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ISSN 1517-6959

R e v i s t a

Ano 16/2010 – N°51 – R$ 7,00

CFMV

Set/out/nov/dez

Conselho Federal de Medicina Veterinária

bem-estar animal e o ensino de zootecnia: um desafio promissor


CFMV A Revista CFMV é editada quadrimestralmente pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária e destina-se à divulgação de trabalhos técnicocientíficos (revisões, artigos de educação continuada, artigos originais) e matérias de interesse da Medicina Veterinária e da Zootecnia. A distribuição é gratuita aos inscritos no Sistema CFMV/CRMVs e aos órgãos públicos. Correspondência e solicitações de números avulsos devem ser enviadas ao Conselho Federal de Medicina Veterinária no seguinte endereço:

SIA – Trecho 6 – Lote 130 e 140 Brasília – DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 – Fax: (61) 2106-0444 Site: www.cfmv.org.br – E-mail: cfmv@cfmv.org.br

A Revista Cfmv é indexada na base de dados AGROBASE

Revista CFMV. – v.16, n.51 (2010) Brasília: Conselho Federal de Medicina Veterinária, 2010 Quadrimestral ISSN 1517 – 6959 1. Medicina Veterinária – Brasil – Periódicos. I. Conselho Federal de Medicina Veterinária. AGRIS L70 CDU619(81)(05)


Sumário 4

Editorial

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Entrevista

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Bem-estar Animal

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Saúde Pública

25 55 60 76 78 79

Suplemento Científico

|

Masao Iwasaki

Comportamento Animal Hepatopatias em Bovinos Publicações

Agenda Opinião

|

Jorge Couto Pimentel – Um olhar sobre a regulamentação de produtos veterinários no Brasil


editorial

Mais um ano chega ao fim Neste momento de paz, no qual todas as pessoas se abraçam, se entendem, se cumprimentam e buscam por novos sonhos para tentar descobrir a razão de ser feliz de verdade, a nossa sensação de tarefa cumprida nos enche de alegria. É com grande satisfação que apresentamos esta edição e aproveitamos para agradecer a nossa equipe, aos colegas Médicos Veterinários e Zootecnistas que submeteram artigos para publicação e àqueles que foram relatores, aos amigos leitores, à Diretoria do CFMV que acolheu nossas sugestões e aos nossos familiares que nos apoiaram durante este ano. Buscamos levar a você informações compostas de temas atuais, diversificados, e tivemos a satisfação, a partir do número 50, de apresentar a Revista CFMV num novo formato gráfico, que facilitou a leitura,

modernizou-a e colocou-a nos moldes do que há de atual na transmissão da informação escrita. É tempo de fazer um balanço de tudo o que aconteceu. E aproveitamos para desculpar-nos dos erros que porventura cometemos e agradecermos aos colegas, críticos, que imediatamente se manifestaram. Agora é tempo de transformarmos os momentos bons em novas energias, em entusiasmos e, principalmente, na esperança de que os nossos sonhos vão se realizar. Natal é, sobretudo,  lembrar o que há de permanente no mundo que passa: a amizade, o amor, a esperança, que  são mais do que enfeites ou adornos. Constituem a seiva da árvore natalina. É tempo de agradecermos por todos os momentos felizes que tivemos!

E X P EDIE N TE CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA SIA – Trecho 6 – Lote 130 e 140 Brasília–DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 Fax: (61) 2106-0444 www.cfmv.org.br cfmv@cfmv.org.br

CONSELHEIROS EFETIVOS Adeilton Ricardo da Silva

Tiragem: 85.000 exemplares

José Saraiva Neves

DIRETORIA EXECUTIVA Presidente

Benedito Fortes de Arruda

Eduardo Luiz Silva Costa CRMV-SE Nº 0037

Secretário-Geral

Joaquim Lair

Oriana Bezerra Lima CRMV-PI Nº 0431

CRMV-RR Nº 0004

Presidente

Eduardo Luiz Silva Costa Joaquim Lair

CRMV-GO Nº 0242 CRMV-PB Nº 0237

Amilson Pereira Said CRMV-ES Nº 0093

Geovane Pacífico Vieira CRMV-AL Nº 0250

Antônio Felipe Paulino Figueiredo Wouk CRMV-PR Nº 0850

CONSELHEIROS SUPLENTES Josiane Veloso da Silva CRMV-MA Nº 0030/Z

Tesoureiro

Luiz Carlos Januário da Silva

CRMV-ES Nº 0093

CONSELHO EDITORIAL CRMV-SE Nº 0037

Célio Macedo da Fonseca

CRMV-GO Nº 0242

Amilson Pereira Said

CRMV-DF Nº 0166/Z

CRMV-RO Nº 0002/Z

CRMV-GO Nº 0272 Vice-Presidente

Ricardo de Magalhães Luz

CRMV-AC Nº 0001/Z

Nivaldo de Azevêdo Costa

Editor Ricardo Junqueira Del Carlo

CRMV-MG Nº 1759

Jornalista Responsável Flávia Tonin MTB Nº 039263/SP Projeto e Diagramação Duo Design Comunicação Impressão Gráfica Editora Pallotti

CRMV-PE Nº 1051

Raimundo Nonato C. Camargo Júnior CRMV-PA Nº 1504

OS ARTIGOS ASSINADOS SÃO DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES, NÃO REPRESENTANDO, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO CFMV.


En t r e v i s ta

MASAO IWASAKI Médico Veterinário graduado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Obteve os títulos de Mestre, Doutor, Professor Livre Docente, Professor Associado e Professor Titular na Universidade de São Paulo. Foi Diretor do Hospital Veterinário e Diretor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Bacharel em Direito e Advogado graduado pela Universidade Paulista. Concluiu o Curso de Especialização em Direito Ambiental da Faculdade de Higiene e Saúde Pública e Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Foi Assessor na Coordenação de Vigilância em Saúde (COVISA) da Secretaria de Saúde do Município de São Paulo. Foi Chefe do Departamento Técnico da Fundação Parque Zoológico de São Paulo, vinculada à Secretaria do Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo. Exerce, atualmente, o cargo de Diretor-Administrativo, por nomeação do Conselho Superior da Fundação Parque Zoológico de São Paulo. Endereços eletrônicos: miwasaki@usp.br ou miwasaki@sp.gov.br / CRMV-SP 00771 e OAB 226021

1. O senhor poderia fazer um breve relato sobre sua carreira profissional? Iniciei a carreira trabalhando em clínicas de pequenos animais e de equinos no Jóquei Clube de São Paulo. Ainda recém-formado fui convidado a lecionar a disciplina de Radiologia na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Após doutorado, passei a dedicar-me integralmente à carreira universitária. Na USP adquiri experiência administrativa exercendo cargos de direção do Hospital Veterinário (HOVET) e, também, da FMVZ-USP. No exercício das atividades acadêmicoRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

administrativas, vislumbrei a possibilidade de ampliar conhecimentos em outras áreas, para melhor exercê-las. Foi quando ingressei no Curso de Direito. Logo após a aposentadoria na USP, na mesma universidade iniciei o Curso de Especialização em Direito Ambiental, esse curso também enfocava aspectos do Direito Sanitário. Em razão desse envolvimento, fui convidado a colaborar, como consultor, na Secretaria de Saúde do Município de São Paulo. No momento estamos trabalhando na Fundação Parque Zoológico de São Paulo, que é vinculada à Secretaria de Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo.

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En t r e v i s ta Arquivo Pessoal

e ampliadas do CCZ. É preciso lembrar que o CCZ, além do controle de animais domésticos, na atualidade desenvolve programas de controle populacional, por meio de cirurgias, programas de treinamento para respeitar-se o bemestar animal e, ainda, outras ações para o controle de animais sinantrópicos que possam causar incômodos ou agravos à população.

2. O senhor poderia falar a respeito de sua experiência na Secretaria de Saúde do Município de São Paulo? O município de São Paulo assumiu plenamente o SUS, o que deverá ocorrer com outros municípios do Brasil. Para poder gerir o Sistema de Vigilância em Saúde, foi criada a Coordenação de Vigilância em Saúde (COVISA). Fui convidado a trabalhar nessa Coordenação, que reúne várias gerências, entre elas o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), a Gerência de Vigilância em Saúde Ambiental e a Gerência de Vigilância em Serviços de Interesse da Saúde. É preciso salientar que as gerências trabalham de forma integrada, empregando profissionais de várias áreas da saúde e da biologia. O enfoque maior das ações de COVISA é a saúde pública. Neste contexto o CCZ está ampliando suas missões. A minha contribuição foi a de trabalhar na estrutura organizacional do CCZ, planejar e projetar o plano de descentralização desse Centro pelas macrorregiões do município, bem como equipá-lo com laboratórios e veículos, para melhor desenvolver as ações atuais

3. Que considerações o senhor faz da participação do Médico Veterinário no sistema de vigilância em saúde dos municípios? Como já destacamos, o que vigora na atualidade é o sistema de vigilância em saúde que emprega profissionais de várias áreas. O que verificamos é que, proporcionalmente, é menor o contingente de Médicos Veterinários em relação a outras profissões. Eles estão mais adstritos ao controle de animais domésticos. Podem e devem assumir outras funções dentro do sistema, com importante participação nas ações orientadas à saúde pública, que é a missão principal do sistema de saúde. 4. Com a oportunidade de estar trabalhando na Fundação Parque Zoológico de São Paulo, qual é a sua análise sobre a atuação do Médico Veterinário nas questões ambientais ligadas à fauna silvestre? O currículo de algumas faculdades tem possibilitado aos recém-formados praticarem a clínica de animais silvestres. É preciso, porém, salientar que o campo de atuação para esses profissionais está restrito às clínicas privadas e aos zoológicos. O que verificamos é que as maiores possibilidades de atuação dos Médicos Veterinários, já na atualidade e que, sem dúvida, crescerão em futuro próximo, estão relacionadas à proteção e conservação da fauna silvestre. Faltam profissionais qualificados para desenvolverem projetos de conservação da fauna, para atuarem em órgãos públicos

“Os Médicos Veterinários podem e devem assumir outras funções dentro do sistema, com importante participação nas ações orientadas à saúde pública, que é a missão principal do sistema de saúde“ 6

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“Grandes empresas e bancos estão absorvendo os “profissionais verdes ”para desenvolverem a área da conservação da biodiversidade, para o marketing empresarial “ incumbidos de proteger a fauna e para analisarem processos de licenciamento ambiental, quando houver impacto na fauna. Grandes empresas e bancos estão absorvendo os “profissionais verdes” para desenvolverem a área de conservação da biodiversidade, para o marketing empresarial. Enfim, são grandes as oportunidades para os Médicos Veterinários desde que se qualifiquem nas disciplinas afins às ciências da natureza. 5. O senhor acha que os projetos pedagógicos dos atuais cursos de veterinária permitem a formação adequada dos Médicos Veterinários para atuarem na vigilância em saúde e no trabalho com animais silvestres? Mesmo porque, existe uma concorrência muito grande com outras profissões. As matrizes curriculares da maioria das faculdades que conheço não contemplam disciplinas que capacitem para as áreas da saúde e do meio ambiente, conforme já comentei. É preciso introduzir matérias multidisciplinares na formação do Médico Veterinário, como Ecologia, Zoologia Geral, Entomologia Médica e Médica Veterinária, Noções de Direito, Direito Sanitário e Direito Ambiental. Destaco, como exemplo, a necessidade de os profissionais dessas áreas operarem, rotineiramente, com legislações nas suas atividades. Arquivo Pessoal

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6. O senhor sempre atuou numa área específica da Medicina Veterinária, a radiologia de animais. Nesse sentido, qual sua opinião a respeito da especialização e mercado de trabalho? Defendo que a matriz curricular do Curso de Medicina Veterinária ofereça conhecimentos generalistas ao alunado. Recomendo aos recémformados, especialmente aos que se inclinam para as áreas clínicas, que iniciem a carreira como profissional generalista, para, após experiência prévia, optarem por uma especialização, que, sem dúvida, é condição mais promissora no atual mercado de trabalho. 7. O senhor, neste momento, é também advogado. Como é ser um Médico Veterinário Advogado? Até o presente momento, tenho atuado como Médico Veterinário que tem no Direito importante ferramenta para o desempenho de múltiplas funções. A experiência demonstrou que todos necessitamos de conhecimentos jurídicos, no mínimo, basilares. 8. Para finalizar, no entendimento do senhor, como provocar mudanças necessárias para ampliar a empregabilidade dos Médicos Veterinários nas áreas da saúde e do meio ambiente? Além das ações já encetadas pelas entidades da classe, especialmente o CFMV e os CRMVs, é preciso mobilizar os políticos, principalmente os representantes dos municípios, para reivindicar-se maior participação dos Médicos Veterinários no Sistema de Vigilância em Saúde. Porém, inquestionavelmente, para ampliar-se a empregabilidade, é preciso que as faculdades promovam com maior celeridade mudanças curriculares para formar profissionais aptos para o atual mercado de trabalho. Essas atualizações curriculares não devem se restringir somente às áreas em tela, mas a outras, como, por exemplo, a de produção animal, na qual se requer que o profissional tenha formação diversificada para também conhecer sobre agronegócio e sobre agropecuária sustentável.

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D e s ta q u e s CFMV assina termo de cooperação com o MEC para subsidiar o Ministério com informações técnicas O CFMV assinou, em 21 de setembro, um termo de cooperação com o Ministério da Educação (MEC) para estabelecer oficialmente subsídio técnico para as ações de regulação e supervisão da educação superior, especificamente para as áreas da Medicina Veterinária e Zootecnia. Ao CFMV caberá elaborar um relatório de manifestação técnica para os projetos de autorização, reconhecimento e de renovação de reconhecimento referente aos cursos mencionados. A manifestação técnica somará informações para a decisão do MEC em conjunto com a análise documental e com outros relatórios. Além disso, o CFMV poderá encaminhar reflexões sobre as disposições nas diretrizes curriculares, bem como sugestões de critérios e requisitos necessários ao aperfeiçoamento dos procedimentos de autorização de cursos. A Secretária de Educação Superior, Maria Paula Dallari Bucci, afirmou que o “MEC lança este termo de cooperação para que tenha os Conselhos como partícipes do processo de reconhecimento de cursos. Com esta ação divide com as pessoas interessadas da

O CFMV foi representado pelo Presidente da Comissão Nacional de Ensino da Medicina Veterinária, Rafael Gianella Mondadori. Participaram da cerimônia a Secretária de Educação Superior, Maria Paula Bucci , e o diretor de regulação e supervisão de educação superior do MEC, Paulo Roberto Wollinger.

sociedade os esforços para elevar a qualidade do ensino no País”, disse. Na avaliação do Presidente do CFMV, Benedito Fortes de Arruda, “a parceria representa o reconhecimento do Governo Federal aos esforços do CFMV para garantir a qualidade da formação profissional. Exemplo de ação foi o Exame Nacional de Certificação Profissional que contou com apoio da comunidade acadêmica e dos Conselhos Regionais de Medicina Veterinária e gerou dados para a avaliação do ensino que já foram usados pelo próprio MEC”.

CFMV é homenageado com “Medalha 150 Anos do Mapa”

Presidente do CFMV recebe os cumprimentos do Ministro Wagner Rossi e também do Secretário de Defesa Francisco Jardim e o Diretor-Geral da OIE, Bernard Vallat.

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Dentre as comemorações dos 150 anos do Ministério da Agricultura, o CFMV foi homenageado com a “Medalha 150 Anos do Mapa”. A entrega foi realizada na manhã de 28 de julho pelo Ministro Wagner Rossi e pelo Secretário de Defesa Agropecuária e Médico Veterinário Francisco Sérgio Ferreira Jardim. Na ocasião, o Presidente do CFMV, Benedito Fortes de Arruda, também foi cumprimentado pelo Diretor-Geral da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), Bernard Vallat. Também participou da solenidade o tesoureiro do CFMV, Amilson Pereira Said. A Medalha 150 Anos do Mapa é um reconhecimento às instituições parceiras do Ministério que exercem papel importante para a Agropecuária Brasileira. Nas palavras do Ministro Wagner Rossi, “são consideradas entidades de grande valia para todos nós”. O Ministério prestou outras homenagens a profissionais e instituições.

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Câmara Nacional de Presidentes do Sistema CFMV/CRMVs apresenta temas que desafiam a Medicina Veterinária e A Zootecnia

Presidentes do Sistema CFMV/CRMVs – que participaram da Câmara.

As novas biotecnologias e setores em expansão para o mercado de trabalho de Médicos Veterinários e Zootecnistas foram apresentados aos Presidentes dos Conselhos Federal e Regionais de Medicina Ve-

terinária (Sistema CFMV/CRMVs) na edição 2010 da Câmara Nacional de Presidentes. O evento foi realizado em Belo Horizonte, MG, nos dias 23 e 24 de agosto. No primeiro dia de palestras, os temas evidenciaram as novas tecnologias utilizadas em animais, como a transgenia – que acredita-se ser um campo em expansão para Médicos Veterinários. Também foi abordada a produção de animais biorreatores para a síntese de substâncias de interesse para o homem. No segundo dia, o tema foi a Responsabilidade Técnica em Estabelecimentos Apícolas. Atualmente, a produção mundial de mel está em 1,4 milhão de toneladas. O Brasil se encontra na 11a posição como produtor, com 35 a 45 mil toneladas anuais. A Câmara também tratou de temas como a sustentabilidade, a desertificação, entre outros.

Encontro no Acre debateu o bem-estar na produção animal Em uma região de expansão pecuária que precisa manter a preocupação com a sustentabilidade e conservação ambiental, o CFMV organizou o I Encontro de Ética e Bem-Estar da Amazônia. O evento foi realizado no dia 26 de julho, em Rio Branco, AC, na Universidade Federal do Acre. O Presidente da Comissão de Ética, Bioética e Bem-Estar Animal (CEBEA) do CFMV, Alberto Neves Costa, lembra que, além da pecuária bovina, é crescente no Estado o interesse pela criação de pequenos ruminantes, em especial, a ovinocultura. “Os debates foram enriquecedores, pois existe uma grande preocupação em se manter o equilíbrio entre a produção e o cuidado com o meio ambiente”, comentou. Organizado pela CEBEA, o workshop cumpre o objetivo de descentralizar as atividades. Para o próximo ano, a Comissão está planejando dois eventos regionais e outro direcionado exclusivamente para a formação de professores.

Médicos Veterinários e Zootecnistas. Cadastrem-se em www.cfmv.org.br e recebam semanalmente, em seu endereço eletrônico, notícias do CFMV.

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D e s ta q u e s II Congresso Brasileiro de Bioética e bem-estar animal ressalta a importância de atualização profissional O II Congresso Brasileiro de Bioética e Bem-Estar Animal debateu temas relacionados ao bem-estar animal em diversas espécies de animais. O evento reuniu especialistas nacionais e internacionais, de 4 a 6 de agosto, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, MG. O encontro apresenDr. Iradilson Souza tou as novas abordagens foi homenageado e reflexões sobre os paao receber o Prêmio drões de bem-estar aniProfessor Paulo Dacorso Filho . mal recomendados por organizações internacionais; estratégias para avaliar o bemestar animal e as emoções nos animais. Aconteceram palestras sobre legislação e os direitos dos animais; a relação entre as biotecnologias e os desafios em conservação e bem-estar animal. Dentre os palestrantes internacionais, o Médico Veterinário Adroaldo

Zanella, brasileiro que atua na Escola de Ciência Veterinária da Noruega, detalhou a proposta da Escola Global de Ensino e Pesquisa na Área de Bem-Estar Animal, projeto que terá uma verba disponível de 4,5 milhões de Euros (aproximadamente R$ 10,5 milhões) e também contará com a parceria do CFMV. Homenagem – Durante o Congresso, também foi entregue o Prêmio Professor Paulo Dacorso Filho ao profissional Iradilson Sampaio de Souza. O Médico Veterinário e atual Prefeito de Boa Vista, RR, foi escolhido por sua atuação em Roraima em benefício da pecuária e do agronegócio do Estado. “Ao receber este prêmio tenho a certeza de que cada vez mais preciso trabalhar e incentivar a classe de Médicos Veterinários”, disse Souza. O Prêmio Professor Paulo Dacorso Filho é a principal honraria concedida pelo CFMV a um Médico Veterinário.

Panvet 2010 discute Desafios da Medicina Veterinária Médicos Veterinários das Américas reuniram-se em Lima, no Peru, para o XXII Congresso Pan-americano de Ciências Veterinárias (Panvet 2010), de 1 a 4 de setembro. Presidente do evento, o Médico Veterinário Benedito Fortes de Arruda, também Presidente do CFMV, pontuou os maiores desafios da profissão em seu discurso de abertura. O Brasil também foi responsável pela apresentação de três temas de interesse para a formação profissional com palestras proferidas por membros da Comissão Nacional de Ensino da Medicina Veterinária. O Congresso reúne a cada dois anos os Médicos Veterinários das Américas. Aproveitando o encontro de profissionais de diversas nacionalidades foi realizada a reunião da Federação Pan-americana de Escolas e Faculdades de Veterinária e do Conselho Pan-americano de Educação Médico Veterinária. O próximo Congresso será realizado em Cartagena das Índias, na Colômbia.

Veterinária em Língua Portuguesa, organizado pela Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) de Angola, na África. O encontro foi realizado de 19 a 21 de outubro na cidade do Huambo. O evento reúne profissionais que fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Internacional – O CFMV também foi convidado a participar do XII Congresso Internacional de Medicina

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Residência em Medicina Veterinária quase dobrou em dois anos Em apenas dois anos o crescimento no número de Programas de Residência em Medicina Veterinária quase dobrou no Brasil. O aumento foi de 87,5% no número de instituições de ensino que passaram a oferecê-los. Eles passaram de 32 para 60 programas existentes em cursos de Medicina Veterinária. Esses e outros números foram divulgados durante o II Seminário Brasileiro de Residência em Medicina Veterinária realizado pelo CFMV nos dias 16 e 17 de agosto, em São Paulo, SP. De acordo com a Comissão Nacional de Residência em Medicina Veterinária (CRNMV) do CFMV, dentre os programas existentes, 33% são reconhecidos pelo Membros da Atual Comissão do CFMV responsável pela avaliação dos CFMV. Atualmente, o Programas de Residência.

CFMV é o único órgão a regular a Residência em Medicina Veterinária no Brasil. O sistema de reconhecimento é voluntário e a Comissão explica que cerca de 70% dos programas que foram submetidos receberam o aval do Conselho Federal de Medicina Veterinária. Cada reconhecimento tem validade de até cinco anos, podendo ser revisto a qualquer momento. Todos estão listados na página eletrônica do Conselho (www.cfmv.org.br) Nos dois últimos anos, o número de programas reconhecidos pelo CFMV cresceu 25% e o número de vagas ofertadas aumentou em 39,5%, passando de 261 para 364. Dos 20 programas que hoje são reconhecidos pelo Conselho, 55% são de instituições de ensino privadas, 25% de escolas públicas federais e outros 20% de públicas estaduais. Na divisão de vagas, a subárea que trata de clínica de companhia é a mais ofertada, com 23,9% das vagas ofertadas. Os estados do sul e sudeste concentram a maioria dos cursos.

Seminário debate a inclusão do Médico Veterináriona Saúde Pública Para inserção do Médico Veterinário na Saúde Pública é interessante que exista a aproximação dos profissionais com órgãos do governo e comissões responsáveis por influenciar e definir as políticas públicas em seus municípios e estados. Esse foi um dos principais pontos discutidos durante o Seminário Nacional de Saúde Pública Veterinária, que neste ano foi realizado em Teresina, PI, nos dias 23 e 24 de setembro. O evento foi organizado pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária (CNSPV) do CFMV. O Médico Veterinário Daniel Campos, ex-Secretário de Saúde de Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), esclareceu que os profissionais podem participar da execução, influência e idealização de políticas públicas. Atualmente, na Saúde Pública, a maior participação de Médicos Veterinários “está entre os responsáveis por executar as ações previs-

tas nas políticas públicas”, comentou Campos, citando principalmente a Vigilância Sanitária. O Seminário discutiu também o controle de zoonoses, em especial a Leishmaniose Visceral Canina, entre outros.

Membros da CNSPV apresentando, no final, carta de intenções.

Agora é possível receber via Twitter notícias do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e informações de importância para a Medicina Veterinária e Zootecnia. Também é realizada a transmissão em tempo real de eventos organizados por este Conselho. Para seguir o CFMV procure, no Twitter, por CFMV_oficial. Siga-nos!

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B e m - e s ta r a n i m a l

BEM-ESTAR ANIMAL E O ENSINO DE ZOOTECNIA: UM DESAFIO PROMISSOR INTRODUÇÃO

É fácil entender porque a exploração de animais em ensino e pesquisa se tornou indispensável, nas áreas de saúde pública e agropecuária, ao longo do século XX no Brasil. Segundo o IBGE (2006), a população brasileira saltou de 17,4 milhões em 1901 para 169,6 milhões em 2000, enquanto o crescimento da expectativa de vida dos homens brasileiros, de 33,4 anos para 64,8 anos, nesse mesmo período. Diante desses números, é impossível não se perguntar o que pode ser feito para manter o contínuo abastecimento de alimento de origem animal e o contínuo crescimento da expectativa de vida dessa população. Aprimorar as pesquisas em saúde pública e em produtividade animal parece ser uma resposta lógica, porém é preciso ter cuidado com os méto-

dos a serem utilizados para esse fim. Um levantamento de Schnettler et al. (2008), no Chile, mostra que 40,9% dos consumidores são contra práticas de manejo que aumentam a produtividade sem garantir o bem-estar dos animais. Hewson (2005) recomenda melhoras na formação em bem-estar animal dos profissionais que estão envolvidos com a utilização de animais para evitar as constantes críticas da sociedade. Enquanto Stabursvik (2005) mostra como a deficiência de conhecimento em bem-estar animal pode comprometer a inserção dos profissionais que trabalham com produção animal no mercado de trabalho atual. Por fim, como observado em Wensley (2005), não se pode mais tolerar que a interação entre humanos e animais promova o bem-estar apenas dos seres humanos. Arquivo | CFMV

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Portanto, a crescente demanda da sociedade tem forçado mudanças na formação de Zootecnistas de todo o mundo, e é objetivo deste texto abordar a importância e as dificuldades encontradas para implantação do ensino de bem-estar animal na formação desses profissionais que estão diretamente ligados à utilização de animais.

tes de Ciências Biológicas, constataram que poucos têm conhecimento da legislação sobre bioética ou sobre órgãos que tratam da regulamentação. Portanto, a carência de formação em bem-estar animal é um fato inquestionável em muitas instituições de ensino no Brasil, o que, possivelmente, é uma realidade nos cursos de graduação em Zootecnia.

Ensino de Bem-Estar Animal no Brasil

Problemas enfrentados para construção de disciplinas de bem-estar animal

No Brasil, a formação em bem-estar animal é fundamental para os Zootecnistas, pois eles podem ocupar cargos importantes nos setores privado e público e assim ajudar a nortear as atividades que envolvam uso de animais. Porém, segundo Molento (2008), apenas 33% das escolas de Zootecnia do Brasil introduziram os conceitos de bem-estar animal na formação de seus discentes. Quando se trata de pós-graduação, o problema é mais acentuado, pois Bacelar e Röhr (2008) avaliaram 163 cursos Strictu Sensu da grande área Ciências Biológicas, recomendados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), e constaram que apenas quatro (2,45%) cursos ofereciam uma disciplina com enfoque em bem-estar animal. A necessidade de superar as dificuldades e introduzir o estudo de bem-estar animal em todos os cursos de graduação que envolvam a utilização de animais fica evidente pelos resultados de pesquisas realizadas no Brasil. Molento (2008) cita que 73% dos 111 Veterinários entrevistados em Passo Fundo/RS, no ano de 2004, não conheciam as cinco liberdades que promovem o bem-estar animal. Lima et al. (2008), ao entrevistar docentes e discen-

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Os números apresentados evidenciam a necessidade de mudanças. Porém, a falta de disciplinas voltadas exclusivamente para o bem-estar animal nos cursos de pós-graduação no Brasil justifica a carência de professores qualificados para ministrar o assunto na graduação. Entretanto, o desenvolvimento dessa área é uma questão de tempo. Esse fato ficou evidente nos dois primeiros congressos mundiais de conceitos em bem-estar animal realizados pela World Society for the Protection of Animals (WSPA) no Rio de Janeiro em 2006 e 2007, quando 79 e 48 resumos de origem brasileira foram publicados, respectivamente. De forma similar, o Primeiro Congresso Brasileiro de Bioética e BemEstar Animal, realizado pelo CFMV em Recife/PE no ano de 2008, contou com 49 resumos publicados. É preciso comemorar esse avanço, pois até a década de 80 sequer existiam pesquisas voltadas, exclusivamente, para o bem-estar animal no Brasil. Outro aspecto importante na construção de qualquer disciplina é a elaboração do conteúdo programático. Como pode ser observado em Hewson et al. (2005), a construção da Arquivo | CFMV ementa dessa disciplina deve ser bastante flexível, porém os princípios básicos devem sempre estar presentes. A WSPA desenvolveu um curso dividido em 30 módulos, dos quais 23 são optativos. O United States Department of Agriculture (USDA) também desenvolveu um modelo de currículo para o ensino de bem-estar animal nos EUA (Vandewoude, 2005). Portanto, existem boas referências que podem ajudar a elaborar ementas modeladas para o ensino de bem-estar animal a qualquer profissional que utilize animais em sua área de atuação.

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B e m - e s ta r a n i m a l A formulação do conteúdo programático deverá estar diretamente relacionada com a carga horária disponível para a apresentação desse conteúdo aos estudantes. Briyne (2008), da Federation of Veterinarians of Europe, após realizar um levantamento da situação do ensino de bem-estar animal em faculdades na União Européia, constatou que a carga horária varia grandemente, com média de 23 horas. Essa variação, provavelmente, decorre da dificuldade que os coordenadores de curso têm para alterar a matriz curricular de cursos de graduação, muitos dos quais já altamente inflados com outras disciplinas. Assim, muitos colegiados de curso optam por oferecer a disciplina bem-estar animal como optativa ou introduzir o conteúdo de forma fragmentada em outras disciplinas. Entretanto, segundo Millman et al. (2005), esse procedimento leva os estudantes a desenvolverem um conhecimento superficial. Uma sugestão interessante é construir uma disciplina com carga horária reduzida e abordar alguns pontos importantes em outras disciplinas que já constam na matriz curricular. Segundo McGreevy e Dixon (2005), essa é a abordagem utilizada na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Sydney, Austrália. Uma segunda alternativa é descrita por Siegford et al. (2005) e trata-se de curso on-line de bem-estar animal desenvolvido na Universidade de Michigam, EUA. Esse curso tem como princípio confrontar diferentes cenários, nos quais os estudantes devem fazer uma avaliação do bem-estar animal. O objetivo é promover mais interatividade, além de potencialmente resolver a dificuldade de introduzir uma nova disciplina dentro de um curso com a matriz curricular já extensamente preenchida. Arquivo | CFMV

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Melhorar o Bem-Estar Animal é melhorar a produção animal?

Muitos profissionais que atuam com produção animal ainda veem as novas exigências da sociedade quanto ao bem-estar animal como um entrave aos sistemas de produção das diferentes culturas. Porém, os Zootecnistas devem trabalhar esse tema como uma nova fonte de desafios para essa profissão, como algo que fomentará ainda mais o vasto campo de pesquisas nas linhas de alimentação e nutrição, manejo produtivo e profilático, genética e melhoramento animal, bioclimatologia, instalações e equipamentos rurais etc. O desenvolvimento dessas pesquisas pode contribuir para o surgimento de métodos alternativos, que mantenham os elevados índices de produção sem comprometer o bem-estar dos animais. Os Zootecnistas, independentemente da área em que atuam, devem começar a identificar os pontos críticos da atividade pecuária que realizam e que afetam o bem-estar dos animais. Por exemplo, em bovinos de corte um dos pontos críticos é a pesagem em idades-chaves como a desmama e o sobreano. Essas pesagens são essências para os programas de melhoramento de bovinos de corte, pois essa avaliação fenotípica contribui para a estimação do valor genético dos animais. Assim, Maffei (2008) propõe a mensuração da reatividade animal no momento da pesagem como uma medida que vise à obtenção de animais mais tolerantes à contenção realizada para pesagem. A reatividade animal é uma característica objetiva e de fácil mensuração, cuja herdabilidade na raça Nelore é de 0,39 para pesagem ao ano, e, de forma resumida, pode se dizer que ela indica o nível de agitação do animal ao ser colocado na balança. Maffei (2008) relata ainda que as correlações da reatividade animal com ganho de peso do desmame aos 12 meses (-0,49) e com desenvolvimento do perímetro escrotal do ano ao sobreano (entre -0,25 e -0,41) evidenciam que os animais mais reativos tendem a apresentar menor desenvolvimento no período pós-desmama. Ou seja, a busca de animais que facilitem o manejo de pesagem implicaria melhor bem-estar e também melhores índices de produção. Em bovinos de leite, muitas perdas são causadas por reduzida adaptação às condições de clima tropical, principalmente na Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


raça Holandesa. Maia et al. (2003) constataram que a seleção de vacas predominantemente negras pode ser uma boa escolha para aumentar a resistência do gado Holandês à radiação solar, devido a epiderme sob esse tipo de malha ser altamente pigmentada. Segundo os autores, tal seleção pode ser facilmente realizada, considerando a alta herdabilidade (0,75) para a proporção de malhas negras. Outro problema do sistema de produção nos trópicos é a alta incidên-

Dados do Autor

Luís Fernando Batista Pinto

Zootecnista, CRMV-BA nº 00235/Z; Professor Adjunto da Universidade Federal da Bahia.

cia de ecto e endoparasitas. Assim, Fraga et al. (2003) avaliaram a resistência a carrapatos em bovinos da raça Caracu e constataram que quanto maior a espessura do pelame, maior o nível de infestação. Portanto, diversas características pouco estudadas em bovinos podem promover o melhoramento genético dessa espécie, contribuindo simultaneamente para maior bem-estar e melhores índices zootécnicos. Portanto, não há dúvidas de que o ensino de bem-estar animal não pode ser apenas teóricolegislativo, mas deve abordar atividades práticas promovendo a interação, o debate e o senso crítico dos estudantes. Zootecnistas têm sua formação profissional voltada, principalmente, para a produção animal, porém o estudo de bem-estar animal deve ir além, abrangendo uma visão sistêmica do tema. Uma formação adequada em bem-estar animal, aliada ao conhecimento dos assuntos de natureza econômica e social, ajudará os Zootecnistas a implantarem, com sucesso, ações que promovam um contínuo crescimento da Zootecnia Brasileira, sem comprometer o bem-estar dos animais.

B e m e s ta r a n i m a l

Endereço para correspondência: Av. Ademar de Barros, 500, CEP: 40170-110, Ondina – Salvador/BA. E-mail: luisfbp@gmail.com

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S a ú d e P úbl i c a

Ensino em Saúde Pública nas Escolas de Medicina Veterinária do Brasil Arquivo | CFMV

A preocupação com a formação em Saúde Pública na Medicina Veterinária não é recente. Em 1946, a Organização Mundial de Saúde criou a Saúde Pública Veterinária (SPV), designando algumas atribuições para esse profissional (OPAS, 2003). Em 1972, a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) promoveu a realização do 2º Seminário sobre Educação em Medicina Veterinária na América Latina. Uma das recomendações do evento foi a de aumentar a participação do Médico Veterinário em equipes de saúde para cumprir o objetivo final da profissão Médica Veterinária, que é o bem-estar humano (OPAS, 1972). No Brasil, esse objetivo tomou impulso quando a Medicina Veterinária foi de fato inserida na área da saúde por meio da Resolução n. 38/1992 do Conselho Nacional de Saúde–CNS/MS, alterada pela Resolução n. 218/1997–CNS/MS e republicada como Resolução n. 287/1998–CNS/MS (Souza, 2010). O desafio para os Médicos Veterinários do século XXI está na ênfase de uma formação em que se destaque a saúde pública e na qual o profissional de Medicina Veterinária tenha um nível de competência consistente com as demandas da sociedade. Nesse contexto, o reconhecimento da importância da profissão para a sociedade está na dependência de sua relevância social (Nielsen, 1997). Todavia, as escolas de Medicina Veterinária não têm enfatizado a capacitação nesse setor (Arámbulo e Ruíz, 1992;

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Boletim de la Oficina Sanitaria Panamericana, 1992; Palermo Neto, 1995; Menezes, 2005). Muito embora a definição de SPV implique uma abordagem multidisciplinar, esse escopo mais amplo é contemplado em poucas escolas, denotando a carência de um ensino direcionado para atender as necessidades da população (Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, 2008). O Médico Veterinário Sanitarista realiza uma função diferenciada nas equipes multiprofissionais de saúde, sendo difícil separar as atividades de SPV de saúde humana (Pfuetzenreiter et al., 2004). A Medicina Veterinária por sua vez, tem um papel fundamental a desempenhar no campo da saúde pública, havendo necessidade de profissionais Médicos Veterinários especializados nessa área. Essa lacuna dificulta a preparação do profissional para atuar em equipes multidisciplinares de saúde, no desenvolvimento de tarefas que extrapolem o âmbito da saúde animal e envolvam também a saúde humana Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


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Arquivo | CFMV

(Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, 2004). Isso é importante porque a SPV pode contribuir para o bem-estar físico, mental e social dos seres humanos mediante a compreensão e aplicação dos conhecimentos da Medicina Veterinária com o propósito de proteger e promover a saúde humana, estabelecendo vínculos com a agricultura, alimentação, saúde animal, meio ambiente e educação. O contraditório é que, apesar do reconhecimento da importância da área de saúde pública, esta área não é muito privilegiada durante o curso, mesmo com as mudanças ocorridas na profissão e no mercado de trabalho (Menezes, 2005; Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, 2008). Outro aspecto importante a ser mencionado é o fato de que a maioria dos cursos de Medicina Veterinária brasileiros não possui uma estrutura favorável ao desenvolvimento de atividades práticas relativas à saúde pública, o que dificulta a ocupação de novos espaços nessa área de atuação. Muitos desafios surgem a cada dia para este profissional e torna-se cada vez mais necessária a consolidação das posições conquistadas pelo Médico Veterinário na saúde pública. Os cursos de Medicina Veterinária necessitam

aprimorar o conteúdo teórico das disciplinas de saúde pública, bem como proporcionar oportunidades para a realização de atividades práticas, com o intuito de preparar melhor o profissional para este mercado de trabalho emergente (Menezes, 2005). A realização dos Seminários Regionais de SPV coordenados pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária (CNSPV) do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e a participação da CNSPV nos Seminários Nacionais de Ensinos coordenados pela Comissão Nacional de Ensino na Medicina Veterinária (CNEMV) também do CFMV confirmaram e trouxeram ao debate a preocupação dos Médicos Veterinários sobre a formação na graduação para a inserção deles no Sistema Único de Saúde (SUS). Baseado nisso, a CNSPV buscou analisar a temática de como o ensino em saúde pública tem sido trabalhado na formação do Médico Veterinário, investigando-se compreensão, conteúdos e estrutura de ensino em relação ao momento do curso em que a saúde pública é abordada. Uma vez que o SUS, mediante a municipalização da saúde, é um dos principais setores de atuação do Médico Veterinário, o presente estudo objetivou alertar e contribuir para uma formação mais sólida na área da saúde. Foram estudados 149 cursos de graduação em Medicina Veterinária, do setor público e privado, aprovados pelo Ministério da Educação e localizados nas diferentes regiões do nosso País. O instrumento de coleta de dados foi um questionário semiestruturado e descritivo elaborado pela CNSPV, o qual foi disponibilizado a partir de agosto de 2007 no site do CFMV (www.cfmv.org.br) para preenchimento on-line do formulário. Paralelo a isso, foi enviado para todos os 149 coordenadores dos cursos de Medicina Veterinária um ofício solicitando e os instruindo a participarem do censo. Na impossibilidade da totalidade de respostas, prezou-se por

TABELA 1. Cursos de Medicina Veterinária que responderam ao censo sobre Saúde Pública realizado pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária do CFMV distribuídos por vínculo e região. vinculação

localização / região sudeste

sul

total

norte

nordeste

centro-oeste

federal

0

6

1

7

5

19B

estadual

0

3

0

3

4

10B

particular

3

2

8

43

10

66a

total

3c

11b

9bc

53a

19b

95

Letras maiúsculas comparam vínculo e letras minúsculas comparam região, quando diferentes têm significância estatística pelo teste Qui-quadrado, p < 0,05.

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S a ú d e P úbl i c a Dr. Emilio Nieto | DVT-UFV

Os questionários foram direcionados aos coordenadores dos cursos de Medicina Veterinária por se considerar que eles possuíam clareza da globalidade do projeto pedagógico que coordenavam, respeitando as recomendações de Minayo (1998), para quem a amostra deve privilegiar os sujeitos sociais que detêm os atributos do estudo. No questionário perguntou-se o nome da instituição, endereço e vínculo (federal, estadual ou particular). Sobre a saúde pública, questionou-se especificamente em que momentos, disciplinas e conteúdos o tema saúde pública era abordado. Mais detalhadamente: 1 – Se o conteúdo das disciplinas elencadas incluía a epidemiologia, vigilância epidemiológica/zoonoses, vigilância sanitária, vigilância ambiental, educação em saúde, saúde do trabalhador e saneamento; 2 – Se nos últimos cinco anos foi oferecido ou disponibilizado na área

um número suficiente de amostras que permitisse a análise e representabilidade das informações. Assim, uma amostra de pelo menos 75 questionários respondidos mostrar-se-ia satisfatória para as categorias de análise. 58*

60

50

Número de Disciplinas

44* 39*

40

30 30

20

26

19

18 15

13

12 10

7 1

3

2

2

4

0

2

3

Ciência Ambiental Controle de Qualidade na Indústria Educação Sanitária Epidemiologia Epidemiologia e Saneamento Epidemiologia e Saúde Pública Higiene dos Alimentos Inspeção dos Prod. de Origem Animal Programas de Saúde Pública Animal Promoção Humana em Saúde Saneam. Ambien. e Desenvol. Sustent. Sanidade Animal Saúde Pública Vigilângia Ambiental Vigilância Epidemiológica e Zoonoses Vigil. Sanitária e Higiene dos Alimentos Zoonoses Zoonoses e Saúde Pública

Disciplinas FIGURA 1. Disciplinas elencadas nos cursos de Medicina Veterinária voltadas para a área de Saúde Pública no censo sobre Saúde Pública realizado pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária do CFMV. * representa significância estatística pelo teste do Qui-quadrado (p< 0,05).

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Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


de saúde pública o estágio curricular obrigatório e qual percentual de alunos tem optado por esse tipo de estágio; 3 - Se nos últimos cinco anos têm sido desenvolvidas atividades de extensão na área de saúde pública; 4 – Se existiu convênios de interface com a área de saúde pública nos últimos cinco anos; 5 - Em relação às disciplinas que envolvem a saúde pública, foi questionado o nome da disciplina, carga horária, se obrigatória ou optativa, fases/períodos em que ela é ofertada, número de professores, bem como a graduação e titulação do professor. Com base nas respostas do questionário, a análise do conteúdo compreendeu as seguintes etapas: leitura seletiva do material coletado, organização das respostas dos diferentes questionários, seleção dos itens, identificação de unidades de contexto, relação entre eles e definição das categorias de análise. Após

96,97*

das demais disciplinas, sem inter-relação com os demais conhecimentos da profissão médico veterinária. Mesmo dentro do próprio contexto de saúde pública, há necessidade de haver maior conexão entre os conteúdos das disciplinas. A Figura 1 aponta as disciplinas elencadas nos cursos de Medicina Veterinária e que são voltadas para a saúde pública. As disciplinas denominadas Inspeção dos Produtos de Origem Animal, Saúde Pública e Zoonoses são as mais ofertadas (p < 0,05). Diversamente, as disciplinas denominadas Higiene dos Alimentos e Zoonoses, Controle de Qualidade na Indústria, Programas de Saúde Pública Animal e Vigilância Ambiental só fazem parte da grade curricular de no máximo dois cursos dentre aqueles que responderam ao censo. No tocante ao conteúdo dessas disciplinas, quase 100% delas discorrem sobre

57,78

100,00*

98,89* 68,89

85,56

Educação em Saúde Epidemiologia Saneamento Saúde do Trabalhador Vigilância Ambiental Vigilância Epidemiológica / Zoonoses Vigilância Sanitária

23,33 FIGURA 2. Conteúdo das disciplinas elencadas nos cursos de Medicina Veterinária que responderam ao censo sobre Saúde Pública realizado pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária do CFMV. * representa significância estatística pelo teste do Qui-quadrado (p < 0,05).

a estruturação dessas categorias, os dados foram tabulados no Microsoft Office Excel 2003 e submetidos ao teste do Qui-quadrado para um p< 0,05.

DOS RESULTADOS OBTIDOS E DA REFLEXÃO SOBRE O TEMA

Dos 149 cursos de Medicina Veterinária, 95 (64%) responderam ao censo, sendo a maioria da região Sudeste e de faculdades particulares (p < 0,05) (Tabela 1). Nas descrições das características e objetivos dos cursos e dos campos de atuação na profissão, os estabelecimentos de ensino estudados assemelham-se aos dados obtidos por Pfuetzenreiter e Zylbersztajn (2004), colocando em destaque a saúde pública. Entretanto, pela análise efetuada, na prática, as outras áreas sobressaem mais e os conteúdos das disciplinas voltados à saúde pública estão desarticulados Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

epidemiologia, vigilância epidemiológica/zoonoses e vigilância sanitária (p < 0,05). Em contrapartida, apenas 23% delas contêm a saúde do trabalhador no seu conteúdo programático (p< 0,05) (Figura 2). A informação de que as disciplinas voltadas para a saúde pública se concentram principalmente na disciplina Inspeção dos Produtos de Origem Animal corrobora com os achados de Pfuetzenreiter e Zylbersztajn (2004), revelando haver pouca ênfase para a área de administração e planejamento em saúde animal e saúde pública. Ainda comparando com o mesmo estudo, os conteúdos relacionados à educação e saúde, que em 2003 não constavam na grade de alguns cursos de Medicina Veterinária (Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, 2004), continuam, na atualidade, com pouca ênfase. A disciplina de Educação Sanitária, por exemplo, só foi citada em três cursos analisados. Sobre esse aspecto, esse pro-

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S a ú d e P úbl i c a fissional pode atuar na difusão de informações e na conscientização das pessoas sobre os temas ligados à saúde por meio da educação em saúde (Pfuetzenreiter et al., 2004). Em contrapartida, no presente estudo observouse que disciplinas como Vigilância e Saneamento Ambiental já fazem parte de pelo menos 22% dos cursos de Medicina Veterinária. Nesse contexto, na década de 90, já se falava que o trabalho interdisciplinar, a incorporação nos grupos intersetoriais e interinstitucionais que planificam, executam e avaliam estudos e projetos de impacto ambiental ainda abrem oportunidades para a presença do Médico Veterinário nesse segmento (Cifuentes, 1992). Na formação acadêmica dos Médicos Veterinários, o autor propõe que as escolas ofereçam conhecimentos aprofundados nas áreas de ciências ambientais, ecologia, biologia e saneamento ambiental para que os profissionais possam ser incorporados e oferecer sua contribuição a esses setores. 60

da tríade formada pelo meio ambiente, o animal e o homem deve ser acompanhada de uma importante expansão da SPV e de uma profunda modificação da formação em Medicina Veterinária mais centrada na interdisciplinaridade (Pfuetzenreiter et al., 2004). Destacam-se também nesse estudo as disciplinas de Sanidade Animal (45%) e Programas de Saúde Pública Animal (2%), nas quais o gerenciamento em saúde animal e saúde pública enfatiza assuntos pouco tratados nas disciplinas do segmento de saúde, mas importantes para consolidar a visão social, tratando não somente da planificação em programas de saúde animal, mas também de saúde pública (Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, 2004). Sobre o estágio obrigatório, 76% dos cursos responderam que disponibilizam estágio na área de saúde pública, 23% responderam que não e apenas um curso não respondeu a esse questionamento. Conseguinte, dos cursos que disponibilizam estágio na área de saúde pública, em média, 50% desses

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50

Número de Convênios

43* 40

30

20 15* 11 10 2

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0

3

1

9

7*

6*

6

2

2

1

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1 1

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0

0

1

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Órgãos Públicos Empresas Privadas Não houve Não informado Total

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FIGURA 3. Convênios de interface da área de Saúde Pública com os cursos de Medicina Veterinária que responderam ao censo sobre Saúde Pública realizado pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária do CFMV, distribuídos por região. * representa significância estatística pelo teste do Qui-quadrado (p < 0,05).

No tocante a Medicina Veterinária preventiva, a epidemiologia e suas diferentes vertentes, estas são ofertadas em quase metade dos cursos de Medicina Veterinária que responderam ao censo. Entretanto, entende-se que em face de sua importância essas disciplinas deveriam ser contempladas em todos os cursos. Bögel (1992) aponta para a importância da realização de pesquisas sobre as necessidades e tendências da educação em Medicina Veterinária e confirma a atenção que deve ser dispensada à formação do Médico Veterinário, enfatizando a saúde pública. A orientação dispensada à Medicina Veterinária dentro

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concentram-se na região Sudeste e 69% são de faculdades particulares (p < 0,05). Resultado semelhante foi observado quanto às atividades de extensão desenvolvidas na área de saúde pública. Os estágios obrigatórios são enfatizados como momentos fundamentais de desenvolvimento para a construção da identidade profissional em todos os cursos. Os estudantes de Medicina Veterinária também valorizaram o papel do estágio na formação do “ser veterinário”, solicitando sua antecipação para momentos iniciais do curso. A realização desses estágios, entretanto, vem merecendo discussão há Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


Arquivo | CFMV

algum tempo, questionando-se, entre outros pontos: organização, programas, atribuições de supervisores, locais e real aprendizado dos estudantes (Banduk et al., 2009). Pimenta (2001) comenta que o conceito de prática adotado por estágios curriculares vem se modificando na história da educação, superando a fase de observação e reprodução de modelos em direção a uma prática mais teorizada e à formação de profissionais. Soares e Boog (2003), por sua vez, propõem a interdisciplinaridade na formação das profissões da saúde, tanto na graduação como na pós-graduação. Eles ressaltam a importância das atividades interdisciplinares nos estágios, sob supervisão docente, como possibilidade de vivência de parcerias e do exercício profissional em equipe. Soma-se a isso o fato de os estudantes começarem o contato com a saúde pública somente a partir do segundo ano do curso, sendo que nessa fase a maior carga horária está concentrada sobre a clínica veterinária e suas derivações. Somente no terço final do curso é que a saúde pública começa realmente a ser apresentada para os alunos, quando todos os outros temas já tiveram oportunidade de se desenvolver e de despertar o interesse dos estudantes. Isso faz com que o pensamento preventivo e populacional tenha dificuldades para se instalar, conforme Pfuetzenreiter (2003) constatou a partir de entrevistas com estudantes do curso. Esse fato indica que há necessidade de uma atenção maior para a saúde coletiva, para que os alunos passem a ter uma compreensão completa da saúde das populações levando em consideração os aspectos sociais, culturais e econômicos e passem a ter um grau maior de comprometimento com a saúde da população (Lima Júnior, 2001; Pfuetzenreiter e Zylbersztajn, 2004). Quanto aos convênios de interface com a área de saúde pública nos últimos cinco anos, 47% concentram-se na região Sudeste e 77% são convênios com órgãos públicos (P < 0,05) (Figura 3). Nossos resultados apontam para uma melhoria nesse setor, divergindo dos estudos de Lima Júnior (2001), o qual afirma a quase não existência de parcerias com os órgãos públicos responsáveis pelos serviços de saúde, como as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde. As respostas dos questionários mostram que a construção da identidade da Medicina Veterinária em saúde pública ainda precisa ser aprimorada. Pois, apesar da defesa da relevância dessas disciplinas no processo de aprendizagem da temática da saúde púRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

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blica, seus conteúdos não foram especialmente valorizados, demonstrando sempre uma preocupação com a inserção imediata no mercado de trabalho. As atuais Diretrizes Curriculares (Brasil, 2002, 2003) enfatizam a necessidade de o Médico Veterinário desenvolver competências para integrar as equipes multiprofissionais no contexto do atual SUS. A efetiva integração desse profissional na equipe de saúde ainda apresenta grandes desafios relacionados à construção da identidade profissional, como, por exemplo, a dificuldade de inclusão do Médico Veterinário na Estratégia da Saúde da Família por intermédio dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) (CNSPV, 2009). O correto exercício das competências comuns, enunciadas nas Diretrizes Curriculares dos diferentes cursos da área da saúde, demanda não somente a discussão das alternativas de melhoria da formação técnica e científica na graduação, mas também a permanente reavaliação das interseções e limites profissionais entre as diversas áreas (Banduk et al., 2009). Nesse sentido, Amâncio Filho (2004) defende que a formação profissional seja competente para possibilitar aos futuros trabalhadores a participação na sociedade científica e tecnológica, não apenas como objetos, mas como sujeitos, resgatando-se, assim, sua dimensão política: a construção da identidade social e a integração plena na cidadania. Para Ronzani e Ribeiro (2003), torna-se relevante analisar a reforma curricular não como um processo estático, mas como uma forma de mudança cultural, iniciada por uma reavaliação de práticas e crenças dos formadores de opinião (professores), uma vez que a organização informal é uma importante fonte de influência na formação da identidade do aluno. A formação dos professores é também mencionada por Banduk et al. (2009) como aspecto fundamental para a melhoria dos cursos, em particular para a

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S a ú d e P úbl i c a

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abordagem do tema pesquisado. Afirmam ainda que mais importante do que o conteúdo é a postura do docente, compreendido como um modelo para o aluno. Desse modo, a falta de capacitação do corpo docente constitui outro grave problema. A grande maioria dos professores desta área possui pouca experiência prática nos serviços de saúde coletiva, passando aos estudantes apenas informações teóricas, aprendidas por meio do estudo e não da vivência profissional, e que não estão direcionadas à solução de problemas reais que poderão surgir como um desafio aos futuros Médicos Veterinários. Portanto torna-se impres-

cindível para capacitação nesta área de formação a aproximação da Academia com o Serviço. Concordamos com a proposta de Pfuetzenreiter e Zylbersztajn (2004) que um plano de ensino para a saúde pública deve proporcionar aos estudantes conhecimentos e prepará-los para solucionarem os problemas das comunidades. A elaboração do saber aliada à pesquisa e à extensão universitária permeariam a construção curricular da área de saúde pública (e também das demais áreas do curso de Medicina Veterinária). As respostas no presente estudo apontam algumas mudanças necessárias na graduação com vistas ao aprimoramento da construção da identidade profissional pelo futuro Médico Veterinário, enfatizando a importância de uma concepção ampliada de saúde que respeite a diversidade, considere o sujeito enquanto ator social responsável por seu processo de vida, inserido em uma ambiente social, político e cultural, de modo a garantir a formação integral e interdisciplinar (BRASIL, 2009).

Dados dos Autores

Paulo César Augusto de Souza

Médico Veterinário, CRMV-RJ nº 1645; Prof. Associado, DESP/IV, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ; Presidente da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV. Endereço para correspondência: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rod. 465, km 7, Seropédica – RJ, CEP: 23890-000. E-mail: pcesaraugusto@uol.com.br

Sthenia Santos Albano Amóra

Médico Veterinário, CRMV-RS nº 7715; Coordenador-Geral de Vigilância em Saúde – SMS-RS; Membro da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV.

Roberto Francisco Lucena

Médico Veterinário, CRMV- RS nº 4716; Coordenador de Infraestrutura do Ministério da Pesca e Aquicultura; Membro da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV.

Celso Bittencourt dos Anjos

Médica Veterinária, CRMV-RN nº 0710; Profa. Adjunto, DACS, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido – UFERSA; Membro da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV.

Médico Veterinário, CRMV-RS nº 1664; Coordenador do Núcleo de Doenças Transmitidas por Agentes Biológicos – SES-RS; Membro da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV.

Aurélio Belém de Figueiredo Neto

Lúcia Regina Montebello Pereira

Médico Veterinário, CRMV-SE nº 0036; Assessor Regional de Pecuária e Defesa Sanitária Animal – ENDAGRO-SE; Membro da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV.

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Marcelo Jostmeier Vallandro

Médica Veterinária, CRMV-PI nº 0199; Consultora Técnica do Departamento de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador – DSAST/SVS/MS; Membro da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária – CNSPV/CFMV.

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


CONCLUSÕES

Ao reler a história desse profissional, o relato dos últimos estudos sobre a sua formação e os dados encontrados nesta investigação, verifica-se que o conceito de saúde pública permanece difuso e, portanto, sujeito a uma definição tão múltipla quanto às áreas de atuação do Médico Veterinário. Esta investigação aponta importantes desafios a serem enfrentados para o aprimoramento do conhecimento do Médico Veterinário na área de saúde pública, preparando-o para a sua inserção em todas as áreas de sua competência no SUS. Contudo, o quadro revelado somente sofrerá modificações se os vários segmentos das universidades se conscientizarem da importância de se consolidar uma formação integral ao estudante, que atenda de maneira

equilibrada todos os domínios da atuação profissional e favoreça o desenvolvimento completo das potencialidades do futuro Médico Veterinário. Este momento poderá fazer com que os cursos repensem o modelo atual e passem a privilegiar igualmente todos os aspectos da profissão, com integração de todas as áreas, para a formação de um profissional com pensamento crítico e mais consciente de seu papel na sociedade.

AGRADECIMENTOS

À Comissão Nacional de Ensino na Medicina Veterinária (CNEMV) do CFMV, aos membros da Comissão de Saúde Pública Veterinária do CFMV (CNSPV) de 2006-2008 e aos Senhores Coordenadores dos Cursos de Medicina Veterinária que colaboraram respondendo ao presente censo.

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Lista de Consultores 2010 33 Méd. Vet. Ayres Manoel de Souza 33 Méd. Vet. Adivaldo Henrique da Fonseca 33 Méd. Vet. Brunna Patricia Almeida da Fonseca

33 Méd. Vet. Lissandro Gonçalves Conceição 33 Méd. Vet. Marcelo Renan de Deus Santos 33 Méd. Vet. Marcelo Weinstein Teixeira

33 Méd. Vet. Ceres Berger Faraco

33 Méd. Vet. Marco Antonio Alvarenga

33 Méd. Vet. Cláudio L. Mafra de Siqueira

33 Méd. Vet. Maria Aparecida Scatamburlo Moreira

33 Méd. Vet. Fabiano Borges Figueiredo 33 Méd. Vet. Gilson Hélio Toniollo 33 Méd. Vet. Gustavo Férrer Carneiro 33 Méd. Vet. João Carlos Pinheiro Ferreira 33 Méd. Vet. José Ricardo de Figueiredo

33 Méd. Vet. Nivaldo de Azevêdo Costa 33 Méd. Vet. Paulo Sérgio de Arruda Pinto 33 Méd. Vet. Stelio Pacca Loureiro Luna 33 Méd. Vet. Tomoe Noda Saukas

Natal é, sobretudo, lembrar o que há de permanente no mundo que passa: a amizade, o amor, a esperança, que são mais do que enfeites ou adornos. Constituem a seiva da árvore natalina.

Feliz Natal CFMV

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SuplementoCientífico Fisiologia da termorregulação e estresse térmico em ovinos lanados Bruno Henrique Matsukuma / Juliana R. Peiró Francisco Leydson F. Feitosa / Luiz Claudio Nogueira Mendes

Retrospectiva dos casos de laminite equina atendidos nos Hospitais Veterinários da UFG e UnB e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército Denize Silva Brazil/ Maria Amélia Fernandes Figueiredo Meryonne Moreira / Paulo Hellmeister Filho Roberta Ferro de Godoy

Considerações éticas na realização de xenotransplantes Gabrielle M. Marques Cury / Adriane Pimenta da Costa-Val

Tratamento da dor em pequenos animais: princípios e métodos terapêuticos Kátia Moema Oliveira Rosa Sampaio / Luciana Carvalho Lacerda

REVISTA DO CFMV - Brasília - DF - Ano XVI – N° 51 - 2010 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA SIA – Trecho 6 – Lote 130 e 140 Brasília–DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 Fax: (61) 2106-0444 www.cfmv.org.br cfmv@cfmv.org.br DIRETORIA EXECUTIVA Presidente

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Joaquim Lair

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Ricardo Junqueira Del Carlo CRMV-MG nº 1759

Conselho Editorial da Revista CFMV

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Antônio Messias Costa CRMV-PA nº 0722

Celso da Costa Carrer CRMV-SP nº 0494/Z

Luiz Fernando Teixeira Albino CRMV-MG nº 0018/Z

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suplemento científico

Fisiologia da termorregulação e estresse térmico em ovinos lanados Thermal balance physiology and heat stress in wool sheep Resumo O ingresso dos ovinos lanados em regiões quentes do Brasil trouxe também a preocupação com o estresse calórico e consequente queda na produção animal. A compreensão da fisiologia do equilíbrio térmico ovino, assim como as consequências desse fenômeno, devem ser estudadas a fim de promover um conforto térmico associado aos índices de produção e reprodução destes animais. Os casos estudados sobre o assunto são em sua maioria oriundos de países com clima temperado e, por isso, os resultados podem ou não apresentar semelhança. Esta revisão de literatura apresenta e discute o tema. Palavras-chave: ovinos, tosquia, estresse térmico

Abstract The introduction of wool sheep in warm temperature regions of Brazil has also raised concerns regarding the warm stress and its consequent decrease in animal production. The understanding of the physiology of thermal balance in sheep, as well as the consequences of this phenomenon, should be studied in order to improve animal thermal comfort in association with the production and reproduction indices of these animals. The majority of available research findings related to thermal balance in sheep is derived from countries with temperate climates and therefore might be different from those performed in our climate conditions. This essay presents a literature review that intends to discuss this theme. Keywords: sheep, shearing, heat stress

Introdução A ovinocultura brasileira vem crescendo a cada ano, ocupando hoje a 16 a posição no ranking de maiores criadores do mundo. Segundo dados da Revista Cabra e Ovelha, do Instituto FNP (empresa de

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consultoria agropecuária) e Sebrae, em 2007 o país apresentou um rebanho de 16.068.621 de cabeças de ovinos, sendo a ovinocultura responsável por 20 mil empregos diretos e 300 mil indiretos, gerando cerca de R$ 686 milhões de renda anual para as unidades de agricultura familiar (PANORAMA..., 2008). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


Não é difícil notar a grande expressividade que a ovinocultura vem tomando nestes últimos anos, com a chegada de novos produtos, novos estudos e novas técnicas, que visam ao crescimento da produção no país. Porém, muito do que chega ao Brasil é de origem europeia, ou seja, contamos com uma tecnologia oriunda de países pioneiros na ovinocultura, mas com diferenças enormes quanto ao clima e relevo. Uma destas técnicas de manejo condiz com a tosquia dos animais, que nos países da Europa é realizada apenas como medida higiênico-sanitária. Além da diferença de manejo é de fundamental importância a diferença racial entre os animais tratados nas diferentes regiões do Brasil (Figura 1). É fácil notar o início da criação no sul do Brasil, onde animais com aptidão para produção de lã se adaptaram facilmente devido ao clima com temperaturas mais baixas. O rebanho lanado e com aptidão para carne vem se desenvolvendo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, e os locais de maior concentração do rebanho são locais onde as temperaturas médias são mais altas, justificando a preocupação com o estresse térmico desses animais. O estresse calórico é um importante fator que limita o desenvolvimento dos ovinos na expressão do potencial genético de produção e reprodução. Todo organismo sofre algum tipo de interferência quando sua temperatura ótima é alterada e, partindo do princípio da manutenção da temperatura corpórea nos animais endotérmicos, cada aumento de temperatura gera um mecanismo de contrapartida que será responsável por perder esse calor retido, e o con-

trário também é válido. Sendo os principais meios para perda de calor excedente as vias aéreas, a troca de calor por condução e evapotranspiração cutânea. Este artigo relaciona o estresse térmico sofrido pelos ovinos nas regiões descritas e suas consequências na fisiologia dos animais, as formas pelas quais é mantida a temperatura do corpo e influência da tosquia como método preventivo ao estresse térmico.

Revisão de literatura

Animais nos trópicos sempre apresentam produção em níveis inferiores, se comparados àqueles criados em clima temperado . As limitações à produção em áreas tropicais podem ser ocasionadas pelos quatro principais elementos ambientais estressantes: temperatura do ar, umidade do ar, radiação do sol e velocidade do vento (QUESADA et al., 2001). Estudos desenvolvidos por Hopkins et al. (1978, 1980 e 1984) e Sawyer (1983) demonstraram que existem alterações tanto na produção como na reprodução dos ovinos, face às alterações das condições ambientais. Sawyer (1975) descreve o efeito da radiação calórica influenciando a reprodução das ovelhas com falhas em 30% das fêmeas expostas a altas temperaturas. A lã dos ovinos tem capacidade isolante térmica e são conhecidos os meios pelos quais os animais homeotérmicos mantêm sua temperatura. Nos ambientes tropicais, a temperatura do ar tende a ser próxima ou maior do que a corporal, o que torna ineficazes os mecanismos de transferência térmica por condução e convecção (SILVA e STARLING, 2003), cabendo a função de termorregulação à evaporação, que ocorre quando a água do suor, da saliva e das secreções das vias respiratórias é convertida em vapor de água (ROBINSON, 2004), pois as trocas passam a não depender do diferencial de temperatura entre o organismo e a atmosfera. Assim, as regiões que melhor se adaptam à criação de ovinos estão relacionadas ao clima temperado, salvo as regiões subtropicais de altitude elevada. Em regiões quentes e úmidas, a perda evaporativa de calor também é prejudicada, pois a eficácia da evaporação é inversamente proporcional à saturação úmida FIGURA 1 . Aspectos raciais e de manejo de ovelhas criadas no Brasil. do ar (ROBINSON, 2004). Arquivo Pessoal

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suplemento científico Experimentalmente, quando são avaliados animais lanados e deslanados ocorrem diferenças significativas entre seus parâmetros. McManus et al. (2009) avaliaram essas correlações entre as raças Bergamácia e Santa Inês no Centro-Oeste brasileiro, relatando diferenças nas frequências cardíaca e respiratória, taxa de transpiração, temperatura retal e temperatura da superfície da pele, mostrando a interferência da lã na fisiologia da termorregulação e conforto térmico ovino. Também são descritas alterações quantitativas dos componentes do sangue em temperaturas superiores a 36,4°C com aumento da contagem de neutrófilos e glicose sanguínea, (Silva et al.,1992) e aumento do número de leucócitos totais, por hemoconcentração resultante do processo de sudorese profusa e desmarginalização dos leucócitos pelo aumento da frequência cardíaca (McMANUS et al., 2009). Não faz parte do enfoque deste trabalho a qualidade da lã produzida pelos animais, mas o fato de o calor e a umidade do ar aumentados proporcionarem o crescimento de fibras e pelos curtos e grossos enquanto o frio mantém fibras de melhor qualidade (VIEIRA, 1967). Isso demonstra que a variação na temperatura tem influência na derme importando tanto na produção como na sua termorregulação. Nos ovinos o equilíbrio térmico é alcançado principalmente pela perda evaporativa de calor através das vias aéreas e pela secreção sudorípara que, segundo Anderson (1996), pode chegar a 150g/m2/h a 40ºC, e, segundo Pugh (2005), a 208 g de suor /m2/h em machos e 216 g/m2/h em fêmeas, em resposta a temperaturas superiores a 41ºC. Porém, em contraste com o equilíbrio térmico citado, a longo prazo o que se nota é uma compensação mais eficiente promovida pela perda de água na transpiração (HOPKINS et al., 1978). Essas formas de perda de calor são propostas para animais nos quais a perda evaporativa de calor precisa aumentar para compensar a perda de calor não evaporativa, pois em uma situação de conforto térmico o que se nota é um equilíbrio térmico promovido três vezes mais pela perda respiratória em comparação com a perda por sudorese (ROBERTSHAW, 2006). Uma possível explicação para esse contraste nos meios de evaporação está no estudo de Silva e Starling (2003), que descreve a epiderme dos ovinos como muito permeável à água e ao vapor, sendo quantitativamente muito importante a perspiração insensível e as taxas da frequência respiratória que tendem a diminuir em situações de calor constante, acima de 40,5ºC. Isso representa uma importante

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regulação fisiológica, visto que a frequência respiratória aumentada por muito tempo promove a redução da pressão sanguínea de CO2, além do trabalho acelerado dos músculos envolvidos na respiração. Sendo a evaporação respiratória um mecanismo funcionalmente adequado para respostas intensas durante períodos mais curtos. Esse aumento da frequência respiratória é explicado por Robertshaw (2006), que denomina esse tipo de respiração como arquejante. Tal alteração acarreta um aumento da ventilação no espaço morto sem alterar profundamente a ventilação alveolar. No espaço morto o ar fica saturado com vapor de água, sendo o calor para a vaporização providenciado pelo suprimento sanguíneo das vias nasais. Por isso, ocorre resfriamento dentro da região nasal, sendo o sangue venoso que drena essa região mais frio que o sangue arterial que segue para as vias nasais. A evaporação cutânea tem um papel importante para a termorregulação de ovinos lanígeros em ambiente de alta temperatura, contribuindo, em média, com 63% da evaporação total, principalmente nos machos que tendem a apresentar menores valores de evaporação respiratória e maiores valores de evaporação cutânea que as fêmeas (SILVA e STARLING, 2003). A frequência respiratória é o parâmetro mais afetado em uma situação de estresse calórico, mas em um estudo de Quesada et al. (2001), no qual foram estudados a frequência respiratória, os batimentos cardíacos e o peso dos animais em relação ao aumento da temperatura, o resultado indicou que a alteração em uma característica acompanha reflexos nas outras. Com relação à tosquia, no Brasil, se aplica geralmente uma vez ao ano nos meses de outubro, novembro ou dezembro. Também é utilizada como medida higiênico-sanitária para as ovelhas prenhes e para machos em estação de monta, e como manejo que visa aumentar a ingestão de alimentos nas fêmeas pré-cobertura (CARVALHO et al., 2004). É possível relacionar a tosquia com o aumento na ingestão alimentar. Segundo Çam et al. (2007), foi observado maior consumo de alimentos e melhor ganho de peso, assim como melhor acabamento de carcaça em cordeiros machos em idade de abate em comparação com cordeiros machos em idade de abate não tosquiados. Uma das hipóteses lançadas é a compensação térmica com produção de camada de tecido adiposo isolante. A tosquia (Figura 2) tende a aumentar o consumo alimentar em até 50%, ocasionando alteração no tempo de descanso entre os pastejos (ORTÊNCIO FILHO et al., 2001), ou seja, animais tosquiados descansam menos à sombra, portanto Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


Arquivo Pessoal

aumentam seu tempo de pastejo, ingerindo mais alimento por dia. São poucos os estudos que relatam a variação térmica pós-tosquia dos ovinos–e mais infrequentes os que descrevem esse fenômeno–e são direcionados ao estresse calórico, sendo conduzidos na Austrália e nos Estados Unidos (QUESADA et al., 2001). Mensurações realizadas após a tosquia, em raças mediterrâneas na Itália, mostraram que a remoção da camada de lã determina uma alteração na homeostase térmica de mais de 1ºC na temperatura retal 30 dias pós-tosquia, provavelmente pelo fator adaptação ao ambiente, considerando a zona termoneural dos ovinos tosquiados de 28ºC e a temperatura ambiente variando entre 16 e 21ºC (PICCIONE et al., 2003). Isso com um quadro de variação térmica avaliado em condições térmicas diferentes das encontradas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste brasileiras e com isso podendo ou não sofrer a mesma variação. FIGURA 2. São poucos os estudos que relatam a variação térmica pósUma importante função da tosquia está tosquia dos ovinos. relacionada com o peso ao nascimento de por Montossi et al. (2005), e obteve bons resultados, cordeiros, quando realizada no segundo terço de mostrando um ganho médio de 1 kg por cordeiro gestação. O fator estressante promovido pelo ato do grupo tosquiado pré-parto em relação ao grupo da tosquia, assim como a alteração da temperatura tosquiado pós-parto, assim como uma porcentada pele e alteração nos índices de conforto térmico gem maior de cordeiros na faixa ideal de peso, entre das ovelhas, promove aumento no número e tama4,5 e 6,5 kg de peso vivo. nho dos cotilédones. Sherlock et al. (2003) mostraSymonds et al. (1986) concluíram que ovelhas ram, em Nova Zelândia, uma interligação entre a prenhes tosquiadas dez semanas antes do inverno tosquia pré-parto e o aumento dos níveis de triioapresentaram adaptação ao frio e, proporcionaldotironina (T3) e tiroxina (T4) oriundos da tireóide mente, a tosquia foi benéfica aos fetos e às mães, materna, que segundo os autores promovem um pois estas mostraram-se capazes de converter a incremento na mobilização das reservas de gordura gordura corporal para atender o aumento do gasto materna, incrementando a oferta materna plasenergético, elevando a concentração de glicose mática de ácidos graxos não esterificados, o que sanguínea durante cinco semanas após a tosquia, promove melhora na nutrição via placenta. Mas, sem riscos de cetose. além dos hormônios tireoideanos, foi estudada a O período para a realização da tosquia é fixado no interferência da concentração de glicose, cortisol e segundo terço de gestação e mais especificamente β-hidroxibutirato, os quais também poderiam estar entre os dias 60 e 90 da gestação, pois é o período relacionados a possível mobilização energética auonde ocorre o crescimento exponencial da placenta. mentada, mas sem encontrar qualquer relação. Após essa data, a resposta não é observada, pois os A hipótese de aumento nos níveis de cortisol cotilédones já estão formados (MONTOSSI et al., 2005). após a tosquia pré-parto ainda é sustentada por alguns autores, mas sem resultados confirmatórios e sem relação a longo prazo com o peso ao nascimento, já que o cortisol teria de ser liberado consOs ovinos lanados com aptidão para produção tantemente e não apenas no momento do estresse de carne, criados nas regiões de altas temperaturas, da tosquia, o que parece ser o ponto mais lógico sofrem comprovado estresse térmico, refletido pelos do estudo. O peso ao nascimento correlacionado altos parâmetros fisiológicos e baixo rendimento com a tosquia pré-parto e pós-parto foi proposto

Conclusão

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suplemento científico em produção. Juntando a origem da espécie, a sua característica fisiológica de termorregulação, o comprovado ganho em produção com a tosquia e o custo versus benefícios proporcionados pela tosquia,

é possível afirmar que essa deve ser uma ferramenta a ser agregada na ovinocultura brasileira. Com consequente melhor aproveitamento produtivo e reprodutivo, associado ao bem-estar animal.

Dados dos Autores

Bruno Henrique Matsukuma

Discente do Curso de Medicina Veterinária do Campus de Araçatuba da Unesp.

Juliana R. Peiró

Médica Veterinária, CRMV-SP nº 07702; Docente do DCCRA – UNESP – Curso de Medicina Veterinária.

Francisco Leydson F. Feitosa

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 05106; Docente do DCCRA – UNESP – Curso de Medicina Veterinária.

Luiz Claudio Nogueira Mendes

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 06112; Docente do DCCRA – UNESP – Curso de Medicina Veterinária. Endereço para correspondência: Rua Clóvis Pestana 793 – CEP:16050-680, Araçatuba – SP. E-mail: lmendes@fmva.unesp.br

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Retrospectiva dos casos de laminite equina atendidos nos Hospitais Veterinários da UFG e da unb e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército Equine laminits cases attended in three brazil’s federal institutions Resumo A laminite é uma séria enfermidade que acomete as estruturas do dígito dos equídeos, independente de idade, sexo, ou função. A necrose laminar que se desenvolve rapidamente resulta muitas vezes na necessidade de eutanásia. O diagnóstico precoce é determinante para o melhor prognóstico. Buscando traçar um perfil da casuística da laminite entre os equinos atendidos pelo serviço veterinário de três instituições federais, realizou-se um estudo retrospectivo dos prontuários de equinos portadores de laminite atendidos no período compreendido entre maio de 1999 e setembro de 2007. Foram analisadas informações relativas à caracterização dos animais atendidos, manifestação clínica e tratamento instituído. Quarenta atendimentos foram registrados, com tempo de internamento variando de 3 a 63 dias. Os membros torácicos foram mais frequentemente afetados (68,86% dos casos). Concussão, ferimentos podais, endotoxemia, cólica, distúrbios reprodutivos e sobrecarga por carboidratos foram registrados como causas primárias. Apenas seis registros indicavam o resultado final do tratamento, o que dificultou, neste estudo, a avaliação do sucesso da conduta clínica adotada em cada caso. Palavras-chave: cavalo, claudicação, pododermatite

Abstract Laminitis is a crippling disease that compromises the digit and affects horses independent on age, sex or activity. The rapid onset of the lamellae necrosis and permanent damages often leads to euthanasia. Early diagnostic and patient refer is determinant to a better prognosis. The aim of this study was to survey equine laminitis cases attended in three federal institutions of Brazil central region, analyzing the patient profile, clinic presentation and therapy results. 40 cases were recorded in the period, comprised between May,1999 and September, 2007, with hospitalization ranging from 3 to 63 days. Fore limbs were mostly affected (68.86%) in total cases. Concussion, foot wounds, endotoxemia, colic, reproductive disorders and carbohydrate overload were recorded as primary causes. Only six cases presented the final results, which makes difficult to analyze the success of the clinic conduct in each case. Keywords: hose, lameness, tounder

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suplemento científico INTRODUÇÃO

A laminite, denominada também pododermatite asséptica difusa, é a mais grave doença que afeta os cascos dos equídeos e provoca alterações patológicas na anatomia levando a uma devastadora perda de função. Essa afecção gera profundo estresse emocional e econômico para proprietários e treinadores de cavalos devido à angustiante dor experimentada por esses animais (Eades et al., 2002; Pollitt, 2007). Extensas alterações circulatórias e histológicas provenientes de distúrbios metabólicos sistêmicos resultam na perda da integridade e estabilidade das estruturas que compõem o casco (Peroni et al., 2005; Cruz, 2007; Riet-Correa et al., 2007; Pollitt, 2007; Laskoski et al., 2008). A falha de conexão entre a falange distal e as paredes interiores do casco, somada ao peso do cavalo e às forças de locomoção direcionando a falange distal para a sola, leva a danos nas artérias e veias, bem como esmagamento do cório solear, provocando dor intensa e consequente posição antiálgica, característica da laminite (Pollitt, 2008). Se a perda da interdigitação das lâminas dérmicas e epidérmicas primárias e secundárias da pata for suficientemente grave, a rotação e/ou deslocamento distal (afundamento) da terceira falange poderá acontecer (Stashak, 2006). O comprometimento dessas lâminas pode ocorrer nas primeiras 48 horas depois de instalado o processo, é irreversível e resulta na cronificação da lesão, no prolongamento do tratamento e prognóstico desfavorável (Riet-Correa et al., 2007). São muitas as etiologias implicadas no desenvolvimento da laminite em equinos. Traumatismo por concussão, processos sépticos no casco, problemas reprodutivos como metrites, retenção de placenta e distocias, assim como sobrecarga de grãos, podem precipitar o desenvolvimento do quadro. São também citados como fatores predisponentes o apoio prolongado de peso em um só membro, obesidade, aparamento muito curto do casco, bem como administração de grandes doses de corticoesteroides, do-

ença de Cushing e quadros de abdome agudo como a enterite anterior (duodenite/jejunite anterior) (Radostitis et al., 2000; Eades et al., 2002; Stashak, 2006). Em vista da severidade que esta patologia representa, objetivou-se neste trabalho caracterizar e analisar o perfil dos pacientes equinos encaminhados e diagnosticados como portadores de laminite nos Hospitais Veterinários de Grandes Animais da Universidade Federal de Goiás (HV) e da Universidade de Brasília (HVetão) e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército – Dragões da Independência (SVR), no período de 1999 a 2007, com relação a raça, idade, sexo, apresentação clínica da enfermidade e sua resolução.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram registradas três fichas de atendimento no HV, 11 no HVetão e 26 na SVR, totalizando 40 atendimentos de pacientes por laminite nas três instituições, no período estudado. Desses, foram 8 machos e 6 fêmeas nos Hospitais Universitários e 15 machos e 11 fêmeas na SVR, totalizando 23 machos e 17 fêmeas. Tanto nos hospitais veterinários quanto na SVR predominaram animais sem raça definida (SRD), constituindo 45% dos casos atendidos. Entre as raças que aparecem nos registros estão a Brasileira de Hipismo (BH), Mangalarga Marchador (MM), Quarto de Milha (QM), Puro Sangue Árabe (PSA), Puro Sangue Inglês (PSI) e Apaloosa (APALO). Em 12 dos 40 prontuários analisados, não se fazia menção à raça do paciente. Não houve casos de atendimento a asininos ou muares no período estudado, porém um estudo realizado por Alves (2005) com asininos de tração demonstra que a enfermidade também acomete a espécie, corroborando o descrito na literatura. Do total de prontuários analisados, apenas 24 continham referência sobre a idade do paciente, que variou de 3 a 22 anos , com média de 8,88. O perfil dos animais analisados está expresso na Tabela 1 e tende a confirmar os dados da literatura,

Tabela 1. Comparação entre sexo e idade dos equinos acometidos por laminite, atendidos nos Hospitais Universitários da UFG e da UnB (HU) e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército (SVR), no período de maio de 1999 a setembro de 2007. Local

n

Sexo M

F

Idade

Desvio

(média)

Padrão

HU

14

8

6

6,56

2,7436

SVR

26

15

11

10,19

4,9425

Total

40

23

17

8,88

4,5763

(n) total de animais; (M) machos; (F) fêmeas.

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que indicam não existir relação entre a ocorrência da laminite e a idade, sexo ou raça do indivíduo (Radostitis et al., 2000; Stashak, 2006). Dos 14 prontuários analisados nos Hospitais Universitários, 12 continham referência sobre o tipo de alimentação dos equinos atendidos. Desses, 1 indicava alimentação com verde, feno e concentrado; 6 mencionavam apenas verde e concentrado; 2 relatavam feno e concentrado; 2 indicavam somente verde; e 1 somente concentrado. Todos os equinos atendidos na SVR eram alimentados com verde, feno e concentrado. Do total de 14 prontuários analisados nos Hospitais Universitários, 13 continham referência sobre o tempo de evolução, do aparecimento dos sintomas à apresentação ao atendimento veterinário, que variou de 1 dia a 1 ano. Dos 26 prontuários analisados na SVR, apenas 5 continham referência sobre o tempo de evolução, sendo todos os animais atendidos no 1o dia da manifestação dos sintomas. Dos 40 prontuários, seis não continham referência sobre a data de término do tratamento. A duração dos tratamentos registrados nos prontuários variou de 1 até 63 dias. Observou-se que no caso dos hospitais universitários muitas vezes os pacientes foram encaminhados com mais de 48 horas de manifestação dos sintomas, o que implica cronificação da laminite com piora do prognóstico. Nos casos atendidos na SVR, isso em geral não ocorre devido à presença do atendimento veterinário no local, o que facilita o encaminhamento dos animais assim que manifestam os primeiros sintomas, caracterizando ainda a fase aguda da laminite. O período decorrente entre a instalação da patologia e a instituição da terapia é crítico para o agravamento ou não do caso, uma vez que o edema

nas estruturas laminares do casco e a isquemia resultante levam rapidamente à necrose, favorecendo a rotação da falange distal ainda nas primeiras 48 horas (Stashack, 2006; Riet-Correa et al., 2007; Pollitt, 2008). O atendimento veterinário permanente e mais próximo na SVR facilitou o acompanhamento da evolução do caso e das possíveis recidivas, tendo sido registrados três casos de retorno de pacientes anteriormente atendidos. Nos prontuários pesquisados nas três instituições, 32 (32/40) continham referência sobre a etiologia. Desses, 19 (47%) apontavam como causa a concussão e 6 (15%) relatavam laminite secundária a ferimentos. Outras causas encontradas nos registros foram excesso de concentrado, endotoxemia, cólica e problemas reprodutivos. Esses dados estão apresentados na Tabela 2. Agrupando-se os casos relativos a problemas de ordem reprodutiva, cólicas e excesso de concentrado, verifica-se que estes se igualam aos decorrentes de ferimentos no casco. Problemas reprodutivos como metrites, retenção de placenta e distocias, assim como cólicas por sobrecarga de grãos, predispõem à laminite devido à endotoxemia resultante do processo infeccioso no trato reprodutivo e pela morte de bactérias gram-negativas presentes no ceco, respectivamente, com absorção das toxinas liberadas na circulação (Stashak, 2006; Riet-Correa et al., 2007). Pollitt (2008) também destaca o papel das enfermidades do trato digestório e reprodutivo no desenvolvimento da laminite, associando que em ambas pode ocorrer o desenvolvimento de quadros de septicemia e endotoxemia que precipitariam a enfermidade nas lâminas do casco. Sampaio et al. (2004) realizaram estudo com

Tabela 2. Etiologia dos casos de laminite atendidos nos Hospitais Universitários da UFG e UnB (HU), e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército (SVR), no período de maio de 1999 a setembro de 2007. Etiologia

HU

SVR

Total

(%)*

concussão

3

16

19

47,5

ferimentos

3

3

6

15,0

excesso de concentrado

1

0

1

2,5

endotoxemia

1

0

1

2,5

cólica

2

0

2

5,0

problemas reprodutivos

3

0

3

7,5

sem referência

1

7

8

20,0

14

26

40

100

Total * sobre o total de casos registrados (n=40).

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suplemento científico sete equinos oferecendo-lhes excesso de carboidratos e comprovaram, por meio de exame histológico pós-morte, que 71% desenvolveram a afecção. A concussão, relatada como a principal etiologia envolvida no desenvolvimento de laminite neste estudo, foi decorrente do trabalho excessivo em superfícies duras, que resulta na inflamação das lâminas dérmicas comprometendo todo o estojo córneo (Canto et al., 2006). No caso dos ferimentos na muralha ou na sola, pode-se ter como consequência a infecção e necrose dos tecidos (broca) transformando um processo inflamatório inicialmente asséptico em séptico podendo evoluir para laminite (Riet-Correa et al., 2007). Com relação à clínica apresentada nos casos de laminite, atendidos nas três instituições, foram registrados dados relativos aos parâmetros fisiológicos, membros afetados, resposta ao teste de pinçamento e exames complementares. Alguns casos demonstraram aumento nas frequências cardíaca e respiratória, porém os registros relativos aos parâmetros fisiológicos estavam incompletos nos prontuários das três instituições. Riet-Correa et al. (2007) registram que na fase aguda da laminite o exame clínico revela aumento de frequências cardíaca e respiratória, pulso digital elevado, aumento de temperatura na parede do casco e banda coronária, podendo também se observar

Esses dados condizem com os relatados na literatura, que os atribui ao fato de os membros torácicos suportarem cerca de 60% do peso do animal, sendo os restantes 40% suportados pelos posteriores (RietCorrea et al., 2007; Cruz, 2007). Dos casos registrados no período, 16 (16/40) continham referência sobre o teste de pinçamento do casco, com 14 resultados positivos. O teste do pinçamento é um auxiliar importante no diagnóstico da laminite. O teste é considerado positivo quando o animal apresenta sensibilidade na região das pinças e à frente do vértice das ranilhas. Porém uma resposta negativa não exclui a possibilidade da enfermidade já estar instalada (Cruz, 2007; Pollitt, 2008). Dos prontuários analisados, 18 (45%) registravam a presença de claudicação, 2 relatavam decúbito, 2 protusão de sola e 1 necrose de sola. Não foram registrados dados sobre o grau de claudicação apresentado por esses animais. Na literatura, a sintomatologia da laminite aguda é caracterizada por claudicação severa e bilateral, na maioria dos casos, podendo ser quadripedal. Na fase crônica ocorrem alterações do crescimento do casco devido a distúrbios do suprimento vascular e perda da interdigitação laminar com concavidade da parede dorsal do casco, divergência dos anéis da muralha, formação de sulco próximo à re-

Tabela 3. Membros acometidos pela laminite nos equinos atendidos nos Hospitais Universitários UFG e UNB (HU), e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército (SVR), no período de maio de 1999 a setembro de 2007, conforme registrado nos prontuários. Membros afetados

HU

SVR

Total

(%)*

TD

8

18

26

35,62

TE

8

17

25

34,25

PD

6

5

11

15,07

PE

7

4

11

15,07

SR

2

3ca

(TD) torácico direito; (TE) torácico esquerdo; (PD) pélvico direito; (PE) pélvico esquerdo; (SR) prontuários sem registro da informação. * percentual obtido entre os membros afetados.

membranas mucosas congestas, temperatura corporal elevada e sudorese intensa. Essas informações, em geral, estavam falhas nos prontuários analisados. Com referência à caracterização da laminite, 35 (87,5%) prontuários continham referência sobre quais membros estavam acometidos. Desses, 6 pacientes apresentavam laminite nos quatro membros. Os dados referentes aos membros afetados nos animais atendidos estão discriminados na Tabela 3. Constata-se a predominância da afecção nos membros torácicos (68,86%) sobre os pélvicos (30,14%).

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gião da coroa do casco, crescimento de pinça e convexidade da sola, devido à pressão exercida pela falange distal em processo de rotação ou afundamento (Cruz, 2007, Riet-Correa et al., 2007, Pollitt, 2008). O exame radiográfico (Figura 1) é auxílio fundamental quando se suspeita de cronificação da laminite. Determina o grau de comprometimento das estruturas internas do casco e da falange distal, sendo base para direcionar o tratamento e determinar o prognóstico (Cruz, 2007). Conforme descrito por Pollitt (2008), as alterações histopatológicas que se Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


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desenvolvem na fase aguda levam ao afastamento progressivo entre as lâminas epidérmicas e os tecidos que as conectam às estruturas dérmicas, que traduzse, ao exame radiográfico, no aumento da distância entre a muralha do casco e a extremidade distal da 3ª falange. A proximidade desta para superfície de apoio no solo também é um critério importante a observar (O’Grady et al., 2007; Pollitt, 2008). No levantamento realizado verificaram-se apenas cinco (5/40) registros de exames radiográficos nos prontuários. Em todos os casos os exames apresentaram algum grau de rotação e ou deslocamento distal da terceira falange. O tratamento para a laminite é variável e depende do estágio e do acompanhamento das diversas fases do desenvolvimento da patologia. A fase crônica segue a fase aguda e ocorre, geralmente, 48 horas após dor contínua com a rotação e ou afundamento da falange distal, podendo vir a perfurar a sola exteriorizando a falange (Riet-Correa et al., 2007). Os prontuários dos hospitais universitários e da SVR refletiram essa diversidade de abordagens terapêuticas, relatando na quase totalidade dos casos o uso de anti-inflamatórios e analgésicos, e citando outros recursos de tratamento, como heparinóides, antibióticos, anti-histamínicos, fluidoterapia, crioterapia, antisséptico local, casqueamento e ferrageamento ortopédico (ferradura invertida), conforme discriminados na Tabela 4. O tratamento farmacológico apresenta poucas opções para casos de laminite. De acordo com a literatura, os únicos fármacos com ação cientificamente comprovada para os casos são os anti-inflamatórios não-esteroides, que agem na redução da inflamação, edema e dor associada (Eades et al., 2002), porém devem ser utilizados com critério, pois, por mascarar a dor, podem estimular o cavalo a apoiar seu peso e

Figura 1. Rotação da falange, representada pela perda de paralelismo entre a muralha do casco e a superfície dorsal da falange distal (linhas vermelhas), com diferença de 16o de angulação, e formação de linha aérea (a). Égua atendida no Hospital Veterinário da UnB.

agravar a alteração anatômica (Harman e Ward, 2001). São citados também os heparinóides, utilizados no intuito de reduzir a possibilidade de formação de trombos que venham a bloquear a microcirculação capilar para as lâminas dérmicas, apesar de os seus resultados serem controversos (Stashak, 2006; Martins Filho et al., 2008); os anti-histamínicos, que visam reduzir a permeabilidade vascular e o edema; os antibióticos e antissépticos, que são indicados quando se observa perfuração de sola, decorrente da rotação da falange observada na laminite crônica, sendo também utilizados como preventivo contra endotoxemias e septicemias (Pollitt, 2008).

Tabela 4. Tratamento instituído nos equinos atendidos com laminite nos Hospitais Universitários da UFG e UNB (HU), e na Seção Veterinária do 1º Regimento de Cavalaria do Exército (SVR), no período de maio de 1999 a setembro de 2007, conforme registrado nos prontuários. Tratamento instituído HU SVR Total (%)* analgésicos/anti-inflamatórios

11

26

37

92,5

heparinóides

2

12

14

35,0

antibióticos

5

6

11

27,5

anti-histamínicos

0

3

3

7,5

fluidoterapia

4

2

6

15,0

crioterapia

3

20

23

57,5

antissépticos locais

1

8

9

22,5

casqueamento

2

1

3

7,5

ferrageamento ortopédico

0

1

1

2,5

* (%) sobre o total dos casos de laminite atendidos (n=40). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

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suplemento científico

Figura 2. Uso de ferradura invertida em equino com laminite, atendido na Seção Veterinária do 1o Regimento de Cavalaria do Exército – Dragões da Independência.

A crioterapia, utilizada em 57, 5% dos casos neste estudo, é outra opção de tratamento que tem sido citada como uma das mais efetivas (Van Eps et al., 2002), sugerindo-se que pode prevenir ou retardar o desenvolvimento da doença, preconizando-se a imersão por tempo mínimo de 48h, durante a fase de desenvolvimento da enfermidade. Foi observada que a redução da temperatura do tecido em 10°C reduz a atividade metabólica enzimática em aproximadamente 50%, o que pode contribuir para prolongar a viabilidade dos tecidos e retardar a necrose. Estudos realizados com equinos, depois de receberem sobrecarga de concentrado, demonstraram que os animais, após terem permanecido até 72 horas na crioterapia, não desenvolveram o quadro de laminite (Pollitt, 2007). O casqueamento e o ferrageamento ortopédico

objetivam melhorar o apoio, reduzir os vetores de força que atuam sobre a falange distal e corrigir o ângulo da falange rotacionada em relação à muralha do casco (Stashak, 2006; Cruz, 2007; O’Grady et al., 2007; O’Grady, 2008; Pollitt, 2008). O uso de ferraduras ortopédicas é recomendado principalmente nos casos crônicos, embora a sua eficácia não seja consenso entre os autores (Taylor et al., 2002). Neste estudo foi relatado seu uso em apenas um caso, atendido pelo SVR, em que foi utilizada ferradura invertida (Figura 2). O uso de ferradura invertida é um recurso alternativo à ferradura de alumínio de 4 pontos (Parks, 2003), indicada para casos de laminite crônica com rotação de falange, quando se pretende elevar os talões e aliviar a tensão no tendão flexor digital profundo, no processo de realinhamento do casco. É importante, porém, que se proporcione suporte adequado à superfície palmar e à ranilha (Ferreira, 2008). Dos casos analisados na SVR do RCG, três (3/26) relatavam reincidência da laminite. Apenas três (3/14) dos prontuários analisados nos Hospitais Universitários relatavam o resultado final, sendo desses um caso de cura e dois de eutanásia. A indicação da eutanásia decorreu do agravamento dos casos, resultando em exungulação. O critério para a opção pela eutanásia deve considerar o grau de sofrimento do paciente e o prognóstico (Ferreira, 2008). A rapidez do diagnóstico e início do tratamento da laminite desempenham papel importante no prognóstico e no resultado (Riet-Correa et al., 2007). Ainda

Dados dos Autores

Denize Silva Brazil

Meryonne Moreira

Maria Amélia Fernandes Figueiredo

Paulo Hellmeister Filho

Médica Veterinária, CRMV-GO nº 4188; Residente da UFG, Goiânia–GO, Brasil. E-mail: denizebrazilvet@hotmail.com

Médica Veterinária, CRMV-BA nº1573; Professora do Curso de Medicina Veterinária –DCAA/ UESC, Ilhéus–BA, Brasil. Endereço para correspondência: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ – UESC / DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E AMBIENTAIS – DCAA, Rodovia Ilhéus – Itabuna, Km 16, Salobrinho, Ilhéus – Bahia , CEP: 45650-000. E-mail: meluesc@hotmail.com

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Médico Veterinário, CRMV-DF nº 0850; Major do Regimento de Cavalaria do Exército–Dragões da Independência, Brasília–DF, Brasil. E-mail: moreira.vet@click21.com.br

Médico Veterinário, CRMV-SP nº 7530; Professor do Curso de Medicina Veterinária – DCAA/UESC, Ilhéus–BA, Brasil. E-mail: phellmei@uesc.br

Roberta Ferro de Godoy

Médica Veterinária, CRMV-DF nº1798; Professora do Curso de Medicina Veterinária – UNB, Brasília–DF, Brasil. E-mail: robertagodoy@unb.br

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assim, um estudo realizado sobre os casos de cavalos com laminite aguda e tratados em um hospital universitário encontrou que 75% não retornaram à função atlética e a maioria era eutanasiada dentro de um ano devido à falta de resposta à terapêutica ou desenvolvimento de complicações severas (Eades et al., 2002), o que indica a complexidade envolvida na resolução desta enfermidade.

CONCLUSÕES

O levantamento realizado enfatizou que a laminite afeta indiscriminadamente os equinos, independentemente de raça, sexo e idade. Neste estudo, não foram registrados casos de ocorrência em muares ou asininos, apesar de não haver informações que indiquem resistência destes à enfermidade. Observou-se também, pelos resultados apresentados, que existe a predominância de acometimento dos membros torácicos. O período compreendido favoreceu a casuística

dos equinos do 1º Regimento de Cavalaria – Dragões da Independência, uma vez que as anotações em prontuários nos hospitais universitários da UnB e da UFG foram iniciadas em 2001 e 2006, respectivamente. Os resultados obtidos no presente trabalho devem ser analisados com critério, uma vez que as informações foram obtidas de prontuários preenchidos na rotina do atendimento nas três instituições, com alguns dados incompletos ou ausentes, de modo que podem ter sido omitidos ou subestimados. A laminite é uma patologia grave, de etiologia e patogenia complexas, cuja evolução silenciosa no primeiro momento dificulta o diagnóstico e a intervenção terapêutica precoce, resultando em alterações irreversíveis nas estruturas das lâminas do casco e consequente agravamento do prognóstico. É uma enfermidade cuja compreensão sobre a fisiopatologia e sua progressão permanece incompleta, demandando mais estudos no sentido de auxiliar a proposição de estratégias para a sua prevenção e tratamento.

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suplemento científico

Considerações Éticas na Realização de Xenotransplantes Ethical issues involving xenografts Resumo Xenotransplantes são realizados entre espécies diferentes, sejam células, tecidos ou órgãos. A realização dos xenotransplantes é ainda pouco difundida no mundo, somente realizada em caráter experimental, o que implica vários fatores complicadores como a ocorrência de rejeição, a possibilidade de transmissão de zoonoses, os custos elevados e as complicações psicológicas relacionadas ao receptor. Além disso, o fator mais discutido na comunidade científica relaciona-se às questões éticas que envolvem a realização destes procedimentos. Palavras-chave: xenotransplantes, bioética

Abstract Xenografts are those performed with cells, tissues or organs among different species. Although only experimentally used worldwide, it’s completion concerns some complications as the occurrence of rejections, zoonoses transmition, high costs and psychological complications related to receiver. Moreover, the most discussed item in the scientific community relates to the ethical issues involving the implementation of these procedures. Keywords: xenografts, bioethics

Introdução

O início do século XX foi marcado por grandes avanços na área do conhecimento humano. No campo científico, o trabalho persistente de alguns cirurgiões europeus da época permitiu a realização de um sonho que poucos acreditavam ser possível: o transplante de órgãos, caracterizando um dos mais belos capítulos da história da medicina moderna (Rocha, 1999). A última década foi marcada por um avanço significativo no resultado dos transplantes, com um aumento substancial na sobrevida do enxerto e do paciente (Rocha, 1999; Lasmar e Lasmar, 2003). Uma série de fatores contribuiu para este resultado: o aprimoramento na técnica cirúrgica, o progresso nas técnicas de exames imunológicos para seleção de doador, o conheci-

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mento mais profundo do mecanismo de rejeição por meio da biologia molecular, a descoberta de potentes agentes antimicrobianos utilizados no tratamento das infecções e o aparecimento de novas e poderosas drogas imunossupressoras (Lasmar e Lasmar, 2003). Apesar dos processos evidentes na área de transplantes, outros desafios surgem (Rocha, 1999), sendo a escassez de órgãos provenientes de doadores em morte encefálica ou de doadores vivos o maior obstáculo a ser vencido para o sucesso da “transplantologia” (Rocha, 1999; Vaticano, 2001; Vallotton e Weibel, 2001; Coelho, 2002; Abouna, 2003; Lasmar e Lasmar, 2003; Shankarkumar, 2003; Curran e Koszarycz, 2004; Connolly, 2007). Na tentativa de solucioná-lo, um grande número de pesquisadores dedica-se à busca de fontes alternativas aos órgãos humanos (Rocha, 1999; Lasmar e Lasmar, 2003). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


O caminho pode estar sendo aberto pelos recentes estudos realizados não apenas com o objetivo de melhorar a sobrevida de transplantes humanos – os alotransplantes –, mas principalmente dos transplantes de órgãos interespécie ou xenotransplantes (Rocha, 1999; Abouna, 2003; Shankarkumar, 2003), que podem oferecer uma solução potencial para a superação de mais este obstáculo (Abouna, 2003). Os aspectos éticos relacionados à prática dos transplantes em geral ganharão importância cada vez maior conforme os avanços tecnológicos nos permitam vencer novas barreiras (Rocha, 1999; Vaticano, 2001).

REvisão de LITERATURA Conceito O termo xenotransplante ou transplante xenogênico – do grego xenos, que significa estranho (Wilkinson et al., 2005) – é a denominação dada ao transplante de células, tecidos ou órgãos entre diferentes espécies (Vallotton e Weibel, 2001; Coelho, 2002; Curran e Koszarycz, 2004; Bagozzi, 2005; Wilkinson et al., 2005; Connolly, 2007; Fernandes, 2007) filogeneticamente próximas – concordantes – ou distantes – discordantes (Vallotton e Weibel, 2001). Quatro possibilidades tecnológicas de xenotransplante são descritas: Xenotransplante de células: as células podem ser geneticamente modificadas ou não e podem ser injetadas no receptor in natura ou encapsuladas em membranas semipermeáveis, que as protege da ação de imunocomplexos, prevenindo a ocorrência de rejeição (Vallotton e Weibel, 2001). A utilização de células, particularmente células neuroendócrinas, tem mostrado, em estudos, que pode ser efetiva no tratamento de doenças como o Mal de Parkinson, o Mal de Alzheimer e o Diabetes Melitus (Singh e Davies, 2002; Abouna, 2003; Wilkinson et al., 2005). Xenotransplante de tecidos: um fragmento de tecido vivo, como córnea ou pele, é transplantado de uma espécie para a outra (Vallotton e Weibel, 2001). Perfusão extracorpórea: o plasma ou sangue do paciente é perfundido através do órgão de outra espécie ou através de um órgão bioartificial que contém células do animal doador inclusas em uma cápsula permeável (Vallotton e Weibel, 2001). A perfusão hepática extracorpórea é utilizada no tratamento suporte do paciente que possui falência do órgão e aguarda a realização de um alotransplante (Vallotton e Weibel, 2001; Abouna, 2003; Wilkinson et al., 2005). Xenotransplante de órgãos: o órgão do animal Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

doador, geneticamente modificado para prevenir a ocorrência de rejeição, é transplantado no paciente (Vallotton e Weibel, 2001). A utilização de órgãos de outras espécies possibilitaria que muitos destes pacientes, que aguardam pela realização de um alotransplante, não necessitariam mais esperar por um doador humano compatível (Vallotton e Weibel, 2001; Abouna, 2003; Wilkinson et al., 2005). A técnica utilizada na realização de xenotransplantes está em processo de experimentação em várias partes do mundo (Wilkinson et al., 2005) e continua em constante desenvolvimento, tendo ainda, portanto, um longo caminho a percorrer até atingir resultados satisfatórios (Fernandes, 2007). Experimentos recentes têm mostrado que os transplantes de órgãos obtidos de suínos geneticamente modificados realizados em receptores babuínos têm produzido resultados que criam esperanças de um futuro sucesso no transplante de órgãos de suínos para humanos (Bagozzi, 2005).

A escolha da espécie doadora O xenotransplante tornou-se a solução mais atrativa para a resolução do problema de escassez de órgãos para transplantes. Ao se considerar qual espécie animal é mais apropriada para a doação de órgãos, os primatas não humanos foram a escolha inicial devido a sua proximidade fisiológica e imunológica com a espécie humana. Entretanto, essa fonte de órgãos determina uma série de problemas como as poucas espécies de primatas que possuem constituição física semelhante ao ser humano e, consequentemente, órgãos não capazes de suportar uma função fisiológica vital (Lasmar e Lasmar, 2003), além do risco de transmissão de doenças como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e a infecção pelo vírus Ebola (Vallotton e Weibel, 2001; Brumm, 2002). Portanto, até o momento, o suíno parece ser o animal mais adequado a ser utilizado como potencial doador (Vallotton e Weibel, 2001; Lasmar e Lasmar, 2003; Curran e Koszarycz, 2004) por superar alguns dos obstáculos impostos pela ética e pela ciência: é fértil, fisiologicamente semelhante ao ser humano, com dimensões apropriadas dos órgãos, podendo ser criado em ambientes que diminuem o risco de zoonoses e apresenta menores complicações éticas que os primatas (Brumm, 2002; Abouna, 2003; Lasmar e Lasmar, 2003). Porém, o sucesso nesta experiência foi suplantado inicialmente pelo desencadeamento da rejeição hiperaguda com rápida perda do enxerto ou órgão (Vallotton e Weibel, 2001; Singh e Davies, 2002; Lasmar e Lasmar, 2003).

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suplemento científico Aspectos relacionados aos xenotransplantes Aspectos clínicos Todo transplante, seja alogênico ou xenogênico, expõe o receptor a riscos imunológicos (Michler, 1996; Vallotton e Weibel, 2001; Coelho, 2002; Curran e Koszarycz, 2004; Connolly, 2007; Fernandes, 2007). No entanto, para comprovar a possibilidade de sucesso dos xenotransplantes, o transplante das válvulas cardíacas do suíno para o homem já apresenta eficácia comprovada (Fernandes, 2007). Por outro lado, o desenvolvimento crescente da ciência preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a comunidade científica pelo risco de proliferação de zoonoses ainda desconhecidas (Chapman, 1995; Michler, 1996; Chapman, 2000; Vallotton e Weibel, 2001; Brumm, 2002; Coelho, 2002; Abouna, 2003; Lasmar e Lasmar, 2003; Curran e Koszarycz, 2004; Bagozzi, 2005; Connolly, 2007; UNIC Rio, 2007). A população em geral pode correr riscos, uma vez que o tecido transplantado pode carrear infecções latentes, que podem ser ativadas e, alcançando as grandes massas, culminar em risco de ocorrência de epidemias. Algumas das doenças infecciosas que emergiram ao longo dos últimos anos originaram de outras espécies, como é o caso da AIDS, da infecção pelo vírus Ebola e da Síndrome Espongiforme Bovina (BSE), que atualmente são de difícil erradicação (Chastel, 1996; Vallotton e Weibel, 2001; Bagozzi, 2005; Connoly, 2007; UNIC Rio, 2007). Além disso, não se encontram disponíveis testes diagnósticos para detectar todas as doenças e vírus letais desconhecidos, que podem facilmente escapar aos programas de vacinação. O risco ainda poderá ser maior se um xenotransplante for bem-sucedido, no sentido de o organismo humano não rejeitar o órgão transplantado e o paciente viver uma vida “normal”, tornando-se um potencial veículo de transmissão de doenças de origem não humana (Chapman, 1995; Vallotton e Weibel, 2001; Fernandes, 2007). O Conselho da OMS e seus especialistas concluíram que medidas enérgicas precisam ser tomadas pelos países para deter a pesquisa ilegal e promover controles seguros e de qualidade (Lasmar e Lasmar, 2003; Bagozzi, 2005; Fernandes, 2007; UNIC Rio, 2007; Vaticano, 2001). Aspectos financeiros O risco de ocorrência de zoonoses promoveria a necessidade de realização de quarentena para os pacientes, suas famílias e equipes médicas. Da mesma forma,

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os animais usados para o transplante necessitariam de maior observação para o possível aparecimento de novos patógenos. Todos esses fatores implicariam elevados custos financeiros (Fernandes, 2007). Sendo assim, os xenotransplantes apresentam custos maiores que aqueles relacionados aos alotransplantes. Outro fator a ser considerado é que atualmente são obtidas taxas de sucesso pouco significativas, já que a técnica ainda está em fase de aprimoramento. Tal fator significa custo extra até que a pesquisa seja completamente concluída e aprovada (Wilkinson et al., 2005; Fernandes, 2007). Aspectos psicológicos Os pacientes que recebem órgãos de alotransplantes podem apresentar problemas psicológicos como depressão e, portanto, devem ser acompanhados por psicólogos e psiquiatras. O mesmo acontecerá com aqueles que passam por xenotransplantes, com o fator agravante de receberem o novo órgão não apenas de outro indivíduo, mas de um indivíduo de outra espécie (Abouna, 2003; Shankarkumar, 2003). Além disso, o indivíduo que recebe um xenotransplante pode também ser classificado como quimera, termo de conotação negativa que acaba por induzir à discriminação (Streiffer, 2005). Em casos de xenotranplantes de tecidos, o receptor ou “quimera visível” pode sofrer discriminação social devido à alteração em sua aparência “parte animal, parte humana” (Shankarkumar, 2003; Streiffer, 2005). Aspectos éticos A ética é amplamente definida como um sistema de moral, escrúpulos, princípios e valores que define o que é certo ou bom comportamento. Então, neste caso, seria apropriado correlacioná-la filosoficamente à religião, à política, à liberdade, aos humanos e aos animais (Shankarkumar, 2003). Sendo assim, todos os animais, quer sejam racionais ou não, têm o direito de viver livres de dor, sofrimento e seguir os seus próprios interesses (Fernandes, 2007). Além disso, há evidências biológico-sociais, cognitivas e neurofisiológicas que alguns animais, em particular os mamíferos, possuem a habilidade de formular conceitos, sentimentos e experiências emocionais que demonstram a existência de planejamento, intencionalidade, autorreconhecimento e consciência. A única diferença é a capacidade de racionalização e de julgamento moral, que somente os humanos possuem (Curran e Koszarycz, 2004). Se por um lado há quem veja o xenotransplante como meio para prolongar a vida humana priorizando a sua qualidade, por outro lado há quem pense que o Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


homem não tem qualquer direito de utilizar os animais em seu próprio benefício (Coelho, 2002; Fernandes, 2007). Coloca-se também o problema do tipo de animal utilizado e do uso de espécies em vias de extinção (Abouna, 2003; Fernandes, 2007). O uso de primatas, como babuínos, é muito discutido devido ao seu grau de semelhança com os seres humanos. Podemos assim pensar que o xenotransplante de órgãos e tecidos de primatas poderia ser bem-sucedido, mas para além das causas mencionadas anteriormente, levanta-se também a questão se é ou não ético o uso de primatas em situações nas quais não seria aceitável o uso de seres humanos. Portanto, a tendência atual é a utilização de suínos transgênicos como doadores (Fernandes, 2007). No entanto, de acordo com as teorias de igualdade entre os animais, não seria correto tratar babuínos de forma diferente dos suínos, independentemente destes últimos serem transgênicos ou não (Fernandes, 2007). Verifica-se uma grande tendência em atribuir aos humanos um direito absoluto à vida em detrimento de outras criaturas, atribuindo-lhes um status moral elevado (Fernandes, 2007; Streiffer, 2005). Por outro lado, se nós matamos animais para comer e usamos as suas peles e outros produtos para nosso benefício cotidianamente, também parece perfeitamente aceitável usar o fígado de um suíno para salvar uma vida humana (Fernandes, 2007). De acordo com Streiffer (2005), há um grupo de estudiosos da ética que acreditam que estender o conceito de status moral aos animais seria diminuir o valor do status moral humano, assim como acontece quando um ser humano torna-se um quimera. Eles justificam tal consideração pela atividade mental limitada dos animais. Por outro lado, há grupos que acreditam que, como seres criados por Deus, todos os animais, humanos ou não, devem receber a mesma consideração ética e moral (Streiffer, 2005). Outro fato que deve ser considerado é o uso dos animais em xenotransplantes sem que sua vida deixe de existir – como é o caso dos xenotransplantes de células e tecidos – e aqueles que obrigatoriamente levam à morte do doador – como é o caso dos xenotransplantes de órgãos. O fato de o animal permanecer vivo não invalida seu uso como ser inferior para aqueles que são contra a utilização de animais como xenodoadores para a espécie humana (Vallotton e Weibel, 2001). As divergências de opiniões tornam este assunto um conflito social em que o desejo de evolução científica choca com alguns pensamentos éticos (Wilkinson et al., 2005; Fernandes, 2007). Na maioria dos países europeus, Estados Unidos e Canadá muitos relatórios têm sido publicados Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

contendo recomendações e diretrizes sobre o xenotransplante, e leis de relevante importância têm sido aprovadas (Wilkinson et al., 2005). Estudos realizados na Suécia, no ano de 1996, com o público geral atestaram que cerca de 53% dos suecos consideraram que a realização de xenotransplantes não é moralmente aceitável e apenas 12% escolheram a opção favorável à sua realização. No mesmo estudo, 40% do público receberia um órgão transplantado de outra espécie animal (Lundin e Idvall, 2003). Em um outro estudo realizado apenas seis anos depois, a opinião dos suecos já havia mudado: a maioria do público que respondeu ao questionário considerou moralmente aceitável a realização dos xenotransplantes, provando que a aceitação dessa opção de transplantes cresce a cada ano na Europa (Lundin e Idvall, 2003). A Alemanha colocou a discussão em debate em duas vertentes: a primeira diz respeito a células e tecidos e a segunda, aos órgãos, já que as duas primeiras questões não necessitam da morte do animal. Outros países certamente farão o mesmo (Vallotton e Weibel, 2001).

CONSIDERAÇÕES FINAIS A realização dos xenotransplantes resolveria o problema relacionado à escassez de órgãos para transplantes, além de auxiliar na manutenção daqueles que aguardam por um alotransplante e no combate a diversas doenças endócrinas e neurológicas. Tornou-se fundamental, diante do avanço científico-tecnológico relacionado à medicina de transplantes, a criação de leis e regulamentações visando à padronização de métodos de pesquisa, principalmente relacionadas aos padrões éticos, à utilização de animais e à sanidade humana, específicas para a pesquisa sobre xenotransplantes. A preservação dos animais deve ser um tema amplamente discutido, avaliando-se o real benefício da morte desses animais pela vida dos seres humanos. O público em geral deve ser informado para evitar que preconceitos ou medos interfiram na lucidez de julgamento quanto à validade desta nova opção de cura. Existe, portanto, uma grande responsabilidade de todos aqueles que são encarregados de informar à sociedade, em dar a conhecer corretamente o problema. A real utilização de órgãos de animais não humanos ainda é incerta, não só devido às questões éticas envolvidas, como também por sua viabilidade e sucesso ainda obscuros.

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suplemento científico Dados das Autoras

Gabrielle M. Marques Cury

Médica Veterinária, CRMV-MG nº 8362; Mestranda em Ciência Animal da Escola de Veterinária da UFMG. Endereço para correspondência: R. Cel. Joaquim Silva, 146, Bairro Central Park, Vespasiano – MG, CEP: 33200-000. E-mail: gabriellecury@yahoo.com.br

Adriane Pimenta da Costa-Val

Médica Veterinária, CRMV-MG nº 4331; Professora Adjunta, Doutora, do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias da Escola de Veterinária da UFMG.

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Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


TRATAMENTO DA DOR EM PEQUENOS ANIMAIS: PRINCÍPIOS E MÉTODOS TERAPÊUTICOS treatment of pain in small animals Resumo A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, que causa alterações fisiológicas no animal, prejudicando sua qualidade de vida. Seu diagnóstico é feito principalmente por meio da observação do comportamento e da análise das alterações clínico-laboratoriais. O alívio da dor é essencial na prática médicoveterinária, podendo ser utilizados diferentes protocolos de analgesia. O presente trabalho objetiva descrever os tratamentos da dor mais utilizados em pequenos animais, destacando o uso de fármacos analgésicos, da fisioterapia e acupuntura. Palavras-chave: analgesia, fármacos analgésicos, fisioterapia, acupuntura

Abstract Pain is a sensory and emotional unpleasant experience that causes physiological changes in animals, and reducing the quality of life. The diagnosis is mainly performed through observation of behavior and analysis of clinical and laboratorial changes. The pain relief is essential in the medical-veterinary practice and different protocols of analgesia can be used. This article aimed to describe the most commonly used treatments of pain in small animals, highlighting the use of analgesic drugs, the physiotherapy and acupuncture. Keywords: analgesia, analgesic drugs, physiotherapy, acupuncture

Introdução Os novos paradigmas da Medicina Veterinária conduzem ao exercício profissional que prioriza o paciente e localiza os pontos críticos que influem na qualidade de vida dos mesmos (Molento, 2007). Atualmente, a sociedade como um todo está mais sensível às questões relacionadas à dor e à busca de estratégias para minimizar o sofrimento dos animais (Hellenbrekers, 2002). De acordo com a Associação Internacional para Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

o Estudo da Dor (IASP), a dor é definida como uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a uma lesão real ou potencial (Klaumann et al., 2008). A dor não aliviada é prejudicial (Hellenbrekers, 2002). As funções fisiológicas ficam comprometidas, os animais diminuem a ingestão de alimentos e água, ocorrem alterações cardiovasculares e respiratórias, supressão imune e retardo no processo de cicatrização (Matsuda et al., 1999; Fantoni et al., 2000; Bistner et al., 2002; Oliva et al., 2004; Otero, 2008). Esses efeitos se constituem na

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suplemento científico clássica resposta ao desconforto e estresse, comprometendo o bem-estar animal (Hellenbrekers, 2002; Klaumann et al., 2008). Embora o alívio da dor seja essencial na prática médico veterinária, muitas crenças ainda são utilizadas para justificar a falta de atenção com a dor nos animais (Hellenbrekers, 2002). As principais causas dessa relutância por parte dos profissionais se dão devido ao desconhecimento dos benefícios promovidos pela analgesia, à falta de familiaridade com os analgésicos e terapias complementares não farmacológicas, bem como devido ao temor dos efeitos colaterais (Fantoni et al., 2000; Oliva et al., 2004; Papa, 2006). Objetiva-se com esta revisão abordar os princípios e difundir os métodos terapêuticos utilizados na prevenção e alívio da dor em pequenos animais, incluindo os meios farmacológicos, a fisioterapia e a acupuntura.

Aspectos fisiológicos da dor e sua detecção

A dor é resultado da sensibilização, por estímulos ambientais, de receptores nociceptivos presentes na pele, vísceras, vasos sanguíneos e fibras do musculoesquelético, decorrente de uma injúria tecidual (Oliva et al., 2004; Klaumann et al., 2008). A modulação dos receptores é realizada por substâncias algogênicas liberadas em consequência do trauma. Após a estimulação, a propagação da atividade ocorre ao longo de fibras específicas que se originam na periferia e se projetam para o sistema nervoso central (SNC), sendo o padrão de resposta variável (Hellenbrekers, 2002; Oliva et al., 2004; Klaumann et al., 2008). A dor aguda está relacionada à adaptação biológica desenvolvida para facilitar o reparo tecidual e otimizar a sobrevivência no período imediatamente após a injúria. A hipersensibilidade à estimulação mecânica que ocorre na área lesada (hiperalgesia primária), bem como nos tecidos adjacentes (hiperalgesia secundária) contribuem para que o processo cicatricial ocorra sem interferências (Klaumann et al., 2008). Quando ocorre uma estimulação prolongada dos nociceptores aferentes, o animal pode desenvolver uma hipersensibilidade central, cuja resposta é tipicamente exagerada em duração e amplitude, tornando a dor crônica (Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005; Klaumann et al., 2008). Essa, além de manifestar-se por um longo período de tempo, implica uma síndrome debilitante de significante

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impacto sobre a qualidade de vida do paciente, caracterizando-se numa resposta pobre às terapias analgésicas convencionais (Klaumann et al., 2008). Embora a dor seja um sinal difícil de ser avaliado em animais (Otero, 2008), sua detecção depende do conhecimento do comportamento normal da espécie, da variabilidade individual e da análise das alterações clínicas (Fantoni et al., 2000; Alves et al., 2001). Dentre as alterações comportamentais observadas estão: alterações na posição e na postura corporal (protege a área afetada), na expressão facial (olhos abertos e pupilas dilatadas), na alimentação, nos padrões do sono, autolimpeza e locomoção. Alguns pacientes, a exemplo dos gatos, permanecem imóveis ou se afastam, enquanto outros, como os cães, costumam ficar inquietos. A vocalização e as mudanças de conduta ocorrem, podendo o animal permanecer indiferente ao meio ou até extremamente agressivo (Alves, et al., 2001; Oliva et al., 2004; Otero, 2008). Nessa avaliação, o proprietário pode se tornar um aliado, pois é capaz de perceber quando o animal se comporta de modo diferente e quando há uma mudança na rotina (Hellenbrekers, 2002). Na avaliação clínica, observa-se taquicardia, arritmias, taquipnéia e redução do volume corrente. Os achados laboratoriais mais significativos mostram leucograma de estresse e predomínio dos processos catabólicos (Fantoni et al., 2000; Otero, 2008). Devido às dificuldades associadas à graduação do comportamento da dor, considerando que os dados sofrem influência pela forma como o observador julga ou dimensiona a dor do animal, numerosos estudos vêm sendo conduzidos com o objetivo de minimizar as diferenças (Matsuda et al., 1999; Hellenbrekers, 2002). Tabelas ou escalas de classificação numérica, descritivas ou analógicas visuais têm sido propostas para a formação de um escore para a dor (Oliva et al., 2004). Outra abordagem é elaborar uma contagem da dor a partir de avaliações que mesclam variáveis fisiológicas com alterações comportamentais, conforme descrita no Quadro 1 (Hellenbrekers, 2002; Teixeira, 2005).

Métodos terapêuticos para alívio da dor Farmacológico A terapia analgésica farmacológica é um método conservador e eficaz, se utilizado de maneira racional nos mecanismos de ação da dor, sendo que Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


Quadro 1. Exemplo de escala de contagem da dor utilizando muitas variáveis. Escala de Dor da Universidade de Melbourne Categoria Dados fisiológicos a) b) c) Escolha apenas um

d)

e) f) Resposta à palpação Escolha apenas um

Atividade Escolha apenas um

Estado mental Escolha apenas um

Postura a) b) Escolha apenas um

Vocalização Escolha apenas um

Descritor

Contagem

Dados fisiológicos dentro da faixa de referência Pupilas dilatadas Percentagem de aumento da frequência cardíaca em relação à frequência pré-procedimento > 20% >50% >100% Percentagem de aumento na frequência respiratória em relação à frequência pré-procedimento >20% >50% >100% Temperatura retal acima da faixa de referência Salivação

0 2

Nenhuma alteração em relação ao comportamento pré-procedimento Em guarda / reage quando tocado Em guarda / reage antes de ser tocado

1 2 3

1 2 3 1 2 0 2 3

Em repouso - profundo - semiconsciente - desperto Alimentando-se Inquieto (marcando passo, deitando e levantando) Girando, batendo as patas

0 0 1 0 2 3

Submisso Fracamente amigável Desconfiado Agressivo

0 1 2 3

Guardando ou protegendo a área afetada (inclusive posição fetal) Decúbito lateral Decúbito esternal Sentado ou em pé, cabeça erguida Em pé, cabeça pendendo para baixo Móvel Postura anormal (posição de prece, dorso arqueado)

2 0 1 1 2 1 2

Não vocaliza Vocaliza quando tocado Vocalização intermitente Vocalização contínua

0 2 2 3

A mínima contagem total possível é 0 pontos, e a máxima contagem total possível é 27 pontos. Fonte: Hellebrekers, 2002. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

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suplemento científico diversos fatores influenciam no planejamento do protocolo terapêutico (Oliva et al., 2004). Um exame clínico minucioso deve ser realizado para avaliação do estado hemodinâmico do paciente e da integridade anatômica e funcional dos sistemas a serem afetados pela terapia (Otero, 2008). Para a escolha do agente, é importante considerar o mecanismo de ação dos diferentes fármacos e a sua indicação de acordo com o tipo da dor (Hellenbrekers, 2002; Oliva et al., 2004) (Figura 1), podendo-se optar por protocolos complexos nos quais as diversas classes de analgésicos combinados (analgesia multimodal) agem em sinergismo, favorecendo a redução de doses e da possibilidade de efeitos colaterais (Lascelles, 2007; Otero, 2008; Klaumann et al., 2008). Os fármacos analgésicos mais utilizados em pequenos animais e suas respectivas doses terapêuticas estão dispostos na Tabela 1. Opióides Os opióides são potentes fármacos utilizados no combate à dor. Agem em receptores específicos do SNC e, nos estados inflamatórios, em receptores opióides expressos na periferia (Fantoni et al., 2000; Klaumann et al., 2008). A resposta farmacológica de cada composto opiáceo é determinada pela sua afinidade aos distintos receptores OP1 (Delta), OP2 (Kappa) e OP3 (Mu), sendo que a eficácia analgésica se relaciona principalmente com a interação sobre os receptores Mu (Otero, 2005). Os opióides classificados como agonistas puros (morfina, meperidina, fentanil, tramadol) são mais eficazes como analgésicos do que os agonistas parciais (buprenorfina) e os agonistasantagonistas (butorfanol) (Teixeira, 2005). Esses fármacos são indicados no tratamento da dor moderada à grave, atuando sobre a dor visceral, nos estados de dor aguda após traumatismos e no manejo da dor crônica, potencializando a eficácia de outros protocolos analgésicos (Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005; Viana et al., 2006). Apresentam como efeito adverso depressão respiratória, bradicardia e hipotensão (Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005; Otero, 2008). Em doses clínicas, causam sedação em cães; e em gatos, podem causar excitação temporária do SNC quando usados isoladamente (Otero, 2005). Outros efeitos incluem emese, defecação, aumento do tônus da musculatura lisa, seguido por um período de estase gastrointestinal (Fantoni et al., 2000). Em pacientes com função hepática reduzida e obstrução significativa das vias

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aéreas superiores, devem ser utilizados com cautela (Hellenbrekers, 2002; Helley et al., 2004). A administração isolada de opióides, pela via epidural, promove o alívio da dor visceral e somática, induzindo uma analgesia mais prolongada e com menor depressão no SNC, comparada à administração parenteral (Carvalho et al., 2007). A morfina é indicada no manejo de animais com dor aguda e grave, como em casos de traumatismo, especialmente quando há contraindicação ao uso de agentes anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs). Seu início de ação é lento com duração prolongada, principalmente em gatos, devido à deficiência de conjugação (Fantoni et al., 2000; Hellenbrekers, 2002; Otero, 2008). A metadona apresenta potência analgésica e meia-vida semelhante à morfina, porém uma maior ação depressora no sistema cardiovascular, induzindo a redução da frequência cardíaca e débido cardíaco (Maiante et al., 2008). Tem sido recomendada para uso em cães em combinação com drogas sedativas, como a acepromazina e xilazina, sendo considerada eficaz para pré-medicação em cães (Monteiro et al., 2008b). A meperidina é um análogo da morfina, porém seu valor clínico está associado aos menores efeitos colaterais e às suas propriedades sedativas, sendo indicada em pacientes politraumatizados, geriátricos, portadores de asma, enfisema ou arritmias ventriculares (Fantoni et al., 2000; Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005). O fentanil, por possuir efeito analgésico de curta duração, é mais utilizado por meio de infusões contínuas durante o período transoperatório do que no manejo da dor em pacientes conscientes (Otero, 2008). O tramadol é indicado para o tratamento da dor de origem traumática considerada leve a moderada, sendo sua eficácia analgésica potencializada quando em associação com AINEs (Otero, 2005; Otero, 2008; Carvalho et al., 2007). O butorfanol é mais eficaz como sedativo e antitussígeno do que como analgésico. Sua curta duração limita seu uso, sendo mais utilizado associado a tranquilizantes e anestésicos dissociativos, e em procedimentos nos quais se espera dor leve a moderada (Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005). Já a buprenorfina apresenta potência analgésica 30 vezes maior que a da morfina e um longo período de latência, cerca de seis a 12 horas (Pascoe, 2000). Estudos demonstram que o butorfanol e a buprenorfina causam discretas alterações cardiovasculares, Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


Tabela 1. Fármacos utilizados para o controle da dor em pequenos animais e suas respectivas doses terapêuticas. FÁRMACOS

CÃO

GATO

Opióides

Tramadol

0,5-2,0mg/kg/q3-4h/IV lento, IM, SC ou 0,1 mg/kg pela via epidural 0,2-0,6mg/kg/IV*, 0,5mg/kg/IM** ou 0,3mg/ kg/epidural*** 5-10mg/kg/IM, SC. Duração de 1-2 horas 2-4mcg/kg/IV,IM,SC. Como analgésico pós-operatório, administrar 5mcg/kg/IV, continuando com 3-6 mcg/kg/h em infusão IV contínua 1-4mg/kg/q6-8h/IV, IM, VO

Butorfanol

0,5-1,0mg/kg/IV, IM, SC

Buprenorfina

0,01-0,02mg/kg/q6-12/IV, IM, SC, VO, espinhal

0,005-0,03mg/kg/q6-12h/IV, IM, SC, VO

2mg/kg/IV lento, seguidos de gotejamento de sol. 0,1%, na dose de 0,025-0,08mg/kg/ min (dose máxima total de 8mg/kg a cada 10 minutos). Pode também ser utilizada na dose de 4mg/kg/q90 minutos /IM

0,25-0,75mg/kg/IV lento, seguidos de gotejamento a 0,01-0,02 mg/kg/minuto

Morfina Metadona Meperidina Fentanila

0,05-0,2mg/kg/q3-6h/IM,SC 0,3mg/kg/IM**** 3-5mg/kg/IM, SC 2-3mcg/kg/IV. Como analgésico pósoperatório, administrar 2-3mcg/kg/EV, continuando com 2-3mcg/kg/h em infusão IV contínua 1-4mg/kg/q6-8h/IV, IM, VO 0,2-1,0mg/kg/IV, IM, SC, indicando-se a dose mais baixa se administrado IV

Anestésicos locais Lidocaína

Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) Dipirona Cetoprofeno Carprofeno

Flunixina Meglumina Meloxicam Deracoxibe Firocoxibe Tepoxalina

Até 25mg/kg/q8h/IV, IM, SC, VO ----2mg/kg/q24h/IV, IM, SC ou 1mg/kg/q24h/VO 2mg/kg/q24h/IV ou 1mg/kg/q24h/VO sempre no meio da refeição, durante 3-5 dias sempre no meio da refeição, durante 3-5 dias 2mg/kg/q12 (não ultrapassar 2 dias de 2,2mg/kg/q12h ou 4,4mg/kg/q24h/SC, VO, administração) ou 1-4mg/kg/SC no pré ou com um pouco de alimento pós- operatório 0,25mg/kg/IV, IM, SC em dose única, 0,5-1,0mg/kg/q24h/IV, IM, VO (não usar mais podendo ser administrada uma segunda de 3 dias) dose após 12-24h se necessário 0,1-0,2mg/kg/q24h/IV, SC, VO (não 0,1-0,2mg/kg/q24h/IV, SC, VO ultrapassar dois ou três dias de uso) 1-2mg/kg/q24h/VO (anti-inflamatório) ou 3-4mg/kg/q24h/VO por um máximo de 7 ----dias (analgésico pós-operatório) 5mg/kg/q24h/VO 10mg/kg/q24h/VO

---------

1,1 mg/kg/IV, IM, SC

1,1 mg/kg/IV, IM, SC

0,5-1,0mg/kg/IM

0,1-1,0mg/kg/q4-6h/IM, SC

0,2 -0,5mg/kg/VO (até uma semana após o alívio dos sintomas)

0,2 -0,5mg/kg/VO (até uma semana após o alívio dos sintomas)

Alfa-2 Agonistas Xilazina

Agentes Dissociativos Quetamina

Glicocorticosteroides Prednisona (artrite reumatoide) Succinato de Prednisona (compressão aguda de disco) Prednisona (paciente oncológico) Dexamentasona (paciente oncológico)

15mg/kg/IV/q6h por 24-48h (até descompressão cirúrgica)*****

-----

0,5-1,0mg/kg/VO/q12-24h

2,2mg/kg/VO/q12-24h

0,1-0,2mg/kg/IV-IM/q12-24h

0,1-0,2mg/kg/IV-IM/q12-24h

Fonte: Otero, 2005; Viana, 2007; *Muir et al., 2001; ** Monteiro et al., 2008b;*** Monteiro et al., 2008a; **** Monteiro et al., 2008c;*****Chrisman et al., 2005.

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suplemento científico DANO TISSULAR

AINEs, opioides, anestésicos locais, glicocorticoides

BRADICININA, PROSTAGLANDINAS, LEUCOTRIENOS, HISTAMINA, ACETILCOLINA, ÍONS POTÁSSIO ETC.

NOCICEPTORES PERIFÉRICOS Anestésicos locais MEDULA ESPINHAL

CÉREBRO

Opioides, Agonista alfa2 -adrenérgico, agentes dissociativos

Figura 1. Fisiopatologia da dor e locais de ação dos fármacos analgésicos.

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mas que podem ser utilizados em pacientes com estabilidade hemodinâmica (Souza et al., 2007).

quanto ao período de latência, duração, intensidade e toxicidade (Otero, 2005).

Anestésicos locais Os anestésicos locais são fármacos capazes de interromper a condução nervosa, alterando a permeabilidade das fibras, promovendo desde bloqueios sensitivos até motores (Carvalho, 2007; Otero, 2007b). São utilizados tanto em procedimentos cirúrgicos como para o tratamento da dor aguda, por meio de uso tópico, infiltração, bloqueio regional ou administrados por via epidural (Fantoni et al., 2000; Otero, 2008). Quando utilizados em sobredose, podem causar hipotensão, arritmias, bloqueio atrioventricular e depressão do SNC, seguido de convulsões (Otero, 2005), devendo-se ter cautela com o cálculo da dose em gatos e cães de pequeno porte (Hellenbrekers, 2002). Os fármacos mais utilizados dessa classe são a lidocaína, bupivacaína e ropivacaína, diferindo-se

Agonistas alfa2-adrenérgicos Os agonistas alfa2-adrenérgicos são agentes que se ligam aos receptores alfa2 no cérebro e na medula espinhal. Promovem efeitos sedativo, relaxante muscular e analgésico, e são considerados uma alternativa para pacientes com dores resistentes aos opióides (Teixeira, 2005; Otero, 2007a). Devido aos seus potenciais efeitos adversos, especialmente sobre os sistemas cardiovascular e respiratório, não são recomendados para o manejo de pacientes debilitados e traumatizados (Otero, 2008). A xilazina é um potente analgésico visceral, não muito efetivo no controle da dor somática (Fantoni et al., 2000). Tem sido empregada por via epidural com sucesso para analgesia em cães (Hellenbrekers, 2002). Devido à curta duração do efeito analgésico e à longa duração dos efeitos depres­ sores sobre o sistema cardiovascular, recomenda-se Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


não repetir a administração para evitar acúmulo do fármaco (Otero, 2005). Agentes dissociativos Os agentes dissociativos agem nos receptores N-metil-D-aspartato (NMDA) impedindo a despolarização das fibras e consequentemente a condução dos impulsos sensitivos (Otero, 2005). A incapacidade desse grupo em controlar a dor profunda e de origem visceral impede seu uso como único agente analgésico em alguns procedimentos, no entanto é considerado eficaz contra a dor isquêmica e somática (Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005). A cetamina é uma opção para o manejo de pacientes com dor somática nos quais não se deseja provocar inconsciência (Otero, 2005). É particularmente útil para diminuir a dor durante o tratamento de feridas ou no manejo de pacientes com queimaduras (Otero, 2008), podendo ser eficaz no tratamento da dor neuropática não responsiva aos opióides (Klaumann et al., 2008). Em pacientes com traumatismo craniano é contraindicada por promover marcado incremento da pressão intracraniana (Otero, 2005; Rosa et al., 2005; Otero, 2008). Anti-inflamatórios não-esteroidais Os anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs) são os fármacos mais utilizados na clínica de pequenos animais em processos que cursam com quadros inflamatórios, edema e dor (Oliva et al., 2004; Papa, 2006). Tradicionalmente, têm sido indicados para tratamento da dor oriunda de lesões inflamatórias de grau leve a moderado, e na dor crônica, principalmente de origem musculoesquelética e articular (Fantoni et al., 2000; Guérios et al., 2002; Hellenbrekers, 2002; Otero, 2005; Otero, 2008). Sua utilidade apresenta-se limitada em pacientes com traumatismo ou dor grave (Helley et al., 2004). As ações analgésicas, antipiréticas e anti-inflamatórias devem-se principalmente à inibição da ação das cicloxigenases, prevenindo a síntese das prostaglandinas e a sensibilização de nociceptores periféricos (Alves, 2001; Oliva et al., 2004; Otero, 2005; Lascelles, 2007). A maioria desses agentes age de forma não seletiva, bloqueando não apenas a ação da cicloxigenase-2 (COX-2), que se torna ativa como resultado de traumatismo tissular, mas também a cicloxigenase-1 (COX-1), que possibilita a manutenção das funções fisiológicas renais, gastrintestinais e vasculares (Guérios et al., 2002; Hellenbrekers, 2002; Costa et al., 2007; Behle, 2008). Os efeitos colaterais de maior importância clíRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

nica são os gastrointestinais (Matsuda et al., 1999; Guérios et al., 2002; Otero, 2005), renais, hepáticos, hematológicos e nervosos (Fantoni et al., 2000; Hellenbrekers, 2002; Helley et al., 2004; Otero, 2008), podendo-se detectar emese, hematemese, melena, dor abdominal e discrasias sanguíneas (Behle, 2008). A utilização conjunta dos AINEs com glicocorticoides agrava os efeitos adversos (Fantoni et al., 2000). O cetoprofeno apresenta, além da ação inibitória sobre as cicloxigenases, ação antibradicinina, o que faz desse fármaco um potente analgésico (Lacerda et al., 2008). Em cães, é indicado para o alívio da dor oriunda de processos inflamatórios agudos musculoesqueléticos (Viana et al., 2006) e de procedimentos cirúrgicos, especialmente ortopédicos, devendo ser utilizado com cautela em casos de hipovolemia e hipotensão (Fantoni et al., 2000). O carprofeno é um AINE seletivo da COX-2, indicado para o controle da dor de grau leve a moderado. Promove adequada analgesia pós-cirúrgica, especialmente quando administrado à cirurgia (Retortillo et al., 2002). Em gatos, são reportados problemas gastrintestinais quando se usa o carprofeno por mais de uma dose (Plumb, 2004), uma vez que nessa espécie sua eliminação é relativamente prolongada (Lascelles, 2007). Em cães, quando administrado por via oral, em longo prazo, induz menores efeitos adversos gastrointestinais quando comparado com outros AINEs (Luna et al., 2007). Lesões na mucosa gástrica e duodenal são reportadas como possíveis efeitos colaterais (Guérios et al., 2002). O flunixin meglumine é um potente analgésico e antipirético; no entanto, devido à alta incidência de efeitos indesejáveis, seu uso não é indicado em gatos, enquanto em cães o tratamento não deve exceder três dias (Otero, 2008). A dipirona é efetiva no tratamento da dor aguda de grau leve em pequenos animais, sendo também um potente antipirético (Otero, 2008). Apresenta efeito antiespasmódico, atuando sobre dores viscerais (Viana et al., 2006). O meloxicam é considerado um analgésico muito efetivo (Hellenbrekers, 2002), especialmente no combate à dor causada pela osteoartrite em cães (Plumb, 2004). Classificado como COX-2 preferencial, apresenta alta atividade intrínseca combinada com baixo potencial ulcerogênico, o que garante um alto índice terapêutico (Behle, 2008). Como a sua meia-vida plasmática é alta, cerca de 20 horas, tem sua administração facilitada a cada 24 horas (Lascelles, 2007). Estudo demonstra que

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suplemento científico animais tratados com meloxicam por 21 dias apresentaram apenas lesões de grau leve na mucosa gástrica (Costa et al., 2007). Existe um novo grupo composto por inibidores específicos da COX-2 representado na Medicina Veterinária pelo deracoxib e firocoxib. Estudos foram realizados com o firocoxib verificando o alívio da dor nos casos de osteoartrite em cães (Lascelles, 2007). No homem, surgiram relatos sobre alterações ósseas, da ovulação e transtornos da pressão arterial, sugerindo que a COX-2 atua em muitos outros processos além do inflamatório (Otero, 2005). A tepoxalina é um inibidor tanto da ciclooxigenase como da lipooxigenase, impedindo a maioria das mudanças ocorridas na inflamação aguda. A relativa ausência de efeitos adversos gastrointestinais dentro do intervalo estimado da dose terapêutica faz com que esse fármaco seja bem tolerado por até seis meses em cães (Knight et al., 1996). É indicado como analgésico em processos dolorosos de origem osteoarticular (Otero, 2008) e oculares (Gilmor; Lehenbauer, 2009). A forma de administração por meio de tabletes efervescentes a torna uma alternativa em pacientes resistentes à ingestão de comprimidos. Seu uso ainda não foi aprovado para gatos (Lascelles, 2007). Glicocorticoides Os glicocorticoides são potentes inibidores do processo inflamatório por reduzirem a produção de ácido aracdônico. São indicados em doenças que cursam com um grau importante de inflamação e que se apresentam de forma aguda ou crônica. Esses agentes também contribuem no tratamento de afecções traumáticas que envolvem o sistema nervoso, nos casos de reagudização ou quando o paciente não responde a outro tipo de analgésico (Caldeira et al., 2002; Otero, 2005).

Os glicocorticosteroides mais utilizados em Medicina Veterinária são prednisona, prednisolona e dexametasona (Caldeira et al., 2002), no entanto seu uso prolongado acarreta graves efeitos adversos como atrofia da adrenal, imunossupressão, atraso no processo cicatricial, sintomas da Síndrome de Cushing, entre outros (Viana et al., 2006; Behle, 2008).

Fisioterapia A fisioterapia pode ser usada como complemento no manejo da dor de pacientes traumatizados (Otero, 2005), devendo ser instituída na fase adequada do tratamento de animais convalescentes (Perrelli et al., 2002). Diferentemente da terapia farmacológica, a fisioterapia exerce ação terapêutica por meio da utilização de energia térmica, luminosa, mecânica ou eletromagnética, desencadeando reações teciduais e orgânicas que estimulam o início dos mecanismos fisiológicos de resposta à dor (Otero, 2005). Várias modalidades fisioterápicas promovem benefícios no tratamento da dor em pequenos animais, sendo as mais utilizadas os agentes físicos, as massagens e a estimulação elétrica (Caldeira et al., 2002). De acordo com o quadro patológico do animal, pode-se programar o protocolo fisioterápico a partir do conhecimento do efeito biológico que se espera de cada agente físico (Otero, 2005). Os agentes físicos, como o frio e o calor, são empregados no tratamento de afecções agudas e crônicas, respectivamente. A aplicação do frio, em suas diferentes modalidades, como água fria, gelo e ar frio, atua provocando vasoconstricção, redução do metabolismo tissular e, consequentemente, da inflamação e edema, além de agir diretamente sobre as terminações nervosas, modulando a dor (Caldeira et al., 2002; Otero, 2005).

Dados das Autoras

Kátia Moema Oliveira Rosa Sampaio

Médica Veterinária, CRMV-BA nº1479; Professora Assistente do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Endereço para correspondência: Rodovia Ilhéus-Itabuna, Km16, Salobrinho, Ilhéus – Bahia, CEP: 45662-900. UESC – Departamento

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de Ciências Agrárias e Ambientais. E-mail: kmoema@uesc.br

Luciana Carvalho Lacerda,

Médica Veterinária, CRMV-MG nº10487; Residente do Curso de Especialização em Residência em Medicina Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: lulacerda20@hotmail.com

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A aplicação de calor (termoterapia) produz modificações nos tecidos por aumento do metabolismo celular e do fluxo sanguíneo, redução da tensão muscular e liberação de substâncias que diminuem a sensibilidade dolorosa, resultando em efeito analgésico breve de ação local (Caldeira et al., 2002; Otero, 2005). Como modalidades, podem ser utilizadas o calor superficial, como o uso de compressas e banhos quentes, e o calor profundo, a exemplo da diatermia e ultrassom terapêutico (UST) (Caldeira et al., 2002). O UST causa pouca elevação da temperatura nos tecidos superficiais e tem maior profundidade de penetração na musculatura e em outros tecidos moles do que a diatermia, apresentando como vantagem o calor dirigido (Olsso et al., 2008). A massagem é comumente indicada para diminuir a dor, aliviar o edema local e desfazer possíveis aderências entre os tecidos. Já a estimulação elétrica é recomendada em pequenos animais para atenuar a atrofia muscular, restabelecendo a função motora, contribuindo para diminuição do edema e da dor local (Caldeira et al., 2002).

Acupuntura A acupuntura é um método complementar que utiliza a estimulação de pontos anatômicos (acupontos) escolhidos de acordo com suas indicações terapêuticas para minimizar as dores que cursam com algumas doenças, a exemplo da artrite, síndromes de disco intervertebral e displasia coxo-femoral (Rubin, 1983; Altman, 1998). Cerca de 65% dos animais reagem positivamente à terapia, demonstrando se beneficiar com a analgesia promovida pela acupuntura (Draehmpaehl, 1994). Além da ação analgésica, a acupuntura promove a normalização da regulação e controle das funções orgânicas, modulação da imunidade e ativação dos processos regenerativos (Carneiro, 2003). O controle da dor por meio da acupuntura é

explicado pela teoria do “controle de entrada”. Em circunstâncias normais, o impulso doloroso passa livremente até chegar ao SNC, porém, quando as agulhas são inseridas, um segundo impulso passa bloqueando o primeiro, originando o fechamento da entrada. Ocorre, então, uma competição entre o estímulo doloroso e o não doloroso, e o cérebro deixa de registrar a dor (Otero, 2005). A acupuntura também promove a indução de mecanismos centrais que elevam o limiar da dor e a liberação de endorfinas e catecolaminas (Draehmpaehl et al., 1994). Sua utilização para tratamento da dor crônica apresenta vantagem de não ocasionar efeitos colaterais, comumente observados com o uso de fármacos, além de apresentar custo reduzido (Luna, 2008).

Considerações Gerais Os animais de estimação fazem parte hoje de milhares de famílias, portanto é dever do Médico Veterinário ter um perfil profissional comprometido com a saúde e o bem-estar dos seus pacientes. Se um animal sofre, não há justificativa moral para não fazer uso de uma terapia analgésica, pois a presença da dor ocasiona distúrbios comportamentais e fisiológicos que afetam a sua qualidade de vida. Diversas são as alternativas farmacológicas para alívio da dor. Atualmente, estão disponíveis medicamentos com grande poder antiálgico e que ocasionam menores efeitos colaterais; também é possível o uso de diferentes associações de classes farmacológicas de acordo com a necessidade do paciente. Considerando que métodos complementares não farmacológicos, como a fisioterapia e a acupuntura, acrescentam o arsenal terapêutico para o controle da dor, a intervenção precoce é um fator determinante para o rápido retorno funcional dos pacientes.

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suplemento científico

Normas para apresentação de Artigos Informações Gerais O Suplemento Científico da Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária tem como objetivo principal a publicação de artigos de revisão e de educação continuada, básica, geral profissionalizante, que contribuam para o desenvolvimento da ciência nas áreas de Medicina Veterinária e Zootecnia, podendo ser apresentados também manuscritos de investigação científica. Os artigos, cujos conteúdos serão de inteira responsabilidade dos autores, devem ser originais e previamente submetidos à apreciação do Conselho Editorial do CFMV, bem como de assessores ad hoc de reconhecido saber na especialidade. A publicação do artigo dependerá da sua apresentação dentro das Normas Editoriais e de pareceres favoráveis do Comitê Científico da Revista. Os pareceres terão caráter sigiloso e imparcial. A periodicidade da publicação será quadrimestral. Os artigos e toda correspondência pertinente deverão ser encaminhados para: Revista CFMV Conselho Editorial SIA – Trecho 6 – Lote 130 e 140 Brasília–DF – CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 Fax: (61) 2106-0444 E-mail: artigos@cfmv.org.br

Normas Editoriais Os textos de revisão, de educação continuada e científicos devem ser de primeira submissão, escritos segundo as normas ortográficas oficiais da língua portuguesa e com abreviaturas consagradas, exceto o Abstract e Keywords, que serão apresentados em inglês.

Artigos de Revisão e de Educação Continuada Os artigos de revisão e de educação continuada serão publicados por especialistas, nacionais ou internacionais. Devem ser estruturados para conter Resumo, Abstract, Palavras-chave, Keywords, Referências Bibliográficas e Agradecimentos (quando houver). A divisão e subtítulos do texto principal ficarão a cargo do(s) autor(es).

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Artigos Científicos Os artigos científicos deverão conter dados conclusivos de uma pesquisa e conter Resumo, Abstract, Palavraschave, Keywords, Introdução, Material e Métodos, Resultados, Discussão, Conclusão(ões), Referências Bibliográficas e, quando houver, Agradecimentos, Tabela(s), Quadro(s) e Figura(s). A critério do(s) autor(es) e/ou do Conselheiro Editorial, os itens Resultados e Discussão poderão ser apresentados como uma única seção. Quando a pesquisa envolver a utilização de animais, os princípios éticos de experimentação animal preconizados pelo Conselho Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA) e aqueles contidos no Decreto nº 24.645, de 10 de julho de 1934, e na Lei nº 6.638, de 8 de maio de 1979, devem ser observados. Também deve ser observado o disposto na Resolução nº 879, de fevereiro de 2008, do CFMV.

Apresentação Os manuscritos deverão ser encaminhados na primeira submissão em três vias (uma original e duas cópias). A primeira página da via original conterá o título do trabalho, o nome completo do(s) autor(es), sua(s) respectiva(s) afiliação(ões) e o nome, endereço, telefone, fax e endereço eletrônico do autor para correspondência. As diferentes instituições serão indicadas por número sobrescrito. Nas duas cópias, a página de rosto deve omitir o(s) nome(s) do(s) autor(es). Uma vez aceita a publicação, além de uma cópia impressa, deve ser enviada uma gravação do artigo em mídia magnética de alta densidade (CD), identificada com o título do trabalho e nome(s) do(s) autor(es).

Digitação O texto será digitado com o uso do editor de textos Microsoft Word for Windows (versão 6.0 ou superior), no formato A4 (21,0 x 29,7), com espaço simples, em uma só face do papel, com margens laterais de 3,0 cm e margens superior e inferior de 2,5 cm, na fonte Times New Roman de 16 cpi para o título, 12 cpi para o texto e 9 cpi para rodapé e informações de tabelas, quadros e figuras. As páginas e as linhas de cada página devem ser numeradas.

Título O título do artigo, com 25 palavras no máximo, deverá ser escrito em negrito e centralizado na página, sem utilizar abreviaturas. Na língua inglesa, só antes do Abstract.

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suplemento científico Resumo e Abstract O Resumo e sua tradução para o inglês, o Abstract, não podem ultrapassar 250 palavras, com informações que permitam uma adequada caracterização do artigo como um todo. No caso de artigos científicos, o Resumo deve informar o objetivo, a metodologia aplicada, os resultados principais e as conclusões.

Palavras-chaves e Keywords No máximo cinco palavras serão representadas em seguida ao Resumo e Abstract. As palavras serão escolhidas do texto e não necessariamente do título.

Texto Principal Não há número limite de páginas para a apresentação do artigo. No entanto, recomenda-se que sejam concisos. Poderão ser utilizadas abreviaturas consagradas pelo Sistema Métrico Internacional, por exemplo, kg, g, cm, ml, EM etc. Quando for o caso, abreviaturas não usuais serão apresentadas como nota de rodapé. Exemplo, GH=hormônio do crescimento. As citações bibliográficas do texto devem ser pelo sobrenome do(s) autor(es) seguido do ano. Quando houver mais de dois autores, somente o sobrenome do primeiro será citado, seguido da expressão et al., Exemplos: Rodrigues (1999), (Rodrigues, 1999), Silva e Santos (2000), (Silva e Santos, 2000), Gonçalves et al. (1998), (Gonçalves et al., 1998).

Referências Bibliográficas A lista de referências bibliográficas será apresentada em ordem alfabética por sobrenome de autores, de acordo com a norma ABNT/NBR-6023 da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Inicia-se a referência com o último sobrenome do(s) autor(es) seguido da(s) letra(s) inicial(is) do(s) prenome(s), exceto nos nomes de origem espanhola ou de dupla entrada, os quais devem ser registrados pelos dois últimos sobrenomes. Todos os autores devem ser citados. Obras anônimas têm sua entrada pelo título do artigo ou pela entidade responsável por sua publicação. A referência deve ser alinhada pela esquerda e a segunda linha iniciada abaixo do primeiro caractere da primeira linha. Os títulos de periódicos da referência podem ser abreviados, segundo a notação do BIOSES *BIOSIS. Serial sources for the BIOSIS previews database. Philadelphia, 1996, 486p. Abaixo são apresentados alguns exemplos de referências bibliográficas.

Artigo de periódico EUCLIDES FILHO, K.; V.P.B.; FIGUEIREDO, M.P. Avaliação de animais nelore e seus mestiços com charolês, fle-

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ckvieh e chianina, em três dietas 1. Ganho de peso e conversão alimentar. Revista Brasileira de Zootecnia, v.26, n.1, p.66-72, 1997.

Livros MACARI, M.; FURLAN, R.L.; GONZALES, E. Fisiologia aviária aplicada a frangos de corte. Jaboticabal: FUNEP, 1994. 296p.

Capítulos de livro WEEKES, T.E.C Insulin and growyh. In: Buttery, P.J.; LINDSAY, D.B.; HAYNES, N.B. (ed). Control and manipulation of animal growth. Londres: Butterworths, 1986. p.187-206.

Teses (doutorado) ou dissertações (mestrado) MARTINEZ, F. Ação de desinfetantes sobre salmonella na presença de matéria orgânica. Jaboticabal, 1998. 53p. Dissertação (mestrado) – Faculdade de Ciências Agrárias e veterinárias. Universidade Estadual Paulista.

Artigos apresentados em congressos, reuniões e seminários RAHAL, S.S.; W.H.; TEIXEIRA, E.M.S. Uso de fluoresceina na identificação dos vasos linfáticos superficiais das glândulas mamárias em cadelas. In. CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 23 Recife, 1994. Anais... Recife, SPEMVE, 1994. p.19.

Tabelas, Quadros e Ilustrações As tabelas, quadros e ilustrações (gráficos, fotografias, desenhos etc,) devem ser apresentados nas últimas páginas do artigo, uma em cada página. Serão numerados consecutivamente com números arábicos. A tabela deve ter sua estrutura construída segundo as normas de Apresentação Tabular do Conselho Nacional de Estatística (Ver. Bras. Est. V. 24, p.42-60, 1963).

Fotografias As fotografias deverão estar em boa resolução (nítida, colorido sem saturação, sem estouro de luz ou sombras excessivas no caso de papel para escanear). Para digital seguem as mesmas recomendações, com resolução mínima de 300 dpi, com a foto em tamanho grande (centímetros), formato TIF e as cores em CMYK.

Avaliações/Revisões Os artigos sofrerão as seguintes avaliações/revisões antes da publicação: 1) avaliação inicial pelo editor; 2) revisão técnica por consultor ad hoc; 3) avaliação do editor e/ou Comitê Editorial. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


c o mp o r ta m e n t o a n i m a l

Usando ferramentas cognitivas e etológicas para compreender o que os animais querem e como eles se sentem Introdução

A preocupação com o bem-estar de animais zootécnicos não é exatamente recente, principalmente se considerarmos a co-evolução de certas espécies animais, como os bovinos, e a própria evolução da espécie humana. Juntamente com a intensificação dos processos de industrialização das unidades criatórias de animais zootécnicos em todo o mundo, o interesse científico pelo bem-estar animal vem aumentando consideravelmente nas últimas décadas. A pesquisadora britânica Dawkins (2006) sintetiza as três grandes questões que a ciência de bem-estar animal deve responder: “(i) Existe consciência nos animais?; (ii) Como podemos avaliar o bem-estar animal? (iii) Como podemos usar a ciência para melhorar o bem-estar dos animais na prática?”. No presente artigo focamos na segunda questão, a avaliação do bem-estar animal. Avaliar o bem-estar dos animais deve levar em conta o que se entende por bem-estar animal, e isso inclui o entendimento do público geral e dos cientistas. O principal aspecto relacionado com a formação de atitudes humanas em relação ao bemestar dos animais é a crença na existência de estados mentais (KNIGHT et al., 2004), o que é respaldado no conhecimento científico contemporâneo a respeito do comportamento, da anatomia, da fisiologia e da genética de humanos e animais (KENDRICK, 2007). Entretanto, além da capacidade de sofrer e experimentar experiências positivas, a possibilidade de expressar um repertório comportamental natural e o estado biológico, especialmente a saúde, desses animais são aspectos essenciais do conceito e da avaliação do bem-estar animal (DUNCAN, 1993; ROLLIN, 1995; Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

FRASER et al., 1997; HÖTZEL & MACHADO FILHO, 2004; BROOM & MOLENTO, 2004; DAWKINS, 2008). A análise multidisciplinar do bem-estar, com a aplicação simultânea de indicadores biológicos e metodologias que procuram saber o que os animais preferem obter/evitar, tem oferecido os resultados mais sólidos em relação ao status de bem-estar dos animais zootécnicos até hoje (MENDL, 2001). Em condições de cativeiro, animais podem estar em excelentes condições biológicas, geralmente demonstradas por meio de variáveis fisiológicas ou índices de crescimento e reproduDr. José de Oliveira | UFV ção, porém impedidos de expressar comportamentos naturais – por exemplo por estarem alojados em espaços que não permitem expressar comportamentos que os animais têm grande motivação1, como a realização da exploração do meio, do contato social ou forrageio típico da espécie. Entretanto, para julgar as condições do animal, é importante conhecer quão importantes são para os animais os vários elementos do ambiente. Recompensa e distress são importantes mecanismos de retroalimentação na facilitação ou inibição dos sistemas motivacionais

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m co u mp dao r r ta m e n t o a n i m a l que a avaliação do bem-estar animal deve considerar a saúde dos animais e o que eles querem. Além das preferências dos animais, é possível estudar o quão importante é para um animal obter/ evitar cada elemento do seu ambiente. Isso pode ser alcançado por meio de metodologias que requeiram que os animais trabalhem (p. ex. realizar alguma atividade física como bicar, ou exercer força para acionar um mecanismo com a pata) para evitar um estímulo reforçador negativo que leve à experiência de uma emoção negativa ou, ao contrário, para alcançar um estímulo reforçador positivo que leve a uma emoção positiva (DAWKINS, 2008). Matthews & Ladewig (1994) descrevem uma dessas metodologias em um trabalho com suínos. Após um período de treinamento inicial, os animais foram testados individualmente em uma situação na qual precisavam trabalhar com diferentes intensidades para obter acesso a três oportunidades: alimento, contato com outro suíno ou um estímulo inespecífico – simplesmente uma porta se abria. Curvas de demanda semelhantes às utilizadas em economia foram derivadas para cada oportunidade. Como esperado, os suínos trabalharam mais para obter o alimento, logicamente um recurso essencial para os suínos, e menos para conseguir abrir a porta, o fator menos importante para a espécie. Uma metodologia semelhante foi aplicada para avaliar a importância que visões (Mustela vison) dão a recursos que normalmente encontram no seu ambiente natural – espaço, vários ninhos, alimento fibroso e água para banho –, mas não no ambiente confinado, onde são criados em gaiolas metálicas com 0,11 m3 e têm acesso a alimento pastoso. Entre as opções oferecidas, os visões dedicaram o maior esforço físico para obter acesso ao banho. Essa informação é relevante, pois milhares de visões são criados, com excelentes índices produtivos, em confinamento sem acesso à água para banho (MASON et al., 2001).

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(SPRUIJT et al., 2001). Ou seja, o animal reorganiza o seu comportamento para obter recompensas ou evitar distress, de acordo com o seu estado interno (p. ex. fome, calor) e as condições ambientais externas a que é submetido. Então, o bem-estar dos animais pode ser avaliado procurando identificar o que os animais querem (obter ou evitar). A forma mais simples de considerar o que os animais querem/evitam do seu ambiente são os testes de preferência. Por exemplo, Machado Filho et al. (2004) testaram a preferência de vacas por dois tipos de bebedouros. Levando em conta o tempo gasto bebendo e o volume de água ingerido por vaca em cada bebedouro, chegaram à conclusão de que vacas leiteiras preferem um bebedouro maior do que outro menor. Ainda restava uma questão: se essa escolha era positiva para sua integridade biológica. Assim, os autores avaliaram o consumo de água por grupos de vacas, quando cada um dos dois bebedouros estava à disposição no pasto por 24 h. As vacas consumiram um volume de água significativamente maior quando o bebedouro maior, que tinha sido escolhido no teste de preferência, estava disponível. Concluíram, portanto, que, além de ser de interesse das vacas, é no interesse das mesmas que a água de beber seja oferecida em um bebedouro de maior volume. Ou seja, na prática, é importante saber o que interessa aos animais, pois isso dará a eles oportunidade de ter emoções positivas. Mas também é necessário perguntar se isso é do interesse dos mesmos, já que isso importa do ponto de vista de sua saúde e funcionamento biológico e sucesso produtivo. Num exemplo diferente, vacas geneticamente selecionadas para alta produção leiteira passaram mais tempo sob teto consumindo alimento controlado do que ao ar livre pastando (GONÇALVES, 2010). Entretanto, essas vacas podem ter escolhido o ambiente confinado para satisfazer as suas necessidades nutricionais, ao mesmo tempo que isso pode estar prejudicando a sua saúde – por exemplo por meio do aumento da incidência de laminite (RUSHEN et al., 2008). Levando em conta essas contradições e a necessidade de alcançar uma definição de bem-estar que satisfaça leigos e cientistas, e que permita a avaliação a campo das condições de bem-estar dos animais utilizados para a produção de alimento, Dawkins (2008) complementa

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Alguns estudos cognitivos têm feito uso de processos de aprendizagem para se fazer avaliações sobre os estados emocionais e de saúde mental de animais. Contudo, um dos problemas enfrentados por cientistas é que os animais não são capazes de expressar suas emoções por linguagem falada, sendo assim impossível fazermos avaliações diretas sobre o seu estado mental. Nos últimos anos, porém, o desempenho de animais em testes de viés cognitivo, juntamente com observações comportamentais e fisiológicas, tem sido usado como ferramenta para a avaliação do estado emocional de animais. Um outro recurso que vem sendo utilizado nesta área é o uso da psicologia comparada. Psicólogos e cientistas nem sempre concordam sobre o que deveria ser considerado psicologia comparada, mas num sentido amplo pode-se dizer que ela se refere ao estudo do comportamento e ‘atividade’ mental dos animais, visando a possíveis comparações entre diferentes espécies, ou até mesmo entre humanos e outros animais. Em linhas gerais, diz-se que se trata do uso do conhecimento acumulado pela psicologia humana fazendo analogia aos processos mentais, psicológicos e ou comportamentais que ocorrem em outros animais, ou ainda, e talvez mais exatamente, o conhecimento sobre determinada espécie sendo estendido ou aplicado a outra, procurando estabelecer princípios de generalidade. Ainda que estudos cognitivos sejam, por vezes, utilizados para se avaliar estados emocionais e afetivos em humanos e animais, os termos cognição, aprendizagem e emoção possuem significados bastante diferentes entre si, mas que podem ser utilizados com um sentido mais amplo ou mais específico, dependendo do caso. Aqui, entenderemos esses termos como sendo: Aprendizagem – é uma das mais importantes funções mentais de humanos, animais e sistemas cognitivos artificiais. É ainda o processo de aquisição de novos tipos de conhecimento, além de estar relacionado ao desenvolvimento de novas capacidades, habilidades, valores, entendimento e preferências. É um processo crucial, que auxilia na adaptação de humanos e animais ao ambiente em que vivem, além de estar acontecendo a todo o tempo. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

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Psicologia Comparada e Ciência Cognitiva

“Assim como a lei da gravidade, as ‘leis’ da aprendizagem estão sempre em ação” (Spreat & Spreat, 1982 apud Bouton, 2006). Animais podem apreender informações do meio mediante de processos nãoassociativos (habituação e sensibilização), aprendizagem associativa (condicionamento clássico e operante), observação, brincadeiras e imprinting. Cognição – é um conceito utilizado de diferentes maneiras, por diferentes áreas da pesquisa. Mas, em termos gerais, a literatura trata “cognição” como sendo o processo do pensamento pelo qual o indivíduo adquire, organiza, armazena e age diante dos estímulos e informações do ambiente (SHETTLEWORTH, 1998). Emoção – é um processo que parece ter evoluído a partir de mecanismos básicos de evitação de perigo/ punição, que visa à adaptação comportamental, fisiológica e neural. As emoções negativas – ou sofrimento – podem ser causadas pela presença de estímulos reforçadores negativos (como predadores) ou pela ausência de estímulos reforçadores positivos, num estado que poderia ser chamado de privação (DAWKINS, 2008). Em humanos incluem o sentimento – feeling – da emoção. As emoções experimentadas podem acarretar mudanças na cognição do indivíduo, alterando assim a maneira com que se processam as informações vindas do ambiente.

O Estudo dos Estados Mentais

Quando humanos experimentam mudanças no estado emocional ou alterações de humor, acontecem concomitantemente alterações na maneira como eles pensam (PAUL et al., 2005). Essas mudanças cognitivas ocorrem tanto por emoções breves e discretas ligadas a um objeto conhecido, como em relação a estados de humor e estados emocionais de longa duração, associados por vezes a desordens clínicas. Essas relações têm sido demonstradas por meio de testes envolvendo atenção, percepção, memória, expectativa e avaliação do risco. Tarefas essas que vêm sendo utilizadas como ferramentas para se avaliar emoção ou reações emocionais. Mendl & Paul (2004) sugerem que o entendimento das capacidades cognitivas dos animais é fundamental no processo de compreensão de seu bem-estar e estado emocional, e um ponto crítico para a ciência do bem-estar animal. Estudos recentes mostram que o estresse crônico causado por condições pobres do

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c o mp o r ta m e n t o a n i m a l ambiente pode resultar num estado de depressão em humanos e em outros animais, assim como causar uma mudança no estado cognitivo deles, quando eles não são capazes de mudar ou se adaptar ao ambiente ou ao meio em que vivem (HARDING et al., 2004; PAUL & MENDL, 2005; BATESON & MATHESON, 2007; CRYAN & HOLMES, 2005). Tais mudanças do estado cognitivo de humanos e de outros animais alteram a maneira com que o indivíduo avalia o ambiente ao seu redor (HARDING et al., 2004; PAUL & MENDL, 2005; BATESON & MATHESON, 2007). Assim, animais com estados de depressão e ansiedade têm maior probabilidade de mostrar respostas pessimistas quando confrontando uma situação nova (BATESON & MATHESON, 2007). Por outro lado, animais num estado de felicidade e contentamento geral tendem a superestimar a sua probabilidade de sucesso (MATHESON et al., 2008). Harding et al. (2004) estudaram os efeitos das condições de cativeiro sobre a cognição de ratos, fazendo uso de tarefas de viés cognitivo. Os ratos estudados foram primeiramente condicionados a responder a estímulos sonoros (com recompensa alimentar). Na fase subsequente, esses animais foram expostos a tons ambíguos2 com freqüências intermediárias entre o estímulo positivo3 e o tom negativo4. O comportamento dos ratos mantidos em condições pobres de cativeiro indicou uma redução na antecipação de eventos positivos, comparável a resultados encontrados em estudos com humanos diagnosticados com depressão e ansiedade. Em um estudo de metodologia semelhante, pássaros da espécie Sturnus vulgaris (o estorninho-comum) mantidos em gaiolas enriquecidas mostraram uma maior probabilidade de classificar estímulos intermediários como sendo um estímulo positivo – associado à recompensa alimentar – , indicando que aqueles animais eram mais “otimistas” quando outras medidas também indicavam um estado de bem-estar mais rico em comparação àqueles animais mantidos em condições pobres de cativeiro (BATESON & MATHESON, 2007). Ainda que alguns estudos tenham sido realizados com ratos e pássaros, nenhum trabalho é encontrado na literatura atual sobre a utilização de tarefas de viés cognitivo e observação comportamental na avaliação do estado mental de animais zootécnicos, que podem também ser afetados por estresse causado pelas práticas de manejo, condições de cativeiro ou alimentação, mistura social ou tamanho do grupo (CRONEY & NEWBERRY, 2006), entre outros. Uma outra ferramenta que começou a ser utilizada bastante recentemente para a avaliação do bem-estar de

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animais é o estudo dos comportamentos antecipatórios. Ou seja, o repertório comportamental apresentado pelo animal em antecipação a uma recompensa ou punição iminente. O estado de antecipação pode ser mantido por alguns minutos ou mais. Dado o nível de atenção e a ativação de redes que ligam as experiências passadas ao que está por acontecer, este é o momento perfeito em que alguma forma de consciência poderia emergir (Spruijt et al., 2001). O argumento principal para o uso desse tipo de metodologia é que o bem-estar dos animais é um equilíbrio entre experiências ou estados afetivos positivos e negativos, e que a observação comportamental durante a antecipação de uma recompensa num paradigma de condicionamento paviloviano é uma maneira simples e fácil para se avaliar o estado (sensibilidaderecompensa) desse sistema de equilíbrio. A avaliação dos comportamentos antecipatórios tem sido usado em ratos (e.g. Van der Harst et al., 2003), gatos (Van den Bos et al., 2003) e visões (Vinke et al., 2004; Hansen e Jeppesen, 2006). Da mesma maneira, a ferramenta etológica de avaliação dos comportamentos antecipatórios para a avaliação do bem-estar deve agora ser adaptada e utilizada também para os animais de fazenda como forma de avaliação dos sistemas criatórios produtivos e do estado geral de saúde mental e bem-estar desses animais.

Considerações Finais

Pesquisadores da área de bem-estar vêm buscando métodos científicos e objetivos para a avaliação dos estados emocionais e da saúde física e mental de animais. Por isso, não surpreende o fato de o número de

Dados dos Autores

Maria José Hötzel

Médica Veterinária, CRMV-SC nº 03791; PhD, Laboratório de Etologia Aplicada, Dept. de Zootecnia e Des. Rural – Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina, Brasil. Endereço para correspondência: Rod. Admar Gonzaga, 1346, Itacorubi; Florianópolis, SC, Brasil. CEP: 88034-001. E-mail: mjhotzel@cca.ufsc.br

Alisson Martendal

Engenheiro Agrônomo, Mestre, CREA-SC nº 092209-4.

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estudos visando à avaliação dos estados afetivos dos animais ter aumentado significativamente, principalmente na última década. Dentro dessa tendência, em que a pesquisa é direcionada a medir, cientificamente, sentimentos e sensações subjetivas experimentadas por animais, os estudos cognitivos têm se tornado uma importante ferramenta, cada vez mais sofisticada

para se fazer avaliações dos estados gerais de bemestar de animais. Acreditamos ser importante usarmos agora o conhecimento já adquirido com os estudos etológicos e cognitivos de animais de laboratório e outras espécies como base para a geração de metodologias de estudos para a avaliação do bem-estar de animais zootécnicos.

Notas 1 Motivação pode ser definida como um estado central que reorganiza a percepção e ação no indivíduo (DANTZER, 2004). 2 Tom com frequência intermediária entre o tom positivo e o tom negativo, geralmente não-recompensado. 3 Estímulo visual ou auditivo que antecede uma recompensa, geralmente alimentar. 4 Estímulo visual ou auditivo que geralmente antecede uma punição.

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H E PATO PATIAS e m B OVI N OS

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DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DE HEPATOPATIAS APLICADO A BOVINOS CRIADOS NO BRASIL O fígado é o centro da maioria dos processos metabólicos, e os prejuízos causados por mortes relacionadas com substâncias nocivas contidas na dieta são mais facilmente identificados do que as perdas decorrentes de ganho de peso reduzido e de produção de leite ineficiente, tornando-se quase impossível para a indústria pecuária atribuir um valor preciso para estas perdas econômicas decorrentes de afecções entero-hepáticas (SALAM ABDULLAH & RAJION, 1997).

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Os principais sinais clínicos causados pela insuficiência hepática, que ocorre somente em lesões difusas quando há comprometimento de 75% do parênquima, são icterícia, edema, hemorragias, fotossensibilização e encefalopatia hepática. Outros sinais incluem dor, constipação com fezes secas ocasionalmente recobertas por muco ou estrias de sangue e hipotonia ou atonia ruminal (SANTOS et al., 2008). Os testes de função hepática são indispensáveis na rotina clínica, embora apresentem limitações. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


Arquivo Pessoal

a

B

FIGURA 1. Bovinos de diversas raças. a) Bovino da raça brasileira Curraleiro adaptado à região dos Cerrados; b) Bovino da raça brasileira Pantaneiro adaptado à região do Pantanal, cujos perfis bioquímicos foram estabelecidos por Barini (2007) e Borges (2008), respectivamente.

Raramente definem o diagnóstico, mas sugerem o tipo de disfunção hepática. Devem ser analisados em conjunto, pois, isoladamente, resultados alterados podem ser encontrados em processos patológicos de outros sistemas não relacionados com doença hepática (MENDES & TORRES, 1995). Carlson (1993) sugere o estabelecimento de um painel da função hepática, que indique qualquer lesão ativa do parênquima hepático, envolvimento do sistema biliar e alteração da função hepática. Isso seria alcançado por meio da determinação da atividade sérica da sorbitol desidrogenase (SDH), aspartato aminotransferase (AST), gama glutamiltransferase (GGT) e fosfatase alcalina (ALP), quantificação da ureia, glicemia, fibrinogênio, proteína total, albumina, relação albumina:globulina, ácidos biliares e bilirrubina, além da urinálise. O soro é a amostra preferencial na realização de testes bioquímicos, mas o plasma também pode ser utilizado desde que a colheita do sangue seja realizada com o anticoagulante adequado para cada tipo de análise (MOHRI & REZAPOOR, 2009). O tempo decorrido entre a colheita e o processamento da amostra assim como a temperatura de estocagem durante o transporte podem influenciar negativamente no resultado (EHSANI et al., 2008). Na interpretação dos resultados laboratoriais, o ideal é que o grupo de referência seja uma amostra aleatória dos indivíduos da população original. A determinação de valores próprios permite trabalhar com faixas de variação menores que as citadas pela literatura. A sensibilidade é a capacidade de um teste laboratorial mostrar a presença de uma determinada doença, e a especificidade representa sua capacidade de descartar a presença de uma doença. Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

Tanto a sensibilidade como a especificidade são características desejáveis. Porém em determinadas situações clínicas, uma pode ser mais desejável que a outra (SHULTZ, 1996).

TESTES DE AVALIAÇÃO DA MORFOLOGIA E FUNÇÃO HEPÁTICA Testes de avaliação da capacidade de excreção hepática Bilirrubina A bilirrubina plasmática deriva, em sua maior parte, da degradação dos eritrócitos pelo sistema mononuclear fagocitário, especialmente no baço (Figura 2). A hemoglobina liberada dos eritrócitos é convertida em globina e grupo heme. Após a extração da molécula de ferro, que fica armazenada ou é reutilizada, o grupo heme é convertido em bilirrubina. A bilirrubina assim formada é chamada de bilirrubina não-conjugada, sendo transportada da corrente circulatória ao fígado, ligada à albumina. Também é conhecida como bilirrubina livre ou indireta. Esta bilirrubina não é solúvel em água e, portanto, não é filtrada pelos glomérulos renais, não sendo excretada pela urina (CHAMPE & HARVEY, 1996). No fígado, a bilirrubina não-conjugada é desligada da albumina e conjugada com o ácido glicurônico para formar a bilirrubina conjugada, que é solúvel em água e secretada ativamente para os canalículos biliares e posteriormente excretada pela bile. No plasma, são observadas pequenas quantidades de bilirrubina conjugada que podem ser excretadas na urina, sendo que a maior parte da bilirrubina plasmática é do tipo não-conjugada (SHERLOCK & DOOLEY, 1997).

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H E PATO PATIAS e m B OVI N OS Após a excreção da bilirrubina conjugada na bile, a mesma é hidrolisada e reduzida por bactérias do intestino, originando o urobilinogênio. Uma parte do urobilinogênio é reabsorvida pelo intestino e transportada pela corrente circulatória até o fígado e os rins. Nos rins o urobilinogênio será excretado na urina, e no fígado será reexcretado pelas vias biliares. O restante do urobilinogênio que permaneceu no intestino será convertido em estercobilina, responsável pela cor das fezes (MENDES & TORRES, 1995). Em bovinos saudáveis, a concentração de bilirrubina total é baixa quando comparada com a das outras espécies, e a magnitude do aumento tende a ser relativamente pequena e inconsistente, mesmo em hepatopatias graves (RUSSELL & ROUSSEL, 2007). O aumento dos níveis plasmáticos de bilirrubina pode ser devido à elevação da bilirrubina não conjugada que ocorre na hemólise aguda grave, na absorção de grandes hematomas, na hemorragia interna massiva ou na transfusão de eritrócitos armazenados inade-

quadamente. O aumento da bilirrubina conjugada ocorre na perda da funcionalidade hepatocelular devido à doença infecciosa, dano tóxico ou obstrução do trato biliar. O aumento simultâneo da bilirrubina não-conjugada e da conjugada ocorre na perda da funcionalidade hepatocelular e obstrução persistente do fluxo biliar (TENNANT & CENTER, 2008). A elevação da bilirrubina não conjugada sem indicação de produção excessiva pode estar relacionada à diminuição da captação hepática da bilirrubina, como o que é visto no jejum (McSHERRY et al., 1984). Em bovinos a anorexia pode levar a elevações na bilirrubina não conjugada, de até 1,5 a 2mg/dl. Nos casos de anemias hemolíticas os valores podem chegar a 10mg/dl (CARLSON, 1993). A diminuição das concentrações plasmáticas de bilirrubina é observada em doenças crônicas, principalmente as que cursam com redução da formação dos eritrócitos, causando anemia. Nesse caso, devido ao menor número de eritrócitos, o sistema mononu-

FIGURA 2. Formação, excreção e circulação entero-hepática normal da bilirrubina e outros pigmentos biliares. Fonte: adaptado de TENNANT & CENTER, 2008.

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clear fagocitário reduz a fagocitose dos eritrócitos, o que diminui os níveis de bilirrubina no plasma. Portanto, a hipobilirrubinemia é devido a anemias hipoproliferativas atribuídas a uma infecção ou inflamação crônica, neoplasia maligna ou a enfermidade renal terminal (TENNANT & CENTER, 2008). Os valores de normalidade de bilirrubinas para bovinos criados no Brasil estão expressos no Quadro 1. A amostra para realização dos testes de bilirrubina pode ser soro ou plasma (heparina/ EDTA), mas preferencialmente utiliza-se soro. O analito é estável por quatro dias na temperatura de 2°C a 8°C e três meses a -20°C (KANEKO et al., 2008). A amostra desde a colheita até o armazenamento deve ser protegida da luz, recomenda-se processamento imediato após a obtenção do soro sanguíneo (DORETTO, 1996).

obstrução do ducto biliar, sendo que a quantidade de bilirrubina na urina está diretamente relacionada com o grau de obstrução ou hemólise intravascular aguda grave (BUSH, 2004). O aumento de urobilinogênio na urina pode estar relacionado à lesão hepática por diminuição da absorção de urobilinogênio circulante; por hemólise intravascular excessiva, que aumenta a quantidade de bilirrubina conjugada e, consequentemente, aumenta também o urobilinogênio absorvido nos intestinos e excretado na urina; e por crescimento bacteriano exacerbado, que aumenta a degradação da bilirrubina conjugada em urobilinogênio (EVANS, 2009). A diminuição de urobilinogênio urinário pode ter diversas etiologias: diminuição de destruição dos eritrócitos, que reduz a produção de bilirrubina;

QUADRO 1. Valores de normalidade de bilirrubina (mg/dl) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Bilirrubina conjugada

Bilirrubina nãoconjugada

Bilirrubina total

0,02 - 0,20

0,10 - 0,44

0,23 - 0,55

-----

-----

0,27 - 0,55

0,07 - 0,27

0,62 - 1,12

0,78 - 1,30

BRUM (2006)

0,07 - 0,19

0,10 - 0,68

0,20 - 0,49

MOREIRA et al. (2009)

0,03 - 0,47

0,14 - 0,91

0,31 - 1,28

Autor

Raça

BARROS FILHO (1995) FAGLIARI et al. (1998) Nelore

FIORAVANTI (1999)

BARINI (2007)

Curraleiro

0,10 - 0,26

0,20 - 0,42

0,35 - 0,63

BORGES (2008)

Pantaneiro

0,04 - 0,18

0,05 - 0,27

0,15 - 0,39

SOUZA (1997)

Gir

0,03 - 0,13

0,31 - 0,33

0,39 - 0,41

SOUZA (1997)

Girolando

0,07 - 0,09

0,28 - 0,30

0,36 - 0,38

0,06 - 0,08

0,27 - 0,29

0,34 - 0,36

0,05 - 0,15

0,30 - 1,18

0,35 - 1,36

0,00 - 0,06

0,03 - 0,41

0,06 - 0,44

0,00 - 0,01

0,07 - 0,73

0,07 - 0,73

SOUZA (1997) BENESI et al. (2003)

Holandês

SOUZA et al. (2004) SOUZA et al. (2004)

Jersey

A urinálise pode ser considerada um teste auxiliar no diagnóstico das hepatopatias, ao avaliar-se a quantidade de bilirrubina conjugada e urobilinogênio presentes na urina (COLES, 1984). As avaliações químicas da urina são facilmente executáveis utilizando fitas reagentes para urinálise (EVANS, 2009). A bilirrubinúria (aumento de bilirrubina conjugada na urina) pode ser encontrada em casos de Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

obstrução de ducto biliar; e diminuição da produção e absorção de urobilinogênio, em casos de redução da microbiota intestinal por uso de antibióticos e diarréia (EVANS, 2009). A interpretação dos níveis séricos e urinários de bilirrubina deve ser acompanhada da interpretação do hemograma do animal. No hemograma pode ser detectada anemia (de origem hemolítica) e a presen-

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H E PATO PATIAS e m B OVI N OS ça de hemoparasitas, que justificariam um aumento de bilirrubina não-conjugada e, consequentemente, a elevação da bilirrubina total, descartando a possibilidade desse aumento devido à hepatopatia ou colestase (GARCIA-NAVARRO, 2005). A bilirrubinemia significativa e a icterícia em ruminantes são quase sempre o resultado de hemólise e, portanto, são essencialmente referentes à bilirrubina não conjugada (RUSSELL & ROUSSEL, 2007).

Ácidos biliares Os ácidos biliares são ácidos orgânicos derivados do colesterol sintetizados exclusivamente no fígado, numa série de etapas sequenciais que envolvem numerosos intermediários e diversas organelas hepatocelulares. Após a síntese, os ácidos biliares são conjugados no fígado, tornando-se sais biliares. O fígado normal conjuga quase todos os ácidos biliares, antes da sua secreção na bile. A conjugação resulta na fixação de um segundo substituinte orgânico, mais frequentemente a glicina ou taurina (CENTER, 1997). Os ácidos biliares são classificados em dois tipos: primários e secundários. Os primários são formados nos hepatócitos e excretados na bile, são esses o ácido cólico e o quenodeoxicólico. Os secundários são formados a partir dos ácidos biliares primários no intestino por ação das bactérias, são esses o ácido desoxicólico e o litocólico, formados a partir do ácido cólico e do ácido quenodeoxicólico, respectivamente (NELSON & COX, 2006).

Os sais biliares secretados no intestino são eficientemente reabsorvidos e reutilizados (Figura 3). A mistura de ácidos e sais biliares primários e secundários é absorvida principalmente no íleo por transporte ativo. São novamente levados ao fígado ligados à albumina, onde serão convertidos em ácidos biliares primários, conjugados com taurina ou glicina e novamente secretados na bile (CHAMPE & HARVEY, 1996). Na colestase os ácidos biliares se acumulam nos hepatócitos e devido à sua toxicidade podem levar à morte celular. Durante a insuficiência hepática, a conjugação dos ácidos biliares é comprometida, diminuindo suas concentrações na bile e aumentando seus níveis séricos e urinários (TENNANT & CENTER, 2008). A avaliação dos ácidos biliares torna-se importante em animais que apresentam elevações das atividades séricas das enzimas hepáticas, mas não apresentam hiperbilirrubinemia, neste caso os ácidos biliares fornecem informações quanto à função de transporte aniônico dos hepatócitos (KERR, 2002). Especialmente para bovinos, a interpretação clínica dos resultados laboratoriais pode ser uma tarefa difícil, uma vez que os valores encontrados na literatura são muito variados. Rudolph (1990) cita índices de 37,4 ± 25,5; West (1991) encontrou 19,6 ± 1,74mmol/L; Craig et al. (1992) detectaram em vacas leiteiras valores de 15 a 165mmol/L (n=34) e em vacas de corte, 6 a 152mmol/L (n=37). Adicionalmente, Pearson et al. (1992) descreveram que em

FIGURA 3. Conjugação e circulação entero-hepática dos sais biliares. Fonte: adaptado de TENNANT & CENTER (2008).

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Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


vacas as variações ao longo do dia são muito grandes, superando 60mmol/L. No Brasil a utilização da determinação dos ácidos biliares é ainda mais limitada, pois não existem reagentes comerciais disponíveis no mercado nacional e os importados são muito caros. Fioravanti (1999), em um estudo com bovinos da raça Nelore com alterações hepáticas, observou que esse teste apresentou baixa sensibilidade (11%) e alta especificidade (89%). Para West (1997), a alta especificidade hepática é a principal característica do teste. Segundo Fioravanti (1999), a média e o desvio padrão da quantificação de ácidos biliares para bovinos da raça Nelore criados no Brasil, considerando diferentes graus de alteração hepática: grupo I (sem sinais clínicos e histopatológicos de lesão hepática), grupo II (sem sinais clínicos e com lesões hepáticas histopatológicas) e grupo III (com sinais clínicos e histopatológicos de lesões hepáticas), foram, respectivamente, 15,24 μmol/L (±10,51), 15,07 μmol/L (±7,48) e 26,34 μmol/L (±51,35)

Testes que detectam lesão do hepatócito e de células dos ductos biliares

As enzimas são proteínas altamente especializadas e específicas, catalisadoras de reações em sistemas biológicos. A avaliação é importante principalmente nos distúrbios genéticos hereditários, nos quais ocorre a deficiência ou mesmo a ausência total de uma ou mais enzimas. Em outras condições, a atividade excessiva de uma enzima pode ser a causa da doença. As medições das atividades das enzimas no soro ou plasma sanguíneo, eritrócitos ou tecidos são importantes no diagnóstico de diversas enfermidades (NELSON & COX, 2006). As principais enzimas descritas nas provas de função hepática são: alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina (ALP) e gama glutamiltransferase (GGT) (TENNANT & CENTER, 2008). Para Benjamin (1979) e Pearson & Craig (1980), a glutamato desidrogenase (GLDH) é a enzima mais específica para detectar doença hepática em ruminantes. Segundo Fioravanti (1999), em casos de hepatopatias subclínicas (ausência de sinais clínicos acompanhados de alterações histopatológicas), a AST, GGT e GLDH mostraram respectivamente 26%, 25% e 25% de sensibilidade; 71%, 82% e 82% de especificidade, o que pode ser traduzido como baixa sensibilidade e alta especificidade. Atribuiu-se a baixa sensibilidade do teste ao fato de as lesões, do ponto de vista morfoRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

lógico, terem sido brandas. A especificidade da GGT e GLDH é bem estabelecida (BENJAMIN, 1979; PEARSON & CRAIG, 1980; PEARSON, 1993). A AST apresentou especificidade menor, quando comparada às outras enzimas, o que é esperado, uma vez que essa enzima está presente em vários tecidos (MULLEN, 1976; COLES, 1984).

Aminotransferases As enzimas aspartato aminotrasnsferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT) têm função fisiológica no ciclo da ureia e coadjuvante no ciclo do ácido cítrico (ciclo de Krebs). Participam do metabolismo dos aminoácidos provenientes da dieta ou tecidos corporais, por meio da remoção de nitrogênio (grupo alfaamino) desses aminoácidos, direcionando-os para a formação de glutamato (CHAMPE & HARVEY, 1996). A atividade enzimática da ALT é alta no fígado e em outros tecidos de cães, gatos, roedores e seres humanos. A atividade hepática da ALT é baixa em equinos, bovinos, ovinos e suínos ( TENNANT & CENTER, 2008). A AST é encontrada no citoplasma e nas mitocôndrias de muitas células, primariamente no fígado, coração, musculoesqueléticos, rins, pâncreas e hemácias. Essa enzima é liberada na corrente circulatória em grandes quantidades quando há dano à membrana do hepatócito, resultando em aumento da permeabilidade (KERR, 2002). Ocorrem aumentos significativos ou moderados nos casos de necrose hepatocelular, fibrose, neoplasia e amiloidose. As degenerações gordurosas e a fasciolose resultam em valores séricos um pouco acima do normal (YASUDA et al., 1988). Em todas as espécies domésticas, a AST pode estar aumentada nas doenças musculoesqueléticas, incluindo os traumas (como os provocados por injeções intramusculares). A diferenciação do aumento da atividade da AST de origem musculoesquelética ou hepática é possível com a mensuração da atividade sérica da creatina quinase (CK). Nas doenças musculares, a AST e a CK estão elevadas. Na doença hepática, somente a elevação da AST é observada. O aumento simultâneo de AST e sorbitol desidrogenase indica lesão hepatocelular aguda. Um aumento marcante de AST acompanhado de um aumento leve a moderado da sorbitol desidrogenase sugere lesão hepática crônica ou recuperação de uma lesão aguda (RUSSELL & ROUSSEL, 2007). A avaliação da AST é indicada como diagnóstico diferencial de lesão hepatocelular e colestase na doença hepática. Atividade muito elevada da AST su-

65


H E PATO PATIAS e m B OVI N OS gere hepatite aguda, mas aumentos discretos podem ser descritos em vários tipos de doenças hepáticas, incluindo doença hepatocelular crônica, cirrose, hepatopatia parasitária e neoplasias primárias ou metástase (TENNANT, 1997). Os valores de normalidade de aspartato aminotransferase para bovinos criados no Brasil estão expressos no Quadro 2.

fígado e nos rins, e, em menor extensão, no músculo cardíaco e em outros tecidos. É considerada uma enzima hepato-específica e, para ruminantes, é um importante indicador de necrose hepática ou obstrução do ducto biliar. Quanto maior a sua atividade plasmática, maior o dano hepático. Durante processos inflamatórios, como a hepatite ou a cirrose, essa enzima, comparada com a ALT, tem um pequeno aumento na

QUADRO 2. Valores de normalidade de aspartato aminotransferase (U/L) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

BARROS FILHO (1995)

27,20 - 44,00

FAGLIARI et al. (1998)

34,22 - 63,18

FIORAVANTI (1999) AMORIM et al. (2003)

Nelore

53,93 - 83,61 75,40 - 98,60

BRUM (2006)

41,14 - 94,29

MOREIRA et al. (2009)

34,50 - 98,50

BARINI (2007)

Curraleiro

37,24 - 70,20

BORGES (2008)

Pantaneiro

61,71 - 91,53

SOUZA (1997)

Gir

34,31 - 36,29

SOUZA (1997)

Girolando

37,10 - 38,90

SOUZA (1997) BENESI et al. (2003) SOUZA et al. (2004)

35,04 - 37,56 Holandês

CAMPOS et al. (2005) GREGORY (1995) SOUZA et al. (2004) A AST possui meia-vida longa, à temperatura ambiente, e mantém 90% de sua atividade sérica enzimática durante quatro dias. Sob refrigeração (0°C a 4°C), pode ser armazenada durante oito dias mantendo 87% de atividade. Sob congelamento, durante dois dias permanece com 90% de sua atividade enzimática (KRAMER & HOFFMANN, 1997). Doretto (1996) considera essa enzima estável à temperatura ambiente, sob refrigeração ou congelamento por somente cinco dias.

Glutamato desidrogenase A glutamato desidrogenase (GLDH) é uma enzima mitocondrial, encontrada principalmente no

66

AST

19,00 (mediana) 24,15 - 45,37 83,75

Jersey

22,92 - 44,90 31,40 - 67,14

sua atividade plasmática, devido a sua localização mitocondrial. Podem ser observados grandes aumentos na sua atividade em doenças hepáticas causadas por agentes hepatotóxicos (TENNANT & CENTER, 2008). No Brasil a determinação da GLDH não é utilizada na rotina, pois não existem reagentes comerciais disponíveis no mercado nacional, nem licença para importação. Fioravanti (1999), em um estudo com bovinos da raça Nelore com alterações hepáticas, observou que esse teste não foi eficiente no diagnóstico. A atividade sérica da GLDH dos bovinos saudáveis (n=21) esteve entre 5,23 e 21,71 U/L (13,47 ± 8,24); no grupo com doença subclínica (n=21), somente dois animais apresentaram valores mais elevados e a méRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


QUADRO 3. Valores de normalidade de ALP (U/L) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

FAGLIARI et al. (1998) FIORAVANTI (1999)

ALP 90,14 - 100,88

Nelore

MORAIS et al. (2000)

178,30 - 448,20 50,67 - 59,25

BARINI (2007)

Curraleiro

3,84 - 74,52

BORGES (2008)

Pantaneiro

45,60 - 127,96

dia foi de 18,33 U/L (± 10,65); no grupo com doença clínica (n=21), três bovinos mostraram valores elevados e a média foi de 15,83 U/L (± 12,36). O valor de referência da enzima glutamato desidrogenase para bovinos, descrito por Kaneko et al. (2008), é de 31U/l. A estabilidade da glutamato desidrogenase na amostra à temperatura ambiente é de um dia, dois dias a 4°C e um dia a -25°C (KANEKO et al., 2008).

Fosfatase alcalina As funções fisiológicas da fosfatase alcalina (ALP) não estão totalmente compreendidas. A análise do tecido hepático revelou que a maior parte dessa enzima se encontra na superfície dos canalículos biliares, participando da absorção ativa e secreção de substâncias, sugerindo uma função no transporte de membrana (CENTER, 1997). Embora muitos tecidos tenham alguma atividade de ALP, as células do fígado, ossos, rins, mucosa intestinal e placenta têm a maior atividade dessa enzima. No entanto, a concentração de ALP no tecido não reflete proporcionalmente sua atividade sérica. A ALP sérica origina-se principalmente no fígado e nos ossos (TENNANT & CENTER, 2008). Elevações séricas de ALP são observadas normalmente em animais em crescimento ou em animais adultos com aumento da atividade osteoblástica. Atividade sérica da ALP pode estar aumentada em doenças hepáticas agudas e crônicas, sendo que elevações acentuadas indicam colestase (CENTER, 2009). As isoenzimas da fosfatase alcalina óssea e hepática podem ser diferenciadas por mobilidade eletroforética (WARNOCK, 1968), mas esta técnica não é utilizada rotineiramente. Alternativamente, a origem e o significado das elevações da ALP podem ser determinados pelo aspecto clínico do paciente e medindo outras enzimas e substâncias séricas que são específicas para doenças das vias biliares, entre elas gama glutamiltransferase, 5-nucleotidase e bilirrubina (SHERLOCK & DOOLEY, 1997). Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

Ao contrário da AST e ALT, as elevações séricas da ALP não são simplesmente devido ao vazamento de enzimas das células danificadas para a corrente circulatória. Ocorrem pela diminuição da excreção dessa enzima na bile, devido à obstrução do fluxo biliar e, consequentemente, acúmulo dessa enzima na grande circulação, ou durante processos regenerativos do tecido hepático, por aumento da síntese (CENTER, 1997). A avaliação da atividade sérica da ALP em bovinos e ovinos tem pouco valor diagnóstico, pois nessas espécies ocorrem oscilações fisiológicas (KERR, 2002). Adicionalmente, em bovinos, as variações individuais são muito grandes (MULLEN, 1976). Os valores de normalidade de ALP para os bovinos criados no Brasil estão expressos no Quadro 3. A atividade sérica da fosfatase alcalina é estável na amostra à temperatura ambiente por dois a três dias, porém pode haver um aumento dos valores quando comparados com amostra imediatamente colhida. Ao resfriamento a 4°C, sua estabilidade é mantida por dois a três dias, e ao congelamento a -25°C, por um mês (KANEKO et al., 2008). Para Doretto (1996), essa enzima é estável à temperatura ambiente por cinco dias, sob refrigeração por 30 dias e sob congelamento por 90 dias.

Gama glutamiltransferase A gama glutamiltrasnsferase (GGT ) é uma enzima ligada à membrana, encontrada principalmente em células com altas taxas de secreção ou absorção. Está presente no fígado, rins, pâncreas e intestino. No fígado está presente na membrana dos canalículos biliares e hepatócitos da zona I. Sua atividade fisiológica parece relacionar-se com a proteção contra o estresse oxidativo (TENNANT & CENTER, 2008). A GGT é considerada um marcador sérico para as doenças do sistema hepatobiliar associadas com colestase (CENTER, 2009; TORNQUIST, 2009). É relativamente elevada no fígado

67


H E PATO PATIAS e m B OVI N OS de bovinos, equinos, ovinos e caprinos, mas com baixa expressão em cães e gatos (TENNANT & CENTER, 2008). Para Pearson (1993), a GGT apresenta uma grande especificidade e quase que invariavelmente encontra-se elevada nos casos de moléstia hepática crônica. Bovinos e ovinos com idade neonatal apresentam elevada atividade sérica da GGT após ingestão do colostro. Nessas espécies a atividade sérica da GGT está diretamente relacionada com a quantidade de imunoglobulinas, podendo servir como marcador de transferência de imunidade passiva (TENNANT & CENTER, 2008). Os valores de normalidade de gama para bovinos criados no Brasil estão expressos no Quadro 4. A atividade sérica da gama glutamiltransferase é estável na amostra à temperatura ambiente por dois dias. Ao resfriamento a 4°C, sua estabilidade é mantida por uma semana, e ao congelamento a -25°C, por um mês (KANEKO et al., 2008). Entretanto, Doretto (1996) não recomenda nenhum tido de armazenamento, devendo essa enzima ser processada imediatamente após a obtenção do soro sanguíneo.

Testes que avaliam a capacidade de biossíntese hepática Proteínas As proteínas entram no organismo por meio dos alimentos e sofrem hidrólises no abomaso e intestino delgado dos ruminantes, resultando os aminoácidos. Os aminoácidos provenientes da degradação proteica são rapidamente absorvidos pelo intestino delgado e, geralmente, não são excretados pelas fezes (NAOUM, 1999). Após a absorção são transportados pela corrente circulatória até o fígado, sistema mononuclear fagocitário e para todas as células do organismo onde ocorre síntese proteica. Das proteínas circulantes no sangue, a albumina, as alfa e betaglobulinas, a protrombina e o fibrinogênio são formados no fígado. As gamaglobulinas não são exclusivamente de origem hepática, mas são sintetizadas em todo tecido mononuclear fagocitário do organismo. Uma vez sintetizadas, as proteínas plasmáticas são distribuídas pela corrente sanguínea (NAOUM, 1999).

QUADRO 4. Valores de normalidade da GGT (U/L) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

GGT

BARROS FILHO (1995)

28,50

FAGLIARI et al. (1998) FIORAVANTI (1999) AMORIM et al. (2003)

10,98 - 23,06 13,36 - 20,34

Nelore

5,70 - 19,50

BRUM (2006)

10,50 - 21,72

MOREIRA et al. (2009)

16,65 - 43,51

BARINI (2007)

Curraleiro

12,41 - 31,15

BORGES (2008)

Pantaneiro

12,76 - 20,46

SOUZA (1997)

Gir

11,25 - 12,35

SOUZA (1997)

Girolando

12,11 - 12,89

SOUZA (1997) BENESI et al. (2003) SOUZA et al. (2004)

10,81 - 11,59 Holandês

CAMPOS et al. (2005) GREGORY (1995) SOUZA et al. (2004)

68

24,00 (mediana) 7,18 - 52,34 19,44

Jersey

0,49 - 25,93 6,71 - 52,57 Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


QUADRO 5. Valores de normalidade de proteína total sérica (g/dl) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

PT

BARROS FILHO (1995)

6,13 - 7,45

FAGLIARI et al. (1998)

6,49 - 7,79

FIORAVANTI (1999)

Nelore

6,56 - 7,76

SANDRINI (2006)

6,68 - 8,24

AMORIM et al. (2007)

6,43 - 7,80

BARINI (2007)

Curraleiro

6,82 - 8,94

BORGES (2008)

Pantaneiro

7,02 - 11,48

SOUZA (1997)

Gir

6,94 - 7,10

SOUZA (1997)

Girolando

7,31 - 7,45

SOUZA (1997) SOUZA et al. (2004)

7,48 - 7,66 Holandês

CAMPOS et al. (2005) GREGORY (1995) SOUZA et al. (2004) Os valores de normalidade de proteína total sérica, avaliados por método de reação com biureto, para bovinos criados no Brasil estão expressos no Quadro 5. As atividades séricas das proteínas totais permanecem estáveis sob temperatura ambiente durante cinco dias, sob refrigeração por 30 dias e congeladas por 15 dias (DORETTO, 1996).

Albumina A albumina é a principal proteína plasmática sintetizada no fígado, representa de 50% a 65% do total de proteínas séricas. Contribui com 80% da osmolaridade do plasma sanguíneo, constituindo também uma importante reserva proteica, bem como transportador de ácidos graxos livres, aminoácidos, metais e bilirrubina. A concentração de albumina pode ser afetada por distúrbios hepáticos, glomerulopatia, disponibilidade de aminoácidos e perdas durante doenças, principalmente parasitismo gastrointestinal (CONTRERAS, 2000; GONZALEZ, 2000). A meia-vida da albumina em bovinos é de 16,5 dias e em ovinos é de 14, 28 dias. Essa taxa de destruição está em equilíbrio com a taxa de síntese pelos hepatócitos (ECKERSALL, 2008). Pode ocorrer aumento na síntese de albumina, que também será acompaRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

5,85 - 7,79 9,26

Jersey

6,02 - 7,42 5,47 - 7,27

nhado pelo aumento de sua taxa de destruição, mantendo o pool sempre estável, por esse motivo a hiperalbuminemia não é observada (SHERLOCK & DOOLEY, 1997). A única causa de hiperalbuminemia é a desidratação (RUSSELL & ROUSSEL, 2007). A hipoalbuminemia tem como causas defeitos na produção de albumina, associados à lesão hepatocelular grave, ou resultante de qualquer perda de albumina, seja na glomerulopatia ou na inflamação intestinal grave. Como a albumina possui taxa de degradação lenta, estará diminuída principalmente na doença hepática crônica em que há uma perda significativa de hepatócitos (TENNANT & CENTER, 2008). Bertoni & Galimberti (1979) observaram baixos valores de albumina sérica na fasciolose e na lesão do parênquima hepático. Barnouin et al. (1981) compararam bovinos normais, com colangite e com lesão hepática severa e encontraram diferença significativa nos valores de albumina entre os três grupos, sendo mais baixos no terceiro. Segundo Mendes & Torres (1995), a hipoalbuminemia pode reduzir a pressão coloidosmótica intravascular, que conduz ao surgimento de edema e ascite . A albumina é uma proteína de fase aguda negativa, consequentemente uma leve hipoproteinemia é frequentemente encontrada em doenças inflama-

69


H E PATO PATIAS e m B OVI N OS tórias. A síntese de albumina é também diminuída em resposta à hiperglobulinemia (HENDRIX, 2002). Os valores de referência de albumina para bovinos criados no Brasil, analisados pelo método de reação com verde de bromocresol, estão expressos no Quadro 6. A atividade sérica da albumina é estável à temperatura ambiente por 30 dias, sob refrigeração por 90 dias e sob congelamento por 15 dias (DORETTO, 1996).

Ureia O produto final do metabolismo de proteínas e aminoácidos é a ureia. A ureia é a principal forma de eliminação dos grupos amino derivados dos aminoácidos e responde por mais de 90% dos compostos nitrogenados da urina. Um nitrogênio da molécula de ureia é suprido pela amônia livre (NH3) e o outro nitrogênio pelo aspartato. O glutamato é o precursor imediato da amônia e do nitrogênio do aspartato. O carbono e o oxigênio da ureia são derivados do CO2. A ureia é produzida pelo fígado e então transportada na corrente circulatória até os rins, para excreção na urina (CHAMPE & HARVEY, 1996). No caso de insuficiência hepática, a amônia não é adequadamente detoxificada e penetra na circulação sistêmica. Embora a amônia seja altamente neurotóxica, o mecanismo exato de seu papel na encefalopa-

tia hepática permanece controverso. A ureia é sintetizada no fígado como o principal produto metabólico final da detoxificação hepática da amônia. A diminuição dos níveis séricos de ureia pode refletir a baixa capacidade de síntese desse metabólico. Entretanto, como teste para insuficiência hepática, tem baixa sensibilidade e baixa especificidade (CENTER, 1997). A ureia é um produto de excreção do metabolismo do nitrogênio e a sua determinação em amostras de soro sanguíneo junto com a albumina revelam informações sobre a atividade metabólica proteica do animal. A concentração sanguínea de ureia está em relação direta com o aporte proteico da dieta, bem como da relação energia/proteína. Valores baixos de ureia no sangue dos animais são encontrados em rebanhos que utilizam dietas deficitárias em proteínas e valores altos são encontrados naqueles que utilizam dietas com excessivo aporte proteico ou com um deficit de energia (WITTWER, 2000). É também observada na deficiência de água nos rebanhos (CONTRERAS, 2000). A ureia sanguínea demonstra o estado proteico do animal em curto prazo, enquanto que a albumina o demonstra em longo prazo. Dietas que contêm maior quantidade de proteínas fermentáveis estão associadas com concentrações maiores de amônia no rúmen do que aquelas com proteínas de degradação mais

QUADRO 6. Valores de referência de albumina (g/dl) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

Albumina

BARROS FILHO (1995) FAGLIARI et al. (1998) FIORAVANTI (1999)

2,60 - 3,62 3,08 - 3,58

Nelore

2,80 - 3,30

SANDRINI (2006)

2,46 - 3,23

BARINI (2007)

Curraleiro

2,42 - 3,26

BORGES (2008)

Pantaneiro

2,27 - 3,87

SOUZA (1997)

Gir

3,20 - 3,30

SOUZA (1997)

Girolando

3,24 - 3,30

SOUZA (1997) SOUZA et al. (2004)

3,10 - 3,16 Holandês

CAMPOS et al. (2005) GREGORY (1995) SOUZA et al. (2004)

70

2,83 - 3,33 3,80

Jersey

3,07 - 3,99 2,96 - 3,52

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010


QUADRO 7. Valores de referência de ureia (mg/dl) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

FAGLIARI et al. (1998) FIORAVANTI (1999) SANDRINI (2006)

Uréia 12,43 - 23,91

Nelore

AMORIM et al. (2007)

9,60 - 32,70 26,70 - 31,17 22,59 - 48,89

BARINI (2007)

Curraleiro

16,60 - 39,56

BORGES (2008)

Pantaneiro

13,44 - 43,00

Jersey

17,41 - 39,29

SOUZA (1997)

Gir

27,32 - 30,48

SOUZA (1997)

Girolando

23,62 - 25,78

SOUZA (1997)

Holandês

29,61 - 31,39

GREGORY (1995)

lenta. Esses animais apresentam teores elevados de ureia no sangue (BOUDA et al., 2000; GONZALEZ, 2000). Os valores de referência de ureia para diversas raças bovinas no Brasil estão expressos no Quadro 7. A atividade sérica da ureia é estável à temperatura ambiente por cinco dias, sob refrigeração por 30 e sob congelamento por 90 dias (DORETTO, 1996).

Colesterol O colesterol possui importante função metabólica por ser constituinte das membranas celulares, é precursor de ácidos biliares e dos hormônios sintetizados em tecidos esteroidogênicos (gônadas, adrenais, placenta), sobretudo no corpo lúteo e testículos (Borges et al., 2001). Na lesão hepática aguda, o plasma pode conter valores altos de triglicerídeos, baixos de colesterol e padrão anormal de lipoproteínas. A colestase está es-

pecificamente associada a marcantes alterações na elevação e estrutura das lipoproteínas. O surgimento das formas alteradas geralmente é seguido do aumento dos níveis séricos de colesterol e fosfolipídeos (CORNELIUS, 1987). A elevação do colesterol é encontrada na lipidose hepática, particularmente na diabetes de origem metabólica. Grandes elevações são observadas em todas as formas de colestase. O decréscimo na síntese de colesterol é descrito em graves lesões do parênquima hepático, especialmente na cirrose (KUNTZ & KUNTZ, 2002). A concentração de colesterol nos herbívoros é normalmente muito baixa e um aumento não tem associação específica com qualquer quadro. Elevações no colesterol sérico são observadas na obstrução biliar extrahepática (SANTOS et al., 2008). Segundo Fioravanti (1999), na doença hepática subclínica dos bovinos

QUADRO 8. Valores de referência de colesterol total (mg/dl) para diversas raças bovinas criadas no Brasil, descritos por diversos autores. Autor

Raça

FIORAVANTI (1999) SANDRINI (2006)

Colesterol total 92,54 -144,42

Nelore

AMORIM et al. (2007)

74,00 - 97,80 63,25 - 155,08

BARINI (2007)

Curraleiro

73,50 - 123,14

BORGES (2008)

Pantaneiro

83,68 - 192,08

BORGES et al. (2001)

Mestiço

84,42 - 174,15

CAMPOS et al. (2005)

Holandês

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

155,46

71


H E PATO PATIAS e m B OVI N OS esse teste possui baixa sensibilidade (32%) e baixa especificidade (40%). Fatores dietéticos também interferem com o colesterol sanguíneo. Sua diminuição indica deficiência de energia (fibra) e seu aumento indica excesso de gordura na dieta (WITTWER, 2000). Os valores de referência de colesterol total para diversas raças bovinas criadas no Brasil estão expressos no Quadro 8. Para avaliação do colesterol total deve-se utilizar somente soro, pois o plasma com anticoagulantes, como citrato, oxalato ou EDTA, produzem resultados falsamente diminuídos. A amostra é estável sete dias entre 2°C a 8°C e seis meses a -20 °C. Não utilizar amostras fortemente hemolisadas (ALAIN et al., 1974).

Testes que investigam processos inflamatórios e de natureza imunológica Fibrinogênio O fibrinogênio é uma proteína de grande peso molecular produzida pelo fígado, é substrato para a trombina, na formação da fibrina. Sua concentração está aumentada na doença inflamatória ativa, por isso é conhecida como proteína reagente da fase aguda. É indicador útil de inflamação porque os bovinos, comparativamente, possuem maior capacidade de produzir fibrinogênio em resposta às enfermidades (JOHNSTON & MORRIS, 1993). Valores altos são mais indicativos de resposta à doença que alterações na contagem diferencial, particularmente do número de neutrófilos, durante doença inflamatória aguda ou crônica. É comum o aumento de fibrinogênio na ausência de neutrofilia, e esse aumento é mais persistente que a neutrofilia reativa, podendo chegar até 1,0 ou 1,5g/dl (JAIN, 1993).

A relação entre proteína plasmática (PP) e o fibrinogênio plasmático (FP) é calculada para diferenciar a hemoconcentração dos aumentos reais de fibrinogênio. A hemoconcentração afeta ambos, PP e FP, sem alterar a razão. As relações PP:FP menores que 10:1 indicam altos níveis de fibrinogênio (JAIN, 1993). A concentração do fibrinogênio no plasma pode aumentar em doenças inflamatórias crônicas ou neoplasias. A quantificação do fibrinogênio está normal na doença hepática leve a moderada, diminuindo nas hepatopatias agudas graves ou crônicas (RUSSEL & ROUSSEL, 2007).

Globulinas A avaliação laboratorial de processos inflamatórios pode ser feita com a análise das globulinas séricas. As globulinas totais são quantificadas a partir da diminuição dos valores de albumina dos valores de proteína total sérica, e o estudo das frações das globulinas, pela técnica de eletroforese (KERR, 2002). Os níveis podem estar elevados tanto na hepatite aguda como crônica (MULLEN, 1976). Barnouin et al. (1981) compararam bovinos normais, com colangite e com lesão hepática severa e encontraram diferença significativa nos valores de globulina entre o grupo normal e os outros dois, estando mais elevada nos doentes. Fagliari et al. (1994) não encontraram alterações significativas nas três frações de globulinas em bovinos naturalmente intoxicados pela esporidesmina. Curran et al. (1996) relataram ligeiro aumento das globulinas nos casos clínicos, o mesmo não foi observado nos subclínicos. Quando o clínico depara-se com disproteinemias, torna-se necessária a eletroforese das proteínas séricas, para que sejam quantificadas as frações proteicas individuais (JOHNSTON & MORRIS, 1993). O amplo

FIGURA 4. Fracionamento eletroforético das proteínas plasmáticas de ruminantes. A) perfil eletroforético de ovino; B) perfil eletroforético de bovino (ECKERSALL, 2008).

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QUADRO 9. Valores de referência de proteínas séricas (g/L) para ruminantes, determinados por eletroforese. Proteína

Bovino

Ovino

Caprino

Albumina

30,3 - 35,5

24,0 - 30,0

27,0 - 39,0

Globulina total

30,0 - 34,8

35,0 - 57,0

27,0 - 41,0

α- globulina

7,5 - 8,8

3,0 - 6,0

5,0 - 7,0

β-globulina

8,0 - 11,2

---

---

β1

---

7,0 - 12,0

7,0 - 12,0

Β2

---

4,0 - 14,0

3,0 - 6,0

16,9 - 22,5

9,0 - 33,0

9,0 - 30,0

γ-globulina Fonte: KANEKO et al. (2008).

uso da eletroforese é justificado pela variedade de alterações que ocorrem nas frações proteicas dos vários estados fisiológicos e nas diversas enfermidades (HERZ & HOD, 1969; NAOUM, 1990). Segundo Naoum (1999), a eletroforese em gel de agarose produz bom resultado no processo de fracionamento das proteínas (Figura 4). As cinco zonas principais do fracionamento eletroforético são: albumina, alfa-1 globulina, alfa-2 globulina, beta globulina e gama globulina. A maior parte das proteínas plasmáticas participa da resposta inflamatória; no processo inflamatório agudo as zonas alfa-1, alfa-2 e também o fibrinogênio estão elevados. Na inflamação crônica as zonas alfa-1e alfa-2 permanecem elevadas e há um aumento progressivo da zona gama. Os valores de referência de proteínas séricas, por eletroforese, para os ruminantes domésticos estão expressos no Quadro 9. A avaliação do perfil eletroforético deve ser padronizada tanto por raça como por idade, sexo, região e condições de manejo, pois variações fisiológicas sazonais podem ser confundidas com variações patológicas (FAGLIARI et al., 2006).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As provas bioquímicas são um excelente subsídio ao diagnóstico clínico, contudo, para que os resultados sejam convenientemente interpretados e utilizados, há necessidade de estabelecimento de valores de normalidade específicos que levem em consideração os fatores de variabilidade como espécie, raça, sexo, idade e região. A padronização dos valores de referência por espécie ainda é uma dificuldade a ser superada na Medicina Veterinária, em especial por pesquisadores do Brasil, pois os padrões de normalidade hoje amRevista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

plamente difundidos não condizem com as espécies aqui exploradas nem com as condições de manejo. A dificuldade de importação e comercialização de reagentes é uma lamentável realidade no Brasil, que poderá ser modificada com avanços de pesquisas na área e apoio da iniciativa privada. Pesquisas nacionais inovadoras, como a padronização de reagentes comerciais para quantificação de arginase sérica e avaliação do perfil metabólico e função hepática em amostras de leite, estão em desenvolvimento. E futuramente farão parte da rotina dos laboratórios de bioquímica clínica e darão maior suporte aos diagnósticos em Medicina Veterinária.

Dados das Autoras

Flávia Gontijo de Lima

Médica Veterinária, CRMV-GO nº 4021; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal, Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás.

Maria Clorinda Soares Fioravanti

Médica Veterinária, CRMV-GO nº 1321; Professora Associada da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás Endereço para correspondência: Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás, Campus Samambaia (Campus II). Caixa Postal 131, CEP: 74001-970, Goiânia – GO. Telefone (62) 3521-1598. E-mail: clorinda@vet.ufg.br

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publicações

Editora Saunders/Elsevier Riverport Lane 3251 Saint Louis, MO 63043 Site: www.elsevier.com

EQUINE INTERNAL MEDICINE

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Editora Saunders/Elsevier Westline Industrial Drive 11830 Saint Louis, Missouri, 63146 Site: www.elsevier.com

CURRENT THERAPY IN EQUINE MEDICINE 6

Stephen M. Reed - Warwick M. Bayly - Debrac C. Sellon

N. Edward Robinson - Kim A. Sprayberry

Esta é a terceira edição do Equine Internal Medicine. Como as duas edições anteriores, ela foi escrita e editada com o objetivo de promover uma clara compreensão dos princípios e da fisiopatologia do desenvolvimento de várias doenças dos equinos. A informação básica é apresentada e posteriormente são relatadas as características clínicas de cada doença, sua terapia e abordagem. Todos os capítulos das edições anteriores foram reescritos e revistos. A primeira seção do livro é dedicada a uma discussão aprofundada dos mecanismos básicos pelos quais os problemas podem se desenvolver e aos princípios referentes ao tratamento de cada um deles. O leitor pode acessar doenças específicas na segunda seção do livro, que é dividida em capítulos que tratam problemas relacionados a um sistema corporal em particular ou de uma natureza específica. Um grupo de pesquisadores e professores internacionalmente reconhecidos preocuparam-se em cobrir vários aspectos das doenças de equinos e seus tratamentos. As doenças foram discutidas individualmente, enfocando a anatomia, fisiologia, fisiopatologia, sinais clínicos, diagnóstico e tratamento. Os capítulos de doenças infecciosas, abordagem clínica a problemas comuns, cuidado crítico, doenças do sistema musculoesquelético, doenças do trato reprodutivo e problemas toxicológicos foram atualizados. Acompanha um DVD que inclui mais de 120 videoclipes com referência aos capítulos de desordens dos sistemas cardiovascular e nervoso.

A sexta edição de Current Therapy, como as cinco anteriores, providencia informações facilmente acessíveis, relacionadas a doenças frequentemente encontradas na prática dos Médicos Veterinários de equinos. O livro foi redigido de forma que as informações referentes a diagnósticos e tratamentos fossem apresentadas de forma concisa, tornando-o uma referência de uso contínuo. Todas as alterações e ampliações propostas permitem afirmar que se trata de um novo livro. Cada autor enfatiza aspectos práticos de diagnóstico e tratamento e detalham de forma específica regimes terapêuticos. O livro está organizado por sistemas corporais, com seções adicionais que abordam doenças infecciosas, doenças de potros, nutrição e toxicologia. Também foram incluídos novos tópicos: tratamento médico do potro em estado crítico, massas na cavidade oral, radiologia de sínus e dentes, testes bioquímicos na lesão do miocárdio, mieloencefalite por protozoários, urólitos na bexiga, enxertos de pele, gestação de risco, terapia do choque, entre outros.

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Editora Juruá 2ª Edição - Av. Munhoz da Rocha, 143 – Juvevê CEP: 80035-000 - Telefone: (41) 3352-3900 Site: www.jurua.com.br E-mail: editora@jurua.com.br Curitiba – Paraná O Direito & Os Animais

Editora FEALQ – Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz Av. Centenário nº 1080 – Bairro São Dimas CEP: 13418-000 - Telefone: (19) 3417-6600 Site: www.fealq.org.br/loja/livraria.asp E-mail: livros@fealq.org.br Bovinocultura de Corte

Danielle Tetü Rodrigues

Alexandre Vaz Pires

Esta obra divide-se em duas partes. A primeira apresenta aspectos sobre os animais não-humanos e o Direito com base nos estudos realizados durante o mestrado da autora em Direito Econômico e Social. Por fim, é apresentado um atual e novo paradigma que deve ser aceito e reconhecido, de modo a, imediatamente, começar a imperar e ser aplicado por todos os operadores do Direito. Sem prender-se à moral e à ética, explica-se a defesa dos animais não-humanos com base em normas existentes, porém, nem sempre acolhidas. Na segunda parte abordam-se aspectos interdisciplinares a fim de viabilizar uma proposta de animais como sujeitos de direito. A proposta é justamente adequar o instituto do direito à ética e realidade presenciadas, porém inalteradas pela dogmática jurídica, seja por conveniências políticas, seja por privadas. Destarte, o presente trabalho tem como objetivo final a análise e demonstração da necessidade de uma proteção efetiva, rígida e eficaz dos animais pela legislação brasileira, em todas as esferas do direito. A autora é Doutora em Meio Ambiente pela Universidade Federal do Paraná, Mestra em Direito Econômico e Social pela PUC do Paraná, Mestra na Língua Francesa pela Faculdade de Nancy, Professora de Direito Ambiental na Faculdade de Direito de Curitiba e de Tutela Jurídica da Fauna no Curso de Pós-graduação em Direito Socioambiental na PUC do Paraná. Especialista em Direito Civil Contemporâneo. Advogada Ambientalista.

Trata-se de um livro, apresentado em dois volumes, que aborda a cadeia produtiva da bovinocultura de corte, dessa forma, atendendo a demanda por um livro completo, ilustrado, com conteúdo escrito e revisado por especialistas. Os volumes contêm textos técnico-científicos que objetivam atender o interesse da comunidade científica, de estudantes, de técnicos e de produtores. Pesquisadores, professores e técnicos autônomos das diversas áreas da bovinocultura de corte foram convidados a escrever sobre temas de real interesse para o desenvolvimento da atividade. No delineamento do projeto houve preocupação de cobrir, de maneira mais completa possível, toda a cadeia produtiva da bovinocultura de corte, procurando, assim, preencher as possíveis lacunas nesta área do conhecimento, o que resultou numa obra com 13 seções e 72 capítulos. O editor da obra é Médico Veterinário pela Escola Superior de Medicina Veterinária Lages, SC; Mestre em Nutrição Animal e Pastagem pela Universidade de São Paulo; Doutor em Dairy Science – Ohio State University e Pós-Doutor pela Ohio State University. É Professor Associado na ESALQ, Piracicaba – SP.

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

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agenda

Dezembro

Abril NAVC Conference 2011

Local: Orlando – Flórida. Período: 15 a 19 de janeiro de 2011. Mais informações: www.tnavc.org/ navc-conference

3º Simpósio Latino-Americano de Cardiologia Veterinária

Local: Universidade Estadual do Norte Fluminense – Campos dos Goytacazes – RJ. Período: 6 a 10 de dezembro de 2010. Mais informações: contato@ simposiocardiovet.com.br

Janeiro 37a Conferência Anual IETS (International Embryo Transfer Society)

Local: Orlando – Estados Unidos. Período: 8 a 12 de janeiro de 2011. Mais informações: www.iets.org/2011

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Fevereiro PractiVet

XXI Sacavet e VIII Simpropira

Local: FMVZ /USP – São Paulo – SP. Período: 16 a 21 de abril de 2011. Mais informações: (11) 7415-5596 emilybasker@hotmail. com

Local: Moscow – Rússia. Período: 18 a 19 de fevereiro de 2011. Mais informações: info@practivet.ru

Março 35o Congresso da Sociedade de Zoológicos do Brasil/ 1o Fórum Mundial sobre Manejo de Animais Silvestres Local: Gramado – RS. Período: 30 de março a 2 de abril de 2011.

Mais informações: www.propague.net/ gramado_zoo.html

32o Congresso Brasileiro da Anclivepa

Local: Goiânia – GO. Período: 27 a 30 de abril de 2011. Mais informações: www.anclivepa2011. com.br

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opinião

UM OLHAR SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DE PRODUTOS VETERINÁRIOS NO BRASIL Jorge Couto Pimentel

Médico Veterinário- CRMV-SP nº 15185, MSc Gerente da Unidade de Biológicos – Ceva Saúde Animal, Campinas – SP Endereço: Rua Elton Cesar, 121 – Campo dos Amarais, Campinas – SP - CEP: 13082-025 E-mail: jorge.pimentel@ceva.com

Para muitos profissionais é fácil perceber a revolução que a indústria farmacêutica humana passou em meados da década de 1990 com a implantação do Programa Nacional de Inspeção da Indústria Farmacêutica e Farmoquímica (PNIFF), mas poucos percebem que para a indústria veterinária, uma década depois, uma revolução importante também está acontecendo e que isso representa maior segurança e vigor das empresas produtoras de produtos veterinários, maior imposição dos órgãos reguladores, maior segurança ao consumidor e maior valor agregado aos profissionais ligados à veterinária no Brasil. Entende-se por produto de uso veterinário “todos os produtos que, utilizados nos animais ou no seu habitat, projetam, restaurem ou modifiquem suas funções orgânicas e fisiológicas, e os produtos destinados à higiene e ao embelezamento dos animais” (Decreto no 5053 do MAPA, 2004). Hoje, para regulamentar a produção e controle desses produtos, algumas leis estão em vigor e foram atualizadas pelo órgão regulamentador – o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) –, como: a) Portaria nº 74, de 11 de junho de 1996. Roteiros para elaboração de relatórios técnicos Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XVI - nº 51 - 2010

visando o registro de produtos: biológicos, farmacêuticos, farmoquímicos, e de higiene e/ou embelezamento de uso veterinário. Constitui o roteiro para a descrição da constituição técnica do produto, sua forma de produção e controle de qualidade. b) Instrução Normativa nº 31, de 20 de maio de 2003. Regulamento Técnico para Produção, Controle e Emprego de Vacinas Autógenas. Regulamenta a produção de vacinas a partir do isolamento de um agente em uma determinada propriedade e da produção de uma vacina costumizada (autógena) para aquela propriedade. c) Instrução Normativa nº 13, de 03 de outubro de 2003. Regulamento de Boas Práticas de Fabricação de Produtos de Uso Veterinário. Estabelece as diretrizes para as boas práticas de fabricação em veterinária. d) Decreto nº 5053, de 22 de abril de 2004. Regulamento de Fiscalização de Produtos de Uso Veterinário e dos Estabelecimentos que os Fabriquem ou Comerciem. Estabelece as diretrizes para as indústrias quanto aos estabelecimentos e normas para produção e comercialização de produtos veterinários no Brasil, como responsabilidades por

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opinião departamentos, segregações de áreas, utilidades e sistema de garantia da qualidade. e) Instrução Normativa nº 15, de 12 de maio de 2005. Regulamento Técnico para Testes de Estabilidade de Produto Farmacêutico de Uso Veterinário. Atualiza e normatiza os testes de estabilidade de produtos farmacêuticos. f) Instrução Normativa nº 26, de 16 de setembro de 2005. Regulamento Técnico para Elaboração de Partida-Piloto de Produto de Uso Veterinário de Natureza Farmacêutica. Estabelece que para desenvolvimento e solicitação de registro de produtos farmacêuticos no Brasil o fabricante deve produzir lotes-piloto e apresentar todos os dados relativos a eficácia, segurança, resíduos e estabilidade, a partir desses lotes. Os lotes-piloto devem compreender partidas representativas comercial ou industrial, fabricadas em condições e equipamentos da própria planta industrial, com a finalidade de se avaliar a reprodutibilidade do processo e o atendimento às especificações técnicas.

g) Instrução Normativa nº 7, de 10 de março de 2006. Regulamento Técnico para a Produção, o Controle e o uso de Vacinas e Diluentes para uso na Avicultura. Regulamenta especificamente a produção e controle de qualidade das vacinas para avicultura. h) Ato nº 7, de 04 de setembro de 2006. Roteiro para Inspeção de Boas Práticas de Fabricação de Produtos Veterinários de Natureza Biológica. Estabelece o check list para inspeção de plantas produtoras de biológicos, deixando claro os itens estabelecidos no Decreto no 5053 (2004) e na IN no 13 (2003). i) Instrução Normativa nº 25, de 20 de agosto de 2008. Regulamento Técnico para Fabricação de Partida-Piloto de Produto Biológico de Uso Veterinário. Estabelece que para desenvolvimento e solicitação de registro de produtos biológicos no Brasil o fabricante deve produzir lotes-piloto e apresentar todos os dados relativos a eficácia, segurança e estabilidade, a partir desses lotes. j) Instrução Normativa nº 26, de 9 de julho de 2009. Regulamento Técnico para a Fabricação,

arquivo Pessoal | Ceva Saúde Animal no Brasil, Paulínia-SP

Arquivo CFMV

Detalhes externos de uma empresa do setor de vacinas com linhas de produção concebidas para atender as Boas Práticas de Fabricação e exportar produtos.

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Arquivo Pessoal

o Controle de Qualidade, a Comercialização e o Hoje o Brasil exporta para a America Latina, África Emprego de Produtos Antimicrobianos de Uso e Oriente Médio vacinas e produtos farmacêuticos Veterinário. Esta instrução regulamenta as regras e algumas empresas já exportam farmacêuticos para a fabricação e o controle dos antimicrobianos, até para os Estados Unidos. Isso só é possível com até então não comtemplados nas leis acima. o reconhecimento de um órgão regulamentador Outras regulamentações estão sendo estudas, forte e de investimentos privados das empresas revistas e atualizadas e serão publicadas em breve produtoras, garantindo as especificações básicas pelo MAPA. Antes de sua publicação, elas são dispara licenciamento de suas fábricas no exterior, ponibilizadas como consulta pública para avaliação bem como licenciamento e comercialização de seus dos interessados. É o caso, por exemplo, da consulta produtos em vários países. hoje disponível sobre o Programa Nacional de FarPara os profissionais, um novo perfil de qualifimacovigilância Veterinária. cação passa a ser exigido: veterinários, farmacêuA indústria veterinária vê com seriedade o proticos, biólogos e engenheiros de alimentos ou de cesso de adequação às novas legislações, embora o processos têm de entender de produção, validação, grau de adequação varie de empresa para empresa, regulamentação, boas práticas de fabricação vigende acordo com o nível de desenvolvimento de cada tes, bem como intervir nos processos produtivos ou uma. Cursos de Boas Práticas de Fabricação internos concepções de fábricas visando adequar os procese externos têm sido promovidos, bem como adesos à regulamentação, se preocupando ainda em quações fabris que permitam posteriormente as vater o menor custo de produtos possível para não lidações dos processos industriais. Notoriamente, perder a competitividade. há uma evolução no setor, seja por conscientização, O consumidor final agradece, pois é o principal seja por obrigação. beneficiado quando os produtos veterinários são O MAPA tem sido o grande provedor desta mais seguros e com eficácia garantida. revolução e o grande parceiro das empresas na melhoria e qualificação do setor veterinário. O mesmo órgão, além de impor as regras, tem qualificado seus fiscais para a correta interação com o setor produtivo. As associações das empresas veterinárias como o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (SINDAN) e a Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (ALANAC)também têm apoiado as empresas para se adequarem às novas regras do mercado. As regulamentações ainda têm pontos a serem melhorados, mas, de forma geral, têm garantido a produção e controle de produtos veterinários seguros no mercado nacional. As novas regras, adequações e melhorias internas das fábricas, dos profissionais internos e dos processos têm um impacto não só local, mas também colocam o Brasil como uma das principais plataformas exportadoras de produtos veterinários, seja de farmacêuticos ou de vacinas. A indústria investe em qualidade assegurada de sua produção.Áreas classificadas, preocupação com biossegurança.

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Diretoria Executiva

Zoot. Weds Batista Lopes CRMV-PB Nº 0220

Presidente: Méd. Vet. Paulo Guilherme Carniel Wagner CRMV-PB Nº 0925

Vice-Presidente: Méd.Vet. Francisco Ramifram Gomes de Oliveira CRMV-PB Nº 0838 Secretário-Geral: Méd. Vet. Débora Rochelly Alves Ferreira

Méd. Vet. Wlamir Araújo e Silva CRMV-PB Nº 0772 CONSELHEIROS SUPLENTES

CRMV-PB Nº 0693

Méd. Vet. Eldinê Gomes de Miranda Neto

Tesoureiro: Méd. Vet. Domingo s Fernandes Lugo Neto

CRMV-PB Nº 0743

CRMV-PB Nº 00793

Méd. Vet. Adriano Fernandes Ferreira

Méd. Vet.Georges Cavalcanti e Cavalcante CRMV-PB Nº 1074 Méd. Vet. Hamilton Gonçalves Botelho CRMV-PB Nº 0955 Méd. Vet. José Cecílio Martins Neto CRMV-PB Nº 0910 Méd. Vet. Ricardo de Figueiredo Guilherme

CRMV-PB Nº 0681

CRMV-PB Nº 0812

Méd. Vet. Leonardo Mendes Torres

Méd. Vet. Wagner Marinho da Rocha Arnaud

CRMV-PB Nº 0696

CRMV-PB Nº 0821

CONSELHEIROS EFETIVOS Méd. Vet. Almir Pereira de Souza CRMV-PB Nº 0853

Méd. Vet. Valéria Rocha Cavalcanti CRMV-PB Nº 0729

MANDATO: 17-08-2010 a 16-08-2013

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA DO ESTADO DA PARAÍBA – CRMV/PB Endereço: Praça Pedro Gondin, 127 – Torre - Caixa Postal: 76, João Pessoa/PB - CEP: 58040-360 Telefones: (83) 3222-7980 / 3221-3169 - Fax: (83) 3222-7980 / E-mail: crmvpb@openline.com.br ou crmvpb@crmvpb.org.br


Sede do CFMV: Sia - Trecho 6 - Lote 130 e 140  Brasília – DF - CEP: 71205-060 Fone: (61) 2106-0400 - Fax: (61) 2106-0444 E-mail: cfmv@cfmv.org.br  www.cfmv.org.br

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