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Nesta obra, todo esse percurso da cultura organizacional é traçado e acrescido de uma perspectiva crítica com foco na análise dos aspectos culturais como controle social, produção imaginária e psicológica e gestão do afetivo. Cultura Organizacional faz parte da Coleção Debates em Administração, que busca fornecer ao leitor informação sucinta a respeito dos assuntos mais atuais e relevantes da área de Administração.

Sobre a autora Maria Ester de Freitas é mestre e doutora em Administração de Empresas pela FGV-EAESP e pós-doutora em Administração Intercultural pela École des Hautes Études Commerciales (HEC), Jouy-em-Josas/França. Foi pesquisadora visitante na Université Paris VII, Denis Diderot/Jussieu, e New York University. É professora titular do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da FGV-EAESP.

CULTURA ORGANIZACIONAL EVOLUÇÃO E CRÍTICA

Maria Ester de Freitas

Aplicações Obra indicada para as disciplinas teoria geral de administração (TGA), teoria organizacional, análise organizacional, comportamento organizacional e gestão de pessoas dos cursos de graduação e pós-graduação em Administração e para profissionais, executivos e consultores que atuam na área organizacional.

Cultura Organizacional – Evolução e Crítica

Os estudos culturais nas organizações são um tema que se atualiza de acordo com as necessidades organizacionais e seu contexto histórico. Na década de 1980, se pautavam pela busca de uma cultura forte como um diferencial entre grandes empresas e o aumento nos índices de produtividade. Nos anos 1990, com o aumento da competitividade e da concorrência, a cultura passou a ser vista como um obstáculo às transformações exigidas por um ambiente de mudanças e reestruturação organizacional. A época atual incorpora a herança das reestruturações e intensifica a busca de uma cultura organizacional altamente produtiva, resultante de processos de fusões, aquisições e alianças interorganizacionais.

Maria Ester de Freitas Para suas soluções de curso e aprendizado, visite www.cengage.com.br


Cultura Organizacional Evolução e Crítica


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Freitas, Maria Ester de Cultura Organizacional: evolução e crítica / Maria Ester de Freitas; coordenador-assistente André Ofenhejm Mascarenhas. -- São Paulo: Cengage Learning, 2009. -- (Coleção debates em administração / coordenadores, Isabella F. Gouveia de Vasconcelos, Flávio Carvalho de Vasconcelos) 2. reimpr. da 1. ed. de 2007. Bibliografia. ISBN 978-85-221-0853-4 1. Administração de empresas 2. Cultura organizacional I. Vasconcelos, Isabella F. Gouveia de II. Vasconcelos, Flávio Carvalho de. III. Mascarenhas, André Ofenhejm. IV. Título. V. Série.

07-1614

CDD – 658.001

Índice para catálogo sistemático: 1.Cultura organizacional : Administração de empresas: 658.001


COLEÇÃO DEBATES EM ADMINISTRAÇÃO

Cultura Organizacional Evolução e Crítica Maria Ester de Freitas

Coordenadores da coleção Isabella F. Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos Coordenador-assistente André Ofenhejm Mascarenhas

Austrália • Brasil • Japão • Coreia • México • Cingapura • Espanha • Reino Unido • Estados Unidos


Cultura Organizacional – Evolução e Crítica Maria Ester de Freitas

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© 2007 Cengage Learning Edições Ltda. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, sejam quais forem os meios empregados, sem a permissão, por escrito, da Editora. Aos infratores aplicam-se as sanções previstas nos artigos 102, 104, 106 e 107 da Lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

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Capa: Eliana Del Bianco Alves © 2007 Cengage Learning. Todos os direitos reservados.

ISBN-13: 978-85-221-0853-4

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Impresso no Brasil. Printed in Brazil. 1 2 3 4 5 6 10 09 08 07


À memória de Fernando C. Prestes Motta, pelo dito e feito. À memória de Georges Heyman, por todo o vivido.


apresentação Cultura Organizacional E o fim de nosso caminho será voltarmos ao ponto de partida e percebermos o mundo à nossa volta como se fosse a primeira vez que o observássemos. T. S. Elliot (adaptação)

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conhecimento transforma. A partir da leitura, vamos em certa direção com curiosidade intelectual, buscando descobrir mais sobre dado assunto. Quando terminamos o nosso percurso, estamos diferentes. Pois, o que descobrimos em nosso caminho freqüentemente abre horizontes, destrói preconceitos, cria alternativas que antes não vislumbrávamos. As pessoas à nossa volta permanecem as mesmas, mas a nossa percepção pode se modificar a partir da descoberta de novas perspectivas. O objetivo desta coleção de caráter acadêmico é introduzir o leitor a um tema específico da área de administração, fornecendo desde as primeiras indicações para a compreensão do assunto até as fontes de pesquisa para aprofundamento. Assim, à medida que for lendo, o leitor entrará em contato com os primeiros conceitos sobre dado tema, tendo em vista diferentes abordagens teóricas, e, nos capítulos posteriores, brevemente, serão apresentadas as principais correntes sobre o tema – as mais importantes – e o leitor terá, no final de cada exemplar, acesso aos principais artigos sobre o assunto, com um breve comentário, e


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indicações bibliográficas para pesquisa, a fim de que possa continuar a sua descoberta intelectual. Esta coleção denomina-se Debates em Administração, pois serão apresentadas sucintamente as principais abordagens referentes a cada tema, permitindo ao leitor escolher em qual se aprofundar. Ou seja, o leitor descobrirá quais são as direções de pesquisa mais importantes sobre determinado assunto, em que aspectos estas se diferenciam em suas proposições e logo qual caminho percorrer, dadas suas expectativas e interesses. Debates em Administração deve-se ao fato de que os organizadores acreditam que do contraditório e do conhecimento de diferentes perspectivas nasce a possibilidade de escolha e o prazer da descoberta intelectual. A inovação em determinado assunto vem do fato de se ter acesso a perspectivas diversas. Portanto, a coleção visa suprir um espaço no mercado editorial relativo à pesquisa e à iniciação à pesquisa. Observou-se que os alunos de graduação, na realização de seus projetos de fim de curso, sentem necessidade de bibliografia específica por tema de trabalho para adquirir uma primeira referência do assunto a ser pesquisado e indicações para aprofundamento. Alunos de iniciação científica, bem como executivos que voltam a estudar em cursos lato sensu – especialização – e que devem ao fim do curso entregar um trabalho, sentem a mesma dificuldade em mapear as principais correntes que tratam de um tema importante na área de administração e encontrar indicações de livros, artigos e trabalhos relevantes na área que possam servir de base para seu trabalho e aprofundamento de idéias. Essas mesmas razões são válidas para alunos de mestrado strictu sensu, seja acadêmico ou profissional. A fim de atender a este público diverso, mas com uma necessidade comum – acesso a fontes de pesquisa confiáveis, por tema de pesquisa – surgiu a idéia desta coleção. A idéia que embasa Debates em Administração é a de que não existe dicotomia teoria-prática em uma boa pesquisa. As teorias, VIII


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em administração, são construídas a partir de estudos qualitativos, quantitativos e mistos que analisam e observam a prática de gestão nas organizações. As práticas de gestão, seja nos estudos estatísticos ou nos estudos qualitativos ou mistos – têm como base as teorias, que buscam compreender e explicar essas práticas. Por sua vez, a compreensão das teorias permite esclarecer a prática. A pesquisa também busca destruir preconceitos e “achismos”. Muitas vezes, as pesquisas mostram que nossas opiniões preliminares ou “achismos” baseados em experiência individual estavam errados. Assim, pesquisas consistentes, fundamentadas em sólida metodologia, possibilitam uma prática mais consciente, com base em informações relevantes. Em pesquisa, outro fenômeno ocorre: a abertura de uma porta nos faz abrir outras portas – ou seja – a descoberta de um tema, com a riqueza que este revela, leva o pesquisador a desejar se aprofundar cada vez mais nos assuntos de seu interesse, em um aprofundamento contínuo e na consciência de que aprender é um processo, uma jornada, sem destino final. Pragmaticamente, no entanto, o pesquisador, por mais que deseje aprofundamento no seu tema, deve saber em que momento parar e finalizar um trabalho ou um projeto, que constituem uma etapa de seu caminho de descobertas. A coleção Debates em Administração, ao oferecer o “mapa da mina” em pesquisa sobre determinado assunto, direciona esforços e iniciativa e evita que o pesquisador iniciante perca tempo, pois, em cada livro, serão oferecidas e comentadas as principais fontes que permitirão aos pesquisadores, alunos de graduação, especialização, mestrado profissional ou acadêmico produzirem um conhecimento consistente no seu âmbito de interesse. Os temas serão selecionados entre os mais relevantes da área de administração. Finalmente, gostaríamos de ressaltar o ideal que inspira esta coleção: a difusão social do conhecimento acadêmico. Para tanto, acadêmicos reconhecidos em nosso meio e que mostraram IX


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excelência em certo campo do conhecimento serão convidados a difundir esse conhecimento para o grande público. Por isso, gostaríamos de ressaltar o preço acessível de cada livro, coerente com o nosso objetivo. Desejamos ao leitor uma agradável leitura e que muitas descobertas frutíferas se realizem em seu percurso intelectual. Isabella F. Gouveia de Vasconcelos Flávio Carvalho de Vasconcelos André Ofenhejm Mascarenhas

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introdução

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constituição da administração como um campo das ciências sociais aplicadas é devedora da interdisciplinaridade. Desde Taylor e Fayol, que eram engenheiros, a sistematização, a consolidação e a expansão desse campo de conhecimento têm-se dado pela incorporação de saberes cujas origens, não raro, estão em outras áreas. Não é, pois, mera coincidência os marcos que caracterizam as escolas formadoras do pensamento administrativo terem sido inspirados ou terem assimilado algumas das contribuições da engenharia, da biologia, da psicologia, da sociologia, da economia, da cibernética, das ciências políticas, entre outras; em tempos mais recentes, tanto a filosofia e a antropologia quanto a psicanálise têm alimentado algumas perspectivas nos estudos organizacionais. Se, de um lado, essa diversidade de fontes constitui um dos grandes atrativos, desafios e fortalezas dessa área, pois reconhece a necessidade da construção de um saber coletivo transdisciplinar para dar conta de um objeto multifacetado e multidimensional, como é o caso das organizações; de outro, essa diversidade pode favorecer a dispersão, o relativismo exacerbado e pode mesmo transformar a área em uma presa fácil para os modismos, as receitas de gurus e as simplificações de todas as colorações. Essa permeabilidade conduz geralmente a uma postura desconfiada, que leva práticos, estudiosos e pesquisadores a se interrogarem se determinado assunto no mundo organizacional é realmente relevante ou se ele é apenas mais uma onda que vem e passa, depois de fazer alguns adeptos encantados com a última mágica capaz de elevar a produtividade a um nível inimaginável. A natureza humana empresta com relativa facilidade o seu ouvido às mensagens que lhe tranqüilizam, às que lhe prometem um mundo que canta, às que podem lhe trazer para a mesa o manjar dos deuses, de preferência sem pagar os preços e sacrifícios correspondentes. Como as organizações são palcos que freqüentamos diariamente para desenvolver nosso trabalho ou exercer nosso papel de con-


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sumidor, temos para com elas certa familiaridade e sentimo-nos todos mais ou menos habilitados a resolver os seus problemas de forma corriqueira. É nesse universo do coloquial que atuam muitos pregadores de soluções rápidas, valendo-se de aportes pinçados em diferentes matrizes do conhecimento humano, como é o caso da astrologia, da numerologia, da grafologia, do budismo ou de outras religiões e seitas, como também fazendo uso de fontes científicas de credenciada reputação, tais como a física ou a química. Nessa ótica, muitas vezes a criatividade desafia a imaginação mais desvairada. Os estudos sobre cultura organizacional surgiram de forma massiva na década de 1980 e se popularizaram com muita rapidez. Parte de suas idéias esteve presente na produção acadêmica anterior a essa data, mas a nomenclatura básica e o seu aprofundamento podem ser reconhecidos como um produto dessa época. Raros eram os temas em administração que despertavam um interesse popular e tal foi o caso dos aspectos culturais nas organizações que, em pouco tempo, o assunto passou a ser discutido nos Estados Unidos com muita desenvoltura por cineastas, romancistas, apresentadores de programas de televisão, animadores de cursos de curta duração, jornalistas não especializados em negócios etc. Os administradores ou executivos de grandes empresas, até então discretos, foram transformados em celebridades e o mundo empresarial começou a ser tratado como um espaço de glamour nas colunas sociais. Essa ampla cobertura inspirou publicações tanto com objetivos aventureiros como aquelas comprometidas com o rigor e a qualidade da análise, tornando-se simultaneamente um tema sério imprescindível na análise organizacional e também uma fórmula mágica que encheu os bolsos de muitos consultores. Estes, durante o dia, prometiam resolver todos os problemas organizacionais, preparando e treinando pessoas para uma nova cultura de empresa na semana seguinte e, durante a noite, escreviam livros sobre as suas idéias geniais para construir uma cultura forte ou para criticar a teoria do colega enquanto propunha a sua própria mais ou menos nos mesmos moldes. Outros temas foram incorporados ao debate organizacional nos últimos anos, mas a cultura organizacional continua tendo a sua importância reconhecida; podemos mesmo dizer que o seu esXII


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tudo foi rejuvenescido pelos freqüentes processos de fusão e aquisição de empresas vistos hoje, pelas novas formas de gestão de pessoas, pelos novos formatos organizacionais, pela maior internacionalização de empresas, pela importância que tem sido dada aos estudos organizacionais de cunho cross-cultural e intercultural, pela busca da sustentabilidade, pela construção de um ambiente diverso e de relações de trabalho mais civilizadas. Em 1991, publicamos o livro Cultura organizacional – Formação, tipologias e impactos, que detalhou as grandes questões que preocupavam tanto o mundo acadêmico quanto o empresarial desde o surgimento do interesse por esse assunto. Esse trabalho foi baseado na farta produção acadêmica norte-americana, pesquisada durante a nossa estada na Universidade de Nova York, no primeiro semestre de 1987, no qual buscamos respeitar o caráter histórico desses estudos, cobrindo as diferentes contribuições teóricas e práticas que o tema havia recebido. Essa obra apresentou um estado da arte e foi livro-texto em muitas disciplinas nos cursos de Administração, contudo, não foi reeditada a partir de 1997; cremos, todavia, que ela continua válida na sua historicidade e será em parte resgatada aqui. Mas o mundo contemporâneo, inclusive o acadêmico, é marcado pela rapidez das mudanças e necessidade de reavaliação permanente. As organizações, em geral, e as empresas, em particular, sofreram muitas alterações nas últimas décadas para ajustar-se e também para produzir um mercado com maior competitividade, maior integração global, mais sofisticação em vários aspectos, com aumento da cobrança pelos seus consumidores cada vez mais exigentes e vigiado por legislações mais restritivas. Assim, não é de estranhar que novos estudos sobre temas importantes tragam novas contribuições e perspectivas de análise ante o novo cenário, as novas atitudes, novas expectativas e novas descobertas e experiências que vivenciamos no universo organizacional. Este livro está estruturado em cinco capítulos e percorrerá um caminho que não é linear, ainda que respeitemos certa cronologia do nascimento do campo à incorporação de novas contribuições de autores norte-americanos e europeus. O Capítulo 1 enfatiza a construção desse campo de conhecimento, resgatando os seus primórXIII


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dios e os autores que contribuíram nessa empreitada; o Capítulo 2 trata as questões de natureza conceitual e metodológica, bem como clarifica os principais elementos que compõem a cultura organizacional; o Capítulo 3 apresenta os principais conteúdos que têm sido privilegiados por estudiosos e práticos na análise cultural; o Capítulo 4 discute a mudança cultural ao mesmo tempo que introduz algumas das incorporações temáticas mais recentes que podem alargar o escopo da análise cultural em desdobramentos futuros; por fim, o Capítulo 5 traz algumas das críticas que envolvem o tema, seja em relação aos seus aspectos conceituais e metodológicos tidos como frágeis, seja em relação a uma análise do controle social e psicológico inerente aos aspectos culturais nas organizações. Buscamos, assim, oferecer ao nosso leitor uma panorâmica sobre o assunto, como é o objetivo desta coleção, e o incentivamos a aprofundar a bibliografia indicada no que lhe interessar. Considerando que este livro recupera a construção histórica desse campo de conhecimento, a sua evolução e a perspectiva crítica, não poderíamos deixar de apresentar uma bibliografia que cobrisse alguns dos principais marcos dessas questões.

• • •

Expressamos nosso agradecimento sincero: ao nosso orientando do curso de Doutorado da EAESP/FGV, Fábio Bittencourt Meira, pela realização da pesquisa bibliográfica no período 1989-2005, em periódicos internacionais, classificação A, de acordo com os critérios Qualis, da Capes; ao Programa GV-Pesquisa, da EAESP/FGV, pela bolsa oferecida ao nosso assistente para a realização dessa tarefa; à Isabella F. G. Vasconcelos, Flávio C. Vasconcelos e André O. Mascarenhas, pelo convite para integrar o corpo de autores desta coleção que eles têm a felicidade de coordenar; à Editora Thomson, pela acolhida calorosa ao nosso nome como participante deste grande projeto;

e o carinhoso reconhecimento ao Prof. Carlos Osmar Bertero, meu orientador na época em que comecei a me interessar por essa temática e que assina o livro inaugural da coleção. XIV


SUMÁRIO 1. Nasce um campo de conhecimentos

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2. Cultura Organizacional e os seus elementos 3. Faces da análise cultural nas organizações 4. Mudança cultural eincorporações temáticas 5. Perspectivas críticas

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Bibliografia Comentada 97 Referências Bibliográficas

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capítulo

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Nasce um Campo de Conhecimentos

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oje, podemos dizer que a cultura organizacional como área temática da administração e dos estudos organizacionais não é moda; ao contrário, ela não só está consolidada como ainda desperta grande interesse teórico e prático. A cultura organizacional tem-se beneficiado de contribuições das mais diferentes ciências e áreas de conhecimento, a começar pela antropologia cultural, de quem tomou emprestados a sua lógica fundamental e alguns de seus conceitos mais caros. Não obstante a utilização desses conceitos tenha sido e ainda seja objeto de várias críticas, como teremos oportunidade de detalhar no Capítulo 5, podemos afirmar que os estudos culturais nas organizações consagraram alguns autores, colocaram em evidência a vida interna e externa de algumas das empresas mais conhecidas no mundo, mostraram uma gama de possibilidades na interpretação de eventos organizacionais, desafiaram um saber administrativo hegemônico fundado basicamente em aspectos palpáveis ou objetivos, questionaram a exclusividade e a infalibilidade da alta administração no sentido de ditar os rumos da organização, deram visibilidade e importância ao simbolismo nas organizações, instigaram novas opções metodológicas em estudos organizacionais; enfim, já foram completamente incorporados como uma abordagem relevante na análise organizacional. Pela abordagem cultural, adentrou-se o lado


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soft das organizações e a subjetividade passou a ser considerada um aspecto importante de análise nos níveis individual, grupal, organizacional e institucional. É sempre muito arriscado determinar a data de nascimento de um campo de conhecimento, pois nenhum deles se constitui sem um referencial anterior, no qual apóia alguns de seus pressupostos, conceitos, métodos e instrumentos de pesquisa e análise. Um tema novo nunca é totalmente novo, ele tem sempre um passado, ainda que discreto e modesto. Todo conhecimento é devedor de um acumulado ao longo da história, não existindo senão o conhecimento construído coletivamente. Podemos, contudo, identificar uma época que marca o discurso forte sobre determinado tema. O parâmetro que nos norteia nessa classificação de “discurso forte” é relacionado com a publicação acadêmica e a movimentação de pesquisadores da área, ou seja, quantidade de livros, artigos, palestras, conferências, cursos especiais, congressos e colóquios, dissertações, teses, pesquisas em geral que tenham interesse no estudo de tal objeto. Paralelamente à produção acadêmica, verifica-se freqüentemente a valorização desse tema pelos profissionais da área, reforçando a pesquisa e a publicação de textos mais ou menos rigorosos sobre a questão em foco. Um exercício arqueológico recente no campo da administração nos remete aos estudos sobre estratégia, que dominaram a década de 1970; a estrutura organizacional como destaque nos estudos dos anos 1960; os estudos sistêmicos como o grande foco dos anos 1950 e assim por diante. Nenhum desses discursos fortes foi exclusivo ou inteiramente novo, ao contrário, eles se destacaram em função dos debates correntes sobre outros assuntos e apresentaram uma tendência a englobar parte dos demais, apresentando-se como uma proposta mais abrangente e inovadora. A década de 1990, ainda bem forte em nossa memória, foi o início do império das reestruturações, chamadas também “reengenharias”, downsizing ou rightsizing, que consagraram termos e práticas como outplacement e empowerment e inauguraram o tempo organizacional contínuo, quer dizer, reestruturações passaram a ser práticas permanentes e não pontuais, assim como a aprendizagem deve ser constante. 2


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Afirmamos que a cultura organizacional se estabelece como o discurso forte dos anos 1980 e, além de orientar farta produção acadêmica, ele recebe ampla cobertura de revistas dirigidas ao público empresarial, como Fortune e Business Week, e, ao público em geral, como reportagens publicadas no jornal The New York Times. Aliás, foi a Business Week que abriu o caminho para a popularização do tema, por meio do artigo “Corporate culture – the hard-to-chage values that spell sucess or failure”, publicado em seu número de outubro de 1980 e que foi rapidamente convertido em referência bibliográfica na literatura que viria a surgir imediatamente na categoria best-seller. Autores como Ouchi (1982), Deal e Kennedy (1982), Peters e Waterman Jr. (1982), Pascale e Athos (1981) e Kanter (1983) ganharam ampla divulgação, e muitos deles tiveram os seus trabalhos traduzidos rapidamente para outros idiomas e quebraram recordes de vendas. Um traço comum a esses autores foi o tratamento teórico-prático do assunto, com vários exemplos de empresas bemsucedidas. Os autores citavam as características que poderiam ser consideradas as causas desses sucessos – referências sempre entusiastas do modelo japonês, lições que poderiam ser seguidas por outras empresas, o que as tornavam campeãs de sucesso, quais os valores que irradiavam a vida interna dessas companhias, o papel inspirador dos grandes líderes, como desenvolver uma cultura de sucesso e quais as mudanças mestras que mereciam atenção e ajustamento para uma cultura forte. O nível de profundidade teórica teve gradações que variaram entre uma competente análise de contexto até a receita mágica transmissível do sucesso. Parte desse tipo de literatura pode estar na origem de dois produtos de consumo rápido pelo segmento executivo de hoje: as leituras simplificadoras da realidade organizacional e os gurus com as suas receitas milagrosas. Até então, os livros destinados aos homens de negócios podiam ser considerados pesados, densos, escritos por acadêmicos, economistas renomados ou capitães da indústria, vistos como visionários, porém, que não seriam classificados na rubrica “celebridades”. Autores como Drucker, Toffler, Galbraith e Friedman não são considerados gurus ainda que as 3


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suas obras tenham sido best-sellers. Por outro lado, precisamos reconhecer que o mercado editorial em todo o mundo ganhou um produto de alta margem e rotação rápida, o que representa o sonho dourado de um setor que se caracterizava pelo giro lento de seus estoques. Houve uma modificação substantiva não só no catálogo das editoras, mas na maneira de ver o próprio negócio, ou seja, o livro como uma mercadoria não precisaria ter necessariamente o retorno apenas no médio ou longo prazos. Especificamente no caso do conteúdo do livro de W. Ouchi (Teoria Z), ele traça um comparativo entre as características culturais nas sociedades e empresas japonesas e norte-americanas, o que veio a inspirar forte movimento de turismo empresarial ao Japão, bem como a importação de técnicas tidas como responsáveis pelos desempenhos espetaculares das empresas nipônicas. Não apenas a área de produção sofreu grandes modificações para implantar processos como CCQ e Kanban, mas uma verdadeira febre tomou conta de companhias norte-americanas para construir um simbolismo organizacional evidenciado em hinos de empresas, ginásticas nos pátios e estacionamentos, rituais coletivos de culto a organização, bandeiras, slogans, celebrações grandiosas em estádios de futebol, missões e visões etc. O tipo Z, que dá título ao livro, seria o casamento dos melhores atributos percebidos nas empresas norte-americanas e japonesas, tendo como ilustração o caso da IBM, que, apesar de valorizar o talento individual, apresentaria forte coesão interna e orgulho coletivo. O filme com o título brasileiro A fábrica de loucuras levaria essa temática de sucesso cultural para as telas e seria exibido em empresas e faculdades de administração no mundo ocidental como o modelo do que poderia ocorrer de melhor em uma empresa. O grande mérito do livro de Ouchi nos parece ser o fato de ele reforçar a importância das culturas nacionais na gestão de empresas, linha de pesquisa que já vinha sendo trilhada de maneira mais discreta e profunda pelo acadêmico holandês G. Hofstede (1980), em seu livro Culture’s consequences: International differences in workrelated values – um trabalho gigantesco de pesquisa em 53 países, que foi revisado várias vezes e teve as amostras progressivamente 4


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aumentadas, sobre o qual comentaremos adiante. A preocupação com a convivência de culturas distintas traduz uma problemática cada vez mais pertinente nos dias atuais, em virtude do processo de globalização das empresas e da criação de blocos econômicos. Voltando à retrospectiva da produção acadêmica cultural, podemos citar duas obras seminais que não estiveram sob os holofotes e que, apenas no final da década de 1980, elas passaram a ser citadas mais freqüentemente como referências importantes. Referimo-nos aos livros de Elliot Jaques, do Instituto Tavistock, The changing culture of a factory, de 1951, e de Tom Watson Jr., A Business and its beliefs – The ideas that helped built IBM, de 1963, resgatando as idéias e crenças de seu pai, cuja distribuição foi restrita aos funcionários da empresa no mundo e às bibliotecas universitárias norte-americanas. A obra de Watson Jr. abriria uma trilha no mercado editorial e duas décadas depois ela seria aproveitada para difundir as histórias que louvam os traços visionários dos fundadores de grandes empresas de sucesso ou as sagas organizacionais protagonizadas pelos seus CEOs, como foi o caso dos livros sobre McDonald’s, Pepsi-Cola, GM, Chrysler, Sony, Iaccoca, entre outros. No entanto, nenhuma organização foi tão usada como referência e palco para pesquisas e estudos com diferentes abordagens que a IBM. Em 1976, o acadêmico inglês C. Handy escreve o livro Understanding Organization, no qual ele usa explicitamente o termo “cultura organizacional”, possivelmente pela primeira vez após Elliot e Watson Jr. Em 1979, Andrew Pettigrew publica o artigo “On studying organizational cultures”, que viria a tornar-se uma referência. Idéias que representam construções simbólicas e culturais nas empresas haviam sido tratadas academicamente por termos como “ideologia” e “caráter” (Harrison, 1972), “saga” (Clark, 1972), “significados” (Barnard, 1938), “missão e socialização” (Selznic, 1957), “padrões de administrar” (Likert, 1974); outros autores como Etizioni (1975) e Crozier (1964) também são vistos como importantes por levantar idéias que podemos considerar precursoras da questão cultural ou de alguns seus elementos, porém deixamos claro que nenhum desses autores se referiu a ela de forma específica. 5


Nesta obra, todo esse percurso da cultura organizacional é traçado e acrescido de uma perspectiva crítica com foco na análise dos aspectos culturais como controle social, produção imaginária e psicológica e gestão do afetivo. Cultura Organizacional faz parte da Coleção Debates em Administração, que busca fornecer ao leitor informação sucinta a respeito dos assuntos mais atuais e relevantes da área de Administração.

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Os estudos culturais nas organizações são um tema que se atualiza de acordo com as necessidades organizacionais e seu contexto histórico. Na década de 1980, se pautavam pela busca de uma cultura forte como um diferencial entre grandes empresas e o aumento nos índices de produtividade. Nos anos 1990, com o aumento da competitividade e da concorrência, a cultura passou a ser vista como um obstáculo às transformações exigidas por um ambiente de mudanças e reestruturação organizacional. A época atual incorpora a herança das reestruturações e intensifica a busca de uma cultura organizacional altamente produtiva, resultante de processos de fusões, aquisições e alianças interorganizacionais.

ISBN 13 978-85-221-0853-4 ISBN 10 85-221-0853-6

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