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R.J. XAVIER | O homem que queria ser enterrado num balão

Playlist do livro Jimmy LaValle & Mark Kozelek, Perils From The Sea - What Happened To My Brother Ólafur Arnalds, For Now I'm winter - For Now I'm winter Lambchop, Nixon - Up With People Phosphorescent, Muchacho - Song For Zula Daughter, If You Leave - Still James Blake, Overgrown - Retrograde Suede, Coming up - Trash Pulp, This is hardcore - This is hardcore Daughter, If You Leave - winter John Lennon & Yoko, Double Fantasy - I’m loosing you John Lennon & Yoko, Double Fantasy - Just like (starting over) Bruce Springsteen, The River – Point Black

Edições Círculo de Autores ainda desconhecidos Ano 2013

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É Julho de 1979. Já passavam quase Perils From The Sea vinte minutos depois das dez da maWhat Happened To My Brother (5min:15seg) nhã quando Chico Silva, mais conhecido pelo Chucha, acordou. Era um verão quente e abrasador, a fazer jus à meteorologia que todos ansiavam para as festas populares do Bairro. A noite passada apanhou uma piela das grandes e os raios de luz infiltravam-se insipidamente pelas cortinas corridas, desbotadas, dando ao quarto um aspeto descolorido e enevoado. De qualquer forma, aquela luz já estava a dar-lhe cabo da cabeça. Levantou-se e sentiu como se o chão estivesse inclinado. Odiava levantar-se da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar novamente e depois de se passar a noite inteira a dormir cria-se com o leito uma espécie de intimidade especial que fica muito mais difícil de largar. Chico vivera boa parte da sua vida com a Mãe e a Irmã mais velha do que ele dois anos. Seu Pai morrera quando tinha dez anos, de uma cirrose hepática. A Mãe já tinha saído para o trabalho e a irmã, a Glória ou Guinha, como lhe chamavam, quem sabe por onde andaria. A última vez que se viram tiveram mais uma bulha. Durante a madrugada, cinco dias atrás, Chico sentira alguém a remexer na fechadura da porta de casa e levantou-se para ver o que se passava. Era a Guinha que não conseguia abrir a porta. A irmã tinha o rosto devassado por uma noite de estúrdia e entrou em casa parecendo uma sonâmbula tirada do sono. - Por onde andaste? – Perguntou estremunhado. - Não sejas chato, gaita – disse-lhe de voz quebrada num guincho pedante – Vai-te lixar! E nisso seguiu aos tombos pelo corredor até ao seu quarto. Ela trabalhava na fábrica de confecções, já tinha dezanove Jimmy LaValle & Mark Kozelek

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anos, e desde adolescente mostrara uma grande afinidade para lidar com os rapazes. Foram os milhares de hormonas descontroladas que a fizeram granjear a fama de ser a menina que rodava por todos os rapazes do Bairro e arredores. A experiencia adquirida, caso ela quisesse, poderia ajudá-la a fazer-se numa puta de renome por aquelas bandas. Parece que a presciência se iria realizar. Foi uma rapariga que começou a ter uma vida difícil muito cedo. Sobretudo quando tudo o que era bom durou muito pouco tempo. Sem a protecção do pai ou de deus … ninguém sabe, ela perdeuse. Era uma alma aflita, igual ao irmão, só que nunca deu parte de fraca. Procurou em todo o lado sentimentos, reciprocidade, muitas vezes em sítios onde não devia. Passava cada vez mais noites fora e outras a chegar tarde, pelos vistos, sempre em sítios de lanterna vermelha e pouco recomendados. Chico não compreendia, não o faria certamente por necessidade de ganhar algum para comer, só podia ser por gostar daquilo. A Mãe, que sempre se esforçara por garantir que aos filhos não lhes faltasse pão em casa, ou não sabia o que se passava com a filha ou então fechava os olhos, quem sabe incapaz de travar um caminho que já lhe estava destinado. Depois de ter ido à janela espreitar a estreita rua toda enfeitada para as festas, voltou à mesinha de cabeceira para pegar os óculos que lhe corrigiam uma miopia avançada. Calçou os chinelos e foi para a cozinha comer qualquer coisa. Deu uma dentada num pastel de bacalhau frio e seco que tinha sobrado certamente do jantar do dia anterior e tirou uma mini do frigorífico carregado de ímans e cromos desgastados pelo tempo, colados na porta, com as caricaturas dos jogadores de futebol do campeonato

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nacional, colecção que ele nunca chegara a acabar. Ligou a rádio e passava o “Another Brick in the Wall” dos Pink Floyd. O pastel estava salgado mas, quem sabe assim se livrasse do sabor desagradável que tinha na boca, provocado pela ressaca e pelos cigarros Kentucky mata-ratos que havia começado a fumar às escondidas da mãe. Desde menino, Chico sempre fora gozado por todos, vítima das mais hilariantes partidas no bairro. Ostentando aquela figura frágil e com os seus óculos bem colados aos olhos, tinha uma reputação bastante cheia de eternas desventuras e baralhações. Sempre fora muito reservado dentro de si mesmo e quando eram mais novos, até a irmã o perseguia, dizendo que era um queixinhas que contava Ólafur Arnalds For Now I'm winter tudo o que ela fazia de certo e errado para For Now I'm winter (5min:07seg) os seus pais. Para se vingar, muitas vezes costumava colocar a culpa das suas travessuras no Chico, coitado, sempre confuso em saber o que dizer para se defender. Para ele todas as palavras que existiam eram imprecisas e não conseguia inventar outras que mostrassem o que sentia. Depois, havia o medo, nascialhe em todos os lados, parecia uma erva daninha, surgida espontânea nos momentos mais indesejados e que crescia impunemente pelas paredes da sua vida. O Pai dizia-lhe que ficando calado não poderia fazer poemas. Hoje já estava a caminho dos dezoito, muito já tinha conseguido ultrapassar, mas continuava a ser o mesmo jovem resguardado … ainda era um banana, como a irmã e as suas amigas lhe chamavam. Aos dez anos, a ultima imagem que guarda do pai é ter chegado após o trabalho numa passagem fugaz por casa, para logo de seguida sair para a taberna. Quando lá foram bater à porta a avisar que o pai estava estendido na rua, sem

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se mexer, foi acordar a mãe. Entrou adentro pelo quarto dos pais, timidamente, mal distinguia as formas da mãe deitada na cama em plena luz da penumbra, com umas folhas medicinais nas fontes para as dores de cabeça que o marido lhe tinha deixado quando passou por casa sem lhe ligar nenhuma. Chegaram os dois a correr quando à esquina, viao na sua memória, o encontrou caído no chão, vomitado de um líquido amarelo esverdeado, pálido como o reflexo da vida que tinha deixado para trás. Tinha acabado de fazer trinta e oito anos na semana que havia passado. Quando o pai se foi, sentiu que perdera a sua bussola. A sua morte deixou a mãe desnorteada e no que lhe dizia respeito, a perceção de estar cercado pela morte não alterou a sua forma de encarar a vida, apenas impediu que o Pai o ajudasse a crescer mais forte e a saber lidar com os seus fantasmas. Quando fez os treze anos abandonou a escola para nunca mais voltar. No dia do funeral, agarrou na bicicleta e saiu a pedalar para longe dali. Pedalou com toda a força, enchendo os pulmões até não poder mais, para depois gritar até vazar toda a raiva que tinha pelo pai o ter abandonado naquele momento. Mas o amor que tinha por ele não acabou, e devia acabar, o seu coração devia esvaziar-se, mas não vazou, depois, apenas ficou uma perdição, a tristeza, uma irremediável tristeza. A mãe passava os dias a esfregar tacos em casa das senhoras e voltava quando já era noite. Quando subia as escadas já se lhe sentia o cheiro da cera Búfalo entranhado no corpo cansado. A noite, passava-a acordada a bordar malhas para uma loja de pronto a vestir que as vendia por um dinheiro que ela nunca chegava a ver. Chico cresceu aqueles anos todos assistindo ao envelhecer declivado da mãe, que se foi

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esfumando com tanto choro e trabalho. Acompanhou-a a aprender a sobreviver aos dias, como se tivesse aceitado morrer devagar, violentamente devagar, aniquilada pela perda do seu coração. Ninguém estava preparado para a derrocada que lhes aconteceu. O choro, a raiva, o pavor que Chico sentia faziam-lhe estalar a cabeça e durante muito tempo quase o enlouqueceu. “” Acabou de comer e recostou-se na cadeira. Apetecia-lhe fumar um cigarro mas lembrava-se sempre que a mãe proibia o pai de fumar em casa. Voltou ao quarto e vestiu a t-shirt vermelha da noite anterior, amarrotada e a cheirar a fumo da tasca da Ti Fortunata, de onde saiu já eram uma e meia da manhã. Parecia uma verdade tão fácil de ver mas tão difícil de aceitar. Chico viu morrer o pai que sempre o protegera da sua fragilidade e lhe prometera fazer dele um homem, eram essas as suas palavras. Ele não passava de um rapazinho frágil e assustado, sentindo que ninguém mais o iria defender na rua. Viu sua mãe a escassear de dia para dia até se transformar num espetro lívido. A irmã estava perdida e ele não via perspectiva de vida a não ser continuar a arranjar biscates, por vezes trabalhos na fábrica de adubos, mais pesados do que o seu corpo estava preparado para suportar. O bairro era dormitório de operários das indústrias da região. De manhã, as pessoas alinhavam-se nas paragens dos transportes, os transportes alinhavam-se nas paragens forçadas dos engarrafamentos, a cidade densa e enervada, cheia de desemprego e crises políticas não permitiam a Chico deitar-se no quarto a sonhar com um futuro. Os 7


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sonhos morreram naquele dia, não tanto pela morte do pai, nem sequer pela tristeza profunda da mãe, mas porque ele sempre se sentiu um desajeitado e tonto que não iria conseguir vencer na vida. Desde então crescera como um mau dançarino no meio de um salão de baile, a bailar uma dança carregada de ritmos de violência, de socos sem esquiva, desferidos impiedosamente nele como se fosse o bombo da festa. Naquele momento, mesmo não restando nada, as emoções permaneciam e ele ia gozando as festas populares, os bailaricos no Racing Desportivo, o torneio de matraquilhos e o continuar mediocremente a aproveitar a tolerância dos seus companheiros de infância perdida, hoje quase todos a rondar a casa dos dezoito, a caminho de um dia poderem votar num destino tão incerto quanto aquele que os seus pais viveram. Alguns tinham lugar prometido numa fábrica qualquer em substituição de um outro familiar em vias de passar à reforma. Outros como o Gigas, o Arnaldo e o Zé Balizas, formavam bandos de meliantes que se dedicavam aos assaltos de esticão e à arte do carteirista de transportes públicos. O Moita era o líder da quadrilha, um vigarista de suprema imaginação e que começava a querer arriscar a entrar noutros esquemas como os assaltos à mão armada e o negócio dos passadores de marijuana. Foi com aquele grupo de duros que Chico foi crescendo embora nunca tenha sido aceite nos círculos de confiança. Sabiam que ele não fazia mal a uma mosca e por isso era uma figura resignadamente aceite naquelas tardes e serões na Taberna da Ti Fortunata. “”

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Antes de sair, penteou o cabelo para trás, deixando no cimo aquela popa que parecia não condizer com a personalidade dele, colocou os óculos ray-ban graduados que lhe tinham arranjado em contrabando na base aérea dos americanos e pôs-se fora de casa. Vivia no quarto piso de um prédio de cinco andares e galgou as escadas com uma energia renovada. Lá fora o calor era sufocante e viu a Dona Edviges a recolher os caixotes de fruta para dentro da mercearia pois não tinha sombra que chegasse. Passou por si um camião carregado de areia e brita destinado à pavimentação da estrada principal da vila que fez estremecer o chão, ondulando-o por baixo dos seus sapatos de bico afiado. O rapaz que entregava o leite acabava de chegar na sua Zundapp ruidosa e enquanto retirava o capacete fitava de boca aberta a filha do patrão curvada junto a uma prateleira com uma minissaia que mais parecia uma maxicinto. Depois de assimilar as cenas do quotidiano, Chico sorriu para si mesmo, o mundo não tinha mudado durante a noite … podia seguir seguro. Apesar dos esforços em ser aceite e de tentar trespassar mais confiança, por Lambchop dentro, não era mais do que o mesmo rapazinho Nixon assustado a quem todos chamavam de banana. Up With People (5min:59seg) De queixo erguido e costas direitas, avançou a passos decididos enquanto os sapatos produziam o ruído seco ecoado pelas ruas tortuosas com estreitas vielas e ladeiras escondidas. Por cima, a roupa a secar nas cordas e os vasos de flores animavam as janelas. Os cheiros, os ruídos, as cores do bairro cruzavam-se consigo numa diversidade de sentimentos únicos. Aquela vila cheirava a povo e a solidão em festa. Ao ombro levava um casaco de napa preta a imitar o cabedal e o cabelo escuro penteado para trás já lhe tocava os ombros. Assim conseguia esconder a orelha direita que 9


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era um nadinha deformada e maior do que a esquerda. Os óculos tapavam a testa alta e uns olhos profundos e vigilantes como os de um marinheiro atento na coberta de um navio. Apesar de franzino, não se podia dizer que causasse má impressão. Era mais a graça e a elegância de gestos que lhe poderiam arrancar alguns elogios. Continuava esquálido pela rua, naquele corpo magro e seco, acanhado por dentro, mas esforçando-se sempre por se apesentar esganiçado e num jeito de malandreco. Enquanto gingava ao virar a esquina, meneou a cabeça para Lúcia, uma vizinha trintona, alta e bem torneada que sempre se encontrava a espreitar a rua na pequena janela redonda como se fosse a escotilha de um navio. Em resposta, ela baixava e levantava a cabeça, em silêncio e de olhar fixo, fazendo sinal de reconhecimento. Ele baixava o olhar num misto de vergonha e interiorização. É que nunca a conseguia encarar, tinha medo que ela notasse que, invariavelmente, os seus olhos se desviavam para o descomunal par de mamas que ela ostentava e punha assentes no rebordo da janela. Não havia uma única vez que a visse sem ficar com as pernas bambas de emoção. Nem às paredes confessaria os sonhos que já tivera com ela. Sabia bem o que os outros homens julgavam a seu respeito e diziam em surdina e nas costas do marido para ele não ouvir. Artur era pintor de construção civil mas nos tempos livres era o eterno guarda-redes do grémio desportivo do bairro. Portanto, quando não estava agarrado ao pincel e ao rolo a esticar tinta de areia pelas paredes rebocadas dos prédios, estava entre os dois postes a lançar-se que nem um gato selvagem às bolas disparadas contra si. Lúcia parecia sentir falta pensava ele … sentir falta da narsa, diziam os outros em tom jocoso. Por se achar tão franzino e

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pouco belo carregava alguma tristeza pois não seria notado pelas mulheres como a maioria dos rapazes. No caso da sua vizinha, acreditava que ela nem sequer olharia para ele como um homem. Seguia em frente por aquela estrutura labiríntica das ruas, que desembocavam em pracetas soalheiras, embandeiradas com os estandartes das festas em honra do santo padroeiro da vila. Parou no quiosque da Dona Maria que vendia os jornais e trocava livros de quadradinhos por outros a troco de dez tostões por unidade. Sempre que podia dava uma olhadela disfarçada pelas revistas weekend sex, não fosse alguém notar que ele se interessava por temas daqueles. “” Quando chegou à esplanada da taberna já lá estavam o Gigas e o Arnaldo, sentados a falar com o João Matos, um rapaz amulatado, filho de retornados das colónias e que fez com eles a 4ª classe. Arnaldo exibia um canivete com uma lâmina extremamente afiada e com um cabo que parecia feito de pedra. Só a lâmina media uns quinze centímetros e parecia que não pesava nada a circular pelas suas mãos hábeis. Por trás de uns óculos escuros de lentes de um azul metálico, o Gigas apreciava um relógio Rolex, ostensivamente como que a vangloriar-se da colecta que deviam ter feito na noite anterior. - Com que então estás safo em matéria de guito - dizia o Gigas para o rapaz, na voz monótona e arrastada do costume. Aquele tipo de voz que se tem quando estamos na casa de banho e nos obrigam a falar. 11


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O outro disse que sim. - Quanto? - Parecia fazer cálculos de cabeça. - O suficiente para me aguentar o primeiro ano na universidade - disse o rapaz - Bem sei que não é nenhuma fortuna mas assim sempre vou arriscar e concorrer. - Palpita-me que não te vais aguentar e qualquer dia dás com a gaveta vazia - dizia o Arnaldo disfarçando um sorriso irónico. O rapaz não lhe deu troco. Ele sabia perfeitamente de onde é que vinha o dinheiro que o Arnaldo e o Gigas tinham, por isso não valia a pena argumentar. Chico sentou-se na mesa ao lado e cumprimentou-os. Pediu uma mini e uns tremoços para ir descascando. - Estudar não te serve de nada. Se um dia precisares de umas massas extra não são os estudos que te vão desenrascar. Isso é limpinho - continuava o Arnaldo. - O dinheiro do teu avô um dia vai secar e depois vais ver Gigas dizia enquanto rodava o relógio, uma e outra vez até à exaustão. - Quando chegar a altura, logo vejo... - E tu Chucha, nem para estudar, nem para gamar serves Como se não bastasse ao Arnaldo, ele tinha de implicar com mais alguém. Chico começou a corar. Não era preciso muito para o fazer corar. O que o safou foi naquele momento ter passado a filha do sargento da Guarda. Gigas distraiu-se a vê-la passar: - Que corpo do caraças ela tem! - Ei ... olha lá que a miúda só tem quinze anos - disse o João Matos. 12


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- Pois ... é a miúda com quinze anos mais boa das redondezas - Arnaldo. - Ainda namoras com a Júlia? - Perguntou o Gigas para desviar a conversa João parecia envergonhado como se estivesse quase a vomitar uma humilhação qualquer. Enquanto isso o Arnaldo dizia-lhe: - Ouve, companheiro, um conselho daquela cor-de-rosa. Com as gajas, o que há a fazer é comê-las com regularidade. Se ela não te der gozo, então pões-te a andar e vais procurar outra num lado qualquer. - Achas que é fácil? - Lamentava o outro. - Gaita! És mesmo bazaruco. Gajas esfomeadas não faltam por aí. Olha a Lúcia, a mulher do Artur, o gajo só vê trabalho e futebol e esquece a baliza que tem lá em casa. Chico ouvia a conversa. "Pobre desgraçado, não tens confiança em ti próprio, sei o que sentes. O Arnaldo é um provocador nojento. É um bêbado das sete quintas, com aquele cabelo curto e uma cara vermelha, nariz carregado de varizes e umas bochechas flácidas ainda mal tem dezoito anos". Felizmente para ele, o massacre pendeu sempre para o lado do outro e assim pôde ficar descansado sem ninguém o chatear. De resto, a conversa foi toda à volta da grande noite de baile que se avizinhava naquela noite. Já se avistavam os homens a cercar o recinto de baile ao ar livre, com as canas apanhadas nos canaviais ao largo da linha do comboio. O aroma fresco do bambu exalava pelo ar naqueles dias, perfumando a manhã escaldante e o palanque dos músicos aguardava como que ansioso pela chegada da noite. Para começar e pela primeira vez, Chico dava por si a desejar ardentemente pelo baile. Nem sequer fazia ideia das 13


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razões que o levavam a estar naquele Muchacho desespero, tanto mais que, na altura, tinha Song For Zula (6min:59seg) tendência a evitar todo o tipo de reuniões mais concorridas. Os alaridos das multidões não o atraíam rigorosamente nada e a timidez que o assaltava na presença de toda aquela gente deixavam-no constrangido. Porém, naquela noite, inexplicavelmente, teria dito lá em casa que iria ao baile do Racing, de modo que lá foi ele afiançar que o seu lugar estava garantido. Phosphorescent

“” Naquela noite de festa, durante os festejos do Santo Padroeiro, deu por si sozinho num canto do recinto, a fumar um cigarro suavemente como se a sua ocupação fosse desfazê-lo lentamente, aos bocados. Observava as pessoas, dezenas e dezenas de pessoas, apinhadas, a dançar nos estreitos limites estabelecidos pelas canas alinhadas, a escutar aquele clamor feito de sons da banda, das palavras e risos excitados. Os assadores funcionavam a toda a fúria, despachando febras e couratos para quem queria petiscar qualquer coisa no intervalo de uma dança. A cruzarem os ares estavam fios elétricos iluminados por dezenas de lâmpadas coloridas, dando um ar festivo e algo pitoresco àquele momento. Havia um cinzeiro em cima de um caixote à sua esquerda e, quando se virou para apagar o cigarro, viu a vizinha Lúcia e o seu marido a chegar e a sentarem-se nas cadeiras. Ela já andaria à volta dos trinta e cinco anos e ele pouco mais velho do que ela seria. Vê-los assim, juntos, parecia um casal incongruente pois era raro associar um ao outro. Ele vinha vestido com um fato de linho branco 14


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amarrotado e um tanto sujo e uma camisa preta, igualmente amarrotada. Já ela, com o seu cabelo escuro penteado em desalinho, de rosto amendoado, olhos verdes escuros e firmes a olharem perdidos no espaço, como se o seu papel fosse estar ali a mostrar presença, nem que fosse com um ar entediado. Mas era sem dúvida uma mulher atraente, profundamente atraente para um rapaz como ele, nos seus dezoito anos. O seu corpo bem torneado, envolvido pelo vestido colado e aqueles lábios sumarentos faziam-no sonhar em morrer a beijá-los. A festa já ia adiantada e a música tocava alta. Os efeitos das luzes projetavam nas paredes as sombras dos convivas como se fossem gigantes em movimentos desengonçados junto às paredes dos prédios. Chico ali se mantinha parado, tentando adaptar-se ao seu primeiro baile, quando a descobre a dançar, meneando o corpo sensualmente junto ao marido que já estava ligeiramente tocado. Como se algo a tivesse atraído, voltou o olhar penetrante para si, reparou nele, demorou um bocadinho mais do que o necessário a desviar os olhos. Nesse entretanto arma um sorriso discreto que não desarmou mais enquanto se encaravam. Ele oferece-lhe um ligeiro sorriso, como que a dizer que nem queria acreditar. Ela então, fez um gesto com a mão, levando-a ao cabelo, destapando o pescoço, como que a dizer-lhe que era a mais pura verdade. Depois, virou as costas e continuou a mover o corpo de um lado para o outro enquanto o marido nem parecia dar atenção ao que tinha na frente. Chico ainda olhou para trás pois alguém que não ele poderia ter sido o alvo daquele sorriso. Só encontrou as canas. Registou mentalmente todos os pormenores dela, sentindose ingenuamente arrebatado. Se a irmã o visse agora diria 15


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que parecia um pateta, um incauto banana apaixonado por uma mulher que tinha o dobro da idade dele. Nisto umas nuvens escuras e cerradas se puseram no céu, uma chuvada tipo tropical como há muito tempo não se via, colocou o recinto em alvoroço. Enquanto uns dispersavam a correr para baixo das varandas para se protegerem da chuva, outros apinhavam-se no bar da sociedade. Parecia que a chuva ralhava com ele por estar sentir o que sentia. O recinto ficou vazio, apenas os dois ficaram onde estavam, é que enquanto uns sentem a chuva, outros apenas se molham e o olhar dos dois cruzou-se naquele momento e ali ficaram, ela sozinha no meio da pista a olhar para ele, imóvel. Ele então, aproximou-se um pouco, não muito, mas o suficiente para ficarem distantes uns dois metros. Apesar da chuva, a noite estava com uma temperatura quente e aquele cenário era convidativo para um momento inesquecível. Na verdade, apesar de vizinhos de bairro, eram dois estranhos que, por alguma razão, se abriam um para o outro, sem palavras, apenas com o olhar, talvez na ânsia de se conquistarem. Com a chuva, a festa esmoreceu e os convivas foram saindo, o baile acabou mas eles foram-se deixando ficar. Ela não sabia do marido, provavelmente perdido de bêbado numa outra festa qualquer, num outro bairro vizinho. O tempo corria, dali a pouco um novo dia ia nascer e chegava o momento de se separarem quando na verdade, não havia quem dissesse que alguma vez tivessem estado juntos. Chico acompanhou-a em silêncio até à porta de casa, os estandartes de papel, molhados e deformados pingavam lá do cimo nas cordas esticadas, as luzes dos candeeiros já se tinham apagado. Um cão adormecido parecia guardar a rua e o silêncio quente das ruas estava cheio de ecos intermináveis

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das músicas tocadas. Despedem-se com um até amanhã e ela entra em casa. Ele guardou aquele momento e segue para casa a recapitular cada segundo, cada gesto, cada olhar. Levava um sorriso nos lábios e pedia a Deus que ela também o tivesse. Ao início da noite era uma alma toldada pelo estigma do fracasso, pela fragilidade, porém, no final da noite, era uma pessoa surpreendida com a vida e com a esperança no dia seguinte. Quando chegou a casa, deitou-se na cama com uma sonolência surpreendentemente boa. O som da chuva parecia aludir na sua cabeça a uma tempestade que se aproximava a passos largos. Deu por si a conversar com o pai. Ele pousava ao de leve a mão sobre o seu ombro e é então que a tempestade se afasta. "A partir de agora, aconteça o que acontecer, tens de te tornar num rapaz forte. Acredita em ti, tu vais conseguir vencer. Mas para isso é preciso que tenhas consciência do que ser Daughter If You Leave forte implica. Estás a perceber?" Still (5min:55seg) Ele respondia acenando a cabeça, sempre de olhos fechados. Só lhe apetecia continuar assim, com a sua mão no seu ombro e ir mergulhando no sono. "Vais ser. Tu vais ser o rapaz mais corajoso do mundo" sussurrava-lhe a voz do pai ao ouvido e aquelas palavras foram ecoando esparsas até adormecer. “” No dia seguinte, o despertar foi diferente, sentia que só queria viver aquele dia e depois outro se seguiria, um de cada vez. Saltou da cama e tomou um banho de água fria, a 17


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retemperar o corpo amassado da noite anterior. Apurou os sentidos, e colocou a cabeça a funcionar. Olhou-se no espelho. Os seus músculos, apesar de pouco desenvolvidos, apresentavam-se rijos como aço, ao mesmo tempo apreciavase naquela sua expressão de cada vez mais metido consigo mesmo. Sempre se havia esforçado por esconder as emoções para que ninguém - nem colegas, nem em casa - ficasse com a mínima ideia do que lhe passava pela cabeça. O que aconteceu ontem, foi um sinal que lhe apontava novos caminhos. Um sinal de que o pai tinha razão, ele seria forte no momento em que fosse atirado às feras no mundo dos adultos e sabia que teria de ser forte e corajoso para poder vencer. Os olhos que via refletidos no espelho eram determinados e impenetráveis mas nunca os conseguiria fazer brilhar de dureza. Não se lembra da última vez que soltou uma gargalhada ou que tenha lançado um sorriso de esguelha, a não ser na noite anterior com Lúcia. Despejou o resto do café que tinha sobrado da cafeteira e fez um pão com doce de tomate. Mais uma vez a mãe já teria saído para o trabalho e a irmã não tinha vindo dormir a casa. Saiu para a rua, dirigiu-se para não soube onde, com uma mistura estranha de liberdade e desespero. Andou às voltas pelo bairro durante uma boa parte da manhã. Quase sem se aperceber, foi dar a um pequeno jardim com uma vista maravilhosa sobre a cidade. Aproximou-se do gradeamento e inclinou-se ligeiramente para a frente, tendo a ilusão de que estaria a planar no céu por cima dos telhados que desciam a encosta. Por momentos esquece-se de tudo, distrai-se e tenta pensar nas coisas boas que lhe aconteceram. O dia estava tão quente quanto o anterior, mas do chão exalava um cheiro de terra molhada da noite anterior. Recuou uns passos e decide

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sentar-se num banco de madeira ali mesmo na sua frente. Nisto ela aparece lá mais ao fundo. Caminhava devagar, parecendo apreciar o perfume daquele dia de verão. Parou por momentos virada para o horizonte, com a cidade lá no fundo. Ela olhou para o lado e os seus olhares cruzam-se naquele momento. Parecia-lhe tão bonita que até lhe fazia doer por dentro. Esmagava-se-lhe o coração só de a sentir assim tão por perto. Vestia uma camisa branca e umas calças pretas. Parecia nervosa, indecisa. Ele gostava de perceber a razão. Acenou-lhe um olá tímido e Lúcia respondeu. Ela lançou um olhar em redor, parecia certificar-se que estava livre de olhares indiscretos. Atravessou a distância que os separava. Ele levanta-se quase sem fôlego, pernas a tremer, sem saber o que dizer ou fazer. - Quer sentar-se - perguntou ele. - Não, deixa estar - respondeu ela - Vim aqui ter sem saber bem porquê. - Eu também, talvez para escapar de outros lugares. Está-se bem aqui e este é o único banco do jardim. Ela hesitou durante uns segundos mas acabou por se sentar. Olharam uma vez mais um para o outro, desta vez muito mais perto do que os dois metros que os separavam na pista de baile. Ela olhava para os olhos negros de Chico, tão intensos, inquisitivos e devolveu-lhe um olhar, fascinada como que a dizer-lhe que era mutuo o que sentiam. Falaram do tempo e da chuvada da noite anterior. De conversa em conversa, descobrem que gostam de banda desenhada e que trocavam os livros no mesmo quiosque. Ela perguntou-lhe que tipo de livros costumava ler. Ele respondeu-lhe Alix e Tarzan. Ela confessou-lhe que gostava

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da banda desenhada erótica, de preferência as edições pirata das aventuras de Lola. Perguntou-lhe se conhecia e ele respondeu envergonhado que já tinha lido um ou outro. Passou uma hora e, repentinamente, ela levanta-se e anuncia que tem de ir, o marido iria trabalhar numa obra longe e ficaria dois dias fora, tinha que lhe preparar a mala e um farnel. Ele nem conseguiu despedir-se. Ali ficou, inebriado, a vê-la seguir para casa, movendo-se daquela forma sensual que o extasiava. "Ainda tenho um ataque cardíaco", pensava ele. Puxou de um cigarro, acendeu-o e puxou uma fumaça. Semicerrou os olhos enquanto o fumo subia em espiral ao longo do seu rosto e entristeceu. A vida impunha-lhes a impossibilidade de existirem em coisas tão simples como a de ir buscar a casa e saírem para jantar juntos. Ao seu lado nunca poderia adormecer, aqueles lábios seriam impossíveis de beijar algum dia. Ela tinha o dobro da sua idade e ele era um miúdo banana, sem futuro. Pôs-se a pensar nos livros da Lola. Era uma personagem feminista, heroína, que protegia as mulheres indefesas das atitudes machistas de alguns homens. Aplicava castigos perversos àqueles que abusavam da diferença de sexos e tinha uma predileção por sexo, seja com homens, seja com mulheres ou então com preferências bondage. Lola era uma mulher exótica, de corpo exuberante e sensual, de cabelo rapado na intimidade, que aplicava as mais diferentes cabeleiras quando atuava disfarçada nas suas missões. Sem saber bem porquê, ela acertou nas memórias gráficas mais profundas de Chico, uma mulher que encerrasse em si todas as outras. Os momentos eróticos que ele imaginava um dia viver escreviam-se com imagens de Lola e as suas aventuras. Aliás, nem parece de propósito mas Lúcia era uma figura que facilmente se podia colar à de Lola. Se a pudesse desenhar, o seu esboço seria feminino, ela 20


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aparecia volumosa e palpável. Para ele seria anatomicamente perfeita, bela e sensual em contraste com tudo o resto no mundo dele, feio, mórbido e sombrio. Se a desenhasse seria rodeada com imagens do seu mundo de pessimismo e de dor a que Lúcia o ajudaria a escapar através do prazer. “” Passou a tarde em casa. Não tinha que ser James Blake Overgrown assim, pensava ele deitado na cama, cortinas Retrograde (3min:43seg) corridas, na penumbra, para não deixar passar o calor abrasador. Lúcia. Tudo aquilo não passava de um engano. Ele sabia que tinha um péssimo hábito de moldar as coisas à sua imaginação. Era um dos seus piores defeitos, confessava ele, quase sempre com consequências desastrosas. Nunca se tinha sentido apaixonado, parecia que enlouquecia e punha-se com ideias tontas, muito tontas, por acaso. Já se estava a imaginar aflito, alvo da gozação do Arnaldo e do resto da trupe. “ Ouve lá ó Chucha, essa cena já cheira mal … essa coisa de andares debaixo das cuecas duma gaja quase com o dobro da tua idade”. Parecia que ouvia as explosões de gargalhadas de todos lá na tasca, ele com um ar muito atrapalhado. Odiaria ver a irmã e as suas amigas putéfias a chamarem-no, de mansinho, “Banana, é mesmo um banana”. “Sim”, diria outra, “parece um palhaço de óculos, com lentes que parecem o fundo de uma garrafa”. Passaria na rua e alguém diria: “pobre rapaz, nunca teve jeito para nada. Aquilo sem o pai não vai dar em nada. Tenho pena dele porque o desgraçado não tem amigos.” Mas o sonho dele, o sonho com o seu Pai … foi tão encorajador. Foi isso que sentiu e não o aperto doloroso que sempre sentia quando se deitava e levantava no dia seguinte. 21


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Olhava fixamente para o teto com os olhos muito abertos. Apesar da penumbra, ele não via nada, talvez porque não houvesse nada para ver. Era isso que o angustiava, era essa a sua aflição, ter de continuar sem nada para ver na sua frente. Se seu pai ali estivesse dir-lhe-ia que não tinha de ser assim. O menino que ele adorava e que queria que não se deixasse perder, não podia deixar-se assustar. Levantou-se de um salto, foi à janela procurar sinais de vida. Nada acontecia. Perscrutou de um lado para o outro durante imenso tempo, foi como se todo o bairro tivesse parado de respirar. Ninguém, transeuntes, carros, a mercearia fechada, nada passou lá em baixo, nem uma só alma entrou ou saiu de sua casa. “Não sei como é que me meti nisto. Mas eu nem fiz nada para acontecer! Assim ainda acabo comigo.” Abriu a janela e sentiu as ondas de calor a sufocarem a respiração. O ar era denso e concreto, de tal maneira que até parecia ser possível torcê-lo, como a uma lâmina de um serrote. Olhou para o céu. Estava azul. Agarrou os cabelos com os dedos, prendeu-os e desprendeu-os vezes sem conta. “Perco demasiado tempo a pensar em fugir das coisas e demasiado tempo a desfazer esses pensamentos.” Regressou para dentro do quarto, fechou a janela, cerrou as cortinas, via a sua casa desbotada e arruinada, vítima da eficácia de uma vida atroz que não tinha que ser assim. Procurou em volta com os olhos aquilo que não conseguia ver com o coração. Aquela casa era um ermo solitário e despovoado na sua vida. Seu Pai morreu e o resto da família viveu no escuro o resto do tempo sem que nenhum deles tenha tido a ousadia de abrir a luz. Tinham medo, medo deles próprios e até parecia que esse medo era bom, pois não desistiam dele e não o enfrentavam. A sua mãe costumava dizer que se os seus olhos mostrassem a sua alma, todos, ao verem-na sorrir, chorariam com ela. Resolveu 22


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pôr um disco e aquela música encheu-lhe o quarto, as palavras soavam nos seus ouvidos, tão perto Suede da sua alma, “faz-me qualquer coisa”, repete, Coming up Trash “qualquer coisa”. A outra voz do dueto dizia (3min:48seg) ”não consigo fazer. Sou muito desajeitado”. Se o próprio silêncio tinha o seu ritmo, aquela música tinha algo de mágico. Fazia-o acreditar que o sublime lhe pertencia. Chico sempre adorara o ritmo da música, arrepiava-lhe cada centímetro do seu corpo e fazia-lhe sentir o sangue bombear na mesma cadência. Assim conseguia estragar o seu mundo triste quando bem lhe apetecia, era a única forma. “Não quero ser mais eu” gritava o cantor ao som de uma guitarra rasgada no mesmo tom. “Mas eu estou colado a mim próprio”. A guitarra e os sintetizadores que agora se utilizavam envolviam-no num sentimento de escalar colinas, não era sonho, era o seu segredo, era a sua prova, prova de que tinha um cérebro, que tinha um coração, que não era apenas um candelabro de vela acesa e tremeluzente, à espera de ser apagada. “” Saiu para a rua, cada vez mais indeciso, inseguro, mas desta vez a vaguear com uma direção. Ele queria parar mas não conseguia, tinha que a ver, quem sabe esteja à janela, mesmo com este calor de estufa. Olhou para o relógio, ainda era meio da tarde, só pelas sete é que as pessoas começavam a retornar dos seus trabalhos. Quando avistou a casa dela, viu que não estava na janela. Pôs as mãos nos bolsos e atravessou a estrada para passar junto à clarabóia. Quando se aproximou parecia que se deslocava em bicos de pés parecendo um doido acreditando que flutuava sobre as brasas do inferno. Olhou disfarçadamente para a janela e viu 23


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as cortinas moverem-se. Ficou sem saber o que fazer, nem se havia de fazer o que quer que seja. Aquela mulher fazia-lhe suar a alma e ele sabia que tinha uma atração pecaminosa por ela. Baixou-se para atar os sapatos como mera desculpa e porque precisava de parar para pensar, precisava de decidir que aquele era o momento de se afastar e acabar de vez com aquela situação. Nisto a janela entreabriu-se e ela sussurrou disfarçadamente de dentro: - Vou abrir a porta dos fundos. Estou à tua espera. Sem saber o que fazer, ergueu-se lentamente e dirigiu-se à porta, preocupando-se que entrava sem ninguém dar por isso. Ele só não queria que esta oportunidade se escapasse por entre os dedos. Percorreu aqueles metros como se estivesse a abandonar para trás os caminhos de solidão que já havia percorrido. A porta abriu-se mas ela não se via, provavelmente escondida por trás da porta. Viu a sua mão a chamar para dentro e ele entrou hipnotizado. Os seus olhares bateram um no outro. Não sabendo bem de onde, mas ao Chico chegou-lhe um sentimento antigo que não conseguia definir, parecia que já tinha vivido aquela cena. Já dentro, sentiu a penumbra da casa, janelas semicerradas, uma cadeira antiga no canto do hall e um espelho grande à direita. Ela puxou-o pela mão suavemente e levou-o para o quarto. Ele estava paralisado com o coração aos arrepios, olhando-a com os seus olhos ávidos, escuros e frágeis à espera não sabia de quê. - Decide agora, antes que seja tarde. Depois não haverá nada para dizer, apenas o farás quando eu te mandar. – Disse ela. Vestia uma saia preta curtinha de couro e uma miniblusa preta apertada e que lhe realçava todos os esbeltos contornos e a deixava com os seios belos a despontarem do 24


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decote. Recuperando a voz ele murmurou que sim, movendo a cabeça de forma ambígua, e voltou a ficar silencioso, abstracto. Não conseguia deixar de fitar a imagem que levara muito tempo a construir, o físico opulento, com lábios carnudos que atiçavam sua imaginação. Ela puxou-o para a beira da cama e ficou de joelhos com ele em pé junto a si. Ficaram próximos, a dois centímetros um do outro, à mesma altura. Beijou-o nos olhos e depois roçou-lhe a língua escaldante de embriaguez no pescoço. Ela era surpreendente. A boca dela era uma coisa quente que se agarrava à boca dele e fazia dela o que queria. De um momento para o outro, como um navio preso à terra numa tempestade no mar, ali estava ele, com as plantas dos pés ancoradas no chão, mas todo o seu corpo ao sabor das ondas que ela lhe infligia, e aí é que tudo começa, um alvoroço no seu corpo, onde se comeram na boca e no peito e onde tudo acabaria nos corpos um do outro. As mãos levantaram-lhe a saia, abriram os sexos e entraram na boca os dedos. As suas bocas cheias não se calavam de lamentos sussurrados. As mãos misturamse com os sexos, os sexos com as bocas. Os corpos foram-se virando do avesso, os olhos fascinados, a luz baixa, a penumbra ofuscante. O prazer esgotou-lhe o desejo uma vez, por um momento, até recomeçar novamente, uma e outra vez, num doce movimento que ele sentia não haver nada que o impedisse de continuar. O que ele queria mesmo era não acabar nunca. - Não estás cansado? Estás todo suado – dizia ela. - Mais um bocadinho - pediu ele. Foi assim que os demónios que lhe roíam a alma pareceram apagar-se. A violência escondida da sua vida parecia já não lhe bater em cheio. Olhava para ela que cintilava de graça e 25


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poder, dona e senhora de todas as fantasias que ele havia tido com ela, com todas as criaturas que o atraiam. Os seus seios roçavam no seu ventre e ele estremecia enquanto ela o ensinava a apreciar os desejos da carne. Quando terminaram, deitaram-se juntos, exaustos lado a lado, com os hálitos ofegantes misturados no sal das peles húmidas coladas uma na outra. Ela ergueu-se sobre ele, olhou-o nos olhos e viu a dor que trespassava o seu coração, que ele parecia não lhe conseguir ocultar. Beijou-o para o acalmar mas parecia ainda aprofundar mais o conflito que lhe despedaçava cada pedaço de si. À primeira vista a cena era pagã, um adultério, uma falsidade imunda entre uma mulher casada e um rapaz mais novo, com a metade da sua idade. Depois, conforme se iam aproximando, encontrava-se a curiosidade da paixão e dos prazeres ilícitos e a aplicação dos princípios democráticos do amor. - Fica tranquilo, eu não sou nenhuma puta – disse sorrindo meigamente – eu não te pedi nada em troca, pois não? - Não, nem pensar – respondeu ele – nunca pensaria isso, é que … - Diz, que se passa? De que tens medo? De ser feliz? - Tenho medo de estarmos a fazer algo de errado, podemos ser descobertos. - Ouve, não creio que “errado” seja a palavra adequada para aquilo que estamos aqui a fazer. Tu és como te quero. O único ser íntimo que conheço sou eu mesma. Mas gostaria de tornar-me íntima de ti. - Eu também, mas é perigoso. - Pois, percebo. Eu tenho pavor desse perigo. Mas se não satisfaço este desejo, torno-me terrível – ela sorriu. 26


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Na verdade, Chico que sempre se sentia vulnerável e indefeso, à mercê de todos como se fossem os seus brutais captores, ali, naquele momento, foi sentindo a ansiedade a diminuir, o seu coração só acelerava na perspectiva de um roçar de lábios enquanto conversavam, mas nunca bateu demais por medo. Ali ele não sufocava os sentimentos, apesar de saber estar a desafiar as conveniências morais que lhe teriam sido transmitidas. Agora só queria viver a vida, momento a momento, sem aquela solidão que lhe apertava a garganta. Parecia que agora seria capaz de fazer da vida o que queria. Com ela não parava de falar, entre eles falavam de tudo. Queria dizer-lhe o que estava guardado durante anos. Estavam completamente entrelaçados um no outro, porque uma coisa pedia outra, uma palavra outra palavra, uma história seguia a outra, um fim outro fim. “” Naquele dia chegou a casa já eram quase oito horas da noite. Por incrível que pareça, a mãe e a irmã já lá estavam, ambas a preparar o jantar. Ele entrou com a cabeça no alto dos momentos que viveu com Lúcia, a pensar até com alguma lucidez que se tinha perdido completamente algures no turbilhão do prazer que ambos sentiram um com o outro. Chico sonhara um dia poder alcançar tudo aquilo que experimentara naquela tarde, claro, mas perguntava-se agora se iria mais além do que imaginara … é que de repente muitas portas se abriram. - Até que enfim, já ia mandar a tua irmã ir-te buscar à Fortunata. – Disse a mãe. - Não pensei que já cá estivessem – respondeu ele.

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A primeira coisa que a irmã reparou foi num arranhão que ele tinha no pescoço. Ofereceu-lhe um estranho sorriso jovial e foi beijá-lo no rosto. - Hummm, parece que o meu maninho já conhece o sabor da paixão – fazendo-lhe ao mesmo tempo uma carícia quase fraternal. Chico percebeu que ela estava desconfiada com alguma coisa e que se estava a preparar para lhe tornar a vida negra, novamente. A mãe olhou para ele, viu-a fechar os olhos num sinal de apaziguamento. Ele acenou positivamente com a cabeça e desta vez, ao invés do aperto amargo no peito, teve que se dominar para não deixar que estalasse uma discussão entre os dois. Reparou na expressão sempre triste da mãe. Há mais de oito dias que não jantavam os três. A mãe colocou uma cerveja na mesa, para ele. A irmã também exigiu uma. Chico apercebeu-se do ambiente pesado, a mãe parecia querer que ele não visse que estava lacrimosa. - Meninos, quero ter uma conversa convosco, como adultos, civilizada, sem discussões, choros ou recriminações. Pode ser? – Perguntou a mãe. Ambos concordaram com um aceno de cabeça, calados e curiosos com o que seria que a mãe teria para falar com eles. - Vocês sabem que a vida não está fácil, ainda mais depois do vosso pai morrer. Criar duas crianças sozinha não tem sido fácil – começou a dizer – a falta do vosso pai foi mais do que a falta do carinho que ele vos poderia ter dado mas também porque o dinheiro nunca chegou para ter uma vida descansada. Os seus olhos revelavam uma tristeza sem fim. Procuravam a todo o custo justificar a notícia que tinha para lhes dar. 28


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- A vossa mãe não consegue pagar as contas nem que trabalhe o dia e a noite sem parar. Cheguei ao limite das minhas posses, tudo o que fiz na vida, fi-lo em grande correria e com os bofes de fora. Respirou como que para ganhar energias para continuar a falar. - Neste momento, se me espojar no chão, ficarei ali, sem me mexer e serei inútil durante muito tempo, pois não tenho forças para continuar nesta maldita terra que me suga o trabalho e não me dá dinheiro que chegue em troca. Os filhos ouviam. Não valia a pena interromperem. Era desnecessário dizerem quase nada. O que diziam ficava calado, eram palavras que cada um, por si, as murmurava para dentro e que só os próprios as conheciam. - Há uns meses atrás, uma amiga dos tempos da minha juventude e que emigrou para o estrangeiro, telefonou-me – parou e olhou para os filhos como quem estava a olhar para o fundo de um poço – Perguntou-me se eu aceitava emigrar para trabalhar com ela num hotel. A vida corre-lhe bem e precisa de pessoas que arregacem as mangas e não tenham medo de trabalhar. Os filhos, admirados com o cuidado com que a mãe queria tratar das palavras que lhes dizia, mostravam-se ansiosos pela pergunta final. - Ontem fui à cidade falar com os representantes dos futuros patrões e eles aprovaram as minhas mãos calejadas – disse – é verdade, eles escolhem as pessoas consoante os calos que têm nas mãos. Mas prefiro assim, sem ser a salto, clandestina. A vida vai continuar a ser difícil, não conheço nada de nada, nem sei falar uma palavra quanto mais 29


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perceber o que dizem. Mas a Alice vai-me ajudar. Ela mexia insistentemente no garfo, picando as batatas da jardineira empobrecida uma vez e outra até as desfazer. - Pensei bem no assunto e decidi que estava na hora de partir para longe daqui. Se continuarmos assim, acabo por endoidecer. Quando terminou, estava tão cansada que lhe faltava o fôlego, baixou os olhos, encolhida no seu pranto, exausta com as consequências cumulativas de uma vida sem escolha. Esperou que os filhos dissessem alguma coisa. - Já sei que vais dizer que sou malcriada e que não quero sair do meu canto mas já sou adulta, tenho um trabalho e não quero sair para outro país à procura daquilo que já tenho hoje. Eu não vou! – Disse a irmã perturbada. O olhar de ambas virou-se para o Chico. Ele sempre fora tão humano e refletido, incapaz de uma palavra incorreta, incapaz de tomar uma atitude que causasse desconsideração para com alguém. Desde que o Pai morreu, viu a sua mãe passar a vida a atar e desatar fios sem conta, não só nos bordados que fazia como também com as linhas da vida, uma vida de esquecimento e sobressalto. Ele sabia que até hoje, tantos anos depois, a ruína da família era disputada entre os três e talvez por isso a mãe tenha tentado trazer a si mesma a responsabilidade de mudar algo nas suas vidas e dar a volta à situação. Por isso aceitou humilde e pesaroso a sua intenção. - A mãe é que sabe o que é melhor para nós – e mais não disse. Não teve coragem para lhe dizer o quanto irónica a situação se apresentava. Viveu por entre retratos de abandono e por 30


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vezes punha-se a pensar se realmente estava vivo antes do baile da noite anterior. É que era como se o tempo tivesse apagado os anos da infância e da adolescência que agora terminavam, como se nenhuma delas não tivesse feito parte da sua vida. Dos escombros em que habitou, não guardava nada, facto que o levavam a não querer regressar ao que não existe, à inexistência. Passou uma vida inteira à espera de sair daquele sítio onde nascera, lugar que sempre lhe simbolizara a impossibilidade do prazer de viver. Sempre sonhara em esmagar a solidão e o desconforto de viver afastado do mundo e eis que no momento em que antevê uma porta abrir-se para sair dali, surgiu também o despontar de uma fogueira a arder no inverno frio da sua vida. O prazer que descobriu com Lúcia mais se afigurava a uma luz a iluminar as paredes sombrias onde sempre vivera escondido. Parecia que aquele lençol opaco que lhe cobria a visão desde pequeno, se destapou de repente e não só lhe apetecia dizer que sim à mãe como só desejava poder estar novamente com Lúcia e libertar do seu corpo os seus desejos numa voracidade insustentável. Nada era fácil, e vê-se enredado na contradição de querer sair para começar a viver e ficar para, enfim, descobrir o que era a vida. “” Depois do Jantar, voltou para a rua a andar como uma alma penada. Se para encontrar a felicidade era preciso o prévio conhecimento da inevitabilidade da tristeza e da sensação de não estar completo, ele tinha de concordar em aceitar que provavelmente era agora que iriam começar a acontecer coisas boas. Chico começava a acreditar que só se aprendia batendo com a cabeça na parede. Pela primeira vez, desde o 31


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dia em que se lembra de si mesmo, tinha diante de si duas hipóteses, sendo que desta vez ambas eram boas, ao contrário de antes, em que tinha de escolher o mal menor. Foi direto à tasca e o objectivo era enfrascar-se no vinho. Dizia o seu pai: “Toma conselhos com o vinho, mas toma decisões com a água”. Mal vira a esquina que dá para a taberna assiste a uma acesa discussão entre o Arnaldo e a Ti Fortunata. - Esta cerveja está morta – reclamava ele. - Bebe vinho que isso passa-te – retrucou ela com a sua saia comprida, castanha e demasiado grossa para os dias de calor que se faziam. - Quê??!! Aquele vinho que é a duas mãos? Bebe-se com uma mão e mija-se com a outra, certo? - És um grande sem vergonha é o que tu és. Tem mas é juízo. És um gaiato que eu vi nascer e ainda tens o desplante de vir prá qui cuspir no prato que comes – dizia a taberneira com a mão nas têmporas. Tinha o cabelo encaracolado curto e era gorda, o que a fazia parecer-se muito com um escaravelho preto. Com os seus olhos enormes e muito salientes, que pareciam estar sempre em estado de choque, ela continuou a xingar o Arnaldo até ele pedir para ela parar. - Ó Ti Fortunata, vá lá, não fique aborrecida, faça-me o favor de me desculpar – sacaneava ele - Tá bem assim? - Desculpar uma ova - Afastou-se exaurida – São a pôrra de uns filhos da mãe é o que vocês são todos. Quando Chico se ia sentar no seu canto, o Gigas chamou-o, num zunido baixinho, como se lhe quisesse segredar coisa que não deve ser sabida por outrem:

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- Chucha, anda cá rapaz que a gente quer falar contigo. Ele levantou-se e sentou-se à mesa com eles, demonstrando pouco à vontade. - Ouvi dizer que tens andado a cheirar o cú da mulher do Artur – disse-lhe naquela sua expressão apalermada de queixo caído. O Arnaldo abafou uma gargalhada com um ataque de tosse. Chico sentiu-se a encolher para dentro, a encarquilhar-se como um plástico atirado para dentro de uma fogueira, a desaparecer antes de ter tempo para arder. - Que grande pôrra pá, não fiques assim comprometido. Nem tentes mudar de assunto que a conversa é séria – continuou o Gigas. Emudecido, tentava esconder as verdades por entre a aflição dos seus olhos, incapaz de dizer uma palavra que fosse. O Arnaldo parecia estar a divertir-se à brava e vendo os olhos do Gigas ficarem presos no traseiro de uma mulher que passava, entrou ele na conversa. - Tens que ter cuidado com aquele cabrão do Artur. Qualquer dia o gajo descobre e dá-te cabo do canastro. - Não fiz nada de mal – murmurou ele com voz sumida – muito menos ela. - O problema do Chucha é que ele guarda tudo lá dentro – dizia o Gigas para o Arnaldo, como se estivesse a explicar uma avaliação técnica à sua condição psicológica – é um rapaz muito sensível por baixo desta capa. Desta vez o Arnaldo nem se riu. Com o seu olhar vidrado e o queixo espetado para a frente disse: - Estas coisas não nos dizem respeito. Tu és responsável por 33


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aquilo que fazes pá, mas conhecemo-nos desde miúdos, achámos que tínhamos de te avisar. O Chico começou a sentir-se mais isolado do que nunca, um verdadeiro idiota, era o que ele era. As palavras que queria dizer caíam na saliva como pedregulhos de uma montanha desmanchando os mares. - Que filha-da-puta mais velhaca é aquela gaja. Tu tens a metade da idade dela, pá. – Continuava o Arnaldo, truculento como sempre - O problema dela é que há muito tempo que não leva uma boa foda, e isto dá sempre cabo da perspectiva de uma gaja. - Podes crer – assentou o Gigas - Um gajo joga-lhe um sorriso e ela deita-nos um daqueles olhares imperturbáveis de galdéria que anda à caça e sabe muito bem aquilo que quer. - Tens que admitir que a gaja é boazona – disse o outro num tom condescendente. - Dasse, que pivete é este? – Exclamou o Gigas para o Chico - Voltas a cagar-te aqui e dou-te uma sarabanda nas ventas meu porcalhão de merda. “Estou a perder o controlo. Foda-se isto tudo. Pensam sempre que sou um frangalhote que não consigo lidar com a pressão deles e que me acobardo. Estes cabrões nunca saberão nada da minha vida. Eu sou melhor do que eles todos juntos”. Nisto levantou-se e disse que tinha de ir à casa de banho. Dentro da latrina, sentiu-se a tremer e os dentes batiam uns nos outros com toda a força. Sentou-se na sanita. Incapaz de se controlar, arrepelou o cabelo em desespero. Quando voltou à esplanada, ainda vinha um pouco abalado. Os dois marretas olhavam para ele. O ataque é a melhor 34


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defesa. Olhou-os nos olhos: - Estaria melhor aqui se não tivesse que vos aturar com merdas inventadas e que me podem trazer problemas – Atirou-lhe de rompante. Eles ficaram a olhar estupefactos e boquiabertos, como se tivessem levado com um balde de água fria e perdido todo o entusiasmo para a desilusão. Nisto, Chico voltou-lhes as costas, ignorando por completo os balidos sem importância daqueles rameiros estúpidos. Continuou a caminhar decidido, parecia uma locomotiva a rebocar uma vida de indecisões mas agora movida de insurgência e revolta contra todos aqueles que o esmagavam diariamente desde sempre. “” O sino da igreja já tinha dado as dez horas da noite, as luzes dos candeeiros, apenas metade estavam acesas, sendo que algumas delas a piscar. Ninguém ainda tinha dado por isso mas aquela noite era a véspera do seu décimo oitavo aniversário. À medida que caminhava, Chico rendia-se aos encantos da sua insurreição e da arrebatadora despreocupação com que a encarava. Não temia os reflexos dos seus atos e só pensava no calor indolente da cama de Lúcia, aquele novo mundo simultaneamente sedutor e perturbante em que facilmente se partilhava a mistura de atração com o temor que sentia. Por momentos pensou na mãe, tal como a deixara depois do jantar, triste e cansada, a lavar a loiça suja. Ele sabia que o que andava a fazer não estava certo, sentia até aos ossos toda aquela injustiça, mas a vontade de explorar mais a sua relação com aquela mulher era maior do que tudo. Soprava uma brisa noturna, fresca e

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agradável, subitamente sentiu-se ainda mais consciente da situação em que estava envolvido e isso trouxe-lhe uma estranha sensação de … felicidade. O início da sua vida havia começado recentemente e o desfecho parecia-lhe estar ainda muito longe. Tomou então uma decisão. Iria procurar Lúcia, falaria abertamente com ela sobre os seus confrontos e confinamentos que o embaraçavam em todos os momentos. Quando por fim chegou perto da casa dela, sentiu-se aliviado por ninguém estar na rua, nem sequer vizinhas se viam à janela. A casa de Lúcia ficava ao cimo de uma escadaria apertada e atapetada. Ele encontrou a porta da entrada aberta, entrou e subiu. Tocou na campainha. Ela abriu a porta, estava vestida com um roupão. Ficou surpresa por ele ali estar mas os seus olhos refletiam o desejo de o ter novamente para si. Puxou-o para dentro tendo o cuidado de garantir que mais ninguém dava por isso. Era uma casa um pouco sombria e densamente alcatifada, que tinha uma cozinha pequena, uma sala de estar igualmente diminuta mas o quarto … o quarto onde ele estivera nessa tarde era amplo, do qual se podia vislumbrar através de uma janela retangular as traseiras do quarteirão. Levou-o para a sala e sentou-o num sofá de orelhas largas e grandes. Ele bem que tentou começar a falar mas ela colou-lhe o dedo na boca e fez “sshhhiiiuuu… espera aqui que eu já volto”. Ainda de roupão, deixou-o lá instalado, seguiu e fechou a porta do quarto ao mesmo tempo que Chico ficava sentado, imóvel, a olhar para uma pilha de livros de banda desenhada em cima de uma mesinha antiga. Coçou a cabeça e remexeu o cabelo ajeitando-o. Esperou. Os minutos pareciam séculos. A espera tornou-se ofegante e desanimadora. O desespero parecia tomar conta dele como um guarda-chuva gigante a fechar-se lentamente consigo lá dentro. 36


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Passou algum tempo até que ela voltou, dirigiu-se às portadas da janela da sala, fechou-as assim como a cortinas foram corridas. Vinha exuberante, calçada numas botas altas de couro negro com salto alto, o cabelo preto puxado para cima da cabeça preso por uma faixa de couro preto. Trazia um espartilho em PVC que lhe realçavam os seios redondos, duros e inchados a apontarem para a frente. Por baixo, umas cuecas pretas, estreitadas em volta das suas ancas carnudas, que revelavam mais ainda o seu traseiro. Os lábios carnudos e sumarentos, pintados de batom preto completavam a imagem fantasiada que Chico olhava na sua Pulp frente. A penumbra quase passou a escuridão. This is hardcore This is hardcore Agarrou na mão dele e puxou-o. Chico seguiu(5min:48seg) a, mantendo-se bem chegado a ela, esforçando os olhos para descortinar alguma pista que o levasse a saber para onde ia. Sentou-o na cama. - Tira a camisa – Diz ela – e depois as calças. Ele obedeceu. - Agora as cuecas - Ele voltou a obedecer. As cuecas deslizaram com a ajuda dela - Põe esta venda que te dou e deixa-te ficar quieto. Ele colocou a venda de tecido preto, feita de seda, fresca e escorregadia. Sentia-se esquisito com a venda colada aos olhos, sem se mexer, dizer nada, nem compreender o significado que para ela poderia ter ele estar ali, imóvel, mudo, com uma venda colocada. Ela mandou-o deitar-se. Despiu as suas cuecas e sentou-se no seu peito. Sem nada para ver, apenas com a coragem de cego, ele sentiu uma fogueira acesa sobre a parte anterior do seu corpo. Ela ordenou-lhe que inspirasse fundo e adivinhasse o que ela estava a fazer e não disse mais nada. Ele nem ousava mexer37


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se, nem sequer cruzar as pernas ou juntar os joelhos. - Fala! Responde à minha pergunta: o que estou a fazer – mandou. - Estás sentada no meu peito. - Como sabes que estou sentada no teu peito? - Está quente. - E isso significa que me sentei no teu peito? Ele sentia um leve odor adocicado que não conseguia perceber qual a origem. Nisto sentiu uma sensação quase dolorosa junto ao ombro e ela perguntou: - Diz-me se acabei de me sentar no teu ombro. - Não, por favor, não te sentaste no meu ombro. O que é isso? – Perguntou ele em pânico. - Estás com medo? – Respondeu ela com uma pergunta. Entretanto apagou a vela cuja cera derretida lhe tinha vertido no ombro. - Não, não estou. – Respondeu ele a tremer. - Escuta – pareceu sibilar ela – se estás com medo e queres que eu pare, basta dizeres que eu deixo-te ir. Segues o teu caminho e nunca mais me dirijas a palavra. Se queres continuar, tens de aceitar e só tens de obedecer. Se não obedeceres, obrigo-te a obedecer. - Não, fica … eu quero continuar – pediu ele. Sem ele poder ver e dar por isso, ela sorriu, parecendo feliz, conquistadora pela rendição dele. Subiu um pouco o regaço até o seu queixo e voltou a perguntar: - O que estou a fazer? - Estás quase sentada no meu pescoço. 38


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- Porque dizes isso? - Porque quase não consigo respirar e porque sinto o teu corpo no meu peito. - Hummmm, sem conseguires enxergar, consegues sentir-me – disse ela – gosto mais da resposta. Mas não me satisfaz totalmente. Que mais te leva a dizer que estou sentada em cima de ti. - Porque sinto o teu cheiro. - E gostas? - Adoro. - Isso – sussurrou ela – hoje vou judiar um bocadinho contigo, pode ser? - Sim. - A resposta certa seria: “Sim, podes” – corrigiu ela. - Sim, podes - Obedeceu. - Só vou brincar um pouco contigo antes de te fazer gozar. Isso dá-me extremo prazer e desejo. - Sim, brinca. - Isso mesmo, meu cachorrinho obediente – acariciou-lhe os lábios – quero que sejas um cão com a tua dona, farejando e lambendo como um cachorrinho submisso. Nisto tirou-lhe a venda inesperadamente. Quando os seus olhos a viram, cresceram e engoliu em seco. Agora ela também tinha uma máscara e uma coleira de bicos ao pescoço. Bem que ela lhe dizia que gostava das “Aventuras de Lola”. Ela puxou-o a si e disse: - Gosto que me olhem nos olhos e não para as mamas. Ele olhou para baixo, envergonhado mas os olhos foram 39


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para onde não deviam ir e ela cravou-lhe as unhas, como uma arma letal, animalesca. “” Nos três dias que se seguiram, Chico não se lembrava de mais nada senão daquela noite. Todos os dias acordava feliz e passava o dia feliz. Lúcia andava à solta dentro da sua cabeça. Ela não ia, apenas ficava, agarrada à sua alma, por vezes perdida, outras vezes apenas aos bocados. Os que faltavam, ele sentia-lhes a falta e quando não os tinha, achava-se incompleto. Aquele sentimento era como um animal estranho dentro de si, que lhe tragava as ocasiões, as boas e as más. Durante seis meses, viveram e repetiram aqueles momentos, trocaram os papéis vezes sem conta e jogaram todos os jogos pervertidos que ele nunca tinha imaginado existirem. Por vezes, a respiração ofegante dela enchia-lhe os sonhos e Chico sentia que Lúcia era a pessoa certa na vida dele pois estava do seu lado nos momentos incertos. As correntes e o silêncio com que o faziam, que deveriam aprisioná-lo no fundo de si mesmo, sufocá-lo, estrangulá-lo, libertavam-no... Ousaria alguma vez dizer-lhe que nenhum prazer, nenhuma alegria, nenhuma fantasia, poderia aproximar-se da felicidade que sentia na liberdade com que ela o usava? Juntos, Chico e Lúcia testaram os limites da sua mente e do seu corpo através de uma sexualidade que por vezes parecia violenta e inquieta mas que noutras era branda e melodiosa. Enclausurado naquele quarto, submeteu-se a todos os desejos e fantasias da sua amante. A entrega, foi total, era-lhe escrita na pele, marcada na carne. Foi um processo de iniciação que acabou por leválo mais longe do que alguma vez cismou: ao lugar onde o 40


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prazer máximo pertence ao outro. Foram verdadeiramente prazeres físicos, e dores físicas. Acima de tudo prazeres sexuais, mas também os prazeres dos sabores, dos banhos quentes, nus, na banheira e de ficarem mais de uma hora na cama a conversarem. Enquanto isso, a sua mãe foi tratando da sua vida e das papeladas para a partida que havia de chegar no verão que vinha a seguir. Já era Fevereiro de 1980, e ele nunca lhe manifestou as suas dúvidas, preferindo deixar que o barco navegasse ao sabor do vento, desta vez de forma consciente, sem temer repercussões. Havia recomeçado a ler os extractos dos livros que as Selecções da Readers Digest publicavam e leu algures que a fé consciente é liberdade e era precisamente isso que sentia, sabia o que fazia. Chico ansiava por poder ter dinheiro para comprar os livros cujos pedaços lia na revista que a sua vizinha lhe deixava ler. A par de Lúcia, descobriu que a leitura era uma fonte inesgotável de prazer. Apesar de tudo, viver era bom, redescobrir era tão bom. Chico dava tudo, para ter tudo outra vez, mas agora gozaria o momento como se fosse novo. Como um outro começo, poder fazer tudo diferente e não ter que sofrer o que sofreu antes. Fazer tudo desigual para, nem que fosse por um breve momento, não ter que lidar com o fim. Até a sua mãe, que parecia ter os olhos mais vazios do mundo, logo a seguir a si, vivia com uma esperança que lhe alimentava a alma. A tragédia que os unia parecia sucumbir perante a crença de dias melhores. “” Um dia, seguindo o mesmo esquema que tinham montado para os seus encontros secretos, Chico passou pela casa de Lúcia depois do seu marido ter ido para o trabalho. Não viu 41


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a pequena bola verde colada na janela. Não podia entrar, ela não o podia receber. Felizmente sabia que amanhã seria outro dia. Era uma tarde de quinta-feira e aproveitou para ir ter com a mãe que estava na cidade a ultimar os preparativos para a partida. O dia passou e na sexta-feira, a bola verde continuava a não estar colada na janela de Lúcia. O pior de tudo é que se seguia o fim-de-semana o que os impossibilitava de se verem. Ele passou vários dias a andar de um lado para o outro na esperança fugaz de a ver. Mas o tempo estava lá, pesado e indiferente, rolando sobre os minutos e pelas horas, implacável. A certa altura, e quem sabe quantas horas ou dias se teriam passado, ele controlava obsessivamente o relógio, assaltado por um pavor que ele reconhecia. Temia que ela estivesse doente ou então, pior que tudo, que teria preferido não o ver, que se tivesse esquecido ou cansado dele. Já passava da meia-noite quando regressou a casa, desolado e abatido, incapaz de aceitar que há dez dias que não a via. Tinha tanta urgência em estar junto de si. Remexia-se na cama, farto de pensar tantas coisas más que lhe iam dentro da cabeça. Aquele era um inverno frio e pesado. Fazia frio, muito gelo lá fora e no quarto também. Perguntava-se se a sua história de amor teria sido passada num instante. Num momento afundavam-se um no outro e logo a seguir estavam separados, definitivamente. Aos poucos, sentiu que desandava, que perdia tudo o que tinha ganho. Foi-se deixando abrigar na exaustão do corpo, perdido de saudade. Doía-lhe muito não saber como chegaram ali, não haver uma resposta nem uma esperança de poderem regressar. É certo que as suas vidas eram diferentes mas isso nunca foi razão para não estarem juntos. Viveram tantos momentos bons. Repetiram-nos tantas vezes e pouco lhes importava que estivessem 42


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separados por tantas fronteiras. Riram-se delas, nem tiveram pena alguma. Agora sim, a situação era insuportável. Naquele dia sentou-se na cama com a cabeça entre as mãos. Aquela situação estava a dar-lhe cabo dos nervos, o sono demorava a chegar. Ali ficou, cinzento na noite, olhava para as mãos como se lhe fossem estranhas, esperando as horas passarem para, enfim, amanhã ser outro dia e quem sabe, conseguir encontrá-la. “” A vida acontece por acaso, ele era obrigado a aceitar que era assim, ao contrário de ter de acreditar num destino. Foi por acaso que ela lhe achou graça, mesmo ele sendo um miúdo e ela tendo o dobro da sua idade. Da mesma maneira, foi por um simples acaso que finalmente, passados quase trinta dias, numa tarde de domingo, Chico voltou a ver Lúcia. Estava a sair da retrosaria, por acaso acompanhada do marido. Ele ainda esboçou um sorriso de reconhecimento mas ela, desta vez não foi por acaso, olhou-o como se ele não existisse. Foi cruel, muito cruel. O seu mundo quebrou-se como a casca de um ovo, pungente. Foi daquela forma atroz, ali, no meio daquela rua, que tanto percorreu para ir ao seu encontro, que deu conta que se deixou apaixonar por ela, já que nem era obrigado a faze-lo. Ficou sempre claro que eram amantes e com ela aprendera muito, sobre sexo, coisa que ela lhe ensinou com entusiasmo, sobre livros, poesia que liam e discutiam quando estavam na cama. Durante aquele tempo ele foi mais feliz do que seria sensato esperar. Acordava todos os dias a pensar nela, adormecia a pensar nela. Pensava nela em todos os momentos e por mais que tentasse distrairse e fazer outras coisas, voltava sempre à sua imagem. Ele 43


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não tinha culpa, se houvesse uma acusação, seria contra ela, que lhe tornou tão doce o mundo quando estavam juntos, foi ela que cometeu o delito de ele não querer outra coisa senão rir às gargalhadas depois de terem feito sexo. Hoje ele entendia desesperadamente que, na sua inocência, acabou por fazer sempre amor, que foi cuidando, em todos os momentos, daquela paixão que crescia dentro dele sem querer acabar. Crua e dura, a história parecia determinar que ela o quis e depois deixou de o querer. Nem mais, nem menos. Deixou-o sozinho, partiu da vida dele como se não lhe tivesse dito para onde foi, sem lhe perguntar se porventura a queria acompanhar. Ele que pensava que nunca nada disto lhe iria acontecer, que não lhe podia acontecer, que era a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca iriam acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-lhe, como acontecem a toda a gente. “” Era o último dia da primavera de 1981. Passaram quatro meses depois da ultima vez que Chico a vira. A pesar menos seis quilos do que quando a conheceu, decidiu voltar a passar pela rua onde Lúcia vivia. Desde então nunca mais lá tinha passado. Era como uma proibição que tinha Daughter winter imposto a si próprio para não se sentir tentado Still (7min:47seg) a fazer asneira. Desceu a rua de pernas cambaleantes, como se precisasse de descer mais baixo ainda do que já estava. Quando virou a esquina e avistou a sua janela, parou fixando a janela de Lúcia. Encostou-se à parede e, no momento em que o seu corpo entra em contato com a superfície dura e fresca, percebeu que estava exausto, cansado, todo o seu vigor físico havia-se 44


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dissipado, as suas emoções … secado, completamente saturado e desiludido como nunca imaginara que fosse possível, de tal maneira reduzido que sentia que a qualquer momento se iria desfazer em lágrimas. Esteve ali uns dez minutos, apesar do bulício das pessoas a passarem, das vizinhas a falarem do cimo das varandas, a espreguiçarem a preguiça das suas vidas monótonas. Na brevidade, tivera os melhores momentos da sua vida a seu lado, isso era inevitável que iria ficar para sempre. Em tão curto espaço de tempo, ela conseguira resgatá-lo de uma vida inexpressiva, como uma natureza morta. O seu encanto, o seu humor, essa capa atraente e sedutora, iludiram-no como se estivesse à espera do momento certo para depois lhe despejarem uma dose de perversidade e um cinismo que o tinham deixado confuso e perturbado. Chico, esboçou um sorriso. Por muito que tenha sofrido, por muitas reservas que tivesse a seu respeito, por muitas duvidas que tivesse sobre a sua capacidade para dar a volta por cima, não conseguia reprimir a convicção de que estava disposto a não voltar atrás e dar seguimento à sua nova vida. Inexplicavelmente, sentia uma dor por ver uma luz a luzir no fim do túnel. Era uma dor amena, quase impercetível. Estava a iniciar um ritual de despedida. Qualquer coisa parecida com o que sentira quando o pai morrera. Doía-lhe o esvaziar do coração, custava-lhe o remover da saudade. Com alguma dificuldade sentia-se triste por ficar livre, livre de ter algum sentimento especial por Lúcia. Em definitivo, virou as costas e seguiu o seu caminho, com uma estranha sensação que lhe percorria o corpo, num arrepio mas ao contrário. Tinha retirado umas poupanças do seu porquinho mealheiro e decidiu dar a si mesmo um dia

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agradável. Resolveu ir ao cinema na cidade. Leu o jornal na Ti Fortunata que anunciava que “ A mulher do tenente francês” iria estrear. O slogan era “Desejamos criar mundos reais como aquele em que vivemos, mas diferentes”. Instintivamente, a frase inspirava-o, vinha num momento especial para ele. Por maior que fosse a diferença que desejasse para a sua vida, tinha de aceitar que seria composto por pedaços da vida que queria rejeitar. O Verão estava a chegar cedo nesse ano. A tarde afastava-se para depois dar lugar à noite. A sombra começava a descer morosa sobre os telhados e as árvores do bairro. Apanhou um autocarro e a noite trouxe as luzes, os candeeiros alinhados, os faróis acesos dos carros, as buzinas, o burburinho do trânsito, as lâmpadas das casas, desenhando retângulos de janelas, silêncios, segredos e inquietude. Para lá do Bairro, ia nascendo uma cidade nova, obstruída de gigantescos concentrados de prédios, feitos para hipotecar as poupanças e a vida das gentes que trabalhavam de sol a sol. Hipermercados, bombas de gasolina, pavilhões gimnodesportivos, rotundas, fileiras de prédios a competirem entre si pela altura em que se erguem em direção ao céu, com a roupa pendurada nas janelas, com grades de proteção e onde pousavam centenas de pombos enquanto outros esvoaçavam em busca de uma migalha de pão. Uma densidade sem fim de Snaks, cafetarias, pastelarias e afins. Comida de plástico era o que se servia. O Verão chegou cedo, ao fim da tarde a atmosfera estava estagnada, opressiva, nauseabunda, caída sobre a cidade. Viver ali devia ser opressivo, dia após dia, sempre o mesmo céu com uma cor de sítio nenhum, um céu cinzento apesar do sol brilhante. Um céu parado, suspenso e apático, sempre

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saturado dos cheiros dos caixotes de lixo apinhados e dos gases dos automóveis. Impressionavam-no as névoas de calor erguendo-se das fachadas das casas e do alcatrão das ruas. Ainda assim, por entre ideias misturadas e medos espelhados no olhar, ele não se dava por vencido e continuava o seu caminho, a fazer-se ao novo mundo, à nova vida. Os seus olhos observavam a ruidosa azafama que a cidade nunca deixava de exibir, as pessoas sempre a correr, sempre a sair de um sítio para o outro, sempre atrasadas, sempre numa luta para despachar mais não sei quantas coisas antes de a noite chegar. “” O filme seguiu muito além daquilo que supunha. Meryl Streep e Jeremy Irons abalaram-no com a mais linda cena de amor que alguma vez tinha assistido. A perda de virgindade da mulher com o Tenente protagonizou, talvez, o momento mais profundo e íntimo na relação de um homem com uma mulher. Foi marcante, o instante em que os dois se decidem entregar um ao outro na sua primeira vez. Com maturidade, sem pressão de ninguém, contra tudo e contra todos. Este emocionante fragmento de sonho já seria algo que Chico sabia que nunca iria viver. “Será que acredito no amor? Será que, acima de tudo, o dia mais belo vai chegar?” Se a sua irmã ouvisse o seu pensamento diria que ele era pateta, sempre um banana à espera de encontrar a mulher diferente de todas as outras, a única princesa. A sala estava pouco preenchida de público, a maioria nos lugares mais à frente. Durante o intervalo apercebeu-se que só estava ele e outra espetadora mais à direita. Ouviu vindo de lá um barulho de qualquer coisa a cair. Por instinto virou 47


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a atenção para o lado. A mulher estava levantada a espreitar para trás da fila, como se procura-se algo na esparsa luminosidade intermédia da sala. Depois de se ter certificado de que não havia ninguém a ver, descalçou uns sapatos de salto alto que trazia, arregaçou a saia até à cintura e saltou por cima da fila de cadeiras para não ter que dar a volta. “Não olhes”, disse para consigo, mas continuou a olhar, em silêncio, sabendo que provavelmente estaria a ser imprudente. Na verdade, ela pareceu não se importar e quando voltou à cadeira, acenou-lhe com uns óculos de sol que tinham caído e um sorriso provocador como se não estivesse ralada com o seu olhar alheio. Era uma mulher madura, com o cabelo pintado de louro e quando o filme terminou, acercou-se dele e convidou-o a beber um copo. - Meu nome é Manuela – apresentou-se dando-lhe a mão. - Muito prazer, o meu nome é Francisco – respondeu com a voz serena. Era uma mulher cosmopolita, olhos azuis acinzentados, lábios encarnados em contraste numa pele branca. Tinha uma cara de garota matreira, que fazia umas covinhas deliciosas debaixo das maçãs. Ela olhava-o de uma forma absorvente. - Acho que me enamorei pela sua imagem enquanto me espionava lá no cinema. - Como? – Ele não percebeu. - Acho que me enamorei pela sua imagem enquanto me espionava lá no cinema – ela repetiu. - Nunca namorei. Ela soltou uma gargalhada.

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- Você é engraçado. Ele quase que sorriu. Confessava que gostava que ela o olhasse assim, ainda que se sentisse um pouco embaraçado. Havia qualquer coisa de vagamente erótico no jeito como ela o mirava e por aquela altura ele já podia ter experiencia suficiente para saber que estava a tentar transmitir-lhe um sinal. Algumas taças de vinho branco depois já conversavam sobre tudo e sobre nada. Pareciam que desejavam que o tempo passasse. - O que acha de mim? – Perguntou-lhe ela de repente. - Gosto. - De quê? - De si – ficou por ali. Ele não era de muitas palavras. Ela percebeu. - Tens que idade? – Passou a trata-lo por tu. - Dezanove, quase a fazer os vinte. - Eu tenho o dobro – disse. Ele pestanejou e explicou que isso não tinha a mínima importância, importante era, por exemplo, gostar de estar a beber um copo com ela. Beijou-o naquele momento. Beijouo como se estivessem dentro do filme que ambos tinham acabado de ver. Ela não morava longe. Convidou-o para uma noite encantada. Quando entraram, soltou o cabelo, descalçou os sapatos e foi a bambolear-se numa dança até ao frigorífico e tirou duas cervejas. Ligou a aparelhagem e pôs uma música. Mais tarde veio a saber que era John Lennon com a sua mulher Yoko Ono, no seu último álbum, com uma música que poucos chegaram a ouvir John Lennon & Yoko naquele tempo. Double Fantasy I’m loosing you (4min:00seg)

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Here in some stranger's room Late in the afternoon What am I doing here at all? Ain't no doubt about it … O corpo dela roçava nele em caprichos de sensualidade. Amarrou-lhe o olhar no seu e deixou-o com as veias aquecidas. Tinha um corpo cheio e umas ancas latejantes. Que podia ele fazer? - Eu tenho pouca experiencia – disse ele. - Não digas isso. O teu corpo diz que sabes tudo – murmurou ela. Depois de Lúcia, Manuela, a música escorria nos seus corpos e ela nem se apercebeu que a qualquer momento ele podia quebrar. Perdidos e sós, como amantes distantes, na sua imaginação tudo correu lentamente, carne sobre a carne, a sensualidade, os corpos do avesso. Sob luz baixa ele olhava os olhos fascinados dela. Passaram toda a noite quase sem palavras, sem promessas, tudo feito em silêncios, de coração cego. Tudo demasiado presente, de tão sem futuro. Atravessaram a noite de cada um, por entre sombras fundas como se desejassem regressar a um lugar qualquer. Apesar das coisas serem assim, sem cores, muito de passagem, Chico caminhou mais um passo em direção a momentos felizes. Foi tudo tão presente, de tão sem futuro, mas mesmo assim alimentavam a alma um do outro e, durante quase um ano repetiram naquele quarto a mistura dos seus cheiros. Os seus vultos que pareciam um só no espelho, na verdade não refletiam a sua união.

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“” Manuela foi amiga de Chico. Era algo mais que isso, era fascinada por ele. Chico, quase gostava da vida que tinha. Manuela foi como a Deusa da Fortuna que lhe salvou a pele. Foi importante naquele momento da sua vida e, a bem dizer, ele estava-lhe bastante grato. Foi com ela que conseguiu ultrapassar alguns obstáculos que ainda lhe impunham resistência e depois, passo a passo e de uma forma elegante e sensível, foi satisfazendo a curiosidade que dele despontava a todo o momento. Quando lhe disse que ia com a Mãe para o estrangeiro, ela ofereceu-lhe um emprego num clube de vídeo da qual era proprietária. Convenceu-o a vestir outro tipo de roupa, mais moderna, dizia ela, que carinhosamente lhe comprava, ajudou-o a tirar a carta de condução, levou-o a conhecer o mundo, assistiram juntos a bailados, peças de teatro, concertos, visitaram museus, enfim … Mais tarde, a Mãe acabou por emigrar. Da forma mais dócil e surpreendentemente materna, respeitou a sua vontade em ficar, ele já tinha vinte e um anos. O seu homem-menino conseguiria desenrascar-se. Hoje ainda vive na casa de família, mas sozinho. A irmã vive com umas amigas, não sabe onde. Aos poucos, foi deixando de ter medo. O amor ainda era um fracasso para ele. O dia seguinte era sempre mais um dia e ele já o encarava de forma diferente. Claro que que por vezes se sentia mais triste. Quase que podia dizer que era como toda a gente. Mas esta tristeza era diferente, como um descanso. De uma maneira ou de outra ele adormecia na noite e despertava para a vida sempre mais forte.

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“” Estava em sua casa, na cozinha, a vigiar a John Lennon & Yoko Double Fantasy massa que tinha ao lume, quando tocaram Just like (starting over) (4min:26seg) na campainha. Limpou as mãos num pano e baixou a música que sempre gostava de colocar como fundo enquanto cozinhava. Deslocou-se para a porta e abriu-a. Num primeiro momento, a única coisa que fez foi arregalar os olhos perante a surpresa de tão bela criatura que estava na sua frente. Depois, foi não se lembrar de alguma vez ter conhecido aquela rapariga. Ele que costumava ser bom no reconhecimento da fisionomia das pessoas, confessava a si próprio que aquela figura era-lhe totalmente desconhecida. - Olá – saudou ela numa pronúncia esquisita. - Olá – respondeu ele - Que deseja? - É o Francisco? - Sim … sou – gaguejou. - Sou conhecida da Manuela e como me disse que estava de férias, deu-me a sua morada. Podia ter telefonado mas sei que não tem telefone em casa. Deitou-lhe um olhar fortuito e ele manteve-se com o seu olhar exterior, tranquilo. - Chamo-me Valérie. Posso entrar? – Insistiu ela. - Sim – Respondeu Chico dando-lhe permissão para entrar. Ela tinha uma voz suave e feminina. - Desculpe, tenho massa a cozinhar no fogão. Levava-a para a sala de estar mas ela disse que o acompanhava para a cozinha. Ele ficou desconcertado, de pano na mão que torcia nervosamente. 52


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- Vou ter mesmo de ir ver a massa. Venha daí. Entrou na cozinha e uma nuvem de vapor retorcido saía da panela com a massa ao lume. Desligou o fogão e com a ajuda de uma pega despejou a massa num tabuleiro através de um escoador. Enquanto o fazia, olhava para ela, meio atónito com o à vontade que o presenteava, numa casa que lhe era estranha, uma pessoa que não conhecia de lado nenhum. Valérie, era uma deliciosa francesa, cabelos de um louro escuro, sardas ligeiras no rosto, um par de mamas de fazer inveja a uma estátua qualquer de Nefertiti. Convidou-a para jantar um prato de massa, convite que ela aceitou. Sentaram-se na minúscula mesa de refeições coberta a fórmica, dispuseram os dois pratos e respetivos copos e talheres. Juntaram queijo ralado e molho de tomate e comeram como dois velhos conhecidos. O início começou com uma ligeira apreensão mas na verdade ela desfez os seus receios num ápice, com a mesma simplicidade com que lhe apareceu na porta de casa: - A Manuela disse-me: “Sei de uma pessoa que te vai ajudar. Contado nem se acredita.”- Começou ela a explicar, bebericando o vinho tinto que tinha no copo. - Qual é o seu problema? Em que posso ajudar? - Ainda não há muito tempo, podia considerar-me uma pessoa normal, com vinte e dois anos, cheia de esperança no futuro. As minhas notas foram sempre muito boas. Decidi seguir finanças. No meu terceiro ano de faculdade conheci um rapaz por quem me apaixonei. – Nisto parou e olhou para ele como que a perguntar se podia continuar. Sentado à mesa, Chico apoiava o queixo nas mãos e olhava para ela sereno, perscrutador. Ela continuou.

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- As coisas foram evoluindo lentamente até ao momento em que fomos para a cama. Para mim era a primeira vez, fui educada numa família conservadora. – Esclareceu ela – ele não gostou e terminou tudo. Chico mantinha-se impassível. - Naquele dia perguntava a mim própria, onde é que eu errei? A verdade é que a partir daí tudo se agitou e a minha vida entrou num desnorte incontrolável. Dei por mim a sentir que já nada era a mesma e não conseguia perceber porquê. Desisti dos estudos e a minha família mandou-me para a casa dos meus tios que vivem neste país. Já cá estou há um ano. - E como conheceu a Manuela? – Perguntou Chico. - É uma grande amiga da minha Tia e por afinidade, gosto bastante dela. Aprecio bastante o seu hedonismo. Chico deitou um olhar fortuito e disse em voz sumida: - Os que são mais livres e abertos são impiedosamente castigados pelos outros, pela sociedade, classificados de hedonistas, putas, etc. - Bem … eu não sei o que isso é. Por isso estou aqui – e uma vez dito aquilo, sorriu-lhe atrevidamente. “” Depois de Lúcia e Manuela, Valérie. Perfeitamente desenhados na sua carnalidade e no desamparo de uma relação impossível, viveram uma desordem amorosa que sempre se tornou esquiva e lhes escapava entre os dedos. Tinham quase a mesma idade e as suas personalidades, as suas histórias, fizeram das suas vidas um combate turbulento 54


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e perverso. Ela queixava-se que Chico nunca falava do seu passado. Ele respondia que falava até demais. - Mas a infância – dizia ela, como que a pedinchar. - Eu estou a viver a minha infância – respondia ele. - Os teus olhos são sempre iguais, sempre inalcançáveis. - E eu adoro a tua boca – retrucava ele em desvios. Era uma relação explosiva, talvez um pouco perigosa. Uniaos uma última curiosidade, o mesmo desalento, a mesma falta de esperança. O amor deles teve um prazo. Chegaram a viver na mesma casa, comeram da mesma comida várias vezes, tal e qual como a sua relação começou. Um dia, decidiram partir cada um para seu lado. Sem querer, tinham matado um pouco daquilo que um tinha dado ao outro. Foi doce terminar. “” Com uma subtileza feita de silêncios, o antes desamparado Chico, por alguns apelidado de Chucha, transformou-se num rapaz bem-sucedido. Ninguém diria que vindo da rua onde nasceu, ainda indeciso sobre se seria um bairro-de-lata ou não, Francisco se tornaria num afortunado gerente de videoclubs na cidade. Mas a sua notabilidade vinha principalmente de outros predicados. Sempre secundado por Manuela, Chico revelou-se um amante compulsivo, de vontade louca, capaz de arrebatar quem lhe caísse nas mãos. Uma atrás de outra, foi revirando a sexualidade de muitas mulheres e a forma como Chico conseguia lidar com elas era extasiante. Manuela dizia que a competência emocional dele era inigualável e que revelava a qualquer mulher tudo quanto o marido lhe ocultava. Valérie, arriscou-se a dizer que era 55


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mais uma enorme competência para amar. Ele próprio se espantava com a vastidão da sua sensibilidade e depara-se finalmente como um remédio de auxílio para as ruínas da paixão amorosa entre as pessoas. Ele não se importava, antes pelo contrário, ser egrégio para os outros era o seu próprio curativo para a angústia. Entre alguns, falar de prazer é falar de hedonismo. É uma bomba relógio, uma fina membrana que separa o prazer do perigo. É fazer doer até ao limite. Para Chico era apenas um avanço na procura de respostas para os enigmas do mais íntimo de cada um. Seriam os perigos insustentáveis da lascívia ou a loucura do prazer ostensivo? Numa altura em que as relações amorosas pareciam cada vez mais vulneráveis, e em que as razões para as terminar eram cada vez mais triviais, ele olhava para histórias verdadeiras e tentava compreendê-las. O que estas mulheres tinham em comum foi terem vivido grandes paixões, as quais pareciam ter acabado todas mal. De qualquer maneira, bem lá no fundo, boa parte delas sabiam que o resultado seria esse, mas nunca quiseram acreditar. Pensavam que estavam a viver uma fantasia encantada, o grande amor dos contos de fadas mas quando tudo terminou, acabaram demolidas a sobreviver nos escombros deixados pelo fim de um romance. A mágoa profunda que carregavam empurrou algumas para a depressão e a suportarem o fardo de não ter qualquer amor por si próprias. Para algumas, Chico foi uma emenda para minorar o sofrimento, para outras foi uma arma contra o amor. O alcance do seu efeito mirabolante chegou inclusivamente aos casais. Sempre foi bom ouvinte e acabou por ser o instrumento da terapia familiar e conjugal de alguns conhecidos de Manuela. A diferença é que a sua terapia era aplicada de forma menos sistémica mas mais personalizada. Com efeito 56


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positivo, diga-se de passagem. Uma das coisas que descobriu foi o eterno dilema do labirinto das mágoas. Nas crises dos casamentos, eles ou elas acabam por perguntar ao outro: “ainda me amas?” Saiu-lhes da memória o dia em que se apaixonaram um pelo outro, deixaram em parte alguma o que os fez felizes ou os lançou na escuridão. Chico apercebeu-se que muitos nem se reconhecem, nem têm coragem para questionar a hipótese de mudar de vida, para assumirem o fim e procurar noutro amor o caminho de volta para o compromisso maior: serem felizes. Paulatinamente, penetrou no diário de emoções íntimas e concluiu que cada um, à sua maneira, fosse por pensamentos ou por atos, foram infiéis na verdadeira interpretação da palavra. Fascinava-o entrar pelo meio das vidas entrelaçadas e espreitar os seus redutos de pudor, o egoísmo entranhado daquela gente, afinal … vulgar como qualquer um. Foi de tal maneira forte esta descoberta que levou Chico a estudar com afinco até entrar na Faculdade para cursar psicologia. Um pouco mais tarde do que o normal, na década de 90, graduou-se com distinção para grande orgulho da sua mãe que dava sinais de, finalmente, estar a recuperar o gosto de viver. Desenvolveu inclusivamente uma tese que previa que a vida dos casais tinha tendência para quebrar o quotidiano dos seus pais e avós. Na sua opinião, o conceito de família e sobre o casamento, passaria por uma evolução de tal forma alucinante que iria extremar os modelos tradicionais, ultimo bastião dos grandes valores da moral civilizada. Chico virou uma discreta sumidade respeitada e o tempo viria provar que a Família se iria desintegrar literalmente, os divórcios aumentariam, seriam superiores aos casamentos e estes, ocorreriam entre pessoas que já tinham casado anteriormente do que entre solteiros puros. Talvez desconhecendo que todos os dias a vida nos 57


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ensina algo sobre a nossa existência e o nosso próprio envelhecimento, era sua convicção que a maioria dos casais vivia na frustração, presos a conceitos de amor eterno. Por isso ele entendia tantos divórcios, por isso confirmava tanta violência caseira, tantas mulheres assassinadas passionalmente. A sua tese foi admirada na universidade e houve inclusivamente mais de uma tentativa para a editar. Só não o foi porque demonstrava a nefasta influência católica nos relacionamentos, por ser perversa, limitadora e sufocante. As pessoas, os casais vão-se tornando frágeis, acomodados, mentirosos, imaturos, reprimidos e artificiais. Chico, ou o Chucha, sempre defendeu uma cura para este estado: o prazer.

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Epílogo Ano 2012. Era o dia do quinquagésimo aniversário de Chico. Passados todos estes anos, não podia dizer Bruce Springsteen que possuía um emprego fixo, amigos ou The River Point Black uma casa da qual se pudesse orgulhar ser o fiel proprietário. Na verdade, ele nada tinha a que pudesse chamar de seu. Se antes vivia sozinho, rodeado da mãe e da irmã, hoje continua a viver sozinho, rodeado de si mesmo. Em tempos pensava que iria apodrecer o resto dos seus dias na velha casa de sua mãe e no seu velho bairro, onde durante um terço da sua vida viveu inerte. Tinha-se mudado para a cidade, vivia num modesto apartamento alugado junto à marginal, virado para o mar. Naquele quarto andar de uma habitação relativamente recente, encontrou finalmente aquilo a que se podia chamar de lar, longe de uma paisagem inóspita, carregada de aglomerados de prédios sem fim. Hoje, o dia está cinzento. Ele levantou-se da cama e foi à janela. Os ramos das árvores ao longo da marginal estão agitados por um vento frio e cortante. Naquele dia, afinal tão controverso, ele continuava a defender que não nascera efetivamente naquela data. Chico apercebera-se que a sua vida tinha dois momentos: nasceu no papel há cinquenta anos mas só nascera para a vida quase dezoito anos depois. Por isso ele considerava que efetivamente tinha apenas trinta e dois anos de idade, o resto foi apenas uma fase rudimentar. Apercebe-se de que raramente houve, durante a longa e atribulada viagem desde os seus dezoito anos até hoje, um momento em que não tenha estado apaixonado. Não era casado, não, mas durante esses trinta e dois anos anteriores, quantos ardores, quantas conquistas e quantas exaltações de 59


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espírito impossíveis de dominar ele viveu? Desde o primeiro momento da sua vida consciente, sempre foi um fiel escravo de Afrodite. As pessoas que amou, cada uma diferente das outras, louras ou morenas, gordas ou magras, temperamentais ou extrovertidas, nenhuma diferença as separava, tudo, mesmo que superficial, era importante para ele. Apreciou a singularidade de cada uma, a sua individualidade revelada tinha um fulgor que o fascinava, e era essa luz que aos seus olhos as faziam belas, mesmo quando os outros eram cegos à beleza que ele via. Talvez porque o prazer foi coisa a que ele nunca soube resistir. Tudo começou quando nasceu, aos dezoito anos, nos primeiros dias do pontificado de Lúcia. De qualquer forma, ele admitia que em menino também viveu histórias, chama-lhe ele de embrionárias. Teve de aprender a enfrentar a maior das dores, a perda do pai, e lutou para combater a figura perversa e pérfida que é o medo de viver. Num flash dos seus tempos antigos, recordava por vezes a sua figura envergonhada e assustada, porque o vazio sempre lhe trouxe o medo e nele cabia um monte de coisas. Mas nenhuma se encaixava, nenhuma. Todas deslizavam por um rio de lágrimas que o percorriam de cima a baixo. A história dele foi sempre uma interminável luta contra o isolamento, contra a inadaptação e a sensação de abandono. Tal como os traumas vividos pelos bebés na barriga das mães, a falta do pai deixou-lhe marcas, moldou-o para toda a vida. Isso ele não podia negar. A caminho do fim dos seus dias, a conquista do amor e de uma existência plena e autêntica, possibilitou-lhe finalmente assentar os pés na terra e erguer o olhar ao céu. Se fosse possível estudar a sua vida numa perspetiva de um filme, 60


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seria interessante ver a perceção de uma criança cercada pela morte do seu pai e como isso lhe alterou a sua forma de encarar o resto dos seus dias. Poderíamos acompanhar o crescimento de Chico e como ele lidou com os seus fantasmas. Uma coisa é certa, seria um filme emocionante, carregado de sentimentos, uma singela viagem pela vida, começando pela infância e os registos de toda a insegurança e medo que foi sentindo ao longo das diversas fases do desenvolvimento. Hoje em dia, pode-se dizer que conseguiu finalmente experienciar momentos de felicidade mas, mais importante que tudo, ele está convicto que tem sido útil para os outros, sendo um objeto de prazer e de livre arbítrio. Alguns que só o conheceram depois de vivo dizem que ele é um grande homem, dotado de uma cultura impressionante, abrangente, capaz de trazer felicidade a muitas pessoas. O seu olhar, apesar de mais marcado, continuava determinado e impenetrável, quase nunca sorria, porém, quando o fazia, todo o seu rosto se transformava e inundava as pessoas de um bem-estar afrodisíaco. Na verdade, havia qualquer coisa de insondável na figura de Chico. Pela sua expressão, pelo seu tom de voz, os outros não conseguiam ler os seus pensamentos nem adivinhar o que lhe ia na alma. Com o tempo ele foi-se apercebendo dessa faculdade e o simples facto de deixar as pessoas na expetativa dava-lhe um gozo bestial. Continuou a ser um homem de poucas palavras mas para ser um grande amante não era preciso mais. O tempo trouxe-lhe o conhecimento que ele sempre quisera absorver e também dinheiro, às vezes até ganhava bastante. Com ele comprava e lia uma grande quantidade de livros e adquiriu um amplo conhecimento sobre os mais variados temas. Uma 61


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vez por ano ia ver a mãe ao estrangeiro. Voltou a casar e agora vivia o resto de seus dias numa aposentadoria feliz, ao lado de outro companheiro. A irmã, raramente se encontravam e não fazia a mínima ideia do que fazia, tão pouco sabia onde vivia. Quem o queria ver num dos seus momentos mais extasiantes, podia observá-lo em dias de tempestade, lá fora, com a luz desligada a meio da noite, sentado na sua varanda, embrulhado num cobertor e a fumar uns estranhos cigarros muito pequenos e fininhos que já não se vendiam mais. Com efeito, para ele, a janela do tempo apenas retrocede até 1979. A dificuldade que tem em evocar os dias desse passado tem uma explicação: a sua vida era um enorme puzzle sem peças, ao contrário dos últimos trinta e dois anos, em que cada dia era uma chapa fotográfica de tudo o que viu passar diante dos seus olhos. Tudo o que está fora deste calendário, é como uma espécie de murmúrio que vem não sabe bem de onde e lhe ataca a consciência confusa. Hoje ele compreende que a vida lhe pertence, coisa que não podia afirmar até fazer os seus dezoito anos. Há quem persiga um bom emprego, o dinheiro, a fama. Apesar do sucesso, ele optou por perseguir a beleza do prazer. Não foi bem uma escolha, para ele quem sabe tivesse sido uma maldição. A descoberta do prazer foi uma declaração de guerra para depois lhe trazer a esperança da paz e sem ele, tinha medo de acabar por expirar. No seu íntimo, o prazer era mais um sentimento, não seria só uma sensação. Com ele acabou por se descobrir e foi nele que preencheu os abismos que o separavam da vida. Por isso ele dizia que o prazer sabe sempre mais sobre nós do que imaginamos. Chico aprendeu: O prazer é sempre mais que o prazer … é vida! 62


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Banana Bondage  
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Ele não se importava, antes pelo contrário, ser egrégio para os outros era o seu próprio curativo para a angústia. Entre alguns, falar de pr...

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