Serrano como mestre Fuleiro, Mano Décio, Molequinho, Ivone Lara e Wilson Diabo ou Silas de Oliveira, considerado, o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos. De sua autoria, estão no disco: Senhora Tentação, Exaltação a Caxias, Aquarela Brasileira, Herói da Liberdade (feito em parceria com Mano Décio) e Cinco Bailes da Corte. Os quatro Lps foram gravados em dezembro de 74 e contou com a participação de percussionistas e instrumentistas dos morros do Rio de Janeiro. (APRÍGIO LYRIO)


A Phonogram, agora envolvida com o sambão A VOZ DO SAMBA (com Alcione, álbum Philips/Phonogram, à venda breve) – De início, a gravadora Phonogram tinha entre seus contratados importantes apenas um sambista (quem sabe, sambeiro?) com álbuns lançados regularmente e bem cuidados, mesmo que o material encontrado, cantado por Jair Rodrigues, chegasse muito perto da monotonia e da falta de criação, porém sempre com discos que primavam por bons arranjos, com interessantes e típicos instrumentistas e tudo o mais que pode ser dito em relação àquele que um dia ficou muito famoso com um programa de televisão feito com a cantora Elis Regina, em fase pró música popular brasileira, um limitada e quase fascista. Os tempos passaram e cada um dos “talentos” encontrou seu caminho pessoal depois de três álbuns feitos em conjunto e todos recordes em vendas. E de repente, surge Alcione Nazareth, nascida em São Luiz do Maranhão, em 1947 com seu primeiro long-playing. Filha de músico, começou a estudar clarinete aos 13 anos mas sempre quis ser cantora e iniciou em festinhas de colégio, aniversário de amigos e situações semelhantes. Em 1967 foi para o Rio, sendo que antes já havia feito televisão em São Luiz, intercalando seus sonhos com a profissão de professora primária. Com a vinda para o “sul”, fez TV Excelsior, depois foi para a Argentina e Chile. Na volta ficou em São Paulo fazendo boate, cantando e tocando piston. Depois vieram algumas experiências em programas não considerados em televisões paulistas o que lhe abriu as portas para a Europa. Voltou dois anos depois e gravou seu primeiro compacto para a Philips. E sempre fazendo música negra (típica) brasileira, Alcione continuou viajando, o que serviu de abertura para este A Voz do Samba, tratado com carinho e todo o cuidado necessário para uma estreia. Com arranjos que envolvem os nomes de Paulinho Albuquerque, Altamiro Carrilho, Zé Menezes e o Senzala Som, Alcione escolheu – mesmo fazendo samba – um repertório elegante e composto por músicos considerados. A voz soa forte e grave e bastante atraente cantando por exemplo: Samba em Paz (oldie de Caetano Veloso), o clássico A Voz do Morro (Zé Keti), Todo Mundo Quer (Ismael Silva), Espera (Batatinha e Ederaldo Gentil), Batuque Feiticeiro e História de Pescador (Candeia), mescladas a outras de autores desconhecidos, restando um trabalho atraente e de agrado não só de fãs de sambistas de churrascaria como ouvintes mais interessados. VIAGEM ENCANTADA (com Jorginho do Império, álbum Polydor/Phonogram, à venda breve) – Já Jorginho do Império nasceu dentro do samba e filho de um dos mais importantes sambistas do país, o Mano Décio da Viola e este é o seu terceiro disco. Falando em si, Jorginho explica certas mudanças e sua entrada para o meio musical: “Em 71 já não saia mais como passista no Império Serrano e já trabalhava profissionalmente com Martinho da Vila, como ritmista, mas foi a Rosinha de Valença que me fez cantar. A primeira música que fiz foi em janeiro de 73. E mesmo falando em simplicidades com seus sambas em esquema conhecido, certamente este Viagem Encantada terá seu público certo, mesmo que o cantor não seja muito expressivo em suas manifestações e como compositor, um pouco repetitivo. Porém, interessante.

O QUE ACONTECE

Baden Powell, de Jorge Bem, Gilberto Gil, Elis Regina, Caetano Veloso, James Brown e Cat Stevens, enquanto os cassetes (duplos) focalizam a arte de Maria Bethânia, de Chico Buarque, Gal Costa, Nina Simone e Jimi Hendrix. Para ouvir. E lembrar. A inseparável dupla Vinícius e Toquinho prepara novo LP com lançamento previsto para o mês de outubro. E entre Turbilhão e Raios, a dupla preferiu o segundo, para título do álbum. Entre as faixas gravadas, Turbilhão (Toquinho e Lupiscínio Rodrigues), Onde Anda Você (Vinícius de Moraes) e além de seis composições Vinicius-Toquinho, o disco trará três poemas de Vinícius de Moraes, ditos pelo autor. Esperar para ouvir. Enquadrado no Artigo 234, do Código Penal Brasileiro (“importar, exportar e estampar objeto obsceno e atentado contra o poder público”) responde processo o cantor/compositor Caetano Veloso por ter posado nu e juntamente com sua Mulher Dedé (e o filho Moreno) para a capa do disco Jóia. Enquanto esta foi substituída e os discos recolhidos das lojas até a gravadora Phonogram está sendo processada. ...Peter Gabriel, ex-Genesis...

A Jóia substituta.

Considerações sobre Jorge Mautner e seu show Bem-Te-Viu, e visto na semana passada: Qual seria o músico, no Brasil, envolvido com o pop-system, mais real e afiado e seguindo os estatutos do gênero que Jorge Mautner? O rock’n’roll sempre foi música de/e para jovens, falando em suas necessidades, amores, manifestações e revoltas com humor e inteligência – esta conseguida mais tarde – e Mautner é fiel a tudo isso. E em suas poesias urbanas e semimarginais, o tom direto conseguido por poucos escritores ao mesmo tempo em que suas músicas são facilmente assimiláveis. (E não é por acaso que Gilberto Gil, no momento um pouco desgastado, ou pouco inspirado, tem gravado Jorge Mautner, alcançando sucesso maior do que em suas próprias canções...vide Maracatu Atômico e O Relógio Quebrou). E mesmo com o clima pouco feliz do primeiro espetáculo dado pelo músico nesta cidade, Mautner dominou completamente e segurou o show com força, mesmo com sua voz fraca que alcança limites incríveis e sua presença cênica, perfeita para aquilo a que se propõe. Ou melhor (ou pior): mesmo com sérios problemas técnicos em sua segunda apresentação – volta o show desastre – restou um espetáculo completamente integrado ao rock. Fica o registro. E para aqueles que ingenuamente pensam que só existe singularidade espacial (space oddity) na Inglaterra ou nos Estados Unidos, um exemplo bastante próximo: “...No universo tudo voa, tudo parece balão, só que para mim, anjo astronauta, só me interessam os caminhos que levam ao coração...”, Herói das Estrelas, de Jorge Mautner. Também como registro. Depois do seu espetáculo, feito com enorme sucesso há dois meses no Rio – na estreia, prestigiada por todas as estrelas nacionais – a ex-Jovem Guarda Wanderléa lança seu álbum Feito Gente (o mesmo título do show} este mês em selo Polydor: e cantando material de Luís Gonzaga Jr., Walter Franco, Caetano Veloso, Jorge Mautner, João Bosco, Chico Buarque e Roberto Carlos. Inaugurada uma nova série, pela Phonogram e intitulada A Arte de... com canções reeditadas e reunidas em álbuns duplos ou em fitas cassete: os primeiros discos lançados mostram a arte de


Iniciando a série de recitais Música de Jovens para Jovens – uma promoção da Fundação Cultural do Espírito Santo e Banestes – hoje, no Teatro Carlos Gomes, às 16 horas, apresentação do Art-Trio, formado pelos músicos Jorge Kundert Razevsk (violoncelo e integrante da Orquestra Sinfônica Brasileira), Marly Moniz (piano e integrante também do trio Os Recitalistas) e Luiz Carlos Campos Marques (violino e integrante da Orquestra Sinfônica Brasileira). Do programa, a ser apresentado: Trio Nº1, de Ludwig Van Beethoven, que faz a primeira parte e o Concerto em Mi Maior para Cello e Piano, de Vivaldi, Improvisos Opus 90 Nº 2 e 4, de Schubert, Sonata Nº 4 em Ré Maior para Violino e Piano, de Hanedel e o Trio Opus 49 Nº 1, de Mendelssohm, todos na segunda parte. Para os iniciados em música erudita. Ou não.

e o Art-Trio, hoje no TCG.

No momento viajando pelos Estados Unidos (pasmem) de trem, David Bowie prepara um rápido livro de “pensamentos” intitulado The Return Of The Thin White Duke, o qual ele define como sendo “autobiograficamente belo”. E na viagem, leva sua biblioteca pessoal, de mais de 1500 volumes dizendo: “Eu levo comigo tudo aquilo que tenho em casa e esse é o benefício de viajar de trem, enche-se tudo sem incomodar, porque são poucos os que viajam de trem. Para os interessados: o cantor/compositor e líder do grupo Genesis, Peter Gabriel deixou seu grupo e isto é oficial. Gabriel estava insatisfeito com sua posição de rock star e o grupo agora procura um novo vocalista, diz o empresário: “Eles têm algumas ideias, mas nada está certo, ainda. Sem Gabriel, o grupo já está em fase de preparação de mais um novo álbum e deve ir para estúdios ainda este mês”. E Peter Gabriel agora pretende dedicar-se ao teatro. Depois do choque na Inglaterra) com a saída de Gabriel, pergunta-se: e o Who, vai bem? (APRÍGIO LYRIO)

Clapton, com grande força, volta alegremente e recordando investidas em gravação “ao vivo” E.C WAS HERE (com Eric Clapton, em Concerto, álbum 2394 160 RSO/Phonogram) – Em seus dias, pôde-se afirmar, gloriosos de 1967/8, Cream difundiu o gênero heavy-rock, com grande força e atraente apelo, isso sem mencionar toda uma escola, principalmente de lead-guitar, surgida pós-Cream e Jimi Hendrix Experience – fato que não pode ser esquecido. E também: técnica com criatividade é desculpa ou estar em falta, ao contrário, foi uma importantíssima contribuição para o desenvolvimento do rock, rhythm’n’blues, blues e heavy rock ou tradicionais, na Inglaterra principalmente e levando para todos os lugares do mundo. E não importava que suas improvisações fossem na base de um acorde (ou, frequentemente, feitos em cima de uma só nota) por 20 minutos – ele criava o clima melhor que ninguém. E antes Cream, que foi o salto, Eric Clapton enigmático guitarrista havia passado por envolvimentos importantes: como o com John Mayall em seu Bluesbreakers. Já em 1967, negando a rigidez do grupo e com fama bastante para criar algo mais pessoal. Clapton ao lado de Jack Bruce e Peter “Ginger” Baker fez Cream. E o grupo explode com tamanha força que passa a ser visto (e ainda é), um dos momentos mais importantes do rock, mas acontece o disband em 1969, talvez por um certo cansaço do trio em continuar repetindo a mesma fórmula guitarra-baixo-bateria. O próximo passo para Clapton e Baker foi Blind Faith, grupo dividido com Rick Grech, o participante baixista e a presença (saudosa) de Steve Winwood em fase de abandono do Traffic (logo depois do fim do supergrupo ele reorganizou seu conjunto, que rendeu brilhante e inigualável até 1974, e para quem quiser saber, o resultado está no álbum When The Eagles Flies). E o que se fala é em rock inglês, importantíssimo por sua assimilação do material tipicamente EUA, e renovando-o, dando maior e influente drive àquilo que acontecia com o mundo musical pop nos meados da década passada. Como já é conhecido, a volta de Eric Clapton, o deus, depois de três anos de afastamento (com duas fugazes reaparições no Concerto para Bangladesh e no Raibow Concert de Londres, em 1973) foi saudada com grande entusiasmo e quando em junho/74 o músico lança 461 Ocean Boulevard, seu álbum “diferente” e início de uma nova fase, a popularidade estava reafirmada para Eric Clapton (até hoje algumas estações de subways e muros londrinos têm pichada a inscrição Clapton Is God) e, principalmente com o reggae I Shot The Sheriff recebendo altos índices em vendas. Depois da morte de Jimi Hendrix, ficou Clapton, ou foi o escolhido. O guitarrista sempre diz: “Não sou nenhum deus, ainda estou aprendendo e só agora estou tendo um sucesso comercial, mesmo: mas posso hibernar de uma hora para outra. Já me expus demais e, estou certo disso, você não pode manter o esquema durante todo o tempo”. Magro, reticente, meio discreto, Eric Clapton, inglês de Ripley, não chega a ser o oposto dos [ilegível], mas em sua maneira meio pessoal e, no caso, fleumático de viver sua vida artística, igualmente importante desde os primeiros passos: em 1964, depois de uma passagem rápida por um grupo iniciando. The Roosters (com Paul Jones e Tom McGuinness, do Manfred Mann e Brian Jones, dos Stones), e da experiência com um conjunto ligado ao sucesso comercial. The Engineers, Clapton faz Yardbirds e é imediatamente notado mas desliga-se do grupo em favor do blues. E veio a fase americana, com Delaney and Boney, e seu grupo, Derek and The Dominos, mas o blues não foi esquecido. Eric Clapton: de volta aos bons tempos...


Seus dois últimos discos estão recheados de blues e suas variações e o guitarrista foi até o reggae (música folclórico da Jamaica, ou o soul jamaicano), alguns tradicionais americanos e suas novas composições também brilhantemente funkies, ao mesmo tempo intensas em suas variações e estilos característicos conhecidos enquanto 461 Ocean Boulevard está povoado por tradicionais e reggaes, mais composições do grupo que Clapton reuniu e continua junto há dois anos – Jamie Oldaker (bateria e vocal), Carl Radle (baixo), Dick Sims (órgão), Yvonne Elliman (vocal), George Terry (guitarra) e Marcy Levy (no caso deste E.C. Was Here, já que sempre aparecem alguns convidados mas o centro continua o mesmo) – em seu álbum de estúdio deste ano, o esfuziante There’s One In Every Crowd, lançado em julho último aparecem blues tradicionais jamaicanos e adaptados por Clap que contribui com os melhores momentos de suas composições. Já “Eric Clapton In Concert”, gravado durante o tour do músico e banda pela Eurpa em julho/agosto deste ano tem algo especial: de certa forma o “velho Clapton”, decidiu aparecer mais forte em vocalizações – perfeitas, neste registro “ao vivo” e bastante folclórico por tudo, desde o material de propaganda espalhado até a capa do disco, reprodução do pôster promocional com uma mulher de costas e marcada, em sangue, com o título da excursão/álbum, o tipo E.C. Was Here, uma imagem fatal e longe dos apelos publicitários usados anteriormente por Clapton. E existe muito tempo que Eric deixa transparecer sua principal característica: a de músico de blues, especialidade em que a crítica e seu público costumam considerá-lo “um deus”. E não foram poupados momentos elétricos, esfuziantes e bem rockers para um músico que esteve fazendo música mais calma, inclusive dando, neste álbum registro de Concerto, uma aula ou a própria volta ao rhythm’n’blues, sereno ou de ataque e recordações gloriosas de alguns dos mais importantes momentos do pop inglês, neste trabalho em seis faixas reunidas de todo o material gravado da excursão. Clapton e banda estão perfeitos e completamente envolventes neste complô, totalmente atraente e dando vasão a Clap de aparecer cantando como nunca para não falar na reabilitação, em termos de guitarrista líder: hipnótico. Uma boa e satisfatória volta, revisitada, aos tempos do Cream e envolvimentos com suas manifestações antigas, nem por isso velhas ou antiquadas. Sua recordação de Can’t Find My Way Home (Steve Winwood e gravada no único álbum Blind Faith) é brilhante e vem a propósito, assim com Presence of The Lord, do mesmo álbum, um dos melhores momentos, em composição, de Eric Clapton, (perdendo talvez para o clássico Layla) e ambas as faixas foram feitas em duo vocal com Yvonne Elliman, que contribui para um maior brilhantismo e clima. Restam os blues cósmicos, no caso quatro, que fecham a sequência do álbum que teve sua capa original podada nesta edição nacional, em melhor hipótese, um desrespeito para com o trabalho de um músico do nível de Eric Clapton. E estão eletrizantes: o tradicional Rambling On My Mind, em seus oito minutos dando margem a estonteantes solos dos músicos, como o antigo blues Further On Up The Road, esplendorosa performance para Eric: e segundo a linha cósmica em blues, Have You Ever Loved a Woman (Billy Miles) está quase corrosiva em seu apelo enquanto Clapton lembra muito Ray Charles em outro clássico do blues americano, Drifting Mind. E não é por acaso que o público participante do evento, o que é notório, fique completamente ligado com os solos de Clapton, quase histérico, ou à procura de um estilo sonoro. Que acontece. E de forma esplendorosa. Certamente, um louvável e que não deve ser desprezado pelos amantes do estilo Clapton, ou os fãs do Cream. (APRÍGIO LYRIO)

Convite para ouvir Maysa MAYSA (com a cantora Maysa, disco Evento Odeon) – existem vários tipos de cantores no cenário da música popular internacional: aqueles preocupados com modernismos, os naturalmente inventivos e por si revolucionários, os engajados, os que vivem em função das maleabilidades (poucas) impostas pelo comércio e aqueles intérpretes especiais que surgem, com o dom de conseguir envolver um público interessado, personalidades sempre presentes no “mundo dos espetáculos” e gênero de chansonlers até hoje em evidência, de um Maurice Chevalier e Frank Sinatra, de Josephine Baker e Liza Minelli. No Brasil, entre poucos exemplos, a pessoa de Maysa, simplesmente e bastante, alcança nuances dessa categoria estelar, como invariável chanteuse de temas internacionais, por sua vida atribulada, pelo mito que terminou por transformar-se. Desde sua aparição ainda na década de 50 – quando gravou um disco intitulado Convite Para Ouvir Maysa, precisamente em 57 e daí resultando uma série de outros trabalhos com o mesmo título só mudando a relação numérica “dos convites”, e variações sobre o mesmo tema, do repertório usado – a imagem de Maysa esteve sempre ligada a escândalos, amores, afastamentos da música e, voltas, incluindo um casamento na Espanha, fase em que Maysa só se apresentou para as plateias europeias sempre bastante curiosas para com as stravaganzas semi-primitivas. Apesar de estar morando no Brasil a algum tempo, a cantora Maysa não se preocupou em fazer nenhum disco recentemente, mas em fins do ano passado, motivada por Aloysio de Oliveira (ex-diretor da etiqueta Elenco), a cantora explica-se “cantei meu primeiro disco em 1974, aí passei a ser para mim mesma um convite para ouvir-me”, como resultado do LP lançado recentemente pela etiqueta Evento, também de responsabilidade

...principalmente em shows, com o conjunto habitual.

de Aloysio de Oliveira, sempre preocupado em “elevar” a música brasileira, causa esta que cuida com muito carinho. E Maysa é daquelas intérpretes capazes de transformar um tema banal em algo bastante próprio e profundo, aliado ao seu eterno “assunto”: amor e sofrimento. O encontro não poderia ser mais íntegro e homogêneo, neste disco/homenagem. Orientada por Oscar Castro Neves e com arranjos de Lindolfo Gaya (estes bastante antiquados mas minimizados pelo intenso brilho que emana da cantora) e intérprete Maysa canta com o mesmo feeling e acumulada paixão, músicas como o clássico Agora É Cinza e marcante colorido, assim como na lisztiana No Other Love de Paul Weston e Bob Russel, com versão de Aloysio de Oliveira ou no tema carnavalesco e premiado de Jair Amorim e Evaldo Gouveia Bloco da Solidão. Sua interpretação dos temas de Dolores Duran Fim de Caso e Castigo estão impecáveis, apesar de repetir os mesmos maravilhosos vícios de Maysa, sua voz quente e sussurrada e sedutora, fato que dá margens a cantora de apresentar uma composição sua feita com conjunto com Erlon Chaves (?) e David Nasser (?). Não É Mais Meu, Maysa ainda lembra, em homenagem, Morrer de Amor (de Oscar Castro Neves), Rasguei a Minha Fantasia (de Lamartine Babo), Hoje É Dia de Amor (de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo), O Grande Amor (de Tom Jobim e Vinícius de Moraes), Até Quem Sabe (de João Donato e Lysias Enio, lançado por Gal Costa em seu disco “Cantar”) e Os Olhos da Madrugada (de Carlinhos Lyra). E Maysa conserva características antigas, mas pessoais, de começar uma canção pelo fim e depois recuperar a primeira parte em seus murmúrios afinadíssimos, características essas que fazem do seu novo disco, um trabalho completamente atraente. (APRÍGIO LYRIO)


O mais recente disco do Spencer Davis Group

Maysa: em homenagem

O conjunto, na excelente formação atual

LIVING IN A BACK STREET (The Spencer Davis Group, disco Vertigo/Phonogram) – Um dos grandes esquecidos grupos de rock, no Brasil em edição de discos, e também na Inglaterra, campo de ação do Spencer Davis Group desde metade dos anos 60 e onde o nome do guitarrista/vocalista/compositor Spencer Davis é respeitadíssimo, foi lançado recentemente pela Phonogram o mais recente trabalho do grupo, que desde o início de sua carreira quando contava com a participação do músico vários instrumentos Steve Winwood, ex-Traffic, sempre fez rock‘n’roll sofisticado e da melhor qualidade. Do tempo em que o excelente Winwood participava do conjunto, foi edita do no Brasil, pela série Underground Explosion uma faixa com o grupo, Gimme Some Loving composição de Steve Winwood e posteriormente usada pelo Traffic no álbum Welcome to the Canteen.) Dos vários e famosos integrantes que já passaram pelo Spencer Davis Group, que pode ser comparado em termos de atividades renovadoras e íntegras com o John Mayall Group apesar do estilo musical ser diferente, a mais recente formação que conta com a participação dos músicos Eddie Hardin (teclados e vocal), Ray Fenwick (guitarra e vocal), Charlie McCracken (baixo) e Peter York (bateria) mais Spencer Davis como vocalista principal e guitarrista e alguns convidados, pode ser considerada como ideal pela grande vitalidade dos músicos, todos bastante elétricos e eficientíssimos. Começando pelo título do álbum Living in a Back Street (também a primeira faixa do disco) o Spencer Davis Group define sua posição semi-marginalizada como conjunto de rock (puro) também expressa na faixa Back Street Boys, dois grandes momentos musicais desse trabalho do grupo, que é, completamente, levado em clima de festa como indica a última faixa, Party do antigo rocker Jossie Mae Robinson. A maior parte das canções são compostas pela dupla Hardin-Fenwick onde se destaca o delicioso piano honky-tonky de Eddie Harris, principalmente nas faixas Back Street Boys e Another Day. E no clima festivo do disco a composição Hanging Around de Spencer Davis quebra o clima de rock para dar lugar a uma balada, assim como a interessante Sure Need A Helping Hand, mas em nada diminuindo o espírito do disco que ainda explora um antigo Blues One Night de forma inigualável. E do oportuno lançamento desse Living in a Back Street, sem dúvidas um dos trabalhos mais atraentes do Spencer Davis Group, deve ser procurado rapidamente assim que o disco estiver disponível nas lojas especializadas, e apesar de ainda um pouco cedo para tais considerações, um dos mais interessantes, vivificantes e expressivos discos lançados neste ano. (APRÍGIO LYRIO)


Para os apreciadores: ainda à venda as primeiras gravações de Gal, Bethania e outros.

Piti estão incluídas no Canto Livre suas primeiras gravações em compactos para a RCA: de Tom Zé, além das interessantes Maria do Colégio da Bahia e São Benedito também está sua gravação de Irene (Caetano Veloso) retirada de um dos seus fracos Lps; e de Piti, no momento tentando um regresso à música depois de mal sucedido início, os sambas Enredo e Despedida feitas em parceria com João Augusto.

Maria Bethania, Gal Costa e Tom Zé

CANTO ABERTO (com vários intérpretes, álbum RCA/ Camden em Golias Discos) – A participação, ativíssima, dos músicos baianos surgidos em meados da década de 60 na música popular brasileira foi das mais frutíferas e estimulantes, desde o aparecimento de Maria Bethania em 65, quando veio para o Rio de Janeiro por influência de Nara Leão para substituí-la no musical/drama Opinião. E na rasteira de Bethânia, felizmente, vieram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa (naquele tempo Maria da Graça), Tom Zé e Piti (estes menos expressivos em seus trabalhos). E o fato da descoberta de Nara não foi por acaso; avisada sobre as atividades dos novos músicos, foi testemunha de seus shows no Teatro Vila Velha em Salvador e rapidamente tornou-se uma das suas maiores divulgadoras, em gravações e apresentações nos meios musicais do “sul”. Maria Bethânia foi imediatamente consagrada depois da aparição em Opinião e logo gravou seu primeiro LP na RCA (aquele de Carcará). E no mesmo ano (65), praticamente todos os baianos já estavam contratados pela gravadora, que rapidamente colocou no mercado compactos individuais dos seus novos “talentos” enquanto eles estavam em grande atividade fazendo shows experimentais seguindo a linha de Opinião e Arena Conta Zumbi, os dois grandes sucessos em teatro da temporada, e responsáveis por vários espetáculos semelhantes como: Arena Conta Bahia e Tempo de Guerra (as duas primeiras experiências dos baianos em teatro, precisamente em São Paulo no Teatro de Arena), Arena Conta Tiradentes e vários astros. Em 73 a RCA resolveu reunir no long-playing intitulado Canto Livre algumas das primeiras amostras dos bainos e até hoje no álbum constitui-se num grande atrativo, principalmente para os colecionadores ou interessados no assunto, que mesmo dez anos depois não perdeu suas principais características de trabalho bem feito, aprimorado, violento e delicado, vivificante e completamente atual. De Maria Bethânia estão incluídas no disco duas faixas: Eu Vivo Num Tempo de Guerra (retirada do espetáculo e feita por Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) e Sol Negro (de Caetano Veloso) e uma das faixas do seu primeiro disco gravado, cantada em dueto com Gal Costa. De Tom Zé e

Os Cariocas: gravações ainda com Issmael Neto

Dando mostras do seu enorme talento, desde o início de carreira, são mostradas as primeiras gravações individuais de Gal Costa, eficientíssima na interpretação das gravações Eu Vim da Bahia (de Gilberto Gil, gravada por João Gilberto em seus mais recente disco) e Sim, Foi Você (de Caetano Veloso, regravada com novo colorido por Gilberto Gil, também no seu último disco, gravado ao vivo). E este Canto Livre ainda reserva três faixas para mostrar as primeiras atividades de dois compositores: Luis Carlos Sá, que mais tarde viria a integrar os rock-ruralismos do Sá/Rodrix/ Guarabira com a música Inalá e do compositor de Disparada foram incluídas duas faixas feitas logo depois que o compositor deixou a gravadora Continental (após o lançamento do seu primeiro disco Hora de Lutar): a gravação de Disparada feita ao vivo com o compositor e o Trio Marayá e a toada Canto Aberto. (APRÍGIO LYRIO)

Para os menos dotados: a mais recente gravação da dupla Tom e Dito SE MANDAR M’IMBORA EU FICO (com Tom e Dito, álbum Som Livre, em Golias Discos) - A dupla baiana Tom (Antônio) e Dito (Expedito) surgiu há três anos atrás, quando estudantes de Sociologia em Salvador, cantavam em casas noturnas ou então em festinhas de amigos até que foram descoberto por Jair Rodrigues que resolveu incluir em um dos seus discos uma composição da dupla (Versos para Teresa). Animados pelo sucesso do samba entre os mais despreocupados, a dupla veio para o Rio de Janeiro onde, segundo eles “as oportunidades são maiores e assim poderemos mostrar toda a nossa criatividade. Só que o público que passou a tomar conhecimento dos impulsos criativos da dupla foi aquele classe C, que fervorosamente assiste aos programas de Chacrinha, ao Sílvio Santos ou as telenovelas da Rede Globo (na maioria das vezes

Um pouco da vida e obra do mais famoso (e inovador) conjunto vocal brasileiro CONJUNTO OS CARIOCAS (com o conjunto Os Cariocas, álbum Continental da série “Ídolos MPB”, em Golias Discos) Tudo teria acontecido no final dos anos 40, mais precisamente em 1948. Logo que gravou seu primeiro 78 rpm, o conjunto vocal Os Cariocas foi recebido com grande alvoroço e batizado como “os cinco revolucionários da música popular brasileira”. E no primeiro disco, contendo as canções Nova Ilusão (Luiz Bittencourt e


José Menezes) e Adeus, América (Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques) o estilo do grupo já era patente - completamente pessoal e inovador em termos de conjuntos vocais brasileiros e mesmo usando temas tipicamente nacionais eram pioneiros de uma linguagem harmônica completamente desconhecida até então em nosso cancioneiro. E mesmo que as vocalizações apresentadas pelos Cariocas tivessem como fundamento a sofisticação de alguns grupos vocais americanos (como The Pied Pipers e The Andrew Sisters) eles foram os principais responsáveis, mesmo em se tratando de sambas, marchas, valsa e baião, por um tratamento menos simplório do que se vinha fazendo até então - em casos de conjuntos vocais. Mas a verdadeira história do grupo não nasceu assim: o movimento aconteceu por iniciativa de três irmãos, todos cariocas. Os mais participantes eram Ismael e Severino Araújo Silva (a irmã

pouquíssimo preocupada em reverenciar o que existe realmente de atraente nos meios artísticos) através de sua gravadora, a Som Livre, ou em aparições em vários programas musicais, como aconteceu recentemente no último musical competitivo da emissora intitulado erroneamente de Abertura. Se a canção Tamanco Malanrinho (a faixa que abre este esquisito Se Manda M’Imbora Eu Fico) conseguiu algum sucesso no Festival citado acima, ninguém viu, mas o novo LP, esperam os produtores, deve vender muito. E o público de Tom e Dito (de certa forma o mesmo da também dupla baiana Antonio Carlos e Jocafi, responsáveis pela produção deste disco), certamente ficará deliciado com os sambinhas fáceis, as toadas modernas, e até boleros divididos em 12 faixas que têm títulos tão inexpressivos e psiquicamente deficientes como a própria dupla ou seus fãs, entre eles: Branco na Paixão, Promessa e Confusão, Eu Não Sou de Ferro, Solidão, Resolução, Eu Cansei, Malandragem Dela etc. E ainda existem pessoas que consideram Tom e Dito como “os bons baianos”, “os representantes do soul brasileiro”, ou “agradáveis”; adjetivos que estão longe das “curtições musicais” (para falar no próprio linguajar da dupla) desses Tom e Dito. Nada Além. (A.L.)

Hortênsia só entraria em cena anos depois) que por incentivo de sua mãe envolveram-se com a música, sem haver qualquer tipo de preconceito. Ainda em 1942 - época de Guerra Mundial e de começo de recesso na música popular do mundo inteiro - Ismael e Severino, respectivamente aos 17 e 14 anos de idade, resolveram formar um conjunto vocal. E já fazia tempo que os dois irmãos, pegando sucessos do momento (nacionais e internacionais), cantavam-nos a duas vozes sendo que Ismael era responsável pelos arranjos e fazendo a segunda voz enquanto Severino era a voz solo. Mas como era natural, sentiam que o som não estava completo. Sonhavam em fazer um trabalho como os então famosíssimos Os Anjos do Inferno ou Os Namorados da Lua mas sem forçar um trabalho de extrema simplicidade, só para uma maior aceitação popular e permitindo o ouvinte (o povo, naturalmente) assimilá-la com facilidade e, a seguir, entoar sem muito esforço...intelectual, característica dos conjuntos vocais anteriores. E Os Cariocas, que receberam aceitação imediata e somente urbana, acabaram se impondo e foram mais além, provocando, com suas “invenções vocais”, uma escola que não pararia de diplomar alunos, tal foi sua importância para o desenvolvimento da música popular brasileira. Mas o grupo ficou praticamente completo, ainda de forma não profissional, com a entrada dos jovens músicos Tarquínio, Salvador e Ary Mesquita que definiram o quinteto. Depois de vários ensaios e apresentações não profissionais tentam o rádio e são bem sucedidos no até hoje citado “Papel Carbono”, o programa de calouros de Renato Murce na antiga Rádio Clube, atual Mundial, em 1945. Para um melhor aprimoramento - por influência da música americana - Ismael Neto decide-se a aprender violão. Tudo isso resultará da influência do cinema e disco americanos na mentalidade dos latino-americanos, à procura de “uma música para as pessoas refinadas”. Nesse tempo, as vozes precisavam ser arrastadas e afetadas e o cantor Dick Farney já era sucesso: assim como os instrumentistas, que deveriam ser suaves, tocar macio e com harmonizações sofisticadas, numa época em que a música brasileira só tinha compositores “de caixa de fósforo”. Ismael, portanto resolve estudar música com profundidade, assim como seu irmão Severino que depois vai mais longe: torna-se aluno de Alda Gnatalli. Nesse tempo o quinteto perde a participação de Ary Mesquita, sendo substituído por Waldyr Viviani, que tinha conhecimento de piano. Com o sucesso no programa de calouros, continuam carreira no rádio só apresentando repertório estrangeiro. Em 46, Tarquírio e Salvador também deixam o conjunto e aí seria iniciada a “fase de ouro” com a entrada de Emanuel Barbosa (Badeco) e Jorge Quarterone (Quartera) as vozes estavam definidas, com Badeco fazendo a primeira voz. Severino na segunda, Ismael na terceira (com seus famosos falsetes), Quartera na quarta e Waldir no solo (inclusive assobiados, recurso que usariam bastante). Em final de 47 são chamados para dublar o desenho animado Ferdinando, convite feito por João de Barro que era diretor artístico da gravadora Continental. Gostando do desempenho do grupo convida-o para a primeira gravação, vendo selecionados os temas brasileiros Nova Ilusão e Adeus América, sendo que o lançamento foi cercado por grande impacto só podendo ser comparado ao aparecimento de Dick Farney e João Gilberto. Sem interromper gravações, todas recebidas com grande entusiasmo, e mudando de gravadora várias vezes, Os Cariocas deixaram hits por todas que passavam. Já no início dos anos 50 uma nova dupla de compositores aparecia, com Antonio Maria e Ismael Neto, deixando uma das canções mais famosas do cancioneiro popular brasileiro, Valsa de uma Cidade. Depois participariam da antológica gravação (um LP de 10 polegadas) da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Tom Jobim e Billy Blanco. Nesse tempo seria registrado, nas faixas Sei Perder (de Ismael e Antonio

Maria) e Qu’est-ce Que Tu Penses, a última participação de Ismael Neto, que viria a morrer no início de 1956. Um pouco antes, entretanto, seu irmão Severino já estava tomando conta do conjunto e para substituí-lo convidou sua irmã Hortênsia, inaugurando uma nova fase do quinteto; inclusive Severino passaria a ser o arranjador instrumental do conjunto. Com o advento da bossa nova, já nos anos 60, Os Cariocas passariam por nova fase de reformulação, com a saída a voz feminina e transformando-se em quarteto e outra mudança aconteceu, Waldir Viviani seria substituído por Luiz Roberto, passam para a gravadora Phillips e perfeitamente entrosados com a bossa nova, passam a usar o repertório típico do movimento, assim fazendo até 1967 quando haveria a dissolução. Entre as faixas apresentadas neste décimo volume da série “Ídolos MPB”, criada pela gravadora Continental e satisfazendo completamente o desejo de pesquisa de uma parte interessada do público ouvinte - já foram lançados os álbuns/documento focalizando Francisco Alves, Jacob do Bandolin e Waldir Azevedo, Nelson Cavaquinho, Carnaval de Todos os Tempos (álbum duplo, com vários intérpretes), Dick Farney e Lúcio Alves, Tom Jobim e Billy Blanco, Anjos do Inferno, Dorival Caymmi, que foi o de número nove - podem ser citadas como sendo da fase de Ismael Neto as canções Nova Ilusão, Adeus América, Cadê a Jane, Juazeiro, Qu’est-ce Que Tu Penses e aquelas gravadas com a participação de Hortênsia, a famosa Assim, Assim, Castigou Legal, Foi Ela (canção de Ary Barroso), Criticando (conhecida por ter sido a primeira música gravada de Carlinhos Lyra), Zelão (Sérgio Ricardo), Só Vou de Mulher e Canção Para Mamãe, todas recuperadas de registros originais Continental. Como registro; um trabalho satisfatório e importantíssimo, para os interessados. (APRIGIO LYRIO)


Ted Neeley, o insistente participante da floricultura “hippie”, em trabalho interessante TED NEELEY (com Ted Neeley, compacto UACS 1544 Rocket/United Artists/Copacabana) Em 1972, o cantor pop - de pouco destaque - o texano Ted Neeley, destacou-se pela primeira vez quando conquistou o prêmio teatral Emmy (o mais importante em termos teatrais) por sua atuação na peça Tommy, em montagem na Broadway o ritual psicodélico criado pelo grupo de rock inglês The Who (diga-se, por acaso, já que algumas das canções incluídas na ópera-rock havia sido feitas em sem nenhuma pretensão e depois ligadas ao material feito especialmente para o acontecimento). E depois atuou no papel de Cristo na peça Jesus Cristo Superstar, na versão não original encenada em Los Angeles, ao lado de Carl Anderson (que fez o judas negro, que só apareceria nesta segunda montagem) e Yvonne Elliman (que fazia Maria Madalena e, no momento, é parte da banda de suporte do célebre guitarrista Eric Clapton enquanto engatinha sua carreira individual). E os três músicos/ atores foram imediatamente contratados para a versão cinematográfica da peça de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber, feita, de certa forma, desastrosamente pelo diretor Norman Jewinson. E apesar dos seus parcos dotes como ator e, prejudicado por um papel ingrato, Neeley não conseguiu muito destaque no cinema. O que não impediu sua carreira na floricultura hippie teatral: depois de viver Tommy e Cristo faria, ainda, um dos papéis na peça Hair (o primeiro grande sucesso em termos ópera-rock) em montagem recente e substituiu um dos atores no musical baseado nos Beatles, Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band On The Road, sucesso de público este ano em Londres e Nova

Ted Neeley nunca foi um bom ator, mas participou até mesmo como cantor de todos os grandes sucessos comerciais do movimento hippie: em Hair, em Jesus Cristo Superstar, em Tommy e em Sargent Peppers.

York com músicas retiradas do clássico dos Beatles Sgt. Pepper’s mais, canções adicionais do álbum Abbey Road e tudo indica que o musical chega também ao cinema, no próximo ano. As trilhas sonoras de suas peças foram lançadas e agora Neeley aparece com um compacto, certamente anunciando um álbum (ainda não divulgado) do cantor pop. A estreia não poderia ser mais promissora: em original The Rocket Record Company, a companhia gravadora criada pelo popularíssimo Elton John e responsável pela volta do oldie Neil Sedaka (grande sucesso ano passado com o álbum de rentreé Laughter In The Rain), Ted Neeley viu-se cercado por alguns dos melhores músicos de rock no momento. E gravando material de Sedaka, a romântica Don’t Let It Mess Your Mind e o rock Paradise, Neeley faz sua estreia elegantemente e até sua capacidade vocal surge mais atual e correta ao ser acompanhado por Neil Sedaka (teclados). Nigel Olsson (bateria, ex-Elton John Band), Dee Murray (baixo, ex-Elton John Band), Jim Horn (o famoso saxofonista de estúdio e ativo participante dos álbuns e apresentações ao vivo dos Rolling Stones), entre outros. Para os interessados, o disquinho está nas lojas mas o melhor seria esperar pelo álbum do agora mutante Ted Neeley, também algo que não deve ser desprezado. (APRÍGIO LYRIO)


sob o rótulo de “Elenco” - agora responsável pela direção artística do novo selo da gravadora Odeon e exclusivamente dedicado à música brasileira com o saudoso nome Event o, foi feito o registro em disco da auto-intitulada sinfonia popular PaulistanaRetrato de uma Cidade, uma homenagem que o compositor Billy Blanco quis prestar a sua terra adotiva e escrita segundo o autor “para uma quatrocentista chamada Ruth Egydio de Souza Aranha y Blanco Trindade, minha mulher”. Contando com arranjos ridiculamente épicos do maestro Chico de Moraes e tendo como cantores convidados os duvidosos Peri Ribeiro, Cláudia, Claudete (Colbert) Soares, Miltinho e Elza Soares, a “obra” tenta glorificar São Paulo-cidade (sendo que a incoerência começa aí) de Anchieta à Rua Augusta em quinze faixas com melodias românticas, cansativas, e pior, enxertadas por poemas completamente afastados da realidade e vulgares, como em O Céu de São Paulo (“a cor diferente do céu de São Paulo/ não é da garoa/é véu de fumaça” e continua “o bandeirante não perde seu tempo, olhando pro alto/o sol verdadeiro está no aslfato/ na terra do homem e na produção”) ou em Louvação de Anchieta (“fazendo som com as estrelas/ligado no sideral por Maria fez poemas/nas praias do litoral”) ou no Tema de São Paulo (“São Paulo que amanhece trabalhando e que não sabe adormecer/ porque durante a noite paulista vai pensando/nas coisas que de dia vai fazer”) em Grande São Paulo (“Na sinfonia que é de todos os barulhos/grande São Paulo como eu gosto de você”) e ainda existem faixas dedicadas à Rua Augusta, ao esporte paulista, aos jovens, aos camelôs, ao dinheiro, aos bandeirantes, às boates, no trabalho mais absurdamente “apelativo” dos últimos tempos, em clima de superprodução. Que certamente e para a surpresa do mal informado compositor Billy Blanco não será ouvido nem pelos mais ardorosos bairristas paulistanos. (APRÍGIO LYRIO)

O completo engano, num trabalho que se auto-intitula sinfonia popular PAULISTA - RETRATO DE UMA CIDADE (composta por Billy Blanco, com vários artistas, disco Evento/Odeon, em Golias Discos) - O Parense William Blanco Abrunhosa Trindade, mais conhecido como Billy Blanco - o volionista sempre foi uma figura de pouca notoriedade na música popular brasileira. Suas experiências com violão começaram quando, filho de um professor de música, resolveu dedicar-se ao instrumento, desde tenra idade e contra a vontade do pai que gostaria de vê-lo envolvido com um instrumento mais nobre, como violino ou algo assim. Mas aos quinze anos, o jovem William já integrava o conjunto “Os Gaviões do Samba”. Depois veio a mudança para São Paulo e passagem pela Universidade Mackenzie. Nessa época o músico iniciante William Blanco Abrunhosa Trindade já havia sido batizado, por Dennis Smethurst, como Billy Blanco, por motivos óbvios, e já estava cantando, compondo e carregando seu violão elétrico, importado dos Estados Unidos; por estímulo da cantora compositora Dolores Duran, em 1949 Billy Blanco teve sua primeira canção gravada (Prá Variar) pelo conjunto Anjos do Inferno, do qual participava o cantor Lucio Alves. E ainda pelas mãos da célebre Dolores, o compositor Billy Blanco começou a ser conhecido nos meios musicais brasileiros, isto é, no Rio e São Paulo. Depois de 1964, o produtor Aloysio de Oliveira tem-se dado ao trabalho de programar Billy Blanco para shows em boates, teatro e disco com a tranquilidade, dedicação e esperança que lhe são peculiares. E, ainda por incentivo de Aloysio de Oliveira - que já foi o violonista do conjunto que acompanhava Carmen Miranda. O Bando da Lua, participou de vários filmes feitos por Walt Disney e na década de 60 foi o responsável pelos bons discos de bossa nova lançados

Billy Blanco, o responsável.


Em espírito nostálgico, algumas páginas musicais do compositor Oswaldo Santiago OSWALDO SANTIAGO (com vários intérpretes, disco Continental, à venda em Golias Discos) - A gravadora Continental, devido ao seu parco elenco de artistas nacionais contratados (de alguma importância), vem de uns tempos para cá, fazendo suas edições de peso, baseada somente em lançamentos internacionais...enquanto os nacionais, repetemse em nostálgicas reedições, encontradas em seus arquivos (exemplo, o interessante álbum duplo Carnaval de Todos os Tempos), fazendo séries que tendem a desaparecer rapidamente, como a sua “Ídolos MPB” e a “Gente Importante na Música Popular Brasileira” na qual está incluído este LP focalizando a obra do compositor Oswaldo Santiago. E desse trabalho, reverenciando os melhores ou mais conhecidos momentos musicais do autor Santiago, os pecados principais estão: a gravadora deveria procurar apresentar suas canções mais conhecidas como foram gravadas na época do lançamento, esquecendo a qualidade das matizes originais (no caso, de quase meio século atrás) e, já que não foi possível trazê-lo desta forma, poderiam, pelo menos, escolher melhores intérpretes para apresentar as obras de Oswaldo Santiago, que embora praticamente desconhecido do grande público, muito fez pela música popular brasileira. Neste disco documentário coletânea podem ser encontradas as valsinhas românticas, gênero preferido de Santiago, Tudo Cabe Num Beijo (parceria com a pianista Carolina Cardoso de Menezes) interpretada pela quase desconhecida e inexpressiva Marilena Cairo, assim como a canção Caçador de Esmeraldas (parceria com Humberto Porto), as interpretadas pelo também inexpressivo Alcides Gerardi (mas de certa forma coerente com o espírito das músicas) Fantasia Carioca, Junto de Ti Estou no Céu e Beijo Azul. Entre os outros cantores escolhidos, estão Gilberto Alves, Hélio Chaves e Arlindo Borges e é feito um medley de temas carnavalescos (os mais conhecidos do compositor Santiago) com as canções Tiroleza, Lig-Lig-Lú, Mamãe Eu Vi Um Touro e Querido Adão (esta, famosa pela interpretação de Carmem Miranda). O disco vale como registro da obra do compositor Oswaldo Santiago, e seguindo palavras do autor “talvez as gerações das décadas 30 a 50, embora aturdidas pelos ritmos que hoje imperam, ainda tenham interesse em reviver algumas dessas páginas”. (A.L.)

O cansativo som “acústico-latino” da Barca do Sol, em disco de estreia A BARCA DO SOL (com grupo A Barca do Sol, álbum Continental) - Os integrantes da Barca do Sol, conjunto carioca que após um ano de pesquisas e ensaios lançou seu primeiro disco em dezembro passado, têm como desejo criar uma música séria (qualificação perigosa e um pouco antiquada), sem rótulos e juntando várias tendências - desde a música erudita ao rock - e resolveram reunir-se em janeiro do ano passado. Mas as raízes do grupo vêm desde o início de 1973 quando Marcelo Costa, Muri Costa e Fernando Carneiro, já usando o nome atual, tinham um conjunto A Barca do Sol e a nova formação semi-amador dedicado quase que exclusivamente à música popular. Mas em janeiro de 74 durante o Curso Internacional de Férias, em Curitiba, que tinha como professores, entre outros, Egberto Gismonti e Dori Caymmi, o grupo inicial ampliou-se na necessidade de fazer um tipo de música com melhor acabamento e transformouse em hepteto com a inclusão de Marcus Stul (ex-Equipe Mercado), Beto Rezende, Marcelo Bernardes e Jaques Morelemhaum. Com idades variando entre 15 e 22 anos, é um uníssono que os integrantes da Barca do Sol declaram que “nós achamos que não adianta imitar o som americano de raízes”. E a tendência de busca de raízes tipicamente brasileiras em relação ao grupo é bastante esquisita, para não dizer estranha e sem fundamento, já que nas onze faixas do seu disco de estreia esquecem o baião, o samba e outras “gingas” para enveredar por caminhos de “toada moderna”, gênero (?) bastante difundido e com grande vitalidade por Milton Nascimento ou por Egberto Gismonti, este mais envolvido com um certo classicismo musical e de certa forma pedante e desnecessária, e o reflexo de seu trabalho é uma constante no disco Barca do Sol, já que Gismonti dele participa como diretor de produção e aparece, como instrumentista, em duas faixas Alaska e Arremesso executando um sintetizador meio pálido assim como todo o trabalho desta Barca, navegando por mares pouco usados. E como já foi dito, navegar é preciso, mas com classe, vitalidade e maior apuro, elementos que faltam na intitulada Barca do Sol. Fazendo um tipo de música bastante austera, a preocupação maior do grupo parece ser a mensagem contida em suas músicas (estas bastante fracas e repetitivas) através das letras feitas por Geraldo Carneiro, todas de uma seriedade, pretensão e pompa e com a capacidade enervar qualquer ouvinte “interessado” ou não. E com a sua obstinação pelos estudos musicais, o trabalho do grupo é fincado no excelente desempenho do flautista Marcelo Bernardes que para preencher o vazio dos vários violões (muito semelhantes ao extinto Secos e Molhados) é forçado a fazer solos em todas as faixas do LP. Depois da gravação do disco, Stul (baixo) e Marcelo (flauta) desligaram-se do grupo e foram substituídos pelo francês Alain Pierre e o inglês Riche Court, respectivamente. E o resultado desta mudança considerada como frutífera para o grupo, pode ser testado na apresentação que a Barca do Sol fez em espetáculos no Rio e São Paulo enquanto preparam um novo LP para ser lançado em agosto. Ao mesmo tempo em que estão “seriamente” pensando em dar maior divulgação ao seu trabalho, em apresentações por várias capitais brasileiras. Existe até uma ameaça do grupo fazer uma apresentação, em abril, no Teatro Carlos Gomes. O que de certa forma será uma ousadia, já que esta Barca do Sol peca, principalmente, pelo amadorismo frágil de suas letras e melodias. (APRIGIO LYRIO)

Morreu cedo a cantora, mas sua música, sua delicadeza, sua ternura infinita e sua voz transmitindo com grande colorido e carícia tudo aquilo que cantou, ficou para semp e marcada entre todos aqueles que reconheceram e amaram seu grande poder comunicativo – de alegrias e tristezas – e seu poder interpretativo, consequentemente eterno e antológico.


Um trabalho, simplesmente, eterno

AMOR DE GENTE MOÇA (com Sylvia Telles, em relançamento, álbum Evento/Odeon) - Desde o seu aparecimento, como cantora de boate e intérprete por prazer numa época em que ainda era proibida de frequentar casas noturnas pela pouca idade, Sylvia Telles surgiu com a bossa nova em sua primeira fase, quando do aparecimento de João Gilberto - inclusive fizeram algumas apresentações juntos que como estímulo maior para o público, em geral, eram consideradas como mostras de “samba novo, sem citar o célebre mesmo que pouco frutífero espetáculo de música brasileira no Carnegie Hall, em Nova Iorque - e, imediatamente foi selecionada a cantora favorita dos compositores principais do movimento, por suas esplêndidas qualidades como personagem, única e vital e, por que não, inigualável? Em fase anterior, aquela que ficou mais conhecida como Silvinha Telles esteve cantando todo que aparecia pela frente sem se incomodar com movimentos ou rótulos mas sempre preocupada, com sua voz emposta e de um timbre limpo, apurado e essencialmente lírico, em interpretar o que havia de melhor do cancioneiro nacional mas não tardou muito a ser convidada para ser a principal divulgadora feminina do então revolucionário movimento. E foi o primeiro disco feito por ela nos termos e tratado com todo cuidado, assim como um manifesto de bossa nova que, não mais que obrigatoriamente por sua fundamental importância para a música popular brasileira de todos os tempos que agora recebe nova edição e por influência do seu ex-marido, o produtor Aloysio de Oliveira (tempos atrás, o principal participante do grupo suporte de Carmem Miranda, o Bando da Lua e também diretor artístico da gravadora Odeon) para a sua etiqueta recém-lançada Evento, que tem se preocupado em editar discos focalizando momentos importantes da música nacional. Preparada para lançamento assim como foram Nara Leão e Gal Costa este Amor de Gente Moça, lançamento original de 1959 tem como importância fundamental o lançamento de Silvinha como intérprete definitiva para o movimento e, também, como o disco que reservou para si o lançamento de nove composições inéditas de Antonio Carlos Jobim, já na época considerado como o principal compositor da bossa nova, por seu estilo elegante, apurado e sofisticadamente musical sem se preocupar com fronteiras – e entre essas canções inéditas confiadas à Silvinha, estão as gravadíssimas e até hoje indispensáveis Dindi, Demais, Fotografia, Janelas Abertas, O Que Tinha de Ser, Esquecendo Você, Só em Teus Braços e outras. Falar da importância da carismática figura de Sylvia Telles para o desenvolvimento da música popular nacional ao mesmo tempo, cantora maior em termos de influência – foram várias as cantoras que tentaram repetir suas vocalizações, e como exemplo primordial está a também brilhante Maysa – seria futilidade, já que o legado maior foi o seu trabalho musical, fértil, variado, fundamental, elegante e, sobretudo, único e iniciador. Acompanhado de um folheto contendo alguns carinhosos comentários sobre a cantora, de Vinícius de Moraes, o próprio Tom Jobim, mais Luís Eça (que também começou carreira junto com Sylivinha) e Maysa, ainda com algumas fotos de diferentes fases da vida da cantora, este disco define Sylvia Telles como a principal intérprete dos anos 50 e até a metade dos anos 60 – tal fato, por sua repentina morte em meados de 1966, principalmente por seu espírito boêmio, cantora por amor e prazer e que não teria resistido ao pesado tributo que as madrugadas insones cobram dos seus aficionados. Morreu cedo a cantora, mas sua música, sua delicadeza, sua ternura infinita e sua voz transmitindo com grande colorido e carícia tudo aquilo que cantou, ficou para sempre marcada entre todos aqueles que reconheceram e amaram seu grande poder comunicativo – de alegrias e tristezas – e seu poder interpretativo, consequentemente eterno e antológico. Em seu poupar emoções e nostalgias à parte, estamos definitivamente diante de uma obraprima da cantora, um álbum que mesmo 15 anos após seu lançamento original consegue estar perfeitamente atual, com todo seu envolvente clima e sua força. Quem poderia esquecer Silvinha cantando Dindi (tantas vezes regravado pela cantora), sua marca registrada senão ela mesma? Sua interpretação definitiva para Canta, Canta Mais (Tom e Vinícius), Sem Você (outro belíssimo momento da dupla citada acima e um pouco esquecida), Janelas Abertas (momento maior de TomVinícius e recentemente homenageado por Caetano Veloso em sua Janelas Abertas nº2), o tema principal da sinfonia musical Orfeu da Conceição, a conhecidíssima A Felicidade, Discussão (outro dos principais envolvimentos musicais que reuniu Tom Jobim e Newton Mendonça). E, segundo o produtor Aloysio de Oliveira, “este disco é dedicado à nova geração que não conheceu Sylvia Telles, tendo a certeza que ouvirão seu canto com o mesmo encanto que nós ouvíamos”. Sylvinha definitiva, definida, simples, passando da alegria para a tristeza (contida) com uma enorme voz, de emoção e amor de gente sem idade. Os arranjos do disco, de Lindolfo Gaya cooperam para o maior brilhantismo deste trabalho, simplesmente eterno. (APRIGIO LYRIO)


Os “grandes sucessos” da gravadora Phonogram

Caetano Veloso, Quinteto Violado, na coletânea.

MÁXIMO DE SUCESSOS Nº 13 (com vários intérpretes, álbum Fontana/Phonogram, à venda breve) – Mesmo que o esquema seja comum e antigo – constantemente caindo no perigo de reunir em um só disco vários músicos com os mais diversos estilos, provocando um certo desconforto no ouvinte – a Phonogram, que pode ser considerada como a gravadora brasileira que tem em sua lista de contratos os mais importantes nomes da música popular brasileira, pelo menos três vezes por ano coloca no mercado um exemplar de sua série Máximo de Sucessos, com os maiores destaques da temporada, juntos àqueles com pretensões à tal e em sua grande parte, já editados em discos individuais. Enquanto, para certa camada de público, esta reunião pode surgir interessante por sua variedade ao se constituir em material variado, o choque é inevitável mas resulta divertido e atraente pela qualidade e talento inegáveis de alguns dos “astros”, incluídos na coletânea, que já chegou com o mesmo título ao volume de número 13. E entre os coletados: a abertura é feita por Caetano Veloso com a sua composição Qualquer Coisa que também foi título de um dos seus mais recentes discos – o outro foi o conturbado Jóia e o adjetivo recai, principalmente, na proibição da capa original mostrando um nu poético do cantor em família e já substituída ou então, consequência de um álbum completamente pessoal que chega até a lembrar o Araçá Azul (lançado em final de 72 e, dizem as estatísticas, o disco que mais teve devoluções de lojista) mas em relação à canção Qualquer Coisa, um dos trabalhos mais belos e coerentes de Caetano tanto em melodia como em poesia. Do álbum Elis, de Elis Regina e lançado no ano passado foi incluída na coletânea a faixa Amor Até o Fim (oldie de Gilberto Gil e já gravada pela cantora em um dos volumes da série Dois na Bossa), seguida por Sem Essa Nº5 de Jorge Ben e mais uma de suas alegorias futebolísticas e românticas. Entre as inéditas, está Meu Pranto Rolou com Vinícius de Moraes e seu assíduo violonista Toquinho, faixa do seu álbum a ser lançado no próximo mês, com o título Raios sendo que a canção é de autoria de Benil Santos, Raul Sampaio e Yvo Santos. Da novela de sucesso Gabriela e baseada no romance de Jorge Amado, o best-seller Gabriela Cravo e Canela, que recebeu uma trilha sonora digna ao acontecimento, duas das mais famosas canções foram também incluídas: a Modinha para Gabriela, com Gal Costa e material feito de encomenda para a ocasião pelo “bom baiano” Dorival Caymmi e que alcança maior brilhantismo com a interpretação de uma das mais sensíveis vocalistas brasileiras e a “série” Coração Ateu (Sueli Costa) cantada por Maria Bethânia; que também aparece ao lado de Chico Buarque em Vai Levando (Chico e Caetano) e incluída no disco com trechos do espetáculo Chico Buarque e Maria Bethânia Ao Vivo (um dos maiores sucessos em termos de show musical neste ano). Ainda em destaque, João Ricardo, o ex-líder do Secos e Molhados, com a canção Vira Safado (um dos raríssimos momentos interessantes do seu álbum de estreia). Raul Seixas em S.O.S. Quinteto Violado e Dominguinhos com Sete Meninas (Toinho e Dominguinhos) e os sambistas que vendem: Jair Rodrigues com Vai Meu Samba e incluída em seu disco Eu Sou o Samba e Marinho de Muda, com Fusão em Caxias (do cantor, em parceria com Nelson Bastos). E mais: do disco Antologia do Samba Canção do Quarteto em Cy, a faixa com Ponto Final e Alguém Como Tu ( Jair Amorim). Para apreciadores do gênero. (APRÍGIO LYRIO)

Para interessados, a reedição do primeiro momento de bossa nova, nos EUA, em palco do Carnegie Hall BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL (com vários intérpretes, cassete 4-10-701-042 AF/Chantecler, em Messias Discos) – As principais manifestações começaram ainda nos anos 50 e alguns discos que foram feitos com a marca “bossa nova”, transformando-se em antológicos: Amor de Gente Moça (com Sylvia Telles), e recentemente relançado pelo selo Evento, da Odeon ou antes, o Chega de Saudade (com Eliseth Cardoso) e um marco na história da bossa nova, com João Gilberto fazendo sua estreia em disco, também Odeon, como violonista e a convite do arranjador Antonio Carlos Jobim – para o disco. Depois aconteceram vários outros nomes como: Maysa; a anteriormente cantora de buate e posteriormente compositora e uma das figuras mais importantes desta fase da música popular brasileira, a inesquecível Dolores Duran; Lúcio Alves e Dick Farney que quinze anos antes já haviam anunciado um maior refinamento, tanto em vocalizações como maior apuro instrumental, em suas gravações, ou mesmo as peças teatrais musicadas – a célebre Orfeu de Conceição, posteriormente filme de sucesso e Pobre Menina Rica que como Orfeu, deixou um importantíssimo (e gravadíssimo) legado para o movimento e que teria sua correspondente, quase dez anos após, na politizada Opinião ainda em 1964 e marcando o encontro entre uma jovem intelectualizada (a personagem vivida por Nara Leão na montagem original), cantando bossa nova e compositores regionais, como o sambista Zé Kéti e o nordestino João do Valle. Mas no início dos anos 60, depois da fama dos discos de João Gilberto (provocou a gravação de alguns temas brasileiros por músicos americanos ligados ao cool jazz, consequentemente a entrada do samba-jazz no Brasil e vários conjuntos seguindo estilo jazzístico com a formação instrumental piano-baixo-bateria) esta praticamente aberta a porta dos EUA para a “nova música brasileira” E foi feito um concerto com alguns nomes famosos no célebre Carnegie Hall, em Nova York – diga-se, aberto para música popular mundial somente na década de 50 começando com Billie Holiday e hoje, cenário pobre para apresentações até das sub-estrelas nacionais, tipo Nelson Ned. Sobre o sucesso do acontecimento, este não aconteceu com grande força mas ficou o registro. E agora, relançado, para os mais interessados e curiosos, só se pode encontrar nas lojas da cidade o Bossa Nova At Carnegie Hall em versão cassete, já que o material não deve despertar muita atenção por parte dos lojistas, nunca preocupados em manter em suas prateleiras material para colecionadores, que sempre tem seu público e mesmo que pequeno, assíduo. Então: não deixa de ser tarefa agradável ouvir e sentir as emoções dos pioneiros do MPB, desta fase, em sua primeira mostra para o mundo e que resultaria na gratificante presença em cenários americanos da legenda João Gilberto e também Antonio Carlos Jobim (este, mesmo vivendo no Brasil, não renega os estúdios americanos para fazer seus sempre admiráveis álbuns). Presentes, na ocasião, o disco/registro do evento mostrou as apresentações, no caso, antológicas (assim como este cassete) de Samba de Uma Nota Só (com Sérgio Mendes), Bossa Nova York (com Carmem Costa, Bola Sete e José Paulo), Zelão (com Sérgio

Entre outros, João Gilberto...

...e Agostinho dos Santos.


Ricardo), Não Faz Assim e Influência do Jazz (com o Quarteto de Oscar Castro Neves, o músico brasileiro que também desenvolveu trabalho “forte” nos EUA e responsável pelo acontecimento dos cantores/compositores em quase todas as faixas), Manhã de Carnaval (solo de violão de Luiz Bonfá) e a mesma canção na voz de Agostinho dos Santos. O segundo lado continua com algumas surpresas: como Chico Feitosa cantando sua composição Passarinho; um Roberto Menescal tímido e errando a letra de sua canção Barquinho; Agostinho dos Santos cantando A Felicidade (como no filme Orfeu Negro); Carlos Lyra com sua Influência do Jazz; João Gilberto com o trio de Milton Banana, fazendo Outra Vez (Tom Jobim); a desaparecida e anteriormente forte Ana Lúcia em Ai Se Eu Pudesse; Caetano Zama com Bossa Nova em New York e o desaparecido Normando, fazendo Amor no Samba. (APRIGIO LYRIO)

As poucas maravilhas de um show gravado (falsamente) ao vivo BRASILEIRO PROFISSÃO ESPERANÇA (gravação do show homônimo, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, disco Odeon, à venda em Golias Discos) – mesmo em 1970, quando pela primeira vez foi montado o espetáculo de Paulo Pontes (autor de “Um Edifício Chamado 200”) baseado em vida e obra de Dolores Duran e Antônio Maria, o show em sua concepção cênica, já estava antiquado. E a direção de Bibi Ferreira deixou bastante a desejar e nem o talento de Maria Bethânia, forçada a uma marcação exagerada e pouco confortável, simplesmente em função de ocupar as dimensões de um palco, e a serenidade de Ítalo Rossi ao declamar textos escritos pelo cronista Antônio Maria conseguiram salvar Brasileiro Profissão Esperança. Recentemente montado na casa de espetáculos (feitos para grande público) do show de Paulo Pontes conseguiu ser a casa de diversões, por razões que a própria razão desconhece. O público frequentador de casas noturnas, acostumado a ver mulatas tipo-exportação, prestigiou “em massa” Clara Nunes no palco cantando as melhores canções de Dolores Duran e um Paulo Gracindo bastante forçado suprimindo os silêncios entre os medleys. E a gravação do show que certamente ficaria melhor em 70, só foi feita em 74 sendo que o espetáculo, com elenco e convidados, foi transportado para os estúdios da Odeon, apesar de, na capa do disco, a citação “gravação ao vivo” esteja presente e com grande destaque. Da sambista Clara Nunes, não se poderia esperar que repetisse a virtuose de Bethânia em suas interpretações das até hoje marcantes Ternura Antiga, Estrada do Sol, A Noite de Meu Bem, Castigo, Fim de Caso, Por Causa de Você, Pela Rua, Solidão, Noite de Paz (todas de Dolores Duran e parceiros) ou então Ninguém me Ama, Valsa de Uma Cidade, Menino Grande, Manhã de Carnaval, Suas Mãos, Canção da Volta, Se Eu Morresse Amanhã de Manhã (todas de Antônio Maria e parceiros) mas a voz pouco maleável não chega a prejudicar completamente as consagradas canções. O ponto fraco do disco é a presença de Paulo Gracindo com sua desmensurada dramaticidade, que chega quase à irritabilidade. E já que o fim do espetáculo foi reservado para um quadro especial (felizmente não incluído no disco) com Clara Nunes cantando Deus Lhe Pague de Chico Buarque de Hollanda, envolvida pelos requebros das “canequettes”, tudo poderia acontecer nesta falsa gravação ao vivo de Brasileiro Profissão Esperança, que só consegue ser interessante pelas músicas, legado de dois importantes autores, já que o texto e montagem do show são bastante primários. (APRÍGIO LYRIO)

Novidades em compactos Entre os lançamentos da Phonogram incluídos em seu suplemento de janeiro, está o compacto de Raul Seixas mais recente e sua contribuição para a trilha sonora de novela “O Rebu”, no momento em exibição. O fato é bastante estranho, mesmo que Raul Seixas faça sua parafernália musical usando elementos do mais puro cotidiano brasileiro, já que em suas composições o uso de guitarras e sons fortes são as constantes e para as românticas novelas estes não são os requisitos mais encontrados. As duas canções do disquinho. Um Som para Laio e Como Já Dizia Vovó lutam bravamente para não cair no infalível ridículo, e o uso de clichês, que tanto favorecem a carreira musical de Jorge Mautner (por exemplo) no caso de Raulzito não passam de bem intencionadas tentativas. A repetição de expressões, transformadas em universais, como Hey Boy, Hey Man, Baby etc, contribuem, também, para que os novos impulsos criativos de Raul Seixas passem completamente despercebidos. Nada Além. Já o Quarteto em Cy, que em épocas áureas da bossa nova fazia sucesso como vocal de fundo para alguns cantores mais famosos, está também presente no suplemento de janeiro da Phonogram com o seu compacto duplo 4 Sucessos em Cy volume 2, que deve passar tão translúcido como todo o trabalho feito pelas “mutantes” em Cy. Entre o repertório usado, bastante variado, podem ser encontradas as músicas: Abre Alas (Ivan Lins e Vitor Martins), No Silêncio da Madrugada (de Luís Ayrão), Menino Doce (Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro) e Se Não for por Amor (Benito de Paula), todas muito bem cuidadas, somente, já que o estilo característico do quarteto não convence ninguém. Nada além. (A.L.)

Clara Nunes e Paulo Gracindo: muita força


Mais uma vez Barbra Streisand pretende ser atual em suas investidas musicais

Way We Were outra vez ajudada pelo cinema (a música serviu de tema para o filme Nosso Amor de Ontem) e ainda gravou canções de Paul Simon e Stevie Wonder. Neste Butterfly, Barbra vai mais longe em tentativas de renovação: grava David Bowie em seu oldie Life on Mars, Graham Nash em seu Simple Man, Jubliation de Paul Anka, Grandma’s Hands de Billy Whiters onde Barbra tenta uma certa negritude assim como em Let The Good Times Roll de Leonard Lee. E contando com arranjos eficientes de Tom Scott e Lee Holdridge, este disco é perfeito para uma certa parte do público que entre drinks, gosta de ouvir música como fundo musical para conversa informal, mas se ouvido com atenção pode provocar severos ataques de monotonia. (APRÍGIO LYRIO).

A sutileza (americana) de como viver seus ídolos

La Streisand: no ar

BUTTERFLY (com Barbra Streisand, álbum CBS, em Golias Discos) – Desde o seu aparecimento no cinema e logo vencedora de um prêmio Oscar por seu trabalho em Funny Girl, a ex-cantora da Broadway Barbra Streisand transformou-se num dos maiores sucessos, em discos e em filmes, para a classe média americana com mais de 30 anos. Com sua voz semi-operística ela repetiu no cinema musicais famosos de teatro como Hello Dolly, fez algumas comédias (por sinal, os seus melhores momentos) e alguns dramas sentimentais. Mas com sua personalidade marcante e fazendo o protótipo da mulher desinibida e jovial. La Streisand apesar de tudo, não consegue passar despercebida. Só que não se pode dizer o mesmo em relação a seus discos, embora a cantora, de uns tempos para cá, tenha se dado ao trabalho de renovar seu repertório procurando novos autores, depois de uma fase afastada de gravação já que sua imagem, lançada no show business americano há mais de dez anos foi usada até o desgaste. (A cantora conseguiu reunir mais de 100 mil pessoas no Central Park e depois desapareceu). E no álbum, In a Clear Day You Can See Forever (que também foi título de filme estrelado por ela) Barbra tentou aproximar-se do rock, interpretando canções de Lauro Nyro e outros compositores do setor, sempre com seu estilo característico, bastante romântica e completamente afinada, com sua voz bonita mas ao mesmo tempo completamente mecânica. Em seu penúltimo disco gravado, La Streisand voltou mais uma vez aos hit parades com a canção The

JAMES DEAN (trilha sonora com músicas e diálogos dos filmes de James Dean, álbum Warner Bros) – James Byron Dean nasceu em 6 de fevereiro de 1931 em Fairmont, Indiana, filho de Mildred Wilson e Winton Dean (da região Quaker) e até os 9 anos, Jimmy viveu no mundo de fantasias que a mãe lhe criara. Conta-se, no mundo de fantasias que a mãe lhe criara. Conta-se em seus wishing games (jogos de desejo) que trazia toda noite, deixando sob o travesseiro seus pedidos escritos num pedaço de papel, sempre satisfeitos no dia seguinte, já estava traçada grande parte de sua personalidade. Com a morte da mãe, ainda jovem, Jimmy fechou-se. E posteriormente teria declarado: “Quando tinha cinco anos, minha mãe me fez tocar violino. Na opinião de todo mundo, eu era um virtuose e podia interpretar o que quer que fosse. Quando ela morreu eu tinha oito anos. Enterrei meu violino quando enterramos minha mãe”. Foi criado por parentes (escreveu num diário: Nunca soube exteriorizar um sofrimento, a não ser no cinema), numa fazenda. E com sua natureza sempre em conflito ao mesmo tempo em que tinha um amor enorme pela vida, em seu quarto tocava tambor de Bali a noite inteira. Algumas vezes, quando havia lua cheia (a paixão), enrolava-se num lençol e passeava pelos charcos, recitando versos de Krats e Shelley. Deixando a fase infantil, aos 17 anos já participava de corridas de automóveis (que aprendera com um pastor, batista, que se tornara seu amigo) e um ano depois, venceu um concurso de arte dramática para amadores em Indiana, com um capítulo de The Madman (O Louco de Charles Dickens. Ainda do diário: “Tive um amigo que me ensinou a lutar, a prender doninhas nas armadilhas, a me bater, atrás do muro da granja, ensinou-me também tudo o que os garotos devem saber e eu apenas começava a viver”. Seu envolvimento real com a arte dramática deu-se pela recusa de Jimmy em conviver com sua madrasta e deixou a fazendo para entrar na Universidade de Santa Mônica. “Serei ator”, ele escreveu ao pai, já que uma voz mais alta do que todas as outras assim o exige, no meu íntimo”. E depois da leitura de Henrique V, de Shakespeare, ele espancou um rapaz que ridicularizou e acabou sendo expulso da escola. Durante um curso de arte dramática, conheceu Richard Shannon (“Dean era como um arco-íris. Não se percebia uma cor somente, mas sim diversas. Todas as cores a um só tempo. A lembrança que me deixou foi a de uma luz

James Dean: a força e a emoção eternas

muito viva”). E foi Shannon quem lhe conseguiu pequenos papéis nos filmes Fixed Bayonets e Has Anybody Seen My Gal. Por sugestão do ator James Whitemore, também impressionado com a força expressiva do jovem rebelde e neurótico ele foi para Nova Iorque, tentando penetrar no Actor’s Studio então a mais famosa escola de atores dos Estados Unidos e dirigida pelo “mestre” Lee Strasberg, da qual saíram os maiores intérpretes do cinema americano, década de 50 e 60. E com sua calça Lev, blusão e mocassins, que não trocava nunca, James Dean chegou a Nova Iorque com 150 dólares no


E Dean atendia a uma exigência dos jovens frequentadores de cinema: mal barbeado, sujo, cabelos em desalinho, irreverente. Em seu apartamento em Hollywood tinha uma forca pendurada. Não demorou muito para que Nicholas Ray contratasse o novo ídolo – Vidas Amargas foi enorme sucesso – para o seu engajado Juventude Transviada/Rebel Without a Cause. Quando filmava Assim Caminha a Humanidade, Giants estava em fase caótica, sempre aparecendo atrasado e bêbado no estúdio. Teria dito, em 1956: “Imaginem um gato abandonado na rua 42 em Nova Iorque. O maior problema, para este gato, não é se perder. Em Hollywood, sinto-me como um gato abandonado, na rua 42, às 20 horas”. E a legenda em torno de James Dean ainda continua forte, mesmo depois de quase vinte anos de sua morte e o que pode ser comprovado com o lançamento deste álbum pela Warner Bros, recentemente e encontrável no mercado de importados. Com trechos do seus três filmes importantes, o primeiro lado do álbum reserva momentos de Vidas Amargas, com música de Leonard Rosenman e diálogos, divididos em faixas, como: Birthday Present, Caleo e Aron, Forgiveness, etc. De Juventude Transviada, o Main Theme e a cena da briga com o pai, com o título Chicken, também com música de Leonard Rosenman. O segundo lado reserva momentos de Assim Caminha a Humanidade, com música de Dimitri Tiomkin. E antes de tudo, um documento importantíssimo daquele que foi uma das maiores forças expressivas (e comunicativas) da história do cinema, um rebelde com causa, um gênio maldito, certamente. (APRÍGIO LYRIO)

Os parcos enluarados momentos musicais de Marcos Valle, em seu último disco

bolso. Foi garçom, lavador de pratos, jornaleiro, motorista de caminhão, quebrador de gelo, estivador e grumete de iate (onde conheceu pessoas importantes e conseguiu uma carta de apresentação para o Actor’s Studio). Fez teste – com O Imperador Jones, do Eugene O‘Neil, e chamou a atenção pela extensão de seu registro vocal e cênico, possuindo uma incrível facilidade para mudar de entonações e para renovar seus gestos. Fez sucesso na montagem de O Imoralista, de André Gide e para Elia Kazan, também ligado ao Actor’s. “Foi um dos mais belos instantes da minha vida”. Logo após contratou-o para o papel de Cal. Trask em Vidas Amargas/East of Eden. Na época (1954) os grandes nomes do cinema eram Marlon Brando, Montgomerry Clift e Marilyn Monroe (todos passaram pelas mãos de Strasberg) e muitos insistiam na necessidade de um novo ídolo.

MARCOS VALLE (com Marcos Valle, álbum Odeon, em Golias Discos) – Em 1964, o compositor e depois cantor Marcos Valle via sua primeira música gravada (Sonho de Maria) pelo Tamba Trio e naquele tempo conseguiu convencer uma parcela do público envolvido com a música brasileira, o mesmo acontecendo com a música brasileira, o mesmo acontecendo com o seu primeiro LP gravado, contando com a participação de seu irmão Paulo Sérgio que colocava letras em suas músicas sincopadas e com tempos curtos. Mas o músico havia aparecido no final da bossa nova e seu estilo ficou um pouco indefinido. Desta fase surgiram Samba de Verão, Dorme, Deus Brasileiro, Preciso Aprender a Ser Só. Logo depois virou moda a música de protesto (?) e surgiram o samba A Resposta, Terra de Ninguém e o maior sucesso da dupla Valle, Vida Encantada. Mas a competência de Marcos Valle era tão grande e tão envolvida com o sucesso fácil que rapidamente o músico viu, já na fase poder jovem, sua composição Mustang Cor de Sangue ser comprada pela Ford para que os Valle criassem a agência Aquarius e iniciassem carreira, fazendo musiquinhas comerciais de acordo com as exigências de cada público específico. E em suas tentativas de adaptação à moda, fosse ela qual fosse, os dois louros irmãos começaram a entupir os ouvintes com seus temas pueris e feitos sob encomenda para trilha sonora de novela de televisão. Entre Pigmaleões, Cafonas, Seivas de Pedra e Ossos do Barão, fizeram a festa, particular é claro. E no momento, fica muito difícil ouvir com seriedade qualquer trabalho dos Valle’s Brothers. No seu álbum de 72, parece que conseguiram se reabilitar perante a crítica especializada mas este Marcos Valle, lançado originalmente no início deste ano, só consegue ser lastimável. E repetitivo e desnecessário nos seus 11 momentos individuais. E faltando com o respeito até com os músicos que o acompanharam, e com os arranjadores (nada é citado na contra capa do disco) Marcos Valle poderia, ao menos, ter poupado dos frequentadores de lojas de discos o esquisito desenho de capa que apresenta seu LP, um surrealismo figurativo de extremo mau gosto. (A.L.)


Reedição dos maiores sucessos do pop-star Cat Stevens

Hurt (do Foreigner), Sitting e Os Caritas (do Catch Bull At Four). Do resto do material usado, destacam-se Father And Son, Wild World, Morning Has Broken e Where Do the Children Play, retirada dos seus álbuns Tea For The Tileman e Teaser For The Firecat. A reedição dos sucessos de Cat Stevens é oportuna, pelo bom trabalho desenvolvido pelo músico inglês e indicado, principalmente para os colecionadores. (APRÍGIO LYRIO)

Araújo, cantor e compositor inspirado.

Stevens: em coletânea.

Reedição dos maiores sucessos do pop-star Cat Stevens AUTÓGRAFOS DE SUCESSO (com o cantor/compositor Cat Stevens, disco Phonogram, à venda em Golias Discos) – Aproveitando as recentes investidas, por terrenos brasileiros, do recordista de vendagem da gravadora Island Cat Steven Dmitri Giorgio” Stevens, sua representante nacional rapidamente incluí na sua série (pessimamente intitulada) Autógrafos de Sucesso, uma coletânea com as músicas que melhor representam o status do pop-star conferido à Cat Stevens. Nascido em Londres em 1948 e filho de pai grego e mãe sueca, Stevens despontou para o sucesso em 1970 com seus bitter-sweet rocks, depois de ter sua carreira interrompida por problemas de saúde. Seu primeiro sucesso veio com a composição I Love My Dog e depois Lady D’Arbanville (esta incluída na coletânea). No primeiro LP lançado, Mona Bone Jakon, o estilo de Cat Stevens ganhou repercussão internacional, e logo a seguir seu disco Tea For The Tillerman alcançou rapidamente os primeiros lugares nas listas dos mais vendidos. Sua música havia se tornado mais refinada e também mais simples com a voz de Cat bem mais doce. Seus discos posteriores Teaser For The Firecat, Foreigner e seu último LP lançado, ano passado, Budha And The Chocolate Box foram acusados de repetitivos apesar do cantor, compositor e instrumentista conservar sua mesma linha, bastante característica, ao fazer seu rock baladas sempre de forma elegante e bem cuidada. Estão incluídas no disco/coletânea as faixas Maybe You’re Right e Moonshadow (do LP Mona Bone Jakon). The

Em boa hora, o relançamento do pernambucano Manezinho Araujo CUMA É O NOME DELE? (com o cantor/compositor Manezinho Araújo, disco RCA/Camden, da Série Documento, em Golias Discos) – A gravadora Marcus Pereira, que fundada em 1974, foi umas das principais divulgadoras da chamada música folclórico e/ou tradicional brasileira, descobrindo novos nomes e relançando outros esquecidos (como o LP de Cartola e a coletânea-homenagem de Donga, este, sambista autor do clássico Pelo Telefone) além de suas séries, vasculhando terrenos até então nunca expirados, como a Música Popular do Nordeste em vários discos e a mais recente Música Popular do Centro-Oeste/Sudeste, foi também a grande responsável por uma maior abertura neste sentido. E várias outras gravadoras têm feito reedições de autores desconhecidos das gerações mais novas, e no caso deste lançamento de Manezinho Araújo, o trabalho foi feito com grande carinho, destacando-se os ótimos e adequados arranjos de Marcus Vinícius. A música nordestina sempre teve grande destaque no “sul” e, introduzida no Rio de Janeiro ainda no início do século, principalmente por ação do violonista João Pernambuco, os seus vários gêneros logo ganharam enorme popularidade. No fim da década de 20, o Brasil tomou conhecimento do nome do cantor/-compositor de emboladas Severino Clemente de Figueiredo Carneiro, o Minoma Carneiro, que foi responsável pelo lançamento de Manezinho Araújo, no rádio e em espetáculos de teatro e que no fim da década de 30 transformou-se no mais famoso representante da música nordestina com suas emboladas, xotes ou músicas românticas, transformando-se no real sucessor de Minoma Carneiro, inclusive gravando de maiores sucessos do seu descobridor. E foi em bom momento que a RCA resolveu editar um disco com os mais conhecidos trabalhos do também compositor/ cantor Manezinho Araújo, hoje mais conhecido como pintor primitivo do que propriamente como músico. E embora insista em dizer que não é um cantor, Manezinho Araújo consegue excelentes interpretações principalmente pelos arranjos, nas treze faixas apresentadas no LP, todas de sua autoria. Entre elas estão incluídas Cuma É o Nome Dele?, Pra Onde Vai Valente (seus primeiros sucessos) e outras mais novas como a bela e romântica em sua simplicidade, Novo Amanhecer ou as humorísticas e satíricas Não Sei o Que Faça, Dor de Cotovelo, O Carité do Coromé e Como Tem Zé na Paraíba entre outras. E para aqueles que não conhecem a versatilidade, a eficiência e os bons estágios da música de Manezinho Araújo, este é um disco mais que indicado. Assim como para os apreciadores ou colecionadores de música popular brasileira. (APRÍGIO LYRIO)


Ringo: Klaatu Barada Nikto?

Entre as atividades de Ringo Star, o lançamento do seu novo disco (voador) GOODNIGHT VIENNA (com Ringo Starr, álbum Apple/EMI Records/Odeon, na casa Pianna) – Depois do fim das atividades dos Beatles, em 1970, o baterista do conjunto Ringo Starr, ou Richard Starkey como mais gosta de ser conhecido (pelo menos o superstar assina suas músicas com o nome verdadeiro), assim como os outros membros do mais famoso conjunto de música pop do mundo começou a investir pelos mais diversos campos do mundo artístico: enquanto John Lennon atingia fãs intelectuais e mais sofisticados, Paul McCartney carregou os adolescentes, George Harrison esteve de mãos dadas com todos os fanáticos integrantes da corte do misticismo e Ringo sempre esteve ligado a um tipo de funky rock simples e fácil (mas com grande charme, diga-se) e voltado para motivos antigos, hoje mais conhecidos ou rotulados como nostalgia.

O filme inspiração

Segundo suas próprias palavras “Não existe nada melhor que o show-business. É maravilhoso Liz e Burton dando festas enormes e comprando diamantes do tamanho de paralelepípedos. Posso até imaginar David Bowie indo à casa dos outros para dançar um tango em troca de um cheque. Igual como Valentino fazia, é claro, e eu gosto muito deste tipo de coisas bem espalhafatosas”. Hoje com 32 anos, Ringo Starr além de gravações tem estado envolvido com o cinema: apareceu em Candy (ao lado de Marlon Brando, Richard Burton e outros), em O Pistoleiro Cage, 200 Motéis (feito com Frank Zappa e inédito no Brasil), e ao assumir a direção da Apple Films fez um filme/documentário sobre o cantor e compositor Marc Bolan intitulado Born to Boogie, interpretou ao lado do cantor Harry Nilsson O Filho de Drácula (que no Brasil) só teve a trilha sonora lançada), fez um papel no filme That’ll Be The Day que é uma amostra sobre os anos 50, explorando a loucura do rock no personagem de um jovem que foge de casa (vivido pelo músico David Essex) e que já teve uma continuação Stardust ambos bastante elogiados pela crítica cinematográfica internacional e no momento acaba de fazer um filme com Raquel Welch, O Cristão Mágico, uma sátira com toques de sadismo e sobre a ditadura: Raquel é o capataz do ditador (Ringo) que mantém para si um harém de centenas de mulheres. E das novas excentricidades do ex-Beatle, está a campanha publicitária que promoveu para o lançamento do seu novo disco

Goodnight Vienna: baseando-se no filme O Dia Em que a Terra Parou um clássico de ficção-científica da década de 50 e realizado por Robert Wise, que conta a história de um viajante de outro planeta que vem à Terra para evitar uma catástrofe atômica, e para tal é forçado a interromper toda a energia elétrica da Terra, sendo que entre os pontos altos do filmes está o disco voador e a frase final dita pelo viajante que salva a Terra da destruição total, Klaatu Barada Nikto. E para a campanha do disco, Ringo fez um filme promocional em roupa brilhante, como um astronauta freak e desceu de um disco voador no teto do edifício da gravadora Capitol, em Los Angeles, vestido à caráter e repetindo o célebre gesto de Michael Rennie no filme. Depois do fracasso dos seus álbuns anteriores, Ringo Starr só conheceu o sucesso individual com o disco Ringo (lançado em início de 74 e considerado um dos melhores lançamentos internacionais do ano passado) e fez este Goodnight Vienna nos mesmos moldes – cercado por uma dezena de superastros do rock (entre eles John Lennon, Elton John, Klaus Voorman, Nicky Hopkins, Harry Nilsson, Dr. John, Billy Preston, Bobby Keys, Jim Keltner), Ringo Starr apresenta algumas canções suas e outras de Lennon, Elton John, Harry Nilson, e antiques de Allen Toussaint, Roger Miller e o hit de Buck Ram e Ande Rand Only You (And You Alone) que foi sucesso com o grupo vocal The Platters e lançado anteriormente em compacto.


Rodeado por uma verdadeira galáxia de grandes nomes, o novo LP de Ringo Starr continua com o mesmo clima despretensioso do anterior e apesar de não poder ser considerado como um trabalho completamente edificante o disco torna-se atraente principalmente pela presença de Ringo, que de certa forma não apresenta nada de novo em suas interpretações vocais, nem em suas composições que são somente elegantes, mas longe de serem criticadas e a verdadeira impressão que se tem é que as sessões de gravação foram muito divertidas. As melhores faixas são aquelas feitas de encomenda para Ringo como Snookeroo de Elton John e seu parceiro habitual Bernie Taupin e Goodnight Vienna de John Lennon (que já foi título de canção antiga e expressão usada no (ilegível) que significa “eu estou indo embora” bastante coerentes com o espírito do álbum. E Ringo ainda reserva espaço para fazer crítica ao “abuso” de drogas pelos jovens na canção No No Song (de Hoyt Axton) e falar em amor em Husbands and Wives certamente uma mensagem para sua recentemente anunciada ex-mulher. Mas o disco é agradável em todos os momentos e o novo colorido dado a Only You é completamente eficiente. Um trabalho para ser ouvido muitas vezes, sem maiores preocupações, com brilhantes arranjos, tudo em clima de festa. (APRÍGIO LYRIO).

A nova extravaganza pop, com elenco “all-stars” FLASH FEARLESS VERSUS THE ZORG WOMAN PARTS 3 AND 6 (com vários intérpretes, álbum Chrystals Phonogram, à venda breve) – Enquanto isto, o mundo pop continua ativíssimo – mesmo que alguns preguem por um desgaste, o que de certa forma seria inevitável com o enorme acúmulo de lançamentos que só fazem na maior parte das vezes lotar prateleiras de lojistas – e também reserva surpresas inesperadas como o aparecimento deste até então anônimo Flash Fearless... e do qual anuncia se, breve será transformado em um material para palco por Weston Gavio. E como lançamento do material musical da possível extravaganza, este não poderia ser variado e em estilo superprodução e, para os mais curiosos, uma interessantíssima reunião de alguns dos mais famosos nomes do pop internacional nunca antes fazendo música juntos. E desta união do selo Scratchs Records da irreverência começa por aí com a Chrystals Records com algumas outras associações resulta em vários estilos e só o som dos músicos incluídos já garante a aquisição do álbum.

Como uma coletânea sem a necessidade de muita coerência entre as faixas, a abertura lenta pela vocalista Elkie Brooks (todo o material é composto por Steve Hammond, Dave Pierce e Rick Jones) com a faixa Trapped e com a base seguríssima dos stars John Entwistle, Mick Grabham, Carmine Appice, Nicks Hopkins e o Thunderthings segue Alice Cooper com a deliciosa [ilegível] especialmente ela – no momento em grande evidência com a tour pela Inglaterra, ao lado de Heavy Metal Kids. I’m Flash: Jim Dandy também está presente com o seu Black Oak Arakansas, ao lado de Justin Hayward, Entwistle e Hopkins. Base forte para o vocalista com sua voz rude e tentando o típico, as canções Country Cooking e Blast Off. Outro momento bastante atraente e feito por John “The Who” Entwistle no blues In The Chop, enquanto Alice Cooper sempre completamente elétrico [ilegível] com a fantástica Space Pirates, uma brincadeira com as odisseias espaciais provocadas por algumas estrelas do rock. O vocalista James Dewar aparece eficiente em seu lamento What’s Happening com algumas incursões de Eddie Jobson em cordas e que também tem um momento reservado para ele e seu sintetizador fazendo o tema Trapped, desta vez somente instrumental. E para os mais assíduos frequentadores do pop internacional de qualidade esta festa não poderia ser mais gratificante [...ilegível...] de certo ponto e uma mostra dos talentos de elenco all stars reunido para a ocasião.


O escândalo da nostalgia, para provar que quase tudo é entretenimento OS BONS TEMPOS DE HOLLYWOOD (com vários intérpretes, álbum duplo CBS, à venda em breve) – Segundo o release da gravadora: “Um álbum duplo, com 24 faixas selecionadas reunindo músicas inesquecíveis do cinema na interpretação do cast CBS. E como finalidade, além de possibilitar aos mais jovens um conhecimento panorâmico das melodias mais famosas de 30 ou 20 anos atrás, a

comemorativo e um dos maiores sucessos em bilheteria da temporada 74/75 o que já deu margem a uma continuação nos mesmos moldes – mas foi coerente em um ponto: uma concessão à onda (ou melhor, vagalhão) de nostalgia, no caso, despreocupada em termos qualitativos. Embora tais pontos sejam importantes para um melhor discernimento do material apresentado, qualquer um pode sonhar com as condições que lhe forem apresentada e, no fundo, ao se ouvir uma intérprete menor, porém participante, como Doris Day ou então Frank Sinatra cantando fielmente os maiores sucessos cinematográficos e mesmo que estejam cercados por outros músicos essencialmente comerciais o resultado total não deixa de ser curioso e satisfatório, principalmente pelos bons momentos apresentados neste forçado Os Bons Tempos de Hollywood. Certamente o ponto alto do escândalo da nostalgia não se encontra nas faixas do disco mas, nas

Ringo: Klaatu Barada Nikto?

CBS vê, no disco, uma concessão à onda nostálgica que envolve o mundo e embevece povos de todos os países; com canções registradas por vários vocalistas famosos e orquestras igualmente conhecidas do grande público”. Embora (pode-se considerar como tal), o fenômeno nostalgia já tenha conseguido alcançar os píncaros do descaso e total desgaste, depois do lançamento em disco da trilha sonora do filme That’s Entertainment/Era Uma Vez em Hollywood a CBS faz o mesmo e da mesma forma – álbum duplo e usando para ilustração as fotos dos filmes da Metro que foram homenageados no famosos musical

Alguns participantes: Alice Cooper e John Entwistle

inner sleeve notes de autoria da Salvyano Cavalcanti de Paiva, desvairadamente folclórico e fazendo uso de expressões berrantes para informar ao público desinformado da importância dos momentos musicais apresentados e falando coisas como “a canção que estourou em 1950, arrebatando prêmios em Hollywood, Paris e Cabrotó, brincava com a Gioconda de Da Vinci e seu sorriso de pistoleira da Barra da Tijuca”, tudo isso para falar na canção Mona Lisa. Considerações à parte, entre as 24 faixas estão, românticas e dançáveis, The Man I Love, com Les Elgart e orquestra e, ainda com o maestro, o clássico de Cole Porter Beguin the Beguine. Com Doris Day, no início de carreira cantora de relativo sucesso ao lado de Harry James e depois envolvida com filmes fúteis em Hollywood as canções: Pillow Talk (de um dos seus maiores sucessos cinematográficos Confidências à Meia-Noite), April in Paris, By The Light of The Silvery Moon (do seu filme Luar Prateado) e até o famoso e gravadíssimo Singing in the Rain (do filme Cantando na Chuva). Com “A Voz”, para os menos informados em nostalgias nada menos que a vedette Frank Sinatra, alguns momentos memoráveis: Laura, Body and Soul, Stella by Starlight e até Rosemary Clooney aparece, cantando Love Letters com o conjunto Hi-Lo’s. Ainda de vocalistas, os comercialíssimos: Johnny Mathis está presente em It’s Not For Me to Say, Vic Damone (quem se lembra?) em An Affair to Remember (do filme Tarde Demais para Esquecer), Frankie Laine está em Mona Lisa, Tony Bennet canta Smile (do filme Tempos Modernos) e Andy Williams lembra Moon River enquanto os inexpressivos Matty Bobbins (com o tema de A Árvore dos Enforcados) e Johnnie Ray (com As Time Goes By do filme Casablanca) também foram incluídos na coletânea. Das orquestras dançantes Harry James faz, com seu trumpete e banda característicos, Embraceable You Ruby: Ray Conill está em Love is The Many Splendored Thing; Percy Fait e orquestra em The Apartment (tema de Se Meu Apartamento Falasse), Tara’s Theme (de ...E O Vento Levou), The Song From Moulin Rouge e Never on Sunday (de Nunca aos Domingos). Como registro, quem negaria que não se trata, para um público específico, de entretenimento? APRIGIO LYRIO


O mais recente (e importante) trabalho da estrela Barbra Streisand, feito em estúdio: com apuro

influência de Kris Kristofferson e Rita Coolidge), Stevie Wonder (You and I, retirada do álbum do famoso cantor/compositor/tecladista, Talking Book), A Child is Born (Dave Grusin) e relembra com grande classe – e este é o seu melhor momento no álbum – o antigo blues Moanin’Low, da dupla Dietz-Rainger. E para La Streisand, de sua forma, um dos seus melhores trabalhos em estúdio em oito anos de carreira. O que não deixa de ser importante, para os mais interessados. (APRÍGIO LYRIO)

Uma boa oportunidade de conhecer a música de Vitor Assis Brasil

Steisand: gravando com Rupert Holmes e em still.

LAZY AFTERNOON (com Barbra Streisand, álbum 137 911 CBS) – A atriz/cantora Barbra Streisand, quase depois de dez anos do seu prêmio Oscar e, consequentemente, sua descoberta e sucesso cinematográfico – até hoje ela é considerada como um dos maiores nomes femininos do cinema em termos de bilheteria – com o filme Funny Girl (musical baseado na vida da cantora da década de 30, Funny Brice que recentemente ganhou uma continuação cinematográfica, Funny Lady) conseguiu unir num disco “particular” tudo aquilo que realmente pensa da vida, ou mesmo, sua participação ativa na política americana, onde pode ser vista como uma esquerdista participante, menos que Jane Fonda, é claro, mas com a mesma intensidade que Robert Redford, Paul Newman e Steve McQueen, os dois últimos companheiros seus numa companhia independente produtora de filmes e Redford, seu galã no filme Nosso Amor de Ontem, o engajado estudo sobre Hollywood em duas décadas e a atuação dos mais interessados, na época do macarthismo. Sua interpretação, sem dúvida, foi interessante como quase tudo que a cantora Barbra faz, com seus exageros, sua presença marcante e, principalmente, suas destacáveis unhas, sempre notáveis e em alto grau de movimento. E depois de algumas tentativas na Broadway, Barbra Streisand literalmente “estourou” nos palcos vivendo Funny Brice, em 1967 e desde então sua carreira não parou. Assim como seus discos, sem contar as trilhas sonoras, que a partir de 70 ganharam uma certa renovação, quando a cantora decidiuse a gravar alguns nomes importantes em baladas, como Laura Nyro e até recentemente, quando incluiu David Bowie (faixa Life on Mars) no seu cansado e anterior álbum Butterfly. E mesmo que Barbra insista em se definir como “uma atriz que canta” chega a ser difícil saber quem vem antes. E o seu capricho ao confeccionar este Lady Afternoon chega a extremos. Barbra, sempre pensando em comida (“não é perturbador saber como comida e música vão tão bem juntos”) resolveu colocar na capa interna seu relacionamento com as músicas gravadas, como e por que apareceram seu grande amor pelo maestro e arranjador Rupert Holmes ao mesmo tempo em que anuncia que cortou suas unhas e prova com uma foto, “caso alguém tenha notado, para aprender a tocar guitarra”. E continua: “Eu detesto cozinheiros-chefes que não gostam de compartilhar seus segredos. Para mim, não é bastante comer um bom prato, somente. Eu penso que se eu entender todos os elementos envolvidos em sua preparação, minha experiência será mais intensa como minha mente, assim como o crescer do meu gosto. Enquanto deixo usualmente o vinil falar por ele mesmo, foi bastante agradável fazer este álbum e pensei em contar como cada canção foi trabalhada. Afinal não quero ser como um cozinheiro-chefe que não gosta de compartilhar seus segredos”. Pretensões à parte, Barbra soa delicada e restrita na maior parte das canções e essencialmente consciente sobre tudo aquilo que gravou. O disco tem como abertura, “um conselho de Francis Ford Coppola” a canção esquecida Lady Afternoon, retirada do musical dos anos 50 The Golden Apple. Não é preciso dizer que os arranjos criados por Rupert Holmes estão excelentes e completamente de acordo com o espírito de cada canção, mostrando e dando ênfase a uma Barbra Streisand intérprete mais calma e relaxada. Especialmente dedicada a ela, a música My Father’s Song, composta por Holmes, de quem Barbra ainda grava mais três canções, sendo que By The Way é o primeiro tema feito pela cantora: ao citar o fato, ela fala em Carole King e Joni Mitchell e a importância no trabalho da composição para uma cantora. Também se sai muito bem fazendo um tema próprio para “discotecas” Shake Me, Wake Me, sucesso dos antigos The Four Topes. Grava também Paul Williams (I Never Had It So Good), por

VICTOR ASSIS BRASIL (com o saxofonista Victor Assis Brasil e conjunto, disco Magic Music CID à venda em Golias Discos) – Por iniciativa do empresário George Elis, foi gravado ao vivo diretamente do palco do Teatro da Galeria, Rio de Janeiro, e fazendo parte de um das noites instrumentais promovidas por Elis todas as segundas-feiras, uma das apresentações de Victor Assis Brasil, e o quarto disco brasileiro de sua carreira quase heroica de jazz-man num país em que tal gênero musical não está incluído entre aqueles que compõem suas raízes, apesar do jazz (nada além de um conceito, ou rótulo) ser um nome para indicar maior liberdade instrumental, com seus improvisos em temas suas dissonâncias que têm origem na música negra e, usado em todos os estilos musicais mais sofisticados. Irmão do pianista clássico João Carlos Assis Brasil e do flautista Paulo Assis Brasil, Victor, apoiado pelo suporte econômico da família, trilha sua carreira de “o mais conhecido músico de jazz” há mais de dez anos e, antes de partir para estudos nos Estados Unidos, o saxofonista declarava na revista Veja de 2/9/70: “Tocar jazz profissionalmente no Brasil é uma piada. Não há empresários, nem divulgação. Por isso sou, infelizmente, o único que persevera na luta. Posso fazer isso, porque minha família tem recursos para me ajudar. E só não desisto porque gosto”. E neste quarto disco de sua carreira (e como nos anteriores Desenhos, Trajetos e Victor Assis Toca Tom Jobim) o músico não foi forçado a relegar sua posição jazzística, sempre ligada ao lirismo da primeira fase da carreira de John Coltrane, mesmo depois de quatro anos de estudos, como bolsista de Berkley School of Music, de Boston, e após ter formado um conjunto El Cinco, muito convocado para apresentações, ao lado dos músicos Cláudio Roditi (trumpete), Zeca Assunção (baixo), Nelson Aires (piano). E da sua volta ao Brasil, Victor Assis continua com sua delicadeza e seu fraseado limpo em sax alto e soprano, apoiado pelo também excelente sopro Marcio Montarrovos (no trumpete) mais Lula (bateria), Paulinho Russo (baixo) e Alberto Farah (piano elétrico), músicos que por si já justificam a presença (ou aquisição) deste mais recente LP de Vitor Assis. E se o jazz man Victor não conseguiu, na apresentação de suas composições, esquecer o velho esquema de executar o tema-improvisos sobre o tema, feito por todos os instrumentos – volta ao tema principal – final, tal fato é minimizado pela invulgar qualidade dos músicos e arranjos, principalmente no samba-jazz Pro Zeca (lembrando os afros de Art Blakey and The Jazz Messengers), em Puzzle (destaque para o trumpete de Marcio Montarroyos) e Waving (num delicioso e romântico 6/8). E a quarta faixa do LP ficou reservada para Victor Assis mostrar toda a sua virtuose, lembrando o falecido e inesquecível Eric Dolphy, ao executar Somewhere (de Leonard Bernstein e Stephen Sounhein e uma das canções do musical da Broadway, depois levado para o cinema com enorme sucesso, West Side History/Amor Sublime Amor. E já que o cenário em termos de jazz, na música brasileira é praticamente inexistente, esse disco de Victor Assis Brasil deve ser recebido com o maior respeito e carinho, não como filantropia mas pelo excelente trabalho apresentado e inigualável qualidade de gravação, no caso ao vivo, sempre deficiente no Brasil. (APRÍGIO LYRIO)


Qual seria a diferença entre os músicos Sérgio Mendes e Emir Deodato

Gravado ao vivo no Mississipi River Festival, certamente os puristas do jazz não sentiram nenhuma emoção ao ouvir St. Louis Blues (o clássico de W. C. Handy) em ritmo de samba, ou mesmo a adaptação da Pavana para uma Princesa Morta de Maurice Ravel para jazz – à maneira de Eumir, é claro. Suas composições Rio Sangue, Super Sret, Avin e Farewell To a Friend são bonitinhas porém... E o novo disco não foge a regra estabelecida por Eumir: “O dinheiro – o mercado – é o mais importante; o artista tem que se adaptar a ele pois não adianta fazer arte para meia-dúzia” (uma de suas primeiras declarações depois da fama). Quem estiver interessado, o disco está à venda. (APRÍGIO LYRIO)

Um pouco renovado: o novo disco do maestro americano mais dançado. No Brasil.

Deodato: Artisteria?

ARTISTRY (com Eumir Deodato, álbum RCA/ Chantcler, em Golias Discos) – Segundo suas próprias palavras: “Meu negócio é fazer arranjos. Não quero compor nem inventar sons loucos e novos. O que realmente me dá prazer e pegar uma grande obra e dar-lhe uma vestimenta contemporânea. No momento, sou dos artistas brasileiros talvez o que mais se preocupa em divulgar o que existe de melhor da nossa música”. Filho de serralheiro, Eumir Deodato nasceu no Rio, em 1943, e iniciou sua vida musical tocando acordeão. Depois de participar do movimento inicial da bossa nova e depois, contratado como arranjador da Odeon, Eumir foi para os Estados Unidos em 67 e após um início complicado, em 70 já estava fazendo arranjos para alguns cantores famosos, como Frank Sinatra. E foi através de uma obra erudita, o Assim Falava Zaratrusta que Deodato literalmente “estourou” nos Estados Unidos e seu sucesso pode ser comparado, em termos, à explosão de Sérgio Mendes na década passada também nos Estados Unidos. Enquanto Mendes fazia sua música comercial e dançável bastante coerente com o espírito da época. Deodato fazia o mesmo e apesar de tentar se envolver com as últimas tendências da música, a sua contemporaneidade é completamente comercial. Mas Deodato é bastante esforçado e consegue fazer sua música com cuidado e apuro mas dedicada exclusivamente ao público despreocupado mas informadinho. Nada além. E reunindo, em sua maior parte, material já gravado em outros discos esse Artistry (ou artisteria) de Eumir não apresenta nada de novo nem acrescenta nada em sua carreira.

LAUGTHER IN THE RAIN (com Ray Conniff, CBS – A orquestra do maestro Ray Conniff com seu coral misto cantando muito afinadinho e pouco preocupado com as letras das melodias – essas na maioria das vezes encontradas nas paradas de sucesso ou então, alguns clássicos do popular americano – os voltejos misturados a uma pouco brilhante mas esfuziante vesão de sopros serviu como ilegível para muitos comitês de danças nos chatíssimos anos 30. E ao se falar em Conniff também seria imperdoável deixar de lembrar as embalagens dos seus discos, sempre com fotos de mulheres muito bem “cuidadas” e com aquele tipo de título imutável. E mesmo vinte anos depois, Ray Coniff ainda continua funcionando perfeitamente e apesar de nunca ter sido um músico considerado nos Estados Unidos, seu sucesso é inegável no Brasil e em alguns países latino-americanos. E um pouco afastado de seu gênero, que conserva até em seu último disco, lançado aqui no final do ano passado com o nome O Som Alegre de Ray Coniff/I’m The Mood quando o músico gravou, além de novos sucessos, In The Middle, You Made Me Love You, Chattanooga Choo Choo e The Entertainee, no novo álbum preocupou-se somente em fazer um apanhado modernoso maiores sucessos comerciais da temporada e até removeu o espírito dos seus vocalistas – cantando entre outras Having My Baby (de Paul Anka), Sundava (de Gordon Lightfoot), Season In The Rain (de Jaeques Brel) e aquela que dá título ao LP Laughter In Coniff na chuva.

The Rain (uma oldie de Neil Sedaka, por sinal o grande sucesso do veterano cantor de rock-baladas depois de sua festejada

volta) – e principalmente de seus arranjos para orquestra. Apesar de perder consideravelmente para gravações originais, Coniff é coerente com suas tendências fazer música facilmente assimilável e dançável sem maiores preocupações estilísticas e o disco pode ser ouvido com o mesmo espírito, tudo em prol da cansadíssima nostalgia. (A.A.)

Um disco bem comportado e pouco sincero de um cantor/ compositor indefinido.

Paulo Diniz: exâmine

PAULO DINIZ (com o cantor e compositor Paulo Diniz, álbum Odeon, na Casa Pianna) – O músico Paulo Diniz conservase naquela faixa de artistas que conseguem sucesso através de apresentações em televisão, para um tipo de público menor e completamente despreocupado e entusiasta ou em programações de rádio – estas sempre preocupadas em preencher seu tempo obrigatório com autores desinteressantes mas que não podem ser considerados como os representantes da trash (lixo, restolho) music que tem vários adeptos no Brasil, como Valdick Soriano, Cláudia Barroso, Adriana, Diana, Vanusa ou Nalva Aguiar para não citar os vários outros. E depois do lançamento do seu terceiro disco, no segundo semestre de 73 com o sincero título Lugar Comum, o pernambucano Paulo Diniz, mais precisamente da cidade de


Pesqueiro, andou escondido nos últimos tempos e para isto tem explicações: “Meu objetivo é criar uma jovem música brasileira para que todos possam aderir e assimilar um novo som. Isto porque estamos totalmente isolados e eu me sinto muito só. Creio que chegou a hora de uma pesquisa coletiva em busca de um ritmo brasileiro que possa ser exportado”. Mas de seus sonhos utópicos, quase nenhum deles consegue chegar à realidade palpável... a não ser em alguns dos seus sucessos em música, como foi o caso de O Chorão que lançou o cantor em 67, o seu I Want To Go Back To Bahia em 70, sua adaptação do poema de Carlos Drummond E Agora José e também o seu Piripiri. Com sua voz rouquinha claramente calcada nos cantores negros americanos modernos, Paulo Diniz assim como Tim Maia, pode ser considerado com um dos principais representantes brasileiros do comercial gênero musical surgido na América no fim da década passada e rotulado como soul music, que de alma não tem nada e consegue ser o verdadeiro lixo do jazz e do blues. E como Paulo Diniz sempre anuncia “sou muito comportado e nem um pouco revolucionário” seu disco mais recente poderia ser intitulado Lugar Comum Nº 2 que não faria a menor diferença. E cantando em inglês e português, o músico apresenta doze faixas – a maioria de sua autoria em parceria com Odibar – e faz uma recriação do clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira Baião numa versão simplificada e pouco eficiente assim como todo o material usado no disco, que apesar de vir com bons arranjos (de Geraldo Vespar, Orlando Silveira e J.R. Bertrami) é intensamente desagradável. E, talvez para que se tenha maior conhecimento das imbecilidades que envolvem as ritmadas melodias, o disco vem com um encarte contendo todas as letras das músicas. Quem estaria interessado? (A.L.)

Outro lançamento de música soul e apoiado na re brasileira do grupo de Harold Melvin

A mesma fragilidade (desnecessária) depois de mais de vinte anos de carreira DORIS MONTEIRO (com Doris Monteiro, álbum Odeon, em Golias Discos) – A cantora Doris Monteiro sempre esteve um pouco deslocada no cenário da música popular brasileira mas pelo menos é sincera consigo mesma e com seu público e se reconhece acomodada. E para o público que acompanha sua carreira há mais de vinte anos. Inclusive comprando seus discos, sua característica principal, felizmente, é a de não sentir tédio muito facilmente e não se preocupar em esperar das gravações da cantora um mínimo de qualidade ou renovação. E ainda envolvido por um certo espírito nostálgico, este público consegue não se frustrar e a cantora explica: “Meu estilo é muito ingrato. Não quero gravar música muito difícil e muito menos água-com-açúcar. Prefiro sambas de nível médio”. É claro, bem de acordo com seus fãs. Mas Doris Monteiro, aliás Adelina Dóris Monteiro surgiu numa época em que estava acontecendo uma certa mudança na música brasileira (principalmente depois do sucesso de cantores mais apurados e românticos como Dick Farney com o seu inesquecível Copacabana e também Lúcio Alves e com seu “jeitinho” agradável de cantar, conseguia anunciar a bossa nova. Dóris fez sua estreia ainda bastante jovem em 1951, na Rádio Guanabara, realizando seus sonhos de menina pobre e dedicada. Logo depois foi contratada como crooner do Copacabana Palace. Mas, segundo a cantora, a verdadeira estreia deuse em 1949 no famoso programa de Renato Murce “Papel Carbono” fazendo imitação da cantora Lucienne Delile e sua primeira gravação aconteceu em fins de 51 na Todamérica transformando-se rapidamente em sucesso imediato: a música era o samba canção Se Você Se Importasse de Peterpan. Depois vieram outros sucessos de público como Quantas Vezes, Sou Tão Feliz, Agulha no Palheiro (título do seu primeiro filme, dirigido por Alex Vianni e atividade que afastou Doris dos meios musicais por algum tempo, quando a cantora apareceu em algumas chanchadas – mas teve uma volta quase que consagradora cantando Dó-Ré-Mi (do compositor Fernando César que ainda deu dois sucessos para Doris Monteiro: Cigarro Sem Batom e Graças a Deus. Nos anos 60 a cantora esteve praticamente ofuscada pelos novos caminhos que a música (pode-se dizer mundial) tomou e afastouse de gravações fazendo raras aparições em programas inexpressivos de televisão. E com seu repertório médio Doris Monteiro voltou a fazer discos e em 73 lançou um LP (Doris) com regravações sempre mais monótonas do que as originais e incluindo em seu repertório composições de autores mornos/modernos como César Costa Filho ou de duplas como Toquinho/ Vinícius e Antônio Carlos-Jocafi até Roberto Carlos e Erasmo Carlos. E o esquema é repetido neste seu disco lançado em fins de 74, com um repertório desigual, monótono ajudado pela voz sem variações da cantora e com arranjos formais de Carlos Alberto de Souza e Geraldo Vespar. (Mas o que se poderia esperar, afinal, de um novo disco de Doris Monteiro?). A cantora recria Se Você Se Importasse, Vingança, Dor de Recordar e principalmente Amendoim Torradinho com alguma vitalidade, mas inclui em seu novo trabalho algumas “páginas musicais” completamente inconcebíveis, em relação aos outros momentos, como A Nega e o Rebolado e Mestre Antônia da compositora (?) Elizabeth e faz incursões regionais com Fiz a Cama na Varanda e Meu Boi Cerejo. E em seu todo, este Doris Monteiro só consegue despertar uma reação no ouvinte mais atento: sonolência. (APRÍGIO LYRIO)

Com seu Blue Notes: dançável.

HAROLD MELVIN AND THE BLUE NOTES (com Harold Melvin e conjunto vocal, álbum Epic/CBS) – O grupo foi considerado, ano passado, como um dos melhores intérpretes da música negra americana atual ou melhor, um dos maiores destaques em vendas de 74 e expressões maiores do soul boom. A vida artística e os envolvimentos com a música não diferem muito das outras “expressões” ligadas à música soul – cantor principal do coro da Igreja Presbiteriana de Boston. Harold Melvin formou o seu conjunto em 1967 e iniciou fazendo apresentações em clubes, na televisão e cassinos. Até que, no começo da década de 70, cantando em Las Vegas foram vistos pelos produtores/compositores Ken Gamble e Leon Huff – donos da Philadelphia Records que imediatamente interessaram-se pelos impulsos musicais do grupo. Do encontro, surgiram as primeiras gravações de Harold Melvin que com sua voz quente e interessante assim como seu desenvolvido conhecimento em teclados mais, com um pouco de versatilidade, logo pôde ser comparado aos originais representantes do Philly Soul (natural da Filadélfia). E das gravações de Melvin com seus mutantes Blue Notes, todas foram parar em paradas de sucessos, muitos singles e a maior parte das composições assinadas pela dupla Gamble-Huff. Depois de algumas incursões em coletâneas (Black Beat números um, dois e três) mas alguns compactos só agora sai no Brasil o primeiro álbum do grupo, principalmente pela recente vinda do Harold Melvin em tour por alguns estados brasileiros e mostrando seu trabalho em ambientes que não podem ser considerados como os mais elegantes e usados por personalidades internacionais porém fiéis ao espírito do trabalho. Haroldo Melvin and The Blue Notes têm plena consciência para quem estão fazendo música e parecem bastante satisfeitos, agora depois do reconhecimento, em fazer ritmo comum mas dançável, algumas canções românticas, tudo bem gravado e bonitinho, e até fazer uso de uma vocalista, Sharon Paige a mais nova aquisição do grupo para quebrar um pouco do espírito solo de Melvin e os vocais de fundo feitos pelos outros integrantes, Bernie Wilson, Larry Brown, Loud Parks e Theodore Pendergrass. E com um estilo simples e sem envolvimentos com complicações sonoras que ao momento começaram a assolar o soul, o espírito e límpido e eficaz: assim como não se sentem muito preocupados com o tempo (cada faixa do álbum tem mais de cinco minutos) existe maior exploração dos temas onde se destacam os também dançados em forma compacta The Love I Lost, Bad Luck (este rapidamente após seu lançamento foi parar nos hit-parades da vida) e To Be True, entre outras. A participação de Sharon Paige acontece com destaque na faixa Hope We Can Get Together Soon, o último momento rotativo do álbum rebolativo. Fica o registro. (APRÍGIO LYRIO)


ecente turnê

Como há dez anos atrás, a gravação de um show de “MPB” sentimentalóide O IMPORTANTE É QUE A NOSSA EMOÇÃO SOBREVIVA (gravação ao vivo do show homônimo, com Márcia, Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin, álbum Odeon, na casa da Pianna) – De acordo com as intenções do autor do show O Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva o compositor Paulo César Pinheiro, conhecido por suas parcerias em canções com o violonista Baden Powell, o espetáculo é “ainda do tempo em que o coração valia muito mais, a ambição era menor e a nossa intenção é exatamente mostra esta diferença. Eu queria um encontro entre nós, uma completa participação”. E sob estes pretextos, elaborou seu show que agora chega em forma de disco, gravado ao vivo não se sabe onde, e envolvido por um romantismo completamente obsoleto. E como nos espetáculos deste tipo feitos de dez anos atrás, a grande parte das músicas apresentadas são de Paulo Pinheiro e Eduardo Gudin, a cantora Márcia (aquela que fez sucesso no Festival da Record de 67 com Eu e a Brisa de Johnny Alf ) fica com a maior parte das canções, o letrista Paulo Pinheiro recita alguns textos e até um poema de Carlos Drummond de Andrade (Resíduos) e Eduardo Gudin contenta-se em tocar seu violãozinho e cantar uma música, tudo muito certinho e capaz de emocionar os mais lacrimejantes, nada além. Num saldo geral, as composições apresentadas neste “show-fantasma” não são completamente desagradáveis: a cantora Márcia está muito bem disposta tanto em músicas lentas (Veneno, Resíduos, Velho Casarão todas de Pinheiro e Gudin) ou nas mais ritmadas (Consideração e Marcha-Rancho): Paulo César Pinheiro apresenta, com sua voz rouca lembrando Nelson Cavaquinho, uma composição deste (Tatuagem) com letra simples e eficientíssima, bem ao estilo do mestre que deveria ser assimilado pelo autor Pinheiro que na maior parte do seu trabalho faz um aglomerado de palavras sem o sábio “dom” de síntese e participa com Márcia e Gudin nas canções Consideração, Mordaça (esta gravada anteriormente pelo MPB-4 em seu mais recente LP gravado Palhaços e Reis) e fazendo vocal de fundo para Eduardo Gudin em Justiça, também da dupla. O disco reserva ainda dois bons momentos: Márcia cantando Refém da Solidão de Baden Powell e Paulo César Pinheiro (gravada por Elis Regina) e o chorinho Ingênuo um dos últimos trabalhos de Pixinguinha com Benedito Lacerda e Paulo César Pinheiro, também cantada por Márcia. Indicado para os amantes da música popular brasileira acomodada, para os facilmente emocionáveis ou para aqueles que insistem que o importante é que as nossas emoções antigas sobrevivam. APRIGIO LYRIO

Cantoras: entre “duas sambistas”, uma representante do pop internacional. Para os mais acostumados. CLARIDADE (com Clara Nunes, álbum Odeon, à venda breve) – Segundo texto, na capa interna do álbum – e bem de acordo com a situação atual da cantora, uma das que mais vende discos no Brasil e estrela consagrada principalmente depois do espetáculo Brasileiro, Profissão Esperança – com fotos, decalques, pôster, letra das músicas, “por volta de 1968/1969 não havia ninguém que cantasse samba, nem acreditando nele. As serestas morriam e o choro agonizava. O samba de escola, só no carnaval. E Clara Nunes preferiu o samba e foi mais longe. Seu canto trouxe também o terreiro, o sincretismo religioso, as raízes africanas de nossa cultura, as que mais a marcaram”. E da mineira Clara Nunes, o sucesso: depois do seu álbum anterior, Conto de Areia que vendeu mais de 250 mil cópias, veio o disco do show Brasileiro, Profissão Esperança, também um recordista, na nova montagem do espetáculo feito inicialmente em 1970 com Maria Bethânia e Ítalo Rossi e retalhos da vida de Antonio Maria e Dolores Duran. E seguindo o mesmo esquema do seu LP anterior e de número 5, Clara com sua voz limpa e em sua característica de estrela consagrada grava os mais considerados sambistas, como Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e até Paulo César Pinheiro e, como resultado, um disco bem cuidado, com repertório elegante porém monótono em suas pretensões de simplicidade e comunicação. Indicado aos fãs de cantora ou do gênero. Nada Além. LENY ANDRADE (com Leny Andrade, envolvida com o samba – já que este vende bastante. Em um passado um pouco mais glorioso, Leny era a mais considerada vocalista brasileira envolvida com o samba-jazz e participante ativa das jam-sessions da década de 60. Até que, com seus excessivos malabarismos vocais, ficou famosa ao lado de Peri Ribeiro no show Gemini V que também virou disco de sucesso e Leny fez dois discos interessantes para a Odeon, na metade dos anos 60. Depois de um período longo trabalhando no exterior, Leny reaparece com tentativas mais populares – participou, ao lado de Jair Rodrigues em show para a Feira da Providência deste ano – e agora aparece com um “disco de sambista”. E talvez o samba faça alguma coisa pelo “cantar” de Leny Andrade, apesar de tudo ainda conservado seu fraseado limpo, sua força interpretativa e a voz rouca, sensual


e apurada já com os excessos (cansativos) ou então, a cantora possa fazer alguma coisa pelo samba. Enquanto, com um pouco de classe interpreta composições medíocres, se sai bem fazendo Pr’Um Samba, de Egberto Gismonti e Praça Mauá, de Billy Blanco “quando lembra Dolores Duran e suas influências: sua interpretação para o clássico Folhas Mortas, de Ary Barroso, é um desastre completo. No fundo, uma cantora com algum potencial fazendo um disco que é um desperdício. Nada além. TASTE ME DON’T WASTE ME (com Lynsey de Paul, álbum Polydor/Phonogram, à venda breve) – Não se pode dizer muita coisa em relação à cantora/compositora/tecladista inglesa Lynsey de Paul. Com uma voz que lembra as manifestações vocais de outras inglesas tipo Lulu e Mary Hopkins, hoje completamente acostumadas e devidamente engavetadas, Miss de Paul tenta fazer o tipo de mulher fatal, ao mesmo tempo ingênua e mal informada (ela ainda acredita que a mulher deve ser submissa ao homem, etc.) em suas canções românticas e açucaradas, tipo música-discoteca para maiores de 30 anos. Nada de novo ou melhor, nada além. (APRIGIO LYRIO)

Para o lançamento, um conhecido esquema TRACE (com o grupo Trace, álbum Vertigo/Phonogram, à venda breve) – Seguindo uma linha bastante conhecida dos ouvintes da música popular, o grupo holandês Trace – que teve sua formação definida no ano passado por iniciativas do compositor/tecladista Rick Van Der Linden – aparece agora com seu primeiro álbum, e gravado em 74, lançado no Brasil. Antes do Trace, o músico Van Der Linden já era destaque entre os expoentes da música pop holandesa e saído de outros grupos pôde finalmente concretizar suas esperanças com a formação do seu próprio conjunto, ao lado do irmão Pierre Van Der Linden Trace: desequilíbrio. (percussionista) e Jaap Van Eik (guitarra e baixo). Tudo neste álbum de estreia do Trace gira em torno de seu fundador, responsável por todos os arranjos, direção, ideias e composições com a discreta participação, entre as onze faixas, de duas composições assinadas pelos outros membros do grupo, o rapidíssimo Garc Le Corbeau (simplesmente um solo de baixo de Van Eike que acabou ganhando nome) e a única forte melodia apresentada no álbum, The Lost Past (do baterista Van Der Linden). Enquanto nos anos sessenta tornou-se moda – apesar da descrença dos puristas – a confecção de música erudita com condimentos variáveis de acordo com os gostos de cada um ou mesmo da época, a manifestação não nasceria aí e muito menos terminaria: com a eterna tentativa de renovação em seus valores próprios, o rock também seria visto envolvido com trabalhos sinfônicos (inspirados ou não) ou então, simplesmente, apanhando para si obras eruditas (entre outros exemplos, o famosíssimo Pictures on a Exhibition, peça de Mussorgsky e travestida pelo Emerson, Lake and Palmer, o passo inicial, no gênero, entre os trabalhos do grupo inglês. Apesar do conhecido e usadíssimo esquema, este foi o usado pelo Trace, em estreia, e na tentativa de fuga dos envolvimentos comuns com os estatutos comuns do rock‘n’roll o trabalho não chega a ser completamente desagradável mas é indicado para um público específico e diminuto. Quem estaria interessado na fusão, em clima rock, da Galliarde de Bach que é a terceira parte do seu Concerto Italiano em Fá Maior com uma tradicional dança polonesa. E, diga-se, o desenvolvimento de Rick Van Der Linden nos teclados (vários) será longe dos malabarismos contundentes, violentos e certeiros de Keith Emerson na frente de seu grupo. Mas nem tudo estaria perdido na floresta nórdica elaborada pelo Trace para os específicos, misturando erudito, rock, folclore e visões espaciais (principalmente manifestadas nas composições do grupo),

Eric Clapton: confortável, no momento, e em palco com sua nova banda, com grande sucesso.

Clapton, elegantemente envolvido com a multidão THERE’S ONE IN EVERY CROWD (com Eric Clapton, álbum RSO/Phonogram, em Golias Discos) – No momento o que se fala, quando o assunto é Eric Clapton, é de sua batida mais baixa (ou calma) musicalmente falando, do que em fases anteriores de sua atribulada carreira, principalmente nos últimos oito anos, em fases intercaladas de fugas e aparecimentos. Como foi seu último afastamento por um período de três anos (1971-1973), para um tratamento de eletroacupuntura, uma fase de trabalho e vivência numa fazenda em Gales e o retorno à sua cidade, em Surrey. E o músico se faz, de certa forma pessoal, tão saudosista quanto os comentários e em sua volta do intervalo que terminou em meio a 74, exemplo como uma entrevista ao Rolling Stone, em agosto: “Eu não consigo antever o amanhã. Serão mais três anos para que me despedacem de novo. Também

apesar do inevitável cansaço, alguns aficionados pelo jazz (por exemplo) podem sentir satisfação nos intermináveis solos para a Galliarde, passando pelo tradicional polonês e o Garc Le Corbeau que prepara a volta para o tema inicial (a primeira parte do LP) até um trecho da obra orquestral de Edvard Grieg e Swite Peer Gynst, feita para o drama de Ibsen mais duas composições do louro “beutiful people” Van Der Linden, as instrumentais The Escape of The Piper e Once. O segundo lado do álbum continua com o mesmo clima, com duas composições do líder do grupo que separam as duas versões de A Memory, um tradicional sueco e The Lost Past (também um solo, de bateria, com nome). Como não poderia deixar de ser, o trabalho tem excelentes mixagem e trabalho de estúdio mas um clima natural não foi conseguido, pelo esquema escolhido ou pelos parcos momentos brilhantes nos arranjos e por deficiência dos músicos. (APRÍGIO LYRIO)


por problemas de impostos, terei que deixar o país. Mas não importa. Eu tinha me exposto demais, trabalhando tanto, e tocado diante de tanta gente que me assustei. E acho que provavelmente isso acontecerá de novo. Vou agora, em frente, trovando por mais um tempo, quem sabe, talvez hiberne de novo. Você não pode manter o esquema durante todo o tempo, estou certo disso”. Numa vida musical intensa, em 1964, profissionalmente depois de uma passagem rápida por um grupo semi-iniciante, The Roosters (ao lado de Paul Jones e Tom McGuiness, do Manfred Mann, e de Brian Jones, do primeiro Stones), e da experiência com um conjunto mais ligado ao sucesso comercial, The Engineers, Clapton se une aos Yardbirds e imediatamente é notado pela crítica, por seu espírito inventivo, sua carismática expressão e o grande conhecimento de música, jogada com vigor e insistência numa guitarra.

A mais recente formação do conjunto Os Mutantes, em disco TUDO FOI FEITO PELO SOL (com Os Mutantes, disco Som Livre/RCA, à venda em Golias Discos) – além de poder ser considerado o mais famoso representante do rock rubble-gum brasileiro “da segunda geração”, o conjunto de música jovem Os Mutantes (Arnaldo e Sérgio, mais Rita Lee e o baterista Ronaldo), já no oitavo ano de carreira, teve sua fase áurea enquanto unidos aos tropicalistas de Gilberto Gil e Caetano Veloso, em gravações e shows. Em carreira individual, a psychodelic generation sempre andou de mãos dadas com Os Mutantes em músicas (gênero adocicado do rock ácido), em letras (“ando meio desligado/já nem sinto meus pés no chão”) e na própria imagem despretensiosa

Um ano depois abandona os anêmicos... porémmoderninhos Yardbirds um pouco “contra o abandono do blues em favor de um rock comercial e se liga ao grupo John Mayall, como guitarrista líder do Bluesbraker. Já em 1967 deixa Mayall e faz o Cream com Jack Bruce e Norman “Ginger” Baker. O grupo explode com tamanha força que passa a ser visto – e não só para os historiadores, como um dos mais importantes momentos do rock na década de 60 até que 1969, quando se dissolve. Uma passagem rápida pelo Blind Faith e Clapton já era superestrela num grupo de outras, da mesma grandeza – Steve Winwood (do Traffic) mais Ginger Baker (ex-Cream) e Rick Grech (depois, Traffic). Foi um ano de trabalho intenso na Inglaterra e fora dela mas só um disco foi gravado. Suas próximas investidas seriam nos Estados Unidos, de Derek and the Dominos, passagens com Delaney and Boney até a participação no Concerto para Bangladesh, alguns álbuns com amigos e o Rainbow Concert de Londres, em 1973. Quando do lançamento do seu 461 Ocean Boulevard, o álbum do ano passado, sua popularidade foi além dos fanáticos admiradores antigos e sua volta foi recebida com um ruidoso sucesso, I Shot The Sheriff. E o costume de dizer que Clapton detesta seu relacionamento artístico, com o público, se repete assim como considerar sua fase de maior “eletricidade”, simplesmente por esse peso assumido de rock star de enorme popularidade o período com o Cream, realmente excepcional como demonstração de excitação, tensão e problemas de personalidade. E esse There’s One In Every Crowd é o segundo álbum realizado depois do afastamento, ambos seguindo uma linha variada e bastante americanizada, passando do rock para o blues, rock dançável, funky, como a escola de “Shelter”, e o reggae, naturalmente. De fato, aparecem dois reggaes no disco. Swing Low, Sweet Charlot, um tradicional com arranjo de Clapton e sua composição co-escrita com o guitarrista George Terry Don’t Blame Me, material conciso e confortável. Também é confortável e a posição do velho Clap como compositor e instrumentista; enquanto no Ocean Boulevard sua participação como vocalista e sua guitarra flamejante ou atualmente (e sempre desejada) foram relegadas à palco quase inaudível, Clapton aparece com mais destaque no novo disco, produzido e gravado nos mesmos esquemas do anterior, e sua posição como autor também aparece com maior destaque, assinando quatro composições, uma feita com parceiro e duas são tradicionais com seus arranjos, entre dez faixas, no total.

E o músico está impecável – ao lado de George Zerry (guitarrista), Jaume Oldaker (percussão e bateria), Dick Sims (teclados), Carl Radle (baixo) e Yvonne Elliaman e Marcy Levy, nos vocais – no blues The Sky Is Crying, na balada Pretty Blue Eyes, na bela Don’t Blame Me e Better Make It Trough Today e na funky composição de Mary McCreary, Singin’ The Blues. Clapton surge variado, elegante e envolvido em todos os momentos do álbum, tomando todas as chances encontradas – a exploração vai a limites de textura lírica e se alguém duvidava que ele não poderia repetir seu In The Presences of The Lord, basta ouvir The Sky Is Crying ou mesmo Better Make It Trough Today para a completa reabilitação de Eric Clapton perante os cobradores (se ainda existirem). Certamente um dos mais consideráveis discos do ano, por seu alegre/triste e envolvente clima. As instrumentações estão correspondendo perfeitamente e o quinteto funciona muito bem liderado por Clapton e sua guitarra característica, um prazer, em música popular. (APRIGIO LYRIO)

criada pelo conjunto, que esteve junto até 72 quando Rita Lee Jones começou carreira sem seus amigos. E da antiga formação do conjunto, só restou o guitarrista Sérgio Dias, já que Arnaldo está também com disco individual

para ser lançado, A Patrulha do Espaço onde faz uma espécie de samba-rock macabro. E depois de serem guardadas pela Som Livre (a nova etiqueta que contratou os impulsos criativos do conjunto) durante quase um ano, foi lançado o LP para nascer

Sérgio Dias e conjunto: novos sons


um excelente instrumental, começam a investir pelas áreas do rock sinfônico, fazendo uma agradável mistura dos estilos consagrados pelo conjunto inglês Yes ou o Emerson Lake e Palmer, o que pode ser completamente comprovado na faixa instrumental Pitágoras (de autoria do tecladista Túlio Morão, com grande riqueza musical no arranjo e gravada com invejável qualidade, em nada perdendo para seus inspiradores, fato que se repete por todo o disco. Das sete faixas, destacam-se as baladas Tudo Foi Feito Pelo Sol (de Sérgio Dias) e Desanuviar (de Sérgio e Liminha, ex-mutante, no momento fazendo parte do conjunto de Erasmo Carlos) pelas expressivas interpretações, inclusive vocais e pelas boas letras que foram sempre o ponto mais fraco das composições do conjunto. Entre as mais ritmadas. Eu Só Penso em Te Ajudar (Sérgio e Liminha) e O Contrário de Nada é Nada (Sérgio e Túlio) são os melhores, já que Cidadão da Terra e Deixe Entrar um Pouco d’água no Quintal, que completam as músicas do disco são repetitivas e sem novidades Mas dentro da linha proposta pelos Mutantes e se tomando em consideração as faseas anteriores do conjunto, o trabalho apresentado neste Tudo Foi Feito Pelo Sol prima pelo bom gosto e a grande versatilidade e perfeito domínio dos novos integrantes Rui Motta (bateria). A. Pedro de Medeiros (baixo) e principalmente o tecladista Túlio Mourão fazem o ponto alto do novo som do conjunto, em sua maneira, tão íntegra e forte que seu show apresentado ano passado em São Paulo foi considerado por vários críticos musicais como um dos melhores do ano. Para os fãs do conjunto, o disco satisfaz completamente, inclusive na luxuosa edição em capa dupla podem ser encontradas todas as letras das músicas. E para aqueles que pensavam num inevitável desaparecimento do conjunto, “que insistia em não mostrar nada de novo, uma reviravolta inesperada e boa surpresa: ainda existe rock’n’roll no Brasil. (APRÍGIO LYRIO)

Das sete faixas, destacam-se as baladas Tudo Foi Feito Pelo Sol (de Sérgio Dias) e Desanuviar (de Sérgio e Liminha, ex-mutante, no momento fazendo parte do conjunto de Erasmo Carlos) pelas expressivas interpretações, inclusive vocais e pelas boas letras que foram sempre o ponto mais fraco das composições do conjunto.

O sorridente e rebolativo conjunto vocal First Choice, em novo disco THE PLAYER (com o grupo vocal First Choice, disco Bell/Phonogram) – As três meninas que compõem o conjunto vocal First Choice, sorridentes, alegres e rebolativas nada fizeram para renovar o estilo iniciado (com fama) pelas Supremes, desde os tempos em que a, no momento, superstar Diana Ross fazia parte do conjunto. E depois de fazer sucesso, em 73, com um compacto que rapidamente foi para as listas dos mais vendidos, principalmente com a música Armed and Extremely Dangerous que foi bastante usada em várias discotheques, o grupo volta com novo disco (?) editado com o maior interesse e presteza pela Phonogram. E certamente esse Full Horn deverá repetir o sucesso americano, onde a faixa Guilty já se encontra First Choice: ainda incógnita entre as mais vendidas, em sua versão em compacto. No momento, desligadas do cantor/compositor soul Barry White responsável pelo lançamento das meninas no disco Under The Influence Of Love Unlimited, o First Choice fez seu disco de maneira mais despojada fato que pode ser perfeitamente comprovado pelo porte mais seguro, elegante e o novo make up das cantoras, na foto que ilustra a contracapa do LP. E, desnecessariamente, acompanhadas por um verdadeiro exército de músicos as meninas do First Choice (que ainda não receberam nomes individuais em nenhum dos seus discos, por razões óbvias) se dão ao luxo de gravar faixas longas, como a cansativa The Player e o hit Guilty que ainda recebe, no disco, uma completamente disponível versão instrumental. Seria desairoso afirmar que as integrantes do First Choise desafinam ou apresentam-se mal ensaladas em seus triplos trinados, mas a monotonia do disco é algo a ser destacado. E nas sete faixas cantadas, de compositores praticamente desconhecidos, a única distinção entre elas são os títulos das canções. Nada além. (APRIGIO LYRIO)

Um tenor galês com alguma queda para o blues e o rock SOMETHIN’ BOUT YOU BABY I LIKE (com Tom Jones, álbum London/Odeon, à venda breve) – Um dos maiores fenômenos do show-biz internacional e sucesso direto de Frank Sinatra – pelo menos no que diz respeito a sua segurança pessoal – Mister Thomas Woodward Jones ou simplesmente Tom Jones, há mais de dez anos de carreira, praticamente domina o mercado de discos como recordista em vendagens e vivendo em estilo das grandes estrelas hollywoodianas é sempre fotografado quando chega ou sai de algum lugar, detesta fotógrafos mas sempre se mostra muito simpático e comunicativo com a imprensa. De acordo com suas origens, fato que seus promotores não querem esquecer e incluem em todos os releases sobre o

cantor, Tom Jones é um ex-pedreiro, ex-mineiro, ex-operário galês diz que “sentiu-se um homem quando lançou-se no mercado da música, num país de meninos cabeludos”. Juntou-se a Gordon Mills, que era motorista de ônibus e em 1965, quando gravou It’s Not Unusual atingiu logo o primeiro lugar no hit parade da Inglaterra e dez anos depois continua sendo o cantor romântico britânico mais conhecido no mundo. E apesar das tentativas em conservar-se um cantor jovem fazendo uso de material e postura tipicamente jovens, no final acaba consumido por um público adulto com a intenção de se modernizar. Bastante assíduo em especiais para a televisão o tour de Tom Jones pelo Brasil no ano passado não foi o sucesso que se esperava e aqueles que sonhavam com alguma novidade ficaram decepcionados e sentiram falta dos cenários e dançarinos que sempre estão ao seu lado, no vídeo. E a fórmula de sucesso de Tom Jones continua intocável como se o tempo não tivesse passado e tudo permanecesse igual. Com sua voz possantíssima,


letra) composição Day of DayDreambeliever que é dividida em nove movimentos, algo assim como holocaustos instrumentais que não levam a lugar nenhum, apesar da eficácia dos músicos integrantes do conjunto. E continuando, a Cornucopia com a capa dupla do disco economizada no Brasil para poder, método que vem sendo repetidamente usada pela gravadora Top Tape, oferece, por um lado, uma singela borboleta e, por outro lado, um ameaçador machado, apresenta no segundo do disco três músicas: Morning Son, uma balada fácil com letra antiquada e envolvida com psicodelismos a longa e incompatível Spot On You Kids e a desastrosa Ask the Madness, completamente incoerente. E se foi desejo do conjunto alemão fazer o disco mais intrigante e desesperado e absurdo dos últimos tempos (para aqueles que se derem ao trabalho de ouví-lo) o grupo Cornucopia conseguiu seu tento: um perfeito exemplo de falta de informação, principalmente, e incoerência num trabalho que não merece maiores considerações. (A.L.)

Total incoerência, no primeiro trabalho do grupo de rock Cornucopia, no Brasil FULL HORN (com o grupo Cornucopia, disco Brain/Top Tape) – Parece que o rock alemão conseguiu invadir o mundo a se impor – pelo menos perante as gravadoras europeias, no caso, as que apresentam melhores condições em seus estúdios como as da Inglaterra e Holanda – com seu estilo pouco maleável, na maioria das vezes tentando fazer rock sinfônico e tudo indica que o famosíssimo conjunto inglês Pink Floyd é a maior influência, no rock germânico. E assim como os recentemente lançados no Brasil Guru Guru e Jane com suas tentativas em faixas longas e exaustivamente elaboradas de fazer, pode-se dizer, hard music o hepteto Cornucopia segue o mesmo caminho. E não só o Pink Floyd é ouvido na Alemanha. O anarquismo musical de Frank “Mother of Invention” Zappa também tem seus seguidores. O grupo Cornucopia tenta mesclar as duas fontes inspiradoras e o resultado não poderia ser mais desalentador, apresentando neste Full Horn quatro peças, composto pelo tecladista do conjunto Christopher Hardwing, o primeiro lado do disco é ocupado pela faraônica (repressiva, na o cantor neste Somethin’ ‘Bout..., não fugindo à regra mostra um repertório variado e certamente o primeiro lado do disco é mais agradável, podendo-se destacar as faixas Rainin’ In My Heart e You Make Me Smile, de um material modernoso e algo cansativo. Já o lado dois do álbum é completamente dedicado aos ouvintes calmos e pouco preocupados com estilo ou alguma coisa semelhante. Mas Tom Jones parece convincente em alguns momentos e consegue ser agradável na balançadinha Run Clero Run e na funky Right Place, Wrong Time, com bons arranjos e vocais eficientes dedicados com amor aos seus apreciadores (APRIGIO LYRIO)

A nova investida da cantora australiana Helen Reddy, agora tentando liberdade.

First Choice: ainda incógnita

FREE AND EASY (com Helen Reddy, álbum Capitol/Odeon, em Golias Discos) – Depois de ser considerada como uma das portavozes do movimento feminista americano com a canção I’m A Woman e com o disco Love Song For Jefrey, dedicado a sua família, a australiana Helen Reddy ainda lutando por um lugar ao sul entre as vocalistas mundiais conseguiu uma ponta no filme Aeroporto 1975 (como a freirinha simpática) e anunciou que não pretende deixar a carreira cinematográfica enquanto lançou seu novo disco na melhor das hipóteses pregando que tudo deve ser livre fácil. Certamente, para ela a coisa não tem sido muito fácil: descoberta num concurso de cantores na Austrália, veio para a América em 1956 e só na década de 70 e casada com o produtor Jeff Ward conseguiu algum destaque, Graças a I’m a Woman Hellen Reddy Show”, ganhou o seu Grammy em 73 e continua seguindo a trilha de Barbra Streisand em suas vocalizações, algo lacrimejantes e simplórias. E do novo álbum, o nome logicamente deveria recair sobre a canção Free and Easy, o momento mais simpático do disco em que se consegue esquecer quem está cantando para se deixar um pouco na melodia, agradável. E assim como Tom Jones e vários outros cantores que assolam a música internacional, apesar das tentativas de parecer um pouco moderna e também tentando infiltrar-se no mercado de discos voltado para o público jovem Miss Reddy perde longe para Carly Simon, Carole King, Rita Coolidge ou mesmo Bette Midler, as baladistas brancas mais recentes, mesmo fazendo uso de certo tipo de material que em sua voz parece um pouco desfocado, como a canção Raised on Rock. O resto do material usado é, tipicamente, aquele deixado nas gravadoras por compositores anônimos e com o qual Helen Reddy parece sentir-se muita à vontade. Como curiosidade: este álbum traz a canção Angie Baby que no momento é sucesso em vendagem em forma compacta nos Estados Unidos e na Inglaterra (país onde Reddy sempre foi uma ilustre desconhecida) e a canção Showbiz, nostálgica e contando com a participação das Pointer Sisters. Indicado exclusivamente, aos românticos despreocupados, sonhadores lineares dos maiores de 30 anos aos melancólicos e moderninhos em geral.


Para a garotada, não necessariamente, que tenha aprendido inglês

Alice Springs e Pete Finberg: imaturos

Para a garotada, não necessariamente, que tenha aprendido inglês SLACK ALICE (com o grupo Slack Alice, álbum Philips/Phonogram, à venda breve) – A intenção inicial foi a de criar música com clima teatral, como indica a capa deste primeiro álbum gravado pelo grupo inglês Slack Alice, egresso de animações de clubes por Londres e arredores, em estilo “cabaret moderno” e, outros envolvimentos com o rock teatral. Produzido por seu líder, o guitarrista Peter Finberg, tudo indica que o Slack Alice (Alice Descuidada) conseguiu uma boa legião de fãs adolescentes em suas experiências em pubs, que se divertiram com o espírito ao mesmo tempo sério e despretensioso de sua música, agora em disco. Como um bando de jovens ainda ligados com o beautiful people (cansada expressão e citada em uma das músicas do LP) os cinco integrantes do Slack Alice – para os mais interessados. Peter Finberg na guitarra e vocais, Alice Springs, vocais, John Cook em teclados e vocais, Eddie Leach na bateria e Mick Howard no baixo – falam, em ritmos rock e boogie, de suas experiências pessoais, com alguns dissabores mas sempre relegados a segundo plano e bem ao gosto dos jovens rebolativos, somente. A faixa de abertura deste Slack Alice, o rock Put Me On a Railroad já mostra uma certa imaturidade nas letras/mensagem escritas pelo grupo e Alice Springs (vocal principal) repete em seus impulsos, o desagradável agudo falso de outra londrina (recentemente redescoberta pelo excêntrico David Bowie) Lulu, assim como a história andrógina forçada de Suzi Quatro. Logo a seguir a roqueira Alice canta algo intitulado Gravesltone Cottage uma balada em que sua voz soa completamente diferente e dá mostras que ela ficaria bem melhor cantando baladinhas românticas. E num momento de elucidação, na faixa Slack Alice (que diz “meu negócio é Hollywood e meu nome é Alice, qual o seu?”) tentativas de uma descuidada imagem criada e vontade de repetir o Be My Lover de Alice Cooper. Nada original. Mas a canção Mr. Sharpshooter é interessante e a única cantada pelo guitarrista Finberg. Southern Island Girl também é. E o disco de estreia do Slack Alice funciona perfeitamente para a juventude, entenda ela ou não a mensagem (frágil) do grupo. O resto é rock/boogie. (APRIGIO LYRIO)

Alice Springs e Pete Finberg: imaturos

O inegável “superstar” inglês Elton John com novo disco, surpreendente e agradável CAPTAIN FANTASTIC AND THE BROWN DIRT COWBOY (com Elton John, álbum DIM RGE, à venda breve) – Definitivamente acertado em todos seus detalhes desde janeiro último, só agora pôde ser lançado o último disco gravado por Elton John, principalmente pelo sucesso das recentes gravações do músico: o relançamento do seu Empty Sky (o primeiro de Elton e nunca antes editado na América) foi cercado por grande bally hoo, e já editado no Brasil), o mesmo para o seu Greatest Hits e os compactos com Lucy In The Sky With Diamonds e aquele gravado ao vivo durante o show de Natal no ano passado no Madison Square Garden, em Nova Iorque e com John Lennon, ambos fazendo a ilegível I Saw Her Standing There.


E para o lançamento original, o que aconteceu em julho nos Estados Unidos, Reginald Kenneth Dwight, aliás Elton John motivado pelos acontecimentos musicais em Nova Iorque, na época, não poupous esforços para o acontecimento, fazendo preview do Captain Fantastic para a imprensa e convidados antes do álbum ser distribuído comercialmente e a acolhida não poderia ser mais simpática: simplesmente, os comentaristas internacionais consideraram-no como o melhor Elton John já gravado. Mesmo que seja o último trabalho reunindo a banda original de Elton, já que o vigoroso baterista Nigel Ollson e o baixista Dee Murray resolveram optar por caminhos pessoais e, talvez em homenagem, o músico/autor também considera o disco como sendo o seu melhor trabalho. E o álbum chega ao Brasil, com os mesmos detalhes que marcaram sua edição original, na qual a presença de Bernie Taupin (o sempre parceiro de Elton) com seus interessantes poemas seguindo linha “doce-amarga em coletânea” aparece, particularmente neste álbum, com maior destaque do que o usual. A embalagem não só traz um livreto com todos os poemas das músicas mas também recortes das “memorabílias” de EJ, incluindo registros fotográficos da antiga banda no final dos anos 60 – extratos do seu diário – enquanto o desenho da capa foi feito pelo conhecido Alan Aldridge. E já que Elton, depois do disco, teve sua banda quase que completamente mudada marcando o fim de uma era – foram reunidos, e já com shows acontecendo, os novos integrantes da EJ Band: Jeff Baxter (ex-Doobie Brothers), Caleb Quayle e Davey Johstone, nas guitarras; Kenny Passarelli (ex-Joe Walsh), no baixo e Roger Pope (ex-Kiki Dee Band), na bateria: mais Ray Cooper, na percussão – ele já está pensando no novo trabalho que será o último disco a ser feito para a DJM Records, quando Elton ficará livre do seu antigo contrato. Mesmo que não possa ser dito que com Captain Fantastic Elton teria se reabilitado, depois do álbum Caribou, e nem que o disco anterior foi um completo engano, o músico apresentase mais seguro em seu trabalho, e o mesmo pode ser dito em relação as letras de Taupin, mais sérias e introvertidas, mesmo falando nas doçuras e amarguras comuns a todas as pessoas. Misturando fantasia com realidade, a faixa que dá nome ao álbum não poderia ser outra e perfeita para ser lançada como compacto carro-chefe para o álbum. E alguns clássicos chegam até a acontecer, como a canção Bitter Fingers ou a cáustica Someone Saved My Life Tonight, ou mesmo Curtains, todas primando por uma certa luta em prol de esclarecimentos, musicais e existenciais. Falar nas interpretações de Elton ou no desenvolvimento de banda neste álbum seria perda de tempo, já que o apuro com que o músico “lidera” seu grupo é bastante conhecido. Mais dois momentos devem ser citados: a canção Tell Me When The Whistle Blows, com Elton explorando o soul na melodia surge delicada e atraente assim como a esperança que pode ser encontrada nos versos e na vocalização feita para We All Fall In Love Sometimes (“Nós nos apaixonamos, todos, de vez em quando, mas nosso céu vazio estava repleto de gargalhadas, um pouco antes da enchente, preocupadas fasces pintadas, usando um sorriso, o dia hoje parece com chuva”). (APRIGIO LYRIO)

Seguindo a série de “Antologias” da MPB feito pela gravadora Phonogram, agora momentos do chorinho ANTOLOGIA DO CHORINHO (com Altamiro Carrilho, álbum 6349 156 Philips/ Phonogram, à venda breve) – Seguindo o exemplo do conjunto MPB-4, que no ano passado lançou um álbum intitulado Antologia, uma revisão, em dez medleys, com 29 músicas, de alguns dos mais considerados compositores brasileiros (disco que não foi bem recebido, principalmente pelo estilo do conjunto, sempre repetitivo e sem maiores preocupações em aprimorar seus impulsos criativos – recentemente foi lançado um álbum do grupo como comemoração Altamiro Carrilho: um dos principais nomes do chorinho. ao seus dez anos de carreira), o Quarteto em Cy também fez sua antologia em álbum lançado em agosto passado com uma pouco inspirada seleção do que convencionou-se chamar de samba canção. E agora é lançado, ainda fazendo o gênero pout-pourri esta Antologia do Chorinho, focalizando dos nomes importantes de um dos gêneros mais importantes da música brasileira, tudo sob liderença do flautista Altamiro Carrilho, o que dá uma certa importância ao álbum. Altamiro (Aquino) Carrilho, natural do Estado do Rio, como músico profissional, começou na banda Lira de Arion, em 1936. Passou por várias fases, já fez música de encomenda, formou sua bandinha, participou de diversas chanchadas carnavalescas além de espetáculos em teatro (o mais notório foi sua Homenagem a Pixinguinha), já gravou mais de 40 elepês sendo que seis foram feitos na Europa e é considerado como um dos maiores flautistas da música popular brasileira. E responsável direto pelos arranjos desta Antologia do Chorinho, um álbum que vem mostrar aos jovens um dos mais envolventes gêneros da música popular brasileira, nascido no início do século, com raízes diretamente ligadas ao movimento musical que acontecia na América, o ragtime, cuja principal figura foi o compositor/pianista Scott Joplin, ou então para os mais velhos, como um souvenir, Altamiro Carrilho é acompanhado por músicos completamente competentes, como Risadinha, Aracy Valente, Walmar e com as participações especiais de Irene Maria Mello (pianista), Netinho (sax), Joel (bandolim) e Formiga (piston). E com grande charme e apuro os dez nomes focalizados são: o célebre Ernesto Nazareth (nas músicas Escorregando, Brejeiro e Apanhei-te Cavaquinho), assim como Chiquinha Gonzaga (aparecendo com as recriações de seus temas Atraente e Gaúcho), Jacob do Bandolim (com Doce De Coco e Noites Cariocas), mais Zequinha de Abreu (Tico-Tico No Fubá e Os Pintinhos Do Terreiro), Waldir Azevedo (com Brasileirinho e Pedacinhos do Céu, ambas imortalizadas na voz de Ademilde Fonseca), o célebre e saudoso Pixinguinha (Lamento e Carinhoso), e o próprio Altamiro Carrilho, que foi um dos maiores nomes do chorinho também como compositor (com as composições Flauteando Na Chacrinha e Canarinho Teimoso). Um trabalho importante e que deve ser ouvido. Nada mais deve ser dito. (APRIGIO LYRIO)

Mesmo que não possa ser dito que com Captain Fantastic Elton teria se reabilitado, depois do álbum Caribou, e nem que o disco anterior foi um completo engano, o músico apresenta-se mais seguro em seu trabalho.


ESTRELA DALVA

Alice Springs e Pete Finberg: imaturos

GROSSAS NUVENS DE AMOR (com Dalva de Oliveira, disco Odeon) – em homenagem a uma das maiores intérpretes brasileiras, o repórter, compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho fez outro disco, mais sobre o mito Dalva de Oliveirado que propriamente uma coletânea dos seus maiores sucessos, como no anterior O Amor é o Ridículo da Vida também produzido por ele em 1972 logo após a morte de Dalva, em agosto daquele ano. Da história de Vicentina de Paula Oliveira (nome de batisto de Dalva), seus primeiros passos como cantora de tangos, sua participação em operetas montadas por Vincente Celestino, o Trio de Ouro e seu casamento com Herivelto Martins, o início da fama, os abajures lilases, o amor e o ridículo da vida: na década de cinquenta a consagração, a gravação de Kalú em Londres, a separação de Herivelto divulgada por todas as revistas da época, escândalos, falsetes, lágrimas, esmalte carmim, gestos dramáticos, o isolamento em sua casa de Jacarepaguá, o sério acidente automobilístico em 65, mais escândalos, amores, desenganos, a volta nostálgica com Máscara Negra, seu último show no Teatro Senac Rio de Janeiro, visto por um público heterogêneo mas fãs incondicionais, saudade.. .fatos que resumem as atividades da grande cantora que foi Dalva de Oliveira, a mais “apaixonada” das artistas brasileiras, versatilidade, talento e criatividade” a flor da pele”. O disco O Amor é o Ridículo da Vida foi uma mensagem de amor feita com grande carinho por Hermínio Bello de Carvalho, apesar de ter recebido severas críticas pela remixagem das faixas, com arranjos superexpostos pelo maestro Lindolfo Gaya, que só

acontecem para dar maior brilho as matrizes originais. E neste Grossas Nuvens e Amor o esquema foi repetido, com copiagem das fitas em oito canais e músicos como Paulo Moura, Chiquinho, Wildon das Neves e Hélio Belmiro estão presentes no disco e paralelamente foi gravada também uma sessão rítmica. Gravadas sem interrupção, as músicas cantadas por Dalva neste elepê, vão de 1950 a 1972. As citações de Tudo Acabado e Que Será (50), Sala do Meu Caminho de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, com arranjo de Lucy Martins e Aldo Cabra, Há um Deus de Lupicínio Rodrigues (57), Não Tem Mais Fim de Hervê Cordovil (58), Mãe Maria de Gustavo Mesquita, Onde Estás Coração? e Coqueiro Velho (60), E A Vida Continua de Jair Amorim e Evaldo Gouveia e Tu Me Acostumastes de Frank Domingues (62), Tudo foi Surpresa, Folhas No Ar de Elton Medeiros, Pela Décima Vez de Noel Rosa e Aves Doninhas de Lupicínio Rodrigues (67), Bandeira Branca (69), Sagrada de Herivelto Martins e Marino Pinto e Dois Corações (72) são as faixas que compõem a história de amor cantada por Dalva. E nada melhor do que as próprias palavras do idealizador do disco para falar do seu trabalho: “É a cada vez do amor, com todos os componentes que ela sempre exaltou, a frustração, o desengano, a desperança, uma certa corrosão dos sentimentos, coisas que ela sempre sentiu e que a crucificaram. O objetivo de conseguir uma conotação da novela ficará clara na audição do disco”. E como recomendação especial aos aficionados, diz Hermínio Bello de Carvalho: “Recomendo este trabalho àqueles que entendam de amor e ainda se trituram e se crucificam nesta matéria e guardam nos lábios um fel que Dalva, como ninguém, provou. (APRIGIO LYRIO)

Mais um álbum duplo de Miles Davis. No exterior. A música pode parecer tristonha para quem se revolta com o fato da CBS brasileira recursar-se terminantemente a editar os seus discos por aqui – mas só pode excitar muito a imaginação da restrita faixa do público que não hesita em adquirir os lançamentos importados de Miles Davis. O agitado e sempre surpreendente músico e americano fez um novo álbum, duplo, como o anterior, Big Fun do início de 74. Get Up With It já vem sendo apontado como o reflexo mais acurado do seu carisma no presente, surgido nos últimos anos, porque a maioria dos álbuns de Miles editados nesse período recente do seu trabalho – cujas primeiras manifestações são de 1945 – têm sido reconstruções e colagens de fitas em sua maioria com dois ou três anos de existência. E, em estrutura e concepção, revela que o músico ainda não pretende “suavizar” a sua usina sonora, mas não deixa de exibir ocasionalmente um aspecto sentimental: o álbum traz na capa, a legenda For Duke (Para o Duke) e abre com uma faixa de meia hora, que ocupa todo o primeiro dos quatro lados, chamada He Loved Him Madly, cujas tonalidades blues são mescladas a efeitos de som alucinatório/espacial do tipo que muitas bandas de rock perseguem atualmente (seguindo a corrente do Pink Floyd), e é uma recente homenagem ao elegante tradicional jazzman morto no ano passado. O nome da peça parece ter vindo do título de um dos últimos especiais da televisão americana feitos com Duke Ellington: We Love Him Madly. Nas oito faixas, Miles Davis é acompanhado pelos músicos que integram o hepteto com o qual ele tem se apresentado, nas últimas semanas, em shows através dos EUA, o mesmo que o acompanhou no Japão, há pouco mais de um mês. Deles, o saxafonista Sunny Fortune, o baixista Michael Henderson e o

percussionista africano Mtume são os mais conceituados no ambiente jazzístico americano, pelas suas aparições anteriores em outros grupos. Mas o grande destaque em participações é a faixa Honky Tonk, onde o trumpete e Miles é acompanhado por um elenco all-stars, constituído por Keith Jarrett e Herbie Hancock nos teclados, John McLaughlin na guitarra, Billy Cobham na bateria e o brasileiro Airto Moreira na percussão, além de Steve Grossman no sax soprano e Henderson no baixo. Em estilo, Get Up With It é o álbum mais variado de Miles Davis desde o revolucionário Bitches Brew, reunindo temas funky, fragmentos de New Orleans, melodias vagamenta jazzísticas, blues, música indiana (na faixa Billy Preston, Badal Roy e Khalil Balakrishna tocam, respectivamente, tabla e sitar) e cortantes massas de som eletrônico do tipo das que representaram quase todo o material do álbum ao vivo feito no teatro Fillmore. Essas tendências, em maior ou menor intensidade nos vários momentos da longa sequência (faixas complementares: Malysha, Rated X, Calypso Frelimo, Red China Blues e Mtume), permitem que o músico se movimente com mais flexibilidade em direção a outro instrumento, o órgão, que ele explora com maior ênfase em Malysha. A utilização do órgão por Miles Davis – cada vez mais frequente tem servido, aliás, como motivo para alguns comentários irritados a respeito da “infidelidade” do músico ao seu instrumento original, como o do veterano e conservador crítico do jazz Leonard Feather, referindo-se aos seus últimos concertos em Hollywood (três noites no Troubador, com lotação esgotada em todas elas): “é como ir a um recital de Arthur Rubinstein para encontrá-lo (tocando piccolo”. Feather – por muitos anos um dos principais comentaristas da revista Down Beast – inclusive, não consegue aceitar o aspecto geral pulsante e incrivelmente enérgico da última

Miles com o seu hepteto, homenageado Duke Ellington.

fase da criação de Miles Davis. Na sua opinião, o “grande artista afro-americano que mudou inteiramente a cena do músico pelo menos quatro ou cinco vezes” parece ter “desprezado todos os seus antigos valores”, simplesmente porque ele usa o ritmo com liberdade (e tensão) sempre crescendo [ilegível] durante os seus solos não têm mais “nenhuma semelhança de forma, e nada do lirismo pelo qual ele foi uma vez, com justiça, famoso”. (APRIGIO LYRIO)


O antigo conjunto inglês Hollies ainda em ação, fazendo boa música

John McLaughlin e Jean-Luc Ponty: trocando ideia

A crítica delira, apesar da economia no novo disco de Mahavishnu Orchestra A crítica internacional está literalmente delirando com o novo disco do guitarrista/compositor John McLaughlin e sua Mahavishnu Orchestra, Visions Of The Emerald Beyond. Sobre a excursão britânica do músico, em janeiro e precedendo o lançamento do álbum, os comentários foram feitos a partir de elogios como “maravilhoso Mahavishnu” – e para o álbum foram reservadas expressões que, nos casos mais modestos, falam em poder e glória. As “Visões da Esmeralda Longínqua”, originalmente concebidas como um álbum duplo (um trabalho do tipo doisdiscos-pelo-preço-de-um), foram editadas na Inglaterra em apenas um disco: a produção achou o projeto inicial pouco viável, financeiramente. Mas o lançamento nos Estados Unidos está previsto para ser feito na íntegra, com o preço normal para esse tipo mais caro de edição. O que inclui um disco com duas sequências inteiramentes acústicas (sem instrumentos elétricos) no primeiro lado McLaughlin toca violão acompanhado por seu grupo alternativo, um trio de músicos indianos, cujos nomes e respectivos instrumentos são praticamente impronunciáveis: no outro o guitarrista se apresenta sozinho, cantando e tocando vários instrumentos ao mesmo tempo. No entanto, a crítica inglesa não parece preocupada com a medida de economia tomada pela CBS. Chris Welch, o mais destacado reviver de Melody Maker, chegou mesmo a afirmar que “não importa se não houver mais nenhum lançamento da Mahavishnu este ano: aqui está material suficiente para todas as nossas necessidades”. Para ele, apenas um homem “muito feliz poderia produzir um trabalho do poder e magnificência” da sequência constituída pelos temas Eternity’s Breath (partes 1 e 2), Lilla’s Dance, Can’t Stand Your Funk (uma espécie de esnobada no mundo da soul music), Pastoral, Faith, Cosmic Stuff, If I Could See, Be Happy, Earth Ship, Pegasus, Opus One e On The Way Home To Earth. E cita todos eles como verdadeiras aulas para

a maioria dos músicos de rock, principalmente pela fulgurante técnica dos dois músicos principais da Mahavishnu Orchestra (McLaughlin e o violonista Jean Luc Ponty) em “trocar ideias” durante os solos – antiga tradição jazzística que o rock insiste em desprezar, apesar de se propor sempre e criar música excitante. Por esse e por outros motivos – incluindo-se a estatura dos conceitos que John McLaughlin imprime à sua música, como tempo, espaço, paixão e serenidade – é que Welch se preocupa em dizer que “é uma vergonha” o fato de algumas pessoas imaginarem que a criação do Mahavishnu “não é para elas, por ser muito remota e artística”. “Quem está ouvindo esses grupinhos, perde a excitação real que está esperando para ser ouvida” – no caso do Brasil, uma verdade quase absoluta. O próprio McLaughlin se refere ao seu novo trabalho como “um avanço significativo [ilegível] pessoalmente, e um estágio importante na evolução da Orquestra”. E justifica a afirmação dizendo que “esta banda está justamente começando a se sentir confortável: as pessoas ainda me dizem que preferiam o primeiro grupo, mas se esquecem de que, no caso, a gente esteve junto por quase um ano e meio antes de gravar. Esta banda ainda tem um longo caminho pela frente”. No que concordam, agora, inteiramente, os comentaristas de Visions of The Emerald Beyond. A Mahavishnu II, completada pelos jovens integrantes da seção rítmica (Michael Walden, baterista de 21 anos, Ralph Armstrong, baixista, 17 anos, e o tecladista Gayle Moran), por um trio de cordas e dois instrumentistas de sopro, permanece com a mesma formação básica do álbum Apocalypse. E, para quem ouvir a edição nacional do disco – um dos mais belos, do setor internacional, surgidos no ano passado –, tem obviamente um longo e mais satisfatório caminho a percorrer. O segundo passo já foi dado, quase hipnotizando a crítica internacional, e o seu conhecimento, no Brasil, só depende da nem sempre eficiente CBS brasileira.

HOLLIES (com o grupo The Hollies, disco Polydor/Phonogram) – Vários foram os seguidores dos Beatles, na Inglaterra e no mundo, a partir de 1963 com o estrondoso sucesso de I Want To Hold Your Hand e Please Please Me “os reis do Yeah-Yeah-Yeah” viram o estilo por eles criado ser seguido por algumas centenas de outros grupos, todos com terninhos brilhantes e empunhando espalhafatosas guitarras, assim como cabelos ligeiramente longos e a inesquecível imagem publicitária “alegre e jovial” que passaria a influenciar os jovens do mundo. O conjunto inglês The Hollies surgiu numa época (63) e depois da entrada do músico Brian Poole (que fez algum sucesso com seu grupo The Tremeloes, principalmente com Twist and Shout em competição com os Beatles e Isley Brothers que também gravaram a canção) entraram para as paradas dos mais vendidos com Searchin’, mas o verdadeiro hit dos Hollies aconteceu em ‘66 quando – com sua natural maneira de fazer música como concertistas (na época ser fã de Chucky Berry era o forte), sem guitarras altas, nem músicas de peso, nem sabor acentuado de blue, mas trazendo como marca registrada o vocal e quatro vozes – gravaram Run Stop e tirando do primeiro lugar em vendagem, por vários meses, mediocridades como Herman’s Hermits e bastante preocupados com harmonizações, vocalizações e uma certa suavidade no tratamento instrumental. Nessa fase, o grupo era constituído por Allan Clarke (principal compositor, vocalista e líder do conjunto), Tony Hicks (guitarrista), Bobby Elliot (baterista) que ainda continuam no grupo até hoje, mais Eric Haydock e Grahan Nash (que ficaria mundialmente conhecido na década de 70 como integrante do Crosby, Stills, Nash e Young) e depois de um desaparecimento no período compreendido entre 1968 a 1972, voltaram com um álbum (Distant Light) editado em 73, que passou despercebido e em 74 lançaram outro (Romany), com as mesmas consequências. E se o caso é fazer funky rock para os mais jovens, ninguém mais experiente que os Hollies com mais de dez anos de carreira, em sua maneira alegre, despretensiosa e em alguns momentos deliciosa como poder ser provado numa atenta audição do seu mais novo disco editado no Brasil. E, é óbvio que os Hollies continuam fazendo música apoiados em sucesso comercial fácil, mas com grande qualidade e versatilidade e bom desempenho instrumental. Deste recente Hollies podem ser destacadas as faixas Falling, Calling, The Air I Breathe (lançada anteriormente em compacto), Pick Up The Pieces Again e a melhor do disco It’s A Shame, It’s A Game com excelente vocal de Allan Clarke. (APRIGIO LYRIO) The Hollies, em 63.


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