Dança em Porto Alegre - Um perfil do segmento e a relação com as políticas municipais

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Centro de Dança SMC/PMPA

A DANÇA EM PORTO ALEGRE 2021

Um perfil do segmento e a relação com as ações públicas municipais


SUMÁRIO 01 03

Apresentação Resultados da Pesquisa

12

Leituras Possíveis

24

Conclusões


APRESENTAÇÃO

O Centro Municipal de Dança (CMD) realizou, no semestre inicial de 2021, o primeiro

levantamento para identificar informações sobre a cadeia produtiva da dança e sua

relação com as ações desenvolvidas na esfera pública municipal de Porto Alegre. Esses dados de caráter quantitativo vêm complementar as análises e as percepções dos

diversos circuitos de produção aos quais o Centro Municipal de Dança (CMD) sempre buscou acompanhar, dialogar e interagir para pautar suas ações.

Esse levantamento soma-se à iniciativa do Mapeamento de Dança do RS, no qual

o CMD também toma parte juntamente com outras 18 entidades e instituições ligadas ao setor no Estado. Tal consórcio vem se dedicando a reunir dados para análise da cadeia produtiva da dança.

O objetivo é construir uma base de dados sobre o

segmento no RS. Assim, a pesquisa local procurou identificar especificidades

municipais que não constavam no macro levantamento organizado pelo Mapeamento da Dança do RS.

O formulário ficou disponível nas redes sociais e blog do Centro Municipal de Dança

de 08 de fevereiro a 28 de abril de 2021, totalizando um conjunto final de 232 respostas.

Esse resultado é considerado bastante significativo, mesmo que represente de forma parcial o universo de integrantes da cadeia produtiva da dança na capital gaúcha, — o que esperamos ampliar numa próxima etapa da pesquisa. Contudo, um levantamento desse porte nunca havia sido realizado antes nessa dimensão e nesse detalhamento.

Esses dados, mesmo parciais, permitem a percepção mais apurada de muitos

aspectos e um melhor conhecimento do perfil dessa cadeia, auxiliando na identificação de acertos nas atividades realizadas e projetos desenvolvidos, bem como para

possibilitar correções, ajustes e aprimoramento das ações municipais para o segmento da dança.

O levantamento contou com artistas atuantes há décadas na cena local, assim

como com a nova geração artística que está ingressando no mercado. Os dados incluem integrantes de grupos tradicionais e novos coletivos; graduados em dança ou

em outras áreas; profissionais que atuam em escolas consolidadas ou em espaços que vêm recentemente se firmando na cena de Porto Alegre, além de produtores e técnicos com atuação na área da dança. Também contou com profissionais de Dança em Porto Alegre 2021

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diversos segmentos como balé, jazz, dança contemporânea, flamenco, tapdance, dança do ventre, danças urbanas, danças de matriz africana, dança tribal, danças folclóricas, entre outras. Portanto, esses dados configuram-se como um universo de amostragem bastante abrangente e diversificado.

Para sistematizar esse material numa primeira e preliminar análise, optamos por

apresentar blocos de dados a partir das tabelas e gráficos que foram gerados, permitindo assim a visualização de maneira geral das informações da pesquisa. Num segundo momento,

apresentamos algumas leituras possíveis que o levantamento

pode permitir, a partir da perspectiva de atuação da equipe do Centro Municipal de Dança, sendo estas algumas das muitas questões que esse material suscita.

Sabemos que esses dados permitem múltiplas e diversificadas leituras e, mais do

que concluir essas leituras, buscamos tecer alguns cenários, problemáticas e conexões,

entendendo a complexidade de muitos desses tópicos, alguns, inclusive, que merecem

a ampliação e aprofundamento dos dados que aparecem. Por isso, muitas vezes, achamos ser mais coerente admitir que ainda não temos fundamentação ou

propriedade suficiente para algumas conclusões que poderiam ser fortuitas ou precipitadas, mas sem nos furtamos a lançar indagações que os dados inquietam e que nos desafiam em alertas e provocações necessárias.

O propósito foi o de começarmos a pensar, refletir, problematizar e convidar a

outras leituras que enriqueçam os dados e análises das quais ainda somos extremamente carentes no segmento da dança de Porto Alegre.

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RESULTADOS DA PESQUISA Origem e atuação territorial/geográfica Os dados referentes à residência e atuação

dos profissionais confirmam a percepção de que a região central da cidade concentra a maior porcentagem de moradores com exercício

25,4 %

reside na região central

profissional. Mais de um terço reside na região central, um total de 25,4%, e mais que o dobro desse percentual 58,1% tem nessa região o espaço de trabalho. Isso indica a alta

concentração de escolas, de espaços culturais e de público condensados na região central de Porto Alegre.

Dança em Porto Alegre 2021

58,1 %

trabalha na região central

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Esses dados reafirmam uma percepção empírica e também trazem informações que permitem perceber outros cenários não tão evidentes. Um dado inesperado, por exemplo, foi ter-se a região Norte como segunda região de concentração de residentes e de profissionais atuantes na cidade. Segundo o levantamento, 17,9% residem na região Norte sendo que 25,2% também atuam nessa região.

17,9%

reside na região norte

25,2 %

trabalha na região norte

No aspecto geográfico aparecem ainda com destaque a Região Sul com 11,9% e Partenon e Cruzeiro, ambas concentrando 7,5% dos profissionais. É importante identificar que nenhum profissional que respondeu ao questionário declarou atuar na região das Ilhas.

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Escolaridade e referências identitárias Outro dado que o levantamento trouxe é referente à escolaridade, que indica um grande

número de profissionais com curso superior completo. A pesquisa revela que 70,5% possuem

curso superior completo 34,2% ou pós-graduação 34,3%. Os números mostram um alto índice de formação entre os profissionais que atuam no segmento da dança, com uma consequente

qualificação desse setor, mesmo que essa formação inclua outras áreas complementares de conhecimento.

75,2%

12%

Brancos

Pretos

9,4%

Indígenas

Nesse espectro da pesquisa há uma predominância de mulheres na cadeia produtiva da

dança com 69,2% do total, quase ¾ de profissionais que atuam na área. E também a pesquisa

apontou que na cadeia produtiva da dança apenas 1,3% são Pessoas com Deficiência (PCDs).

69,2% Mulheres Dança em Porto Alegre 2021

1,3% PCDs | 05


Atividades e renda O perfil de atividade e renda foi outro bloco de informações que buscou compreender a

realidade da cadeia produtiva. Entre as principais atividades que envolvem grande parte dos profissionais

estão

produtores/as 35,5%.

professores/as

76,9%,

bailarinos/as

75,6%,

coreógrafos/as

59%

e

Contudo, o dado relativo à renda revela que essa proporção não se mantém, e indica que

a atividade que garante a renda profissional vem da atuação no ensino/educação de dança, com 59,8% tendo sua renda oriunda da atividade de professores/as e só depois, com percentuais bem menores, a renda como bailarinos/as 16,7%, coreógrafos/as 12,8% e produtores 11,5%.

59,8%

Professores(as) Dança em Porto Alegre 2021

16,7%

Bailarinos(as) | 06


Outro dado relevante é que a metade dos profissionais se mantém apenas com a renda

de atividades de dança. Mesmo que a outra metade complemente sua renda com outras atividades, a dança ainda é a fonte principal de geração de renda para esses profissionais.

Porém, esse mercado revela dados não muito animadores no que se refere à formalização

das relações de trabalho. A maior parte dos profissionais atua como MEI, 32,1%, e 27,4% são

autônomos que não recolhem contribuição previdenciária. Apenas 5,1% trabalham com carteira assinada.

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Atuação por segmento Quanto ao quadro da atuação por segmentos ou linguagens, aparecem no levantamento

as áreas de dança contemporânea, jazz, balé, danças urbanas, danças de salão, danças de

matriz africana, danças populares e danças modernas. A maior concentração está entre os

profissionais de dança contemporânea, que representam quase metade do total daqueles que responderam ao formulário e quase o dobro de áreas como balé e jazz.

48,3%

Contemporânea Dança em Porto Alegre 2021

26,1%

Ballet

23,1% Jazz

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Ações públicas municipais para a dança Quanto aos eixos de atuação do Centro Municipal de Dança, todos os itens apresentados

tiveram uma avaliação positiva com índices que superam 95% (respostas que entendem esses eixos como muito importante e importante).

+95%

Avaliação positiva

Editais de Premiação - 95,8% (86,8% muito importante e 9% importante) Espaços públicos para apresentação de espetáculo - 100% (96,6% muito importante e 3,4% importante) Espaço para ensaios - 99,6% (90,2% muito importante e 9,4% importante) Fomento à criação e pesquisa - 100% (94,4 %muito importante e 5,6% importante) Fomentos a Grupos e Cias e Coletivos - 99,6% (96,2 % muito importante e 3,4% importante) Formação - 99,6% (94,9% muito importante e 4,7% importante) Ged - 95,3 %(85% muito importante e 10,3% importante) Promoção de eventos - 99,2% (86,8% muito importante e 12,4% importante) Cia Municipal de Dança - 97,8% (91% muito importante e 6,8% importante) Memória - 99,6% (90,6 muito importante e 9% importante) Descentralização - 98,3% (88,5 muito importante e 9,8% importante) Inclusivas - 99,6% (95,3% muito importante e 4,3% importante) Afirmativas - 96,2 % ( 87,2% muito importante e 9% importante) Publicações - 97% ( 85% muito importante e 12% importante) Difusão e intercâmbio - 97, 5% ( 85,5% muito importante e 12% importante) Esses dados permitem aferir que a definição dos eixos de atuação das ações públicas

municipais está devidamente direcionada, ainda que insuficientes, especialmente pela limitação de recursos e interrupções de ações e projetos.

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Prioridades Ações Públicas Esses índices traduzem aspectos importantes a serem avaliados. Os três índices com mais

de 50% das respostas indicam a importância dos Espaços Públicos de apresentação, Ações formativas e Editais de premiação.

75%

Espaços Públicos

56%

Formação

54%

Editais de Premiação

Esses índices traduzem aspectos importantes a serem avaliados. Os três índices com mais

de 50% das respostas indicam a importância dos Espaços públicos de apresentação, Ações formativas e Editais de premiação. Dança em Porto Alegre 2021

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Eixos de Capacitação Quanto à demanda de qualificação os principais eixos que a pesquisa apontou foram:

66%

Elaboração de projetos

60%

Produção de Audiovisual

54,8%

Metodologia de Ensino

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LEITURAS POSSÍVEIS Sobre Gênero

#

Tem-se no segmento da dança uma cadeia produtiva na qual as mulheres ocupam um

lugar de predominância, o que pode traduzir uma realidade bem delineada, empiricamente percebida.

Em Porto Alegre esse aspecto pode ter raízes históricas e culturais associadas às pioneiras

do trabalho profissional na capital, marcada exclusivamente por professoras e bailarinas, na década de 1920, seja no Instituto de Cultura Física e nas primeiras Escolas de Bailados Clássicos, a partir da década de 1930.

Outro aspecto que ajuda a entender esse perfil é a preponderância do balé como a

principal matriz de formação profissional, que esteve por décadas atuando hegemonicamente com prestígio social nos circuitos cênicos da elite branca da capital. Um balé vinculado por muito tempo ainda à figura feminina do balé romântico e acadêmico russo. Dança em Porto Alegre 2021

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Há, ainda, a matriz de dança moderna — que influenciou as raízes do balé da cidade —

tendo personalidades do expressionismo alemão como referências, especialmente Mary

Wigmann e Grete Palucca, além das pioneiras da dança moderna americana como Martha Graham.

Somaria-se a isso, a capital gaúcha ser, provavelmente, um território no qual o preconceito

ao homem na dança teve forte marca nas suas origens e, ainda hoje, em muitos espaços de dança, mesmo que atualmente em menor escala e proporção?.

#

Sendo essa cadeia produtiva predominantemente desenvolvida por mulheres, outro aspecto

que merece atenção é a falta de ações e reflexões das questões que envolvem as

trabalhadoras que atuam na cadeia produtiva da dança. Num país com alto grau de violência

contra as mulheres e com números alarmantes de feminicídio e de assédio nas suas múltiplas formas, sabe-se da necessidade de criar iniciativas de combate a estes problemas.

Todavia, não temos dados suficientes no âmbito da dança local para balizar ações que

enfrentem essa problemática, às vezes bastante delicada. Essas questões pouco aparecem na dança de Porto Alegre? Aparecem mais do que num passado recente? Isso pode evidenciar que na atuação da dança na cidade esses aspectos sejam reduzidos? ou podem indicar que esses aspectos estejam ainda envoltos em tabus ou estratégias de silenciamento que não permitam que os identifiquemos plenamente?

A representação das mulheres na cena de dança local está alinhada com essas pautas ou

na sua contramão? O ambiente de atuação profissional está atento a essas questões? Onde podem estar as fragilidades a serem identificadas quanto a essa temática?

#

Ainda relativo a esse tema, cabe refletir também sobre a temática da presença de homens

na dança, ainda motivo de preconceito em muitas instâncias. Quais conquistas e afirmação dos homens no segmento da dança? Ainda é necessário tratar de maneira mais focada este tema nas escolas, grupos e cias? De que maneira o público de espetáculos e das escolas lida

com isso? Quais as peculiaridades de pensar essa questão em diferentes segmentos da dança como dança do ventre, balé, danças urbanas e danças tradicionais gaúchas?

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Sobre Cor

#

Ao mesmo tempo, os dados revelam uma cadeia produtiva que ainda tem maioria de

profissionais brancos. Dentre esses profissionais 75,2% declararam-se brancos, apenas 12% pretos e 9,4% pardos e só 1,3% indígenas. Esses dados se alinham a um certo perfil identitário do

nosso Estado. O segundo estado brasileiro com maior porcentagem de população branca em percentual que é similar ao da capital (Fonte: IBGE).

Isso indica a necessidade da ampliação das ações afirmativas e inclusivas, que já vêm

sendo implantadas, conseguindo gerar mais oportunidades e ao mesmo tempo maior

visibilidade e protagonismos de artistas e educadores negros, pardos e indígenas. Processo esse que exige mudanças de paradigmas e perspectivas que permitam acolher outros modos de produção e criação, além de novos circuitos que propiciem o reconhecimento e a

valorização das diversidades poéticas, estéticas, metodológicas e pedagógicas de danças em suas respectivas matrizes de linguagens, de histórias e de culturas.

Ações como o Dia da Dança Afro-brasileira, aprovado na Câmara Municipal, por

mobilização de ativistas e coletivos, vem a se somar às iniciativas de poder trazer o protagonismo e potência para a dança não-branca.

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Sobre renda e atuação profissional

#

Outro aspecto relevante é o de que a dança garante a renda dos profissionais da cadeia

produtiva e não é um “bico” ou um “passatempo”, como, infelizmente, muitos ainda insistem em

acreditar e enfatizar. A dança mantém uma ampla e diversificada cadeia produtiva que tem nessa atividade de trabalho e remuneração que ancora seu sustento e sua potência de vida.

#

A atividade de ensino tem protagonismo na subsistência dos profissionais. O que permite

tanto indicar a importância estratégica de valorização e fortalecimento dos espaços que

oferecem essa possibilidade de atuação, bem como as ações continuadas de formação, qualificação e aperfeiçoamento para essa atuação.

Por outro lado, esse fato também sinaliza a importância do incremento na ação profissional

especialmente de bailarinos e bailarinas, seja com atuação da Cia Municipal de Dança que tem

esse foco, seja no incentivo a grupos e cias que efetivamente possam garantir remuneração a seus elencos. Essa é uma realidade que historicamente se coloca na cena da dança local.

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Sobre mercado de trabalho

#

O mercado da dança ainda tem alto índice de informalidade, o que aponta a importância

de ações no sentido de conscientização de formalização de vínculos de trabalho, de contribuição previdenciária, entre outras.

Além disso, esse aspecto aponta para necessidade de ações de reconhecimento e

valorização dos espaços que têm buscado esse devido tratamento aos trabalhadores da dança.

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Sobre pluralidade de linguagens

#

No levantamento há um número maior de profissionais ligado às danças contemporâneas

bem superior a outros segmentos. Um dos fatores que pode traduzir esse número é uma maior organização/articulação nesse segmento presente na história recente com destaque

quantitativo entre inscritos e contemplados em editais de premiação, fomento e ocupação de espaços. (veja página 08)

Soma-se a isso uma provável efetividade do processo de afirmação profissional que esse

segmento apresenta. Muitos atuantes nas atividades de dança contemporânea identificam-se como integrantes da cadeia produtiva, enquanto em outros segmentos, como da dança de salão, muitos consideram-se alunos e amadores e não se identificam como profissionais ou não se direcionam para uma profissionalização.

Um aspecto que chamou a atenção também é o de que quase a totalidade de grupos,

coletivos e escolas de danças contemporâneas responderam a esse levantamento enquanto em outros segmentos, como do balé, essa proporção foi menor. Isso diz sobre um alto grau de articulação, interesse e envolvimento nas questões das políticas públicas para dança.

Se esse retrato identifica uma efetiva mobilização das danças contemporâneas, também

revela a importância de estimular a articulação e interesse dos demais segmentos e de manter

a garantia da participação plural em editais e projetos, fomentando a diversidade de linguagens e estilos de dança, bem como o incentivo à conscientização profissional.

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Sobre a dança e as Pessoas com Deficiência (PCDs)

#

Apenas 1,3% da cadeia produtiva ter participação de PCDs indica a importância de um

tema que ainda precisa ser enfrentado com a devida atenção e cuidado. Como construir espaços para múltiplas atuações, que levem em conta a diversidade e realmente considerem

as diferenças? Quando e como os espaços de apresentação e projetos garantirão a acessibilidade?

A realização da I Mostra de Dança Inclusiva em 2019 pelo Centro de Dança e a Escola

Especial Tristão Sucupira Vianna trouxe essa realidade de maneira efetiva. Mostrou uma produção que se desenha e ainda não encontra o devido espaço de apresentação que garanta

acessibilidade, como foi constatado no Teatro Renascença que não possui rampas para cadeirantes até o palco, a não ser pela área externa dos fundos do teatro.

Além disso, percebe-se uma produção de dança que tem previsto alternativas de

acessibilidade com a previsão de audiodescrição, tradução em libras entre outras, especialmente na produção virtual de editais ligados aos recursos da Lei Aldir Blanc. .

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Sobre descentralização das atividades

#

Os desafios do alcance das ações de maneira descentralizada também foram

evidenciados. A concentração de atuação na região central justifica de certa maneira esse

direcionamento. Porém ainda é preciso avançar para o atendimento menos desproporcional a outras regiões da cidade.

O grande contingente de profissionais que residem e atuam na região norte da cidade

é um dado inédito e relevante. O dado evidencia um percentual que não corresponde proporcionalmente às poucas ações direcionadas a essa região, nem mesmo a um circuito cultural efetivo bastante limitado, tendo no Teatro do Sesi o principal espaço de apresentações

para dança naquela região. Esse dado pode indicar tanto a necessidade de ampliação de ações, quanto talvez evidenciar um circuito que possa estar pouco visibilizado e utilizado.

Sobre capacitação profissional

#

Quanto à necessidade de capacitação, o contexto da pandemia e do trabalho remoto

deixou evidente, que os grandes desafios são as tecnologias/linguagens audiovisuais e a metodologia de ensino não-presencial.

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#

Outro aspecto relativo à capacitação foi o destaque à necessidade de qualificação na

elaboração de projetos. Esse indica um fator que tem recorrentemente sido motivo de exclusão

de muitos profissionais ao acesso de recursos desses instrumentos de fomento. Não basta

termos instrumentos como os editais de fomento e premiação, ou mesmo de auxílio emergencial, se uma parcela significativa da cadeia produtiva da dança não se sente preparada para enviar os projetos nos moldes que são exigidos. Outra faceta a ser considerada

é o fato das leis de incentivo seguirem sendo historicamente, pouco ou nada, utilizadas pelo segmento da dança. Talvez não só pela falta de investimento empresarial na área da cultura, mas também pela reduzida capacitação para os processos de produção, desenvolvimento e prestação de contas de projetos.

Sobre a importância dos espaços públicos

#

A importância dos espaços públicos para

apresentações reafirma o papel estratégico e

decisivo de equipamentos municipais como o

Teatro Renascença, Sala Álvaro Moreyra, Teatro de Câmara e Teatro da Cia de Arte.

Teatro Renascença

Cia de Artes de POA

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Teatro de Câmara Túlio Piva

Sala Álvaro Moreyra

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#

Esses espaços cumprem um papel decisivo de escoamento de uma produção que muitas

vezes não encontra pauta ou não tem como custear os valores bem mais altos de locação de espaços privados. Esses teatros municipais são espaços de lotação média e pequena (entre

100 e 300 espectadores), o que atende a realidade de muitos grupos, cias e escolas de dança que teriam dificuldade de lotação em espaços com 500 lugares ou mais por apresentação.

Esse circuito também vinha acolhendo uma série de eventos importantes para difusão da

produção de dança como Mostra de Dança Verão, Mostra de Dança Inverno, Tap Hour, Poa dança jazz, entre outros.

Soma-se a isso a forma de ocupação por editais públicos que garantem a oportunidade

de acesso a todos.

Portanto, os espaços municipais permitem acesso ao circuito artístico de grupos e Cias de

danças que têm na bilheteria sua alternativa de renda. Assim como é fundamental para a difusão do trabalho de escolas, as quais ali garantem a manutenção e a ampliação de alunos e alunas, que também são motivadas(os) pelas apresentações.

Sobre a importância das ações de formação

#

A importância das ações de formação, por sua vez, indica o reconhecimento de uma

representativa parcela do segmento da dança, que tem nas quase 100 escolas em atividade,

mesmo durante a pandemia, o interesse em projetos e iniciativas que visam a qualificação e o aperfeiçoamento.

Projetos de formação como: o GED, que oferece formação gratuita

anualmente, há quase 15 anos e que, nesse percurso, já formou mais de 500 alunos e alunas;

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as EPDS, que se firmaram como polos de qualificada formação em bairros da periferia; e

a Incubadora de Dança da Restinga, que garantiu mesmo durante o período de

distanciamento a possibilidade de formação a artistas e técnicos da periferia.

#

Essa perspectiva também aponta para inúmeras iniciativas que o Centro de Dança

promoveu ao longo dos últimos anos. Por exemplo, workshops para profissionais da dança, que

possibilitaram trazer a Porto Alegre artistas como: Denise Namura, Alejandro Ahmed, Jorge Alencar, Tereza Rocha, Leonel Brum, Ricardo de Paula, entre outros.

Além disso, outro eixo formativo, foram as realizações de oficinas livres, para ampliar o

público de iniciantes na dança com aulas de flamenco, educação somática, afro, entre outras.

Um fator, que por vezes fica minimizado, é que as ações de formação não foram apenas

para a/o profissional da dança, mas também para um público mais qualificado para a apreciação, compreensão das especificidades de fazeres que envolvem a dança e o consumo

dessa produção. As ações de formação não só permitem que cada vez se amplie o público, como permite se ter um público que tem conhecimento e entendimento da dança com maior intimidade com essa arte, seus modos de criação e produção.

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Sobre os Editais

#

Outro aspecto prioritário para a maioria das/dos participantes da pesquisa são os editais

de premiação. É através deles que é possível o reconhecimento da produção como seu fomento e incentivo. Editais como do Fumproarte, do Usina das Artes, do Manutenção de Grupos e Cias, todos esses instrumentos fundamentais e decisivos para impulsionar e garantir

uma intensa e qualificada produção na capital. Os específicos para a dança também são: o edital do Prêmio Açorianos e, agora, o Prêmio Lya Bastian Meyer.

Aqui se elucida a importância estratégica dos editais, mas também a importância da

adequação na sua formulação, especialmente para permitir o acesso, e não exclusão, nos seus

protocolos e exigências. Ao lado disso, a necessidade de ações formativas de capacitação para a habilitação em recorrer a esses editais.

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CONCLUSÕES Os dados desse levantamento apresentam-se como uma importante fonte de

informações para pautar as ações municipais públicas para a dança, mas também para que sua cadeia produtiva possa começar a ser melhor conhecida. Nesse primeiro movimento, fica evidente o papel estratégico das ações realizadas no município, tanto as que envolvem recursos públicos, como as de caráter institucional e estrutural.

Esses dados permitem aferir um alinhamento coerente das políticas públicas municipais,

que parecem corresponder de maneira significativa às expectativas da ampla maioria dos

participantes da pesquisa. Não que isso satisfaça plenamente o setor, que merece ainda um maior aporte de investimentos e precisa ainda avançar em muitos aspectos da esfera municipal da cultura, contudo, as perspectivas de ação revelam-se alinhadas às

necessidades do segmento e levam em conta as especificidades da produção local. Ainda carecemos de um esforço para ampliar e garantir equidade de recursos, espaços (a dança é

o único setor sem um prédio próprio para desenvolver suas atividades) e ações para dança em relação às demais áreas da SMC.

Consideramos esse levantamento um rico e significativo material que se configura como

ponto de partida para muitas análises. Por isso, essa apresentação preliminar não tem o objetivo de esgotar as leituras possíveis, ou chegar a todas as conclusões que sinalizam os dados. Mas sim, promover a reflexão, o estudo e a construção de ações a partir dos múltiplos

cenários e contextos que se esboçam. E que outros dados e análises possam vir a complementar, aprofundar e ampliar esse estudo.

Acreditamos ser essa uma forma de seguirmos aprimorando as ações na esfera pública

municipal, em especial as desenvolvidas pelo Centro Municipal de Dança e pela SMC, que contemplam o setor da dança. Ações essas que precisam estar cada vez mais alinhadas às necessidades

e

às

especificidades

desse

segmento,

que

contribui

desenvolvimento social, cultural, educacional e artístico da nossa cidade.

Dança em Porto Alegre 2021

tanto

para

o

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EXPEDIENTE Prefeitura Municipal de Porto Alegre - Secretaria da Cultura Centro Municipal de Dança de Porto Alegre

Elaboração do questionário e levantamento dos dados: Airton Tomazzoni e Ilza do Canto

Análise dos dados: Airton Tomazzoni e equipe do Centro de Dança Elaboração dos Gráficos e Projeto Gráfico: Ilza do Canto

Revisão: Clarice Alves, Ilza do Canto, Laura Backes e Pedro Herêncio

Porto Alegre - RS - Agosto/2021

Contatos Centro Municipal de Dança Av. Erico Veríssimo, 307 (Centro Municipal de Cultura - Lupicínio Rodrigues) Bairro Menino Deus Porto Alegre, RS - 90160-181 (52) 3289-8065

Blog do Centro de Dança: http://cdancasmc.blogspot.com/ Facebook: centromunicipal.dedanca Instagram: @centrodedancasmc email: dancasmc@gmail.com linktr.ee/centrodedancasmc