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índice/expediente

REC Tudo sobre imagem

#1 FOTOGRAFIA 04/ CONHEÇA O TRABALHO DA SUL-COREANA JEE YOUNG LEE 06/ DAVE ENGLEDON E AS FOTOS COM SUA FILHA CINEMA 08/ LABRUCE: POR UMA ESTÉTICA PORNÔ

TELEVISÃO 14/ NETFLIX NA PREFERÊNCIA DOS MAIS JOVENS

FOTO DA CAPA: DIVULGAÇÃO MODELO: BRUCE LABRUCE

15/ A PRODUÇÃO DE LIKE A ROLLING STONE 16/ NERD OF DEAD - GUERRA DE ZUMBIS

CONSELHO EDITORIAL Cristiano de Rezende Teixeira

18/ NOVA LEI DA ANCINE FOMENTA SURGIMENTO DE NOVAS SÉRIES NACIONAIS

EDITORA FAKE EDITOR DE ARTE Cristiano de Rezende Teixeira REPORTAGEM FULANO CICLANO TRICLANO COLABORADORES Todos os coleguinhas lindos que ajudaram

Essa publicação faz parte da disciplina de Gráfica II, ministrada pela professora Heliana Pacheco, do Departamento de Desenho Industrial - DDI, da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo

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PRODUÇÃO EDITORIAL Cristiano de Rezende Teixeira REVISÃO Cristiano de Rezende Teixeira


editorial

CHEGAMOS!!! Depois de muito trabalho e muita pesquisa, com ajuda de mil pessoas, você dispõe em mãos da primeiríssima edição da revista REC, uma revista sobre a paixão pela fotografia, sobre o cinema - ah, o cinema-, e sobre televisão - quem mais não curte?. Aqui discutiremos com foco underground essas três artes que se alimentam uma na outra: descobertas de novos fotógrafos independentes, diretores que produzem filmes de excelência que não caem no mainstream e discussão e notícias sobre televisão - desta vez de maneira mais ampla, afinal como não debater o mainstream da tevê? Procuraremos através de novas mídias, canais do youtube e tentaremos abarcar também essa nova forma de se fazer TV. Esperamos que vocês aproveitem as páginas e que colaborem conosco caso queiram ver alguma coisa exposta aqui, é só mandar pra esse email aqui, ó: cristiano.rezende@hotmail.com. Boa Leitura!


fotografia fotografia

CONFIRA AS IMPRESSIONANTES E SURREAIS FOTOGRAFIAS DE JEE YOUNG LEE Parece que tudo foi retocado por Photoshop... mas só parece mesmo! O trabalho da recentemente graduada pela Seoul’s Hongik University (em sua terra natal, a Coréia do Sul), Jee Young Lee, registra o invisível e cria estas impressionantes imagens. Considerando que a fotografia tradicional nos envia extratos de realidade aos nossos olhos, Jee oferece trechos de seu coração, de sua memória e de seus sonhos. Contida pelos limites inerentes ao meio fotográfico convencional, ela acrescenta uma boa dose de criatividade plástica e performance teatral, com o objetivo de soprar vida em suas imensas necessidades de expressão e interrogação. Durante semanas, e às vezes meses, ela cria a estrutura de um universo nascido de sua mente dentro dos

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limites de apenas 3x6m, que é o tamanho de seu estúdio. Ela faz isso com infinitas minúcias e extraordinária paciência, de forma a excluir qualquer alteração fotográfica ulterior. Uma vez materializados, estes mundos tornam-se reais e se concretizam: a imaginação é revertida para o tangível e a aparência ficcional das fotos depõem-se como realidade. No meio de cada uma destas obras de arte está a artista, mas os autorretratos, no entanto, nunca são frontais, uma vez que nunca é o seu aspecto visual que é exibido, mas sim a busca por uma identidade, seus desejos e estado de espírito. Seu imaginário é uma catarse que lhe permite aceitar a repressão social e frustrações. O momento necessário para definir o cenário lhe dá tempo para meditar sobre as causas de seus conflitos interiores, e, portanto, exorcizá-los, que uma vez experimentados, estes, por sua vez, tornam-se presságios de esperança.


Todas as fotos fazem parte da coleção Stage of Mind /// Ao lado: Oversleeping /// Em sentido horário, Last Supper >> Black Birds >> Treasure Hunt >> Panic Room >> My chemical romance >> The little match girl


fotografia

MEET

DAVE ENGLEDON FOTÓGRAFO CRIA SÉRIE NA WEB COM FOTOS DO ‘PIOR PAI DO MUNDO’ 6 >> REC MAGAZINE >> #1


A menina aparece sendo cozinhada, próxima a fogos de artifício e até em cima do carro do pai, que sempre carrega a caneca de “Melhor Pai do Mundo”, uma piada sobre a própria experiência de paternidade do fotógrafo. “O personagem nessas séries é uma paródia do pai que espero nunca me tornar”, contou, mostrando em um vídeo de making-of que são feitas diversas fotos para uma mesma cea, além de muita edição de imagem, e que a menina, claro, não é exposta a risco nenhum. O projeto já arrecadou mais de US$ 3.400 (até então), mais do que a quantia prevista inicialmente para produzir o calendário. De acordo com o fotógrafo, a série já possui 58 fotografias, e todas estão disponíveis em sua página no Facebook.

Foto: Divulgação Foto: Divulgação

Quando nasceu a filha do fotógrafo Dave Engledow, natural do estado de Maryland, nos EUA, o americano decidiu registrar momentos da vida da pequena Alice Bee, porém de uma maneira muito criativa. Dave teve a ideia de criar uma série de fotos chamada “Melhor Pai do Mundo”, na qual, ironicamente, colocaria sua filha em situações nada seguras e registraria tudo em fotos. Como as primeiras imagens fizeram sucesso, Dave decidiu começar um projeto no site Kickstarter e arrecadar dinheiro para fazer um calendário de 2013 com as fotos engraçadas que produz com Alice Bee, juntamente também com sua esposa.


POR UMA ESTÉTICA PORNÔ

BRUCE LABRUCE Integrando influências do punk, da arte pop e da cultura camp, o cineasta Bruce Labruce prova que, após sucessivas transgressões em sua trajetória no cinema pornô, a ternura é o último tabu a ser quebrado.

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Foto: Divulgação


cinema

Cineasta, escritor, fotógrafo e diretor de uma filmografia pornográfica invejável, Bryan Bruce, mais conhecido como Bruce Labruce, aproximou-se do cinema através dos pais, aficionados pelos clássicos de Hollywood. Mas suas primeiras marcas autorais – que atravessariam toda a sua trajetória artística – só seriam forjadas mais tarde, ao ingressar no movimento punk. Deste, surgiram produções como os zine J.D’s, G.B Jones, e, finalmente, sua estreia no cinema, que lhe daria projeção internacional, além de uma ambígua relação com a crítica especializada. Embora suas primeiras experiências com o cinema mantivessem uma coerência com o desenvolvimento posterior de uma unidade estética própria, foi somente através da pornografia que Bruce Labruce foi alçado à condição de autor e seu cinema celebrado em publicações respeitadas como Cahiers Du Cinéma e artigos do The New York Times e Guardian, ao status de obra prima. Niilista ao extremo, potencialmente cáustico e eventualmente contraditório, Labruce transita entre a estrutura da indústria pornô para sabotá-la em seu núcleo mais sensível, depositando em sua narrativa o caráter revolucionário do sexo, povoando a tela do cinema com líderes da extrema esquerda, neo-nazistas homossexuais, ingênuas massas de

manobra políticas, zumbis e mortos-vivos, que funcionam perfeitamente como uma espécie de vírus, que aos poucos corrói as engrenagens que movimentam e dão força ao metamórfico e debilitado mercado audiovisual do sexo. Polêmico, Labruce carrega seus desafetos como prêmios, suas críticas negativas como bons resultados e, embora se possa esperar de sua atitude transgressora uma recíproca contrária que só reitere a insensatez de opiniões repetidamente preconceituosas, é certo que nem artistas como Boy George (que já ironizou seus filmes), Kevin Kostner (que teve acessos de raiva após deixar uma sala de cinema onde se exibia um filme de Labruce) ou Alexander Korda ( que chegou a processar o cineasta pelo uso da célebre fotografia do guerrilheiro Che Guevara em um de seus filmes) corromperam o caráter revolucionário de seu cinema: ao contrário, trouxeram à tona todo o potencial criativo do cineasta, a quem os críticos mais entusiastas – e nem por isso menos cautelosos – batizaram de “ Brecht Pornográfico”, consideração que somente reafirma a função deste gênero cinematográfico como lócus ideal para expressão de sua estética. Nesta entrevista, Bruce Labruce conversa comigo sobre questões como autoria, vanguarda, tecnologias

Foto: Divulgação

Em L.A Zombie o zumbie é interpretado pelo ator pornô François Sagat

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digitais na pornografia e realismo cinematográfico.

Em Skinflick, Labruce ataque frontalmente o arquétipo dos skinheads

Bruce Labruce – Eu sempre tive uma reação ambivalente com a pornografia em geral. Às vezes, ela me excita, outras vezes, me enoja. Às vezes me motiva, em outras, me faz sentir desconfortável. Mas o principal objetivo da pornografia é permitir às pessoas realizarem suas fantasias sexuais – conscientes ou não – assistindo a representações de sexo que podem ser politicamente incorretas, incômodas ou mesmo ofensivas (por exemplo, a maioria das pessoas concorda que o sexo coercivo ou não-consensual é repugnante e imoral, mas as fantasias de estupro estão presentes na grande maioria dos filmes pornô comerciais). Os meus filmes, que eu considero como um hibridismo de pornografia e arte, lidam com imagens sexuais que são similarmente incômodas e “ofensivas”. Para mim, estas imagens podem ser interpretadas como uma projeção ou extrapolação de minha ambivalência geral com relação à pornografia, ou como uma crítica aos tipos extremos de imagens sexuais pelas quais as pessoas são normalmente estimuladas no filme por-

Foto: Divulgação

Alguns de seus filmes exibem cenas que normalmente se afastam dos padrões de identificação do espectador de filme pornô, ao expô-los a situações visualmente desagradáveis, como em Hustler White (onde um cliente é penetrado pela perna mecânica de um michê), Otto (que exibe cenas de ingestão de vísceras animais) e L.A Zombie (no filme, corpos ensanguentados são penetrados em vias “alternativas” pelo pênis putrefato de um zumbi). O fato é que, ainda assim, você continua a trabalhar com as convenções da pornografia, produzindo nos espectadores uma ambígua relação de excitação e repulsa. Fale um pouco sobre esta relação aparentemente contraditória em seus filmes.

nô. O que mais me espanta nessa discussão toda é que não importa o quão longe eu ultrapasse os limites da representação, nem quantos tabus eu quebre, há sempre alguém que me diz que ainda se excita sexualmente com meus filmes. Nos últimos anos, algumas discussões sobre o realismo cinematográfico vem reaparecendo através de conceitos como O Retorno do Real (Hal Foster), Ritos do Realismo (Ivone Margulies) e Realismo Corpóreo ( Lucia Nagib). Algumas destas discussões estão centralizadas no corpo e suas abordagens pelo cinema contemporâneo. Em sua opinião, qual a importância destes debates sobre o realismo no filme pornográfico? Labruce – Eu não sigo religiosamente filmes contemporâneos ou teorias do cinema. Propositalmente, eu abandonei a academia nos anos 80


cinema

por causa da tendência semiótica ao ofuscamento intelectual e sofístico. Decidi me tornar um artista/cineasta e trabalhar mais intuitivamente. Eu nunca fui um grande interessado em teoria pósestruturalista francesa (apesar de ter lido tudo de Lacan que foi traduzido no inglês para a conclusão meu curso de pós-graduação em “ Psicanálise e Feminismo”, por isso não me sinto interessado por Hal Foster. Eu adoro Chantal Akerman, e me interesso por suas idéias sobre o assunto).

cerem a forte conexão entre a representação sexual extrema e sua expressão vanguardista. Vários dos grandes cineastas pornôs da década de 70, por quem também me sinto influenciado, – Peter Berlin, Fred Halsted, Wakefield Poole, Peter de Rome, Jack Deveau, entre outros – foram claramente influenciados pelas vanguardas de cinema e arte e fizeram trabalhos que dialoga-

Alguns padrões do cinema pornô têm sido revisitados por uma sucessão de cineastas atualmente. Entretanto, estas ligações com a estética pornográfica são muito frágeis, transitórias ou pouco relevantes. Você acha que é possível discutir conceitos como cinema de autor e vanguarda na pornografia contemporânea?

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Labruce – Claro! Não há dúvida que exista uma profunda conexão entre a vanguarda gay e a pornografia, por exemplo. Vários dos cineastas gays de vanguarda por quem sou influenciado – Jean Genet, Kenneth Anger, Jack Smith, Andy Warhol, Paul Morrisey, Mike Kuchar, Curt McDowell, John Waters, etc - foram fortemente influenciados pela pornografia e fizeram filmes considerados pornográficos, fazendo referência à pornografia ou a suas convenções, além de reconhe-

Acima: O polêmico diretor canadense Abaixo: Cena do filme Skin Flick

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vam tanto com a arte, quanto com as convenções do filme pornô.

Quadro do filme Up With Dead People

Fale-me sobre como estes cineastas – particularmente Kenneth Anger e Andy Warhol – influenciaram suas produções. Labruce – O trabalho de Anger interessa a mim pelo atrelamento das imagens rituais e sua confluência dos tropos históricos e culturais clássicos à iconografia contemporânea, à música, além de sua inebriante mescla de vanguardismo e cultura pop. Jurgen Anger, personagem do filme Hustler White, foi concebido parcialmente como um tributo a Kenneth Anger (mesmo que ele despreze profundamente o filme). E quanto ao Warhol, sempre fui influenciado por seu trabalho, particularmente seu trabalho no cinema e seu modelo de produção de vanguarda na Factory, sua reconfiguração do star system hollywoodiano em um depravado contexto homossexual novaiorquino, seu distanciamento emocional, seu sarcasmo, sua natureza fofoqueira e sua marcada afetação. O aparecimento de novas tecnologias no cinema trouxe consigo outras formas de percepção das narrativas audiovisuais, oferecendo aos espectadores ilusões imersivas. Como você avalia o uso destas novas tecnologias no cinema contemporâneo (particularmente na pornografia)? A experiência da Pina, de Win Wenders, por exemplo, parece confirmar um uso criativo destas novas tecnologias da sensibilidade. Eu não tenho nada contra a tecnologia, mas acho que há uma tendência para esta nova fixação pela fetichização dos novos aparatos da tecnologia e dos avanços tecnológicos para produzirem trabalhos que privilegiem considerações formais em detrimento dos conteúdos, para despolitizarem a arte, tenderem à mercantilização, enfim. Acabam-se reduzindo a novas parafernalhas e engenhocas.

No Skin Off My Ass (1993)>>Super 8½ (1993)>>Hustler White (1996)>>Skin Flick / Skin Gang (1999)>>The Raspberry Reich (2004)>>Otto; or Up with Dead People (2008)>>L.A. Zombie (2010)>>Gerontophilia (2013)

Foto: Divulgação

FILMOGRAFIA


Foto: Divulgação

televisão

NOVA GERAÇÃO ADOTA NETFLIX E REJEITA TV POR ASSINATURA Nova geração de consumidores começa a morar fora da casa dos pais e opta por não assinar o serviço de TV paga e nem pretende contratá-lo no futuro. São Paulo - O fenômeno dos cord cutters nos Estados Unidos - de consumidores que cancelam seus serviços de TV por assinatura e passam a contar com a oferta de conteúdos através de serviços digitais não lineares, como Netflix e iTunes - já evoluiu para o dos cord nevers. Trata-se de uma nova geração de consumidores que começa a morar fora da casa dos pais e opta por não assinar o serviço de TV paga e nem pretende contratá-lo no futuro. No Brasil este fenômeno já foi observado. “O gap está cada vez menor em relação aos Estados Unidos. Não é mais verdade que o que acontece na TV por assinatura de lá vai ter reflexos aqui apenas cinco anos depois”, diz Carolina Teixeira, consultora de telecomunicações da Frost & Sulivan. Segundo ela, o cord never brasileiro pode ser não apenas de uma nova geração, mas de um classe social que ainda não tem o serviço de TV por assinatura em casa. “O preço alto dos pacotes mais avançados, com uma boa oferta de canais em HD, pode ser um acelerador dessa tendência”, explica. A Frost & Sulivan ouviu o setor de TV por assinatura para o estudo Perspectivas para o mercado de TV Paga

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Não-linear no Brasil. Segundo Carolina, a empresa prepara agora uma segunda rodada para aprofundar o estudo, ouvindo o usuário final. A ideia é levantar qual é o ritmo da tendência no País. “Ninguém sabe qual é o tamanho real do mercado de OTT no Brasil. As operadoras trabalham com a complementaridade dos dois serviços. Queremos checar que se essa complementaridade se manterá”, explica a consultora da Frost & Sulivan.

NOVAS RECEITAS O estudo aponta que o Brasil está entre os países que mais crescem em consumo de vídeos online, com taxas maiores que Reino Unido e EUA. A expectativa da Frost & Sullivan é que, em 2017, 35% das receitas de TV paga no Brasil venham de serviços não-lineares. A exemplo de provedores como a Globosat, criando suas próprias soluções como o Muu e Telecine Play, as operadoras de TV também já lançaram seus OTTs, como o Vivo Play, ClaroVideo, SkyOnline entre outros. Isso mostra a força que este segmento vem ganhando no mercado. A penetração da banda larga, que vem crescendo expressivamente no País, deve ser um dos motores dos serviços não-lineares. Segundo o estudo FTTH in Latin America da Frost & Sulivan, o Brasil vai chegar a 1,3 milhão de usuários de fibra até 2017 e 22.6 milhões de acessos 4G. Também deve colaborar a evolução dos equipamentos conectados como smart TVs e caixas como AppleTV e Roku. Tablets e Smartphones também são dispositivos cada vez mais utilizados para o consumo de conteúdo online, e a expectativa é que o crescimento de tablets no Brasil entre 2012 e 2014 seja de 80%, segundo estimativas da Frost & Sullivan. Hoje, aponta Carolina Teixeira, o assinante médio do Netflix, o maior serviço OTT em operação no País, também assina TV paga. O que mostra que a complementaridade dos serviços, hoje, ainda é uma realidade. Além disso, para a analista a participação das empresas de TV no mercado OTT só não é maior por uma decisão estratégica delas. “O setor ainda não sabe quais são as margens desse serviço. Hoje estão se financiando para atuar de forma mais competitiva no futuro”, diz.


Um dos melhores clipes de 2013 pertence a uma música de 48 anos. O vídeo interativo para a “Like a Rolling Stone”, lançado no último dia 19, é excepcional: a música toca, enquanto você pode passar por dezesseis canais de uma programação simulada de televisão. Mas seja assistindo às notícias sobre economia, uma comédia romântica ou um torneio de tênis, tudo parece autêntico, exceto pelo fato de os personagens estarem dublando a letra da música. Muitos dos canais são estrelados por atores, mas o elenco é composto também por várias celebridades, como o comediante Marc Maron, o rapper Danny Brown, os hosts de Pawn Stars e Drew Carey (no set de The Price Is Right). O efeito geral é incrivelmente convincente: o quanto mais você passeia pelo vídeo de “Like a Rolling Stone”, mais o desprezo da música parece adereçado à civilização ocidental. Quando você chega a uma apresentação antiga de Bob Dylan, parece que ele é a única pessoa real da programação. “O efeito só pode ser surrealista se os canais foram realistas”, disse Vania Heymann, o diretor israelense de 27 anos que fez o vídeo. “Na vida real, a mudança de canais é uma ação passiva. Você está sentado na sua casa, sem fazer nada. Nós quisemos torná-la ativa, reeditando a própria música para fazer uma nova versão.” Demorou dois meses para o vídeo ser montado. “Tem uma hora e quinze minutos de duração se você assistir todos os canais do começo ao fim”, Heymann aponta. “É como um filme dentro de um vídeo de cinco minutos.” Enquanto Heymann gravou alguns dos canais na Califórnia (The Price Is Right, por exemplo) e a partida de tênis em Israel (para que pudesse recrutar os amigos dele na plateia), a maior parte da filmagem foi feita na região de Nova York.

Imagem do clipe

Foto: Divulgação

SAIBA COMO FOI FEITO O BRILHANTE VÍDEO DE “LIKE A ROLLING STONE”, DE BOB DYLAN

Uma casa no subúrbio serviu de cenário para cinco canais diferentes no mesmo dia, incluindo o canal de compras, de história e o programa de culinária. Yoni Bloch, a CEO da Interlude, a agência digital por trás do projeto, diz que a gestação do vídeo foi difícil. “Sabe quando você está no meio da criação, nada faz sentido e você quer morrer”? Heymann diz que a maioria dos atores que fizeram teste disse a ele no final que “havia sido muito estranho”. A dúvida continuou durante as filmagens. “Eu tentava dizer às pessoas: ‘No final, tudo vai se conectar.’” Ele pediu para os atores “não se referirem aos versos da música”. “É como se eles estivessem tentando dizer algo totalmente diferente, e a boca deles está possuída.” Adeena Sussman, que interpreta a apresentadora do canal de culinária, ensaiava cada cena como se estivesse dando instruções culinárias de verdade. A sobremesa que ela prepara é uma receita real (com os ingredientes detalhados nos gráficos na tela). “Você pode preparar em casa”, Heymann promete. O próprio Heymann faz uma ponta – no canal de notícias, quando a vítima da facada olha para a câmera e recita o segundo verso da música. Enquanto você suspeita que o criminoso seja o mendigo misterioso, ele diz que na verdade era o produtor executivo do vídeo. O vídeo já é um fenômeno: Bloch disse que chegou próximo a um milhão de visualizações no primeiro dia, 90% com mudanças de canal. “E não posso dar nomes, mas nossas caixas de entrada estão cheias de pedidos de grandes canais querendo adicionar seus programas na mistura. É como se estivéssemos criando um formato.”


televisão

nerds vs zumbis Nerd of the dead é uma websérie brasileira de ação e comédia idealizada por Rodrigo Gasparini. Com o total de quatro episódios e sendo realizada de forma independente, a trama envolve uma dupla de amigos que se encontram no meio de uma tão aguardada infestação zumbi em seu apartamento. Os dois então se preparam para salvar Raquel, amiga e interesse amoroso do protagonista, e saírem vivos do condomínio. O projeto realizou-se através do apoio e, principalmente, da divulgação realizada pelo site Omelete, junto a um financiamento coletivo e a participações especiais do dublador Guilherme Lopes e do humorista Danilo Gentili. Seu decorrente sucesso é um fenômeno surpreendente que chega até mesmo a levantar especulações sobre a gradativa independência das séries da mídia televisiva graças a internet, o que não é meu objetivo no momento.

o qual é voltada. Com linguagem contemporânea e bem informal, Nerd of the dead faz inúmeras referências que podem ser facilmente reconhecidas pelo espectador, abrangendo filmes, videogames, quadrinhos e inúmeros outros produtos da cultura pop. Aquele que for mais atento poderá reconhecer diretamente elementos de Scott Pilgrim à Kill Bill (o próprio título nos remete aos clássicos de George A. Romero), entretanto, não é pré-requisito possuir um repertório de “nerdice” para aproveitar a série. Além de seu conteúdo altamente rico, dentro deste âmbito de cultura jovem, suas características mais marcantes com certeza são a maquiagem e os efeitos utilizados. A experiência visual da série encanta e diverte juntamente com seu humor irônico que inúmeras vezes satiriza os principais clichês narrativos, especialmente os cinematográficos.

A produção é simples, mas muito bem desenvolvida e trabalhada para agradar o público jovem para

A forma como os personagens são apresentados e construídos desperta uma forte simpatia no

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Foto: Divulgação

Os atores Pedro e Carvalho e Rodrigo Gasparini que interpretam Kaiser e Bocarelli respectivamente

espectador. Apesar de explorar a temática dos zumbis, é totalmente extrovertido e não se prende à violência gráfica. Considero Gasparini quase que um herói pessoal por ter levado o projeto adiante, mesmo que sua primeira temporada tenha se encerrado com apenas quatro episódios de aproximados quinze minutos. Nerd of the dead pode não ter sido apoiado pelos conservadorismo do mercado audiovisual brasileiro, mas houve toda uma movimentação na internet para que a série (ou seria “microssérie”?) pudesse se concretizar. Esta proximidade com o público se revelou como uma quase relação afetiva, já que é uma produção brasileira que dialoga com os interesses deste grupo consumidor. Inicialmente pensavam em produzir um longa, ou então viabilizar um curta metragem, mas pela limitação de recursos optaram pela websérie, o que acabou sendo não só a opção mais viável, mas também um modo mais rápido de chegar a

seu público. Veicular este material na internet foi realmente uma estratégia bem perspicaz numa perspectiva prática de exibição, pois além de independer de um distribuidor ou um canal televisivo, possibilitou ao espectador assisti-lo a qualquer momento e divulgar facilmente com os amigos, permitindo ainda um rápido retorno sobre a aceitação e difusão do material na rede. Sua proposta é bastante original e esbanja criatividade, inclusive por não demonstrar qualquer limitação, revelando assim a admirável competência do grupo todo como realizador. De fato é uma produção que se difere bastante de tudo que já foi feito utilizando zumbis. De modo muito grosseiro, Nerd of the dead é uma versão otimizada do que seria um crossover refilmado no Brasil de Napoleon dynamite (2004) com O dia dos mortos (1985). Uma produção notável e bem explorada que revela o potencial criativo do brasileiro na disciplina da narrativa seriada e na realização de audiovisual.


Foto: Divulgação

A minissérie ‘Contos do Edgar’ estreou na Fox

LEI DA TV PAGA PROVOCA CRESCIMENTO DAS PRODUÇÕES BRASILEIRAS “Estamos diante de uma explosão de demanda.” A declaração é de Manoel Rangel, diretor da Agência Nacional de Cinema, a Ancine. Dados da própria Ancine indicam que o número de obras brasileiras veiculadas em 15 dos principais canais de TV por assinatura do País foi quadruplicado nos últimos seis meses. O crescente aumento de produções audiovisuais brasileiras que ocorre há pouco tempo escancara os efeitos práticos da chamada Lei da TV Paga. A lei não é nova – foi criada em 2011 –, mas as obrigações de programação começaram em setembro de 2012 e acontecem de maneira progressiva, atingindo a totalidade em setembro deste ano. A ideia é aumentar a quantidade e a qualidade do produto brasileiro visto em tela. E, por isso, a lei se consolida como a principal razão pelo surgimento de novas produções – princi-

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palmente séries e filmes – e até de novos canais nas TVs por assinatura. “O País está sendo capaz de produzir a sua própria imagem. Um país que não faz isso tem muita dificuldade de afirmação na cena internacional”, ressalta Rangel. A Lei 12.485 é extensa, mas fica explícita em alguns aspectos: canais que exibem predominantemente filmes, séries, animação e documentários passam a ter obrigação de dedicar, à veiculação de conteúdos brasileiros, três horas e 30 minutos semanais de seu horário nobre – das 11h às 14h e das 17h às 21h nos canais direcionados para as crianças e de 18h à 0h para os demais. Além disso, a lei estabelece que todos os pacotes oferecidos aos consumidores devem incluir um canal de


espaço qualificado de programadora brasileira para cada três canais de espaço qualificado. “Seguramos um pouco o lançamento do Arte 1 em função de toda essa mudança na legislação que rege o mercado de TV por assinatura porque nós queríamos que o canal já nascesse dentro dos parâmetros e do espírito da nova lei”, explica Rogério Gallo, diretor do canal Arte 1, lançado oficialmente em março, já no encalço da Lei da TV Paga. Para serem considerados como canais brasileiros de espaço qualificado, assim como o Arte 1, eles precisam ser programados por uma programadora brasileira – excluem-se, por exemplo, canais como Warner e Sony, por virem de fora – e veicular na maior parte de seu horário nobre conteúdos audiovisuais brasileiros. Além disso, não podem ter nenhum tipo de acordo de exclusividade que impeça sua programadora de comercializar os direitos de sua exibição para qualquer operadora interessada. Cientes das condições, as grandes empresas já se articulam para aproveitar o novo momento. “Acredito que até o final do ano deveremos ter alguns outros produtos para oferecer ao cardápio de canais pagos brasileiros”, conta Paulo Saad, vice-presidente do Grupo Bandeirantes. Ele adianta que o grupo tem planos de lançar mais dois canais, mas não revela qual o tipo de conteúdo que será exibido por eles. Outro detalhe importante sobre a Lei da TV Paga é que, no mínimo, metade de todo o conteúdo gerado para esses canais deve ser feito por produtora brasileira independente. Essa medida visa estimular a competição e incentivar uma nova dinâmica para produção dos conteúdos. Hoje, os esforços estão centralizados em séries. Um punhado delas ou foram lançadas recentemente ou serão lançadas em breve. O Warner Channel já exibe a comédia Vida de Estagiário, a Fox estreou Contos do Edgar, que adapta contos de Edgar Alan Poe e tende para o suspense. Se Eu Fosse Você - A Série, versão televisiva do filme que conta com Gloria Pires e Tony Ramos – com outro elenco – está prevista pela Fox. O Arte 1 também entra na onda das séries com Uma Obra de Arte Sumiu, que vai mostrar documentários sobre os roubos de obras de arte ocorridos em grandes museus brasileiros. “É muito interessante, uma maneira de falar de arte,

mas com um tom meio policial”, adianta Gisele Kato, editora-chefe do Arte 1.

CAMPO ABERTO A nova lei tem implicações sobre os canais e operadoras, afeta diretamente as produtoras independentes e, claro, beneficia a classe artística. Com a imensa abertura no campo de trabalho, atores e atrizes passam a ser cada vez mais requisitados e os espaços para rostos conhecidos que andavam sumidos acabam surgindo. Os próprios artistas começam a olhar para a produção de séries com outra visão. “Estou muito a favor dessa linguagem de série. É um mercado que está se abrindo mais ainda. É uma obra fechada onde você tem a possibilidade de construir a trajetória do personagem com início, meio e fim”, explica Rafaela Mandelli, que vai viver uma garota de programa de luxo na série O Negócio, que o canal HBO estreia em maio. Escritores e roteiristas também têm motivação extra graças aos mecanismos da nova lei. Além do maior nicho para trabalhar, eles ainda têm oportunidade de criar em um espaço mais abrangente, onde conseguem se aprofundar em determinados temas. “A gente pode avançar muito mais, tratar as coisas de um jeito que eu considero mais próximo de um espectador um pouco mais sofisticado, um pouco menos preconceituoso. Acho que é muito legal isso da TV fechada”, afirma a roteirista Antônia Pellegrino, que assinou a série Oscar Freire 279, exibida no Multishow.

INSTANTÂNEAS - A estimativa da Ancine é de que R$ 400 milhões anuais sejam gerados para o setor de produção audiovisual, por conta dos mecanismos previstos na Lei 12.485. - A lei determina que 30% do conteúdo seja produzido por empresas, técnicos e artistas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. - Vinte novos canais que exibem conteúdos brasileiros foram criados nos últimos meses. - Em janeiro de 2012, os 15 principais canais de TV por assinatura exibiram 56 obras brasileiras. Em dezembro, 273 programas brasileiros foram ao ar nesses canais.


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Revista REC  

Revista para a disciplina de Gráfica II.

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