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ISSN 1517-6959

R e v i s t a

Ano 17/2011 – N°53 – R$ 7,00

CFMV

Mai/jun/jul/ago

Conselho Federal de Medicina Veterinária

9912154113 - DR/BSB CFMV


CFMV A Revista CFMV é editada quadrimestralmente pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária e destina-se à divulgação de trabalhos técnicocientíficos (revisões, artigos de educação continuada, artigos originais) e matérias de interesse da Medicina Veterinária e da Zootecnia. A distribuição é gratuita aos inscritos no Sistema CFMV/CRMVs e aos órgãos públicos. Correspondência e solicitações de números avulsos devem ser enviadas ao Conselho Federal de Medicina Veterinária no seguinte endereço:

SIA – Trecho 6 – Lotes 130 e 140 Brasília–DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 – Fax: (61) 2106-0444 Site: www.cfmv.gov.br – E-mail: cfmv@cfmv.gov.br

A Revista Cfmv é indexada na base de dados Agrobase.

Revista CFMV. – v.17, n.53 (2011) Brasília: Conselho Federal de Medicina Veterinária, 2011 Quadrimestral ISSN 1517 – 6959 1. Medicina Veterinária – Brasil – Periódicos. I. Conselho Federal de Medicina Veterinária. AGRIS L70 CDU619(81)(05)


Sumário 4

Editorial

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Entrevista

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Clínica Médica

17

Saúde da Família

24

Destaques

28

Suplemento Científico

56

Reprodução Animal

61

Nanotecnologia

68

Produção animal

76

Publicações

78

Agenda

80

Opinião

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Ed Hoffmann Madureira

Maria Izabel Merino de Medeiros – Seis meses em Córdoba


editorial

A Curiosidade pelo novo Nesta edição da Revista CFMV, abordamos como reportagem de capa a nanotecnologia. O ano de referência para o nascimento da nanociência e da nanotecnologia é o de 1959, quando, no dia 29 de dezembro, no CalTech, Califórnia, o físico Richard Feynman anunciou, na Reunião Anual da American Physical Society, ser possível condensar, na cabeça de um alfinete, as páginas dos 24 volumes da Enciclopédia Britânica para, desse modo, afirmar que muitas descobertas se fariam com a fabricação de materiais em escala atômica e molecular. Atualmente, existem empresas que trabalham com perspectivas de, nos próximos 10 anos, no máximo, estarem produzindo artefatos para os mais diversos campos de aplicação, que vão, potencialmen-

te, desde a indústria de construção, de alimentos, de fármacos, de informática, de editoração, de armamento, até aplicações na medicina, na ecologia, nas tecnologias aeroespaciais, nas artes e nos programas de inteligência artificial. Ao abordarmos esse “mundo de partículas” que está apenas se desenhando, compartilhamos sentimentos que são de medo e de esperança: medo pelo apocalíptico que a possibilidade de manipulação do átomo para fins industriais possa trazer à natureza e à vida no planeta; esperança pelas consequências positivas que esse conhecimento de fronteira possa gerar para a qualidade da vida em sociedade e pela qualidade de suas relações com o meio ambiente.

E X P E D IE N TE CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA SIA – Trecho 6 – Lotes 130 e 140 Brasília–DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 Fax: (61) 2106-0444 www.cfmv.gov.br cfmv@cfmv.gov.br Tiragem: 85.000 exemplares DIRETORIA EXECUTIVA

CONSELHEIROS EFETIVOS Adeilton Ricardo da Silva CRMV-RO nº 0002/Z

Oriana Bezerra Lima CRMV-PI nº 0431

Célio Macedo da Fonseca CRMV-RR nº 0004

José Saraiva Neves CRMV-PB nº 0237

Geovane Pacífico Vieira

CONSELHO EDITORIAL Presidente

Eduardo Luiz Silva Costa CRMV-SE nº 0037

Joaquim Lair

CRMV-GO nº 0242

Amilson Pereira Said CRMV-ES nº 0093

Editor Ricardo Junqueira Del Carlo

CRMV-AL nº 0250

CRMV-MG nº 1759

Antônio Felipe Paulino Figueiredo Wouk

Jornalista Responsável Flávia Tonin MTB nº 039263/SP

CRMV-SE nº 0037 Secretário-Geral

CONSELHEIROS SUPLENTES Josiane Veloso da Silva

Joaquim Lair

CRMV-MA nº 0030/Z

Colaboração Flávia Lobo MTB nº 4.821/DF

Presidente

Benedito Fortes de Arruda CRMV-GO nº 0272 Vice-Presidente

Eduardo Luiz Silva Costa

CRMV-GO nº 0242 Tesoureiro

Amilson Pereira Said CRMV-ES nº 0093

CRMV-PR nº 0850

Luiz Carlos Januário da Silva CRMV-AC nº 0001/Z

Nivaldo de Azevêdo Costa CRMV-PE nº 1051

Raimundo Nonato C. Camargo Júnior

Projeto e Diagramação Duo Design Comunicação Impressão Gráfica Editora Pallotti

CRMV-PA nº 1504

Ricardo de Magalhães Luz CRMV-DF nº 0166/Z

OS ARTIGOS ASSINADOS SÃO DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES, NÃO REPRESENTANDO, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO CFMV.


En t r e v i s ta

Ed Hoffmann Madureira Graduado em Medicina Veterinária com Mestrado em Reprodução Animal e Doutorado em Patologia Experimental e Comparada, títulos obtidos pela USP. Atualmente, é Professor Doutor na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e bolsista de Produtividade em Pesquisa pelo CNPq. Exerce atividades de ensino, pesquisa e extensão nas seguintes áreas: Fisiologia, Biotecnologia, Patologia e Clínica Médicas da Reprodução de Fêmeas Bovinas. Seus projetos de pesquisa, no momento, estão com ênfase em Inseminação Artificial em Tempo Fixo e Desenvolvimento de novas formulações farmacêuticas para uso veterinário, incluindo emprego de micro e nanopartículas.

1. Quais são os fundamentos e conceitos básicos da nanociência? Basicamente, a nanociência preocupa-se com as propriedades excepcionais da matéria em que algumas leis fundamentais do mundo macroscópico não são dominantes, por exemplo, lei gravitacional. Trata-se de uma escala de apenas alguns milionésimos de milímetros. De forma resumida, pode-se dizer que a nanotecnologia é uma ciência essencialmente multidisciplinar, de importância reconhecida em todas as áreas do conhecimento, que tem como objetivo desenvolver processo ou produtos, explorando as propriedades excepcionais da matéria em escala manométrica. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

2. São necessárias técnicas especiais para fabricar esses artefatos extremamente diminutos? Existe nanomanipulação? Sim, é necessária a construção e/ou adaptação de equipamentos e de métodos para produção das NPs (nanopartículas). Dependendo do método de preparação, nanoesferas ou nanocápsulas podem ser obtidas. Em relação à técnica de obtenção, partículas poliméricas submicrométricas podem ser preparadas a partir de polímeros pré-formados por técnicas como emulsificação/evaporação do solvente, emulsificação/difusão do solvente, nanoprecipitação (ou deslocamento de solvente) processos baseados em

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En t r e v i s ta

“A nanotecnologia permite não só o desenvolvimento de novos produtos, mas também a possibilidade de retrabalhar produtos para se obter melhor desempenho” fluidos supercríticos e mini-emulsificação/evaporação ou extração do solvente. As nanopartículas também podem ser preparadas pela polimerização de um monômero, como as técnicas de polimerização em miniemulsão, emulsão e microemulsão. Dentre as diversas técnicas de nanomanipulação existentes, ressaltaríamos as pinças óticas. Trata-se de uma pinça precisa, formada por feixes de raios laser infravermelhos. O seu funcionamento e principais aplicações para ”segurar” partículas microscópicas orgânicas e inorgânicas fazem parte da linha de pesquisa desenvolvida no Laboratório de Pinças Óticas da UFRJ, sob a coordenação do emérito professor Moysés Nussenzveig. 3. Fala-se com frequência da nanotecnologia como uma “tecnologia de objetivos gerais”. A que se deve essa afirmação? Certamente, porque a nanotecnologia pode encontrar inúmeras aplicações, nas mais diferentes áreas do conhecimento. Nosso grupo está mais envolvido nas aplicações da área farmacêutica, mas vale lembrar que a nanotecnologia vem sendo utilizada em componentes eletrônicos, embalagens “inteligentes” para diversas categorias de produtos, Lúcio Cardozo Filho

Ed Hoffmann Madureira atuando em microscopia eletrônica de nanopartículas de PHB/PCL contendo progesterona.

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ressaltando-se as de alimentos, fabricação de nanosensores, fertilizantes e defensivos agrícolas, tecidos especiais e uma infinidade de outras aplicações. A nanotecnologia permite não só o desenvolvimento de novos produtos, mas também a possibilidade de retrabalhar produtos para se obter melhor desempenho, como, por exemplo, a liberação gradual de fármacos ingeridos ou aplicados, pela via parenteral, evitando-se picos de teores plasmáticos e aumentando-se a eficácia e segurança dos medicamentos. Além disso, as NPs podem aumentar a estabilidade de formulações farmacêuticas, pela proteção do princípio ativo contra a biotransformação, em comparação com outros carregadores, como os lipossomas, por exemplo. Formulações nanoestruturadas podem possuir maior poder de penetração celular, nos casos de tratamentos de infecções e neoplasias. 4. Os produtos nanotecnológicos ainda pertencem ao mundo das ideias ou já fazem parte do dia a dia das pessoas? Na verdade, a nanotecnologia sempre fez parte do dia a dia das pessoas, pois há, na natureza, várias estruturas em escala nanométrica. Frequentemente, chegam ao mercado produtos nanotecnológicos. No setor animal, ainda não tenho notícias de produtos comerciais; contudo, para humanos as nanopartículas de dióxido de titânio, por exemplo, já são utilizadas comercialmente. Na escala nano, essas partículas refletem a radiação UV, no entanto, os demais comprimentos de onda passam, o que torna os cremes transparentes à visão humana. Também já se encontram disponíveis no mercado cosméticos contendo nanoestruturas, para liberação controlada de vitaminas ou nanopartículas lipídicas que favorecem a hidratação da pele. 5. Quais as consequências econômicas, sociais e ambientais do potencial de aplicação da nanotecnologia? Trata-se de uma “nova revolução industrial”? Não é a próxima revolução industrial, mas a atual, pois ela já está acontecendo. Para se ter uma ideia da importância, existem países que consideram os nanotubos de carbono como material estratégico e por Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


isso proibiram sua exportação. Esse exemplo serve para ilustrar o potencial de impacto econômico da nanotecnologia. Quanto às implicações ambientais, é preciso ficar atento, pois alguns tipos de nanomateriais podem virar contaminantes. Por outro lado, inúmeras pesquisas já demonstraram que o uso de nanomateriais, em sistemas de despoluição de água, solo e ar são viáveis. A primeira revolução industrial não considerava as limitações dos recursos naturais nem seu melhor aproveitamento. A revolução industrial atual não pode ser desvinculada dos aspectos ambientais, sociais, culturais, trabalhistas, políticos e econômicos. 6. O que se tratava na Rede Nacional de pesquisa em nanobiotecnologia? Essa foi uma Rede de Pesquisa criada em 2001 e que durou até 2004, com foco de aplicação da nanotecnologia para a área biológica. Talvez tenha sido um dos gatilhos da nanotecnologia no Brasil, e a partir de seu fim, por afinidades, surgiram várias derivações, como a Rede de Nanotecnologia para o Agronegócio (Rede Agronano). Certamente, hoje, a Rede Agronano é uma iniciativa altamente organizada, e uma das mais importantes no binômio nanotecnologia/agropecuária. Posteriormente, em 2008, a Capes lançou o edital intitulado Rede Nanobiotec Brasil, para apoiar pesquisas científicas e, principalmente, a formação de recursos humanos na área. Nesse edital, foram criados 38 grupos de pesquisa no tema nanotecnologia. Além dessas redes, também existem redes de pesquisa mantidas por agências de fomento regionais como a Fapesp e a Fapemig. 7. Na área de nanotecnologia, em que patamar está o Brasil? A nanotecnologia, como um todo, no Brasil, se encontra atrás de países como Estados Unidos,

Japão, China, Alemanha e França. Contudo, quando o tema é agropecuária, iniciativas como a da Rede Agronano fazem com que o Brasil tenha destaque internacional, chegando ao ponto de chamar a atenção de entidades como a FAO. 8. Como a indústria brasileira está lidando com a nanotecnologia? Existem investimentos privados e incentivos governamentais para a área? Existem muitas iniciativas públicas e privadas, principalmente nas indústrias de química fina, têxtil e farmacêutica humana. Quanto aos incentivos governamentais, eles vêm crescendo ano a ano, podendo-se citar, por exemplo, que no edital Rede Nanobiotec Brasil foram aportados mais de R$ 70.000.000,00. 9. É plausível o uso de nanossistemas para veiculação de drogas e tratamento de inúmeras doenças? Como é essa situação na Medicina Veterinária? Em humanos, sistemas nanoestruturados já estão sendo utilizados para o diagnóstico e tratamento de várias enfermidades, principalmente o câncer. Em medicina veterinária, existem medicamentos nano-estruturados desenvolvidos pela Embrapa Gado de Leite /Ufop e que já estão em teste de fase clínica. 10. O seu grupo de pesquisas tem utilizado a nanotecnologia em projetos envolvendo a reprodução animal. Que resultados tem alcançado e quais as perspectivas? Nosso grupo está envolvido no desenvolvimento da Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), no Brasil, desde 1990. No início, os tratamentos ainda não eram tão eficientes quanto nos dias atuais. Hoje, a IATF vem sendo utilizada de maneira

“Quanto às implicações ambientais, é preciso ficar atento, pois alguns tipos de nanomateriais podem virar contaminantes. Por outro lado, inúmeras pesquisas já demonstraram que o uso de nanomateriais, em sistemas de despoluição de água, solo e ar são viáveis”

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En t r e v i s ta

“Nosso grupo está mais envolvido nas aplicações da área farmacêutica, mas vale lembrar que a nanotecnologia vem sendo utilizada em componentes eletrônicos, embalagens ‘inteligentes’ para diversas categorias de produtos, ressaltando –se as de alimentos, fabricação de nanosensores, fertilizantes e defensivos agrícolas, tecidos especiais e uma infinidade de outras aplicações”

crescente. Para se ter uma ideia, a IATF foi utilizada em cerca de 6 milhões de fêmeas bovinas, na última estação de monta, o que ainda representa apenas cerca de 10% do número de fêmeas bovinas em idade reprodutiva. Os tratamentos atuais possuem custo x benefício amplamente favorável, mas os produtos utilizados para liberação sustentada de progesterona ainda estão baseados em tecnologia que já estava disponível na década de 1970. Há muitas oportunidades, e até mesmo necessidade, de inovações nessa área e a nanotecnologia pode trazer contribuições fundamentais. Uma das limitações da IATF diz respeito à grande necessidade de se manejarem os animais para colocação e retirada dos implantes, aplicação de outros fármacos e realização das inseminações propriamente ditas. Nosso

grupo vem trabalhando com formulações nanoestruturadas de progesterona em vários polímeros biodegradáveis. Em cooperação com vários grupos de pesquisa, temos obtido NPs de progesterona utilizando processo supercrítico, nanoemulsões e nanofilamentos, que estão sendo submetidas a testes de liberação in vitro, até o momento. Visto que várias delas têm apresentado resultados satisfatórios, iniciaremos, em breve, testes de liberação in vivo. Nosso objetivo final é disponibilizar uma formulação nanoestruturada que possibilite a realização de uma IATF, com apenas uma injeção. Enquanto isso ainda não é possível, perseguimos objetivos parciais como a substituição dos implantes vaginais por uma injeção de NPs de progesterona ou progestágenos. Gostaria também de registrar a importância do desenvolvimento e validação de José Rodrigo Valim Pimentel técnicas analíticas quantitativas, para testar as formulações nanoestruturadas, tanto em testes in vitro, quanto in vivo. Os testes in vitro são muito importantes para padronização dos sistemas de liberação, ajustes na formulação, testes de controle de qualidade e de estabilidade. Os testes in vivo, por sua vez, são fundamentais porque as formulações nanoestruturadas podem proporcionar melhor biodisponibilidade dos princípios ativos e reduzir os resíduos em produtos de origem animal. Assim, necessitamos de técnicas sensíveis o suficiente para diferenciar as formulações nanoestruturadas das tradicionais. Todo esse conjunto de técnicas é necessário para Amostra em teste de cinética de liberação de progesterona in vitro a partir de nanopartículas de PHB/PCL* no dissolutor de comprimidos. que a nanotecnologia se transforme em produtos oferecidos ao mercado. *PHB é a abreviatura para Polihidroxibutirato e PCL para Poli Epsilon Caprolactone.

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Clínica médica

BIÓPSIA DE PELE PARA O DIAGNÓSTICO DERMATOLÓGICO INTRODUÇÃO A boa e minuciosa anamnese e exame físico, a pesquisa parasitológica do raspado cutâneo, exame citológico, micológico direto e tricografia são importantes para estabelecer o diagnóstico ou os seus diferencias e traçar plano terapêutico racional. A avaliação do hemograma, exame de urina, perfis bioquímicos e endócrinos são utilizados com frequência na rotina clinica. Mas o exame histopatológico da pele é o que apresenta a melhor relação custo x beneficio na maioria dos casos. Muitas respostas para várias dermatopatias encontram-se na pele e não no sangue ou na urina. A amostra coletada deve ser submetida ao laboratório com a solicitação do exame, constando a história clínica, exame físico, tratamentos realizados, resultados e as suspeitas clínicas (Ackerman, 1997; Mehragen, 1986). As abreviações e outros ícones empregados pelo clínico não devem ser utilizados no pedido do exame, pois podem ser ininteligíveis ou indecifráveis ao patologista. Fotos do animal e das lesões dermatológicas também são úteis e devem ser enviadas sempre que possível (Austin, 1980). Para que o resultado do exame possa ser melhor aproveitado é importante existir integração entusiástica entre o clínico e o patologista responsável (Ackerman, 1997; Scott et al., 2001). O exame histopatológico da pele permite confirmar ou sugerir um diagnóstico e também pode levar a novas investigações de doenças potenciais, sem prévia descrição (Gross et al., 1992). Além disso, pos-

sui valor prognóstico nos casos sob tratamento, sendo, no entanto, pouco utilizada para esse fim devido a razões financeiras (Ihrke, 1988 ; Gross et al., 1992 ). Mesmo com o avanço no conhecimento diagnóstico, o exame histopatológico possui suas limitações. Por exemplo, os padrões histopatológicos das doenças alérgicas ainda não permitem diferenciá–las entre si, na maioria dos casos. O mesmo pode ocorrer com o padrão atrófico das endocrinopatias. Esse fato pode, no primeiro momento, representar desvantagem do exame. Mas se observarmos com cuidado, isso não ocorre, porque o exame estreitou a lista dos diagnósticos diferenciais, excluindo alguns grupos de enfermidades ou adicionou alguns achados inesperados e de valor diagnóstico. Por exemplo, na dermatite hiperplásica perivascular superficial, o estereótipo do padrão reacional das dermatoses crônicas na espécie canina pode afastar a suspeita de endocrinopatias se houver abundante atividade anagênica folicular; se o infiltrado inflamatório contiver eosinófilos deve-se valorizar a hipótese parasitária ou alérgica; ácaros ou fungos podem estar presentes, definindo o diagnóstico; espongiose, exocitose linfocitária, com coleções intraepidérmicas de células “Langerhoides” podem sugerir dermatite atópica, dentre outras possibilidades. No entanto, percebem-se, ainda, comentários de que o procedimento em nada ajudou, pois revelou uma dermatite crônica inespecífica. Com o emprego do diagnóstico morfológico baseado nos padrões histopatológicos das doenças inflamatórias da pele, shutterstock

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Clínica médica a denominação de dermatite crônica inespecífica não mais é aceitável para a maioria dos casos. É importante também que o clínico tenha as noções básicas do que acontece ao fragmento de tecido a partir de sua retirada do organismo, e do processamento laboratorial que se segue. A leitura do laudo dermatopatológico pode ser algo intimidante. O vocabulário empregado na especialidade é muito particular, fugindo, muitas vezes, ao entendimento do clínico, cuja memória pode negar-se até mesmo a recordar os termos de patologia geral como picnose, cariorrexis, necrólise, entre outras.

Quando Realizar a biópsia? Não existe regra definida de quando proceder à biópsia (Scott et al., 2001). Após a anamnese e o exame físico, pergunte a você mesmo se já viu “isto” antes, o que causa “isto” e o que pode ser feito a respeito. Predominando as incertezas, talvez seja o momento da indicação da biópsia. Não obstante, a falta da resposta terapêutica esperada também é uma forte indicação, evitando não ultrapassar o período de três semanas de tratamento, qualquer que seja a dermatose considerada (Gross et al.,1992; Angarano, 1993; Scott et al., 2001). As principais indicações para a biópsia e exame histopatológico são: lesões suspeitas de serem neoplásicas, ulcerações crônicas (podem ser neoplásicas), dermatoses de grave aparência e desfigurantes (dermatoses bolhosas e ulcerativas multifocais a generalizadas) e as dermatoses que necessitam de exame histopatológico para diagnóstico (displasias anexiais, adenite sebácea, doenças imune-mediadas, algumas dermatoses nutricionais) (Gross et al.,1992; Angarano, 1993; Scott et al., 2001). A glicocorticoterapia deve ser interrompida, no mínimo, duas a três semanas antes da biópsia, devido às alterações histológicas impostas por esses fármacos (Lhrke, 1988; Scott et al., 2001). Se existir processo piogênico convém tratar a condição com antibióticos antes do procedimento de biópsia. Tal conduta aumenta a chance do reconhecimento da enfermidade de base para as piodermites (Scott et al., 2001).

Qual o local a ser biopsiado? A escolha da lesão a ser biopsiada é tão importante quanto a habilidade e a experiência do patologista. De preferência, a biópsia deve ser obtida de lesões primárias (mácula, mancha, pústula, vesícula, bolha,

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nódulo, descamação, comedos, alopecia e discromias) (Gross et al., 1992; Angarano, 1993; Tscharner, 2000). Essas lesões são mais representativas para o diagnóstico, pois evoluem do processo patológico principal (Gross et al., 1992; Angarano, 1993). As lesões secundárias, que evoluem das lesões primárias, da ação traumática, exsudação ou medicação, são consideradas no segundo plano, mas são também muito úteis para o diagnóstico, a exemplo das crostas (Scott et al., 2001). O local ideal para a biópsia varia com a natureza da doença. Na maioria dos casos é mais informativo o exame histológico de uma lesão ”madura” ao invés da lesão muito jovem ou antiga (Ackerman, 1997; Elenitsas e Halpern, 1997). Nas lesões vésicobolhosas é preferível buscar uma lesão nova. Nas lesões mais antigas pode já estar ocorrendo re-epitelização, deslocando para as porções superiores da epiderme a posição inicial da clivagem. Nas lesões mais antigas também é mais provável que se instale o processo inflamatório secundário à infecção (Kuhl et al.,1994; Ackerman, 1997). Note que as lesões pustulosas e vésico-bolhosas, em cães e gatos, são em geral muito frágeis, rompem-se facilmente com o mínimo trauma, devendo ser biopsiadas o mais rápido possível (Mehregan, 1986). Na maioria das vezes o estudo histopatológico não depende da comparação com a pele hígida. Em casos de alterações mais discretas, como alterações de pigmentação, descamação, alopecia ou atrofia é aconselhável enviar um fragmento de pele normal para efeito de comparação (Gross et al.,1992). Quando houver erupções com bordas ativas, progressivas, que assumem configuração circular ou serpiginosa, existe indicação de se incluir na biópsia uma parte de pele saudável, bem como da região central, menos ativa. Esse procedimento também serve para as lesões atróficas e escleróticas. Essa conduta diminui a possibilidade de erro laboratorial no momento da inclusão e corte do fragmento (Mehregan, 1986). Sempre que possível devem ser realizadas várias biópsias, aumentando, assim, a chance de obter lesões representativas (Ackerman, 1997; Lrhke, 1988). As dermatoses evoluem, sendo que a obtenção de múltiplos espécimes fornece sempre maiores informações (Angarano, 1993; Tscharner, 2000). O patologista deve ter conhecimento para orientar o clínico sobre o melhor local de biópsia, devendo ser sempre consultado em caso de dúvida. Como orientação básica, a Tabela 1 lista as principais doenças dermatológicas e os respectivos locais de biópsia (Gross et al.,1992). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


Tabela 1. Principais enfermidades dermatológicas e locais indicados para biópsia Enfermidades

Local de biópsia

Observações

Pênfigo foliáceo, pênfigo eritematoso, impetigo, piodermite superficial, dermatofitose pustular superficial, candidíase, dermatose pustulosa subcorneal, pustulose eosinofílica estéril, farmacodermia pustular superficial, dermatite pustular devido a picada de formiga lavapés

– lesões vésico-pustulosas íntegras

– devido à fragilidade das pústulas e vésico-pústulas, sempre que possível devem ser prontamente biopsiadas – se somente lesões crostosas estão disponíveis, as crostas devem ser incluídas com cuidado, pois podem ser úteis para estabelecer o diagnóstico – evitar lesões crostosas antigas e ulceradas

Penfigóide bolhoso, penfigóide de membrana mucosa, pênfigo vulgar, pênfigo paraneoplásico, epidermólise bolhosa

– as bolhas e vesículas intactas precisam ser removidas inteiramente, preferencialmente por biópsia “em fuso”, para preservar a integridade da superfície

– se não houver lesão primária intacta disponível, a margem de uma vesícula ou bolha recentemente rompida pode ser biopsiada – em geral, as lesões labiais e cutâneas são menos frágeis que as da mucosa oral, favorecendo o diagnóstico

Lúpus eritematoso sistêmico, lúpus eritematoso discóide (LED), eritema multiforme, dermatopatia isquêmica, dermatomiosite canina, necrólise epidérmica tóxica, dermatite esfoliativa associada ao timoma felino

– placas eritematosas, descamativas e alopécicas ou atróficas – epiderme fundamental para o diagnóstico

– evitar úlceras e erosões, uma vez que a epiderme intacta é necessária para estabelecer o diagnóstico – áreas eritematosas adjacentes às úlceras podem ser biopsiadas – LED: lesões despigmentadas do plano nasal ou lábio – as biópsias de cavidade oral devem ser evitadas, por serem frequentemente ulceradas

Dermatite necrolítica superficial, dermatose devida a alimento genérico, dermatose responsiva ao zinco, seborréia, dermatite seborreica, dermatose responsiva a vitamina A, dermatite por malassezia, piodermite mucocutânea, dermatose marginal da pina, hiperceratose nasodigital, comedos actínicos, comedos do Schnauzer

– placas eritematosas e escamocrostosas alopécicas ou não – comedos

– evitar locais erodidos e ulcerados – preservar as crostas e incluí-las em formol

Queimaduras

– áreas de eritema, de preferência, sem ulceração

– lesões crônicas (úlceras, necrose, inflamação) não são diagnósticas

Dermatite, elastose e fibrose solar

– placas eritemato-descamativas, fibróticas, escleróticas, erodidas ou não, em diferentes estágios de desenvolvimento

– importante avaliar para ceratose actínica

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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Clínica médica

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Enfermidades

Local de biópsia

Observações

Síndrome do choque tóxico

– máculas eritematosas

– integridade da epiderme importante para o diagnóstico

Alergias (dermatite atópica, alergia alimentar e dermatite de contato)

– máculas, pápulas e placas eritematosas

– evitar lesões crônicas (hiperpigmentadas, liquenificadas), autotraumatizadas e infectadas

Placa eosinofílica felina, dermatite piotraumática, foliculite piotraumática

– placas eritematosas com mínima erosão e ulceração

– evitar lesões intensamente traumatizadas e infectadas

Dermatite miliar felina

– lesões pápulo-crostosas

– evitar áreas traumatizadas

Dermatite acral por lambedura

– áreas não ulceradas, procurando obter biópsias profundas devido à intensa hiperplasia epitelial e fibrose superficial

– evitar áreas ulceradas – áreas infectadas podem ser úteis para o diagnóstico de furunculose acral

Ceratose actínica

– biopsiar diferentes estágios da doença (máculas despigmentadas, áreas de eritema, placas crostosas, nódulos, margens de úlceras)

– importante avaliar possível evolução para carcinoma de células escamosas

Acantose nigricans

– lesões centrais e na margem das áreas hiperpigmentadas e liquenificadas

– uma das poucas doenças em que a liquenificação pode ser útil para o diagnóstico

Alopecia cicatricial

– área de máxima alopecia

– preferência para lesões crônicas (valor prognóstico para repilação)

Adenite sebácea

– placas eritemato-descamativas com ou sem alopecia – comedos

– múltiplas biópsias, para avaliar adequado número de unidades anexiais e confirmar a inflamação e ausência de glândulas sebáceas (valor prognóstico)

Vitiligo

– biópsia de área hipocrômica e normocrômica

– a biópsia deve incluir a lesão, zona de transição e pele normal adjacente para efeito de comparação (biópsia em fuso). Colocar em frascos separados e identificados

Vasculites

– lesões novas, máculas, pápulas e placas caracterizadas por eritema e púrpura

– evitar áreas de necrose e ulceração – evitar locais de difícil cicatrização (como plano nasal e coxim) – se necessário, realizar a biópsia na margem das lesões

Urticária e angioedema

– pápulas e placas urticariformes

– realizar precocemente as biópsias, uma vez que as lesões são transitórias – incluir pele normal para efeito de comparação – lesões purpúricas podem render o diagnóstico de urticária, vasculite

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Enfermidades

Local de biópsia

Observações

Síndrome úveo-dermatológica

– áreas de despigmentação, eritema e descamação

– dar preferência às biópsias de região labial e focinho – evitar lesões com infecção secundária e autotraumatizadas – diagnóstico precoce pode prevenir lesões oftálmicas

Dermatose psoriasiforme liquenóide e ceratose liquenóide

– placas ceratóticas eritemato hipercrômicas bem desenvolvidas

– múltiplas biópsias – evitar biopsiar a pina, se outros locais de mais fácil realização estiverem acometidos

Actinomicose, nocardiose, micetomas, pseudomicetomas, lepra felina, granuloma lepróide canino, micobacterioses, blastomicose, histoplasmose, coccidiomicose. criptococose, esporotricose, fungos oportunistas, pitiose, prototecose, piogranuloma estéril, reação a corpo estranho, reação a picada de artrópodes, granuloma eosinofilico felino e canino, hipersensibilidade a picada de mosquito, calcinose circunscrita, xantoma, celulite juvenil, histiocitoses reativas

– obter múltiplas biópsias de pápulas, placas e nódulos – preferência por biópsia em fuso, ampla, com bisturi, visando incluir o tecido subcutâneo panicular

– para lesões solitárias, excisão cirúrgica completa pode promover a cura – priorizar lesões novas e intactas – recomenda-se biópsia profunda, uma vez que o corpo estranho pode estar localizado no tecido subcutâneo – evitar áreas ulceradas ou com tratos drenantes, embora essas possam também ser uteis. – biopsiar várias lesões representativas

Leishmaniose visceral e cutânea

– múltiplas áreas de descamação aderente, incluindo lesões crônicas – margens molduradas de lesões ulceradas (lc) – nódulos intactos não ulcerados

– obter múltiplas biópsias, pois o parasito pode ser difícil de se encontrar

Dermatite eosinofílica e felina e canina

– placas eritematosas e exsudativas – podem ser placas exulceradas.

– obter múltiplas biópsias de lesões novas

Calcinose cutis

– placas firmes, enduradas e crostosas

– evitar áreas traumatizadas e ulceradas

Mucinose cutânea

– placas espessas e infiltradas, vesículas ou bolhas

– é comum observar substância viscosa no ato da biópsia

Amiloidose

– remover inteiramente lesões nodulares solitárias – para amiloidose cutânea difusa, pode-se realizar biópsia em punch ou cunha

– lesões removidas parcialmente não cicatrizam bem – evitar áreas de intensa hemorragia

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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Clínica médica

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Enfermidades

Local de biópsia

Observações

Síndrome de ehlers-danlos, síndrome da fragilidade cutânea felina adquirida

– áreas com importante hiperextensibilidade e fragilidade

– evitar pontos de pressão devido à dificuldade de cicatrização

Folículite bacteriana superficial

– pápulas e pústulas intactas

– se não disponíveis, colaretes epidérmicos podem ser biopsiados – evitar pápulas crostosas

Dermatofitose felina e canina

– áreas descamativas que exibem pelos quebrados, incluindo a margem da áreas alopécicas

– no caso de quérion, biopsiar o nódulo inteiro – pseudomicetoma dermatofítico: biopsia excisional ou incisional que inclui o tecido panicular

Folículite e furunculose bacteriana (calo de apoio e acne)

– pápulas, placas, pústulas ou nódulos intactos

Demodiciose canina e felina

– pápulas, nódulos, pústulas, placas eritemato-crostosas, comedos

– biópsia indicada nos casos de pododermatite, ou quando os raspados forem negativos

Furunculose eosinofílica da face

– pápulas intactas, pústulas ou nódulos

– evitar áreas de ulceração

Doenças endócrinas

– em todos os casos de doença endócrina, obter áreas de máxima alopecia para ótima identificação das alterações foliculares atróficas

– evitar áreas de transição com pele normal e áreas com infecção secundária – múltiplas biópsias de pele podem ser obtidas – para o hiperadrenocorticismo, biopsiar também placas firmes, sugestivas de calcinose cutis

Foliculites murais (alopecia areata, pseudopelada, foliculite mucinótica, foliculite granulomatosa)

– áreas de máxima alopecia e lesões intermediárias em diferentes estágios de desenvolvimento – não incluir pele normal

– obter várias amostras – se desejar incluir pele normal para comparação, enviar as amostras em frascos separados e identificados (normal x acometido)

Displasias foliculares, alopecia póstosa e alopecia padrão, alopecia paraneoplasica felina

– áreas de máxima alopecia

– pápulas e pústulas representam geralmente piodermite secundária e podem ser biopsiadas – aconselhável obter áreas de cobertura pilosa normal para efeito de comparação. Colocar em frascos separados e identificados

Paniculites

– biópsia profunda “em cunha”, por bisturi, garantindo que a amostra represente epiderme, derme e subcutâneo – sempre que possível, remover inteiramente as lesões nodulares

– múltiplas biópsias são desejadas – evitar biópsia por punch (não representa o panículo adequadamente)

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Como proceder à biópsia? O instrumental utilizado para o procedimento da biópsia de pele deve ser delicado (Irhke, 1988), de preferência oftálmico, contendo tesoura curva de Matzembaum ou de iris, pinças de Adson ou Halsted, pinças hemostáticas curvas, cabo de bisturi, lâminas de bisturi (n. 11 e 15), saca bocados (“punchs”) de 4, 6 e 8mm de diâmetro, material para sutura, compressas estéreis, anestésico local (lidocaína a 2%), seringa de insulina, gaze estéril, papel toalha, pequenos pedaços de madeira (abaixador de língua ou palito de sorvete) e frasco de boca larga contendo formalina a 10% (Figura 1) (Scott et al.,2001). O animal deve ser meticulosamente examinado sob ótima iluminação. A manipulação vigorosa pode alterar algumas lesões de importância diagnóstica (p. ex. pústulas e crostas). As escamas e crostas podem conter informações importantes para o diagnóstico. Os pelos devem ser cortados com tesoura o mais próximo possível da epiderme, evitando-se traumatizar ou remover escamas ou crostas da superfície cutânea. Dessa forma impede-se que os pelos incluídos na parafina dificultem o corte e danifiquem a navalha do micrótomo (Austin, 1980). Preferencialmente, a área a ser biopsiada não deve ter recebido tratamento tópico recente, trauma ou escoriação (Angarano, 1993). A escoriação resulta na perda parcial ou total da epiderme e parte superficial da derme, comprometendo o diagnóstico (Mehregan, 1986). O local a ser biopsiado deve ser marcado com uma caneta e não deve ser limpo, preparado ou esfregado com nenhum antisséptico. Elementos de importância diagnóstica podem ser removidos com essas ações, bem como ocorrer alterações inflamatórias iatrogênicas (Ihrke, 1988; Scott et al., 2001). Nos casos de grandes lesões, é preferível utilizar a técnica excisional em fuso (fragmento fusiforme), avançando após a margem da lesão (Mehregan, 1986). A biópsia em fuso possui a vantagem de fornecer maior extensão de tecido a ser examinado, além de facilitar a orientação da inclusão e o corte do material. Essa técnica deve ser utilizada nas lesões neoplásicas, (também com objetivo terapêutico – excisional), lesões pustulosas e vesiculosas de grande tamanho (a ação rotatória do punch pode romper ou danificar a lesão), lesões paniculares e na investigação das alopecias (os bulbos matriciais anagênicos estão inseridos no tecido gorduroso panicular) (Ackerman, 1977; Austin, 1980; Ihrke, 1988; Gross et al., 1992). A técnica empregando o punch (saca bocado) não Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

permite obter tecido panicular suficiente para o bom exame histopatológico para as suspeitas de paniculite (Ackerman, 1977). A anestesia geral, o tempo gasto e as múltiplas suturas constituem algumas desvantagens do método de biópsia incisional e excisional (Ihrke, 1988). A biópsia por punch é realizada com maior facilidade, necessitando geralmente apenas de anestesia local e contenção física. Também é mais aceitável para os proprietários e permite a obtenção de vários fragmentos, aumentando-se a chance de obtenção de lesões representativas. Nessa técnica, é recomendável que não se inclua qualquer porção de pele normal durante a biópsia. Se a pele normal estiver presente é possível que ocorra inclusão da metade normal ou menos lesionada, prejudicando o diagnóstico. Após a escolha da lesão, deve-se fazer a anestesia local, por via subcutânea, com lidocaína a 2%, utilizando uma seringa de insulina (Figura 1). Nas lesões paniculares é preferível fazer o bloqueio regional, pois podem ocorrer alterações artefatuais com a injeção subcutânea. As anestesias geral ou dissociativa são as melhores opções quando se pretende biopsiar algumas regiões anatômicas como o plano nasal, ponte nasal, pavilhão auricular, pálpebras e extremidades. O punch deve ser firmemente posicionado na pele e rotacionado apenas em uma direção, até que penetre no tecido subcutâneo (Figura 2). O movimento alternado de rotação para a esquerda e a direita aumenta a chance de artefatos mecânicos ao fragmento, principalmente a clivagem dermoepidérmica (Gross et al., 1992). Uma vez seccionado em seu perímetro, o espécime pode ser exposto pinçando (com os dedos) a pele perilesional, tracionando delicadamente com pinças hemostáticas (se houver pelos, é melhor utilizá-los) ou com a agulha de injeção hipodérmica na altura da interface dermoepidérmica (Gross et al., 1992). Após essa manobra, o fragmento deve ser cortado em sua base com a profundidade adequada (Scott et al., 2001) (Figura 3). Vale salientar que na pele bem anestesiada, a biópsia (punch ou elíptica) profunda não é mais dolorosa que um procedimento superficial e permite sutura de maior qualidade e com melhor efeito cosmético (Mehregan, 1986). A técnica de biópsia por curetagem ou shaving, utilizada em medicina humana principalmente para as lesões névicas não é em geral recomendada na dermatologia veterinária. O material obtido pelo shaving é insuficiente para um bom exame, além de

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Clínica médica O que fazer com o espécime biopsiado?

poder resultar em alterações histológicas que atrapalham o diagnóstico (Austin, 1980). Pontos simples separados, usando fio não absorvível, são geralmente suficientes para a sutura da ferida deixada pelo ato da biópsia. Grandes complicações não são esperadas durante ou após o procedimento de biópsia (Scott et al., 2001). A hemorragia, que sempre existe em alguma intensidade, pode ser controlada por simples compressão. No entanto, deve-se prestar atenção em animais com distúrbios de coagulação, como, por exemplo, nas terapias com anticoagulantes (inclusive com aspirina), nas intoxicações por rodenticidas, nas trombocitopatias, entre outras. Problemas de cicatrização devem ser antecipados nos casos de hiperadrenocorticismo, no diabetes mellitus e nas anormalidades do colágeno. Raramente desenvolve-se cicatriz hipertrófica em animais. A dose de anestésico local deve ser sempre respeitada, principalmente em filhotes, pois podem resultar em convulsões, depressão miocárdica e até em morte. Além do mais, não está indicado o uso de lidocaína com vasoconstritor nas extremidades, nas doenças cardiovasculares, em pacientes recebendo fenotiazínicos, bloqueadores β adrenérgicos, terapia com inibidores da monoaminoxidase (ex.: amitraz) e antidepressivos tricíclicos.

Depois de retirado do animal, o fragmento é rolado por sobre papel toalha ou compressa absorvente para retirar o excesso de sangue que de outra forma poderia aparecer no exame microscópico (Figura 4). Na sequência, coloca-se o fragmento sobre um pedaço de madeira (abaixador de língua) ou de cartolina porosa, com a derme voltada para baixo, exercendo-lhe uma gentil pressão. Esse procedimento é necessário para fragmentos elípticos maiores, pois previne a curvatura e ondulação tecidual, permitindo a melhor orientação anatômica (Ihrke, 1988; Dusntan, 1990; Gross et al., 1992; Mehregan, 1986; Scott et al., 2001). As alterações decorrentes de autólise iniciamse imediatamente após a interrupção do fornecimento sanguíneo ao tecido, e ocorrem devido à degeneração das membranas celulares, liberação das enzimas hidrolíticas e ação de bactérias saprófitas que terminam por destruir o tecido. Os fragmentos obtidos por punch e deixados sob o foco cirúrgico luminoso sofrem alterações autolíticas em menos de cinco minutos. Para evitar que tais alterações se instalem, a amostra deve ser imediatamente colocada em solução fixadora (Dusntan, Arquivo do autor

A

B

C

Figura 1. Técnica de biópsia de pele. A, aplicação de anestésico local não que não deve ser intradérmica e sim subcutânea. B, saca bocado (punch) deve ser posicionado verticalmente e rotacionado em um único sentido evitando artefato de separação dermoepidérmica. C,fragmento cilíndrico, já seccionado em suas laterais pelo punch, sendo cortado na base com tesoura oftálmica. Notar o “pinçamento” da pele com os dedos fazendo o fragmento se projetar para cima.D, fragmento sendo gentilmente rodado em compressa absorvente para remover o excesso de sangue.

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D


1990; Mehregan, 1986). Para o procedimento que envolve a retirada de vários fragmentos, não se deve esperar a coleta de todos para depois colocá-los na solução fixadora. Por fixador define-se qualquer substância química usada para preservar e endurecer o tecido, preparando-o para o exame histopatológico. O sucesso da leitura e da interpretação histopatológica depende também da boa fixação. A solução de formalina a 10% é ainda o fixador que melhor preserva as estruturas celulares, sendo o agente fixador mais utilizado na medicina veterinária. A formalina remove a água das moléculas tissulares (proteínas e ácidos nucléicos), ocasionando alterações das estruturas dessas moléculas que resultam em pontes intermoleculares. Essas ligações resultam na resistência à ação hidrolítica das enzimas (Dunstan, 1990). Entretanto, a formalina ainda não é o fixador ideal. É um produto instável e quando exposto ao oxigênio degrada-se em ácido fórmico que, por sua vez, não possui a mesma capacidade fixadora. Esse produto reage também com o sangue, o que promove a formação de grânulos marrons no tecido (hematina ácida). Uma vez formado esse pigmento, pode-se eliminá-lo pelo método de Verocay ou Kardasewitsch (Mehregan, 1986). Com o passar do tempo, a formalina também se degrada em paraformaldeído, que não fixa os tecidos com a mesma qualidade. Esses artefatos podem ser diminuídos tamponando-se a solução de formalina com fosfato sódico. A seguir encontram-se as fórmulas desses fixadores (Tabelas 2 e 3) (Austin, 1980; Mehregan, 1986). O tempo de fixação depende do tamanho da amostra e faz-se da periferia para o centro do espécime. O período mínimo de fixação para fragmentos obtidos por punch de 6mm ou maiores é de 24 horas. Um erro frequentemente observado é o envio de grandes fragmentos de tecidos, acondicionados em recipientes de boca estreita ou com pouco volume de fixador. O volume do fixador deve ser 20 vezes maior que o volume da amostra (Ackerman, 1997; Ihrke, 1988). Tabela 2. Composição química da solução de formalina a 10% Água destilada

900ml

Solução concentrada de formalina a 40%

100ml

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Em virtude de a formalina não penetrar eficientemente nos fragmentos com espessuras superiores a 1cm, os espécimes de maior tamanho devem ser parcialmente seccionados a intervalos de 1cm. Quando se pretende o estudo de imunofluorescência ou microscopia eletrônica, a formalina não é o fixador indicado. Para esses casos emprega-se o fixador de Michel e Milogni, respectivamente. Para o estudo imunoistoquímico (imunoperoxidase), a fixação prévia com formalina não é impedimento absoluto para a realização da técnica. Nesses casos, é importante consultar o laboratório para saber qual a melhor forma de fixação ou acondicionamento da amostra, pois alguns anticorpos não funcionam em tecido fixado em formalina.

Para qual profissional enviar o material para exame? O clínico deve enviar a amostra para um serviço especializado em dermatopatologia veterinária que, de preferência, tenha profissionais com conhecimentos clínicos e patológicos. Essa associação anátomo-clínica é mais eficiente na interação com os clínicos e na elucidação diagnóstica. Igualmente é importante ter liberdade para discutir, sugerir ou questionar o caso com o patologista. O dermatopatologista não desempenha eficientemente quando lhe são privados os dados clínicos do paciente, não importando o quanto bem realizada tenha sido a biópsia (Angarano, 1993). Utilizar o serviço de patologia humana não é uma escolha aceitável, mesmo que esse seja especializado em dermatopatologia. Cada espécie animal possui sua própria característica histológica e alterações patológicas. Realmente, poucas doenças em medicina veterinária mimetizam doenças humanas, mesmo quando recebem a mesma denominação. Além disso, várias doenças são exclusivamente encontradas nos animais, não existindo correspondentes na medicina humana (Dunstan, 1990). Tabela 3. Composição química da solução tamponada de formalina a 10% Água destilada

900ml

Solução concentrada de formalina a 40%

100ml

Fosfato anidro de sódio

6,5g

Fosfato monohidratado ácido de sódio

4g

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Clínica médica Arquivo do autor

A

B

C

Figura 2. Granuloma Lepróide Canino (GLC). A, lesões nodulares alopécicas, parcialmente exulceradas acometendo o pavilhão auricular de um cão da raça Boxer portador de GLC. B, fotomicrografia de lesão histopatológica do cão com GLC . Intensa reação inflamatória ,piogranulomatosa e plasmocitária (H&E, X 400). C, fotomicrografia de lesão histopatológica do cão com GLC. A coloração especial revela vários bacilos álcool ácido resistentes (corados em rosa forte)localizados no interior dos macrófagos epiteliódes (Ziehl Neelsen, X 550).

O que acontece com o material no laboratório? Não há necessidade de que o clínico conheça todas as reações e seus fundamentos do processamento histopatológico. Entretanto, são importantes algumas noções do processo. Após o recebimento e o registro da amostra pelo laboratório, segue-se o exame macroscópico da peça que consta das dimensões (por vezes o peso) cor, consistência e o aspecto ao corte da lesão (quando houver alteração). O clínico deve ter consciência de que após a fixação em formalina, as alterações de cor como o eritema, discromias e mesmo impressões obtidas pela palpação, podem não mais ser observadas pelo patologista, devido ao endurecimento e descoloração da peça. Da mesma forma, lesões pequenas como pápulas e pústulas, visíveis durante o exame físico, podem também não ser mais óbvias após a fixação (Dunstan, 1990; Scott et al., 2001). A amostra deve ser cortada e colocada no cassete plástico juntamente com os dados de identificação do animal. Os fragmentos de pele podem ser adequadamente secionados ao meio, através da epiderme, para atingir a região panicular, no sentido dos folículos pilosos. Tal corte permite a visualização longitudinal dos folículos pilosos e demais anexos epidérmicos. O corte transversal, paralelo à superfí-

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cie cutânea, na altura do infundíbulo folicular, está indicado nos casos de avaliação das alopecias não inflamatórias (Dunstan, 1990; Yager e Wilcock, 1994). Após essa primeira etapa, o tecido é desidratado passando por soluções de xilol ou clorofórmio, várias soluções de álcoois para depois ser incluído em parafina. A parafina mantém firmes e relacionadas as estruturas morfológicas umas às outras, para não deformarem quando submetidas ao corte em micrótomo. A seguir, o tecido é colocado em um pequeno recipiente contendo parafina derretida que irá, ao endurecer, se fundir com a parafina previamente infiltrada no tecido, formando o bloco de parafina. A pele é um tecido de difícil corte, devido à natureza diversa dos tecidos que a compõem, exigindo um técnico experiente, paciente, cuidadoso, bem como aparelhagem limpa, lubrificada e afiada. Os cortes são feitos com espessura de 4 a 6µ, embora seja preconizada alguma vantagem com cortes mais espessos (Mehregan, 1986). Após o corte, o tecido é esticado em banho-maria e montado em uma lâmina microscópica. A coloração histológica empregada na rotina é a hematoxilina-eosina (HE). As coloração de orceína ácida de Giemsa também é útil na rotina e tem sido utilizada em alguns serviços. Algumas colorações permitem melhor visualização de certas estruturas Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


Tabela 4. Principais colorações especiais e reações tintoriais utilizadas na dermatopatologia Coloração

Estruturas coradas

Brown-Brenn

Bactéria Gram-positiva – azul, Gram negativa – vermelha

Ziehl Neelsen

Bacilo álcool ácido resistentes – vermelha

Ácido Periódico de Schiff (PAS)

Fungos, mucopolissacarídeos neutros e glicogênio – vermelho

Azul de toluidina

Grânulos dos mastócitos e mucopolissacarídeos ácidos – roxo

Metenamina argêntica de Grocott/Gomori

Fungos – preto

Azul alciano (“Alcian Blue”)

Mucopolissacarídeos ácidos – azul

Verhoeff

Elastina e núcleos – preto

Tricômico de Masson

Colágeno – azul; ceratina, músculos e nervos – vermelho

Van Gieson

Colágeno – vermelho; ceratina, músculos e nervos – amarelo

Cristal violeta

Amilóide – vermelho

Von Kossa

Cálcio – marrom a preto

Vermelho congo

Amilóide – vermelho (verde na birrefringência)

Fontana Masson

Melanina – preta

como grânulos dos mastócitos, fungos, fibras elásticas, fibras musculares, pigmentos, depósitos, entre outras. A Tabela 3 relaciona as principais colorações especiais e suas estruturas coradas (Mehregan, 1986; Scott et al., 2001). Muitos artefatos teciduais podem resultar tanto da biópsia (responsabilidade do clínico) como do processamento laboratorial (responsabilidade do patologista) (Tabela 5). Virtualmente, qualquer etapa

do procedimento pode afetar o diagnóstico histopatológico final (Mehregan, 1986; Scott et al., 2001). Resumindo, para que o processo resulte em máximo benefício, espera-se boa atuação do clínico nos seguintes tópicos: 99 a escolha de lesões representativas a serem biopsiadas; 99 sempre que possível, a obtenção de várias amostras;

Tabela 5. Principais artefatos teciduais observados na histopatologia e suas principais causas Artefato tecidual

Causa

Vacuolização celular e inflamação

Fricção da pele

Remoção de alterações patológicas da superfície

Preparo cirúrgico e uso de antissépticos

Fragmento curvo, dobrado e irregular

Não uso do apoio de madeira ou cartolina

Amassamento tecidual

Uso inadequado das pinças

Deformação, alongamento e polarização celular

Uso de corrente elétrica (bisturi elétrico)

Estrias e divulsão tecidual

Navalha não afiada ou com dentes

Alterações celulares

Ação de diversos fármacos

Formação de células vacuolizadas, edema intracelular

Congelamento da amostra

Citólise

Fixação inadequada da amostra

Grânulos marrons no tecido

Formalina não tamponada

Separação dermoepidérmica

Rotação errônea do punch, corte inadequado no micrótomo

Pseudoedema e pseudoseios

Injeção intraepidérmica de anestésico

Pseudopapilomatose e pseudoacantose

Orientação e corte inadequados

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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Clínica médica 99 que preserve ao máximo a superfície da lesão; 99 que utilize instrumental adequado, evitando os artefatos de coleta; 99 fixar adequadamente a amostra; 99 enviar formulário de solicitação de exame contendo a identificação do animal, resumo da história e sinais clínicos, tratamentos realizados, respostas terapêuticas e a lista dos principais diagnósticos diferenciais; 99 que contate o patologista em caso de dúvidas e para discutir o caso. Por outro lado, ao patologista compete: processamento adequado da amostra (secção, inclu-

são em parafina, corte, coloração), capacidade de correlação anátomo-clínica, solicitar, quando apropriado, colorações especiais e recortes, entrar em contato com o clínico sempre que necessário, reconhecer suas limitações e obter uma segunda opinião para os casos que assim necessite. A dermatopatologia possui vocabulário próprio, frequentemente específico, porque muitas alterações histopatológicas ocorrem apenas no tegumento (Ackerman, 1997; Scott, 2001). O melhor entendimento do laudo histopatológico está vinculado ao conhecimento dos termos e definições técnicas.

Dados dos Autores

Fabricia Hallack Loures

Médica Veterinária Autônoma CRMV-MG nº 6752, diagnóstico em dermatopatologia veterinária.

Endereço para correspondência: Condominio Bosque Acamari 126, CEP: 36570-000, Viçosa - MG. E-mail: histopelevet@gmail.com

Lissandro Gonçalves Conceição

Médico Veterinário CRMV-MG nº 5133, Departamento de Veterinária da Universidade Federal de Viçosa (UFV/DVT). E-mail: lissandro@ufv.br

Referências Bibliográficas ACKERMAN, A.B. Histologic diagnosis of inflammatory skin diseases. 1.ed. Lea Febiger, 1978. 863p. ACKERMAN, A.B. Histologic diagnosis of inflammatory skin diseases. 2.ed. Baltimore: Williams & Wilkins, 1997. 944p. ANGARANO, D.W. Biopsies of the Skin and Mucous Membranes. Seminars in Veterinary Medicine and Surgery (Small Animal)., v.8, p. 235-38, 1993. AUSTIN, V.H. Skin Biopsies: When, Where and Why. The Compendium Collection., v. 2, p. 171-75, 1980. DUNSTAN, R.W. A User’s Guide to Veterinary Surgical Pathology Laboratories: Or, Why Do I Still Get a Diagnosis of Chronic Dermatitis Even When I Take a Perfect Biopsy? The Veterinary Clinics of North America. Small Animal Practice. Advances in Clinical Dermatology. Philadelphia: W. B. Saunders Company, 1990, v. 20, p. 1397-1417.

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XIX Seminario Nacional de ensino DA MEDICINA VETERINARIA

2011

Desaaos e Perspectivas para Formação do Médico Veterinário Auditório General Uchôa da Upis Campus I - Bloco B - SEPS 712/912 Conj. A - Asa Sul

14 a 16 de setembro Brasília-DF

Realização

Organização

Conselho Federal de Medicina Veterinária

Comissão Nacional de Ensino da Medicina Veterinária/CFMV

Sistema CFMV/CRMVs


S a ú d e d a Fa m í l i a

Para o presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária, Benedito Fortes de Arruda, esta é uma grande conquista do CFMV na área da saúde. “Foram anos de esforços e negociações. Agora, o profissional poderá mostrar à comunidade sua importância no bem-estar social. O Médico Veterinário contribuirá com seus conhecimentos referentes a doenças transmitidas e veiculadas por animais (zoonoses) e doenças transmitidas por alimentos de origem animal, dentre outras questões”, esclarece Arruda. De acordo com organizações internacionais, estima-se que 75% das doenças infecciosas emergentes e reemergentes são transmitidas na interface entre o homem, os animais e o ecossistema, são as zoonoses, por isso a importância da participação do Médico Veterinário. “Além disso, a Resolução nº 287/1998 do Conselho Nacional de Saúde reconhece que a Medicina Veterinária compõe o rol das profissões da área da Saúde”, salientou o Presidente da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária, Paulo César Augusto de Sousa. Os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs) também serão aprimorados na Nova Política Nacional de Atenção Básica. Dentre as mudanças, está definida a ampliação das especialidades profissionais que poderão passar a atuar nos NASFs. Atualmente, os Núcleos podem ser compostos – por decisão das secretarias municipais de saúde – por psicólogo, assistente social, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, profissional da educação física, nutricionista, terapeuta ocupacional, ginecologista, homeopata, acupunturista, pediatra e psiquiatra. Agora, o Ministério da Saúde ampliará esse elenco de profissões, incluindo, nos NASFs, a possibilidade de os gestores locais do

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Arquivo CFMV

Ministério da Saúde define inclusão do Médico Veterinário nas novas especialidades profissionais dos NASFs

Uma das ações do CFMV foi a ampla divulgação da necessidade do Médico Veterinário no Núcleo de Assistência a Saúde da Família

SUS contratarem profissionais como o Médico Veterinário, entre outros. Com as mudanças, a estimativa é de que a quantidade de municípios com NASFs na modalidade II – que atualmente são compostos por, no mínimo, três profissionais de nível superior, vinculado a uma quantidade mínima de três equipes de Saúde da Família – passará de 870 para 4.524. A partir da reestruturação, os Núcleos do tipo II poderão ter de três a sete equipes, independente da densidade demográfica da região. Os NASFs são constituídos por equipes multiprofissionais que trabalham no apoio às equipes Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


RESTRUTURAÇÃO

da Estratégia Saúde da Família. Nos Núcleos, os profissionais desenvolvem atividades como consultas e diagnósticos conjuntos e ações de educação em saúde entre a população. Para a definição dos profissionais que compõem os NASFs, as secretarias municipais de saúde utilizam critérios como as especificidades e prioridades em saúde das comunidades como também a disponibilidade dos profissionais na região. “A inclusão de novas especialidades profissionais nos NASFs e outras propostas de avanços na Atenção Básica estão sendo definidas em conjunto com os Estados e Municípios”, explica o secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães. “A inclusão dos Médicos Veterinários é uma das importantes novidades”, acrescenta.

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Os critérios para a implementação dos NASFs, pelas secretarias municipais de saúde, também serão simplificados. Atualmente, os Núcleos são classificados nas modalidades I, II e III. O tipo I deve ser composto por, no mínimo, cinco profissionais de saúde de nível superior, vinculado a uma quantidade que vai de oito até 20 Equipes Saúde da Família. Com as mudanças em análise, o NASF I terá de cumprir apenas o critério de ter mais de sete equipes de Saúde da Família vinculadas a ele. O NASF II atualmente é composto por, no mínimo, três profissionais de nível superior, vinculado a uma quantidade mínima de três equipes de Saúde da Família. Com a reestruturação, o NASF II poderá ter de três a sete equipes, independente da densidade demográfica da região. Com isso, a estimativa do Ministério da Saúde é de que o número de municípios que poderão ter esse tipo de Núcleo ampliará de 870 para 4.524. Já a modalidade III, que foi instituída no final do ano passado, será incorporada ao NASF II.       Atualmente, o País conta com 1.371 NASFs, sendo 1.234 tipo I e 137 tipo II, presentes em 998 cidades. Os municípios que contam com o NASF I recebem, do Ministério da Saúde, R$ 20 mil para a instalação e mais R$ 20 mil mensais para o custeio dos Núcleos. A modalidade tipo II conta com R$ 6 mil para implantação e mais R$ 6 mil mensais para custeio. Os recursos são repassados do Fundo Nacional de Saúde para os fundos municipais de saúde.

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D e s ta q u e s PRONUNCIAMENTO EM FAVOR DO PLEITO DO CFMV E DA MEDICINA VETERINÁRIA NO SENADO FEDERAL Paulo H. Carvalho - Casa Civil/PR

No Plenário do Senado Federal, no dia 24 de março, a Medicina Veterinária foi homenageada pela Ministra da Casa Civil, Senadora à época, Gleisi Hoffman, que lembrou os 250 anos da profissão no mundo. Ela aproveitou o momento para apresentar à Casa o pleito do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) para a inclusão do Médico Veterinário nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf). A proposta do CFMV, defendida pelo Presidente Benedito Fortes de Arruda, é de que o Médico Veterinário possa ser inserido na lista de profissionais que atuam no Nasf. “Queremos integrar o grupo de profissionais que estão disponíveis para o programa”, comenta o Presidente. Com a inclusão, cada prefeito ou secretário de Saúde do município definirá a necessidade de contar com o profissional para as atividades desempenhadas em seu munic��pio, o que não implicaria aumento de custo para o Sistema Único de Saúde.

CHAPA ENCABEÇADA PELO ATUAL PRESIDENTE DO CFMV, BENEDITO FORTES DE ARRUDA, É ELEITA PARA PRESIDIR O CONSELHO Arquivo CFMV

A escolha de quem irá presidir o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) nos próximos 3 (três) anos ocorreu dia 17 de junho, na sede do CFMV, em Brasília, DF. Num ambiente de extrema tranquilidade e transparência, a Chapa I foi eleita com 48 votos; a Chapa II obteve 32 e houve 1 voto nulo. Oitenta e um (81) Delegados (natos e eleitos) estiveram em Brasília para exercer o direito de voto e escolher os futuros Diretores e Conselheiros do Conselho. Após a divulgação do resultado, o representante da Chapa vencedora e atual presidente do CFMV, Benedito Fortes de Arruda, agradeceu a participação dos colegas na eleição. “Meu propósito é continuar buscando a excelência, com entusiasmo e dedicação. Conclamo todos a juntarem esforços, sem divisões, e juntos lutarmos para fortalecer a nossa classe e divulgarmos a importância do trabalho do Médico Veterinário e do Zootecnista para a sociedade”, disse Arruda.

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III Seminário Brasileiro de Residência em Medicina Veterinária Arquivo CFMV

O evento organizado pela Comissão Nacional de Residência em Medicina Veterinária (CNRMV) do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) ocorreu de 1 a 3 de junho, no Brasília Imperial Hotel, na capital federal, e contou com a participação de aproximadamente 60 profissionais de doze (12) estados distintos. Em um ambiente repleto de novas informações, diretores, coordenadores, professores de cursos e estudantes conheceram a realidade, as

tendências e as perspectivas da residência dos cursos de Medicina Veterinária no Brasil. Dentre os variados temas na programação, houve a apresentação das conclusões da pesquisa realizada pela CNRMV com ex-alunos (que concluíram o curso entre 2004 e 2010) dos Programas de Residência em Medicina Veterinária (PRMV) reconhecidos pelo CFMV. O questionário esteve disponível no portal do Conselho do dia 11 de abril ao dia 6 de maio. A finalidade do trabalho foi buscar parâmetros para avaliar o desempenho desses egressos, suas observações e sugestões.

ZOOTECNIA: COMO FORMAR UM PROFISSIONAL DINÂMICO E ATUALIZADO? COORDENADORES DE CURSOS E CFMV DEBATEM O ASSUNTO Marcio Andrei

Para atingir os objetivos de mercado, o Zootecnista não pode prescindir de uma formação sólida e de reunir qualidades como dinamismo, adaptação às demandas de mercado e consciência da necessidade de aprender e se aperfeiçoar constantemente. Mas como formar um profissional com esse perfil? O assunto foi discutido no I Seminário Nacional de Ensino de Zootecnia, realizado de 23 a 25 de maio, no Centro Cultural de Exposições Ruth Cardoso, em Maceió-AL. O seminário, organizado pela Comissão Nacional de Ensino de Zootecnia (CNEZ) do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) fez parte do maior evento da Zootecnia brasileira, o Zootec 2011.

Médicos Veterinários e Zootecnistas Cadastrem-se em www.cfmv.gov.br e recebam semanalmente, em seu endereço eletrônico, notícias do CFMV.

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D e s ta q u e s MAIOR PRÊMIO NACIONAL DA ZOOTECNIA É DO PARÁ Marcio Andrei

(CFMV) – dia 24 de maio, em Maceió-AL, como parte da programação do evento Zootec 2011.

O maior prêmio da Zootecnia no Brasil foi entregue a um profissional atuante na região Norte. O pesquisador José Ribamar Felipe Marques , da Embrapa Amazônia Oriental, recebeu o Prêmio Professor Octávio Domingues – outorgado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária

Sobre o Vencedor Ele é Zootecnista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (1974). Possui mestrado em Produção Animal pela Universidade Federal de Minas Gerais (1984), doutorado em genética na Universidade Estadual Paulista (1991) e pós-doutorado em biologia e genética molecular pela Universidade de Córdoba, na Espanha (2006). Marques coordena o Núcleo de Conservação de Recursos Genéticos Animais da Amazônia Oriental, localizado na lha do Marajó, em Salvaterra. É líder de um projeto que coloca a Amazônia no centro da pesquisa com conservação genética animal no País ao estudar raças de grande porte que estão em risco de extinção em diversas regiões do Brasil.

CFMV INICIA PROGRAMA DE CONSULTORIA AOS CURSOS DE MEDICINA VETERINÁRIA PELA UNESP DE BOTUCATU Em março foi realizada a primeira de uma série de visitas que estão sendo feitas em 2011 pelo Conselho de Federal de Medicina Veterinária (CFMV) a alguns cursos de Medicina Veterinária do País que aderiram,voluntariamente, ao programa de consultoria oferecido pelo Conselho. O CFMV se propõe a fazer uma análise do projeto pedagógico das instituições interessadas pela consultoria por meio de sua Comissão Nacional de Ensino da Medicina Veterinária (CNEMV/CFMV), culminando na elaboração e entrega de um parecer conclusivo de sugestões às escolas. O documento final elaborado pelo CFMV tem o intuito de contribuir para o aprimoramento dos cursos na área. A primeira universidade a candidatar-se voluntariamente ao programa do CFMV foi a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, uma instituição modelo e pioneira na educação veterinária. Nos dois dias de visita à instituição houve várias reuniões dos membros do CNEMV/CFMV com docentes, coordenadores e alunos, e ampla troca de experiência entre todos.

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As escolas interessadas em aprimorar a qualidade do ensino da Medicina Veterinária podem solicitar, voluntariamente, a participação no programa oferecido pelo CFMV. Previamente, as instituições de ensino superior preencherão um cadastro e enviarão o programa pedagógico para apresentação. Em seguida, dois integrantes da Comissão visitarão a instituição para que seja feito um diagnóstico em conjunto com a equipe local definida com objetivo de se desenhar um plano de ação. Não há custo para a instituição e garante-se o sigilo das informações tratadas. Arquivo CFMV

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MÉDICOS VETERINÁRIOS E ZOOTECNISTAS GANHAM MAIS FORÇA NO CONGRESSO NACIONAL Arquivo CFMV

Atento à defesa dos interesses dos Médicos Veterinários e Zootecnistas e à ampliação da representatividade dessas profissões no Poder Legislativo, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) instituiu sua Comissão Nacional de Assuntos Políticos (Conap). A posse dos membros foi realizada em 19 de abril. Dentre outras atribuições, a Comissão irá auxiliar a assessoria parlamentar do CFMV

na supervisão, orientação e controle das atividades relacionadas ao acompanhamento de matérias legislativas e outros assuntos de interesse do CFMV junto ao Congresso Nacional. Para o presidente do CFMV, Benedito Fortes de Arruda, a Conap é um sonho que finalmente está sendo realizado. “Faremos um trabalho de aproximação às lideranças políticas do Congresso, prospecção de proposituras e de triagem. Vamos defender o interesse dos Médicos Veterinários e Zootecnistas nas duas Casas do Congresso Nacional”, afirma Arruda. Os membros da Conap são os Médicos Veterinários Geraldo Marcelino do Rêgo, do Rio Grande do Norte, Júlio Otávio Barcellos, do Rio Grande do Sul, Ricardo Pedroso Oaigen, do Pará, e Nilton Abreu Zanco, de São Paulo.

SEMINÁRIO DE SAÚDE PÚBLICA VETERINÁRIA MOSTROU MAIS UMA VEZ A RAZÃO PELA QUAL É UM DOS EVENTOS MAIS RESPEITADOS DA ÁREA De 11 a 13 de maio, aconteceu na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, PR, mais uma edição do Seminário de Saúde Pública Veterinária, sob o eixo temático “ O Médico Veterinário na Saúde Pública”. O evento foi organizado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária por meio de sua Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária (CNSPV), com o apoio da Universidade Federal do Paraná – UFPR. Ele fez parte da comemoração aos 80 anos da Medicina Veterinária na universidade. Foram três dias de palestras, discussões e trabalhos em grupo. O evento foi assistido, ao vivo, por internautas em todo o País, que enviaram perguntas, que foram respondidas, instantaneamente, pelos palestrantes. Os principais

temas abordados foram: a importância do Médico Veterinário na Vigilância Sanitária; as doenças como Dengue, Tuberculose, Leishmaniose e Leptospirose; a Medicina Veterinária do coletivo; a unidade móvel de esterilização; a educação em saúde; o controle da população animal em área urbana, dentre outros. Arquivo CFMV

Receba via Twitter notícias do Conselho Federal de Medicina Veterinária - CFMV e informações de importância para a Medicina Veterinária e Zootecnia. Também é realizada a transmissão em tempo real de eventos organizados por esse Conselho. Para seguir o CFMV, procure, no Twitter, por CFMV_oficial. Siga-nos!

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SuplementoCientífico Hepatite Infecciosa Canina: Relato de Casos Leandro Zuccolotto Crivelenti / Daniel Gumiero Duarte / Aline Adriana Bolzan Cristiane dos Santos Honsho / Alexandre Martini de Brum

Métodos de Obtenção de Amostras e Técnicas de Coloração para Diagnósticos Citológicos Realizados no Hospital Veterinário de Uberaba: Estudo Retrospectivo Tatiane Furtado de Carvalho / Joely Ferreira Figueiredo Bittar Humberto Eustáquio Coelho / Ricardo Lopes Cruz / Hélio Alberto

Indicadores de Prescrição e de Interações Medicamentosas no Hospital Veterinário Dr. Halim Atique – Unirp Tábata Salum Calille Atique / Ana Gabriela dos Reis / Gabriel David de Souza Paula Mateus Guimarães /Adriana Antonia da Cruz Furini / Halim Netto Atique / Alan Peres Ferraz Melo

REVISTA DO CFMV - Brasília - DF - Ano XVII - N° 53 - 2011 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA SIA – Trecho 6 – Lotes 130 e 140 Brasília-DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 Fax: (61) 2106-0444 www.cfmv.gov.br cfmv@cfmv.gov.br DIRETORIA EXECUTIVA Presidente

Benedito Fortes de Arruda Vice-Presidente

Eduardo Luiz Silva Costa Secretário-Geral

Joaquim Lair

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Tesoureiro

Amilson Pereira Said Editor da Revista CFMV

Ricardo Junqueira Del Carlo CRMV-MG nº 1759

Conselho Editorial da Revista CFMV

Presidente

Eduardo Luiz Silva Costa

CRMV-SE nº 0037

Joaquim Lair

CRMV-GO nº 0242

Amilson Pereira Said CRMV-ES nº 0093

Comitê Científico da Revista CFMV

Presidente

Cláudio Lisias Mafra de Siqueira CRMV-MG nº 5170

Luis Augusto Nero CRMV-PR nº 4261

Flávio Marcos Junqueira Costa CRMV-MG nº 5779

Antônio Messias Costa CRMV-PA nº 0722

Celso da Costa Carrer CRMV-SP nº 0494/Z

Luiz Fernando Teixeira Albino CRMV-MG nº 0018/Z

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suplemento científico

HEPATITE INFECCIOSA CANINA: RELATO DE CASOS infectious canine hepatitis: case report Resumo A hepatite infecciosa canina, ocasionada pelo adenovírus tipo I é encontrada mais frequentemente em animais jovens, porém animais não vacinados de qualquer idade podem ser acometidos. Trata-se de uma doença pouco relatada devido à dificuldade de diagnóstico e ausência, em alguns casos, de sinais característicos. Palavras-chave: cães, adenovírus tipo I, olho azul

Abstract The infectious canine hepatitis caused by adenovirus (CAV-1) is more frequently forward in young dogs, however nonvaccinated adult dogs may be attacked. It’s belived that it is a rare disease due to the difficulty in diagnosing and absence, in some cases, of the characteristics signals. Keywords: dogs, adenovirus type I (CAV-1), blue-eye

INTRODUÇÃO O adenovírus tipo I (CAV-1) é o agente etiológico da hepatite infecciosa canina (HIC) e pode afetar membros da família Canidae (Bass et al., 1980), ursidae (Greene, 2006) e ocasionalmente gambás (Mephitis mephitis) (Karstad et al., 1975). Difere genética e antigenicamente do CAV-2, wA doença apresenta distribuição mundial (Nelson e Couto, 2006) e sua forma natural pode apresentar curso superagudo e agudo, enquanto a forma crônica é mais observada em casos de infecção experimental (Bass et al., 1980; Teixeira et al., 2008). No Brasil, são escassos os relatos e pouco se sabe sobre sua prevalência (Dezengrini et al., 2007; Hagiwara et al., 2010). Podem ser encontrados sinais como apatia, anorexia, febre, vômito, diarréia sanguinolenta, dor abdominal, traqueíte, pneumonia (Decaro et al., 2008), icterícia, anormalidades neurológicos e oculares (Bass et al., 1980), linfoadenomegalia, petéquias e diáteses hemorrágicas, ocorrendo evolução para óbito em 10% a 30% dos casos (Decaro et al., 2008). A infecção pelo CAV-1 ocorre por via oronasal, havendo multiplicação primária nas tonsilas e linfonodos regionais, posteriormente afeta células do Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

endotélio vascular e do parênquima hepático, cuja replicação viral é responsável pela sintomatologia clínica (Nelson e Couto, 2006). O virús também apresenta afinidade pelo endotélio vascular do parênquima renal (Decaro et al., 2008) e córnea. Nos rins, inicialmente ocorre lesão nos glomérulos e, posteriormente, com a colonização intersticial e tubular, desenvolve-se nefrite intersticial (Newman et al., 2007). A colonização e a replicação viral na córnea ocorre em 20% dos casos, levando a edema corneano intenso e/ou uveite, resultando em aparência opaca branco-azulada, responsável pelo chamado “olho azul”, característico dessa doença (Gelatt, 2003). Essas alterações podem decorrer da multiplicação viral nas células do endotélio corneano e a deposição de imunocomplexos, mas devem ser diferenciadas de reações vacinais que contenham o vírus CAV-1 vivo modificado (Greene, 2006). Na necropsia, observa-se geralmente, congestão hepática com coloração marrom-amarelada, salpicado com pequenas áreas de cor enegrecida. A vesícula biliar edematosa, de cor acinzentada ou branca azulada. Já em menor escala pode-se observar iridociclite, edema corneal e uveíte não granuloma-

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suplemento científico tosa apenas no segmento anterior (Cullen e Webb, 2007; Decaro et al., 2008), assim como hemorragias cerebrais, abdominais e edema de linfonodos mesentéricos (Inkelmann et al., 2007). Na histopatologia pode-se observar necrose hepática e das células do epitélio tubular renal (Karstad et al., 1975). O diagnóstico pode ser realizado na histopatologia pela detecção de corpos de inclusão intranuclear acidofílicos em hepatócitos (Karstad et al., 1975; Inkelmann et al., 2007), pela reação de cadeia de polimerase (PCR) (Hu et al., 2001), imunoistoquímica (Caudell et al., 2005), sorologia, por isolamento viral por meio de inoculação do fluido proveniente do fígado em cultura de células renais de cães e técnica de imunofluorescência, porém esses dois últimos não são capazes de distinguir o CAV-1 do CAV-2 (Decaro et al., 2008). Entretanto, quando não existe a possibilidade de realizar os exames supracitados deve-se realizar diagnóstico diferencial para outras enfermidades. O tratamento é primariamente de suporte, para permitir a regeneração dos órgãos afetados, devendo-se corrigir quaisquer alterações, dentre elas desidratação, anemia e hiperamonemia, essa última atribuída aos graves danos hepáticos; (Greene, 2006; Decaro et al., 2008). Os animais infectados podem eliminar o vírus pela urina durante seis a nove meses após a infecção (Decaro et al., 2008). Trata-se de um vírus muito resistente no meio ambiente, capaz de sobreviver a vários produtos químicos, como clorofórmio, éter e formalina. É inativado pelo calor depois de 5 minutos a 50-60°C ou produtos químicos como o iodo, fenol e hidróxido de sódio (Greene, 2006). A prevenção é a forma mais segura contra a doença, com protocolo de vacinação da gestante e dos filhotes, em esquema vacinal padrão realizado pelo Médico Veterinário (Greene, 2006). Este artigo tem o objetivo de abordar, mediante relato de três casos de hepatite infecciosa canina, diferentes metodologias diagnósticas, tratamentos e complicações dessa doença pouco frequente na rotina clínico-veterin��ria.

MATERIAL E MÉTODOS CASO 1 Canino, macho, SRD, dois meses de idade, 2,8kg, uma dose vacinal (V8) não realizada por intermédio de Médico Veterinário, vermifugado há 20 dias. Foi consultado no Hospital Veterinário da Universidade

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de Franca (Unifran), com histórico de “olho azul” dez dias após receber a vacinação. Ao exame físico o animal demonstrou leve sensibilidade dolorosa à palpação abdominal na região epimesogástrica (Figura 1- A e B). Arquivo do autor

A

B

Figura 1. Hepatite Infecciosa Canina. A e B. Evidência de edema corneano. Caso 1.

À avaliação hematológica, observou-se anemia normocítica normocrômica regenerativa e discreta leucocitose. As enzimas hepáticas apresentaram, após dez dias, aumento importante de suas atividades séricas (384U/L de alanina-amino transferase -ALT e 1.733U/L de fosfatase alcalina – ALP, para 1.112U/L e 1.476U/L, respectivamente). O exame de reação em cadeia de polimerase (PCR) foi positivo para o vírus da CAV-1, de hepatite infecciosa canina. Foi instituído o uso oftálmico de acetato de prednisona 1% a cada 6 horas durante 15 dias. Ademais, por via oral silimarina 12mg/kg, a cada 8 horas, e Vitamina E 200mg, a cada 24 horas, até novas recomendações. Decorridos 15 dias, o animal apresentava secreção nasal, anorexia, desidratação, ataxia e headpress. A radiografia da região torácica evidenciou broncoRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


pneumonia, associada a uma leucocitose intensa. O PCR para o vírus da cinomose resultou negativo. Além do tratamento inicial, o animal passou a receber fluidoterapia com solução de Ringer Simples, antibioticoterapia com Amoxicilina + Clavulanato de Potássio 25mg/kg, a cada 12 horas, e enemas com lactulose e solução fisiológica aquecida. Porém, em poucos dias houve piora e, após episódios de crises convulsivas constantes e grave debilidade geral, o proprietário optou pela eutanásia.

CASO 2 Canino, fêmea, SRD, três meses de idade e 4,4kg, não vacinado, nem vermifugado, foi consultado no hospital veterinário da Universidade de Franca (Unifran) com histórico de hiporexia, êmese e opacificação corneana (“olho azul”) com déficit visual há 20 dias, além de diarréia e hematoquesia, durante 7 dias. Ao exame físico observaram-se mucosas hipocoradas e ictéricas, desidratação moderada e forte sensibilidade na região epimesogástrica (Figuras 2 e 3). O exame coproparasitológico resultou negativo, porém os hematológicos mostraram anemia normocítica normocrômica regenerativa e discreta leucocitose por neutrofilia. As enzimas hepáticas apresentaram aumento significativo de suas atividades séricas, sendo a alanina-aminotransferase (ALT) 983,5 UI/L e fosfatase alcalina (ALP) 2.040 UI/L. Diante do quadro, foi realizado swab retal para realização de teste para parvovirose por meio do

método imunocromatográfico monoclonal anti-CPV (Anigen®) com resultado negativo. O tratamento consistiu em cimetidina (5mg/kg), metoclopramida (0,3mg/kg), metronidazol (10mg/ kg), ampicilina (22mg/kg) e cloridrato de tramadol (2mg/kg), todos a cada 12 horas, além de terapia antioxidante para hepatoproteção com N-acetilcísteina, 140mg/kg (dose inicial), seguida de 70mg/kg, três vezes ao dia, durante os 5 dias em que o animal ficou internado. Após a melhora do quadro clínico e laboratorial (ALT = 142, FA = 1144), o animal recebeu alta hospitalar. Foram prescritos quatro dias adicionais de ampicilina na mesma dosagem e colírios de prednisolona (1 gota a cada 8 horas) e de atropina 1% (1 gota a cada 8 horas), ambos durante 15 dias para posterior reavaliação. Após 2 meses do tratamento, o animal apresentou remissão dos sinais clínicos, persistindo leve opacificação corneana .

CASO 3 Canino, macho, oito meses de idade, 5kg, não vacinado e nem vemifugado. Foi consultado no Hospital Veterinário da Universidade de Franca (Unifran) com histórico de anorexia e secreção ocular purulenta há 3 dias, com súbito aparecimento de edema corneano em ambos os olhos e com déficit visual no dia da consulta. O exame físico mostrou mucosas hipocoradas e sensibilidade moderada na região epimesogástrica. Arquivo do autor

Figura 2 . Hepatite Infecciosa Canina. Evidência do edema corneano. Caso 2.

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suplemento científico Arquivo do autor

Figura 3 . Hepatite Infecciosa Canina. Evidência do edema corneano. Caso 2.

Exames hematológicos evidenciaram leve anemia normocítica normocrômica e trombocitopenia moderada. As enzimas hepáticas apresentaram aumento significativo de suas atividades séricas, sendo a alamina-aminotransferase (ALT) 356,3 UI/L e fosfatase alcalina (FA) 1186 UI/L. O exame de reação em cadeia de polimerase (PCR) para pesquisa do vírus CAV-1 resultou positivo. Como tratamento instituiu-se antibioticoterapia preventiva com Sulfametoxazol + Trimetoprim, 15 mg/kg, a cada 12 horas, durante 15 dias, Vitamina E, 200mg/kg, a cada 24 horas durante 20 dias, Silimarina, 10mg/kg, a cada 12 horas durante 20 dias e uso oftálmico de Acetato de Prednisolona 1%, a cada 8 horas, por 15 dias. Após 3 dias de tratamento, o animal apresentou melhora clínica, sem aparente edema corneal, evoluindo para cura.

DISCUSSÃO O vírus da HIC (CAV-1) pertence à família Adenoviridae (Morrison et al., 1997) e assim como as demais causas de hepatite primária, causada por micro-organismo infeccioso, parece ser incomum entre caninos (Nelson & Couto, 2006). Os achados clínicos e laboratoriais, assim como os epidemiológicos corroboram com os da literatura que relata que a HIC é habitualmente mais severa em animais com idade inferior a 1 ano (Inkelmann et al., 2007; Decaro

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et al., 2008), evoluindo para edema corneano persistente e, eventualmente, para o óbito (Greene, 2006). Os casos superagudos evoluem para colapso e morte tão rapidamente que se suspeita, com frequência, de envenenamento. Contrariamente, o “olho azul” repentino, pode constituir a única indicação de infecção em alguns cães (Swango, 1997; Decaro et al., 2007). Nos três casos foi evidente a opacificação ocular e sensibilidade dolorosa abdominal previamente aos outros sinais clínicos, mostrando serem importantes parâmetros a serem avaliados. Alguns autores consideram o“olho azul”como um sinal prognóstico favorável, pois indica o desenvolvimento de intensa resposta imune (Nelson & Couto, 2006), porém uveítes severas e edemas corneanos podem se agravar, e em alguns casos, suscitar o aparecimento de glaucoma. Ademais, a glomerulonefrite decorrente da massiva deposição de imunecomplexos ocasiona proteinúria persistente e lesões renais (Greene, 2006). Geralmente, os sinais neurológicos são raros e grande parte deles são derivados da hiperamonemia ou do tropismo viral pelos vasos sanguíneos cerebrais (Caudell et al., 2005). Podem aparecer em qualquer fase da doença, desencadeando depressão, desorientação, convulsão e coma terminal (Greene, 2006). Nos animais deste relato, foram realizados testes para comorbidades de acordo com a sintomatologia clínica predominante, visto que a coexistência com outras doenças como traqueobronquite infecciosa canina (CAV-2) (Hagiwara et al., 2010), cinomose, coronavirose, parvovirose e leptospirose aumentam o índice de mortalidade e podem acrescentar ou acentuar os sinais já existentes (Decaro et al., 2007). O quadro de leucopenia por netropenia e linfopenia é geralmente encontrado no início da doença, com posteriores neutrofilia e linfocitose (Greene, 2006; Decaro et al., 2008), que podem estar correlacionados com piores prognósticos como foi observado nos casos 1 e 2 , que apresentavam leucocitose inicial discreta. Manifestações hemorrágicas foram observadas no animal 2 que cursou com hematoquesia, apesar de não apresentar trombocitopenia (Decaro et al., 2008). As enzimas hepáticas como alanina aminotransferase (ALT), fosfatase alcalina (ALP) aspartato aminotransferase (AST) apresentam importantes aumentos nas suas atividades séricas, indicando presença de necrose hepática. Tais atividades tendem a aumentar nos primeiros 14 dias de infecções pelo CAV-1 e, posteriormente declinar. Entretanto, há animais que exibem recorrência das elevações e desenvolvem hepatite ativa crônica (Greene, 2006; Decaro et al., 2008). Tal descrição é compatível com os relatos Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


aqui descritos. No primeiro caso verificou-se um rápido aumento dessas enzimas mesmo com tratamento, ilustrando a evolução do quadro, enquanto os cães do 2° e 3° casos, já se encontravam com grandes elevações dessas enzimas no momento do atendimento clínico, e mostraram acentuada diminuição dessas atividades durante a segunda avaliação, evidenciando provável resolução da doença. Diante desses achados, considera-se que a avaliação das enzimas hepáticas sejam parâmetros importantes na monitoração e acompanhamento desses pacientes. Entretanto, deve-se lembrar que em filhotes, o aumento da ALP pode ser decorrente do crescimento ósseo, e, desse modo, é importante que a interpretação dos exames laboratoriais estejam condizentes com a clínica do animal (Nelson & Couto, 2006). Há uma relação antigênica entre o CAV-1 e o CAV2, e esses proporcionam imunidade por proteção cruzada (Gelatt, 2003). As vacinas podem ser produzidas por cepas CAV-2, e CAV-1 inativa, diminuindo as reações renais (Bass et al., 1980; Hu et al., 2001) e oculares pós-vacinais (Gelatt, 2003). Suspeita-se que a resposta

imunológica conferida ao paciente do caso 1 tenha sido insatisfatória em decorrência de falha vacinal. A reação em cadeia de polimerase (PCR) é o método mais fidedigno para detecção do CAV-1, (Kiss et al., 1996), no entanto, seu custo ainda a torna pouco acessível. Sendo assim, devem ser realizados testes laboratoriais indicativos de comprometimento das funções hepato-renais e hemograma nos cães com suspeita clínica de HIC, na ausência do PCR (Swango, 1997). Partindo desse princípio, os achados de hiporexia, êmese, edema corneano, diarreia, hematoquesia, icterícia, desidratação e sensibilidade abdominal em um animal jovem e não vacinado, associados às alterações significativas das enzimas hepáticas permitiu o diagnóstico de HIC. No caso 1, a realização do PCR foi importante para possibilitar a diferenciação entre as reações vacinais e a doença clínica, apesar de a maioria das vacinas atuais utilizarem o CAV-2, os quais não conferem complicações oculares (Hagiwara et al., 2010). O manejo clínico do paciente com HIC é primariamente sintomático e de suporte. Pode-se utilizar medicações antioxidantes com o propósito de hepatopro-

Dados dos Autores

Leandro Zuccolotto Crivelenti

Médico Veterinário, CRMV-SP n° 22.038, Mestrando em Clínica Médica de Pequenos Animais da Universidade Estadual Paulista-Jaboticabal (Unesp).

Endereço para correspondência: Av. Pedro Marques n° 235. Jd Universitário, Jaboticabal-SP. CEP: 14822-222. E-mail: crivelenti_lz@yahoo.com.br

Daniel Gumiero Duarte

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 22.736 Residente em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais pela Universidade de Franca – Unifran.

Aline Adriana Bolzan

Médica Veterinária, CRMV-SP n° 8.025, Professora Doutora do Departamento de Cirurgia da FMVZ/USP. E-mail: alinebolzan@usp.br.

Cristiane dos Santos Honsho

Médica Veterinária, CRMV-SP nº 10.792. Professora do curso de Medicina Veterinária da Universidade de Franca. E-mail: crishonsho@yahoo.com.br

Alexandre Martini de Brum

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 15.965, Professor da Universidade de Franca.

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suplemento científico teção tais como a silimarina, a qual tem a capacidade de estabilização de membrana, efeitos antifibrótico, anti-inflamatório e de regeneração hepática (Radko e Cybulski, 2007). Vitamina E e N-acetilcisteina podem ser usadas na tentativa de diminuição da fibrose e para inibição da apoptose (León-Buitimea et al., 2006). Em casos de hiperamonemia, deve ser realizado enemas ácidos (ex.: Dropad A8 lactulose) juntamente com a administração oral de antibióticos não absorvíveis (ex.: Dropad A8 neomicina) para diminuição das bactérias intestinais e reduzir absorção intestinal da amônia. O ácido ascórbico pode ser usado também para acidificação urinária, com o propósito de diminuir a reabsorção renal de amônia (Greene, 2006). A avaliação da amônia, apesar de não ser rotineira, é uma importante ferramenta que pode auxiliar na diferenciação de hemorragia cerebral ou outros quadros neurológicos. A baixa prevalência dessa enfermidade em países desenvolvidos, provavelmente, deva-se à ampla utilização de vacinação profilática (Lértora e Burna, 2003; Decaro et al., 2008). Já no Brasil, acredita-se que seja uma doença pouco relatada devido à dificulda-

de de seu diagnóstico e ausência, em alguns casos, de sinais característicos como o “olho azul”. Ademais, a dificuldade em se estabelecer a real prevalência da doença, talvez, deva-se ao alto custo dos exames necessários à confirmação da suspeita diagnóstica e por alguns animais apresentarem morte súbita.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A HIC é uma doença viral cujo tratamento é basicamente sintomático, normalmente com remissão dos sintomas poucos dias após iniciada terapia, entretanto, podendo, em alguns casos, evoluir para o óbito ou persistência de edema corneano. No Brasil, a conscientização da população quanto à imunoprofilaxia ainda é insuficiente se comparado a países mais desenvolvidos, e mesmo assim a HIC possui escassos relatos. Talvez isso seja um reflexo do subdiagnóstico da doença pelos médicos veterinários. Sendo assim, sugere-se que a HIC deve ser considerada como diagnóstico diferencial em animais com sinais clínicos pouco específicos e com alterações hepáticas.

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MÉTODOS DE OBTENÇÃO DE AMOSTRAS E TÉCNICAS DE COLORAÇÃO PARA DIAGNÓSTICOS CITOLÓGICOS REALIZADOS NO HOSPITAL VETERINÁRIO DE UBERABA: ESTUDO RETROSPECTIVO Detail collection and stain techniques of cytopathological samples in veterinary hospital of uberaba, Brazil Resumo Um estudo retrospectivo de citologia em 250 cães atendidos no Hospital Veterinário de Uberaba, demonstrou grande incidência de afecções oncológicas. Foram diagnosticados 41,2% (103/250) dos casos como processos inflamatórios, não neoplásicos e diagnósticos inconclusivos, no período de 2006 a 2009. Nesses respectivos anos 18%, 12,76%, 15,49% e 40% dos 103 casos, não foi possível estabelecer um diagnóstico. Assim, o estudo retrospectivo observou alta porcentagem de diagnósticos inconclusivos, devido a fatores como inadequada forma de coleta e preparo das amostras. O objetivo deste trabalho é detalhar as técnicas de coleta e coloração para amostras citopatológicas, com a finalidade de se estabelecer um diagnóstico conclusivo. A citologia pode ser realizada com ou sem aspiração, raspados, imprints de lesões, esmagamento de tecidos, análise de lavados traqueobrônquicos e líquidos cavitários. Os métodos de coloração descritos foram “Romanowsky”, novo azul de metilino, Papanicolau, Hematoxilina – Eosina. Palavras-chave: citologia, diagnóstico citólogico, processamento histológico

Abstract A retrospective study of cytology in 250 dogs treated at the Veterinary Hospital of Uberaba, showed a high incidence of oncological diseases. Were diagnosed 41,2% (103/250) of cases as inflammatory, neoplastic and nonconclusive diagnoses in the period 2006 to 2009. In those respective years 18%, 12,76%, 15,49% and 40% of cases, could not establish a diagnosis. Thus retrospective study observed high percentage of inconclusive diagnoses, due to factors such as inadequate kind of collecting and preparing the samples. The objective of this work is detail colletion and stain techniques of cytopathological samples, in order to stabilish a conclusive diagnosis. Cytology can be performed with or without aspiration, screaped, imprints of injuries, crushing of tissues, analysis of washed and tracheobronchial fluid cavity. The methods describes of staining were “Romanowsky”, new methylene blue, Papanicolaou, hematoxylin-eosin. Keywords: cytology,cytological diagnostic, hystological processament

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suplemento científico INTRODUÇÃO A citologia foi introduzida na rotina veterinária brasileira, apresentando maior destaque a partir da década de 1990 (Guedes, 2000). O exame consiste no estudo morfológico de células livres ou isoladas de múltiplos tecidos, órgãos e fluidos e possui grande valor diagnóstico, pois as alterações das células naturalmente descamadas ou retiradas artificialmente, podem representar modificações estruturais e celulares do tecido subjacente (Bracarense & Reis, 1997; Raskin & Meyer, 2003). O emprego dessa técnica mostra-se eficiente para diagnóstico de desordens neoplásicas, hiperplásicas, inflamatórias e degenerativas, além de auxiliar na identificação de agentes infecciosos (Guedes, 2000 ; Rocha, 2008). O exame citológico é de grande importância dentre os métodos de diagnóstico de neoplasias em animais de companhia, pois é relativamente não invasivo, seguro, simples, de baixo custo, apresenta rapidez na determinação do resultado e pode ser realizado em diversas situações clínicas, tornando-se uma extensão do exame físico (Lever et al., 1985; Wellman, 1996). Os clínicos estão de frente com a responsabilidade de não apenas coletar uma amostra adequada e representativa, mas devem também preparar as lâminas que serão examinadas. Como as células a serem examinadas não são visíveis a olho nu durante a coleta da amostra e no preparo da lâmina, geralmente é difícil dizer se foi obtida uma amostra adequada no momento da coleta (Cowell et al., 2009). A coloração da lâmina ou a técnica de coloração da lâmina também contribui para o diagnóstico.

A coleta e o preparo de amostra citológica são habilidades alcançadas com experiência e refinamento da técnica. Muitos clínicos ficam compreensivelmente frustrados quando uma amostra enviada para a análise não é diagnóstica. Felizmente, com o entendimento de alguns princípios básicos de coleta de amostra e familiaridade com algumas das falhas mais comuns relacionadas à preparação de amostras citológicas, podem-se eliminar muitos resultados não diagnósticos (Meyer, 2001; Cowell et al., 2009). A aspiração citológica bem-sucedida depende de vários procedimentos inter-relacionados, como: obtenção de uma amostra representativa, aplicação adequada à lâmina, coloração apropriada e utilização de um microscópio de qualidade. A deficiência em um ou mais desses procedimentos influencia negativamente nas muitas informações diagnósticas (Raskin e Meyer, 2003). O objetivo deste trabalho foi detalhar as técnicas de coleta e os métodos de coloração das amostras citopatológicas, com a finalidade de obter maior sucesso no diagnóstico citológico.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados exames citológicos realizados pelo serviço de Patologia Animal do Hospital Veterinário de Uberaba, no período de 2006 a 2009, provenientes de cães e gatos atendidos pelo serviço de Clínicas e Cirurgia de Pequenos Animais do HVU. As informações foram classificadas quanto a sua origem em neoplasias cutâneas epiteliais, mesenquimais e arredondadas. Um grupo à parte foi clasTatiane Furtado de Carvalho sificado como “Outros”, incluindo neste os processos inflamatórios, não neoplásicos e diagnósticos inconclusivos. As amostras foram coletadas pelo método que mais se adaptava ao tecido lesado, utilizando a punção aspirativa com agulha fina (PAAF), raspados, “imprints” de lesões, esmagamento de tecidos, análise de lavados traqueobrônquicos e líquidos cavitários. O material então era corado utilizando “Qiff-quik”ou panótico.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Figura 1. Esfregaço de um tumor venéreo transmissível. As células do TVT são caracterizadas pela presença de vários vacúolos claros citoplasmáticos. Coloração Panótica. Aumento 100x.

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Foram realizados 250 exames citológicos, e em 2006, 2007, 2008 e 2009 foram realizados respectivamente 50, 94, 71 e 35 exames citológicos. Em 2006 tiveram Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


Tatiane Furtado de Carvalho

52% (26/50) de neoplasias de células redondas; em 2007, 42,53% (40/94); em 2008, 12,68% (9/71) e, em 2009, um total de 25,72% (9/35). As neoplasias epiteliais nesses anos representaram 12% (6/50), 7,44% (7/94), 12,68% (9/71) e 5,72% (2/35), respectivamente. As neoplasias de origem mesenquimais representaram 4% (2/50), 6,37% (6/94), 9,87% (7/71) e 5,72% (2/35), respectivamente. As neoplasias mistas representaram 5,32% (5/94) dos casos registrados em 2007 e em 2008, 9,86% (7/71). No presente estudo, os tumores de células redondas constituíram 33,6% (84/250) do total de diagnósticos, seguidos pelos epiteliais com 9,6% (24/250), mesenquimais Figura 2. Aspirado de um melanoma cutâneo canino intensamente pigmentado. Na maioria das células intactas, os detalhes celulares estão obscurecidos com 6,8% (17/250), neoplasias mistas 4,8% pela pigmentação, impossibilitando a avaliação dessas células. Há grande (12/250), neoplasias benignas com 4% quantidade de grânulos de malanina livres no fundo do esfregaço. Coloração (10/250). Diagnósticos citológicos de outros Panótica. Aumento 100x. processos de disfunção celular juntamente com neoplasias, cuja diferenciação não foi possível apeda amostra também são de fundamental importância nas por meio do exame citológico, totalizaram 41,2%. para o sucesso da citopatologia (Cunha, 1987; Meyer, Outros processos de disfunção celular, que tive1987), cuja precisão pode variar de 63% a 97%, depenram a ocorrência em 2006, representaram 32% dos dendo do tipo e da localização da neoplasia e da perícasos, sendo 18% de diagnósticos inconclusivos. cia do citopatologista (Mills & Griffiths, 1984). Em 2007, representaram 29,76%, sendo 12,76% As principais complicações da coleta para citodiagnósticos inconclusivos. Em 2008, 52,12%, senpatologia são hemorragia, infecção, injúria ao tecido do 15,49% diagnósticos inconclusivos. E, em 2009, adjacente e disseminação de células neoplásicas, representou 60,01% dos casos, sendo 40% diagnóstifatos considerados raros (Wellman, 1996). cos inconclusivos. Tvedten (1994) confirma algumas limitações da Esses diagnósticos inconclusivos foram devicitopatologia como método diagnóstico. A abordados a diversos fatores, dentre eles erros na coleta gem por ele defendida relaciona-se à descrição da e coloração inadequada, interferindo de maneira neoplasia, que não é específica, sendo tão somente significativa na qualidade da amostra enviada para reconhecida como um carcinoma ou sarcoma. o diagnóstico. Assim como relatado por O’Rourke Estudos demonstram que a utilização da citolo(1983) e Cowell & Tyler (1989a), os erros de diagnóstigia tem seus pontos fortes e fracos, sendo mais co relacionam- se também aos problemas de coloraindicada no diagnóstico de lesões cutâneas e ção. Pode-se confeccionar amostras muito ou pouco subcutâneas, principalmente neoplásicas, apresencoradas, ou coradas de forma irregular e, em alguns tando menor acurácia em diagnosticar lesões de casos, com presença de precipitados ou outros tipos órgãos internos como o fígado (Cowell & Tyler, 1993; de artefatos refráteis, que dificultam a avaliação. Cohen et al., 2003). Segundo Graça (2007), o resultado de um teste De acordo com Cowell & Tyler (1989a,b), a técnica laboratorial é tão bom quanto a qualidade da amospara obtenção de espécimes e preparação de lâminas tra enviada. Na hora da coleta de material, as chances varia conforme a localização anatômica e as caractede obtenção de amostra significativa na coleta, a rísticas do tecido neoplásico, do animal e das anormaaplicação correta do material nas lâminas, utilização lidades clínicas desencadeadas pela neoplasia. de corante adequado e avaliação com um microscóAs técnicas utilizadas neste estudo estão de acorpio de boa qualidade. do com as relatadas pelos autores Susaneck (1983), Na experiência de O’Rourke (1983), Meyer & Cowell & Tyler (1989a), Moriello & Rosenthal (1990), Franks (1986a), a segurança da informação obtida Wellman (1996) e Montes (1997), que relataram que pela citopatologia depende da qualidade da técnica e amostras podem ser obtidas de diversas maneiras, confecção das lâminas. A coloração e a interpretação por meio de aspirados com agulha fina (PAAF), da Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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suplemento científico impressão de tecidos sólidos (“imprint”), “swab” e da técnica esfoliativa. A técnica de PAAF consiste no isolamento manual do campo a ser incidido e na introdução de uma agulha fina (calibre 20, 23 ou 25) acoplada a uma seringa estéril de 10 a 20ml. Ela é introduzida 3 a 4 vezes, em pontos diversos do nódulo ou massa tumoral, mantendo a pressão de 6 a 8ml, no interior da seringa. Antes de ser removida, deve-se liberar a pressão de dentro da seringa, retornando o êmbolo à posição inicial. O espécime é, então, colocado sobre lâmina seca e limpa, confeccionando-se o esfregaço em, no mínimo, três lâminas (Seybold et al., 1982; O’Rourke, 1983; Mills e Griffiths, 1984; Allen e Prasse, 1986; Meyer, 1987; Cowell e Tyler, 1989; Couto, 1994; Peterson e Couto, 1994; Ogilvie e Moore, 1995; Guedes et al., 1997; Montes, 1997). Já nos casos de osteocondrossarcomas ou osteossarcomas, o emprego de agulha calibre 40 x 12 permite obter-se material mais adequado para análise citopatológica, visto tratar-se de neoplasias de consistência dura e pouco esfoliativas (Ramadinha, 1996). A técnica de comprimir o material entre lâminas é contraindicada, principalmente, em aspirados de linfonodo, porquanto pode ocorrer ruptura celular (Wellman, 1990). A biópsia por agulha fina é o método mais utilizado no HVU, é provavelmente o melhor de todos os métodos para coletar amostras de qualquer formação ou lesão proliferativa, assim como para coletar amostras de qualquer órgão glandular subcutâneo, como linfonodo, glândula mamária ou salivar, sem a necessidade de sedar o animal. E de acordo com Cowell et al. (2009) é também mais indicada devido à mínima invasividade para coleta de amostra de formação ou órgãos internos e permite a coleta de células de regiões profundas das lesões, evitando a contaminação por células e organismos superficiais que geralmente atrapalham nas amostras obtidas por impressão, “swab” ou raspado. Porém, por ser usada erroneamente na rotina do HVU, a técnica de PAAF em muitos casos não permite um diagnóstico, pois as amostras coletadas apresentam grande quantidade de sangue por erro de coleta, realizando esfregaços muito espessos, que quando corados não permitem a visualização das células neoplásicas, sendo um dos motivos da alta porcentagem de diagnósticos inconclusivos em 2009, representando 40%. O método de impressão (imprint) é feito de amostras de biópsias cirúrgicas antes de estas serem fixadas em formol a 10%, sendo utilizado para neoplasias cuja formação tecidual seja bas-

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tante celular ou pouco fibrosa (O’Rourke, 1983; Meyer & Franks, 1986a). Uma das razões da alta porcentagem de diagnósticos inconclusivos, que em 2006 representou 18%; em 2007, 12,76%; em 2008, 15,49%, e em 2009, 40%, é a utilização dessa técnica em neoplasias ulceradas em que a reação inflamatória secundária inviabiliza o diagnóstico. Isso é relatado por Cowell et al. (2009),quando os esfregaços por impressão de lesões superficiais geralmente apresentam apenas células inflamatórias, mesmo que a inflamação seja um processo secundário; as células neoplásicas talvez não esfoliem em exsudatos ou em esfregaços por impressão em formações ulceradas. Se possível, uma PAAF do tecido sob a área ulcerada/exsudativa deve ser feita juntamente com o esfregaço por impressão. Inserir a agulha em uma região não ulcerada ajuda a reduzir a contaminação durante a coleta. As úlceras devem ser impressas em lâminas antes de serem limpas. Depois, a lesão pode ser limpa com uma esponja cirúrgica embebida em solução salina e novamente impressa ou escarificada (Cowell et al., 2009). A realização de esfregaços por impressão de tecidos coletados durante a cirurgia ou necropsia, está de acordo com Cowell et al. (2009), que descreveram que primeiro o tecido deve ser cortado para que uma superfície fresca seja utilizada para impressão. Depois, o excesso de sangue e fluido tecidual devem ser removidos da superfície da lesão, encostando-a em um material absorvente limpo. O excesso de sangue e fluido tecidual inibem a aderência das células teciduais ao vidro da lâmina, resultando em material de baixa celularidade. Além disso, o excesso de fluido inibe a distribuição das células de forma a assumirem o tamanho e o formato que geralmente apresentariam em esfregaços secos ao ar. Depois da remoção do excesso de sangue e fluido tecidual da superfície da lesão, o tecido é então encostado contra uma lâmina de vidro para microscopia. As lâminas bem preparadas vão apresentar as áreas impressas discretamente opacas e não devem apresentar áreas de sangue excessivamente espessas. O swab torna- se útil para colheita de amostras de tratos fistulosos o que concorda com O’Rourke (1983), Cowell & Tyler (1989b) e Montes (1997). Na rotina do HVU, geralmente, o swab é usado apenas quando outros métodos de coleta não são praticáveis como, por exemplo, para obtenção de amostras do trato vaginal ou ouvido externo ou fistulas. Segundo Cowell et al. (2009) swabs do canal externo do ouvido e de fístulas são bastante úteis para a identificação de agentes infecciosos. Se a lesão não Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


é muito úmida, aconselha-se umedecer o “swab” em solução salina estéril. Umedecer o “swab” ajuda minimizar a ruptura de células que pode ocorrer durante a coleta e preparo da amostra. Uma vez que a amostra tenha sido coletada, o “swab” é rolado gentilmente sobre a superfície da lâmina. É importante não esfregar o “swab” sobre a lâmina, porque isso geralmente resulta na ruptura de todas as células, prejudicando o diagnóstico. A citopatologia esfoliativa tem como indicação tumores fibrosos, seromas, sialoceles e cistos, ou para efusões secundárias a processos metastáticos obstrutivos, através da colheita de líquido com EDTA, seguida de centrifugação (Humason, 1962; O’Rourke, 1983; Allen & Prasse, 1986; Meyer & Franks, 1986a; Cowell & Tyler 1989a; Clinkenbeard, 1992; Ogilvie & Moore, 1995; Burkhard & Meyer, 1996). A colheita de espécimes citopatológicos da cavidade nasal pode ser realizada mediante técnicas aspirativas ou lavagem (Meyer, 1987), meio diagnóstico pouco invasivo, que, geralmente, não requer intervenção cirúrgica (French, 1987). As neoplasias do sistema reprodutor podem ser determinadas a partir da análise do fluido prostático, aspirado testicular, colpocitologia e secreção mamária, enquanto o achado celular atípico de sedimento urinário, denota envolvimento neoplásico do trato urinário (Allen & Prasse, 1986; Wellman, 1990; Vannucchi et al., 1997). A escarificação é mais valiosa para coleta de amostras de lesões cutâneas chatas e secas, para as quais não se aplica a PAAF ou a técnica de impressão, esse método é pouco utilizado na rotina da clínica do HVU. Os raspados são feitos segurando-se uma lâmina de bisturi perpendicular à lesão superficial e puxando-se a lâmina em sua direção várias vezes. Segundo Cowell et al. (2009), quando a lesão é seca e não ulcerada, como nas lesões de dermatofitose, o raspado deve ser profundo o suficiente para causar uma exsudação de soro/sangue. Esse líquido proteináceo ajudará as células coletadas a se aderirem à lâmina e evitar que elas sejam perdidas durante a coloração. O material coletado na lâmina de bisturi é transferido para uma lâmina de vidro e espalhado, gentilmente. Após coleta é necessário realizar a coloração. Para isso é necessária a fixação dos esfregaços de forma imediata para preservação da estrutura celular, conservação dos detalhes citopatológicos, podendo ser feita pelo álcool etílico ou metílico. A escolha depende do material a ser examinado, do que se pretende estudar e da técnica de coloração a ser utilizada (Humason, 1962; Cunha, 1987; Ramadinha, 1996; Piza, 1997). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

Os métodos citoquímicos baseiam-se em reações químicas dos corantes com componentes de células fixadas em lâmina, que são identificadas pelo exame microscópico (SBHH, 1975). Os corantes básicos utilizados na rotina de diagnóstico são o Romanowsky (Diff-Quick, Wright, Giemsa, May-Grünwald-Giemsa e Leishman), o Novo Azul de Metileno (NAM), o Papanicolau e a HematoxilinaEosina. Os corantes Papanicolau e Tricrômico de Sano (Papanicolau modificado) são mais amplamente utilizados em ginecologia humana (Tvedten, 1981; Meyer, 1987). O tempo de coloração está diretamente relacionado à espessura do material, o tempo em que foi confeccionado o corante e ao tipo de coloração. Cowell e Tyler (1989a) recomendam que algumas lâminas sejam armazenadas apenas fixadas para possíveis colorações subsequentes. A coloração adotada neste estudo retrospectivo foram os corantes do tipo Romanowsky, pois permitem evidenciar os detalhes nucleares e nucleolares o suficiente para a diferenciação de neoplasia e inflamação, e para a avaliação de células neoplásicas quanto às evidências citológicas do potencial maligno, além de ter a vantagem de serem baratos, prontamente disponíveis, fáceis de preparar, manter e usar. Os corantes do tipo Romanowsky são utilizados da maneira descrita por Cowell et al. (2009), em que primeiramente os esfregaços devem ser secos ao ar. Secar ao ar preserva parcialmente (fixa) as células, fazendo com que elas fiquem aderidas à lamina, de forma que não saiam durante o processo de coloração. De acordo com Burkhard e Meyer (1996), a tinção pelos corantes de Romanowsky depende um pouco mais de tempo que o NAM, porém fornece detalhes celulares e contrastes melhores entre núcleo e citoplasma, sendo também considerada como coloração permanente. Em contrapartida, os detalhes intranucleares não ficam bem definidos, segundo Allen & Prasse (1986). Quando se tem uma suspeita diagnóstica, torna-se mais fácil realizar uma coloração específica. Existem colorações que facilitam a visualização das células específicas de cada neoplasia. Porém, no HVU não são realizadas essas colorações devido aos custos e principalmente por falta de conhecimento por parte dos profissionais. O NAM é uma coloração rápida, cujos esfregaços corados não podem ser guardados para posterior consulta e o contraste de cor não é bem

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suplemento científico Tatiane Furtado de Carvalho

Figura 3. Aspirado com agulha fina de um fibrossarcoma em um cão. À direita, evidencia-se uma célula aberrante, caracterizando a natureza maligna da neoplasia. À esquerda, temos um fibroblasto, possuindo somente em uma extremidade do citoplasma a formação de uma cauda. Coloração Panótica. Aumento 100x.

marcado, evidenciando apenas núcleo e nucléolo (Ogilvie & Moore, 1995). Meyer e Franks (1986b) fazem referência ao corante de Papanicolau como capaz de permitir uma análise precisa de núcleo e nucléolo. O padrão de cromatina fica distinto e próprio para análise, facilitando a observação das aberrações morfológicas, sugestivas de neoplasias (Ogilvie & Moore, 1995). Em contrapartida, os reagentes de Papanicolau são de preparação e manutenção difíceis na clínica diária, quando comparados aos corantes do tipo Romanowsky, fazendo com que seu uso se restrinja às patologias específicas (Piza, 1997). Em alguns tipos de mastocitoma, além dos corantes do tipo Romanowsky e NAM, pode-se utilizar o Azul de Toluidina ou o Ácido Periódico de Schiff (PAS) para melhor demonstração dos grânulos (Susaneck, 1983), bem como em casos de mastocitomas epitelióides pouco diferenciados (Meyer e Franks, 1986b; Lemarié et al., 1995; Piza, 1997), Essa coloração foi utilizada no hospital, devido à casuística de mastocitoma nos anos de 2006 a 2009, representando, respectivamente, 2%, 4,25%, 4,22% e 5,71%, facilitando esse diagnóstico. No que diz respeito às observações comparativas sobre os diversos métodos tintoriais aplicados à citopatologia oncológica, Magalhães et al. (2001) consideram o Wright como o corante do tipo Romanowsky de melhor resultado para exame de rotina. A familiaridade com a técnica permitiu maior praticidade, despendendo tempo máximo de 7 minutos. Não é utilizada no HVU, pois quando comparada ao Panótico necessita de mais tempo para realizar a coloração. A coloração evidenciou o contraste núcleo-citoplasma, bem como a presença dos nucléolos. Outra vantagem desse método é não haver necessidade de fixar o material. Acrescenta-se ainda como vantagem o fato de ser

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uma coloração permanente, possibilitando posterior análise da lâmina, após colocação de lamínula. Porém, de acordo com Cowell et al. (2009), o Diff-Quik não faz a reação de metacromasia, por isso os grânulos de alguns mastócitos não se coram. Quando isso acontece, os mastócitos podem ser classificados erroneamente como macrófagos ou plasmócitos e isso pode levar a confusão na avaliação de alguns mastocitomas. A técnica de coloração com Azul de Toluidina é eficaz para o diagnóstico de mastocitomas pouco diferenciados e indiferenciados, cujas granulações dos mastócitos são pouco evidentes ou estão ausentes nas colorações de Wright ou MGG. O inconveniente do corante é a sua vida útil de, no máximo, 15 dias após sua confecção (Magalhães et al., 2001), o que torna um método muito caro para ser adotado em um hospital veterinário, por isso não foi utilizado neste estudo. De acordo com Magalhães et al. (2001), o MayGrünwald-Giemsa (MGG) proporciona boa coloração, sendo também permanente, sem necessitar de fixação da amostra. O inconveniente é de despender mais tempo (8-12 minutos). Observaram também que o uso prolongado do corante altera a tonalidade da coloração, que fica mais clara, diminuindo o contraste celular. O Novo Azul de Metileno (NAM) tem boa praticidade, sem necessitar de fixação prévia. Os melhores resultados são obtidos basicamente em lipomas e mastocitomas; em contrapartida, não coram os eosinófilos e os eritrócitos. Outros inconvenientes observados são o fato de ser uma coloração provisória e de permitir boa avaliação apenas de núcleo e nucléolo. Magalhães et al. (2001) utilizam essa técnica como coadjuvante do Wright no diagnóstico de mastocitomas pouco diferenciados. O Papanicolau não constitui um método prático, pois requer maior tempo para preparação dos coranRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


tes e coloração das lâminas. Permite nítida visualização do núcleo e do nucléolo, havendo, porém pouco contraste de cor com o citoplasma. Adicionalmente, no caso de lâminas que não foram imediatamente fixadas em álcool hidratado, observou-se o inconveniente de encontrar áreas com células já dessecadas (Magalhães et al., 2001). Não é utilizada pelo preço dos corantes, pelo inconveniente de ter que realizar fixação das lâminas e necessitar de um tempo maior para coloração. A técnica de coloração HE, mostra-se eficiente e permite exame citopatológico adequado, por meio do contraste estabelecido entre núcleo e citoplas-

ma, com boa visualização do nucléolo e cromatina nuclear, principalmente em lipomas e tumor de células basais, quando comparada ao Wright (Magalhães et al., 2001).

CONCLUSÃO Diante da alta porcentagem de diagnósticos inconclusivos, verifica-se a necessidade de introduzir novas técnicas de coloração específicas e mais conclusivas para as neoplasias, e a realização de métodos diversificados de coleta, no Hospital Veterinário de Uberaba, buscando não danificar as células.

Dados dos Autores

Tatiane Furtado de Carvalho

Médica Veterinária – CRMV-MG nº 10319, Residente do Hospital Veterinário de Uberaba (Uniube).

Endereço para correspondência: Avenida do Tutuna, nº 385, apto 102 – Bairro Merces, CEP: 38061- 500, Uberaba-MG. E-mail: carvalhotativet@hotmail.com

Joely Ferreira Figueiredo Bittar

Médica Veterinária – CRMV-MG nº 5010. Professora de Parasitologia Veterinária e Patologia Clínica (Uniube). E-mail: joely.bittar@uniube.com

Humberto Eustáquio Coelho

Médico Veterinário – CRMV-MG nº 1316. Professor de Patologia Animal e Ornitopatologia (Uniube). E-mail: coelhoheus@yahoo.com.br

Ricardo Lopes Cruz

Médico Veterinário – CRMV-RJ nº 10464, Residente do Hospital Veterinário de Uberaba (Uniube). E-mail: drricarvet@hotmail.com

Hélio Alberto

Técnico do laboratório de Patologia Animal do Hospital Veterinário de Uberaba (Uniube).

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INDICADORES DE PRESCRIÇÃO E DE INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS no HOSPITAL VETERINÁRIO Dr. HALIM ATIQUE – unirp Prescription indicators and drugs interations in dr. halim atique veterinary hospital – unirp Resumo Prescrições irracionais e falhas na dispensação podem ser a causa de tratamentos ineficazes e pouco seguros. Prescrever racionalmente em Medicina Veterinária significa eleger o(s) melhor(es) medicamento(s) para prevenir ou combater a doença, levando em conta diagnóstico, prognóstico, relação custo/benefício e as expectativas do criador ou proprietário. Existem indicadores estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde - OMS para descrever as práticas terapêuticas vigentes, comparar o funcionamento de serviços ou prescritores, supervisionar periodicamente as práticas de uso de determinados medicamentos e avaliar possíveis intervenções. Este trabalho teve como objetivo analisar as prescrições do Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique” do Centro Universitário de Rio Preto no período de 21 de maio a 24 de agosto de 2009. O número médio de medicamentos por prescrição foi 4,02. A porcentagem de receitas que continham pelo menos um antimicrobiano atingiu 78% e, aquelas com pelo menos um medicamento injetável, chegou a 93,33%. Todos os medicamentos prescritos faziam parte da lista de medicamentos padronizados na unidade; 46,33% das prescrições apresentaram interação medicamentosa. Palavras-chave: indicadores de prescrição, assistência farmacêutica, antimicrobianos

Abstract Irracional prescriptions and failure in dispensation could be the cause of useless, ineffective and less safe therapies. Rational prescription in veterinarian medicine means to choose the best drugs to prevent or combat the disease, considering the diagnosis, the prognostic, cost-advantage ratio and the breeder’s or owner’s expectations. There are indicators preconized by the WHO (World Health Organization) to describe the actual therapeutical actions, to compare the functioning or performance of services or to supervise periodically the use and practices of certain drugs and to evaluate possible effects of the intervention. The aim of this study was to analise the prescriptions of the Veterinary Hospital “Dr. Halim Atique”. The average number of drugs used on each prescription was 4,02. The percentage of prescriptions that had at least one antibiotic reached 78% of them and those with injectable drugs were nearly 93,33%. All the prescriptions of drugs belong to the standardized pharmaceutical drug list. 46,33% the prescriptions of drugs interaction. Keywords: prescription indicators, pharmaceutical care, antimicrobial drugs

INTRODUÇÃO De forma semelhante à que ocorre nos hospitais humanos, os hospitais veterinários, como empresas prestadoras de serviços, apresentam inquestioRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

navelmente uma grande complexidade. Assim, a frequência cada vez maior de infecções adquiridas por animais no ambiente hospitalar, tem exigido dos administradores, médicos veterinários e auxiliares,

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suplemento científico conhecimentos específicos sobre o problema, o que se tem constituído num dos fatores limitantes das internações (Andrade, 1992). Por essa razão, o conhecimento do processo de utilização de medicamentos contribui para a definição de estratégias para melhor prescrição, com impacto significativo para a instituição de saúde, e diminuição dos custos assistenciais. A utilização de medicamentos em hospitais se inicia com a prescrição e envolve outras etapas diretamente relacionadas com os processos de rotina da farmácia e da enfermagem (Souza, 2008). Empregando-se o referencial da farmacoepidemiologia, os estudos da utilização de medicamentos constituem-se em investigações que permitem conhecer o seu perfil, e assim produzir conhecimentos que possibilitem intervenções. Essas podem promover o uso racional e contribuir para aprimorar a qualidade e segurança da assistência (Carvalho, 2007; Souza, 2008). Os erros mais comuns, na utilização de medicamentos, ocorrem nas etapas de prescrição, dispensação ou administração (Lyra, 1996). Os profissionais de saúde, prescritores e dispensadores, são responsáveis, direta ou indiretamente, pela saúde do paciente. Portanto, é essencial a constante pesquisa e atenção a fontes fidedignas e atualizadas sobre os medicamentos, em especial os antimicrobianos, obtendo informações acerca da relevância clínica e, em particular, quanto às indicações desses medicamentos (Pepe & Castro, 2000). O medicamento veterinário, tanto na sua vertente terapêutica quanto na profilática, é fundamental para a promoção da saúde e bem-estar animal, para o controle de infecções animais com potencial de transmissão ao homem. É também, um fator de produção, principalmente nas espécies pecuárias, de importância vital para uma produção animal sustentável (Marques, 2008). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os antimicrobianos são medicamentos essenciais para o tratamento de infecções bacterianas em humanos ou em animais. Além disso, provaram ser importantes na produção animal sustentável e no controle de infecções animais, com potencial de transmissão ao homem (World Health Organization, 1997). Desde a sua introdução em Medicina Veterinária, há mais de sessenta anos, esses medicamentos têm sido importantes aliados no combate a doenças. Contudo, a emergência da resistência bacteriana é motivo de preocupações, visto que a utilização dessa classe terapêutica de maneira indiscrimada promove a seleção de cepas resistentes que podem ser transmitidas a seres humanos. Associada a esse fato, ocorre também a não preservação da efetividade do “arsenal” terapêutico vigente para uso em saúde animal (Marques,

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2008). Adicionalmente, o acesso à assistência médico-veterinária e aos numerosos medicamentos disponíveis não significa necessariamente ter melhores condições de saúde ou qualidade de vida. Isso porque os maus hábitos de prescrição e as falhas na dispensação podem ser a causa de tratamentos ineficazes e pouco seguros (Arrais et al., 2007). Colaborando para a gravidade do problema, a prática da politerapia é comumente utilizada em esquemas terapêuticos, fato que pode levar à ocorrência de interações medicamentosas em número elevado (Secoli, 2001; Moura et al., 2007; Pivatto Júnior et al., 2009). Tais interações são definidas como a influência de um medicamento sobre o outro, culminando em alterações na farmacocinética ou na farmacodinâmica dos fármacos coadministrados. Essas interações podem ser benéficas quando aumentam a eficácia terapêutica, reduzem efeitos tóxicos ou prolongam a duração do efeito, podendo ainda ser indesejáveis quando resultam no aumento da incidência de efeitos colaterais e reações adversas (Daniel & Garrido, 2009). Desse modo, prescrever racionalmente em Medicina Veterinária significa eleger o(s) melhor(es) medicamento(s) para prevenir ou combater a doença de um animal ou grupo de animais, levando-se em conta diagnóstico, prognóstico, relação custo x benefício e as expectativas do criador ou proprietário. Prescrever corretamente é uma tarefa difícil que, após o estabelecimento do diagnóstico, requer conhecimento do “arsenal” terapêutico, atualização constante e, sobretudo, responsabilidade do prescritor (Langeloh, 2006). Há várias questões referentes aos medicamentos que são estudados em todo o mundo, inclusive no Brasil, merecendo destaque o consumo excessivo de antimicrobianos. Por essa razão, a OMS instituiu políticas para o fornecimento adequado e uso racional de medicamentos, preconizando o emprego de indicadores selecionados para sua utilização. Os objetivos desses indicadores são descrever as práticas terapêuticas vigentes, comparar o funcionamento de serviços entre instituições, a conduta dos prescritores, supervisionar periodicamente as práticas de uso de determinados medicamentos e avaliar possíveis efeitos de intervenção (Santos, 1999; Nóbrega, 2005; Loyola, 2006; Storpirtis, 2008). Dentre esses indicadores, podem ser citados os de prescrição, que refletem o padrão do funcionamento da assistência à saúde relacionados à utilização de medicamentos, tais como: tendência de prescrição por nome genérico, abuso de antimicrobianos e medicamentos injetáveis, e a porcentagem de adesão dos prescritores à lista de medicamentos consideraRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


dos essenciais pelo município (Carmo & Nitrini, 2004; Furini et al., 2009a). De acordo com Santos (1999), os indicadores de prescrição são os seguintes: 99 número médio de medicamentos por receita; 99 porcentagem de prescrições com pelo menos um medicamento injetável; 99 porcentagem de medicamentos prescritos que constituem a Lista de Medicamentos Padronizados; 99 porcentagem de prescrições com pelo menos um antimicrobiano; 99 porcentagem de medicamentos prescritos pelo nome genérico. Os estudos sobre o consumo de medicamentos revelam que os problemas mais comuns relacionados a eles são: reações adversas, não adesão ao tratamento e prescrição inadequada (Vieira, 2007). A OMS considera vários aspectos da prescrição medicamentosa que servem como parâmetros para classificá-la como inadequada, tais como o emprego inapropriado de antimicrobianos em situações em que não há necessidade e a utilização excessiva de fármacos injetáveis (Hardon, 1992; Colombo et al., 2004, Furini, 2009b). Sabe-se, ainda, que uma prescrição de qualidade deve conter o menor número de medicamentos possível, e esses, por sua vez, devem ter como características: efeitos colaterais reduzidos, ausência de contraindicações, ação rápida, forma farmacêutica apropriada ao paciente e posologia simples por um curto espaço de tempo (Girotto & Silva, 2006). Além disso, o paciente deve ser informado pelo prescritor quanto à duração do tratamento, à posologia, aos resultados esperados a curto e longo prazos, aos riscos e benefícios do uso de determinado produto, inclusive os procedimentos a serem adotados em casos de reações adversas e, finalmente, como proceder com os medicamentos excedentes do tratamento (Arrais et al., 2007). Não há, até o momento, padrões de indicadores específicos para Medicina Veterinária. Por essa razão, o conhecimento e o estudo do padrão de prescrição de medicamentos, na prática veterinária, é de fundamental importância para que sejam propostas estratégias de prescrição racional de fármacos. Desse modo, este trabalho tem como objetivo analisar as prescrições do Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique”, Unidade Universitária II do Centro Universitário de Rio Preto – Unirp, para identificar possíveis problemas, a fim de proporcionar melhor qualidade da terapêutica aos pacientes da instituição e, ainda, colaborar para que tais indicadores comecem a ser avaliados nessa área. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

MATERIAL E MÉTODOS Foi realizado um estudo descritivo, transversal, com base nas cópias das prescrições dispensadas pela Farmácia do Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique”. O referido hospital está localizado em São José do Rio Preto, cidade do Noroeste paulista, a 452km de São Paulo. Iniciou suas atividades em 1999, com o objetivo de prestar assistência médico-veterinária hospitalar à comunidade e desenvolver atividades de pesquisa científica, além de realizar cursos de extensão universitária . Foram prestados à comunidade rio-pretense e da região, até o ano de 2009, 73.925 atendimentos ambulatoriais, 33.276 internações veterinárias, 7.974 cirurgias veterinárias, 121.523 exames laboratoriais complementares a animais de grande e pequeno porte, 28.645 exames de diagnóstico por imagem a animais de grande e pequeno porte, 602 atendimentos a animais selvagens, 6.128 aspirações foliculares guiadas por ultrassonografia em bovinos e produzidos 46.254 embriões de bovinos. As prescrições analisadas, no total de trezentas (300), foram dispensadas pela Farmácia Hospitalar do Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique”, no período de 21de maio a 24 de agosto de 2009. A partir dos objetivos delineados, optou-se, dentre os indicadores de saúde propostos pela OMS, por se pesquisar os seguintes indicadores de prescrição: número médio de medicamentos por receita, porcentagem de prescrições com pelo menos um medicamento injetável, porcentagem de medicamentos prescritos que constituem a Lista de Medicamentos Padronizados e porcentagem de prescrições com pelo menos um antimicrobiano. Além destes, as prescrições foram avaliadas quanto à presença de interações medicamentosas. Esses indicadores foram incluídos no estudo, pois são aqueles que fazem parte da rotina do referido hospital. Por outro lado, o indicador de porcentagem de medicamentos prescritos pelo nome genérico foi excluído, devido ao fato de, na instituição, a prescrição ser eletrônica e, por essa razão, todos os medicamentos serem requisitados pelo nome genérico. Os dados obtidos possibilitaram a construção dos indicadores de prescrição recomendados pelo Centro Colaborador de Métodos Estatísticos em Medicamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) (Hardon, 1992; Furini, 2009). 1. Número médio de medicamentos por prescrição: Média = nº total de medicamentos prescritos / nº total de prescrições analisadas 2. Porcentagem de prescrições com pelo menos um medicamento injetável:

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suplemento científico %= (nº de prescrições em que se receita pelo menos um injetável/nº total de prescrições envolvidas no estudo) x 100 3. Porcentagem de medicamentos prescritos que constituem a Lista de Medicamentos Padronizados: % = (nº de medicamentos prescritos mencionados na LMP/nº total de prescrições envolvidas no estudo) x 100 4. Porcentagem de receitas em que continham pelo menos um antibiótico: % = (nº de prescrições em que se receita pelo menos um antibiótico/nº total de prescrições envolvidas no estudo) x 100 Em relação à presença de interações medicamentosas, as prescrições foram analisadas utilizando-se os programas Drug Interaction Online, disponível no site www.drugs.com, Drugs Interactions Facts on Disc e P. R. Vade-Mécum Brasil 2005-2006, que possuem um banco de dados específico para análise de interações medicamentosas, além do site www. medscape.com. Também foram utilizados livros de Interações Medicamentosas (Fonseca, de 2000 e Oga, 2002) e de Farmacologia (Goodman & Gilmam, 1996, e Katzung, 2005). As interações foram classificadas, segundo o grau de gravidade, pelo Drug Interaction Online , da seguinte maneira: Menor: interações que podem causar menores efeitos no estado clínico do paciente, com dados bastante limitados. Moderado: são interações de nível moderado a maior, com dados clínicos limitados. Maior: são interações de nível potencialmente grave e fatal, ou que causam debilidade ao estado clínico do paciente. Adicionalmente foi traçado o perfil de prescrição de antimicrobianos.

31% 4% 3% 3%

20%

39%

Penicilinas

Sulfonamidas

Tetraciclinas

Trimetroprima

Cefalosprina

Fluoroquinolona

Figura 1. Frequência relativa em que as classes de antimicrobianos foram prescritas

As classes de antimicrobianos mais prescritas foram: a Cefalosporina (39%), seguida por Penicilina (31%) e Tetraciclina (20%) (Figura 1). Os antimicrobianos mais prescritos foram a Cefalotina, seguido por Ampicilina, Doxiciclina e Cefalexina. A Rifamicina e Amoxicilina foram prescritos apenas uma vez cada. A Figura 2 ilustra a frequência relativa de prescrição dos antimicrobianos.

3% 3% 3%

27%

7%

18% 30%

RESULTADOS Do total de 300 prescrições analisadas, os seguintes resultados puderam ser observados em relação aos indicadores estabelecidos pela OMS: 99 o número médio de medicamentos por receita foi de 4,02; 99 a porcentagem de prescrições com pelo menos um medicamento injetável foi de 93,33%; 99 100% dos medicamentos prescritos faziam parte da Lista de Medicamentos Padronizados; 99 78% das prescrições continham pelo menos um antimicrobiano.

46

9%

Ampicilina

Trimetropina

Cefalotina

Sulfametox

Doxiciclina

Eurofloxacina

Cefalexina

Metronidazol

Figura 2. Antimicrobianos prescritos e frequência relativa de prescrição.

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


A presença de interações medicamentosas pôde ser observada em 46,33% das prescrições. Quanto ao nível de interação, a maioria (68,42%) era moderada enquanto 21% eram consideradas como menor e, apenas 10,52%, maior. As interações mais frequentemente observadas foram entre Ampicilina e Heparina, Heparina e Ketoprofeno e entre Doxiciclina e Sulfato Ferroso. A Tabela1 mostra todas as interações encontradas, a frequência relativa em que elas ocorreram, seus respectivos mecanismos de ação e o nível das interações.

DISCUSSÃO Não pôde ser encontrado nenhum relato de estudo envolvendo a utilização dos indicadores de prescrição instituídos pela OMS que tenha sido realizado em um hospital veterinário, provavelmente, devido à escassez de dados específicos para a medicina veterinária, o que faz este trabalho pioneiro. Entretanto, o conhecimento e o estudo do padrão de utilização de medicamentos em medicina veterinária são de fundamental importância para as estratégias

de prescrição racional de fármacos na prática. Dessa forma, apesar de não existirem padrões específicos para a medicina veterinária, os indicadores de prescrição preconizados pela OMS podem ser utilizados para traçar um perfil local da utilização de medicamentos. Quanto ao número médio de medicamentos por receita, que pretende avaliar o grau de polimedicação, o valor encontrado, de 4,02, está bem acima daquele estabelecido pela OMS (2001), em que a média de itens deve ser inferior a 2 e também aos valores encontrados na literatura em que, Colombo et al. (2004), citam 1,8 ; Santos & Nitrini (2004), 2,2; Naves & Silver (2005), 2,3; Tavares et al. (2008), 2,9 enquanto Abrantes et al. (2008), referem 2,3. Convém salientar que os valores encontrados são de trabalhos baseados na medicina humana. Justifica-se a comparação do valor estatístico encontrado neste estudo com os da medicina humana devido à escassez desse dado na veterinária. Adicionalmente, o fato de este estudo ter sido realizado em um hospital pode ter contribuído para o aumento do número médio de medicamentos por prescrição devido à maior debilidade do estado de saúde dos pacientes.

Tabela 1. Interações medicamentosas encontradas nas prescrições analisadas, frequência relativa, mecanismos de ação e nível da interação. Interação

Frequência Relativa (%)

Mecanismo da Interação

Nível da Interação

Ampicilina x Heparina

32,79

Penicilinas podem intensificar o efeito da heparina por meio da inibição da agregação plaquetária (drugs.com).

Mo

Ampicilina x Doxiciclina

0,82

Tetraciclinas podem reduzir o efeito dessa penicilina devido ao antagonismo dos mecanismos de ação (drugs.com; FONSECA, 2000).

Mo

Aminofilina x Ranitidina

1,64

Inibição do das enzimas hepáticas do CYP450, causando aumento da concentração plasmática da aminofilina (drugs.com).

Mo

10,66

Há redução da biodisponibilidade das tetraciclinas quando elas são administradas simultaneamente a sais de ferro. Isso acontece devido à formação de um quelato insolúvel que é pobremente absorvido (drugs.com; FONSECA, 2000; OGA, & CARVALHO, 2002).

Mo

Doxiciclina x Hidróxido de alumínio

0,82

Antiácidos que contêm íon alumínio quando administrados por via oral e simultaneamente com tetraciclinas podem formar quelatos que diminuem a absorção do antimicrobiano (drugs.com; FONSECA, 2000; OGA & CARVALHO, 2002).

Mo

Doxiciclina x Furosemida

0,82

A coadministração de diuréticos e tetraciclinas pode resultar na diminuição da função renal (drugs.com; FONSECA, 2000; OGA, & CARVALHO, 2002).

Me

Doxiciclina x Fenobarbital

3,28

Barbitúricos intensificam o metabolismo hepático das tetraciclinas (drugs.com; OGA, & CARVALHO, 2002).

Mo

Furosemida x Sucralfato

0,82

Sucralfato pode reduzir a absorção oral e os efeitos terapêuticos da furosemida (drugs.com).

Mo

Fenobarbital x Vitamina B6

4,10

Grandes concentrações de Piridoxina podem diminuir o efeito antiepilético do Fenobarbital (drugs.com).

Mo

Doxiciclina x Sulfato Ferroso

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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suplemento científico Fenobarbital x Metoclopramida

0,82

Os efeitos depressivos sobre o Sistema Nervoso Central podem estar aumentados quando esses medicamentos são administrados simultaneamente (drugs.com).

Mo

Heparina x Ketoprofeno

19,67

A administração simultânea de Heparina com Anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) pode potencializar o risco de hemorragias (drugs. com).

Mo

Heparina x Meloxican

0,82

A administração simultânea de Heparina com Anti-inflamatórios não esteroidais pode potencializar o risco de hemorragias(drugs.com).

Mo

Hidróxido de Alumínio x Ranitidina

0,82

Antiácidos que contêm íon alumínio podem reduzir a concentração plasmática da Ranitidina (vo) (drugs.com; FONSECA, 2000).

Me

Hidróxido de Alumínio x Sucralfato

0,82

Antiácidos mudam o pH estomacal, o que pode levar à redução da ligação do Sucralfato com a mucosa gastrintestinal (drugs.com).

Mo

Ketoprofeno x Ranitidina

6,55

Antagonistas H2 podem alterar a disposição do AINE, resultando em aumento ou redução das concentrações plasmáticas (drugs.com).

Me

Não se deve administrar o Tramadol com fármacos que reduzem o limiar convulsivo, como os agentes colinérgicos (metoclopramida), pois o risco de convulsões pode estar aumentado (drugs.com; KATZUNG, 2005).

Ma

Metoclopramida x Tramadol

2,46

Morfina x Tramadol

1,64

Ambos são analgésicos opióides, apresentam o mesmo mecanismo de ação e, portanto, há uma interação farmacodinâmica (potencialização) que pode resultar em depressão respiratória (KATZUNG, 2005).

Ma

Omeprazol x Sulfato ferroso

8,20

A redução de ácido clorídrico causada por inibidores da bomba de prótons pode prejudicar a absorção gastrintestinal do ferro, um processo que depende do meio ácido (drugs.com).

Mo

2,46

Ao reduzir ou suprimir a secreção do ácido gástrico pode haver interferência na absorção gastrintestinal da Vitamina B12, um processo que depende da presença do ácido clorídrico e pepsina (drugs.com; FONSECA, 2000; OGA & CARVALHO, 2002).

Me

Vitamina B12 x Ranitidina

Mo = moderado, Me = menor, Ma = maior.

Em relação aos injetáveis, embora sejam essenciais nas situações de urgência, por exemplo, as consequências de uma prescrição equivocada são extremamente graves, podendo levar ao surgimento de reações anafiláticas, necroses teciduais ou infecções por deficiência de assepsia, sendo, portanto, de utilização complexa. Além disso, alguns medicamentos dessa modalidade têm maior custo (Santos & Nitrini, 2004; Girotto & Silva, 2006; Furini et al., 2009a). No presente estudo, 93,33% das prescrições apresentaram medicamentos na forma injetável, um número extremamente elevado quando comparado àqueles divulgados por trabalhos que envolveram seres humanos, como o de Colombo et al. (2004), com 8,1%; Naves & Silver (2005), com 7,5%; Girotto & Silva (2006), com 7,0%; Farias et al. (2007), com 1,1%; e também em relação ao recomendado pela OMS (2001), em que a porcentagem de prescrições contendo um ou mais medicamentos injetáveis deve ser inferior a 10%. Essa discrepância pode ser atribuída ao tipo da população estudada e às características dos

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pacientes, visto que o hospital do estudo é veterinário e que essa via de administração, às vezes, é a mais conveniente para animais (Spinosa et al., 2006). No presente estudo, a prescrição de antimicrobianos obteve o maior índice (78%) quando comparado aos dados da literatura para trabalhos em humanos: Colombo et al. (2004), 22,6%; Naves & Silver (2005), 26,4%; Girotto & Silva (2006), 22%; Farias et al. (2007) 21,1%. O valor recomendado pela International Network for Rational Use of Drugs, divulgado por Tavares e colaboradores (2008), está entre 20% e 30%. Em contrapartida, para a OMS (2001), esse indicador deve permanecer abaixo de 20%. Isso revela que essa classe de medicamentos vem sendo utilizada de forma irracional pelos prescritores nos esquemas terapêuticos, favorecendo o fenômeno da resistência bacteriana no ambiente hospitalar e o aumento de custo do tratamento (Girotto & Silva, 2006; Marques & Zucchi, 2006). Apesar de nossos resultados quanto ao número médio de medicamentos, antimicrobianos e injetáRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


veis ser elevado, segundo Carmo et al. (2003), esses indicadores não possuem definição de valores considerados ótimos (Furini et al., 2009a). De acordo com Santos (1999), isso ocorre porque esses indicadores sofrem a influência de diferentes fatores dependentes de características regionais e locais, tais como perfil de morbidade, características do serviço de saúde e existência de lista de medicamentos padronizados. Uma das principais preocupações mundiais quanto ao uso irracional de medicamentos está relacionada à utilização de antimicrobianos, cujo uso indiscriminado e abusivo, tanto em humanos quanto em animais, culmina na seleção de bactérias resistentes, uma vez que esses medicamentos atuam como agentes seletivos (Castro et al., 2002; Moreira, 2004; Mota et al., 2005; Farias et al., 2007). Com o surgimento de micro-organismos multirresistentes, as futuras infecções tornam-se mais graves e o seu tratamento fica dificultado, devido à diminuição da eficácia do medicamento, que torna incessante a busca por antimicrobianos mais eficazes. Adicionalmente, a hospitalização desses doentes fica cada vez mais onerosa (Girotto & Silva, 2006; Marques & Zucchi, 2006), o que constitui um problema de saúde animal (Poeta et al., 2005). Várias publicações científicas relatam a relação entre os antimicrobianos usados em animais e o aparecimento de resistências em estirpes bacterianas de importância em patologia humana e animal (Torres & Zarazaga, 2002; Carneiro et al., 2007; Macedo et al., 2007; Rodrigues, 2008). Por essa razão, a utilização de antimicrobianos tem merecido destaque nas políticas de racionalização do uso de medicamentos (Abrantes et al., 2007). Adicionalmente, devido ao fato de os antimicrobianos serem uma das classes de medicamentos mais consumidas, elevados índices de reações adversas estão associados à sua utilização (Oga et al., 2002), o que torna importante o estabelecimento de mecanismos de farmacovigilância sobre esses medicamentos (Castro et al., 2002). Abrantes et al. (2007), classificaram o uso inadequado de antimicrobianos em quatro categorias, sendo a primeira referente aos aspectos de diagnóstico, ou seja, à presença de um quadro infeccioso que seja sujeito ao tratamento; segunda categoria, à seleção do antimicrobiano adequado para tal infecção, tendo em vista sua indicação, espectro de ação e propriedades farmacocinéticas; a terceira, referente à duração do tratamento, que sofre variações de acordo com o agente causador da infecção e o antimicrobiano escolhido para o tratamento e, finalmente, a que engloba os aspectos posológicos como dose, intervalo entre doses e via de administração. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

Os mesmos autores, em 2008, ao avaliarem outros estudos, sugeriram que a maioria dos diagnósticos que culminaram com a prescrição de antimicrobianos, é feita apenas pelo exame clínico, estando, de maneira geral, de acordo com as recomendações da literatura, mas não demonstram sobrecarga no pedido de exames. A disponibilidade e a utilização das técnicas diagnósticas adequadas, nos casos em que se fizerem necessárias, são ferramentas importantíssimas que contribuem significativamente para a utilização racional de antimicrobianos, uma vez que garantem a correção do diagnóstico e justificam o tratamento (Brasil, 2001). Entretanto, quando não é possível ter o respaldo de dados laboratoriais que confirmem o agente etiológico, bem como a hipótese diagnóstica, a prescrição empírica deve ser baseada em protocolos de tratamento com os padrões nosológicos de resistência local (Abrantes et al., 2008). Nossos dados mostraram que a classe de antimicrobiano mais prescrita foi a das cefalosporinas (40%), que são grupo em crescente utilização na Medicina Veterinária, seguida das penicilinas (30%). Apesar de não haver muitos experimentos clínicos em animais, essas duas classes são bastante utilizadas devido à sua alta toxicidade seletiva em relação ao patógeno (Spinosa, 2006) e seguem a mesma tendência de utilização em humanos, segundo dados divulgados por Castro et al. (2002), em que a cefalosporina (31,1%) é a classe mais prescrita e as penicilinas (25,4%) são a segunda. Por outro lado, Nicolini et al. (2009) divulgaram que, no serviço público de saúde, a ordem de prescrição é inversa, com 51,7% de penicilinas e 39,6% de cefalosporinas. O referido autor destaca, todavia, que o elevado consumo de cefalosporinas também acarreta resistência bacteriana, sendo as de primeira geração em menor proporção que as de segunda, terceira e quarta gerações, devido ao aumento do espectro de ação. Contribuindo para o uso racional de antimicrobianos, o Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique” conta com uma Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) multidisciplinar, constituída por membros executores e consultores (farmacêuticos, médicos veterinários e auxiliares). Cabe à CCIH realizar: atividades de vigilância epidemiológica e microbiológica, controle do uso de antimicrobianos, elaboração e implementação de rotinas de prevenção, diagnóstico e tratamento de infecção hospitalar, atividades de suporte a diversos setores, além de servir como campo de estágio para os alunos dos Cursos de Farmácia e de Medicina Veterinária. Sabe-se que a prescrição de dois ou mais medicamentos, prática comumente utilizada, aumenta o risco de ocorrerem interações medicamentosas, devido à influência recíproca de um medicamento

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suplemento científico sobre o outro e, ainda, que em pacientes internados esse índice é de 2% a 60% (Secoli, 2001; Moura et al., 2007; Pivatto Júnior et al., 2009). A literatura mostra que a incidência de interações medicamentosas, em ambientes hospitalares, pode variar de 22% (Moura et al., 2007) a 80% (Pivatto Júnior et al, 2009). Em seus respectivos estudos, Miyasaka & Atallah (2003) e Moura et al. (2007) divulgaram uma incidência de 25,3% , Cruciol-Souza & Thomson (2006) 49,7%, Daniel &Garrido (2009) de 65,71% e Lima & Cassiani (2009) de 72,5%, ao passo que no hospital-alvo deste estudo, a taxa de prescrições que apresentaram algum tipo de interação entre fármacos chegava a 46,33%, sendo ainda que, em mais de 10% dos casos a interação poderia ser potencialmente grave e fatal, ou poderia, ainda, causar debilidade ao estado clínico do paciente. Contudo, na prática, esse número foi bem menor, uma vez que, no referido Hospital Veterinário os farmacêuticos adotam medidas que impedem a ocorrência de interações medicamentosas, visto que todas as prescrições são analisadas, pelos farmacêuticos responsáveis, antes da dispensação por meio de quatro programas informatizados, sendo dois on line e dois softwares, ressaltando a importância da assistência farmacêutica. As Diretrizes Curriculares Nacionais de Graduação dos Cursos de Farmácia e de Medicina Veterinária preconizam enfoque diferente para a disciplina de Farmacologia. No Curso de Medicina Veterinária a Farmacologia é abordada na disciplina de Clínica Médica com enfoque para o tratamento das doenças. O Curso de Farmácia deve contemplar o estudo dos medicamentos no que se refere à farmacodinâmica, biodisponibilidade, farmacocinética, emprego terapêutico, farmacoepidemiologia, incluindo-se a farmacovigilância, visando garantir as boas práticas de dispensação e a utilização racional; conteúdos teóricos e práticos que fundamentam a atenção farmacêutica em nível individual e coletivo. Atualmente, o farmacêutico é considerado cor-responsável pela terapia medicamentosa do paciente e promotor do uso racional de medicamentos, tanto no âmbito coletivo quanto no individual (Angonesi, 2008). Nesse contexto, a atuação desse profissional em hospitais é imprescindível, uma vez que atua como o último elo entre a prescrição e a administração dos medicamentos (Lyra, 1996). No ambiente hospitalar, é o profissional responsável pela credibilidade da prescrição médica, pois é no momento da dispensação que se tem uma das últimas oportunidades de identificar, corrigir ou reduzir possíveis riscos associados à terapêutica, algo imprescindível nesse local, já que a terapia medicamentosa é mais agressiva e a prática da

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politerapia favorece o surgimento de interações medicamentosas. Portanto, a assistência farmacêutica contribui significativamente para a minimização de erros em prescrições e a promoção do uso racional de medicamentos, ações das quais o principal beneficiário é o paciente (Andrade et al., 2004). A literatura mostra que, de forma geral, as intervenções farmacêuticas têm mostrado resultados positivos, ao reduzir custos, melhorar as prescrições, controlar a possibilidade de reações adversas e promover maior adesão do paciente ao tratamento. Nesse sentido, o farmacêutico é peça fundamental do sistema de saúde e imprescindível na garantia da qualidade, sendo o profissional mais indicado para ajudar o Médico Veterinário na tomada de decisões em relação à farmacoterapia, avaliando as prescrições e promovendo o uso racional de medicamentos. Algumas das orientações ou medidas sugeridas pelos farmacêuticos do Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique”, a fim de impedir a ocorrência das interações medicamentosas, que puderam ser observadas neste estudo, serão discutidas a seguir: 1. a administração por via oral/injetável da doxiciclina com outros medicamentos que contenham sais de ferro, alumínio, cálcio, zinco e magnésio, deve ser feita somente com intervalo de pelo menos três horas; no entanto, isso não impede a interação, o que deve ser evitado se possível. Convém salientar que esses quelatos podem ocorrer em nível de distribuição; 2. a tetraciclina não pode ser utilizada concomitantemente com ampicilina, diuréticos como a furosemida e o fenobarbital. Se necessário, fazê-lo em horários distintos; 3. sabe-se que a chance de ocorrerem interações medicamentosas é maior quando os medicamentos são administrados pela mesma via. Assim, além do espaçamento entre as doses, a administração do antimicrobiano na forma injetável e os demais medicamentos por via oral (alternância de vias de administração) também impede as interações (ex.: hidróxido de alumínio oral e furosemida ou ranitidina injetável); 4. o hidróxido de alumínio e sucralfato devem ter suas doses administradas em um intervalo de, pelo menos, meia hora; 5. quando o paciente necessita fazer tratamento com um antagonista H2, como a ranitidina, juntamente com a aminofilina, ele deve permanecer em observação no hospital; 6. a terapia simultânea entre omeprazol e sulfato ferroso é impraticável. A orientação é suspenRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


der o uso do antiácido enquanto o paciente faz a reposição de ferro por via oral, já que o ferro é absorvido em pH ácido; 7. a interação entre o fenobarbital e a vitamina B6 pode ser evitada com a administração de formas farmacêuticas distintas; o primeiro via oral e o segundo injetável. O mesmo deve acontecer na administração simultânea de barbitúricos e metoclopramida; 8. existe uma potencial interação entre a vitamina B12 e a ranitidina, quando ambos são injetáveis; assim, não devem ser administrados no mesmo horário. Essa mesma medida corretiva deve ser adotada quando o antiácido está presente na mesma prescrição que o ketoprofeno; 9. as interações do tramadol com morfina e com metoclopramida são graves e devem ser evita-

das, com a administração destes medicamentos com longo intervalo de tempo, já que ambos são depressores do sistema nervoso central; 10. a Heparina, quando utilizada como anticoagulante para manutenção de cateteres, deve ser preparada em uma diluição de 10 a 100 UI por mililitro de soro fisiológico (SF), e que o fármaco é incompátivel com hidrocortisona, atropina, dobutamina e fentanila. Neste estudo, pode-se verificar que a heparina foi o fármaco que mais apresentou interações, ocorrendo em 65 prescrições e entre três medicamentos: o ketoprofeno, a ampicilina e o meloxicam. Entretanto, essas interações aconteceram com a heparina utilizada como anticoagulante, fato que não ocorreu nas prescrições analisadas, quando estava sendo utilizada diluída para promover a heparinização

Dados dos Autores

Tábata Salum Calille Atique

Farmacêutica, CRF n º 26975, Docente do Curso de Farmácia do Centro Universitário de Rio Preto – Unirp.

Endereço para correspondência: Rua Yvete Gabriel Atique nº 45, Boa Vista – São José do Rio Preto/SP – CEP: 15025-400 – Telefone: (17) 32013360 – Fax: (17) 32013360 E-mail: tabata@unirp.edu.br

Ana Gabriela dos Reis

Farmacêutica, CRF 53.990, Aprimoranda em Farmácia Hospitalar, Centro Universitário de Rio Preto – Unirp.

Gabriel David de Souza

Acadêmico do Curso de Medicina, Universidade de Marília – Unimar.

Paula Mateus Guimarães

Farmacêutica do Hospital Veterinário “Dr. Halim Atique”, CRF nº 49274 – Unirp.

Adriana Antonia da Cruz Furini

Farmacêutica, CRF nº 21871, Docente dos Cursos de Medicina Veterinária e Farmácia do Centro Universitário de Rio Preto – Unirp.

Halim Netto Atique

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 13747, Docente do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Rio Preto – Unirp.

Alan Peres Ferraz Melo

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 7668, Docente do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Rio Preto – Unirp.

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suplemento científico de catéteres. A técnica da manutenção de catéteres venosos com solução de heparina foi desenvolvida em 1972. Seu principal objetivo é prevenir a formação de coágulos, impedindo a obstrução de catéteres, sem, contudo, alterar a coagulação sistêmica (Gonçalves et al., 1998). Quanto à diluição da heparina, Dias et al. (2000) encontraram concentrações que variam de 1ml do anticoagulante para 10ml de SF a 0,9%, até 0,1ml de heparina para 9,9ml de SF. Ao ser considerada a apresentação utilizada do medicamento que é de 5.000UI/ml, a diluição mais concentrada corresponde a 500UI/ml e a menos concentrada, com 50UI/ml. As referidas autoras citaram, ainda, que a concentração ideal de heparina para a manutenção de acesso venoso é de 10UI por mililitro de SF, sem que haja qualquer efeito colateral e alterações no tempo de protrombina. Por outro lado, Gonçalves e colaboradores (1998) estabeleceram o limite de até 100UI por mililitro de SF infundido. No presente estudo, a heparina utilizada está a uma concentração de 70UI/ml, sendo, portanto, correta. É importante salientar, ainda, que, após a diluição, a heparina deve ser mantida sob refrigeração, tendo, assim, um prazo de validade de 72 horas (Tunbridge, 2009).

CONCLUSÃO De acordo com os resultados obtidos no presente trabalho, fica evidente que a prática da assistência farmacêutica, aliada à realização de treinamentos sobre uso racional de medicamentos e a elaboração de prescrição eficiente pelos médicos veterinários, entre outros, podem contribuir para a melhoria dos resultados dos indicadores de prescrições e, o mais importante, deixar de contribuir para o aumento dos índices de resistência bacteriana. Fato que torna imprescindível a realização de análises de prescrições médico-veterinárias por profissionais que estejam diretamente envolvidos com a dispensação dos medicamentos, o que justifica a importância de um trabalho conjunto com o farmacêutico. Com a identificação dos problemas, os farmacêuticos da instituição implantarão medidas corretivas e educativas e, futuramente, avaliarão o impacto da adoção delas, proporcionando uma constante melhoria da qualidade do atendimento prestado aos pacientes pela instituição. Adicionalmente, outro fator que contribuiria para o aumento da qualidade das prescrições médico-veterinárias, de maneira geral, seria a melhoria do ensino de farmacologia na formação do Médico Veterinário.

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suplemento científico suplemento científico

Normas para apresentação de Artigos Informações Gerais O Suplemento Científico da Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) tem como objetivo principal a publicação de artigos de investigação científica, de revisão e de educação continuada, básica, e profissionalizante, que contribuam para o desenvolvimento da ciência nas áreas de Medicina Veterinária e de Zootecnia. Os artigos, cujos conteúdos serão de inteira responsabilidade dos autores, devem ser originais e previamente submetidos à apreciação do editor e/ou do Conselho Editorial da Revista CFMV, bem como de assessores ad hoc de reconhecido saber na especialidade. A publicação do artigo dependerá da sua apresentação dentro das Normas Editoriais e de pareceres favoráveis. Os pareceres terão caráter sigiloso e imparcial. A periodicidade da publicação será quadrimestral. Os artigos devem ser encaminhados para:

E-mail: artigos@cfmv.gov.br

E correspondências podem ser encaminhadas para: Revista CFMV Conselho Editorial SIA – Trecho 6 – Lotes 130 e 140 Brasília–DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 Fax: (61) 2106-0444

Normas Editoriais Os textos de revisão, de educação continuada e científicos devem ser de primeira submissão, escritos segundo as normas ortográficas oficiais da língua portuguesa e com abreviaturas consagradas, exceto o Abstract e Keywords, que serão apresentados em inglês. Assim como uma versão do título.

Artigos de Revisão e de Educação Continuada Os artigos de revisão e de educação continuada devem ser estruturados para conter Resumo, Abstract, Palavras-chave, Keywords, Referências Bibliográficas e Agradecimentos (quando houver). A divisão e subtítulos do texto principal ficarão a cargo do(s) autor(es).

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Artigos Científicos Os artigos científicos deverão conter dados conclusivos de uma pesquisa e conter Resumo, Abstract, Palavras-chave, Keywords, Introdução, Material e Métodos, Resultados, Discussão, Conclusão(ões), Referências Bibliográficas e, quando houver, Agradecimentos, Tabela(s), Quadro(s) e Figura(s). A critério do(s) autor(es), os itens Resultados e Discussão poderão ser apresentados como uma única seção. Quando a pesquisa envolver a utilização de animais, os princípios éticos de experimentação animal preconizados pelo Conselho Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea) e aqueles contidos no Decreto nº 24.645, de 10 de julho de 1934, e na Lei nº 6.638, de 8 de maio de 1979, devem ser observados. Também deve ser observado o disposto na Resolução CFMV nº 879, de fevereiro de 2008.

Apresentação Os manuscritos encaminhados deverão estar digitados com o uso do editor de textos Microsoft Word for Windows (versão 6.0 ou superior), no formato A4 (21,0 x 29,7), com espaço simples, em uma só face do papel, com margens laterais de 3,0cm e margens superior e inferior de 2,5cm, na fonte Times New Roman de 16 cpi para o título, 12 cpi para o texto e 9 cpi para rodapé e informações de tabelas, quadros e figuras. As páginas e as linhas de cada página devem ser numeradas.

Título O título do artigo, com 25 palavras no máximo, deverá ser escrito em negrito e centralizado na página, sem utilizar abreviaturas. A versão na língua inglesa deverá anteceder o Abstract.

Resumo e Abstract O Resumo e sua tradução para o inglês, o Abstract, não podem ultrapassar 250 palavras, com informações que permitam a adequada caracterização do artigo como um todo. No caso de artigos científicos, o Resumo deve informar o objetivo, a metodologia aplicada, os resultados principais e as conclusões.

Palavras-chaves e Keywords No máximo cinco palavras serão representadas em seguida ao Resumo e Abstract. As palavras serão escolhidas do texto e não necessariamente do título.

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Texto Principal Não há número limite de páginas para a apresentação do artigo. No entanto, recomenda-se que sejam concisos. Poderão ser utilizadas abreviaturas consagradas pelo Sistema Métrico Internacional, por exemplo, kg, g, cm, ml, EM etc. Quando for o caso, abreviaturas não usuais serão apresentadas como nota de rodapé. Exemplo, GH=hormônio do crescimento. As citações bibliográficas do texto devem ser pelo sobrenome do(s) autor(es) seguido do ano. Quando houver mais de dois autores, somente o sobrenome do primeiro será citado, seguido da expressão “et al.”. Exemplos: Rodrigues (1999), (Rodrigues, 1999), Silva e Santos (2000), (Silva e Santos, 2000), Gonçalves et al. (1998), (Gonçalves et al., 1998).

Referências Bibliográficas A lista de referências bibliográficas será apresentada em ordem alfabética por sobrenome de autores, de acordo com a norma ABNT/NBR-6023 da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Inicia-se a referência com o último sobrenome do(s) autor(es) seguido da(s) letra(s) inicial(is) do(s) prenome(s), exceto nos nomes de origem espanhola ou de dupla entrada, os quais devem ser registrados pelos dois últimos sobrenomes. Todos os autores devem ser citados. Obras anônimas têm sua entrada pelo título do artigo ou pela entidade responsável por sua publicação. A referência deve ser alinhada pela esquerda e a segunda linha iniciada abaixo do primeiro caractere da primeira linha. Os títulos de periódicos da referência podem ser abreviados, segundo a notação do BIOSES *BIOSIS. Serial sources for the BIOSIS previews database. Philadelphia, 1996, 486p. Abaixo são apresentados alguns exemplos de referências bibliográficas.

Artigo de periódico EUCLIDES FILHO, K.; V.P.B.; FIGUEIREDO, M.P. Avaliação de animais nelore e seus mestiços com charolês, fleckvieh e chianina, em três dietas 1. Ganho de peso e conversão alimentar. Revista Brasileira de Zootecnia, v.26, n.1, p.66-72, 1997.

Livros MACARI, M.; FURLAN, R.L.; GONZALES, E. Fisiologia aviária aplicada a frangos de corte. Jaboticabal: Funep, 1994. 296p. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

Capítulos de livro WEEKES, T.E.C Insulin and growyh. In: Buttery, P.J.; LINDSAY, D.B.; HAYNES, N.B. (ed). Control and manipulation of animal growth. Londres: Butterworths, 1986. p.187-206.

Teses (doutorado) ou dissertações (mestrado) MARTINEZ, F. Ação de desinfetantes sobre salmonella na presença de matéria orgânica. Jaboticabal, 1998. 53p. Dissertação (mestrado) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias. Universidade Estadual Paulista.

Artigos apresentados em congressos, reuniões e seminários RAHAL, S.S.; W.H.; TEIXEIRA, E.M.S. Uso de fluoresceina na identificação dos vasos linfáticos superficiais das glândulas mamárias em cadelas. In. CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 23 Recife, 1994. Anais... Recife, SPEMVE, 1994. p.19.

Tabelas, Quadros e Ilustrações As tabelas, quadros e ilustrações (gráficos, fotografias, desenhos etc.) podem ser apresentados no corpo do artigo. Uma em cada página. Serão numerados consecutivamente com números arábicos. A tabela deve ter sua estrutura construída segundo as normas de Apresentação Tabular do Conselho Nacional de Estatística (Rev. Bras. Est. v. 24, p. 42-60, 1963).

Fotografias As fotografias deverão estar em boa resolução (nítida, colorido sem saturação, sem estouro de luz ou sombras excessivas), com resolução mínima de 300 dpi, com a foto em tamanho grande (centímetros), formato TIF e as cores em CMYK. Se possível, também devem ser enviadas em arquivos separados (JPG).

Avaliações/Revisões Os artigos sofrerão as seguintes avaliações/revisões antes da publicação: 1) avaliação inicial pelo editor; 2) revisão técnica por consultor ad hoc; 3) avaliação do editor e/ou Comitê Editorial.

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R e pr o d u çã o An i m a l

A Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR) e seus aspectos relacionados com a reprodução em bovinos Praticamente desconhecidas por produtores e amplamente disseminadas no rebanho nacional, as infecções causadas pelo Herpesvírus bovino-1 (BoHV-1) são importantes enfermidades em rebanhos bovinos de leite e de corte. Essa importância caracteriza-se principalmente sob ponto de vista econômico, por causar consideráveis prejuízos reprodutivos nas propriedades. Associado a isso, o diagnóstico impreciso e a facilidade de transmissão têm contribuído para a extensiva disseminação destas doenças nos rebanhos nacionais. Além de interferir na taxas de gestação e contribuir para a repetição de estros, a associação da infecção em ovócitos, sêmen e até mesmo embriões têm despertado grande interesse de estudos, tendo em vista os riscos consideráveis de transmissão da doença por meio da comercialização desses produtos.

artificial (Engels; Ackermann, 1996). Neste contexto, o sêmen desempenha papel fundamental na cadeia epidemiológica da doença (Philpott, 1993). A infecção por esse vírus é caracterizada por diversas manifestações clínicas que acometem os órgãos respiratórios e genitais. Contudo, as afecções nos órgãos genitais ganham maior notoriedade por estarem associadas a maiores perdas econômicas. Em fêmeas bovinas, a doença pode se manifestar sob a forma de pequenas vesículas de 1 a 2mm de diâmetro, as quais evoluem para pústulas e erosões, localizadas na vulva e vagina do animal, sendo denominada de Vulvovaginite Pustular Infecciosa (Figura 1). Em touros, lesões semelhantes são encontradas no prepúcio e no pênis, sendo a doença conhecida como Balanopostite Infecciosa (Gibbs & Rweyemann, 1977; Wyler Dr. José de Oliveira (UFV)

1.1. Infecções clínicas causadas pelo Herpesvírus bovino1 Usualmente conhecida como IBR (Rinotraqueite Infecciosa Bovina) as infecções relacionadas ao BoHV1 são caracterizadas pelo período rápido do ciclo replicativo viral e capacidade de o vírus entrar em latência. A latência, principal característica desse vírus, permite que ele permaneça nos gânglios nervosos durante toda a vida do animal sem que ele apresente sinais da doença. Entretanto, fatores imunossupressores fazem com que o vírus possa ser reativado e volte a ser eliminado pelo animal. A transmissão do BoHV1 pode ocorrer por inalação de aerossóis contaminados, por contato direto com as secreções contaminadas ou pela via venérea, tanto pela monta natural quanto pela inseminação

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Figura 1. Rinotraqueite Infecciosa Bovina. Presença de pequenas pústulas na vulva de uma vaca adulta,caracterizando a Vulvovaginite Pustular Infecciosa.

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Dr. José de Oliveira (UFV)

contradas frequências de animais soropositivos de 42,2% por Mueller et al. (1981) e de 68,3% por Junqueira et al. (2006). No Rio Grande do Sul foram descritas taxas de soropositividade de 81,7% (Ravazzolo et al., 1989), 71,3 % (Vidor et al., 1995), 18,8% (Lovato et al., 1995) e 29,2% (Holz et al., 2009). No estado de Mato Grosso do Sul foram encontrados índices de 50,9% de soropositividade para rebanhos leiteiros (Tomich et al., 2009). Em um estudo realizado em um rebanho de leite e corte, não vacinado no estado de Góias, a frequência encontrada foi de 83% de animais soropositivos (Vieira et al., 2003). Em Minas Gerais, um estudo conduzido por Rocha et al. (2001), demonstrou que 58,2% dos 5.511 aniFigura 2. Rinotraqueite Infecciosa Bovina. Manifestação da Balanopostite causada pelo BoHV 1 no prepúcio de um touro. mais testados apresentaram anticorpos contra o BoHV1. No Paraná, a detecção de anticorpos et al., 1989) (Figura 2). A doença ainda pode ser caraccontra o BoHV1 em rebanhos leiteiros foi de 41,9% terizada como por repetições de estros em intervalos e em rebanhos de corte foi de 50,8%, perfazendo regulares/irregulares, abortamentos, natimortalidaum total de 43,7% de animais soropositivos (Médici de, mortalidade perinatal, redução na fertilidade e et al., 2000). O nosso grupo de pesquisa realizou infertilidade, temporária devido a infecções uterinas um estudo com 1.378 animais de 23 municípios (Rufino et al. 2006) (Figura 3). do Estado do Espírito Santo. Dentro das amostras testadas, 765 (55,5%) apresentaram anticorpos Dr. José de Oliveira (UFV) contra BoHV-1. Nesse estudo, 100% das propriedades testadas foram consideradas positivas.

1.3. Métodos Diagnósticos Os métodos diagnósticos considerados eficientes devem reunir características como sensibilidade, especificidade, praticidade e rapidez nos resultados. O diagnóstico dessas enfermidades é, na maioria das vezes, realizado por meio de testes de isolamento viral ou soroneutralização em microplacas, em que se busca avaliar a presença do vírus em alguma secreção coletada e a detecção de anticorpos específicos para a enfermidade, respectivamente. Entretanto, recentes avanços em técnicas de biologia molecular têm proporcionado possibilidades para diagnóstico de diferentes Figura 3. Rinotraqueite infecciosa Bovina. Abortamento consequente de uma infecpatógenos de forma específica e rápida. Dentre ção pelo vírus BoHV1. essas técnicas, destaca-se a Reação de Cadeia de Polimerase (PCR), que se baseia na amplificação 1.2. Informações Epidemiológicas de segmentos do genoma viral em diferentes mateO BoHV1 está presente em rebanhos bovinos riais biológicos. A PCR permite avaliar a presença do praticamente no mundo todo (Gibbs & Rweyeagente viral em qualquer fluido ou tecido corporal, mann, 1977; Silva et al., 2007). No Brasil, dados obtiproporcionando alta sensibilidade ao detectar dos a partir de levantamentos sorológicos, revelam positividade, mesmo em situações em que o vírus a expressiva disseminação do vírus em rebanhos se apresente inativado ou em estado de latência, de corte e leite. No estado de São Paulo foram encomo no caso do BoHV1 (Pilz et al., 2005). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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R e pr o d u çã o An i m a l Contaminação em ovócitos, sêmen e embriões

infecção, o patógeno pode estar associado à ZP do ovócito, no momento da fecundação, ou ser carreado para o seu interior por meio da fusão com um esAlém de afetar as funções reprodutivas dos permatozóide contaminado. Desse modo, a infecção animais infectados, o BoHV-1 contamina células empode ocorrer antes ou durante a fecundação (Wrabrionárias e gametas masculinos e femininos. Tendo thall & Sutmöller, 1998). Entretanto, as preocupações em vista que o transporte de embriões é, sem dúvida, em relação a partículas víricas vão muito além da sua muito mais seguro que o transporte de animais ou aderência ou não à ZP. Nesse contexto, é comprovasêmen, o potencial de propagação de doenças infecdo que, além do efeito deletério ao embrião, a simciosas tem se tornado de considerável interesse. ples presença do vírus é capaz de criar um ambiente A infecção de ovócitos por agentes virais comprohostil que acaba interferindo no desenvolvimento metem o desenvolvimento de embriões produzidos embrionário normal Archbald et al. (1979). in vitro e in vivo (BielanskI et al. 1997; Makarevich et al. Segundo a Sociedade Internacional de Trans2007), tornando justificável a preocupação das prinferência de Embriões (IETS), atualmente ainda não cipais agências regulatórias. Em estudos realizados se tem conhecimento de métodos não letais para pelo nosso grupo de pesquisa foi avaliada a presença avaliar existência de patógenos em embriões, anteriormente à transferência para as receptoras Arquivo do autor (Rufino et al., 2006). No entanto, existem três estratégias básicas que têm sido utilizadas, no intuito de prevenir e/ou monitorar a transmissão de patógenos de doadoras para receptoras: a) teste da doadora; b) processamento e/ou tratamento do embrião; c) teste dos recipientes utilizados no processamento dos embriões. Dessas, o processamento e tratamento do embrião tem sido realizado com frequência, devido à faciFigura 4. Análise em gel de agarose 1%. Produtos da PCR demonstrando a detecção do lidade, custo, eficácia e tempo de execução agente viral em tecidos ovarianos e ovócitos bovinos. (M: Marcador de DNA Ladder 100 pb; 1 desse procedimento (Givens & Marley, 2008). a 9: fragmento do genoma viral amplificado por PCR; C-: Controle negativo (DNA extraído de células MDBK livres do BoHV-1); C+: controle positivo (isolado BoHV-1LA))

da infecção do BoHV-1 em estruturas reprodutivas. Na Figura 4 é demonstrada a amplificação do material genético viral por meio da técnica de PCR. As amostras submetidas aos testes foram frações de ovários e ovócitos de fêmeas bovinas. Ovócitos e embriões, em fase inicial de desenvolvimento, são envoltos por uma estrutura denominada Zona Pelúcida (ZP). Esta membrana chama atenção por comportar-se como uma barreira de proteção do embrião, na qual se acredita impedir a passagem de partículas virais que permanecem retidas na ZP (Vanroose et al., 1999). Entretanto, enquanto está claro que a ZP intacta pode atuar como barreira mecânica do embrião contra patogênicos, ela pode agir como veículo passivo dos mesmos, principalmente de vírus que tem a capacidade de aderir-se a ela, como o BoHV1. Acredita-se que a infecção das células embrionárias possa ocorrer por meio dos gametas, podendo comprometer o embrião, o feto ou, subseqüentemente, o animal recém-nascido. Nesse tipo de

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2.1. Métodos de Controle: Uso da tripsina e antivirais Em relação à possibilidade de transmissão de agentes virais por embriões, existe maior interesse com o BoHV1 por este ter a capacidade de aderir na Zona Pelúcida (ZP) dos embriões, a qual possui receptores específicos para esse vírus (Rufino et al., 2006). Como tentativa de controle, a fim de minimizar a veiculação desse vírus por embriões, tem-se usado lavagens com a enzima proteolítica tripsina nos embriões, segundo as recomendações do manual da IETS (1998). Essas lavagens são recomendadas sobretudo em enfermidades em que a partícula viral comprovadamente tem tropismo pela ZP de embriões e/ou ovócitos, como o caso do BoHV1. Esse tratamento com tripsina a 0,25% (ph 7,6 -7,8) remove eficientemente múltiplos vírus envelopados como o BoHV-1, Virus da Doença de Aujeszky e BoHV-4. A prescrição do tratamento à base de tripsina envolve múltiplas lavagens dos embriões em diferentes concentrações da substância. Estudos recentes Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


demonstram que o tratamento com tripsina de embriões bovinos com a ZP intacta, previamente à transferência, são capazes de remover eficientemente BoHV-1 (Edens et al., 2003). Entretanto, mesmo com essas lavagens, as precauções sanitárias devem ser rigorosamente respeitadas em todas as etapas (Guerin et al.,1997; Thibier, 2001; Gard et al., 2007). Ainda em fase de pesquisas, algumas substâncias antivirais aparecem como alternativas futuras para controle de partículas virais em embriões. Entretanto, a baixa eficiência e a letalidade em embriões, em algumas situações, exigem que o uso dessas substâncias seja criterioso e restrito. O ácido fosfonofórmico e a lactoferrina têm comprovado efeito contra cepas de BoHV1. Contudo, o efeito prejudicial ao desenvolvimento de blastocistos tem restringido seu uso (Peek et al., 2004; Galik et al., 2006).

2.2. Avaliação do Risco Considerando a avaliação dos riscos dos embriões produzidos in vivo e in vitro, é possível inferir que a transmissão do patógeno por meio da transferência de embriões produzidos in vivo depende de vários fatores. Neste contexto, incluem a introdução do patógeno via doadora de embriões, doador de sêmen, reagentes de origem animal utilizados no processo, como a albumina sérica bovina e/ou soro fetal bovino e os recipientes utilizados no processamento dos embriões. Quanto ao potencial de transmissão dos patógenos por meio da transferência de embriões produzidos in vitro, depende da introdução do patógeno via doadora de ovócitos, doador de sêmen, reagentes de origem animal e doadoras de células somáticas utilizadas no processo de Maturação e/ ou Fecundação in vitro. Embora nos procedimentos in vitro a contaminação ambiental seja improvável de ocorrer se forem tomadas todas as precauções sanitárias, essa possibilidade não deve ser descartada (Wrathall & Suttmoller, 1998). A avaliação do risco de transmissão de doenças por embriões tem tido notoriedade cada vez mais, principalmente pela rigorosa política sanitária adotada pelos países importadores de material genético. Entretanto, para a confirmação do status de livre de contaminação pelo embrião, são realizados testes que buscam certificar a integridade da doadora de ovócitos e, se for o caso, do doador do sêmen; dos meios reagentes e dos recipientes utilizados no processamento dos embriões (Givens & Marley, 2008). Contudo, testes diretos nos embriões para determinar a possibilidade de infecção ainda necessitam Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

de aperfeiçoamentos. Enquanto isso, políticas de controle e prevenção dessas doenças têm sido amplamente requeridas.

Considerações Finais Ocupando o posto de maior produtor de embriões in vitro do mundo, a necessidade de pesquisas envolvendo doenças infecciosas e reprodução animal no Brasil tem se tornado cada vez maior. Associado a essa condição, o posto de grande exportador de material genético, envolvendo embriões e sêmen, faz com que o País necessite de tecnologia de ponta para superar a desconfiança e as exigências do

Dados dos Autores

Emílio César Martins Pereira Médico Veterinário, CRMV-MG nº 10509, Pós-graduando, DVT – UFV

Endereço para correspondência: Departamento de Veterinária (DVT), Universidade Federal de Viçosa (UFV). CEP 36570-000 Viçosa-MG. E-mail: emiliovet2004@hotmail.com

Eduardo Paulino da Costa Médico Veterinário, CRMV-MG nº 1843, Professor Associado, DVT – UFV. E-mail: epcosta@ufv.br

Abelardo Silva Júnior

Médico Veterinário, CRMV-MG nº 7796, Professor Adjunto, DVT – UFV.

Sanely Lourenço da Costa Médica Veterinária, CRMV-ES nº 1043, Pós-graduanda, DVT – UFV.

Vívian Rachel de Araújo Mendes

Médica Veterinária, CRMV-MG nº 11978, Pós-graduanda, DVT – UFV.

Aurea Helena Assis da Costa Médica Veterinária, CRMV-MG nº 4249, Pós-graduanda, DVT – UFV.

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R e pr o d u çã o An i m a l mercado europeu, principalmente em relação aos aspectos biosanitários. A necessidade de testes diagnósticos mais precisos e sensíveis são evidentes. Entretanto, novos protocolos de processamento de embriões têm contribuído bastante para reduzir a necessidade de validação

diagnóstica de embriões e sêmen bovino. Finalmente, apesar de toda preocupação em nível de embriões e tecnologias avançadas, é imprescindível o conhecimento pelos médicos veterinários dos aspectos clínicos e etiológicos da enfermidade, para uma abordagem mais concisa e segura dos casos encontrados.

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N a n o t e cn o l o g i a

Nanotecnologia: a próxima revolução na Agropecuária O que para nós, veterinários e zootecnistas, parece um tema tão distante, surreal e, por vezes, até complicado de compreender é mais comum do que pensamos. A Natureza a nossa volta é uma fonte praticamente inesgotável de nanoestruturas, que são utilizadas como fonte de bioinspiração para pesquisadores e empresas. Como exemplo, temos os vírus, as organelas das células, as caseínas do leite e uma infinidade de estruturas que estão na ordem de grandeza dos nanômetros. Mesmo cercados de nanoestruturas, o interesse por esta tecnologia é bastante recente, e por isso o termo nanotecnologia só foi criado em 1974 pelo japonês Norio Taniguchi. Porém, mesmo que empiricamente, já se vem fazendo uso da nanotecnologia. Por volta do século quatro, a incorporação de nanopartículas de prata e ouro ao vidro propiciou novos efeitos ópticos ao famoso copo de Licurgo, o qual se mostra verde quando a luz é refletida e vermelho quando a luz é transmitida. Desde o início dos estudos ao redor do mundo, tanto publicações científicas quanto patentes associadas à nanotecnologia vêm crescendo de forma exponencial nos países desenvolvidos e em desenvolvimento (OECD, 2009). Em recente levantamento, Norwack e colaboradores (2011) demonstraram que, ininterruptamente, há mais de cem anos, nos Estados Unidos já se comercializa nanopartículas de prata para múltiplas aplicações, como corantes, biocidas, catálise, tratamento de madeiras, dentre outras. Segundo relatório de atividades do biênio 2009/2010 do Fórum de Competitividade em Nanotecnologia criado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil, nos Estados

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Unidos até 2009 já haviam 1.091 produtos cadastrashutterstock dos no programa Project on Emerging Nanotechnologies, das quais 703 associadas à saúde ou aos alimentos. Para a FAO e para a WHO (2009), a nanotecnologia pode ampliar a capacidade de produção de alimentos de origem animal, basicamente por disponibilizar produtos que otimizem o uso de nutrientes, melhorem a detecção e o controle de doenças e que aumentem a produção de forragens e grãos. Tais impactos apontam a nanotecnologia como uma das alternativas de solução para equilibrar o aumento da demanda mundial por alimentos/redução da área agricultável por habitante no planeta (discussão oral in: FAO Round Tables – Plenary, NANOAGRI, 2010). Nesse contexto, fica claro que produtos nanoestruturados chegarão rapidamente às propriedades rurais, clínicas veterinárias e às indústrias alimentícias brasileiras. Portanto, esta matéria tem por objetivo esclarecer questionamentos importantes e que são frequentemente feitos por profissionais ligados ao setor animal. Várias agências internacionais propuseram definições para o termo nanotecnologia. De acordo com a Organização Internacional de Padronização (ISO), nanotecnologia é definida no documento ISO/DTS 80004-1 (2010) como “a aplicação do conhecimento científico para manipular e controlar a matéria em escala nanométrica e, com isso, fazer uso de propriedades e fenômenos que são tama-

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mudanças que podem ser promovidas pela nanotecnologia Muitas das características físicas, químicas e biológicas de dada substância são determinadas pelo somatório das consequências de fenômenos físico - químicos sobre a matéria; como exemplo desses fenômenos temos a força da gravidade, a inércia, o atrito, o movimento Browniano, as interações eletrostáticas, as repulsões estéricas, entre outros (Medeiros et al., 2006). Ao avaliar essa substância na escala métrica, sabe-se que ela sofre ação de todos os fenômenos supracitados, contudo alguns em maior intensidade que outros, como é o caso da gravidade, do atrito e da inércia que acabam por se sobrepor aos demais. Á medida que essa substância tem seu tamanho reduzido, sua área superficial por unidade de massa é drasticamente aumentada e, por volta dos

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tterstoc

100nm, os átomos que compõem a partícula ficam mais instáveis em relação à sua forma métrica, necessitando, portanto, de uma menor quantidade de energia para separá-los (Cao, 2004). Com isso, a substância tem sua reatividade e, dependendo do meio em que se encontre, sua solubilidade aumentadas. Concomitantemente, durante a redução de tamanho, a hierarquia da importância dos fenômenos fisico - químicos que atuam sobre a partícula começam a mudar e as forças antes minoritárias como, por exemplo, o movimento Browniano ou as interações eletrostáticas se sobrepõem em relação à gravidade, atrito ou inércia (Medeiros et al., 2006). Como consequência dessas novas relações, temos alterações nas características físicas, químicas ou biológicas conhecidas da substância ou mesmo o aparecimento de novas características e fenômenos. Utilizando o leite como exemplo, notamos que muitos de seus componentes estão em escala nanométrica, como a caseína, que em geral possui raio hidrodinâmico inferior a 400nm. Com esse tamanho, a intensidade do movimento Browniano da caseína supera a ação da gravidade, impedindo que ocorra sua precipitação. Todavia, quando ocorre acidificação do leite, a micela de caseína se desestabiliza e tende a se agregar mais facilmente. Nessa condição, as partículas agregadas têm seu raio hidrodinâmico aumentado e tendem a precipitar, basicamente pela ação da gravidade que passa a superar a força do movimento Browniano. Outro exemplo simples para observar o aparecimento de novos fenômenos em decorrência do tamanho é o dióxido de titânio, principal agente ativo dos protetores solares. Os primeiros protetores solares comerciais eram compostos por um líquido brancacento. Essa coloração branca é conferida por partículas com mais de 370nm, portanto, capazes de refletir todos os comprimentos de onda visíveis. Já as gerações mais modernas de protetores solares são formados exclusivamente por partículas com diâmetro inferior a 190nm. Como as partículas são menores que a metade da distância crista/crista da menor onda visível, o protetor solar fica transparente aos nossos olhos.

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nho e estrutura-dependentes e simultaneamente distintos daqueles associados com os átomos ou as moléculas individuais ou com os materiais na forma de agregados”. O Escritório de Patentes Europeu (EPO, 2009), que, por sua vez, define nanotecnologia como “termo que abrange as entidades com um tamanho geométrico controlado de pelo menos um de seus componentes funcionais abaixo dos 100nm e que sejam susceptíveis de efeitos físicos, químicos ou biológicos disponíveis intrínsecos a este tamanho”. O Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI, 2009) assume que nanotecnologia não pode ter uma definição única, dada a sua interdisciplinariedade nas áreas de química, física, biologia e engenharia. Devido ao grande número de definições, há ainda muita divergência sobre o tema, mas parece ser senso comum a noção de que a nanotecnologia está associada ao aparecimento ou mudança (aumento/diminuição) de uma característica da matéria associada à redução de escala de pelo menos uma de suas dimensões.

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Principais tipos de sistemas nanoestruturados I. Nanocarreadores poliméricos: são nanopartículas confeccionadas a partir de polímeros biodegradáveis ou não. Essas nanoestruturas dividem-se em dois grandes grupos: nanoesferas (Figura 1), que são partículas maciças e transportam um princípio ativo adsorvido a sua superfície ou entremeado entre as cadeias poliméricas; nanocápsulas, uma cápsula de núcleo oleoso revestida por polímeros. Quando comparada à nanoesfera, normalmente tem maior capacidade de encapsulamento, contudo tende a liberar o princípio ativo mais rápido. II. Lipossomas: estruturas esféricas uni ou multilamelares com grande quantidade de fosfolípedes que se organizam formando uma bicamada e um núcleo aquoso central, semelhante a uma célula. No núcleo aquoso, podem ser veiculadas substâncias hidrofílicas, enquanto a membrana fosfolipídica pode carrear uma substância lipofílica. III. Nanopartículas lipídicas sólidas: são nanopartículas compostas majoritariamente de lípides, frequentemente com ponto de fusão acima de 32°C e altamente eficientes para encapsular compostos lipofílicos. IV. Nanopartículas e nanorods metálicos: são partículas esféricas ou na forma de pequenos bastões, normalmente sintetizados a partir de metais ou semicondutores. Com múltiplas aplicações podem ser utilizados para produção de biossensores, liberação controlada ou construção de MEMS. V. Zeólitas: grupo de minerais que possuem poros nanométricos.

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Arquivo do autor

Figura 1. Microscopia Eletrônica de Varredura de nanoesferas poliméricas utilizadas para liberação controlada de antibióticos.

VI. Nanotubos de carbono : são estruturas cristalinas (cilíndricas) formadas por átomos de carbono em formato tubular podendo ser uni ou multilamelares (Figura 2). Apresentam propriedades mecânicas, elétricas e térmicas singulares. Podem ser utilizados para liberação controlada de princípios ativos e como carreador de DNA (Figura 3). VII. Fulerenos: são moléculas de carbono, estruturadas na forma de “gaiolas”, ou seja, elas têm a forma fechada em si, parecendo uma “esfera” ou “bola de futebol”. Podem ser utilizados para liberação controlada de princípios ativos e como carreador de DNA. VIII. MEMS/NEMS: são micro e nanomáquinas ou sistemas eletromecânicos. IX. Nanobiossensores: são dispositivos que, em nanoescala, convertem um evento biológico, como um distúrbio genético e/ou metabólico em um sinal mensurável e processável. São utilizados, principalmente, para diagnóstico. X. Sensores com componentes nanoestrurados: são sensores que apresentam pelo menos um dos componentes com tamanho nanométrico ou sensores com revestimentos nanométricos como por exemplo oliacetileno, polianilina, polipirrol ou outro.

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N a n o t e cn o l o g i a Potenciais aplicações da nanotecnologia Saúde Animal Dentre os segmentos da nanotecnologia, a nanomedicina talvez seja a área que tenha tido o maior salto tecnológico nos últimos anos. Dada a similaridade, em um curto espaço de tempo, muitas das tecnologias desenvolvidas para humanos serão transpostas para animais. Recentemente, a empresa farmacêutica suíça Oasmia desenvolveu um nanocarreador micelar baseado em esteres acrílicos contendo grupo funcional hidroxila, que está sendo utilizado para veicular quimioterápicos no tratamento oncológico de humanos. De acordo com o fabricante, seu sistema nanocarreador é uma plataforma para veicular, em meio aquoso, fármacos com elevada hidrofobicidade. Em curto espaço de tempo, a empresa transpôs a tecnologia para a linha pet, lançando os produtos Paccal® Vet , Doxophos® Vet , Carbomexx® Vet e Docecal® Vet, que contêm os antineoplásicos paclitaxel, carboplatina e docetaxel. O uso de fármacos “inteligentes” nas práticas veterinárias é uma forte tendência (Scott, 2007). O processo de nanoestruturação de um princípio ativo (i.e., entender princípio ativo como qualquer substância de interesse e, doravante denominado PA) pode lhe conferir uma série de vantagens em relação à sua forma convencional. Ao imobilizar um PA em uma nanopartícula, o sistema assume características próprias, que normalmente diferem das características originais do PA. Como exemplo pode-se citar a incorporação de um PA hidrofóbico em formulações farmacêuticas aquosas. Outra consequência imediata do nanoencapsulamento é a liberação sustentada e o direcionamento do PA. No primeiro caso, o PA imobilizado na nanopartícula passa a ser liberado gradativamente (por processo de difusão, degradação ou ruptura da nanopartícula), conseguindo um platô de concentração do PA dentro do limiar terapêutico. No segundo caso, o direcionamento passivo das partículas ocorre pela tendência de seu acúmulo nas regiões de processo

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inflamatório. Nessa condição, ocorre um relaxamento das junções interendoteliais que permite a passagem da nanopartícula do compartimento vascular para o compartimento intersticial, que passa a ter um trânsito lento e tende a se acumular. Por sua vez, pode ocorrer também o direcionamento ativo da nanopartícula, quando uma molécula qualquer (e.g. ácido fólico, anticorpos, glicose e outros) que favoreça sua captação por um tipo celular específico é imobilizada em sua superfície. Como consequência desses eventos, o PA tem suas propriedades físico-químicas camufladas e sua biodistribuição alterada, sem, contudo, ter seu mecanismo de ação modificado. Adicionalmente, quando no interior da nanopartícula, o PA tem sua estabilidade aumentada, uma vez que fica protegido de agentes oxidantes, enzimas ou mesmo interação química com outras moléculas. De forma geral, podemos citar como consequências práticas da nanoestruturação de um PA: uso mais racional do PA, uma vez que tanto o número de doses quanto a sua concentração podem ser reduzidos durante a terapia; o “rejuvenescimento” de bases farmacêuticas já desgastadas pelo uso contínuo; uso de novas vias de aplicação de medicamentos e vacinas, e menor geração de resíduos em produtos de origem animal. departamento de Física UFMG

Figura 2. Microscopia Eletrônica de Varredura de nanotubos de carbono.

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Embrapa Gado de Leite, laboratório de reprodução animal e nanotecnologia, departamento de Física UFMG e Faculdade de Farmácia UFJF

Point #1

Point #2

Point #3

Figura 3. Imagem confocal de embrião bovino tratado com nanotubos de carbono. Point #1, 2 e 3 são agregados de nanotubos.

Outras vertentes que têm recebido grande atenção são processo de sensoriamento remoto e desenvolvimento de novos testes de diagnóstico. De acordo com Scott (2005), MENS e NEMS podem ser utilizados para promover a liberação controlada de medicamentos, monitoramento em tempo real de padrões fisiológicos de animais ou mesmo serem utilizados para detecção de patógenos durante um processo infeccioso. O desenvolvimento de nanobiossensores é outra estratégia utilizada para detecção de patógenos ou toxinas. Sua elevada área de contato permite rápida, específica e eficiente interação entre analito e sensor, o que promove grande aumento na capacidade e velocidade de detecção de patógenos e toxinas (FAO e WHO, 2009). Dadlanai (2005) utilizou dendrímeros de DNA ligados em nanobarcodes e acoplados à micropartículas de poliestireno para detectar o Bacillus anthracis, a Francisella tularensis, corona vírus e o vírus Ebola.

Nutrição Animal Em teoria, qualquer vitamina, mineral, aditivo, suplemento ou probiótico pode ser nanoestruturado e utilizado na alimentação animal (FAO e WHO, 2009). A simples redução do tamanho de uma fonte mineral até a escala nano, pode aumentar sua solubilidade e, por consequência, sua biodisponibilidade. Esse fenômeno possui grande importância para minerais que são fonte de contaminação ambiental e

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são utilizados na alimentação ou mesmo para aqueles que possuem baixa biodisponibilidade. A incorporação de nutrientes protegidos na dieta animal já é uma prática rotineira em muitas fazendas, contudo muitos dos sistemas de proteção disponíveis no mercado ainda apresentam limitações. Como exemplo hipotético, aminoácidos essenciais nanoestruturados podem ter suas taxas de passagem ruminal aumentadas e, com isso melhor aproveitamento. Minerais utilizados nos núcleos de ração podem ser isolados uns dos outros, impedindo, assim, que ocorra interação entre si ou mesmo que sejam quelados. Outra aplicação reportada na conferência da FAO e WHO (2009) é o uso de nanopartículas de poliestireno peguiladas e revestidas com manose para serem incorporadas a rações de animais com o intuito de se ligarem a bactérias E. coli, inibindo sua multiplicação, favorecendo, assim, o ganho de peso animal. Esse é um caso típico de direcionamento ativo que pode ser aplicado para qualquer outra bactéria. Nos Estados Unidos, a estratégia de descontaminar alimento já está sendo abordada e, para tanto, já existe um aditivo à base de nanopartículas de argila que pode ser usado na alimentação animal com o objetivo de captar micotoxinas, impedindo a liberação dessas nos produtos de origem animal, como o leite (AFSSA, 2009).

Indústria de Produtos de Origem Animal Segundo um relatório da Agência Francesa de Segurança de Alimentos, até 2008 não existia nenhum produto apresentado como “oriundo da nanotecnologia” ou “partícula nanométrica” autorizado para uso como aditivo ou coadjuvante de tecnologia (AFSSA, 2009). Contudo, as possibilidades de uso desse tipo de tecnologia na indústria de produtos de origem animal são múltiplas. Entre os possíveis usos, estão aditivos nanoencapsulados que modificam a percepção do gosto ou ainda aromatizantes nanoestruturados, que por serem de tamanho muito pequeno têm maior superfície de contato, podendo aumentar o estímulo sobre receptores olfatórios e papilas gustativas, maxi-

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N a n o t e cn o l o g i a

mizando a percepção do flavour dos alimentos. Nanocápsulas contendo produtos antibacterianos também poderiam ser usadas na fabricação de derivados cárneos e lácteos, aumentado a sua conservação. Recentemente, Malheiros e colaboradores (2010) nanoencapsularam a nisina em lipossomas, e propuseram sua incorporação em leite para controlar o crescimento de Listeria monocytogenes. Outro setor da indústria de alimentos de origem animal que pode se beneficiar das muitas aplicações da nanotecnologia é o das embalagens. Muitas pesquisas têm sido realizadas na área de embalagens ativas que prolongam a vida de prateleira dos alimentos, o que pode ajudar a dinamizar as cadeias de produtos lácteos e cárneos, que às vezes enfrentam barreiras impostas pela perecibilidade dos produtos de origem animal. Já existem estudos avaliando a incorporação de nanopartículas metálicas, principalmente de prata que têm conhecido poder antibacteriano, em diversos materiais (polímeros, papel) que podem vir a ser usados para embalar

produtos de origem animal (AFFSA, 2008). O uso de zeólitas em bandejas para acondicionamento de carne pode absorver o líquido liberado por esse produto durante o armazenamento e prevenir o crescimento bacteriano (AFFSA, 2008). Outras possibilidades do uso de materiais nanoestruturados seriam em embalagens que ajudam na manutenção de condições adequadas durante a estocagem de produtos em atmosfera modificada e também o uso de nanocápsulas que liberam produtos antibacterianos de forma controlada.

Inspeção de Produtos de Origem Animal O uso de sensores com componentes nanoestrurados e nanobiossensores para a detecção de resíduos e contaminantes é o que apresenta maior potencial no segmento de inspeção. Por exemplo, Adrian e colaboradores (2009) biofuncionalizaram um microship com anticorpos e oligonucleotídios para produção de um nanobiossensor múltiplo. Os autores conseguiram detectar antibióticos do grupo dos β-lactâmicos, das sulfonamidas, fluorquinolonas e tetraciclinas em concentrações de μg.L-1. Razzino (2007) construiu um eletrodo contendo nanotubos de carbono e recoberto com acetilcolinesterase e

Dados dos Autores

Humberto de Mello Brandão

Médico Veterinário, CRMV-MG nº 6144, Pesquisador Embrapa Gado de Leite.

Endereço para correspondência: Laboratório de Nanotecnologia Aplicada à Saúde e Produção Animal, CEP 36038-330 – Juiz de Fora-MG. E-mail: humberto@cnpgl.embrapa.br

Juliana Carine Gern

Engenheira de Bioprocessos, CREA- PR nº 111459/D, Pesquisadora Embrapa Gado de Leite.

Nívea Maria Vicentini

Engenheira Agrônoma, CREA- SP nº 5060180873/D, Pesquisadora Embrapa Gado de Leite.

Michele Munk Pereira Bióloga, CRB-MG nº 76981/04D, doutoranda Faculdade de Medicina UFJF.

Patrícia Vilhena Dias de Andrade

Médica Veterinária, CRMV-MG nº 5437, Pós-doutoranda Embrapa Gado de Leite.

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propôs seu uso para a detecção de organofosforados e carbamatos em alimentos. Contudo, quando se leva em consideração a segurança do consumidor, muito ainda deve ser feito, adaptando ou criando novas técnicas para a detecção de estruturas nanométricas nos produtos de origem animal. Com a ampliação do uso de produtos oriundos da nanotecnologia esses podem vir a ser secretados no leite, ovos, carne e mel, e os órgão ligados à Inspeção devem estar preparados para detecção desses tipos de resíduos.

Iniciativas brasileiras em nanotecnologia aplicada à medicina veterinária e zootecnia Apesar de o tema ser novo, o Brasil já possui considerável reconhecimento internacional quando o assunto é nanotecnologia aplicada ao setor agropecuário. Prova disso foi a realização em 2010 no Brasil do Nanoagri – International Conference on Food and Agriculture Applications of Nanotechnologies, um evento realizado com o apoio da FAO, no qual foram discutidas ações para estimular, controlar e avaliar os impactos da nanotecnologia no agronegócio.

Do ponto de vista científico, já existem diversas iniciativas de pesquisa para o setor animal. Como destaque, temos a Rede de Nanotecnologia para o Agronegócio (Rede Agronano), que conta com a participação e apoio da Embrapa, de universidades, centros de pequisas regionais e do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA). Dentre as ações apoiadas por essa Rede estão o desenvolvimento de fármacos nanoestruturados para uso em mamíferos e peixes; sistemas de liberação controlada de ureia; desenvolvimento de sensores para a detecção de fraude no leite; sensores para detecção de feromônio; produção de animais transgênicos; nanobiossensores para detectar os agentes causadores da estafilococose, da tuberculose, da neosporoses e da anaplasmose. Para conferir a segurança dos produtos gerados pela Rede são ainda realizados ensaios de toxicidade dos nanomateriais produzidos. Em Minas Gerais existe também a Rede Mineira de Nanobiotecnologia (Nanobiomg), que tem ações para o desenvolvimento de fármacos nanoestruturados. Por sua vez, na USP de São Carlos estão sendo desenvolvidos nanobiossensores para detecção do vírus da febre aftosa e na USP de Pirassununga também são feitos sistemas de liberação controlada para hormônios de uso veterinário.

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P r o d u çã o a n i m a l

implantação e execução da Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) em bovinos INTRODUÇÃO A pecuária bovina é uma atividade de fundamental importância na economia brasileira, que tem destacado papel na geração de renda e empregos, seja no mercado internacional, em que é líder mundial. Segundo Luchiari Filho (2006), o Brasil detém o maior rebanho comercial do mundo e é o maior exportador mundial de carnes; embora detenha, ainda, uma posição inferior a outros países quando se considera a questão da produtividade. A eficiência reprodutiva é um dos principais fatores que contribuem para a melhora do desempenho produtivo e da lucratividade dos rebanhos bovinos. Para obter-se uma melhoria de qualidade e produtividade dos rebanhos há a necessidade, dentre outras ações, do emprego de diversas biotécnicas visando ao aumento da produção animal e à rápida disseminação de material genético superior. Nesse contexto, citam-se a incorporação de tecnologias como a inseminação artificial convencional (IA), a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), a produção in vitro (PIV) de embriões e a transferência de embriões (TE). A IA é uma ferramenta fundamental para o melhoramento genético do rebanho bovino. Entretanto, a detecção do cio, que requer tempo e pessoal adequadamente treinado, continua a ser um dos fatores limitantes para a sua ampla utilização. De acordo com Barros (2001), nesta última década, a melhor compreensão da fisiologia do crescimento folicular ovariano permitiu o desenvolvimento de tratamentos hormonais capazes de controlar o momento da ovulação. Dessa forma possibilitou a utilização da IATF, ou seja, IA com tempo pré-determinado, sem a necessidade de observação do cio. No entanto, a IATF necessita de um manejo reprodutivo adequado orientado por um Médico Veterinário qualificado, para acompanhamento

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de todo o processo, proporcionando, assim, uma melhoria nos resultados e confiabilidade na adoção dessa tecnologia.

ESTRATÉGIAS PARA O SUCESSO NA IATF O sucesso de um programa de IA está ligado aos fatores que influenciam o desempenho reprodutivo do rebanho como a sanidade, a nutrição, o manejo e o gerenciamento da propriedade. Além disso, é necessário o preparo ou a adaptação de instalações necessárias e treinamento do(s) inseminador(es). Por isso, tornam-se fundamentais a orientação e o acompanhamento de um Médico Veterinário devidamente qualificado, tanto na implantação do projeto reprodutivo quanto na execução de todas as etapas da IA e da IATF, além do direcionamento estratégico das inseminações subsequentes.

Instalações Para o bom desempenho da inseminação, recomendam-se as seguintes instalações: 99 tronco ou brete que deve ser coberto para evitar a incidência de chuvas e também a de luz solar, que é extremamente prejudicial ao espermatozóide; 99 sala para os materiais utilizados na inseminaç��o artificial, podendo ser de construção simples e econômica; 99 pia com água corrente e uma bancada em que o inseminador possa trabalhar com os materiais; 99 é importante ressaltar que todas essas estruturas devam estar próximas ao tronco de contenção, para que, após o descongelamento do sêmen, ele possa ser introduzido o mais rápido possível no aparelho reprodutor da fêmea. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


Antes de iniciar o programa reprodutivo, é necessário que um veterinário examine o sistema reprodutor das vacas e novilhas, que supostamente serão inseminadas, com o intuito de avaliar a atividade reprodutiva e de eliminar os animais com problemas clínicos (infecções uterinas, cistos ovarianos etc.). Assim, evita-se o desperdício de hormônios e sêmen em fêmeas não aptas. Além disso, torna-se necessária, em novilhas, a classificação do tamanho do útero e também da ciclicidade, exame que deve ser realizado pelo menos duas vezes e com intervalo de cerca de 15 dias, quando é averiguada a presença de corpo lúteo (CL). Essas características são fundamentais para definir se o animal nulíparo encontra-se com suficiente desenvolvimento uterino e suporte hormonal para desenvolver uma gestação. Contudo, a ciclicidade também deve ser avaliada em vacas primíparas e pluriparas, pois é quesito essencial na escolha e/ou definição dos protocolos de IATF a serem usados. Também é importante avaliar a condição geral do animal e se ele é portador de alguma doença que afete a eficiência reprodutiva, como: brucelose, tuberculose, leptospirose, IBR (vírus da rinotraqueíte infecciosa bovina), BVD (diarreia viral bovina), dentre outras.

Ultrassonografia e a IATF A utilização da ultrassonografia é ferramenta indispensável no auxílio do diagnóstico reprodutivo e de gestação dos animais utilizados para um programa reprodutivo. Dessa forma, a avaliação das fêmeas é mais precisa, podendo-se formar lotes por categorias que possuam características semelhantes; com isso, torna-se mais fácil executar a IATF propriamente dita.

Definição dos lotes Para facilitar o manejo dos animais e a execução dos protocolos, recomenda-se a separação em lotes, ou seja, em grupos que possuam as mesmas características reprodutivas (puberdade, número de partos, ciclicidade, condição uterina etc.) e em quantidade nunca excedente à capacidade de inseminação da equipe no período de 6 horas.

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Levantamento Reprodutivo

com a atividade reprodutiva, fator que interfere diretamente na lucratividade da pecuária bovina. Sendo assim, há cada vez mais necessidade de o técnico e/ou inseminador possuir prática em distinguir os escores corporais de cada indivíduo, conseguindo separar os animais aptos e não aptos para a reprodução. A condição corporal é avaliada a partir da quantidade de cobertura de músculos e gordura nos animais, definida por meio de escores, que são categorias nas quais os animais são enquadrados em função dessas reservas corporais acumuladas. Entre as vantagens dessa metodologia destacam-se: a facilidade de aprendizado, simplicidade, economia e o fato de não necessitar de nenhum equipamento especializado. O ECC é obtido por observação e palpação da gordura subcutânea das costelas e extremidades ósseas (adaptado de Braun et al., 1986). No Brasil, geralmente, se utiliza a escala de 1 a 5, apesar de também existir a escala de 1 a 9. A escala de 5 pontos possui pontuações intermediárias de 0.5, em que o escore 1 representa uma vaca muito magra, enquanto o escore 5 a classifica como excessivamente gorda (adaptado de Ferreira et al., 1990). Vacas e novilhas para entrar em um programa reprodutivo devem apresentar um escore corporal mínimo de 2,5; também devendo estar em balanço energético positivo, situação em que a quantidade de calorias ingeridas é maior do que o de calorias gastas. Além disso, um animal muito gordo, ECC 4.5 a 5, também não é desejável, visto que, principalmente na IATF, o excesso de gordura interfere na atuação de hormônios, como o estradiol, que é lipossolúvel.

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Para a implantação de programas de reprodução assistida, é possível a contratação de empresas terceirizadas para a organização e execução do projeto. Pois, além de os serviços prestados serem de maior confiabilidade pelo fato de a equipe executora ser formada por profissionais especializados, a propriedade pode reduzir despesas com aquisição de botijão de sêmen e nitrogênio.

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Terceirização dos serviços

Escore da Condição Corporal (ECC) O ECC possui alta correlação com a reprodução do animal (González, 2002), ou seja, possui relação direta Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011

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P r o d u çã o a n i m a l Sugestões de protocolos por categoria Numerosos protocolos farmacológicos para sincronização do estro em bovinos têm sido estudados, mas somente alguns têm mostrado resultados favoráveis e estão sendo utilizados em programas de IATF (Halon, 1996). A principal substância empregada na sincronização do estro e da ovulação é a prostaglandina (PGF 2α ), que causa regressão do corpo lúteo, quando há responsividade ao fármaco. Essa responsividade inicia-se no 5° dia do ciclo estral até o 17° dia (Odde, 1990). Posteriormente, é empregada em conjunto a aplicação do benzoato de estradiol (BE) e progesterona (P4) como tratamentos que induzem a regressão do folículo dominante e levam à emergência de uma nova onda, em que o crescimento folicular melhora as taxas de prenhez em programas de IATF (Mcdowel, 1998). A administração do BE determina a atresia folicular, além de apresentar um efeito sinérgico diminuindo os teores de LH e a aplicação de progesterona por um período de 7 a 9 dias, resulta na emergência de uma nova onda de crescimento folicular 3 a 4 dias após

do tratamento (Bó, 1995). É importante mencionar que uma segunda aplicação de BE 24 horas após a remoção do dispositivo de P4, mostrou-se eficiente como indutor da ovulação (Mcmillan, 1996). Outro fármaco que pode contribuir para aumentar o crescimento final do folículo préovulatório é a gonadotrofina coriônica equina (eCG) ou o hormônio folículo estimulante (FSH). A adição de eCG em programas de IATF representa melhoramento nas taxas de prenhez em zebuínos (Baruselli, 2003), vacas lactantes em anestro (Sá Filho, 2004), animais mestiços (indicus x taurus) (Cutaia, 2003) e novilhas nelore (Marques, 2005). Esses trabalhos ressaltam a importância que tem o eCG quando aplicado, principalmente em animais que se encontram em anestro pós-parto, com baixo escore de condição corporal e em novilhas. No final do protocolo de sincronização são utilizados vários tipos de hormônios para induzir a ovulação sincronizada nos programas de IATF. Nesse sentido, Pursley (1995) tem utilizado o GnRH como indutor da ovulação 24 a 32 horas após aplicação. Sá filho (2008), observou boas taxas de ovulação quando aplicado o BE, GnRH e cipionato de estradiol (ECP).

I– Protocolo de sincronização da ovulação de novilhas zebuínas para IATF com ECC > 2.5

ECP (0.5mg) + eCG (300UI) + PGF2α (150 µg)

BE (2mg)

IATF

Dispositivo de Progesterona

54h

Em novilhas com ECC acima de 2,5 é opcional a aplicação do hormônio eCG, pois apresenta maior grau de maturidade sexual Fonte: Modificado de Sá Filho (2008)

70

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II– Protocolo de sincronização da ovulação de vacas zebuínas para IATF eCG (300UI) + PGF2α (150 µg)

BE (2mg)

BE (1mg) IATF

Dispositivo de Progesterona

D9 Fonte: Modificado de Crepaldi (2009).

III– Protocolos de sincronização da ovulação de vacas zebuínas com bezerro ao pé para IATF Quando trabalhamos a técnica de IATF em um lote de vacas com bezerro ao pé, a remoção do bezerro auxilia no desenvolvimento folicular final e, consequentemente, aumenta as taxas de ovulação e prenhez nesse lote, já que na relação mãe-cria, a visão, o olfato, a identificação e a amamentação exercem efeito inibitório na atividade ovariana, devido à redução nas concentrações e liberação (amplitude e frequência) do hormônio LH, provavelmente devido à diminuição da secreção de GnRH (Williams, 1990). Em protocolos utilizados em vacas paridas, deve ser feita a remoção do bezerro por 48 horas, no período entre a retirada do dispositivo de progesterona (D7, D8 ou D9 do protocolo) e o dia da inseminação artificial. É interessante dois dias antes da remoção dos bezerros, trazê-los com as vacas para o pasto onde

ficarão durante o período em que não estarão com suas crias. Esse detalhe evita que as vacas tentem voltar para o pasto onde estavam, antes da retirada dos bezerros (Sá Filho, 2011). O piquete onde os bezerros vão ficar separados deve ser próximo ao piquete das matrizes, mas não pode ser vizinho de cerca, para evitar que os bezerros tenham contato físico com as vacas. Esses piquetes devem estar limpos, sem acúmulo de barro e possuir bebedouros contendo água limpa e de qualidade e com cocho de arraçoamento. Após a IATF, soltar as vacas com seus bezerros em piquete próximo ao curral, permitindo que os bezerros encontrem suas mães antes de serem levados de volta para o pasto. A remoção de bezerros é uma ferramenta que traz elevado incremento na taxa de prenhez à IATF, tem baixo custo e não causa redução no peso a desmama.

2ml PGF2α

BE (2ml)

Dispositivo de Progesterona

D0

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BE (1ml)

IA

Remoção dos Bezerros

D9

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P r o d u çã o a n i m a l IV – Protocolo de sincronização da ovulação de novilhas mestiças de leite para IATF

eCG (300UI) + PGF2α (150 µg)

BE (2mg)

BE (1mg) IATF

Dispositivo de Progesterona

D0 D9 Fonte: Modificado de Costa (2006).

V – Protocolo de sincronização da ovulação de vacas mestiças de leite para IATF

eCG (400UI) BE (2mg)

OU

FSH (10mg)

PGF2α (150 µg)

BE GnRH (100mcg)

IATF

Dispositivo de Progesterona

D0

8 - 10h após o GnRH

Fonte: Modificado de Souza (2008).

A substituição do BE pelo GnRH como indutor da ovulação determina menor variação no pico de LH e maior taxa de ovulação, consequentemente, melhora as taxas de prenhez nos programas de IATF

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Avaliação da partida de sêmen

Reciclagem do inseminador

Recomenda-se o uso de sêmem de touro provado. Uma vez definido o sêmen a ser utilizado na IATF é necessário, previamente à inseminação, o descongelamento de uma palheta e a avaliação física e morfológica da amostra, garantindo o uso de material de boa qualidade.

O treinamento do inseminador para a execução da IATF é de fundamental importância, pois é necessário inseminar um lote de animais em um tempo pré-determinado. Exige-se experiência no descongelamento do sêmen, montagem e passagem do aplicador pelo trato reprodutivo da fêmea a ser inseminada. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVII - nº 53 - 2011


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Observação do cio de retorno + IA convencional As vacas que não emprenharem da primeira inseminação retornarão ao cio cerca de 18 a 23 dias após, possibilitando nova inseminação com observação de cio ou simplesmente o repasse com touros. No caso de optar pelo repasse com touros, colocá-los na pro-

porção de 1:15, uma vez que o cio de retorno pós-IATF ocorre sincronizado.

Diagnóstico de gestação A importância de um diagnóstico precoce de gestação nas fêmeas domésticas apresenta

Dados dos Autores

REGINALDO DA SILVA FONTES

Médico Veterinário, CRMV-RJ nº 6707; Professor Associado I do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro (UENF).

Endereço para correspondência: Av. Alberto Lamego, 2000/CCTA/LRMGA – Parque Califórnia – Campos dos Goytacazes – CEP-28013-602 – Rio de Janeiro E-mail: gsoaresvet@oi.com.br

HÉCTOR JAVIER NARVÁEZ BEDOYA

Médico Veterinário, estudante estrangeiro, Doutorando em Ciência Animal do Programa de Pós-graduação da Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro (UENF).

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importância intrínseca (possibilidade de manejo) e econômica (detecção precoce de problemas de fertilidade). Deve ser realizada por palpação retal e/ou ultrassonografia transvaginal. O ultrassom é a ferramenta de maior confiabilidade no diagnóstico precoce de gestação; podendo a vesícula gestacional ser observada a partir de 25-28 dias após a inseminação. Agradecimento aos médicos veterinários Stephanie Mayra Pacífico de Souza e Tiago Botelho Gomes pelo auxílio nas diversas etapas de condução do projeto.

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2011 - ANO MUNDIAL DA MEDICINA VETERINÁRIA

VETERINÁRIO PARA A SAÚDE, VETERINÁRIO PARA O ALIMENTO, VETERINÁRIO PARA O PLANETA. 1761-2011 250 anos da Medicina Veterinária


publicações

Editora Roca Rua Dr. Cesário Mota Jr., 63 CEP 01221-020 – São Paulo-SP www.editoraroca.com.br

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Exame Clínico e Procedimentos terapêuticos em cães e gatos

Patologia Geral – veterinária aPlicada Pedro R. Werner

Christian F. Schrey

Este trabalho de referência prática é particularmente adequado a médicos veterinários e estudantes de medicina veterinária. O livro apresenta muitas ilustrações e instruções de utilização dos mais importantes métodos de exame e tratamento na clínica de pequenos animais. A base do material ilustrativo é a abordagem concreta e de fácil compreensão das etapas de exame, diagnóstico e tratamento. Explicações concisas e breves, as quais resumem as informações mais importantes, acrescentam muito significado às ilustrações. As técnicas e os métodos estão sistematicamente classificados de acordo com o assunto. Após uma breve introdução aos métodos de exames gerais, o autor discorre sobre os principais exames e formas de tratamento de todas as regiões do corpo, variando o espectro desde os métodos simples (por exemplo, eletrocardiograma, injeções) até os complexos (por exemplo, pericardiocentese). Além dos valores de referência fisiológicos, também se abordam as considerações patológicas dos exames.

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O autor apresenta um livro num formato que tenta fugir do academicismo, muitas vezes excessivo, presentes nos textos tradicionais ligados à patologia geral, para se aproximar mais da prática rotineira da medicina veterinária. Deu-se ênfase à morfologia e à patogênese das lesões básicas, correlacionando-as com o diagnóstico morfológico das doenças e usando, sempre que possível, muitos exemplos e ilustrações, com enfoque teórico-prático conciso, direto e aplicável. As imagens não são meramente ilustrativas e as legendas das figuras trazem muitas informações adicionais, principalmente quanto ao diagnóstico das alterações apresentadas. Sempre que possível, abordam-se técnicas e procedimentos necroscópicos e avaliação macroscópica de lesões, na tentativa de estimular a execução de necropsias. Além de ser dirigido ao estudante, tentando fazer do estudo da patologia geral algo realmente interessante, esse texto poderá ser utilizado também pelo profissional Médico Veterinário como fonte de consulta rápida e confiável.

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Imprensa Universitária Universidade Federal de Viçosa Departamento de Zootecnia www.lalbino@ufv.br

Prática veterinária: Uma abordagem didática

Tabelas brasileiras para aves e suínos Horacio Santiago Rostagno

Andrew J. Rosenfeld

Luiz Fernando Teixeira Albino

O livro foi elaborado para fácil consulta, com muitos tópicos, algoritmos, listas e quadros com pontos-chave. Fornece ao profissional a educação e as ferramentas para discutir e entender os diferentes processos das doenças, diagnósticos e tratamentos que podem ser necessários. O livro é fonte de treinamento para veterinários, técnicos e equipe. A abordagem oscila de assuntos administrativos e de comunicação com o cliente até doenças, distúrbios e procedimentos comuns. O objetivo é aumentar a capacidade da equipe em detectar e tratar problemas de saúde e capacitar todos os profissionais veterinários para que sejam comunicadores mais eficientes entre si e com os clientes. A obra inclui dois CD-ROM contendo módulos de treinamento e estudos interativos de casos para o aprendizado e a prática adicionais. Trata-se de um guia valioso para consultórios e hospitais veterinários.

O livro apresenta o resultado de trabalhos de experimentação e pesquisa desenvolvidos no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, visando construir com dados obtidos no País, uma tabela de composição de alimentos e de exigências nutricionais de aves e de suínos. Trata-se da terceira edição das Tabelas Brasileiras e a quase totalidade dos dados apresentados já foi publicada, principalmente para a comunidade técnica e científica nacional, por meio de artigos científicos, de dissertações de mestrado e de teses de doutorado. Para a confecção das tabelas brasileiras de composição de alimentos, foram realizadas milhares de análises de alimentos, produzidos no Brasil. Os dados obtidos foram testados sob rigorosas condições experimentais, envolvendo a observação de lotes de tamanho comercial. Os resultados das novas informações publicadas são importantes para que o Zootecnista e o Médico Veterinário brasileiro formulem rações visando à produção mais econômica de aves e de suínos.

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agenda

Agosto

Setembro

X Congresso de Ecologia “Ecologia e Gestão Ambiental”– I Simpósio de Sustentabilidade “Homem - AmbienteSustentabilidade”

5º Congresso Brasileiro de Homeopatia Veterinária

Data: 3 a 7/8/2011 Local: Belo Horizonte-MG Maiores Informações: www.amvhb.org.br

57º Congresso Brasileiro de Genética

Data: 30/8 a 2/9/2011 Local: Águas de Lindóia-SP Maiores Informações: www.sbg.org.br

Setembro 50 Anos do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

Data: 5 a 10/9/2011 Local: Auditório Flávio Miguel Scheneider – CCR Maiores Informações: www.ufsm.br

Seminário Nacional de Ensino de Medicina Veterinária

Data: 18 a 22/9/2011 Local: São Lourenço-MG Maiores Informações: contato@seb-ecologia. org.br

Data: 14 a 16/9/2011 Local: Brasília-DF Maiores Informações: www.cfmv.gov.br

1 º Congresso Internacional de Patógenos na Interface HomemAnimal (Icophai): impacto, limitações e necessidades em países em desenvolvimento

XV Enapave – Encontro Nacional de Patologia Veterinária – I Congresso Brasileiro de Patologia Veterinária – V Simpósio Brasileiro da CL Davis Foundation

Data:15/9/2011 a 17/9/2011 Local:Addis Ababa – Ethiopia Maiores Informações: http://www. conference-service. com/icophai2011/ welcome.cgi

Data: 26 a 30/9/2011 Local: Centro de Convenções de Goiânia-GO Maiores Informações: eventos.go4@ wincentraldeeventos. com.br

VEJA MAIS EVENTOS EM www.cfmv.gov.br 78

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Outubro

Novembro 38º Conbravet – Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária

Abravas – Bemestar em animais selvagens – XX Encontro e XIV Congresso

Conferência Latino-Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social

Data: 27 a 30/9/2011 Local: Belo Horizonte-MG Maiores Informações: www.minascentro. com.br ou ecolatina@ ecolatina.com.br

Data: 3 a 7/10/2011 Local: Campinas-SP Maiores Informações: info@abravas.org.br

Data: 1 a 4/11/2011 Local: Florianópolis-SC Maiores Informações: conbravet2011@ attitudepromo.com.br

IX Congresso Brasileiro de Buiatria

VIII Congresso Iberoamericano FIAVAC – VIII Congresso Nacional de Suvepa – XXI JornadasVeterinárias de Maldonado

Data: 4 a 7/10/2011 Local: Goiânia-GO Maiores Informações: www.buiatriagodf. com.br

As datas e locais podem sofrer alterações. Fique atento ao Portal CFMV

Data: 24 a 26/11/2011 Local: Punta del Este Uruguay Maiores Informações: www.fiavac2011.org

EVENTOS ORGANIZADOS PELO

CFMV EM 2011 JÁ TÊM DATA PREVISTA EVENTO

DATA

LOCAL

XIX Seminário de Ensino de Medicina Veterinária

14 a 16/9/2011

Brasília-DF

Pré-Evento no IX Congresso Brasileiro de Bioética

7/09/2011

Brasília-DF

III Encontro de Ética, Bioética e Bem-Estar Animal – Nordeste

4/10/2011

São Luis-MA

17 e 18/10/2011

Brasília-DF

7/11/2011

Brasília-DF

7 a 11/11/2011

Brasília-DF

II Fórum das Comissões Nacional e Regionais de Ensino de Zootecnia I Fórum Nacional de Saúde Ambiental Curso de Formação de Professores em Medicina Veterinária e Zootecnia para Ética, Bioética e Bem-Estar Animal

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opinião

Seis meses em Córdoba Maria Izabel Merino de Medeiros

Médica Veterinária, MSc, DSc. CRMV – SP nº 13293 Pesquisadora Científica Nível III no Instituto de Tecnologia de Alimentos – ITAL, Campinas -São Paulo e Membro da Comissão Nacional de Saúde Ambiental – CNSA do CFMV.

Fico feliz em contar a maravilhosa experiência que vivi durante os seis meses em que morei na cidade de Córdoba, Andaluzia, Espanha, fazendo parte de meu doutorado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes. “Os doutorandos matriculados em curso de doutorado com notas 4, 5, 6 e 7, obtida na última Avaliação Trienal da Capes, podem informar-se na coordenação de seu programa de pós-graduação sobre a disponibilidade de bolsas no Programa de Doutorado no País com Estágio no Exterior – PDEE. O objetivo desse programa é contribuir para o estabelecimento e/ou a manutenção do intercâmbio dos cursos de Pós-graduação do País com seus congêneres no exterior, por intermédio da concessão de cotas de bolsas às Instituições de Ensino Superior para estágio de doutorando no exterior. No PDEE a seleção é feita pelas próprias instituições, seguindo os princípios de transparência e excelência estabelecidos pela Capes. As coordenações dos cursos de doutorado habilitados ao PDEE devem proceder a um processo seletivo interno; os alunos selecionados devem fazer a inscrição on-line, e a Pró-reitoria deve enviar as candidaturas à Capes, de acordo com as Orientações para Candidatura e o Calendário do PDEE. O aluno de doutorado poderá realizar um estágio de 4 até 12 meses para desenvolver atividades no exterior, que sejam complementares e essenciais ao seu projeto de formação no Brasil”. (http://www. capes.gov.br/bolsas/bolsas-no-exterior/estagio-dedoutorando-pdee). E foi assim que no final de 2009 entrei com a papelada necessária para que pudesse ser avaliada. Sou doutoranda do departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Reprodução da Fa-

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culdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, Campus Jaboticabal. Foi uma grande oportunidade fazer parte de meu doutorado na Universidad de Córdoba – UCO, uma das universidades mais conceituadas da Espanha, situada na região de Andaluzia. Falar espanhol não é fácil como todos pensam. Na realidade, o que geralmente escutamos no Brasil é o bom e feio “Portunhol”. Precisei estudar para passar no exame de proficiência no idioma espanhol DELE, no nível intermediário, emitido pelo Instituto Cervantes e obrigatório para quem quer ser aprovado no PDEE. Tudo pronto, meu orientador brasileiro, Professor Dr. Antonio Nader Filho entrou em contaArquivo do autor

Primeiro Brasão representativo da Universidade de Córdoba, 1847.

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Arquivo do autor

to com meu futuro orientador espanhol, Professor Dr. Luiz M. Medina Canalejo, do Departamento de Bromatología y Tecnología de los Alimentos da UCO para que fizéssemos um projeto de pesquisa utilizando novas tecnologias nos seis meses em que estaria naquela universidade. Desde o início, a oportunidade de trabalhar em um departamento de Tecnologia de Alimentos me encantou, pois como Pesquisadora Científica do Instituto de Tecnologia de Alimentos – ITAL em Campinas-SP, estaria no lugar certo e na hora certa. Afinal, estava afastada para doutorado pelo governo e não podia perder a oportunidade de aperfeiçoamento. A palavra que define um doutorado “Sandwich” não pode ser apenas “aperfeiçoamento”, mas descobrimento, amadurecimento, conhecimento e muitos outros “mentos” que pude adquirir e memorizar. Cheguei à cidade de Córdoba no dia 1º de maio de 2010, onde pude vislumbrar o colorido das flores na primavera e ver de perto a famosa “Batalla de las Flores”, o “Festival y Concurso de Patios, e a “Feria de Ntra. Sra. De la Salud”, momentos inesquecíveis. A cidade no mês de maio estava em festa e o colorido das flores nas ruas me alegrava todos os dias, amenizando a saudade da família que ficou no Brasil. Para chegar até a Universidade, era preciso todos os dias pegar o trem para “Rabanales” (Nome do Campus que estava a 13km da cidade). Não pensem que isso era um grande sacrifício, realmente não era. Os trens da Espanha são ótimos e havia um especial para os alunos da Universidade com taxas especiais e vários horários durante o dia. O Campus, muito bem dividido, me acolheu e, durante seis meArquivo do autor

Edifício Darwin no campus da Universidade de Córdoba.

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Izabel Medeiros em atividade no Laboratório.

ses, trabalhei juntamente com a equipe do Prof. Luis Medina no Edifício Darwin. Minha tese de doutorado é com a epidemiologia molecular de Staphylococcus aureus em planta de laticínio, com identificação genotípica de toxinas estafilocócicas. Na Espanha, tive a oportunidade de trabalhar com diversos tipos de queijo da região da Andaluzia analisando a presença de Staphylococcus aureus e aprendendo a trabalhar com o “miniVidas” (bioMérieux, Inc. France), equipamento automatizado que realiza uma análise imunoenzimática diretamente no alimento, dando o resultado da presença de toxinas específicas em 80 minutos. Esse aparelho é muito utilizado pelos laboratórios de todas as províncias da Espanha e pude acompanhar esse trabalho de perto visitando o laboratório de Saúde Pública de Córdoba. Também tive a oportunidade de participar como colaboradora do mestrado da Médica Veterinária Victoria Ruz Gil, também orientada pelo Dr. Luis Medina, que avaliou parâmetros de qualidade do queijo “Manchego”, obtido a partir de leite de ovelhas com diferente tipo de alimentação. Aprendi muito durante esse tempo na Espanha. Novas técnicas, novos equipamentos, novos métodos de trabalho, eternos laços de amizade e de parcerias científicas. E é claro que durante os finais de semana e feriados aproveitei para conhecer outros lugares na Espanha e alguns países vizinhos. Vocês, médicos veterinários e zootecnistas que estão em uma pós-graduação e que têm a possibilidade de fazer parte do seu mestrado ou doutorado em outro país, procurem fazer. O tempo passa muito rápido. Um banho de cultura, um tsunami de história que nunca esquecerei.

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Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Pará – CRMV-PA Endereço: Avenida Gentil Bitencourt, 2027. Bairro São Bráz - Belém-PA CEP: 66.063-090 Telefone: (91) 3249-0444 – Fax: (91) 3249 - 8664 E-mail: secretaria@crmvpa.org.br

Diretoria Executiva

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Presidente: Méd. Vet. Edson Brito Ladislau

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CRMV-PA nº 0361

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Vice-Presidente: Méd. Vet. Marcello Ribeiro Monte Santo CRMV-PA nº 1003

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Secretário-Geral: Méd. Vet. Augusto de Araújo Vianna CRMV-PA nº 0576

Méd. Vet. Benjamim de Souza Nahúm

Tesoureiro: Méd. Vet. Liliane Almeida Carneiro

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Conselheiros Efetivos

Méd. Vet. Fernando Antônio Serrano Albert CRMV-PA nº 0660

Méd. Vet. Humberto Soares Ferreira

Méd. Vet. José de Ribamar Silva Pimentel

CRMV-PA nº 0411

CRMV-PA nº 0536

Méd. Vet. Leônidas Olegário de Carvalho

Méd. Vet. Walmir Sarmento Pinto

CRMV-PA nº 0665

CRMV-PA nº 1317

Méd. Vet. Nazaré Fonseca de Souza

Zoot. Meyb Cristny dos Santos Seixas

CRMV-PA nº 0484

CRMV-PA nº 096/Z

Méd. Vet. Neuma Karla Gomes de Lima Gentil CRMV-PA nº 0756

Mandato: 22/9/2008 a 21/9/2011


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Galeria de Imagens Médicos Veterinários, Zootecnistas e Alunos de Graduação A revista do CFMV está criando um acervo fotográfico e, para isso, conta com a sua colaboração. As imagens serão utilizadas em reportagens e peças institucionais de divulgação do CFMV e devem conter motivos relacionados à Medicina Veterinária e à Zootecnia, como rebanhos, casos clínicos, animais e até situações inusitadas. O crédito do autor da foto sempre virá na publicação. As fotos deverão estar com excelente nitidez, sem saturação, sem estouro de luz ou sombra; também não poderão conter qualquer tipo de montagem. A resolução deve ser de no mínimo 300dpi, medida de 15cm de altura, em JPG (sem muita compactação) e as cores em cmyk. Não há limites de fotos por autor. As imagens deverão ser enviadas identificadas para: artigos@cfmv.gov.br


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