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Compromisso com o futuro


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Vou te contar. Os olhos já não podem ver a dimensão que a Braskem alcançou nos seus primeiros 10 anos. Hoje, são mais de 7.600 integrantes espalhados pelo Brasil e pelo mundo, trabalhando afinados para trazer soluções inovadoras para o seu dia a dia, por meio de plásticos, tintas, cosméticos e muitos outros produtos. Nosso agradecimento aos clientes, integrantes, consumidores e parceiros por estarem junto com a Braskem. Estes últimos 10 anos, e os próximos, são em homenagem a vocês.

É impossível ser feliz sozinho.


Sumário Apresentação................................................................................................19

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Pela competitividade da RMS............................................................. 86 Energia da Copa......................................................................................... 87

(Im)pacto metropolitano....................................................................... 22

Infográfico: Planejando o futuro de Salvador e Região Metropolitana.............................................................................................. 92

Infraestrutura............................................................................................... 24

Tudo é plástico............................................................................................ 94

Mosaico urbano.......................................................................................... 25

Sustentabilidade. ..................................................................................... 100

Propostas apresentadas no seminário......................................... 26

A conta é alta.........................................................................................101

Metrópole mais forte e parceira........................................................ 28

A evolução no debate sobre sustentabilidade................... 102

O boom das cidades................................................................................. 34

Propostas apresentadas no seminário.................................. 103

Salvador quer soluções conjuntas para RMS............................. 38

Nova oportunidade para o Brasil................................................ 105

Cidades interligadas.................................................................................40

‘A conta está na mesa’......................................................................110

Na contramão..............................................................................................44

Planejamento sustentável.............................................................112

Espanhol critica mobilidade de Salvador...................................... 47

A marca de Salvador.........................................................................114

A nova Barcelona....................................................................................... 52

Dias mais quentes com menos água........................................119

Da periferia às praias............................................................................... 55

Desperdício de 12 Diques do Tororó......................................... 125

Criação de companhia metropolitana............................................ 60

O mapa da água na Bahia............................................................... 129

Um caminho melhor para 13 cidades.............................................. 64

ICMS Ecológico para a Bahia........................................................ 134

Conexão com os moradores............................................................... 66

Imposto para preservação ambiental..................................... 139

Cidades inteligentes..................................................................................71

Infográfico: O preço da água........................................................ 142

Futuro já em construção....................................................................... 76

Água suja que vai morrer na praia............................................. 144

Respeito às culturas................................................................................ 78

Plástico mais verde........................................................................... 149

A espera de investimentos...................................................................81

Oportunidade de negócio.............................................................. 152 15


16

Uma Camaçari de economia........................................................ 154

Área de sombra na produção baiana.......................................227

Economia gota a gota...................................................................... 157

Produção off-line..............................................................................232

O maior do planeta.............................................................................161

Tecnologia ambiental.......................................................................236

Na cabeça dos baianos.................................................................... 165

Regras mais claras com o novo Código.................................240

Incentivo à pesquisa......................................................................... 167

Safra agrícola no plástico..............................................................242

Esgoto também pode gerar energia elétrica.......................171

Mais energia para o Oeste............................................................247

A Era de Aquarius.............................................................................. 176

Inovação com etanol de segunda geração..........................250

A água de cada dia............................................................................ 179

Turismo...............................................................................................................252

Agronegócio. ................................................................................................ 184

Bem na foto..........................................................................................253

Os dois Brasis...................................................................................... 185

Propostas apresentadas no seminário.................................254

Um norte para o agronegócio..................................................... 186

De passagem bem ligeiro por Salvador.................................256

Propostas apresentadas no seminário................................. 187

Dinheiro do turismo muda de lado no bolso........................262

Na conta do produtor, o preço do buraco............................. 189

Para driblar a concorrência..........................................................265

Uma fortuna que se perde pelo caminho.............................. 194

Com a palavra, o turista.................................................................269

Olha quem vai pôr a mesa............................................................. 198

Casa arrumada...................................................................................273

Mais ciência, menos ideologia ...................................................204

Parceria é palavra-chave . ...........................................................275

Na liderança mundial........................................................................208

Uma oportunidade de ouro.......................................................... 277

Selo verde para o agricultor......................................................... 212

Novos tempos para o turismo....................................................279

Redução do Custo Bahia................................................................ 216

A força do turismo ...........................................................................284

Infográfico: Logística que não funciona.................................220

A joia esquecida.................................................................................287

Tecnologia de ponta só na produção......................................222

Ainda dá tempo.................................................................................. 291

17


Inovação como diferencial............................................................295

Planejando o futuro

Eles estão com tudo........................................................................299

C

Infográfico: Soluções na bagagem...........................................304 A distância entre Montreal e Salvador..................................306 Educação ambiental........................................................................ 312 A história passa pelo mar............................................................. 314 O segredo de um novo destino . ............................................... 317 Muito além do gramado.................................................................323 Regiões turísticas com mais energia......................................326

Realizadores. ................................................................................................330

omo será a sua cidade daqui a 10 anos? Mais moderna, sustentável, tecnológica, com transporte público integrado, com mais qualidade de vida para seus moradores? Em um mundo globalizado, as cidades ganharam nova configuração, cada vez mais importância na economia de seus países e, por consequência, os holofotes dos mercados. Quem se destaca é aquela que oferece não só vantagens fiscais, como muitos achavam, mas especialmente melhores condições de infraestrutura e espaço urbano planejado.

Replique essas perguntas para um conjunto de cidades baianas e pense em como a Bahia será na próxima década? Para que o estado possa se manter como a principal economia do Nordeste, crescer acima do desempenho do Brasil e competir aqui e fora do país, o planejamento, apontam os experts no assunto, é essencial. O que se projeta para o futuro precisa ser debatido desde já. E é exatamente essa a proposta do Fórum Agenda Bahia, organizado pelo jornal CORREIO e rádio CBN, com apoio da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). Pelo terceiro ano, o Agenda Bahia reuniu os executivos das principais empresas do país, os melhores especialistas daqui e do mundo e também representantes do governo para, juntos, buscarem soluções para o desenvolvimento da Bahia. Um crescimento que alie dois conceitos cada vez mais adotados pelas regiões mais prósperas e de destaque no mundo: o da inovação e da sustentabilidade, que implicam em um novo modelo de governança, onde o planejamento estratégico está antenado com os pilares do desenvolvimento econômico e também ambiental, cultural e social. Para avançar nessas discussões, o Fórum Agenda Bahia 2012 elegeu quatro novos temas. Em Infraestrutura, foi debatida Metrópole Baiana; em Sustentabilidade, O Valor da Água; em Agronegócio, O Código Florestal e a Logística no Campo; e, em Turismo, A Retomada do Turismo. Em quatro dias de seminários, 16 palestrantes e 36 debatedores estiveram no auditório da Fieb. Dali saíram propostas para as cidades baianas e também compromissos firmados por uma Bahia mais competitiva (confira cada um deles nos capítulos deste livro). Em Infraestrutura, a Metrópole Baiana ganhou foco no seminário. A Região Metropolitana de Salvador concentra grande parte dos serviços, da produção industrial e da população do estado. Em 2008, somente as 13 cidades respondiam por 48% do Produto Interno Bruto (PIB) baiano e por 25% da população do estado, segundo dados do Censo de 2010.

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19


Salvador está no centro de um complexo polo urbano que integra municípios como Lauro de Freitas, Simões Filho, Camaçari e Candeias. É cada vez mais difícil determinar com precisão os limites de cada uma das cidades. Mas os grandes problemas se tornaram comuns. Tanto que o secretário de Infraestrutura e vice-governador, Otto Alencar, admitiu, durante debate sobre a Reinvenção da RMS, a necessidade de criação de órgão ou de um gestor para planejar a infraestrutura das cidades da Região Metropolitana de Salvador. Especialistas renomados do Brasil e da Espanha também apresentaram soluções no seminário para que a RMS possa se renovar, inovar, trazer mais qualidade de vida para seus moradores e também aumentar a competitividade da principal região produtiva do estado. Em Sustentabilidade, foram anunciadas mudanças no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço da Bahia. No debate para discutir esse tema, o secretário da Fazenda, Luiz Petitinga, garantiu que o governo vai implantar o ICMS Ecológico, com critérios de sustentabilidade na partilha de recursos para os municípios. O texto será encaminhado ainda no primeiro semestre de 2013. A Bahia é um dos 10 estados da federação que ainda não avançaram nessa questão.

para a recuperação do destino. O alerta partiu dos especialistas no Fórum Agenda Bahia: uma cidade para atrair turistas precisa, antes de qualquer promoção, oferecer boas condições para seus moradores. Neste livro está publicado o conteúdo de todas as palestras, debates e ainda as quase 60 reportagens especiais, produzidas pelo jornal CORREIO desde julho de 2012, com o objetivo de apresentar um raio-X da realidade do estado e de aprofundar as discussões em cada um dos temas propostos. O Fórum apresentou, nesta edição, outra novidade. Foi formado o Conselho Agenda Bahia, com empresários e representantes da Rede Bahia, para aprofundar discussões, formular estratégias e manter em pauta, durante todo o ano, os temas essenciais para o desenvolvimento do estado. O apoio do parceiros, que acreditaram na relevância dos debates, foi fundamental para a realização dos seminários. A terceira edição do Fórum Agenda Bahia deixa à disposição da sociedade um amplo repertório de propostas e pactos firmados durante a realização do evento. Em 2013 tem mais.

Também em Agronegócio, boas notícias para o estado: a Secretaria de Agricultura vai criar o Selo Verde, com certificação para agricultores que irrigam suas culturas com eficiência e economia de água. Certificação, aliás, tem sido uma exigência cada vez maior do mercado mundial de alimentos, como apresentou em sua palestra Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), embaixador especial da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e ex-ministro da Agricultura. Roberto Rodrigues defendeu que o Brasil lidere um programa mundial de segurança alimentar. Mas para a Bahia pegar carona nessa (excelente) oportunidade precisa fazer o dever de casa, especialmente em infraestrutura e logística no campo, como mostram os especialistas neste livro. A Retomada do Turismo destacou a importância de recuperação de uma das principais atividades da economia de Salvador. A capital baiana vem perdendo espaço no turismo para outras cidades, especialmente no estado. Os números dessa nova realidade foram revelados em reportagens especiais no jornal CORREIO. No seminário, foram apresentados caminhos para Salvador percorrer e voltar a ser referência, como no passado, em Turismo. Planejar e investir na cidade ganharam destaque como pontos essenciais 20

21


No debate A Reinvenção da Região Metropolitana de Salvador, o secretário estadual de Infraestrutura e vice-governador Otto Alencar e o presidente da Rede Bahia criticaram o atual pacto federativo, responsável por provocar um desequilíbrio na divisão de receitas arrecadadas com tributos entre as unidades da Federação e a União. Para ambos, a Constituição centralizou os recursos nacionais nas mãos da União. O tema ganhou força em outubro depois que uma comissão, instituída pelo Senado para propor mudanças na legislação entregou um relatório em que aponta sugestões para reduzir o desequilíbrio, com prioridade para quatro temas: Fundo de Participação dos Estados (FPE), distribuição dos royalties do petróleo, guerra fiscal e dívidas dos estados. Antonio Carlos Júnior: momento propício para planejar futuro das cidades da RMS Foto: Marna Silva

(Im)pacto metropolitano A abertura do Fórum Agenda Bahia 2012 foi realizada pelo presidente da Rede Bahia, Antonio Carlos Júnior, que falou sobre o desafio de planejar e executar projetos para solucionar problemas tão complexos para a Região Metropolitana de Salvador. O presidente da Rede Bahia lembrou a grande virada econômica da Bahia, nos anos 1970, quando ocorreu a implantação do Polo Petroquímico em Camaçari. A instalação de indústrias nacionais e internacionais colocou a Bahia em um mapa de desenvolvimento econômico que garantiu a unificação da região, responsável por mais de 40% do Produto Interno Bruto do estado.“Há 40 anos, 65% da economia baiana era baseada na cultura do cacau. A implantação do Polo Petroquímico pelo então governador Antonio Carlos Magalhães mudou o perfil econômico da Bahia. O que fatalmente aconteceu com o cacau, com a vassoura de bruxa, poderia ter acabado com a economia do estado”, disse. “O Polo lançou a semente da região que discutimos aqui no Fórum”, acrescentou. Hoje, as 13 cidades da RMS diversificaram suas atividades econômicas e também seus problemas. Engarrafamentos, crescimento desordenado, falta de infraestrutura e logística são problemas comuns entre todas elas. Unida por conexões que vão muito além dos quilômetros que cortam seus territórios, a Região Metropolitana busca soluções. “A questão que afeta uma cidade impacta diretamente no funcionamento da outra. O momento é propício para debatermos essas questões e planejarmos juntos o futuro dessas cidades”, disse.

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Otto Alencar afirmou que muitos problemas no estado seriam decorrentes da balança desfavorável, que jogava nas mãos dos estados o compromisso de sustentar municípios arrasados economicamente, como ocorre atualmente com a região do semiárido. “Boa parte dos moradores desses municípios não encontra soluções em suas cidades, cada vez mais pobres, e vêm para a capital em busca de empregos”, afirmou o secretário. O resultado é o aumento da desigualdade na metrópole. Ao final dos quatro seminários, Antonio Carlos Júnior fez o encerramento do Fórum Agenda Bahia 2012. Para o presidente da Rede Bahia, os temas debatidos ao longo dos quatro seminários dessa edição apontaram soluções para os principais entraves para o desenvolvimento da Bahia. “Debatemos a Metrópole Baiana, e autoridades da Região Metropolitana de Salvador já pensam em uma atuação conjunta. O projeto de um ICMS Ecológico foi discutido no seminário sobre Sustentabilidade, e recebemos a notícia da criação de um selo verde para estimular agricultores baianos a economizar água”, disse o presidente. A participação dos especialistas, empresários e do público, que acompanhou direto do auditório ou através dos canais online, enriqueceu as discussões, segundo Júnior. “Foram horas de riquíssimas trocas de informação e discussão, abrilhantadas pela contribuição dos anfitriões da Fieb”. afirmou. Segundo o presidente da Rede Bahia, “o fórum termina alcançando seu maior objetivo: contribuir para o desenvolvimento do nosso estado”. Antonio Carlos Júnior destacou o papel da Rede Bahia na dianteira da promoção do turismo no estado. Como exemplos foram citados as transmisssões do Carnaval baiano, ao vivo, para o estado e para mais de 100 países, e ainda o Festival de Verão, o maior evento do Verão do país. “Estamos abertos para, junto com o governo, tocarmos um projeto para o São João na Copa”, afirmou.

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Mosaico urbano

Q

uando você monta um quebra-cabeça cada uma das peças tem a sua função. Muitas vezes é difícil, especialmente no começo, encontrar aquelas peças-chave que servem quase como ímã para atrair as seguintes. Você pega uma, descarta, usa outra, descarta, escolhe a terceira.... até completar seu objetivo. A (re) construção de uma cidade segue a mesma complexidade.

*

Infraestrutura

Infraestrutura

No seminário Metrópole Baiana, o presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José Mascarenhas, em sua elogiada palestra, usou uma frase para explicar como um planejamento bem feito pode tornar uma cidade mais sustentável. “São peças que se encaixam”, lembrou. Não adianta “esparadrapos”, para usar mais um termo do experiente presidente da Fieb. É preciso fazer conexão, como citou o arquiteto e consultor internacional, Carlos Leite. Para a cidade ser viva e voltada para seus moradores, ela deve ser pensada como um todo, destacou o espanhol Manuel Herce, um dos responsáveis pela transformação de Barcelona. Pode ser construída aos poucos, como em um quebra-cabeça de mil peças, mas planejada numa mesma direção. Sem copiar integralmente modelos externos, mas respeitando suas multiplicidades e sua história, como lembrou Sergio Magalhães, um dos criadores do projeto que urbanizou favelas do Rio de Janeiro, o Favela-Bairro. Um planejamento urbano para dar certo, reforça Magalhães, também deve seguir outra estratégia: a qualidade na prestação do serviço público, como recolhimento de lixo, acesso à água, etc... Na entrevista à rádio CBN, para uma série sobre o tema do seminário, Sergio Magalhães explicou que o Favela-Bairro ainda era um projeto atual, mas faltava uma pecinha, identificada após sua implementação. As obras abriram ruas e permitiram aos moradores das comunidades carentes ter acesso aos serviços públicos. Mas a prefeitura, que fez a obra, não se preparou para essa nova demanda e não aumentou seu quadro em número suficiente para oferecer os novos serviços. Uma cidade só pode ser sustentável se estiver conectada com os seus moradores, como mostram os especialistas neste capítulo sobre Infraestrutura.

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Propostas apresentadas no seminário Planejar em conjunto a infraestrutura das cidades da Região *Metropolitana de Salvador (RMS)

*Implantar políticas de mobilidade sustentável Aumentar a receita dos governos para investimento em infraestrutura, *como acontece em outras regiões do país e do mundo. Salvador, por exemplo, destina apenas 5,6% dos recursos, inferior a diversas capitais, como Fortaleza (9,4%), Rio de Janeiro (10,6%) e São Paulo (10,5%)

* Reduzir o estacionamento no centro da cidade Criar áreas de lazer nos espaços urbanos, como praças e locais para ativida*des esportivas, que sirvam de pontos de convergência social e tragam ‘vida’ às cidades Uma ‘cidade viva’ gera riqueza, cultura, oferece oportunidade para novas eco*nomias e negócios, novos pensamentos, entre outros benefícios, destacam os especialistas que participaram do Fórum Agenda Bahia Qualificar os espaços já existentes e promover a universalização dos *serviços públicos

Criação pelo governo federal de um fundo perdido para investimento na infra*estrutura das cidades

Enfrentar o passivo socioambiental e habitacional, respeitando as multipli*cidades de formas e usos dos espaços urbanos

Reinventar o modelo atual de grandes metrópoles: conter a expansão das *cidades, tornando-as mais compactas, sustentáveis e com qualidade de vida

Redução do Custo Bahia: modernização dos portos baianos e investimento em *ferrovias e hidrovias para tornar a economia baiana mais competitiva

para a população

*

Esgotar todas as discussões sobre a viabilidade de uma obra durante o planejamento e não na fase de execução

*

Ampliar e promover o transporte público integrado e de alto rendimento com mais oferta de meios de transporte (além do ônibus, metrô,

Priorizar a ligação entre polos produtivos e os portos através de ferrovias. *Definir o transporte de carga nas rodovias para distâncias mais curtas Definir soluções conjuntas entre as cidades da RMS também para *saneamento básico e resíduos sólidos

trem, BRT, VLT, corredores de ciclovias e estações hidroviárias) Urbanizar o espaço público, com prioridade para o pedestre e não mais para o *carro

*

Ampliar passeios públicos, criando ligações entre bairros. Entre as sugestões, uma grande área pública entre o Iguatemi e a praia do Rio Vermelho e também da Arena Fonte Nova ao Comércio

* Aumentar os calçadões da orla e reduzir o espaço para os veículos * Pavimentar ruas e avenidas Definir percursos de ônibus para distâncias menores e para interligar os *modais . Criação de corredores exclusivos para os ônibus

Compromissos firmados Metrópole conectada: O secretário estadual de Infraestrutura e vice-governa* dor, Otto Alencar, anunciou a criação de órgão ou gestor que planeje em conjunto a infraestrutura das cidades da Região Metropolitana Novas rotas: Otto Alencar prometeu lançar até fevereiro de 2013 um plano * hidroviário que estabeleça novos usos e rotas para as cidades que margeiam a Baía de Todos os Santos Ferry: O secretário de Infraestrutura garantiu também a compra de três * novos ferries, da Grécia, para substituir as embarcações que fazem a ligação entre Salvador e a Ilha de Itaparica

Ordenar o trânsito, sincronizar os sinais e implementar ações *inteligentes , com o auxílio da tecnologia

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27


Metrópole mais forte e parceira

A necessidade de integração dessas políticas pode ser observada no dia a dia, embora, às vezes, passe despercebida. Em Salvador, por exemplo, 3.500 ônibus, em média, trafegam por dia pelas principais vias, mas em torno de 700 estão fora do controle da Superintendência de Trânsito e Transportes da cidade, a Transalvador. Esses 700 são metropolitanos, fazem o percurso entre cidades vizinhas e a capital, muitas vezes colocando mais linhas do que o necessário, segundo a Transalvador.

O que fazer para resolver o problema do trânsito de Salvador? Ou da segurança? Ou, ainda, da falta de habitação, saneamento ou da destinação do lixo? Mais: qual a melhor forma de adequar nossos portos, aeroporto, rodovias e ferrovias para escoar com eficiência a riqueza produzida na área da capital, tornando o estado mais competitivo e gerando mais riqueza? De acordo com estudiosos do tema, é necessário traçar uma política que seja capaz de dar solução conjunta aos problemas comuns a todos que vivem ou trabalham nas regiões metropolitanas do país.

A mesma necessidade é apontada quando se trata da racionalização do uso do solo, do planejamento habitacional e de questões decorrentes, como saneamento, destino do lixo e segurança. Com 13 municípios, a Região Metropolitana de Salvador (RMS) abriga 25% da população baiana, e milhares de pessoas moram em uma cidade e trabalham em outra, gerando demandas fora de suas cidades de origem. Na economia, é preciso melhor infraestrutura para tornar a produção baiana mais competitiva.

A questão é que algumas cidades cresceram tanto e tão rapidamente que sua malha urbana começou a se confundir com a de cidades vizinhas - o que vem acontecendo entre Salvador e Lauro de Freitas, por exemplo. Mas, mesmo quando não há contiguidade de espaços urbanos, essas cidades estão articuladas econômica, política e culturalmente em graus diferentes - caso de Salvador, Lauro de Freitas, Simões Filho, Dias D’Ávila, Candeias...

Para o presidente da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas, as prefeituras menores são passivas e cabe à administração de Salvador, governo do estado e iniciativa privada atraí-las para o debate em busca de soluções. A Fieb é parceira do jornal CORREIO e da rádio CBN no Fórum Agenda Bahia.

As administrações municipais não dão conta isoladamente de demandas fundamentais, já que muitas vezes ultrapassam os limites de sua jurisdição. Na tentativa de dar uma resposta ao problema, está em tramitação, na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 3460/04, do deputado Walter Feldman (PSDB-SP), que cria o Estatuto da Metrópole. A finalidade é agilizar a execução de ações regionais urbanas e promover a articulação entre governos estaduais e municipais.

“O último a pensar a Salvador do futuro foi o urbanista Mário Leal Ferreira, nos anos 40 do século passado, com a implantação das avenidas de vale para dar vazão ao trânsito. Era o que havia de mais moderno, mas está há muito ultrapassado, e nada de consistente foi feito desde então em termos de planejamento”, constata Mascarenhas. A Fieb também liderou estudos socioeconômicos e a criação, em agosto, do Instituto Movimenta Salvador, que procura promover a requalificação urbana da capital, com olhos no futuro.

O relator do projeto, deputado Zezéu Ribeiro (PT/BA), completa explicando que a ideia é criar legislação específica para as regiões metropolitanas. “O estatuto vai integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum”, diz.

1549 Salvador é um dos primeiros núcleos urbanos do Brasil colonial e capital da América Portuguesa até 1763 Até as primeiras décadas do século XX, Salvador tem papel de centro político, administrativo e de entreposto comercial de uma economia de base agroexportadora, articulada ao redor da Baía de Todos os Santos

1940-1950 Região do Recôncavo enfrenta ápice de crise FONTE: Série de Estudos e Pesquisa da SEI

28

econômica. Migração da população rural, na grande maioria pobre e sem qualificação, para Salvador altera perfil demográfico e territorial da capital baiana Década de

50

Implantação da Petrobras e Chesf vira um marco no processo de desenvolvimento regional e da metropolização de Salvador e região

1960-1970 Implantação do Centro Industrial de Aratu (CIA) e instalação do Complexo Petroquímico de Camaçari (Copec) definem a segunda fase da transformação da estrutura econômica regional e estadual

Simões Filho, têm crescimento populacional maior que Salvador

1970-1980

Localização estratégica entre Salvador e Lauro de Freitas lidera esse crescimento, absorvendo mão de obra mais qualificada do CIA e Copec

Bahia insere-se na matriz industrial brasileira com industrialização dos setores químicos, especialmente a petroquímica, e metalúrgico Em 1973, decreto federal cria a Região Metropolitana de Salvador Em 1978, entra em operação o Polo Petroquímico de Camaçari; setor metalúrgico ganha relevância A partir daí, a Região Metropolitana de Salvador (RMS) estrutura-se econômica, social e espacialmente, além de redefinir sua posição na divisão nacional do trabalho

Até

1980

Impacto da industrialização na região gera crescimento maior da população em Salvador e nos municípios do entorno A partir de

1980

Cidades vizinhas à capital baiana, como Camaçari, Candeias, Lauro de Freitas e

População de baixa renda e sem renda empurra, através das ocupações, os limites da ocupação urbana de Salvador para cidades próximas, como Lauro de Freitas e Simões Filho A partir de

1990

Atividades relacionadas ao turismo têm forte crescimento no estado, em particular na RMS, resultando em

maiores investimentos em infraestrutura. A chegada de grandes empresas, nacionais e estrangeiras – a exemplo de uma grande unidade da montadora de automóveis Ford – intensificou a expansão metropolitana, aumentando a articulação entre os municípios e proporcionando o surgimento e fortalecimento de empresas em vários setores - supermercados, construção civil, telecomunicações, publicidade e outros

2008-2010 A RMS responde por 48% do PIB baiano e por 25% da população do estado A região é pautada na produção de bens intermediários, complementares aos da região mais dinâmica do Brasil, Centro-Sul

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Estatuto da Metrópole

A ECONOMIA DAS CIDADES DA RMS

O projeto de lei que cria o Estatuto da Metrópole data de 2004, mas ficou parado até ser criada, em abril último, uma comissão especial para analisar o projeto. O presidente é o deputado federal Mauro Mariani (PMDB). O petista baiano Zezéu Ribeiro, o relator. Para aprofundar a discussão sobre o estatuto, ficou estabelecido que serão realizadas audiências públicas em uma cidade de cada região do país, com a participação de representantes dos governos estadual e municipais, entidades de representação pública e da academia. A audiência pública do Nordeste será em Salvador, mas a data ainda não foi definida.

Dias D’Ávila

São Francisco do Conde* Candeias*

Camaçari*

Madre de Deus Simões Filho*

Itaparica

INDÚSTRIA TURISMO SERVIÇOS

Lauro de Freitas Salvador

Vera Cruz

*São Francisco do Conde: Produção e refino de petróleo (Rerinaria Landulpho Alves - RLAM)

BAHIA

“Passado o processo eleitoral, tudo será agilizado”, assegura Zezéu, ressaltando que o trabalho da comissão é bastante complexo, por se relacionar com temas ligados a outras comissões. Instituições como o Observatório das Metrópoles, da UFRJ, o Conselho Nacional das Cidades (Ministério das Cidades) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estão contribuindo para o trabalho da comissão. O relator revela que há ainda uma proposta de parceria com o governo da Alemanha para troca de experiências. Apesar da complexidade do assunto, Zezéu acredita que não haverá mais demora. “Esperamos que em menos de um ano tudo esteja pronto”, afirma.

*Candeias: Porto de Aratu, atividades do setor de serviços ligadas à Refinaria Landulpho Alves e ao Centro Industrial de Aratu *Simões Filho: Centro Industrial de Aratu *Camaçari: Polo Petroquímico

30

EDITORIA DE ARTE/CORREIO

31


Melhor qualidade no transporte de carga O processo de globalização, que se intensificou no Brasil com a implantação do Plano Real, em 1994, trouxe exigências novas e urgentes no que se refere à infraestrutura econômica. “Antes, se produzia na Bahia para atender o Brasil. Se tinha uma certa proteção de fronteiras, uma espécie de proteção para determinadas áreas. Agora, se produz para o mundo”, salienta Edgard Porto, diretor de estudos da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), órgão da Secretaria estadual do Planejamento. Para complicar – do ponto de vista da infraestrutura –, Porto diz que há uma tendência de certas indústrias trocarem países desenvolvidos pelos emergentes, inclusive a chamada ‘indústria suja’. Porto nota que o perfil econômico da RMS não mudou nas últimas décadas, mas o PIB cresceu, as indústrias se enxugaram e ganharam mais competitividade. “Para atender às demandas do mundo atual, essa região precisa ter investimentos em infraestrutura que permitam elevar sua acessibilidade frente a outras regiões, o que inclui maior rapidez das infovias. Principalmente, precisa elevar a qualidade do transporte de alta capacidade - ferrovias e cabotagem – criando condições de relacionamento da Bahia com o Brasil e o mundo”, comenta o estudioso, que lançou recentemente a publicação Metrópole Baiana: Dinâmica Econômica e Socioespacial Recente. A produção da indústria baiana é, sobretudo, de produtos químicos e petroquímicos, complementares à indústria do centro-sul do país.

Riqueza concentrada, mas com pouca infra A RMS responde por 48% do Produto Interno Bruto, concentrando grande parte dos serviços e da produção industrial baiana. Além disso, funciona como importante entreposto comercial, conectando comercialmente a Bahia ao resto do país e do mundo. A integração passa forçosamente pelo planejamento da infraestrutura, até porque a produção de bens intermediários na Bahia precisa ser escoada para fora do estado

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Sem limites As regiões metropolitanas são criadas por lei estadual, de acordo com critérios que nem sempre partem dos mesmos conceitos. De modo geral, a definição mais aceita é o de cidades que se expandem a ponto de ultrapassar seus limites administrativos e cuja economia, vida social e cultural estão interligadas com a de cidades vizinhas. Em Tóquio, as regiões contam com planejamento integrado: do transporte de alta velocidade ao escoamento das águas das chuvas.

*

Região Metropolitana

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12

regiões metropolitanas existem no Brasil, segundo o IBGE

é o número de regiões metropolitanas no Nordeste - a maior do Brasil. No Sul há 11; no Sudeste, 7; no Norte, 3. O Centro Oeste também tem três regiões metropolitanas

3

37

As distorções são marcantes: somente o estado de Santa Catarina conta com oito regiões metropolitanas, enquanto São Paulo, três

milhões de habitantes: é a população da Região Metropolitana de Tóquio, a maior do mundo

Produtividade em baixa Mascarenhas diz que, por falta de infraestrutura urbana na Região Metropolitana de Salvador, as condições de trabalho e produtividade das indústrias estão decrescendo, diante da dificuldade de acesso dos trabalhadores ao local de trabalho. Para ele, uma prova de que a infraestutura da RMS se descolou da dinâmica econômica da área

33


O boom das cidades Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) servem de alerta. Das 13 cidades que compõem a Região Metropolitana de Salvador, 8 registraram crescimento populacional em termos relativos muito superiores ao da capital baiana entre os censos de 2000 e 2010. Outros dados também mostram que a RMS ganhou novas proporções com mais emprego, melhor renda, frota de veículos quase três vez maior e expansão do processo industrial para novas cidades. Mas, sem planejamento, cidades vizinhas a Salvador importaram também os problemas da capital baiana: trânsito, falta de qualificação profissional e elevado déficit habitacional. “A projeção desses índices mostra que há uma tendência de caos nos próximos anos, porque as cidades menores, que crescem em um ritmo muito mais acelerado que Salvador, têm recebido parte dos imigrantes que antes escolhiam a capital como destino final. Se não houver investimento em infraestrutura e logística integrada entre os municípios, tudo ficará travado, porque não teremos ruas e estacionamentos suficientes para as pessoas e os carros, além de todos os outros problemas decorrentes da conurbação urbana”, avalia Joílson Rodrigues de Souza, coordenador de disseminação de informações do IBGE. De acordo com Luiz Caetano, presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), a integração entre os municípios ainda está muito longe de acontecer, porque falta uma visão mais macro para os gestores. Na opinião de Caetano, então prefeito de Camaçari, a segunda cidade mais importante da

Crescimento populacional da RMS em relação a outras regiões 2000/ 2010

Esgoto: só 30% das casas conectadas Apenas 38% de todo o esgoto produzido no Brasil recebe algum tipo de tratamento. Em média, 15 bilhões de litros de esgoto sem tratamento são despejados todos os dias na natureza, o equivalente a 6.300 piscinas olímpicas Na Região Metropolitana de Salvador, a situação é ainda pior: de acordo com o ex-prefeito Luiz Caetano, 30% das residências estão conectadas a uma rede de esgoto, contra 45% da média brasileira

Região Metropolitana de Salvador

Belo Horizonte

14,54% 12,35%

Recife

10,57%

Crescimento em Salvador (Taxa Geométrica) 1980 a 1991 1991 a 2000

1,96%

Entre 2000 e 2010, a população de Salvador aumentou em 232.549 pessoas

34

São Paulo

10,01%

3%

Rio de Janeiro

8,64%

Porto Alegre

8,21% 2000 a 2010

0,92%

“Todos os estudos apontam que a falta de mobilidade urbana e a ausência de mão de obra qualificada são os grandes entraves para o desenvolvimento da região. Mas não adianta, por exemplo, uma cidade ter um ótimo sistema de transporte e outra muitos cursos de qualificação. É preciso que haja uma interatividade entre os municípios para que todos se beneficiem dos projetos bons e compartilhem experiências positivas”, afirmou. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Gilberto Corso acredita que falta à RMS um órgão de planejamento e gestão para elaborar projetos comuns às cidades. “Hoje, sem gestão pública, muitos projetos concorrem entre si, o que é um absurdo”, disse Corso. “Os novos prefeitos têm legitimidade e deveriam reivindicar do governo a implantação do órgão de plajenamento”, disse. Ex-presidente da Petrobras e secretário estadual do Planejamento, José Sérgio Gabrielli reconhece que é preciso agir rápido para dotar a RMS de mais infraestrutura nas áreas de mobilidade urbana, tratamento de lixo, saneamento e ocupação do uso do solo. “Temos dois tipos de problemas na Região Metropolitana de Salvador: a cidade grande (Salvador) que cresce mais e as cidades menores que crescem mais rápido. Então, é preciso planejar e pensar em longo prazo, porque muitos projetos implantados há algumas décadas não funcionam ou estão saturados e a demanda por serviços eficientes é cada vez maior”.

População Censo 2010

% Crescimento 2010/2011

Área (km2)

PIB (em mil reais)

IDH 2000*

Camaçari

242.970

4,15

760

R$ 10.401.520,00

0,734

Candeias

83.158

0,80

264

R$ 2.479.571,00

0,714

Dias D'Ávila

66.440

3,90

208

R$ 1.202.483,00

0,732

Itaparica

20.725

0,90

116

R$

80.117,00

0,712

Lauro de Freitas

163.449

3,71

60

R$ 2.106.145,00

0,771

Madre de Deus

17.376

3,14

11

R$

2.675.656

0,91

33.183

153.928,00

0,74

707

R$ 26.727.132,00

0,805

2,36

267

R$ 7.144.211,00

0,714

118.047

2,3

192

R$ 2.404.202,00

0,73

Vera Cruz

37.567

2,36

253

R$

172.230,00

0,704

Mata de São João

40.183

2,12

670

R$

295.718,00

0,671

Pojuca

33.066

2,35

318

R$

818.159,00

0,708

42.153 3.573.973

0,54 x

549 4.375

R$

291.571,00 R$ 54.276.987,00

0,693 0,794

Salvador Salvador

Região Metropolitana de Salvador, dois dos principais problemas comuns aos 13 municípios poderiam ser resolvidos com planejamento.

São Francisco do Conde Simões Filho

São Sebastião do Passé

Total

* Os dados do IDH baseados no Censo 2010 ainda não foram divulgados

35


Desemprego cai, mas índice ainda é alto para os mais jovens Dias D'Ávila

Camaçari Empregados - com carteira de trabalho assinada

52,65%

Itaparica

Empregado carteira de trs - com abalho assinada

Empregados - com carteira de trabalho assinada

59,51%

Total

o João

Empregados - com carteira de trabalho assinada

50,34% Total

12.096

r

Emprega carteira d dos - com e trab assinada alho

56,04% Total

1.252.949

99,39% Lauro de Freitas

“Aqui, o índice de desemprego já chegou perto de 20% e, mesmo com a melhoria das condições de trabalho, persistem em torno de 14% entre os jovens, o que é muito alto”, afirma Inaiá de Carvalho.

96,66% 73.991

96,05%

45.960 São Sebastião do Passé

Vera Cruz

Empregados - com carteira de trabalho assinada

Empregados - com carteira de trabalho assinada

45,5%

25,33%

Total

Total

15.339

858.887

Simões Filho

Total

14.395

Governo promete reordenação urbana com ponte Para o governo da Bahia, a ponte Salvador-Itaparica é o projeto mais ousado para mudar a realidade da Região Metropolitana de Salvador. Na avaliação das autoridades estaduais, o Nordeste está crescendo mais do que o Brasil, mas vem esbarrando em um limitador, que é a falta de logística. De acordo com o governo estadual, a ponte, orçada em R$ 7,5 bilhões (mais R$ 1 bilhão para as obras do entorno), vai provocar a reordenação urbana da região. Outra proposta do governo é a construção de cinco grandes estacionamentos públicos em Salvador para minimizar os impactos causados pelo grande crescimento da frota na Região Metropolitana. 36

Madre de Deus

98,88%

53,31%

11.805 Salvado

99,39%

Mesmo com crescimento desacelerado, Salvador ganhou 263 mil habitantes entre 2001 e 2010. Para a professora da Universidade Católica Inaiá de Carvalho, os maiores problemas da Região Metropolitana de Salvador estão associados ao emprego e às condições de vida da população.

Camaçari

Total

15.128

6.035

Empregados - co carteira de traba m lho assinada

31,93%

Total

Total

Salvador

Simões Filho

Empregados - com carteira de trabalho assinada

49,95%

54,16%

78.137

São Francisco do Conde

om ados - c Empreg de trabalho carteirassinada a

Deus

Emprega carteira d dos - com e tra assinada balho

Total

7.560

Sã Mata de

Pojuca

51,43%

Total

24.467

106.130

Empregados - com carteira de trabalho assinada

35,39%

Total

Madre de

Lauro de Freitas

Dias D'Ávila

95,03%

Salvador

49.435

35.000

19.888

12.317

11.749

Dias D'Ávila

São Sebastião do Passé

Vera Cruz

São Francisco do Conde

93,49% Vera Cruz

Lauro de Freitas

11.693

92,93% Pojuca

90,11% Mata de São João

88,22% Itaparica

87,16% São Sebastião do Passé

85,57% Fonte: IBGE - Censo Demográfico

Simões Filho

9.605

Mata de São João

Pojuca

Camaçari

9.429 São Francisco do Conde

6.341

5.172

Itaparica

Madre de Deus

Coletado por serviço de limpeza

Coletado por serviço de limpeza

Coletado por serviço de limpeza

Coletado em caçamba de serviço de limpeza

Coletado em caçamba de serviço de limpeza

Coletado em caçamba de serviço de limpeza

65.833

529.923

41.944

3.538

304.234

6.872

Camaçari

Salvador

Lauro de Freitas Coletado por serviço de limpeza

Coletado por serviço de limpeza

Coletado em caçamba de serviço de limpeza

Coletado em caçamba de serviço de limpeza

6.082 2.674

São Francisco do Conde

21.669 7.776

Simões Filho

37


Salvador quer soluções conjuntas para RMS

“Este é um problema que atinge a todas as classes”, explica Sellin, que destaca um detalhe: “Mais da metade dos entrevistados da classe A/B (58,8%) gasta entre uma e duas horas para chegar ao trabalho. É a classe em que maior percentagem de pessoas gasta esse intervalo”. A classe C vem logo depois, com 57%. Mas quem perde muito tempo no trânsito são os mais pobres, destaca José Luiz Orrico, presidente do Futura. “A classe D/E tem maior percentual acima das duas horas. Os que moram na periferia sofrem mais com o trânsito e a ausência de transporte público”, analisa.

Quase 70% dos entrevistados têm a mesma opinião: os principais problemas das 13 cidades que compõem a Região Metropolitana deveriam ser resolvidos com ações conjuntas, revela Pesquisa Futura. O resultado é preocupante: três entre quatro entrevistados consideram como péssimo o transporte público oferecido em Salvador. O percentual dispara para 86,7% quando o assunto é o trânsito. Ninguém marcou a opção ‘ótimo’.

Segundo os entrevistados, para resolver tantos problemas, somente com planejamento integrado das cidades da RMS. Esse é o desejo da maioria, em especial na classe C (73%), entre quem tem 20 a 29 anos (77%) e as mulheres (73,6%). Outros problemas apontados como prioritários nessa administração conjunta: educação, saúde pública, segurança pública e coleta de lixo. “No trânsito, de alguma maneira consegue-se dar um jeito. Mas na saúde, educação e segurança, não. Isso apavora as pessoas”, acredita José Luiz.

“Com transporte público de baixa qualidade, há uma tendência de que as pessoas busquem a solução no carro”, lembra Felipe Sellin, do Futura. Mais carros nas ruas, mais trânsito e mais tempo preso nos engarrafamentos. A maioria (46,4%) gasta entre uma e duas horas na ida e volta ao trabalho. Entre uma e quatro horas no trânsito, o percentual chega a 73%.

OS DESAFIOS DA METRÓPOLE 1) Salvador deveriam ser tratados conjuntamente ou isoladamente? (Estimulada) Conjuntamente

70,6% Isoladamente

25,6%

4) (Considerando somente quem trabalha) Qual o tempo que o(a) sr.(a) gasta, em média, na ida e na volta do trabalho diariamente?

61,9% 53,7% 46,3%

12,9% 23,1% 21,4% 19,2%

3,3%

398

Total 100

1,4% Educação

Saúde Segurança Coleta de Transporte Água e pública Pública lixo público Esgoto

Número de entrevistas:

281

Bom

Ótimo

1,0%

Ruim

7,0%

Regular

13,3% Número de entrevistas: 398 38

Trânsito

Entre 2 e 3 horas

Entre 3 e 4 horas

Mais de 4 horas Tempo Médio 1h e 35min

334

Total 100

Total* 244,1

5) Como o(a) sr.(a) avalia o trânsito em geral de Salvador? (Estimulada)

*O entrevistado podia citar até três opções de resposta.

Ruim + Péssimo

Regular

7,0%

0,0%

92,5%

NS/NR

0,0%

82,9%

0,5%

75,9%

Entre 1 e 2 horas

Nenhum desses

Ruim + Péssimo

NS/NR

Péssimo

Entre 30 minutos e 1 hora

Número de entrevistas:

Ótimo

3) Como o(a) sr.(a) avalia o transporte público de Salvador? (Estimulada)

2,3%

6,9%

Até 30 minutos

17,1%

NS/NR

Número de entrevistas:

19,2%

14,1%

0,6%

Depende do tipo do problema

0,5%

46,4%

2) (SE CONJUNTAMENTE) Destes problemas e desafios, qual(is) o(a) sr.(a) considera que deva(m) ser tratado(s) como problema(s) comum(ns) das cidades que compõem a Metrópole e não de forma isolada ? (Estimulada)

Ótimo + Bom

Bom

3,3%

0,5% Total 100

Número de entrevistas:

Ruim

5,8%

398

Péssimo

86,7%

Ótimo + Bom

0,5%

Total 100

39


Cidades interligadas Entrevista com José Mascarenhas Em um amplo gabinete envidraçado e decorado com móveis clássicos no quinto andar do prédio que abriga a presidência da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas já se acostumou a ouvir sempre as mesmas queixas de empresários interessados em investir na Região Metropolitana de Salvador - 13 cidades que detêm 60% das indústrias instaladas na Bahia. “Os empresários dizem que não têm condições de aplicar os seus recursos em municípios sem infraestrutura, com um péssimo sistema de transporte público e ausência total de planejamento urbano”, afirma Mascarenhas, que também é vice-presidente do Conselho Temático de Infraestrutura (Coinfra) da Confederação Nacional da Indústria. O Coinfra é responsável pelo planejamento, integração e desenvolvimento dos setores industriais, especialmente nas áreas de energia, saneamento básico, transportes, privatizações, concessões e telecomunicações. Nesta entrevista ao CORREIO, José de Freitas Mascarenhas aponta ações conjuntas para as cidades da RMS. Mas avisa: “Dá para colocar a casa em ordem, mas vai custar caro, porque vamos começar (a resolver os problemas) um pouco tarde”. Muitos problemas são comuns aos 13 municípios que fazem parte da Região Metropolitana de Salvador: transporte público e infraestrutura deficientes, falta de saneamento básico e de infraestrutura e engarrafamentos constantes. Quais as propostas da Fieb para reverter esta situação? A Fieb é sujeito passivo em todos esses problemas. No fundo, ela é uma usuária desse sistema e sofre como toda a população. O fato concreto é que os problemas da Região Metropolitana se agravam a cada dia e não têm solução à vista, porque há muito tempo não se faz investimentos em infraestrutura nas cidades que a compõem. Temos tentado, com o governo estadual, encaminhar essas questões. Até porque é o governo que tem autoridade para resolver, evidentemente com a participação dos prefeitos. O senhor acredita mesmo que ainda dá tempo para colocar a casa em ordem? Dá. Mas vai custar caro, porque vamos começar (a resolver os problemas) um pouco tarde. Isso se começássemos hoje. Como isso não vai acontecer, corremos o risco de as obras começarem tarde demais, quando a situação ficar ainda mais insuportável. Todas as discussões sobre mobilidade urbana, infraestrutura e transformações nas cidades para melhorar a vida das pessoas devem acontecer no planejamento, e não durante a execução das obras. Porque, na execução das obras, sempre há grupos de interesse que

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“Não há, na prática, uma solução isolada. O que falta é tirar do papel o Conselho da Região Metropolitana de Salvador”

“Hoje, Salvador é um péssimo cartão de visita para os turistas, para empresários que visitam a cidade, para as pessoas que moram aqui”

Foto: João Alvarez/Sistema Fieb

terminam prejudicando os trabalhos. O princípio de solução de todos os problemas chama-se planejamento urbano, pois as pessoas moram nas cidades, vivem nas cidades, estudam nas cidades, trabalham nas cidades. Mas o que vejo em todas as cidades da Região Metropolitana de Salvador é a ausência total de planejamento urbano, infelizmente. O senhor preside uma das federações mais importantes do país. Do ponto de vista industrial, quais os prejuízos que esta falta de planejamento provoca na RMS? O principal fator é a perda de produtividade. Até porque, com a falta de mobilidade urbana, as pessoas estão trabalhando menos. Recentemente, o IBGE divulgou, com base no Censo de 2010, que o tempo de percurso gasto pelo brasileiro para ir de casa ao trabalho é um dos principais martírios para os habitantes das regiões metropolitanas. Vamos tomar como exemplo Salvador. Aqui, quase 61% das pessoas ocupadas gastam entre 30 minutos e duas horas para ir ao trabalho. E ainda tem o retorno para suas casas. Então, pode-se afirmar que o trabalhador de Salvador perde, todos os dias, entre uma e quatro horas somente no trânsito. E quem fica muito tempo no trânsito tem menos tempo para trabalhar, isto é lógico. Só isso já é mais do que suficiente para inibir investimentos dos empresários.

41


Mas, perder muito tempo no trânsito não é um problema comum nas grandes cidades? Sim, mas São Paulo e Rio de Janeiro, que são as maiores metrópoles do país, têm se movimentado em busca de soluções para reduzir os efeitos do problema causado pela falta de mobilidade urbana. São Paulo está investindo na ampliação da linha do metrô, vai construir um monotrilho interligando o Aeroporto de Congonhas à Estação do Morumbi, possui muitos quilômetros de linhas exclusivas para ônibus e táxis, e o Rio está aproveitando o boom da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos para fazer muitas obras. Já as cidades da Região Metropolitana de Salvador não fazem absolutamente nada. Como não há mágica, os problemas tendem a piorar muito nos próximos anos.

convivemos passivamente. Por exemplo: ninguém, de um país mais adiantado, aceitaria o sistema de transporte de Salvador ou das cidades que compõem a RMS. É claro que os estrangeiros teriam de ter, necessariamente, parceria com empresas locais que conhecem mais de perto a nossa realidade. Na condição de presidente da Fieb, o senhor já foi convidado para participar de reuniões para discutir os problemas e apontar soluções para as cidades? Nunca. Embora 60% das indústrias instaladas na Bahia estejam instaladas no raio da Região Metropolitana de Salvador. E acho que não fui chamado porque esse assunto não faz parte da pauta das cidades, infelizmente. É por causa desta falta de sintonia que estamos ficando para trás. Vejam o caso de Pernambuco, por exemplo. Todas as grandes empresas estão na região do Porto de Suape e, aqui, não temos nada mesmo. Aliás, Pernambuco e Ceará, apenas para ficar no Nordeste, têm portos muito mais modernos e mais bem estruturados do que o de Salvador. Eu sempre digo que nós temos carga e não temos porto e eles (Ceará e Pernambuco) têm portos e não têm carga.

Os empresários reclamam muito da falta de infraestrutura na Região Metropolitana? Todos reclamam. E não são apenas os empresários. Fora a falta de mobilidade urbana, na visão dos empresários, quais são os outros problemas que dificultam a atração de empresas nas cidades da RMS? Salvador, que é a maior cidade do estado, não tem um centro de localização de empresas, por exemplo. Salvador precisa buscar fonte de renda em sua fonte principal, que é o turismo. Mas, com a degradação da cidade, os turistas estão se afastando. As pessoas, quando procuram a Bahia, vão para Praia do Forte, Costa do Sauipe, e praticamente não entram em Salvador. E não entram porque as nossas atrações turísticas, que são muitas, estão completamente abandonadas. Vou citar apenas dois exemplos: o Pelourinho involuiu e a nossa orla, que é a mais bonita do Brasil, também é a mais degradada. Resumindo: hoje Salvador é um péssimo cartão de visitas para os turistas, para os empresários que visitam a cidade, para as pessoas que moram aqui e saem à procura de lazer. O que poderia ser feito para dar mais dinamismo às ações de planejamento na RMS? Falta colocar em prática o Conselho da Região Metropolitana, que só existe no papel. Não há, na prática, uma solução isolada. Não adianta o gestor achar que resolve o problema do saneamento básico apenas ampliando o abastecimento de água, porque tudo é comum e integrado. Nesse caso específico, é preciso aumentar a oferta de água, mas também é preciso investir em rede de esgoto, coleta de lixo, pavimentação de ruas e avenidas. Enfim, é preciso fazer o que todos falam, mas ninguém faz.

Para Mascarenhas, ações unificadas podem promover melhor mobilidade em cidades como Salvador Foto: Lorena Vinturini

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Saneamento é um dos pontos considerados básicos no planejamento urbano da RMS Foto: Marina Silva

O que o senhor prevê para os próximos anos na Região Metropolitana de Salvador em dois cenários: um sem infraestrutura e o outro, com a realização de obras? Se não houver planejamento, as cidades da Região Metropolitana vão sofrer um apagão no sistema de transporte. E esse apagão não está muito distante. Repito: esses problemas influenciam a decisão dos empresários. Uma coisa é você investir em uma cidade onde tudo ou quase tudo funciona bem; outra é você estar em um local sem mobilidade, sem infraestrutura e sem perspectivas. Com planejamento, tudo é diferente. A Região Metropolitana de Salvador carece de planejamento urgente. É preciso começar logo, porque já perdemos muito.

“Pernambuco e Ceará, apenas para ficar no Nordeste, têm portos muito mais modernos e mais bem estruturados do que o de Salvador”

Mas quem poderia, de fato, resolver os problemas da RMS? É preciso a integração entre todas as partes envolvidas. O governo, as prefeituras, os empresários, a sociedade civil, as entidades de classe. Sou, inclusive, favorável à contratação de uma empresa estrangeira para a execução do projeto de repensar as cidades da Região Metropolitana porque, certamente, seus dirigentes não aceitariam parâmetros com os quais 43


Na contramão Salvador é um caso crítico. A constatação foi do presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas, ao comparar indicadores da capital baiana com outras metrópoles brasileiras. Seja no ensino fundamental, na taxa de homicídio ou na mobilidade urbana, os números refletem uma realidade de falta de planejamento, de acordo com o presidente da Fieb. Na palestra Planejando o Futuro: A Infraestrutura para Salvador e Região Metropolitana, José Mascarenhas mostrou que, em 2010, Salvador foi a capital do Nordeste que menos investiu (R$ 169 milhões) na modernização da cidade, ficando atrás, inclusive, de São Luís, que aplicou R$ 205 milhões no mesmo período.

*

Foto: Marina Silva

Avaliação em baixa

169

324

53%

25

milhões de reais foi quanto Salvador investiu em 2010 de sua receita total. Em percentuais, 5,6%

dos entrevistados de uma pesquisa nacional relataram que a qualidade de vida caiu em Salvador

44

milhões de reais foi o investimento de Fortaleza, considerando a aplicação de 9,4% da sua receita total

pontos é a nota da cidade, em uma escala de zero a 100. Curitiba, melhor cidade avaliada, fez 56

Metrópoles de maior porte, como Rio de Janeiro e São Paulo, destinaram 10,6% e 10,5% de suas receitas (o que representa R$ 1,6 bilhão e R$ 3,1 bilhões, respectivamente). Salvador, apenas metade (5,6%). Mesmo considerando o cenário como ruim, Mascarenhas não deixou de apontar soluções. Segundo ele, não adianta pensar os problemas isoladamente, usando “esparadrapos”. Mas, sim, como um mosaico em que “as peças se encaixam”. O primeiro ponto a ser atacado, destaca o presidente da Fieb, é planejamento urbanístico. “É esse planejamento urbanístico que responderá pela reorganização dos espaços, do plano geral dos transportes públicos, áreas destinadas à habitação, locais para equipamentos públicos e outros benefícios à população”, comenta Mascarenhas.

“O que adianta esse metrozinho? Sem conexão com sistema de transportes da cidade e da Região Metropolitana?”

A obra da Via Portuária, ou Via Expressa, é um dos exemplos citados pelo presidente da Fieb para mostrar que a cidade precisa de planejamento. “Demorou tantos anos para fazerem essa obra que o Porto de Salvador não tem mais a mesma função do passado. Essa tarefa de receber e entregar maior número de carga pertence hoje ao Porto de Aratu”, salienta.

“É preciso ter uma visão ampla. Isso terá reflexo nos próximos 40 anos”

Mascarenhas também falou sobre Lauro de Freitas, cujo problema volta a ser a mobilidade urbana. “Estão jogando em cima de Lauro de Freitas uma série de problemas que acontecem aqui em Salvador. Como não há uma rede geral, você vai resolvendo os problemas aos poucos e transferindo daqui para mais para frente”, criticou. Mascarenhas também ressaltou a urgência dessas medidas, lembrando que a cidade sofre com a falta de investimentos há alguns anos.

O presidente da Fieb lembrou que nem a prefeitura nem o estado têm capacidade financeira de resolver os problemas. “O estado até fez um esforço agora ao realizar novo empréstimo. Mas a taxa de investimento é de apenas 6,5% do orçamento”, lembra. Como solução, restam recursos federais. Mascarenhas enumerou outras ações: redução de custos da infraestrutura de serviços públicos, através do planejamento; redução de conflito de interesses, como em obras do metrô; e uso de tecnologias modernas para cidades mais sustentáveis. Já quando questionado sobre os problemas de infraestrutura da RMS, o presidente da Fieb citou duas cidades que preocupam na falta de planejamento urbano. “A princípio, acho que toda essa Região Metropolitana deve ser tratada como um conjunto. Camaçari, por exemplo, é uma área industrial, mas é preciso que se planeje um sistema de transporte decente para as pessoas resolverem onde vão morar, se aqui, ou lá”, disse.

O presidente da Fieb lembrou ainda que é preciso reconquistar a confiança da população, com medidas efetivas e com transparência. E criar sintonia entre os projetos. “O que adianta esse metrozinho? Sem conexão com sistema de transportes da cidade e da Região Metropolitana?”, questionou. Mascarenhas sugeriu que seja contratada consultoria internacional para planejar, com especialistas baianos, o futuro de Salvador, a terceira maior cidade do país. “É preciso ter uma visão ampla. Isso terá reflexo nos próximos 40 anos”.

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Fundo para investimento nas cidades O presidente da Fieb, José Mascarenhas, lembrou que as cidades contam hoje com grandes problemas estruturais e abrigam 84,4% da população brasileira. Para resolver parte desses problemas, comuns aos grandes centros, Mascarenhas defendeu a criação de um fundo federal de transferência de recursos.

Herce visitiou pontos da cidade e destacou os problemas como a falta de planejamento no transporte Foto: Marina Silva

“O financiamento é o nosso superproblema. Temos que buscar fundos federais a fundo perdido para essas cidades, que têm capacidade limitada para tomar empréstimos e executar as obras”, resumiu. Ele lembrou que fundos federais de mobilidade foram criados para a Copa do Mundo, mas outros investimentos também são necessários. “Se o governo federal criar fundos para as cidades, elas poderão executar programas de planejamento urbano geral, de execução de obras de interesse público, independentemente de outros fundos que sejam criados”, sugere. Porém, Mascarenhas reforçou que os governos sozinhos não resolvem esses problemas estruturais. “Isso tem que ser executado através da ação privada, das empresas e das pessoas. E só pode ser feito isso dentro de um projeto que satisfaça a todos”, salientou.

Espanhol critica mobilidade de Salvador Solução Planejamento urbano com soluções para toda a cidade José Mascarenhas defende o fim da política do ‘esparadrapo’ Uso de tecnologias modernas para tornar a cidade sustentável Ações conjuntas para problemas comuns da RMS Cidade a serviço do cidadão

Ele tenta andar na cidade, mas não consegue, pois não há calçadas. Nas avenidas, espaço demais para carros e pouco para o transporte público. Esses e outros problemas – que têm solução - são observados pelo engenheiro espanhol Manuel Herce, 65 anos, um dos responsáveis pela reconstrução de Barcelona para as Olimpíadas de 1992, legado que se sente até hoje no bom funcionamento da cidade espanhola. Em Salvador para a palestra no Agenda Bahia 2012, Herce percorreu a cidade com as reportagens da TV Bahia e do jornal CORREIO. Para o engenheiro, a construção de viadutos e de estacionamentos não vai resolver os problemas da capital baiana: é preciso dar atenção ao pedestre e melhorar o transporte público, alerta. Herce apontou problemas e sugeriu soluções para a cidade se tornar mais sustentável. Em primeiro lugar, diz ele, a cidade precisa ser pensada para o morador, não para os carros. Ao conhecer os números da pesquisa do Instituto Futura, que mostram que 73% dos moradores de Salvador levam até quatro horas por dia no trânsito, o engenheiro afirmou que o problema poderia ser resolvido com um sistema integrado de transporte.

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Atualmente, “o carro atrapalha o ônibus e o ônibus atrapalha o carro”, diz. “Isso mostra que se deve controlar o espaço para os carros, para melhorar o engarrafamento. Em outras grandes cidades do mundo, você gasta uma hora, uma hora e meia”, conta. Na região do Iguatemi, na passagem do viaduto que dá acesso à rodoviária, Manuel Herce apontou a falta de espaço para pedestres, excesso de faixas para carros e áreas verdes desaproveitadas. “Você pode ter avenidas grandes na cidade, mas uma avenida não precisa ser uma autoestrada, tem que ter espaços para os pedestres também”, opina. Herce ressaltou a dificuldade que os soteropolitanos têm de sair de seus bairros para chegar aos pontos de ônibus nas avenidas. “Aqui, ninguém pode atravessar a rua, o viaduto não tem calçada. O cara que quer atravessar aqui morre. Se quer pegar ônibus aqui, o que faz? Ele tem que caminhar meio quilômetro”, comenta.

“Num deslocamento longo, você não pega só o metrô, pega também ônibus, bicicleta, carro, anda a pé”

Mais espaço para pedestres “O problema não é carro, carro é um direito. O problema é que o carro adentrou a cidade. Em Paris, tem quase uma média de 2,2 carros por família, mas na rua você não vê praticamente, só sábado e domingo, porque o sistema de transporte coletivo é ótimo”, compara. Uma das sugestões de Herce para o Iguatemi é aumentar os espaços para pedestres, restringir a passagem de carros em parte das pistas e criar faixas exclusivas para ônibus. O engenheiro criticou também a falta de espaços agradáveis para caminhar. Na orla, mesmo havendo calçadões, Herce chama a atenção para a falta de planejamento paisagístico. “Nas praias da Pituba ao Rio Vermelho, não tem uma árvore sequer. Só tem poste, concreto. É uma região feita para o pedestre, mas o pedestre é sacrificado”, opina. Uma das mais movimentadas da cidade, a avenida Mário Leal Ferreira, a Bonocô, foi criticada pela falta de espaços de convivência. Na avenida, quase não há calçadas. Herce afirma ainda que o metrô é uma das saídas mais importantes, mas não a única, para os problemas de mobilidade. “Num deslocamento longo, você não pega só o metrô, pega também ônibus, bicicleta, carro, anda a pé. Esse é um problema de planejamento público. Você não pode ficar esperando horas para um ônibus passar, nem andar demais de uma estação para a outra. É preciso integrar os diferentes transportes”, indica.

“Nas praias da Pituba ao Rio Vermelho, não tem uma árvore sequer. Só tem poste, concreto” Excesso de viadutos é um dos pontos criticados pelo engenheiro Foto: Marina Silva

“Você pode ter avenidas grandes na cidade, mas uma avenida não precisa ser uma autoestrada, tem que ter espaços para os pedestres também”

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Apesar de o metrô ter apenas seis quilômetros de extensão até agora, o problema maior, diz Herce, é a quantidade de estações e a distância entre elas. Em toda a Bonocô há apenas uma parada do metrô, a Estação Brotas. Herce lembra que o metrô deve unir a população à cidade e trazer conforto às pessoas. “As pessoas não podem depender de uma passarela para entrar no metrô. Ele tem que estar ligado com o lugar, e todo o entorno tem que ter uma estrutura para caminhar. É a partir daí que nascem lojas, comércio. Tem que ter estações suficientes para que as pessoas caminhem, no máximo, 200 metros. Aqui tem muito mais distância que isso”, critica.

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Principais problemas

Excesso de viadutos Falta de calçadas

Fonte Nova: engenheiro defende rota para pedestres Diretamente relacionado à Copa, o entorno da Fonte Nova é visto como uma oportunidade pelo engenheiro espanhol Manuel Herce. Segundo o especialista, apesar de o projeto da Arena ser muito interessante para o esporte, a estrutura de mobilidade ao redor deixa a desejar. Lembrando que entre os planos para o entorno estão a construção de dois edifíciosgaragem, o engenheiro alerta que o acesso de carro até o estádio é um problema. “Em dias de jogos, fica fechado quase um quilômetro no entorno do estádio de Barcelona, e as pessoas têm o acesso por metrô, caminhando. Entrar de carro engarrafa tudo e ninguém chega”, lembra. Aproveitando a rota turística, Herce defende a criação de um circuito de pedestres do Dique ao Comércio, passando pelo Campo da Pólvora, subindo em escada mecânica ao Largo de São Francisco e descendo para o Comércio pelo Elevador Lacerda. “ Não é cara. É coisa de R$ 5 milhões, R$ 6 milhões, não é nem o preço da arquibancada do estádio”. A Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Conder) tem um projeto previsto para ser entregue em dezembro de 2013 que prevê quatro rotas para pedestres, sendo duas no Comércio, uma em Brotas e uma em Nazaré.

Falta de integração e planejamento do transporte público Falta de espaços agradáveis para caminhar Distância entre as estações do metrô Excesso de faixas em algumas avenidas

“As pessoas não podem depender de uma passarela para entrar no metrô. Ele tem que estar ligado com o lugar. É a partir daí que nascem lojas, comércio”

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A nova Barcelona Entrevista com Manuel Herce Após a transformação de Barcelona - até hoje usada como referência sobre o legado deixado por um evento esportivo -, a cidade espanhola caminha para uma nova fase: a economia verde. As obras para as Olimpíadas de 1992 começaram uma década antes do evento e sua continuidade permite hoje a implantação de políticas de mobilidade sustentável, de eficiência energética e de água e de destinação mais ecológica do lixo, além da construção de piscinões de recolhimento de água. Um novo modelo de cidade, ainda menos badalado pelo mundo, como explica, nesta entrevista ao CORREIO, o engenheiro espanhol Manuel Herce - um dos responsáveis pelas mudanças na cidade espanhola para os Jogos Olímpicos. Herce foi um dos palestrantes do Fórum Agenda Bahia 2012. Consultor de projetos para cidades em países como México, Peru e Brasil, Herce se diz preocupado com a política urbana brasileira obsessiva por construir cada vez mais autoestradas e vias para carros. Para ele, falta uma reflexão sobre os efeitos dos investimentos de infraestrutura nas cidades: “Essa sensação de ‘novo rico’ deu no que deu na Europa: por que vocês se acham imunes a esse perigo?”. Manuel Herce lembra que os investimentos do passado têm ajudado a Espanha nesses tempos difíceis. E faz um alerta para Salvador. Confira: Barcelona se transformou para receber as Olimpíadas. Até hoje, especialistas lembram que existiu uma Barcelona antes e depois das Olimpíadas. O senhor concorda com isso? Sim, mas gostaria de especificar melhor. A Olimpíada foi a oportunidade de consolidação de políticas de recuperação da cidade que tinham começado uma década antes. Nesse sentido, a Olimpíada pode ser considerada um instrumento a mais para essa transformação e não gostaria que fosse vista nem como um início de nada nem como fato que despertou a cidade.

“Você acha que esse discurso (de mobilidade sustentável) teria sucesso numa cidade onde só se fala em carro?” 52

“(Na Espanha), há transporte coletivo metropolitano com tarifa integrada e plano para as águas”

Quais pontos desse projeto o senhor enumeraria como fundamentais para essa mudança? São muitos, mas destacaria dois: todos os projetos foram elaborados pelo setor público como garantia de atingir os objetivos sociais previstos. E a colaboração muito importante da iniciativa privada. Mas essa colaboração foi feita em parceria com a prefeitura em Barcelona. Quem definia o projeto da cidade era a prefeitura e não os empresários. Logo, os empreiteiros realizaram o que foi definido pela cidade, coisa que eles agradecem muito, porque resolveu os principais problemas de gestão da transformação do entorno do projeto. Quais ações de infraestrutura e no plano urbanístico da cidade fizeram a diferença? Como irei explicar na minha conferência (hoje), as obras olímpicas foram, fundamentalmente, grandes projetos de melhora urbana (anéis viários, remodelação da rede de esgotos municipais, renovação da Cidade Histórica, criação de praias - até então inexistentes) e, claro, instalações esportivas e vilas olímpicas. Mas, como também explico, o modelo de grandes projetos urbanos ficou em crise na última década, sendo substituído por políticas de mobilidade sustentável, economia energética e da água, políticas ecológicas sobre o lixo, e outras que estão definindo um novo ‘modelo Barcelona’, muito menos conhecido. Qual foi o maior legado das Olimpíadas para a cidade? Pode se falar que a ideia de que uma Olimpíada tem que ser concebida para a cidade, e não o inverso. Como é esse novo modelo? A cidade evoluiu? Acho que a cidade fechou um ciclo e está melhor preparada do que outras para o novo. A economia baseada nas novas tecnologias, o turismo (em crescimento continuado desde a Copa do Mundo de 1982 na Espanha) e a cultura... tudo isso é um fato. Além disso, a crise econômica e social atual tem mostrado o acerto de ter apostado antes pela nova economia verde e de despesa infraestrutural contida. Que ações de economia verde têm sido implementadas? Fundamentalmente, políticas de mobilidade (reforma de ruas, transporte público e empresa de bicicletas públicas), coleta seletiva e pneumática de lixo, piscinões de recolhimento de chuva, medidas de economia energética dos edifícios públicos, criação de um distrito tecnológico com convênios de atração de empresas da nova tecnologia, e projetos culturais. Em relação ao Brasil, quais são os principais desafios para uma infraestrutura mais eficaz? Observo com muito carinho o Brasil, mas também com medo. O investimento em obras nem sempre se justificam por si mesmo. Falta (no meu entender) 53


“Essa sensação de ‘novo rico’ deu no que deu na Europa: por que vocês se acham imunes a esse perigo?” uma reflexão sobre os efeitos desses investimentos nas cidades. Pode ser que não sejam colocadas em questão as políticas rodoviaristas, um tipo de política urbana obsessiva por construir cada vez mais autoestradas e vias para carros, e de crescimento urbano ilimitado. Essa sensação de ‘novo rico’ deu no que deu na Europa: por que vocês se acham imunes a esse perigo? Hoje na Bahia as cidades vizinhas a Salvador cresceram muito rapidamente. O senhor acha que é possível pensar em soluções conjuntas para cidades próximas da capital baiana? Barcelona já passou pela experiência de um governo metropolitano, desaparecido no ano 1984. Mas o problema de uma cidade contínua (27 municípios no nosso caso) obrigou a pactos permanentes, à criação de agências metropolitanas (autoridades administrativas únicas) em transporte e meio ambiente (ciclo das águas e lixo, principalmente) e, em especial, fóruns permanentes de discussão com a sociedade civil. Como foram pensadas essas ações para os 27 municípios da região metropolitana de Barcelona? Houve um projeto de transporte integrado? Existe um plano de transporte coletivo metropolitano com tarifa integrada. Há também um plano de saneamento de águas e uma ordenança metropolitana de repercussão do custo sobre o consumo de água potável. Salvador hoje é a terceira maior cidade do país. Não tem uma linha de metrô, os ônibus funcionam de maneira precária, assim como os trens urbanos e o ferry-boat. Como solucionar essa questão? As políticas de mobilidade sustentável no planeta estão girando sobre os transportes coletivos combinados para deslocamentos longos e o fomento do passeio para deslocamentos curtos. Mas isso significa políticas decididas de recuperação de ruas, calçadas, passeios, itinerários de pedestres, etc. Você acha que esse discurso teria sucesso numa cidade onde só se fala em carro?

“Em Barcelona existe um plano de transporte coletivo metropolitano com tarifa integrada” 54

Manuel Herce aposta em intervenções simples que beneficiem a população Foto: Evandro Veiga

Da periferia às praias Obra iniciada há mais de dez anos e que já consumiu cerca de R$ 1 bilhão em recursos públicos, o metrô de Salvador, mesmo ainda sem entrar em operação, teve a sua expansão defendida até os bairros de Cajazeiras e Mussurunga durante a abertura da terceira edição do Agenda Bahia 2012. “Cajazeiras e Mussurunga são bairros de grandes potencialidades e precisam do metrô. Não tem sentido levar a obra até um bairro (Cajazeiras) e deixar outro tão importante (Mussurunga) sem a linha. O metrô vai passar na Paralela (Avenida Luis Viana Filho), que fica a 700 metros de Mussurunga. Deveriam levar a linha para lá”, afirmou o engenheiro espanhol Manuel Herce. Além da expansão do metrô, em sua palestra, Herce defendeu outras intervenções em Salvador para melhorar o aproveitamento dos espaços públicos e a convivência entre os moradores da capital baiana. “Ampliar os calçadões, criar e renovar as praças e parques e melhorar o sistema de transporte público não custam caro e trazem muitos benefícios à população”, disse. Diretor do Programa de Pós-Graduação em Infraestrutura e Meio Ambiente da Universidade Aberta da Catalunha, Manuel Herce recorreu a um exemplo de Barcelona para propor mais investimentos públicos nos bairros mais carentes: “É preciso monumentalizar a periferia”. De acordo com o engenheiro, os gestores municipais não devem ceder à pressão da iniciativa privada. “As parcerias são importantes, desde que os empresários façam o que interessa à cidade, e não a eles”, afirmou. 55


Manuel Herce disse ainda que os R$ 8 bilhões gastos por Barcelona para sediar os Jogos Olímpicos modificaram completamente o perfil da segunda cidade mais importante da Espanha. “O legado foi muito grande em todas as áreas. Depois das obras, Barcelona passou a ser uma cidade da moda. Hoje, são 15 milhões de turistas que visitam a cidade todos os anos. Até 92, recebíamos 5 milhões de visitantes”. Além dos turistas, Manuel Herce, que é casado com uma brasileira, disse que Barcelona passou a ser um dos principais polos universitários da Europa. “Temos 25 mil estudantes estrangeiros matriculados em nossas universidades. Isso é fundamental para dar mais dinamismo e vida à cidade”, disse o engenheiro. Depois da palestra, Herce respondeu a perguntas da plateia e revelou que pretende morar em Salvador daqui a alguns anos: “Gosto muito da cidade, tenho um apartamento aqui. Quero uma cidade melhor para mim e minha família”.

Desafio Concluir a primeira etapa do metrô e expandir suas linhas para Cajazeiras e Mussurunga Ampliar o calçadão da orla e reduzir os espaços para veículos Ordenar o trânsito e impedir o estacionamento de veículos no centro da cidade Oferecer serviços públicos de qualidade Criar faixas exclusivas para ônibus

Solução Melhor aproveitamento da natureza (rios e litoral) Planejar a RMS de forma integrada Implantar políticas de mobilidade sustentável Urbanizar os espaços públicos Criar ciclovias e incentivar o uso do transporte público Incentivar projetos de descentralização administrativa

Comércio tecnológico

“Com obras em infraestrutura e segurança jurídica, dá para atrair empresários e toda a cidade será beneficiada”

Decadente e abandonado pelos poderes públicos, o Comércio tem uma grande potencialidade para a inovação tecnológica, na opinião do engenheiro espanhol Manuel Herce, um dos responsáveis pela reconstrução de Barcelona para os Jogos Olímpicos de 1992. Em sua palestra de abertura da terceira edição do Agenda Bahia, Herce disse que a região, área onde estão duas das principais atrações turísticas de Salvador (Mercado Modelo e Elevador Lacerda), guarda muitas semelhanças com o distrito22@, bairro de Barcelona que passou por uma grande transformação nas últimas duas décadas. “O distrito22@ era um local sujo, sem nenhuma atratividade. Depois de receber muitos investimentos, o bairro ganhou novo aspecto e passou a abrigar empresas voltadas para o desenvolvimento tecnológico, como a Rede Europeia de Biomédica. Pode acontecer o mesmo no Comércio. Com obras em infraestrutura e segurança jurídica, dá para atrair empresários para o bairro e toda a cidade será beneficiada”, disse o espanhol, que é diretor do Programa de Pós-Graduação em Infraestrutura e Meio Ambiente da Universidade Aberta da Catalunha e consultor internacional. De acordo com o especialista, em apenas uma década, Barcelona construiu ou renovou mais de 100 praças e parques. “Esses locais públicos precisam ser preservados, porque são pontos de convergência social. São nas praças e parques que as pessoas se encontram, dialogam, fazem planos e debatem os problemas da cidade”, lembra. Em um recado direto para os novos prefeitos que estão assumindo as 13 cidades que integram a Região Metropolitana de Salvador, Manuel Herce afirmou que a iniciativa privada não pode determinar as obras que serão realizadas nos municípios. Herce disse ainda que os futuros prefeitos devem estimular uma campanha de incentivo à cidadania para resgatar a autoestima da população e realizar convênios com outras esferas administrativas (governos federal e estadual) para executar projetos de interesse das prefeituras. Crítico da falta de mobilidade urbana em Salvador, o engenheiro afirmou que a construção de estacionamentos e viadutos não resolve o caos que os motoristas enfrentam todos os dias nas principais ruas e avenidas da capital baiana. “É preciso dar mais atenção ao transporte público e oferecer condições para as pessoas caminharem. As calçadas da cidade estão em péssimas condições. Não entendo o motivo, mas aqui, pelo que percebo, os gestores

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Lazer e gastronomia Manuel Herce chamou atenção para um patrimônio da cidade: “Vocês têm um litoral lindo e, ao mesmo tempo, abandonado. Uma cidade com uma grande vocação turística como Salvador não pode oferecer aos seus visitantes uma orla degradada, sem opções de lazer, esporte e gastronomia. É preciso mudar esta triste realidade com obras e muita vontade política”, avalia

sempre priorizaram os automóveis. Isso deve mudar enquanto é tempo”, alerta. Em seguida, citou um exemplo da dificuldade de locomoção do pedestre em Salvador. “Há alguns dias, fui almoçar em um restaurante da Pituba e desisti. Os carros circulavam em uma velocidade impressionante e não consegui atravessar uma simples pista”, conta.

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Inovação da Região Metropolitana

Para Manuel Herce, os ecologistas e projetistas devem se unir por ideias inovadoras. “As obras para melhorar as cidades não precisam ser inimigas do meio ambiente. É preciso uma convivência harmônica entre os dois lados para melhorar as cidades”.

Oportunidades para novas economias

“Cajazeiras tem uma população muito grande e quase nenhum espaço de lazer. Isso não está correto” MANUEL HERCE, engenheiro espanhol

As cidades da Região Metropolitana podem oferecer aos seus moradores mais oportunidades de emprego, estimulando o comércio e apoiando cursos de qualificação profissional

Grandes espaços para pedestres e ciclovias Acostumado a andar muito em Salvador, o engenheiro espanhol Manuel Herce apontou cinco áreas que considera ideais para facilitar a locomoção de pedestres na cidade. “Se vocês observarem bem, entre a região do Iguatemi e a praia do Rio Vermelho dá para se fazer uma grande área pública, com calçadões mais largos e ciclovias, tudo integrado com a exuberância da natureza. No Itaigara, por exemplo, existe o Parque da Cidade, que é muito mal aproveitado”, sugere. Segundo o especialista, com um projeto de urbanizaçao envolvendo todo o seu entorno, certamente as pessoas vão transformá-lo em uma referência para o lazer e a prática de esportes, como acontece com as ramblas em Barcelona. Herce disse também que o mercado de Cajazeiras deveria passar por uma reforma para proporcionar mais mobilidade às pessoas. Ali, também seria construída uma grande área pública, fechada para carros. “Nas grandes cidades do mundo, as pessoas utilizam transporte público e caminham. Cajazeiras tem uma população muito grande e quase nenhum espaço de lazer. Isso, é claro, não está correto. O modelo de Salvador, que privilegia os veículos particulares, está superado há muito tempo”, acrescentou. De acordo com o espanhol, o trecho que vai da Arena Fonte Nova ao Elevador Lacerda, passando pelo centro de Salvador, também oferece condições para as caminhadas. “Basta ter vontade política para começar. Depois, as pessoas vão perceber que tudo está funcionando bem, que suas vidas melhoraram e, certamente, vão pedir mais obras. Mas, para isso, é preciso ter coragem, dar o primeiro passo e executar o projeto”, lembra. A outra área apontada por Herce é a Avenida Afrânio Peixoto, conhecida como Suburbana.

Infraestrutura em transporte É preciso repensar o modelo de transporte nas 13 cidades da Região Metropolitana de Salvador: ter um sistema integrado, onde o ônibus não é o mais importante modal

Parceria público-privada Sem recursos para realizar grandes projetos estruturantes, as prefeituras devem recorrer às parcerias para transformar a vida dos seus habitantes

Agência para água e lixo Criação de uma agência central para desenvolver projetos comuns de desenvolvimento econômico, mobilidade, coleta e reciclagem do lixo e uso racional da água

Plano de mobilidade sustentável Os empreendimentos têm de ser sustentáveis, porque as cidades são locais de interação social. Quem dá vida aos municípios são as pessoas e não os prédios, as ruas e as avenidas

Para Manuel Herce, a Avenida ACM poderia ter corredor para pedestres, no estilo das ramblas em Barcelona: gente na rua incrementa comércio Foto: Divulgação

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O engenheiro espanhol sugere mais espaço para pedestres da Arena até o Centro Foto: Robson Mendes/Arquivo CORREIO

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Segundo Otto Alencar, pesquisas de origem e destino que estão sendo elaboradas podem ajudar a pensar os fluxos dos moradores. Para agilizar a mobilidade das cidades litorâneas e ilhas da Região Metropolitana, Alencar citou um projeto hidroviário, que deve ficar pronto até fevereiro de 2013 e prevê a integração dessas cidades.

Debate mediado pelo diretor de Redação do CORREIO, Sergio Costa, com Ana Fernandes (da Ufba), Mascarenhas, Carlos Leite e Otto Alencar Foto: Marina Silva

Criação de companhia metropolitana Nos 12 municípios vizinhos a Salvador vivem 3,5 milhões de pessoas, o equivalente a 25% da população baiana. Diariamente, milhares delas viajam de uma cidade a outra, criando um emaranhado de conexões que envolvem trânsito, economia, cultura e uso dos espaços públicos comuns. Apesar disso, não há um órgão que pense a região como uma unidade. Durante o debate A Reinvenção da Região Metropolitana de Salvador, o vice-governador e secretário de Infraestrutura (Seinfra), Otto Alencar, defendeu a criação de um agente que busque soluções integradas para os problemas da RMS, após pergunta sobre tema. “Essas cidades cresceram tanto que o problema de uma afeta a outra. Simões Filho ou Salvador, tudo o que atinge um desses municípios acaba interferindo no dia a dia dos moradores da cidade vizinha”, admitiu o secretário. O urbanista Carlos Leite, que também participou do evento, acredita que as agências devem ficar responsáveis por pensar ações emergenciais para o desenvolvimento das cidades e regiões: “Elas devem pensar soluções a curto e médio prazo. Ter metas e trabalhar para reativar lugares, reinventar as cidades”.

Segundo o secretário, o governo estuda a compra de três embarcações na Grécia, valendo-se de uma suposta queda no preço dos ferries em razão da crise na economia grega. “Antes, cotamos a compra de três ferries, porque não há um só à disposição no Brasil, e eles valiam 12 milhões de euros. Hoje, essas embarcações custam entre €6 mi e €8 milhões. Nem para alugar nós estamos conseguindo”, afirmou. Alencar defendeu que a construção de rodovias e viadutos pode ajudar a desafogar o trânsito nas cidades da região, o que gerou críticas de dois debatedores, Ana Fernandes e Carlos Leite, arquiteto e urbanista, especialista em Cidades Inteligentes. Fernandes chegou a arrancar aplausos da plateia quando disse ser preciso planejar além das obras viárias, que priorizam os automóveis. O presidente da Fieb, José Mascarenhas, reforçou que não é possível que Salvador continue a perder competitividade, com tanto potencial que tem. O apelo de Mascarenhas é para que os gestores, os empresários e a população se juntem em um esforço para transformar a cidade. “Não invejo a tarefa do prefeito”, disse, sorrindo. Já a professora da Ufba Ana Fernandes lembrou que Salvador deve apostar na “capacidade de mudança” e na força da cultura local. “É a padronização que tende a achatar a capacidade que uma cidade como Salvador tem no cenário nacional”, esclarece Ana, ex-diretora da Faculdade de Arquitetura da Ufba . O arquiteto e urbanista Carlos Leite criticou a imobilidade soteropolitana. O especialista disse que as cidades precisam se reinventar e que Salvador deve utilizar vários modelos de transporte, como VLT, BRT e ônibus em um sistema de integração com os demais modais. “A história surreal do metrô de Salvador precisa ser resolvida”, ironizou.

Segundo Otto Alencar, o governo pretende conversar com o prefeito eleito de Salvador, ACM Neto, e os outros gestores para dar seguimento ao projeto. “Isto deve estar acima de interesses particulares, ideologias e diferenças partidárias”, afirmou. Para a professora de Arquitetura e Urbanismo da Ufba e doutora pela Universidade de Paris Ana Fernandes, esse é o momento de pensar grande e parar para realmente discutir a Região Metropolitana.

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Rodízio e sem novos viadutos

Cidades devem liderar mudança

Soluções urbanas, como viadutos e mais vias construídas para automóveis, foram bastante criticadas pela professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Ufba Ana Fernandes. A plateia do Agenda Bahia aprovou a opinião dela e aplaudiu. Segundo Ana Fernandes, o planejamento das cidades passa por espaços públicos e deve-se buscar soluções que não beneficiem apenas uma parte da população.

Não há cidades inteligentes sem que as pessoas utilizem seus espaços urbanos. Consultor internacional, o arquiteto e urbanista Carlos Leite acredita que, se no passado as nações e os países foram determinantes do ponto de vista mundial, agora são as cidades que devem liderar as grandes mudanças no planeta. “Esse pensamento de expandir as cidades até os subúrbios é falido. É preciso convencer as pessoas a voltarem a habitar as cidades”, afirmou.

“Os gestores estão pensando uma cidade apenas para quem ganha mais de 20 salários mínimos. E isso significa 5% da população”, acrescenta. Para a professora, deveria ser programado um rodízio a curto prazo, já que diminuiria cerca de 20% da frota de automóveis nas ruas. Foto: Marina Silva

Foto: Marina Silva

Ele defendeu a criação de agências que pensem soluções a curto e médio prazos para as cidades, como as da Região Metropolitana de Salvador. Leite defende ainda a criação de espaços de uso misto, em que moradia, trabalho e lazer estejam conectados e cada vez mais próximos.

Plano hidroviário com novas rotas na região O secretário de Infraestrutura (Seinfra) e vice-governador da Bahia, Otto Alencar, planeja lançar, até fevereiro de 2013, um plano hidroviário que estabeleça novos usos e rotas para as cidades que margeiam a Baía de Todos os Santos. “Vamos interligar esses pontos, garantindo a mobilidade entre as cidades litorâneas e também da região da Ilha de Itaparica”, defende Alencar.

Foto: Marina Silva

Segundo ele, o estudo deve facilitar o trânsito entre os 13 municípios da Região Metropolitana de Salvador. “O turismo deve se desenvolver, assim como toda a economia da região. É preciso ter unidade até para pensar os problemas dessas cidades porque aquilo que afeta uma acaba atingido a outra”, avaliou o secretário.

Solução Para os especialistas, a reinvenção da Região Metropolitana passa pelo planejamento de ações conjuntas para as cidades Temas como transporte e coleta e destinação do lixo devem ter soluções compartilhadas Ações de curto prazo, como sinais sincronizados, para melhorar o fluxo da cidade Especialistas defenderam a participação de diversos segmentos da sociedade no planejamento das cidades, na fase inicial do projeto. Depois, o projeto deve seguir seu curso, sem alteração para a execução das obras

O importante é iniciar a mudança “Qual é o papel desse metrô dentro de um plano de transporte para a cidade de Salvador?”, questiona José Mascarenhas, presidente da Fieb. É com essa provocação que Mascarenhas mostra que a cidade precisa de soluções globais e não de medidas pontuais que parecem “esparadrapos”.

Foto: Marina Silva

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O presidente da Fieb também reforçou que o importante não é mais discutir táticas e quais órgãos irão fazer o quê. Para ele, é hora dos governantes mostrarem disposição política e ações. “Mesmo que comecemos paulatinamente, o importante é que a população não perca a esperança. As pessoas têm que perceber que algo será feito”, analisa Mascarenhas. 63


Um caminho melhor para 13 cidades

o presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José Mascarenhas, antes de também se referir à Conder.

Há sete anos, o funcionário público Ricardo Neiva, 43 anos, mora com a mulher e a filha em um condomínio na Estrada do Coco, Lauro de Freitas. A também funcionária pública e estudante de Direito Priscilla Albuquerque, 24, reside no Caji, em Lauro. E o jornalista Hilton Souza, 28, em Camaçari. Em comum, além de integrarem a Região Metropolitana de Salvador, eles se deslocam para a capital em viagens diárias.

A professora da Ufba e arquiteta Ana Fernandes reforçou que os 13 municípios da RMS precisam agir em conjunto. “No discurso, todos (os prefeitos) defendem a criação de um órgão. É necessário deixar o discurso de lado e criar logo esse órgão, sem interferências políticas”, arrematou.

No caminho, a conexão entre as cidades traz problemas que desembocam, principalmente, no trânsito. “Uma das coisas que a gente tem dificuldade é cumprir horário em Salvador. Para conseguir chegar na escola da minha filha, deixar a esposa no trabalho e ir para o meu, tenho que sair de casa, no máximo, 5h50 para percorrer 30 quilômetros”, contou Neiva. São 12 municípios vizinhos a Salvador, onde vivem 3,5 milhões de pessoas, o equivalente a 25% da população baiana. Nesses deslocamentos intermunicipais, os problemas são compartilhados, mas as soluções, até então, são pensadas em separado. O secretário estadual de Infraestrutura e vice-governador, Otto Alencar, defendeu durante o seminário Metrópole Baiana, realizado pelo CORREIO e pela rádio CBN, com apoio da Fieb, a criação de um órgão que busque soluções integradas para os problemas da RMS, desde o trânsito ao uso de espaços públicos. Priscilla, Ricardo e Hilton concordam. “São questões que os municípios precisam sentar e resolver, criar alternativas que viabilizem uma livre integração entre as cidades”, opinou Priscilla. Ela lamentou ter de sair de casa às 6h para chegar a um compromisso às 9h, por exemplo. “Se chover, então, fica impossível”, completou. A ideia de criar um órgão para centralizar as discussões foi bem recebida pelo prefeito eleito de Salvador, ACM Neto: “Se o vice-governador quiser articular esse processo, terá meu apoio e garantia de que eu sentarei com os prefeitos para participar desse esforço conjunto”. O prefeito eleito de Camaçari, Ademar Delgado (PT), destacou que sua gestão terá a mobilidade urbana e as questões ambientais como prioridade, no sentido de encontrar soluções para o eixo metropolitano. “Estou disposto para discutir essas questões. O órgão já existe, a Conder, mas precisa voltar a atuar”, refletiu Delgado, que confessou sair de casa sempre às 5h30 quando tem compromisso em Salvador.

Priscilla mora em Lauro de Freitas e leva até três horas no trânsito

O arquiteto e urbanista Carlos Leite também é favorável à medida. “Com um órgão exclusivo para pensar a RMS e outras regiões importantes da Bahia, certamente as chances de erros serão reduzidas significativamente, porque os técnicos vão estudar o problema e tomar uma decisão, enquanto muitos prefeitos fazem obras eleitoreiras”, analisou. Ex-secretário de Habitação do Rio de Janeiro e presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sérgio Magalhães afirmou que a sugestão de Otto Alencar somente é viável se seus integrantes forem “técnicos e participarem de todas as etapas do projeto”.

Foto: Tayse Argôlo

Conder: desvio de função Apesar de hoje só cuidar de execução de obras, o objetivo inicial da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), fundada em 1967, era justamente cuidar das áreas metropolitanas do estado. A denominação Região Metropolitana surgiu seis anos depois e, com ela, foi criado um conselho deliberativo na Conder, que tinha como encargo promover planos integrados para assegurar os serviços de interesse comum à região e coordenar a implantação de outros projetos relevantes para o estado na RMS. Com o passar dos anos e as mudanças de governo, porém, o órgão acabou se desviando de sua função original.

Estatuto da Metrópole tramita na Câmara dos Deputados Criar regras gerais para todas as metrópoles do Brasil é o que propõe o Estatuto da Metrópole, que tramita no Congresso Nacional. Segundo o deputado federal Zezéu Ribeiro (PT-BA), relator no projeto, o estatuto visa solucionar impasses criados entre municípios de uma mesma região metropolitana, por terem legislações diferentes. “É o caso das leis de uso do solo, transcons, saneamento”, exemplifica. Antes de ser votada, ela está passando pela avaliação de uma comissão especial e por audiências públicas em cinco capitais, incluindo Salvador. “Devemos votar até junho”.

Os participantes do primeiro seminário do Agenda Bahia de 2012 também aprovaram a ideia. “É claro que a medida precisa ser implementada”, disse 64

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Conexão com os moradores Para o arquiteto e urbanista Carlos Leite, vivemos o auge das grandes cidades. Porém, não nos modelos aos quais estamos acostumados, com largas avenidas, passeios estreitos e grandes viadutos. Consultor internacional, Leite defendeu em sua palestra sobre as cidades inteligentes que carros e pedestres caminhem juntos, lado a lado. Segundo o especialista, a forma atual de gerir as cidades, onde veículos valem mais que pedestres, está com os dias contados. “Esse modelo de cidade do século XX tem que acabar”, avalia. Carlos Leite lembra que as pessoas precisam conviver nas grandes cidades. Para isso, sugere, as cidades devem ser mais compactas e interligadas por eficientes sistemas de trânsito. Isso gera riqueza, cultura, negócios, novos pensamentos, entre tantos outros benefícios. “Esse modelo americano de bairros afastados do centro, para onde foge a classe média abastada, acabou. Seriam necessários sete ou oito planetas Terra para que todos vivêssemos tão espalhados”, ironiza.

Foto: Marina Silva

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Mudanças ao redor do mundo

Poderosas

Coreia do Sul

Nova York

Os 40 maiores PIBs do mundo concentram 1/5 da população mundial e 85% de toda a inovação e registros de patentes do planeta. Rio, São Paulo e Campinas estão nesse grupo

A revitalização de um rio de Seul mudou a paisagem da região ao redor e devolveu o espaço de convivência para os moradores que haviam sido expulsos pela poluição

Prefeitura transformou uma antiga linha férrea num parque verde com jardins, espreguiçadeiras, bancos de madeira e passeios exclusivos para os pedestres

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Para o especialista, não cabe mais esse escapismo moderno de fugir dos caóticos centros urbanos em direção aos subúrbios com casas grandes e de cerquinhas brancas, no modelo Beleza Americana. Agora, são as grandes metrópoles que estão absorvendo essa fuga do interior para as cidades. Porém, o urbanista afirma que não se trata apenas de adensar e verticalizar as cidades em grandes edifícios de usos múltiplos: é necessário também garantir a mobilidade dessas pessoas.

“Por que o Vale do Silício, nos Estados Unidos, e Barcelona deram certo? Porque as pessoas se encontram. É do encontro que sai tudo”

Leite cita estudo realizado pelo renomado urbanista Richard Florida que identificou 40 macrorregiões mundiais, sendo a única brasileira a mancha territorial formada entre Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas. Essas regiões concentram 85% das inovações e pedidos de patentes do mundo, os grandes centros de pesquisa científica e tecnológica e um quinto da população do planeta. Nessas macrorregiões são produzidos ainda dois terços das atividades econômicas mundiais. Segundo Leite, essas cidades têm sociodiversidade, diferentes etnias, culturas e religiões, trocando informações no mesmo lugar. “Isso dinamiza as cidades”, diz. Segundo o urbanista, não faltam planos para modificá-las. “O problema é que eles não saem do papel, estão em power point, não estão virando realidade”, diz.

Urbanista diz que Salvador maltrata seus pedestres Salvador não trata bem os pedestres soteropolitanos. Assim como acontece com a maior parte das grandes metrópoles mundiais, a capital baiana cresceu priorizando os carros, com largas avenidas e passeios estreitos, construções grandiosas, mas que não servem para construir uma boa convivência entre os moradores. Segundo Leite, as pessoas precisam se encontrar nos espaços públicos para poder fazer desenvolver uma cidade. “Não há mais espaço para essas grandes avenidas e rodovias que sequer têm passeio público. Eu tive de brigar com o motorista do carro em que eu estava para poder vir do hotel até aqui a pé”, disse o urbanista, provocando risos na plateia do auditório da Fieb. Ele criticou a atuação exagerada, em alguns casos, de órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em cidades com muitas construções históricas, como Salvador. “A gente sempre escuta não como resposta. Mas, se você congela essa cidade, ela morre. As cidades são organismos vivos, onde corre sangue, corre gente. Se você tentar fazer alguma coisa no Centro Histórico de Salvador vão dizer que não pode”, disse. Para Carlos Leite, o modelo atual, do século 20, da expansão, está esgotado. O especialista defendeu a reinvenção através da inclusão das metrópoles. “Por que o Vale do Silício, nos Estados Unidos, e Barcelona deram certo? Porque as pessoas se encontram. É do encontro que sai tudo”, avalia. Para o urbanista, é necessário mapear estratégias metropolitanas de inteligências sistêmicas.

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Desafio Carlos Leite afirma que é preciso reinventar o modelo de cidade que expulsa as pessoas Promover o crescimento das cidades, mas com planejamento, em que carros e pedestres caminhem juntos. A prioridade deve ser para o pedestre

Solução Para Carlos Leite, apesar de todos os problemas que enfrenta, e que não são exclusivos da capital baiana, Salvador tem o maior patrimônio histórico, artístico e cultural do Brasil, portanto, pode e deve se reinventar O especialista aposta que esse patrimônio é a grande válvula motora para essa transformação “É preciso replicar as boas ideias aplicadas ao redor do mundo, não apenas como uma cópia, mas pensando e refletindo sobre o que melhor pode ser usado na realidade brasileira”, sugere

Transformação também em comunidades carentes Aos incrédulos diante da óbvia afirmativa de Carlos Leite: “Eu sou otimista”, ele cita exemplos concretos de cidades que se reinventaram ao redor do mundo. O ponto em comum entre todas elas é um só: as pessoas têm prioridade nessas cidades inteligentes e, por isso, para elas é que deve funcionar tudo. Leite cita Curitiba, cuja mudança no sistema de transportes, ligando trens a um eficiente sistema de ônibus, serviu de exemplo para a mudança implementada em diversas cidades ao redor do mundo. “Aliás, este é um problema que acontece no Brasil. Os projetos desenvolvidos aqui não são replicados para outras partes do país. O caso de Curitiba mesmo foi copiado pelo prefeito de Bogotá, mas aqui ninguém copiou”, criticou o arquiteto e urbanista especialista em Cidades Inteligentes.

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km de ciclovias e trilhas foram implantados em Portland, estimulando os moradores a deixar o carro em casa para ir ao trabalho e ao lazer

Segundo Leite, apesar disso, “grandes transformações estão ocorrendo”. No Porto, em Portugal, pedestres, veículos sobre trilhos e carros se cruzam nas ruas de paralelepípedos desprovidos de passeios ou faixas exclusivas para veículos.

Um dos exemplos é Pedra Branca, perto de Florianópolis, pioneira desse tipo no Brasil. A preservação das áreas verdes e de convivência deu o título a Pedra Branca de Cidade Verde. O planejamento vale também para as favelas, apelidadas pelo especialista de as ‘cidades inteligentes’ informais. Ele cita a tensão existente entre a favela de Paraisópolis e o bairro nobre do Morumbi, em São Paulo. Projetos como orquestra jovem, hortas comunitárias nos tetos das casas, para aproveitar o espaço e a luz solar, ou do caso dos médicos de hospital referência na cidade e que trabalham na comunidade cobrando apenas o valor que os planos de saúde repassavam a eles é que transformaram a realidade dos moradores.

A má posição em um ranking que avaliava aspectos sobre qualidade de vida e gastos com energia, trânsito e transporte provocou uma revolução entre os moradores da cidade de Portland, na costa pacífica dos Estados Unidos. Em um bem-sucedido caso de planejamento urbano, que uniu boa vontade dos moradores e a atuação dos administradores públicos, a cidade conquistou o primeiro lugar nesse índice após implementar soluções inteligentes para problemas fundamentais da cidade. Contra todo o ideal americano de viver afastado dos grandes centros urbanos, os moradores de Portland aceitaram que, quanto mais distantes, maior era o gasto energético, mais tempo eles perdiam nos engarrafamentos que levavam até suas distantes e confortáveis casas e, consequentemente, maior era a quantidade de emissão de gás carbônico de seus potentes carros que levavam apenas uma pessoa. O esforço conjunto modificou a lógica da cidade que, em pouco tempo, virou exemplo de reinvenção das cidades, termo defendido pelo arquiteto Carlos Leite. “Portland é hoje um exemplo para todo o mundo porque teve bons prefeitos que perceberam que era preciso começar a transformar a cidade”, disse.

“É questão de educação e prioridade”, afirma o arquiteto. A transformação do espaço acaba retirando a preferência dos carros nas ruas. Leite defende que, em vez de importar projetos aplicados em regiões distantes, que não respeitam as peculiaridades brasileiras, deve-se buscar soluções locais a partir de problemas brasileiros.

“São inovações que valorizam o espaço público e que realizam a inclusão dos moradores”, afirma o urbanista Carlos Leite.

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Mobilidade americana

Portland deu a volta por cima e hoje é sustentável

O sistema de transporte se diversificou e incluiu ônibus, trens, veículos sobre trilho e ciclovias, interligando os bairros mais periféricos até o centro da cidade. Sem falar que a cidade foi uma das pioneiras em adotar soluções sustentáveis quando o termo ainda estava fora da moda. “Hoje,

Solução

Foto: Divulgação

Mesmo em cidades grandes é possível inovar. Portland (foto), com 2,3 milhões de habitantes, tem uma população próxima de Salvador A maioria dos moradores voltou a morar na área central da cidade. Mais densa e mais compacta, a cidade buscou no transporte integrado a mobilidade sustentável

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até o presidente Obama é obrigado a ser sustentável. Assim como eu, vocês”, brinca Leite.

Cidades inteligentes

Portland foi a primeira cidade dos EUA a implementar planos de redução da emissão de CO2 há quase 20 anos. Também estimulou a substituição dos veículos equipados com os tradicionais sistemas por modelos híbridos, que reduzem a emissão de gases nocivos ao meio ambiente. Além disso, os mais de 100 km de ciclovias e trilhas estimularam moradores a substituir veículos pelas bicicletas para ir ao trabalho, à escola e ao lazer.

Mais da metade da população do planeta vive nas cidades. Atualmente, esse número passa dos 4 bilhões, mas até 2050 chegará a quase o dobro. Para acomodar tanta gente, os grandes centros urbanos sofrerão o impacto desse inchaço populacional. Mais gastos com energia e infraestrutura serão necessários. Viver na maioria dessas cidades daqui a 40 anos será uma experiência próxima a de um dia de Carnaval, mas sem tanta felicidade. Apenas o caos diante da escolha de milhares de pessoas saírem de casa em um só momento, a tentativa frustrada de chegar onde se quer e a quantidade de lixo produzida.

“A bicicleta virou o veículo de transporte da cidade”, diz. Motivo: cidade mais compactada, lembra Leite, permite realizar tudo a poucos metros, ainda que se more na periferia.

Bogotá elege carro como inimigo número 1 da cidade “Vamos embora para Bogotá”, canta o rapper paulista Criolo. Engana-se quem tiver em mente uma cidade gigante - afinal, são quase 8 milhões de habitantes - só violenta e dominada pelos cartéis do tráfico. A capital da Colômbia virou uma espécie de Pasárgada latino-americana, pelo menos em termos de desenvolvimento urbano. Bogotá é hoje referência mundial em requalificação das cidades.

Foto: Luciana Rebouças

Solução Bogotá se inspirou no modelo de Curitiba. Criou uma rede de corredores de ônibus (foto) Tem quase 300 km de ciclovias A reinvenção da metrópole só foi possível com a continuidade das políticas por 12 anos

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O grande trunfo de Bogotá foi copiar a bem-sucedida experiência realizada por Curitiba, no Paraná. Após a transformação do sistema público na capital brasileira, Bogotá implementou o Transmilênio, um ágil Bus Rapid Transit (BRT), que tirou das ruas milhares de carros. Corredores exclusivos para ônibus foram criados, privilegiando o transporte coletivo. Outra transformação na cidade exigiu ainda mais ousadia. Faixas inteiras que antes eram destinadas a veículos foram fechadas exclusivamente para ciclistas, as chamadas Ciclo-Rutas. A mudança aumentou o número de usuários desse transporte, de 3% para 35%. “Não são ciclofaixas estreitas espremidas entre carros, são ciclovias inteiras”, afirma. A transformação começou com o prefeito Henrique Peñalosa, que governou a cidade entre 1998 e 2002. “O discurso dele ao chegar à prefeitura foi impactante. Como um prefeito declara como inimigo público os carros? Ele decretou que as ruas eram para deslocamento de pessoas, não de carros”, disse. Segundo especialistas, todas essas mudanças ajudaram na redução da criminalidade da cidade que, na década de 1990, chegou a ter uma taxa de homicídio de 381 em cada 100 mil habitantes. “É preciso coragem para fazer essas mudanças”, desafia.

O cenário que parece ressaca de uma Quarta-Feira de Cinzas é a projeção nada otimista da Organização das Nações Unidas. O motivo para tanta descrença é a falta de gestão da maioria dessas metrópoles. Diante da dificuldade em aplicar soluções (sim, elas existem) para esses problemas, empresários do ramo imobiliário e da tecnologia resolveram investir em um mercado bilionário: construir cidades a partir do zero ou planejá-las com ações mais sustentáveis e interligadas. As chamadas cidades inteligentes prometem acabar com os engarrafamentos, diminuir o desperdício de energia, além de oferecer melhor qualidade de vida aos seus habitantes. Cidades ainda pouco conhecidas como Songdo, na Coreia do Sul, e Masdar, nos Emirados Árabes, prometem definir o novo conceito de grande metrópole. Na cidade sul-coreana, telas sensíveis ao toque farão webchamadas de casa para qualquer ponto da cidade. A ideia é reduzir a necessidade de se utilizar o carro para realizar tarefas corriqueiras, como ir ao médico. Além da comodidade, a redução da poluição está entre as prioridades. O selo inteligente vale por dois, nesse sentido, pois se refere tanto ao alto padrão de tecnologia quanto ao uso do espaço urbano de forma sustentável. O Brasil não está fora desse mercado que, somente em 2011, movimentou US$ 34 bilhões apenas na área de tecnologia, segundo o IDC Government Insight. O mais recente mergulho brasileiro nesse grupo de alto investimento vai acontecer a poucos quilômetros do Recife. Ao redor da Arena Pernambuco, estádio sede da Copa 2014, uma cidade inteira será erguida em área de 240 hectares, o equivalente a 300 campos de futebol. Com custo de R$ 5 bilhões, o projeto inclui campus universitário, centro de convenções, prédios residenciais e comerciais, tudo interligado por tecnologia wireless e 24 horas monitorado por uma moderna central de comando. “Apesar de inicialmente serem caras, essas cidades inteligentes 71


têm uma grande vantagem em relação às outras: elas começam do zero. Por isso, é possível planejar toda a tecnologia, o que facilita sua implantação”, revela Marco Aurélio Cruz, diretor coorporativo no Brasil da multinacional japonesa NEC. A empresa trouxe a experiência de outras cidades, como Yokohama, no Japão, e também da Arena O2, estádio feito para as Olimpíadas de Londres. Lá, da emissão de bilhetes ao controle da temperatura da grama, tudo passou pela NEC. “Em função dessa experiência, a Odebrecht, responsável pela parte de infraestrutura da Arena Pernambuco, nos convidou há dois anos para desenvolver todo o sistema de tecnologia”, diz. O projeto da Arena Pernambuco ainda prevê a adoção de medidas sustentáveis em duas linhas: primeiro, na utilização da energia solar captada pelas placas do próprio estádio, e a outra é baseada na reciclagem do lixo.

“A ideia do sistema de trânsito inteligente é captar informações para gerenciar o fluxo de veículos” CARLOS OSÓRIO, secretário de Conservação do RJ

Vila que é destaque verde na América fica no Brasil Outras cidades brasileiras também já entraram no mercado das smart cities. É o caso de Pedra Branca, cidade universitária na Grande Florianópolis, que começou a ser construída em 1997, ao redor do campus da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). A cidade, pioneira desse tipo no Brasil, é uma das únicas da América a ganhar o título de cidade verde da Clinton Foundation, uma fundação em defesa do meio ambiente criada pelo ex-presidente americano Bill Clinton. Construída em uma área de 250 hectares para abrigar 30 mil pessoas, Pedra Branca já possui hoje mais de 4 mil habitantes. Se essas cidades têm a vantagem de partir do zero e de planejar cada tijolo, às outras, já construídas, cabem adotar soluções inteligentes para atenuar os problemas das grandes metrópoles. É o caso do Rio de Janeiro. Da sala de controle do Centro de Operações do Rio, um telão de 80 metros quadrados exibe as imagens captadas pelas 560 câmeras espalhadas pela cidade. Desde 2010, a capital carioca conta com uma central de comando capaz de antecipar soluções e minimizar situações de emergência. Acidentes, incêndios, deslizamentos de terra, nada escapa aos olhos eletrônicos do Centro, que reúne 30 órgãos (secretarias municipais, estaduais, concessionárias) prontos para tomar decisões que vão gerar impacto em toda a cidade. “O projeto Cidades Inteligentes da IBM apostou no Centro de Operações do Rio e se transformou em referência no mundo todo. Apesar de ter sido uma exigência para a implantação dos Jogos Olímpicos, em 2016, a

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importância e a necessidade do centro foi verificada no nosso dia a dia. A cidade ficou mais inteligente, reaje mais rápido aos imprevistos”, contou Carlos Osório, secretário de Conservação do Rio. A cidade ainda serve como laboratório para outra experiência. A multinacional NEC realiza testes com sensores instalados em táxis, ônibus e outros veículos de serviços, como carros dos bombeiros e da polícia. “A ideia do sistema de trânsito inteligente é captar informações para gerenciar o fluxo de veículos, tempo de semáforos”, diz diretor. O sistema poderá indicar melhores rotas em casos de acidente ou em horário de pico no trânsito.

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Salvador: ainda tímida nessa área

Terceira maior cidade do país, Salvador é uma cidade inchada. Além dos seus 2,7 milhões de habitantes, outros milhares cortam suas ruas estreitas diariamente. Apesar de ainda não comportar um projeto complexo como o apresentado no Rio de Janeirou ou em Pernambuco, a cidade tem importado soluções sustentáveis pontuais para problemas antigos. Embora ainda timidamente, alguns desses projetos já saem para os canteiros de obras com o selo inteligente. A revitalização da área do porto, no Comércio, por exemplo, segue esse novo padrão sustentável, em que as transformações do tecido urbano buscam criar uma nova forma de atrair os moradores para ocupar esses espaços públicos. “O novo porto será mais aberto, com vidraças que aproveitam melhor a luz solar e economizam a energia necessária para iluminar e refrigerar o ambiente”, explica Antonio Alberto Valença, técnico da Secretaria Estadual do Planejamento (Seplan). Antigos galpões do porto foram demolidos para abrir o Comércio para o mar, permitindo a ventilação e devolvendo a vista da Baía de Todos os Santos para o bairro. Outros motivos de preocupação do projeto são a destinação dos resíduos produzidos pela ocupação da faixa litorânea e o cuidado com a água, que deve ser reutilizada em processos de operação no Terminal de Contêineres. O projeto inclui ainda espaços destinados a ciclovias e áreas de caminhada que integram a área do porto à Cidade Baixa. Confira outros projetos:

Ônibus com horário marcado 242 ônibus da Barramar estão equipados com GPS e equipamentos que informam horário, localização e trajeto dos veículos. Ideia é diminuir perda de tempo no trânsito. Número é pequeno perto da frota de 2.450 veículos

Cidade em duas rodas Projeto do governo do estado em andamento prevê investimento de R$ 40 milhões na construção de ciclovias. Objetivo é estimular o uso das bicicletas como meio de transporte

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PRESENTE Ciclovias já fazem parte da realidade das principais cidades do mundo. Os moradores de Songdo poderão pedalar nos 25 quilômetros de ciclovia da cidade

FUTURO Monitores com tela plana estarão em casas e escritórios. Moradores poderão se conectar com serviços públicos e privados sem sair de casa

Hotéis reconhecerão automaticamente os hóspedes regulares e adaptarão rapidamente os quartos. As chaves/cartões magnéticos terão as etiquetas com informações dos donos

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Etiquetas coladas às placas dos carros passam informações em tempo real do trânsito de uma rua. Tecnologia testada pela NEC com táxis e ônibus no Rio de Janeiro

Etiquetas com sensores RFID vão identificar os donos de cada lixo. Quem jogar lixo no lugar certo ganhará créditos que economizarão nas contas do fim do mês; nas latinhas, garrafas e embalagens de alimentos terão etiquetas com códigos colocados no ato da compra com informações do dono. Assim, esse lixo vai passar por sensores que identificarão cada dono

Sinal aberto sem carros passando? Não em Songdo. Sensores no asfalto determinarão a quantidade de carros que trafegam em uma rua e vão sincronizar semáforos de forma inteligente. Placas com sensores instalados debaixo da última camada de asfalto vão captar o peso dos carros passando

Canos pressurizados operam o transporte do lixo doméstico até uma central de reciclagem

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LIXÃO SUBTERRÂNEO

CENTRAL CENTRAL DE TRATAMENTO

RAIOS SOLAR

CENTRO COMERCIAL

VENTO POSTO PLACAS

LOJA BANCO

CENTRAL

Pisos com sensores nas casas de idosos e pessoas com deficiência alertam serviços de prontoatendimento em casos de quedas ou acidentes, mesmo funcionamento das placas sob o asfalto. O peso vai emitir um alerta para central de emergência

No topo dos edifícios, vegetação plantada reduz perda de água da chuva e combate o efeito ‘ilha de calor’. Plantas absorvem os raios solares e os usam para fotossíntese, refrescando o ar em sua volta

Turbinas eólicas com placas de captação solar jogam a energia captada para uma central. Em seguida, essa energia é distribuída para postos que carregarão os carros elétricos

Placas de energia solar captam a luminosidade e abastecem casas e centros comerciais

Iluminação das ruas controlada a partir da quantidade de pessoas que passam pelo local. Postes terão sensores. Se há pessoas passando, a luz fica acesa. Se não tiver gente, a luz diminui ou apaga

Águas de chuvas, esgotos, pias e máquinas de lavar irrigam parques e jardins. Sistema de abastecimento de Songdo reutilizará água da chuva e economizará 20% do consumo de água potável

As cidades vão priorizar cada vez mais os espaços verdes. Essas áreas naturais garantem bem-estar em meio à urbanidade, contribuem para a paisagem urbana e funcionam como espaços de convivência para os habitantes. Em Songdo, cerca de 40% da área total é de espaços verdes e lagos


Como sobreviver ao Big Brother?

Antes de ficar pronta, Songdo já recebe milhares de vistos de entrada

Foto: divulgação

Futuro já em construção Songdo, na Coreia do Sul, promete estabelecer os novos parâmetros para as cidades que virão. A aposta dos seus criadores é construir uma cidade moderna, eficiente e sustentável, como nenhuma outra. Songdo vai consumir apenas 30% da energia necessária para se manter uma cidade do seu porte. Erguida em uma ilha artificial de 607 hectares (metade do bairro de Brotas, em Salvador), a cidade fica a poucas horas de Tóquio, Xangai e Seul, principais centros econômicos da Ásia. Songdo quer se tornar um exemplo em soluções high tech para as outras cidades ao redor do mundo.

Se alguns problemas de gestão da cidade parecem estar sob controle, os responsáveis por Songdo terão que lidar com outras questões. Em meio a tanta automatização, o risco de invasões hackers e quebra de sigilo de dados poderá ser a pedra no sapato. Como manter a privacidade dos dados compartilhados pelos seus moradores? O que poderá ser feito com informações tão pessoais? “A questão a se chamar atenção é como pensar o desenvolvimento tecnológico sem que haja monitoramento dos rastros deixados pelas pessoas ou manter o anonimato, por exemplo”, afirma o pesquisador da Ufba André Lemos. Para ele, embora se criem ressalvas quanto à infiltração de tanta modernidade, a prática mostra que costumamos fazer bons usos das tecnologias.

Antes mesmo de ficar pronta - o que só vai acontecer em 2015 - 22 mil pessoas já carimbaram o visto. Espera-se um total de 365 mil, entre moradores fixos e temporários. Tanta tecnologia e modernidade tem seu preço: US$ 35 bilhões. Usando alta tecnologia, Songdo tornará Brasília uma versão pretensiosa de Pretória, a cidade pré-histórica do desenho animado Os Flintstones. “Nas cidades atuais, primeiro eram desenhadas as rodovias e depois as construções iam surgindo em seu entorno. Essas cidades impunham determinados usos a determinadas áreas. Nas cidades inteligentes, esse planejamento não está completamente imposto”, diz o arquiteto Antônio Caramelo. Ele mesmo tem um plano de cidade inteligente já em andamento para a Bahia. O local do novo empreendimento é mantido em segredo a ser revelado até o final de 2013. O grande legado para os seus moradores promete reconfigurar os conceitos de mobilidade e telepresença. Telas para videochamadas serão instaladas em todas as casas e escritórios para que seus moradores não precisem sair para atividades diárias, como assistir a uma aula, participar de uma reunião de trabalho ou até realizar uma consulta médica. Isso reduziria, por exemplo, o número de veículos nas ruas. Ao CORREIO, a equipe da empresa Cisco falou sobre a inovação. “A Telepresence pode ser a janela para os serviços inteligentes em casas e escritórios. Nós estamos buscando habilitar esse serviço em vários dispositivos para que os moradores e as empresas possam usufruir da videochamada a qualquer momento e lugar”. 76

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Respeito às culturas Para o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Sérgio Magalhães, o crescimento demográfico vai deixar de ser o grande fator de expansão das cidades. O especialista diz que a questão central agora é qualificar o que já existe, respeitando a multiplicidade estabelecida, seja de forma ou de uso. E dar, principalmente, acesso à infraestrutura a todos os que vivem nas cidades, com a prestação de serviço público. Assim, a saída para os problemas urbanos não passaria pela expansão territorial - pelo contrário, as cidades deveriam se tornar mais compactas, para que todas as suas áreas pudessem se beneficiar, por igual, das infraestruturas implantadas. Ex-secretário de Urbanismo do Rio de Janeiro e um dos criadores do Projeto Favela-Bairro, Magalhães ressaltou que essa infraestrutura envolve a presença efetiva do poder público em todas as áreas da cidade, inclusive no que se refere à segurança. Em sua palestra no Fórum Agenda Bahia, A Cidade Brasileira:Território ou Serviço?, Segio Magalhães observou que, desde meados do século passado - período de grande crescimento populacional - , o Brasil viveu uma experiência “fantástica e, talvez, inédita” de urbanização, construindo duas dezenas de metrópoles e duas megacidades. Como resultado, 85% dos brasileiros vivem hoje em áreas urbanas. Sérgio Magalhães defendeu otimizar os espaços urbanos para uma integração social Foto: Evandro Veiga

“Do ponto de vista urbano, já está bem claro que estamos alcançando a estabilidade demográfica. A população brasileira vem crescendo menos. Temos um patrimônio material, cultural e político e já não há contestações sobre a necessidade de qualificar o que já existe”, avalia. O arquiteto defendeu a necessidade de evitar ao máximo a expansão das áreas urbanas, substituindo essa política pelo resgate e otimização dos espaços já construídos. Para ele, essa é hoje a maneira correta de tratar urbanisticamente as cidades brasileiras, a fim de que se tornem, de fato, espaços de integração social. E as condições para que isso aconteça estão na conquista da sustentabilidade, mediante o enfrentamento do passivo socioambiental, e na universalização dos serviços públicos. Sérgio Magalhães afirma que é possível tornar nossas cidades mais densas e compactas, diante da redução do ritmo do crescimento demográfico, resultado da diminuição do tamanho das famílias. “As metrópoles brasileiras ainda vão mudar, mas não vão crescer significamente. O Rio de Janeiro, por exemplo, é das cidades que menos têm crescido demograficamente nos últimos 30 anos. A tendência é perdermos população”, diz. Na sua opinião, a expansão das cidades brasileiras está fortemente associada a uma grande mudança nas políticas públicas, em favor da indústria automobilística. A estrutura sobre trilhos que existia, com trens e bondes - que por si só delimitavam o território das cidades -, foi substituída pelos ônibus. “Na medida em que se desconstrói o sistema sobre trilhos, estamos dizendo que o território está disponível para ocupação. Ao contrário do bonde, para o ônibus avançar não precisa quase nada, basta um caminho carroçável”, comentou. Na visão de Magalhães, as cidades não podem mais ser “predadoras de território”, criando um ambiente injusto para a sua população. A saída, então, seria reduzir o passivo ambiental-habitacional, conter a expansão, estimulando o adensamento, privilegiar o transporte público de alto rendimento e implantar redes de transportes multimodais. Em debate realizado pouco depois de sua palestra, o especialista fez uma intervenção sobre o projeto de construção da ponte Salvador-Itaparica, mencionado pelo secretário estadual do Planejamento, José Sergio Gabrielli. Manifestando-se contrário a esse tipo de solução, ele argumentou que a expansão imobiliária que a implantação da obra atrairá para o entorno certamente vai degradar outra região da cidade, pelo deslocamento de população de outros locais. E citou o exemplo da zona norte do Rio de Janeiro, onde ocorreu esse tipo de deslocamento ao longo dos anos. O resultado, frisou, é que se acentua o entendimento de que aquele é um lugar em degradação e que não vale a

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pena investir ali. De acordo com Magalhães, o fato de haver perspectiva de crescimento econômico em Salvador ou em sua região metropolitana não significa que é preciso ampliar o seu território, como acontecia no passado. “Com certeza, as soluções do século 21 não são mais as do século 20”, disse.

Desafio Para Sérgio Magalhães, as cidades brasileiras devem se tornar sustentáveis do ponto de vista ambiental e habitacional, universalizando os serviços públicos mediante o acesso pleno dos moradores a toda a infraestrutura existente Promover a interação social

Solução Conter a expansão das cidades, tornando-as mais compactas Qualificar os espaços já existentes, enfrentar o passivo ambiental, promover a universalização dos serviços públicos Privilegiar o transporte de alto rendimento

“Com certeza, as soluções do século 21 não são mais as do século 20”

A espera de investimentos

As empresas do Polo de Camaçari quase não conseguem utilizar o modal ferroviário porque os ramais são antigos” MAURO PEREIRA, superintendente-geral do Centro de Fomento Industrial de Camaçari

Portos saturados e sem equipamentos adequados, ferrovias escassas, rodovias sobrecarregadas e carentes de manutenção. Aeroportos saturados e sem infraestrutura adequada para o transporte de cargas, escassez de mão de obra e inexistência de centros de logística para o armazenamento, manuseio e montagem de produtos. Somada à falta de regulamentação para alguns segmentos, essa realidade da logística na Bahia tem afugentado investimentos anuais no estado da ordem de bilhões de reais, segundo cálculos de empresários. Como resultado, milhares de empregos deixam de ser gerados e os produtos perdem competitividade. É consenso entre gestores e empresários que o caminho para o desenvolvimento do estado passa pelo aperfeiçoamento da infraestrutura logística, sobretudo pela construção de ferrovias e melhoria dos portos. “O que difere um estado ou país desenvolvido daquele subdesenvolvido é a sua infraestrutura ferroviária, rodoviária, portuária, aeroportuária e fluvial”, opina o titular da Secretaria Extraordinária da Indústria Naval e Portuária (Seinp), Carlos Costa. Mas os portos baianos, ineficientes, não atraem novos investimentos, embora mais de dez empresas privadas nacionais e internacionais estejam interessadas em atuar neles. O diretor-executivo da Associação de Usuários dos Portos da Bahia (Usuport), Paulo Villa, destaca as deficiências dos portos baianos. “O futuro está só na propaganda. O Porto de Salvador necessita de um segundo terminal de contêineres, urgentemente. O Porto de Aratu, em Candeias, necessita instalar de forma completa seus dois píeres com equipamentos modernos. Chegamos ao final do ano sem qualquer perspectiva concreta de licitações de arrendamentos de terminais para os dois portos”, aponta. “Isso prejudica todos os setores produtivos da Bahia, retirando a capacidade competitiva”. Segundo ele, o Porto de Aratu está com a capacidade saturada de movimentar cargas há 15 anos e não consegue se qualificar para a exportação de grãos, por exemplo. O resultado é que produtos como algodão, café e frutas acabam sendo escoados por outros portos em Santos (SP), Vitória (ES), Recife (PE) e Pecém (CE). Já a produção industrial, concentrada na Região Metropolitana de Salvador, é escoada em boa parte por terminais de uso privado das empresas, localizados na Bacia de Cotegipe, bem como por dutovias exclusivas. O único investimento assegurado pelo governo federal hoje no Porto de Salvador é da ordem de R$ 150 milhões, destinados à ampliação do quebramar, já licitada, e do terminal de passageiros, em obras. No entanto, esse

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investimento pode ser muito maior, caso a Casa Civil da Presidência da República divulgue ainda em 2012, como previsto, uma medida provisória regulamentando as concessões para a iniciativa privada. “Temos o desejo de participar mais ativamente desse processo”, ressalta Carlos Costa. A construção de um novo porto na região Sul do estado, o Porto Sul, tem um investimento previsto de R$ 3,5 bilhões, mas esbarra nos licenciamentos ambientais e não tem prazo para iniciar as obras. O novo porto terá potencial para escoar grãos e minério de ferro, quando integrado à Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que ligará o oeste do estado ao litoral, passando pelo Centro Sul. Hoje, a utilização das ferrovias para o escoamento da produção industrial e agropecuária na Bahia é praticamente nula. “As empresas do Polo de Camaçari quase não conseguem utilizar o modal ferroviário porque os ramais são antigos, irregulares e passam dentro de centros urbanos, o que aumenta muito o tempo da viagem”, lamenta o superintendente-geral do Centro de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic), Mauro Pereira. Segundo ele, o escoamento da produção acaba sendo praticamente todo por meio das dutovias e portos privados do próprio polo, ou pelas rodovias do sistema BA-093 - que inclui as vias ligando o polo ao Porto de Aratu e a Salvador. Para a distribuição dos produtos pelo país, as empresas usam as BRs 324, 116 e 101. A Ferrovia Centro-Atlântica, que passa por Alagoinhas, ligando o município ao Sudeste do país, ao Norte baiano e a outros estados do Nordeste, possui os mesmos problemas.

“Se efetivado, o Plano Nacional de Logística Integrada vai ajudar a melhorar, mas não vai resolver o problema” JOÃO MARCELO ALVES, superintendente de Desenvolvimento Industrial da Fieb

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Já os empresários do agronegócio do Oeste do estado dependem sobretudo da rodovia BR-242, que faz a ligação com a BR-324 (Feira de Santana) e, depois, com o litoral. “Perde-se muito pela infraestrutura precária. A BR-242 tem boas condições, mas está sobrecarregada. Além disso, a estrutura das vias de escoamento que chegam às fazendas produtoras é muito precária”, critica Hernani Sabai, assessor de agronegócios da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). Sabai reclama da impossibilidade de utilizar o modal ferroviário. No estado, o Plano Nacional de Logística Integrada, anunciado em setembro pelo governo federal, prevê a construção de dez mil quilômetros de ferrovias por meio de um novo regime de concessões à iniciativa privada. Estão inclusos dois trechos: Belo Horizonte-Salvador e Salvador-Recife. “Se efetivado, o plano vai ajudar a melhorar, mas não vai resolver o problema, pois não há qualquer ligação com o interior do estado”, critica o superintendente de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), João Marcelo Alves.

Para escoar os grãos e minérios das regiões Oeste e Centro-Sul do estado, o governo prevê a construção da Fiol. “Essa ferrovia terá R$ 4 bilhões de investimentos públicos e privados”, estima o chefe de gabinete da Secretaria de Infraestrutura da Bahia, Marcus Cavalcanti. O primeiro trecho, que ligará Ilhéus a Caetité, está em obras, com previsão para conclusão só em 2015. O segundo trecho, de Caetité a Barreiras, tem esbarrado também nos licenciamentos ambientais. A ferrovia será ligada à Ferrovia Norte-Sul, em Figueirópolis, no Tocantins. Por sua vez, o professor de Logística da Unifacs e pesquisador da Ufba Henrique Campos de Oliveira critica a dissociação entre o escoamento para a exportação e o abastecimento do mercado interno: “O que temos hoje são ilhas produtoras sem ligação com o estado, só com o mar”. Para ele, os projetos do governo não resolvem o problema, histórico. No caso das rodovias, o grande desafio é universalizar a pavimentação das vias estaduais. “A malha do estado tem quase 19 mil quilômetros, sendo 11 mil pavimentadas. Nossa grande luta hoje é melhorar as vias de alimentação de acesso aos grandes eixos”, destaca o diretor geral do Departamento de Infraestrutura e Transportes da Bahia, Saulo Pontes. Por sua vez, a Seinfra pretende adaptar os aeroportos do estado para o transporte de cargas, com recursos do governo federal da ordem de R$ 150 milhões.

“A BR-242 tem boas condições, mas está sobrecarregada” HERNANI SABAI, assessor de agronegócios da Aiba

“O que temos hoje são ilhas produtoras sem ligação com o estado, só com o mar” HENRIQUE CAMPOS DE OLIVEIRA, professor de Logística da Unifacs e pesquisador da Ufba

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PETRÓLEO E DERIVADOS

QUÍMICOS E PETROQUÍMICOS

Como é hoje

Como é hoje

Produtos chegam e saem do polo de Camaçari sobretudo através de dutovias e portos da Bacia de Cotegipe, de propriedade privada das empresas que operam na região. Em menor escala, são levados por modal rodoviário pela Via Parafuso (BA-535) e Canal de Tráfego (BA-522) para os portos de Aratu e de Salvador

Seguem por modal rodoviário até o Porto de Aratu, utilizando a via Canal de Tráfego (BA-522). Em menor escala, seguem pela Via Parafuso (BA-535) para o Porto de Salvador

Como é hoje MINÉRIOS DE FERRO

Como será

Como é hoje

Como será Produção passará a ser escoada via Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) até o Porto Sul, próximo a Ilhéus, de onde será exportada

Empresas do Sul do estado utilizam terminais próprios para cabotagem e levam para um porto privado no Espírito Santo. Parte da produção desce via BR-101 para o Porto de Santos

Como será Há perspectiva de adaptação do Porto de Ilhéus para carga de celulose, o que poderá mudar a rota. Questão está em discussão entre empresários e governo do estado. Duplicação da BR-101 desafogará a via

*

Como será Ferrovia SalvadorBelo Horizonte

Como será Minas do Centro-Sul baiano passarão a ser exploradas e seguirão para exportação via Fiol até o Porto Sul

Seguirá para exportação de Itagibá rumo ao Porto Sul, via Fiol

Alagoinhas

BR-324

Barreiras

MILHO Como é hoje

BR-242

Feira de Santana

FIOL - Ferrovia de Integração Oeste Leste

Segue de municípios do Oeste, como Barreiras e Luís Eduardo, por modal rodoviário (BR-242 e BR-324) até Feira de Santana, de onde é distribuído para o mercado baiano e nordestino via BR-116

Ferrovia Centro-Atlântica

Como é hoje Caminho semelhante ao do milho. Parte menor da produção segue via BR-242 até Brasília e, de lá, vai para exportação no Porto de Santos

Porto de Salvador Porto de Aratu

Itagibá

BA-130

Rodovia Salvador-Porto Seguro

Como será Produção seguirá mesma rota, mas haverá a opção de seguir de Feira de Santana até Salvador, via BR-324, para utilizar a Ferrovia Salvador-Recife na distribuição. Parte destinada à exportação passará a ser escoada via Fiol até o Porto Sul

BR-101

FRUTAS

Como é hoje

Saem de municípios do Vale do São Francisco, como Juazeiro, rumo ao aeroporto de Petrolina (PE) ou ao Porto de Suape, em Recife. Produção do interior do estado é levada por modal rodoviário até o Porto de Salvador

Como será

Porto de Ilhéus

Adaptações na Ferrovia Centro-Atlântica, que liga o Vale do São Francisco a Alagoinhas e ao Sudeste do país, podem ajudar no escoamento

Ilhéus Porto Sul

BA-262

Ferrovia SalvadorBelo Horizonte

*

Sistema BA-093

Salvador

Caetité

Produção seguirá mesma rota, mas haverá a opção de ir por Feira de Santana até Salvador, via BR-324, para utilizar a Ferrovia Salvador-Recife na distribuição. Parte da produção passará a ser escoada via Fiol até o Porto Sul para exportação

ALGODÃO E CAROÇO DE ALGODÃO

Camaçari

Candeias

Como será

CELULOSE Como é hoje

BR-116

Exploração no Centro-Sul baiano impossibilitada por ausência de canais de escoamento

Não há perspectiva de mudança

Não há perspectiva de mudança. A utilização dos portos de Aratu e de Salvador pode aumentar com a possibilidade de ampliação e modernização dos seus terminais portuários

Segue de municípios do Oeste, como Barreiras e Luís Eduardo, por modal rodoviário (BR-242, BR-116 e BR-324) até o Porto de Salvador, de onde a maioria da produção é exportada

Segue do município de Itagibá, principal polo produtor, até o Porto de Salvador, via BA-130, BR-101 e BR-324

Como é hoje

Como será

SOJA

NÍQUEL

Juazeiro

PRODUTOS AUTOMOTIVOS E METALÚRGICOS Como é hoje A Ford utiliza terminal próprio na Bacia do Cotegipe para exportação. Outros produtos seguem para o Porto de Salvador pela Via Parafuso (BA-535) e CIA-Aeroporto (BA-526). Produtos são levados para o Norte e Nordeste do país via BA-093 e BR-101

Como será Duplicação da BA-093 e da BR-101 devem desafogar vias, aumentando o fluxo rodoviário para estados do Norte e Nordeste FONTES: SEINFRA, SEINP, DERBA, AIBA, COFIC E MDIC

Rodovias federais Rodovias estaduais Ferrovias Portos INVESTIMENTOS FUTUROS Rodovias Ferrovias Porto

ALÉM DA BA-093, O SISTEMA INCLUI: VIA PARAFUSO (BA-535), CANAL DE TRÁFEGO (BA-522), CIA-AEROPORTO (BA-526), ENTRE OUTRAS

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Energia da Copa

Debate moderado por Reinaldo Sampaio, vicepresidente da Fieb, com Pedrão, Oliva, Herce, Gabrielli e Sérgio Magalhães

Para garantir o crescimento acentuado da Região Metropolitana de Salvador e o sucesso de dois dos maiores eventos esportivos que serão realizados em Salvador até 2014 – Copa das Confederações e Mundial -, a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba) está investindo R$ 1,3 bilhão no estado. O valor engloba a construção de cinco subestações (Fonte Nova, Imbuí, Itinga, Periperi 2 e Itaigara) e mais 29 alimentadoras associadas (linhas que saem das subestações para o sistema de distribuição).

Foto: Evandro Veiga

O salto no valor do investimento é uma rotina desde a privatização da Coelba, em 1997. Na época, o orçamento da empresa disponibilizou R$ 93,4 milhões para os projetos de modernização e ampliação da capacidade energética da Bahia. “Quinze anos depois, estamos investindo R$ 1,3 bilhão, o que demonstra que a privatização aumenta a eficiência operacional”, disse Sérgio Mello , superintendente de engenharia da Coelba.

Pela competitividade da RMS O professor da Unifacs e presidente do Instituto de Pesquisa Sociais, Fernando Pedrão, lembrou que trabalhou na concepção do plano da RMS em 1982, mas nada saiu do papel: “A Região Metropolitana precisa de um órgão de planejamento”, afirmou. O secretário de Planejamento do estado, José Sérgio Gabrielli, atribui os problemas de mobilidade e infraestrutura vividos por Salvador ao crescimento experimentado pela cidade nos últimos dez anos, sobretudo no setor de serviços. Durante o debate Como Acelerar os Investimentos e a Competitividade da RMS, Gabrielli falou na contramão das ideias do arquiteto Sérgio Magalhães, minutos antes, e defendeu a expansão da capital baiana para o oeste, com a construção da ponte de Itaparica. Isso porque, disse Gabrielli, aquela área do entorno da cidade deverá receber investimentos de R$ 17 bilhões até 2015. Também presente ao debate, o vice-presidente da empresa de logística Intermarítima, Matheus Oliva, chamou a atenção para a defasagem da Bahia no setor portuário ante Pernambuco e Santa Catarina. No primeiro caso, destacou que o estado abraçou há 12 anos a causa do porto de Suape, hoje consolidado; no outro, citou os cinco portos da costa catarinense, salientando São Francisco do Sul, o maior exportador de soja do país.

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No ano passado, em média, o consumidor da Região Metropolitana de Salvador ficou seis vezes (12 horas) sem energia. No estado, o tempo foi maior: 20 horas durante o ano. De acordo com Mello, desde 2010, a Coelba tem investido muito na renovação do sistema elétrico existente e na automação da rede de distribuição com a implantação de chaves e religadores automatizados, que diminuem as áreas afetadas e reduzem o tempo de restabelecimento em caso de interrupção do fornecimento. “As linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição não são totalmente imunes a falhas e defeitos. As intempéries, as ações de terceiros (abalroamentos, vandalismos, etc.) e a agressividade atmosférica (tempestades, salinidade, poluição, etc.) podem ocasionar interrupções no fornecimento de energia. Os investimentos buscam sempre minimizar essas possibilidades e também reduzir as áreas atingidas quando acontece alguma coisa”, afirmou Sérgio Mello. Nos dois últimos anos, a Coelba concluiu a construção das subestações Retiro, Patamares (Salvador), Mata de São João e Praia do Forte, com 14 alimentadoras. “Nosso planejamento é para os próximos dez anos. Como a Coelba só pode atuar na Bahia, a nossa empresa só cresce se o estado crescer”, diz Ricardo Valente, gerente do Departamento de Planejamento do Sistema Elétrico e Investimento. De acordo com Sérgio Mello, as obras de expansão realizadas pela Coelba contemplam os projetos previstos para Salvador durante a Copa do Mundo. “Os novos hotéis, pousadas, lojas e estabelecimentos comerciais que estão sendo construídos na cidade não terão nenhum problema com o abastecimento de energia”. 87


O superintendente disse ainda que o aumento da capacidade de fornecimento de energia da empresa possibilita a criação de novos empregos. “Com mais energia, as fábricas de postes, parafusos e cabos, apenas para citar três exemplos, contratam mais profissionais”. A Coelba é a terceira maior distribuidora de energia elétrica do país em número de clientes e a sétima em volume de energia fornecida. Presente em 415 dos 417 municípios da Bahia, a Coelba atende a mais de 14 milhões de habitantes em uma área de concessão de 563 mil km². Hoje, a empresa conta com mais de 5,1 milhões de clientes. Holding que controla a Coelba, o Grupo Neoenergia é o terceiro maior investidor privado do setor elétrico brasileiro, com R$ 20,4 bilhões aplicados desde a sua constituição, em 1997, até o ano passado. Formado por 26 empresas, distribuídas em 12 estados, o grupo atua em geração, transmissão, comercialização e distribuição de energia.

Novas subestações irão ampliar ainda mais a capacidade de distribuição de energia

A DIMENSÃO DESSE A DIMENSÃO BANHO DEDESSE LUZ BANHO DE LUZ REGIÃO REGIÃO DE METROPOLITANA – NÚMERO DE CONSUMIDORES* REGIÃO METROPOLITANA METROPOLITANA – – NÚMERO NÚMERO DE CONSUMIDORES* CONSUMIDORES* Lauro Lauro de de Freitas Freitas

80.491

Camaçari Camaçari

106.940

Salvador Salvador

1.027.905

Na distribuição de energia, o Neoenergia é o maior grupo privado em número de clientes, com 9,5 milhões de unidades consumidoras na Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Na geração, também se destaca entre os maiores grupos do setor elétrico do país. Possui capacidade instalada de aproximadamente 1.553 megawatts (MW) e deve chegar a 4.050 MW até 2019.

Lauro de Freitas Camaçari

106.940

80.491

Simões Simões Filho Filho Candeias Candeias

31.665 28.228 Vera Vera Cruz Cruz

40.535

31 Dias 28.228 Dias D´Ávila D´Ávila 24.831 Vera Cruz

Mata Mata de de São São João João

Salvador

17.571

1.027.905

São São Sebastião Sebastião do do Passé Passé

15.217 São São Francisco Francisco do do Conde Conde

11.789

Itaparica Itaparica

9.121 Madre Deus Madre de de Deus 7.544

Foto: divulgação

Cand

São Francisco do Co

COELBA COELBA

11.789 Itaparica

9.121

Madre de Deus

7.544

Número Número de de clientes: clientes: 5,1 milhões milhões (setembro/2012) (setembro/2012)

Nú mi

População População atendida: atendida: 14 milhões* milhões* População a Número de de municípios: municípios: 415** Número de munic ** Número

Número milhõesNúmero de postes: 3.0 Número de de postes: postes: 3.028 milhões *Dados *Dados referentes referentes a a setembro setembro de de 2012. 2012.

Privatização: Privatização: 1997 1997 (na (na época, época, a a empresa empresa tinha tinha

2,37

milhões milhões de de clientes) clientes)

mil Número Número mil de quilômetros de red Número de de quilômetros quilômetros de de rede: rede: 237 *DadosNúmero referentes ade setembro de 2012. subestações: 317 Número de subestações: 317 Número de subestações:

** Das * Dasenergia 5,1 milhões da de unidades 88% Das 5,1 5,1 milhões milhões de de unidades unidades consumidoras consumidoras que que recebem recebem energia da empresa, empresa, 88%consumidoras qu são classificadas residenciais. como E, desse de total, renda. 39% são de residênci são residenciais. residenciais. E, E, desse desse total, total, 39% 39% são são de de residências residênciassão classificadas como de baixa baixa renda. Privatização: 1997 (na baianas, são ** Rio Rio Real Rio Sulgipe, Real e Jandaíra, empresa cidades de baianas, são abastecid ** Real e e Jandaíra, Jandaíra, cidades cidades baianas, são abastecidas abastecidas**pela pela Sulgipe, empresa de Sergipe. Sergipe.

época, a empresa tinha INVESTIMENTO INVESTIMENTO Info banho de luz: 18cm INVESTIMENTO Info banho de Info banhode de luz: luz: 18cm 18cm xx 25,3cm 25,3cm milhões clientes)

2,37 1997 1997 R$ 93,4 R$ 93, 2012 R$ 1,3 2012 R$ 1,3

(ano (ano da da privatização) privatização)

(ano da privatização)

milhões

bilhão***

88

FONTE: FONTE: COELBA COELBA

FONTE: COELBA

***Orçamento aprovado 89 ***Orçamento aprovado


Programas buscam eficiência energética

Empresa perde R$ 218 milhões com os ‘gatos’

Para adequar a conta de energia à capacidade de pagamento dos consumidores, a Coelba realiza ações na área de eficiência energética. Para os consumidores que residem em comunidades populares, há projetos como o Nova Geladeira Coelba-Venda e o Vale Luz. Já para os consumidores residenciais em geral está à disposição o Energia Verde, projeto que oferece bônus para troca de geladeiras, freezers e aparelhos de ar-condicionado por equipamentos novos, eficientes, mediante contribuição para o reflorestamento da Mata Atlântica.

Crime de acordo com o Código Penal, a ligação clandestina, popularmente conhecida como ‘gato’, faz parte do dia a dia do consumidor baiano. Das 138,6 mil inspeções realizadas por técnicos da empresa em 2011, 95,5 mil (68,9%) apresentaram algum tipo de irregularidade. As perdas da Coelba com a prática ilegal foram de aproximadamente R$ 218 milhões. O governo estadual também teve prejuízo com a fraude, deixando de arrecadar R$ 60 milhões em ICMS.

Nova Geladeira Coelba-Venda É uma opção para o consumidor de baixa renda substituir o refrigerador antigo por um novo, mais eficiente, com selo Procel A de economia de energia. A troca do refrigerador fica entre R$ 120 e R$ 160. Podem participar do projeto clientes de comunidades populares com média dos três maiores consumos de energia elétrica dos últimos 12 meses acima de 80kWh/mês. Além disso, devem possuir Número de Identificação Social (NIS) ou procurar os postos da prefeitura instalados nas agências da Coelba da Praça da Sé, Liberdade, Periperi, Itapuã e Pirajá para inscrição no Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). Os valores arrecadados com a venda da geladeira antiga são empregados em projetos de geração de emprego e renda e, principalmente, no projeto Vale Luz Coelba.

Para combater essa prática ilegal, a Coelba tem investido em campanhas educativas, ampliação de equipes, operações de inspeção, blindagem de medidores e regularização das ligações clandestinas. Para este ano, o orçamento destinou R$ 50 milhões para reduzir o furto de energia elétrica. Cerca de 300 equipes especializadas em detectar ligações clandestinas atuam em toda a Bahia. O combate às ligações irregulares também tem o objetivo de garantir a segurança do sistema elétrico porque, com as fraudes, muitos consumidores são prejudicados com a sobrecarga de energia. As pessoas que fazem o ‘gato’ também correm sério risco de morte ao tocar na rede, porque estão sujeitas a sofrer choque elétrico.

Vale Luz - Empresa e Comunidade O programa prevê o descarte e troca dos resíduos das empresas por crédito na conta de energia, beneficiando instituições que realizam trabalhos sociais. Desde que o projeto foi lançado, em abril deste ano, até o final do mês passado, foram recolhidas 14 toneladas de resíduos recicláveis e creditados R$ 4,7 mil nas contas de energia das instituições indicadas. A Rede Bahia, primeira empresa a aderir ao projeto, beneficia as Obras Sociais Irmã Dulce com resíduos coletados.

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Solução para o caos de Salvador e Região Metropolitana

Reduzir o custo da infraestrutura dos serviços públicos, que devem ser descentralizados

É necessário planejar a RMS do ponto de vista urbanístico, com ênfase em:

As capitais brasileiras têm um fator em comum: não foram planejadas nem construídas para servir primordialmente às pessoas, mas a grupos de interesse. Salvador é a cidade-sede da 7ª maior Região Metropolitana do Brasil e que figura entre as 120 maiores do mundo, com 3.574.804 habitantes,

popularmente conhecida como Grande Salvador. Além dela, encontram-se outros 12 municípios na área metropolitana: Camaçari, Candeias, Dias D’Ávila, Itaparica, Lauro de Freitas, Madre de Deus, Mata de São João, Pojuca, São Francisco do Conde, São Sebastião do Passé, Simões Filho e Vera Cruz.

Infográfico: Planejando o futuro de Salvador e Região Metropolitana

Mobilidade urbana, um problemão Tempo de deslocamento para o trabalho Trazer segurança jurídica aos investidores privados

Salvador, um caso crítico

p2VBTFEBTDBTBT não dispõem de qualquer sistema de esgotamento sanitário, segundo o IBGE p/P.BQBEB7JPMÄODJB aparece em 4º lugar no ranking de homicídios em capitais

pEPTUSBCBMIBEPres gastam mais de duas horas diárias na ida e volta do trabalho. É o mesmo tempo gasto no Rio de Janeiro, DJEBEFDPNUSÄTWF[FT a população de Salvador

Reduzir os conflitos de interesse, com discussão envolvendo todos os interessados

pEBTSFTJEÄODJBT ainda não dispõem de energia

Até 30 minutos – 39% De 30 minutos a 2 horas ou mais – 61%

Não pensar os problemas de Salvador isoladamente. Eles estão ligados aos dos municípios vizinhos

p/P*EFC PCUFWF no ensino fundamental nota 2,8 (de zero a 10). Só superou Alagoas

Crescimento médio anual da frota de veículos (2001 – 2011)

Equacionar o problema dos transportes e não apenas dos automóveis

Brasil - 6,5% Bahia - 8,2% RMS - 6,8% Salvador - 5,9% 0

Uma das capitais mais violentas Taxa de homicídios por 100 mil habitantes Maceió Recife Vitória Salvador João Pessoa Curitiba

1998 33,3 (14º) 114,0 (1º) 106.6 (2º) 15,4 (25º) 38,4 (11º) 22,7 (18º)

Taxa considerada aceitável pela ONU = 10 por 100 mil/hab

2008 107,1 (1º) 85,2 (2º) 73,0 (3º) 60,1 (4º) 60,0 (5º) 56,5 (6º)

Organizar os diversos espaços urbanos nas cidades da RMS

Raio-X da capital População Fundação Fato histórico Área Altitude média Clima PIB

2.710.968 habitantes (IBGE 2012) 29 de março de 1549 1ª capital brasileira (1549 – 1763) 706,79 km² 8,3 m Tropical atlântico R$ 32, 8 bilhões (IBGE 2010)

Composição da economia de Salvador

0

2

4

6

São Paulo - 10,5%

Indústria - 20,99%

Rio de Janeiro - 10,6%

Serviços - 78,94%

Salvador - 5,6%

Fonte: SEI/Seplan

40

60

10

12

10

12

Investimentos em modernização urbana (2010)

Agropecuária - 0,06%

20

8

80

0

2

4

6

8

Textos: SCI FIEB | Ilustrações: Bamboo Editora

Pesquisa realizada em 21 capitais pela ONG Proteste mostra que para 53% dos moradores a qualidade de vida piorou em Salvador nos últimos cinco anos. Algumas razões que certamente influenciam nessa avaliação:


Tudo é plástico Peças que se encaixam como um grande jogo de montar. Leves e resistentes, capazes de durar por décadas. Bons isolantes térmicos, além de uma qualidade ainda mais sonora aos ouvidos: sustentáveis, já que ajudam a reduzir as emissões de gás carbônico (CO2). Disfarçados na composição de alguns produtos tão comuns no cotidiano sob nomes complicados como polietileno, policloreto e polipropileno, os plásticos têm sido empregados em substituição a materiais fabricados com ferro e aço, por exemplo. Nessa lista estão bueiros, carrinhos de supermercado, peças de automóveis, botijões de gás e contêineres. Até casas inteiras, que dispensam os compostos tradicionais, são feitas de plástico. Ao listar algumas das características das resinas plásticas, como o famoso PVC, fica fácil entender o porquê delas terem se tornado o kit salvação da construção civil. Graças à versatilidade e durabilidade, o material virou coringa e deixou de ser exclusividade da parte hidráulica. Antes restrito a eficiente, porém, escondida tarefa de ligar tubos, conexões e outras tantas funções no interior de paredes, o PVC passou a fazer parte da estrutura visível de casas e apartamentos. Hoje, portas, janelas, forros e por último as telhas de PVC viraram itens tão comuns em construções quanto pisos e revestimentos. “O grande benefício do PVC na construção civil é a produtividade. Com a utilização dos kits prontos, é possível construir uma casa inteira reduzindo o prazo em mais de 30 dias. Isso é importantíssimo se você considerar o déficit de mão de obra e o custo de uma obra”, explica Marcelo Cerqueira, vice-presidente da Unidade de Vinílicos da Braskem. “Esse é um trabalho de inovação muito forte, realizado em parceria com empresas clientes, sempre tentando estar à frente do que está sendo pensado no mundo”, explica. Porém, em tempos de Economia Verde, não basta ser talentoso se não tiver jeito para bom moço. E nisso, o PVC prova que é capaz. Utilizado como material substituto a produtos tradicionais, o plástico reduz o impacto ambiental de uma construção. Por conta da facilidade de se trabalhar com o PVC, os desperdícios são reduzidos a 0% se comparado a outros materiais. “As telhas, por exemplo, não quebram, são mais leves, é fácil de manusear e de transportar”, diz.

Minha Casa, Minha Vida A ideia é replicar a casa modelo também em unidades que se enquadrem no programa Minha Casa Minha Vida. O primeiro passo já foi dado. A Caixa Econômica autorizou a construção de mil casas de PVC no programa em novembro do ano passado. “A expectativa é que aumente a demanda pelo PVC com a Copa do Mundo de 2014 e as grandes obras de saneamento realizadas em todo o país”, explica Marcelo Cerqueira.

pela petroquímica, com o apoio da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, uma unidade da nova casa foi apresentada. O imóvel funciona como um prédio anexo do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, em Monte Serrat, na Cidade Baixa. As novas casas têm as paredes de PVC e o interior preenchido por concreto. Tão seguras quanto qualquer outra construção convencional, a Casa de Concreto PVC tem como vantagem o isolamento acústico e térmico, dispensa pinturas, podendo até ser lavada, não tem risco de ser alvo de cupins e mofo, e ainda reduz o gasto de energia, porque não conduz o calor tão fácil como outros materiais. As unidades, de alto padrão de qualidade, são destinadas às classes C, D e E. “Elas podem receber cobertura e ter até quatro andares”, garante Cerqueira. A tecnologia permite construir em menor tempo edificações inteiras, não apenas casas, mas também escolas, hospitais e outra infinidade de prédios públicos. Além da redução de perdas por entulhos e de materiais, as casas construídas com PVC têm redução no gasto de energia e consumo de água na obra. Por ser um bom isolante na condução de temperatura, o PVC ainda reduz o consumo de energia, tanto nos dias de calor quanto nos de frio. O PVC ainda garante um ciclo de vida inteiramente reciclável. Por conta do aumento da demanda, a Braskem inaugurou em agosto nova planta de PVC em Alagoas. O investimento, de R$ 1 bilhão, é o maior já feito em um único projeto desde a fundação da empresa, em 2002. Com capacidade produtiva de 200 mil toneladas anuais de PVC, a planta consolida a liderança do Brasil na produção dessa resina na América Latina. “Hoje, temos um centro de tecnologia e informação que está atento ao que de mais moderno está sendo produzido no mundo, e trabalhamos para ficarmos à frente disso”, revela. O coordenador de Meio Ambiente da Braskem, Luiz Carlos Xavier da Silva, explica que o plástico tem passado por uma mudança na forma como é usado na sociedade. “Antes, o plástico era utilizado em produtos que tinham um ciclo de vida curto. Porém, o que se tem percebido é que o uso do plástico deve valorizar aquela que é uma de suas maiores qualidades: a durabilidade. Então, temos de utilizá-lo para fazer aquilo que a gente quer que dure por muito tempo”, defende.

Responsável por aproximadamente 50% do mercado nacional de resinas plásticas, com 35 unidades industriais, entre elas na Bahia, a Braskem mira voos ainda maiores para o plástico. Em novembro do ano passado, a Braskem lançou, em parceria com a Global Housing e a DuPont, projeto de casas inteiras construídas de concreto PVC. No projeto, lançado em 2011

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Tecnologia para mobilidade sustentável A leveza e a durabilidade do plástico são grandes aliadas da mobilidade sustentável. Desde 2007, montadoras de veículos têm utilizado cada vez mais alta tecnologia para aumentar a quantidade de peças plásticas na composição dos veículos. Nos últimos 30 anos, a porcentagem de plásticos nos automóveis cresceu de 5% para mais de 15% no peso total. “O uso do plástico faz com que haja uma redução direta na emissão de gases do efeito estufa”, explica Luiz Carlos Xavier da Silva, coordenador corporativo de Meio Ambiente da Braskem. Há ainda uma redução indireta, explica o coordenador. É que, justamente por conta da leveza, as embalagens plásticas reduzem o peso durante o transporte de mercadorias que cruzam o país de norte a sul. “Com cargas mais leves, é possível transportar mais produtos e, assim, menos combustível é queimado para transportá-los”, diz Luiz Carlos Xavier.

Foto: divulgação

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UMA CASA DE PVC

Salvador

Prática

Produtividade

A Casa de Concreto PVC tem o interior das paredes de plástico preenchido com cimento. A casa da foto foi construída no Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema)

Dispensa pinturas, pode ser lavada, não tem risco de cupim e mofo, e reduz o gasto de energia e consumo de água na obra

A tecnologia permite construir em menor tempo edificações inteiras, como escolas e hospitais, por exemplo

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NO DIA-A-DIA DAS CIDADES MOBILIDADE URBANA Veículos Com a alta tecnologia, foi possível aumentar a quantidade de peças plásticas na composição dos veículos. O plástico é encontrado no para-choque, nos painéis, retrovisores, além de cintos de segurança, entre outros

Por ser mais leve que seus substitutos, o plástico contribui para eficiência energética do veículo: o automóvel sai mais leve da fábrica, consome menos combustível e reduz a emissão de gases nocivos à atmosfera

O plástico também pode ser reaproveitado: tanto na produção de veículos quanto no material usado para o transporte de peças e equipamentos automobilísticos. Por serem mais leves, as embalagens plásticas também reduzem indiretamente a emissão dos gases do efeito estufa durante o transporte de mercadorias em todo o país

MOBILIÁRIO URBANO Grades

Com um peso 60% menor se comparada às de ferro, as grades de plástico de bueiro suportam uma pressão de até 25 toneladas

O plástico tem substituído materiais como ferro e aço na fabricação de mobiliário urbano

Botijão de gás

As prefeituras do Rio e de São Paulo utilizam em substituição às antigas, alvos de roubos por conta do alto valor no mercado de reciclagem

Com metade do peso dos tradicionais, é reciclável e já é comercializado em locais da Europa, dos Estados Unidos e doBrasil

Feitos de fibra de vidro e polietileno, um plástico de alta densidade, o botijão de cozinha é mais leve que as tradicionais embalagens de aço

Madeira plástica Outra inovação que contribui para a sustentabilidade é a ‘madeira plástica’. Como o próprio nome sugere, trata-se de ripas feitas de plástico reutilizadas após o consumo

Tem a consistência e aparência de madeira real e podem ser usadas na fabricação de móveis

tampas e grades de bueiros eram roubadas, por mês, em São Paulo

1,2 milhão de reais era o prejuízo do governo paulsita com os furtos

“O grande benefício do PVC na construção civil é a produtividade” MARCELO CERQUEIRA, vice-presidente da Braskem

Entre as vantagens do material está a total ausência de possibilidade de ferrugem, o que gera maior segurança Desde 2011, o plásticomadeira vem sendo utilizado em locais como o zoológico da cidade de Paulínia, em São Paulo

“O uso do plástico faz com que haja uma redução direta na emissão de gases do efeito estufa” LUIZ CARLOS XAVIER DA SILVA, coordenador de Meio Ambiente

INFRAESTRUTURA Construção Civil O PVC (policloreto de vinila) é o termoplástico mais utilizado na construção civil e está presente em todas as etapas da obra: tubos, conexões, fios, cabos, acabamentos e revestimentos

Grelha O plástico verde, polietileno produzido pela Braskem a partir do etanol de cana-de-açúcar e que captura CO2 da atmosfera em seu processo produtivo, estreou no mercado da construção em 2012 na Grelha Ecológica, uma parceria com a Tigre

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* Prejuízo

500

A maioria dos produtos fabricados em PVC dura, em média, mais de 50 anos. São mais leves e com durabilidade maior

As grades de plástico são utilizadas para captação e escoamento de água, e evitam transbordamentos em casas e edifícios São resistentes, mais fáceis de serem limpas e ajudam a combater mau cheiro dos reservatórios

As telhas também estão sendo produzidas com o PVC. Além dos diferenciais técnicos, inerentes à resina, como resistência a agentes químicos, leveza e durabilidade, as telhas de PVC se mantêm estáveis às tempestades, granizos e outras intempéries

Saneamento Novas tecnologias permitem a instalação mais rápida de bueiros, feitos de plástico. Sua manutenção, também é mais simples

Um bueiro feito de concreto pesa bem mais do que os 70 kg do de plástico Segundo a Braskem, esses bueiros são muito resistentes a pressão e a impactos

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A conta é alta

U Sustentabilidade

*

Sustentabilidade

m dos mais influentes ambientalistas do país, o economista Sergio Besserman abriu o seminário de Sustentabilidade, O Valor da Água, com uma frase que ouviu do avô quando ainda era menino, mas que serve até hoje como uma grande lição: “Não existe almoço grátis”. A explicação para o uso da expressão, no Fórum, veio após enumerar como o homem usou e abusou do planeta nos últimos 300 anos. Tanto que agora não tem mais jeito. “A conta está na mesa”, alertou Besserman. E ela é alta. O homem, como lembrou Besserman, ainda tem o poder de decidir qual será o valor final dessa conta. Dá para pagar parcelado, mas é preciso começar desde já. A depender das nossas ações nos próximos 10, 20 e 30 anos, a variação da temperatura da Terra poderá subir de 2 a 7 graus, calculam os especialistas. Os danos vão existir, mas a intensidade do aquecimento global pode determinar, segundo Sergio Besserman, a nossa existência no planeta. Dois executivos das principais empresas do país - e do mundo -, também presentes no seminário de Sustentabilidade, estão convencidos de que o consumo consciente será decisivo nas próximas décadas para reduzir os efeitos do aquecimento global. O gerente de Responsabilidade Social da Petrobras, Armando Trípodi, e o diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Jorge Soto, destacaram a necessidade, inclusive, de melhor utilização - e economia - dos recursos hídricos disponíveis no país. Os palestrantes e debatedores apontaram soluções para o estado da Bahia. Uma delas, a modernização do atual Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços: a implantação do ICMS Ecológico serviria de incentivo para ações sustentáveis em cada um dos municípios baianos. Hoje, sustentabilidade, como lembra Soto, é também uma forma de negócio. E as cidades que exercem essa prática oferecem não só melhores condições de vida para seus moradores como também valorizam sua marca no mundo. Isso não tem preço.

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A evolução no debate sobre sustentabilidade No passado, a discussão sobre meio ambiente era vista como algo dissociado do desenvolvimento das indústrias e do dia a dia de boa parte da sociedade. Algumas décadas depois, o pensamento sobre sustentabilidade avançou e hoje envolve não só a proteção dos recursos ambientais, mas preocupações sobre cultura, consumo e produção. O diretor executivo da Rede Bahia, Luiz Alberto Albuquerque, lembrou essas transformações no discurso de abertura do seminário O Valor da Água, de Sustentabilidade. “O cenário muda de forma muito rápida. Nos últimos anos, houve uma evolução nas discussões sobre sustentabilidade. Quando era criança, pensar de forma sustentável significava ter uma sandália de borracha feita a partir do pneu. Hoje envolve muitas outras questões”, lembrou. O diretor alertou, porém, para a importância de se discutir, ainda hoje, os cuidados com os bens naturais. Luiz Alberto enfatizou a preocupação com a água no ano que a Bahia enfrentou a pior seca nas últimas três décadas e que levou mais da metade dos municípios baianos a decretar situação de emergência. O prejuízo ultrapassou a marca dos R$ 5 bilhões, segundo estimativas. “Esse 2012 foi um ano muito triste para a Bahia. Isso só deixa clara a importância de se discutir os cuidados que devemos ter com a água”, disse. Luiz Alberto Albuquerque lembrou que, apesar da escassez do recurso hídrico no semiárido baiano, o desperdício de água ainda é grande. E lembrou que o tema será vital em um futuro que envolve crise de abastecimento. “É importante discutir de forma aprofundada essa questão tão significativa para Salvador e Região Metropolitana”, afirmou.

Propostas apresentadas no seminário Identificar os efeitos das mudanças climáticas na Bahia. Como primeiro *passo, investir em pesquisas e criar um grupo de estudos sobre o assunto no estado A partir do diagnóstico, apresentar ações de prevenção e enfrentamento para *minimizar os impactos do aquecimento global nas cidades baianas

soluções devem contemplar diversas áreas, entre elas, o meio ambiente, *osAssetores da economia e o dia-a-dia da população Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revela que o *Nordeste deve sofrer ainda mais com as próximas secas. Especialistas do Fórum Agenda Bahia alertaram para a redução de chuva na Bahia, ampliando a área de seca no estado, inclusive em regiões consideradas úmidas, afetando também a disponibilidade de água para consumo humano e para irrigação na agricultura

Planejar cidades baianas, como Salvador, levando em consideração o cuidado *com o meio ambiente, mas também com o social e as obras de infraestrutura preventiva urbana, devido a previsão de aumento do nível do mar Incluir no Plano Municipal de Saneamento Básico de Salvador, em fase de ela*boração pela Secretaria de Transporte e Infraestrutura, os efeitos das mudanças climáticas na cidade. O mesmo vale para outras cidades baianas Investir em redes coletoras de esgoto para a saúde dos rios, das bacias e *das praias e para melhor qualidade de vida da população. A maioria dos rios de

Salvador já está poluída Luiz Alberto Albuquerque fez a abertura do seminário de Sustentabilidade Foto: Evandro Veiga

Evitar desperdício com o vazamento das tubulações da rede de abasteci*mento de água. A capital baiana tem índice de perdas de 47,3%, bem acima do nacional (38,8%)

* Fiscalizar ligações clandestinas de esgoto e de água * Planejar e cuidar da marca Salvador, ligada ao tema da sustentabilidade Promover campanhas para despertar nos moradores a iniciativa de ações mais *sustentáveis. Divulgar também os efeitos das mudanças climáticas 102

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* Debater um novo modelo de consumo, também mais sustentável * Investir na piscicultura Compromissos firmados Ecológico: O secretário estadual de Fazenda, Luiz Petitinga, anunciou * ICMS no debate ICMS Ecológico: Uma Solução para a Bahia que será enviado, para a Assembleia Legislativa, ainda no primeiro semestre de 2013, projeto de lei alterando o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço. A proposta é criar o

ICMS Ecológico no estado, com critérios de avaliação também sustentável Florestal: O secretário estadual de Meio Ambiente, Eugênio Spengler, * Código anunciou que o órgão vai identificar e propor a compra de áreas que tenham mais conectividade com Áreas de Preservação Permanentes (APPs) e com Unidades de Conservação. A ideia é formar corredores de biodiversidade, que possibilitem potencializar a preservação de cursos d’água, da flora e da fauna Novo programa: Para fiscalizar o cumprimento das novas regras ambien* tais, com o Código Florestal, e auxiliar nos processos de licenciamento, o secretário garantiu que será implantado o Sistema Estadual de Informações Ambientais e de Recursos Hídricos - o Seia Foto: Divulgação

Nova oportunidade para o Brasil Entrevista com Ignacy Sachs

“Recursos aquáticos são uma das grandes forças deste país”

Uma das principais referências no mundo quando o assunto é desenvolvimento sustentável, o professor da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris Ignacy Sachs recorre às cores da bandeira de Portugal para ilustrar o que, para ele, é a principal questão da atualidade: “Não adianta ter o verde se não tiver o vermelho”. Para Sachs, um dos criadores do conceito ecodesenvolvimento, a economia não pode ser verde, sustentável, se não tiver o vermelho, do social. “Se não formos capazes de reduzir as desigualdades, vamos continuar no mesmo processo de disputa pelo produto material com consequências ambientais cada vez mais sérias e que vão tornar impossível a continuação desse processo”, alerta. Ignacy avalia que o Brasil tem uma grande oportunidade na exploração sustentável dos seus recursos hídricos. “O país poderia virar a maior potência mundial em produção de piscicultura. O peixe contra o bife. Recursos aquáticos são uma das grandes forças deste país”, aposta. O ecossocioeconomista polonês, naturalizado francês, com fortes ligações

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“Mas o grau de desperdício do modelo atual de água é tal que temos um enorme espaço para melhorarmos a eficiência”

com o Brasil, onde morou por diversos anos, defende que o litoral do Nordeste, lagos de represas, rios e até pequenos açudes de todos o país podem gerar um novo ciclo de desenvolvimento. “Vamos sair da fase da caça - a pesca profissional - para a piscicultura. Como aconteceu com a pecuária”, explica. “O Brasil poderia virar a maior potência mundial em produção de piscicultura. E a Bahia tem um potencial extraordinário para isso”, lembra. O litoral baiano é o maior do país. A pecuária tem sido apontada, por especialistas, como vilã pela emissões de gases de efeito estufa. Em mais de duas horas de entrevista ao CORREIO, no Rio de Janeiro, onde esteve para as discussões da Rio + 20, em junho de 2012, Ignacy Sachs põe o dedo na ferida em questões polêmicas, defende a eficiência no uso dos recursos hídricos e ainda um novo contrato social e estilo de vida da população. O senhor esteve no Brasil para participar das discussões da Rio+ 20. Qual sua avaliação a respeito da Conferência da ONU para o Desenvolvimento Sustentável? A poeira ainda não baixou. O que se pode dizer desde já é que foi reforçado o cacife do Brasil como um dos formuladores das políticas internacionais relativas ao desenvolvimento includente e sustentável. Isto implica em novas responsabilidades na definição de uma agenda comum de políticas e pesquisas futuras a serem implementadas com a participação das comissões regionais da ONU, Banco Mundial, bancos regionais e demais instituições da ONU, com o Brasil e, possivelmente, a Índia como os dois abre-alas do bloco dos países emergentes. Se dependesse de mim, atribuiria uma alta prioridade ao diálogo entre esses dois países, promovendo uma colaboração mais estreita entre as principais universidades dos dois países, visando intercâmbio de bolsistas e definindo eixos de pesquisa de interesse comum ao redor da problemática do aproveitamento dos recursos renováveis dos biomas tropicais e subtropicais. Daria destaque para a interface terra/água (produção de alimentos e energia com geração em grande número de oportunidades de trabalho decente nos ‘dike pond systems’ - uma espécie de fazenda marítima), adaptados às regiões litorâneas, à Amazônia, aos lagos de represa, etc. E qual teria sido o melhor resultado para a conferência? Primeiro, a consolidação do bloco dos (países) emergentes. Em segundo lugar, para mim, seria ideal juntar a ideia do contrato social com a volta ao planejamento. Existem os objetivos sociais, a viabilidade ambiental que não podemos mais abstrair - porque pode comprometer todo o processo – e para que as coisas aconteçam é preciso dar uma viabilidade econômica. Todo o debate passa por esse tripé.

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“Nós não estamos enfrentando uma situação desesperada. Mas os problemas se tornaram mais complicados”

Mas nem sempre todas as pernas desse tripé são preservadas? Infelizmente, sempre aparecem aqueles que privilegiam um pé do tripé ou apenas os outros dois. Não há razão para pensar que o desenvolvimento consiste unicamente na acumulação de bens materiais. Quanto mais rápida for reduzida a desigualdade abissal que existe hoje, mais rapidamente podemos entrar em uma fase de desenvolvimento na qual o problema não será mais aumentar o produto material e, sim, manter um nível razoável de material per capita para todos. Se a gente fizer um esforço para reduzir as enormes diferenças de consumo material que existem hoje de um lado, e continuar no processo da educação, vamos chegar a um momento de dizer: ‘basta’, para não manter o nível de consumo que existe hoje. Esse parece ser um ponto fundamental para o senhor: não é possível a humanidade manter esse modelo de consumo e produção atual. Não, não há mais razão para isso. Tenho uma visão otimista. De se fazer uma repartição mais equitativa do produto material de maneira a colocar a humanidade numa nova era. (…) Isso vai significar que, para produzir a parte material, com mais tecnologia, implicaria em menos tempo de trabalho. Poderia usar parte dessa redução para diminuir o ‘homo faber’ (homem que produz) e dar maior projeção ao ‘homo ludens’ (o historiador Johan Huizinga sustenta o jogo e a brincadeira como algo inato do homem). Essa é, para mim, a problemática do futuro: se não formos capazes de reduzir as desigualdades sociais, que estão inerentes na maioria dos modelos presentes no mundo, vamos continuar no mesmo processo de disputa pelo produto material, com consequências ambientais cada vez mais sérias e respostas negativas. Em certo momento, essas consequências ambientais vão tornar impossível a continuação do processo. O senhor acha que estamos em um período de transição entre esses dois modelos, ou ainda estamos engatinhando? A nossa tarefa do momento é não cair no pessimismo radical do tipo ‘estamos caminhando para uma catástrofe, salve-se quem puder’... Não, nós não estamos enfrentando uma situação desesperada. Mas os problemas se tornaram mais complicados. Alguma coisa está acontecendo de positivo, mas não acontece em escala suficiente para dar garantia de que não entraremos em uma crise ecológica que traria consequências sociais terríveis. Por isso, insisto tanto na necessidade de trabalharmos o social, o ecológico e o econômico juntos. Não separar essas discussões. Esse é nosso objetivo: ao melhorarmos o lado social, vamos relaxar no lado do crescimento material. O céu é o limite para as atividades não materiais. Os limites estão nos recursos não renováveis, no aquecimento global, mas não há limites para atividades culturais e lúdicas. Vamos deixar às gerações futuras o cuidado de fazer o bom uso do tempo. Dentro desse conceito, como alimentar mais de sete bilhões de pessoas de forma sustentável? A agricultura, por exemplo, é uma das atividades 107


“Para evitar uma crise ecológica, insisto na necessidade de trabalhar o social, o ecológico e o econômico juntos”

que mais consomem água. É possível? Não tenho competência técnica para responder a isso. Mas o grau de desperdício do modelo atual de água é tal que temos um enorme espaço para melhorarmos a eficiência. A água é considerada como uma dádiva do céu, se fazia com ela o que se queria, como queria... Fizemos muito pouco esforço para captar a água da chuva. No dia em que a água começar a faltar, imagino que programas de construção de cisternas e açudes deverão ser considerados. São coisas relativamente fáceis e não muito caras. Em muitos lugares já há falta de água, como na Bahia... Uma boa pergunta para se fazer é: quantos bilhões de seres humanos podemos manter em boas condições de consumo com o conjunto dos recursos do planeta, ao nível dos nossos conhecimentos de hoje? Não tenho resposta, mas penso que não estamos enfrentando os problemas de escassez material do qual exigiria uma resposta. O senhor acha que a água pode ser como petróleo, uma commodity com preço do barril cotado no mercado internacional? Essa escassez pode levar à guerra? Que pode suscitar guerra, pode. Ser cotado na Bolsa de Valores, acho meio difícil. Escassez de água pode virar um caso bélico. O problema da água é que o transporte é complicado. Não vai engarrafar água no Brasil para vender na Rússia. Água tem que ser administrada localmente. Como sensibilizar a sociedade sobre as questões da sustentabilidade? Não é sensibilizando a sociedade pública que vamos resolver o problema. Conferências como a Rio+20 servem para que os governos sentem à mesa e pensem qual é a sua responsabilidade nesse processo. Planejamento. Essa capacidade de pensar em alternativas hoje nos dá possibilidade de lançar mão de tecnologias, instrumentos que não tínhamos antes. Esse é o nosso paradoxo do começo do século 21: estamos melhor armados para planejar do que as gerações anteriores, mas estamos deixando isso de lado. É aqui que nós temos que dizer ‘basta’. Se extrapolarmos as tendências atuais, vamos entrar em uma fase de dificuldades crescentes provocadas pelo aquecimento global.

“ Brasil poderia virar a maior potência mundial em produção de piscicultura. O peixe contra o bife”

É possível produzir grande quantidade de proteína animal, com uma variedade que se controla, em um pequeno açude... Pouco se explora essa questão no país... Para mim, esse é um dos grandes temas do Brasil. Vamos sair da fase da caça - a pesca profissional – para a piscicultura. Como aconteceu com a pecuária. E aproveitar o potencial extraordinário que vocês têm. É possível usar também para consumo próprio. Trabalhei com um grupo americano interessado em criar piscicultura nos porões de prédios de Washington de classe pobre. É só pegar um tanque e aplicar os métodos: chega-se à produção de peixes fabulosos para aquele universo. E a custo baixo? Extremamente baixo. A piscicultura em pequenos açudes poderia ser fundamental no desenvolvimento rural. Pra mim, no caso do Brasil, a piscicultura tem um papel fundamental para enriquecer o conceito de propriedade rural. Isso não está sendo enfatizado. Como poderia ser na Bahia? Primeiro, o governador (Jaques Wagner) é aberto a coisas desse tipo. Segundo, há condições tanto no litoral quanto no interior. No litoral, tem esses recifes que geram lagos e a água acaba renovada com maré alta. Há condições excepcionais de se criar a piscicultura nesses lugares. No (rio) São Francisco também. Há ainda as bacias, os lagos de represas, os rios, tem também a Amazônia. A cultura do brasileiro é carne vermelha. Mas investir em piscicultura é uma estratégia de desenvolvimento a ser considerada. Tem um potencial extraordinário. Se for calcular, facilmente o Brasil poderia virar a maior potência mundial em produção de piscicultura. O peixe contra o bife. Recursos aquáticos são uma das grandes forças deste país. Não sou inimigo da pecuária. O Brasil tem futuro nessa área, mas desde que a torne menos extensiva, articulando melhor com outras produções.

Quando o senhor fala em planejamento seria em vários níveis, do global ao dia a dia das pessoas. O senhor estava reclamando do trânsito do Rio... Claro. Qual é o potencial dos recursos a serem destravados? E quais são os obstáculos para sua utilização. Cada caso é um caso. Deve-se mobilizar a população local, abrir a perspectiva de utilização melhor dos recursos que estão ao redor. Como o Brasil pode melhor usar os recursos hídricos? Vocês têm potencial hídrico extraordinário. Acredito muito na piscicultura. 108

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“Não vamos travar guerras no futuro pela posse de água, como dizem especialistas. Já estamos travando” Foto: Evandro Veiga

‘A conta está na mesa’

“Precisamos decidir sobre a extensão do custo decorrente de uma crise ambiental” SÉRGIO BESSERMAN, economista e ambientalista

As cidades brasileiras já enfrentam as consequências das mudanças climáticas: aumento da temperatura, elevação nos níveis do mar, mudança no regime das chuvas, entre outras transformações pouco animadoras, segundo Sérgio Besserman, doutor em economia e um dos ambientalistas mais influentes do país. “Não tem almoço grátis. A conta está na mesa”, diz ele, ao afirmar que a natureza vai cobrar ainda mais a fatura pelos últimos 300 anos de excessos da sociedade. Em palestra na abertura do seminário O Valor da Água, do Fórum Agenda Bahia, Besserman afirmou que vivemos em um período decisivo, e que as medidas adotadas agora irão impactar na manutenção da vida e nos atuais modelos da economia. “É como um daqueles períodos das nossas vidas em que temos que decidir: casar ou não com a mulher que se ama, estudar História ou Engenharia, ter filhos... Vivemos esse momento”, explica. Para o especialista, que conduziu os debates na Rio+20 pela prefeitura do Rio de Janeiro e já representou o Brasil em conferências internacionais sobre mudanças climáticas, os próximos 30 anos definirão o tamanho do impacto do aquecimento global no planeta. “Precisamos decidir sobre a extensão do custo decorrente de uma crise ambiental”, conclui, ao referir-se às transformações em todos os setores da sociedade.

entender o que está acontecendo. A situação é grave, mas não é o fim do mundo. Infelizmente, isso envolve muito custo, o que provoca sofrimento, sobretudo para a população mais vulnerável, que são aqueles que têm menores recursos para se proteger. É preciso clareza do problema hoje e planejar para daqui a 10, 20, 30 anos à frente”, explica Besserman, que já presidiu o IBGE e hoje é responsável pela Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio. O modelo usado até agora, alerta, não dá mais: o processo de industrialização e a maior exploração dos recursos naturais resultaram nos altos níveis de poluição, nas desigualdades sociais, na miséria. A emissão de gases do efeito estufa nas diversas atividades, como agricultura, é uma das tantas moedas dessa balança pouco sustentável. “Já temos milhões de refugiados ambientais, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Não vamos travar guerras no futuro pela posse de água, como dizem especialistas. Já estamos travando. Veja o Sudão e outros tantos países da África e da Ásia. O modelo atual é insustentável”, afirma. Mas esse mesmo modelo pode nos salvar, defende Besserman: o surgimento e fortalecimento da indústria, da química, da física, das ciências e o princípio da tecnologia desenvolvidos nestes mesmos 300 anos de pensamento científico também guardam as respostas capazes de salvar os habitantes de um fim catastrófico. “O tempo da Terra é um, não linear, o do ser humano é outro. O planeta já passou por pelo menos cinco processos de extinção, como o fim dos dinossauros no período Cretáceo, e ela vai se recuperar de mais essa extinção. Serão necessários cinco ou dez milhões de anos, o que para a Terra, que tem centenas de milhões de anos, não é nada”, brinca o economista. Besserman rebateu as opiniões de alguns especialistas que relativizam o papel do homem nas mudanças climáticas e que dizem que tais variações na temperatura e nos níveis do mar são cíclicas. “Em 2012, com todas as transformações acontecendo, essa discussão já não é mais possível”, concluiu o economista.

‘Não existe almoço grátis’ Para ambientalista, depois de 300 anos que transformaram a história, mas também foram marcados por excessos no uso dos recursos do planeta, é necessário mudar imediatamente alguns padrões. As ameaças já começaram, alerta

Sérgio Besserman afirmou ainda que é preciso fazer planejamento e mudanças imediatas na gestão das cidades e, além disso, conscientizar a população sobre os riscos imediatos com aquecimento global. “É importante

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Planejamento sustentável

“As cidades litorâneas do país vão ter que proteger as redes pluviais e de esgoto. E definir um novo planejamento”

Entrevista com Sérgio Besserman Um dos mais influentes ambientalistas do país, o economista Sergio Besserman faz um alerta: cidades brasileiras precisam se preparar para os efeitos das mudanças climáticas. Especialmente as litorâneas, onde há previsão de elevação do nível do mar até o final deste século, de até um metro de altura. Besserman explica ainda, nesta entrevista ao CORREIO, por que municípios e seus moradores devem cuidar melhor de suas águas. Tanto no uso racional dos recursos hídricos, evitando o desperdício, quanto no investimento em saneamento básico. “Uma cidade com praias poluídas é a marca de uma cidade suja. Isso representa perda de renda, de emprego”, lembra, ressaltando também os riscos para a saúde da população. Para o economista, que atualmente é presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro, o aquecimento global pode resultar em aumentos de temperatura de 2 a 7 graus. A variação vai depender do nível de mudança na sociedade, especialmente na forma de consumo. “Os efeitos das mudanças climáticas estarão no centro da agenda econômica, social e política. Em no máximo 30 anos vamos ter de criar uma outra economia”, diz. Entre os efeitos das mudanças climáticas, existe o debate sobre a elevação do nível do mar. De que forma as cidades devem se preparar para essa realidade? Rio, São Paulo e Curitiba têm tido discussões a respeito disso, realizado estudos de impacto e identificado onde os problemas vão aparecer primeiro. Mas no resto do Brasil, especialmente no Nordeste, a coisa está complicada, não se faz muita coisa. Até metade da Bahia é um pouquinho mais fácil de administrar. Depois, as marés são mais extremas, mais perto de Equador. Haverá, então, uma invasão maior nas cidades porque não existe a proteção de um metro e meio das marés, como acontece da Bahia para baixo. As cidades litorâneas do país, de qualquer forma, vão ter que proteger as redes de águas pluviais e de esgoto. E definir um novo planejamento. Como o Rio de Janeiro, onde o senhor realiza um trabalho de sustentabilidade com a prefeitura, tem trabalhado essa questão? A primeira coisa que a cidade fez foi tentar conhecer um pouco mais a sua realidade. Contratamos estudos sobre o impacto do aquecimento global. Não posso garantir, mas é meu sonho, e minha luta que o Rio seja, nos próximos dois anos, a primeira cidade da América Latina a ter, se não o planejamento, mas diretrizes para um planejamento de adaptações às

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“O preço da água vai aumentar: vai ter menos água e a energia para levar a água até em casa também vai aumentar”

“É um grande desafio: convencer (o político) a gastar um dinheiro hoje, que iria usar para outra coisa, para evitar um problema daqui a 20, 30 anos”

mudanças climáticas. Muita coisa a gente já está fazendo. Existe hoje um centro de controle do clima e um treinamento para os moradores de comunidades carentes, em caso de situação de risco. Mas faltam os outros passos. O saneamento da Zona Oeste, por exemplo, será feito agora. Eu fico lembrando: tem que gastar mais dinheiro (na construção da rede) porque o nível do mar vai subir. Se não for feita uma infraestrutura especial, será dinheiro jogado fora daqui a 20 anos... E está sendo feito? Vamos continuar uma boa discussão (risos). No final, será feito. Mas esse é um grande desafio: convencer (o político) a gastar um dinheiro hoje, que iria usar para outra coisa, para evitar um problema daqui a 20, 30 anos. Não é fácil. Há ações embrionárias. Ainda não é nada parecido com o que é feito em Nova York ou Londres. Mas há exemplos. O projeto de revitalização portuária do Rio, o Porto Maravilha, levou em consideração os problemas das inundações, com elevação do nível do mar. O CORREIO publicou reportagem que revela que boa parte dos rios de Salvador está poluída. Muitos vão dar no mar. Atingir as praias mexe com o turismo e, por consequência, com a economia da cidade. Uma coisa puxa a outra... Com certeza. A forma como tratamos as águas é burra. E decorre do nosso sistema político. Um sistema político que não discute ideias, não tem planejamento, não resolve o assunto e gera muitos problemas. Um deles é a depreciação de um ativo econômico, que é o litoral ou a baía. No Rio de Janeiro, a praia é o ativo mais importante que existe. Ativo natural, mas econômico: é o que faz o Rio ser o que é. Como acontece em muitas cidades do Nordeste, como Salvador. E esse problema afeta outro ativo, que é a marca. Uma cidade com praias poluídas é a marca de uma cidade suja. Perde renda, perde emprego. Em segundo lugar, tem a questão ambiental. E, em terceiro, o futuro das novas gerações. Pesquisas revelam que a falta de saneamento básico pode condenar toda uma geração a se desenvolver menos. Crianças de zero a 6 anos expostas a infecções constantes reduzem os recursos para desenvolvimento cerebral. O senhor acredita que o Brasil pode enfrentar problemas sérios de escassez de água? De forma localizada, sim. (...) Com as mudanças climáticas, vamos recolher muito menos água doce do que antes. Teremos que planejar o uso mais racional da água, caso contrário teremos problemas no Brasil dos mais diversos. O preço da água vai aumentar: vai ter menos água e a energia para levar a água até em casa também vai aumentar. Não podemos esquecer que um terço do preço do condomínio é água. Então, usar água com mais inteligência é fundamental.

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A marca de Salvador

“Cuidar dessa marca vale a pena como vida e como negócio”

Foto: Divulgação

“Não pensar no futuro dessas cidades levando em conta o aumento dos níveis do mar e todas as transformações geradas a partir das mudanças climáticas não é só uma questão moral, é criminoso”, avalia.

Poucas cidades do mundo conseguem a atenção de bilhões de pessoas no planeta. Têm visibilidade e um valor de mercado, incalculável, que qualquer empresa sonharia em alcançar. O Rio de Janeiro é uma delas. Tem na praia de Copacabana, por exemplo, uma marca mundial. “Uma marca ligada a um tema, o da sustentabilidade, que não vai sair da agenda global nas próximas décadas. E essa marca tem que ser muito bem cuidada”, afirmou o ambientalistas e economista Sergio Besserman. O exemplo foi dado, na palestra de abertura do Fórum Agenda Bahia 2012, para fazer um alerta para a capital baiana. “Salvador também tem uma marca global ligada à pluralidade, à diversidade e à natureza. E precisa apostar na sustentabilidade, como no cuidado com suas águas e praias, para valorizar ainda mais essa marca”, sugeriu Besserman. “Cuidar dessa marca vale a pena como vida e como negócio”, adianta. O especialista aposta nos ativos considerados intangíveis para justificar gastos extras com obras que não estavam previstas. “O Rio fez muita besteira, mas a cidade não existe se não for mais sustentável. A Baía de Guanabara é um penico, mas agora resolveram cuidar dela”, conta. “O raciocínio para o Rio pode ser válido para Salvador também. É preciso pensar mais a cidade do ponto de vista logístico e não apenas do turismo”, explica Besserman. Segundo ele, as duas capitais deveriam trabalhar juntas, como se fossem cidades-irmãs. O economista cita que ambas as cidades possuem um atrativo pautado na diversidade e na pluralidade de cultura, etnias, que atraem milhões de pessoas. “É preciso apostar nessa visão de cidade que está em movimento”, diz. Além do Rio, Besserman lembrou que outras cidades, como São Paulo e Curitiba, já estão desenvolvendo estudos para avaliar os impactos das transformações no clima. Na esfera ambiental, o cenário inclui invasões das águas do mar nas cidades litorâneas, distribuição das chuvas de forma diferente pelos territórios, o que vai comprometer o volume dos rios e até aumentar a incidência de tempestades no interior.

O especialista alerta que a Bahia, em especial, poderá enfrentar secas permanentes em algumas áreas. “Sinto dizer, mas o semiárido vai desaparecer. Dentro de alguns anos, teremos apenas a região árida”, alertou o ambientalista sobre a região que atualmente abrange 70% do território baiano, englobando 258 municípios.

Desafio

“Salvador precisa apostar na sustentabilidade, como no cuidado com suas águas e praias, para valorizar ainda mais essa marca”

Sérgio Besserman indicou a criação de grupos de estudo para identificar problemas e apontar soluções para a Bahia minimizar efeitos das mudanças climáticas em seu território Sugeriu estimular um novo modelo de consumo

Solução Para que Salvador possa trabalhar sua marca, precisa investir em sustentabilidade O planejamento de cidades baianas, como Salvador, deve levar em consideração o cuidado com meio ambiente, com o social e também obras de infraestrutura preventiva

O ambientalista diz que os municípios baianos mais próximos da linha do Equador sofrerão as piores consequências, sobretudo no volume do mar que pode chegar a um metro acima do nível atual até o final do século. As águas ultrapassariam os limites das praias, invadiriam as ruas e avenidas da orla e inundariam parte da Cidade Baixa, só para citar alguns dos danos gerados em Salvador.

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Solução Informações sobre os impactos das mudanças climáticas devem ser divulgadas Conscientização sobre o papel da sociedade será fundamental para definir qual será o efeito do aquecimento global. As temperaturas poderão variar de 2 a 7 graus

Nova York se prepara para os efeitos do clima Nova York tem tomado a dianteira entre as cidades que já encaram as mudanças climáticas como elemento futuro do qual não poderão escapar. A cidade, que já foi inúmeras vezes retratada nos filmes apocalípticos de Hollywood sendo varrida do mapa por ondas gigantes e geleiras polares, quer estar preparada para quando o cenário for real.

A seca que atingiu cidades baianas deve piorar nos próximos anos e se alastrar para outras regiões Foto: Arisson Marinho

A cidade tem um plano de desenvolvimento sustentável que estuda os impactos provocados com as mínimas alterações nos fatores ambientais. Mudança nos regimes de chuvas, alterações na temperatura dos oceanos, nada escapa aos centros de análises americanos. Nova York também se planejou para minimizar os efeitos da escassez de água. Os estudos indicam que os Estados Unidos já enfrentam secas, furacões, enchentes e aumento das inundações decorrentes das tempestades em razão das mudanças climáticas. As dimensões continentais do país americano, similar ao Brasil, fazem com que as variações sejam sentidas de ponta a ponta de forma muito diversa. Michael Bloomberg, prefeito de Nova York e presidente do C40 (Climate Leadership Group), grupo de 40 cidades empenhadas em debater questões relativas à mudança climática, anunciou durante a Rio +20 o projeto de reduzir as emissões de carbono em um bilhão de toneladas até 2030. A meta prevê uma primeira etapa de diminuição em 400 milhões de toneladas até 2020. Fazem parte do grupo duas capitais brasileiras, o Rio de Janeiro e São Paulo. “A globalização é fundamental para que as cidades se articulem para pensar soluções juntas. O Rio já faz e Salvador pode fazer também”, alerta Besserman. Nova tubulação está sendo construída em Nova York para aumentar a oferta no abastecimento de água Foto: Divulgação

Além da escassez de água, infestação da dengue As mudanças climáticas afetam de forma direta a disposição da água doce no planeta. Diretamente ligados ao regime de chuvas e a evapotranspiração - evaporação das águas do solo e das plantas - os níveis de água presentes em rios, lagos e todo reservatório de água abastecido por regime pluvial serão impactados pelas alterações resultantes das mudanças do clima. “Em torno de 2,5% da água do planeta é doce, e é consumida pelos seres humanos. Mas esse número não vai alterar. O que vai alterar é a disposição dela na natureza”, diz Sérgio Besserman. Enquanto os rios foram esculpidos durante milhares de anos e estão fixos, as precipitações que abastecem esses mananciais estão diretamente ligados à questão climática, explica o ambientalista. “A chuva vai mudar de lugar. Os rios, não. O problema é que essa alteração de cinco, seis ou sete graus na temperatura vai ocorrer em 100 anos”, diz. Regiões áridas, como na Bahia, cujo território está tomado pela vegetação semiárida, serão afetadas e se tornarão ainda mais secas. Na região da Amazônia, os níveis de chuva poderão diminuir, o que alterará diretamente os níveis de precipitação em toda a região Sudeste. O economista lembra que o volume de chuvas nessa parte do território brasileiro é influenciado pelo que é chamado pelos especialistas de rios voadores, massas gigantescas de umidade e vapor d’água que são transportadas pelos ventos da Bacia Amazônica para outras regiões do Brasil.

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A elevação das águas do mar em poucos centímetros já será suficiente para inundar dezenas de metros em direção ao território. Regiões inteiras serão inundadas por água salgada e até áreas de foz de rios serão afetadas, comprometendo a estrutura desses mananciais. Porém, se algumas mudanças passam mais por uma questão da adaptação, outras serão mais difíceis de se controlar. A liberação de altas taxas desse gás causador do efeito estufa pode acelerar o aquecimento global. “Ainda há tempo”, afirma Besserman, desde que as pessoas se eduquem para agredir menos a Terra.

Café Arábica Besserman aponta ainda mudanças na agricultura, como algumas espécies que não suportarão a variação de temperatura. “O café arábica produzido no país, por exemplo, não vai resistir. A cana-de-açúcar vai se adaptar melhor no Rio Grande do Sul. O aedes aegypti, mosquito responsável por transmitir o vírus da dengue, vai existir durante o ano inteiro e não só no Verão, entre outras mudanças nada agradáveis”, diz

*

Mudanças no Rio

Porto Maravilha As obras de reurbanização do porto já preveem a elevação nos níveis do mar com o aquecimento global. As obras de infraestrutura consideram a elevação em até um metro

Saneamento A cidade discute a realização de obras de saneamento público na Zona Oeste com tecnologia para suportar a elevação do nível do mar e o possível impacto na infraestrutura

Interligado Ciclovias ligadas a estações de metrô, que estão ligadas aos ônibus. O Rio se prepara para interligar os pontos do trânsito e, assim, reduzir as emissões de gás carbônico

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Dias mais quentes com menos água O cinema catástrofe, apesar da fantasia hollywoodiana, tem alertado sobre as consequências da interferência do homem no clima do planeta. Os altos índices de emissão de gases poluentes na atmosfera e a destruição de áreas verdes são sinais mais evidentes, e preocupantes, de como estamos provocando mudanças no clima que podem ocasionar aumento da temperatura, menos chuvas e escassez de água para consumo. A comunidade científica em geral não acredita que filmes como ‘2012’ estejam tão próximos de se tornar realidade. Mas, para pesquisadores, o sinal amarelo dos efeitos das mudanças climáticas já acendeu, inclusive na Bahia. De acordo com resultados do Relatório de Avaliação Nacional de Mudanças Climáticas, organizado pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) e divulgado em evento paralelo ao Rio + 20, a temperatura vai aumentar em média 4ºC em todo o país até o fim deste século. O documento alerta também para uma menor incidência de chuva no Nordeste. A mesma constatação é feita pela pesquisa do professor Fernando Genz, doutor em Geologia e membro do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Segundo o estudo, a temperatura na Região Metropolitana de Salvador vai aumentar entre 1,1ºC e 1,5ºC até 2040 (em relação à média registrada entre 1961/1990). No interior do estado, a elevação média será de 2ºC no mesmo período. Entre 2041 e 2070, o aumento será de 2ºC a 3,5ºC. “Essas simulações levam em conta as emissões dos gases de efeito estufa e aerossóis e são baseadas nos cenários do relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima)”, explica o pesquisador. Nos estudos de Genz, as simulações de temperatura atuais são praticamente idênticas às medições reais. Portanto, o grau de acerto da pesquisa é grande. No cenário mais otimista, a partir de 2070 haverá uma estabilização no uso dos combustíveis fósseis, o que contribuiria para a diminuição do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global. “Mas não estamos vendo nada nesse sentido. Pelo contrário. As emissões atuais registradas estão acima das simulações mais pessimistas. A situação é grave porque há resistências dos países mais poluidores em aderir a acordos ambientais”, diz Genz, citando exemplos dos Estados Unidos e da China. Além do aumento da temperatura, outro problema provocado pela interferência negativa do homem sobre o meio ambiente é a redução das precipitações, ou seja, das chuvas. Embora não haja estudo científico profundo

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apontando as causas da seca que castigou a Bahia e o Nordeste em 2012, a mais dura dos últimos 47 anos, os pesquisadores acreditam que o fenômeno é resultado das mudanças climáticas.

AQUECIMENTO BAIANO

*4º C

Segundo dados do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema), nos últimos dez anos houve uma redução média de 268 milímetros de chuva em Salvador. A pesquisa do professor Fernando Genz aponta para um cenário ainda pior. “Essa redução deve ser de 10% no litoral a 20% na região mais seca entre 2011 e 2040. Já entre 2040 a 2070, ela será de até 50% no semiárido e 40% em outras regiões do estado. Isso seria bastante grave”, alerta. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tem trabalhos que demonstram que o Nordeste deve sofrer ainda mais com as próximas secas, graças ao aumento constante da temperatura, desertificação (quando o solo é transformado em deserto por ação humana ou processo natural), redução da quantidade de chuva e da umidade. A pesquisa da engenheira ambiental Samara Fernanda da Silva sugere um controle maior dos recursos hídricos. Ela afirma que o plano municipal de saneamento básico de Salvador, em fase de elaboração pela Secretaria de Transportes e Infraestrutura (Setin), continua desconsiderando o fenômeno das mudanças climáticas. O governo da Bahia também não tem planejamento voltado para os efeitos das mudanças climáticas na Bahia. Alguns estados brasileiros contam com apoio de instituições, como Embrapa, para desenvolver novas técnicas e equipamentos para enfrentar os desdobramentos do clima, inclusive na produção de alimentos.

A previsão é de que a temperatura em todo o país aumente nesse nível até o fim deste século. No período haverá uma menor incidência de chuva no Nordeste

FERNANDO GENZ, professor da Ufba

Milímetros foi a redução média de chuva em Salvador nos últimos

10

* 1,5º C É quanto deve aumentar a temperatura na Região Metropolitana de Salvador em menos de

30

* 2º C

anos

A menos de vazão terá o Rio Paraguaçu até o fim do século

Esse deve ser o aumento da temperatura no interior do estado até

A escassez vai continuar: a previsão é que nos próximos 30 anos a redução de chuva chegue a:

10

%

no litoral

20

anos

*73%

2040

Nos EUA, pesquisas revelam que ondas de calor e outros eventos climáticos não aconteceriam se não fosse o aquecimento global. Cada vez é maior a crença da comunidade científica de que o aquecimento é uma doença que precisa ser tratada com urgência. Ou, então, já vimos o que pode acontecer nas telas de cinema...

“A redução de chuva deve ser de 10% no litoral e 20% na região mais seca entre 2011 e 2040”

*268

De 2040 a 2070, vai chover menos: até

50

%

40

%

%

nas regiões mais secas

no semiárido

em outras regiões do estado

Fonte: Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), professor Fernando Genz e Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia

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Queda no abastecimento e impacto na agricultura Com a redução da quantidade de chuvas, a disponibilidade de água para consumo humano, de animais e para irrigação também vai diminuir na Bahia. No cenário mais pessimista, até o final do século, a estimativa é que haja uma queda de 73% das vazões médias do rio Paraguaçu, comprometendo seriamente o abastecimento de Salvador. O reservatório de Pedra do Cavalo, localizado no manancial, contribui com cerca de 60% do fornecimento de água da Região Metropolitana de Salvador. De acordo com pesquisa da engenheira ambiental Samara Fernanda da Silva, esse efeito vai atingir as vazões afluentes aos reservatórios da bacia do rio Paraguaçu, sobretudo Baraúnas, Casa Branca, Apertado e Bandeira de Melo, na região da Chapada Diamantina, com reduções de até 32% no horizonte de 2040. Em Pedra do Cavalo, a queda na disponibilidade de água pode chegar a 28%. Nos reservatórios de França e São José do Jacuípe, no semiárido, a redução estimada é de 18%. A pesquisadora afirma que a situação será pior, ao longo do tempo, entre os meses de abril a novembro, o que agravará a disponibilidade de recursos hídricos justamente no período da seca.

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OS DOIS LADOS DA MOEDA

Mea culpa

Seca maior na Bahia

Guru dos ambientalistas e um dos cientistas mais influentes do século passado, o inglês James Lovelock surpreendeu o mundo em abril ao afirmar que suas previsões catastróficas sobre as mudanças climáticas estavam erradas. Autor de vários livros e inventor de muitos instrumentos utilizados pela Nasa, Lovelock disse em 2004 que até o final deste século “bilhões de nós morrerão” em consequência do aquecimento global e que “os poucos casais férteis de pessoas que sobreviverão estarão no Ártico, onde o clima continuará tolerável”. Em 2012, James Lovelock afirmou que os estudos sobre o aquecimento global ainda são insuficientes. “A mudança climática é uma realidade, mas fui alarmista em minhas previsões”, afirmou.

Em Os Sertões (Euclides da Cunha), um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Antonio Conselheiro diz que “o sertão vai virar mar”. Pelas projeções de pesquisadores do Inpe, a previsão do maior personagem da Guerra de Canudos não passou de uma miragem. De acordo com os estudos, as próximas décadas serão marcadas pelo aumento da aridez no sertão brasileiro: as áreas do semiárido podem se ampliar em até 12% até meados deste século. Se as projeções do Inpe estiverem corretas, a região com possibilidade de seca ganharia mais 29 mil quilômetros quadrados, área pouco superior ao estado de Alagoas, que tem quase 28 mil quilômetros quadrados. Para os pesquisadores do Inpe, a partir de 2070 a aridez avançaria para o norte da Bahia, e atingiria Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí.

“O aumento da severidade do período de estiagem poderá ser um risco não somente aos usos para abastecimento e irrigação como também aos condicionantes que dão sustentabilidade à fauna e à flora”, alerta.

“Existe uma tendência clara de redução da quantidade de chuva em Salvador”

“O aumento da estiagem poderá ser um risco também para a fauna e a flora” SAMARA DA SILVA, engenheira ambiental

HERÁCLIO ALVES, meteorologista do Inema

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Governo investe na segunda fase do Água para Todos Até 2014, o governo da Bahia pretende investir R$ 3,7 bilhões na segunda fase do Programa Água para Todos, beneficiando 2,5 milhões de pessoas com abastecimento de água, 2 milhões com esgotamento sanitário e 285 mil com saneamento integrado. Segundo o governo, nos primeiros anos (2007 a 2010) do Água para Todos foram beneficiados 2,89 milhões de baianos com ligações de água e mais de um milhão com esgotamento sanitário, a maior parte na zona rural e no semiárido. De acordo com o presidente da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), Abelardo Oliveira, a previsão é que na segunda fase sejam implantadas 445 mil ligações de água, construídos 1.600 sistemas de abastecimento, 100 mil cisternas e perfurados 2 mil poços artesianos. Também serão implantadas 400 mil ligações de esgoto e 15 mil melhorias sanitárias domiciliares e ainda construídos 12 novos sistemas de esgotamento sanitário. Meteorologista do Inema, Heráclio Alves disse que de 1996 até 2011 houve redução da quantidade de chuvas em Salvador. Dentro desse período, em oito anos, as chuvas ficaram abaixo da média; em dois, acima; e, no restante, dentro da média. Em 2001, 2002, 2007 e 2008, a redução das precipitações alcançou 40%. Já este ano, em quase todos os meses, São Pedro mandou menos água para a capital baiana do que o normal. A exceção foi maio. “Há uma tendência clara de redução da quantidade de chuvas em Salvador”, afirma o metereologista. Embora não tenha dados oficiais, ele acredita que essa é uma tendência no interior. “Geralmente, chove mais no litoral”, diz, lembrando a seca que castigou o interior do estado em 2012.

Combate ao desperdício A pesquisadora Samara Fernanda da Silva sugere a adoção de um controle mais rigoroso e contínuo do sistema de abastecimento de água de Salvador, com a redução das pressões sobre os recursos hídricos até 2040. Entre as medidas estão conter os desperdícios e combater as barragens clandestinas. Somente o reservatório de Pedra do Cavalo é responsável pelo abastecimento de 60% da RMS

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Na berlinda RMS perde mais de 1 bilhão de litros de água por ano em vazamentos e ligações clandestinas. O vilão do Nordeste é Pernambuco. A Bahia tem reduzido seus índices, mas não tem motivo para comemorar: Salvador perde quase metade da água distribuída

Desperdício de 12 Diques do Tororó Em terra seca, quem tem cacimba de água carrega cada gota como ouro. Não no Nordeste. Por essas bandas, onde já se acostumou a incluir períodos de secas no calendário, a economia de água não é, definitivamente, algo a se orgulhar. Bem abaixo do chão, constantemente árido, o prejuízo escorre entre quilômetros de tubulação que deveriam garantir o abastecimento de 53 milhões de pessoas. A cada 100 litros de água retirados do subsolo nordestino, 50,8 litros se perdem em vazamentos e ligações ilegais antes mesmo de chegar às casas. O índice é o segundo pior entre as regiões do país, atrás apenas da bem cortada por rios região Norte, que tem um índice médio de perdas de água de 51,2% - mas que pode chegar a 77%, na cidade do Amapá. O levantamento, feito entre todas as distribuidoras de água em 2010 pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, do Ministério das Cidades, mostra que nesse ranking do mau uso no Nordeste, apenas o Ceará tem perdas menores do que a Bahia - o vilão nordestino é Pernambuco, com 65,9%. O estado cearense perde 32,7% de toda a água, enquanto a Bahia joga fora 37,1% daquilo que extrai dos lençóis freáticos e aquíferos. É aí que Salvador se mostra como vilã. A capital baiana tem um índice de perdas de 47,3%, bem acima do índice nacional, avaliado em 38,8%. O número, porém, revela uma queda em relação a 2009, quando o índice de perda era de 49,2%. Segundo o coordenador do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), do Ministério das Cidades, Ernani Ciríaco de Miranda, o índice nacional é altíssimo e está longe da meta ideal, de 25%. “Apesar de diminuir, esse número ainda é muito alto. Se a média no país é de 38,8%, Salvador acaba sendo responsável por puxar esse índice pra cima”, diz. Esse volume de perda no país representa, em média, um prejuízo de R$ 7,2 bilhões por ano, segundo cálculo feito pelo Snis em 2008. A capital baiana tem índice de perda maior do que cidades como Fortaleza (16,8%) e Campina Grande (32,5%), mas ainda menor do que Recife (56,7%) e Rio de Janeiro (55,7%). Na Bahia, quem tem melhor desempenho entre as 100 maiores cidades do país é Vitória da Conquista. A cidade do sudoeste do estado reduziu o índice de 2009, quando a perda era de 16,5%, para 12,4%, em 2010. As piores perdas foram detectadas nos municípios de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, com perdas de 69,79%, e Caucaia, no Ceará, com 69,63%. 125


“Se a média do país de desperdício é de 38,8%, Salvador, com 47,3%, acaba puxando esse índice para cima ” ERNANI DE MIRANDA , coordenador do Snis do Ministério das Cidades

Apenas o Distrito Federal estava na faixa de perda na distribuição menor que 30%, segundo o estudo. Nos piores extremos, com perdas entre 50,1% e 70%, estão os estados de Alagoas, Piauí, Rondônia, Roraima, Amazonas, Rio Grande do Norte, Sergipe, Acre, Maranhão e Pernambuco. A pior situação está no Amapá, com 77,3% de perda.

O especialista explica que, se não fossem as ligações ilegais, menos água seria bombeada pelas tubulações e Salvador não precisaria de tanta água. “Seria menos energia elétrica necessária para trazer essa água da Pedra do Cavalo, ou do reservatório do Rio Joanes. Por não pagar nada por essa água, gasta-se aos montes”, diz.

O especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas Claudio Ritti Itaborahy afirma que o Brasil tem de aperfeiçoar o sistema de distribuição de água à população. Segundo o analista, operações malfeitas e problemas no sistema de distribuição podem gerar perdas muito grandes. “Entre 10% e 20% do que é extraído do subsolo acaba se perdendo por conta de vazamentos. Perdas são comuns na distribuição, mesmo em países muito desenvolvidos. Porém, cidades com rede melhor gerenciada têm perdas menores”, afirma.

Alterar a dinâmica da cidade é ainda outro motivo, segundo o superintendente da Embasa, para as perdas. “Imagine a dificuldade de consertar vazamento em rede antiga de distribuição, como a que corta a Avenida Sete, ou a Rua Carlos Gomes, ou então penetrar em comunidades dominadas pelo tráfico de drogas para consertar vazamentos e fiscalizar ligações clandestinas. É muito difícil. Às vezes, precisamos contar com segurança para chegar até esses lugares”, conclui.

O superintendente de Abastecimento de Água de Salvador e Região Metropolitana, José Moreira Filho, aponta as ligações clandestinas como principais responsáveis pelo rombo de R$ 9,5 milhões anuais que a Embasa, distribuidora na Bahia, tem em função das perdas de água. Ou seja, toda a riqueza produzida em Feira de Santana e Vitória da Conquista, que têm juntas o Produto Interno Bruto (PIB) no mesmo valor. “Segundo estimativa que, infelizmente, está longe de ser o número exato, há perda de 1,3 bilhão de litros de água por conta de ligações ilegais”, afirma. Esse volume equivale a 12 Diques do Tororó desperdiçados por ano. Os gatos de água seriam culpados até pelo valor elevado da tarifa.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma pessoa precisa de aproximadamente 110 litros de água por dia para higiene pessoal e consumo geral, como beber água, cozinhar. Nesses números, a Bahia passa abaixo da média nacional, de 159 litros. O consumo entre os baianos é, em média, 120,3 litros por dia, acima da média do Nordeste, que é de 117,3. Só para comparar, o consumo em São Paulo é de 184,7 litros por dia.

Pouca água doce Apesar da grande quantidade de água na Terra, apenas 2,5% dela é doce. Mas não adianta ir com tanta sede ao pote. Deste número já reduzido, apenas 0,26% está disponível em lagos, reservatórios e bacias hidrográficas. Isso significa dizer que apenas 0,0065% da água na Terra é água doce disponível, alarma, mas não sem razão, o Instituto Akatu. O resto é sal.

Vazamentos, como o da Avenida Centenário, contribuem para o desperdício Foto: Antonio Saturnino

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PELO CONSUMO CONSCIENTE

Alguns fatores tornam o desperdício de água ainda maior. Se já há perda antes mesmo de se ter acesso à água, escolher onde morar, em casa ou em apartamento, é um deles. Os moradores de apartamentos gastam, em média, mais água do que aqueles que moram em casas. O motivo é a falta de percepção. Como na maioria dos edifícios a conta de água é rateada entre todos os moradores, paga-se uma média do consumo total. Assim, eles não veem a cobrança ao final do mês e não se sentem estimulados a economizar ao julgar que os outros também não o fazem.

Baianos consomem em média

120,3 litros por dia

Apenas

2,5

%

da água da Terra é doce

Torneira que pinga sem parar joga fora

46

Não fechar a torneira do chuveiro durante o banho representa desperdício de

144

litros de água

litros por dia, em média

70

%

12

litros são desperdiçados por deixar a torneira aberta enquanto se escova os dentes

da água extraída do subsolo é usada na agricultura

Assim, são desperdiçados litros de água: um banho sem fechar a torneira desperdiça 144 litros de água, enquanto uma torneira pingando sem parar são outros 46 litros, por exemplo. “É comum, quando se instala um medidor individual nos apartamentos, que o sujeito tome um susto, porque ele não tinha ideia do tanto que consumia”, diz o superintendente de Abastecimento de Água de Salvador e Região Metropolitana, José Moreira Filho.

Extremos No geral, a água da Bahia é considerada boa. Em algumas cidades, a qualidade atrai, inclusive, investimentos de novas indústrias. Mas o estudo revela que a contaminação tem trazido cada vez mais preocupações, alterando o volume e a qualidade de rios, lagos e reservatórios

O mapa da água na Bahia Um estudo minucioso iniciado há seis anos (as coletas são realizadas a cada três meses) em 140 rios e 374 outros corpos d’água traça um diagnóstico sombrio na rede hidrográfica que corta todas as regiões da Bahia. As ligações de esgoto clandestinas, a ocupação desordenada do solo, o desmatamento das bacias, a coleta irregular do lixo e a poluição estão provocando alterações no volume dos rios, lagos e reservatórios, contaminando os aquíferos, degradando os mananciais e causando impactos negativos na qualidade e quantidade dos recursos hídricos. Os dois rios que têm a pior qualidade de água da Bahia estão localizados na Região Metropolitana de Salvador: Camarajipe (capital) e Camaçari, que atravessa a cidade mais industrial do estado. O Rio Camarajipe impressiona pela poluição. Duas amostras coletadas em pontos diferentes apresentam o mesmo resultado: água de péssima qualidade. No outro extremo, Camaçari também possui o rio (Capivara) com a melhor qualidade de água da Bahia. Outros rios com qualidade excelente de água são Imbassaí (Mata de São João) e Gritador (Piatã). “O grande problema é que a velocidade da ocupação territorial é muito maior do que a capacidade que os governos (federal, estadual e municipal) têm de investir em saneamento e em outras obras de infraestrutura”, disse o engenheiro Eduardo Topázio, coordenador do sistema de monitoramento do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). Apesar de todos os problemas, com exceção do semiárido, região que apresenta um déficit permanente, a quantidade e a qualidade da água baianas são consideradas satisfatórias. O trabalho de monitoramento analisa os aspectos físicos, químicos e biológicos da água. De acordo com Topázio, a Bahia deve chegar em 2015 monitorando 566 pontos, cumprindo a meta do governo federal, que definiu as bacias hidrográficas como unidades territoriais de estudos. “O projeto inicial prevê um ponto monitorado a cada mil quilômetro quadrado”, afirmou.

7

%

9

no uso industrial

no uso urbano

%

EDITORIA DE ARTE/CORREIO

128

Morador de apartamento gasta mais água do que o de casa

O monitoramento não inclui praias, lagoas e águas subterrâneas. “O que temos de concreto é que precisamos entender que o uso econômico e racional da água é essencial para garantir o abastecimento às próximas gerações”, disse o secretário estadual do Meio Ambiente, Eugênio Spengler. O secretário cita dados da ONU para defender sua opinião. Segundo a Organização das Nações Unidas, a quantidade de água doce produzida por seu ciclo natural é praticamente a mesma de 1950, quando o consumo era 129


A SITUAÇÃO DOS RIOS AZUL (ótimo)

VERDE (bom)

Confira o ranking do grau de qualidade da água na Bahia, segundo o Inema. O CORREIO selecionou os cinco primeiros de cada item

AMARELO (regular)

VERMELHO (ruim)

Roxo (péssimo)

PINDOBAÇU Rio do Aipim

FORMOSA DO RIO PRETO Rio Preto

ABARÉ Rio São Francisco

ITANAGRA Rio Sauípe RIO REAL Rio Real INHAMBUPE Rio Inhambupe

BAHIA

FEIRA DE SANTANA Rio Subaé

IAÇU Rio Paraguaçu PIATÃ Rio Gritador

CANDEIAS Rio Jacarecanga

MATA DE SÃO JOÃO Rio Imbassaí

MUNIZ FERREIRA Rio Jaguaripe CAMAÇARI Rio Capivara JEQUIÉ Rio de Contas CAMAÇARI Rio Camaçari

CAETITÉ Caixa d´ água na sede da Cerb

RIBEIRÃO DO LAGO Rio Pardo

ITARANTIM Rio Pardo

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“A maior parte desse volume é de água salgada, imprópria para a produção de alimentos e consumo humano. É evidente que existem muitas técnicas para transformar a qualidade da água, mas os custos, por enquanto, são muito elevados”, disse Eduardo Topázio. Dados da ONU revelam que a quantidade de água doce disponível é muito pequena: menos de 3% do total existente no planeta. Eduardo Topázio disse que os maiores problemas em relação à contaminação das águas acontecem quando os rios passam dentro das cidades. “O rio Cachoeira, por exemplo, quando atravessa Itabuna, piora as suas condições por causa da coleta irregular de lixo, falta de educação da população, que joga objetos em seu curso e, ainda, pelo esgoto a céu aberto que é despejado em suas águas”.

OUROLÂNDIA Rio Salitre

SÃO DESIDÉRIO Rio das Fêmeas

bem menor. Mesmo com 75% da superfície da terra coberta por água, os especialistas têm razão quando dizem que as próximas gerações poderão enfrentar muitos problemas em relação ao abastecimento de água.

Outra dificuldade do programa é em relação à análise da água. “As amostras são transportadas para Salvador para serem examinadas em laboratórios da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Se houvesse melhor infraestrutura nas maiores cidades, com laboratórios bem equipados, certamente o nosso trabalho seria mais eficiente”, disse.

Impacto na economia Eugênio Spengler ressalta que o trabalho de monitoramento também é importante para o desenvolvimento da Bahia. “As empresas e indústrias somente se instalam onde há água em grande quantidade e de ótima qualidade, dois fatores analisados pelo Programa Monitora”, diz. Na opinião do secretário, além de identificar e mapear as áreas para receber investimentos, o programa de monitoramento auxilia na tomada de decisões governamentais. “A Embasa, por exemplo, utiliza dados do programa para ampliar a oferta de água e esgoto”, afirmou.

SALVADOR Rio Jaguaribe

SALVADOR Rio Camarajipe

131


Má qualidade atinge 47% da água urbana do país

Sala monitora secas e enchentes

Um levantamento realizado pela Agência Nacional de Águas (ANA), com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e de órgãos estaduais de recursos hídricos, mostra que dos 1.988 pontos monitorados em 2010, em áreas urbanas e rurais, 75% tinham condição boa de Índice de Qualidade de Água (IQA); 6%, excelente; 12%, regular; e 7%, ruim ou péssima.

Alguns dos mais importantes rios que cortam a Bahia, como o São Francisco, Grande, Corrente, Formoso, Itapicuru-Açu, Itapicuru-Mirim, Arrojado e do Meio, são monitorados por técnicos especializados que trabalham em uma sala localizada na sede do Inema, em Monte Serrat. A Bahia foi o sétimo estado a inaugurar uma sala exclusiva para o monitoramento - os outros são Alagoas, Goiás, Paraíba, Pernambuco, Roraima e Sergipe. Faz parte do Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais. “Com o cruzamento de informações, a gente sabe com antecedência, por exemplo, as regiões onde podem ocorrer enchentes ou secas”, afirmou o secretário Eugênio Spengler. De acordo com o secretário, para que o estado receba as informações necessárias, 11 plataformas de coleta de dados foram instaladas na sala e outras duas deverão entrar em funcionamento nos próximos meses.

O mesmo levantamento indica que 47% dos 135 pontos monitorados em áreas urbanas apresentam condição péssima ou ruim. “O alto índice é consequência da elevada taxa de urbanização nessas regiões e dos baixos níveis de coleta e tratamento de esgotos domésticos”, disse Eduardo Topázio, coordenador do sistema de monitoramento do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). Segundo a ANA, a maioria (61%) das amostras ruins ou péssimas está concentrada na Região Hidrográfica do Paraná, que compreende Curitiba, São Paulo, Goiânia e Campinas. A falta de infraestrutura das cidades para suportar o crescimento populacional, as atividades agropecuárias e de mineração e os resíduos industriais são, de acordo com especialistas, os maiores vilões para a contaminação da água. De concreto, uma informação: melhorar a qualidade das águas superficiais brasileiras nas próximas décadas requer muito dinheiro. A ANA estima investimentos de R$ 48 bilhões em redes coletoras e em estações de tratamento de esgoto em 52% das cidades brasileiras para proteger os mananciais usados como fonte de capacitação para abastecimento urbano. Na Bahia, Alagoinhas é considerada a cidade com um dos melhores índices do estado. Tanto que tem atraído cada vez mais indústrias para a região. A água do Rio Camarajipe, que passa por vários bairros, como Costa Azul, é considerada péssima

“Os aparelhos possuem sensores de chuva, nível de água e transmitem automaticamente as informações via satélite para os computadores instalados no centro de monitoramento”, disse o secretário. Todas as informações coletadas nos estados são encaminhadas para a ANA, responsável pela adoção de medidas para minimizar eventuais impactos provocados pelas intempéries.

*

Cruzamento de dados

514

pontos em rios e outros corpos d’água são monitorados atualmente

566

pontos serão avaliados até 2015, garante a Secretaria do Meio Ambiente do estado

2,5

milhões de pessoas foram beneficiadas com novas ligações de água

Foto: Antonio Saturnino

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o

A professora da Unifacs Débora Nunes sugeriu que outro critério de avaliação fosse considerado no novo modelo de ICMS: empresas que poluem mais deveriam ter maior tributação de seus produtos. “Não podemos ter a ilusão que com soluções de curtíssimo prazo vamos resolver esses problemas. Vai ser necessário aumentar os impostos e ter pedágios. Ou a vida se torna insustentável”, avalia. Para Georges Humbert, as empresas que buscam práticas sustentáveis é que poderiam ter descontos. “Aquelas que reduzem o impacto ambiental deveriam ter redução de imposto”, defendeu. Humbert citou a Constituição para lembrar que meio ambiente equilibrado é direito de todos e dever do Estado. Já a professora de Ciências Contábeis da Ufba Sônia Gomes falou sobre a adoção do ICMS Ecológico em outros estados. No Paraná, por exemplo, o repasse ao município já acontece desde 1991. Segundo Isaac Edington, presidente do Instituto Ecodesenvolvimento, é preciso repensar a economia de acordo com a ecologia. “E não há mais muito tempo, pois os problemas já estão aparecendo”, lembra. No debate: Sergio Costa, Sônia Gomes, Debora Nunes, Georges Humbert, Isaac Edington e Luiz Petitinga Foto: Arisson Marinho

ICMS Ecológico para a Bahia O ICMS Ecológico é uma das solucões sustentáveis para a Bahia. A proposta foi unanimidade entre todos os especialistas presentes no debate sobre o tema, no Fórum Agenda Bahia 2012. O secretário estadual de Fazenda, Luiz Petitinga, reconheceu a importância de um novo modelo e garantiu, após pergunta do moderador Sergio Costa, diretor de redação do CORREIO, que o governo irá encaminhar à Assembleia Legislativa, até o fim do primeiro semestre de 2013, projeto de lei modificando as regras atuais. Segundo Petitinga, técnicos da Secretaria do Meio Ambiente estão trabalhando na elaboração do projeto. “Vamos modificar o sistema atual de distribuição dos recursos, acrescentando um coeficiente sustentável para balizar todas as nossas ações”, disse. O ICMS Ecológico não é a criação de um novo imposto. A proposta apresentada pelos debatedores é que o modelo atual seja modernizado, incluindo critérios de sustentabilidade para os municípios. Advogado e integrante da Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA), Georges Humbert afirmou que é “direito do cidadão e dever do poder público” a convivência e a implantação de medidas para tornar o meio ambiente mais equilibrado. E foi aplaudido pela plateia.

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Luiz Petitinga explica como será a mudança: “Os estudos estão adiantados. Temos de fazer uma alteração na base atual, que define os repasses com base na área, população e um coeficiente que estabelece um piso mínimo aos municípios”, disse. Segundo o secretário, a proposta a ser encaminhada aos deputados vai acrescentar um item às três variáveis. “Queremos, ao inserir o coeficiente sustentável, estimular as prefeituras a apoiarem ou investirem em projetos de responsabilidade social e ambiental”, afirmou. Ao ouvir os debatedores dizerem que a Bahia está “atrasada” em relação à implantação do ICMS ecológico, o secretário transferiu parte da responsabilidade para a sociedade: “O estado pode muito, mas não pode tudo. A sociedade civil, os empresários e as prefeituras precisam se mobilizar também”. Débora Nunes também defendeu maior participação da sociedade. Para a professora da Unifacs, são os sete bilhões de cidadãos do mundo que têm força para mudar o descaso com a sustentabilidade: “As empresas trabalham com a lógica do lucro. Os políticos trabalham em um curto espaço de tempo. Estas duas lógicas não dialogam com o desastre ambiental que está a caminho”, ressalta. Sônia Gomes explicou que o estado do Paraná foi o primeiro a implantar a tributação diferenciada em 1991. No estado, os municípios que possuem 135


A mudança parte dos cidadãos

Unidades de Conservação (ou seja, áreas de preservação da natureza) recebem 5% a mais do ICMS.

“Vamos ter que mudar o nosso modo de vida”, afirmou a professora da Unifacs Débora Nunes, com pós-doutorado em Extensão Universitária pela Universidade Lumière Lyon II. Essa necessidade vem do padrão insustentável que a humanidade vem impondo aos recursos do planeta, segundo a professora. Para Débora, essa mudança de comportamento está no pleito atual. A professora citou, ainda, medidas como maior tributação dos produtos e cobrança de pedágios, para reduzir o consumo e a poluição.

Isaac Edington, presidente do Instituto Ecodesenvolvimento, acrescentou que o mundo não pode mais pensar o ambiente de forma fragmentada, já que vive-se hoje em escala global. O especialista acredita que são os gestores públicos que devem liderar essas mudanças: “E precisamos começar agora. Não podemos continuar enxugando gelo”.

Piauí inova ao implantar imposto

Foto: Arisson Marinho

Coordenadora do Mestrado em Contabilidade da Faculdade de Ciências Contábeis da Ufba, a professora Sônia Gomes comentou que outros três estados do Nordeste também já implantaram a forma diferenciada de tributação.

A especialista também disse que não espera que as soluções venham dos governos e das empresas. “A única força vem dos cidadãos. São os sete bilhões de habitantes que podem fazer a diferença. As empresas trabalham com a lógica do lucro. Os políticos trabalham em um curto espaço de tempo. Estas duas lógicas não dialogam com o desastre ambiental que está a caminho”, acredita. Débora lembrou dos desastres naturais como a seca na região Amazônica (2010) e o furacão Sandy, que atingiu Nova York no final de outubro de 2012. “A urgência ecológica mostra que não vamos evitar essas catástrofes apostando nos estados”, critica.

“Já há ICMS Ecológico em Pernambuco, Ceará e no Piauí. O Piauí, inclusive, inovou, levando em consideração as três dimensões da sustentabilidade: ecônomica, ambiental e a social”, lembrou Sônia. Porém, a especialista vai além da implantação, dizendo que é necessário que a sociedade acompanhe esse processo e possa observar seu controle. “Temos necessidade de prestar contas para a sociedade desse dinheiro empregado. E, hoje, nenhum município tem essa preocupação”, analisa Sônia.

Indicadores também para educação e saúde Membro da Comissão Ambiental da OAB-BA, Georges Humbert defendeu a implantação de um ICMC não apenas ecológico, mas sustentável, que contemple indicadores ambientais, mas também de educação, saúde e habitação. “O governo precisa criar as condições para o projeto ser votado e aprovado na Assembleia Legislativa”, afirmou o advogado.

Além da avaliação de todo o processo, a professora também fez uma ponderação sobre a necessidade de uma liderança para implantar o ICMS Ecológico na Bahia. “É preciso que o Estado trabalhe como regulamentador e indutor do desenvolvimento sustentável”, sugere.

Foto: Arisson Marinho

De acordo com ele, a criação de um novo modelo de ICMS passa, necessariamente, pela mudança no atual sistema de distribuição dos recursos aos municípios. “Hoje, os critérios para o repasse são o número de habitantes, a área das cidades e um coeficiente que estabelece o valor do piso mínimo. Essas três variáveis podem ser mantidas, sem problemas. Agora, é preciso acrescentar uma outra, o coeficiente sustentável”, sugeriu. Para o advogado, as empresas que incentivarem práticas ambientais devem pagar menos impostos. “Quem gasta menos água e energia, quem não polui e apresenta soluções criativas para preservar o meio ambiente, deve mesmo ser beneficiado”, argumentou. “Parabenizo o governo pela iniciativa e acho que os deputados têm a obrigação de aprovar o projeto”, disse o advogado, após o secretário Luiz Petitinga anunciar, no Agenda Bahia, a implementação do ICMS Ecológico na Bahia.

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Novos critérios de avaliação Até o final do primeiro semestre do ano que vem, o governador Jaques Wagner irá encaminhar, para os 63 deputados que compõem a Assembleia Legislativa da Bahia, o novo projeto de ICMS do estado. O anúncio foi feito pelo secretário estadual da Fazenda, Luiz Petitinga, que defendeu um modelo com critérios sustentáveis.

Foto: Arisson Marinho

Segundo Petitinga, os técnicos que trabalham na elaboração do projeto analisaram experiências positivas realizadas em diversas cidades do Brasil e do mundo. “Vamos mudar a legislação e apresentar aos deputados um projeto moderno, que ofereça todas as condições para as prefeituras trabalharem dentro de uma nova realidade e que estimule o desenvolvimento sustentável”, explicou. Petitinga disse também que não está preocupado com o fato de outros estados terem implantado o ICMS ecológico à frente da Bahia. “O importante é que estamos conscientes da nossa responsabilidade perante a sociedade”, avalia. Para o secretário, o novo modelo não deve ser apenas compensatório, mas ‘pró-ativo’, incorporando responsabilidade sustentável, como tratamento e coleta de lixo, e avaliando o desempenho dos municípios.

Imposto para preservação ambiental O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) Ecológico ainda não é realidade na Bahia, mas já ganha simpatia dos novos prefeitos e especialistas. Hoje, do imposto já arrecadado pelo estado, 75% fica com o governo e 25% é repassado aos municípios. Nesse bolo de 25%, o estado tem autonomia para destinar um quarto dos recursos para os municípios, de acordo com critérios próprios. É essa fatia que o governo baiano pretende utilizar para premiar aqueles que desenvolvem projetos ambientalmente corretos, repassando-lhes um maior volume de recursos. O secretário do Meio Ambiente do governo da Bahia, Eugênio Spengler, não nega: o estado tem um passivo histórico por ainda não ter regulamentado essa questão. Apenas 10 estados em todo o país ainda não trabalham com o chamado ICMS Verde ou Ecológico. Spengler disse que já existe uma proposta na secretaria, mas ainda vão juntar com as propostas apresentadas pela Secretaria da Fazenda para, a partir daí, formular um projeto de lei. Durante o seminário Agenda Bahia, o secretário da Fazenda, Luiz Alberto Petitinga, prometeu que até o primeiro semestre de 2013 o projeto de lei será apresentado pelo governo à Assembleia Legislativa. “Ainda não temos percentuais definidos, mas acredito que os principais critérios devem ser a manutenção das unidades de conservação ambiental e o tratamento dos resíduos sólidos”, opinou Spengler. Por exemplo, se um

Urgência com o meio ambiente

O ICMS ECOLÓGICO NO BRASIL

Algumas cidades fizeram do cuidado com o meio ambiente um negócio. Segundo Isaac Edington, do Instituto Ecodesenvolvimento, Nova York, nos EUA, por exemplo, cuida dos seus remanescentes de água há mais de 30 anos. “Hoje, Nova York tem água porque cuidou dessa questão há 30 anos. Foi feita toda uma engenharia, onde fazendeiros recebem remunerações para cuidar dos rios. Se não fosse feito isso, poderia ser um deserto”, alertou. O especialista acredita que apenas com o esforço e engajamento dos gestores públicos será possível liderar este processo. Foto: Arisson Marinho

Edington também falou sobre a urgência de resolver esses problemas ambientais e reclamou: “Não podemos continuar enxugando gelo”, disse. Para ele, não é possível mais pensar em coisas fragmentadas e sim em operações de larga escala. Não possui ICMS-E

Outro exemplo citado foi o do Japão, que com tantas catástrofes tem uma capacidade ímpar de recuperação. “A alta educação do japonês infere em todas as áreas. E isso faz os processos andarem mais rápido”.

Possui ICMS-E

FONTE: WWW.ICMSECOLOGICO.COM.BR

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EDITORIA DE ARTE/CORREIO

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determinado município tem um parque, ele pode ser beneficiado com 5% a mais de ICMS por ter essa área preservada. Os prefeitos ouvidos pelo CORREIO ainda não tinham informações sobre o assunto. Porém, todos receberam a proposta com ânimo. João Bosco (PT), prefeito eleito de Teixeira de Freitas, afirmou que o principal problema para enfrentar, além das questões ambientais, é a falta de recursos e que toda possibilidade de aumentar o caixa é bem-vinda. “E não adianta fazer investimentos se não temos consciência. Temos que investir também na educação ambiental”, ressalta João Bosco. Outro prefeito que também recebeu bem a proposta foi Sargento Francisco (PMDB), eleito em Candeias. Para ele, os municípios baianos ainda não estão devidamente preparados para tratar as questões ambientais. “Nós queremos trazer uma cooperativa para tratar o lixo reciclável aqui dentro de Candeias. O lixo é dinheiro”, diz. Já Reinan Oliveira Santos (PT), prefeito eleito do município de Canarana, diz que a cidade já sofre com os efeitos do descaso ambiental e também vê a estratégia do ICMS Ecológico com bons olhos. “Aqui, o uso indiscriminado da água já fez o nosso Rio Jacaré secar. É preciso controlar todas essas situações contra a natureza.” Flávio Ojidos, advogado e consultor jurídico da Fundação TNC para o site ICMS Ecológico, diz que percebeu uma pressão da sociedade civil para a implantação do ICMS Ecológico quando esteve fazendo estudos na Bahia em 2009. Ele ressaltou, porém, que, na época, o governo não estava alinhado com esse tipo de política ambiental. Segundo Ojidos, o processo de implantação desse benefício leva em torno de dois anos. “No Rio de Janeiro, por exemplo, em 2007 a lei foi aprovada. O ano de 2008 serviu de ano base para calcular os repasses e, em 2009, os municípios já começaram a receber”. Um bom exemplo de como a política pode incentivar toda a população vem de São Gonçalo do Rio, em Minas Gerais. Lá, através do projeto Cercar para Não Secar, a prefeitura remunera os produtores rurais que protegem as nascentes dos rios. No total, são beneficiados 78 produtores pelo cercamento de 244 nascentes que terão plantadas mudas de espécies nativas em seu entorno.

COMO FUNCIONA O ICMS ECOLÓGICO

Bahia

75% 25% 25% é destinado

O ICMS é o Imposto de Circulação Sobre Mercadorias e Serviços. Do total, 75% fica com o estado

aos municípios. Desses, três quartos devem ter a distribuição de acordo com o valor percentual com que cada município contribuiu

¼ Outra fatia de um quarto tem destinação determinada pelo estado. É daí que sairia o ICMS Ecológico, sem que fosse criado um novo imposto

Cidades devem se preparar para mudança climática A ausência de um planejamento nas cidades baianas para enfrentar as mudanças climáticas gerou discussão no Fórum Agenda Bahia sobre a necessidade de se planejar para essas transformações. Em alerta feito pelo ambientalista e economista Sérgio Besserman, as cidades devem se preparar para a elevação nos níveis do mar, mudanças no regime de chuvas e até aumento de temperatura nas próximas décadas. “O Rio de Janeiro já deu início a uma série de mudanças, como obras de saneamento e reforma do porto pensando na elevação da água do mar em até 1 metro”, disse. O secretário estadual de Meio Ambiente, Eugênio Spengler, alertou para a necessidade de um futuro equilibrado com soluções para questões básicas no presente, como garantir o acesso à água para toda população. Spengler disse ainda que foram encomendados estudos para avaliar a situação atual das bacias hidrográficas da Bahia. “Atualmente, nenhuma bacia tem um plano elaborado. Esperamos até 2014 lançar 14 planos que vão facilitar a gestão do uso da água no estado”, afirmou.

O valor investido foi de R$ 300 mil provenientes do ICMS Ecológico e do Fundo de Gestão Ambiental do município. “Pode parecer pouco para alguns, mas para pequenas cidades R$ 300 mil faz toda a diferença”, salientou.

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O preço da água

O ranking de uso da água no país No Brasil, as empresas retiram da natureza 1.841,5 m³/s de água. A distribuição é a seguinte:

Irrigação

47%

Infográfico: O preço da água

26%

Usos distintos, taxas diferentes A agricultura é considerada atividade essencial. Por essa razão, tem tratamento diferenciado, ao contrário de setores como a indústria, especialmente a mineração.

40

20 10

17%

População rural

Uso animal

8%

2%

Domicílios particulares abastecidos por rede de água (%) 100 90

50

30

Indústria

Em geral, a indústria que capta mais de 1 litro/segundo paga R$ 0,02 por m³ (1.000 litros)

0

O empreendimento agrícola que utiliza mais de 1 litro/ segundo paga R$ 0,02 por 40 m³ (40 mil litros)

80 70 60 2001 BR

2006 NO

BA

2011 RMS

Fonte: IBGE/Pnad: Elaboração Fieb

Como funciona a cobrança de uso da água A taxa cobrada pelo uso da água que recai sobre grandes consumidores do agronegócio e da indústria é definida pelo Comitê Gestor da Bacia do São Francisco, com apoio técnico da Agência Nacional de Águas. Veja algumas das características do tributo:

Em 2011, o valor arrecadado pela cobrança de uso da água alcançou R$ 131 milhões nas 21 bacias hidrográficas

A cobrança é anual e o valor dividido em 12 parcelas Não é uma tarifa, pois não está atrelada à prestação de qualquer serviço público

Os recursos arrecadados pela cobrança do uso da água são, em tese, direcionados à recuperação dos rios que formam a bacia, mas não há um acompanhamento sistemático disso

São considerados serviços de recuperação o tratamento de esgotos, sistema de abastecimento de água, educação ambiental, tratamento de resíduos sólidos e reflorestamento

O que influi no valor da taxa da água Para chegar aos valores, o comitê gestor da bacia leva em conta os seguintes fatores:

Se a água usada é devolvida ou não ao meio ambiente, para reaproveitamento

O grau de deterioração dos rios que compõem a bacia hidrográfica

O retorno financeiro gerado pelo uso da água no negócio

O estado em que a água é devolvida, se poluída ou tratada adequadamente

Capacidade de pagamento do usuário

A importância da atividade econômica para a sociedade Fonte: Fieb Arte: Bamboo editora

Textos: SCI FIEB | Ilustrações: Bamboo Editora

Cobrar pelo uso da água e não apenas pelo serviço de distribuição, conforme previsto na Lei nº 9.433/97, é apontado como meio de valorizar seu uso e evitar desperdícios. Mas o impacto dessa medida preocupa os setores produtivos, especialmente a indústria e o agronegócio. A Lei nº 9.433/97 já é aplicada em 21 bacias do país, quatro interestaduais e 17 estaduais, dentre as quais a do Rio São Francisco, cujas águas servem para irrigar terras do agronegócio em 144 municípios na Bahia.

Sistemas de abastecimento urbano


O CAMINHO DOS RIOS

Saiba como está a situação dos principais rios da cidade. E por que a qualidade de suas águas é tão importante também para o banho de praia

Água suja que vai morrer na praia

“Esta é uma forma perversa da cidade cuidar de suas águas” MARIA ELISABETE SANTOS, uma das organizadoras do livro O Caminho das Águas em Salvador

O Rio das Tripas corre a cidade pelo subterrâneo, da hora que nasce, na Barroquinha, até desaguar no igualmente poluído rio Camurujipe, na altura da Rótula do Abacaxi. O apelido foi dado porque ficava ao lado do antigo matadouro da cidade e, a contragosto, recebia as carcaças e vísceras dos animais abatidos. Fedia tanto que há quase 200 anos foi canalizado para dar lugar à Baixa dos Sapateiros. Até hoje, quando resolve dar lembrança, na época das cheias da chuva, é possível sentir o mau cheiro.

PRAIAS

Farol da Barra arra

Rio Vermelho

Jardim de Alah

Localização: A Bacia do Lucaia tem sua nascente em uma das encostas da Avenida Joana Angélica. Verte para o Dique do Tororó e corre até ser completamente tapado pelo canteiro central da avenida Vasco da Gama e deságua no Largo da Mariquita, no Rio Vermelho

O destino do Rio das Tripas é o mesmo de boa parte dos rios de Salvador. Como em muitas metrópoles, os rios da capital baiana foram contaminados e poluídos em função do crescimento desordenado e do processo de industrialização cada vez mais acentuado. Ligações clandestinas de esgoto e lixo são os grandes vilões. Sem condições de uso por conta do grau elevado de poluição, os rios foram sendo transformados em canais para o escoamento do esgoto da cidade.

Boca do Rio Localização: É formado pelos rios Cascão, Saboeiro, Cachoeirinha e pelo Rio Pituaçu. Nasce nos fundos do 19º BC, entre o Pernambués e o Saboeiro. Corta a Paralela na altura do Imbuí. É um rio pequeno e recebe esse nome na passagem pelo bairro da Boca do Rio, onde deságua

Situação (poluído): Tem suas margens assoreadas e sua água recebe classificação de péssima em função da poluição, do esgoto ilegal e do lixo

Situação (poluído): Suas águas apresentam trechos de boa qualidade, porém, em função das descargas de esgotos de ligações ilegais, é considerado poluído

“Esta é uma forma perversa da cidade cuidar de suas águas, sejam elas vindas do rio, chuva ou do mar”, defende a socióloga Maria Elisabete Santos. A pesquisadora é uma das organizadoras do livro O Caminho das Águas em Salvador, com levantamento histórico de como a cidade passou a tratar os rios como um obstáculo ao seu crescimento. Em Salvador, a falta de preocupação ambiental tornou popular obras de canalização dos rios, como as executadas na Avenida Centenário, quando foi tapado oRio dos Seixos, e a atual obra no Rio Lucaia, na avenida Vasco da Gama, ambas em Salvador. “É preciso acabar com essa ideia de que ali passa um canal de esgoto. Não, passa um rio vivo. O fato de encapsular o rio pode fazer parecer que se está resolvendo o problema, mas está apenas tirando de vista da população. Esse esgoto vai correr, mesmo debaixo da terra, e vai chegar em alguma praia da orla da cidade”, afirma o pesquisador e engenheiro ambiental Luis Roberto Moraes. A solução nem precisa vir do outro lado do globo, como Seul, na Coreia do Sul, onde pontes e estradas foram inteiramente destruídas para fazer brotar de novo o córrego Cheong-Gye, que era canalizado. “No futuro, nossos netos e filhos vão fazer o mesmo. Irão gastar bilhões para destamparem os rios”, prevê Moraes. Mais para cá do oriente, cidades como Londres e São Paulo têm demonstrado que a revitalização dos rios exige menos investimento do que boa vontade. Na capital inglesa, o rio Tâmisa foi completamente despoluído. Já o rio paulista segue em um intenso processo de limpeza. Estações de

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Localização: Corta os tradicionais bairros do Canela, Barra e Graça. O Rio dos Seixos, cujo nome significa ‘pedras roladas’, nasce no Vale do Canela e na Fonte Nossa Senhora da Graça (construída, segundo historiadores, por Caramuru para a índia Catarina Paraguaçu). Corre pela Avenida Centenário, quando foi tapado por obras da prefeitura em 2008, até desaguar próximo ao Morro do Cristo, na praia do Farol da Barra Situação (poluído): Recebe o lixo jogado, o esgoto ilegal e água da chuva que escorre de hospitais, do Cemitério do Campo Santo e das casas vizinhas. É considerado poluído já que apresenta taxas de coliformes superiores aos aceitáveis pelo Índice de Qualidade das Águas do Inema

Nascente: Extensão:

Localização: Recebe o nome em razão de uma planta, Camará, de frutos vermelhos. Percorre região ocupada por população situada nas menores faixas de renda. Nasce perto de Pirajá, nos bairros de Marechal Rondon, Boa Vista de São Caetano, Calabetão e Mata Escura. Antes desaguava no Rio Vermelho, mas foi desviado em função dos alagamentos que provocava, e hoje deságua entre o Jardim dos Namorados e a praia de Jardim de Alah Situação (poluído): É o rio mais poluído dentro da capital

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“É importante fazer a ligação com a rede de esgoto para a saúde dos rios e a qualidade de vida da população”

Rios recebem lixo jogado por moradores Em torno de 35% do lixo dos rios é jogado diretamente pela população da cidade. A prova disso pode ser vista durante a observação da passagem do rio Camarajipe pela frente do Terminal Rodoviário de Salvador. Embalagens de salgadinho, sacos plásticos, potes de iogurte e muitos fios de cabelo lisos e crespos descem unidos junto com a água escura. Parte do lixo fica agarrada à vegetação das margens enquanto a outra parte evolui descendo o rio até chegar ao mar na altura do Costa Azul.

CANTÍDIO DUARTE, superintendente de Esgotamento Sanitário da Embasa

Receptor dos esgotos sanitários de parte das casas dos bairros vizinhos, o rio Camarajipe apresenta um dos piores índices de poluição.

tratamento foram instaladas e, atualmente, 82% do esgoto doméstico de São Paulo, que antes era despejado no rio, hoje é coletado por tubos. Apesar disso, apenas 290 quilômetros após passar pela capital paulista, o Tietê corre limpo outra vez. O Rio de Janeiro corre contra o tempo para purificar a poluída água da Baía de Guanabara. Com aa Olimpíadas de 2016, o estado terá de purificar a baía para as competições de vela. O projeto de limpeza, que já gastou mais de R$ 1 bilhão, vem se arrastando desde a Eco-92. A importância de preservar a saúde dos rios e de cuidar da rede de esgoto tem seus afluentes na economia. “As empresas hoje estão preocupadas em cuidar dos seus afluentes e querem saber, antes de se instalar, o que será feito do lixo que elas produzem. Nesse sentido, ter uma rede de esgoto que proteja os mananciais de água é determinante para o fechamento de um negócio”, explica o presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Luiz Caetano, prefeito de Camaçari até 2012. O município recebeu R$ 163 milhões para recuperação da Bacia do Rio Camaçari, como parte da segunda etapa do Programa de Acelaração do Crescimento (PAC). O maior problema para a preservação dos rios, porém, ainda margeia a falta de educação ambiental da população. Salvador conta hoje com 83% de cobertura de rede de esgoto, os 17% restante são ligações clandestinas que vão parar nos rios e nas praias da cidade. “Nem todo mundo entende a importância de se ligar à rede coletora de esgoto para a saúde dos rios e da qualidade de vida”, alerta o superintendente de Esgotamento Sanitário da Embasa, Cantídio Duarte.

Os rios menos poluídos são Cobre e Ipitanga, esse último, afluente do rio Joanes, um dos abastecedores da água potável que será consumida pelos habitantes da capital. O motivo? Estão mais afastados do bolo de gente do centro da cidade e, por isso, mais intactos.

O IMPACTO DA POLUIÇÃO Os rios nascem limpos, mas a depender da rede de esgoto clandestina e da quantidade de lixo recebida ao longo de seu curso podem demorar até 290 km para que suas águas sejam renovadas. Confira a história de três deles: REGENERAÇÃO RÁPIDA

POLUÍDO ATÉ O MAR

290 KM ATÉ SE LIMPAR

O rio Imbassahy nasce limpo, mas ao passar pelos centros urbanos (povoados, vilas) tem as águas comprometidas pelo esgoto. Em um dos pontos de coleta, o rio é considerado poluído pelo Inema. Em outro ponto de coleta, 7km à frente, o rio já está limpo e deságua na praia, que tem boa qualidade, segundo o Inema

O mesmo não acontece com o rio Joanes. Nasce limpo, e em alguns trechos ao longo do percurso tem boa qualidade pelo Inema. Mas, ao passar pelos condomínios e resorts de Lauro de Freitas, é poluído pelo esgoto. O encontro do rio Joanes com a praia, em Buraquinho, é poluído e considerado impróprio para banho pelo Inema, apesar de ser tão frequentado. Os próprios comerciantes retiram a placa do Inema para não afastar os banhistas

O rio Tietê nasce em Salesópolis, no interior, e tem 1 010 km de extensão. Ele corre limpo por cerca de 100 km, até começar a receber os esgotos das cidades por onde passa, como a capital paulista, e também de rios poluídos, como o Pinheiros. O rio Tietê chega limpo a Barra Bonita, a 290 km de São Paulo, onde vira ponto turístico. Ele continua limpo até desaguar no rio Paraná após percorrer 66 municípios. Porém, ao longo do curso, é possível constatar a presença de cobre e de zinco em concentrações maiores do que o índice de contaminação

O RIO TIETÊ LIMPO POR CERCA DE 100

PASSA CERCA DE 620 KM RECEBENDO ESGOTOS E RIO POLUÍDOS

A 290 KM DE SÃO PAULO, ONDE VIRA PONTO TURÍSTICO DESAGUAR NO RIO PARANÁ

0

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EXTENSÃO

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Plástico mais verde

Rio Tâmisa: de poluído a uma das joias da Rainha O Rio Tâmisa, em Londres, já foi chamado carinhosamente de ‘Grande Fedor’. No Verão de 1858 - dez anos depois do início da canalização do Rio das Tripas, na Barroquinha -, o mau cheiro vindo do Tâmisa era tão forte que as sessões do Parlamento inglês tiveram que ser encerradas. Desvio do curso do esgoto que antes era jogado nele e instalação de estações de tratamento transformaram o rio em uma das muitas joias da Rainha da Inglaterra. Quando a tocha olímpica cruzou o Tâmisa para dar início às Olimpíadas de Londres, em julho, ele já era um rio limpo.

Depois de se tornar a maior produtora mundial de biopolímeros renováveis com o polietileno verde, a Braskem se prepara para produzir polipropileno também a partir do eteno originário da cana-de-açúcar. Segundo o diretor de Desenvolvimento Sustentável da empresa, Jorge Soto, a tecnologia já foi desenvolvida e a Braskem está analisando o momento certo para o investimento, estimado em US$ 100 milhões. A resina é utilizada na fabricação de embalagens, peças para automóveis, filmes e uma gama de outros produtos.

Para reduzir a poluição dos rios e mares em Salvador, o esgoto é levado até as estações de tratamento pela rede coletora e, em seguida, lançado no mar a 2.350 metros da costa, através do emissário submarino do Rio Vermelho, ou disperso a 45 metros de profundidade pelo emissário do Costa Azul.

“Nossa estratégia é ter operações, produtos e soluções para uma vida cada vez mais sustentável”, afirmou, em palestra Água como Valor Estratégico: Caso Braskem, no segundo seminário do Agenda Bahia 2012. A visão traçada pela companhia para o horizonte de 2020 é se transformar em líder global da química sustentável, consolidando o seu selo ‘I’m green’ em todas as partes do mundo. Doutor em Planejamento Ambiental pela Coppe/UFRJ, Soto observou que, com tecnologia e inovação, é perfeitamente viável contribuir de forma relevante para uma vida sustentável, considerando que a indústria química está no início de 95% dos produtos consumidos por todas as pessoas. Diante da magnitude da questão ambiental, o diretor da empresa salientou que a responsabilidade pelo enfrentamento dos problemas deve ser compartilhada entre governos e organizações intergovernamentais, organizações privadas e sociedade civil.

Desafio Jorge Soto afirmou que a meta da Braskem é tornar-se líder global da química sustentável até 2020, colocando no mercado mundial uma gama cada vez maior de produtos verdes O objetivo da companhia é oferecer às pessoas soluções para uma vida mais sustentável

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Quanto à Braskem, o executivo destacou que a ação da empresa se apoia em três pilares: entender a relevância do problema; enxergar-se como parte da solução e focar a melhoria na gestão operacional e estratégica do negócio, mirando o lucro sustentável. “Sustentabilidade para nós é uma forma de fazer negócio, com uma visão de longo prazo. Criamos instrumentos para que isso seja possível”, afirmou, salientando que os acionistas da companhia Organização Odebrecht e Braskem - firmaram um acordo em torno da atuação com sustentabilidade, até como forma de assegurar a competitividade no futuro. Nesse acordo, a gestão dos recursos hídricos é considerada de importância fundamental. A estratégia da empresa, entre outros pontos, passa pela adoção das mais modernas tecnologias de reuso da água, com ênfase na água resultante de esgotos tratados e também de chuva, para consumo em suas plantas industriais. 149


Solução Ter operações, produtos e soluções cada vez mais sustentáveis, investindo em tecnologia para dar saltos de melhoria Encarar a sustentabilidade como uma forma de fazer negócios com uma visão de longo prazo e tornando isso viável

No ABC paulista, a empresa já começa a economizar o equivalente ao consumo de uma cidade com 300 mil habitantes, no polo petroquímico local, através do Projeto Aquapolo. Parceria entre a Foz do Brasil - empresa de engenharia ambiental da Odebrecht, controladora da Braskem – e a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp), o Aquapolo vai fornecer água de esgotos tratados a uma vazão de 650 litros por segundo, para utilização industrial. A Braskem será o principal cliente do Aquapolo, com consumo de 65% do total de água produzida, à vazão de 650 litros por segundo. Projeto similar está sendo desenvolvido no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), no qual a Odebrecht/Braskem participa em sociedade com a Petrobras. O empreendimento é o maior do mundo em sua modalidade e terá capacidade equivalente ao consumo de 750 mil pessoas, devendo entrar em operação em 2015. O executivo disse que a prioridade da Braskem, no que se refere à gestão dos recursos hídricos, é reduzir o consumo de água e a produção de efluentes, identificando novas fontes sustentáveis – o caso da água de reuso. Dentro de três anos, as fábricas da Braskem estarão economizando um volume de água suficiente para abastecer uma metrópole de pouco mais de 1,1 milhão de habitantes, graças à substituição da água potável em seus processos industriais pela água resultante do tratamento de esgotos.

Segundo Jorge Soto, em três anos a Braskem economizará água suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes Foto: Evandro Veiga

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Na mesma linha do reaproveitamento de água de esgotos está em andamento o projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), no qual a Odebrecht é sócia da Petrobras. O empreendimento terá capacidade equivalente ao consumo de 750 mil pessoas. Em Camaçari, entrará em funcionamento, ainda este ano, a primeira fase do projeto de recuperação da água de chuva na bacia de contenção do Polo. A cargo da Cetrel, controlada pela Braskem, o projeto deve captar 500 metros cúbicos de água de chuva por segundo - consumo de uma cidade de 60 mil habitantes, um terço do que é absorvido por uma planta da companhia. O plano é aumentar em 12% o reuso de água até 2014.

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Diferencial na governança

Acordo

Visão

Odebrecht e Petrobras, acionistas da Braskem, fizeram um acordo para atuar com sustentabilidade, com vistas a atender melhor o mercado

A Braskem, que já é líder em biopolímeros, pode se tornar líder global da química sustentável até 2020

Oportunidade

Mais verde

A sustentabilidade pode ser uma ameaça ou oportunidade; no segundo caso, deve ser vista como geradora de soluções, tecnologia e produtos

Dona da tecnologia do polietileno a partir da cana, a empresa está pronta para produzir polipropileno verde, o segundo plástico mais usado no mundo

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“Em torno de 15% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis”

Oportunidade de negócio Entrevista com Jorge Soto Sob a batuta do diretor de Desenvolvimento Sustentável, Jorge Soto, a Braskem segue firme no planejamento de estratégias e confecção de produtos sustentáveis. O portfólio da empresa inclui o polietileno, o plástico verde, o PVC para substituir materiais tradicionais na construção civil e no mobiliário urbano e residencial. A Braskem projeta para 2012 o “maior projeto de aproveitamento de águas na indústria”. Soto diz que empresas devem integrar ações sustentáveis ao seu planejamento e oferecer novos produtos e serviços para a sociedade. Como o senhor classificaria a adoção de práticas sustentáveis, como o reaproveitamento da água, pelas empresas? Como está a Braskem nesse processo? Diria que passamos da fase negativa, quando as questões ambientais eram adotadas por imposição de lei. Essa etapa, todas as grandes empresas já passaram. A próxima seria tentar adotar ações sustentáveis a custos mínimos. Muitas empresas estão nessa fase, de adotar soluções ambientais e sociais que não geram muito custo, porque não entendem que devem ir além disso. Algumas empresas, porém, estão em uma terceira fase, que chamo de integrada, porque não veem a questão com o olhar da ameaça, mas como uma oportunidade de negócio, que vai além da reação.

na capacidade de tratamento, que não é coisa pequena. E isso é porque, de fato, há uma consciência interna. O brasileiro pensa de forma sustentável? Estima-se que algo em torno de 15% dos consumidores brasileiros estão dispostos a pagar um pouco mais por produtos sustentáveis. Alguns falam até em números maiores, mas eu não acredito. Se você for observar é algo em torno de 30 milhões de pessoas, o dobro da população chilena. Não é pouca gente. Os consumidores estão começando a se envolver mais, e muitas ferramentas estão sendo desenvolvidas para que essas questões sejam mais atrativas. Um exemplo é o selo Procel, que orienta os consumidores na hora da compra sobre a eficiência energética do produto, ou selos verdes para prédios, escritórios. A Braskem faz estudos de ciclo de vida, por exemplo, porque entendemos que ele leva informações aos consumidores. Acho que essa participação já é em nível cada vez mais complexo. Qual o grande legado deixado após as discussões sobre sustentabilidade na Rio+20? O grande legado da Rio+20 é que as empresas passam a ser vistas como parte da solução dos problemas. Muitas já dão exemplos de que isso é possível, a sociedade se movimentou, as próprias empresas se movimentaram nesse sentido. Muitos acordos foram assinados, compromissos de continuar evoluindo não só nas questões ambientais e sociais, mas também na questão de educação mesmo.

Elas integram essas ações sustentáveis nas estratégias de negócios, pensando em oferecer soluções para a sociedade, novos produtos, novos serviços. Nessa fase, são poucas as empresas que chegaram lá. Felizmente, trabalho em uma que dá passos concretos nesse sentido, que busca integração na hora de desenvolver ideias. Há ainda uma última fase, na qual o lucro seria apenas para ampliar o trabalho socioambiental desenvolvido por essas empresas. A Braskem estabelece como meta virar líder em ações sustentáveis até 2020. De que forma essas iniciativas podem acelerar as ações dessa natureza em outras esferas da sociedade? Essa visão é consequência e depois passa a ser causa. Consequência da evolução de discussões internas a partir de iniciativas concretas. Não colocaríamos uma meta tão audaciosa se não tivesse sido amadurecida internamente, e esse amadurecimento vem da experiência. E ela passa a ser causa, movimento que permite definir metas específicas, cobrar. Eu diria que hoje todas as unidades têm estabelecido metas socioambientais. O projeto de reuso da água no Polo de Camaçari, na Bahia, é um investimento 152

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atualmente empregado na Braskem, que incluem captação nos reservatórios do Rio Joanes e da Adutora Santa Helena da água bruta. Em seguida, é clarificada, filtrada e inserida em um sistema de cloração para ser utilizada nas torres. “Uma grande parte, em torno de 40% da água atual, vai ser substituída por essa água reaproveitada pelo sistema de reuso”, explica o engenheiro.

Programa vai reaproveitar de 500 mil a 800 mil litros de água por hora Foto: Divulgação

Após adotar o reuso, a Braskem já conseguiu obter 18% de reaproveitamento da água só no ano passado. A meta é de que, até 2015, a fábrica consiga aumentar esse valor para 23%. Além de reduzir o consumo, a medida faz com que menos água seja retirada dos rios e poços da bacia de Camaçari.

Uma Camaçari de economia O setor industrial tem empregado cada vez mais soluções sustentáveis para fazer melhor uso dos recursos ambientais e reduzir custos em seus processos de produção. No Polo Petroquímico de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, um projeto desenvolvido em parceria entre a Braskem e a Central de Tratamento de Efluentes Líquidos (Cetrel) promete ser “a maior obra de aproveitamento de águas na indústria”, segundo o coordenador de Meio Ambiente da Braskem, Sérgio Hortélio. O programa conta com um sistema de reuso e reciclo de água industrial e águas de drenagem de chuva do Polo, que atualmente são destinadas para tratamento na Cetrel e depois dispersas pelo emissário submarino. Uma vez tratado, esse efluente será reutilizado nas torres de resfriamento da Braskem, que reduzem a temperatura da água utilizada no processamento de produtos petroquímicos. Em torno de 500 mil a 800 mil litros de água serão economizados por hora, o suficiente para abastecer uma cidade do porte de Camaçari - ou seja, quatro bilhões de litros anuais. Aproximadamente R$ 19 milhões foram investidos em tubulação, equipamentos e obras realizadas no Polo. O projeto inclui ainda a adequação das barragens da Bacia de Continência do Complexo Básico para acumular melhor a água de chuva e diluir os resíduos resultantes dos processos químicos. “O investimento é muito mais pelo conceito de sustentabilidade e há também uma redução no custo com energia elétrica e tratamento químico”, explica o coordenador do projeto. Em torno de 25% da água reaproveitada nessa fase do projeto será utilizada nas torres de resfriamento. O reuso vai facilitar as etapas do processo

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“Às vezes, basta mudar o viés, tirar da esfera econômica e colocar na cesta sustentável”, cita o coordenador. Ele aponta como exemplo o sistema que, desde junho de 2011, faz a captação e o reaproveitamento da água da chuva no estacionamento da Unidade de Petroquímicos Básicos. “Esse sistema reduz a água bruta que é captada do Rio Joanes e da adutora”, explica Hortélio. Uma economia de 8 mil a 10 mil litros de água por hora, o equivalente a oito milhões de litros por ano. O número é suficiente para abastecer uma vila com 1.600 moradores. O investimento foi de R$ 190 mil. Os projetos foram pensados em parceria com pesquisadores da Rede de Tecnologias Limpas e Minimização de Resíduos (TecLim) da Universidade Federal da Bahia. O programa de sustentabilidade utilizado pela Braskem, no qual está inserido o sistema de reaproveitamento de água, faz parte da meta da petroquímica de se tornar a líder mundial em ações sustentáveis no mundo. “O sucesso de uma ideia depende de muito trabalho para viabilizá-la”, diz Hortélio. Ele cita a importância das indústrias manterem um programa de pesquisa e desenvolvimento de ideias. “Quando se começa a desenvolver um projeto e depois se pensa uma base de execução há um caminho longo e tortuoso. Esse projeto, por exemplo, de reaproveitar as águas do Polo de Camaçari, levou 3 ou 4 anos para ser desenvolvido. Há muita persistência e ajuste para o projeto chegar ao modelo final e ser tecnicamente e economicamente viável”, diz. Ainda para garantir o melhor uso das águas, em 2009, R$ 22 milhões foram investidos na construção da Adutora Santa Helena, em parceria com a Embasa, que garante o abastecimento de água da Barragem Santa Helena para todo o Polo de Camaçari durante a época de estiagem. O transporte da água é feito a partir de um manancial pouco influenciado pelas condições climáticas, o que garante a continuidade das operações industriais durante todo o ano, além de deixar disponível para Salvador a água que anteriormente abastecia também o Polo.

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Os projetos encabeçados pela Braskem, além de reduzir custos, têm se destacado entre as empresas que empregam as melhores práticas sustentáveis. Além dos programas para redução no volume de água consumido, o sistema projetado para reduzir as emissões atmosféricas nos processos da indústria, entre elas os responsáveis pelo efeito estufa, recebeu o primeiro lugar na categoria Produção mais Limpa, no 10º Prêmio Federação das Indústrias da Bahia de Desempenho Ambiental. O projeto também foi destaque na décima edição do prêmio Dia Benchmarking, Compartilhar para Crescer, em 2012.

Armando Trípodi: prédio da Petrobras vai reaproveitar até o pingo do aparelho de ar-condicionado Foto: Arisson Marinho

O programa estabelece prazos para redução nas emissões de gases resultantes dos processamentos. O resultado obtido foi a redução de 22% na emissão de gases do efeito estufa para a atmosfera. “Temos algumas iniciativas que exigem investimentos, como a recuperação dos purgadores, que são sistemas que tiram o vapor d’água dos dutos. Se esses canos não são purgados podem causar erosão e furos e assim dispersar gases”, explica Hortélio. “Analisamos a frota de veículos que prestam serviço, tanto a própria quanto a fretada, se precisam de manutenção ou trocar ferramentas”. Ele cita como projeto vender o CO2 como subproduto. “Pode ser usado em fábricas de refrigerantes”, diz.

*

Reuso como prioridade

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milhões de reais é o valor investido para implementar projeto para reuso da água no Polo

18%

da água que a Braskem usa foi reaproveitada em projetos e ações sustentáveis em 2011

25%

da água reaproveitada nessa segunda fase do projeto será utilizada nas torres de resfriamento

2015

é o ano que a Braskem espera aumentar para 23% o percentual de reuso da água da chuva

4

bilhões de litros de água serão economizados após a implantação do plano de reuso da água

2020

é o ano estabelecido pela Braskem para se tornar líder mundial em produtos sustentáveis

Economia gota a gota Lançada há quase um ano, a nova sede da Petrobras na Bahia está sendo construída com base no plano estratégico da empresa, que estabelece o comprometimento com o desenvolvimento sustentável, responsabilidade social e ambiental. “O prédio (Torre da Pituba) terá 100% de reaproveitamento da água, inclusive das gotas que caem do ar-condicionado”, disse o gerente-executivo de Responsabilidade Social da Petrobras, Armando Trípodi, durante palestra para o Agenda Bahia, no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). O edifício, que abrigará as atividades administrativas da empresa, terá muitos dispositivos para atingir a meta de sustentabilidade determinada pela diretoria da Petrobras. Entre os itens do prédio, no Itaigara, estão o isolamento térmico e acústico, vidros com baixas refletividade e emissividade

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“A água é um bem escasso e teremos muitos problemas no futuro se não mudarmos de ideia em relação à utilização do produto”

de calor, sensores para medir a luminosidade externa e painéis solares para iluminação das escadas de segurança e emergência. Em sua palestra, Armando Trípodi explicou que a Petrobras tomou a decisão de investir em sustentabilidade porque a empresa está comprometida com o tema. “Os números mostram que estamos com razão, porque menos de 3% da água do planeta é doce. E, desse total, 2% está sob a forma de gelo. Portanto, todas as iniciativas de racionalização do uso da água são bem-vindas”, afirmou Trípodi, que também é presidente da Rede Brasileira de Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU). O gerente executivo da Petrobras acrescentou que a companhia trabalha no desenvolvimento de pesquisa e tecnologia para atingir uma de suas metas permanentes, que é a utilização sustentável dos recursos hídricos. “O objetivo de nossa unidade móvel experimental em reuso de água é pesquisar, in loco, a melhor alternativa técnico-econômica para o tratamento do produto em nossas unidades”, revelou. Trípodi lembrou uma experiência pioneira da empresa na reutilização de água: “A Refinaria de Capuava é a primeira na América Latina a buscar o descarte zero de efluentes para os corpos hídricos”. De acordo com Trípodi, com essa iniciativa, a refinaria deixou de captar cerca de 1 milhão de m³ de água e de lançar 700 mil m³ de efluente industrial por ano no rio Tamanduateí, em São Paulo. Armando Trípodi disse ainda que a Petrobras está investindo na modernização e ampliação da Refinaria do Vale do Paraíba, uma das regiões mais ricas de São Paulo. As obras vão possibilitar o reuso de água para fins industriais, gerando uma economia anual de até 2,6 milhões de m³. O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) é outro exemplo de sustentabilidade. “Haverá aproveitamento de água de esgoto para uso industrial”, explicou o gerente-executivo da Petrobras. Para Armando Trípodi, os brasileiros ainda não tomaram consciência da importância de preservar água. “Estamos acostumados com a fartura e o preço baixo da água, mas esta mentalidade precisa mudar. A água é um bem escasso e teremos muitos problemas no futuro se não mudarmos de ideia em relação à utilização do produto”. Respondendo a perguntas da plateia, Trípodi defendeu a realização de campanhas educativas como a “forma mais eficiente e barata” de conscientizar as pessoas. “Não há outra alternativa. Os governos federal, estadual e municipal precisam mostrar claramente à sociedade a importância da economia de água para as próximas gerações”.

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Trípodi disse também que os empresários têm a obrigação de aderir à campanha de redução do consumo de água. “Cerca de 20% da água doce captada mundialmente destina-se às atividades industriais. E os empresários não podem matar a fonte dos seus lucros”, alerta. Nos últimos cinco anos, a Petrobras investiu R$ 500 milhões em programas ambientais distribuídos em três vertentes: gestão de corpos hídricos superficiais e subterrâneos, recuperação ou conservação de espécies e ambientes costeiros e fixação de carbono e emissões. “Temos 88 projetos em desenvolvimento, todos muito bem-sucedidos”, afirmou o gerenteexecutivo de Responsabilidade Social da Petrobras. De acordo com Trípodi, os resultados dos projetos demonstram que a Petrobras está no caminho certo. “São 717 municípios beneficiados, seis biomas alcançados, cinco mil espécies nativas estudadas, quatro milhões de pessoas envolvidas diretamente e 2,1 milhões de hectares de área trabalhada”, afirmou. Armando Trípodi falou também sobre a importância da água nas atividades da Petrobras. “Somente em 2011, com o processo de reutilização, conseguimos economizar 21,5 bilhões de litros de água, o suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes por um ano”, disse. Segundo o gerente-executivo, a Petrobras vai continuar investindo muito em pesquisas e tecnologia para atingir as suas metas. “Estamos trabalhando na identificação de fontes alternativas, na descoberta de novos processos de reutilização e para garantir mais eficiência no uso da água”, afirmou Trípodi.

* Consumo

40%

é quanto o consumo de água deve crescer no mundo até 2030, de acordo com um estudo realizado pela ONU

12%

da água doce do planeta está no Brasil. A maior parte (70% do total) fica na Bacia Amazônica, onde vivem apenas 7% dos brasileiros

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Solução Armando Trípodi sugere a implantação, nas empresas e nas residências, de iniciativas de racionalização do uso da água Combate ao consumo irregular do produto, principalmente as ligações clandestinas Investimento em pesquisa e tecnologia para criar novos mecanismos de redução do consumo de energia Política comprometida com o crescimento sustentável, responsabilidade social e ambiental Adoção por parte das empresas de gestão que visa a ecoeficiência de suas operações e produtos Conscientização da população sobre a importância de economizar água e energia

Infográfico: Agência Petrobras

O maior do planeta

“Estamos acostumados com a fartura e o preço baixo da água, mas esta mentalidade precisa mudar”

Com previsão de começar a operar em 2015, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), o maior empreendimento da história da Petrobras, terá também o maior projeto de reuso de água do mundo na sua modalidade. Um contrato assinado com a Companhia Estadual de Água e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), em maio de 2011, vai possibilitar o aproveitamento de água de esgoto tratado nos processos de geração de vapor e resfriamento de caldeiras, entre outros. A água industrial do Comperj será fornecida a uma vazão de 1.500 litros por segundo, o equivalente a 47,3 bilhões de litros por ano, volume suficiente para o consumo de uma cidade de 750 mil habitantes. Ou seja, a água potável, de fontes naturais, não será utilizada no processo industrial, deixando de concorrer com o fornecimento para a população. O projeto de reuso de água do Comperj é o maior, mas não o único, desenvolvido pela Petrobras. Em 2011, o volume reusado foi de 21,5 bilhões de litros, cerca de 10% do necessário para a manutenção das operações da companhia. Com a conclusão dos projetos em curso na área de refino e no seu Centro de Pesquisas (Cenpes), a estatal pretende chegar a 2013 com uma economia de 34 bilhões de litros de água/ano, quase o dobro da utilização de água de reuso em suas operações em relação a 2010, quando foram reaproveitados 17,6 bilhões de litros.

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“A companhia adota um sistema de gestão que visa a ecoeficiência de suas operações e produtos, incluindo medidas voltadas para a busca da eficiência na gestão de recursos hídricos”, diz o gerente executivo de Responsabilidade Social da Petrobras, Armando Trípodi. Para atender ao Comperj, a Cedae está fazendo um investimento de R$ 1 bilhão na implantação de uma Estação de Produção de Água Industrial, localizada na Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, no Caju, que tratará a água para deixá-la em conformidade com as características requeridas pela Petrobras. Será construído ainda um duto submarino de 17 quilômetros de extensão, que levará a água resultante dos esgotos tratados da Estação Alegria até a reservação intermediária de São Gonçalo. Uma estação de bombeamento e um duto terrestre levarão finalmente a água por mais 32 quilômetros até a entrada do Comperj, no município de Itaboraí. Caberá à Petrobras o pagamento da tarifa pelo fornecimento da água. Um convênio assinado em 2008 com a Cedae garante a água potável para o complexo. Para isso, já foi ampliada a Estação de Tratamento de Água de Porto das Caixas, em Itaboraí, que aumentará a capacidade de produção em 100 litros por segundo. Metade desse acréscimo é ofertada à população de cerca de 25 mil pessoas do entorno do Comperj, e a outra metade, ao complexo em implantação. Outro projeto da companhia, a ampliação do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), utilizou novo sistema de reuso de água para evitar o descarte de 600 milhões de litros, o bastante para abastecer uma cidade de 15 mil habitantes por ano. O sistema inclui a recuperação de água de chuva, proporcionando autonomia de água de quatro dias, sem precisar recorrer ao abastecimento público. Com isso, a Petrobras deverá economizar R$ 12 milhões por ano.

tratar até 300 mil litros de efluentes por hora. Em operação desde o ano passado, a estação gera uma economia anual de água de até 2,6 bilhões de litros, já que a água tratada é reutilizada para fins industriais. Além dos complexos industriais, a economia de água acontece também nos prédios da companhia. Na Universidade Petrobras, situada no bairro Cidade Nova, no Rio, há dois sistemas hidráulicos prediais independentes - um para a água de reuso e outro para a água potável. A água de chuva e de condensação do sistema de ar-condicionado é coletada e destinada à limpeza, vasos sanitários e irrigação dos jardins, possibilitando a diminuição de até 40% do consumo diário de água. O prédio conta ainda com torneiras com sensores, sensores nos mictórios, caixas acopladas nos sanitários e outras iniciativas na área de preservação de recursos hídricos. A mesma preocupação está presente no edifício administrativo da empresa em Vitória (ES), em fase final de implantação. O prédio conta com estação de tratamento de esgoto onde as águas residuais geradas no edifício são tratadas para reaproveitamento em vasos sanitários, irrigação dos jardins e sistema de ar-condicionado. Nada menos que 30% do consumo diário do edifício virá de água de reuso. Somando-se à economia gerada pelos demais sistemas adotados, deverá haver uma redução de até 163,5 mil litros/dia, ou 23,7% do volume previsto.

Nas novas instalações do Centro de Pesquisas da estatal (Cenpes), os telhados coletam a água da chuva (foto no detalhe) para ser reaproveitada na irrigação de jardins e no fornecimento para os sanitários Foto: Divulgação

Uma Estação de Tratamento e Reuso da Água, em fase de pré-operação, vai tratar todos os efluentes gerados no centro de pesquisas, transformandoos em água de reuso para utilização nos sistemas de refrigeração. A água de chuva de telhados e pisos do estacionamento será captada para posterior uso em irrigação de áreas verdes e descargas de bacias sanitárias. Graças às iniciativas diferenciadas no que se refere à sustentabilidade na construção civil - não só na área de gestão de recursos hídricos, mas de energia e de impactos à biodiversidade, entre outros - o Cenpes ganhou em 2011 o prêmio Green Building Brasil na categoria obra pública sustentável. Outra iniciativa de vulto é a estação de tratamento de despejos industriais da Refinaria do Vale do Paraíba (Revap), em São Paulo, com capacidade para

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Na cabeça dos baianos

No ranking mais importante de sustentabilidade De acordo com Armando Trípodi, gerente executivo de Responsabilidade Social da Petrobras, pelo sétimo ano consecutivo, a companhia integra o Dow Jones Sustainability Index, o mais importante índice mundial de sustentabilidade que avalia as melhores práticas de gestão social, ambiental e econômica no mundo.

Fechar a torneira enquanto se escova os dentes é um hábito simples, que reflete diretamente na economia de água, e parece estar sendo incorporado aos costumes dos soteropolitanos. Isso é o que indicou José Luiz Orrico, presidente do Instituto Futura, que apresentou a Pesquisa Sustentabilidade: A Relação dos Baianos com o Uso da Água, feita para a terceira edição do Agenda Bahia. Segundo o levantamento, 89% dos entrevistados garantiram fechar a torneira enquanto escovam os dentes. Outros 7% responderam que nunca fecham e apenas 4%, às vezes.

“E, pela sexta vez, (a companhia) recebeu a nota máxima no critério ‘transparência’ e também foi considerada benchmark nos critérios ‘combustíveis mais limpos’ e ‘políticas e sistemas de gestão ambiental’”, explica Armando Trípodi, que também é presidente da Rede Brasileira do Pacto Global. Segundo ele, a Petrobras adota uma gestão alinhada aos dez princípios do Pacto Global da ONU, do qual é signatária desde 2003.

Já quando questionados sobre a economia de água, o número é ainda maior: 96% dos soteropolitanos se mostraram preocupados. Os mais jovens são os que representam o maior percentual de entrevistados que dão importância à questão do desperdício da água. Os entrevistados entre 16 e 29 anos representam 44,7%, enquanto os que têm acima de 50 anos chegam a 37%.

O plano estratégico da companhia prevê o desenvolvimento sustentável. De acordo com a Petrobras, o Comperj já segue esse conceito de cuidado com a gestão ambiental, com ênfase no uso racional dos recursos hídricos. Somente na sua primeira fase, a entrar em operação em 2015, o Comperj terá capacidade para processar 165 mil barris de petróleo por dia, contribuindo para abastecer o mercado com óleo diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque, GLP (gás de cozinha) e óleo combustível.

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José Luiz Orrico: pesquisa revela comportamento dos baianos em relação a água

Investimento

Foto: Arisson Marinho

Orrico destaca que esse maior engajamento do jovem é positivo, mas também salienta que a preocupação com o gasto da energia elétrica, que pesa mais no bolso dos consumidores, é maior. “Ainda é uma questão financeira. Quando questionados sobre os temas que os preocupam, os cidadãos citam primeiro a educação, a saúde, a segurança e o emprego e, lá pelo nono lugar, a questão ambiental”, ressalta Orrico.

Economia

Capacidade

Recorde

34 bilhões de litros de água é quanto a empresa pretende economizar em 2013

Em 2011, a Petrobras reutilizou 10% das necessidades totais de água da empresa

O Comperj economizará 47,3 bilhões de litros de água por ano, o equivalente ao consumo de uma cidade com 750 mil habitantes

Se tiverem que escolher três atitudes que estariam pessoalmente dispostos a adotar, os soteropolitanos citaram primeiro reduzir o consumo de energia (42%), eliminar o desperdício de água (40%) e comprar apenas o necessário (21%). Para o presidente do Futura, isso ainda demonstra uma preocupação com a questão financeira anterior à consciência ambiental. “Se a gente tem hoje pessoas preocupadas com essa questão, elas são minoria, são acadêmicos, são pessoas que estudam. Cada um trata o recurso natural de uma forma que não tem muito a ver com o futuro, com o pensar para a frente”, acredita.

Cenpes

Gestão

Potável

O Centro de Pesquisas (Cenpes) vai economizar 600 milhões de litros, o suficiente para abastecer uma cidade de 15 mil habitantes ao ano

40% é a redução do consumo diário de água conseguido no prédio da Universidade Petrobras, através da gestão dos recursos hídricos

O edifício da administração da Petrobras em Vitória, no Espírito Santo, deverá economizar 30% de água potável por dia, com a utilização de água de reuso

Outro exemplo que o especialista traz é que mais da metade dos entrevistados na pesquisa falou que nunca, ou quase nunca, levou suas baterias de celulares para o descarte correto em uma loja ou em um ponto de coleta especializado. Apenas 18% levam sempre, ou quase sempre. Para Orrico, este dado mostra que, na prática, a preocupação com a sustentabilidade ainda não se traduz em ações efetivas.

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Incentivo à pesquisa

Para o presidente do Futura, as mudanças passam pela via política: “Temos que ter políticos que ultrapassem seus períodos de mandato, que pensem na sociedade para daqui a 20 ou 30 anos. Políticos que pensem em como vai ficar a sociedade e não o seu voto”.

O debate do seminário Agenda Bahia sobre Sustentabilidade e o Uso da Água alertou para a importância de se apoiar a produção de conhecimento sobre as mudanças climáticas. Segundo o economista Sérgio Besserman, só com informação será possível enfrentar os problemas e conscientizar as pessoas de que é preciso rever as atitudes com o planeta.

“A questão financeira ainda pesa mais que a sustentável. É necessário promover a consciência ambiental”

O(a) sr.(a) se preocupa com a sustentabilidade do planeta em termos de disponibilidade de água, produção de alimentos, energia, etc?

92% 3% 5%

sim às vezes não

96% 4%

O(a) sr.(a) acredita na possibilidade de cidades como Salvador enfrentarem problema no fornecimento de água para seus moradores no futuro?

84% 16%

sim não

Com que frequência o(a) sr.(a) costuma fechar a torneira enquanto escova os dentes? (estimulada)

O(a) sr.(a) se preocupa em economizar água na sua casa?

O diretor da Braskem Jorge Soto enfatizou os diferenciais que o Brasil possui para promover o desenvolvimento sustentável, colocando o país em uma posição privilegiada. “Temos água, disponibilidade de terra, tecnologia para desenvolver produtos a partir de fontes renováveis”, alerta. Para o moderador, Luiz Fernando Galvão, da Comissão de Meio Ambiente da Fieb, a consciência ambiental só será possível com investimento em educação.

FONTE: FUTURA

SALVADOR E A SUSTENTABILIDADE

“O tempo para mudar é agora e está acabando”, alertou. O professor da Ufba Fernando Genz disse que, enquanto outras capitais já têm grupos para pensar os impactos dessas transformações, Salvador ainda engatinha na área de pesquisa. “Precisamos pensar que nós somos parte da solução para poder avançar. Hoje se fala muito em mudanças, mas se faz muito pouco”, explica o especialista.

No debate, o moderador Luiz Fernando Galvão, Roberto Conceição, Jorge Soto, Sergio Besserman, Fernando Genz e Eugênio Spengler

Fernando Genz alertou para a condição crítica da Bahia e afirmou que Salvador já enfrenta elevações de até um grau na temperatura. “A seca, que é recorrente no Nordeste, mostrou a vulnerabilidade da Bahia na gestão de recursos hídricos”, disse Genz.

Foto: Evandro Veiga

sim

89% 7% 4%

não

Qual dessas atitudes o(a) sr.(a) estaria disposto a adotar? (estimulada)

sempre ou quase sempre nunca ou quase nunca às vezes

Eliminar o desperdício de água (Idade)

42%

44,7%

Reduzir o consumo de energia

37,3%

37%

40% Eliminar o desperdício de água

21% Comprar apenas o necessário

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De 16 a 29 anos

De 30 a 49 anos

Acima de 50 anos

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Incluir no preço dos produtos o impacto ao meio ambiente

O secretário estadual de Meio Ambiente, Eugênio Spengler, ponderou que o planejamento do estado para as mudanças climáticas deve ser discutido ao lado de questões básicas, como acesso à água pela população do semiárido, monitoramento dos mananciais de água doce, gestão florestal eficiente, além de implementação de gestão nas bacias hidrográficas.

O economista Sérgio Besserman sugere, para tentar frear as emissões de gases do efeito estufa e diminuir a degradação do meio ambiente, incluir no preço o impacto ao meio ambiente. Isso valeria para todos os produtos, desde a carne consumida até os carros, roupas e outros bens do cotidiano.

“Ainda falta muita discussão, por exemplo, sobre as possibilidades de matrizes energéticas, que são as diferentes fontes de energia para o desenvolvimento das atividades”, diz Spengler. Já Roberto Conceição dos Santos, assessor da Secretaria Executiva do Ministério do Planejamento, salientou a determinação da presidente Dilma Rousseff no sentido de privilegiar os produtos sustentáveis nas compras governamentais. Besserman criticou o avanço tímido do Brasil em ampliar a rede de esgotamento sanitário. Roberto Conceição garantiu que esse é um item prioritário nos investimentos do PAC. O técnico citou estudo da ONU segundo o qual morre uma criança no mundo a cada 20 segundos, vítima de doença diarreica provocada pela contaminação da água.

Foto: Evandro Veiga

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Foto: Evandro Veiga

“O gás carbônico não é de graça. É preciso calcular o quanto que se quer esquentar o planeta, fazer as contas, encontrar uma forma de cobrar por todas as coisas”, explica. Besserman diz que isso não vai diminuir o consumo, mas mudar a forma de se consumir e o que consumir. “Isso vai mudar toda a logística, o sistema de produção”, alerta. Como exemplo, o especialista citou o caso da carne. “A pecuária extensiva vai acabar. A carne bovina terá preço de caviar”, aposta. Besserman acredita que muitas viagens, especialmente às de negócios, serão substituídas por videoconferências para reduzir sobretudo as emissões de gases nocivos ao meio ambiente.

Nova visão: empresas fazem parte da solução ambiental

Saneamento é prioridade, mas recursos são escassos

As empresas têm que fazer escolhas e uma delas pode ser preparar-se para oferecer ao mercado produtos cada vez mais sustentáveis, disse o diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Jorge Soto. Para o especialista, é importante preservar as fontes de recursos não renováveis, o que, no caso da Braskem, representa criar novos produtos sustentávels.

O assessor da Secretaria Executiva do Ministério do Planejamento Roberto Conceição dos Santos afirmou que o governo federal vem conferindo atenção especial à questão da sustentabilidade. “Apesar de o Planejamento não ser o ministério-fim para tratar desse assunto, está tendo um importante papel de incentivo nas questões climáticas”, disse.

Com esse objetivo, disse, a empresa buscou entender a relevância do problema do aquecimento global, passando a enxergar-se como parte da solução. Soto concordou com Sérgio Besserman sobre a precificação dos produtos. “É a solução. Mas essa transição é complexa. Enquanto isso não muda, temos que correr atrás do consumo consciente”, alerta. Ele sugeriu à população a escolha de produtos mais eficientes. “Se isso ocorrer, a indústria vai atrás”, avalia.

Roberto Conceição citou as compras governamentais, que por decreto presidencial devem privilegiar produtos sustentáveis, de ar-condicionado a papel reciclado e carros com biocombustíveis. Com isso, o governo, segundo ele, já economizou R$ 200 milhões. Roberto Conceição respondeu a Sérgio Besserman, que criticou os avanços em saneamento básico no Brasil. O assessor disse que mudar essa realidade é uma prioridade do governo, apesar da escassez de recursos. O foco dos investimentos é a universalização da rede de saneamento.

Foto: Evandro Veiga

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Foto: Evandro Veiga

Redução de chuva e aumento da área de deserto no estado

Esgoto também pode gerar energia elétrica

Doutor em Geologia e membro do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Escola Politécnica da Ufba, Fernando Genz alerta para as mudanças no clima da Bahia nos próximos anos. Segundo ele, é previsto aumento na temperatura na Região Metropolitana de Salvador entre 1°C e 1,5°C até 2040. Genz diz que haverá uma redução de 20% no índice de chuvas, o que provocaria aumento nas áreas de desertificação em algumas regiões, como o semiárido, cujo regime de chuvas seria ainda mais comprometido.

Com o crescimento das cidades, aumenta também a demanda por serviços de infraestrutura urbana, como sistemas de saneamento e estações de tratamento de esgoto. Para aproveitar os resíduos gerados por esses sistemas, especialistas nas áreas de energia e esgotamento sanitário estão desenvolvendo uma série de tecnologias capazes de transformar o esgoto que sai de nossas casas em energia elétrica. Uma parceria envolvendo a Coelba, a Embasa, a Giz (Cooperação Alemã) e a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) está desenvolvendo

“O problema é que a sociedade não consegue absorver essas informações”, explica o professor. Segundo Genz, o tempo para se preparar para as mudanças no clima em uma esfera mundial já está acabando.

Solução paliativa não resolve, admite secretário O secretário estadual do Meio Ambiente, Eugênio Spengler, admitiu que o governo precisa implantar políticas públicas estruturantes para se preparar para as transformações provocadas pelas mudanças climáticas. Segundo o secretário, o que é feito ainda ocorre de forma paliativa. Spengler cita como exemplo o uso dos carros-pipa que abastecem a população do semiárido durante a época das chuvas. “Eu acho que o Brasil errou ao não apoiar a criação de um Fundo Mundial do Clima, responsável por desenvolver políticas sustentáveis”, avaliou.

Foto: Evandro Veiga

O secretário diz que a Bahia deve atualizar os projetos de infraestrutura hídrica para pensar soluções futuras para as regiões de seca no semiárido e também questões de irrigação em áreas abastecidas por rios, como o Vale do São Francisco.

Mais potentes e gastando menos energia: a Coelba finaliza a instalação de 112 novos projetores de Pituaçu, segundo Ana Christina, assessora de Eficiência Energética da empresa Fotos: Divulgação

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tecnologia pioneira de geração de energia a partir do biogás proveniente da Estação de Tratamento de Esgoto Jacuípe II, em Feira de Santana.

Troca de geladeira dispensa construção de nova usina

Segundo Ana Christina Mascarenhas, assessora de Eficiência Energética da Neoenergia, de 2% a 3% da energia produzida no mundo é utilizada no bombeamento e tratamento de água, o que justificaria o investimento em nova tecnologia para reduzir essa demanda.

A substituição de geladeiras usadas - um dos principais projetos de eficiência energética do grupo Neoenergia - na Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte já evitou a construção de uma usina de 45 MW, o equivalente a 50% do consumo anual de Roraima. “Somente com este programa, conseguimos evitar o investimento de R$ 202 milhões, valor que seria empregado na construção da usina”, afirmou Ana Christina Mascarenhas.

Aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o projeto está pautado na comprovação da viabilidade econômica para o mercado brasileiro de geração de energia a partir do biogás, proveniente da digestão anaeróbia do esgoto sanitário. O foco da empresa estará nas estações de tratamento de esgoto de pequeno e médio porte, que atendam entre 20 mil e 300 mil habitantes. Segundo a Coelba, projetos nessa escala ainda não foram executados no Brasil. Para Ana Christina, a principal barreira para tornar o uso dessa tecnologia uma realidade no país é a comprovação da sua viabilidade econômica e o maior conhecimento sobre parâmetros capazes de melhorar a eficiência do processo de tratamento de efluentes do ponto de vista energético. “Por isso, a nossa proposta é realizar um estudo da viabilidade técnicoeconômica a partir dos dados de investimento e geração de energia de um projeto em escala real”, acrescentou a assessora da Coelba. Na cidade de Didcot, no Reino Unido, uma estação especial de tratamento transforma dejetos humanos lançados pela descarga em energia para consumo doméstico. Além de gerar energia para aquecer as casas locais e diminuir as contas de luz, o projeto ainda reduz as emissões do metano, gásestufa cujo efeito é muito mais impactante ao meio ambiente que o dióxido de carbono (CO2).

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as empresas concessionárias ou permissionárias do sistema têm de aplicar 0,5% de sua receita operacional líquida em programas de eficiência energética. Na Bahia, a Coelba já substituiu mais de 100 mil refrigeradores usados, em mau estado de conservação, de consumidores de baixa renda, por equipamentos novos e eficientes. “Uma geladeira em condições precárias de conservação pode ser responsável por até 70% do valor da conta de energia de um consumidor de baixo poder aquisitivo”, afirmou Ana Christina. Além de levar mais conforto às residências, o projeto do grupo Neoenergia tem um viés econômico. “A redução do valor da conta de energia também reduz a inadimplência”, disse Ana Christina Mascarenhas.

* Economia

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milhões de reais: era o valor que custaria uma usina, caso as geladeiras não tivessem sido trocadas

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70%

é quanto representa o gasto de uma geladeira precária na conta de luz

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mil refrigeradores antigos já foram trocados por novos com selo de eficiência energética

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Refletores de Pituaçu vão gastar menos energia DICAS PARA SER MAIS SUSTENTÁVEL No ar-condicionado

Os projetos de eficiência energética da Coelba também chegaram a uma O condicionador de ar é um dos das maiores paixões dos brasileiros, o futebol. Primeiro estádio da América eletrodomésticos de maior consumo Latina funcionar de energia.aUtilize-o apenas com energia solar, o Roberto Santos (Pituaçu) está opassando estritamente necessário por mais uma reformulação. A concessionária assinou convênio para trocar todos os refletores do estádio por equipamentos mais aproMantenha portas e janelas bem fechadas para evitar priados à aplicação em arenas abertas. entrada de ar do ambiente externo Verifique o correto funcionamento do termostato, A previsão era regulando-o adequadamente (25º)

instalar 112 projetores de Vapor Metálico 2.000 Watts para oferecer maior luminosidade. Serão mais eficientes do que os 192 projetoSe possível, instale o aparelho onde não fique exposto sol resele atualmente emaofuncionamento no estádio. A iluminação média atual de Pituaçu é de 597 lux (quantidade de luz por metro quadrado) e, com o novo sistema, passará para 1.200 lux, melhorando a qualidade das transmissões No chuveiro televisivas. Desde abril de 2012, Pituaçu gera energia a partir do sol. O chuveiro elétrico é responsável por cerca de 25% do consumo de uma residência

DICAS PARA SER MAIS SUSTENTÁVEL

Na geladeira

Responsável por cerca de 30% do consumo total de uma residência

No ar-condicionado É um dos eletrodomésticos de maior consumo de energia

Coloque a geladeira em local ventilado, afastada de paredes, fora do alcance dos raios solares e distante de fogões e estufas

Utilize-o apenas o estritamente necessário

Não use a parte traseira da geladeira para secar panos ou roupas

Mantenha portas e janelas bem fechadas para evitar entrada de ar do ambiente externo

Não deixe aberta, nem fique abrindo desnecessariamente

Verifique o correto funcionamento do termostato, regulando-o adequadamente (25º)

Não coloque alimentos quentes na geladeira

Se possível, instale o aparelho onde ele não fique exposto ao sol

Descongele sua geladeira regularmente Observe as recomendações do fabricante Verifique se as borrachas de vedação da porta estão em bom estado

Limite seu tempo debaixo da água quente ao mínimo indispensável Não tente aproveitar uma resistência queimada, isso aumenta o consumo Nos dias quentes, mantenha a chave de temperatura na posição ’Verão’ (na posição ’Inverno’, o consumo é aproximadamente 30% maior)

No chuveiro

Consome 2% a 5% da conta de luz de uma residência Responsável por cerca de 25% do consumo de uma residência

No televisor

O televisor é responsável por 5% a 15% do consumo total de uma residência Não deixe o televisor ligado sem necessidade Não durma com o televisor ligado. Evite acidentes Não tente consertar o televisor: mesmo desligado existe o risco de choque

Na geladeira

Na máquina de lavar

Limite seu tempo debaixo da água quente ao mínimo indispensável Não tente aproveitar uma resistência queimada, isso aumenta o consumo Nos dias quentes, mantenha a chave de temperatura na posição ’Verão’ (na posição ’Inverno’, o consumo é aproximadamente 30% maior)

Procure lavar de uma só vez a quantidade de roupa indicada pelo fabricante Utilize a dosa gem correta de sabão para que você não tenha de repetir a operação enxaguar Leia com atenção o manual do fabricante para tirar maior proveito de seu equipamento

A geladeira é responsável por cerca de 30% do consumo total de uma residência Coloque a geladeira em local ventilado, afastada de paredes, fora do alcance dos raios solares e distante de fogões e estufas Não use a parte traseira da geladeira para secar panos ou roupas Não deixe aberta, nem fique abrindo desnecessariamente Não coloque alimentos quentes na geladeira Descongele sua geladeira regularmente Observe as recomendações do fabricante Verifique se as borrachas de vedação da porta estão em bom estado

Na máquina de lavar

No ferro elétrico No televisor Responsável por 5% a 15% do consumo total de uma residência Não deixe o televisor ligado sem necessidade

Responsável por 5% a 7% do consumo total de uma residência Habitue-se a acumular a maior quantidade possível de roupas para passá-las de uma só vez

Não durma com o televisor ligado. Evite acidentes

Use a temperatura indicada para cada tipo de tecido, no caso de ferro automático

Não tente consertar o televisor: mesmo desligado existe o risco de choque

Quando precisar interromper o serviço, desligue o ferro

A máquina de lavar roupa consome 2% a 5% do consumo total de uma residência.

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Procure lavar de uma só vez a quantidade de roupa indicada pelo fabricante Utilize a dosagem correta de sabão para que você não tenha de repetir a operação enxaguar

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A Era de Aquarius Desde que começou a investir na Bahia, a incorporadora Fator Realty prioriza em seus empreendimentos projetos sustentáveis. Com uso de tecnologia, a empresa prevê uma economia de até 15% na conta de água do condomínio e ainda redução de 10% a 15% na conta de energia. Para o presidente da Fator, Paulo Fabbriani, uma construção sustentável precisa investir em inovação para reduzir o impacto no meio ambiente, mas também oferecer qualidade de vida para os seus moradores. Fabbriani cita o Aquarius, condomínios residencial e comercial, na Pituba, como um projeto que trouxe um novo conceito para a cidade. “Conseguimos montar um ambiente em que as pessoas, independentemente da vontade delas, ou de custos, conseguem ter uma vida sustentável. É possível morar no Aquarius e vender seu automóvel, porque você vai andando, por exemplo, para o shopping, para o seu trabalho na Tancredo Neves”, diz Fabbriani. No novo bairro, há escolas, hospitais, lojas e centros comerciais. A Fator investiu também na construção de uma praça superequipada, hoje ponto de encontro de moradores de outras regiões da cidade. Além de um espaço para brincar, o local conta com barraquinhas, baiana de acarajé e mais de 10 clubes de corrida. A Fator, inclusive, patrocinou eventos na pracinha que montou na região.“Parece uma pracinha de interior. Com as pessoas se encontrando, como faziam antigamente”, recorda o diretor da Fator Realty, Marco Chompanidis. Diretor da Fator Realty, Marco Chompanidis destaca uma das vantagens de morar no Aquarius: ‘É possível atravessar a rua e ir trabalhar’ Foto: Marina Silva

Foto: Divulgação

“Conseguimos montar um ambiente em que as pessoas conseguem ter uma vida saudável” PAULO FABBRIANI , presidente da Fator Realty

O presidente da empresa, Paulo Fabbriani, destaca ainda que, ao perder menos tempo nos engarrafamentos, a qualidade de vida dos moradores aumenta: sobra mais tempo para o convívio da família, é possível almoçar em casa, entre outros ‘luxos’ para uma vida moderna. “Os moradores podem dizer que as suas vidas foram transformadas pelo modelo aplicável no Aquarius”, acrescenta Fabbriani. O Amazon, um dos condomínios do Aquarius, foi construído com equipamentos para o reuso de água e o tratamento das águas da chuva, telhados reflexivos, o uso de placas solares, de madeiras certificadas e coleta seletiva do lixo. Com a captação da água das chuvas, é possível molhar os jardins do prédio sem pagar pelo uso da água. A energia das placas solares ilumina as áreas comuns do prédio. “Todos os nossos prédios já nascem sustentáveis. Tem princípios que você coloca lá, mas se as pessoas não praticam esses processos, você não tem um ambiente sustentável”, diz o presidente da empresa. Um exemplo prático citado por Chompanidis é o uso da água de poço artesiano (que pode ser retirada do solo ou captada da chuva), que tem pouca diferença quando comparada com a água que vem da concessionária - no caso da Bahia, da Embasa. “Essa água pode não ser tratada, mas pode ser usada para molhar o jardim, para lavar o carro, etc”, avalia o diretor da Fator.

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O custo de empreendimentos sustentáveis ainda é mais caro. Entre 5% a 10% na comparação com prédios tradicionais. Perguntado sobre como trabalhar esse processo, sem transferir o ônus para o consumidor, Paulo Fabbriani é direto na resposta: tem que diminuir a margem de lucro. Marcos Chompanidis também concorda. “As pessoas ainda não se dispõem a pagar por isso. Os moradores querem praticar a sustentabilidade da maneira deles: acondicionando o lixo de casa, usando menos luz, menos água”, acrescenta o diretor da Fator Realty. O presidente da Fator, Paulo Fabbriani, diz que a empresa já estuda incorporar uma área na escala do Aquarius, mas espera a solução de uma questão: como ficará o plano de mobilidade urbana da cidade de Salvador?

As placas captam a energia solar, usada para iluminar as áreas comuns do Amazon Foto: Marina Silva

“Para descobrir uma nova área não adensada, para fazer o que fizemos no Aquarius, dentro da cidade de Salvador, é preciso ter acesso”, informa. Chompanidis também acrescenta que esse aspecto da mobilidade é crucial, já que o tempo de deslocamento das pessoas de Salvador “ficou proibitivo”. “Hoje, você tem aqui comércio, escolas, por exemplo. Você pode simplesmente morar, atravessar a rua e ir trabalhar ou levar a criança na escola”, lembra o diretor da empresa. Foto: Rafael Martins

Foto: Marina Silva

A praça do Aquarius virou referência em Salvador, carente de áreas de lazer ao ar livre para a garotada. No Amazon, a água da chuva é reutilizada e a torneira tem sensor para evitar desperdício

A água de cada dia Todos os dias passa um verdadeiro rio pelas torneiras e panelas da dona de casa Marieta Cunha, 62 anos. E não é só a água necessária para o consumo diário dela, do marido, de dois dos três filhos e um dos sete netos que moram com ela em um apartamento em Pernambués. Tem outra conta de água que não chega no final do mês: do volume utilizado para produzir os 2 quilos de feijão ou os 3 quilos de carne que ela cozinha por semana, a alface que vai à mesa a cada dois dias e até as peças de roupas que são lavadas na máquina duas vezes por semana. “E olhe que aproveito a água da lavagem das roupas para usar no banheiro”, explica-se a dona de casa, pensando no alívio da consciência e do bolso. Para calcular o volume de água envolvido na produção de alimentos e outros produtos industrializados que vão diariamente para as mesas de milhões de Marietas, especialistas em recursos hídricos criaram a chamada Pegada Hídrica. Também conhecido como água virtual, o indicador serve para medir a quantidade de água consumida pelas pessoas não apenas em sua forma direta (quando Mateus, neto de Marieta, toma banho, por exemplo), mas também de forma indireta (quando o marido da dona de casa, o taxista Manuel, compra uma calça jeans). A conta final de um simples almoço pode bater a marca dos 20 mil litros gastos. Achou muito? Só para produzir um quilo de carne, gasta-se 15,5 mil litros. Nessa soma entram desde a água para irrigar o capim que alimenta o boi até o volume médio ingerido até o abate. Quer trocar pelo frango? Prepare-se para consumir 3,9 mil litros. A proposta da Pegada Hídrica é exatamente esta: alertar para o alto gasto de água que costuma passar despercebido com cada produto que consumimos diariamente. “O objetivo é tornar a Pegada Hídrica um fator de escolha na hora da compra dos produtos. Sabendo o volume de água gasto em cada produto, o consumidor vai poder decidir levar para casa aquele que economizou mais. Isso acaba pressionando os fabricantes a utilizarem menos água no processo de produção”, avalia Estanislau Maria, coordenador da organização que prega um consumo consciente, o Instituto Akatu. Uma das ideias da organização é obrigar os fabricantes a usar nas embalagens dos produtos informações sobre o volume de água gasto. A preocupação não é para menos. Cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com menos de 20 litros de água por dia, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

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Além da escassez do recurso, em alguns cantos do mundo, o mau uso pode fazer da água artigo de luxo até onde não costuma faltar tanto.

Entre as formas citadas pela especialista para melhorar essa eficiência estão a implementação de novas tecnologias que promovam o reuso da água, monitoramento da água durante o processo produtivo, investimento no tratamento de efluentes, entendimento dos processos de contaminação e irrigação que utilizem pouca quantidade de água.

Segundo dados da Organização Water Footprint, responsável por uma série de estudos relativos à Pegada Hídrica, apenas 5% da água no Brasil é gasta com consumo doméstico. Os outros 95% correspondem ao consumo de produtos agrícolas, especialmente, e também industrial.

“Há muito investimento sendo feito em tecnologias que criam equipamentos capazes de reduzir o consumo de água, como temporizadores, sensores de presença, captação de água da chuva, e muitos outros. A indústria da construção civil, por exemplo, já entendeu essa demanda e constrói prédios considerados verdes (edifícios sustentáveis) a partir desse princípio”, explica a gerente de desenvolvimento sustentável da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Arlinda Coelho.

Baseado na experiência francesa de gestão, o país tem uma discussão ampla e participativa sobre o assunto, mas não sem desafios. “É preciso conhecer os usuários desses recursos, os pequenos produtores, e cadastrá-los para que seja possível compatibilizar a demanda e a oferta dos recursos hídricos”, afirma o especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional das Águas (ANA) Luiz Henrique Pinheiro, ex-diretor de Águas do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos).

Como a maior parte da população, a dona de casa Marieta Cunha ainda não conhecia a utilização da Pegada Hídrica para sua vida. Mas, na sua casa, a família já está acostumada com um consumo consciente. A ideia compartilhada por ela e por muitos vale para todos.

O trabalho é grande e envolve ainda monitorar os rios e mananciais, tanto do ponto de vista da quantidade, quanto da qualidade da água. “É importante saber quem está consumindo esses recursos e quanto esse manancial pode ofertar, para que se possa fazer um balanço hídrico adequado, sempre atento à questão do consumo consciente”, conclui.

“Economizo água o quanto posso. Antigamente, por exemplo, apertava a descarga e descia um rio: chuááá. Com esse novo sanitário que comprei, que segundo meu neto tem volume de água diferente para ‘número 1’ e ‘número 2’, nem barulho ele faz”, conta Marieta, feliz, sobre a economia.

No setor privado, a Pegada Hídrica é hoje em dia utilizada principalmente por grandes empresas nacionais e internacionais de diversos setores como um instrumento de gestão.

Nós e os gringos A lógica da ‘Pegada da água’ considera os gastos de acordo com cada país. Um norte-americano consome mais água do que um brasileiro e um asiático. Os gringos têm uma pegada de 2.482 metros cúbicos. A dos brasileiros é de 1.381 m³, mas fica acima da média global, que é de 1.243 m³. A quantidade de água consumida em dieta à base de carne chega a 60% a mais do que a vegetariana

“A Pegada Hídrica auxilia a entender quanto de água está sendo utilizada na produção, qual a origem dessa água e a quantidade necessária para que ela possa voltar ao ambiente. Conhecendo essa dinâmica, o setor produtivo pode utilizar essas informações para orientar suas ações no aumento da eficiência do uso deste recurso”, explica a engenheira agrônoma e pesquisadora pela USP Vanessa Empinotti.

COMO CALCULAR A ‘PEGADA HÍDRICA’ Exemplo mostra o consumo de água necessário para a produção de 1 quilo de carne bovina 1 ANIMAL em um sistema industrial de produção leva em média 3 ANOS até ser abatido produz

Consumo indireto de água

3.069.000

1.300 quilos de graos (farelo de trigo e soja)

200 KG de carne desossada NESSE PERÍODO, O ANIMAL CONSOME:

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FONTE: WATER FOOTPRINT NETWORK

litros gastos com:

7.200 quilos de substância como silagem (pode substituir o pasto durante o período de seca)

Consumo direto de água

24 mil litros de água para beber

31.000 7 mil litros de água para manutenção em geral

litros gastos com:

3,1

milhões de litros de água

Cada animal gera em torno 200 kg de carne desossada. Sendo assim...

3,1 milhões

de litros de água

200 quilos

de carne desossada

Total de água gasta por kg de carne

15,5 mil litros*

de água gasta por kg de carne bovina

* ESSE VALOR PODE VARIAR DE ACORDO COM A REGIÃO

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Abastecimento comprometido já em 2015 Estudo divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA) revela que as principais capitais brasileiras, como São Paulo e Salvador, podem começar a enfrentar problemas no abastecimento já em 2015. Apesar de concentrar 12% das reservas de água doce do planeta, o Brasil também vai enfrentar a escassez de água em seu território. Em um estado como a Bahia, em que 70% do território está localizado na faixa do semiárido, saber como cuidar da água é questão de sobrevivência. Segundo Luiz Henrique Pinheiro, da ANA, a gestão da água no Brasil é uma das mais avançadas do mundo, mas ainda é preciso adaptar a demanda e a oferta dos recursos. “Os indicadores, como a Pegada Hídrica, podem ajudar em uma gestão mais eficiente da água, além de reduzir o consumo e o desperdício aos menores índices possíveis”, afirma o coordenador de Monitoramento do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Eduardo Topázio.

“O objetivo é tornar a Pegada Hídrica um fator de escolha na hora da compra dos produtos” ESTANISLAU MARIA, coordenador do Instituto Akatu

Na hora de cozinhar, de lavar a roupa ou no banho, Marieta Cunha e sua família se preocupam com o gasto de água desnecessário Foto: Evandro Veiga

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Os dois Brasis

O

seminário Código Florestal e a Logística do Campo, do Fórum Agenda Bahia, trouxe boas notícias para o estado. Segundo especialistas, a previsão é que o Brasil assuma o primeiro lugar na produção de grãos do mundo em menos de oito anos. A safra baiana, que apresenta posição de destaque no país, pode pegar carona nessa liderança brasileira. Mais do que grãos, o País é a aposta para alimentar boa parte do planeta.

Agronegócio

*

Agronegócio

“O Brasil tem tudo para liderar a segurança alimentar e a agroenergia do planeta”, avalia Roberto Rodrigues, embaixador especial da Organização das Nações Unidas para Agricultura (FAO) e ex-ministro da Agricultura. Ainda no campo das boas novas, o secretário de Agricultura, Eduardo Sales, afirmou que irá criar um selo verde, para estimular agricultores a economizar água nas produções baianas. O anúncio foi feito na semana seguinte à realização do seminário de Sustentabilidade, que debateu O Valor da Água. Palestrantes e debatedores mostraram que, para assegurar a liderança em segurança alimentar, o Brasil precisa fazer o dever de casa. Um problema crítico de todos os estados - e especialmente da Bahia -, a carência de infraestrutura é apontada como um dos principais entraves a serem vencidos também no campo. Aliviaria o bolso de quem produz, aumentando a competitividade, e também de quem compra nas prateleiras dos supermercados. No debate sobre o apagão da comunicação no campo, os produtores mostraram o quanto perdem tempo e dinheiro para liberar a safra com a ausência de internet. Muitas vezes parte das soluções pode estar do outro lado do rio. Em Pernambuco, um programa equipou, a baixo custo, os agricultores às margens do rio São Francisco, que conseguem emitir nota fiscal e saber das condições meteorológicas em poucos minutos. Tempo, no agronegócio, também é dinheiro. Outras propostas também foram apresentadas no seminário. Confira neste capítulo.

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Um norte para o agronegócio Na abertura do seminário sobre Agronegócio, o diretor-superintendente da Rede Bahia, Dante Iacovone, frisou que a agricultura é um tema importante para o país, “cheio de dificuldades de infraestrutura e logística”. Dante lembrou que o agronegócio é uma atividade com peso expressivo não só na economia brasileira, mas também na economia baiana, graças, principalmente, à fronteira agrícola da região Oeste e à área de fruticultura irrigada do Vale do São Francisco. Apesar disso, o último planejamento estratégico para a agricultura do Brasil foi feito há mais de 30 anos, observou. O executivo ressaltou que o Brasil ainda tem um potencial agrícola enorme a ser desenvolvido, o que confere mais relevância ao seminário sobre o assunto, do Agenda Bahia, realizado pelo jornal CORREIO e a rádio CBN, empresas do grupo Rede Bahia, com apoio da Federação das Indústrias do Estado da Bahia. De acordo com o superintendente, promover o debate entre empresários, intelectuais, membros da academia e do governo é o objetivo maior do Fórum Agenda Bahia, que chegou à terceira edição em 2012. “Precisamos discutir e provocar esse debate para que tenhamos um norte para o país. Apontar direções para melhorar a performance do agronegócio brasileiro”, avaliou Dante Iacovone. Dante Iacovone, superintendente da Rede Bahia, destacou a importância de um planejamento estratégico para o agronegócio Foto: Marina Silva

Propostas apresentadas no seminário estratégia para o crescimento do agronegócio brasileiro com uma * Planejar política integrada de renda (com concessão de crédito, seguro e preços mínimos para o produtor), comercial (estimulando a agregação de valor aos produtos), de desenvolvimento tecnológico e de redução do Custo Brasil (infraestrutura e logística eficazes, queda nos juros e menor carga tributária) Criar condições para o Brasil liderar um projeto mundial de segurança ali* mentar e energética com crescimento de 40% na produção até 2020 Tornar o agronegócio baiano mais competitivo para que a Bahia possa se *fortalacer na disputa por novos mercados

* Estimular a certificação com rastreabilidade do produto * Concluir as obras do PAC direcionadas ao setor agrícola Priorizar a ligação entre polos produtivos e os portos através de ferrovias. *Definir o transporte de carga nas rodovias para distâncias mais curtas * Investir na construção de modais de baixo custo, como ferrovias e hidrovias Concluir as obras da Fiol (Ferrovia Oeste-Leste), modernizar os portos e opera*cionalizar o transporte de cargas no Rio São Francisco as pistas e melhorar as condições das estradas já existentes, inclusi*veDuplicar as secundárias dos principais polos de produção do estado

* Instalar novos polos de armazenamento de safras o Código Florestal para a sociedade com seu alcance e suas * Divulgar consequências Implementar e atualizar o Cadastro de Atividades Florestais, exigência do novo * Código Florestal. Identificar as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e as de Reserva Legal sistemas que permitam agriculutores terem acesso à internet, essen* cialImplantar para aumentar a produtividade e a competitividade do setor

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Compromissos firmados O secretário de Agricultura, Eduardo Sales, anunciou a criação do * Certificação: Selo Verde, ainda em 2013, uma espécie de certificação, mediante pontuação, para os produtores que irrigam suas culturas com eficiência e economia de água da Seca: Eduardo Sales afirmou que articula, com colegas de outros * PAC estados, o lançamento de um PAC do Semiárido – já batizado de PAC da

Os corredores de produção estão com as estradas estaduais em péssima situação, como as do Oeste baiano. Má conservação das estradas eleva em até 35% o valor do frete Foto: divulgação

Seca – para financiar obras, com recursos federais, que possibilitem ao sertanejo nordestino sobreviver durante a estiagem, alimentar os animais e conviver com o problema Internet: O secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Paulo Câmera, * garantiu que o governo busca recursos para implantar um mapa de fibra

óptica no estado. A primeira etapa, prevista para 2013, orçada em R$ 119 milhões, irá contemplar cidades como Salvador, Itabuna, Feira de Santana, Porto Seguro e Vitória da Conquista. A segunda etapa contemplaria o Oeste e Norte baianos Paulo Câmera prometeu estudar a possibilidade de fazer parcerias com * estados vizinhos à Bahia, que já possuem rede de internet, para compartilhar

banda larga para algumas cidade baianas. A sugestão foi dada por produtores durante debate no Fórum Agenda Bahia

Na conta do produtor, o preço do buraco A chegada da chuva no Oeste baiano, que ocorre regularmente no final do ano, está levando uma grande apreensão aos produtores locais. Os corredores de produção estão com as estradas estaduais em péssima situação, com o asfalto arruinado ou simplesmente sem qualquer pavimentação, tornando o tráfego quase impossível em muitos trechos. Por essa malha deverão passar nos próximos meses cerca de 2 milhões de toneladas de fertilizantes e corretivos para a safra que começa a ser plantada – depois de haver escoado, também em condições precárias, as 7 milhões de toneladas de grãos da safra anterior. “Não há asfalto novo há dez anos e não é feita a manutenção do existente”, diz o vice-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes do Oeste da Bahia (Aiba), Sérgio Pitt. Ele salienta que quando a empresa transportadora faz o cálculo do frete, coloca na conta o desgaste dos caminhões provocado pelos buracos e lamaçais. O resultado é que a má conservação das vias de acesso às zonas de produção torna o frete de 30% a 35% mais caro. 188

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uma área muito grande, com vários polos agrícolas, e que a produção do estado está fortemente voltada à exportação. Além de infraestrutura viária, há a necessidade de portos de saída, mas a falta de qualificação dos portos locais faz com que os produtores procurem Pernambuco, Ceará ou o Sudeste, configurando a fuga de cargas da Bahia.

Com área equivalente aos estados de Sergipe, Alagoas e Pernambuco juntos, a região Oeste do estado tem, no total, 800 quilômetros de estradas estaduais, por onde é escoada a produção de soja, milho, algodão e outros produtos, geralmente em direção a um porto de saída do país, já que boa parte do que é produzido é destinada à exportação. A área bate recordes mundiais de produtividade, mas não é tão competitiva como poderia ser devido aos problemas de infraestrutura e logística.

Ele acha que, se houver investimentos pesados e racionais nessa área, a Bahia terá muito mais ganhos com a movimentação de produtos, inclusive de estados vizinhos. Afinal, o escoamento da produção vai para onde o custo logístico é mais barato, assinala.

A expectativa dos produtores da região é que a situação venha a ter uma solução definitiva com o funcionamento da Ferrovia Oeste-Leste (Fiol), atualmente em construção, que vai atravessar a área de influência de diversos municípios do cerrado baiano.

Nordeste competitivo

A ferrovia passará a 40 quilômetros do município de Luis Eduardo Magalhães, um dos principais centros produtores do cerrado. Assim, as cargas farão esse pequeno trajeto em caminhão e, uma vez embarcadas nos vagões, irão até o Porto Sul, a ser construído em Aritaguá, em Ilhéus, de onde serão exportadas. Mas, enquanto isso não se torna realidade, as rodovias são a única saída. “Para o Brasil ter ferrovias adequadas vai demorar de cinco a dez anos. Até lá, vamos ter pelo menos que fazer a manutenção das rodovias”, constata o diretor comercial da agroindústria Bagisa, na Chapada Diamantina, Nelson Kamitsuji. “Da porteira para dentro, somos supereficientes; da porteira para fora, falta a lição de casa do governo”, lamenta. A Bagisa, que utiliza a BR-242 - uma das principais vias de acesso à Chapada Diamantina – para escoar seus produtos, é grande produtora de tomate e batata (in natura, pré-frita, chip e palito) para todo o Nordeste do país, além de haver atingido a marca de 1,2 milhão de toneladas/ano de maçã e começar a produzir também caqui e atemoia.

Programa de Rodovias Estaduais no Oeste abrange 800 quilômetros Foto: divulgação

Nesse sentido, cita o estudo Nordeste Competitivo, publicado recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O trabalho foi realizado em parceria com as federações das indústrias dos estados da região, como forma de ajudar o governo no médio e longo prazos a planejar a infraestrutura de transportes e logística regional. A estimativa é que o Nordeste precisa investir R$ 25,8 bilhões nos próximos oito anos para garantir o escoamento de sua produção. Esse é o valor de 83 projetos de ampliação e modernização de rodovias, ferrovias, hidrovias e portos na Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Segundo o estudo, as ferrovias e os portos são os que mais precisam de investimentos. Juntas, as duas malhas vão demandar 90% dos R$ 25,8 bilhões. Outros 9% devem ser investidos nas rodovias e 1% nas hidrovias.

A empresa está integrada ao Agropolo Ibicoara-Mucugê-Barra da Estiva, com 19 empreendimentos de grande, médio e pequeno porte e geração de cinco mil empregos diretos. O Agropolo fornece 50% de todo o tomate e batata consumidos nos estados nordestinos. No pico da produção, saem da área 220 caminhões/dia, de 16 toneladas cada um.

O Nordeste Competitivo levantou os maiores gargalos de infraestrutura da região, salientando que eles podem travar o escoamento da produção dos nove estados para o mercado interno e para a exportação. A CNI afirma que a inciativa está interessada em participar dos investimentos, cujo retorno ocorreria em pouco mais de quatro anos, como resultado da economia de gastos logísticos.

Kamitsuji diz que a Bagisa chega a pagar 30% a mais de frete, enfrentando ainda outro problema: por se tratar de produtos perecíveis, há perda de qualidade, porque a precariedade das estradas frequentemente faz com que a viagem demore um dia a mais.

“Não há asfalto novo há dez anos e não é feita a manutenção do existente ” SÉRGIO PITT, vice-presidente da Aiba

O superintendente de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), João Marcelo Alves, destaca que a Bahia tem

190

191


*

Pelas estradas

7

milhões de toneladas. Esse foi o volume de produção escoado pelo Oeste na safra passada

2

milhões de toneladas de fertilizantes já começam a chegar à região, para o plantio da nova safra

200

caminhões por dia: quanto o Agropolo Ibicoara-Mucugê-Barra da Estiva coloca nas estradas do Oeste no palco da produção

40

quilômetros será a distância entre o município de Luis Eduardo Magalhães e a Ferrovia Oeste-Leste, que chegará a Aritaguá (Ilhéus)

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Produtores dividem custos, mas reclamam das obras Os entendimentos entre a Aiba e o governo do estado vêm desde 2009, em um esforço para desenvolver o Programa de Rodovias Estaduais no Oeste da Bahia, que abrange aproximadamente 800 km. Em março de 2012, a associação entregou ao governo estadual os projetos executivos de engenharia para a implantação e pavimentação da Estrada Timbaúba (45,29 km) e da Estrada da Soja (33,27 km), no total de 78,56 km. Essas duas rodovias estaduais são consideradas as mais estratégicas para o escoamento da safra do cerrado. Foi acordado que as obras da estrada Timbaúba serão realizadas por meio de uma parceria entre o Departamento de Infraestrutura e Transportes da Bahia (Derba) e a Aiba, com a participação de 50% do custeio da obra para cada parceiro. Cabe ao Derba patrocinar todas as máquinas e equipamentos, operadores e apoio técnico, enquanto a Aiba se comprometeu a arcar com o custeio dos insumos para o asfalto, óleo diesel, transporte do material e do fornecimento de água. Segundo a associação, os empresários ligados à entidade já investiram mais de R$ 1 milhão, mas foram feitos somente dois quilômetros de terraplenagem. “Não conseguimos evoluir. Nada foi construído durante esses meses. As chuvas estão voltando e tudo ficará intransitável”, prevê Sérgio Pitt. Por escrito, o Derba informou que teve início a reconstrução na área do entroncamento da BR-020–Timbaúba, “e continuará após concluir esse primeiro trecho, iniciando outros nas proximidades”. O órgão informou ainda que “está prevista a implantação de uma rodovia estruturante ligando o anel da soja à comunidade de Coaceral e desse trecho partirá até o distrito de Panambí”. Os projetos, a cargo da Aiba, estão em conclusão e o Derba pretende licitá-los até 2013, após aprovação do orçamento. Esses estirões, segundo a nota, atravessam toda a área atualmente com maior produção de grãos, denominada Estrada Rodoagro. A área em questão abrange cerca de 600 mil hectares, que respondem por 30% da produção regional.

“A construção do Porto Sul vai auxiliar, mas também é preciso melhorar a malha ferroviária e as estradas”

Área produtiva poderia dobrar com obras de infraestrutura

ERNANI SABAI, assessor de Agronegócios da Aiba

“Hoje, essa região tem uma área agricultável de 2,25 milhões de hectares. Havendo demanda e uma melhoria dessas condições, essa área poderia chegar a 5,2 milhões”, calcula. Isso significaria multiplicar a área de produção em 2,3 vezes. Por conta dos entraves ambientais e de erros nos projetos, o governo foi obrigado a adiar em pelo menos um ano a previsão inicial de entrega da primeira etapa do porto e da Ferrovia Oeste-Leste (Fiol), que ligará o Oeste ao Porto Sul.

O governo da Bahia anunciou, com festa, que o Ibama concedeu o licenciamento prévio para a construção do Porto Sul, próximo a Ilhéus uma das obras consideradas essenciais para melhorar o escoamento da produção do agronegócio do Oeste baiano, e de minério de ferro, na região Centro-Sul. Porém, antes de a obra ser iniciada, o órgão ainda deverá conceder um novo licenciamento, o de implantação, com previsão para sair só em 2013. O assessor de Agronegócios da Aiba, Ernani Sabai, comentou o assunto. “A construção do porto vai auxiliar, mas também é preciso melhorar a malha ferroviária e as estradas”, considerou. Segundo ele, a infraestrutura precária, a demora dos licenciamentos ambientais e a burocracia estatal são os principais empecilhos para um aumento substancial na produção de commodities agrícolas no Oeste do estado.

As duas obras melhorarão o escoamento da produção baiana. Antes com entrega prevista para 2014, as primeiras etapas da ferrovia (IlhéusCaetité) e do porto só poderão ser entregues, no mínimo, em 2015, segundo previsão do governo. Em entrevista à imprensa, o governador Jaques Wagner atribuiu os atrasos a setores contrários à implantação do Porto Sul, sobretudo na área ambiental. “Muitos preferiram ideologizar a questão, dizendo não ao Porto Sul. Agora, esses devem estar achando esse licenciamento uma derrota”, declarou. Ele ainda minimizou a possibilidade de o atraso nas obras afugentar investimentos como o da Bahia Mineração - já instalada no Centro-Sul para explorar minério de ferro. A empresa terá um terminal privado no novo porto e depende das obras para começar a atuar. “Essa hipótese não existe”. Procurada pelo CORREIO, a empresa não se pronunciou.

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Na ponta do lápis Uma fortuna que se perde pelo caminho Quando fecha as porteiras das três fazendas da família no município de Luis Eduardo Magalhães, no Oeste baiano, e embarca nos caminhões a safra de soja, milho ou algodão, o produtor Rubens Franciosi sabe que o trajeto será longo. Com as estradas que cortam a Bahia esburacadas e os portos defasados e sobrecarregados, os produtores baianos já buscam no Sudeste o caminho para escoar a safra. Além do tempo, a nova rota eleva o custo logístico da produção. “Da porteira pra dentro, a gente garante, mas, daqui pra fora, só Deus sabe”, diz o produtor, com forte sotaque gaúcho, apesar dos quase 20 anos em solo baiano. À frente da Sociedade Franciosi, ele se reveza no cultivo de grãos e de algodão nos 10.500 hectares que a família possui. Os entraves começam antes do plantio, com as primeiras chuvas na região Oeste, em meados de outubro e novembro. Os fertilizantes e defensivos que farão a correção do solo já trazem embutidos os preços dos fretes multiplicados por quilômetros percorridos nas rodovias do país até as fazendas. “Os insumos que utilizo na soja chegam da Suíça de navio, param no porto e vêm pra cá em caminhões. São quase mil quilômetros de estrada”, projeta Franciosi.

“O transporte ferroviário, apesar de mais lento, faria o frete de forma mais barata, pela metade” RUBENS FRANCIOSI, dono da Sociedade Franciosi

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O produtor do Oeste baiano estima entre R$ 800, no caso do milho, e R$ 2.400, para o algodão, o custo por hectare com insumos em uma safra. Com a soja, o custo com insumo fica em torno de R$ 900. Desse total, em torno de 45% do custo é com o frete. O produtor explica que esse valor vai impactar diretamente no preço dos grãos produzidos. “O transporte ferroviário, apesar de mais lento, faria o frete de forma mais barata, pela metade”, diz o empresário. Franciosi consegue atenuar o custo logístico, no escoamento da produção, com a manutenção do produto em suas próprias terras. Com um armazém, estoca até 60% da safra e espera o melhor momento para vender o produto, e assim negocia um preço maior. A maioria dos produtores do Oeste improvisa nos caminhões uma espécie de depósito. Os armazéns podem representar economia de R$ 5 no valor final da saca de soja. Entre seguir em uma linha quase reta até o Porto de Salvador pela BR242, alguns produtores do Oeste já buscam os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR) para embarcar a tempo dos contratos a safra. “Ficamos isolados de Salvador. É difícil escoar a produção por lá, o que seria mais óbvio. O porto é muito defasado, os guindastes e maquinários não têm capacidade de transportar tudo”, diz Franciosi.

Confira os valores da safra de soja de Franciosi (2011-2012)

Valor de venda da saca da soja

Reação em cadeia: o alto preço da soja e do milho vai aumentar o preço da carne, já que os grãos são utilizados como principal fonte de alimento pelos criadores de suínos e aves no Brasil.

produtividade

52

de sacas por hectare

R$ média 45 4.200 hectares de soja

218.400 sacas, o equivalente a = 13.104.000 kg custo com insumos da soja

Valor bruto da safra

= R$ 3.780.000

R$ 9.828.000

deste valor, poderia ser economizado até se o insumo fosse transportado até a fazenda de trem. O custo total do insumo, segundo Franciosi, equivale a % da safra

R$ 765.000

38,46

gasto com frete no escoamento da soja desde a fazenda ao porto =R$ 2.620.800 Ele paga R$ 200 por tonelada

195


*

Diferença no preço

R$ 186 foi o custo estimado pelo Imea por hectare com operações agrícolas no Nordeste

R$ 145

foi o custo estimado pelo Imea por hectare com operações agrícolas no Mato Grosso

“Um frete marítimo entre um porto do Sudeste e outro no Nordeste chega a ser mais caro do que levar essa carga para a China” LUIZ ANTONIO FAYET, consultor da CNA

196

Se pudesse embarcar por Salvador, o produtor reduziria à metade a distância que tem de percorrer atualmente para exportar. Assim, o custo, em torno de R$ 3 mil e R$ 4 mil que paga pela carga de algodão, poderia ser reduzido proporcionalmente à metade, segundo avalia. A mesma redução valeria para a soja. O custo para o transporte ficou em torno de R$ 2,50 por saca de soja, perto de 6% do gasto total. Além disso, o custo da navegação entre um porto e outro no Brasil faz com que o transporte fique restrito ao frete rodoviário. “Um frete marítimo entre um porto do Sudeste e outro no Nordeste chega a ser mais caro do que levar essa carga para a China”, explica o consultor da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Luiz Antonio Fayet, palestrante do seminário de Agronegócio do Agenda Bahia 2012, que debateu o Código Florestal e a Logística no Campo. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) estimou em R$ 186 o custo, por hectare, com operações agrícolas no Nordeste no mês de setembro. Em comparação, o Mato Grosso, estado que produz 20% da soja nacional, teve custo de R$ 145 por hectare com mão de obra, colheita, secagem, entre outros processos. “A evolução na qualidade dos equipamentos que fazem a colheita do grão diminui muito a perda na colheita, mas ainda existe”, afirma Fernando Pimentel.

Sobra para o consumidor A sobrecarga faz com que muitos terminais marítimos enfrentem apagões. É o caso dos portos de Santos e Paranaguá, que sofrem constantes engarrafamentos de embarcações. “Navio parado é custo para o dono, mas esse valor vai ser absorvido pelo produtor, que vai repassar para o consumidor no valor final”, explica Fernando Pimentel, consultor da Agrosecurity. Esses custos adicionais podem chegar a 40 mil ou 50 mil dólares por dia. “No momento em que conseguirmos resolver a saída portuária, a ideia é que os produtores ganhem R$ 4 mais por cada saca de soja e milho”, diz Fayet. Quase três milhões de toneladas deixaram de ser produzidas na última safra em função de problemas com os portos, segundo Fayet.

Investimento em modais de baixo custo A soja foi responsável pelo que o consultor da CNA Luiz Antonio Fayet chama de expansão das fronteiras pelo agronegócio. Inicialmente produzida no Sul do país, a soja se expandiu em direção ao arco Norte e fincou terreno em solo baiano. “De 20 anos pra cá, o Brasil se transformou em um dos maiores exportadores de grãos do mundo”, diz Fayet, que projeta a liderança do país no setor até 2020. O desbravamento tem seu ônus: falta estrutura. No Mato Grosso, a Aprosoja tem buscado mapear as perdas com a deficiência de logística. Com o projeto Estradeiro, uma comitiva percorreu aproximadamente 990 quilômetros pela BR-158, além das rodovias BR-364 e BR-163. O objetivo é inspecionar as condições de transporte da produção agropecuária do estado que percorre mais de dois mil quilômetros até os portos por onde será exportada. Segundo Edeon Pereira, diretor do movimento pró-logística do Estradeiros, a falta de opções de modais para o transporte da safra faz com que um aumento no frete inviabilize toda uma cultura. “Não podemos ter um transporte exclusivamente baseado em caminhões. Nós precisamos investir em modais de baixo custo, implementar sistemas ferroviários e hidroviários eficientes, mas também criar novas vias e dar manutenção ao rodoviário”, alerta. “Há momentos em que o valor gasto em fretes chega a 52% do custo da produção”, avalia, ao ressaltar a variação do custo do transporte da soja.

*

O peso na produção

6%

do custo total com a soja, por saca, foi gasto com frete rodoviário das fazendas de Rubens Franciosi , do Oeste até os portos

45%

do custo dos insumos é gasto, em média, no frete entre os portos até as fazendas de Franciosi, no Oeste baiano

R$ 4

é o valor médio que pode ser lucrado por saca se os portos brasileiros forem modernizados, segundo o consultor de Infraestrutura e Logística, Luiz Fayet

197


Os prognósticos da organização apontam crescimento de 4% na União Europeia no período, 10% nos Estados Unidos, 17% em países da Eurásia e nada menos que 40% no Brasil. “O OCDE está pedindo, pela primeira vez, ao Brasil que cresça 40%, para que a oferta de alimentos no mundo possa aumentar 20%”, salientou.

Ex-ministro Roberto Rodrigues aponta as vantagens e diz que o produtor está fazendo a lição de casa no setor Foto: Marina Silva

Na opinião do ex-ministro, isso é perfeitamente possível e, o que é mais importante, pode ser feito de forma sustentável, graças à tecnologia que o país dispõe. “Foi essa tecnologia, desenvolvida a partir de décadas atrás pela Embrapa e outras instituições públicas, que permitiu ao país aumentar sua produção de grãos em 175% nos últimos 20 anos, mas ampliando a área plantada em apenas 35%”, lembrou. “O Brasil tem todas as condições de liderar esse projeto de crescer sua produção em 40%. Nenhum país fez a revolução tecnológica no campo que nós fizemos, capitaneada pela Embrapa”, prosseguiu.

Olha quem vai pôr a mesa Ao abrir o seminário sobre Agronegócio, Código Florestal e Logística no Campo, no fórum Agenda Bahia, o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, afirmou que o Brasil tem todas as condições de liderar um projeto mundial de segurança alimentar e energética, com sustentabilidade, assegurando o atendimento à crescente demanda prevista para os próximos anos, principalmente por parte dos países emergentes. O Brasil tem vantagens comparativas – terra disponível, recursos humanos, tecnologia - e, independentemente de políticas públicas, está fazendo a lição de casa, disse. Rodrigues, que é coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas, citou previsões da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade intergovernamental integrada por 34 países, segundo as quais o Brasil é o país que mais vai crescer na agropecuária até 2020.

“O Brasil tem todas as condições de liderar esse projeto de crescer sua produção em 40%” 198

Aliás, Rodrigues acredita que o agronegócio brasileiro ainda tem muita área para crescer. “O país tem 851 milhões de hectares de área, dos quais 62% são cobertos por florestas nativas. Só 8,5% são cultivados, 20% desses com pastagens. Dizer que o Brasil destrói florestas é uma falácia. Dá para crescer muito”, declarou. Mas, para que isso aconteça, Rodrigues diz que é preciso traçar uma estratégia para o setor, o que o país não tem feito. Ou seja, o governo deve fazer a “lição de casa”. Para o especialista, entre outras coisas, falta uma política de geração de renda com crédito, seguro e preço mínimo ao produtor, e também uma política comercial de agregação de valor aos produtos e de desenvolvimento tecnológico. E mais: é preciso reduzir o Custo Brasil e fazer defesa agropecuária, com rastreabilidade dos produtos. O ex-ministro também aposta na energia renovável, produzida no Brasil. “Podemos levar a nossa experiência em agroenergia para fora e mudar a geopolítica do mundo”, avalia. Mas, para que isso se torne factível, o especialista ressalta que o país precisa ter uma estratégia para o agronegócio, o que não conseguiu até hoje. Os sucessos até agora têm ocorrido independentemente de políticas públicas, que se tornam imprescindíveis quando se fala em aproveitar o gigantesco potencial brasileiro no setor. A estratégia defendida pelo ex-ministro passa por uma política de renda - com crédito, seguro, preços mínimos para o produtor - além de uma política comercial que estimule a agregação de valor aos produtos, política de desenvolvimento tecnológico e redução do chamado Custo Brasil, abrangendo desde a infraestrutura e a logística até os juros, tributos, câmbio e excesso de burocracia.

199


Outro item mencionado pelo ex-ministro foi a intensificação da defesa agropecuária, com estímulo à certificação de rastreabilidade, bem como a maior segurança jurídica - incluindo o cumprimento do Código Florestal, terras para estrangeiros, respeito a contratos e ao direito de propriedade -, a criação de um código agroambiental, promoção do associativismo e cooperativismo e maior comunicação para fora do setor. “Somos inábeis para transmitir às pessoas a importância da agropecuária, que está não só nos alimentos, mas em quase tudo que usamos, como roupas e sapatos. Sem essa comunicação, fica um vácuo entre o urbano e o rural, quando somos irmãos siamenses”, defende. Em suas andanças pelo mundo, participando de conferências e fazendo palestras, o ex-ministro diz ter observado um temor do Brasil agrícola por parte de outros países, devido ao seu grande potencial. Ele encerrou sua palestra comparando o agronegócio brasileiro a um búfalo, que desconhece a força que tem. “Se não traçarmos uma estratégia para o setor, seremos um búfalo atolado”, afirmou.

*

foi o aumento da produção de grãos nos últimos 20 anos

O Brasil está na situação privilegiada de manter 62% de seu território coberto por florestas nativas. A área cultivada ocupa somente 8,5%. A mesma condição existe no que se refere à energia renovável. “Só faz agroenergia quem tem sol o ano inteiro. E os países situados entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, o que inclui toda a América Latina, estão nessa condição”, avalia. Com a tecnologia desenvolvida nesse setor, o especialista acredita que o Brasil conquistou uma posição incomparável. “Podemos levar nossa experiência em agroenergia para fora, mudando a geopolítica mundial”, anima-se. “Tudo é energia. É o que movimenta a economia”, conclui. O foco principal de todo esse crescimento são os países emergentes, onde as condições de vida estão melhorando e o consumo de alimentos e outros itens aumentando. Para Roberto Rodrigues, “o mundo está comendo mais”, enquanto se ressente da falta de combustíveis, o que entrava o mercado de veículos.“Há um mundo onde a demanda cresce e, para atendê-lo com sustentabilidade, é preciso manter um projeto. O Brasil pode liderar esse projeto de segurança alimentar e energética com sustentabilidade”, entende.

Solução Roberto Rodrigues diz que o Brasil está em posição de liderar um projeto global de segurança alimentar e energética, com sustentabilidade

Tecnologia

175%

Tudo é energia

35%

foi o aumento da área plantada no mesmo período de 20 anos

Isso passa pela elaboração de estratégia de crescimento, a ser traçada pelo governo Se fizer a lição de casa, diz ele, o país poderá dar um salto de 40% na produção até o ano 2020

“Podemos levar nossa experiência em agroenergia para fora, mudando a geopolítica mundial”

200

201


Safras recordes para os próximos anos

EXPORTAÇÕES DO AGRONEGÓCIO DESTINOS 2000 186 países

59%

Os dados apresentados pelo ex-ministro Roberto Rodrigues em sua palestra no fórum Agenda Bahia mostram que as exportações dos principais produtos agrícolas colocados pelo Brasil no mercado internacional - soja, milho e açúcar - deverão ter um crescimento expressivo dentro dos próximos dez anos. No caso da soja, o crescimento pode dobrar no período de 2012 a 2022 em relação ao previsto para o mundo. Enquanto as exportações mundiais devem aumentar em 1,8%, a previsão é de que o Brasil registre um crescimento de 3,6%, ressaltou Rodrigues. Para ele, isso mostra uma grande procura pelo produto, que não está sendo atendida.

U.E 27 41% (União Europeia) EUA

18%

Asia 11% (sem China e Oriente Médio) Mercosul

8%

Oriente Médio

5%

Aladi 4% (sem Mercosul) Europa Oriental

Quanto ao açúcar, a projeção é de uma ampliação nas exportações mundiais de 1,4%, ante 2,2% do Brasil. Com isso, a participação dos três produtos brasileiros no mercado mundial vai passar de 34,7% para 41,2% , no caso da soja; o milho registrará alguma queda - de 10,3% hoje para 9,5% de participação em 2022; e o açúcar vai pular dos atuais 67,6% para 73%.

3%

3% África (sem Oriente Médio) China

3%

Demais

5%

Roberto Rodrigues lembrou que as exportações do agronegócio brasileiro, que no ano 2000 atendiam apenas 186 países, hoje chegam a 214, reduzindo a dependência do Brasil em relação aos mercados dos Estados Unidos e da União Europeia. Os novos clientes são, principalmente, os asiáticos, com destaque para a China.

2011 214 países

32%

U.E 27

25%

China

17%

15% Asia (sem China e Or. Médio)

7%

Europa Oriental

6%

Aladi 5% (sem Mercosul) Mercosul

3%

Demais

3%

202

FONTE: MAPA ELABORAÇÃO: FIESP - DEAGRO

9% África (sem Oriente Médio) EUA

Para o milho - que como a soja é um importante produto de exportação do cerrado baiano - as projeções são de que tenha um crescimento no mesmo nível das exportações mundiais, ficando em 3,4%.

Essa demanda intensa, de acordo com o ex-ministro, está ligada à melhoria das condições de vida dos emergentes. “Nos países ricos, quem ganha US$ 10 mil e passa a ganhar US$ 20 mil não passa a comer mais um ovo no café da manhã por causa disso. Mas quem recebe US$ 200 e passa a ganhar US$ 400, com certeza vai consumir mais alimentos”, exemplificou. Esse fato, além da seca que dizimou a safra americana de grãos, fez com que a oferta de alimentos no mundo se reduzisse drasticamente, disse ele.

*

Lição de casa, segundo Rodrigues

Política de renda Garantia de crédito, seguro e preço mínimo ao produtor para estimular ainda mais a produção

Política comercial Estimular a agregação de valor aos produtos comercializados para aumentar mais receita no agronegócio

Defesa agropecuária Fiscalizar melhor as fronteiras, barreiras sanitárias e implementar a certificação de rastreabilidade

Segurança jurídica

Jeca Tatu é coisa do passado Quando Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, escreveu para o rei Dom Manoel dizendo que nestas terras “em se plantando, tudo dá”, estava mentindo. Na verdade, conforme observou em sua bem-humorada palestra o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, os solos brasileiros são, em geral, pobres, com poucas ‘manchas’ de fertilidade. Nos cerrados, por exemplo, é preciso corrigir o solo arenoso e ácido com calcário, nitrogênio, potássio e fósforo. O que fez com que os cerrados tivessem uma explosão de produtividade foi o uso da tecnologia, que adaptou solos e sementes, e lançou mão da irrigação e da mecanização. Hoje, só no cerrado baiano, há mil pivôs centrais, uma das maiores concentrações do Brasil. Rodrigues continuou na linha da literatura para avisar que o famoso personagem de Monteiro Lobato, Jeca Tatu, o roceiro doente, miserável e bronco, há muito deixou de existir. O desenvolvimento da agropecuária, disse, melhorou em muito as condições de vida do agricultor brasileiro, que cada vez mais está informado sobre assuntos como o comportamento do mercado e as medidas tomadas pelo governo no setor. Em tempo: o ex-ministro voltou a reivindicar uma política tecnológica para a agricultura, de modo a garantir que a atual trajetória de sucesso não fique pelo meio do caminho.

Fazer valer o Código Florestal, as regras para a compra de terras por estrangeiros, respeito a contratos

DINAMISMO DAS EXPORTAÇÕES (BRASIL E MUNDO) CRESCIMENTO ANUAL 2002-2011 2012-2022

SOJA

7,8%

6,5%

MILHO 2,3% Mundo

AÇÚCAR

Brasil

Mundo

41,2%

10,3%

9,5%

67,6%

73%

Brasil

20,7% 6,5% Brasil

3,4% 3,4% Mundo

Brasil

8,2%

2,8% Mundo

34,7%

3,6%

1,8% Mundo

MARKET SHARE DO BRASIL 2011 2022

1,4% 2,2% Brasil

Mundo

Brasil FONTE: OUTLOOK BRASIL 2022 E FAPRI

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Mais ciência, menos ideologia Entrevista com Roberto Rodrigues Segurança alimentar é um tema que está na ordem do dia em todo o mundo, quando se discute sobre abastecimento. Produção sustentável, certificação de origem e questões afins são preocupações que hoje afetam a todos e, neste particular, o novo Código Florestal pode vir a beneficiar o Brasil, conferindo um diferencial de qualidade a seus produtos agrícolas. É o que pensa o exministro da Agricultura, o engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas. Apesar de esperar bons resultados da aplicação do código, Rodrigues se diz decepcionado com o enfoque dado às discussões, que, na sua opinião, resultaram em debates mais politizados e sem base técnico-científica. Rodrigues considera que o país seria mais beneficiado se tivesse um código agroambiental em que a área florestal fosse um capítulo importante. Seja como for, Roberto Rodrigues acha que o sucesso do que está posto vai depender do empenho conjunto dos governos federal, estaduais e municipais, ao lado de entidades privadas do setor, inclusive para o esclarecimento dos pequenos e médios produtores sobre a importância da nova lei. Esses agricultores, segundo entende, vão também precisar de apoio dos governos no que diz respeito a financiamentos, a fim de que possam adequar suas propriedades às novas regras. Para Roberto Rodrigues, o novo Código Florestal deve ser bem divulgado para atrair a atenção da sociedade Foto: divulgação

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Quais as mudanças mais significativas que o senhor identifica no novo Código Florestal brasileiro? Em primeiro lugar, quero dizer que achei a discussão do Código Florestal ridícula, com um monte de pessoas que não sabia do que estava falando, não entendia nada. Acabaram falando bobagem, ideologizando, apaixonando, radicalizando uma coisa que era tão fácil de ser resolvida no bom senso do equilíbrio. Tenho uma grande tristeza, uma grande frustração pela forma como se processou a discussão do Código Florestal. Floresta é uma coisa importantíssima. Não é mais importante do que a água, por exemplo. E há uma ligação entre ambas. É tão importante quanto a conservação do solo. Estão todas

interligadas. Portanto, muito mais importante do que um código florestal é um código ambiental, do qual o código florestal seja um capítulo relevante, mas não o único capítulo. O que há de mais importante no texto da nova legislação, no que diz respeito ao agronegócio? Uma das coisas mais relevantes do novo código é o CAR, o Cadastro Ambiental Rural, que vai permitir um controle mais consistente do que seja a cobertura vegetal e florestal brasileira. Mas a minha tese é que se tenha um código ambiental do qual participe o Código Florestal com todas as questões que estão ali colocadas. Considero uma tristeza a forma com que foi conduzida a discussão do Código Florestal. Inclusive porque uma boa parte da numerologia que lá está escrita é inteiramente cabalística. Por que se deve preservar 80% da Reserva Legal da Amazônia e não 90% ou 73%? Por que são 20% no Sul e não 50%? De onde surgiram estes números? Então, tudo foi feito às escuras, sem se basear em ideias, estudos? Claro que há ideias, mas não há um lastro técnico-científico na formulação desses números, que deveriam ser colocados por órgãos de pesquisa como Embrapa, universidades, órgãos estaduais, mostrando com clareza o limite de cada região em função de relevo, tipo de solo, vocação do uso daquele solo, etc. Faltou base técnica na discussão, que virou política, sem lógica científica. Foi uma discussão infeliz, que poderia ser muito mais abrangente, muito mais objetiva para o interesse da nação inteira se fosse um código ambiental. E nesse código ambiental que o senhor defende, como deve ser abordada a questão do agronegócio? Não se pode isolar o código ambiental da produção sustentável do agronegócio brasileiro, seja para alimentos, para fibras, para energia, seja o que for. O que defendo é a ampla discussão de um código agroambiental, do qual a questão do meio ambiente seja um ponto fundamental e a questão florestal seja um capítulo. Defendo uma discussão para a formulação de uma estratégia para o desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro, que seria um código agroambiental, cuja discussão é muito oportuna após a Rio+20. O senhor identifica algum diferencial competitivo para os produtos agrícolas brasileiros? Teoricamente, sim. Há uma pressão crescente no mundo comercial sobre a questão da sustentabilidade, rastreabilidade, certificação, que são palavras que ganharam uma dimensão e estão a todo momento nas discussões mundiais sobre segurança alimentar. Um código ambiental, florestal, que defenda com vigor a sustentabilidade produtiva terá vantagens, porque os produtos brasileiros terão um reconhecimento a partir dessa legislação. 205


O código deverá, então, ajudar o Brasil a se firmar como grande produtor mundial de alimentos? Esta seca nos Estados Unidos, que está atingindo a safra de Verão com uma quebra de 120 milhões de toneladas na produção de milho e soja em relação às estimativas iniciais, mostra uma brutal precariedade dos sistemas produtivos mundiais. Para se ter uma ideia, a quebra da safra americana é igual à safra brasileira de milho e soja juntas. As discussões internacionais sobre segurança alimentar estão voltadas muito preferencialmente para o abastecimento, como se fosse possível abastecer sem produzir. A visão dos governos é uma visão política em busca de votos, é muito mais voltada para o consumidor, e portanto para o abastecimento, do que para o produtor, que é uma minoria em termos numéricos eleitorais, eleitoreiros. Fala-se em abastecimento sem falar em produção, estocagem, etc. E o que acontece é isso: um único ano destrói o potencial de abastecimento alimentar global. Quais os principais desafios a serem enfrentados pelo agronegócio brasileiro em relação ao Código Florestal? Os desafios são de caráter financeiro, na medida em que os produtores vão ter gastos na recuperação de APPs, em financiamentos, mecanismos de validação do projeto, economicamente falando. Quando se fala no agronegócio, ou mesmo na agropecuária brasileira, se fala em um setor econômico importantíssimo, que representa 23% do PIB. Mas às vezes não se fala nas pessoas. Eu digo que o setor vai ter alguns problemas para resolver, que não serão graves, mas pessoas serão afetadas. Sobretudo os pequenos e médios produtores rurais, que terão uma carga pesada em cima deles, seja pela redução da produção, seja pela necessidade de recompor áreas, seja pela função do CAR. Alguns terão prejuízos. O setor de maneira geral não terá grandes problemas, mas algumas pessoas dentro dele terão. É preciso olhar os casos individuais e encontrar soluções que mitiguem os problemas desses produtores.

“As discussões internacionais estão voltadas para o abastecimento, como se fosse possível abastecer sem produzir”

“Os desafios são de caráter financeiro, na medida em que os produtores vão ter gastos na recuperação das APPs”

Na Bahia, a maioria dos produtores agrícolas se dedica à agricultura familiar. Eles vão ficar mais vulneráveis? Estes estarão mais expostos e vulneráveis. Os governos estaduais, cada estado com suas peculiaridades, deveriam estar atentos às pessoas e procurar mitigar os seus problemas, com financiamento, eventualmente com algum fundo perdido bancado pelo próprio estado, para que as perdas, se existirem, não sejam determinantes do fracasso desses produtores. O código anterior era considerado mais rigoroso, mas nunca foi cumprido integralmente. Deverá ser diferente com o atual? O que se tinha não era consistente com a realidade e foi sendo modificado por medidas provisórias nos últimos 15, 20 anos, que nunca se consolidavam numa lei completa. O esforço é para criar uma lei definitiva que seja consistente com a realidade brasileira. Agora, daí a colocá-la em prática, há um longo caminho a ser percorrido. Vai depender de um esforço coletivo que incorpore, inclusive, os governos municipais. Em que governos federal, estaduais e municipais se somem a entidades de classe do setor privado, num enlace em torno do código agroambiental, em benefício do país. Esse é o tema, e aí a questão central é informação, educação. Na prática, o que deve ser feito para levar informação e educação sobre a nova lei a todo o Brasil, especialmente aos produtores rurais? Deve-se mostrar as vantagens, os ganhos, os benefícios a serem obtidos por todo mundo, seja o produtor, seja o setor urbano, com a implementação verdadeira do código. As pessoas têm que se sentir atraídas e beneficiadas pelo projeto. Se houver rejeição por desinformação, como ocorreu na fase de discussão, não vamos avançar. Mesmo no meio rural, existe esta desinformação. Vai ser preciso traduzir para as pessoas o alcance do código e as suas consequências, didaticamente, sociologicamente. Deve ser como uma cartilha de esclarecimento, um trabalho quase missionário.

Para Roberto Rodrigues, a agricultura familiar vai precisar de ajuda para se adaptar ao Código Florestal Foto: Mateus Pereira/Secom

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Desafio

Na liderança mundial O Brasil deve assumir a liderança da produção internacional de grãos até o final desta década . E a Bahia, com recorde de safras, tem um papel importante nessa nova posição. Para isso, o país conta com alguns fatores que o deixam na posição de sortudo no mercado mundial de soja e milho. Segundo o economista e consultor em logística e infraestrutura da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) Luiz Antonio Fayet, um dos palestrantes do seminário de Agronegócio, a localização favorável, no Hemisfério Sul, faz com que o Brasil não sofra grandes variações do clima, como ocorre nos Estados Unidos. “Temos produtores no Paraná que conseguem tirar três safras por ano, isso sem manipulação química. O Brasil não tem períodos de entressafra e é capaz de produzir soja e milho o ano inteiro”, explica. Além disso, o país não enfrenta os problemas dos dois maiores concorrentes nesse mercado, os Estados Unidos e a Argentina: a falta de terras. “O mundo depende do agronegócio brasileiro mais do que do petróleo produzido por qualquer país do mundo atualmente”, diz. Fayet explica que o Brasil mudou de patamar na economia internacional. Segundo levantamento da CNA, o país produziu 12,736 milhões de Foto: Arisson Marinho

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O peso da infraestrutura

R$ 20

é o valor dado como exemplo por Fayet por saca de grãos em Sorriso, no Mato Grosso

R$ 4

seria o valor de economia em cada saca, caso os gargalos do sistema portuário fossem solucionados

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quinto do valor da saca voltaria para o bolso do produtor no interior do país. “E que seriam injetados na economia do município”. Segundo Luiz Fayet (foto), todas as regiões do país sofrem do mesmo problema

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Para Luiz Fayet, o Brasil deve assumir a liderança de produção de grãos até o final da década e para isso precisa resolver os problemas de logística Um exemplo dado pelo especialista: o custo do frete Paranaguá (Paraná)-Xangai (China) sai mais barato do que Paranaguá-Recife

“Os grãos do Nordeste vão alimentar os frangos produzidos no Sudeste, e por isso essa região é uma das maiores produtoras no mundo”

toneladas de grãos no ano de 1992. Vinte anos depois, em 2002, a produção quadruplicou e produziu 48.893 milhões de toneladas. Já na safra 2011/2012, o país colheu a safra recorde de 165,9 milhões de toneladas de grãos. “Antes, nós seguíamos a reboque, hoje nós somos a locomotiva do mercado mundial de grãos”, disse. O consultor ainda aponta a vanguarda tecnológica do agronegócio brasileiro como fator determinante para o sucesso do setor na economia mundial. “A indústria brasileira está atrás do agronegócio em termos de tecnologia”, afirmou Fayet. Fayet aponta o destaque das regiões Norte e Nordeste na produção dos grãos no país. O especialista ressalta as produções da Bahia e do Piauí como lideranças na região. Essa área produz mais da metade dos grãos consumidos na parte Sul e Sudeste do país. Aproximadamente 50 milhões de toneladas de grãos viajarão pelas rodovias para serem exportados nos portos do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Espírito Santo, aponta. “Os grãos do Nordeste ainda vão alimentar os frangos produzidos no Sudeste, e por isso essa região é uma das maiores produtoras do setor no mundo”, diz. Ele aponta que se os problemas de infraestrutura dos portos fossem reduzidos os custos com produção seriam menores. “Os portos têm de ser modernizados. E isso leva tempo, leva bastante tempo, porque porto não é vendido em prateleira de supermercado. Nós vamos precisar de muitos anos para fazer a transformação logística portuária que precisamos”, afirma Fayet. Para garantir a liderança até 2020, como preveem os estudos da CNA, Fayet aponta um tripé a ser resolvido para a evolução do agronegócio brasileiro: a tributação, considerada das mais altas entre os países produtores, a insegurança jurídica, em razão das constantes modificações e revogações de leis criadas para resolver problemas do setor, e a infraestrutura deficiente. Nesse último, Fayet identifica problemas nas rodovias esburacadas, a falta de modelos de transportes que acabem com a dependência do sistema rodoviário e os portos sobrecarregados. A má conservação das rovovias de acesso às zonas de produção torna o frete entre 30% e 35% mais caro. O alto custo logístico para escoamento da produção é o principal entrave para que o agronegócio se torne mais competitivo no cenário nacional e internacional. “Há 50 anos, nós éramos importadores de alimento. Há 20 anos, o país entrou na janelinha de vendedor. Hoje, nós somos um fornecedor de alimentos muito disputado”, diz o economista. Da safra recorde esperada para a produção de grãos em 2012, cerca de três milhões de toneladas deixaram de ser produzidas por conta dos

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Solução Segundo Fayet, o Brasil comete erro ao não apostar na modernização dos portos. “Estamos atrasados em relação a outros países do mundo. Precisamos deixar que a livre iniciativa faça o que for preciso para resolver a questão

problemas envolvendo os portos brasileiros. Segundo Luiz Antonio Fayet, essa é apenas a ponta de um grave problema de logística que envolve a produção do agronegócio brasileiro. “Esses produtores desistiram por conta dos custos logísticos com os portos brasileiros. E por que não tem porto? Isso é muito triste”, afirmou Fayet. Os principais portos (Santos, em São Paulo, e Paranaguá, no Paraná) acabam recebendo o excedente escoado pela produção na parte Norte e Nordeste do país, aproximadamente 45 milhões de toneladas de grãos. Essa região, na qual estão localizados os municípios baianos produtores de soja e milho, é responsável por 52% da produção nacional.

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A FATIA DO NORTE-NORDESTE

Arco Norte Regiões Norte e Nordeste produzem 52% dos grãos do agronegócio. Nessa região, destacam-se Piauí e Bahia

Excedente Cerca de 45 milhões de toneladas de grãos foram exportados do Arco Norte para as regiões Sul e Sudeste do país

Alto custo Com o alto custo da navegação entre os portos brasileiros, os produtores escoam a produção de grãos pelas rodovias do país

Portos Quando saem das rodovias, os grãos enfrentam os apagões dos portos e a dificuldade de escoamento da produção

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Perdas

3 milhões

de toneladas deixaram de ser produzidas pela sobrecarga nos portos brasileiros

País vive apagão portuário Da safra recorde esperada para a produção de grãos em 2012, cerca de três milhões de toneladas deixaram de ser produzidas por conta dos problemas envolvendo os portos brasileiros. O número, revelado pelo economista e consultor em logística e infraestrutura da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) Luiz Antonio Fayet, mostra apenas a ponta de um grave problema de logística que envolve a produção do agronegócio brasileiro. “Os portos estão esgotados e, por conta dessa sobrecarga, os produtores acabam jogando toda a safra nas rodovias brasileiras. Por isso que as estradas estão acabadas, esburacadas, destruídas pelos caminhões que fazem esse transporte”, diz Fayet. O especialista projeta que, ao resolver os problemas com os portos, os produtores terão lucro, em média, de R$ 4 por saco dos grãos. “Esse valor é significativo. Imagine um produtor de milho que vende a saca por R$ 20 lá em Sorriso, no Mato Grosso. Esses R$ 4 iriam direto para o bolso dele, lá no interior do país, e seriam injetados na economia do município. O dinheiro ficaria aqui no país e não fora”, explica o economista. Segundo Fayet, o governo está atento à questão que causa prejuízo significativo ao Produto Interno Bruto (PIB) nacional. “O governo lançou uma série de pacotes que prometem resolver essa questão logística, melhorar a qualidade dos portos, modernizá-los, e isso realmente precisa de muito investimento financeiro”, diz. “O Brasil está travado por conta da infraestrutura deficitária. Mas é preciso dizer que nós temos um diálogo bastante aberto com o governo federal. E isso é fundamental para resolver a questão”, afirmou. O economista afirmou que o alto custo da navegação de cabotagem, que é a navegação comercial realizada entre os portos nacionais, empurra o transporte da safra para as rodovias. “Só para se ter uma ideia do absurdo, se um navio carrega no Paraná para Pernambuco, paga mais do que ir para a China”, diz.

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Organização das Nações Unidas para Agricultura (FAO), lembrou da seca americana que elevou os preços agrícolas no mundo inteiro. “Isso demonstra a fragilidade dos programas mundiais de segurança alimentar”, destacou. E sugeriu que haja no Brasil, para que a segurança alimentar seja garantida, maior preocupação também com a produção e o armazenamento - e não apenas com o abastecimento, “que garante voto”.

Rachel Vita, editoraexecutiva de Conteúdo do Agenda Bahia e mediadora do debate, com Ornelas, Lopes, Rodrigues e Sales Foto: Marina Silva

Selo verde para o agricultor O governo da Bahia planeja criar uma espécie de selo verde para a área de irrigação, a fim de incentivar os produtores rurais a usar a água em suas lavouras de maneira racional, econômica e sustentável. O anúncio foi feito pelo secretário da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária da Bahia, Eduardo Salles, ao participar do debate sobre a sustentabilidade no agronegócio baiano. A certificação está sendo discutida entre as Secretarias de Agricultura e do Meio Ambiente, que vão criar uma pontuação para avaliar a ação de cada usuário da irrigação. Quanto mais o produtor adotar técnicas modernas, como a pressurização – que reduz o consumo de água – ou a instalação de estações meteorológicas, para decidir quando e como irrigar com eficiência de acordo com o ciclo da cultura, mais pontos obterá. “O selo será vantajoso não só para o produtor como para o país”, acredita Eduardo Salles, que destacou a importância de estimular a utilização eficiente da água no campo, de modo a alcançar maior produtividade com menos custos. O secretário reconheceu que os sistemas em uso na zona rural da Bahia são arcaicos, ainda lançando mão, muitas vezes, de técnicas de inundação para irrigar lavouras, o que resulta em desperdício, e de pivôs centrais, que apresentam um consumo exagerado de água. O presidente da Assocafé, João Lopes Araújo, que também participou do debate, considerou o lançamento do selo fundamental para atingir o objetivo do produtor, que é agregar valor, advertindo, porém, que isso deverá demandar um longo processo de conscientização. Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que também participou do debate, criar uma certificação, através do Selo Verde, deverá colaborar para a inserção do agronegócio do estado no mercado internacional. O especialista, que também é embaixador especial da

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Salles disse ainda que foram adquiridas sete estações meteorológicas, já instaladas em sete distritos de irrigação pública. “Acho que o caminho é este”, afirmou, adiantando que a ideia é lançar o selo verde em 2013, mesmo admitindo que terá de enfrentar dificuldades burocráticas. No debate, o secretário informou que está articulando, junto com colegas de outros estados, uma proposta ao governo federal com vistas ao lançamento de um PAC do Semiárido – já batizado de PAC da Seca – para financiar obras que possibilitem ao sertanejo nordestino sobreviver durante a estiagem, alimentar os animais e conviver com o problema. A reforma do Código Florestal também esteve entre as questões debatidas no Agenda Bahia 2012. Apesar de admitir que o documento não atende a todas as demandas, os participantes concordaram que as mudanças aprovadas pela presidente Dilma Rousseff representam avanços. Para o presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo, o país se tornou exemplo mundial no quesito meio ambiente. “O produtor brasileiro está disponibilizando área para servir de reserva legal – fora a Área de Preservação Permanente (APP) que é inquestionável – sem nenhuma remuneração, o que qualquer país do mundo exige”, explica. Apesar de fazer restrições ao código recém-aprovado, o exministro Roberto Rodrigues considerou que a nova lei irá colocar fim ao vazio jurídico que existia no campo. O professor de Economia Rural da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Jackson Ornelas defendeu que, além do aperfeiçoamento do código, haja investimento em inovações tecnológicas, fundamentais para garantir a sustentabilidade na agropecuária. “Os códigos e os aperfeiçoamentos deles tendem a incorporar o padrão da sociedade no meio ambiente, que é o futuro de qualquer nação. Sem dúvida, é um avanço (a reformulação do Código Florestal). Nos anos 80, ninguém sabia o que era meio ambiente. Porém, a sustentabilidade também precisa ser garantida com inovação”, frisou Ornelas.

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Um programa para o semiárido

Foto: Marina Silva

Foto: Marina Silva

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Código mais amplo do que o florestal

Avaliando o meio ambiente como o “futuro de qualquer nação”, o professor de Economia Rural da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Jackson Ornelas defendeu em sua participação no debate que, além do aperfeiçoamento do Código Florestal, as inovações tecnológicas são fundamentais para garantir a sustentabilidade da agropecuária.

Mesmo considerando que o novo Código Florestal está longe de ser o desejável, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues reconheceu no primeiro debate do seminário Agenda Bahia 2012, sobre Agronegócio, que a legislação vem preencher “um vazio jurídico brutal, que deixava os produtores rurais na posição de criminosos”.

“Os códigos e os aperfeiçoamentos deles tendem a incorporar o padrão da sociedade no meio ambiente, que é o futuro de qualquer nação. Sem dúvida, o Código Florestal é um avanço. Nos anos 80, ninguém sabia o que era meio ambiente. Porém, a sustentabilidade também precisa ser garantida com inovação”, considerou. Ornelas abordou também que o país não tem “convivência possível” com o Semiárido, o que torna imprescindível um programa voltado para essa questão. “Não temos políticas de infraestrutura, apenas pequenas ações muito limitadas”.

O especialista lembrou que fronteiras agrícolas mais recentes, como o Oeste baiano, foram ocupadas quando não havia regras claras e, mais tarde, os agricultores passaram a ser exigidos. “O código não é perfeito, coloca obrigações que não poderão ser cumpridas no tempo estabelecido pela lei”. Para Rodrigues, a grande demanda do país é em relação a um código agroambiental, já que, segundo entende, “tão ou mais importante do que as florestas é a água, ou os solos”. No código mais abrangente que defende, a questão florestal entraria como uma parte de grande relevância.

Foto: Marina Silva

Avanço com ações no meio ambiente

Doze mil processos em análise com a nova lei

Apesar de não atender a todas as demandas, o novo Código Florestal torna o Brasil exemplo mundial no quesito meio ambiente, na opinião do presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo. “O produtor brasileiro está disponibilizando área para servir de reserva legal – fora a Área de Preservação Permanente (APP) que é inquestionável – sem nenhuma remuneração, o que qualquer país do mundo exige. A gente paga pelo passado, mas o nosso país é exemplo de avanço”, criticou.

O secretário da Agricultura, Eduardo Sales, disse que o governo da Bahia está às voltas com 12 mil processos de propriedades rurais, que precisam ser licenciadas de acordo com a nova legislação florestal. Sales admitiu que o Estado não tem a velocidade que o empresário deseja para resolver suas questões. “Mas os passos que estão sendo dados são passos estruturantes”, acredita o secretário da Agricultura.

Durante sua participação no debate, Araújo mostrou-se reticente quanto aos efeitos econômicos provocados pelo aquecimento global, segundo relatório do Banco Mundial, divulgado no início da semana. “Não há unanimidade de informações. Temos muito terreno para percorrer antes de ter essa convicção, quase terrorista”, analisou.

Foto: Marina Silva

Eduardo Sales citou as mudanças no Conselho Estadual de Meio Ambiente, formado por representantes de setores da sociedade nem sempre familiarizados com a área, “que deixou de ser licenciador para se tornar um órgão consultivo”. Embora esteja convencido de que o novo código não é o ideal “nem para a agricultura, nem para o meio ambiente”, Sales concorda que a legislação é importante para dar estabilidade jurídica ao setor.

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Redução do Custo Bahia Diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP), José Vicente Caixeta Filho criticou a falta de investimentos em infraestrutura e logística no agronegócio baiano, setor responsável por cerca de 30% do PIB estadual. “O passo no crescimento da produção agrícola é maior do que o passo em logística e infraestrutura, o que é muito ruim para os empresários e produtores”, disse Caixeta Filho, durante palestra no Agenda Bahia 2012. O professor afirmou que a construção da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) é fundamental para aumentar a competitividade dos agricultores baianos, mas mostrou ceticismo em relação aos trabalhos. “Se funcionar bem, em cinco anos tudo estará resolvido. Se o funcionamento for normal, o prazo aumenta para dez anos e, se for mal, para 20. Essa é a aflição que os produtores acabam sofrendo”, revela. Anunciada pelo governo federal, a Ferrovia Leste-Oeste vai ligar Ilhéus (BA) a Figueirópolis (TO), num total de 1.500 quilômetros, dos quais 1.100 cortando 49 municípios da Bahia, segundo informações da Secretaria do Planejamento (Seplan). A obra tem custo estimado de R$ 6 bilhões. Caixeta Filho defende investimento em infraestrutura: “Nos próximos 20 anos, o Brasil ainda será muito dependente das rodovias” Foto: Marina Silva

Caixeta Filho também defendeu a operacionalidade da hidrovia do Rio São Francisco. “Não há (no São Francisco) a necessidade de uma obra grandiosa para facilitar a movimentação de cargas. Existe, sim, a urgência de implementar práticas eficientes de gestão”, acrescentou. As duas obras, segundo o professor, ajudariam os agricultores baianos a reduzirem suas dependências pelo modal rodoviário. “Nos próximos 20 anos, o Brasil ainda será muito dependente das rodovias, mas é preciso diversificar para reduzir o preço total da cadeia produtiva”, diz. Segundo o professor, os custos logísticos no preço final dos insumos e produtos agrícolas movimentados dentro do território brasileiro podem ser bastante representativos por alguns fatores. “Normalmente, as cargas agrícolas têm baixo valor agregado, nossa dependência com o transporte rodoviário é muito grande e temos dimensão continental. Todos esses fatores implicam em custos adicionais”, disse Caixeta Filho. O professor da USP citou como exemplo o transporte de soja entre Campo Novo (RS) e Porto Velho (RO). “Quase 3.300 quilômetros separam essas duas cidades. É muita distância rodoviária a ser percorrida por um produto de baixo valor agregado”, lembra. Para o professor, alguns gargalos logísticos ameaçam a economia brasileira e necessitam de investimentos a curto prazo. “Não podemos ficar tão dependentes da malha rodoviária. É preciso aumentar a oferta das malhas ferroviária, hidroviária e dutoviária, consolidar a modernização da estrutura portuária e instalar terminais terrestres que facilitem a implementação de soluções logísticas integradas que incluam práticas intermodais (rodovia + ferrovia; rodovia + hidrovia; rodovia + ferrovia + hidrovia, etc) e aumentar a capacidade (estática) instalada de silos e armazéns”, disse o diretor da Esalq. Na opinião de Caixeta Filho, os gargalos provocam a perda de competitividade dos produtos agrícolas brasileiros nos mercados interno e externo. “No mercado interno, uma carga de baixo valor agregado, perecível e mal-acondicionada, pode chegar a seu ponto de destino com níveis exagerados de perdas físicas. No mercado externo, mesmo com os nossos custos de produção bastante competitivos, as despesas logísticas podem comprometer o sucesso da negociação”, revela. Em sua palestra, José Vicente Caixeta Filho classificou os gargalos como “monstros e fantasmas” e disse que países que competem com o Brasil também enfrentam os mesmos problemas: “A Rússia, a China e a Índia, só para ficar nessas três nações, também têm desafios de natureza logística semelhantes aos do Brasil”.

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Para o palestrante, os caminhos para melhorar a infraestrutura logística passam pela economia de escala, eficiência nos processos, baixa ociosidade, organização, sincronia e integração das atividades. “Hoje, para se exercer a logística profissional, é preciso investir em software e hardware. Todos os estudos apontam que as empresas que valorizam a pesquisa e o desenvolvimento têm muito mais chances de sucesso”.

Desafio

Solução

Para Caixeta Filho, vencer a dependência quase absoluta da malha rodoviária, modalidade de transporte que encarece o frete e provoca perdas

Resgatar a importância dos modais ferroviário e hidroviário como forma de baratear os custos

Aumentar, através de pesquisas, o valor agregado dos produtos Implantar novos polos de armazenamento, com custo inferior às estruturas convencionais Concluir as obras do PAC direcionadas ao setor agropecuário

Sincronizar e integrar as atividades dentro da cadeia produtiva Utilizar o transporte aéreo para transportar cargas fracionadas de alto valor agregado Concluir a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) Organizar administrativamente as empresas do setor agropecuário

Longa estrada até a eficiência Apesar das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e das promessas do governo federal em investir em novos modais de transporte, nos próximos 20 anos o agronegócio brasileiro será ainda muito dependente das rodovias, de acordo com estudos feitos pelo professor José Vicente Caixeta Filho, diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP). “A dependência da modalidade rodoviária é um agravante para os problemas enfrentados pelos produtores porque o Brasil tem dimensões continentais. Temos de levar em consideração que o transporte rodoviário apresenta baixa produtividade, pequena eficiência energética e alto índice de emissão de poluentes”, disse o professor. Durante o evento, o professor lembrou que as condições de trafegabilidade das estradas brasileiras têm melhorado nos últimos anos. Mesmo assim, uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte mostra que há muito o que fazer. Dos 95,7 mil quilômetros avaliados este ano, 60 mil (62,7%) apresentam algum tipo de deficiência. O professor disse, ainda, que alguns investimentos precisam ser feitos para dar mais competitividade ao agronegócio brasileiro. “Temos de aumentar as nossas malhas ferroviária, hidroviária (fluvial, basicamente) e dutoviária (especializada para a movimentação de combustíveis e de etanol, em particular), consolidar a modernização da estrutura portuária e ampliar a capacidade instalada de silos e armazéns.

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Recuperação

60

mil quilômetros (dos 95,7 mil) de rodovias brasileiras avaliados este ano pela CNT apresentam algum tipo de deficiência

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170

bilhões de reais são necessários para modernizar a infraestrutura rodoviária do país, com obras de duplicação, sinalização e pavimentação

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Logística que não funciona

BA-116 BR-324

BR-020

Infográfico: Logística que não funciona

Assim como em todo o Brasil, na Bahia, a logística do agronegócio é concentrada no modal rodoviário. O chamado ‘rodoviarismo’ sobrepôs-se a modais mais apropriados ao transporte de bens oriundos do campo, nem sempre de elevado valor agregado. Como o frete cobrado por caminhões é relativamente mais elevado que o cobrado por trens ou navios, isso encarece o transporte e, por tabela, o custo final de produtos agrícolas. O pior é que, mesmo com a opção de construir rodovias em vez de ferrovias ou de privilegiar as hidrovias, isso não significa que tenhamos estradas na quantidade necessária ao escoamento de toda produção do campo.

BAIXO MÉDIO SÃO FRANCISCO

BR-407

NORDESTE BR-324

BR-135

BR-020

IRECÊ

PIEMONTE DA DIAMANTINA

BA-116

BR-324 BR-407 BA-099 BR-242 BR-242

PARAGUAÇU

BR-242

BR-101

BA-116

BR-135

BR-242

LITORAL NORTE

BR-324 BA-099

CHAPADA DIAMANTINA

OESTE MÉDIO SÃO FRANCISCO

BR-135 BR-020

Transporte de mercadorias na Bahia Custo de transporte por modal (% sobre valor do bem)

O que cada modal deve transportar

Rodovias

Ferrovias

93% 2%

Hidrovias

Avião

4%

1%

10% 6,5% 5% 15% Produtos industrializados de origem vegetal (açúcar, macarrão etc); combustíveis e lubrificantes (gasolina, diesel etc); produtos industrializados de origem animal (frango, embutidos, produtos refrigerados); hortaliças; jornais e outras publicações impressas

Grãos (soja, feijão, etc) e outros produtos vegetais (legumes, etc) de baixo valor agregado; minérios (ferro, brita, etc); rebanhos (bovino, suíno), etc

Frutas, verduras e outros bens agrícolas; rebanhos; produtos industrializados de origem mineral etc

Frutas altamente perecíveis; flores; livros; peixes ornamentais, etc

Salvador

BR-101

BA-116

SERRA GERAL

Rotas logísticas do agronegócio baiano

LITORAL SUL

BR-407

SUDOESTE BA-116

BR-101

Grãos (soja, milho e algodão) no Oeste – Modal rodoviário, com destaque para: BRs 242, 020 e 135. Capacidade de transportar até 4 milhões de toneladas/ano Frutas (manga, uva, etc) na região do São Francisco – Modal rodoviário, com destaque para a BR 407. Dispõe da malha da ferrovia Centro-Atlântica, porém esta não é utilizada, dada sua extrema precariedade e baixa velocidade de transporte Celulose do Extremo Sul – A principal rota de escoamento do segmento é a BR-101, que está em estado de conservação regular e deverá ser privatizada

EXTREMO SUL BR-101

Estado de algumas rodovias na Bahia Mau estado Estado regular Bom estado

40% (BA-116) 30% (BA-099, BR-135, BR-101, BR-324) 30% (BR-242, BR-020, BR-407)

Fonte: Fieb Arte: Bamboo editora

Textos: SCI FIEB | Ilustrações: Bamboo Editora

Meios de transporte

RECÔNCAVO SUL

BR-407


UMA REVOLUÇÃO NO CAMPO A estimativa é que 10% dos domicílios da zona rural têm acesso à internet, o que deve mudar significativamente a partir da implantação da tecnologia 4G

Pelos dados do último Censo, 801.198 domicílios baianos possuíam acesso à Internet em 2010, o que equivalia a cerca de 20% dos 4.045.597 do estado

As operadoras de telefonia móvel ainda não divulgaram o valor do 4G para seus clientes, mas especialistas estimam que a tecnologia custará até o dobro da 3G

A sigla refere-se à 4ª geração de telefonia móvel ou celular. Ela envolve tecnologias que permitem às redes móveis conexão de altíssima qualidade, muito mais velocidade e com maior capacidade de transmitir dados que a 3G, utilizada atualmente

A operadora Claro venceu um dos lotes do leilão realizado em junho pela Anatel e vai oferecer o serviço 4G na Bahia

A chegada da tecnologia 4G deve beneficiar os produtores rurais porque, em tese, sua implantação vai garantir acesso de alta velocidade a lugares em que não chega infraestrutura de cabo

Na teoria, as velocidades de tecnologia 4G podem chegar a 100 Mbps (Megabits por segundo)

“Grande parte do estado não tem cobertura de internet banda larga. Onde existe, há muita instabilidade” EVANDRO MAZO, gerente do Cieb

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Hoje existem duas tecnologias classificadas como 4G, a WiMax e a LTE, que possivelmente será o modelo adotado no Brasil

É o valor do PIB do Agronegócio brasileiro em 2011

Pelo cronograma do governo brasileiro, até abril de 2013 as empresas devem ter conexões 4G nas cidades-sede dos jogos da Copa das Confederações, entre elas Salvador, e todos os municípios com mais de 100 mil habitantes terão que ter sinal até 31 de dezembro de 2016

Tecnologia de ponta só na produção

emissão da nota fiscal eletrônica. Todos esses transtornos acabam tendo impacto na competitividade do setor.

Em 2011, o PIB do agronegócio brasileiro alcançou R$ 942 bilhões, de acordo com estimativas do Centro de Pesquisas Avançadas em Economia Aplicada (Cepea). Apesar do ótimo resultado do setor, que responde por mais de 20% do PIB do país, e de recordes superados a cada nova safra, o agronegócio continua refém de um entrave tecnológico: a falta de acesso à internet.

Segundo o IBGE, 801.198 domicílios baianos possuíam acesso à internet quando foi realizado o Censo 2010, o que representava cerca de 20% dos 4.045.597 existentes no estado. Já o Ministério das Comunicações estima que, na zona rural, só 10% tenham, de fato, acesso à rede de computadores. O problema se acentua ainda mais quando o assunto é internet de banda larga que permite maior fluxo de dados e com mais rapidez.

A expectativa dos produtores é que a chegada da tecnologia de telefonia celular de 4ª geração (4G) reverta essa situação ao expandir a área de cobertura e a velocidade na transmissão de dados. No leilão, as operadoras foram obrigadas a ofertar o serviço de banda larga móvel também para a zona rural.

“O produtor tem prejuízos com a falta de conexão pelo Brasil afora”, afirma o superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Daniel Carrara, argumentando que a situação é incompatível com a evolução da agropecuária brasileira, baseada no uso da tecnologia de ponta.

Na Bahia, os produtores reclamam que a falta do serviço acaba interferindo na sua atividade de diferentes formas. Os problemas vão desde a atualização de informações cruciais para tomada de decis��o no seu negócio – como dados sobre clima, acompanhamento de operações em bolsas de mercadorias, passando por contatos com clientes e fornecedores, e até na

Para o superintendente do Senar Bahia, Geraldo Machado, o acesso à informação digital tem avançado no Brasil, mas ainda está longe do aceitável. “Em um cenário tão competitivo e globalizado, como o atual, é fundamental que produtores, grandes e pequenos, gestores e até mesmo praticantes da agricultura familiar tenham acesso a conhecimentos,

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“O produtor tem prejuízos com a falta de conexão pelo Brasil afora” DANIEL CARRARA, superintendente do Senar

informações de mercado, descobertas tecnológicas, educação profissional e trocas de experiências. Todas as inovações acontecem em uma velocidade tão rápida que somente a internet é capaz de acompanhar e disseminar”, avalia. O quadro parece ainda mais contrastante nas áreas onde o agronegócio opera com maquinário moderno e tecnologia de ponta, a exemplo do oeste baiano, região que na última safra colheu 7,3 milhões de toneladas de produtos agrícolas, entre grãos, frutas, café e outras culturas. Segundo o presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Walter Horita, muitas localidades situadas a cerca de 20 km da sede dos municípios de Luis Eduardo Magalhães e Roda Velha não contam com a cobertura de telefonia celular. O problema acontece mesmo nas áreas urbanas. “Utilizo duas operadoras e, há alguns meses, houve períodos em que não conseguia fazer ligações”, conta o presidente da Aiba, entidade que representa produtores do oeste do estado. Para muitos empresários da região, a solução é investir do próprio bolso na colocação de uma torre de repetição ou captando o sinal de estados próximos, como o Tocantins. Walter Horita acredita que, se a região contasse com cobertura 3G de qualidade, já seria um grande avanço. “Estamos longe de ter um serviço com qualidade, situação que é muito diferente de países como a Coreia, que visitei recentemente. O Brasil, que é a chamada ‘bola da vez’ da economia, deveria estar em um estágio mais avançado”, afirma o presidente da Aiba, que é otimista com relação à implantação da tecnologia 4G para garantir um serviço mais eficaz e confiável. O gerente geral do Centro de Indústrias do Estado da Bahia (Cieb), Evandro Mazo, ressalta que a falta de cobertura não atinge somente as propriedades rurais como os distritos industriais localizados em áreas próximas às zonas urbanas. “Além de grande parte do estado não ter cobertura de internet de banda larga, outro fator crítico é a baixa velocidade e a instabilidade registrada nas áreas onde o serviço existe. Sabemos que as operadoras e o poder público têm feito investimentos para aumentar a qualidade do serviço, mas esse esforço não consegue acompanhar o crescimento da demanda”, acredita. Para o gerente do Cieb, o problema não é somente implantar a 4G, mas garantir que os municípios fora da Região Metropolitana tenham acesso a um serviço de qualidade, viável com tecnologia já disponível. “Hoje, a instabilidade do serviço oferecido é muito grande. A internet cai no meio de uma operação e é necessário fazer o serviço novamente, gerando muito retrabalho e influenciando na competitividade das empresas”, diz.

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Para o diretor do Departamento de Banda Larga do Ministério das Comunicações, Artur Coimbra, o Plano Nacional de Banda Larga apresentou avanços no campo regulatório, com a liberação de novas outorgas para TV a cabo, infraestrutura importante para impulsionar a banda larga. Outra medida vai interessar quem sofre com a instabilidade dos serviços de internet: o governo aprovou exigências de qualidade para banda larga fixa e móvel. “No campo de incentivos fiscais, o Estado isentou de tributos federais os equipamentos e serviços de banda larga prestados por meio da faixa de 450 MHz e satélites de pequeno porte e reduziu as taxas incidentes sobre as comunicações máquina a máquina, que incentivam a digitalização das atividades econômicas”, diz Coimbra. Nos leilões de 4G, entre as obrigações, está a cobertura com o sinal de banda larga móvel a um raio de 30 km, a partir dos limites da sede de cada município.

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Novos programas

Centros digitais de cidadnia rural Para facilitar o acesso às novas tecnologias no campo, a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação está implantando Centros Digitais de Cidadania Rural. O projeto conta com a parceria da Universidade do Estado da Bahia e recursos da Agência Brasileira de Inovação. Até o momento, foram implantados 17 dos 30 CDCRs previstos. O acesso à rede é assegurado por conexão de internet via satélite e terrestre a telecentros e por meio da contratação de serviço das operadoras do setor. “Esses centros são voltados, principalmente, para pequenos produtores”, diz o coordenador do Programa de Inclusão Sociodigital da secretaria, Murilo Aguiar

Plano Nacional de Banda Larga Lançado em maio de 2010, o Plano Nacional de Banda Larga é um conjunto de medidas financeiras, tributárias, regulatórias e industriais que tem como objetivo levar a banda larga a 40 milhões de domicílios até 2014. Entre as ações, a expansão da rede terrestre da Telebrás, em operação em mais de 600 municípios brasileiros. A meta é atingir 4.238 municípios. Isso vai permitir a queda substancial dos preços (de até 90%), prevê o governo

“O Brasil, que é chamado de a bola da vez da economia, deveria estar em um estágio mais avançado nessa área” WALTER HORITA, presidente da Aiba

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Bahia ainda não aderiu a convênio de incentivo à banda larga Além da 4G, o diretor do Departamento de Banda Larga do Ministério das Comunicações, Artur Coimbra, explica que outras medidas podem ser tomadas para acelerar a internet no campo. Uma delas é a adesão dos estados ao convênio ICMS nº 38/2009, do Conselho Nacional de Política Fazenda (Confaz). Para o diretor, a adesão a esse convênio será determinante para o sucesso da internet rural, na medida em que ele isenta de ICMS a banda larga que custe até R$ 30 mensais. “Dezesseis estados já aderiram. A Bahia está entre os estados que ainda não aderiram, portanto, a população rural não terá esse benefício, o que pode prejudicar a expansão do serviço”, ressalta. Artur Coimbra concorda que houve um descompasso entre o crescimento do agronegócio brasileiro e a criação de política pública de banda larga para o campo. “Desde a privatização do setor de telecomunicações, o crescimento do agronegócio não foi acompanhado de uma política pública direcionada à área rural. Apesar disso, muitos provedores de acesso à Internet, na maior parte das vezes de porte regional e utilizando tecnologias sem fio, ocuparam parcialmente esse mercado, oferecendo conectividade para muitos domicílios rurais”, afirma.

Leilões para 4G Os leilões para a tecnologia 4G foram realizados em junho de 2012. “O leilão foi um sucesso. Todos os lotes da faixa de 450 MHz foram adquiridos pelas empresas de telecomunicações. Isso significa que até o final de 2015 todos os municípios brasileiros já terão o serviço. A Bahia será atendida pela prestadora Claro”, explica Artur Coimbra, do Ministério das Comunicações

Paulo Cintra, moderador, com Ivan Pinto, Alex Rasia, João Lopes e Paulo Câmera

Área de sombra na produção baiana

Foto: Arisson Marinho

Cerca de 600 metros separam Juazeiro, na Bahia, de Petrolina, em Pernambuco. Essa é também a distância que separa os produtores de frutas que têm acesso livre à internet e os que vivem em pleno apagão tecnológico - nesse último caso, os empresários baianos do setor. O presidente do Instituto da Fruta, Ivan Pinto, contou, no debate Tecnologia a Favor do Agronegócio: Soluções para o Apagão da Comunicação no Campo, a realidade da cidade baiana que, com Petrolina, integra o Vale do São Francisco, maior polo de frutas tropicais do país. Ivan apresentou a solução criada por Pernambuco para resolver um problema que impacta na competitividade dos agricultores. O Roça Digital, pernambucano, recebeu investimento de R$ 4 milhões. “O lado esquerdo do Rio São Francisco, de Pernambuco, tem internet wi-fi. A Bahia, não”, explicou. No debate, o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Paulo Câmera, apresentou os planos do governo para acabar com essa carência no mapa da fibra óptica da Bahia. A proposta é investir R$ 407 milhões para dotar regiões com internet. “A internet de Juazeiro é horrível”, admitiu. Mas Câmera afirmou que a primeira fase do projeto irá contemplar apenas algumas cidades: “Não temos dinheiro para tudo isso de uma vez”. Ao ouvir a sugestão de Ivan, Câmera prometeu estudar o assunto: “Vamos discutir com estados fronteiriços, como Pernambuco, para ver a possibilidade de compartilhar sinal e baratear os custos. Assim, podemos acelerar o desenvolvimento da Bahia”.

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Solução Investimento em tecnologia para equipar as cidades baianas, também as das zonas rurais, com internet de qualidade e veloz Os empresários sugeriram parcerias com estados vizinhos, que já possuem rede de banda larga, para compartilhar, de forma emergencial, a internet no campo Cobrar da Agência Nacional de Telecomunicação (Anatel) uma política fiscalizadora atuante para estabelecer uma rede de comunicação de qualidade longe dos centros urbanos

O diretor executivo da Associação Brasileira de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Alex Rasia, disse que o mesmo problema ocorre no Oeste baiano. “Se há deficiências na capital, imagine no interior”, disse. Segundo ele, um caminhão parado por um dia custa R$ 1.500 ao produtor.

Ivan Pinto aproveitou ainda a presença do secretário de Ciência e Tecnologia do governo da Bahia, Paulo Câmera, e solicitou um acordo: “Em vez de puxar 600 quilômetros de fibra para lá, é só puxar 600 metros a fiação do outro lado do rio”, comparou Pinto sobre a diferença dos cabos de fibra óptica virem de Salvador (600 quilômetros percorridos) ou de Petrolina (600 metros).

O presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo, questionou como ser eficiente e produtivo nesse cenário de apagão tecnológico. “Como podemos estar atualizados se não podemos acompanhar o preço do café nas Bolsas de Valores, nem o preço de outros insumos? Têm pequenos agricultores que ainda ligam para as associações para terem acesso a essas informações”, critica Araújo.

O diretor executivo da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Alex Rasia, disse que essa solução não resolve o problema da região, que bate recordes de safras a cada ano. “A grande cidade mais próxima do Oeste é Brasília e fica a 500 km”, lembra. Rasia sugeriu parceria com a iniciativa privada para tentar resolver essa questão. Já o presidente da Associação Bahiana dos Produtores de Café (Assocafé), João Araújo, também enfatizou que a comunicação está precária no estado. “E não é só a internet. É a telefonia fixa e a telefonia móvel também”, enfatiza.

Programa para baratear o acesso

O apagão tecnológico no interior da Bahia, que ocorre pela falta de uma rede moderna de telecomunicações capaz de atender demandas dos municípios distantes da capital e da Região Metropolitana, foi apontado no Fórum Agenda Bahia como um entrave para o desenvolvimento do setor.

O diretor da Federação das Indústrias (Fieb) Paulo José Cintra alertou para os entraves sofridos pelo agronegócio em função do apagão tecnológico no interior da Bahia. Para Cintra, o estado deveria investir em tecnologia para melhorar o desenvolvimento da agroindústria no campo. “Infelizmente, vivemos ‘brasis’ dentro de um Brasil”, disse. Cintra, que moderou o debate sobre tecnologia no campo, lembrou dos problemas também enfrentados em Alagoinhas com a ausência de internet.

O diretor da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) Paulo José Cintra, que moderou o debate, afirmou que as obrigações fiscais exigidas dos produtores do interior acabam sendo prejudicadas em razão da falta de modernização do sistema de telefonia e até mesmo da inexistência de internet banda larga. “Temos obrigações vindas de vários setores que devem ser cumpridas, mas precisamos de tecnologia. A apenas 100 quilômetros de Salvador, em Alagoinhas, temos problemas para emitir notas fiscais eletrônicas, algo exigido pelo governo, e que não há negociação sem ela”, disse. O problema também foi apontado pelo presidente do Instituto da Fruta, Ivan Pinto, como responsável pelo atraso na negociação na região do Vale do São Francisco, rica na produção de frutas e vinhos.

Foto: Marina Silva

O moderador citou reportagem do CORREIO que mostra que a Bahia ainda não se inscreveu, segundo o Ministério das Comunicações, em programa que isenta de Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) a instalação de banda larga de até R$ 30. “Essa é uma questão decisiva para o Brasil, porque ela barateia o acesso à internet banda larga, que ainda é muito cara”, lembrou o diretor da Fieb, que destacou outros problemas. “Estamos discutindo sobre as sedes dos municípios, mas se viajarmos 10 km os produtores não têm energia elétrica, estrada, quanto mais internet”, disse.

O secretário alegou que o assunto já vem sendo discutido com o governador da Bahia, Jaques Wagner. Porém, Câmera também explicou que o governo do estado já está negociando com o Banco do Brasil um financiamento de R$ 119 milhões para a primeira etapa do mapa da rede óptica, que contemplará as cidades de Salvador, Feira de Santana, Santo Antônio de Jesus, Itabuna, Vitória da Conquista, Porto Seguro e os arredores dessas cidades.

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Foto: Marina Silva

Foto: Marina Silva

Do lado do rio sem internet

Investimento para equipar a Bahia

O presidente do Instituto Fruta, Ivan Pinto, precisa percorrer 92 quilômetros para conseguir documentos necessários para a liberação da sua produção da fazenda para São Paulo, onde vende sua mercadoria. O transtorno poderia ser evitado caso houvesse acesso à internet na área rural de Juazeiro. “Esses documentos são emitidos pela internet, seria simples se houvesse sinal na fazenda. Muitas vezes, perdemos os prazos e levamos prejuízo”, conta. Além das guias de liberação, Ivan Pinto destaca que a internet é essencial por outros fatores para o agricultor moderno.

Um mapa para levar para os principais municípios baianos cabos de fibra óptica (que possibilitam a chegada da internet banda larga nessas regiões). Foi essa a proposta apresentada pelo secretário de Ciência e Tecnologia do governo do estado, Paulo Câmera, para resolver o apagão tecnológico no campo. Mas falta dinheiro, assumiu Câmera.

“Os sites disponibilizam informações sobre a evapotranspiração na região, algo que é determinante para a produção. Como que nós podemos ter acesso a isso tudo que poderia nos ajudar se nós não temos uma internet de banda larga de qualidade? Até mesmo os celulares apresentam problemas. Se um comprador lá na Europa compra uma fruta estragada, na hora ele tira uma foto digital, manda para o meu email e me liga avisando”, diz, destacando a importância da tecnologia também no seu segmento.

Foto: Arisson Marinho

Segundo ele, o governo busca financiamento com o Banco do Brasil. Caso o crédito seja liberado, na primeira etapa do projeto seriam investidos R$ 119 milhões, que levariam 1.867 quilômetros de cabos para cidades como Salvador, Feira de Santana, Santo Antônio de Jesus, Vitória da Conquista, Itabuna, Ilhéus e Porto Seguro. Já na segunda etapa, teriam mais R$ 287 milhões para atender o centro, o oeste e o norte baiano. Câmera ainda prometeu estudar o pedido dos produtores de Juazeiro, que afirmaram já haver banda larga do outro lado do rio, na cidade pernambucana de Petrolina.

Previsão do tempo pela televisão

Em um único dia, prejuízo pode chegar a R$ 1.500

Como ser eficiente sem ter acesso à internet? Como ser produtivo em um local em que a previsão do tempo pode ser acompanhada apenas pela televisão? Essas foram algumas das questões que o presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo, apresentou para revelar como vive o produtor rural baiano, que é referência pelo investimento na tecnologia agrícola, mas ainda sofre da ausência de comunicação. Lopes falou ainda sobre a necessidade de acompanhar a Bolsa de Valores para verificar o preço das commodites, como o café, e dos seus insumos.

Uma das regiões mais produtivas do país, o Oeste baiano também não tem internet. O diretor executivo da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Alex Rasia, falou da importância de se discutir problemas enfrentados pelos produtores do interior da Bahia para que os moradores dos grandes centros urbanos entendam as dificuldades do homem do campo.

Araújo não acredita que o investimento tenha que vir do governo do estado e ressalta que as agências reguladoras têm um papel importante a desempenhar. “É fundamental termos essa boa comunicação. Estamos nos desenvolvendo rápido, mas ainda há muito a fazer”, salientou. O presidente da Assocafé reforçou que é importante que os problemas do campo sejam ouvidos pela cidade, já que lá no Oeste baiano, por vezes, nem a telefonia fixa funciona a “contento do freguês”.

Foto: Marina Silva

Rasia disse que as falhas com o sistema de telecomunicações geram grandes prejuízos para os produtores. “Um caminhão que fica um dia inteiro parado esperando a emissão de uma nota, por exemplo, gera um prejuízo de R$ 1.500, em média”, revelou. Rasia explicou por que é tão importante o acesso a uma rede moderna de internet para a região. “Os produtores não conseguem acompanhar as oscilações do valor das commodities nos sites, por exemplo. E é o mercado quem determina os preços dos produtos. Por isso, alguns fazendeiros que têm mais de uma fazenda mantêm os escritórios nas cidades”, diz. O diretor da Aiba lembrou que são muitas as obrigações do empresário rural. Muitas delas poderiam ser resolvidas pela internet, aumentando a competitividade do setor.

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“Minha produção é escoada para São Paulo, mas se fosse exportar seria pior, porque são mais documentos ” Para escoar as uvas produzidas em Curaçá, o produtor Ivan Pinto precisa fazer várias viagens a Juazeiro, só para usar a internet Foto: Acervo pessoal/Ivan Pinto

Produção off-line Ivan Pinto produz uvas em Curaçá, norte da Bahia. Toda semana, antes de liberar uma carga de sua mercadoria, o produtor, que também é presidente do Instituto Fruta, precisa percorrer quase 92 quilômetros para chegar até Juazeiro e poder acessar uma internet arcaica e, assim, emitir nota fiscal eletrônica, Certificado Fitossanitário de Origem (CFO) e Permissão de Trânsito Vegetal (PTV), documentos necessários a cada venda efetuada. Ele perde em torno de duas horas só em trânsito entre as duas cidades. “Isso quando dá para fazer tudo de vez. Às vezes, tem que ficar indo e vindo”, ressalta o agricultor. Ele também tem que percorrer o mesmo caminho sempre que precisa acessar informações climáticas para regular a irrigação de sua plantação, mandar relatórios para clientes ou rastrear seus produtos.

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IVAN PINTO, produtor de uvas em Curaçá

desde 2010, graças ao programa Roça Digital, elaborado pelo governo de Pernambuco e financiado pelo governo federal. Custou R$ 4 milhões e oferece internet banda larga aos núcleos irrigados de Petrolina e polos vinícolas (produtores de uva). “Em, no máximo, cinco minutos resolvo tudo. E se o cliente já estiver cadastrado é mais rápido ainda”, elogia o produtor, que lembra sem saudade dos tempos em que não possuia internet na roça. “Quando não tinha, a gente ia até a cidade (zona urbana) para fazer essas coisas. Aí precisava se programar para fazer tudo de uma vez, pra não perder tanto tempo”, conta. Na Bahia, o governo também tem projeto para instalar banda larga no interior do estado. O projeto baiano vai sair 100 vezes mais caro que o pernambucano: R$ 407 milhões. Isso porque, segundo a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, o estado vai investir em uma rede própria, enquanto a utilizada em Pernambuco é alugada. Além disso, a área de abrangência é bem maior. “Não existe rede própria em Petrolina. O que existe é um convênio com a Oi por quatro anos, o que é um problema, porque fica subordinado à Oi”, critica o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Paulo Câmera. Ele prevê que, após os quatro anos, Pernambuco não terá rede e terá que realizar nova licitação de serviços. Câmera explica que, no caso da Bahia, o projeto será executado em duas etapas. A primeira iniciará em 2013 e compreenderá 156 municípios. “Serão gastos R$ 116 milhões, que já estão sendo captados no governo federal”, explica. O projeto da rede também contempla o lançamento de fibras ópticas, prioritariamente aéreas, a aquisição e a instalação de equipamentos, ópticos e de dados. Segundo o secretário, a primeira etapa não precisará estar totalmente concluída para começar a funcionar. “A ideia é fazer por fases. Termina um pedaço e bota para funcionar, depois faz outro pedaço e libera também. Para acelerar, vamos usar os cabos da Chesf. A ideia é terminar em um ano”, prevê.

“Minha produção é escoada para São Paulo, mas se fosse exportar ia ser pior, porque são mais documentos ainda”, reclama ele, que para viabilizar o escoamento foi obrigado a montar um escritório em Juazeiro. “Lá, a internet não é o ideal. Você paga 5 MB, mas só chega 1 MB. É lenta, mas pelo menos consigo trabalhar”, revela. “Um caminhão parado por um dia custa R$ 1.500 ao produtor”, acrescenta o diretor da Associação Brasileira de Agricultores e Irrigantes da Bahia, Alex Rasia.

A outra etapa, no entanto, ainda não tem data para começar e nem dinheiro garantido. “Assim que terminarmos essa primeira etapa, vamos tratar de buscar dinheiro para fazer a segunda”, diz o secretário. Ele garante que a zona rural também será beneficiada por causa dos ‘pops’, que são antenas retransmissoras do sinal digital. Serão 23 pops nessa primeira etapa.

A 600 metros dali, em Petrolina (PE), Danilo Bione produz mangas e não tem do que reclamar. Na zona rural da cidade tem internet banda larga

O apagão tecnológico e os entraves que ele causa no agronegócio foi tema do Agenda Bahia 2012, no seminário sobre Agronegócio. Produtores,

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empresários e representantes do governo discutiram soluções para a falta de uma rede moderna de telecomunicações.

MAPA DA BANDA LARGA NA BAHIA Paulo Afonso

Juazeiro

Entre assoluções apresentadas, foi apontado um possível acordo entre os governos baiano e pernambucano para usar o sistema já implantado em Petrolina também em Juazeiro. “Em vez de puxar 600 quilômetros de fibra para lá, é só puxar 600 metros a fiação do outro lado do rio”, sugeriu Ivan Pinto. Isso porque, apesar de ficarem em estados diferentes, Juazeiro e Petrolina são separadas apenas por uma ponte de 600 metros sobre o Rio São Francisco.

Xique-Xique Formosa do Rio Preto

Irecê

Luís Eduardo Magalhães Barreiras

Sobre o assunto, o professor e coordenador de redes da Unifacs Luciano Pena opina: “É possível, mas devem ser estudadas as condições, porque as tributações dos dois estados podem ser diferenciadas”. Porém, Pena lembra que essa parceria resolveria o problema apenas naquela região e que a política do governo da Bahia deve contemplar o estado inteiro

Euclides da Cunha

Itaberaba Ibotirama

Lençóis

Salvador Jequié Guanambi

Brumado

Ipiaú Itabuna

Ilhéus

Vitória da Conquista

“Atuar em retalhos também não resolverá o problema do estado como um todo. E quem leva informação e tecnologia leva desenvolvimento”. E finaliza: “É preciso buscar também parcerias na iniciativa privada, em apoio aos governos estadual e federal. Porque se esse programa de expansão da banda larga depender apenas do governo federal ele vai ficar só no papel, ou irá demorar de sair”.

Etapa 1 (início em 2013)

CONFIRA AS DISTÂNCIAS

Curaçá

Petrolina 600m

92 km

Juazeiro

“Já perdi muita venda porque não consegui emitir a nota fiscal” PAULO CINTRA, presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindileite)

Em Petrolina, produtor conectado com a internet não tem dificuldade em liberar produção de mangas Foto: Acervo pessoal/Ivan Pinto

Porto Seguro

Etapas posteriores (sem data para começar)

Itamaraju

POP Telebrás

Prado

Backbone Telebrás FONTE: SECTI

Eunápolis

Teixeira de Freitas

Mucuri EDITORIA DE ARTE/CORREIO

Em Alagoinhas, problema de conexão é semelhante Os problemas com a internet não estão restritos apenas a municípios distantes da capital. Em Alagoinhas, a 116 quilômetros de Salvador, o dono de uma indústria de laticínios, Paulo Cintra, passa por um problema bem parecido. “Já perdi muita venda porque não consegui emitir a nota fiscal”, reclama. De acordo com Cintra, o sistema de internet na cidade é tão arcaico que ele precisou contratar os serviços de quatro operadoras: “Tenho TIM, GVT, Vivo e Velox. Um funciona de manhã e outro cai à noite. Só assim para estar sempre conectado”, relata o empresário. “O impacto para o agronegócio é muito negativo. O governo estabelece obrigações e ele mesmo não nos dá condições de cumpri-las”, diz, se referindo às notas e certificados que devem ser emitidos digitalmente. A fábrica de Cintra produz cerca de 900 mil toneladas de iogurte por mês e abastece os mercados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

EDITORIA DE ARTE/CORREIO

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Tecnologia ambiental

metros, encostas com declive superior a 45 graus, manguezais e mananciais. O estado não tem essas áreas mapeadas.

O tamanho do estado e sua variedade de ecossistemas vão exigir que a Bahia lance mão das mais modernas ferramentas tecnológicas para fazer cumprir o novo Código Florestal, em vigor desde 28 de maio de 2012. São 564 mil quilômetros quadrados de área, onde estão instaladas mais de 760 mil propriedades rurais, das quais 650 mil de agricultura familiar. Para se ter ideia, isso equivale a perto de 15% das propriedades de agricultura familiar existentes em todo o país.

Já a Reserva Legal consiste em preservar pelo menos 20% das propriedades rurais. Se o que deveria ser reserva vem sendo utilizada ou se encontra degradada, cabe ao proprietário recuperá-la, sob pena de multa. Mas o Código é flexível quanto a isso e permite que seja feita uma compensação, mediante a aquisição de outra área mais adequada, inclusive fora da propriedade. “Antes já era possível fazer essa compensação, mas agora ficou mais fácil. Vamos identificar e propor, aos proprietários, a compra de (novas) áreas que tenham mais conectividade com APPs e com Unidades de Conservação (que são geridas por legislação específica, e não pelo Código), de modo a formar corredores de biodiversidade, que possibilitem potencializar a preservação de cursos d’água, da flora e da fauna”, diz o secretário de Meio Ambiente do estado (Sema), Eugênio Spengler.

Esse espaço imenso terá de ser eficientemente monitorado, não só para que haja uma fiscalização efetiva da nova legislação como para apoiar o poder público na definição de ações de proteção ambiental. O custo da empreitada ainda não é conhecido. A atenção maior está voltada, basicamente, para as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e as de Reserva Legal. No primeiro caso, trata-se de manter intactas as áreas ao longo de cursos d’água, em faixas de 5 a 100 metros; ao redor de nascentes e reservatórios de água no raio de, no mínimo, 50 metros a partir das bordas; topos de morros acima de 100

As principais mudanças nas Áreas de Proteção

Acompanhar tudo isso no dia a dia é um desafio gigantesco, que Spengler acredita poder vencer, em grande parte, com a ajuda da tecnologia. Outros aliados de peso, a seu ver, são as secretarias municipais de meio

Permanente previstas no Código

Produção

Nascentes

Preservação

Topos de morros

Estão proibidas plantações em morro com mais de 100 metros de altura e com encostas de mais de 45 graus de inclinação

Redor de nascentes, solos encharcados e reservatórios de água:

Em propriedades de um módulo fiscal (na Bahia, um módulo físcal varia de 20 a 150 hectares), o produtor terá que preservar ou recuperar cinco metros em cada margem

Proibida a circulação de animais domésticos (bois, cavalos, porcos, galinhas, cães)

Abaixo desses limites, as áreas são liberadas para culturas permanentes como café, maçã e outras frutíferas

A área preservada deve ter raio mínimo de 50 metros

Nas propriedades com mais de dez módulos fiscais, essa recomposição varia de 30 a 100 metros, a depender da largura do rio

O trânsito dentro da APP só é permitido para acesso à água, desde que isso não exija corte da vegetação nem comprometa o desenvolvimento das plantas

Lavouras temporárias, como feijão, são proibidas

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ambiente, as prefeituras e a iniciativa privada. De sua parte, a Secretaria está desenvolvendo o Sistema Estadual de Informações Ambientais e de Recursos Hídricos - o Seia - com o objetivo de armazenar e atualizar informações de forma contínua, para auxiliar nos processos de licenciamento e fiscalização. Será feito um zoneamento do estado a partir de microbacias hidrográficas, com vistas à caracterização da cobertura vegetal e da biodiversidade, do solo e da água, inclusive quanto à presença de produtos químicos. Entidades do agronegócio estão financiando o estudo de duas microbacias, as primeiras, na área dos rios Grande e Corrente, na região Oeste. O custo foi orçado em torno de R$ 1 milhão e as obras já estão sendo iniciadas. Mas o Seia não visa apenas abastecer o estado com informações que facilitem a fiscalização. A ideia é também tornar mais rápidos e transparentes os processos envolvendo propriedades rurais e outros negócios que possam ter algum impacto ambiental. Nesse sentido, o sistema já disponibiliza um software pelo qual é possível ao interessado requerer a regulação ambiental de determinada área e acompanhar o processo via internet. O sistema também libera o acesso a imagens de satélite por meio do Geobahia, um banco de dados e imagens que, de acordo com a Sema, passará a ser constantemente atualizado e detalhado. Atualmente, as imagens são de 2009. Desde o fim de 2011, foram investidos em torno de R$ 9 milhões no Seia.

Grau de excelência O governo do estado reconhece os problemas existentes e a necessidade da parceria com o setor privado para que o Código Florestal venha, de fato, a sair do papel. Estados como Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo já avançaram bastante nesse sentido. No Paraná, por exemplo, a rede de monitoramento conta com mais de 20 coordenadorias regionais bem estruturadas e utiliza imagens de satélite para georreferenciamento há 10 anos. O secretário de Meio Ambiente calcula que, tudo implementado conforme o planejamento, dentro de cinco a sete anos a Bahia poderá atingir o que ele considera grau de excelência.

Apenas 7% das propriedades têm reserva legal Outro ponto fundamental definido no recém-aprovado Código Florestal é o estabelecimento do Cadastro de Atividades Florestais, onde devem constar todas as propriedades rurais, com uma série de informações detalhadas e georreferenciadas no mapa da propriedade. Entre elas, as APPs existentes, a área de Reserva Legal averbada, se há passivo ambiental, as áreas de uso agrícola e pecuário. Atualmente, apenas 7% das propriedades da Bahia têm Reserva Legal averbada, o que mostra o quanto ainda há por fazer. A infraestrutura dos órgãos envolvidos ainda é precária e, para conseguir agilizar os processos, a iniciativa privada tem ajudado. É o que fez a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), que em junho de 2012 firmou termo de cooperação com o governo para pôr fim à demora nos processos de certificação de georreferenciamento dos imóveis rurais. O vice-presidente da Aiba, Sérgio Pitt, diz que a entidade montou estrutura para dar suporte aos produtores. A estimativa é de que a demanda do Oeste represente 70% do total dos processos e a demora, salienta Pitt, emperra o desenvolvimento da região. Apesar de ocupar área de 6,5 milhões de hectares - quase 1% do território brasileiro –, o setor de florestas plantadas não sofreu impactos importantes com a vigência da nova legislação florestal. Voltado para indústrias de peso para a economia do país, como a de celulose e papel e a siderúrgica, o setor não chegou a ser afetado, pelo ponto mais discutido do Código, o da preservação da biodiversidade. “Já fazemos mais do que o Código Florestal determina”, assegura o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), Antonio Sérgio Alípio.

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Peso da agricultura

564 mil 760 mil 15% quilômetros quadrados é a área total da Bahia

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propriedades estão instaladas no estado

das propriedades de agricultura familiar do país estão na Bahia

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Regras mais claras com o novo Código No século XVII, quem extraísse o paubrasil estava sujeito a pena de morte ordenada pela Coroa portuguesa. Não por uma lógica ambiental, mas para proteger a economia portuguesa. Quase quatro séculos e algumas legislações depois, a lei brasileira deu um passo em direção a preservação do meio ambiente, com a Lei 12.651/2012, mais conhecida como Código Florestal. A avaliação é de Flávio Ahmed, membro da Comissão de Direito Ambiental da OAB Nacional e presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB-RJ, que explicou, na palestra A (In)Segurança Jurídica nos Tempos de Código Florestal, as diferenças entre as legislações e quais são as principais mudanças aprovadas no Código.

Foto: Arisson Marinho

Solução Para Flavio Ahmed, o Código Florestal reduz algumas proteções ambientais, mas amplia outras O advogado afirmou que a lei trouxe mais segurança jurídica ao ser mais minunciosa, com regras mais definidas e mais amplas que a legislação anterior A nova lei aumenta a preservação ambiental, sem diminuir o potencial agrícola, avalia

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Para Flávio Ahmed, a nova lei reduziu algumas proteções ambientais, mas ampliou outras. Antes, a 4.771/1965, que também legislava sobre o meio ambiente, não tinha uma aplicabilidade contundente e, se tivesse, avalia o advogado, inviabilizaria o agronegócio. “Com o Código Florestal atual é possível aumentar a preservação da área verde sem diminuir o potencial agrícola brasileiro”, diz.

“Saímos de uma lógica extremamente restritiva, do não pode, para a lógica do como pode”

e a água, por exemplo. “Saímos de uma lógica extremamente restritiva, do não pode, para a lógica do como pode”, acrescenta Ahmed. O especialista ainda avaliou que os governos terão um “enorme trabalho” para explicar à população sobre a aplicabilidade do Código, por ser uma legislação complexa. Porém, garante, o Código Florestal tem avanços, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que será, segundo ele, uma ferramenta essencial para a fiscalização do governo. “Quem não estiver nesse cadastro, com a especificação das áreas que deverão ser preservadas, não receberá nenhum financiamento do governo”, comenta Ahmed. O Código também define que fazendeiros instalados em áreas de preservação totalmente degradadas poderão adquirir títulos de outros proprietários de área mais preservada do que o exigido por lei. “O quadro de regras está muito mais definido. Isso porque foi estabelecido um modus operandi que possibilita utilizar e respeitar a natureza”, salienta Ahmed. O advogado também destacou que o Código versa sobre diferentes áreas, como a Amazônia Legal, o Pantanal e outros biomas, levando em consideração as peculiaridades desses espaços. “Vale lembrar que o Código Florestal não é a única lei de proteção ambiental. Continuam em vigor leis como a de proteção da Mata Atlântica, a que estabelece as Unidades de Conservação”. Uma questão polêmica abordada por Ahmed foi a extensão das matas ciliares - que ficam no leito dos rios. Hoje, aumentam na medida em que o leito do rio aumenta também. “São as áreas mais férteis, economicamente mais caras, mas foi isso que a lei definiu”, ressalta. Uma das críticas que a sociedade fez, e que Ahmed pondera, é que um Código tão amplo deveria ter tido uma discussão mais abrangente na sua fase prévia, antes de ir à votação. “Mas o cenário será de maior segurança jurídica e teremos um meio ambiente mais protegido”, acredita o membro da Comissão de Direito Ambiental da OAB Nacional.

O advogado explicou ainda que a lei antiga era mais punitiva, acreditando que a polícia e fiscais iriam resolver o problema do desmatamento. O Código Florestal, aprovado em parte em 2012, é mais minucioso e prevê artigos além da proteção florestal, levando em consideração também a biodiversidade

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Safra agrícola no plástico A Braskem desenvolveu silos especiais para o armazenamento de safras agrícolas. Mais leves, os equipamentos conseguem armazenar mais de 200 toneladas de grãos e ajudam a conservar o alimento. Além dessas vantagens, os silos não precisam de estrutura física como suporte e são facilmente manuseados na hora do carregamento.

Silo-bolsa de plástico pode armazenar os grãos por dois anos. ‘O silo convencional precisa de manutenção e de defensivos’, explica Gustavo Bazzano Fotos: divulgação

De acordo com Gustavo Bazzano, diretor comercial da Pacifil Brasil - a primeira empresa nacional produtora de silos-bolsa e focada na tecnologia de ponta para o setor agrícola nacional -, o equipamento tem sido cada vez mais usado pelos produtores rurais brasileiros em diferentes situações. Tanto pelo pequeno produtor quanto por grandes empresas. Com esses silos é possível também fazer a armazenagem dos grãos quando os silos convencionais estão ocupados, exemplifica.

“Também quando eles têm problema de logística, ou o frete fica muito caro, pode-se armazenar esses grãos até ter um melhor momento para a venda”, comenta Bazzano. Os grãos nesses silos podem ser armazenados por dois anos. “A diferença para o silo convencional está na necessidade de manutenção e do uso de defensivos nesses sistemas de armazenamento mais antigos”, acrescenta o diretor comercial. Além disso, Bazzano explica que nos silos-bolsa não precisa fazer um investimento além da real necessidade do produtor rural. “Um silo-bolsa custa R$ 1.500, enquanto um silo convencional, R$ 100 mil. Na safra, o produtor vai avaliar e comprar a quantidade necessária de bolsas”, diz. Hoje, os silos-bolsa são usados principalmente no armazenamento da soja e do milho. Mas outra vantagem é que, após usar o bolsão uma ou duas vezes, o agricultor poderá vender o equipamento para a reciclagem e reaver até 20% do valor investido, informa Bazzano. Além dos silos, a Braskem também investe em outros produtos para o agronegócio. De acordo com a empresa, as resinas plásticas, como polietileno, polipropileno e PVC, têm sido grandes aliadas na substituição de produtos tradicionalmente utilizados nesse setor, devido a características como maior durabilidade, menor peso e impacto ambiental reduzido, além de maiores ganhos de produtividade. As resinas de polipropileno e polietileno, por exemplo, constituem uma alternativa para produtos como telas de meia sombra, sacos tipo big bag, cobertura de estufas, pulverizadores e peças para tratores agrícolas. “O portfólio de produtos que lançamos nos últimos anos demonstra o trabalho de nosso Centro de Tecnologia e Inovação para se manter à frente das tendências do mercado e encontrar soluções inteligentes para os desafios dos nossos clientes”, diz Luciano Guidolin, vice-presidente da Unidade de Poliolefinas da Braskem. ‘I’m green’ é o selo que permite identificar os produtos manufaturados com o plástico verde da Braskem. O plástico verde é feito com etanol de cana-de açúcar. Outro produto da companhia é o pallet oriundo de plásticos verdes. O pallet é um estrado de madeira, metal ou plástico utilizado para movimentação de cargas. De acordo com a companhia, um pallet de polipropileno pesa apenas três quilos, tem a mesma capacidade e uma vida útil bem superior à da madeira. Como um caminhão consegue carregar um número maior de pallets de plástico, há economia nas viagens necessárias para o transporte e no combustível, reduzindo as emissões de monóxido de carbono. Outro exemplo na agricultura, entre os recursos verdes que já estão sendo

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comercializados, é o agrofilme. Com sua utilização, o agricultor consegue evitar a proliferação de vírus e pragas, controlar a temperatura, a disseminação de luz e de calor, entre outras tantas variáveis climáticas. A cobertura plástica, segundo a empresa, também protege o solo, contribuindo para restringir a aplicação de agroquímicos, inibir o crescimento de ervas daninhas, erosão e diminui a perda de adubo. Todas essas vantagens são traduzidas em menor custo, maior produtividade e qualidade dos produtos. Hoje, o Brasil detém 22% (340 milhões de hectares) das áreas cultiváveis do mundo. A agricultura utiliza somente 18,6% dessa área, sendo que a cana-deaçúcar ocupa 7,8 milhões de hectares (apenas 1% é utilizado para produção de etanol). O cultivo da soja se utiliza de 22 milhões de hectares; o milho, de 14 milhões hectares; e a pecuária, de 220 milhões de hectares. A esfera guarda na fábrica a matéria-prima do plástico verde Foto: divulgação

“Um silo-bolsa custa R$ 1.500, enquanto o convencional, R$ 100 mil. O produtor pode comprar só as necessárias”

Com a profissionalização do setor de açúcar e álcool brasileiro, e com o aumento da mecanização da colheita e da preparação das usinas para produzir bioeletricidade, a previsão é que essa vantagem energética aumentará ainda mais.

Plástico verde é produzido a partir da cana-de-açúcar O plástico verde da Braskem é feito com etanol de cana-de açúcar, o que leva a uma produção mais eficiente, segundo a empresa. A crescente profissionalização do setor de produção de etanol e a eficiência dos processos da Braskem conferem vantagens ambientais ao ciclo de vida do polietileno verde: cada tonelada de polietileno verde produzido captura e fixa de 2 toneladas a 2,5 toneladas de CO2 que estavam na atmosfera, ajudando a reduzir as emissões de gases do efeito estufa e evitando o aquecimento global. O desenvolvimento sustentável de toda a cadeia de produção do plástico verde é o resultado da combinação do alto desenvolvimento da indústria sucroalcooleira no Brasil e da inovação da Braskem.

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Redução de CO2

1

3

1

500

hectare de terra (equivalente a um campo de futebol) produz 82,5 t de cana-de-açúcar, que produz 7.200 l de etanol

tonelada de PE Verde captura até 2,5t de CO2. Redução chega a 500 mil toneladas/ ano com a produção de 200 mil toneladas do produto

toneladas de PE Verde são produzidas a partir dos 7.200 litros de etanol. O plástico verde é 100% reciclável

mil toneladas ao ano de CO2 equivalem à emissão de 500 mil carros por ano

GUSTAVO BAZZANO, diretor comercial da Pacifil Brasil

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Mais energia para o Oeste

AMPLIAÇÃO DA REDE ELÉTRICA Região de Formosa do Rio Preto OBRAS

Subestação de São Marcelo Valor: R$ 7,6 milhões

Rede de Distribuição São Marcelo Valor: R$ 19,5 milhões

Linha de Distribuição Rio Branco/São Marcelo Valor: R$ 13 milhões

Subestação Rio Branco Valor: R$ 1,2 milhão

Estágio das obras: Levantamento topográfico e projetos concluídos. Licenciamento Ambiental em andamento. Previsão de Conclusão: 2013

Total:

Subestação Rio Branco – Reator 10 MV Ar/138 kV Valor: R$ 3,3 milhões

R$ 44,6 milhões

Região de Luís Eduardo Magalhães OBRAS

Subestação Rio Grande Valor: R$ 3,2 milhões Estágio: Obra em andamento

Subestação Mundo Verde Valor: R$ 3,2 milhões Estágio: Obra concluída Total:

Subestação Rio das Pedras Valor: R$ 4,4 milhões Estágio: Projeto concluído

Rede de Distribuição Mundo Verde Valor: R$ 1,1 milhão Estágio: Obra concluída

Previsão: 2013

MOISÉS SALES, presidente da Coelba

Subestação Roda Velha Valor: R$ 400 mil

BAHIA

Região do Pratudão Subestação Itaguari Valor: R$ 7,5 milhões

FORMOSA DO RIO PRETO

Rede de Distribuição Itaguari Valor: R$ 4,4 milhões

Rio Branco

Estágio: Obra concluída

Estágio: Obra em andamento

Linha de Distribuição Rio Formoso/Rio Itaguari Valor: R$ 5 milhões Estágio: Obra concluída

Total:

Rio Das Pedras

OBRAS

Subestação Rio das Éguas Valor: R$ 7,7 milhões Estágio: Projeto concluído Previsão: 2012

BAHIA

Rio Grande

R$ 22 milhões

Região de Correntina

Os R$ 113 milhões disponibilizados no orçamento da empresa para o Oeste são destinados à construção de subestações e linhas de distribuição em alta (138 kV) e média (34,5 kV) tensão. O Oeste da Bahia concentra, de maneira folgada, a fatia mais expressiva do agronegócio no estado, respondendo por mais de 80% da produção de grãos, com matriz diversificada, tecnificada e muito qualificada.

CORRENTINA

Isso se dá de modo especial pela existência de amplas áreas de cerrado e com boas condições de produção, que faz crescer a ocupação e permite ampliar cada vez mais o desenvolvimento dessa área. Com 39 municípios, a região do oeste baiano tem população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em quase 1 milhão de habitantes. Os produtores costumam reclamar tanto da oferta quanto da qualidade no fornecimento de energia. O cerrado abrange aproximadamente 6 milhões de hectares. Do total, no momento, 2,25 milhões são utilizados para a agricultura, enquanto os cálculos indicam que mais de 3 milhões sejam agricultáveis. Nos seus chapadões planos, pratica-se agricultura empresarial e intensiva, destacando-se as produções de soja, algodão, milho e café.

LUÍS EDUARDO MAGALHÃES

Subestação Pratudinho Valor: R$ 5,1 milhões Estágio: Obra em andamento

Até o final do ano que vem, a Coelba vai investir R$ 113 milhões no Oeste da Bahia, um dos maiores polos agrícolas do Brasil. O valor contempla o aumento da oferta e melhoria da qualidade da energia elétrica, ampliação do sistema e rapidez no atendimento, de acordo com o presidente da companhia, Moisés Sales. “Nós sempre estivemos atentos ao crescimento do agronegócio e à sua importância para o desenvolvimento da Bahia”, afirmou Sales.

Estágio: Obra concluída

R$ 12,3 milhões

OBRAS

“Com todas essas obras, a região Oeste ficará muito bem servida de energia”

Na área de Formosa do Rio Preto, o investimento é de R$ 44,6 milhões. As obras para construção da Subestação São Marcelo, da linha de alta tensão 138 kV Rio Branco/São Marcelo e da linha de média tensão 34,5 kV São Marcelo, estão na fase de licenciamento ambiental.

Rio das Éguas Rio Formoso

REGIÃO DO PRATUDÃO Rio Itaguari

Além disso, nessa região, será construída nova entrada de linha 138 kV e implantado novo reator na Subestação Rio Branco, equipamento que proporcionará maior qualidade nos níveis de tensão para as cargas atendidas, segundo a empresa. Para a região de Luis Eduardo Magalhães, o volume chega a R$ 12,3 milhões. Já foram concluídas as construções das subestações Mundo Verde e São Desidério e da linha de média tensão Mundo Verde. Além

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disso, também em construção a terceira entrada de linha 34,5 kV na Subestação Roda Velha e implantação de novo reator na Subestação Rio Grande. Com projeto concluído, serão iniciadas e entregues ainda este ano as obras de construção da entrada de linha 138 kV na Subestação Rio das Pedras. Na região de Pratudão, a Coelba destinou R$ 22 milhões em obras realizadas desde o início do ano passado, como a construção da Subestação Rio Itaguari e a linha de alta tensão Rio Formoso/Rio Itaguari. Atualmente, encontra-se em fase de obras a linha de média tensão Itaguari, a Subestação Pratudão e a linha de média tensão Pratudão. Na área de Correntina estão sendo investidos R$ 7,7 milhões para introdução de 138 kV na Subestação Rio das Éguas. “Com todas essas obras, a região Oeste ficará muito bem servida de energia. Mas é importante lembrar que o trabalho de ampliação da rede é permanente, porque a Coelba somente vai crescer se a Bahia se desenvolver”, disse Sales.

Investimento em outras regiões Além do Oeste, a Coelba também está investindo em outras regiões que têm vocação para o agronegócio. Em Juazeiro, entraram em operação este ano a Subestação Distrito Industrial e a linha de distribuição em 69 kW (Entroncamento de Juazeiro II/Juazeiro I), empreendimentos que ofereceram maior oferta, bem como aumentaram a flexibilidade e confiabilidade do fornecimento de energia à região, uma das maiores produtoras de frutas do Brasil. O valor investido pela companhia nessas duas obras foi de R$ 6,3 milhões. Em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, entre outras ações, já foram construídas em 2012 a subestação Centro Industrial e uma linha de distribuição em 69 kW, obras que significaram investimento da ordem de R$ 3,2 milhões. Na Chapada Diamantina, a Coelba destinou R$ 27,2 milhões na construção das subestações Mucugê e Cascavel e nas linhas de distribuição e empreendimentos associados a essas obras.

A Coelba, empresa do Grupo Neoenergia, destinou em seu orçamento R$ 1,3 bilhão para investir este ano no sistema de distribuição de energia elétrica em todo o estado. O valor representa evolução de cerca de 20% em relação ao investido em 2011. Os recursos foram aplicados principalmente em obras de expansão de rede, construção de novas subestações, manutenção, melhoria e modernização do parque elétrico, além da ligação de novos consumidores nas zonas rural e urbana. Do total, aproximadamente R$ 430,8 milhões foram destinados a expansão e renovação da rede de distribuição; R$ 20,7 milhões aplicados em automação e telecomunicações para o sistema elétrico; R$ 813,6 milhões direcionados às obras de ligação de novos consumidores do campo e da cidade; R$ 29,4 milhões transferidos para instalações gerais, destacando-se a renovação da frota de veículos e ações na área de infraestrutura; e R$ 6,7 milhões voltados para projetos especiais, a exemplo do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento.

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Mesmo com o nome de etanol de segunda geração, esse etanol tem a mesma qualidade do etanol normalmente fabricado. Segundo Leila, o problema a ser resolvido em muitas pesquisas é o custo desse novo combustível. “O custo das enzimas usadas na produção é que é elevado”, diz. Isso porque o bagaço que sai da cana precisa ser tratado. Depois, é necessário remover duas camadas que revestem a celulose (parte da parede celular das plantas). É aí que entra o uso das enzimas. A partir dessas quebras é que se obtém o combustível. “O etanol de segunda geração, produzido de partes de plantas não comestíveis, é uma das alternativas ao petróleo, mais benéfica para o ambiente e mais promissora tecnologicamente”, acredita a professora. Segundo a pesquisadora Leila Aguilera (foto), coordenadora do laboratório da Unifacs, a pesquisa no Nordeste é pioneira

Inovação com etanol de segunda geração

Fotos: Tayse Argolo

O etanol, que muitos brasileiros já deixaram de usar nos seus carros por não ser mais vantajoso financeiramente do que a gasolina, ainda representa a esperança de se tornar um dos principais combustíveis verdes no futuro. Hoje, o litro do etanol custa R$ 2,14 nas bombas de Salvador. Para ter preços mais competitivos, o etanol precisaria ter uma produção maior. Mas sua matéria-prima, a cana-de-açúcar, também é muito usada para a fabricação do açúcar. Alavancar essa produção é o que propõe o Núcleo de Química Verde da Unifacs, um laboratório da universidade inaugurado em 2012, a fim de trabalhar, principalmente, na pesquisa do etanol de segunda geração. E o que significa um etanol de segunda geração? É o mesmo combustível, só que gerado a partir do bagaço da cana, e não apenas do suco. Atualmente, esse bagaço é queimado para gerar calor no processo de fabricação do etanol de primeira geração. O etanol de segunda geração ainda vai gerar uma redução do uso da terra, o que é favorável para o agronegócio. Isso porque, segundo a professora e coordenadora do laboratório, Leila Aguilera, é possível dobrar a geração do combustível utilizando a mesma área de plantio de hoje. “No processo brasileiro convencional para produção de etanol, 92% do bagaço é usado para geração de calor no processo. Se apenas os 8% restantes fossem convertidos em etanol haveria um acréscimo adicional de 2.200 litros por hectare, elevando o rendimento total por hectare para 8.200 litros e reduzindo a quantidade de terra requerida para o plantio em 29%”, acrescenta. Atualmente, um hectare de área plantada de cana-deaçúcar é capaz de produzir 6 mil litros do combustível.

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Leila Aguilera lembra ainda que o petróleo é uma fonte que vai se esgotar em algum momento. A pesquisadora destaca também que o etanol de segunda geração permite a geração de outros subprodutos, que podem ser utilizados em variados processos químicos. Segundo a especialista, as regiões Sul e Sudeste do país já trabalham com laboratórios pesquisando o etanol de segunda geração. “Porém, no Nordeste, nós somos pioneiros”, comenta. O Núcleo de Química Verde da Unifacs conta com o apoio do Instituto Brasileiro de Tecnologia e Regulação, Petrobras, Finep, Fapesb, CNPq e Ufba.

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Dados sobre o etanol

6

2

8%

2,14

mil litros de etanol são produzidos em um hectare de terra

do etanol de segunda geração produzido reduziria em 29% o uso da terra

mil litros a mais seriam produzidos usando apenas 8% do bagaço da cana

reais é hoje o preço médio do etanol nas bombas de combustível de Salvador

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Bem na foto

Turismo

*

O

mundo globalizado e a facilidade no acesso à informação, com a ajuda da tecnologia, também revolucionaram a indústria do turismo. Hoje, com ferramentas como google view e o bombardeio das mídias sociais, basta um clique para descartar ou definir a próxima viagem das férias ou de trabalho. O hotel mais bem localizado, a cidade melhor estruturada, a praia mais bela, o roteiro com atrações mais interessantes. Tudo personalizado, customizado. Com tanta informação, é preciso oferecer mais do que o básico (beleza natural ou pontos turísticos, bom atendimento e preços competitivos). Como em qualquer outro segmento da economia, os produtos turísticos também devem se diferenciar e cuidar muito bem da sua imagem para atrair e fidelizar seu cliente.

Turismo

Esse foi um dos pontos debatidos no seminário A Retomada do Turismo, do Fórum Agenda Bahia 2012. Ayrton Pereira, diretor do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo da Fundação Getulio Vargas (FGV), chamou atenção para as novas tendências no turismo e apontou os 10 passos necessários para um destino ganhar a preferência dos viajantes. Uma espécie de dever de casa. O planejamento, como destacaram os demais especialistas durante o fórum, é a peça-chave para o sucesso. O pontapé inicial para o desenvolvimento de qualquer projeto. Mas não é único ponto a ser atacado. No seminário, foram apresentadas ações bem-sucedidas no Brasil e no mundo. Uma delas vem de Amsterdã, importada pela Arena Fonte Nova para trazer grandes eventos internacionais para a Bahia. Um novo calendário de shows poderá atrair turistas (do país e de fora) para Salvador, incrementando toda a cadeia do turismo, como mostrou Dênio Cidreira, presidente da Arena Fonte Nova. O secretário do Turismo, Domingos Leonelli, também deu detalhes de um novo roteiro baiano: o turismo náutico na Baía de Todos os Santos. Especialistas lembraram que o tempo é curto para os grandes eventos esportivos programados para 2013 e 2014 no Brasil - e na Bahia. E que investir na cidade é a melhor maneira de cuidar da imagem de um destino. “Dificilmente, o país terá nova chance como essa. Haverá muita exposição, uma grande lente de aumento. E sem filtro”, alerta Pereira.

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Propostas apresentadas no seminário Investir em infraestrutura nas cidades baianas. Uma boa cidade para seus * moradores também desperta interesse dos turistas Evitar improvisações e planejar ações que deixem um legado para as cidades *após os eventos esportivos mundiais, que serão realizados também em Salvador

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Planejar o potencial de cada região para o desenvolvimento do turismo local. Estabelecer objetivos e metas

* Recuperar a imagem do turismo em Salvador. O número de pernoites na capital *baiana tem caído, movimento contrário ao de outras cidades do estado Elaboração de um plano de marketing para promoção do destino

Compromissos firmados de Todos os Santos: O secretário estadual de Turismo, Domingos Leonelli, * Baía garantiu que o programa para desenvolver o turismo náutico na Baía de Todos os Santos, em 18 municípios da região, começa em 2013 Domingos Leonelli anunciou que em setembro de 2013 a Bahia irá abrigar * Feira: a primeira edição da feira náutica Boat Show do Nordeste roteiros: O secretário de Turismo também anunciou a requalificação * Novos do atracadouro de Monte Serrat para o transporte de lancha em pontos turísticos, como o Porto da Barra João: Durante debate no Fórum Agenda Bahia, Domingos Leonelli afirmou * São que pretende discutir a ampliação do São João em Salvador, através de parcerias com a iniciativa privada Revitalização do Pelourinho, inclusive com a construção de palco articulado * para a realização de shows e eventos

Priorizar soluções emergenciais como limpeza das ruas e placas de sinalização *tanto para pedestres quanto para veículos

Inovação nos destinos para atração de turistas mesmo nos períodos de baixa * estação e alta nos preços das passagens

* Reforçar a imagem do destino além das datas tradicionais * Criar novos calendários turísticos * Investir no roteiro religioso, com grande potencial na Bahia, como o da Irmã Dulce Customizar roteiros para atrair a nova classe média. Pesquisa do *Datapopular revela que a classe C lidera, com 60%, o ranking sobre a intenção de viajar dentro do país Intensificar os investimentos na qualificação dos profissionais que têm contato *direto com turistas. No debate, os especialistas sugeriram ampliação de turmas no próprio local de trabalho

* Parcerias entre público e privado para incrementar o turismo * Incrementar a economia da região para atender ao destino turístico 254

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De passagem bem ligeiro por Salvador Pelo menos nas estatísticas, Salvador deixou de ser atração turística para muitos visitantes e se transformou em uma cidade dormitório ou de passagem. Segundo levantamento realizado pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis-Bahia (Abih), a taxa de permanência dos hóspedes passou de 3,4 para 2,5 dias nos oito primeiros meses deste ano, em comparação a igual período de 2011, e o índice de ocupação dos hotéis despencou de 67% para 59%. Enquanto outras capitais do Nordeste registraram crescimento expressivo no movimento de passageiros em seus aeroportos (embarque/desembarque), os números de Salvador estacionaram no mesmo patamar em 2011.

Sem barracas, praias não oferecem infraestrutura para os turistas Foto: Andréa Farias/Arquivo CORREIO

Entre janeiro e julho de 2012, de acordo com a Infraero, 5.046.334 de passageiros (brasileiros e estrangeiros) passaram pelo aeroporto, ante 5.044.949 em 2011 (1.385 pessoas a mais). Salvador ainda é o principal destino do Nordeste, mas registrou crescimento irrisório de 0,02% nesse período nos aeroportos - com queda em alguns meses. Outras capitais do Nordeste, como Fortaleza, tiveram resultado melhor. Em Aracaju, o movimento cresceu 23%.

“A queda no turismo significa prejuízo para toda a cadeia e empobrecimento para Salvador, já que o setor responde por 15% do PIB da cidade”, diz Sílvio Pessoa, presidente do Conselho de Turismo. Segundo os dados da Abih, há quase nove meses, a taxa de ocupação dos hotéis registra queda e pelo menos 40% dos 35 mil leitos estão vazios (8% a mais em relação aos oito primeiros meses de 2011). “Os números apenas refletem a realidade de uma cidade sem infraestrutura, praias desertas pela ausência de um parque gastronômico, segurança deficiente e sem mobilidade urbana”, reclama o presidente da Abih, José Manoel Garrido. Na opinião de Garrido, o “abandono de Salvador” tem provocado a migração dos turistas para o Litoral Norte da Bahia, Morro de São Paulo, Chapada Diamantina e Porto Seguro: “Os visitantes desembarcam em Salvador e seguem para outros destinos. Quem, por algum motivo, resolve visitar à cidade fica decepcionado, porque é abordado por viciados em drogas e, o que é pior, vê a degradação de pontos turísticos”. Coordenador da Câmara Empresarial de Turismo da Federação do Comércio, entidade que congrega 30 associações de classe, Cícero Sena tem a mesma opinião. “Salvador não é mais simpática ao turista, como também não é para os seus moradores”. A atual situação do Pelourinho também tem sido um complicador para o turismo. De acordo com a Associação dos Comerciantes do Pelourinho (Acopelô), cerca de 200 pontos fecharam as portas nos últimos sete anos, entre os quais restaurantes conhecidos, como o Bacalhau do Firmino e o Matusalém. Proprietário da Pousada Solar dos Romanos, localizada no Carmo, Eduardo Stival acrescenta que a imagem do Centro Histórico de Salvador é muito negativa. “Depois das 21h, tudo fica deserto. Até os moradores dos bairros têm medo de sair às ruas”, revela. O secretário estadual de Turismo, Domingos Leonelli, tem duas explicações para a queda na taxa hoteleira. Segundo ele, além da migração dos visitantes para outras regiões da Bahia, há maior oferta de leitos na capital. “Hoje temos mais estabelecimentos do que há três ou quatro anos”, diz. Com relação à redução no movimento de passageiros (embarque/ desembarque) no aeroporto de Salvador, o secretário afirmou que Gol e TAM modificaram suas operações nos roteiros com a Argentina.

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“Antes, tínhamos voos diretos entre Salvador e Buenos Aires e, agora, há conexões em São Paulo. Com isso, os desembarques argentinos são contabilizados em São Paulo”, afirmou. Gerente de promoção da Saltur, Leonardo Leão disse que não tem estatística para mensurar o fluxo de turistas. Mas, baseado em dados da Infraero, afirmou que o movimento aumentou nos últimos anos. Sobre a falta de segurança, destacou que a violência não é fato isolado de Salvador, mas de quase todas as grandes cidades do mundo.

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Em queda

2,5 dias

é a média de permanência dos hóspedes em Salvador este ano. Era maior: de 3,4 dias, na comparação com 2011

200

pontos comerciais fecharam suas portas no Pelourinho, nos últimos sete anos, de acordo com a Acopelô

Praias sem infra Dois anos após a demolição de quase 350 barracas de praia em cumprimento a uma decisão judicial, a orla de Salvador ainda está sem qualquer projeto de requalificação. “Não há restaurantes, não há banheiros. Pelo contrário, o que se vê é esgoto a céu aberto, falta de higiene e ambulantes invadindo o espaço dos banhistas”, reclamou o professor José Carlos Oliveira, baiano que mora em Minas Gerais e não vinha à cidade há três anos. Segundo a Justiça Federal, que determinou a derrubada das barracas sob a alegação de que os empreendimentos foram construídos ilegalmente em faixa de areia que pertence à União, a prefeitura de Salvador ainda não apresentou nenhum plano para a construção de novos equipamentos. A prefeitura afirma que o novo projeto de requalificação da orla já foi encaminhado à Justiça Federal e aguarda liberação para que as obras sejam iniciadas.

MOVIMENTO NOS AEROPORTOS Embarque/desembarque entre janeiro e julho Aumento em porcentagem

23,07%

Centro de Convenções deve ser terceirizado

Foto: Alberto Coutinho/Agecom

258

Deficitário e com muitos problemas de infraestrutura, o Centro de Convenções de Salvador deverá ser terceirizado, segundo a Secretaria do Turismo. A discussão sobre o novo modelo de gestão começou há seis meses, mas nenhuma definição ainda foi tomada. “O maior centro de convenções de Salvador comporta apenas 2 mil pessoas, não possui climatização na área de exposição e apresenta rachaduras e infiltrações em quase todos os seus compartimentos. Ou seja, causa uma péssima impressão aos turistas corporativos e de eventos, justamente as pessoas que têm um poder aquisitivo maior”, reclama Cícero Sena, coordenador da Câmara Empresarial de Turismo da Federação do Comércio.

10,25% 4,92%

4,42% 0,22%

0,02% Salvador

Aracaju

João Pessoa

Fortaleza

Maceió

Recife

5.046.334

793.294

737.747

3.485.992

967.558

3.785.748

5.044.949

610.244

662.070

3.314.390

924.787

3.777.086

FONTE: INFRAERO

2011

ATÉ ABRIL

2012: 3.003.402 2011: 3.003.014

ATÉ MAIO

2012: 3.620.238 2011: 3.651.562

ATÉ 2012: 1.643.170 FEVEREIRO

ATÉ JUNHO

2012: 4.281.108 2011: 4.312.475

2012: 2.317.385 2011: 2.307.615

ATÉ JULHO

2012: 5.046.334 2011: 5.044.949

ATÉ JANEIRO

AEROPORTO DE SALVADOR

2012

2012: 934.642 2011: 901.955 2011: 1.467.278

ATÉ MARÇO

259


Pelô em alerta

Governo investe em qualificação, em feiras e na Copa

Tombado pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, o Pelourinho (Centro Histórico de Salvador) é um retrato da crise que afeta o turismo em Salvador. “O Pelourinho está morrendo aos poucos”, disse o comerciante José Reinaldo de Souza. “Quem sempre garantiu o nosso sustento foram os turistas, mas os visitantes têm medo de vir aqui por causa dos constantes assaltos, sujeira e dos mendigos”, acrescentou. O governo estadual informou que aumentou a segurança no Centro Histórico e que a área vai passar por uma ampla reforma e revitalização até a Copa de 2014. Entre as novidades, a região terá um palco articulado e retrátil para a realização de eventos e shows. O custo da reforma está estimado em R$ 20 milhões. Outros R$ 20 milhões, segundo a Secretaria estadual da Cultura, também foram investidos em monumentos considerados âncoras de visitação pelo Ministério do Turismo.

O governo da Bahia aposta todas as fichas na Copa das Confederações e no Mundial de 2014 para alavancar o número de turistas no estado. Em torno de cinco mil profissionais que têm contato direto com visitantes começaram a frequentar aulas de inglês, espanhol e Língua Brasileira de Sinais (Libras). Segundo a Secretaria Estadual do Turismo, participam das aulas policiais civis e militares, guias e monitores, trabalhadores de estabelecimentos localizados no entorno dos principais pontos turísticos da cidade e também da Arena Fonte Nova. A ação contempla ainda trabalhadores de municípios turísticos como Mata de São João, Cachoeira, Maragojipe, Cairu, Lençóis e Lauro de Freitas. “Devemos ainda incluir a cidade de Porto Seguro no programa”, disse Cássia Magalhães, superintendente de Serviços Turísticos e coordenadora do programa de qualificação da secretaria. De olho no potencial das duas competições, o Ministério do Turismo liberou R$ 7,5 milhões para projetos elaborados pela Secretaria de Turismo nas áreas de acessibilidade, sinalização turística e montagem de postos de atendimento aos visitantes. O secretário Domingos Leonelli ressaltou que o governo da Bahia tem investido muito para captar mais turistas. “Estamos sempre presentes nas maiores feiras e eventos que são realizados nos nossos principais mercados emissores, como Argentina, Portugal, França, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Chile”, revela Leonelli.

Hospitalidade não basta Pesquisa encomendada pelo Sebrae e Confederação Nacional do Turismo mostra que o visitante brasileiro leva em consideração a hospitalidade e as condições socioeconômicas antes de decidir a viagem. “O Nordeste tem sol, praia e população gentil. Mas Salvador está ficando para trás, porque os serviços são precários e os turistas têm pouca ou nenhuma opção”, disse José Manoel Garrido, da Abih

260

O secretário reconhece a queda na taxa de ocupação hoteleira em Salvador, mas faz uma ressalva. “Outros destinos turísticos da Bahia, como a Costa dos Coqueiros, Morro de São Paulo e Maraú tiveram significativos aumentos em suas taxas de hotéis e pousadas, o que sinaliza uma migração dos visitantes”, acredita. Domingos Leonelli disse ainda que os dados da Abih referem-se apenas aos grandes hotéis da capital baiana, sem levar em conta outros meios de hospedagem.

261


Dinheiro do turismo muda de lado no bolso Houve um tempo em que viajar para Salvador e viajar para a Bahia tinham o mesmo significado para os turistas. Hoje, o estado continua sendo o líder em turismo no Nordeste, mas a capital baiana acabou perdendo espaço para outras regiões, como o Litoral Norte e a Costa do Descobrimento (que inclui Porto Seguro, Trancoso e Arraial d’Ajuda). Por abrigar o principal aeroporto, a capital ainda é o destino mais visitado pelos turistas, mas eles não ficam na cidade por muito tempo e logo partem em busca de outros municípios com mais atrações no estado. Uma pesquisa da Câmara Empresarial do Turismo (CET) da Federação do Comércio do Estado da Bahia (Fecomércio), no período entre 2009 e 2011, mostrou que a capital caiu 13% em número de pernoites. Em compensação, o Litoral Norte cresceu 50% e Porto Seguro, 40%, no mesmo período. Em 2011, o fluxo na Bahia foi de 11 milhões de viajantes, vindos de outros estados (5,3 milhões), do exterior (558 mil) e da própria Bahia (5,2 milhões), segundo uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Dono do resort La Torre, em Porto Seguro, o empresário italiano Luigi Rottuno é a prova dessa mudança no perfil do turismo na Bahia. “Construí o resort há sete anos e o ano de 2012 está sendo o melhor de todos. Antes atendia mais o turista estrangeiro, mas hoje hospedamos também muitos turistas nacionais, alguns das classes C e D, que estão viajando pela primeira vez”, conta Rottuno. O empresário ampliou o número de apartamentos de 80 para 225 e, mesmo assim, registra média de ocupação de mais de 80%. Luigi Rottuno se apaixonou pela cidade, após uma viagem por todo o litoral brasileiro, e fala com conhecimento de causa sobre seus atrativos. “Porto tem um carisma fantástico. O clima é maravilhoso, as praias, a natureza, não tem prédios”, enumera.

A Bahia é o principal destino do Nordeste. Mas os turistas têm preferido outras regiões dentro do estado, como a Praia do Forte (E) e Porto Seguro (D), que registraram maior permanência dos viajantes Foto1: Gabriel Carvalho/divulgação Foto2: Setur/divulgação

do Descobrimento, em Porto Seguro”, diz. Fora do turismo de praia, Leonelli destaca a Chapada Diamantina, outra região turística do estado. “Lutamos e conseguimos dois voos semanais para Lençóis. Também patrocinamos um evento em Mucugê com mais de 700 ciclistas”, diz. Leonelli lembra que os maiores concorrentes da Bahia pelo turista estrangeiro são Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. “Paraná é por causa de Foz do Iguaçu, e em Santa Catarina é o turismo rodoviário de países vizinhos, como Uruguai, Paraguai e Chile”, explica. Com relação ao mercado nacional, Salvador e Litoral Norte respondem por 41,6% dos turistas que visitaram a Bahia em 2011. A capital, que possui uma maior oferta de hotéis (35 mil leitos), pousadas e imóveis para aluguel, representa 32,5%. Já Praia do Forte, Costa do Sauipe e Imbassaí somam 9,1%. Porto Seguro é o segundo destino, com 9%. Depois vêm Ilhéus (4,3%), Prado (3,8%), Praia do Forte (3,5%), Morro de São Paulo (3,4%), Arraial D’Ajuda (3,3%), Costa do Sauipe (2,9%), Imbassaí (2,7%), Maraú (2,5%), Itacaré (2,2%), Lençóis (1,8%) e Trancoso (1%).

O empresário investiu no resort, que é um dos três únicos do Nordeste que estão credenciados a receber seleções. “São 54 hotéis credenciados no Brasil, três no Nordeste, dois na Bahia. Um deles é o meu”, gaba-se, estusiasmado com a Copa das Confederações e o Mundial. Já o secretário estadual do Turismo, Domingos Leonelli, conta o que está fazendo para pulverizar o turismo no estado. “Procuramos patrocinar atrações fora do período de alta estação, que é para compensar a baixa estação. É assim com o Festival do Chocolate, em Ilhéus, e com o Festival 262

263


*

O turismo na Bahia

13%

foi a queda no número de pernoites dos turistas em Salvador, entre 2009 e 2011, segundo pesquisa da Câmara Empresarial de Turismo

50%

Boca a boca é o fator decisivo para a viagem

Para driblar a concorrência

Não adianta colocar uma propaganda bonita no site, investir em televisão, rádio e jornal, se todo mundo sair falando mal da cidade. “Sabemos que a recomendação é um fator decisivo para a viagem. E para o boca a boca ser bom tem que investir nos serviços”, diz o secretário do Turismo, Domingos Leonelli.

Entrevista com Carlos Alberto Ferreira

Para isso, a Setur investe na qualificação profissional de pessoas que trabalham diretamente com o turista, como baianas e taxistas, além de possuir um telefone específico para informações turísticas em três línguas, o 3113-3103. O secretário explica que, apesar de preferir que os baianos viajem pela própria Bahia, é o poder emissivo do estado o principal argumento para conseguir voos diretos para cá. “Prefiro que eles gastem o dinheiro aqui, mas já que viajam para fora, a gente argumenta com isso para trazer voos”, diz. Entre esses estão os voos charter entre Salvador e Buenos Aires, Salvador-Córdoba e Salvador-Rosário, que serão operados apenas entre os meses de janeiro e março. “Damos preferência para a América do Sul”, conta.

foi o crescimento de pernoites no Litoral Norte no mesmo período. A região é a que mais compete com Salvador pela atração dos turistas

Mesmo o assunto sendo turismo, ele não deixa de citar repetidamente temas referentes à infraestrutura. Mas a justificativa é lógica: “Quando a cidade está preparada para quem vive nela, está preparada para o turista. Não temos que focar na melhoria para o turista. Temos que focar na melhoria para nós brasileiros”, avalia Carlos Alberto Amorim Ferreira, presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav) por dois mandatos, de 2007 a 2011. Segundo Ferreira, os investimentos nas cidades estão diretamente ligados na atração de turistas. Atualmente sócio da Ancoradouro Rio de Janeiro, Carlos Alberto Ferreira, mais conhecido como Kaká, lembra que é a “primeira vez que muitas pessoas estão viajando pelo país” e a Bahia que, segundo ele, já foi modelo nesse segmento, precisa recuperar seus equipamentos turísticos - especialmente em Salvador - e se renovar para competir com outros destinos no mundo. Filho de Vasco Ferreira, que iniciou a operação da companhia aérea TAP no Brasil, Carlos Alberto Ferreira tem o turismo na veia. Em entrevista ao CORREIO, aponta desafios e soluções para o turismo baiano. De uma forma geral, como o senhor avalia os investimentos que estão sendo feitos no país na área de turismo? Este é um momento complicado. Apesar de viver um bom momento, com o Brasil sendo visto por causa de grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, a gente nota que ainda falta infraestrutura. Este é um gargalo grande, que está afetando o turismo. Os portos não têm condição de atender à demanda, os aeroportos e as estradas também. Enfim, não estamos vendo as obras de infraestrutura acontecer. E se não temos condições de atender os turistas, isso (Copa e Olimpíadas) pode ser um tiro no pé. A mobilidade urbana, por exemplo, que tanto se fala, não acontece. Vão ter improvisações: puxadinhos em aeroportos e vias exclusivas para autoridades e para quem vai competir. Mas, e o legado para a população?

40%

foi o aumento registrado em Porto Seguro, também para o período entre 2009 e 2011. Maioria dos turistas é de Minas Gerais

Salvador ainda encanta pela beleza das praias, mas sem infraestrutura tem perdido turistas para outras cidades do estado Foto: Gabriel Carvalho/divulgação

264

“Houve um crescimento do setor, mas não teve o preparo da mão de obra”

E há como atrair o interesse do capital privado? Pode até ser, mas temos que ter condições claras para esses investimentos. A hotelaria, por exemplo, está investindo, mas eles pedem desoneração da mão de obra, de tributos e tudo isso precisa ser agilizado para compensar o investimento. Porque ninguém vai construir hotel apenas para esses eventos. Tudo isso deve estar dentro de um grande planejamento. Tem que fazer as coisas bem e com antecedência, o que não está acontecendo. 265


E como o senhor avalia a importância dos equipamentos turísticos, tanto para o turismo interno quanto para o turismo internacional? Algum investimento tem. E nesse aspecto, da parte da iniciativa privada, temos que qualificar melhor a nossa mão de obra, temos que capacitar mais. Houve um crescimento do setor, mas não teve o preparo da mão de obra. E isso é algo que tem que ser revisto. Aqui no Brasil, por exemplo, os funcionários falam poucas línguas estrangeiras. Isso é um complicador. Mas, repito, acho que temos que ter infraestrutura para nós brasileiros. Cada vez mais, surge uma massa para consumir turismo no país. É a primeira vez que muitas pessoas estão viajando pelo Brasil, mas nós também não estamos preparados para isso. Então, se o turismo crescer muito, ele vai complicar a vida de todo mundo. Quando a cidade está preparada para quem vive nela, ela está preparada para o turista. Não temos que estar focados na melhoria para o turista. Temos que estar focados na melhoria para nós brasileiros. Se houver segurança, limpeza e sinalização, o turista vai chegar e vai gostar. E aqui, falta um pouco disso tudo.

“Ver as coisas estragadas e deteriorizadas é muito desagradável. Aquela primeira impressão é a que fica e marca muito”

266

No momento, vivemos um cenário de muitas queixas do trade turístico, que cita o abandono das praias de Salvador e dos seus equipamentos turísticos. Como o senhor vê o turismo hoje para a capital baiana? Durante muito tempo, a Bahia foi modelo de como divulgar e incrementar o turismo. Havia uma política de continuidade das políticas de turismo, como a recuperação do Pelourinho. De uns tempos para cá, não houve a conservação de nada disso. Então, essa zona

“Quando a cidade está preparada para quem vive nela, ela está preparada para o turista”

“Como bom exemplo que foi, a Bahia era copiada e seguida. Estados do Nordeste seguiram seu exemplo”

histórica está toda degradada, falta segurança... Tem muito o que se ver em Salvador. A cidade tem muita história. Porém, precisa preparar seus equipamentos. Não houve esse cuidado, infelizmente. Então, o turista vai e não tem como ver bem esses equipamentos. E ver as coisas estragadas e deteriorizadas é muito desagradável. Aquela primeira impressão é a que fica e marca muito e, como esses equipamentos estão mal conservados, passa até um aspecto de sujeira. Há também a própria questão da segurança, que é primordial. Tudo isso deve ser olhado com calma. Mas é possível reverter esta situação? Com certeza. O próprio Rio de Janeiro é um exemplo. Há três anos, tínhamos problemas gravíssimos de segurança, disso tudo, e ele está conseguindo se recuperar. Não vou dizer que o Rio é o ideal hoje em dia, mas já houve uma boa melhora. Estão ocorrendo algumas obras, mas, como a cidade ficou parada durante muito tempo, todas as obras que são realizadas a gente ainda acha pouco. Muita coisa ficou sem ser feita. Então, temos que começar rapidamente e bem feito. E o que acontece é que obras públicas feitas rapidamente acabam malfeitas. E claro que isso também é ruim. Existem também muitas queixas sobre a queda de turistas por causa da crise na Europa. Isso é um empecilho para o crescimento do turismo no país? De algum tempo para cá, o número de turistas estrangeiros já não cresce muito, mas isso não é só resultado da crise na Europa. Há outros problemas, como o fato de o Brasil ser distante dos grandes centros do poder aquisitivo de viagem, como os EUA e a Europa. Ainda temos um gargalo, desde a falecida Varig, na parte aérea. Com isso, muitos turistas não vêm por causa da falta de capacidade de transporte. Outro problema é que, com o fortalecimento da nossa moeda, o Brasil ficou caro. E ainda há uma concorrência muito grande entre os destinos. Tem, por exemplo, o Caribe, a Turquia, que está desenvolvendo muito, a própria Ásia. Os hotéis calculam suas tarifas de acordo com a demanda, mas a nossa mão de obra é cara e os encargos são altíssimos. Existem alguns problemas no Brasil que precisam ser logo resolvidos. Não adianta ficar reclamando de crise europeia, que é só uma parte do problema, mas não é o principal. E com toda essa situação, como o senhor vê hoje a Bahia neste cenário nacional do turismo? Como bom exemplo que foi, a Bahia era copiada e seguida. Muitos estados, do próprio Nordeste, seguiram seu exemplo de promoção turística. Há uma competição dos destinos dentro do Brasil, o que é natural, porque cada um quer superar o outro. Então, os governantes locais começaram a ver a força do turismo para a região. O setor faz parte da economia e é um dos motores para incentivá-la. A Bahia já sofre a concorrência de todos os destinos. E cada destino tem que estar mais bem preparado que o outro.

267


Com a palavra, o turista Os milhares de turistas que visitaram Salvador e as cidades da Região Metropolitana no Verão levaram para casa outras lembranças que não apenas as das praias de mar azul, da arquitetura e da tão falada alegria dos baianos. Além das fitinhas do Senhor do Bonfim e do pôr do sol no Farol da Barra, os turistas ouvidos pelo CORREIO também registraram imagens da sujeiras nas praias, a insegurança estampada no rosto dos baianos e o caos no trânsito. “Tinha outra ideia de Salvador, talvez por esta ser a segunda vez que venho aqui. Há cinco anos, havia mais opções de lazer, a cidade parecia mais conservada, mais limpa”, disse a estudante de Ciências da Computação Bruna Souza.

Para Ferreira, Salvador tem muita história, mas equipamentos turísticos, como o Pelourinho, estão deteriorados

A corretora de imóveis Cássia Regina Costa, 43 anos, criticou a sujeira das praias e a falta de policiamento nas áreas por onde passou. Hospedada na casa de amigos, em Camaçari, ela trouxe o sobrinho e a sobrinha-neta para conhecer a cidade, que visitou há dois anos, e se decepcionou com o que viu. “A cidade está horrível, nada mudou nos últimos dois anos e, se mudou, foi para pior”, revelou em frente ao Farol da Barra, um dos principais cartões de visita da primeira capital do país.

Foto: Arquivo Correio

E a Bahia acabou sentindo esta concorrência, não é? Podemos pensar em Recife, em Fortaleza... Com certeza. Todos os estados estão seguindo o exemplo. A própria Paraíba, o Maranhão e o Pará estão investindo. Enfim, os estados despertaram para o fato de que o turismo é importante. Cada um da sua maneira, ou tendo melhores equipamentos, ou tendo melhores atrações. Mas esta concorrência é sadia, porque o estado tem que ter competência para superar o outro e atrair mais turistas. Mas o senhor tem a impressão de que a Bahia não está mais investindo nesse segmento turístico? Não é que não esteja investindo. O problema é que há uma concorrência forte dos outros estados. Para conseguir mais voos do estrangeiro, por exemplo. Mas a Bahia já tem uma malha aérea razoável, comparada aos outros estados. Tem poucos voos internacionais, mas tem. Agora, o cenário é outro e a concorrência com os outros destinos já dificulta a atração dos turistas.

A ideia de que a Salvador atual difere daquela vendida nos cartões-postais e nas campanhas de publicidade afetou também quem veio pela primeira Foto: Antonio Saturnino

Litoral Norte

casal de argentinos Daniel e Andrea + OMoreno escolheu a tranquilidade das praias de Imbassaí e do Litoral Norte para passar seis dos oito dias na Bahia. “Nós buscamos as praias e uma alimentação mais tranquila por conta de nossa filha”, disse Andrea, antes de perguntar à reportagem se era seguro descer pelo Elevador Lacerda até o Mercado Modelo

-

268

Sujeira As ruas do Centro Histórico com lixo e a má conservação do Elevador Lacerda saltaram aos olhos dos turistas hermanos. Na fila para descer na única cabine do elevador que funcionava no final de semana, o casal reclamou da sujeira nas áreas de turismo e nas ruas da capital baiana

269


vez. O casal de argentinos Daniel e Andréa Moreno, que esteve na cidade com a filha de onze meses, reclamou de deficiências no atendimento e na comunicação. “Quase ninguém fala espanhol ou inglês. Até profissionais que costumam trabalhar com turistas têm dificuldade em falar outra língua”, reclamou o advogado.

Praias

corretora de imóveis Cássia Regina trouxe o + Asobrinho e a pequena Maria Eduarda, 2 anos, para conhecer a cidade. Segundo ela, as praias são o destaque do turismo local. Apesar disso, ainda sobram críticas. “Algumas são muito sujas e estão horríveis”, diz

-

Sinalização Com um carro cedido pelos amigos, Cássia e Marcelo percorreram vários lugares da cidade. Mas reclamaram da falta de placas de trânsito indicando o melhor caminho para se chegar aos principais destinos turísticos. “A sinalização daqui é péssima. Para quem não conhece a cidade, fica bem complicado chegar nos lugares”, disse a corretora

Baianês, então, nem pensar. Foi preciso muito cuidado para não se dar mal na hora de escolher o que colocar no acarajé. “Se não fossem eles, estaria perdido”, disse Brown, que não experimentou a pimenta. “Não sei o que faria se não tivesse a ajuda de alguém que entendesse português. Sair de casa seria muito mais complicado”, comentou. O australiano elogiou a culinária baiana e disse ser este o ‘highlight’ do turismo em Salvador. “Os restaurantes são muito bons e a comida daqui é deliciosa”, contou, depois de elencar a lista de lugares que visitou na cidade, que incluía desde pizzarias a restaurantes de comida típica. A diversidade cultural também foi destacada pelo jornalista, que esteve em um festival alternativo comandado pelo grupo Bemba Trio. A grande crítica do australiano foi sobre o trânsito na cidade. “Não acreditei quando vi um longo engarrafamento em pleno sábado de

270

Idioma

que informou apenas o sobrenome, elogiou a diversidade de culturas em Salvador. A médica conta que percebeu semelhança na variedade de religiões, etnias e ritmos entre Salvador e a cidade africana. “É muito parecida essa diversidade. Gosto muito. Não se vê isso no Rio de Janeiro, por exemplo, que é mais cosmopolita”, contou. Ela elogiou a arquitetura local, em especial a do Pelourinho. O casal disse que quer voltar à capital baiana

guia para ajudá-lo a conhecer a cultura local. Eles sabiam que teriam dificuldade de entender a língua portuguesa e também de se fazerem entender. A médica conta que na pousada onde se hospedaram e nos restaurantes que visitaram encontrou pontualmente quem falasse uma segunda lígua. “Até o inglês, nem todos falam, por isso contratamos um guia para nos ajudar”, contou

de passar um ano morando na - Antes mesmo de chegar a + Depois Salvador, o casal contratou um África do Sul, o casal alemão Wellan,

A mesma reclamação foi feita pelo australiano Lachlan Brown, que passou uma semana na Bahia. Em uma viagem de quatro meses que já incluiu Peru, Rio de Janeiro e Salvador, e ainda deve seguir por Estados Unidos e Japão, o jornalista e designer contou com a ajuda de amigos baianos para se virar com o português.

Foto: Tayse Argôlo

Diversidade

Foto: Antonio Saturnino

De passagem Mais da metade dos turistas que visitam a Bahia percorre o estado entre os meses de novembro e março. No total, são 5,3 milhões de brasileiros e 558 mil estrangeiros. A capital baiana recebe, somente no Carnaval, mais de 500 mil turistas. Mas a permanência dos turistas tem diminuído em Salvador, que tem perdido visitantes para outros destinos no estado

manhã”, disse, sorrindo, como se sentisse pena dos soteropolitanos ao comparar com o sistema de transporte em Brisbane, a cidade onde mora. Ele cita os corredores reservados para ônibus e os BRTs que fazem a integração com o centro e os pontos mais afastados da cidade. “Engarrafamentos existem, mas não se perde o tempo que vocês perdem aqui com esse trânsito”, afirmou. A professora Matilde Fogaça, 54 anos, veio a Salvador com o marido, Rafael Fogaça, a filha Carla e o genro. Entre os elogios à beleza da cidade, ao clima e às praias, a família de Itapetininga, em São Paulo, comentou da boa recepção, mas fez ressalvas à limpeza da cidade. “E esse cheiro? Ruim, né?”, disse, enquanto recebia a rajada de vento que trazia o mau cheiro de um conjunto de banheiros químicos colocados ao lado do Farol. “Difícil”, lamentou. 271


O casal alemão Wellan - que teve de ser convencido pelo repórter de que não era mais um dos inúmeros vendedores oferecendo fitinhas e penduricalhos - elogiou a arquitetura do Centro Histórico. “É muito romântica a cidade, os casarões são muito bonitos, mas este aqui destoa completamente dos outros. Não sei por que deixam ele aqui”, disse a médica, que só forneceu o sobrenome para entrevista, referindo-se ao prédio da prefeitura de Salvador.

Barra

estudantes Bruna Souza e Gustavo Lima, do Recife, em Pernambuco, gostaram + Osda cidade, do clima e das praias. Hospedados em Itapuã, elogiaram o bairro da Barra e não sentiram perigo nas áreas turísticas visitadas, como o Farol da Barra e o Centro Histórico, apesar dos sinais de alerta dos moradores. Os dois elogiaram a vida noturna e o acarajé do Rio Vermelho

Trânsito

passaram duas horas presos no engarrafamento entre Piatã e o Pelourinho. - Os“Eudois achava que o trânsito em Recife era ruim, mas aqui, meu deus, é horrível. Vou

voltar com outra impressão da minha cidade”, disse Bruna. Os dois se deslocaram de ônibus e táxi. “Achei os ônibus sujos”, avaliou a jovem. Bruna reclamou do lixo na praia próxima do Farol da Barra e do abandono do Aeroclube. “Quando vim aqui da outra vez, voltei pro Recife dizendo que a nossa cidade deveria ter um shopping assim: a céu aberto e com muito agito. Agora, fiquei decepcionada em ver como está”, contou Foto: Tayse Argôlo

Casa arrumada Para os soteropolitanos, a casa não está bem arrumada para receber os visitantes. Pesquisa realizada pelo Instituto Futura para o CORREIO revela que 68,1% dos soteropolitanos acreditam que a capital baiana não está preparada para recepcionar os turistas. Duas ações são consideradas prioritárias para atrair novos consumidores: melhorar a limpeza da cidade (35,4%) e melhorar a infraestrutura turística (34,9%). Limpeza ganhou disparado do item ‘mais segurança’ (15%). O Instituto Futura também perguntou sobre a Copa do Mundo. A maioria (59,8%) disse que a cidade está despreparada para atender aos turistas durante as partidas de futebol. A avaliação é mais crítica entre o público feminino (63,9%) e na faixa etária de 30 a 49 anos. A pesquisa também revela qual a principal atração turística de Salvador - a resposta foi espontânea, ou seja, sem múltipla escolha. O Carnaval, que reúne milhares de pessoas na capital baiana, é considerado, disparado, a melhor opção, com 46,7%. Em especial para a classe C (53,3%). As belezas naturais e as praias, que sempre ganharam destaque nas pesquisas, ficaram em segundo lugar, com apenas 22,4%. O patrimônio histórico teve somente 12,8%. Mais de 70% dos entrevistados consideram também que o poder público não contribuiu adequadamente para o desenvolvimento do turismo da cidade. Mas que eles, os entrevistados, fazem sua parte. A maioria (84,2%) avalia que os baianos são receptivos com quem visita sua terra. O Futura realizou outras pesquisas para o Agenda Bahia. O diretor do instituto, José Luiz Orrico, apresentou a de Sustentabilidade no segundo seminário do fórum, no auditório da Fieb.

272

273


Solução

CIDADE DESPREPARADA O que o(a) sr.(a) considera como mais importante para receber bem o turista?* (estimulada)

Especialmente para Salvador, o que o(a) sr.(a) considera como prioritário que os governos deveriam fazer para atrair turistas?* (espontânea)

Uma cidade limpa e bem cuidada

35,4%

Melhorar a limpeza pública da cidade Melhorar a infraestrutura turística

34,9%

Investir na cultura local

36,2%

Beleza naturais preservadas

12,8% 11,6% 10,8%

A simpatia do seu povo

30,2%

Praias limpas e com infraestrutura de atendimento

*Até quatro opções de resposta

*Até três opções de resposta

Como o(a) sr.(a) avalia Salvador em termos de preparo para receber os turistas? (estimulada) Ótima Boa

2,3% 2,8%

Muito preparada Preparada Preparada em parte

26,4%

Regular

Preparada precariamente

11,3%

Ruim

56,8%

Péssima NS/NR

Na realização da Copa de 2014, em relação a receber bem o turista, o(a) sr.(a) considera que Salvador estará: (estimulada)

NS/NR

Na realização da Copa de 2014, em relação a receber bem o turista, o(a) sr.(a) considera que Salvador estará: (estimulada)

Muito preparada + Preparada Prteparada em parte + Preparada Precariamente Despreparada NS/NR Total

De 16 a 29

De 30 a 49 Acima de 50

13,6 35,7 50,8 0,0 100

8,4 23,5 66,9 1,2 100

9,0 29,0 60,0 2,0 100

Total

10,3 28,9 59,8 1,0 100 (Em %)

Classe Social Carnaval Belezas naturais e praias Patrimônio Histórico (monumentos e pontos históricos) Outros NS/NR Total

1,0% Qual o principal atrativo turístico de Salvador? (espontânea)

Qual o principal atrativo turístico de Salvador? (espontânea)

Opções

59,8%

Três primeiros resultados

(Em %)

Faixa etária

D/E

C

A/B

NS/NR

Total

44,2 21,5

53,3 20,7

47,5 30,0

45,8 25,0

46,7 22,4

16,5

4,3

7,5

16,7

12,8

4,1 1,7 100

7,6 1,1 100

2,5 2,5 100

0,0 8,3 100

4,5 2,0 100

46,7% 22,4% Carnaval

Belezas naturais e praias

12,8% Patrimônio Histórico

O(a) sr.(a) acha que o poder público contribui adequadamente para o desenvolvimento do turismo de Salvador?

72,6% 24,9% 2,5% Sim

Não

NS/NR Fonte: Instituto Futura

274

A ideia é aproveitar a Copa das Confederações e o Mundial de Futebol para divulgar o evento também em Salvador

Foto: Arisson Marinho

Despreparada

0,5%

Opções

2,3% 8,0% 16,6% 12,3%

Para Joaquim Nery (foto), deve-se promover a parceria entre iniciativa privada e governo para a realização de um São João especial em 2013 e 2014 na capital baiana

Parceria é palavra-chave Para o presidente da Central do Carnaval, Joaquim Nery, Salvador deveria aproveitar os dois grandes eventos esportivos que acontecerão em junho de 2013 e 2014 para promover uma grande festa na capital baiana. Ao abordar o tema Copa do Mundo e das Confederações: Oportunidades para o São João, Nery afirmou que os festejos juninos na capital perderam espaço nos últimos anos e defendeu a parceria entre governo e empresários na promoção dos eventos. Joaquim Nery sugeriu ainda uma puxada de trio, quase uma micareta (Carnaval fora de época), entre o Aeroclube e o Jardim de Alah, durante as partidas do Mundial em Salvador. Os exemplos de Nery foram alguns dos apresentados no quarto seminário do Fórum Agenda Bahia, A Retomada do Turismo, sobre como parcerias entre setores privado e público podem desenvolver e inovar atuais e novos destinos turísticos. Na palestra de abertura do fórum, o coordenador do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-secretário do Ministério do Turismo, Ayrton Pereira, destacou que a junção entre empresários e governo é essencial para apresentação de um produto diferenciado e mais competitivo. “A matéria-prima do Turismo é pública, mas a sua comercialização é privada”, lembrou Pereira. 275


“Da forma que está, o São João é uma festa para baianos”

Joaquim Nery defendeu que a proximidade das datas dos jogos na Bahia da Copa das Federações e do Mundial, em junho, com o São João é a sinergia que faltava para recuperar, em grande estilo, a festa também na capital. “Não podemos deixar esse turista ir embora daqui. Temos que fazer de tudo para que ele fique mais tempo. Por que não aproveitar a ocasião e oferecer aos turistas duas grandes festas que os baianos sabem fazer muito bem?”, questionou. Nery defendeu a festa também no interior, mas ponderou: “Houve uma migração (da festa) para o interior e muitas cidades não têm infraestrutura hoteleira para receber os turistas. O São João da Bahia é muito bom, mas é basicamente uma festa para baianos. Precisamos trazer pessoas de outros estados e até de outros países para a nossa festa”, avaliou. O secretário estadual do Turismo, Domingos Leonelli, rebateu o argumento de que Salvador não tem mais São João. “Temos no Pelourinho, com várias atrações”, disse. “O São João acontece em Salvador com intensidade razoável, movimentando 100 mil pessoas”, concluiu. Mas Leonelli se mostrou interessado em ampliar a festa na capital através de parcerias.

“Não podemos deixar esse turista ir embora daqui. Temos que fazer de tudo para que ele fique mais tempo”

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A proposta contou com o apoio do presidente da Rede Bahia, Antonio Carlos Júnior, que, em seu discurso de encerramento do fórum, destacou o papel do grupo no desenvolvimento do setor turístico do estado. “Muitos eventos turísticos são projetos da Rede Bahia ou incentivados por nós, como o Festival de Verão, a transmissão do Carnaval para vários países, a divulgação das festas populares. Por isso, a Rede Bahia sempre estará aberta para colaborar”, afirmou. Domingos Leonelli elogiou o trabalho desenvolvido pela Rede Bahia e acenou com parceria para ampliar o desenvolvimento do turismo no estado, como o São João do Pelourinho. Nery citou ainda dados da Secretaria do Turismo para reforçar a grande festa. “Somente em 2014, ano da Copa do Mundo, Salvador vai receber cerca de 750 mil visitantes, dos quais 434 mil em junho, quando serão realizados os jogos”. No seminário, o secretário Domingos Leonelli criticou indiretamente o então prefeito João Henrique Carneiro e acrescentou que acredita que o relacionamento com o deputado ACM Neto, que assume a prefeitura em janeiro de 2013, será “muito melhor”. “Não quero dizer que isso foi bom ou ruim, mas na atual gestão tive de responder também pelos problemas de Salvador. Com um novo interlocutor (ACM Neto), a situação será diferente”, espera.

Uma oportunidade de ouro

“A criação de um novo evento é fundamental para o turismo como um todo”

Para o presidente da Central do Carnaval, o São João em Salvador foi esvaziado. “Nos rendemos à força da festa no interior”. Em seguida, disse que falta infraestrutura hoteleira à maioria das cidades que promovem a festa. “Um turista de São Paulo ou outro estado somente participa da festa nas cidades menores se ficar na casa de um parente ou um conhecido. Da forma que está, o São João é uma festa para baianos”, defendeu. Em sua opinião, o governo deveria estimular também a realização dos festejos em regiões que possuem condições de hospedar os turistas, como a Chapada Diamantina, a Costa do Dendê, a Costa do Desenvolvimento, a Costa do Descobrimento e o Litoral Norte. O presidente da Central do Carnaval lembrou exemplos de algumas festas realizadas no Brasil que atraem milhares de turistas e que contaram com a parceria entre setor privado e poder público para serem promovidas. A primeira delas a Oktoberfest, em Blumenau. “A criação de um novo evento é fundamental para o turismo como um todo”, destacou. Nery também citou duas cidades nordestinas. “Campina Grande (PB) e Caruaru (PE) transformaram o São João em uma festa que atrai turistas de todo o país”, lembrou. De acordo com Joaquim Nery, cerca de 2 milhões de pessoas acompanharam este ano os 31 dias de São João em Campina Grande. “A grandiosidade da festa pode ser medida também pelo número de atrações (480), de patrocinadores (20) e pelo investimento (R$ 3,5 milhões)”, contou. Além das cidades pernambucana e paraibana, Nery também falou sobre o Natal Luz, evento realizado em Gramado (RS). “Durante a festa realizada em 2011, Gramado recebeu 507 mil visitantes, 63% a mais do que em 2010”, afirmou. “Blumenau, em Santa Catarina, recebeu 600 mil visitantes durante os 18 dias da Oktoberfest. Esses dados e números mostram a importância da parceria entre os setores público e privado. O que dá certo em Caruaru, Gramado ou Campina Grande também dá certo em Salvador e em outras cidades da Bahia”, sugeriu. Em outro momento, o presidente da Central do Carnaval, que foi interrompido algumas vezes pelo secretário Domingos Leonelli, também lembrou da importância da divulgação de eventos como o São João. Leonelli disse que a Bahia tem investido em publicidade, mas reconheceu que o governo deve gastar mais: “O problema é que temos um orçamento muito pequeno para todo o setor”.

277


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Novos tempos para o turismo

Festa e seus efeitos

Milhões A Secretaria estadual do Turismo prevê a visita de 750 mil pessoas à Bahia em 2014, ano da realização da Copa do Mundo no Brasil. Somente durante o evento, os turistas devem gastar R$ 683 milhões no estado, segundo estimativas da Setur

A indústria do turismo já sente o reflexo das novas tendências desse mercado que só no Brasil movimentou R$ 229 bilhões em 2011. Pessoas com mais tempo livre para viajar, mercados globalizados e sem fronteiras para o deslocamento de turistas e o uso da tecnologia como diferencial para comunicar destinos e definir escolhas dos viajantes. O cenário foi apresentado pelo diretor do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo e Hotelaria da Fundação Getulio Vargas (FGV) e exsecretário nacional de política de turismo do Ministério do Turismo, Ayrton Pereira, na abertura do seminário A Retomada do Turismo, do Fórum Agenda Bahia 2012.

Pacotes turísticos A CVC, uma das maiores operadoras do mundo, fechou parceria com a Central do Carnaval para vender pacotes exclusivos da festa em Salvador e outras cidades da Bahia. A operadora promete descontos especiais para atrair novos turistas

Evento junino O São João na capital sergipana é realizado durante 12 dias e tem apoio da prefeitura. Este ano, de acordo com informações oficiais, cerca de 150 mil pessoas por dia acompanharam as atrações em todos os bairros da cidade

Micareta Nery lembrou que as duas competições esportivas vão proporcionar uma grande visibilidade mundial para a capital baiana. Acostumado a fazer grandes eventos, defendeu ainda a realização de uma micareta (Carnaval fora de época) entre o trecho do Aeroclube e o Jardim de Alah, e a organização do São João no Centro Histórico. “Seria muito bom ver os turistas e baianos acompanhando os trios elétricos e participando dos festejos juninos”, disse Apesar da sugestão, Nery reconhece que a Fifa, entidade responsável pelos torneios, pode impor algumas restrições. “Eles (os dirigentes da Fifa) são muito rígidos com os eventos que promovem. Mas tudo pode ser resolvido com o diálogo”, disse, referindo-se à micareta. O São João seria realizado depois dos jogos

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Foto: Marina Silva

“Os novos consumidores começam a ter e a exigir um comportamento diferenciado. Eles querem trocar experiências”

Pereira mostrou os dez passos fundamentais para o planejamento de cidades que desejam se reinventar e oferecer destinos cada vez mais competitivos. “Os novos consumidores globais começam a ter e exigir um comportamento diferenciado. Não mais para impor sua cultura, mas para trocar experiências”, explica. Segundo Pereira, os turistas se preocupam cada vez mais com a sustentabilidade dos destinos: tanto pelo lado ambiental quanto cultural. “Os destinos devem se alinhar com essa nova realidade do planeta”, sugere. O diretor da FGV destacou ainda a revolução que a tecnologia proporcionou e ainda determinará no turismo. “Se a tecnologia mudou outros segmentos da economia, no turismo virou de ponta-cabeça. Hoje, as pessoas, por

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conta própria, se informam sobre os destinos, compram passagens, por exemplo, e até recebem os tickets pela internet”, lembra. “A tecnologia mudou a forma como o produto é feito”, afirma. E também de fidelizar o cliente. “Um hotel que recebe o turista pela segunda vez já tem que saber suas preferências e oferecer para ele um atendimento personalizado”, exemplica. A comunicação direta com o turista também deve ser priorizada. “O e-mail que é anotado na ficha do hóspede precisa ser usado para transmitir novas informações que despertem o interesse de retorno ao hotel”, lembra. O diretor da FGV destacou a importância da parceria público-privada: “Uma praia sem infraestrutura não é um produto turístico. É só uma praia”. “Mesmo que o empresário não possa fazer uma ação efetiva sobre algum recurso natural, ele poderá funcionar como um articulador junto ao poder público, solicitando a construção de uma estrada, por exemplo”, comentou. Os destinos turísticos devem também buscar a inovação permanente e apresentar produtos diferenciados. Ayrton Pereira citou algumas cidades com esse perfil e que se destacam no turismo nacional. Bento Gonçalves, nas Serras Gaúchas do Rio Grande do Sul, é uma delas. “Eles conseguiram juntar um setor privado que é até muito mais amplo que o setor de turismo. Uniram a indústria do vinho e outras áreas de negócios, e tudo isso feito com o apoio público através de um conselho”, acrescentou. Gramado também mereceu destaque na palestra do especialista por ter transformado eventos em produtos turísticos, mudando o perfil da cidade. “Antes, o destino era valorizado no meio do ano, quando faz frio lá nas Serras Gaúchas. Com o Natal Luz, Gramado atrai turistas o ano inteiro”, disse. Até o público que visita a região mudou. Os argentinos, que não se sentiam atraídos apenas pelo apelo do frio no Brasil, viajam agora em família para desfrutar o Natal Luz. Outro bom exemplo, dentro do Brasil, citado por Ayrton Pereira, é a Feira Literária em Paraty, Flip, no Rio de Janeiro, que consegue chamar a atenção até da mídia internacional. Mas, no mesmo estado, Ayrton Pereira acredita que falta estruturar melhor um produto mundialmente conhecido. “Fora do Carnaval, não há uma estrutura que ofereça o ano inteiro eventos como os ensaios de escolas de samba”, disse. O mesmo acontece com Salvador - e o axé. Pereira destacou o potencial desses produtos. “Tenha certeza que o turista que vem a Salvador, independente da época, traz este desejo de encontrar um elemento relacionado a esse tema, que ele possa desfrutar”.

painel de indicadores, para acompanhar o cumprimento desses pontos. “Nesse caso, gosto muito do trabalho feito na gestão passada do estado de Minas Gerais. Eles planejaram e cuidaram bem dessas dimensões da competitividade. Definiram os circuitos e foram os articuladores de alguns projetos”, informou. Também não fica de fora a importância de conhecer o mercado potencial. Dentre os critérios estão: análise do tempo que o turista permanecerá, a facilidade de acesso e o poder aquisitivo desses visitantes. “Recomendo fazer uma circunferência, avaliar o público que está em um raio próximo e aqueles que terão facilidade com o transporte aéreo”, disse. O 10º passo apontado pelo diretor da FGV diz respeito à gestão de imagem. Nesse ponto, Ayrton Pereira lembrou da Copa do Mundo, que será realizada no Brasil em 2014. “O desafio da Copa está na gestão da imagem do Brasil. Pelo governo federal, essa questão já está perdida. Mas os estados precisam ficar atentos para não perder essa batalha. “A mídia do mundo inteiro estará voltada para o Brasil. Com uma lente de aumento sem filtro. Talvez, em todo o futuro, não vamos voltar a ter uma exposição tão grande”, provoca. “Por isso, façam a gestão de conteúdo para passar uma imagem positiva, como fez a Alemanha”.

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Confira os 10 passos e seus exemplos

Junte o público e o privado Crie um conselho, compartilhe responsabilidades e resultados entre os dois setores. A matériaprima do turismo, lembra Ayrton Pereira, é pública, como praias, mas a comercialização é privada (a venda de roteiros, os hotéis, as passagens)

Um bom exemplo: Minas Gerais, segundo Ayrton Pereira, fez o planejamento do turismo, definiu circuitos e a gestão em cada um deles e ainda criou metas de desempenho, estimulando a competitividade. Na foto ao lado, Ouro Preto

Foto: Daniel de Cerqueira-Acervo Instituto Estrada Real Fiemg/Divulgação

O planejamento é apontado como essencial para um destino turístico. Nesse caso, vale tanto para um plano de desenvolvimento quanto para um plano de marketing. Além dos projetos, Pereira também recomenda alinhar objetivos e metas dentro da realidade do ponto turístico e estabelecer um 280

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Faça planejamento

Pense em eventos como produtos

De desenvolvimento do turismo e também um plano de marketing. Estabeleça objetivos, metas e alinhe-os com a realidade do destino

Foto: Divulgação

Um bom exemplo: A capital da Paraíba, João Pessoa (foto), encomendou estudo para definir os potenciais de cada destino. Com isso, descobriu que pode contar, principalmente, com visitantes do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, estados vizinhos, além de avaliar sua malha aérea dentro de todo o país

Reforce a imagem do destino para além das datas tradicionais. Crie um calendário de eventos considerando a ocupação do destino

Foto: Divulgação

Um bom exemplo: Gramado, uma das cidades das Serras Gaúchas, conseguiu transformar o Natal Luz (foto) em uma das épocas mais fortes do ano, conquistando, inclusive, os argentinos, que não se interessavam pelo roteiro. O período tradicional era junho e julho

Fidelize seus turistas Conheça o seu mercado potencial

Avalie o tempo que seus turistas passam no destino, como é o acesso deles, qual o seu tamanho e o seu poder aquisitivo

Um bom exemplo: O estado do Rio Grande do Sul determinou esse mercado com clareza. Pereira mostra que os gaúchos começaram a se planejar para além das Serras Gaúchas

Defina os seus produtos prioritários

Um bom exemplo: A Espanha tem investido em uma rede de tecnologia para rastrear todas as escolhas do turista do momento. O monitoramento vai desde a sua entrada até a saída do país. Assim, é possível direcionar produtos específicos para cada um dos públicos

Pense em tudo o que o seu turista possa comprar

Onde você é competitivo? O que o seu mercado anseia? Tenha em vista o que pode ser comercializado e o que há de potencial

Avalie qual o caminho do turista e como oferecer a ele no percurso produtos locais. As questões culturais e de entretenimento também podem ser comercializadas

Um bom exemplo: O Caribe foi bem desenvolvido pelos americanos, além de ter caído no gosto desse público. Fizeram um alinhamento do que o mercado desejava e o que é oferecido

Um bom exemplo: Para Pereira, uma boa integração entre Tiradentes e as cidades mineiras vizinhas permitiu a criação de roteiro de compras de peças produzidas na região

Faça gestão de conteúdo

Comunique o ano inteiro

Uma boa ficha desse destino, com um caprichado banco de imagens e um empenho em gerar mídia espontânea

Use bem a internet para fazer essa comunicação. Alinhe suas promoções com o restante do mercado

Um bom exemplo: O trabalho feito pelo estado da Bahia é elogiado por Pereira. O diretor da FGV lembra que o destino é lembrado durante todo o ano com campanhas direcionadas. Vai além da divulgação do Carnaval, com a venda de outras festas e roteiros, como é o caso do São João, que acontece no mês de junho. Na foto, Cruz das Almas

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Coloque-os na sua rede, crie facilidades para eles e estabeleça conexão o tempo todo

Um bom exemplo: A Nova Zelândia e a Austrália conseguem utilizar essas novas mídias com sucesso para divulgar seus destinos e atrair mais visitantes a partir dessas informações. O Brasil deve se preparar nesse quesito, alerta o diretor da FGV, para a Copa do Mundo

Faça gestão da imagem

Tenha claro como você quer trabalhar essa imagem e também saiba administrar as crises

Foto: Divulgação

Um bom exemplo: Nova York, nos Estados Unidos, que recentemente enfrentou uma tempestade, além do 11 de setembro, sabe administrar as crises de imagem com eficiência, recuperando o fluxo de turistas com campanhas claras e informativas, segundo Ayrton Pereira 283


A força do turismo Em torno de 85% dos frutos do mar utilizados pelos donos de restaurantes e bares na Praia do Forte, no Litoral Norte, são fornecidos por marisqueiros e pescadores de Pernambuco. “Esse é um dos problemas que não queremos que se repita nos demais municípios da Baía de Todos os Santos”, disse o secretário estadual do Turismo, Domingos Leonelli. Segundo ele, é preciso integrar economicamente as áreas de produção de insumos, como os municípios que têm a base da economia local na produção de mariscos, com as regiões de turismo, responsáveis por atrair um maior número de consumidores. Esse é um dos pontos do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), do Ministério do Turismo, apresentado pelo secretário no seminário Agenda Bahia 2012.

Para Leonelli, a Bahia vive um salto no turismo: foram lançados alguns produtos, mas é necessário fortalecer outros segmentos, como o turismo náutico e o religioso, e também o enoturismo

Desafio Para Domingos Leonelli (foto), é preciso entender as escolhas dos turistas na Baía de Todos os Santos, para onde eles vão e querem ir, e oferecer a estrutura para recebê-los bem

O projeto prevê a criação de quatro bases náuticas, que incluem restaurantes, banheiros, lojas de artesanato e de equipamentos náuticos, e lan houses para os turistas. Essas bases, segundo o secretário, estão integradas a um modelo de gestão sustentável, em que os resíduos sólidos recebem tratamento especial antes de serem lançados na Baía. O projeto é de responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur) e da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Conder). “É muito importante que essas bases não gerem lixo para os mares”, contou o secretário. Segundo ele, existe plano de monitoramento das condições socioambientais dos projetos. “Esse monitoramento é fundamental para garantir o desenvolvimento sustentável da Baía de Todos os Santos”, disse.

Também está prevista recuperação de antigos atracadouros. O secretário anunciou a criação do Terminal Náutico no antigo Cais da Bahiana, em fase de licitação. O projeto prevê a ampliação em 40 vagas da marina. A manutenção e o funcionamento devem ficar a cargo da Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transporte e Comunicações da Bahia (Agerba). Outro projeto previsto pelo Prodetur na Baía de Todos os Santos é a criação de SAC Náutico, que pretende agilizar a entrada de embarcações e reduzir o tempo necessário para expedir documentos para a navegação. E a recuperação de patrimônios históricos da região, como o museu Wanderley de Pinho, no município de Candeias. “Algumas cidades serão âncoras nesse turismo náutico, como Salvador e a Ilha de Itaparica. Outras servirão de apoio, passagem, outras satélites. Porém, nada impede que uma cidade migre para outra colocação, uma vez que ela se desenvolva mais do que outras”, explicou Leonelli sobre a dinâmica do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), do Ministério do Turismo. Segundo o secretário, os postos contarão com programas de parceria público-privada, as PPPs. “Eles poderão vender ingressos, comercializar produtos, e assim garantir sua manutenção”, disse Leonelli. O secretário explicou também que é preciso dar sistema de governança aos projetos e criar modelos de gestão. “Devemos atrair uma gestão público-privada capaz de dar viabilidade ao turismo da região”, disse o secretário de Turismo.

A iniciativa tem financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que deve investir R$ 170 milhões nos 18 municípios banhados pela Baía de Todos os Santos. O projeto tem como objetivo desenvolver o turismo náutico na Baía. “Um dos maiores desafios é entender o fluxo de circulação de turistas na região, de onde ele sai e onde ele vai chegar”, explica Leonelli. “É preciso ter uma estrutura capaz de recebê-los”, finaliza.

Foto: Arisson Marinho

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Solução

*

Baía de Todos os Santos

O secretário aposta na inclusão dos saveiros, embarcações típicas da Baía, no fluxo marítmo. Segundo Leonelli, uma das etapas para estimular o turismo na região inclui adaptar saveiros para passeios turísticos entre os municípios banhados pela baía. Atualmente, o sistema Ferry-Boat,

170

2013

4

60

milhões de reais foi o valor do financiamento do BID para desenvolver e consolidar o turismo náutico na Baía de Todos os Santos

bases náuticas serão instaladas na Baía de Todos os Santos equipadas com banheiros, restaurantes, lojas de artesanato e lan house

Em setembro de 2013, a Bahia vai receber a primeira edição da feira náutica Bolt Show do Nordeste. Rio e São Paulo já promovem a feira

milhões de reais serão investidos na recuperação da Feira de São Joaquim. Na primeira fase, foi inaugurado um novo cais

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as escunas e as lanchas que fazem a ligação com Mar Grande, na Ilha de Itaparica, são os principais veículos utilizados no turismo da região.

A joia esquecida

Outro ponto de destaque do plano de turismo é a qualificação de profissionais ligados ao setor de atendimento ao turista. Segundo Leonelli, aproximadamente 11 mil profissionais já participaram dos cursos, além de taxistas, camareiras, garçons, entre outros. Também foram qualificados cerca de três mil funcionários da Feira de São Joaquim.

Na canção Bahia com H, o compositor Denis Brean decreta: “Terra mais linda, não há”. Mas, e a Baía (sem H) de Todos os Santos? Também é difícil achar uma mais bela. Isso desde o século XVI, quando os primeiros portugueses atracaram por aqui e atestaram que as águas calmas e o relevo diferenciado credenciavam o local para receber a sede da colônia.

A feira ainda é palco de outra mudança. Parceria do governo estadual e da União destinou R$ 60 milhões na requalificação do espaço. Novo atracadouro foi entregue na primeira fase do projeto. A segunda parte inclui a reforma de barracas, galpões e das áreas de artesanato. “É fundamental a qualificação dessas áreas para garantir excelência ao produto”, diz Leonelli.

Inspiração de poetas, palco de uma guerra que culminou com a Independência da Bahia, museu a céu aberto dos tempos dos engenhos de cana, celeiro do samba de roda.

Feira Náutica em Salvador O investimento de mais de R$ 170 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para estimular o turismo náutico e cultural da Baía de Todos os Santos já começa a dar resultados. Em 2013, a Bahia vai receber a primeira edição da feira náutica Boat Show do Nordeste. O evento, que já foi realizado no Rio de Janeiro e em São Paulo, deve desembarcar em águas baianas em setembro, segundo anunciou no seminário Agenda Bahia, o secretário estadual do Turismo, Domingos Leonelli. “Esse era um evento que a gente queria trazer para a Bahia”, disse o secretário.

Ilha de Maré, com a Igreja de Santana, é um dos destinos pouco explorados da maior baía do Brasil

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Foto: AngeluciFIgueiredo

Números da baía

32%

dos turistas que vêm à Bahia têm como destino Salvador, segundo a Abav. Nenhuma cidade da Baía de Todos os Santos aparece na lista das mais visitadas do estado

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18

municípios cercam a Baía de Todos os Santos, que tem 1 mil km² de superfície e conta com 58 ilhas em suas águas

170

milhões de reais serão investidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento em projeto que pretende estimular o turismo náutico na região

A Baía de Todos os Santos tem beleza e história para contar, predicados que poderiam torná-la o principal polo de atração turística do estado, o que não acontece. “É a nossa joia da coroa, é o que há de mais singular na Bahia, que é única, a maior baía do Atlântico Sul, praticamente inexplorada para o turismo. Temos que redescobri-la”, observa o secretário do Turismo, Domingos Leonelli. “É a nossa joia esquecida. Qualquer país, qualquer estado que possuísse uma das maiores baías do mundo, teria cuidado e estaria aproveitando de maneira bem diferenciada”, reclama Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav). O governo estadual agora tenta tirar do papel projetos para desenvolver o potencial turístico da baía. Reduzir os problemas de segurança pública nas cidades do entorno e a poluição também é preocupação para encantar os turistas.

287


A Secretaria do Turismo do Estado (Setur) toca três iniciativas. A mais ambiciosa tem financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pretende investir R$ 170 milhões para estimular o turismo náutico e cultural nos 18 municípios que fazem parte da baía. Cerca de R$ 60 milhões são recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), do Ministério do Turismo, além de R$ 7 milhões do governo estadual.

turísticos da cidade, com paradas em locais como Porto da Barra, Solar do Unhão, Feira de São Joaquim, Ribeira, Baixa do Bonfim, Monte Serrat e São Tomé do Paripé. Dentre as ideias que envolvem o desenvolvimento da Baía de Todos os Santos, a revitalização da Feira de São Joaquim já está em curso. São R$ 60 milhões em investimentos, divididos por Estado e União.“Até a Copa, tudo estará pronto”, garante Leonelli.

Segundo a superintendente de Investimentos e Polos Turísticos da Setur, Clarissa Amaral, o contrato com o BID terá recebimento da primeira parcela em janeiro de 2013. Facilitar a vida de quem gosta de velejar, na compreensão do estado, seria uma remada inicial para um objetivo maior: ampliar a infraestrutura hoteleira nas cidades banhadas pela baía. “Já fazemos um trabalho paralelo de atração de investimentos, convidando empresários para ver locais para a instalação de bases de charter (pistas de pouso para aviões fretados), hotéis, agências de esportes náuticos. Eles estão esperando o pontapé inicial para começar a investir”, ponderou Clarissa. O projeto de incentivo ao turismo náutico prevê a construção de quatro bases de apoio ao visitante, com banheiros, posto de informação, lan house, bar, restaurante e loja de artesanato. Os locais ainda não foram escolhidos, porque, uma vez liberado o recurso, será feito um estudo de demanda. O projeto aponta ainda a recuperação do patrimônio histórico e cultural das cidades da Baía, como a Escola Agrícola de São Francisco do Conde e o Museu Wanderley de Pinho, em Candeias.

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Agências e hotéis reclamam de falta de estrutura Enquanto a estrutura não melhora, turistas passam longe dos destinos da Baía de Todos os Santos. Segundo dados de 2011 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Salvador recebe 32,5% dos turistas que vêm ao estado. Praia do Forte, Costa do Sauipe e Imbassaí somam 9,1%. Porto Seguro tem 9%, seguido de Ilhéus (4,3%), Prado (3,8%) e Morro de São Paulo (3,4%). Nenhuma das cidades da Baía de Todos os Santos, tirando a própria capital, aparece na lista das mais visitadas. “É óbvio. Não existem hotéis nessa região. Dentro do Recôncavo, o turismo é incipiente”, pontua o empresário Cícero Sena. A exceção, salienta, é o hotel Clubmed, na Ilha de Itaparica.

Outra ideia é implantar o SAC Náutico, para agilizar a expedição de documentos ligados ao setor, o rastreamento de embarcações, através de chip eletrônico, e a implantação da polícia marítima.

“Hoje, o turista que vem à Bahia, quando quer sol e mar, nem vem a Salvador. Vai diretamente ao Litoral Norte, onde temos belas praias, mas de mar aberto, com ondas fortes e risco muito maior do que na baía”, diz Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav-BA). Ele destaca que o máximo que as agências de turismo conseguem vender na Baía de Todos os Santos são passeios de escuna.

Para criar a infraestrutura de restaurantes e pousadas, Leonelli aposta na qualificação profissional. “Temos que mudar o modelo turístico baiano. Parques hoteleiros são totalmente desvinculados da produção local. Em Praia do Forte, 85% dos mariscos consumidos são de Pernambuco e Alagoas”, criticou. Entretanto, todo o investimento, segundo o secretário, deverá ser realizado ao longo de quatro anos: “No primeiro momento, vamos priorizar coisas que vão trazer benefícios até a Copa”.

“Nosso receptivo, de maneira justa, não tendo estrutura, não recomenda, não encaminha”, disse, apontando como exemplos de potenciais turísticos da região as cidades históricas, como Cachoeira, e a prática do mergulho para conhecer embarcações naufragadas, além de fazendas de cana-de-açúcar. O empresário José Manoel Garrido, presidente da Associação Baiana da Indústria de Hotéis (ABIH), aponta a dificuldade no acesso às praias como impeditivo para a instalação de novos hotéis.

Entre as obras que estão com projeto executivo prontos e devem começar imediatamente está a reforma do Terminal Náutico da Bahia, no bairro do Comércio. Existe também a promessa de requalificar o atracadouro de Monte Serrat, cuja obra está embargada há nove anos. O projeto prevê a criação da Via Náutica, linha de transporte por lanchas entre pontos

“Não tem estrutura, não tem como se locomover, vias são escassas. Precisamos de rodovias que cortem toda a costa”, cobrou. O secretário do turismo, Domingos Leonelli, acredita que o investimento em novos cais e atracadouros pode amenizar o problema. “O turismo náutico depende de ter onde sair e onde chegar. Então criamos opções”, destaca. 289


Baía de Todos os Santos Santo Amaro Rio Subaé Primeira faculdade de agronomia NONONONO do país, São Francisco do Conde São Brás Ilha Cajaíba Cachoeira Acupe Ilha das Fontes Mataripe São Félix Coqueiro Bimbarras Grande Caboto Ilha de Bom Baía de Jesus dos Pobres Porto de Madre Iguape Aratu de Deus Maragogipe

Loreto, na Ilha dos Frades Paripe

Rio Paraguaçu

Mutá

Pirajuia

Ilha dos Frades Pontos de interesse

O presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Salvador e Litoral Norte, Silvio Pessoa, lembrou que Salvador tem pouco tempo para se preparar para a Copa das Confederações e o Mundial de Futebol. “Até 2014, Salvador vai sediar duas grandes competições. Temos de aproveitar para atrair mais turistas e resolver os problemas de infraestrutura. Ainda dá tempo”, avalia.

Ilha de Maré

Cabuçu

Salinas da Margarida

Ainda dá tempo

Baía de Aratu

O presidente da Central do Carnaval, Joaquim Nery, defendeu a realização de parcerias público-privadas para melhorar a infraestrutura de Salvador. “Com união, podemos fazer as obras e organizar melhor os espetáculos”, avalia. Já o professor da Ufba Marcos Alban sugeriu a festa da Independência da Bahia para ser melhor divulgada. “Essa festa não é aproveitada como uma marca”, disse. Coordenadora da Unidade de Acesso a Mercados e Serviços Financeiros do Sebrae, Suely de Paula acredita que as competições organizadas pela Fifa são uma grande oportunidade para melhorar a qualificação profissional: “Vamos receber turistas mais exigentes”, lembra.

Baía de Itapagipe

Bom Despacho

Praia da Penha, em Vera Cruz Porto de Mar Grande Canal de Salvador

Salvador

Farol da Barra

Ponte do Funil

Tapera Rio Jaguaripe

Jiribatuba

Cacha Pregos

Oceano Atlântico

Itaparica

Com mil km² de superfície, a Baía de Todos os Santos é a maior baía do Brasil e a segunda maior do mundo. Em seu entorno, que é protegido por lei por ser uma Área de Proteção Ambiental (APA), há 18 municípios. Ao todo, a baía conta com 58 ilhas, muitas delas ainda inexploradas. Foi descoberta no dia 1º de novembro de 1501, Dia de Todos os Santos na tradição da Igreja Católica.

No Subúrbio, falta de saneamento compromete água Abraçada por porções de terra, em geral o desenho da baía não favorece a renovação das águas através das correntes marítimas. Por isso, aumenta a preocupação quando o assunto é a preservação da qualidade da água. Na Baía de Todos os Santos, a existência do Polo Industrial de Aratu na beira do mar preocupa quem sabe do histórico de poluição.

Sergio Costa, diretor de redação do Correio e moderador do debate, com Alban, Suely, Nery, Pessoa e Leonelli

O secretário Domingos Leonelli também defendeu que a Bahia deve aproveitar os grandes eventos para se promover. Mas, para ele, é preciso aumentar a dotação orçamentária: “O turismo responde por 7,5% do PIB da Bahia, mas tem apenas 0,5% do Orçamento”. A sustentabilidade de um bem público depende de boa governança, senão ele não se desenvolve e entra em declínio. “Isso é o que ocorreu com o

Foto: Arisson Marinho

Mas, segundo o coordenador de monitoramento ambiental e de recursos hídricos do Inema, Eduardo Topázio, os problemas de poluição com metais pesados por despejo das indústrias ficaram no passado. “Os problemas de contaminação ficam nesses sítios do entorno dessas indústrias. O mercúrio que foi despejado antigamente está sedimentado no fundo do mar. Estudos não encontraram contaminação”, disse. Já a falta de esgotamento sanitário é um problema real e deixa algumas praias da baía sem condições para banho — a maioria delas no Subúrbio Ferroviário. Topázio salienta, todavia, que a baía tem maior capacidade de renovação da água que outras. “A baía da Guanabara (no Rio), em função de sua forma geográfica, tem mais dificuldade de renovação de água e população muito maior no entorno. Lá, a poluição é problema sério”, comparou. 290

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Boa governança para todos os destinos

Pelourinho, no Centro Histórico”, disse Marcos Alban, coordenador do Núcleo de Estudos em Planejamento e Gestão da Cultura e do Turismo da Pós-Graduação em Administração da Ufba, durante o debate de encerramento do Agenda Bahia 2012, no seminário sobre Turismo. Um exemplo positivo, segundo Alban, é a Praia do Forte, “que conseguiu estabelecer uma dinâmica competitiva colaborativa”.

O coordenador do Núcleo de Estudos em Planejamento e Gestão da Cultura e do Turismo da Pós-Graduação em Administração da Ufba, Marcos Alban, defendeu que o governo utilize a festa da Independência da Bahia para atrair turistas nacionais. “Julho é o período que os estados do Sudeste, como São Paulo, Rio e Minas Gerais, estão de férias, assim como os países do Hemisfério Norte, então, é mais fácil para o turista de fora vir”, disse.

Suely de Paula defendeu a realização de uma parceria com agentes financeiros oficiais e privados para melhorar a gestão de negócios. “O grande foco é tornar o pequeno empresário sustentável em seus negócios, dentro de um ambiente competitivo”. Joaquim Nery sugeriu que os parques e praças da cidade sejam entregues aos soteropolitanos. “O Parque de Pituaçu não dá para andar. O Parque da Cidade e o de São Bartolomeu são assolados pela violência”, reclamou. Segundo ele, é preciso garantir a segurança nas cidades da Baía de Todos os Santos contempladas pelo Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), do Ministério do Turismo.

Foto: Arisson Marinho

Para ele, a sustentabilidade de uma região depende necessariamente de boa governança. Ele defende ainda que o interior é mais propício para as festas juninas. “Se a gente quiser competir em nível nacional vai precisar escolher quem será nossa Caruaru ou nossa Campina Grande”, disse.

O secretário Domingos Leonelli (Turismo) disse que o governo tem trabalhado no combate à violência, com a contratação de policiais e aquisição de armas e câmeras de segurança. Sílvio Pessoa afirmou que a sustentabilidade passa por programas de capacitação profissional e educação da população.

Crédito para negócio sustentável Coordenadora da Unidade de Acesso a Mercado e Serviços Financeiros do Sebrae, Suely de Paula afirmou que os pequenos e médios empresários têm à disposição uma linha de financiamento para desenvolver o turismo sustentável. “O maior interesse do Sebrae é tornar o pequeno e médio empresário sustentável em seus negócios, dentro de um ambiente competitivo”, afirmou. Segundo Suely de Paula, o Sebrae e a Secretaria da Copa (Secopa) desenvolveram programa que identifica os principais problemas de uma empresa.

Campanhas para preservar áreas “As discussões encurtam distâncias e saltam degraus”, disse o presidente da Central do Carnaval e do Movimenta Salvador, Joaquim Nery, sobre as contribuições do Agenda Bahia. Nery participou do debate sobre empreendedorismo e negócios sustentáveis na Bahia. Para Nery, atualmente, os soteropolitanos cuidam melhor dos bens públicos do que faziam no passado. Ele defende que campanhas sejam feitas para estimular o cuidado com os espaços que recebem turistas. Foto: Arisson Marinho

Foto: Arisson Marinho

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Joaquim Nery disse também que a divulgação dos grandes eventos locais é importante, porque essas festas atraem turistas em outras épocas do ano. Além disso, segundo Nery, os artistas baianos têm o hábito natural de ‘vender’ a Bahia em todos os seus shows. Sobre a importância da segurança para o desenvolvimento do turismo nas cidades baianas, Nery falou que a violência tira os moradores dos espaços públicos. “Hoje é impossível você ir caminhar no Parque São Bartolomeu, por conta da violência”, disse.

Segundo Alban, a falta de uma estrutura de governança pode fazer com que o bem público não se sustente. “O Pelourinho, no Centro Histórico, atraiu milhares de turistas, atraiu Paul Simon e Michael Jackson no passado. Hoje, virou uma propaganda negativa para o governo”, explica Alban.

“A partir desse trabalho, oferecemos plano de qualificação e melhorias tecnológicas”. Suely explica que a melhoria na gestão dos negócios é fundamental para os pequenos e médios empresários ampliarem sua fatia no mercado. “A governança precisa evoluir e o caminho para atingirmos esse objetivo é a união entre o governo e a sociedade”. Suely de Paula afirmou, ainda, que a Copa das Confederações e o Mundial de 2014 serão a maior oportunidade para os empresários darem uma ‘virada’ em seus negócios.

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Ação conjunta com poder público Ao ouvir os debatedores que participaram do encerramento do Agenda Bahia 2012 falarem sobre sustentabilidade, o secretário Domingos Leonelli disse que o tema “é algo novo dentro do turismo”. “Até alguns anos, ninguém falava em sustentabilidade. Estamos (o trade turístico) em um processo inicial, mas muitas coisas já foram implantadas”, disse. De acordo com o secretário, a implantação de programas de sustentabilidade passa por uma completa readequação das atividades exercidas pelo poder público.

Foto: Arisson Marinho

“A prefeitura de Salvador não tem, por exemplo, um serviço eficiente de coleta seletiva”, lembrou. O secretário defendeu o governo após ouvir dos debatedores que a violência na Bahia tem afastado os turistas. “De fato, a violência é um problema, mas quero registrar que o nosso governo contratou 10 mil policiais, comprou 8 mil armas e investiu R$ 16 milhões em inteligência”. Leonelli disse que o turismo dispõe de apenas 0,5% do orçamento para fazer investimentos. “É pouco dinheiro, precisamos de muito mais”, lembrou.

Moderadora Rachel Vita, editora-executiva de Conteúdo do Agenda Bahia, com Cássia, Luiz Augusto, Garrido e Pereira

Inovação como diferencial

Foto: Arisson Marinho

Cursos de qualificação profissional O presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Salvador e Litoral Norte e também presidente do Conselho Baiano de Turismo, Silvio Pessoa, convocou os empresários do setor a oferecerem cursos de qualificação profissional para os seus funcionários. Na Bahia, de acordo com Pessoa, há 3.500 hotéis (incluindo pousadas) e 30 mil bares e restaurantes. “São 250 mil empregos diretos gerados por nossa área de atuação”.

Foto: Arisson Marinho

“Não podemos fugir à realidade. Todas as grandes empresas sustentáveis promoveram cursos de qualificação profissional para os seus empregados. O setor que congrega hotéis, bares e restaurantes não pode ser diferente”, afirmou. Silvio Pessoa citou números para mostrar a importância da categoria. “Somos responsáveis por 20% do PIB de Salvador e 7,5% do PIB da Bahia”, disse. Pessoa também aproveitou a sua participação no debate para criticar o “abandono do Pelourinho” e pedir para o governo “priorizar o turismo”.

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No debate sobre a A Nova Classe Média no Turismo, os especialistas mostraram que as novas oportunidades para esse nicho do mercado já estão postas: basta agora os poderes público e privado melhor aproveitálas. Já tendo experiências com viagens, inclusive internacionais, o turista da nova Classe C voltou mais exigente, tornando ainda mais urgente a qualificação do setor. Mas no debate foi apresentada uma ameaça a esse novo ciclo do turismo: o aumento das passagens aéreas. Para o presidente da ABIH-Bahia, José Manoel Garrido, os preços das passagens não devem sofrer mais reduções, já que as empresas estão enfrentando prejuízos ano a ano. A superintendente de produtos turísticos da Secretaria do Turismo (Setur), Cássia Magalhães, diz que a expansão da classe C é grande, mas com o aumento nas tarifas é necessário surgirem novos nichos para absorver essa classe. O presidente do Sindicato das Empresas de Turismo de Salvador, Luiz Augusto Leão Costa, acredita que, nesse ponto, a Bahia tem muito a oferecer, diante de sua riqueza: praias, cultura, arte e até o turismo naútico e religioso. O aumento das passagens deve redobrar a busca pela inovação por parte dos empresários, avalia o diretor do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo e Hotelaria da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ayrton Pereira. “No momento inicial, a procura foi por produtos nos canais tradicionais, as

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Qualificação para oferecer novos destinos

agências”, disse. Já no futuro próximo, a procura da nova classe média será por viagens customizadas. O cliente vai preferir fazer o seu próprio roteiro em busca de maior interação com a comunidade e a cultura, sem abrir mão de um apoio da agência”, afirma. Aí, disse Pereira, será preciso muito mais qualificação, inclusive quanto a ofertas no destino: “Qualidade não vai ser um diferencial, mas um elemento obrigatório nesse mercado”.

A Bahia soube aproveitar a explosão da demanda da nova classe média, disse o diretor do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo e Hotelaria da FGV, Ayrton Pereira. O especialista avaliou que o trade turístico do estado tem sido beneficiado, porque já contava com destinos consolidados que eram objeto de desejo dessa faixa da população. “Agora, precisamos estar preparados para o momento seguinte, o do mercado internacional”, observando que, nesse segundo momento, o cliente já se habituou a viajar e ficou mais exigente, inclusive elaborando seus próprios roteiros.

O mesmo caminho foi apontado pelo presidente do Sindicato das Empresas de Turismo (Sindetur), Luiz Augusto Leão Costa. O especialista aposta no atendimento com mais eficiência.

Foto: Marina Silva

Salvador não está preparada para o turista A Bahia está preparada para receber o turista, mas Salvador não está. Essa é a constatação do presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH-seção Bahia), José Manoel Garrido. O especialista disse que a cidade sofre com problemas de infraestrutura, que acabam por afastar os turistas, além de não oferecer novas opções para manter o visitante na capital baiana por mais tempo. “Temos cultura, culinária, praias, religiosidade. Temos tudo para conquistar esse turista, mas precisamos ordenar a cidade”, alegou Garrido.

Foto: Marina Silva

Para fidelizá-lo, Pereira apontou a necessidade de melhor qualificar o trade turístico. “O Brasil peca pela baixa qualificação. Mas, se antes ter pessoal qualificado era um diferencial no mercado, hoje é obrigação”, advertiu.

Público exigente e que busca qualidade Para a superintendente de produtos turísticos da Secretaria do Turismo do Estado da Bahia (Setur), Cássia Magalhães, a estabilidade econômica e a ascensão da classe C fizeram esse nicho do mercado ter mais acesso à educação e também ao lazer e ao entretenimento. Não deixando de fora as viagens nas suas cestas de compras. “E é um turista exigente, porque galgou essas oportunidades”, acrescentou.

“Precisamos inovar. Na Baía de Todos os Santos, por exemplo, fazemos os mesmo passeios de escuna há não sei quantos anos. Ela é uma referência para todos, mas precisamos melhorar o roteiro”, salientou. Garrido citou ainda o potencial do turismo religioso, com a força de Irmã Dulce, como outra forma de atrair ainda mais a nova classe média. “Temos muitas oportunidades, mas ainda precisamos trabalhar de uma forma mais coesa”, informou. Foto: Marina Silva

Para a superintendente, a Bahia tem aproveitado para atrair esse novo consumidor, mas Salvador, não. “Salvador vive uma década perdida. Perdemos turistas, mas nos outros destinos do estado, não”, salientou. Segundo ela, destinos como Porto Seguro e o Litoral Norte viram seu fluxo aumentar nos últimos anos. Cássia também comentou que será necessário criar novos roteiros para absorver a nova classe média, já que as passagens aéreas tendem a encarecer. “Para isso, estamos trabalhando no desenvolvimento de portais e aplicativos para celulares”, adiantou Cássia.

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Roteiros customizados para atrair clientes Customizar os roteiros para atender à chamada nova classe média deverá ser o próximo passo do trade turístico, disse o presidente do Sindicato das Empresas de Turismo de Salvador, Luiz Augusto Leão Costa, ao participar de debate sobre A Nova Classe Média no Turismo. Ele acha que esse é o caminho para assegurar a permanência dessa faixa da população no mercado, depois de uma primeira fase - de atendimento da demanda reprimida por destinos turísticos tradicionais - e diante do aumento do custo das passagens aéreas no Brasil, o que considera uma tendência para o futuro. Foto: Marina Silva

Nessa questão, disse ele, a Bahia tem muito a oferecer, diante de sua riqueza - de praias, cultura, arte e até o turismo naútico e religioso, nichos que devem ser explorados em novos roteiros. Costa destacou, porém, a necessidade de melhor qualificar o profissional do setor, através de programas desenvolvidos no local de trabalho, e não apenas em salas de aula, como costuma acontecer.

Eles estão com tudo A professora Maria de Lourdes Dantas Santa Rosa está de malas prontas para Gramado, no Rio Grande do Sul. Será uma viagem de apenas uma semana, tempo economizado das últimas férias, mas o suficiente para que ela possa continuar realizando o antigo sonho de conhecer o Brasil. Arrimo de família, Lourdes diz que, em quase 35 anos de trabalho, nunca havia viajado para fora da Bahia, por falta de condições financeiras. “Amigos contavam sobre suas férias em outros estados e eu nunca tinha ido a lugar nenhum”, diz. A história começou a mudar a partir de 2010, quando descobriu pela internet que dava para comprar passagens e pacotes completos de viagem por preços mais em conta e ainda parcelando o valor. De lá para cá, não parou mais: visitou Natal, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, Aracaju, Recife e, agora, Gramado. Maria de Lourdes faz parte do contingente de cerca de 30 milhões de pessoas, segundo estimativas do setor, que entraram no mercado brasileiro de turismo nos últimos dez anos. É a chamada nova classe média, antes classificada economicamente como classes C e D, hoje a maior aposta das agências de viagens do país. E não é para menos. Dados divulgados pelo Ministério do Turismo mostram que, em quatro anos, o turismo doméstico cresceu 21% entre a população de renda mais baixa, o que equivale a duas vezes o avanço registrado em todas as classes sociais, que ficou em 11,7% no mesmo período. Baseados em pesquisa realizada com 39 mil famílias em 110 municípios brasileiros, os números indicam que, em 2007, foram realizadas 161 milhões de viagens domésticas, número que saltou para 190 milhões em 2011. A maioria dos turistas é da região Sudeste – 41% – seguida da Região Nordeste, com 26%. Levantamento realizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) explica em parte esse fenômeno. A agência detectou que, entre 2002 e 2011, o preço médio da tarifa de passagens aéreas caiu 43%. No mesmo período, a procura por passagens cresceu quase 200%. O fato é que, em 2002, não existiam assentos em aviões por menos de R$ 100; em 2011, 16% das passagens foram compradas nessa faixa de preço e 63%, por menos de R$ 300. A demanda continuou em alta em 2012. Só para ficar nos números mais recentes da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), em outubro, o número de passageiros transportados no mercado doméstico

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Entretanto, nessa nova etapa, os clientes já eram da classe média tradicional, provenientes de bairros mais valorizados de Salvador. A mudança começou há três anos, quando a agência passou a ser procurada cada vez mais por pessoas de ganhos mais modestos, moradoras de bairros como Cabula, São Caetano, Paripe, em busca de informações sobre viagens pelo Brasil. “Tenho 21 anos nesse mercado e jamais presenciei algo tão espantoso”, diz.

Maria de Lourdes tinha direito a uma semana de folga e aproveitou para conhecer o Natal Luz, em Gramado; ela já visitou várias capitais do Nordeste e do Sul do país e Buenos Aires Foto: Marina Silva

A gerente de marketing da CVC na Bahia, Yuka Sousa, confirma a facilidade até mesmo para quem não tem cartão de crédito, porque pode pagar com boleto bancário. Tanto no boleto quanto no cartão é possível fazer o parcelamento em até 12 vezes, seja para destinos dentro do país ou para o exterior. Para Yuka, um fator que está fazendo grande diferença para o aquecimento do mercado de turismo é a informação. Hoje, as pessoas sabem como providenciar o passaporte, quais são os países que não exigem visto de entrada, etc. pela TAM, Gol, Azul, Avianca, Trip e a recém-extinta Webjet aumentou 1,26% em relação a setembro, somando 6,57 milhões de passageiros. Mas não é só a possibilidade de comprar passagens e pacotes de viagem a preços mais baixos e com pagamento facilitado a causa do ‘boom’ do turismo na nova classe média. A estabilidade econômica, o aumento dos empregos formais e a inflação relativamente controlada têm transmitido mais segurança. Junta-se a isso um maior acesso à informação e a preocupação com a educação, inclusive financeira, assim como o maior acesso à internet. Desse modo, depois de financiar a casa própria, os eletrodomésticos, eletroeletrônicos e o carro, o foco do consumo dessa faixa da população vem se voltando cada vez mais para as viagens, principalmente dentro do Brasil. O dono da agência de viagens Brisasol, Rogério Ribeiro, acompanhou desde o princípio essa transformação. Originário ele próprio da classe C, como faz questão de declarar, em 1991, ainda muito jovem, resolveu abrir a agência para atender a clientela da periferia da cidade, organizando viagens rodoviárias para destinos turísticos do interior do estado. O capital para abrir o negócio se resumia a 1 cruzeiro no bolso, 20 passes de ônibus, 100 folhas de papel ofício e uma velha máquina de escrever Remington, emprestada por uma tia, lembra Ribeiro, que hoje é vicepresidente da seção baiana da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav). Anos depois, conseguiu organizar a primeira viagem para o Sudeste do país, que nem ele conhecia, e, com perseverança e muito trabalho, foi adicionando novos destinos ao seu portfólio.

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Yuka diz que os brasileiros, aos poucos, vão realizando seus desejos, que antes era o computador, casa própria, o carro. A bola da vez atualmente é conhecer o Brasil e o mundo. “Os brasileiros entenderam que o melhor investimento que se pode fazer por si mesmo é viajar. É uma riqueza”.

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As dicas da professora

Organização A professora Maria de Lourdes aprendeu o que deve fazer para continuar viajando. Parcela o preço dos pacotes e vai pagando meses antes, finalizando na volta da viagem

Planejamento Depois de quitar uma viagem, já começa a contratar a viagem seguinte. As parcelas dos pacotes passaram a fazer parte do seu orçamento, sem que pesem muito no bolso

Sonho Maria de Lourdes já conheceu Buenos Aires, na Argentina. Mas quer mais. “Meu sonho de consumo mesmo é fazer um cruzeiro na Europa. Sou ousada”, diz, sorrindo

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“Eles estão não só desbravando o Brasil, mas planejando para ir para o exterior” ROGÉRIO RIBEIRO, dono da Brisasol

Reveillon em Lisboa e Porto é o pacote turístico em alta

Inovação é a saída para aumento das passagens

Rogério Ribeiro, da Brisasol, relata que turistas de profissões onde praticamente não havia demanda para viagens mais longas – comerciários, bancários, funcionários públicos, professores, tanto da capital quanto do interior – passaram a viajar regularmente. “Eles estão não só desbravando o Brasil, mas planejando seus orçamentos, com criatividade e até arrojo, para ir para o exterior”, observa. Em sua agência, Rogério Ribeiro já não se surpreende com a quantidade de pessoas que tiram pela primeira vez o passaporte para fazer uma viagem internacional.

Representantes do trade turístico que participaram do debate A Nova Classe Média no Turismo, no seminário do Fórum Agenda Bahia 2012, manifestaram preocupação com o aumento dos preços das tarifas de passagens aéreas no mercado doméstico. O reajuste já era esperado, diante dos prejuízos divulgados seguidamente pelas companhias.

Em 2012 foram significativos os roteiros em grupos para a Turquia com Grécia, Lagos Andinos, Japão com Dubai. No final do ano, o que esteve em alta foi o Reveillon casado Lisboa/Porto. Dentre as 42 pessoas que a Brisasol levou a Portugal, pelo menos 15 vivem com salários mais baixos. “O mercado está mudando, e eu estou mudando com ele”, diz Ribeiro. O empresário está impressionado com tanta mudança. “Tenho 21 anos nesse mercado e jamais presenciei algo tão espantoso”, diz. Para Ribeiro, o que tem estimulado mais o consumo é a inserção na internet, a rapidez com que é possível descobrir facilidades para viajar. Focado na nova classe média, o Instituto Data Popular divulgou pesquisa apontando que essa faixa da população aumentou seu gasto de viagens em 277% nos últimos dez anos.

A superintendente de Serviços Turísticos da Secretaria do Turismo do estado, Cássia Magalhães, acha que haverá uma reacomodação desse mercado: uma parte dos clientes conseguirá arcar com os gastos e seguir viajando; a outra deverá procurar destinos mais próximos, a preços mais acessíveis. Nesse sentido, ela salientou que caberá às agências inovar, criando novos roteiros voltados especificamente para esse público. O diretor do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo e Hotelaria da Fundação Getulio Vargas, Ayrton Pereira, concorda que é precisa estar preparado para ‘enxergar’ o mercado, mas sem alarmes. Ele lembrou que, embora importante, a passagem aérea é apenas um item do pacote de viagem.

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Em expansão Rogério Ribeiro, que veio da Classe C, tem uma agência de viagens: ‘Em 21 anos nesse mercado, jamais presenciei algo tão espantoso’ Foto: Tayse Argôlo

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21%

foi o aumento do turismo doméstico na nova classe média em dez anos

277%

foi quanto essa classe aumentou seus gastos com viagens

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Com tudo em cima

Infográfico: Soluções na bagagem

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BAHIA

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O maior fluxo dos turistas que circula pela Bahia é formado por pessoas do sexo masculino

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Segundo o preside nte da Câmara Em presarial do Turismo, Cícero Sena, pesquisa re alizada pela CVC, que é a maior operadora de turismo do mundo, mostro u que, de 2009 a 20 11, o número de hosped agens na cidade ca iu de 120 mil para 95 mil. “S e consideramos o crescimento da populaç ão e aumento da pa rticipação da classe m édia no setor, isso deve representar uma redução de 30%. Ne sse mesmo período, o Litoral Norte teve um aumento de 50% de hospedagens e Porto Seguro, de 40%”, destaca

Copa Para especialistas, o Promatec Cop a poderá promover mudanças no serv iço ofertado pela capital. O programa é direcionado às 12 cidades-sedes da Copa da Fifa 2014, entre elas Salvador, e vai oferecer cursos de idiomas (inglês e espanhol) e de várias profissões relacionadas às áreas de turismo, hospitalidade e lazer

De onde vêm os turistas

A própria Bahia é o maior emissor de turistas para o estado, representando mais de 52% do receptivo total. Moradores de Minas Gerais e São Paulo são os principais visitantes, sendo que os paulistanos formam a mais importante fonte da receita turística doméstica baiana, gerando cerca de 25% do total.

Praia

Um destino para atrair cada vez mais turistas precisa se renovar. Para especialistas, além de cuidar das suas principais atrações, Salvador deve inovar em oferta turística. Segundo Cícero Sena, mais do que requalificar a infraestrutura que existe hoje, é fundamental atrair equipamentos de grande porte como um museu internacional ou um grande oceanário, a exemplo dos existentes em cidades como Lisboa e Barcelona. “A cidade também precisa de um novo Centro de Convenções que ajude a consolidar o crescimento do turismo de negócios, um dos grandes motores do setor em todo mundo”, afirma

Para melhorar

++ ++ ++

Doméstico

Sol e Praia

Litoral Norte

Outras opções

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As principais atrações para os turistas que visitam a Bahia

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A Embratur, órgão de promoção do Brasil no exterior, separa as ofertas de turismo do país em vários segmentos: sol e mar, turismo de eventos, negócios, ecoturismo, turismo religioso, turismo náutico, mergulho, turismo cultural, turismo histórico. “A Bahia oferece atrativos para rigorosamente todos eles”, enfatiza o presidente do Convention Bureau Salvador, Pedro Costa.

Negócio

(maior do país)

Uma das reclamações mais recorrentes diz respeito à qualidade dos serviços em geral, por falta de qualificação de pessoal

9,1

ESTAD OQ ATRAI UE MAIS TU NO NO RISTAS RDEST E

1.183 km de litoral

Atendimento

Turistas que visitam a Bahia (Nacional)

Para os representantes do setor, grande parte dos entraves para o desenvolvimento está nos problemas encontrados em Salvador, porta de entrada da maioria dos turistas

Porto Seguro

“A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem”, já avisava Dorival Caymmi há quase 70 anos, em Você Já Foi à Bahia?”, música que ajudou a criar a imagem mítica da terra. O estado pode não ser o mesmo que inspirou o clássico de Caymmi, mas seus jeitos, cores e cheiros da Bahia continuam a atrair um número crescente de visitantes. Em geral, eles chegam em busca de sol, praias, história, cultura e outros atrativos da face mais conhecida da ‘baianidade’, mas já descobriram que o lugar também é bom para promoção de eventos e realização de negócios. “É difícil concorrer com a diversidade da Bahia”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Agentes de Viagens/Bahia (Abav-Bahia), Pedro Galvão. “Temos vantagens competitivas em várias áreas. Por exemplo, só dois estados brasileiros têm uma gastronomia própria, a Bahia e o Pará. Quando somados todos os aspectos, fica claro como somos fortes em atrações para os visitantes”, ressalta Galvão. Mas os especialistam também apontam desafios a serem enfretados , em especial em Salvador. Confira.

Porta de entrada

Litoral Norte

Por Ana Lívia Lopes

Novos atrativos

Salvador

SOLUÇÕES NA BAGAGEM

O que falta

Clube Bahia

Prefeitura de a orla da capital, a ra pa e ad com vid no o Com e Conduta (TAC) Termo de Ajuste do ão aç nt Salvador firmou impla co do Estado, para o Ministério Públi hoje ocupada pela ea ár na , rte po e Es Parque de Lazer hia – o Parque da Esporte Clube Ba do aia Pr de de Se ntação de três ojeto prevê a impla futebol, ciclovia Boca do Rio. O pr , três campos de as tiv or s sp lie po s quadra (3.415m²), calçada para caminhadas lha ra tri pa ²), e m ²) 7 m .90 (2 (300 ra parques infantis (3.075 m²), área pa iosques multiuso, qu co cin ²), m 0 (9.50 estacionamento nte e um local icletário, um mira bic a, tic ás gin de área rias lturais e comunitá para atividades cu

Novo vooinvestimentos privados

A previsão de hia subiu para hoteleiros para a Ba os próximos seis ra US$ 5,4 bilhões pa os mais um voo anos. “Conquistam de Portugal pela internacional, vindo ra oito frequênpa SATA, aumentando Salvador. Agora, cias de Lisboa para hias aéreas temos duas compan o destino para operando do mesm ”, disse o TA SA Salvador, TAP e Leonelli os ng mi Do secretário

Novo investim

ento “Em agosto deste ano, assinamos um protocolo de inten para a construção ções de um complexo ho teleiro e residencia região de Jandaíra, l na no Litoral Norte da Bahia. O grupo em espanhol Invisa Int presarial ernacional Hotéis investirá R$ 750 m um projeto que inc ilhões em lui 2,4 mil unidade s hoteleiras, 307 im residenciais dentro óveis dos resorts, 1,7 m il chácaras e 1,6 m residências”, cont il a Domingos Leon illi, o secretário do Turismo


O centro antigo de Montreal: atração para dezenas de turistas de outras partes do Canadá e do exterior

A distância entre Montreal e Salvador

Foto: Luciana Rebouças

Elas foram colonizadas na mesma época, têm o centro histórico como referência para turistas do mundo inteiro e possuem hoje praticamente a mesma população (em torno de 3 milhões de habitantes). Mas a distância entre Salvador e Montreal, no leste do Canadá, é maior que os 8 mil quilômetros que as separam. Estudo realizado pela Unifacs compara as duas cidades e mostra que o primeiro desvio do caminho começou lá atrás, ainda na colonização. “Enquanto a França queria colonizar o Canadá buscando um novo mundo de fato, os portugueses viram o Brasil apenas como um local de exploração”, explica Silvia Carreira, coordenadora do Escritório Público de Engenharia e Arquitetura da Unifacs e da especialização de Planejamento Urbano da mesma instituição. Apesar das semelhanças iniciais, o planejamento das duas metrópoles seguiu direções diferentes. Em Montreal, houve investimento em mobilidade urbana, através de um transporte público integrado. A cidade 306

O Pelourinho sofre com a queda no fluxo turístico: comerciantes reclamam da falta de segurança e de novos projetos para impulsionar a área Foto: Marina Silva/Arquivo Correio

também foi programada com projetos urbanísticos para estimular os moradores a utilizarem os espaços públicos. Com calçadas largas e projetadas também para portadores de deficiência, o pedestre se sente à vontade para usufruir melhor o que Montreal tem a oferecer. Silvia Carreira lembra que boa parte da reestruturação começou na década de 70, por ocasião das Olimpíadas. “Montreal virou um canteiro de obras para as Olimpíadas. E por que Salvador não teve isso? Porque nunca sediou nada”, pondera a arquiteta. Ao contrário da cidade canadense, Salvador não aproveitou a Copa do Mundo de 2014 para deixar um legado para os baianos. Os projetos de transporte público, por exemplo, ainda não saíram do papel, apesar de faltar quase um ano e meio para o evento. Para Silvia Carreira, o que resta são medidas emergenciais para atender a demanda nos dias de partidas de futebol. “Não temos muitos projetos. As coisas são setoriais. O que está sendo feito é a Arena Fonte Nova, o novo terminal de passageiros no Porto de Salvador e a Linha Viva (que irá ligar a Rótula do Abacaxi ao Aeroporto de Salvador). E a orla de Salvador? E a

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mobilidade urbana? Estamos brincando com fogo. Montreal é o que é por causa dessas Olimpíadas”, avalia. O centro histórico é um outro exemplo citado pela especialista. O de Montreal é um ponto turístico, com comércio forte, e também usado como área de moradia. Mas nem sempre foi assim. Segundo Silvia Carreira, o processo de degradação do centro é comum em várias metrópoles mundiais. “Só que os canadenses atentaram que esse esvaziamento estava trazendo uma grande degradação do ponto de vista físico, ambiental e social”, diz. Para valorizar a cultura, a história e ainda incrementar a economia da região, foram programados investimentos para revitalizar essa área da cidade. Silvia lembra que, com a criação de um novo centro financeiro em Salvador, na região da Tancredo Neves e do Iguatemi, o Comércio acabou esquecido, gerando um efeito cascata na região do Pelourinho. “Sempre falo com meus alunos que, quando passo por aquela região do Elevador Lacerda, parece ser uma área de bombardeio do pós-guerra. É uma tristeza, porque é a nossa memória”, critica Carreira. Além de um centro preservado, Montreal é uma cidade que valoriza o lazer. Salvador poderia levar vantagem em relação ao Canadá também nesse quesito. O clima e a arquitetura da cidade são propícios. Mas, para a coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifacs e professora da Uneb, Liliane Mariano, o espaço público baiano é apenas para circulação. “E de má circulação”, argumenta. “Aqui, há alguns poucos parques, localizados em áreas de classe média (como o Parque de Pituaçu e o Parque da Cidade) e estão praticamente abandonados”, comenta.

não acontece em Salvador”, diz. Liliane lembra que, na Avenida Manoel Dias, as calçadas têm uma descida para cadeirantes, mas ao sair da via o portador de necessidades especiais não encontra mais acesso liberado. As duas especialistas destacam que, além da colonização diferente, o modelo de gestão da cidade permitiu que Montreal investisse na infraestrutura pela melhor qualidade de vida na cidade. “Lá, a população elege um representante que irá defender os seus interesses. E isso de fato aconteceu em Montreal”, acrescenta Silvia Carreira. Salvador, destaca a especialista, tem um modelo de elaboração de planos diretores melhor do que o canadense. “Porém, aqui, temos várias leis que não funcionam. O modelo de gestão fica mais defasado em relação ao de Montreal”, explica.

“O poder público precisa ter um outro olhar com relação ao planejamento dos espaços públicos da nossa cidade” LILIANE MARIANO, arquiteta e urbanista

Prioridade para o carro A arquiteta lembra que no Parque da Cidade, que é rodeado pelo Nordeste de Amaralina, o poder público colocou um muro para dificultar o acesso da comunidade, que é a mais carente desse tipo de lazer. “É um parque que dá as costas para quem mais precisa, que é a população de baixa renda”, acrescenta. Em contraposição, Montreal, além de vários espaços verdes, possui uma cidade subterrânea, que funciona como um shopping center, com acesso às linhas de metrô. E conseguiu manter seu Parque Olímpico preservado desde 1976, quando o evento foi realizado na cidade. O equipamento até hoje é utilizado pela população e pelos turistas.

Para Liliane Mariano, alternativas como as ciclovias e o melhor uso do solo, com oferta de mais serviços e equipamentos perto das residências, não são pensadas em Salvador. “O poder público só enxerga a questão da maior oferta do veículo e ampliação do sistema viário. Há uma visão parcial”, avalia a coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifacs

Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifacs e professora da Uneb, Liliane Mariano destaca que no projeto urbanístico canadense a política de acessibilidade foi valorizada e permite ao idoso, à criança ou ao portador de deficiência circular em todos os espaços. “E isso

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As diferenças

Espaços da cidade

Montreal: A cidade canadense cuida de seus espaços públicos e oferece diversas opções para seus moradores, como praças e parques Salvador: Na capital baiana, é o contrário: os passeios são precários e há poucas praças ou parques. As áreas mais estruturadas são privadas ou foram fomentadas pela iniciativa privada

Acesso

Montreal: Existe uma política de acessibilidade em toda a cidade para idosos, crianças e deficientes físicos, visuais e auditivos Salvador: A Avenida Manoel Dias é a única via planejada para atender a esse público. Porém, não conta com sinais sonoros para os deficientes visuais atravessarem as ruas

Mobilidade Montreal: A gestão valoriza o pedestre em vez do carro. Os ônibus têm espaços reservados para bicicletas e é possível o cidadão percorrer a cidade com o bilhete único. A mobilidade foi pensada de forma global, com organização do solo e dos equipamentos para a melhor qualidade de vida Salvador: Para as especialistas, a capital pensa o problema a partir do sistema viário, com a construção de novas pistas. Soluções através do transporte público, como o metrô, não saíram do papel

Centro Histórico

Gestão Pública Montreal: A gestão é compartilhada, ou seja, os cidadãos opinam e interferem no dia a dia da cidade. Leis garantem o que foi estabelecido Salvador: O modelo é considerado melhor do que o canadense, comparam as especialistas: os planos diretores são mais rigorosos e, teoricamente, mais participativos. Porém, na prática, as leis municipais não são cumpridas e nem fiscalizadas na íntegra

Lazer Montreal: É sede de uma das etapas da Fórmula 1. Esse é apenas um dos grandes eventos realizados na cidade e que contam com a participação de turistas e dos próprios canadenses. Há muitos festivais gratuitos Salvador: Apesar de ter criado um modelo de Carnaval e, mais recentemente, receber a Stock Car, Salvador, segundo as especialistas, tem potencial pouco aproveitado e poderia receber ou fomentar mais atividades gratuitas. Ressalta-se que a Bahia levaria vantagem no clima sobre o Canadá, que chega a registrar temperaturas de até –40°C

Oportunidade Montreal: Apesar do alto custo, as Olimpíadas de 1976 deixaram um legado para os canadenses: linhas de metrô, equipamentos de lazer, como a Biosfera, e até um shopping subterrâneo Salvador: Não sediou nenhum grande evento internacional e desperdiçou a chance de investir em mobilidade urbana para a Copa do Mundo de 2014. Em destaque, apenas as obras da Arena Fonte Nova e do Terminal do Porto Turístico para a festa do futebol

Montreal: A cidade valoriza seu centro antigo e comercial. A região é parte pujante da economia de Montreal e atrai um grande número de turistas Salvador: Tanto o Centro Histórico quanto o antigo centro comercial estão degradados. O Pelourinho, uma das principais atrações dos turistas na cidade, teve lojas fechadas nos últimos anos 310

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Educação ambiental

região. É um lugar exuberante”, diz o diretor comercial da administradora do Parque Sauipe, Paulo Emílio. Ele conta que o espaço também é aberto para atividades empresariais.

O que pode caber dentro de uma área verde de 66 hectares de Mata Atlântica? No Parque Costa do Sauipe, zona de proteção ambiental em Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador, cabem atividades de lazer em meio a lagoas e trilhas, aventura e educação para a preservação ambiental. O espaço é patrocinado pela empresa petroquímica Braskem e tem como papel principal garantir o desenvolvimento sustentável e preservar as reservas de Mata Atlântica da região ao longo do Litoral Norte e do Anel Florestal de Camaçari.

Em meio às trilhas ecológicas, o parque oferece programas de desenvolvimento ao ar livre, em que as experiências profissionais são analisadas durante as atividades. “Tudo é realizado sob a orientação de instrutores que conseguem tirar dos participantes boas observações da vida profissional em meio ao espaço verde do parque”, explica Paulo Emílio. O parque só recebe visitação programada de escolas e grupos de trabalho. Em 2013, estará aberto para turistas do Complexo de Sauipe.

Mais de 60 mil aves de 250 espécies estão preservadas no parque, administrado pelo Instituto Fábrica de Florestas. Os animais desfrutam de lagoas, nascentes, vales e riachos. O espaço recebe semanalmente centenas de estudantes de escolas públicas e particulares que experimentam uma vivência aplicada em meio à fauna e flora local.

Viveiro tem espécies da Mata Atlântica e do cerrado O Parque Costa do Sauipe vai abrigar a Estação Ecológica Braskem, que reunirá soluções sustentáveis como a madeira plástica, o concreto PVC e outros produtos inovadores. “A estação vai ser como um museu dentro do parque para homenagear as tecnologias sustentáveis e a busca por produtos mais limpos”, diz Álvaro Oyama, diretor executivo do Instituto Fábrica de Florestas.

No espaço, também são estimuladas ações de preservação das matas ciliares - a vegetação que forra as margens de rios, lagoas e riachos -, das nascentes, dos mananciais e das áreas degradadas. “O Parque tem o desafio de recuperar a vegetação original do Anel Florestal do Polo Petroquímico, algo já realizado desde 2006. A participação da comunidade é mola mestra disso tudo”, explica o diretor executivo do Instituto Fábrica de Florestas, Álvaro Oyama. Com os moradores das cidades do entorno do Polo de Camaçari são realizados seminários e cursos de educação ambiental, aulas de formação de brigadas de incêndio, além do plantio coletivo de mudas. Um Museu de História Natural reúne espécies e objetos encontrados durante as escavações para a construção do Complexo de Sauipe, além de animais empalhados, biblioteca virtual e um auditório para exibição de vídeos e palestras. Para a garotada, há ainda tirolesas, passeios de caiaque e corridas de boias e paintball. “Cerca de 1.500 crianças visitam o parque todo mês. Aqui, eles entram em contato com a vegetação e os animais da

“Quase 1.500 crianças visitam o parque todo mês. Eles entram em contato com a vegetação e os animais da região. É um lugar exuberante” PAULO EMÍLIO, diretor comercial do Parque Sauipe

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O parque Costa do Sauipe tem lagoas, nascentes e vales e conta ainda com 60 mil aves de 250 espécies

O parque tem um viveiro do projeto Fábrica de Florestas, responsável pela produção de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, cerrado e caatinga. “Mais de 420 mil mudas já foram produzidas e são plantadas com a comunidade”, conta Oyama. O projeto Fábrica de Florestas foi criado em 2008 pelo IFF e, além da Braskem, conta com apoio de Cofic, Cetrel e Fundação Garcia D’Ávila, e de empresas como Deten, Arembepe Energia, Bahia Specialty Celulose, Odebrecht Realizações. Oyama conta que as atividades de preservação ambientais praticadas no parque devem ser replicadas. “Qualquer ação no sentido de estimular a proteção das florestas e a manutenção da biodiversidade das espécies nativas é muito importante”, explica Oyama.

Foto: Divulgação

Emmanuel Lacerda, gerente de Relações Institucionais da Braskem, explica que o projeto Fábrica de Florestas é uma plataforma que oferece sua expertise em ações de reflorestamento para empresas parceiras. “A Braskem contribui ao garantir a manutenção do projeto, com apoio financeiro voltado para a remuneração das equipes de produção, plantio de mudas e o custeio da infraestrutura. Além disso, envolvemos as comunidades no processo de preservação da biodiversidade. Nos associamos à iniciativa por seu propósito de contribuir para o desenvolvimento sustentável”, afirma Lacerda. O Fábrica de Florestas plantou em 2012 mais de 40 mil mudas em Camaçari, Simões Filho e Dias D´Ávila.

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A história passa pelo mar Nem só da exploração e prospecção da plataforma continental brasileira, incluindo a promissora camada do Pré-Sal, vive a Petrobras. Há dez anos, a companhia contribui para resgatar a tradição marítima nacional e sua importância na história do país, através do patrocínio ao Forte de Santo Antônio da Barra, mais conhecido como Farol da Barra, um dos pontos turísticos mais visitados de Salvador.

Itens retirados do Galeão Sacramento, naufragado na Baía de Todos os Santos, estão expostos no museu Fotos: Evandro Veiga

Ao apoiar o monumento, a Petrobras visa preservar e divulgar a velha fortaleza – a primeira construída no país, 34 anos após o descobrimento – e o Museu Naútico da Bahia, ali instalado, cujo acervo proporciona uma verdadeira viagem na história, arqueologia marítima e ciência naval. Daí porque as atividades educativo-culturais, em complemento ao ensino formal de escolares, são o ponto alto de sua programação. O comandante Reubem Bello Costa, responsável pela administração do museu, diz que, em 2011, 11 mil estudantes, a maior parte de escolas públicas, visitaram o museu, graças ao Projeto Museu Escola. A procura vinha crescendo, mas em 2012 registrou uma queda, por conta da greve de professores que paralisou as escolas estaduais por 115 dias. Seja como for, o museu é visitado por estudantes do interior e até de outros estados. É o caso, por exemplo, de um grupo do Instituto de Tecnologia de Fortaleza, que, embora não se dedique a carreiras ligadas ao mar, considera o Museu Náutico da Bahia tão importante que anualmente viaja a Salvador para uma nova visita. Forte mantém os canhões do século XVII, que defendiam a cidade Fotos: Evandro Veiga

Visitação pública: turistas e grupos de estudantes da Bahia e também de outros estados visitam o museu o ano inteiro Foto: Evandro Veiga

Peças de porcelana portuguesa, mas de estética chinesa, retiradas nos anos de 1970 do Galeão Sacramento Foto: Evandro Veiga

O Forte de Santo Antônio da Barra recebeu este nome em homenagem ao primeiro padroeiro de Salvador e até hoje o homenageia no mês de junho, com a instalação de um altar na sala de exposições temporárias do museu. Originalmente, não passava de uma trincheira de terra socada e taipa, construída na chamada ‘esquina do mar’, na entrada da Baía de Todos os Santos. Em 1624 foi tomado pelos holandeses, que iniciaram ali a invasão da cidade. Quando os invasores foram expulsos, no ano seguinte, o governo português tratou de reforçar as defesas da cidade, que já contava com o Forte do Mar, de Santo Alberto, de Nossa Senhora do Mont Serrat e de Itapagipe, com mais uma série de fortalezas - Santa Maria, São Diogo, Santo Antônio Além do Carmo, São Pedro, Barbalho e outros – que ‘fechavam’ a entrada da baía, cruzando fogo contra invasores.

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O segredo de um novo destino

No final do século XVI, o Forte de Santo Antônio da Barra foi reedificado em pedra e cal e equipado com três canhões. Também ganhou o primeiro farol da América, que funciona até hoje: na era do GPS, emite lampejos a cerca de 70 quilômetros, orientando, sobretudo, embarcações menores, com poucos recursos tecnológicos. Seu desenho atual, em forma de estrela, é do final do século XVII.

Uma área de pântano, no meio do nada, com terrenos bem baratos. Hoje, lugar supervalorizado, com variados parques e turistas do mundo inteiro. Essa é a famosa Disney, em Orlando, EUA, que surgiu a partir da visão de um empresário em apostar no potencial turístico de sua ideia. A Disney é um dos exemplos citados pela Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) como destinos criados e bem-sucedidos e que transformaram, através do turismo, toda uma região.

No acervo do Museu Náutico da Bahia, um dos maiores destaques é a coleção de peças oriundas da primeira pesquisa e resgate oficial de arqueologia submarina realizado no país, promovido na década de 70 no sítio arqueológico do Galeão Sacramento, que naufragou na Baía de Todos os Santos em 1668. São utensílios domésticos de louça portuguesa, moedas, armamentos. Há ainda um farto acervo relacionado a hidrografia, sinalização náutica e navegação na Bahia do Século XVII e XVIII, bem como sobre a história da fortaleza e registros da vida administrativa e cultural de Salvador.

Projeto traz de volta áreas da Mata Atlântica

A vice-presidente da Abav, Maria Ângela Ballalai de Carvalho, destaca que é necessário mais do que o empreendedorismo para virar um case no turismo. “Além de uma boa estrutura, a região deve ter fácil acesso, com voos conectando a vários lugares e serviço qualificado”. Crianças e adolescentes se apresentam na comunidade quilombola do Kaonge, em Cachoeira. Orgulho da dança afro e forte identidade cultural

Maria Ângela cita o Caribe para fazer uma comparação com destinos brasileiros: a beleza natural é o principal atrativo, mas a qualidade no atendimento e uma boa dose de divulgação tornaram a região uma das preferidas dos turistas em todo o mundo quando o assunto é sol e mar.

Foto: Rafael Martins

Em evento realizado na Praia do Forte, a Fundação Garcia D´Ávila apresentou os resultados de dois anos de atividades do Projeto Floresta Sustentável, patrocinado pelo Programa Petrobras Ambiental. Nesse período, foram recuperados cerca de 90 hectares de florestas remanescentes da Mata Atlântica e realizadas atividades de conservação de mais 600 hectares na reserva de Sapiranga e no seu entorno, segundo a coordenadora administrativa do projeto, Thaise Costa Pinto. Esses são alguns dos objetivos do Floresta Sustentável - restaurar áreas degradadas de Mata Atlântica e conservar a Reserva de Sapiranga, na Praia do Forte. A promoção da educação ambiental, com cursos, oficinas e capacitação para 3.700 pessoas, e o fomento a atividades de geração de renda compatíveis com a conservação da floresta foram outros objetivos amplamente alcançados, disse Thaise.

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“Por que o turista americano deixaria de ir para o Caribe para vir ao Brasil? Se lá eles têm tudo pertinho, com qualidade?”, questiona. Para buscar um diferencial, o Brasil, avalia a vice-presidente da Abav, deve apostar também nas praias, mas investir na alegria do povo e, especialmente, no serviço qualificado. “Precisamos caminhar mais rápido nesse ponto. Aqui, ainda há dificuldade até em falar uma segunda língua”, lembra.

Os parques da Disney, em Orlando (EUA), surgiram no meio do nada. Hoje movimentam toda a região Foto: Divulgação

O envolvimento da comunidade local na estruturação de uma cidade também ganha destaque. “A Praia do Forte é um exemplo de sucesso. E a inclusão da sua população foi fundamental”, avalia Maria Ângela. Também na Bahia, um outro destino busca, na criação de um novo roteiro, melhorar seu potencial turístico. É o caso de Cachoeira, no Recôncavo, que tem enfrentado nos últimos anos queda no fluxo turístico. Em julho deste ano, moradores de comunidades quilombolas, em parceria com o Sebrae, criaram a Rota da Liberdade. A proposta é apostar no turismo de convivência, onde o turista vivencia a cultura de um povo. Há visitas na região onde os escravos se refugiaram. Até hoje seus moradores mantêm suas tradições. Cidade histórica, Cachoeira pouco se renovou na oferta de atrações para os turistas. Tanto que até a sua principal festa, a da Irmandade da Boa Morte, já sofre os impactos do baixo investimento. “É uma festa em que atendíamos muita gente. E esse foi o primeiro ano em que os hotéis da cidade não tiveram 100% de ocupação”, revelou o gerente do Hotel Aclamação, Daniel Santana. No Brasil, algumas cidades conseguiram dar a volta por cima. A 80 quilômetros de São Paulo, Guarujá é citado pelo trade turístico como um exemplo parecido com a Salvador de hoje. De 1980 a 2007 registrou fuga de turistas, queda na receita, monumentos históricos abandonados, sujeira acumulada em todos os bairros, precariedade nos serviços, baixa ocupação hoteleira e aumento da criminalidade. “Depois que chegamos ao fundo do poço, os empresários, o poder público e a sociedade civil organizada resolveram se unir”, disse Ana Maria Carvalho, presidenteexecutiva do Convention Visitors Bureau da ilha. Os números demonstram que a parceria deu resultados.

“A Praia do Forte é um exemplo de sucesso. E a inclusão da sua população no turismo foi fundamental” MARIA ÂNGELA CARVALHO, da Abav nacional

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Desde 2008, o número de visitantes tem aumentado, em média, 20% ao ano, e a captação de eventos nacionais e internacionais cresceu 80% no mesmo período, de acordo com Ana Carvalho. “Com o apoio dos empresários, a prefeitura investiu em segurança pública, limpeza urbana, iluminação, identificação visual e despoluição das praias”, afirmou. No caso das praias, foi criada a Associação da Orla de Guarujá para desenvolver ações voltadas à preservação do meio ambiente, além de conscientizar a população sobre a importância de receber bem os turistas. Após três anos de trabalhos contínuos, veio o reconhecimento. A Praia do Tombo recebeu da organização não-governamental dinamarquesa Foundation for Environmental Education a ‘Blue Flag’ (Bandeira Azul), título concedido a praias consideradas top em quesitos socioambientais. “Tivemos que cumprir mais de 30 exigências”, disse a presidente do Convention Bureau. Para a obtenção do certificado, foram detectadas as ligações clandestinas e eliminado todo o esgoto da rede pluvial que desemboca na praia. Além disso, a água passou a ser submetida a análises duas vezes por dia. Segundo Ana Carvalho, a adaptação da Praia do Tombo não custou muito aos cofres públicos: “A criatividade e as parcerias foram fundamentais para a certificação”. Vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), Leonel Rossi disse que Salvador “precisa entrar no caminho certo”. “Há alguns anos, todos os turistas queriam viajar para Salvador porque o Centro Histórico tinha sido restaurado, a cidade era limpa e bem iluminada e havia sensação de segurança muito 319


grande. Depois, tudo mudou e, infelizmente, o setor turístico ficou em segundo plano”. Leonel Rossi afirmou que, além de Guarujá, outras duas cidades podem servir de inspiração à retomada do potencial turístico da capital baiana. “Foz do Iguaçu e Barcelona, em diferentes épocas, também estavam decadentes e hoje servem de modelo”. Segundo o vice-presidente da Abav, até 1992, quando sediou os Jogos Olímpicos, Barcelona era uma cidade com poucos hotéis, mal iluminada e com raras atrações turísticas. “Eles aproveitaram o evento, transformaram a cidade e investiram em infraestrutura (portos, estradas, aeroportos, etc) com o governo. O resto, com a iniciativa privada. As cidades turísticas do Brasil têm de seguir o exemplo”.

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Novos destinos

52%

dos turistas que circulam na Bahia são os próprios baianos, o que demonstra o seu potencial interno

Cachoeira apresenta potencial para turismo afro Turismo não é só feito de museus ou belas praias. Prova disso é o Roteiro da Liberdade, em que o visitante é convidado a conhecer as rotinas de uma comunidade quilombola em Cachoeira, no Recôncavo. Na primeira parte, a matriarca Giovani Juvelino, mãe de santo do terreiro de candomblé e diretora da escola, é responsável por contar a história das famílias da região. Do terreiro, os turistas vão para a casa de farinha, onde Raimundo Jovelino ensina como cortar a mandioca, tirar a goma, passar a prensa, peneirar e colocar a massa no fogo. Da farinha, o turista tem a oportunidade de saber mais sobre o azeite de dendê. Na mesma área, é possível aprender a fazer xarope com a senhora Valdelici Mota, 86 anos, integrante mais velha do quilombo Kaonge. Como também é benzendeira, dona Valdelici reza os turistas com folhas. Depois, é hora da festa. Crianças encerram o tour com danças e música ao vivo típicas. Segundo Selma Santos, guia do tour, o que mais encanta são as crianças. “Elas conseguem esconder,com essa graça, todas as falhas que temos”. O consultor do Sebrae e turismólogo Tiago Mendes conta que a comunidade já estava bem estruturada quando o Sebrae começou a assessorar o negócio. Para ele, o interesse, seja por parte dos empresários, do poder público ou da comunidade, é o ponto de partida para desenvolver a vocação turística de um local. “As etapas são estruturar, qualificar, gerir e promover”, comenta. De julho até novembro de 2012, Kaonge recebeu 250 visitantes. O roteiro custa a partir de R$ 55. O secretário de Turismo e Cultura de Cachoeira, Lourival Trindade, destaca que a cidade tem um potencial turístico pouco aproveitado. “Por ano, Cachoeira recebe em torno de 110 mil visitantes. Mas chegaria a 200 mil se não fosse a proximidade com Salvador, pois as pessoas não dormem aqui”. Apesar de atribuir o menor fluxo de turistas à crise mundial, o secretário lamenta a falta de infraestrutura hoteleira. “Mas, com os investimentos que virão para a Baía de Todos os Santos, solicitarei ao governo recursos para um píer”, avisa. O presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens na Bahia, Pedro Galvão, diz que 52% dos turistas que circulam no estado são os próprios baianos. “Cachoeira é um pontapé para um tour pelo Recôncavo”, acredita.

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Momento ideal para promover mudanças Uma pesquisa encomendada pela Empresa Salvador Turismo (Saltur), órgão ligado à prefeitura, mostra que o cenário econômico é favorável para o setor turístico. “Desde 2002, cerca de 30 milhões de brasileiros foram deslocados para o meio da pirâmide social. Essa turma está viajando muito para cidades que colocam à disposição dos turistas conforto, segurança e atrações”, disse Leonel Rossi. O vice-presidente de Relações Internacionais da Abav lembra que os dois grandes eventos esportivos que vão acontecer no Brasil até 2014 (Copa das Confederações e Copa do Mundo) são a grande oportunidade para Salvador “dar a volta por cima”. Não é por falta de projeto que Salvador vai deixar de agradar a seus visitantes durante a Copa das Confederações e o Mundial. Nas gavetas da Saltur estão alguns que podem mudar a cara da cidade. Destacam-se, entre os projetos, a requalificação urbana da orla, a reestruturação do sistema viário da cidade, com modernas soluções de acessibilidade e mobilidade, obras de reurbanização e infraestrutura, implantação de cinco centros fixos (e outros dois móveis) para o atendimento ao turista e sinalização trilíngue (português, inglês e espanhol). Outras obras previstas no projeto são a revitalização e modernização do Mercado Modelo, uma das principais atrações turísticas da capital baiana, reforma da Praça Irmã Dulce, criando o chamado Corredor da Fé até a igreja do Bonfim. Para melhorar o atendimento ao turista, a Saltur prevê a execução de um programa de certificação de serviços.

Muito além do gramado Quando a Arena Fonte Nova for aberta ao público, previsto para março de 2013, Salvador vai ganhar não só um estádio de futebol moderno, nos moldes dos melhores do mundo. Ganhará também o espaço que precisava para entrar no roteiro dos grandes shows internacionais, além de novos equipamentos para eventos empresariais, restaurantes para grandes grupos, lojas e até um museu de cultura popular e esportes. Com isso, a Fonte Nova que está renascendo deverá contribuir significativamente para o incremento do turismo baiano, aposta o presidente do complexo, Dênio Cidreira. Foi dele a segunda palestra do seminário sobre A Retomada do Turismo. Segundo Cidreira, que abordou o tema Do Entretenimento aos Negócios – Múltiplas Possibilidades para o Turismo, a Arena Fonte Nova foi pensada levando em conta, inclusive, o potencial turístico da Bahia, que hoje recebe por ano 11 milhões de visitantes - dos quais 5,3 milhões de dentro do próprio estado - e quase 560 mil turistas estrangeiros. Isso coloca o turismo baiano na quarta posição entre os destinos mais procurados, depois de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Para atrair público do interior e de outros estados, os administradores planejam aproveitar os jogos mais disputados para lançar pacotes ‘all inclusive’, com almoço, show antes ou depois da partida, além de ingressos para o jogo. Para os soteropolitanos, a ideia é transformar qualquer dia de jogo em um dia inteiro de diversão, com o torcedor e sua família aproveitando ao máximo os equipamentos do estádio. E não serão poucas as opções disponíveis. Inspirada na Arena Amsterdã, considerada um espaço multifuncional dos mais arrojados do mundo, a Arena Fonte Nova contará, no estádio, com 50 mil assentos cobertos, dois grandes restaurantes com vista panorâmica para o campo e o Dique do Tororó, 39 quiosques de alimentação, 70 camarotes para um total de 1.200 pessoas, lounge com dois mil metros quadrados, estacionamento com duas mil vagas, 93 sanitários, museu e lojas. Nove elevadores tornam o complexo acessível a pessoas com dificuldades de locomoção. A própria Arena Amsterdã - o segundo ponto mais procurado por turistas na cidade holandesa, depois do Museu Van Gogh - será parceira na gestão do empreendimento, observou o executivo. O complexo holandês é amplamente utilizado para grandes shows de música, assegurando a utilização do espaço, independentemente dos períodos de campeonato. São oito espetáculos de grandes nomes da música por ano.

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Solução Para Dênio Cidreira, o futebol também movimenta o turismo, e a Arena Fonte Nova, como um espaço multifuncional, pode estimular o setor na cidade, atraindo não só torcedores de outras partes do país como público para grandes shows de música, além do turismo de negócios

O plano é fazer o mesmo na Fonte Nova, cujo projeto foi elaborado com esse fim: a ‘ferradura’ se transformará facilmente em um grande palco, com versatilidade para mudanças sucessivas de cenários, entende Cidreira, que anunciou um novo empreendimento na área. O plano é instalar uma casa de shows com capacidade para oito mil pessoas, sobre o edifício-garagem do complexo, em 2014, logo depois da Copa do Mundo. O potencial turístico de grandes eventos de música já está comprovado em vários países, inclusive no Brasil. “Dos 700 mil ingressos vendidos para o Rock in Rio, 45% são para compradores de fora do Rio”, exemplificou. É na atração de visitantes, daqui e de fora, que se baseiam os estudos de viablidade de projeto da Arena Fonte Nova. Mais do que um moderno estádio de futebol, a Arena Fonte Nova deverá funcionar como um importante indutor do turismo baiano, capaz de atrair Foto: Marina Santa

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visitantes de todas as partes, não só como um equipamento esportivo, mas também como um centro cultural e de negócios. “A Arena será âncora de um grande centro multifuncional”, salientou. Ele lembrou que o campeonato brasileiro perdeu cerca de 400 mil torcedores, o que atribuiu em parte aos problemas dos estádios brasileiros.

* Potencial turístico

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milhões é o número de visitantes que, anualmente, circulam pela Bahia

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Regiões turísticas com mais energia

Morro de São Paulo também terá mais oferta de energia Foto: Antonio Saturnino

De olho no potencial de expansão da região Sul da Bahia com novos projetos de infraestrutura, como o aeroporto de Ilhéus e o Porto Sul, a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba) está investindo R$ 36,4 milhões na construção de três subestações e cinco linhas de transmissão nas cidades de Ilhéus e Uruçuca. “O nosso investimento é estratégico para o crescimento da região Sul porque oferece o suporte necessário às grandes obras e outras demandas, como a Bahia Mineração”, disse Ricardo Valente, gerente de Planejamento e Investimentos da Coelba. Apenas como comparação, as obras realizadas pela Coelba na região Sul do estado são suficientes para garantir o fornecimento de energia de uma cidade do porte de Serrinha, a 173 quilômetros de Salvador. Cenário de diversos romances do escritor Jorge Amado, cujo centenário de nascimento foi comemorado em agosto de 2012, Ilhéus é uma das atrações turísticas da Bahia. Outras duas regiões muito procuradas por visitantes também mereceram investimentos da companhia. No total, a Coelba investiu R$ 34,1 milhões na construção de uma subestação, duas linhas e uma rede de transmissão em Maraú e Morro de São Paulo. “A realidade é que o sistema elétrico era muito precário em Morro de São Paulo e as quedas (de energia) eram muito frequentes. Com o aumento da oferta, certamente não teremos nenhum problema na ilha nos próximos cinco anos”, afirmou Ricardo Valente. Funcionário de um estabelecimento comercial em Morro de São Paulo, José Fernando da Cruz disse que as quedas de energia aconteciam com mais frequência principalmente durante a alta estação. “Era impressionante. Bastava aumentar o número de visitantes para pousadas, hotéis, lojas, restaurantes e bares enfrentarem problemas e terem prejuízos com a falta de energia”. Na região do Baixo-Sul, onde está Morro de São Paulo, os investimentos da Coelba seriam suficientes para gerar energia para uma cidade das dimensões de Juazeiro, uma das maiores do estado. Localizada a menos de 100 quilômetros de Salvador, com hotéis e pousadas charmosos, lojas, bares e restaurantes bem estruturados e com forte apelo ecológico, a Praia do Forte também atrai milhares de visitantes todos os anos. Com a ampliação das subestações de Arembepe e Guarajuba e a construção de uma linha de transmissão na própria praia, a Coelba garante o suporte necessário ao comércio e turismo do Litoral Norte até a Copa de 2014, que será realizada no Brasil.

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Com 5,1 milhões de clientes e presente em 415 das 417 cidades da Bahia (Jandaíra e Rio Real são abastecidas pela Sulgipe, empresa privada com sede em Estância, Sergipe), a Coelba reservou mais de R$ 100 milhões para investir apenas em Salvador. Uma das principais obras do projeto de expansão é a construção da subestação Fonte Nova, que vai funcionar dentro da arena multiuso, prevista para ser inaugurada em 29 de março de 2013, data da fundação da primeira capital brasileira. “Além da própria Arena, a subestação terá capacidade para atender todas as novas demandas do bairro de Nazaré pelos próximos cinco anos”, disse Valente. As obras de ampliação do sistema elétrico em Salvador estão bem pulverizadas. Outras quatro subestações serão construídas: Itaigara, Imbuí, Periperi e Itinga. A previsão da Coelba é que todas as obras de Salvador sejam concluídas até o final do ano que vem. Na Região

“Com o aumento da oferta, não teremos problema em Morro de São Paulo nos próximos cinco anos ” RICARDO VALENTE, gerente de Planejamento e Investimentos da Coelba

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Metropolitana, as subestações e outras obras da Coelba garantiriam o fornecimento de energia para toda a cidade de Feira de Santana, por exemplo. No Extremo Sul, a construção de uma subestação no Centro Industrial de Teixeira de Freitas é o principal projeto da Coelba para ampliar a oferta de energia. Orçada em R$ 6,4 milhões, a obra deverá ser concluída no final de 2013. “Também estamos ampliando a oferta de energia em Prado, cidade muito procurada principalmente por turistas de Minas Gerais”, disse Ricardo Valente. “Todos os nossos projetos têm uma preocupação muito grande com as questões ambientais”, afirmou o presidente da companhia, Moisés Sales. “A Coelba só se desenvolve se a Bahia se desenvolver. É por isso que estamos presentes em todos os segmentos do nosso estado, do agronegócio à indústria; do turismo ao comércio. Também estamos na zona rural, nos pequenos e grandes empreendimentos, sempre trabalhando pelo crescimento da Bahia”, disse Sales. Segundo o presidente da companhia, a expansão da Coelba na região seria suficiente para gerar energia e garantir o suprimento de energia para Barreiras.

Região Sul terá reforço para atender novos projetos A Ferrovia Oeste-Leste (Fiol), o Porto Sul e o novo aeroporto de Ilhéus ainda são um sonho do governo e dos empresários baianos, mas, se dependessem apenas da Coelba, os três empreendimentos poderiam ser inaugurados no final do ano que vem. Segundo o governo, com investimentos de R$ 3,5 bilhões, o Porto Sul será construído no litoral norte de Ilhéus (429 quilômetros de Salvador), entre as localidades de Aritaguá e Sambaituba. O porto ficará no final da Ferrovia Oeste-Leste, obra do governo federal que ligará Figueirópolis (TO) a Ilhéus. No total, a ferrovia terá 1.527 quilômetros, resultado de um investimento de R$ 7,4 bilhões. Pelas projeções do governo baiano, o novo aeroporto de Ilhéus seria construído em regime de PPP (parceria público-privada), em uma área localizada entre a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

“O sistema elétrico era muito precário em Morro de São Paulo e as quedas (de energia) eram frequentes” RICARDO VALENTE, gerente de Planejamento e Investimentos da Coelba

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