Psicopedagogia Clínica e Institucional

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PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E INSTITUCIONAL


PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E INSTITUCIONAL


Apresentação

Apresentação Um conteúdo objetivo, conciso, didático e que atenda às expectativas de quem leva a vida em constante movimento: este parece ser o sonho de todo leitor que enxerga o estudo como fonte inesgotável de conhecimento. Pensando na imensa necessidade de atender o desejo desse exigente leitor é que foi criado este produto voltado para os anseios de quem busca informação e conhecimento com o dinamismo dos dias atuais. Com esses ideais em mente, nasceram os livros eletrônicos da Cengage Learning, com conteúdos de qualidade, dentro de uma roupagem criativa e arrojada. Em cada título é possível encontrar a abordagem de temas de forma abrangente, associada a uma leitura agradável e organizada, visando facilitar o aprendizado e a memorização de cada disciplina. A linguagem dialógica aproxima o estudante dos temas explorados, promovendo a interação com o assunto tratado. Ao longo do conteúdo, o leitor terá acesso a recursos inovadores, como os tópicos “Atenção”, que o alertam sobre a importância do assunto abordado, e o “Para saber mais”, que apresenta dicas interessantíssimas de leitura complementar e curiosidades bem bacanas, para aprofundar a apreensão do assunto, além de recursos ilustrativos, que permitem a associação de cada ponto a ser estudado. Ao clicar nas palavras-chave em negrito, o leitor será levado ao Glossário, para ter acesso à definição da palavra. Para voltar ao texto, no ponto em que parou, o leitor deve clicar na própria palavra-chave do Glossário, em negrito. Esperamos que você encontre neste livro a materialização de um desejo: o alcance do conhecimento de maneira objetiva, concisa, didática e eficaz. Boa leitura!

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Prefácio

Prefácio Em algum momento da vida é possível que o indivíduo encontre alguma dificuldade que impeça a plenitude da sua convivência e evolução. Tratando, especificamente, do processo de aprendizagem, isso pode ser ainda mais comum e, quem sabe, complexo. Muito mais do que encontrar um motivo ou razão para eventual impedimento (de aprendizagem), viabilizar a sua superação é primordial. O questionamento que se faz nesse contexto é: a quem incumbe essa responsabilidade? Quais procedimentos deverão ser adotados para que o processo de aprendizagem possa fluir sem maiores dificuldades? A psicopedagogia, engendrada pela união de diversas áreas do conhecimento assumiu a responsabilidade de fomentar a aproximação interdisciplinar. A tarefa dessa atividade é o de conhecer os atores principais que integram o processo de aprendizagem visando melhorar essa relação, propiciando o aprimoramento das condições de cada um dos integrantes desse cenário. Para conhecer um pouco mais sobre essa atividade, apresentamos a disciplina Psicopedagogia clínica e institucional que, dividida em 4 unidades, estudará cada uma de suas vertentes. A Unidade 1 tratará da intervenção psicopedagógica clínica e a afetividade na intervenção psicopedagógica e, para tanto, explorará temas como as áreas de trabalho da psicopedagogia, a psicopedagogia clínica, o diagnóstico e a intervenção na clínica psicopedagógica, a afetividade na intervenção psicopedagógica, entre outros assuntos. Na Unidade 2, ao tratarmos da entrevista psicológica aplicada à psicopedagogia e o grupo familiar, temas como o funcionamento da entrevista psicológica inicial, o grupo familiar, o significado do sintoma na família, dados sobre o ambiente social que ajudam ou atrapalham o desenvolvimento da criança serão abordados, além de sugestões para um desenvolvimento sadio na entrevista com os pais. As dimensões do processo de aprendizagem e o problema da aprendizagem é o tema principal da Unidade 3, que apresentará, também, tópicos que tratarão das dimensões do processo de aprendizagem, da dimensão cognitiva e social, do organismo, dos níveis da aprendizagem e dos fatores causadores dos problemas de aprendizagem, entre outros.

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Os assuntos função preventiva e a função curativa, a criança e a escola são discutidos na Unidade 4, que traz, ainda, o estudo de temas como a criança e a escola, as áreas emocional e afetiva, as áreas moral e sexual, bem como a escola como fator desencadeante e/ou exacerbador de neurose infantil. Desejamos um excelente estudo.


Unidade 1 – A intervenção psicopedagógica clínica e a afetividade...

UNIDADE 1

A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA CLÍNICA E A AFETIVIDADE NA INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA Capítulo 1 As áreas de trabalho da psicopedagogia, 10 Capítulo 2 A psicopedagogia clínica, 11 Capítulo 3 Diagnóstico e intervenção na clínica psicopedagógica, 14 Capítulo 4 Afetividade na intervenção psicopedagógica, 23

Glossário, 27

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1. As áreas de trabalho da psicopedagogia Raro não encontrar quem um dia tivesse tido dificuldades para aprender. Os obstáculos são necessários para o processo de aprendizagem. No entanto, quando eles são muito intensos e recorrentes é necessário intervir. E é justamente neste momento que a psicopedagogia dá a sua contribuição aos alunos, professores e aos pais, em termos de otimização do processo de ensino-aprendizagem. A psicopedagogia foi concebida como a confluência de diversas áreas do conhecimento, principalmente, a Pedagogia, a Psicologia, a Didática, dentre outras, assegurando-se como um corpo de conhecimento complexo que requer uma aproximação interdisciplinar. Essa ciência nos permite conhecer a situação do processo de aprendizagem dos sujeito com a intenção de melhorar e atuar sobre ele, para fazer o aluno aprender efetivamente. Ela pode agir na vida do aluno, intervindo no seu processo de estudo e aprendizagem ou na vida do docente e dos recursos externos, incorporando conhecimentos e técnicas para a melhoria da aprendizagem do aluno. O psicopedagogo é um profissional que trabalha no âmbito da prevenção, do diagnóstico e do tratamento de dificuldades de aprendizagem escolar e de aprendizagem, em um sentido mais amplo. Ele se dedica à análise, ao planejamento, ao desenvolvimento e à adequação dos processos educativos. Possui sólidos conhecimentos e investiga acerca de fatores que interferem nos processos de


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ensino e aprendizagem, tanto do ponto de vista do sujeito que aprende (determinantes neurológicos, intelectuais, afetivos) como dos contextos nos quais ele está inserido (socioculturais e educativos). As áreas de trabalho do psicopedagogo são a institucional e a clínica. Na primeira, ele atuará em instituições educativas, orientando pais e docentes em relação ao ensinar e ao aprender. Também poderá assumir o papel de suporte e de assessoramento em caso de crianças com dificuldades de aprendizagem, com a finalidade de garantir a sua inserção adequada na instituição. Isso inclui desde orientação e assessoramento a docente e famílias, coordenação de especialistas para planejar estratégias comuns para lidar com o caso em questão, até adaptações de currículo no caso de dificuldades mais severas, permitindo, assim, a integração de alunos portadores de necessidades educacionais especiais. É ainda tarefa do psicopedagogo institucional intervir na concepção e na implementação de programas e projetos de atualização e formação de profissionais nas áreas de educação e saúde mental, bem como supervisionar equipes interdisciplinares envolvidas nas instituições de ensino. Na segunda área, a Clínica, o psicopedagogo se dedica, principalmente, ao diagnóstico e tratamento dos transtornos do desenvolvimento e das dificuldades de aprendizagem em crianças e adolescentes. O trabalho é feito individualmente com o paciente e em coordenação com a escola, a família e outros profissionais (fonoaudiólogos, psicomotricistas, neurologistas, psiquiatras, neuropsicólogos, assistentes sociais, psicólogos) que são os profissionais mais frequentemente ligados ao trabalho em psicopedagogia. A psicopedagogia clínica exerce o papel da intervenção terapêutica/curativa, uma vez que existe um profissional especializado no caso, o psicopedagogo, e um sujeito que possui dificuldade de aprendizagem. Já a psicopedagogia institucional exerce o papel preventivo, identificando possíveis perturbações no processo de aprendizagem e promovendo orientações metodológicas conforme as características dos indivíduos e grupos.

2. A psicopedagogia clínica Tradicionalmente, vincula-se o clínico à enfermidade. Na verdade, o termo é oriundo da medicina, já que a raiz da palavra clínica é “kliné” que, em grego, significa “cama”. Portanto, não é difícil associar esse termo com doença, patologia. No entanto, se partirmos do princípio de que o objeto de estudo da psicopedagogia é o ser humano, temos que parar neste momento para reconsiderar o objeto da clínica: um ser humano único, particular e integral. Uma pessoa com a qual o mapa genético foi criado de forma única. Então, a clínica não se ocupa de uma patologia ou um problema de aprendizagem,

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mas de uma pessoa concreta, real e única, que sente e pensa, e que encontra obstáculos no seu processo de aprendizagem. Assim, a palavra clínica remete a duas questões fundamentais: em primeiro lugar, implica uma escuta particular do que sente/vivencia o sujeito; em segundo lugar, a possibilidade de teorizar acerca de modelos teóricos que dão conta do funcionamento do sujeito como tal. Com essa visão, o objetivo da psicopedagogia clínica é abordar o sintoma, tratar suas causas, favorecendo a elaboração de um processo cognitivo novo, mais saudável e benéfico, centrado no sujeito que apresenta o sintoma. Para Bossa (2011), o papel do psicopedagogo clínico é criar um espaço de aprendizagem que dê ao sujeito a possibilidade de conhecer o que está em seu entorno, o que dificulta a aprendizagem, para que juntos consigam mudar a história da não aprendizagem. A clínica questionará por que o sujeito não aprende, se ele pode aprender, se deseja e se isso tem a ver com a sua motivação interna, e se tem possibilidades familiares e sociais para aprender. Uma visão clínica se opõe a uma visão homogênea como se observa com a administração de testes padronizados, sem uma análise qualitativa que forneça uma visão mais subjetiva.

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TENÇÃO! Psicopedagogia Clínica é a ciência que permite estudar a pessoa e o seu meio em diferentes estágios da aprendizagem que englobam a sua vida. Ela se dedica ao diagnóstico e tratamento de crianças, adolescentes e adultos com dificuldades para aprender no âmbito educativo, emocional e social.

As particularidades subjetivas, familiares, sociais e culturais devem ser o foco, e não fatores acessórios da tarefa clínica. É importante aprofundar as abordagens teóricas e ao mesmo tempo formular questões-chave para a prática em cada tipo de experiência e cada caso em particular. A clínica, por si só, já implica uma indagação constante e permanente. Da mesma forma que a aprendizagem não é apenas sistemática, o clínico em Psicopedagogia não é só trabalho de consultório. Ter um olhar clínico é perceber


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o ser humano em sua singularidade. Falar de Psicopedagogia Clínica, então, refere-se a levar em consideração a singularidade do indivíduo ou grupo.

Objetivos específicos da psicologia clínica A psicologia clínica possui alguns objetivos. Entre eles, temos: a) A compreensão científica da educação em seus contextos sociais – educar implica uma exigência vital e cultural que tem lugar no comportamento do ser humano como consequência tanto de impulsos internos de desenvolvimento individual, quanto de exigências sociais de adaptação a situações de mudança e os ideais de “modelação” de personalidade, segundo esquemas e hierarquias de valores vigentes. A partir dessa abordagem, é possível argumentar que a educação é um produto simultâneo de três pressões: • a maturidade e o desenvolvimento interior de cada indivíduo em seu processo de crescimento; • as condições econômicas de manutenção e transformação de uma sociedade com ritmo mais lento ou mais acelerado; • os valores dos grupos, classes e instituições que garantem a supremacia ou renovação de certas crenças ou padrões. A educação constitui hoje uma das principais formas de comunicação, penetrando todas as estruturas sociais. Ela é um dos recursos mais eficazes e necessários de mobilidade social e profissional, já que – entendendo-a em seu sentido mais amplo – se refere tanto a um processo sistemático, como o que ocorre em escolas, faculdades e universidades, quanto a um processo assistemático de formação e promoção, como o que ocorre em uma empresa. No entanto, é possível dizer que a educação se encontra há algum tempo em crise. É uma crise de fundamentos e de precisão de objetivos devidamente organizados em um sistema estável de valores e princípios consistentes, que não se encontram submetidos a pressões do momento. A educação como instrumento de mudança social, deve controlar, regular e gerir a mudança, mas não ser um mero brinquedo de manifestações parciais de tal mudança. Ou seja, a educação deve ser estruturada com base em uma reflexão consciente do seu sentido, das expectativas, das atitudes e das exigências; b) Conhecimento sobre a natureza e as mudanças de desenvolvimento – o conhecimento dos princípios biológicos, psicológicos e sociais que favorecem ou dificultam o desenvolvimento do ser humano permite traçar um marco de referência concreto a planos e programas de metodologia de ensino. As atividades educativas e os instrumentos do saber são significativos e valiosos na medida, mas devem ser adequados e coerentes com as fases de desenvolvimento e estar de acordo com os interesses e as disposições da aprendizagem;

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c) O processo e as formas de aprendizagem – tradicionalmente, o processo de aprendizagem tem sido um dos objetivos da psicopedagogia. Esse processo trata de ajudar o professor a entender em que situações e em que relação com outros fatores de maturação, personalidade e estímulos sociais são produzidas mudanças significativas no comportamento, como consequência do esforço do ser humano para se adaptar às novas condições do ambiente ou procurar modificá-lo; d) O estudo das diferenças humanas e seu envolvimento na educação – o quarto objetivo específico da Psicologia Clínica está relacionado com a capacidade de a ciência determinar as diferenças individuais e socioculturais, para promover um ensino “personalizado”, de acordo com a individualidade do aluno e as particularidades de grupos e subgrupos culturais. Não é conveniente continuar realizando uma educação massificada e rígida, que se aplica de forma indiscriminada, sem considerar a individualidade e diversidade dos alunos. Cada aluno tem suas próprias potencialidades que devem ser devidamente consideradas pelo professor, permitindo ao estudante ter progressos em seu processo de formação.

3. Diagnóstico e intervenção na clínica psicopedagógica O diagnóstico psicopedagógico é um processo através do qual se descreve, classifica, explica o comportamento de um sujeito no contexto de aprendizagem. Inclui um conjunto de atividades de medição e avaliação da pessoa (ou grupo) com a finalidade de compreender o modo como o paciente aprende e os desvios ocorridos nesse processo.

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TENÇÃO! O diagnóstico psicopedagógico é um processo em que se procura encontrar o sentido histórico subjetivo (conhecer a natureza) dos problemas de aprendizagem de um sujeito através da análise de suas dificuldades de aprendizagem (sinais e sintomas). As crianças com problemas em sua aprendizagem apresentam restrições em sua produção simbólica, além de distúrbios significativos no domínio de algumas ou de todas as áreas do conhecimento.

O diagnóstico psicopedagógico tem como objetivos ou propósitos: a) verificar o progresso do sujeito em direção às metas educativas estabelecidas previamente no âmbito cognitivo, afetivo e psicomotor; b) identificar fatores da situação de ensino-aprendizagem que podem interferir no ótimo desenvolvimento individual; c) adequar a situação de ensino-aprendizagem às características e necessidades de cada sujeito, a fim de assegurar seu desenvolvimento contínuo e ajudá-lo a superar as dificuldades.


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Levando em consideração esses objetivos, as funções principais do diagnóstico psicopedagógico são: a) função preventiva e preditiva: trata de conhecer as possibilidades e limitações do indivíduo para prever o desenvolvimento e o aprendizado futuros; b) função de identificação do problema e da sua gravidade: pretende averiguar as causas, os fatores pessoais ou ambientais, que prejudicam o desenvolvimento do sujeito a fim de modificá-los ou corrigi-los; c) função de orientação: sua finalidade é propor pautas para a intervenção, de acordo com as necessidades identificadas; d) função corretiva: reorganizar a situação atual mediante a aplicação da intervenção e de recomendações oportunas. O diagnóstico é uma investigação em si, é uma pesquisa (Weiss 2012). Ele se faz necessário quando o sujeito não se sai bem diante de uma conduta esperada, quando não aprende, ou aprende com dificuldade, ou de forma lenta. O diagnóstico é o ponto chave de uma intervenção eficiente. Conhecer técnicas e instrumentos não é suficiente, pois cada caso é único e requer do psicopedagogo, além de habilidades teóricas, uma visão sensível e singular. Cada paciente tem sua história, suas particularidades e suas relações de grupo, portanto, a cada paciente, um novo começo, uma nova visão.

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Nesse sentido, o sucesso de um diagnóstico não está na quantidade de instrumentos utilizados, mas na sensibilidade do psicopedagogo em explorar os aspectos evidenciados em cada situação. Segundo Weiss, o objetivo do diagnóstico psicopedagógico é identificar os desvios e os obstáculos apresentados no Modelo de Aprendizagem do indivíduo que o impossibilitam de aprender conforme o esperado. Fernández (1991) salienta que o diagnóstico possui a mesma função que a rede tem para um equilibrista, ou seja, serve como base para a intervenção. A relação entre psicopedagogo e paciente também é essencial para o processo do diagnóstico. Ter empatia, isto é, identificar-se com o outro, apresentar confiança, respeitar o outro, implicará na validade e na qualidade do diagnóstico. O inter-relacionamento dinâmico e de condutas interdependentes, a comunicação estabelecida entre os dois fazem com que o psicopedagogo aja sobre o paciente sempre que ele apresentar uma conduta não normal. Tudo na comunicação com o paciente deverá ser observado: a fala, a palavra, os gestos etc. O processo do diagnóstico psicopedagógico clínico abarca várias etapas: motivo da consulta, história vital, hora do jogo, provas projetivas, entre outras.

Motivo da consulta Entrevistam-se os pais para extrair dados importantes sobre as estruturas predominantes entre filhos e pais, a partir da análise da forma como estes últimos se apresentam e se posicionam frente ao problema da criança. Pain (1985) destacou que, no motivo da consulta, é fundamental observar por que e por quem o paciente chegou até o psicopedagogo, se foi recomendação da escola, da professora, dos pais, do médico. Ainda de acordo com a autora, o primeiro momento com a família é para levantar hipóteses sobre alguns aspectos fundamentais para o diagnóstico das dificuldades de aprendizagem: a significação do sintoma para a família e na família, as expectativas que ela tem em relação à intervenção psicopedagógica etc. É essencial deixar que os pais falem livremente, sem o psicopedagogo fazer perguntas particularizadas. É o momento no qual se escuta a família a fim de que ela elenque os motivos pelos quais procurou ajuda psicopedagógica e, também, os fatores que acredita serem os causadores da não aprendizagem do paciente. A entrevista do motivo da consulta possibilita conhecer as expectativas que os pais têm em relação à intervenção psicopedagógica. Muitos pais assumem as consequências e resistem à ação do psicopedagogo.

História vital Após conhecer um pouco seu paciente, o psicopedagogo realiza uma segunda entrevista com os pais: o momento da história vital no diagnóstico. Dá-se a pa-


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lavra aos pais, principalmente à mãe, que falam livremente, sendo instruídos somente quanto ao tema geral. Nessa etapa, o psicopedagogo utiliza a anamnese (do grego “anamnesis” = trazer à mente) significa “reunião”, “reminiscência”, “recordação”. A anamnese tem como objetivo geral trazer para o presente as lembranças do passado, recuperando informações registradas em épocas anteriores.

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TENÇÃO! A anamnese é a reunião de dados subjetivos, relativos a um paciente, a fim de compreender sua história familiar e pessoal, experiências e, em particular, recordações que serão usadas para investigar a situação clínica.

A anamnese ajuda o psicopedagogo a reconstruir a história de vida do paciente para que possa compreender o que levou ao aparecimento das dificuldades de aprendizagem. Esta entrevista é de fundamental importância no processo de diagnóstico, uma vez que é ela permite recuperar antecedentes significativos da história do sujeito que podem incidir em suas restrições simbólicas. Para isso, é necessário reconstruir com os pais a história de vida da criança, permitindo encontrar alguns dos fatores que operam na fratura ou na restrição de suas produções. Para iniciar a história de vida, o psicopedagogo deverá começar a indagar sobre os antecedentes natais, ou seja, sobre os aspectos relacionados às condições da criança e da sua mãe desde a gestação até o nascimento. Os antecedentes natais se subdividem em: pré-natais (durante a gravidez), perinatais (durante o nascimento) e pós-natais (depois do nascimento). Causas pré-natais Tem a ver com as condições de gestação e as expectativas familiares quanto à chegada da criança. Certamente, durante a gravidez podem ocorrer vários fatos que afetam o sistema nervoso central do feto. As enfermidades que a mãe contrai, as intoxicações, a higiene e a nutrição durante a gravidez têm consequências sobre o desenvolvimento do feto. Recentemente, a grande preocupação tem sido quanto

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às crianças expostas “pré-natalmente” às drogas, incluindo as drogas legais como o álcool, o cigarro e os remédios. Causas perinatais Referem-se às circunstâncias do parto, principalmente aquelas que podem trazer sofrimento ou lesão ao feto. Desde muito tempo, sabe-se que as crianças nascidas prematuramente têm maior incidência de problemas de desenvolvimento do que as crianças que nascem no tempo certo. Muitas crianças prematuras, no entanto, não experimentam dificuldades. Durante o nascimento também podem ocorrer problemas que reduzem o fluxo de oxigênio do cérebro, como por exemplo, quando nascem com o cordão umbilical enrolado ao pescoço. Felizmente, a tecnologia moderna tem contribuído para reduzir esses casos. Falta de dilatação, postergação de parto cesárea, o uso de manobras ou pinças, feridas ou acidentes ocorridos durante o nascimento podem ocasionar algum dano cerebral, o que resultará em posteriores distúrbios de aprendizagem. Causas pós-natais Existem vários fatores pós-natais que podem prejudicar o sistema nervoso central, entre eles, febres muito altas com convulsões, doenças como encefalite e as feridas na cabeça provocadas por acidentes. Uma criança desnutrida pode ter um desenvolvimento cerebral deficiente. Alguns fatores pós-natais podem causar distúrbios de aprendizagem mesmo quando não há danos no sistema nervoso central. Por exemplo, Valquíria sofreu muito, durante a primeira infância, com dores de ouvido. Sua audição foi afetada, o que provocou um atraso no seu desenvolvimento linguístico. Quando Valquíria entrou na escola, sua audição era normal, mas ainda não havia adquirido alguns conceitos que a maioria das crianças de sua idade já tinha aprendido, como as cores, os números, a compreensão de acima, abaixo etc. Sua habilidade para escutar e compreender não havia se desenvolvido o suficiente. Valquíria tinha problemas para aprender e pronto: foi identificado um distúrbio de aprendizagem. Há outros motivos em que algumas crianças começam a escola sem terem sido expostas a conceitos e materiais com os quais as demais crianças já se encontram familiarizadas. Talvez a família não disponha de meios econômicos para promover essa exposição. Quem sabe os pais também possuam distúrbios de aprendizagem e nunca receberam ajuda na escola, e não sabem como ajudar seus filhos.


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Ainda na lista da história de vida do sujeito, outros aspectos são indagados pelo psicopedagogo, tais como as doenças, o desenvolvimento e a aprendizagem. Com a obtenção desses dados e dos anteriores, o psicopedagogo começará a encaixar as peças e a delinear suas hipóteses.

Hora do jogo Na clínica psicopedagógica, o jogo parece ser um dado adquirido. Ele é essencial para observar o desenvolvimento motor, social, cognitivo e afetivo do paciente. Alguns questionamentos são feitos: de qual jogo se está falando ou a qual se refere? Qual é o jogo e a jogada passível de se realizar? As indagações são diversas. Quando trabalhamos na clínica psicopedagógica com crianças, quer individualmente ou em grupos, é o jogo que se “desenrola” diante de nós ou com os outros. Os fatores que influenciam são vários: o contexto clínico é um deles. Mas, dentro desse contexto dependerá também a qualidade lúdica que o psicopedagogo irá oferecer, de modo a ampliar seus níveis de expressão ou restringi-los. Segundo Pain (1985), o lúdico oferece informações de esquemas que integram e organizam o conhecimento em uma esfera representativa. Por isso, o jogo (a observação do jogo e do paciente) assume o papel de grande importância no diagnóstico das dificuldades de aprendizagem na infância. Na clínica psicopedagógica, os jogos ajudarão o profissional a analisar como o paciente se aproxima do desconhecido, se apropria ou não dele. Na hora do jogo, o paciente mostrará sua maneira de agir para conhecer, aprender e resolver uma situação-problema.

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Uma das primeiras perguntas que surge é para onde se vai olhar. O mesmo jogo e um mesmo modo de jogar podem ser lidos a partir de vários ângulos. Dependerá, naturalmente, do objetivo e da abordagem teórica. Os jogos e o jogar permitem “ler” – com extremo cuidado – muitos aspectos inerentes ao ser humano: culturais, sociais, psicológicos, de maturação etc. Com crianças pequenas o jogo favorece a expressão simbólica e sem pressão, não só das suas projeções internas mas, também, do seu nível de pensamento. Isso se reflete tanto em um jogo de tabuleiro e regrado, como em um jogo de caráter mais simbólico. Existem jogos de regras implícitas e jogos de regras explícitas (Kishimoto, 1998). Os primeiros são aqueles cujas regras irão variar segundo cada jogador; já no segundo, as são regras são dadas de antemão. Portanto, se nós contamos com esses dois tipos de jogo, seria importante, então, considerar ambos e não nos limitarmos a um único apenas. As possibilidades de leitura que teremos em ambos os casos dependerá exclusivamente do nosso olhar. Em jogos de regras implícitas, a regra adotada tem um caráter mais hábil e menos rígido do que em jogos de regras explícitas, em que o controle social também se torna presente. Em jogos de regras implícitas, os níveis de expressão podem ser maiores do que em outros jogos e, consequentemente, os níveis observados também serão diferentes. Se quisermos considerar o jogo como estratégia pedagógica, a fim de deduzir certos níveis pedagógicos e de aprendizagem da criança ou das crianças a partir de seus jogos e do seu jogar, devemos estar atentos para determinar certos aspectos, oferecendo também diversas oportunidades lúdicas, de modo a não limitar o nível de expressão. Nesse sentido, devemos observar, para além da temática do jogo escolhido, as estratégias utilizadas para desenvolver o jogo e o jogar. Ao oferecer diferentes possibilidades de jogo podemos, em primeiro lugar, observar quais são as preferências da criança, o que, em parte (mas não totalmente), depende da idade.

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TENÇÃO! A idade não determina o jogo e jogar das crianças, mas traz algumas marcas quanto às suas preferências e possibilidades. Assim, não devemos ignoramos o fator cultural, que é uma variável essencial no jogo e no jogar. O jogo e o jogar cumprem diferentes funções em diversas culturas, por isso não devemos remover e/ou transpor levemente conceitos que não se correspondem.

Também devemos ter cuidado em selecionar o material que oferecemos para jogar, bem como as propostas lúdicas apresentadas. Se as propostas que realizamos não correspondem à realidade cultural da criança, dificilmente nossa leitura responderá a parâmetros reais da criança e de sua aprendizagem.



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PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E INSTITUCIONAL

Psicopedagogia clínica e institucional foi elaborado para proporcionar uma visão sobre a intervenção psicopedagógica clínica, a afetividade na intervenção psicopedagógica e a entrevista psicológica aplicada à psicopedagogia. Nesta obra o autor trata do grupo familiar, quais são as dimensões do processo de aprendizagem, apresenta os problemas da aprendizagem e seus fatores. Iremos ainda conhecer a diferença entre a função preventiva e a função curativa e tratar a relação da criança e a escola – esta última como fator desencadeante e/ ou exacerbador de neurose infantil.