Issuu on Google+

Universidade de Brasília - UNB Faculdade de Comunicação Comunicação Social - Audiovisual Disciplina: Projeto Experimental Professor Orientador: Gustavo de Castro e Silva

Mídia e Literatura: Jorge Amado, o poeta das putas e vagabundos Autora: Luciana Ribeiro Rodrigues

Brasília - DF, Janeiro - 2011


Universidade de Brasília - UNB Faculdade de Comunicação Comunicação Social - Audiovisual Disciplina: Projeto Experimental Professor Orientador: Gustavo de Castro e Silva

Mídia e Literatura: Jorge Amado, o poeta das putas e vagabundos Autora: Luciana Ribeiro Rodrigues

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social, Habilitação Audiovisual, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social, sob orientação do Professor Gustavo de Castro e Silva.

Brasília - DF, Janeiro – 2011


FICHA CATALOGRÁFICA

Rodrigues, Luciana Ribeiro Mídia e Literatura: Jorge Amado, o poeta das putas e vagabundos. Brasília, 2011. 107 páginas. Monografia apresentada à Universidade de Brasília, para a obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social. 1. Comunicação Social

2. Literatura

3. Monografia


Universidade de Brasília - UNB Faculdade de Comunicação Comunicação Social - Audiovisual Disciplina: Projeto Experimental Professor Orientador: Gustavo de Castro e Silva

Membros da banca examinadora

Membros da banca

Assinatura

1. Professor(a) orientador(a): Gustavo de Castro e Silva 2. Professor(a) convidado(a): Luiz Martins da Silva

3. Professor(a) convidado(a): Maria Jandyra Cavalcanti Cunha

Menção Final

Brasília - DF, Janeiro - 2011


AGRADECIMENTOS

Agradeço ao professor Gustavo de Castro, meu orientador, por me guiar e me dar segurança no decorrer da elaboração deste trabalho. Agradeço também aos membros da banca examinadora, os professores Luiz Martins da Silva e Maria Jandyra Cavalcanti Cunha, pela atenção dedicada a esta monografia, pela análise feita e pelos possíveis comentários capazes de aperfeiçoá-la. Não menos importantes foram os amigos e colegas de curso, disponíveis para trocar idéias e ouvir minhas descobertas quando, na verdade, não aguentavam mais o nome “Jorge Amado”. Em especial, agradeço a Heitor Albernaz pela ajuda prestada na parte gráfica desta monografia, além da ajuda oferecida no decorrer de todo o curso, com noites mal dormidas, prazos curtos e situações de estresse. Fora do ambiente acadêmico, agradeço a minha mãe pelos inúmeros textos sobre como fazer uma monografia, pelo cuidado para que eu não perdesse os prazos e pelas correções ortográficas, além das diversas sugestões de modificações. Enfim, agradeço a todos que, com conselhos e paciência, tornaram a elaboração deste trabalho tranquila e prazerosa.


“Com o povo aprendi tudo quanto sei, dele me alimentei e, se meus são os defeitos da obra realizada, do povo são as qualidades porventura nela existentes. Porque, se uma virtude possuí, foi a de me acercar do povo, de misturar-me com ele, viver sua vida, integrar-me em sua realidade. Quem não quiser ouvir pode ir embora, minha fala é simples e sem pretensão.” (AMADO, J. Os Pastores da Noite, 1964).


SUMÁRIO Lista de ilustrações, 7 Resumo, 9 Abstract, 10 Introdução, 11 Referencial teórico, 16 1. Duas fases, duas vidas, um mesmo autor, 19 2. Como Jorge Amado conheceu seus personagens pelas ladeiras e portos da Bahia, 23 3. Jornalismo, uma outra face da literatura, 25 4. Jorge Amado em outros veículos, 28 5. Linha tênue entre ficção e realidade, 33 6. Personagens de outro plano, 36 7. Características e influências das obras, 37 8. O marginalizado como protagonista, 43 9. Meninos abandonados, 46 10. Homens sem rumo, 64 11. Mulheres “perdidas”, 69 Conclusão, 83 Anexos, 86 Referências bibliográficas, 104


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Imagem 1 - “Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de ‘Gabriela, cravo e canela’ ”. Retirada do site <http://www.emule.com.br/lista.php?keyword=Caymmi&ordem=CAROS>. Acesso em: 12 jan, 2011. 18h. Imagem 2 - Cartaz da peça “A morte de Quincas Berro D`água”, baseada no livro e encenada em Salvador. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12575&ordena=1>. Acesso em: 12 jan, 2011. 18h 15min.

Imagem 3 - Transmutação para os quadrinhos da obra Jubiabá. Retirada do site <http://www.spacca.com.br/page5.aspx>. Acesso em 12 jan, 2011. 18h 26min.

Imagem 4 - Tieta e o sobrinho seminarista. Ilustração de Calasans Neto para o livro “Tieta do Agreste”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12587&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 18h 29 min. Imagem 5 - Dona Flor com Vadinho. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12573&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 18h 36min. Imagem 6 - Dona Flor com Teodoro. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12573&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 18h 40min. Imagem 7 - Gato na zona de meretrício. Ilustração de Poty para o livro “Capitães da Areia”. Retirada do site


<http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12572&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 18h 44min. Imagem 8 - Volta Seca como cangaceiro. Ilustração de Poty para o livro “Capitães da Areia”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12572&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 18h 47min. Imagem 9 - Suicídio do Sem-Pernas. Ilustração de Poty para o livro “Capitães da Areia”. Retirada do livro “Roteiro de leitura: Capitães da areia de Jorge Amado” (GOMES, 1996).

Imagem 10 - Serenata de Vadinho para Dona Flor. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12573&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 19h 10min. Imagem 11 - Morte de Vadinho. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12573&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 19h 20min.

Imagem 12 - Quincas Berro Dágua pelas ruas de Salvador. Ilustração de Carybé. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12575&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 19h 25min. Imagem 13 - Cabaré da Gorda Carla. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”. Retirada do site <http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12573&ordena=1>. Acesso em 12 jan, 2011. 19h 30min.


RESUMO

Jorge Amado (1912 - 2001) foi um dos escritores brasileiros de maior popularidade dentro e fora do Brasil, escrevendo a respeito do povo e para ele. Constantemente na mídia, tendo suas obras traduzidas para 48 línguas e reeditadas várias vezes, é também o romancista mais posto nas telas de cinema e televisão. Aproveitando essa repercussão, apresentou o povo baiano ao exterior e, dando preferência aos personagens marginalizados, retratou a vida do povo simples da Bahia, criticando através deles a exclusão e o descaso com que são tratados. A partir de sua biografia, pode-se analisar como ocorreu a preferência do autor pelos excluídos, tendo esse posicionamento base em sua infância e juventude, além de estar ligado ao seu engajamento político e suas relações de amizade. Alguns grupos de indivíduos, como as crianças abandonadas, os malandros e as prostitutas, são personagens recorrentes em suas obras e a partir deles pode-se fazer uma análise da opinião do autor acerca da sociedade. Através deles, Jorge Amado denunciou as classes dominantes, criticando o preconceito e a hipocrisia com que tratam os marginalizados, além de apresentar soluções para alterar esse quadro, demonstrando otimismo e esperança.

Palavras-chave: Comunicação, Literatura, Mídia, Jorge Amado, Marginalizados.


ABSTRACT Jorge Amado (1912 - 2001) was one of the greatest Brazilian writers of popularity inside and outside Brazil, writing about the people and for him. Constantly in the media, having his works translated into 48 languages and reprinted several times, the novelist is also the one that has more works on movie screens and television. Taking advantage of this repercussion, presented the people of Bahia to the other countries and, giving preference to those marginalized characters, portrayed the life of the common people of Bahia, criticizing through them the exclusion and indifference with which they are treated. From his biography can be analyzed how started the preference of the author by the excluded, analyzing for it his childhood and youth, besides his political engagement and their friendly relations. Some groups of individuals such as children abandoned, rascals and prostitutes, are recurring characters in his works and from them we can do an analysis of the author's opinion about society. Through them, Jorge Amado denounced the ruling classes, criticizing the bias and hypocrisy in dealing with the marginalized and presents solutions to change this situation showing optimism and hope. Keywords: Communication, Literature, Media, Jorge Amado, Marginalized.


Introdução

Jorge Amado (1912-2001) é considerado um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, apesar de ter negado tal posto com convicção. Segundo afirmou à equipe do “Cadernos de Literatura Brasileira” (1997, n. 3, p. 6), em um número exclusivo sobre sua pessoa, não pode ser comparado com escritores como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, mestres no estilo. Apesar disso, nem ele poderia negar o alcance que suas obras tiveram, dentro e fora do Brasil. É sempre mencionado quando se fala em escritores brasileiros e todos sabem citar pelo menos um de seus livros, tendo alcançado impressionante popularidade em um país de maioria analfabeta. Isso ocorre, provavelmente, devido à vasta gama de seus personagens inspirados no povo brasileiro e, mais destacadamente em sua segunda fase, à alegria e bom humor com que conseguiu contar histórias, fossem de amor, fossem sobre a morte. Sem deixar de provocar o pensamento, provocou o riso, o que lhe garantiu o termo de escritor solar. Jorge Amado descreveu a Bahia de maneira tão próxima e tão real que suas obras são usadas como retrato da sociedade, com seus costumes, valores e tradições, podendo-se analisar através delas os aspectos históricos e econômicos de determinadas épocas. O escritor retratou, através de seus personagens, a “nação” baiana, onde o conceito de nação é o de quem “tem seu próprio imaginário, seus deuses, anjos, demônios e santos que vivem nas tradições nacionais, cujas estórias e feitos alimentam nosso imaginário desde o berço” (Hegel, 1974) (informação verbal)1. E se o princípio básico que constitui uma nação é, em primeiro lugar, a posse comum de um rico legado de memórias, e, em segundo lugar, o desejo de perpetuar o valor dessa herança cultural, Jorge Amado satisfez esse desejo, até onde lhe coube, criando personagens ficcionais ao contar histórias de pessoas reais, trazendo a realidade para seus livros e, com isso, apresentando a Bahia ao Brasil e ao mundo.

1

Conceito trabalhado pela professora Célia Ladeira, na aula Oficina Avançada de Narrativas da

Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.


Mas, se dizem que Jorge Amado fez a Bahia, ele afirmou que foi ela quem o fez. Nada mais lógico, então, do que retratar esse povo, por ele tão admirado. Colocando o povo brasileiro como personagem, conquistou-o como leitor, em um círculo de admiração e consideração mútuas. Segundo o economista Celso Furtado, em “Cadernos de Literatura Brasileira” (1997, n. 3, p. 33), o autor afirmava que seu trabalho era observar pessoas e não explicar a sociedade. Por isso, mesmo que se possa analisar em suas obras as injustiças sociais e as relações de trabalho, o que predomina em suas histórias é a densidade dos personagens. Essa densidade permite um processo de identificação do leitor que resulta em autoconhecimento, ao mesmo tempo em que incentiva a conscientização da força transformadora do ser humano, capaz de modificar a sua situação e a dos demais. Apesar da esperança de mudanças, Jorge Amado era um otimista e continuou assim até sua morte. Segundo Mario Vargas Llosa, que o conheceu quando ainda era um estudante universitário, tal otimismo refletiu-se em suas obras e na visão que propunha sobre a condição humana, sem que isso implicasse em ingenuidade do autor. É, na verdade, o que oferece uma “saúde moral” às suas histórias, uma visão “sadia” da existência, tão rara hoje em dia entre os escritores. Segundo ele, Jorge Amado recriou um universo onde todas as desventuras do mundo não são capazes de quebrar a vontade de sobrevivência, a alegria de viver, a agradável habilidade de sempre superar as adversidades, que animam seus personagens [...] uma existência que, apesar de todas as misérias que carregue, sempre estará repleta de oportunidades de gozo e felicidade. (LLOSA, M. V. In: CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1997, n. 3, p. 39).

Jorge Amado criou mais de 500 personagens, espalhados em uma vasta bibliografia, entre romances, contos, biografias e poesias. Foi traduzido para 48 idiomas, do espanhol ao coreano, passando pelo russo, inglês e francês, e assim contou suas histórias e levou o povo baiano para mais de 52 países. Segundo o jornalista Geraldo Mayrink, no livro “Jorge, le rouge”, no ano de 1972, após lançar “Tereza Batista cansada de guerra”, o nome Jorge Amado foi citado pela imprensa cerca de trezentas vezes em apenas um mês, dado impressionante até mesmo para presidentes da República. Amigo de Saramago, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pablo Neruda, era também amigo de Mãe Menininha, Mãe Senhora, Pai Procópio, do negro Pastinha. Sua


morte foi sentida nos mercados, nos portos, nas universidades, nas rodas intelectuais e nas rodas de capoeira. A perda de tão grande nome da literatura brasileira gerou comoções no Brasil e mundo afora e, em 2001, inúmeros jornais e revistas fizeram homenagens ao escritor. Na França, o “Le Monde”, principal jornal do país, dedicou ao autor uma extensa matéria de capa: "Jorge Amado, o liberador da escrita brasileira", "A obra de Jorge Amado fez com que o Brasil colhesse brilhantemente atenções em Roma, Nova York, Moscou e Paris". Na Espanha, a homenagem foi feita pelo “El Pais”, e o autor foi chamado de "O mais conhecido dos autores brasileiros" e "figura mais destacada da literatura brasileira do século XX". Em Portugal, esse título não se limitou apenas à literatura brasileira, o diário “Expresso”, em manchete de capa, chamou-o de “o maior escritor em língua portuguesa do século XX”. O “New York Times” chamou-o de "O Pelé da palavra escrita", destacando que "Nenhum outro escritor latino americano é mais genuinamente admirado, nem qualquer outro exerceu uma influência criativa tão grande no curso da ficção latino-americana". O argentino “La Nación” afirmou ser ele "o escritor brasileiro de maior sucesso da história" e as homenagens continuaram no italiano “La Repubblica”, no alemão “Die Welt” e no português “Diário de Notícias”. Prova mais do que suficiente da importância que teve Jorge Amado para difundir a literatura brasileira, atraindo olhares do mundo todo para nosso país e para a população, valorizando, assim, nossa cultura. Pode-se dizer, então, que ele não é apenas um fenômeno literário, mas também um fenômeno sócio-cultural. Constantemente mencionado na mídia e sendo o romancista com o maior número de obras transmutadas2 para o cinema, televisão e outros veículos, Jorge Amado foi um dos escritores brasileiros que alcançou maior popularidade dentro e fora do Brasil, representando o país e seu povo. Torna-se relevante, por isso, estudá-lo caso se deseje fazer uma análise da maneira com que a sociedade é representada na literatura ou, no caso do presente trabalho, uma análise acerca da representação da esfera excluída da sociedade.

2

O termo “adaptação” está aos poucos sendo substituído pelos termos “transmutação”, “interação” ou

“intertextualidade”.


Inicialmente, o trabalho analisaria transmutações de obras literárias para telenovelas e minisséries, tendo sido escolhidos os livros de Jorge Amado pelo fato já citado de ser ele o autor brasileiro com o maior número de obras transmutadas. Quando iniciou-se a leitura dos livros, porém, tornou-se possível perceber a regularidade com que certos grupos de personagens marginalizados aparecem nas histórias e a importância que é dada a eles no decorrer da trama. Analisando melhor tais personagens, foi possível verificar a preferência do autor por eles e a crítica que transmitem aos leitores. Tornou-se visível, então, a possibilidade de estudá-los e de analisar a maneira com que, através deles, a esfera marginalizada da sociedade é representada. Deveriam ser delimitados poucos grupos para o estudo, visando a eficácia da análise, e, assim, foram escolhidas as crianças abandonadas, os malandros e as prostitutas. Figuras que aparecem constantemente nas obras de Jorge Amado e que transmitem as idéias do autor acerca da sociedade como um todo. Para o título foi escolhido um apelido do autor, “o poeta das putas e vagabundos”, mas, visando evitar mal entendidos, foram pesquisados no “Dicionário Houaiss da língua portuguesa” (2009) os termos “prostituta” e “puta”, verificando-se que são sinônimos. Para Bernardo Coelho, entretanto, se a palavra prostituta remete para um universo transacional e para uma esfera relacional, a palavra puta transforma quem a carrega em mulher sem moralidade, devassa ou com comportamentos reprováveis. [...] Estas mulheres ficam presas a uma palavra, perdendo virtualidade enquanto actores do social. Elas são uma palavra, uma palavra que remete para um universo de imoralidade e desregramento, elas são uma palavra-estigma, um insulto. (COELHO, 2009, p. 5 - 6)

Assim, esses termos podem ser utilizados com sentidos diferentes, caso em que “puta”, mais do que referir-se à prostituição, refere-se à depreciação e à situação de marginalização vivida por essas mulheres. Para o título de um trabalho que analisa a marginalização dos personagens adéqua-se melhor esse termo, que realça a situação de exclusão de um dos grupos pesquisados. Além disso, é um dos muitos termos utilizados por Jorge Amado para referir-se as suas personagens prostitutas, sendo com naturalidade repetido em suas obras.


A metodologia utilizada para a realização do trabalho foi uma pesquisa biográfica e bibliográfica que permitiu avaliar os personagens marginalizados do autor escolhido, suas características e sua relação com os outros personagens; além de uma avaliação mais aprofundada, na qual se pesquisou de que forma essa representação ocorre quando se trata dos grupos específicos já citados. Esta pesquisa contou com a análise das seguintes obras de Jorge Amado: “Capitães da Areia” (1937); “Gabriela, cravo e canela” (1958); “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” (1961); “Dona Flor e seus dois maridos” (1966); “Tereza Batista cansada de guerra” (1972) e “Tieta do Agreste” (1977). Além disso, alguns trabalhos realizados acerca do autor foram utilizados como base, analisando-se entrevistas com o próprio Jorge Amado e com estudiosos de suas obras. Inicialmente, o trabalho verificou, através da biografia do autor, como teve início sua preferência pelos cidadãos excluídos, a ponto de transformá-los em seus personagens mais significativos. Para isso, foi necessário estudar sua infância, suas opções políticas, suas relações de amizade e as profissões que exerceu fora do universo da literatura e que ampliaram sua visão da sociedade. Em seguida, o trabalho explicou como é feita a representação dos marginalizados, através de características gerais da bibliografia do autor e, mais especificamente, através da análise das obras já citadas e dos grupos mencionados. Visou com isso verificar a hipótese de que a presença desses personagens nas obras de Jorge Amado funciona como crítica às classes dominantes e à sociedade como um todo, à medida que aqueles são enaltecidos e estes têm seus valores reprovados. Hipótese de que é através desses personagens que o autor faz a critica e, ao mesmo tempo, apresenta esperanças e propõe soluções, em obras que além de provocar reflexão, exigem a tomada de atitudes. É, dessa forma, um trabalho que visa explicar como e por que ocorre a representação desses grupos marginalizados nas obras de Jorge Amado. Ao final, foi organizado um glossário de personagens, que visa facilitar o entendimento da leitura e oferecer uma visão mais ampla ao leitor acerca das figuras aqui trabalhadas. Como estudante dos cursos de Comunicação Social e Letras, torna-se fácil perceber a interação entre esses dois campos de conhecimento e a importância de trabalhos que os liguem. Como explicitam Gustavo de Castro e Alex Galeno, no prefácio do livro “Jornalismo e Literatura - A sedução da palavra” (2005, p. 9 - 10), um


grande obstáculo para a simbiose dessas duas áreas é a falta de interesse demonstrada pelas Escolas de Comunicação quanto a um estudo integrado com a Literatura. É devido a esse desinteresse que muitos textos jornalísticos, publicitários e audiovisuais apresentam carências estéticas e narrativas, além de problemas no desenvolvimento de personagens. Da mesma maneira, a Literatura aperfeiçoa-se utilizando recursos, procedimentos e técnicas da Comunicação, prejudicando-se as duas áreas com o distanciamento. Visando amenizar essa situação, este trabalho analisou um romancista que também atuou como jornalista e que teve várias obras transmutadas para outros veículos, além de ter constantemente seus trabalhos citados na mídia. Tendo sido um profissional das duas áreas e um escritor de grande importância social, merece ser estudado pelos dois cursos, em pesquisas que combatam as fronteiras disciplinares e que aproximem esses campos complementares.

Referencial teórico

Para compreender este trabalho é necessário contextualizar as obras de Jorge Amado, analisando o momento histórico em que elas surgiram e as características da Literatura do período. O início do século XX foi marcado por diversos movimentos culturais de vanguarda, incluindo entre eles o Cubismo, o Futurismo, o Dadaísmo e o Surrealismo. Na década de 30, surgiu também uma nova tendência literária marcada pelo aspecto social, documentando a realidade a partir de uma perspectiva crítica e denunciando as desigualdades e a miséria de parte da população, especialmente dos trabalhadores. Segundo Álvaro Cardoso Gomes, em “Jorge Amado” e em “Roteiro de leitura: Capitães da areia de Jorge Amado”, essa literatura dos desfavorecidos baseou-se no romance proletário, que se seguiu à Revolução Russa, e teve grande destaque nos Estados Unidos, no momento de caos econômico gerado pela quebra da Bolsa de Nova York. Como exemplo pode ser citada a trilogia USA (1930 - 1936), de John dos Passos, que retratava a situação econômica, social e moral do país durante esse período. Em 1939, John Steinbeck lançou “As vinhas da ira”, considerada sua obraprima. O livro retrata os problemas vividos pelos trabalhadores, quando, durante a crise econômica dos Estados Unidos, muitos fazendeiros perderam suas terras e os que as mantiveram decidiram interromper o processo produtivo e esperar o fim da crise. Dessa


forma, os camponeses tornaram-se desnecessários e foram obrigados a migrar em busca de emprego, submetendo-se a miseráveis condições de trabalho. O livro conta, então, a situação de exploração dos trabalhadores sazonais, a partir da historia de uma família que, expulsa de sua terra, migrou para a Califórnia, atraída pela riqueza da região. Fora dos Estados Unidos, a tendência de um romance de denúncia pode ser verificada, por exemplo, na Itália, tendo início a partir do lançamento de “Os indiferentes” (1929), de Alberto Moravia; e em Portugal, a partir do romance “Gaibéus” (1940), de Alves Redol. Também no Brasil, a literatura apresentava essas características, aproximando-se do cotidiano e do homem simples, dando preferência ao retrato da vida rural, onde as desigualdades sociais eram maiores. Dessa forma, destacou-se na década de 30, no Brasil, a literatura regionalista, marcada por “A bagaceira” (1928), de José Américo de Almeida; “O Quinze” (1930), de Rachel de Queiroz; “Os corumbas” (1933), de Amando Fontes; o ciclo da cana-deaçúcar (1932 - 1936) e “Fogo morto” (1943), de José Lins do Rego, sendo esse último classificado como livro dos anos 30, por Massaud Moisés, apesar de lançado na década de 40, pelo fato de a obra ser uma expressão ‘acabada do espírito do projeto estético e ideológico regionalista característico daquela década’ (HAFEZ, 1997, p.26); “Vidas Secas” (1938), de Graciliano Ramos; entre outros. Além de utilizar como personagens tipos sociais específicos normalmente excluídos da literatura oficial, esses escritores apresentavam como temas constantes: o coronelismo; a exploração nas relações arcaicas de trabalho; a seca e a situação dos retirantes; os problemas dos operários e a organização de greves; e a decadência das estruturas feudais. Mais do que isso, eles inovaram quanto ao estilo, tornando-o simples e mais acessível ao utilizar falas regionais. Essa literatura apresentava compromisso com a realidade exterior, destinada a mostrar a todo o Brasil, como vivia sua população. Através dela, a classe média conhecia seus vizinhos; através dela, o país conhecia os brasileiros. Era necessário que os livros retratassem o povo em sua natureza pura, em seu cotidiano, em seus costumes, para que uns se identificassem e outros se interessassem em conhecê-los. Segundo Antonio Candido: A grande descoberta que a classe média alfabetizada estava fazendo era do próprio povo que vivia a seu lado; estávamos aprendendo, através da literatura, a respeitar e identificar o camarada da fazenda,


o rachador de lenha de pé no chão, porque naquele tempo a maior parte do brasileiro andava sem sapato. Essa literatura nos ensinava a dar um certo status de dignidade humana a essa gente. (CANDIDO, A. In: CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1997, n. 3, p. 92, grifo do autor).

Sobre isso, Darcy Ribeiro afirmou: Não é esta a função do romancista? Dar a seu povo um retrato de si mesmo ou de uma de suas faces, em que ele se veja e com ele se identifique, sofrendo suas dores, gozando seus amores? A função do romancista é fabricar estes espelhos, que mais do que interpretar, retratam um povo (RIBEIRO, D. In: CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1997, n. 3, p. 28). As obras da década de 30 tentavam, ao tornar conhecida a realidade, transformá-la. Em romances engajados, os personagens encarnavam ideais e visavam a tomada de consciência dos leitores, com conseqüente luta por justiça.

Para Celso Furtado, essa conscientização é possível a partir da literatura porque A leitura de uma obra literária de valor não aumenta necessariamente o conhecimento que temos do mundo exterior. Se é este o tipo de conhecimento que buscamos, dispomos de outros caminhos para alcançá-lo. Sabemos que temos em mãos uma autêntica obra literária quando sua leitura enriquece o conhecimento que temos de nós mesmos, e nos permite avançar nessa auto-revelação que é a essência do viver como processo de amadurecimento. (FURTADO, C. In: CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1997, n. 3, p.33).

Assim, a literatura é força importante no processo de transformação da sociedade, na medida em que faz o cidadão perceber quem realmente é e qual papel ocupa, abrindo sua mente às opções de outras realidades. Foi nesse contexto que Jorge Amado estreou como romancista, sendo necessário compreendê-lo antes de analisar suas obras e seus personagens, pois pode-se perceber que muitas características presentes nos livros do autor estão ligadas a um movimento maior, relacionado ao período.


1. Duas fases, duas vidas, um mesmo autor

As obras de Jorge Amado, assim como sua visão política, sofreram mudanças no decorrer de sua vida, dividindo-se em duas fases. A primeira teve início quando, em 1932, um ano após lançar pela Editora Schmidt seu primeiro livro3, “O país do carnaval”, conheceu Rachel de Queiroz e, influenciado por ela, tornou-se militante comunista. Nos anos seguintes, participou de manifestações e piquetes, escrevendo livros engajados com a causa comunista e conquistando com eles vários adeptos para o partido. Publicou “Cacau” e “Suor” pela Ariel Editora, em 1933 e 1934, respectivamente. Lançou “Jubiabá” pela José Olympio, em 1935, ano em que foi preso, assim como Graciliano Ramos, acusado de ter participado da Intentona Comunista no ano anterior. Ainda pela José Olympio, lançou o livro “Mar Morto”, em 1936, e estava fora do país quando aqui foi publicado “Capitães da Areia”, em 1937. Ao voltar, deparou-se com o golpe de Vargas, e foi novamente preso. Ainda em 1937, foi provavelmente o escritor que teve o maior número de livros queimados. Com a acusação de serem materiais subversivos e propagandistas do credo comunista, foram incinerados, em praça pública e com ata oficial, 1694 livros seus, entre 214 exemplares de “O país do carnaval”, 89 exemplares de “Cacau”, 93 de “Suor”, 267 de “Jubiabá”, 223 de “Mar Morto” e 808 de “Capitães da Areia”. Apesar disso, o sucesso de seus romances cresceu e eles foram traduzidos para diversos idiomas e exportados para vários países. Jorge Amado iniciou contrato com a Livraria Martins Editora, através da qual publicou seus livros seguintes. Em 1941, lançou “ABC de Castro Alves” e, no ano seguinte, publicou, em Buenos Aires, “A vida de Luís Carlos Prestes”, proibido no Brasil, mas que chegava clandestinamente sem tradução. Muitas pessoas, entre elas Zélia Gattai e sua mãe, já fãs do escritor, sem nunca terem estudado espanhol, desdobravam-se para ler o livro. Liam escondidas, pois era

3

Na verdade, o primeiro livro que Jorge Amado escreveu foi a novela “Lenita”, sob o pseudônimo de

Y.Karl e em parceria com Dias da Costa e Edison Carneiro, que também assinaram a obra com pseudônimos. O autor considerava, entretanto, que foi um trabalho de criança e por isso não o incluía na relação de suas obras completas, ficando “O país do carnaval” com o posto de seu primeiro livro.


fato conhecido que quem fosse pego lendo Jorge Amado era fichado de comunista e preso. Nos dois anos seguintes, escreveu “Terras do sem fim”, seu primeiro livro a ser vendido livremente após a censura, e “São Jorge dos Ilhéus”. Em 1945, conheceu Zélia Gattai, em meio a comícios pela libertação de Luís Carlos Prestes, e passaram a viver juntos. No mesmo ano, lançou “Bahia de todos os santos” e “A vida de Luís Carlos Prestes” foi finalmente publicado no Brasil, rebatizado de “O cavaleiro da esperança”. Sua fama foi utilizada pelo PCB, que o lançou como candidato a deputado federal, tendo o objetivo de arrecadar votos para o partido em cima de sua popularidade. Sem desejar se envolver com política, Jorge Amado recebeu a promessa de que poderia renunciar caso vencesse. Foi, entretanto, um dos candidatos mais votados, com 15.315 votos, ficando atrás apenas de José Maria Crispim e de Osvaldo Pacheco, que garantiu essa posição proibindo as cédulas de Jorge Amado de irem para Santos, onde tinha certeza de que o escritor o ultrapassaria. Com tantos votos, não pôde mais renunciar para não decepcionar todos aqueles que depositaram nele suas esperanças. Assumiu seu mandato em 1946, mesmo ano em que lançou “Seara Vermelha”, e propôs emendas relacionadas aos direitos autorais, à cultura e à liberdade de culto religioso, esta última visando o fim da perseguição às manifestações religiosas afro-brasileiras. A situação política era de tensão e todos os deputados andavam armados, com exceção de Jorge Amado, que tinha horror a revólveres. Em oito de janeiro de 1948, o registro do Partido Comunista foi cancelado e os mandatos dos parlamentares cassados, inclusive o de Jorge Amado. Perseguidos todos os políticos de esquerda, ele era um dos mais visados e, muitas vezes, ele, Zélia e o filho recém nascido tiveram que se esconder na casa de estranhos para não serem atacados. Certa vez, James Amado, irmão do escritor e muito parecido com ele, foi confundido com Jorge e perseguido, correndo o risco de ser agredido. Para evitar ser preso, Jorge Amado partiu em exílio voluntário para a França. Zélia e o filho ficaram aqui, pois não tinham dinheiro para a viagem dos três, uma vez que o PCB se apropriava de todo o dinheiro recebido pelos livros de Jorge e o usava para ajudar refugiados políticos. O que é um fato irônico, já que o escritor não pôde dispor desse dinheiro quando ele próprio se tornou refugiado. Algum tempo depois, a casa deles no Rio de Janeiro foi invadida por agentes federais e, assustada, Zélia se juntou ao marido no exterior. No período em que viveram


na França, Jorge Amado tornou-se amigo de figuras famosas que muito acrescentaram aos seus conhecimentos, como é o caso de Jean Paul Sartre e Picasso. Mas, por motivos políticos, também não pôde permanecer naquele país e foi com a família para a Tchecoslováquia, onde residiram no Castelo da União dos Escritores. Em 1950, viajou pelos países da Europa Central e pela União Soviética, terminando por escrever um livro sobre os países socialistas. Chamado de “O mundo da paz”, este livro foi considerado subversivo e gerou um processo a Jorge Amado. Ainda no exterior, escreveu “Os subterrâneos da liberdade”, lançado apenas em 1954. Voltaram os três ao Brasil, em 1952, em companhia da pequena Paloma Amado, nascida em Praga. Aqui, teve fim o processo contra “O mundo da paz”, onde o juiz sentenciou “Esse não é um livro subversivo. Isso é um livro sectário!”, ao que Jorge Amado concordou e proibiu as reedições, afirmando que a obra apresentava uma visão desatualizada e realmente sectária dos países socialistas. Em 1955, já estava desiludido com as atrocidades do Stalinismo, com as prisões, torturas e assassinatos de antigos heróis da causa socialista, entre eles o seu amigo Arthur London, ex-ministro tcheco e escritor, condenado à prisão perpétua. Como ele, muitas pessoas estavam decepcionadas com os rumos que o socialismo seguia, afastando-se cada vez mais das propostas de Marx, da sociedade livre de classes e livre de Estado, da sociedade de igualdade entre as nacionalidades, sexos e indivíduos. Assim, Jorge Amado desligou-se do PCB, em 1956, mas argumentou que isso havia ocorrido por não ter mais tempo para escrever. “Cumprir as tarefas que me atribuem, qualquer um pode, porém escrever meus livros, só eu posso”. Afirmava, entretanto, que ainda acreditava no socialismo, mas apenas quando ele andava de mãos dadas com a democracia, pois sem ela era apenas fascismo. A partir daí encerrou sua primeira fase e, em 1958, escreveu “Gabriela, cravo e canela”. Recebeu, por essa obra, inúmeras críticas, foi atacado e perseguido, acusado de traidor por antigos colegas do partido, intelectuais sectários que o acusavam de abandonar suas ideologias e de escrever um romance vazio. Insinuavam que ele havia cedido a fatores comerciais e se convertido a capitalista, abandonando o povo brasileiro e vendendo uma Bahia de cartão-postal destinada a atrair turistas. Apesar de tais críticas, o romance acumulou diversos prêmios e ultrapassou o número de cem mil exemplares vendidos (vinte mil em apenas duas semanas). A partir de então, o autor lançou várias romances de costume, voltando-se para os hábitos do


povo, para os seus vícios e para as relações que se entrelaçam na vida em sociedade, transformando esses elos pessoais praticamente em sujeitos da trama. Escreveu histórias livres de partidarismo, leves e divertidas, longe, entretanto, de serem vazias. Entre as obras de sua segunda fase, que se seguiram a “Gabriela, cravo e canela”, estão: “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” (1961); “Capitão de longo curso” (1961); “Os pastores da noite” (1964); “Dona Flor e seus dois maridos” (1966); “Tenda dos milagres” (1969); “Tereza Batista cansada de guerra” (1972); “Tieta do Agreste” (1977); “Farda, fardão, camisola de dormir” (1979); “Tocaia grande” (1984); “O sumiço da santa” (1988); “A descoberta da América pelos turcos” (1994); e outras obras, entre novelas, contos, livros infanto-juvenis e relatos autobiográficos. Tendo tanto sua vida quanto seus livros divididos em duas fases, Jorge Amado dividiu também a crítica. Essa polêmica quanto as obras do escritor ocorre também no exterior e, em alguns países, referem-se a ele como “el más leído y el más odiado”, o mais lido e o mais odiado, na tradução. Há os que criticam a força do discurso partidário e o proselitismo ideológico presentes na 1ª fase do autor. Em sua fase mais madura, o próprio Jorge Amado admitiu que essas características enfraqueciam a obra: ‘[...] a ação era sempre acompanhada de um discurso político. Eu queria convencer o leitor e não acreditava que a ação fosse suficiente. Por isso, fazia uma espécie de discurso político ao lado. Esse discurso desapareceu depois da minha obra.’ (MACHADO, 2006, p.87). É necessário levar em conta, ao analisar esse sectarismo característico da primeira fase, o momento histórico em que tais obras foram escritas. Nas décadas de 30 e 40, a consciência social e política era bastante forte, sentindo-se os intelectuais impelidos, e mesmo obrigados, a colocar a sua arte, seja qual fosse, a serviço da militância. Mais do que isso, tais atos eram esperados e cobrados deles. Com o passar do tempo, as necessidades mudaram e Jorge Amado acompanhou essa mudança. Os que continuaram seguindo aquela fórmula literária criticaram ferozmente a leveza da sua segunda fase, apontando a troca dos solenes discursos políticos por um humor gratuito e passageiro. Para o autor, a leveza do riso gera um engrandecimento do discurso e, em entrevista a Antônio Roberto Espinosa, editor de “Jorge Amado”, em 1981, afirmou: Às vezes, não é fácil a pessoa deixar o panfleto, deixar aquilo que os críticos chamam de discurso panfletário, maniqueísta... branco ou preto, tudo divididinho. Eu acho que ganhei o humor e ele é muito


mais destrutivo, muito mais terrível, do que qualquer panfleto político. [...] Talvez seja com o riso que você abale mais facilmente as estruturas. (AMADO, J. In: JORGE AMADO, 1981, p. 30).

Essa transição de fases não acarreta, como muitos acreditam, em uma ruptura súbita, entre obras desconexas e sem elo. Já vinha ocorrendo gradativamente uma mudança e essa transição foi um amadurecimento a passos lentos, tanto do autor quanto do contexto. Existe, entretanto, uma unidade do primeiro ao último livro, que é dada pela posição do autor. Posição ao lado do povo, contra seus inimigos, que dura toda a trajetória literária do escritor. O que houve nessa transição foi uma evolução, um acréscimo tanto de experiências literárias quanto de experiências pessoais. Não cabe crítica a nenhuma das duas fases, uma vez que elas foram reflexos das duas vidas de Jorge Amado, não podendo ter sido representadas de outra forma. O que se pode dizer é que houve uma ampliação e um enriquecimento do universo temático. O autor, que antes se fixava apenas nas questões de classe, englobou às suas discussões as questões de gênero e de etnia, adiantando uma tendência que viria no final da década de 60 com os debates acerca dos direitos das minorias. Jorge Amado percebeu que existem outras formas de dominação na sociedade brasileira, além da econômica, e que existem muitos grupos marginalizados necessitando que alguém fale por eles e se engaje em sua defesa. Ofereceu, então, sua escrita a novos grupos, pluralizando seu engajamento e não reduzindo-o, como muitos afirmam ao criticá-lo. Há um visível abandono dos heróis exemplares - sempre pobres, honestos e politicamente corretos - por uma súcia de malandros, putas e marginais, cujo credo são suas relações de amizade e a sabedoria com que enfrentam os exploradores do povo e as durezas da vida diária. Seu partido são seus amigos, sua ideologia é a do amor à vida, sua luta é contra o preconceito burguês (de direita e de esquerda) das elites que pensam que o mundo pode ser resumido numa fórmula ou decidido por meio de um passe de mágica ideológico. Não estamos mais diante de uma batalha trivial e ‘política’ entre ‘direita’ e ‘esquerda’, pois o que temos agora é uma disputa muito mais complicada e certamente mais real entre os que ‘estão embaixo’ e os que ‘estão em cima’ (DAMATTA, R. In: CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1997, p. 128).


2. Como Jorge Amado conheceu seus personagens pelas ladeiras e portos da Bahia

Quando tinha 12 anos, Jorge Amado enganou seu pai e, fingindo entrar no internato, tomou outro rumo, buscando liberdade. Rumou para a casa de seu avô, em Itaporanga, atravessando a pé o sertão da Bahia até Sergipe. Gastou o dinheiro logo no início, comprando uma coleção de revistas de cinema em um sebo de livros, mas continuou a viagem, contando com a ajuda dos que conhecia pelo caminho. Durante dois meses conheceu as cidades do interior baiano, fazendo amizades e ouvindo relatos. Começou aí o seu interesse pelas histórias do povo simples, que tanto têm para contar e que poucos conhecem. A essa experiência somou seu conhecimento acerca da vida dos trabalhadores do cacau, com quem teve contato e amizade na fazenda em que viveu durante a infância. Com essa convivência, sua consciência social despertou cedo e ele percebeu que aquele estilo de vida lhe fascinava. Foi com esses trabalhadores que entrou pela primeira vez em um bordel, ainda com seis anos, e conheceu a vida das prostitutas, ficando novamente fascinado. Em 1923, foi para Salvador, estudar no Colégio Antônio Vieira, onde conviveu com pessoas que se tornariam importantes mais tarde, como Mirabeau Sampaio, Giovanni Guimarães, Antônio Balbino, Hélio Simões, entre outros. Transferiu-se depois para o Ginásio Ipiranga, também um internato, mas muito mais flexível do que o Antônio Vieira. Lá, pulava o muro todas as noites e, junto com os colegas, ganhava as ruas da Bahia, frequentando festas e castelos de mulheres-dama. Foi, por algum tempo, amigado com uma prostituta chamada Benedita, que, por coincidência ou não, é o nome de duas personagens suas (em “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” e em “Pastores da noite”), ambas prostitutas. Em 1927, saiu do regime de internato e começou a trabalhar. Morando sozinho em um casarão no Pelourinho, matava as aulas e vivia a vida do povo da Bahia, convivendo com as pessoas nas feiras e mercados, no cais e nos castelos. Tornou-se amigo de Mãe Menininha do Gantois e de Pai Procópio, adquirindo diversos títulos do candomblé. Afirmou na entrevista ao editor de “Jorge Amado” (1981, p.11): “Eu não poderia escrever sobre a Bahia, ter a pretensão de ser um romancista da Bahia se não conhecesse realmente por dentro, como eu conheço, os candomblés, que é a religião do povo da Bahia”.


Era, apesar desses títulos, assumidamente materialista. O personagem Pedro Archanjo explica essa estranha situação quando lhe perguntam, em “Tenda dos milagres”, como conciliava o seu materialismo com suas funções no candomblé e ele responde: “o meu materialismo não me limita”. E assim ocorria com Jorge Amado, que mesmo materialista, foi um dos que mais lutou pelo fim da perseguição aos cultos afrobrasileiros. Em 1944, quando foi solto da prisão e obrigado a residir em Salvador, tinha sempre que ir à delegacia buscar os emblemas sagrados do candomblé, que a polícia apreendia, ou ajudar a soltar seus amigos, presos por suas manifestações religiosas. Experiências que ele representou em “Tenda dos milagres”, em “Jubiabá” e em “Capitães da Areia”. As torturas eram comuns e Pai Procópio carregava nas costas as suas marcas. Aquela situação ultrajava Jorge Amado que, no futuro, conseguiu fazer algo para revertê-la, com sua emenda de liberdade ao culto religioso, presente na Constituição até hoje. Tais experiências foram muito importantes para colocá-lo em contato com o povo, com seus problemas e com as perseguições que sofriam. Isso permitiu que ele representasse o povo de maneira profunda e real, fugindo do artificialismo dos escritores que tentam retratar o que não vivenciam. Sua obra ganha em força e em vontade porque quem fala, mais do que um estudioso do povo, era um membro do povo, um homem que viveu junto aos outros baianos, que viveu os mistérios, as alegrias e as belezas da Bahia de todos os santos. Esse jovem Jorge Amado era um adolescente de vida livre, conhecendo um imenso universo de pessoas e de estilos de vida que viriam a inspirar seus personagens e suas histórias. Ele era, segundo Luciano Suassuna (2001, p.8), como um caixeiro viajante, que a cada passagem vê uma nova cidade. Jorge Amado, a cada passo, a cada passagem, via novos tipos humanos, que somava ao seu repertório e que usaria, mais tarde, para reconstruir o país e sua brasilidade. 3. Jornalismo, uma outra face da literatura Como a literatura só garantiu estabilidade financeira a Jorge Amado anos após o início de sua carreira, o autor encontrou uma forma de sustentar-se sem abandonar a escrita. Através do jornalismo, aprendeu cedo a expressar sua opinião e a defender suas


idéias. Trabalhou em jornais e revistas, durante quase toda a vida, escrevendo sobre fatos políticos, sobre pessoas que conheceu, fazendo críticas ou elogios a escritores e novas obras e criando espaço para suas idéias ficarem conhecidas. Já no Instituto Ipiranga, onde estudou a partir dos doze anos, dirigiu dois jornais. Inicialmente integrava a equipe do “A Pátria”, jornal do grêmio, abandonando-o para fundar “A Folha”, que combatia aquele primeiro. Mostrava desde já o posicionamento contra o lado oficial, criando meios de contestar o que lhe era pré-estabelecido como única opção. Aos catorze anos, conseguiu seu primeiro emprego como repórter policial do “Diário da Bahia”. Ganhava 90 mil réis, pagando 30 no aluguel do casarão do Pelourinho, na ladeira do Tabuão, onde morava (e onde depois alojou Quincas Berro Dágua) sem luxo e cercado de ratos. Com o resto do dinheiro daria para comer apenas 20 dias por mês e apenas uma vez por dia se seu pai não o ajudasse mandando uma pequena mesada. No mesmo ano, passou para o jornal “O Imparcial”, passando a ganhar 120 mil réis, o que não alterava significativamente sua situação. Ainda em 1927, “A Luva”, importante revista da época, publicou um poema seu chamado “Poema ou prosa”, que era uma sátira aos poemas da época. No ano seguinte, integrou o grupo literário “Academia dos Rebeldes”, liderado pelo poeta e jornalista Pinheiro Viegas, publicando duas revistas chamadas “Meridiano” e “O Momento”, onde diversos membros do grupo publicavam seus trabalhos. Ele e os outros jovens da década de 20 acompanhavam o Modernismo e seus impactos, não apenas através das obras em si, mas também através das críticas que liam nos jornais que vinham do Rio de Janeiro e São Paulo. Os artigos mais acompanhados eram os de Tristão de Ataíde, Agripino Grieco e Sérgio Milliet, em batalha contra ou a favor das novas obras modernistas. Em 1929, começou a trabalhar em “O Jornal”, escrevendo artigos de ordem literária e, entre 1932 e 1938, colaborou com o “Boletim de Ariel”, principal revista literária da época, publicada mensalmente no Rio de Janeiro e dirigida por Gastão Cruls e Agripino Grieco (um dos críticos anteriormente citados). Em 1933, Jorge Amado tornou-se redator chefe da revista “Rio Magazine” e, em 1934, passou a trabalhar na editora José Olympio, onde permaneceu por quatro anos, inicialmente escrevendo releases e depois na parte editorial, influenciando nas publicações de autores iniciantes.


Em 1935, trabalhou como redator no jornal “A Manhã”, da Aliança Nacional Libertadora. Foi preso em 1937 e, após ser solto em 1938, morou quase um ano no norte do país. Ao voltar para o Rio de Janeiro, tornou-se redator-chefe de um órgão literário de nome “Dom Casmurro”, trabalhando também na equipe da revista “Diretrizes”, onde tinha como colegas Samuel Wainer, Rubem Braga, Carlos Lacerda, Dias da Costa e vários outros intelectuais de esquerda. Publicou nessa revista o começo de “ABC de Castro Alves” (proibido pela polícia no terceiro capítulo, mas lançado integralmente em livro no ano seguinte pela Livraria Martins Editora) e “Brandão entre o mar e o amor”, em forma de folhetim e em parceria com José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. Em 1941, foi contratado pelo jornal “Meio-Dia” e, em 1943, após ser novamente solto da cadeia, voltou a trabalhar em “O Imparcial”, agora pertencendo ao coronel Franklin Lins de Albuquerque, homem de direita, completamente avesso a comunistas. Como gostava muito de Jorge Amado, amigo de seu filho, o também escritor e jornalista Wilson Lins, o coronel recusava-se a chamá-lo de comunista, apelidando-o, ao invés disso, de russista. O escritor assumiu duas seções no jornal: pequenas histórias, na coluna “José, o ingênuo”, que revezava com Wilson Lins; e a coluna “Hora da Guerra”, onde tratava, principalmente, do desenvolvimento da Segunda Guerra Mundial. Essa segunda obteve tanto sucesso que, posteriormente, alguns artigos foram reunidos e lançados em livro. Apesar das divergências políticas, o coronel Franklin entregou a Jorge Amado a direção do jornal, enquanto seu filho passava um período no Rio de Janeiro. Nesse meio tempo, o escritor transformou completamente “O Imparcial” e, quando Wilson Lins retornou, teve seu apoio. Os dois lançaram a campanha pela anistia e quase fizeram o jornal ser fechado, certa vez, quando Jorge Amado publicou um editorial pelo reconhecimento da União Soviética. Foram dois anos de intensa militância política e jornalística. Em 1945, antes de ser lançado candidato a Deputado Federal, foi diretor do “Hoje”, jornal do Partido Comunista Brasileiro, ao mesmo tempo em que escrevia para a “Folha da Manhã”. Envolvido com a política, só voltou a exercer outras atividades em 1953, quando dirigiu a coleção “Romances do povo”, da Editorial Vitória, que visava levar ao conhecimento do povo os romances sociais de autores como Ilya Ehrenburg, Polevói, Ostrovsky, Siomúchkin, Furmanov, Nikolaieva, Fédin, Pavlenko e muitos outros.


Em 1956, após desligar-se do Partido Comunista Brasileiro, chefiou a redação do jornal “Paratodos”, ao lado de seu irmão James Amado, de Oscar Niemeyer e de Moacir Werneck de Castro (falecido em novembro de 2010). Em 1986, criou a Fundação Casa de Jorge Amado para guardar seu acervo, já grande demais para ficar em casa. Transformou o local em um centro de cultura e lançou através dessa instituição a revista “Exu”, publicando no número de estréia o texto “O enterro do Yalorixá”. Afirmava que havia abandonado a política, mas não deixado de ser político. Fazia política ainda escrevendo, tanto suas obras de ficção, quanto os textos jornalísticos, opinando cada vez que lhe parecia útil e necessário. Ocupado com o lançamento de seus livros, com inúmeras viagens, prêmios, congressos de escritores, e principalmente com a saúde que enfraquecia, parou aos poucos o trabalho jornalístico, após uma vida inteira de trabalhos publicados a serviço do povo e da literatura. Como comentado por Rildo Cosson, em “Jornalismo e Literatura - A sedução da palavra” (2005, p. 60), a atuação de romancistas como jornalistas gera opiniões controversas. Enquanto algumas pessoas acreditam que esse compartilhamento de profissões é prejudicial, pelo fato de limitar a imaginação e a artisticidade do escritor, outros o vêem como vantajoso, na medida em que fornece um treinamento de escrita e um contato maior com a realidade. Apresentando vantagens ou desvantagens, ou mesmo os dois, a realidade é que dificilmente encontra-se um escritor que não tenha recebido influência do jornalismo e, para exemplificar tal afirmação, Gustavo de Castro e Alex Galeno (2005, p. 11) enumeram diversos casos: Machado de Assis; José de Alencar; Euclides da Cunha; Almeida Garret; João do Rio; Rubem Braga; Mário Quintana; João Ubaldo Ribeiro; Luís Fernando Veríssimo; Zuenir Ventura; Carlos Heitor Cony; Murilo Melo Filho; Bernardo Carvalho; entre outros. Dessa forma, Jorge Amado seguiu uma espécie de tradição dos escritores brasileiros, unindo esses dois campos que, segundo Gustavo de Castro e Alex Galeno (2005, p. 9), têm fronteiras cada vez mais difusas, compartilhando recursos e cosmovisões, desvendando juntos o mundo e propondo-o ao leitor com um sentido e uma tarefa.


4. Jorge Amado em outros veículos Tamanha é a popularidade de Jorge Amado, que suas histórias saltaram dos livros e adaptaram-se a diversos suportes, transformando-se em filmes, minisséries, telenovelas, músicas, histórias em quadrinhos, entre outros. Ele é, inclusive, o autor brasileiro mais transmutado para a televisão, até hoje. Segundo dados recentes da Ancine, 78% dos filmes atuais são transmutações de obras literárias (informação verbal)4; não se pode estranhar, então, que em porcentagem tão grande, constem tantos trabalhos inspirados nas obras de Jorge Amado, visto sua popularidade. O próprio autor aventurou-se algumas vezes em outros meios, experimentando, por exemplo, colaborar na escrita do argumento de “Itapuã”, filme de Ruy Santos, lançado em 1937, e no qual o escritor aparece também como ator, interpretando um pescador. Escreveu depois “O amor de Castro Alves” (1944), uma peça teatral encomendada por Bibi Ferreira, ocorrendo a dissolução da companhia teatral antes que a encenação fosse feita. Em 1947, escreveu os diálogos do filme “O cavalo número 13” e o argumento e o roteiro de “Estrela da manhã”. Nesse mesmo ano, a Atlântida comprou os direitos de “Terras dos sem fim”, lançado no ano seguinte com o nome de “Terras violentas”. A mesma obra foi transmutada, no ano de 1957, em história em quadrinhos. Em 1956, Jorge Amado escreveu a letra de “Não te digo adeus”, música com melodia de Cláudio Santoro, e, no ano seguinte, vendeu os direitos de “Mar Morto” para o cineasta italiano Carlo Ponti, que nunca conseguiu finalizar o filme. Ao lançar “Gabriela, cravo e canela”, em 1958, lançou também o disco “Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela”, disco que traz leituras suas e músicas de Dorival Caymmi.

4

Informação fornecida pela professora Tânia Montoro, na aula Oficina Avançada de Narrativas da

Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.


Imagem 1: Disco “Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de ‘Gabriela, cravo e canela’ ”.

Após dois anos de seu lançamento, “Gabriela, cravo e canela” tornou-se telenovela, estreando na extinta Tv Tupi, com Janete Vollu, uma atriz do teatro de rebolado, no papel principal, Renato Consorte como Nacib e Paulo Autran como Mundinho Falcão. No mesmo ano, a Metro Goldwin Mayer comprou os direitos desse livro para o cinema e, com o dinheiro, Jorge Amado comprou uma casa no Rio Vermelho, onde residiu até a sua morte e onde estão enterradas suas cinzas, debaixo de uma mangueira no quintal. Realizou um velho sonho graças ao imperialismo americano, como dizia. Anos após essa venda, já sem dificuldades financeiras, o autor comprou de volta os direitos desse romance. Em 1962, ele criou uma companhia de cinema chamada “Proa Filmes”, com a qual fez um único trabalho: a adaptação de “Seara Vermelha”, cuja estréia ocorreu no ano seguinte. Em 1965, a Warner Brothers comprou os direitos de filmagem de “A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moroso de Aragão, capitão de longo curso”. Em 1970, o americano Hall Bartlett filmou “The Sandpit Generals”, inspirado no livro “Capitães da areia” e, em fevereiro de 1973, foi apresentada uma peça de teatro baseada na novela “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, no teatro Castro Alves.


Imagem 2: Cartaz da peça “A morte de Quincas Berro D`água” baseada no livro e encenada em Salvador.

Em 1975, Marcel Camus exibiu na França sua transmutação do romance “Pastores da noite”, que recebeu o título de “Otalia da Bahia” e, nesse mesmo ano, a Rede Globo levou ao ar a telenovela “Gabriela”, com Sônia Braga e Armando Bogus como Gabriela e Nacib. Na trilha sonora constou música de Dori Caymmi, adaptada de um poema de Jorge Amado chamado “Alegre menina”. Essa telenovela foi o maior sucesso dentre as transmutações de obras de Jorge Amado para a televisão, alcançando enorme popularidade tanto no Brasil quanto em Portugal. A fotonovela, lançada na Revista Amiga, e a versão em história em quadrinhos acompanharam a telenovela. Mais tarde, a obra inspirou um espetáculo de balé, apresentado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1976, estreou no cinema o filme “Dona Flor e seus dois maridos”, baseado no romance de mesmo nome. Essa produção bateu recordes de bilheteria, levando


10.735.525 espectadores para as salas de cinema (recorde ultrapassado apenas em 2010 com o filme “Tropa de elite 2”). No ano seguinte, Nelson Pereira dos Santos lançou no cinema um filme baseado em “Tenda dos milagres”, e Jorge Amado experimentou novamente outros caminhos, interpretando um dos apóstolos de Cristo no filme “A idade da Terra”, sob direção de Glauber Rocha. Em 1979, estreou na Broadway o musical “Saravá”, inspirado em “Dona Flor e seus dois maridos” e, ainda nesse ano, Jorge Amado lançou em disco uma versão de “Bahia de todos os santos”. Dois anos depois, a Rede Globo lançou ao ar a telenovela “Terras do sem fim”, que possuiu em sua trilha sonora a música “Cantiga de cego”, parceria de Jorge Amado com Dorival Caymmi. Em 1983, “Gabriela, cravo e canela” inspirou um filme, trazendo novamente Sônia Braga como a personagem principal, após a atriz ter se consagrado com o mesmo papel na telenovela de 1975. Em 1985, a Rede Globo trouxe mais uma obra de Jorge Amado para as televisões de todo o Brasil com a telenovela “Tenda dos milagres”. Três anos depois “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” inspirou uma peça da Orquestra Sinfônica da Bahia, sob regência do maestro Carlos Veiga. No ano seguinte, ocorreram duas transmutações para a televisão: “Capitães da Areia” pela TV Bandeirantes e “Tieta” pela Rede Globo. Nos anos seguintes, a Rede Globo lançou ainda a minissérie “Tereza Batista” (1992); a telenovela “Porto dos milagres” (1992), como transmutação conjunta dos romances “Mar Morto” e “A descoberta da América pelos turcos”; e a minissérie “Pastores da noite” (2002). Além dessa emissora, a extinta Rede Manchete lançou a telenovela “Tocaia Grande”, estando no ar de outubro de 1995 a setembro de 1996, coincidindo o ano de término desse programa com a estréia do filme “Tieta”, de Cacá Diegues. Em 2009, “Jubiabá” recebeu versão em quadrinhos e, em 2010, estreou o filme “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, com Paulo José como Quincas, Marieta Severo como sua amante, Quitéria do Olho Arregalado, e Mariana Ximenes como sua filha Vanda, personagem cujo final difere completamente do livro, apesar de seguir um estilo bem amadiano.


Imagem 3: Transmutação para os quadrinhos da obra Jubiabá.

No livro, a moça prossegue como sempre foi, com seus costumes de classe média, em um mundo fechado a novas experiências, envergonhada por não ter conseguido enquadrar o pai nos costumes, nem mesmo depois de morto. No filme, a moça passa por uma transformação enquanto procura pelo corpo do pai. Aos poucos, percebe aquele mundo que o pai conheceu em seus últimos anos, entrando em terreiros de umbanda, em bares e em prostíbulos. Termina por libertar-se, como o pai, abandonando o marido, entregando-se a um taxista, à bebida e ao prazer que a quebra dos costumes lhe proporciona. Apesar de essa história não fazer parte do livro de Jorge Amado, adéqua-se ao modelo de libertação dos personagens, de quebra da antiga vida e de transformação em um oposto seu, comuns em suas obras. Em 2011, está prevista a estréia de “Capitães da Areia”, primeira versão dessa obra para o cinema feita por uma equipe brasileira. Quem assina a direção é Cecília Amado, neta do escritor. Com tantas obras transmutadas, Jorge Amado tornou-se ainda mais conhecido, e apesar de considerar esse processo uma violência contra o autor, aceitava que fosse feito, pois tinha consciência de que isso ajudava a difundir seus livros.


Dizia violência exemplificando o caso de “Gabriela”, a telenovela que, apesar de ficar bastante consagrada, causou extremo desgosto ao escritor. Eu parei de ver no terceiro ou quarto capítulo porque eles fizeram o Nacib saber que não era brasileiro. No livro ele nunca descobre isso. Eu me senti ofendido. Foi pior do que estabelecer uma ascendência italiana para ele. Para não passar por essas coisas, agora eu prefiro nem começar a ver as adaptações. (AMADO, J. IN: CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1997, n. 3, p. 46).

Apesar disso, acreditava que as transmutações ajudavam, e muito, a difundir a obra. “Gabriela”, por exemplo, havia vendido 600 mil exemplares no Brasil. A telenovela causou a venda de mais 80 mil exemplares, além de ser vista por 25 milhões de telespectadores, sendo depois reprisada, aumentando esses números. Zélia Gattai contou, em entrevista à equipe de “Cadernos de Literatura Brasileira” (1997, n. 3, p. 46), que, certa vez, ela e o marido estavam em uma pequena aldeia em Portugal, quando um gato passou correndo e, atrás dele, um menino chamando “Nacib! Ô Nacib”. Intrigada, Zélia perguntou se o gato se chamava Nacib e, diante da afirmativa, perguntou o porquê do nome. “Porque é macho”, disse ele, “se fosse fêmea, ia se chamar Gabriela”. Impressionada com o alcance da obra, atribuía o fato à telenovela, transmitida naquele país e responsável pelo enorme sucesso. Jorge Amado, apesar de não assisti-las para evitar aborrecimentos, era grato às transmutações pois, segundo afirmou na entrevista a Antônio Roberto Espinosa, a partir delas, as pessoas recebem, ao menos em parte, as idéias do romance. Idéias que passam a atingir uma massa muito maior, inclusive de pessoas analfabetas, semiletradas ou que não têm dinheiro para comprar os livros, e que de outra forma não conheceriam suas histórias e seus personagens.

5. Linha tênue entre ficção e realidade

As obras de Jorge Amado retratam a realidade da Bahia e as experiências vividas pelo autor de forma tão contundente que, muitas vezes, torna-se confuso separar o que é real do que é ficcional. Sobre isso, ele dizia não acreditar na idéia de uma ficção pura, estando ela sempre ligada à realidade. Seus livros trazem, inclusive, inúmeras referências, implícitas ou explícitas, a personalidades conhecidas do grande público ou do seu convívio pessoal. Tal fato


comprova a fidelidade, anteriormente mencionada, na representação social, sendo seus personagens, literalmente, retratos do povo. É o caso de seu tio Fortunato, irmão de sua mãe que, envolvido em lutas pela posse de terras, perdeu um olho e dois dedos. Essa figura marcou o autor em sua infância e foi por ele retratado em “Terras do sem fim”. Já seu colega de escola, Giovanni Guimarães, jornalista e grande amigo, a quem viu morrer, é a personalidade mais representada em suas histórias, aparecendo em vários de seus livros, como em “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, “Dona Flor e seus dois maridos” e “Tieta do Agreste”, entre outros. Além de inspirar personagens, Jorge Amado deu seu nome a ruas, escolas primárias e bustos de praças, em homenagem após sua morte. Às vezes, Jorge Amado utilizava o nome inteiro da pessoa, por vezes, só uma parte. Mirabeau Sampaio, pintor, escultor, e amigo íntimo do escritor, apareceu em “Dona Flor e seus dois maridos” sob dois nomes: Zequito Mirabeau e José Sampaio, sendo este último casado com Dona Norma, vizinha e amiga de Dona Flor, inspirada na esposa do verdadeiro Mirabeau. Segundo Jorge Amado, entretanto, nenhum deles correspondia de forma completa ao seu amigo, pois como ele afirmava, no momento em que você toma uma pessoa da vida real e a coloca em um romance, ela se transforma. Convivendo no contexto do romance, com os outros personagens, não pode permanecer a mesma. Em outros casos, o personagem pode ser a soma de várias pessoas que o autor conheceu, somando características de uns e de outros. Em “Tenda dos milagres”, o personagem João Romão foi inspirado em Cosme de Farias, um famoso defensor dos pobres de Salvador; e o professor Silva Virajá, no famoso médico baiano Pirajá da Silva. O personagem principal, Pedro Archanjo, é uma homenagem a Manuel Querino, escritor de vários livros antropológicos e étnicos, que traçou a genealogia da elite branca de Salvador, provando que todos são frutos da miscigenação das raças. O adversário de Pedro Archanjo, no livro, é Nilo Argolo, inspirado no médico e antropólogo Nina Rodrigues, famoso por suas teses racistas. Em “Tieta do Agreste”, o autor faz uma brincadeira com o amigo Carybé (que aparece também em “Pastores da noite”, em “Dona Flor e seus dois maridos”, em “Tereza Batista cansada de guerra” e é personagem principal de um livro posterior intitulado “O capeta Carybé”), tornando-o um ladrão de obras de arte que se apossa de uma imagem pertencente à igreja de Sant`Ana do Agreste e restaurada por ninguém menos do que Mirabeau.


Nessa mesma obra, aparecem Wilson Lins, colega em “O Imparcial”, e seu irmão James Amado, como amigos de Barbozinha e de Giovanni Guimarães. Além deles, aparecem em suas histórias Mário de Andrade, Clóvis Amorim, Sergio Buarque de Holanda e Calasans Neto (ilustrador de “Tieta do Agreste”, que aparece na mesma obra sendo o ilustrador do livro de Barbozinha e, em “Dona Flor”, como ilustrador do livro de Godofredo Filho). O próprio Godofredo Filho, poeta membro da Academia Brasileira de Letras (em “Dona Flor”, escreveu um poema sobre Vadinho, após sua morte); Lampião (como o próprio Lampião, em “Capitães da Areia” e em “Tieta do Agreste”); Carlinhos Mascarenhas; Walter da Silveira; Dorival Caymmi (esses três últimos como músicos amigos de Vadinho, participando de serenata para Dona Flor); João Gilberto, compositor famoso (aparece vencendo um concurso musical e tirando o primeiro lugar de Marilda, vizinha de Dona Flor); Don`Aninha, mãe de santo amiga do autor ( aparece como ialorixá do “terreiro da Cruz de Oxó de Afoxá”, amiga dos capitães da areia); Mãe Menininha do Gantois (tentando explicar à Dona Flor o retorno do espírito de Vadinho); negro Pastinha, mestre de capoeira, grande amigo de Jorge Amado (transformado em um dos melhores amigos de Quincas Berro Dágua, a quem chama de paizinho e com quem vai viver aventuras, acompanhando-o em sua última noite); entre inúmeros outros casos. Fatos da vida de Jorge Amado também integram as aventuras de seus livros. O lazareto, temido pelos capitães da areia e destino de dois deles, além de local visitado por Tereza Batista, fez parte da vida do autor, que, aos dois anos, foi para lá com os pais, durante uma epidemia de varíola. É de suas andanças pela cidade de Salvador que colocou como cenário das histórias o Mercado Modelo, onde comia, e a feira de Água de meninos, onde, por algum tempo, organizou as reuniões da “Academia dos Rebeldes”. É de sua juventude também, como já foi mencionado, o quarto que alugou a Quincas na ladeira do Tabuão. Em uma viagem a Estância, conheceu a “Papelaria Modelo”, onde ocorriam leituras de textos literários e discussões acerca de temas polêmicos. Colocou esse ambiente em “Gabriela, cravo e canela”, como o centro de cultura de Ilhéus, comparado apenas ao aerópago de Sant`Ana do Agreste. Seu proprietário, João Nascimento Filho, tornou-se personagem de “Tereza Batista cansada de guerra”, assim como Amintas Costa, amante de cinema que participava das discussões na papelaria e que emprestou algumas de suas histórias às páginas desse mesmo romance e de “Tieta do Agreste”.


Experiência triste e também relatada é a de Joaquim Câmara Ferreira, jornalista e grande amigo de Jorge Amado, que, durante o início dos anos 40, período em que o terror era enorme e as torturas freqüentes, cortou seus pulsos, na cidade do Rio de Janeiro, quando os castigos que sofreu tornaram-se insuportáveis. Com tal escândalo, conseguiu que as torturas cessassem, pelo menos por um tempo. Jorge Amado narrou o fato em “Farda, fardão, camisola de dormir”, transferindo o acontecimento para São Paulo.

6. Personagens de outro plano

Além de pessoas reais, Jorge Amado utilizou os deuses do Candomblé como personagens, às vezes materializados em sujeitos responsáveis pelo desenrolar da trama e, às vezes, para definir com mais intensidade o caráter de alguns personagens. Em “Dona Flor e seus dois maridos”, trava-se violenta batalha entre os Orixás pelo futuro da alma de Vadinho, sendo todos eles personagens. Yemanjá, com seu leque de metal, abana ventos de morte, comanda frotas de cascos de navios e exércitos de peixes. Oxóssi passa em montaria, com o ofá e o eruquerê, matando todos os animais que encontra pelo caminho. Oxumarê, cobra imensa, empurra Vadinho por um arco-íris, fazendo com que seu sexo mude, mas Exu o defende, desfazendo o arco-íris e atacando o Orixá. As forças contra Vadinho e Exu, seu protetor, aumentam, entrando na guerra Ogum com suas espadas, Euá com suas fontes, Nanã com sua velhice, Oxum com a denguice e Xangô com seus raios e coriscos. Sem vencer, pedem reforços a Omolu, que traz as doenças, soprando bexiga, lepra e pus. Sob seus efeitos, Vadinho fica surdo, cego e tísico, sendo novamente salvo por Exu, que mastiga doença por doença, como um curandeiro. Mas Exu enfraquece com os ataques e, aos poucos, seu protegido caminha para o vale da morte definitiva. Arrancam seu coração, tomam-lhe as mãos e os pés, e já se vai Vadinho, seguindo o grito de morte de Iansã, quando mais alto que ele, se faz ouvir o ai de amor de Dona Flor. Seu sentimento põe fim à batalha, e o mundo, que estava do avesso diante de tamanha guerra, volta ao normal, desaparecendo os Orixás personagens. Em “Capitães da Areia”, Omolu também é personagem que, desejando vingar seus filhos pobres, manda a bexiga para a cidade dos ricos. Não sabe, entretanto, que os


ricos inventaram vacinas, e a bexiga passa intacta por eles, indo atacar seus filhos, na cidade baixa. Os Orixás aparecem também para destacar características dos personagens. É o caso de Dona Flor, comparada a Oxum, que, se não bastasse o fato de ter dois maridos, Oxóssi e Xangô, é mansa na superfície e fogosa no interior. Como Dona Flor, é água parada e labaredas em um só corpo. Tais características realçam o momento vivido pela personagem, quando, durante a viuvez, deseja ser honesta e recatada, mas, em pensamento, tem escandalosos devaneios. Não consegue dormir com o desejo a provocar-lhe dor no ventre, situação não condizente, segundo acredita, com sua figura de viúva. Fecha-se, então, ao mundo, sem desejar manchar a memória do falecido marido, aparentando calma e tranqüilidade, quando na verdade, consome-se. Gabriela é comparada a Yemanjá, tranquila e doce, “dela nasciam as águas, o rio Cachoeira e o mar de Ihéus, as fontes nas pedras. [...] Cavalo de Yemanjá, Gabriela partia por prados e montes, por vales e mares, oceanos profundos. Na dança a dançar, o canto a cantar, cavalgando cavalo”. (AMADO, J. Gabriela, cravo e canela, 1986, p. 342).

7. Características e influências das obras

Além de retratar os marginalizados, Jorge Amado tentou incluí-los em seu grupo de leitores. Ele próprio usava a expressão “romance de massa” para definir suas obras, referindo-se não ao termo “cultura de massa” que se conhece hoje, mas ao conceito de massa do marxismo, que foge do elitismo e fala a muita gente, discutindo os problemas sociais existentes nos diferentes contextos nacionais. Para produzir esse tipo de romance, ele simplificou a linguagem e as situações narrativas, evitando recursos pomposos e riqueza ornamental, nivelando por baixo e permitindo uma ampliação do público. Esse tipo de escrita é criticado pela intelectualidade, mas é necessário na opinião de Antonio Gramsci, teórico italiano, porque ‘os intelectuais falhavam em fornecer uma literatura às camadas populares e não conseguiam chegar realmente até o povo [...] se esse percurso não fosse feito, não chegaria a existir uma literatura verdadeiramente nacional.’ (MACHADO, 2006, p. 56). Objetivando essa popularização, no sentido de aproximação do povo e não no sentido mercadológico de consumo maciço, as obras de Jorge Amado assumem


características do folhetim, do romance popular e da literatura de cordel. É possível perceber isso já nos títulos, por seus formatos e comprimentos, prometendo aventuras e emoções. Como pode ser visto, por exemplo, no título “Tieta do Agreste pastora de cabras ou a volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo: emoção e suspense!” ou em “Da terrível batalha entre o espírito e a matéria, com acontecimentos singulares e pasmosas circunstâncias, possíveis de ocorrer somente na cidade da Bahia, e acredite na narrativa quem quiser. (Com um coro de atabaques e agogôs e com Exu a tirar uma cantiga de sotaque)” (título da quinta parte de “Dona Flor e seus dois maridos”). No decorrer do texto, o escritor utiliza características da literatura oral e dos romances populares, como repetições, paralelismos, rimas e uso da ordem indireta. Não é estranha essa apropriação se forem consideradas algumas marcas folhetinescas, como é o caso dos cenários marcados pela marginalidade social, o bom humor das narrativas, a ampla variedade de tipos humanos e de possibilidades de enredo, a consciência social e a análise da sociedade, que facilmente atraíram um autor engajado como Jorge Amado, desejoso de falar ao povo sobre o próprio povo. Ele assumiu, então, para essa função marcas dos folhetins e dos romances populares que se tornaram suas principais características: a preocupação social e política; o convite à cultura popular; e a erotização e sensualidade da trama. Esta última sendo um jogo de promessa e prolongamento do prazer proporcionado pela leitura, adiando o clímax da narrativa e provocando o leitor com a expectativa da continuação. Sua obra apresenta também características do melodrama, que foi a base do folhetim e do romance popular. Esse gênero é marcado por situações extremas e espetaculares, pelo heroísmo exagerado, pela vontade de vingança e sede de justiça, por personagens marcados pela completa abnegação e por situações de identidade falsa e de ressurreição. Tieta, em “Tieta do Agreste”, enfrenta tubarões em um mar revolto, cercada de pedras afiadas que podem despedaçar o pequeno barco em que se encontra. Sem Pernas, em “Capitães da areia”, tem o corpo marcado pelas injustiças e o coração marcado pelo rancor, acredita que a justiça só poderá ser alcançada através da vingança. Como exemplo de identidade falsa, Tieta volta a sua cidade natal, assumindo sobrenome e vida falsos e, em um outro caso, um pouco mais sutil, Gabriela, em “Gabriela, cravo e canela”, por não saber seus dados, assume identidade falsa no cartório, o que leva à dissolução de seu casamento e à solução da trama.


Como simbologia de ressurreição, há o par romântico de Tereza Batista, que ressurge após ser dado como morto, e Tieta, que ressurge quando a família já está combinando a missa de sétimo dia. Em um caso mais explícito, Quincas Berro Dágua vence a morte convencional e escolhe de que forma quer morrer, rumando para o fundo do mar, como um velho marinheiro. Tieta é também símbolo de abnegação. Atira-se no fogo para salvar uma senhora da morte, ferindo-se, mas obtendo êxito em sua salvação, ficando dali em diante conhecida como a Joana D`Arc do sertão. Tereza Batista, da mesma forma, decidida a salvar as vítimas de uma epidemia de varíola, carrega-as nas costas, sem temer suas chagas em profusão de pus. A obra de Jorge Amado foge, entretanto, a uma característica tipicamente melodramática, que é a bipolarização maniqueísta, onde nenhuma solução de meiotermo é possível. Em sua primeira fase, as obras são lineares, passando a ser ambíguas na segunda, repletas de dualidades e de soluções inesperadas, muito mais condizentes com o mundo marcado pela globalização, onde as opções entrelaçam-se, confundem-se e os dilemas morais cada vez mais se multiplicam. Os personagens dessa fase vivem, como o autor, duas existências, tendo, às vezes, até mesmo dois nomes. A primeira a encarcerá-los na visão estreita da sociedade, cheia de normas e preconceitos, e a segunda quando descobrem uma maneira de libertar-se dessa rigidez e encontram um caminho alternativo, que os permite admitir sua verdadeira natureza, livre de amarras, tornando-se opostos do que eram. Quincas Berro Dágua era inicialmente Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, respeitoso, educado, sempre de paletó negro e sem nunca ter conhecido o interior de um botequim. Sua primeira morte acontece quando abandona a família e torna-se Quincas Berro Dágua, transformando os ilustres parentes em alvos de comentários e pilhérias. Ocorre então a morte moral. Em sua segunda vida, escolhe viver em um cortiço na ladeira do Tabuão, lugar de má fama, frequentado por prostitutas. Obedecendo à sua natureza, escolhe ser um vagabundo, malandro do cais. Torna-se um jogador, um cachaceiro, muito bem relacionado no mundo das mulheres-dama. Morre certo dia em seu quartinho com uma garrafa de cachaça na mão. A família recupera seu corpo e leva-o de volta para o universo respeitoso, providenciando um velório digno e moralmente aceitável. Ele tem então a segunda


morte, pacata, pacífica, na luz da manhã, com direito a certidão de óbito e planejamento de um enterro decente. Determinado a libertar-se definitivamente, Quincas foge daquela morte. Percorre as ladeiras de Salvador, em companhia de seus amigos, passando em bares e em castelos, para encontrar, por fim, sua terceira e derradeira morte no cais, caindo na água para nunca mais voltar. Encontra, assim, “a liberdade no mar, as viagens que não fizera em vida, as travessias mais ousadas, os feitos sem exemplo” (AMADO, J. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, 1999, p. 43). Morre garantindo sua liberdade e impedindo a prisão definitiva, em cemitério, como estabelecem que deve ser. “Me enterro como entender, na hora que resolver. Podem guardar seu caixão para melhor ocasião. Não vou deixar me prender em cova rasa no chão” (AMADO, J. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, 1999, p. 95 - 96), foram suas últimas palavras, enquanto se jogava no mar, assim como quem ria, dizendo à sociedade que ninguém doma o rei dos vagabundos da Bahia. Assim como Quincas morre sem morrer, Gabriela, devido a sua identidade falsa e inválida, casa sem casar; Dona Flor casa com dois maridos; Tieta é a benfeitora da cidade, ao mesmo tempo em que é prostituta e amante de um seminarista, sendo comparada a santa e a rival de Deus.

Imagem 4: Tieta e o sobrinho seminarista. Ilustração de Calasans Neto para o livro “Tieta do Agreste”.


Em suas primeiras obras, o autor mesmo afirmou que errava ao definir sempre dois lados opostos e excludentes, onde a cidade era dividida, por exemplo, entre ricos cínicos e pobres honestos e as mulheres ou eram de uma pureza imaculada, Mariasconcebidas-sem pecado, ou eram putas medonhas, em seus próprios termos. Contrapunha dualidades ao denunciar as desigualdades entre as classes, como são exemplos os pares: fome - abundância; rico - pobre; patrão - empregado; trabalho capital. Em suas obras mais maduras, a abordagem não recai, como antes, sobre os polos distantes, e sim sobre os triângulos, que valorizam o intermediário: céu - purgatório inferno; preto - mulato - branco; casa - varanda - rua; virgem - mãe - puta; sim - mais ou menos - não. Isso só ocorre em suas obras porque em vez de concentrar sua atenção na oposição existente entre os termos que se apresentam, Amado prefere dar mais valor ao vínculo que eles eventualmente possam apresentar, ao terreno comum que os une, por menor que seja. Essa é a originalidade do romancista. (MACHADO, 2006, p.66).

O vínculo a unir os dois lados em “Dona Flor e seus dois maridos”, por exemplo, é a própria Dona Flor, entrelaçando duas visões de mundo, dois estilos de vida e duas ideologias. Ela quebra a dualidade ao escolher não escolher, ficando com os dois maridos, representantes de vidas opostas, ao mesmo tempo. Essa ação quebra a idéia antiga de que todo triângulo amoroso acaba em tragédia e enfrenta a moralidade que nos obriga a escolher apenas um dos dois. Afinal, como diz Dona Flor “por que cada criatura se divide em duas, por que é necessário sempre se dilacerar entre dois amores, por que o coração contém de uma vez os dois sentimentos controversos e opostos? Por que optar se quero as duas coisas? Por que, me diga?”. (AMADO, J. Dona Flor e seus dois maridos, 2008).


Imagem 5: Dona Flor com Vadinho.

Ilustração

de

Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”. Imagem 6: Dona Flor com Teodoro.

Ilustração

de

Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”.


Alguns estudiosos, como Paulo Rigger e Roberto DaMatta, visualizam, nessas duas opções oferecidas à Dona Flor e a outros personagens de Jorge Amado, dois brasis, um burguês, capitalista, racional e moralmente aceito, e um outro, malandro, ambíguo e dionisíaco. Um Brasil do Estado-nacional e um Brasil da sociedade. Sendo, nesse caso, o primeiro representado pelo farmacêutico Dr. Teodoro Madureira, o segundo marido de dona Flor, cujo lema era “um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar”; e o segundo representado por Vadinho, o primeiro marido, malandro, viciado em jogo e em mulher. Segundo DaMatta, o Brasil só encontrará o seu destino quando puder somar-se a si mesmo, como Vadinho e Teodoro, como Quincas e Joaquim, como Estado-nacional e sociedade, completando-se.

8. O marginalizado como protagonista

Afeiçoando-se ao povo humilde da Bahia, representante da cultura tipicamente baiana e com tanto a dizer, Jorge Amado deu espaço a ele em suas histórias, deixando falar as vozes subalternizadas e contando a história dos “vencidos”. Foi chamado de escritor socialista, título hoje refutado por muitos estudiosos que garantem não ser essa a correta avaliação de sua literatura, devendo Jorge Amado, na verdade, ser chamado de escritor anárquico. Essa posição baseia-se nas duas principais escolhas que o autor fez ao contar histórias: a busca pela liberdade e o gosto pelos personagens marginalizados. Esses personagens não são proletários nem socialistas. Mesmo em sua primeira fase, com raras exceções, ele fugiu dos operários, preferindo para as denúncias as prostitutas, os vagabundos, os pescadores, os mestres de saveiros, as crianças abandonadas. Em suas obras, a sociedade divide-se em duas esferas, sendo uma delas a da elite, composta pelos ricos coronéis, suas esposas e seus filhos, defensores de valores que privilegiam o dinheiro, a propriedade e a hipocrisia. Na outra esfera, encontram-se os trabalhadores explorados, os grevistas, os doqueiros, as rameiras, os pais e mães de santo, as crianças maltrapilhas, que perderam sua infância. São os miseráveis, os “perdidos”, os abandonados. “Gente modesta, gente boa do subúrbio, que só comete distúrbio se alguém os menosprezar”, como diz o samba “Madureira chorou”, de Carvalhinho e Júlio Monteiro.


Jorge Amado mostra essa diferença gritante, denunciando o descaso em que os marginalizados são deixados, sendo punidos posteriormente por serem reflexos desse mesmo descaso. Ao contrário das obras do Naturalismo que, apoiado na Biologia, via o homem como um produto da raça e do meio, não podendo, portanto, ser responsabilizado pelos atos que cometia; as obras de Jorge Amado posicionam o homem como um ser consciente de seus atos e que deve ser responsabilizado pelas condições de miséria em que deixa os outros. Atribui essas responsabilidades utilizando as vozes das próprias vítimas. Mas faz isso através de personagens que, apesar das misérias e agruras da vida, apresentam a força e a alegria baianas em suas histórias. Longe de serem figuras tristes, sem esperança, eles representam o desejo de mudança e a vontade de lutar. Cantam alto suas vitórias e mais alto seus problemas, para fazer ouvir as elites e, algum dia, tudo isso mudar. Por esse posicionamento, o autor foi chamado por um crítico literário de “o poeta das putas e vagabundos”. Apesar de pronunciado como crítica, Jorge Amado adorou o apelido e afirmou, na entrevista a Antonio Roberto Espinosa: Antes eu buscava o herói, o líder, o dirigente político. Cada vez mais eu acredito menos nessa gente, cada vez eu estou mais perto do povo, do povo mais pobre, do povo miserável, explorado e oprimido. Cada vez, eu procuro mais o anti-herói... os vagabundos, as prostitutas, os bêbados. Eu sou, no fundo e sobretudo, um romancista de vagabundos e putas... e trabalhadores. Quando escrevi meus primeiros livros, no Brasil não havia proletariado, não havia classe operária propriamente dita. Havia trabalhadores. O proletariado aparece em São Paulo, com a grande indústria. Hoje os romancistas paulistas devem fazer o romance da classe operária que surgiu e está lutando bravamente. Na Bahia só agora começa a surgir um proletariado, com o pólo petroquímico e a industrialização. Daqui a dez anos, nós teremos uma classe operária. Hoje, aqui, temos trabalhadores... e prostitutas e vagabundos, meus personagens (AMADO,J. IN: JORGE AMADO, 1981, p. 29).

Tais personagens estavam até então praticamente esquecidos pela literatura. Através de sua escrita, entretanto, passaram ao primeiro plano, com espaço para contar suas histórias e suas lutas, combatendo os olhares que os vêem de cima, autoritários. Firmaram-se fortes e independentes, com sua alegria e seu erotismo, unindo-se na busca


pela liberdade e pela justiça, chegando “ao ponto de formar uma espécie de protagonista plural, um vasto coro em que mal se destaca algum solista, tal a força da soma de todas as vozes” (MACHADO, 2006, p. 80). Além de considerar Jorge Amado um escritor anárquico, José Maurício Gomes de Almeida (MACHADO, 2006, p. 75) aponta sua literatura como um tipo de anarquismo instintivo de raiz romântica, baseado em personagens de extrema força libertária, que têm em seu instinto a busca pela grande aventura da liberdade. Fábio Lucas, em “Cadernos de Literatura Brasileira” (1997, n. 3, p. 111), afirma que os personagens da primeira fase de Jorge Amado visam a justiça, enquanto os personagens da segunda visam a liberdade, almejando consegui-la através do riso e do sonho, elementos desrepressores do ser humano. É o caso, por exemplo, do já citado Quincas Berro Dágua, que lutou até mesmo depois da morte para livrar-se das prisões em que insistiam em colocá-lo, escolhendo morrer livre, viajando para sempre com as ondas do mar. É o caso também de Gabriela, rosa fresca quando no galho e rosa murcha quando posta no jarro. Moça movida a instintos, a quem tentam enquadrar nos padrões da sociedade. Ferida com tantas mudanças, com sapatos apertados, vestidos desconfortáveis, proibida de rir, de brincar de ciranda, de ir ao circo, Gabriela vai murchando. Joga fora o casamento e as convenções, por não conceber existência em que não seja fiel a sua natureza e à liberdade. Trai o marido, seguindo as vontades de seu corpo e não vê maldade no ato, em uma naturalidade instintiva de quem só quer ser feliz. Essa obra dividiu a crítica quanto ao papel que teve na luta feminista. Alguns consideram que Gabriela reforça o estereótipo machista de que a mulher é movida por instintos e outros a consideram um marco dessa luta, ao introduzir na literatura uma personagem que é não apenas objeto de desejo, mas também sujeito desejante. Nas décadas de 30 e 40, o foco dos romances eram os trabalhadores, passando, a partir da década de 50, a englobar também as mulheres. Com Gabriela, elas passaram a vir em primeiro plano nas obras de Jorge Amado, e essa heroína, considerada um mito sexual, abriu espaço para Dona Flor, Tieta e Tereza Batista. Esta última tornando-se também símbolo da luta pelos direitos da mulher, sendo, inclusive, nome de grupos feministas na Itália. Outra alteração de padrões analisada em “Gabriela, cravo e canela” é que quem quer casar é Nacib e não ela. Gabriela não se preocupa em ser incluída nas altas rodas


da sociedade, em seguir os padrões, em ter dinheiro e uma classe mais elevada. Preza a liberdade e não as convenções. Nacib, ao contrário, quer casar para prendê-la, para evitar que o abandone e para domesticá-la. Falha nessa prisão e, seguindo a natureza de Gabriela, o relacionamento entre eles só dá certo quando o casamento acaba e a moça volta a ser livre. Assim como Quincas, ela escolhe seu caminho. Tieta também busca a liberdade e por ignorar as amarras convencionais da sociedade é escorraçada de sua cidade natal ainda jovem. Para ser livre, torna-se prostituta, mas não como vítima e sim como empreendedora bem sucedida, ganhando muito dinheiro e desenhando um caminho livremente traçado. Da mesma forma, Dona Flor quebra os paradigmas e, fugindo de convencionalismos, fica com os dois maridos, sendo esposa e amante dos dois ao mesmo tempo. Em contraponto à exaltação da liberdade, há nas obras a crítica à negação do corpo e suas alegrias, exercida pelo moralismo de membros da Igreja, a abradar os pecados alheios, enquanto oculta os seus próprios, e a tolher a liberdade individual com normas e castigos. Existem exceções a essa atitude, como o autor fez questão de ressaltar a partir das figuras de sacerdotes positivos, que é o caso do padre José Pedro, amigo dos capitães da areia. Vale ressaltar, entretanto, que esse personagem, antes de começar o estudo paroquial, era um trabalhador, e foi nessa vida que aprendeu a compaixão e a solidariedade. É, inclusive, criticado pelos outros membros da Igreja, que o chamam de comunista, quando ajuda as crianças abandonadas, e ameaçam tirar sua paróquia caso não se adapte aos seus costumes. É um exemplo de sacerdote positivo que, na verdade, aumenta o poder da crítica do autor. Outro exemplo de sacerdote positivo é Frei Timóteo, confessor de Ricardo em “Tieta do Agreste”. Esse personagem afirma que as pessoas não devem se apegar a virtudes que as deixem tristes e que oprimam o homem, não devendo fazer a carne sofrer pelo medo do pecado. Esse padre, como José Pedro, não aprendeu tais conceitos no ambiente eclesiástico, mas, quando antes, foi casado e pai de quatro filhos. Com seu conselho, Ricardo encontra a liberdade, e como os outros personagens já citados, encontra também sua saída alternativa. Ela lhe permite a felicidade em toda a sua amplitude, abarcando o amor por Deus e o amor pelas mulheres. Como dona Flor, ele escolhe unir os dois caminhos. Jorge Amado utilizava essas saídas alternativas para quebrar os estereótipos de suas histórias, onde os personagens, a primeira vista, parecem muito semelhantes, com mulatas sensuais, de caráter forte e indomáveis, e malandros mulherengos, cachaceiros,


bons de lábia e cheios de simpatia. As tais saídas, entretanto, quebram essas semelhanças e tornam cada história única, dando uma reviravolta nos acontecimentos e proporcionando soluções divertidas e inesperadas que permitem a preservação da liberdade dos personagens, característica que continuam tendo em comum. Segundo Ana Maria Machado (2006, p. 103), Jorge Amado mergulha cada vez mais fundo na exploração das saídas – idealizadas ou não – que essa marginalidade oferece: a solidariedade e a rede de amizades, o humor em todas as suas formas, a transcendência religiosa por meio do sincretismo afro-brasileiro, a criatividade de uma cultura mestiça, o corpo com seus prazeres e desejos e com sua possibilidade de atuar como uma forma de contato com o além e de recebimento da divindade.

Afinal, para os personagens de Jorge Amado em busca de liberdade, como Quincas Berro Dágua diz, “impossível não há”.

9. Meninos abandonados

Um dos muitos núcleos da sociedade retratados por Jorge Amado é o dos menores abandonados. O autor não imaginava, entretanto, que aquele tema abordado em “Capitães da Areia” se agravaria tanto. De 1937 para cá, o quadro social apresentado nesse romance piorou consideravelmente, estando o assunto no centro dos debates com alarmante freqüência, sem que isso implique em soluções. “Capitães da Areia” torna-se, assim, uma obra atual, devido a sua temática, interessante a quem deseje ver a situação pelo olhar dos abandonados, jovens que se equilibram na fina linha entre a infância e a maturidade forçada. Não é o único livro de Jorge Amado que trabalha esse assunto, mas é, sem dúvida, o que discute o tema mais intensamente. Aliada a visão dos jovens, percebe-se uma crítica feroz, por vezes irônica, à atuação das instituições oficiais, como o orfanato, o reformatório, e até mesmo a imprensa. É através desta última que a história inicia-se, em um desfile de reportagens onde o leitor familiariza-se com os capitães da areia e com os ineficazes métodos destinados a corrigi-los. O jornal “A Tarde” publica uma matéria relatando um terrível furto, ocorrido na véspera, na casa do comendador José Ferreira. Os ladrões, segundo o jornal, são um grupo de gatunos, composto por mais de cem crianças, com idades entre


9 e 16 anos, que ninguém sabe onde mora e onde esconde os objetos roubados. A culpa da situação é atribuída aos pais dos infratores, pessoas sem sentimento cristão que não souberam educá-los corretamente. Eximem, assim, as autoridades e toda a sociedade de qualquer culpa. O líder do grupo é Pedro Bala, jovem de 15 anos, loiro e facilmente reconhecível por um talho no rosto. Durante o assalto, em rápida trégua, teve uma conversa com o neto do comendador sobre os brinquedos que viu no jardim. Percebe-se, então, que ainda há resquícios de infância no jovem ladrão, hipótese que é comprovada diversas vezes durante a leitura do livro. Ironizando essa inocente conversa, o jornal exige, em nome da população, que a polícia e o juizado de menores tomem providências contra os ladrões. Em resposta, o chefe da polícia envia carta à redação, eximindo-se de responsabilidade e atribuindo-a ao juizado de menores. Tal carta é publicada com o anexo de foto e vários elogios a sua pessoa. A publicação de tal carta gera ainda outra, dessa vez do juiz de menores, lançando a responsabilidade de volta à polícia. Afirma que a ele cabe apenas direcionar os jovens a boas instituições, não devendo ser culpado se os ingratos fogem do reformatório, lugar que os recolhe afetuosamente, dando-lhes do bom e do melhor ao tentar “endireitá-los”. Mais uma vez, a matéria vem acompanhada de fotos e elogios. A próxima carta é um pouco diferente, escrita por dona Maria Ricardina, costureira e mãe de um jovem que esteve no reformatório por seis meses. Ela conta as atrocidades e torturas a que são submetidas as crianças, apanhando de chicote três vezes por dia do diretor, que está sempre embriagado. Eles não têm direito à comida decente, levam surras e são obrigados a fazer trabalhos pesados, incondizentes com sua idade e seus corpos de crianças. Prefere que seu filho seja um dos capitães da areia a tentar se “endireitar” naquele reformatório. Sua carta é publicada entre os anúncios, escondida, sem fotos, sem nada. Não interessa às autoridades que seja lida. Em apoio a essa carta, escreve o padre José Pedro, relatando serem verdadeiras as palavras de Maria Ricardina. Ele freqüenta o reformatório para levar a palavra de Deus aos internos e vê os abusos que as crianças sofrem, com castigos físicos desumanos e vivendo em péssimas condições. Essa situação aumenta o ódio em seus corações e tornam-nos jovens revoltados, não existindo a menor possibilidade de saírem dali reformados. A matéria é publicada sem muito espaço e com o título “Será verdade?”, desacreditando as palavras do padre.


Em resposta às acusações, escreve ao jornal o diretor do reformatório, garantindo serem mentiras as afirmações da costureira e do padre do inferno, como chama José Pedro. A mulher, segundo ele, é a típica mãe que se aproveita dos furtos dos filhos e, por isso, deseja-o de volta. Não soube educá-lo e reclama de quem o fez corretamente. Quanto ao padre, freqüenta o estabelecimento e incentiva os jovens à rebeldia, à revolta e à desobediência. Por tal traição, será proibido de entrar lá novamente. Ao final, fotos e elogios. A costureira havia pedido, em sua carta, que o jornal enviasse alguém disfarçado ao reformatório para que visse o tratamento despendido às crianças. Não devendo, porém, avisar de sua ida, caso contrário, o diretor organizaria uma farsa para enganá-lo. Sem ouvi-la, o jornal visita a instituição com dia e hora marcada, presenciando um teatro e elogiando, em nova matéria, o reformatório e o diretor, desmascarando, por fim, os que contra eles se levantaram. Dessa forma termina o prólogo “Cartas à redação”, em crítica à permissividade da imprensa, que contribui para o agravo do problema; aos líderes das instituições, que passam a responsabilidade de mão em mão, evitando o comprometimento; e às próprias instituições, que utilizam métodos de punição, piorando a situação. São apresentados, então, os capitães da areia, que dormem em um trapiche abandonado, na praia, com porta quebrada, teto sem vários pedaços, em meio aos ratos. Tal ambiente demonstra a situação de exclusão dessas crianças, empurradas até o limite da cidade, à beira do mar. É um espaço de ninguém, que, ao mesmo tempo, pertence e não pertence à cidade, assim como os meninos. Jovens que, sem riquezas, tornam-se senhores de um espaço vazio, da areia em que dormem, tornando-se por isso capitães. Muitos deles não têm pais ou um adulto responsável, estando por isso no grupo dos capitães da areia. Outros têm família, mas ao lado dos parentes sofriam agressões e abusos, preferindo fugir e integrar o grupo dos pequenos ladrões. Todos vangloriam-se da vida que levam, pois apesar das dificuldades, são livres e independentes. A liberdade é, pois, o sentimento mais arraigado em seus corações e, apesar de serem cem crianças vestidas em farrapos, sujas, vivendo do furto, “eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas” (AMADO, J. Capitães da Areia, 1937, p. 38). Para os ricos, a cidade não passa de um espaço físico, desumanizado, que os prende atrás de altos portões. Só os meninos pobres conhecem seus mistérios, cada rua, cada esquina e respondem a sua voz.


Além do líder, Pedro Bala, o grupo é composto por meninos de diferentes idades, que integram a liderança por suas diferentes características. João Grande é temido pela força física e admirado pela senso de justiça. Professor, pela inteligência. Certa vez roubou um livro e, apaixonado por ele, passou a montar uma pequena biblioteca no trapiche, contando histórias para os outros. É ele quem planeja os assaltos e as fugas. Sem Pernas é o espião do grupo. Com um defeito físico que o faz mancar, comove famílias e entra em suas casas para descobrir a localização dos objetos de valor. É, entre todos, o mais rancoroso, machucando pessoas sem necessidade e zombando das outras crianças. É o exemplo mais contundente de que é a sociedade que faz as pessoas, inclusive os criminosos. Tendo sido maltratado e desprezado por tantos anos, formou sua personalidade baseado nos tratamentos que recebeu. Esse personagem exemplifica claramente a opinião de que a própria sociedade cria seus “monstros”, como a violência e a miséria. É, dessa forma, similar ao doutor Víctor Frankenstein, que criou um monstro e, assustado com ele, tentou detê-lo, acabando perseguido e atormentado por sua própria criação. Da mesma forma, a sociedade cria seus “monstros”, excluindo parte da população, não lhe dando assistência, atenção, não respeitando seus direitos e suas necessidades. Empurrando-a para a ilegalidade, torna-a algo que despreza e teme. A sociedade treme, assim, diante das prostitutas, dos malandros, das crianças abandonadas e dos trabalhadores humildes, que levam sua vida da forma que podem, sobrevivendo no ambiente de exclusão em que foram colocados. Surgem, assim, a violência, a miséria, o tráfico, criações da situação de menosprezo e do rancor enraizado nos excluídos, atacando a sociedade como um todo, pondo fim, lentamente, ao seu criador. Sem Pernas foi criado por um padeiro que o surrava e, ao fugir, passou fome e frio. Apanhava dos meninos mais velhos na rua e era alvo de zombaria devido a sua perna. Certa vez, foi preso e os policiais, bêbados, fizeram-no correr pela sala, rindo de sua deficiência física e batendo-lhe nas costas, até que caiu no chão, sangrando, ouvindo suas risadas. Tudo que queria, e que repete várias vezes no livro, era uma mão bondosa, alguém que cuidasse dele com carinho, fazendo-o esquecer aquela noite na cadeia. Queria uma casa, segurança, ter o que comer e, principalmente, queria uma família. Não tinha ninguém e a mágoa o dominou, fazendo-o frio e sádico, a rir e a zombar dos outros para esquecer a sua própria tristeza. Rouba e machuca com o prazer de fazer mal àqueles que não o quiseram, que não quiseram nenhum dos meninos abandonados. Mas


esse prazer não o acalma, estando sempre angustiado, incompleto, como se algo lhe faltasse. Talvez por isso tenha o defeito na perna, exteriorizando os problemas que tem internamente, tão mais profundos do que os dos outros capitães. Para ele, sempre à procura de algo que o complete, a alegria da liberdade é pouca para a desgraça daquela vida. Pirulito é um menino religioso e, todos os dias, reza pela graça de poder estudar no colégio do Sodré, que forma sacerdotes. Ao rezar, transporta-se para outro mundo e esquece, por alguns minutos, suas dores e tristezas. Antes de conhecer a religião, era violento e sádico como o Sem Pernas, mas ao ouvir os sermões de padre José Pedro, seu amigo, prometeu não brigar ou machucar mais ninguém. Se não prometia parar de roubar era porque, com essa promessa, não teria o que comer ou vestir, indo bem cedo para o lado de seu Deus, morto pela fome. Gato veio de um grupo de índios maloqueiros, que dormiam embaixo das pontes de Aracaju. Com 14 anos, já tem jeito de malandro e relaciona-se com Dalva, prostituta bem mais velha que ele. Volta Seca é afilhado de Lampião e deseja juntar-se ao seu grupo para matar policiais e saquear cidades. Boa Vida é preguiçoso e acomodado, não fazendo nada que requeira muito esforço. Querido de Deus não pertence ao grupo, pois já é adulto, com emprego fixo, mas foi uma criança como eles, abandonado e livre. Tornou-se pescador e grande capoeirista. As crianças vivem em um modelo de comunidade, seguindo regras e um líder, onde o sentimento de lealdade é mais forte que qualquer outro. Todos são representados por apelidos, o que os diferencia das outras pessoas da cidade e, de certa forma, representa o batizado da nova vida, assumindo outra identidade ao integrar o grupo e deixando para trás suas existências anteriores. Ao mesmo tempo em que a obra supervaloriza a humanidade das crianças, ironiza a ganância e o egoísmo das classes dominantes. Isso pode ser visto, por exemplo, na figura de um homem que atravessa o caminho do Professor. Sendo um ótimo desenhista, o menino anda pela cidade fazendo retratos de giz dos transeuntes na calçada por alguns trocados. Um dia, desenhou um homem que passava, poderoso em seu enorme sobretudo. Esperava agradá-lo e com isso receber algumas moedas, mas o homem ficou enfurecido com o retrato, dirigiu-lhe duras palavras e chutou-o. Humilhado e dolorido, Professor andou pela cidade. “Não compreendia. Por que eram odiados assim na cidade? Eram pobres creanças sem pae, sem mãe. Por que aqueles homens bem vestidos tanto os odiavam?” (AMADO, J. Capitães da Areia,


1937, p. 129). Em meio a esses pensamentos, viu novamente o homem e, cego de ódio, cortou-lhe a mão com uma navalha, ficando com o sobretudo de recordação. Outro exemplo é o de uma senhora de classe alta que vê o padre José Pedro em companhia dos capitães e o repreende. Os meninos, curiosos, ouvem calados e o padre responde que são apenas crianças, ao que ela retruca que não, que são ladrões, marginais e que seria melhor ele se afastar daquela gentalha. Os meninos riem, sem se ofender, e o padre sente pena daquela senhora. Essa cena ocorre quando chega à cidade um velho carrossel. É o maior exemplo de que os capitães da areia são apenas crianças e que, apesar de sua infância ter-lhes sido tomada à força, restam-lhe resquícios. Isso ocorre também com outros jovens de igual destino, como o bando de Lampião que, certa vez, planejava atacar uma cidade, saqueando, matando e estuprando seus moradores. Viram, entretanto, o brinquedo e, maravilhados com suas luzes coloridas e sua música de pianola, desistiram do ataque, indo brincar. Resgataram nesse dia sua infância, quando, pobres filhos de camponeses, não puderam gozar de tais prazeres. Assim como os capitães da areia, foram um grupo de crianças cheios de privações e abandonados pela sociedade, desembocando consequentemente no crime. O mesmo carrossel encanta, anos depois, Pedro Bala e seu grupo. Eles têm que esperar, entretanto, a vez das crianças ricas, que se divertem durante o dia e início da noite. Os meninos com suas roupinhas de marinheiro ou de pequenos lords ingleses, as meninas de holandesas ou com finos vestidos de seda. Enquanto isso, os capitães, com suas roupas rasgadas, esperam nos cantos do parque o momento de desfrutar do brinquedo, a eles só permitido no horário dos marginalizados, a madrugada. Quando podem finalmente brincar, ficam maravilhados. Sentem-se os donos da cidade, com aquele espetáculo de cores e sons girando apenas para eles. Não são mais criminosos, são simplesmente crianças, sonhando, ansiando por brincar, por desfrutar de sua infância perdida. Todos eles bebem, fumam, transam, planejam assaltos e golpes, machucam pessoas e são procurados como bandidos perigosos. Assim, apesar da pouca idade, vivem como adultos, sendo completamente responsáveis por si. Até mesmo nos traços e no olhar aparentam ser mais velhos, já sofridos e vividos. Em alguns momentos, como esse no carrossel, lembram-se que são crianças, e fingem que são como as outras, esquecendo que não têm pais, que não têm lar, que vivem do furto como homens, que são temidos na cidade como ladrões. Esquecem que


têm que esperar a cidade esvaziar para poder brincar e que não têm quem os leve para casa depois. Por um momento, são crianças, pois o que faz a infância não é a idade, são as experiências. Depois vai o Sem Pernas. Vai calado, uma estranha comoção o possui. Vai como um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para a morte. Vai pálido e coxeia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da pianola. Só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza. Já não vê os soldados que o surraram, o homem de colete que ria. Volta Seca os matou em sua corrida. O Sem Pernas vai teso no seu cavalo. É como se corresse sobre o mar para as estrelas na mais maravilhosa viagem do mundo. Uma viagem como o Professor nunca leu nem inventou. Seu coração bate tanto, tanto, que ele o aperta com a mão. (AMADO, J. Capitães da Areia, 1937, p. 91).

Apesar desses raros momentos, os meninos vivem em angústia, com sede de vingança, tentando sempre entender porque são diferentes dos outros. Pedro Bala, em um momento de revolta, estupra uma menina que andava pelo areal, como os capitães estavam acostumados a fazer. Sente-se mal depois disso, lembrando que, como ele, ela era apenas uma criança, e que como fizeram com ele, destruiu sua infância. Odeia então a sua condição de criança abandonada e o pavor que viu nos olhos da menina, sem saber o que busca e quem quer se tornar. É assim que se sente Sem Pernas, amparado apenas por seu ódio. Inveja Pirulito com sua fé, Professor com seus livros, Gato com Dalva, João Grande e Querido de Deus com Xangô. Só Sem Pernas está sozinho em sua angústia, odiando tanto ricos quanto pobres, aceitando aproximação apenas dos capitães da areia, seus irmãos na miséria, e provando sua lealdade a eles no capítulo “Família”. Em uma nova missão, Sem Pernas comove uma família e entra em sua casa com o objetivo de roubar seus objetos de valor, como fez tantas outras vezes. Nessa casa, porém, tratam-no de forma diferente. A senhora perdeu um filho da idade dele e transfere seus sentimentos maternos para Sem Pernas que, sem saber como lidar com essa situação, se enraivece, sem saber se com ela ou com ele mesmo. Não quer que ela


seja boa com ele, pois não quer mudar o seu jeito de ser. É o ódio que o alimenta, que o faz viver. Odeia os policiais que o maltrataram e o homem de colete que riu, odeia os ricos que o esnobam e os pobres que não odeiam como ele. Esse ódio não deixa que ele aceite os gestos de carinho, que apesar de raramente, lhe são oferecidos. E, por isso, prefere odiar aquela senhora, culpá-la por sua situação e roubá-la sem remorsos. As outras famílias que o receberam em suas casas o fizeram por obrigação e, mesmo assim, fizeram-no com restrições. Ele ficava na cozinha, dormia no quintal, comia os restos da comida da família e não conversava com ninguém. Assim era fácil odiá-los, por eles não sentiu gratidão. Mas aquela senhora, dona Esther, e seu marido levam-no ao cinema, à sorveteria, dão a ele livros de ilustração, dizem “vamos fazer dele um homem”, planejando cuidar dele como um filho. À noite, Sem Pernas recebe um beijo maternal de boa noite e, pela primeira vez em muitos anos, sente-se protegido dos seus costumeiros pesadelos. Não esquece, entretanto, dos capitães da areia, seus irmãos que passam fome enquanto ele tem fartura. Considera uma traição ter tudo aquilo enquanto eles não têm nada e, assim, escolhe ser leal a eles, traindo dona Esther e a si mesmo. Não aceita, apesar disso, parte alguma do dinheiro adquirido no roubo e livra-se das roupas caras que recebeu. Chora enlouquecido pelo futuro que nunca poderá ter e, mais amargo do que nunca, fecha-se até mesmo para os capitães da areia, só demonstrando afeto com um cachorro que passa a criar. Aprendeu a amar, mas ainda não consegue oferecer esse amor aos seres humanos, direcionando todo esse novo sentimento ao animal. O senso de lealdade é tão forte que não permite separar seus caminhos, destinos individuais unidos pela condição de pobreza, onde seria traição passar para o “outro lado”. Como aconteceu com Sem Pernas, o destino tenta dar uma reviravolta na vida de vários deles, não conseguindo, nesse primeiro momento. O professor, ao desenhar nas calçadas, chama a atenção de um senhor, que lhe oferece seu cartão e a oportunidade de estudar arte. O menino, entretanto, livra-se do cartão e afirma que eles só podem tornarse ladrões, não existindo outra opção de futuro. Nessa vida que levam, os meninos morrem devido a moléstias, sem remédios e sem atendimento. Só quem os ajuda é o padre José Pedro e a mãe de santo Don`Aninha. No trapiche, quando chove, os meninos têm que se encolher, procurando os lugares onde ainda há teto. A chuva bate em seus rostos, o vento açoita seus corpos e alguns meninos, ainda tão jovens, assustam-se com os relâmpagos e trovões. Outros, em meio


às tempestades, sentem apenas fadiga, tristeza e angústia. Enquanto as crianças ricas dormem, capazes de nem perceber a chuva, com um teto sobre suas cabeças e mães no quarto ao lado, os pobres se encolhem e, sem conseguir dormir, remoem os desgostos, sentindo a solidão mais intensa do que nunca. Pedro Bala se pergunta por que o mundo é assim, alguns com tanto e outros com tão pouco, sem nada fazerem para merecer tal situação. João de Adão, estivador e amigo de seu falecido pai, diz que a culpa é da sociedade mal organizada, é dos ricos, e que enquanto tudo aquilo não mudar, os capitães da areia não podem ser homens de bem. Diz que a sua condição de ladrão não é culpa sua e sim da sociedade como um todo, e que para mudá-la deve haver uma revolução. Sugere acabar com os ricos e dar seus lugares e privilégios aos pobres. Pirulito acredita que a culpa não é de ninguém, é da vida, e padre José Pedro afirma que a revolução não é benéfica, devendo todos ser iguais, sem nenhuma camada da sociedade subjugando a outra. Afirma que, no céu, todos são iguais, mas Pedro Bala não vê justiça nisso, pois acredita que se na terra os pobres sofrem, no céu o quadro deveria se inverter e não igualar os dois lados. É com um pensamento semelhante que Omolu manda a bexiga para os ricos, desejando matá-los para vingar seus filhos pobres. Estando vacinados, entretanto, a doença não os atinge, descendo para as casas dos pobres e para o trapiche dos capitães. Um deles é mandado à força para o lazareto e morre, enquanto Boa Vida vai por livre e espontânea vontade, mesmo sabendo que aquele local guarda morte certa. Sacrifica-se para não contaminar os amigos, demonstrando mais uma vez a lealdade do grupo e revelando atitude mais honrada e corajosa do que a de muitas pessoas já adultas. Os capitães representam, dessa forma, a coragem e a generosidade, em contraposição ao egoísmo, covardia e comodismo das classes dominantes, demonstrando claro posicionamento de Jorge Amado. Recompensado por sua atitude, Boa Vida sobrevive e volta para o trapiche, mas, em outro canto da cidade, os pais de Dora e Fuinha morrem, deixando-os órfãos e adicionando mais duas crianças ao universo de meninos abandonados da Bahia. Com apenas 14 anos, Dora tem que assumir as responsabilidades de um adulto, cuidando do irmão mais novo e tendo que sustentá-lo. Ao procurar por emprego, é assediada, demonstrando outro perigo vivido pelas crianças de rua. Para moças, e também rapazes, um caminho frequentemente encontrado é o da prostituição, ou mesmo o do estupro, nas inseguranças de quem vive na cidade aberta.


Dora, ao invés disso, encontra os capitães da areia e ela e o irmão passam a viver com eles. Após um primeiro momento em que os capitães tentam estuprá-la, a menina assume várias posições na organização do trapiche, representando figurações de mulher presentes no inconsciente dos meninos, como mãe, irmã, noiva e esposa. Gato pede ajuda a moça para costurar sua camisa e, quando sua mão o toca, não sente desejo. Fecha os olhos e lembra-se de sua mãe, imaginando-a em Dora, mesmo sabendo que a menina tem quase a mesma idade que ele. Esquece-se da vida de roubos, dos baralhos desonestos, do sexo com mulheres-da-vida, é apenas uma criança com sua mãe. Professor vê a cena e a compreende, guardando-a na memória como um quadro. O trapiche, a partir desse momento, tem uma mãe. Em seguida, Volta Seca fala sobre suas próprias experiências maternas e também passa a ver Dora de forma diferente, enquanto Pirulito lhe conta seus sonhos e lhe faz confidências. Professor observa mais essas cenas, calado, e percebe que também eles encontraram sua mãe. Para João Grande o sentimento é de camaradagem, e quando a menina abandona o vestido, passando a usar calças e a integrar os grupos de furtos, torna-se irmã de muitos deles. Professor continua acompanhando as mudanças no trapiche, pois, apesar de seus olhos míopes, é o que enxerga mais a frente. É, portanto, o primeiro a perceber o amor que nasce entre Dora e Pedro Bala. Um amor inocente, de criança, que vem colocar no líder dos capitães da areia finalmente sentimentos condizentes com sua idade. Para ele, Dora é noiva. Professor, em sua percepção da situação, se entristece, pois, para ele, Dora também é a mulher amada. As matérias de jornal voltam à história e narram a captura de Pedro Bala que, para salvar os outros da prisão, sacrifica-se, sendo levado para o reformatório. Assim como ele, Dora é capturada, mas é levada para o orfanato, considerada vítima ingênua dos capitães, cometendo roubos sem compreender o ato. Pedro Bala é espancado até desmaiar, forma que encontram para obrigá-lo a denunciar o paradeiro dos outros capitães. Para protegê-los, apanha calado. No reformatório, é posto na cafúa, armário apertado onde não se pode ficar nem em pé nem deitado. Suas pernas doem, impossibilitadas de serem esticadas, a sede machuca sua garganta e a escuridão o angustia. Mais que tudo, o ódio o consome. Recebe apenas água e feijão e ali passa oito dias. O lugar fede com o balde onde defeca e que não é trocado, seu corpo inteiro dói, não sabe se é noite ou se é dia, se está sonhando ou acordado.


Sai desse castigo irreconhecível, magro, com a pele esverdeada, devido a complicações intestinais. É logo mandado para o trabalho no canavial, onde, por estar tão fraco, não consegue nem mesmo segurar o facão e apanha por isso. Raspam seus cabelos, lhe dão uniforme, uma cama dura e fronhas sujas. Por qualquer coisa os meninos são castigados e espancados, acumulando ódio e revolta. Como padre José Pedro diz no início do livro, não há possibilidade de alguém sair dali “melhor” do que entrou, a situação só piora. Dora está no orfanato e, em proporções menores, também está presa. Atrás de grades e regras, adoece, e é na enfermaria que os capitães da areia a encontram, após haverem libertado Pedro Bala. A menina, apesar de livre, piora e morre, e os capitães da areia, mais uma vez, perdem sua mãe, sua irmã, sua amada. Inúmeras perdas para tão pouca idade. A morte de Dora põe fim a uma fase dos capitães da areia que, eternamente transformados por sua presença, modificam as estruturas de seu grupo e acabam por tomar diferentes destinos. A partir daí, Jorge Amado apresenta duas possibilidades de futuro para os jovens abandonados: a marginalização definitiva de uns e a tomada de consciência de outros, que encontram formas de mudar não só a sua situação, como a de todos os marginalizados. Professor recupera o cartão que lhe fora ofertado em forma de ajuda, contatando o senhor que prometera torná-lo um pintor. Vai para o Rio de Janeiro e a despedida é triste, mas Pedro Bala acredita que Professor ajudará a modificar suas vidas, pois confia ”nos quadros que ele faria, na marca de ódio que ele levava no coração, na marca de amor à justiça e à liberdade que ele levava dentro de si” (AMADO, J. Capitães da Areia, 1937, p. 293). No futuro, Professor abandona o pintor que lhe ensinara as regras acadêmicas da pintura para se dedicar a desenhos livres, que retratam a realidade dos pobres e que não precisam de regras e sim de liberdade. Torna-se muito famoso e apresenta, através de seus quadros, a vida dos capitães da areia a todo o país, causando espanto e admiração. Depois dele, é a vez de Pirulito, que, aos poucos, escolhe mudar de vida. Trabalha entregando jornais, engraxando sapatos, carregando malas, faz tudo, menos roubar. Padre José Pedro recebe uma paróquia em uma pequena vila, onde irá catequizar cangaceiros, consegue também uma vaga para que Pirulito ordene-se padre. Um dia, andando pela cidade, Pedro Bala e Sem Pernas vêem Pirulito catequizando um grupo de crianças pobres. Sem Pernas zomba de sua bondade e diz que


ela nada mudará, que somente o ódio gera mudanças. Para Bala, nem a bondade, nem o ódio, só com a luta poderão mudar a realidade dos pobres. O próximo a ir embora é o Gato, que vai para Ilhéus com Dalva, atraído pela riqueza dos coronéis de cacau. Lá, torna-se gigolô e vigarista, ganhando dinheiro com jogo desonesto e dando golpes nos ricos senhores de terras.

Imagem 7: Gato na zona de meretrício. Ilustração de Poty para o livro “Capitães da Areia”.

Boa Vida torna-se malandro e, aos poucos, sai do grupo. Vivendo de seus sambas, fugindo do trabalho e amando as mulatas da Bahia, aparece cada vez menos no trapiche, mas continua sendo amigo dos meninos. Um dia, será para os futuros capitães o que o Querido de Deus é para eles hoje. Volta Seca une-se a Lampião, seu herói e padrinho, integrando seu grupo e ficando conhecido como um dos mais violentos membros, matando as pessoas com


cruel satisfação. Preso e condenado a trinta anos de prisão, choca a sociedade ao mostrar calma no julgamento e nenhum sinal de arrependimento. O estudo de um famoso sociólogo relata que Volta Seca é um rapaz normal e que seu comportamento violento é resultado do ambiente.

Imagem 8: Volta Seca como cangaceiro. Ilustração de Poty para o livro “Capitães da Areia”.

Semelhante caso ocorre em “Tereza Batista cansada de guerra” quando, no julgamento do cangaceiro Mãozinha, o rábula Lulu faz histórico discurso em sua defesa, que termina por inspirar o seguinte samba: “Ai, seu doutor, quem matou foi o senhor... Não foi ele que só fez atirar, quem matou foi você, foi o juiz e o promotor. Quem matou foi a fome, a injustiça dos homens” (AMADO, J. Quatro mulheres, quatro romances, 1989¸p. 709). O destino de Sem Pernas é o mais coerente, pois tem o único fim possível para um menino com tamanho ódio, que de tão marcado pela vida não agüenta mais viver: a


morte. É perseguido pela polícia, certo dia, e conseguindo driblá-los, corre para a praça do palácio. Lá, está quase sendo alcançado, mas, lembrando-se da vez em que foi preso, dos policiais que o surraram e do homem de colete que ria de seu sofrimento, jura que não será capturado, que não dará novamente essa satisfação a eles. Atira-se do elevador da praça, quando está prestes a ser capturado, e morre na queda, contente com o fato. Não permite que prendam um dos capitães da areia, sonho de qualquer policial baiano, e, assim, considera sua morte como uma última vingança.

Imagem 9: Suicídio do Sem-Pernas. Ilustração de Poty para o livro “Capitães da Areia”.

João Grande torna-se marinheiro e também vai embora, enquanto Pedro Bala sente-se angustiado sem saber que caminho tomar. Para ele está reservada a revolução, sendo seu destino a representação das idéias de Jorge Amado e a solução que o autor oferecia para mudar a vida de todos os pobres, naquela primeira fase de sua carreira.


Certo dia, Bala conhece Alberto, um jovem universitário que lhe ensina coisas sobre os trabalhadores e sobre a greve, utilizando sempre em seu discurso uma palavra que fascina o menino e que ele incorpora ao seu vocabulário: companheiros. Alberto e João de Adão encarregam os meninos de uma nova missão. Para que a greve que organizam seja um sucesso, os capitães da areia devem deter os fura greves e impedir que eles façam os bondes funcionarem. Eles lhes ensinam que a greve é a festa do pobre e, como para uma festa, vão os capitães animados, sendo facilmente vitoriosos. A partir daí, toda a existência do grupo muda, principalmente a de Pedro Bala, que encontra sua forma de melhorar o mundo. A voz da revolução o chama, como a voz de Deus chamou Pirulito, a voz do ódio chamou Sem Pernas e o cangaço chamou Volta Seca. Ele ouve todos os pobres chamando, todos os sofredores, todos os trabalhadores e sabe que lutar por eles, lutar para que sejam livres, é seu destino. E com a luta, como Pedro Bala sempre disse que ocorreria, a vida deles muda. Não são mais ladrões, são uma brigada de choque que participa das lutas dos operários, das greves e dos comícios. Lutam por mudanças, para que mais nenhum homem morra de fome e seja explorado e para que mais nenhuma criança seja obrigada a passar pelo que eles passaram. Pedro Bala passa a liderança do grupo para Barandão e vai para Aracaju, preparar as crianças abandonadas de lá para também ingressarem na luta, realmente transformando a Bahia e o Brasil. Os anos passam e os jornais anunciam: Pedro Bala, líder grevista, é procurado pela polícia. Os jornais ilegais narram seus feitos, grandes atos em nome dos trabalhadores, grandes conquistas pela liberdade em um Brasil de ditadura e de censura. Anos de horror e medo para os brasileiros, mas nos quais qualquer trabalhador se arriscaria para proteger Pedro Bala, herói dos pobres. Qualquer família abriria sua casa e seu lar para que ele se escondesse e, assim, o menino órfão ganhou uma imensa família. Toda a nação se tornou o seu lar e ele não estava mais sozinho. A partir da luta, muda não só o seu destino, mas também o de todos os pobres, sendo essa a solução que Jorge Amado ofereceu para o problema das diferenças de classe, da má distribuição de renda e da marginalidade imposta a crianças e adolescentes por um sistema social defeituoso. Pretendeu, com essa história, gerar piedade ou revolta, perfurando a alienação com que a sociedade vive, fingindo nada ver e eximindo-se de responsabilidade. O livro


foi proibido durante a ditadura do Estado Novo e queimado no mesmo ano de seu lançamento, o que não conseguiu evitar seu enorme sucesso. Sucesso que, entretanto, não ajudou a abrandar a situação dos menores abandonados, o que pode ser comprovado nas diversas mortes, prisões, e barbaridades que são relatadas diariamente. Um dos exemplos mais alarmantes dessa situação foi o caso do massacre da candelária, chacina onde policiais atiraram a queima roupa em mais de setenta crianças e adolescentes que dormiam nas proximidades da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Muitos meninos ficaram feridos e oito morreram, tendo o mais velho deles apenas dezenove anos. Uma das hipóteses do crime é a de que os policiais faziam parte de um grupo de extermínio, destinado a “limpar” o centro histórico do Rio de Janeiro. Muitos deles, após terem sua culpa comprovada e de terem até mesmo confessado o crime, estão sem punição até hoje. Sem encontrar outro método para diminuir a criminalidade, demonstrando total falta de controle sobre a rapidez com que a sociedade cresce e se articula, agem exatamente como o doutor Frankenstein quando, enojados de sua criatura, tentam exterminá-la, literalmente. Outra solução para o problema dos menores de rua é debatida em “Dona Flor e seus dois maridos” quando, em visita a Dionísia de Oxóssi, antiga prostituta que largou a profissão e recentemente teve um filho, Dona Flor tem contato com as crianças pobres que vivem na zona do meretrício, livres pela rua, pedindo esmolas, sujas e com fome. Há uma discussão entre elas sobre as condições de vida que uma criança terá ali, sustentada por uma prostituta e vivendo na pobreza. Surge então a dúvida: será melhor arrancá-la da mãe e ofertá-la a uma mulher mais rica, como Dona Flor, dando-lhe conforto, mas tirando-lhe do convívio de sua mãe? Sem solução, a pergunta fica no ar e o menino continua com Dionísia, que assume os riscos sobre o futuro do filho. O tema das crianças abandonadas, contado a partir dos capitães da areia, retoma uma característica do folhetim e do romance popular: a pilhagem dos clássicos, termo utilizado para definir um depósito de temas, personagens e situações, eternizados em clássicos, e de onde outras obras retiram suas influências. É o caso de “Capitães da Areia”, que se apropria da temática de “Oliver Twist” de forma visível. Sendo Jorge Amado fascinado por Charles Dickens, admitindo inspirar-se nele ao falar sobre a infância e sendo tão perceptível essa influência em algumas de suas obras, o autor recebeu do crítico e ensaísta José Guilherme Merquior o apelido de “nosso Dickens”.


Escrita em 1838, quando Dickens tinha apenas 26 anos, a história de Oliver Twist passa-se no contexto do realismo pós-romântico da sociedade vitoriana. Pouco menos de um século depois, em 1937, o “nosso Dickens”, aos 25 anos, lança a história das crianças abandonadas, contextualizada na Bahia da primeira metade do século XX. Com contextos tão diferentes, as histórias se assemelham enormemente. Oliver nasceu em um asilo de mendigos, ficando órfão no parto e tendo por companhia apenas o médico e uma velha senhora com sua garrafa de cerveja. As autoridades resolvem, “humanitariamente”, mandá-lo para a criação, uma filial do asilo. Ironia assimilada por Jorge Amado no que consiste aos valores de compaixão e de responsabilidade da sociedade e das autoridades, livrando-se das crianças e encarcerando-as em instituições pouco eficazes. A casa de criação é coordenada por uma senhora que recebe sete pences e meio semanalmente por cada criança, ficando encarregada de criá-las. Ela tira uma pequena parcela desse dinheiro para os gastos dos meninos, desviando o resto para seu uso pessoal. Sendo assim, Oliver e os outros foram mal alimentados, mal vestidos e mal criados. Ela trancava-os no depósito de carvão por qualquer motivo e, quando esses castigos coincidiam com a visita do bedel da junta paroquial, soltava-os discretamente e dizia que sempre estiveram em seus quartos. Ao completar nove anos, Oliver é considerado velho demais para continuar na casa de criação e mandado para o asilo. Recebendo a alternativa de morrer de fome gradualmente, na casa de caridade, ou mais depressa, fora dela. Mal alimentado e em meio a uma revolta dos jovens, Oliver é escolhido para protestar por um aumento de comida. Indignados, os cavalheiros da junta paroquial resolvem ser melhor livrar-se dele, temendo a revolução e os rebeldes. Oferecem-no, assim, a quem quisesse um aprendiz ou ajudante, juntamente com o incentivo de 5 libras para que o levassem mais depressa. Antes de ir embora, porém, passa por castigos semelhantes aos que Pedro Bala vê, ou mesmo vivencia, no reformatório. O menino fica trancado em um quarto escuro e apertado; é obrigado a tomar banho de bica no quintal, em pleno inverno, enquanto leva bengaladas; apanha diariamente em frente aos outros meninos para ensinar-lhes o que acontece quando alguém exige um pouco mais de comida. Finalmente é comprado e vai trabalhar como ajudante nos enterros da paróquia, dormindo em meio aos caixões, sendo acordado a pontapés e comendo os restos da


comida do cachorro, pois, para aquela família que o comprou e para toda a sociedade, meninos órfãos e sem dinheiro estão em uma posição inferior a dos animais, merecendo apenas os seus restos de comida. Nessa nova casa, Oliver conhece outro garoto órfão, Noé Claypole, que cheio de ódio pela forma como sempre fora tratado, como Sem Pernas, destina seu tempo a humilhar os outros sem motivos. Por saber quem foram seus pais, considera-se melhor do que Oliver e zomba dele, apelidando-o de enjeitado. Percebe-se, então, uma hierarquia na sociedade: os ricos maltratam Noé Claypole, ele maltrata os órfãos anônimos, e os anônimos, como Oliver, sofrem em silêncio. Um dia, os dois rapazes brigam e Oliver foge, ficando sem casa e ganhando a liberdade da rua. A justificativa para o acontecido, segundo o bedel do asilo, é que o menino ficou rebelde pelo excesso de carne, por estar superalimentado, apesar de tais carnes serem os restos do cachorro. Para ele, o erro cometido pela família foi ter-lhe dado comida, dando-lhe assim também alma e espírito, o que é ruim para eles, que não conseguirão controlar os meninos se todos adquirirem consciência de sua situação. Na rua, ele conhece Jack Dawkins, o “trapaceiro esperto”, que o leva até Fagin, um estranho senhor que abriga diversos meninos, dando-lhes o que comer e onde dormir, em troca de eles entregarem-lhe objetos roubados. No primeiro roubo que presencia, o menino fica tão aturdido que não consegue fugir e é preso. O senhor que teve seu lenço roubado, entretanto, fica enternecido com sua situação e leva-o para casa, onde o menino passa vários dias doente e é muito bem cuidado. Certo dia é recapturado por Fagin e pelos jovens ladrões, que não o deixam voltar para a casa desse senhor. Mais tarde, em outro crime, Oliver leva um tiro e recebe ajuda das duas moradoras da casa assaltada, com quem passa a morar e que cuidam de sua saúde e de sua alfabetização. Ao final da história, descobre-se que Oliver é sobrinho de uma dessas mulheres e que tem direito a uma enorme fortuna. Passa a viver com aquele senhor que o ajudou no primeiro assalto e que, por coincidência do destino, era o melhor amigo do seu falecido pai. Todos vão morar juntos, como uma família amorosa e feliz. Pode-se perceber, então, a enorme semelhança com a história dos jovens baianos, que, muitas vezes, passaram de instituição em instituição, sendo maltratados por todos e terminando na rua, tendo que roubar para sobreviver. Com a diferença de que em “Oliver Twist”, os meninos tinham um adulto para orientá-los, alguém que os incentivava àquela vida de crimes. Em “Capitães da Areia”, as crianças não têm


ninguém. É delas a iniciativa de roubar, a percepção de que só assim terão o que comer e, para alguns, a percepção de que assim poderão vingar-se de quem não lhes dá comida voluntariamente. Oliver Twist também é diferente dos capitães por não se deixar corromper pela convivência com Fagin e com os outros meninos, nem pela liberdade e pela independência que as ruas lhe proporcionam. Foge dos crimes ao mostrar características típicas da literatura de Dickens, para quem os bons são irremediavelmente bons e sempre justiçados no final, e os maus são irremediavelmente maus, sendo presos e castigados ao final da história. Bem diferente é a literatura de Jorge Amado nesse caso, onde mesmo sendo vítimas, os meninos abandonados não são inteiramente bons e nem inteiramente maus. Com ódio, machucam, roubam e estupram, mas são crianças que sofrem, que querem amor e que sabem viver em uma pequena sociedade com respeito e generosidade entre si. As histórias seguem mais ou menos em uma mesma direção, até que os personagens são colocados diante de possibilidades semelhantes de redenção e, a partir de suas diferenças, cada um segue seu próprio destino. Sem Pernas tem uma chance similar a de Oliver ao entrar em uma casa onde é bem recebido e onde poderia ter uma família. Obrigado a roubá-la, entretanto, não se recusa, como o jovem inglês, e opta por continuar em sua vida de menor abandonado por considerar que a mudança de vida deveria ser para todos os meninos e não só para ele. Jorge Amado recusa a solução fácil e o final feliz de Dickens, acreditando que a mudança não deve ser individual e sim coletiva, onde a transformação tem que abarcar toda a sociedade, todos os pobres, todos os marginalizados, para que assim, todos tenham um final feliz. É o que fica subentendido em “Capitães da Areia”, onde a luta de Pedro Bala pelo direito dos trabalhadores tem a possibilidade de alcançar esse final feliz.

10. Homens sem rumo

Outro grupo marginalizado representado por Jorge Amado é o dos malandros, homens que, ao contrário dos plantadores de cacau, pescadores e doqueiros, também intensamente retratados pelo escritor, fogem do trabalho, das regras e costumes, vivendo em bares e cabarés, constantemente envolvidos em dívidas e em atos ilegais.


Apesar disso, conquistam o leitor com sua intensa dose de humanidade, promovendo identificação à medida que cometem erros e acertos, não sendo superficiais em virtudes extremadas, nem em maldades vilanescas. Nas obras de Jorge Amado, normalmente, os malandros são retratados de maneira carinhosa, sendo usados, inclusive, como homenagens a amigos do escritor. É o caso de Dorival Caymmi, Carybé, Jenner Augusto, Mirabeau Sampaio, Giovanni Guimarães, Mário Cravo e muitos outros já citados, que constantemente aparecem nas histórias sob a forma de engraçados e irresponsáveis malandros, que vivem aventuras e confusões. Dotados de irreverência e coragem, são marcados também pela bondade e generosidade, como é o caso de Pé de Mula, em “Tereza Batista cansada de guerra”. Malandro que, apesar do pouco caso que dirige à sua própria vida, preocupa-se com os problemas dos outros, não suportando injustiças. Ao tomar conhecimento de que um homem havia roubado dinheiro de sua vizinha idosa, procurou-o para exigir a devolução, batalhando por isso durante muito tempo, até estar a vizinha com todo o dinheiro. É, como Jorge Amado dizia, um malandro de mole coração. Além de personagens secundários, os malandros ocupam também papéis de protagonistas, sendo o mais famoso de todos Vadinho, o primeiro marido de Dona Flor, cujo nome já remete a vadio. Órfão de mãe e abandonado pelo pai, ele estudou em um internato de padres, onde se apaixonou pela mãe de um colega e com ela encontrou-se escondido. Depois dela, conheceu outras mulheres casadas, conheceu as prostitutas, a cachaça e o jogo, seu maior vício. Viu em Flor a possibilidade de um lar, necessidade não atendida na infância e na juventude, e com ela decidiu casar-se. Nunca cogitou, entretanto, afastar-se do seu antigo estilo de vida. Passou a ter uma esposa, roupa lavada, jantar feito com carinho, mas não deixou o jogo, a bebida, as outras mulheres, vícios que o criaram na ausência de um pai e de uma mãe, e que ele não achava justo abandonar. Amava Flor e não desejava vê-la sofrer, mas mais forte do que ele era o vício, e mesmo na noite de lua de mel, abandonou-a para ir ao cassino. Assim passou seis anos Dona Flor, acordada de madrugada, esperando ouvir seus passos no corredor, ouvindo histórias sobre seus diversos envolvimentos com prostitutas e com suas próprias alunas, trabalhando para sustentar o jogo do marido e chegando até mesmo a apanhar. Apesar de tais atitudes, Vadinho nos é apresentado como alguém de boa índole e suas ações


mais violentas, como bater em Dona Flor, são explicadas pelo vício no jogo e, logo em seguida, contrapostas a atos de generosidade. Agride a esposa para conseguir dinheiro para o jogo e toma-lhe as economias destinadas à compra de um rádio. Vai para casa triste, sabendo o que vai fazer, partido em dois. Um que quer ver a esposa feliz com o rádio novo, sentar-se com ela no sofá para desfrutar do aparelho; e outro que precisa jogar, que tem o palpite dos números martelando em sua cabeça e que não consegue refrear-se ante essa necessidade. Pode-se perceber tal dualidade de desejos na cena em que ele vai para casa, já prevendo o que vai acontecer e, lá, ante a recusa da esposa em entregar-lhe o dinheiro, esbofeteia-a e derruba-a no chão: Sério e triste, o rosto de Vadinho; vinha porque tinha de vir, porque nada conseguira em parte alguma, mas não vinha contente, de peito aberto e riso solto, ah! se pudesse não vir! [...] Vadinho partiu para Dona Flor, os olhos cegos, a cabeça vazia, o ódio a cobrir-lhe o entendimento, ódio de fazer o que estava fazendo. (AMADO, J. Dona Flor e seus dois maridos, 2008, p. 156 - 157).

Ao final desses acontecimentos, o dinheiro não se destina nem ao rádio nem ao jogo, pois ao encaminhar-se para o cassino, Vadinho encontra Cigano, um amigo que trabalha como taxista e que lhe conta estar desesperado, pois sua mãe morreu e não tem dinheiro nem mesmo para o enterro. Solidarizado, Vadinho entrega o dinheiro para o amigo e abandona o jogo para ir auxiliá-lo nos preparatórios do velório. Com tal atitude, Flor releva a agressão e desiste de abandoná-lo, como planejara fazer. Quando fazia algo errado que desagradava a esposa, reunia um grupo de amigos boêmios e preparava serenatas que comoviam toda a vizinhança e, quando o resultado do jogo permitia, levava para ela as mais diversas surpresas, dando-lhe, certa vez, até mesmo uma jóia verdadeira. No ano anterior à sua morte, como presente de aniversário, após pedido e insistência de Dona Flor, levou-a ao Pálace e apresentou-lhe seu universo de jogos. Lá, dançaram e arrancaram aplausos, tornando-se Flor a rainha do salão, local onde Vadinho já era rei.


Imagem 10: Serenata de Vadinho para Dona Flor. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”.

Brincava com as crianças, levantando-as no ar e imitando animais. Era leal em suas amizades, ajudando quem a ele recorresse e, apesar do vício, distribuía fichas de jogo generosamente quando alguém estava precisando. Sempre auxiliava Madame Claudette, prostituta com mais de setenta anos que nunca tinha dinheiro para pagar suas contas. Mesmo depois de morto, ajudou essa senhora e outros amigos a ganhar no jogo, causando alvoroço no cassino ao manipular roletas e cartas. Como Robin Hood, passou a roubar dos ricos para dar aos pobres. Por tais atitudes, além do humor empregado em suas falas, Vadinho tornou-se um dos personagens mais simpáticos ao público, tendo clara preferência até mesmo do autor, quando comparado ao Dr. Teodoro, o segundo marido de Dona Flor. Ele representa a alegria do povo brasileiro, em seu gosto por festas e pelo riso, um pouco irresponsável e malicioso, mas sem maldade. Os erros remediados pelo arrependimento e pelas boas ações. A fácil identificação do público com esse personagem deve-se ao fato de que ele consegue unir os prazeres do lar com os prazeres da rua, criando sua própria maneira de viver entre esses dois universos. De maneira desastrada, errando muito, ele aproveita a


vida e alcança um final feliz. Segundo José Wilker, que atuou como Vadinho no filme “Dona Flor e seus dois maridos”: ele é uma espécie de representante do desastrado brasileiro. Aquele cara que é do próprio erro, da própria incapacidade de se entender e entender a realidade. Cria e inventa a própria felicidade. [...] ele parece assim um pouco com tudo aquilo que todo brasileiro quer ser, sabe? Vencedor na loteria esportiva.

Imagem 11: Morte de Vadinho. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”.

Alegre como sempre, Vadinho morre fantasiado de baiana, em plena celebração do carnaval. Foge de uma morte séria e sóbria, alcançando o seu “final” em meio à bebida, dança, amigos e mulheres. Volta depois, entretanto, chamado pelo seu outro universo, resgatado da morte pelo amor de Dona Flor. Vence, com sua impertinência, o destino, a realidade provável e todos os Orixás que tentam fazê-lo desaparecer. Antes dele, outro personagem já provara que os malandros de Jorge Amado são imortais, capazes de driblar a morte. Em “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, em busca pela liberdade e em pilhéria aos costumes e convenções, Quincas “ressucitou”, aproveitando, pela última vez, a vida de vagabundo da cidade de Salvador. Abandonando, por iniciativa própria, a vida responsável e confortável de funcionário público, com lugar de destaque na sociedade, Quincas escolheu a vida de malandro, entre bares e cabarés, quartos imundos e sarjetas. Seu estilo de vida era conhecido na cidade e os jornais chamavam-no de “rei dos vagabundos da Bahia”, “cachaceiro-mor de Salvador”, “o filósofo esfarrapado na rampa do mercado”, “o


senador das gafieiras”, “o vagabundo por excelência” e “o patriarca da zona do baixo meretrício”. Apesar de escandalizar a família e a elite por ir contra suas regras e leis, era assíduo seguidor de outros costumes, os que regiam a vida do “povo”, incluindo nesse termo as pessoas marginalizadas pela classe dominante, entre prostitutas, malandros, crianças de rua, trabalhadores sofridos e marinheiros humildes. Abandonou a família de sangue para unir-se a esse novo círculo de convivências e, apesar de a mudança ocorrer quando ele já estava na idade madura, muito mais viveu ali. Eram como uma grande família, ajudando uns aos outros, compartilhando aventuras, emprestando dinheiro, dando auxílio em caso de morte ou doença. Em situação que se contrapõe a mesquinhez dos mais abastados, eles multiplicam a comida para oferecê-la generosamente uns aos outros, estando as casas sempre abertas aos amigos, onde, apesar da pobreza, ninguém é mal recebido. Mais do que isso fez Quincas quando, na ocasião em que a prostituta Benedita teve que internar-se no hospital, não tendo parente de sangue com quem deixar o filho recém nascido, cuidou dele por mais de vinte dias, trocando suas fraldas, dando leite e ninando-o nas noites insones. Foi essa segunda família, muito mais ligada a ele do que a primeira, que chorou sua morte e decretou, ao saber da notícia, luto em todos os estabelecimentos da cidade, entristecendo-se nos bares e fechando as portas dos cabarés. Prostitutas vestiram preto e malandros choraram como crianças, fazendo questão de despedir-se de Quincas e acompanhá-lo até a hora do enterro. Enquanto isso, a família de sangue também chorava, mas com medo de alguém descobrir a ligação entre eles e aquele tão mal afamado homem. Lutavam para ver quem cuidaria do caixão, delegando felizes a função a terceiros. Dessa forma, Quincas ficou livre para sair escoltado por sua família real, parentes escolhidos livremente, pela semelhança de valores e desejos. E, mais uma vez, reviu os bares, tomou cachaça, participou de brigas, caiu pelas ladeiras e dançou com as prostitutas. Aceitou, por fim, a morte, encarando-a como vencedor, tendo decidido onde, quando e como iria. Tornou-se, assim, mais um malandro de Jorge Amado que por muito saber viver, prolongou a vida.


Imagem 12: Quincas Berro Dágua pelas ruas de Salvador. Ilustração de Carybé.

11. Mulheres “perdidas”

Em constante interação com os personagens malandros criados por Jorge Amado estão as prostitutas, sendo suas amantes, amigas ou protegidas. Elas aparecem em quase todos os livros, em um nível de maior ou menor participação, incluindo desde os protagonistas até os personagens sem fala alguma. O tema da prostituição em “Tieta do Agreste” é apresentado em quatro núcleos. Para uma história de tão poucos personagens, tal abordagem revela a importância do assunto. O primeiro núcleo é centrado na própria Tieta, personagem a dar nome à obra, e em Leonora, moça que finge ser sua enteada. As duas chegam à Sant`Ana do Agreste fingindo parentesco e riqueza devido à herança e à posse de uma boutique de luxo. Sua ligação e sua renda, entretanto, é o universo da prostituição. Para voltar à sua cidade natal e ser novamente aceita, sendo considerada a filha pródiga de Zé Esteves e a redentora da cidade, Tieta tem que ocultar sua verdadeira profissão e durante a trama assume diversas identidades. Quando criança, era Tieta do Agreste, pastora de cabras. Conheceu o sexo a partir dos animais que pastoreava, vendo com curiosidade as relações sexuais de bode Inácio, o macho do rebanho, com as cabras jovens, logo que estas entravam no cio. Devido a isso, utilizava o balido para chamar os homens, sendo aquela a única expressão, o único som que relacionava ao ato. Respondendo com naturalidade aos instintos e desejos de seu corpo, era, como já dito a respeito de Gabriela, sujeito desejante, que não escondia sua sexualidade. Tendo


contestado os costumes moralistas da pequena cidade e de seus habitantes machistas, foi espancada e expulsa da cidade por seu pai. Andou por inúmeras cidades do interior da Bahia, obrigada a se prostituir para sobreviver. Galgou degraus até São Paulo e, por sua extrema beleza, conquistou um lugar no disputado “Nid d`Amour”, randevu de luxo. Lá, conheceu Felipe, homem rico e casado, que apreciando sua companhia, retirou-a do bordel e reservou-a para si. Vários anos se passaram e, junto a Felipe, a moça aprendeu a se comportar de maneira elegante e a lidar com negócios. Certo dia, madame Georgette, antiga proprietária do bordel, aposentou-se e escolheu Tieta para ser sua sucessora. Ela, então, mudou o nome do local para “Refúgio dos Lordes” e o seu próprio para Madame Antoinette, assumindo a identidade de uma francesa de família nobre. Uma das moças que trabalha para ela é Leonora, jovem que antes vivia em um cortiço, em situação precária, com pais ignorantes que se batiam e batiam nos filhos. Todos diziam que seu destino era trabalhar em fábrica, como seus irmãos, ou ser prostituta, como as outras moças da região. Muito bonita, chamava a atenção dos homens e, ainda bem jovem, foi estuprada. Assumiu, então, que o único caminho que a beleza oferece para moças pobres é o da prostituição. Passou a vender seu corpo para poder comer e foi presa por isso. Aceitando o conselho de uma amiga, procurou emprego no “Refúgio dos Lordes”, onde conheceu Madame Antoinette e onde passou a residir. Como as outras moças do local, tem admiração por ela e a chama de mãezinha, mas diverge de Tieta quanto a forma de ver a prostituição. Esta esquece os maus momentos que passou e os abusos que sofreu, mantendo a alegria e a vivacidade, vendo a prostituição como sua fonte de lucro e nada mais. A prostituição é tratada por Jorge Amado, através dessa personagem, com simplicidade, sem o transtorno que causa à elite, que tão distante dessa realidade só pode vê-la de maneira superficial, sentindo-se aflita com ela. Leonora lida com a situação de forma diferente, não pela prostituição em si, mas pela forma como a sociedade encara as prostitutas. Aprendeu que não tem direito a amar, a casar, ou a sonhar com a vida de dona casa por não ser mais virgem e, principalmente, por ser prostituta. Faz parte da esfera da sociedade que não tem direito a nada disso, regra já estabelecida e não contestada nem pelos proibidos nem pelos proibidores.


Quando chegam a Sant`Ana do Agreste, ela apaixona-se por Ascânio, funcionário da prefeitura, e amaldiçoa sua profissão por acreditar não ser possível viver tal amor. Intimidada pela sociedade, ela própria reforça os preconceitos quanto à prostituição. Tieta, em paz com sua profissão, mas conhecendo os preconceitos daquela comunidade, inventa uma nova identidade para ser bem recebida e fazer as pazes com a família. Assume o nome de Antonieta Esteves Cantarelli, sobrenome acrescentado para coincidir com o de Leonora, que finge ser sua enteada. Sobrenome falso para manter o verdadeiro. Rica e generosa, ela ajuda o pai, as irmãs, a Igreja, os mendigos, todos que lhe pedem. Dá a eles dinheiro ganho com a prostituição, tanto dela quanto das moças com quem trabalha. Profissão que assumiu, inicialmente, por obrigação, ao ser expulsa pela família, que, teoricamente, não aceitaria tal ajuda se conhecesse suas origens. Jorge Amado ironiza a sociedade ao mostrar que os conservadores, que bradam ser contra essa profissão, mesmo sem saber, movimentam a prostituição, aceitando o dinheiro que vem dela com tão boa vontade. E enquanto tal dinheiro circula pela cidade, o autor apresenta-nos o clero e a burguesia de Sant`Ana do Agreste. Ricos fazendeiros que traem suas esposas e maltratam seus empregados; ricas senhoras que se declaram defensoras dos sentimentos cristãos e que esquecem a compaixão, a generosidade, o perdão e tantos outros; as moças que, hipócritas, acusam umas as outras, ignorando seus próprios atos; o padre que absolve pecados de acordo com a doação do pecador; parentes que mentem para roubar dinheiro de seus próprios familiares; entre inúmeros outros casos. Jorge Amado não disfarça a crítica direcionada aos personagens de tais camadas da sociedade, reforçando seu posicionamento junto aos marginalizados. Tal situação reflete-se na cena em que Tieta, cansada da hipocrisia dos que a cercam, pensa em voltar para São Paulo, pois vê o “Refúgio dos Lordes” como um lugar bem mais fácil de viver, onde as pessoas não mascaram suas verdadeiras intenções. Ao final, Leonora revela a Ascânio que não pode se casar com ele por ser prostituta e conta-lhe toda a verdade. Enraivecido, ele a maltrata e rejeita, contando para toda a cidade a real profissão da moça e de Tieta. Expulsas, embarcam para São Paulo, com o apoio de apenas quatro amigos. Não importa que Tieta tenha lhes dado seu dinheiro, que tenha ajudado a todos, reformado a igreja, salvo uma senhora idosa do fogo. Não importa nem mesmo o fato de que iniciou tal profissão por culpa da própria


família, que há vinte e seis anos a expulsou sem dinheiro algum. O que prevalece é o preconceito. Apesar da expulsão, no final da obra, Jorge Amado expõe uma esperança de reversão da situação liderada pela mão dos pobres, como ocorre sempre em suas soluções. Após a inauguração da luz elétrica na cidade, instalação obtida por Tieta, é colocada, em um local da cidade, uma placa em homenagem a um deputado qualquer, que nada fez pelo projeto. Em certa madrugada, essa placa foi retirada e, em seu lugar, colocaram uma simples, escrita a mão, com os dizeres “Rua da luz de Tieta”. Isso ocorreu porque, segundo o autor, apesar dos preconceitos, que lentamente são vencidos, o povo não esquece quem lhe faz bem. Outro núcleo de prostituição em “Tieta do Agreste” é o bordel de Zuleika Cinderela, onde trabalha Maria Imaculada, jovem de quinze anos, que vê o sexo e a prostituição de maneira natural. Parecida com Tieta, urge em seu corpo o desejo e ela utiliza a profissão para satisfazer essa necessidade. Por si própria, procura o prazer, sendo o dinheiro requisitado pela sociedade, que o exige para atender as outras necessidades do seu corpo. Ao final da obra, vai embora com Tieta para o “Refúgio dos Lordes”, integrando o fim do ciclo da protagonista. Tieta, após o sucesso, voltou a Sant`Ana do Agreste e a Mangue Seco para reencontrar-se, voltando ao seu princípio de jovem pastora de cabras e fechando um círculo. Lá encontrou Maria Imaculada, moça igual a ela na aparência e na personalidade e, como se voltando no tempo, vê a si própria na época em que foi expulsa e a ajuda, levando a menina com ela para São Paulo. Pode-se perceber, entretanto, que essa ajuda não foi impedir que a menina continuasse a ser prostituta, pois, para ela, a prostituição não foi um mal, o problema foram as condições iniciais em que teve que se prostituir, na pobreza, de maneira insegura, perigosa. Assim, ajuda Imaculada levando-a para o seu randevu de luxo, onde poderá lucrar como ela e tornarse bem sucedida, retomando o ciclo de Tieta. Zuleika Cinderela, a dona do bordel onde a moça trabalhava, é uma mulher conhecida por tirar a virgindade dos meninos da cidade, quando esses completam treze anos. Segundo os personagens, é, por isso, quem dá aos homens a luz pela segunda vez, quando em vez da vida, dá a eles a luz do conhecimento. Com bastante humor, Jorge Amado interfere na história para repreender a si mesmo pelo preconceito apresentado na participação periférica e diminuta de Zuleika Cinderela. Prostituta que, segundo ele, tantas ofertas recebeu em outras cidades e


nenhuma aceitou por seu sentimento patriótico. Sem seu bordel, Sant`Ana do Agreste ficaria sem seu principal local de lazer, definhando diante da tediosa defesa dos costumes. De acordo com Jorge Amado, Zuleika deveria ser eleita madrinha de todas as famílias da cidade, pois além de iniciar os rapazes na vida sexual, auxilia os maridos a suportar a rotina de suas casas, salvando os casamentos e a masculinidade dos meninos, que tanto orgulho causa a suas famílias. Dessa forma, é tão patriota quando Ascânio, o vate Barbosinha ou o comandante Dário de Queluz, mas relegada a segundo plano na sociedade e no próprio romance por ser prostituta, posição de deveres cumpridos e direitos negados. O mesmo ocorre com Glória, personagem de “Gabriela, cravo e canela” e amásia do coronel Coriolano. Em troca de um relacionamento sexual com a moça, o coronel sustenta-a, pagando sua alimentação, vestimenta, moradia e pequenos luxos. Proíbe, entretanto, que vá à rua, temendo que ela se envolva com outra pessoa. Trancada em casa, Glória passa o dia inteiro apoiada na janela, observando o movimento da cidade e expondo a todos os moradores sua beleza inatingível. Em comentário semelhante ao direcionado a Zuleika Cinderela, João Fulgêncio, livreiro de Ilhéus, diz que Glória é necessidade social, devendo ser considerada de utilidade pública pela intendência. Simplesmente com sua beleza, ajuda a aumentar e melhorar a vida sexual dos ilheenses, pois, apesar de nenhum homem se atrever a enfrentar a ira do coronel Coriolano, em seus sonhos, encontram-se com ela. Direcionam o desejo gerado por tais fantasias às suas esposas, velhas e feias, que, ao invés de criticar a moça, deveriam agradecê-la, pois a ela devem sua vida sexual. Similar ao caso de Glória é o de Carol, terceiro núcleo de prostituição em “Tieta do Agreste”. Ela permanece afastada de todos os outros moradores da cidade, devido aos ciúmes de Modesto Pires, de quem é amásia, e à reprovação das beatas a tal relacionamento, sentindo-se só e infeliz. O quarto núcleo é composto pelas prostitutas da Brastânio, empresa de dióxido de titânio que pretende se instalar em Sant`Ana do Agreste. As moças surgem na história quando Ascânio vai a Salvador discutir a instalação. Para enredá-lo e convencêlo a aceitar sua proposta, a empresa oferece-lhe, como faz com todos os seus clientes, o serviço de prostitutas, colocando-o em contato com moças bonitas, cultas, que o levam para passear e o entretêm.


Essas mulheres surpreendem Ascânio, tão dominado pelos costumes de sua cidade, que não concebe outras formas de relacionamento, além dos quais está acostumado. Conhece Patrícia, de apelido Pat, e após passar a noite com ela, descobre que a moça tem um noivo e que ele não se importa com o fato de ela ser prostituta. Depois, a empresa oferece-lhe Nilsa, moça que transa com ele mas que não pode se demorar, pois seus pais são rígidos com o horário em que deve voltar para casa. Por último, destinam-lhe Bety, Bebé para os íntimos, que Ascânio já conhecia por ser secretária da empresa e que, por ter outra profissão, causa surpresa ao rapaz com a prostituição. Apesar de aproveitar a companhia dessas mulheres, simpatizar com elas e respeitá-las, não consegue ter o mesmo comportamento quando Leonora lhe conta que essa é também sua profissão. Como um amigo seu refletiu durante os anos de faculdade “O preconceito vive dentro da gente. Você pensa uma coisa, defende seu pensamento, ele é correto, você sabe disso, mas na hora de aplicá-lo...” (AMADO, J. Tieta do Agreste, 2001, p. 252). Assim, o personagem que antes havia sido comparado a D`Artagnan e a Dom Quixote escolhe não ficar com a mulher amada por descobrir nela uma imagem diferente da perfeita e ilusória Dulcinéia. Heróis de romances, sejam eles cavaleiros ou simples funcionários de prefeitura, estão normalmente destinados às damas no final das histórias. Restando à Leonora ir embora, voltar para o seu refúgio em São Paulo, enquanto Ascânio fica sozinho em Sant`Ana do Agreste, sem dama e sem mulher-dama. Nesse livro, Jorge Amado não deu o final feliz a uma prostituta protagonista, uma história de amor que resultasse em aceitação do homem amado e da sociedade. Isso ocorre com personagens secundários em várias obras, como em “Gabriela, cravo e canela”, onde Glória e o professor Josué, embora ela prossiga amásia de outro homem, permanecem juntos; em “Dona Flor e seus dois maridos”, em que Dionísia de Oxóssi casa-se com Valdemar e com ele tem um filho; ou mesmo em “Tieta do Agreste”, com a já mencionada Pat, que é noiva e vai casar-se com um homem que aceita sua profissão. “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua” quase alcança essas características, pois apesar de não apresentar uma protagonista que seja prostituta, Quincas, o protagonista, mantém, até a sua morte, um feliz relacionamento com Quitéria do Olho Arregalado, esta sim, trabalhando como prostituta. Até o último instante antes de sua terceira e última morte, ele está em seus braços, e sendo assim, o casal alcançou, se não um final feliz, uma história de amor feliz até o seu final.


Não se pode, entretanto, dizer que ele venceu os preconceitos que derrotaram Ascânio, pois Quincas já estava inserido no mundo da prostituição, sendo desse universo já muito familiar. Malandro, de vida humilde, freqüentador de bares e cabarés, já estava acostumado com o convívio de prostitutas, sendo muito mais fácil para ele manter um relacionamento com elas, do que Ascânio, de universo e costumes tão diferentes. Em “Tereza Batista cansada de guerra”, entretanto, a protagonista exerce a profissão de prostituta e alcança um final feliz com Januário Gereba, um marinheiro que conhece no ambiente do cabaré. A prostituição nesse livro é retratada de forma diferente dos demais, tendo um espaço maior e uma abordagem crua e pesada, abordando o sofrimento, a exploração e o preconceito que sofrem essas mulheres. Características que aparecem nos outros livros de forma discreta. A partir da história de Tereza Batista, Jorge Amado aborda a questão do abuso infantil e da pedofilia, tema retratado depois com humor em “Tieta do Agreste”, a partir de Edna, personagem que persegue meninos pequenos, e da própria Tieta, que se envolve com seu sobrinho menor de idade. Em “Tereza Batista cansada de guerra”, entretanto, o assunto é apresentado com seriedade e em forma de acusação, não só ao capitão Justiniano Duarte da Rosa, que compra meninas e obriga-as a manter relações sexuais com ele, mas também aos pais que vendem suas filhas e à sociedade, que tem conhecimento desses atos e não interfere. Antes dos treze anos, Tereza é vendida por sua tia ao capitão em troca de um conto e quinhentos, uma carga de mantimentos e um anel com pedra falsa. A tia, percebendo os olhares que seu marido direciona à sobrinha e suas intenções, decide vendê-la, lucrando com isso e pondo fim às despesas que tem com a menina. Sente pena dela por ser ainda tão jovem, mas lembra-se que ela mesma foi estuprada quase com a mesma idade. Ao invés de solidarizar-se com a menina devido a esse fato, ele a impulsiona. A tia abusa dela por dinheiro, o tio por desejo, e os dois planejam dispor de seu corpo de maneiras diferentes. Tereza, ao perceber o que vai acontecer, foge em companhia do cachorro de estimação, que a protege. O animal, entretanto, como a criança inocente, não vê perigo nos tios, pessoas que crê protegerem-na, e, por isso, não late quando o tio da menina se aproxima por trás dela, prendendo-a e entregando-a ao capitão.


Ferido na perseguição, o animal recebe cuidados do tio, enquanto Tereza é levada em um caminhão. Como ocorreu com Oliver Twist, no caso já mencionado das sobras do alimento do cachorro, os animais, muitas vezes, recebem mais cuidados e atenções do que os seres humanos marginalizados. Levada para a fazenda do capitão Justo, como Justiniano é chamado, Tereza é espancada, presa em um quarto escuro e, nas palavras de Jorge Amado, “pequeno demais para tamanha judiação”. Lá, como ocorrera com várias outras, Tereza é estuprada. O capitão gosta de meninas novas, que “ainda cheiram a leite”, e que apresentam resistência, sentindo prazer em usar a violência para domá-las. Em casos anteriores, espancou meninas até deixá-las desacordadas, quando finalmente estuprouas. Em outro caso, uma jovem, de tanto medo, urinou, sentindo ele prazer com essa prova de sua dominação. A cada menina que estupra, o capitão Justo prende em seu colar uma argola de ouro, chamando o acessório de “colar de cabaços”. Compara as crianças a gado de bom corte, não sendo a única vez em que meninas são comparadas a animais nessa obra. Rosalvo, o tio de Tereza, olhava o crescimento da sobrinha, esperando que menstruasse pela primeira vez para estuprá-la, acompanhando o desenvolvimento de seu corpo, da mesma maneira que acompanhava a engorda dos porcos de sua criação. Nessa noite, quando ocorre o primeiro estupro, Tereza aprende o ódio antes do medo, mas torturada por dois meses, também adquire esse sentimento, tornando-se, por causa dele, submissa, aceitando humilhações e torturas. O autor mostra, de forma direta, o que acontece com essas meninas, as depreciações a que são expostas, sendo, Tereza Batista, nessa vida, escrava sexual antes de ser prostituta. Ao matar o capitão e ir embora da fazenda, passa a trabalhar em um cabaré, atraída pela dona do estabelecimento, que ao perceber a situação da menina e o lucro que teria com ela, mostra-se “solidarizada” com sua situação e lhe oferece uma oportunidade de recomeçar em outro lugar. Mais uma vez, sua vida dá uma reviravolta e se de escrava passa à prostituta, de prostituta passa à amásia. Retirada do cabaré por Emiliano Guedes, um rico industrial, é levada para sua casa, onde lhe serve de companheira e amante, recebendo casa, comida e vestidos de luxo. A partir da morte desse senhor, entretanto, volta para a prostituição, percorrendo cidades de cabaré em cabaré, exercendo a profissão o mínimo possível, utilizando-a apenas para pagar as contas e dando preferência a trabalhos de dançarina.


Como para Tieta, a profissão é uma forma de ganhar dinheiro e nada mais, sendo encarada com naturalidade e distanciamento. “o frio a envolveu, aquela capa de gelo a cobrí-la em cama de prostituta, a mantê-la íntegra, distante do ato, vendendo apenas a beleza e a competência, nada mais” (AMADO, J. Quatro mulheres, quatro romances, 1989, p. 840). Seu primeiro contato com o sexo foi sem prazer algum e, por anos, acreditou que era apenas assim que o ato ocorria. Aprendeu então a se distanciar, evitando o envolvimento e o conseqüente sofrimento, utilizando essa estratégia nos anos futuros de prostituição. Seu corpo somente sente prazer quando se envolve com alguém por amor, sendo o sexo completamente diferente. “Sendo incapaz da luxúria pura e simples, para entregar-se com ânsia, para abrir-se em gozo, necessitava de afeto profundo, de amor; só assim, nela se acende o desejo em labaredas e em febre”. (AMADO, J. Quatro mulheres, quatro romances, 1989, p. 839). Por isso, é preferível a Tereza ser prostituta a ser amásia, pois não sabe representar, fingir prazer. O contrato com uma mulher-dama envolve sexo e não prazer, enquanto o compromisso de amásia inclui companheirismo, ternura, envolvimento. Sendo fácil para ela ocupar cama de prostituta e difícil o leito de esposa ou amásia. As prostitutas personagens de Jorge Amado são marcadas pela extrema coragem e generosidade, contrapondo-se à covardia e à hipocrisia da elite que as despreza. Durante uma epidemia de varíola, conhecida também como bexiga, os médicos e enfermeiros fogem, abandonando a população em momento de necessidade. Quem assume a função da vacinação é Tereza Batista e outras prostitutas, que visitam todas as casas, expondo-se ao contato com os doentes para vaciná-los, levando-os nas costas para o lazareto, cuidando de suas chagas, aplicando remédios e furando as pústulas. Tarefa que ninguém tem coragem de exercer, além delas, mulheres que, tendo sofrido muito, aprenderam a não temer a morte ou a recusar trabalhos que enojam a maioria. Todas sobrevivem, pois “nem a bexiga quer morte tão barata, até a morte as enjeita”, e, ao invés de receberem agradecimentos da população, perdem seus clientes, que com medo dessa estranha força de sobrevivência, acreditam que elas “tornaram-se imundas além de prosseguirem putas”, abandonando-as e obrigando-as a mudar-se. Mais do que isso, as beatas da cidade lamentam que não tenham morrido ou ficado com marcas. “- Vaso ruim não quebra mesmo. Morreu tanta gente direita e nessa vagabunda, que até no lazareto se meteu de intrometida, nada lhe pegou; bem podia a bexiga ter ao


menos lhe comido a cara” (AMADO, J. Quatro mulheres, quatro romances, 1989, p. 860). Além do preconceito, o livro aborda o sofrimento das prostitutas em relação a outras questões, como a dificuldade para criar seus filhos. Exercendo a profissão, não podem ficar com eles e ao entregá-los a terceiros para que sejam bem cuidados, correm o risco de torturas e de agressões, como ocorre com os filhos de Catarina e Vivi, amigas de Tereza no bordel de Gabi. Entregues a estranhos, as crianças vivem na pobreza, sujeitas à insegurança e à violência daquele estilo de vida. Para Tereza, o pior dessa profissão é não ter direito a filhos e, quando engravida, teme pela vida que o bebê levaria e opta pelo aborto. Além disso, Jorge Amado apresenta a prostituta como ser sem classe social, sendo por todas elas repudiada, ficando completamente à margem da sociedade. Nela batem o cafetão, o gigolô, o tira, o guarda, o soldado, enfim, a autoridade e o delinqüente. Até os outros marginalizados a excluem, como pode ser percebido em “Capitães da Areia”, na ocasião em que os meninos querem estuprar Dora e Pedro Bala a defende. Seu argumento é que ela não é uma prostituta, é apenas uma menina inocente. Torna-se claro que, caso ela se prostituisse, seria aceitável que fosse estuprada por eles. Segundo Jorge Amado no romance “Tereza Batista cansada de guerra”, do dinheiro ganho pela prostituta apropria-se o proprietário da casa, a cafetina, o gigolô, a polícia e o governo, para ela não restando quase nada. A mídia não a representa e, apesar de todos saberem de sua situação, ninguém a defende. Vivem, segundo o autor, sem carta de reivindicações, sem organização, sem carteira profissional, sem sindicato, sem programa, sem manifesto, sem bandeira, sem contar tempo de ofício, podres de doenças, sem médico de Instituto nem cama de hospital, com fome e sede, sem direito à pensão alimentar, a aposentadorias, a férias, sem direito a filhos, sem direito a lar, sem direito a amor, apenas putas, nada mais? [...] O último dos últimos encontra quem por ele brade e lute, só as putas não” (AMADO, J. Quatro mulheres, quatro romances, 1989, p. 960).

Esse discurso é feito, no romance, por Castro Alves, que ressurge da morte para clamar, não pelos escravos, como outrora, mas pelas prostitutas, conclamando-as a por fim a essa situação.


Lideradas por Tereza Batista, é isso o que elas fazem. Obrigadas a se mudar da região onde moram, conhecida como Barroquinha, recusam-se e enfrentam a polícia. Como forma de solidariedade a sua luta, todas as prostitutas da cidade resolvem não mais atender seus clientes, fazendo uma greve de sexo até que o problema seja resolvido. Conhecida como a “greve do balaio fechado”, o movimento tem grande repercussão, sofrendo com a repressão da polícia, que temendo o prejuízo para a cidade, tenta obrigá-las a acabar com a greve, através da “Operação retorno alegre ao trabalho”. As prostitutas vencem, ao final de uma violenta guerra contra os policiais, e têm suas moradias recuperadas. Após essa luta, Tereza reencontra o marinheiro Januário Gereba, por quem é apaixonada e que acreditava estar morto. Apesar da vida de escrava, amásia e mulherda-vida, sendo a prostituta de Jorge Amado cujo sofrimento é mais diretamente abordado, é a única que, vencendo as barreiras do preconceito da sociedade, conquistou um final feliz. Segundo a narradora da quinta parte do livro, Eulália Leal Amado, Tereza Batista representa todo o povo brasileiro, sofrido e abandonado, mas nunca derrotado. “Quando o pensam morto, ele levanta do caixão”. Em “Gabriela, cravo e canela”, a história passa-se em Ilhéus, conhecida como “a cidade do progresso”. Apesar disso, o tratamento dispensado às mulheres não progride de forma alguma, mantendo costumes antigos, nos quais elas devem até mesmo morrer caso seja descoberto caso de adultério. A atitude, entretanto, não é a mesma quando o caso refere-se à traição de uma prostituta. Muitos coronéis mantêm moças a sua disposição, exigindo delas favores sexuais em troca do conforto material que lhe ofertam. As amásias, como são chamadas, são proibidas de iniciar relacionamentos com outros homens que não os que as sustentam, mas, apesar disso, muitas vezes os traem. Sendo descoberta a traição, são humilhadas, maltratadas e expulsas, não merecendo a morte, como ocorre com as esposas, pois às prostitutas os coronéis não direcionam tanta importância ou esforço. Basta que percam as vantagens materiais. Nessa época em que o cacau estava em alta e os coronéis tornavam-se cada vez mais ricos, Ilhéus encheu-se de prostitutas, que sem ter quem as tornasse amásias, direcionavam-se para os diversos cabarés da cidade. Moças vindas de Salvador, de Aracaju, Recife, Rio de Janeiro e do Brasil inteiro, alojavam-se no “El Dorado”, no


“Trianon”, “Far West” e “Bataclan”, sendo este último o destino de Dalva, prostituta amante de Gato, um dos capitães da areia. Alguns desses locais eram freqüentados pelos ricos coronéis e outros homens de posses, que presenteavam as mulheres com jóias, champagne e notas de quinhentos mil réis. Os outros cabarés, instalados em esquinas e ruas escuras, eram destinados aos capatazes, roceiros e doqueiros, locais onde as moças, ocasionalmente, eram “presenteadas” com tiros. A discriminação entre as mulheres de ambos os ambientes pode ser percebida através dos termos que Jorge Amado usa para denominá-las. As prostitutas dos luxuosos cabarés são chamadas de mulheres-dama e de raparigas, enquanto o autor refere-se às que trabalham nos cabarés baratos e menos afamados como putas, quengas, vagabundas, rameiras de baixa extração e mulheres públicas. Em “Dona Flor e seus dois maridos”, o universo da prostituição também é marcado pela divisão de ambientes. Enquanto algumas prostitutas, como Dionísia de Oxóssi, trabalham nas estreitas ruas do Pelourinho, vivendo entre ratos e baratas, sem dinheiro nem mesmo para sustentar seus filhos, outras aproveitam o luxo em bordéis como o da italiana Gorda Carla, onde os negócios correm tão bem que as moças podem dar-se ao luxo de organizar saraus de música e poesia, pequenos prazeres que aquelas primeiras não têm condições de desfrutar.


Imagem 13: Cabaré da Gorda Carla. Ilustração de Floriano Teixeira para o livro “Dona Flor e seus dois maridos”.

A maioria delas, no decorrer do tempo, passa de um para o outro, como ocorreu com Madame Claudette, a amiga de Vadinho. Envelhecendo, foi perdendo sua beleza e descendo rua a rua, tombando da localização de prestígio que é a Pensão Europa, na praça do teatro, para as ladeiras do Julião e do Pilar, no “beco da Carne Podre”. Com exceção do tratamento dispensado à prostituição em “Tereza Batista cansada de guerra”, as prostitutas de Jorge Amado são vistas de maneira leve e divertida, sendo personagens como outros qualquer, onde o sofrimento se manifesta pela pobreza e não pela profissão em si ou pelo preconceito, salvo raros casos como o de Leonora. Nos casos das transmutações feitas pela Rede Globo, como as telenovelas “Tieta” e “Gabriela”, a profissão é retratada pela ótica da exclusão e do preconceito,


estando as mulheres infelizes e desejosas de mudar de vida. Isso vai contra o pensamento da maioria das prostitutas de Jorge Amado, para quem a prostituição é apenas uma forma de ganhar dinheiro, não representando sofrimento ou desgraça, apenas um caminho encontrado, como poderia ser outro qualquer. Nessas telenovelas, a abordagem é similar a do livro “Tereza Batista cansada de guerra”, assemelhando-se em muitos pontos essa obra à telenovela “Tieta”. Nela, o coronel Artur da Tapitanga, interpretado pelo ator Ary Fontoura, compra meninas de seus pais e abusa sexualmente delas. Núcleo inexistente no livro que baseou a telenovela, mas que coincide com o coronel Justo e sua compra de meninas jovens. Como Tereza Batista, Maria Imaculada é comprada e, por se recusar a manter relações sexuais com esse homem, é castigada e trancada em um quarto escuro e pequeno. A menina, completamente oposta a Maria Imaculada do livro, recusa a vida de prostituição e o sexo, encontrando diversas maneiras de não transar com o coronel. Com essa nova personalidade, assume a posição de mocinha no programa, com música-tema e papel de grande enfoque na trama. Enquanto no livro, a personagem busca o sexo, é sujeito desejante, de natureza alegre; na telenovela, é revoltada com sua situação e com a das demais meninas, incitando-as com ideais marxistas a lutar por mudanças, a rebelar-se. Sonha em fugir do coronel e daquela vida, conseguindo isso com a ajuda de seu par romântico, a quem chama de príncipe e com quem tem um final feliz, após ele preferi-la a Tieta, que prossegue prostituta. Também a personagem Carol é diferente da do livro, onde apesar de amásia e excluída pela população, pouco aparece. Na telenovela, essa exclusão assume enormes proporções, sendo a moça amarrada ao pé da mesa para não sair de casa. Em outras situações, passa fome após as beatas proibirem que os comerciantes vendam-lhe comida, e adoece após ser trancada fora de casa em meio a uma tempestade e todos recusarem-se a dar-lhe abrigo. Como quase todas as outras prostitutas do programa, ela é obrigada a se prostituir, pois o homem que a mantém como amásia tem seu filho como refém em Salvador, ameaçando separá-lo dela caso a moça abandone-o. Em tal posição de vítima, assim como ocorre com Maria Imaculada, ela recebe maior espaço na telenovela, assumindo características de mocinha e tendo como par romântico o malandro Osnar, que é também elevado à categoria de galã. Já as moças do bordel de Zuleika Cinderela, chamado na telenovela de “Casa da luz vermelha”, enfrentam confrontos diretos com as outras mulheres da cidade, sendo, em certa ocasião, impedidas de participar de uma quermesse. Como os capitães da areia


no carrossel, elas têm que olhar a festa de longe, aguardando a chegada da noite para poder participar. Em caso semelhante, na novela “Gabriela”, as prostitutas que trabalham no Bataclan são proibidas de participar de uma procissão em homenagem a Maria Madalena, situação que não ocorre no livro. Como a solução encontrada em “Tereza Batista cansada de guerra”, elas ameaçam fazer greve, fechando as portas do cabaré, e com isso recebem permissão para participar da procissão. As transmutações das obras de Jorge Amado, em sua maioria, não só as da Rede Globo, transformam as prostitutas personagens em vítimas tristes, cuja missão durante toda a trama é mudar de vida e libertar-se da prostituição. Nos livros, essa necessidade não ocorre, estando algumas ricas, como Tieta, com a possibilidade de fechar o bordel e escolher outro estilo de vida, mas optando por ali continuar. A ajuda que dá às outras prostitutas é no sentido de ganhar mais dinheiro com a profissão e não de abandoná-la. A prostituição é retratada por Jorge Amado como uma profissão comum, fonte de lucro que não exige sofrimento ou sacrifício. Isso é exemplificado por personagens como Tieta, Maria Imaculada ou Tereza Batista. As dificuldades por elas encontradas devem-se ao preconceito e à exclusão proporcionados pela sociedade, elementos que são reforçados por essa posição de sofredoras apresentada pelas transmutações. Com tal sofrimento, as obras indicam que a profissão é ruim e deve ser evitada, combatida e abandonada, o que em nada condiz com a prostituição representada por Jorge Amado.


Conclusão

Pode-se perceber, enfim, que os personagens marginalizados de Jorge Amado aparecem em suas obras em papel de destaque, obtendo para si a simpatia do leitor, apesar de suas muitas atitudes que vão contra as leis que regem a sociedade. Isso ocorre devido ao entendimento de que seus atos são gerados por uma situação maior que eles, onde essas figuras são peças da sociedade, movidas por situações que fogem ao seu controle. Sua posição de excluídos, por exemplo, é determinada por terceiros, e, por isso, as ações que provém dessa exclusão não podem ser consideradas de responsabilidade unicamente sua. Como vítimas, esses personagens batalham pela sobrevivência e pela liberdade em um mundo adaptado para as elites, necessitando, por isso, quebrar os costumes e as regras, adequando-os a sua realidade. Com irreverência e alegria, eles reinventam o mundo e a Bahia, demonstrando nessas situações qualidades e defeitos. Em posição oposta, as classes dominantes, que os excluem e maltratam, são mostradas por Jorge Amado com abundância de defeitos, em claro posicionamento do autor. Mesquinhos, hipócritas, gananciosos e, às vezes, até mesmo sádicos, os personagens da elite comportam-se como vilões, na medida em que, ao temer os excluídos, afastam-se deles, afirmando sua posição dominante ao garantir o prosseguimento da exclusão. Afinal, só existe dominador se houver um dominado. Jorge Amado tenta reverter essa situação de duas formas. Primeiramente, propõe a conscientização dos excluídos e incita-os à luta, através da insubordinação e irreverência, como fazem Quincas e Gabriela, ou através da greve, como fazem Pedro Bala e as prostitutas da “greve do balaio fechado”. Propõe que eles exijam sua inclusão, sem alterar sua natureza, procurando justiça, ao mesmo tempo em que procuram liberdade. A segunda forma de reverter a situação é apelando para o outro lado, quando humanizando os excluídos diante da elite, mina o medo que estes sentem do que lhes é desconhecido e mostra a visão dos marginalizados, aproximando as duas esferas da sociedade e facilitando a aceitação e o fim do preconceito. Para isso, age ao contrário das transmutações, onde, no caso da prostituição, são humanizadas as mulheres e condenada a profissão. Nos livros de Jorge Amado, a sociedade é apresentada como a real culpada pelo sofrimento, à medida que, com a


exclusão e a violência, empurra mulheres para a prostituição e as exclui depois por exercerem tal profissão. Sendo assim, para ele, são humanizadas as mulheres, dignificada a profissão e condenada a sociedade. Da mesma maneira, são dignificadas as atitudes das crianças abandonadas e dos malandros, quando, mesmo ilegais, retratam a falta de opções, a partir de personalidades marcadas pelo sofrimento, que somente respondem aos estímulos e respostas que sempre receberam, não sabendo agir de outra forma. As regras que esses personagens quebram foram determinadas ignorando suas realidades, e torna-se aceitável para o leitor que eles as contornem pelo fato de seguirem outras, condizentes com seu estilo de vida. Tanto os capitães da areia, quanto os malandros dos cassinos de Vadinho e da ladeira do Tabuão, amigos de Quincas, incluindo as prostitutas de Sant`Ana do Agreste e as amigas de Tereza Batista, todos eles seguem regras que permitem suas existências em pequenas comunidades. Excluídos da sociedade, unem-se em grupos que representam sociedades menores, seguindo com respeito e dedicação suas regras e leis. Seguem líderes, como Pedro Bala, respeitam “constituições” elaboradas em conjunto e seguem-nas com determinação, punindo os que as quebram. Vivem em um sistema de generosidade e respeito, dificilmente alcançado pela sociedade “verdadeira”. É através da diferença entre excluídos e dominantes que Jorge Amado demonstrou não só sua opinião acerca dos problemas da sociedade e de quem os reitera, mas também sua opinião acerca da esperança de mudança, depositando-a nos marginalizados. Foi através desses personagens que o autor apresentou a crítica e a solução, utilizando suas vozes para denunciar a exclusão e a injustiça e para oferecer sua bondade, generosidade e alegria como possíveis soluções. Afinal, não são as instituições que mudam o destino dos meninos abandonados, é Pedro Bala, um deles, que toma consciência de sua situação e de sua força, mudando o destino de todos eles. Tieta do Agreste é expulsa mais uma vez de sua cidade devido ao preconceito, mas é a elite de Sant`Ana do Agreste que a expulsa. O povo é grato e a homenageia. As prostitutas de “Tereza Batista cansada de guerra” erguem sua voz e se impõe sobre as leis que querem excluí-las ainda mais. Gabriela, Quincas e Vadinho alcançam seu final feliz, seguindo o estilo de vida que os satisfaz e quebrando paradigmas. A partir desses personagens, Jorge Amado propôs o fim do preconceito e o desenvolvimento

de

soluções

alternativas

que

possibilitem

a

inclusão

dos


marginalizados. Algum tempo se passou desde que os livros foram lançados e a situação real dos excluídos pouco mudou. Apesar disso, os leitores de Jorge Amado têm em mente essas histórias, personagens e soluções e, mesmo que inconscientemente, as leituras implantaram a semente da mudança, nem que seja apenas na maneira de o leitor ver a realidade, o que já é um começo. Uma frase que retrata bem essa situação é dita por Nacib, no filme “Gabriela”, quando, após a morte do coronel Ramiro Bastos, os dois lados da política de Ilhéus unem-se e ele diz “Tudo vai continuar igual...só que diferente”. A partir das obras de Jorge Amado é isso o que ocorre, a realidade em nada muda enquanto que, com a tomada de consciência da situação dos excluídos, para os leitores tudo muda. Após Jorge Amado, tudo continua igual...só que diferente. Pode-se perceber, a partir disso, a importância que a literatura tem para a formação e a conscientização da sociedade, aproximando-se da Comunicação no ato de reconstruir e reapresentar o real. Torna-se necessário que as Escolas de Comunicação percebam as possibilidades provenientes da junção com o campo da Literatura e organizem uma aproximação das duas áreas, verificando o tanto que uma tem a acrescentar a outra. Este trabalho analisou de que maneira a vida do romancista uniu-se a do jornalista na trajetória de Jorge Amado e como essa segunda profissão permitiu que ele continuasse sua luta a favor dos excluídos. Propõe-se, entretanto, a realização de novos trabalhos, nos quais seja possível aprofundar-se na questão das contribuições prestadas por uma área à outra. Contribuições quanto às técnicas narrativas, desenvolvimento de personagens, visão de mundo e tanto quanto possa beneficiar as duas áreas nessa relação.


ANEXOS


Glossário de personagens *Muitos trechos deste glossário são citações do livro “Criaturas de Jorge Amado” (1969), de Paulo Tavares, sendo essas partes evidenciadas pelo uso de aspas duplas. Não devem, entretanto, ser confundidas com as citações das obras de Jorge Amado, também marcadas por aspas duplas e presentes apenas nos personagens de “Tereza Batista cansada de guerra” e “Tieta do Agreste”. Os erros de pontuação, de estruturação da frase e de vocabulário são de responsabilidade dos autores dessas obras.

Capitães da Areia: “Alberto - jovem ‘estudante da faculdade’, militante comunista, que entra em contato com os capitães-da-areia para deles obter ajuda à greve dos empregados da empresa concessionária do serviço de bondes da cidade da Bahia.” “Barandão - negrinho vagabundo pelas ruas da Bahia, pertencente aos capitães-daareia. Ameaçado de surra por parte de Raimundo, o Caboclo, então chefe do grupo, ele foi defendido por Pedro Bala o qual, vitorioso na luta travada entre os dois, ficou investido na chefia. Anos depois, quando Pedro Bala deixou o posto, ele se tornou o novo dirigente: contava, nessa ocasião, quinze anos de idade.” “Boa Vida - Era o que menos produzia no grupo dos capitães-da-areia, quase um parasita. ‘Não gostava de nenhuma espécie de trabalho, fosse honesto ou desonesto’. [...] tornou-se, depois que cresceu, ‘um malandro completo, tocador de violão, jogador de capoeira, armador de fuzuês’, e ‘inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas’. Era um desses mulatos que ‘fazem uma vida perfeita pelas ruas e amam a Bahia acima de tudo’, pois é certo que ‘ninguém sabe amar sua cidade como o malandro’.” “Chefe de polícia - ‘brilhante e infatigável’ do Estado da Bahia que, a propósito do problema dos capitães-da-areia na capital baiana, fez publicar nos jornais carta esclarecendo que a autoridade competente para qualquer iniciativa no caso é o Juiz de Menores, a quem a polícia cabe atender quando solicitada.”


“Comendador José Ferreira - ‘dos mais abastados e acreditados negociantes’ da praça da Bahia, residente com a família no Corredor da Vitória, em verdadeiro palacete [...] vítima de assalto e roubo por parte dos capitães-da-areia com prejuízo que avaliou ‘em mais de um conto de réis’.” “Dalva - rameira ‘de uns trinta e cinco anos, corpo forte, rosto cheio de sensualidade’, moradora numa zona de meretrício na cidade da Bahia. Era amante do malandro flautista, Gastão, mas o deixou pelo jovem capitão-da-areia, Gato, em cuja companhia seguiu, algum tempo depois, para Ilhéus onde se amancebou com um fazendeiro de cacau.” “Diretor do Reformatório Baiano para Menores Abandonados e Delinquentes arvorado educador. ‘Vivia caindo de bêbedo’ e impunha dentro da instituição regime de campo de concentração contra as crianças internadas, enquanto pelos jornais mantinha sistemática propaganda elogiosa dizendo ser o ‘estabelecimento modelar onde reina paz e trabalho’.” Dona Esther - “Acolheu em sua casa como adotivo o menor vagabundo, Sem Pernas, na esperança de algum consolo para as saudades do filhinho único prematuramente morto havia anos. Quando o capitão-da-areia fugiu, após ter facilitado aos companheiros o roubo à casa, ela não atribuiu ao menino participação no assalto e, aflita, pôs anúncio nos jornais procurando-o.” “Don`Aninha - ialorixá do ‘terreiro da Cruz de Oxó de Afoxá’, nalgum recanto da cidade da Bahia, ‘magra e alta, um tipo aristocrático de negra que sabia levar como nenhuma das negras da cidade suas roupas de baiana.’ ‘Tinha o rosto alegre’ mas de olhar que infundia respeito, curandeira julgada miraculosa pelos capitães-da-areia porque ela ‘sabe de tudo que Iá lhe diz através de um búzio nas noites de temporal’. Também chamada Aninha. - Personagem decalcada sobre personalidade real.” “Dora - ‘bonita menina, de olhos grandes, cabelo muito loiro’, com ‘treze para quatorze anos’ ao perder o pai, Estevão, e a mãe, Margarida, vitimados pela epidemia de varíola que dizimou bairros pobres da Bahia. Relegada ao abandono com o irmãozinho Zé Fuinha [...] encontrou acolhida entre os capitães-da-areia tornando-se para eles um misto de companheira, irmã e mãe, com eles aprendendo a amar a liberdade das ruas, becos e ladeiras da cidade. Capturada e internada pela polícia num orfanato de freiras, onde enfermou gravemente, foi dali libertada graças a audacioso assalto efetuado pelos companheiros chefiados por Pedro Bala, seu romântico amado, em cujos braços faleceu poucos dias depois.”


“Dr. Raul - casado com dona Esther, residentes numa vivenda no bairro da Graça, na Bahia. ‘Era um advogado de muito nome, enriquecera na profissão, era catedrático na Faculdade de Direito, mas antes de tudo era um colecionador’ de objetos de arte. Aquiesceu com o desejo da esposa, acolhendo em casa o menor Sem Pernas, capitão-daareia, que fugiu após ter facilitado aos companheiros o roubo de várias preciosidades.” “Gato - integrante do grupo dos capitães-da-areia de ‘ar petulante, cabelos morenos lustrosos de brilhantina barata, uma gravata enrolada no pescoço’, o andar ‘gingado que caracteriza os malandros e os marítimos’, trapaceiro no jogo de cartas, metido a conquistas amorosas. Logo se faz amante da rameira Dalva, com quem depois seguiu para Ilhéus [...] para se revelar, aos dezoito anos, o mais jovem e mais afamado vigarista no sul do Estado e manter em atividade as rodas policiais.” “João de Adão - ‘estivador negro fortíssimo, antigo grevista, temido e amado’ no porto da Bahia onde ‘era um dos doqueiros mais velhos, embora ninguém lhe desse a idade que tinha’. Fora amigo de Raimundo, o Loiro, estivador que morrera numa greve deixando um filho ainda criança que veio a ser Pedro Bala, o capitão-da-areia, por ele depois admitido na estiva.” “João Grande - menor vagabundo das ruas da Bahia desde os nove anos, quando ‘seu pai, um carroceiro gigantesco, foi pegado por um caminhão’. Ingressou no grupo dos capitães-da-areia onde era ‘o mais alto e o mais forte também, negro de carapinha baixa e músculos retesados’, pouco arguto mas notável pela bondade. Amigo fiel de Pedro Bala, o chefe da malta, seguia-o por toda parte, até quando, adulto, engajou-se como embarcadiço num navio do Lóide.” “João José, o Professor - menor vagabundo das ruas da Bahia, ‘franzino, magro e triste, o cabelo moreno caindo sobre os olhos apertados de míope’. Apesar de haver freqüentado escola somente ano e meio, despertara a imaginação pelo treino diário da leitura e ‘talvez fosse o único’, dentre os capitães-da-areia, a cujo grupo pertencia, ‘que tivesse uma certa consciência do heróico de suas vidas’. Certa radiosa manhã baiana, com a ‘cidade alegre, cheia de sol’, traçou sobre o asfalto da Rua Chile o desenho de um transeunte que aconteceu ser o poeta dr. Dantas, o qual promoveu sua ida para estudar pintura no Rio de Janeiro. Tornou-se famoso logo na sua primeira exposição.” “Juiz de menores da Bahia - ‘com cinqüenta anos de vida impoluta’. Mencionado nos jornais a propósito das atividades dos capitães-da-areia, faz publicar carta em que pontifica ser esse ‘um problema que aos psicólogos cabe resolver’ e não a ele, ‘simples curioso da filosofia’.”


“Maria Ricardina - costureira, mãe do menor Alonso que estivera internado no Reformatório Baiano de Menores Abandonados e Delinquentes, de Salvador. Em carta à imprensa protesta contra o tratamento dado ali aos menores, dizendo preferir ver o filho em meio aos capitães-da-areia a deixá-lo ‘naquele inferno em vida’.” “Padre José Pedro - fora operário têxtil na infância, frequentara depois o seminário a custo de ingente esforço e atravessava dificuldades financeiras para prover o sustento da velha mãe e de uma irmã que cursava a Escola Normal da Bahia. Prestava assistência religiosa aos internos no Reformatório Baiano de Menores Abandonados e Delinquentes, de Salvador, quando, atendendo à pública invocação da costureira Maria Ricardina, em carta à imprensa dá testemunho de que naquele estabelecimento ‘as crianças são tratadas como feras’. [...] Aproxima-se dos menores vagabundos, chamados capitães-da-areia, procurando recuperá-los com amor, por vezes provocando incompreensões nos círculos religiosos, e contribui para a conversão do menor Pirulito. Afinal, é designado pelo arcebispado para uma paróquia perdida no alto sertão.” “Pedro Bala - jovem de quinze anos, alvo, ‘os cabelos loiros crescidos desabando sobre as orelhas em ondas mal tratadas’, uma cicatriz vermelha no rosto. Órfão de mãe aos seis meses de idade, logo perdeu também o pai, Raimundo, o Loiro, estivador, vítima de bala da polícia quando liderava uma greve. Desde criança vagabundeando pelas ruas da Bahia, participava do grupo dos capitães-da-areia em cuja chefia foi investido ao derrotar, numa luta memorável, o antigo chefe Raimundo, o Caboclo. Com seu espírito vivaz e resoluto, senhor da arte de tratar com os outros e porque ‘trazia nos olhos e na voz a autoridade do chefe’, ele se faz amado e obedecido por aqueles meninos abandonados e delinqüentes que agiam pela cidade e se homiziavam no areal surgido com a recém-construída extensão do cais do porto; a despeito dos assaltos, roubos e furtos, àquela vida de aventuras não faltava substância heróica devido a seu conteúdo de desajustamento e de revolta. [...] Ao atingir a maioridade, torna-se estivador e, anos depois, militante proletário perseguido pela polícia de cinco Estados como organizador de greves, perigoso inimigo da ordem estabelecida’.” “Pirulito - menor vagabundo da cidade da Bahia, integrante do grupo dos capitães-daareia, ‘magro e muito alto, uma cara seca, meio amarelada, olhos encovados e fundos, a boca rasgada e pouco risonha’, cujo aspecto físico inspirou a sua alcunha. [...] Cada dia dedicava mais horas ao fervor religioso enquanto ia pouco a pouco se afastando das atividades predatórias. Animado em sua vocação mística pelo padre José Pedro,


ingressou como leigo num convento, tomando hábito sob o nome de frei Francisco da Sagrada Família.” “Querido de Deus - pescador de profissão, morava em seu próprio barco no porto da Bahia. Era ‘o mais célebre capoeirista da cidade’, muito popular, amigo e ídolo dos capitães-da-areia.” “Sem Pernas - menor vagabundo da cidade da Bahia, que ingressou no grupo dos capitães-da-areia ao contar cerca de treze anos. ‘Nunca tivera família, vivera em casa de um padeiro’ a quem chamava de padrinho e que o surrava e de cuja companhia ‘fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria’. ‘Coxo, o defeito físico valeu-lhe o apelido mas também a simpatia’ das mães de família que se condoíam do seu aspecto ‘humilde e tristonho’. [...] vendo-se encurralado pelos policiais na Praça do Palácio, foi manobrando até o parapeito sobre o abismo, ao lado do Elevador Lacerda e, de pé em cima da mureta, ‘volve o rosto para os guardas que ainda correm, ri com toda a força do seu ódio, cospe na cara de um que se aproxima estendendo os braços, e se atira no espaço como se fosse um trapezista de circo’.” “Volta Seca - viera da caatinga acompanhando a mãe que demandava a capital para pedir justiça contra o esbulho dum pedaço de terra mas morreu no caminho. Juntou-se aos capitães-da-areia, destacando-se pela habilidade em imitar vozes de bichos e pela obsessão das façanhas de Lampião, a quem chamava ‘meu padrim’, Tornando-se muito visado pela polícia, meteu-se ‘na rabada de um trem’ rumo a Aracaju, mas o comboio é assaltado no sertão desértico – e a partir desse instante ele passa a se confundir com a personalidade de igual nome, do bando daquele cangaceiro, que tanta notoriedade granjeou pela sua perversidade.” “Zé Fuinha - criança ‘com seus seis anos’ de idade, deixada na orfandade com a morte dos pais, Estevão e Margarida, e ao inteiro desamparo com sua irmã Dora pelas ruas da Bahia, até serem acolhidos pelos capitães-da-areia.”

Gabriela, cravo e canela: “Coriolano Ribeiro - Vivia por gosto na fazenda, desprezando qualquer conforto, ‘vestido com calça porta-de-loja, paletó batido pelas chuvas, chapéu de respeitável idade, botas sujas de lama’, mas mantinha a família na Bahia, onde ele somente ia de ano em ano [...] ‘Seu único luxo era rapariga de casa montada’, de início em rua de canto mas depois instalada ostensivamente no centro de Ilhéus, ‘sempre bem alimentada


e bem vestida’ porém trancada em casa, solitária, devido aos ciúmes dele, metido na fazenda, e só aparecendo de quando em quando.” “Coronel Ramiro Bastos - fazendeiro de cacau vindo da época do desbravamento, antigo chefe político de Ilhéus, senador estadual em eterna licença e por várias vezes intendente municipal. ‘Aos oitenta e dois anos de idade, era um velho seco, a cabeça de cabelos brancos, as costas curvadas, as mãos ossudas’, já viúvo, que vivia em rico sobrado na Praça Matriz ainda ditando ordens em toda a região e aos dois filhos.” “Gabriela - nascida no Nordeste e órfã ainda menina, ficou aos cuidados do tio casado, o roceiro Silva, que algum tempo depois embora ‘velho e doente’ a seduziu [...] A seca assola nessa época a região que se despovoa com a emigração para o Sul. Ela se põe também a caminho em companhia do velho tio, já viúvo, trôpego e tuberculoso, que morre durante a viagem. [...] o comerciante de origem síria Nacib Achcar Saad, premido pela necessidade, e à falta de outra, contrafeito a contrata como cozinheira. No dia seguinte, o milagre: a mulata é jovem e bela, é fruta do mato, flor agreste, ‘com cheiro de cravo e cor de canela’ – e como sabe preparar petiscos deliciosos! [...] De Gabriela da Silva, aos vinte e um anos vira Gabriela Saad, ou melhor, a senhora Saad. Ela, porém, é a própria simplicidade da Natureza: não conhece limitações. E casamento é freio, restrição. ‘Ruim ser casada, gostava não... Sapato apertado... Jóias, anéis... que fazer com esse mundo de coisas? Do que gostava nada podia fazer... Roda na praça, correr na praia, rir pra seu Ari, deitar com seu Tonico, podia não’.” Seguindo os desejos do seu corpo e sendo fiel apenas a sua liberdade, trai o marido com Tonico Bastos e separa-se dele. Após o fim do casamento, recuperada sua autonomia, a relação entre ela e Nacib volta a funcionar, estando juntos, sem compromissos. “Dela podem-se enumerar qualidades e defeitos, explicá-la jamais. Faz o que ama, recusa-se ao que não lhe agrada”. “Explicar é limitar. É impossível limitar Gabriela, dissecar sua alma.” “Glória - ‘manceba do fazendeiro’ de cacau, o coronel Coriolano Ribeiro, que vivia frugalmente na fazenda e contudo a mantinha com todo o conforto mas solitária em plena Praça Matriz, na pacata Ilhéus de 1925, vizinha das melhores famílias, em casa da qual nenhum admirador ousava se acercar devido à truculenta fala do velho coronel. E ela, como uma prisioneira se postava a olhar a rua, seu ‘rosto moreno queimado, de lábios carnudos e ávidos, de olhos entornados em permanente convite’, a suspirar, sua carnação exuberante ‘tão apetecida e tão se oferecendo’, seus ‘seios altos colocados na janela como sobre uma bandeja azul’. Mas, afinal, ela atrai o professor Josué, poeta e


pobre, para dentro da fortaleza: contra a geral expectativa, o coronel, de violência decadente, ao descobrir a infidelidade se limita a pô-la porta a fora com malas e tudo.” “João Fulgêncio - inteligente ‘dono da Papelaria Modelo, centro da vida intelectual de Ilhéus’, na década de 20. Ilheense de nascimento, casado com boa e alegre senhora, mãe dos seus seis filhos pequenos, ele era homem morigerado, ‘bonachão e risonho, amigo da blague e da ironia, que amava rir dos costumes locais’.” “Josué - ‘professor e subdiretor do ginásio’ de Ilhéus. De ‘gravata borboleta azul com pintas brancas, o cabelo reluzente de brilhantina e as cavadas faces de tísico, alto e espigado’, sempre ‘com um livro de versos na mão’ [...] ele cede ao fascínio da bela mulata Glória, vigiada concubina do coronel Coriolano Ribeiro.” “Nacib - ‘vindo da Síria para o Brasil aos quatro anos de idade [...] Adulto, fixa-se em Ilhéus de sociedade na loja do tio, da qual se aparta para adquirir o bar Vesúvio. Era então ‘alto e gordo, a cabeça chata e enorme cabeleira, boca gulosa, grande e de riso fácil’, ornamentada de ‘frondosos bigodes plantados num rosto gordo e bonachão, de olhos desmensurados, fazendo-se cúpidos à passagem das mulheres’.” Contrata Gabriela como cozinheira e, ao apaixonar-se por ela, teme perdê-la. Para evitar que isso aconteça, casa-se com a moça, aprisionando-a em regras e ciúmes. Separam-se após traição de Gabriela, percebendo, entretanto, que o relacionamento dos dois melhora após o fim do casamento, retomando, então, relações de cozinha e cama.

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua: “Benedita - Rameira moradora na ladeira de São Miguel, na Bahia. Tendo-se internado enferma num hospital, deixou seu filhinho de apenas três meses com Quincas Berro Dágua que dele cuidou carinhosamente durante vinte dias.” Giovanni Guimarães - é um jornalista que publicou matéria sobre os subterrâneos da vida baiana, com foto de Quincas, recorte que foi guardado com carinho por Quitéria do Olho Arregalado. “Joaquim Soares da Cunha / Quincas Berro Dágua) - funcionário público exemplar, casado com Otacília, pai de Vanda e já avô. Irmão da gorda Marocas e de Eduardo, comerciante. Recém-aposentado, o respeitável cidadão ‘de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca’, certo dia, num repente, imprevistamente se rebela contra o mandonismo rotineiro da mulher e da filha, lança-lhes na cara seu desabafo ‘Jararacas!’ e, sereno, ‘como se estivesse a realizar o menor e mais banal dos atos, foi-se


embora e não voltou’ jamais. Nascera, naquele momento, Quincas Berro Dágua, rei dos vagabundos da Bahia.” / “ele se tornara, segundo unânime consenso, no cachaceiro-mor da cidade, ‘senador das gafieiras’ e rei da vadiagem. [...] vive ao léu, sem horário e sem cuidado [...] um dia amanhece morto em seu catre num quarto imundo de um idoso sobrado à Ladeira do Tabuão. [...] o defunto redivivo, de conluio com os companheiros, sai para sua última esbórnia que termina, ‘por sua própria vontade’, no fundo do mar em frente ao porto da Bahia.” “Quitéria do Olho Arregalado - bonita e terna amante de Quincas Berro Dágua, moradora numa casa de rameiras à Ladeira de São Miguel, na Bahia.” “Vanda - filha de Joaquim Soares da Cunha e de sua falecida esposa Otacília. Casada com Leonardo Barreto. Tinha ‘os cabelos castanhos’ e seus lábios ‘seriam belos e desejáveis não fosse certa rígida dureza a marcá-los’. Apesar de todo seu empenho não conseguiu que o extraviado Quincas Berro Dágua, morto, voltasse a ser o respeitável Joaquim Soares da Cunha.”

Dona Flor e seus dois maridos: “Carybé - ‘um troca-tintas modernista [...] que, com desplante e acinte à sociedade, a retratara vestida de rainha’ ” (Sobre Dionísia de Oxóssi). “Cigano – filho de Aníbal Cardeal e de Agnela. O pai, que fora motorista de taxi, morrera de desastre deixando-o ainda criança, sem recursos. A mãe, lavadeira, criou-o a esfalfar-se no tanque dágua, ‘uma escrava no trabalho e sempre jovial’, na casinha no fim de linha do bairro de Brotas. Ele se fez também chofer de praça, era dado a amizades, e íntimo do boêmio Vadinho. Por coincidência, no momento em que ele saldava no banco a última letra do automóvel, adquirido a amealhar tostões com o auxílio da mãe, chega um portador com a notícia de que ela acabava de falecer de um ataque cardíaco.” “Dionísia de Oxóssi - amante do negro Valdemar, Vadinho por apelido, e chofer de caminhão, moradores num quarto à Rua do Maciel, na Bahia. Mulata ‘de grande boniteza’, que fora ‘capital e adorno do democrático e afreguesado castelo da Luciana Paca’ e ‘retratada vestida de rainha num trono de afoxé’ pelo pintor Carybé, e era iaô de preceito. Estava de filho recém-nascido, um negrinho ‘bitelo de grande e bonito’, quando é procurada por dona Flor para esclarecer a paternidade do infante: esclarecido


o qüiproquó devido à coincidência de apelido do amante de uma e do marido da outra, nasceu amizade entre elas que se tornaram comadres.” “Dona Flor - nascida Florípedes, filha do falecido Gil e de sua esposa Rozilda, e irmã de Rosália e de Heitor, residentes à Ladeira do Alvo, na Bahia. Ao morrer o pai, modesto representante comercial, ela e os irmãos, bem jovens, ficam sob a férrea tutela da mãe que todo esforço envidou no sentido de garantir afortunados casamentos para as filhas. Ela, a mais moça das duas, dada à arte culinária, serena e modesta, de ‘delicado rosto redondo, cor de mate, olhos de azeite’, com formosas covinhas na face, ‘morena rechonchuda, servida de carnes’ [...] contrai matrimônio com o doidivanas Vadinho: passa a ser Florípedes Paiva Guimarães, Flor dos Guimarães. Aluga casa à Rua do Sodré onde instala a conceituada Escola de Culinária Sabor e Arte [...] Viúva aos trinta anos, sucumbida de dor [...] Casa-se então com o respeitável e comedido farmacêutico dr. Teodoro Madureira, tornando-se Florípedes Paiva Madureira, de viver tranqüilo: hábitos metódicos e fazenda próspera. Eis senão que, justo na noite em que um ano festejava do auspicioso segundo consórcio [...] ante ela materializa-se nu [...] Vadinho redivivo querendo partilhar do novo leito, nela desencadeando a ‘terrível batalha entre o espírito e a matéria’. “Dona Norma - esposa de Zé Sampaio, mãe do ginasiano Arthur, residentes à Rua do Sodré na Bahia [...] Conhecera dona Flor na Ladeira do Alvo, antes de casar e ao iniciar suas aulas de culinária, a estima se consolidando na Rua do Sodré onde, vizinhas, ela lhe aplainou as dificuldades do primeiro casamento com o estróina Vadinho e, depois de viúva, lhe alcovitou o segundo enlace com o boticário dr. Teodoro Madureira. [...] Enfim, era uma ‘dama de realce, pessoa muito alegre e novidadeira, de bondade natural e generoso coração’.” “Dorival Caymmi - um moço querido de toda a gente por sua educação e alegria, seu jeito modesto e ao mesmo tempo fidalgo, sua competência no beber, sua finura de trato, e sua música: a qualidade única de seu violão, dele e de mais ninguém, e sua voz de mistério e picardia. Um retado. [...] De Vadinho era amigo do peito, juntos haviam tomado os primeiros tragos e varado as primeiras madrugadas.” “Dr. Teodoro Madureira - Era, então, um ‘soberbo quarentão’ de boa compleição, ‘o porte digno, os modos elevados, todo composto de colete e ouro, forte de saúde, morigerado de hábitos, um senhor de bem’, quando toma tento da soberba viúva dona Flor [...] Casam-se com todas as formalidades, gozam breve lua-de-mel na vivenda do dr. Pimentel em São Tomé de Paripe e passam à rotina diária – ele na botica, ela na


escola – a prosperarem [...] ele figurando no ‘seleto mundo da música’ sob a direção do comendador Adriano Pires e participando da Sociedade Baiana de Farmácia. Bem posto e composto, sem problemas nem devaneios, íntegro, circunspecto e feliz, ele se manteve ausente, insciente, da crise por que passou a esposa, ‘dividida ao meio, em luta o espírito e a matéria’, com as incursões astrais do dissoluto primeiro marido a teimar em partilhar do novo leito.” Giovanni Guimarães - é um antigo amigo de Vadinho, com quem percorria ruas, castelos e cassinos, em uma existência desraigada, entorpecida pelos prazeres da vida, Após casar, transforma-se em cidadão exemplar, extinguindo os vícios de seu cotidiano e esquecendo as aventuras que a Bahia sabe tão bem proporcionar. Após a morte do amigo Vadinho, ouve sua voz a atormentá-lo, e, incitado por ele, volta aos cassinos. Gorda “Carla - cortesã com casa de tolerância no centro da cidade da Bahia, italiana gorda, dada a leituras e romântica, que não podia ‘passar sem uma paixão dramática e navegava de boêmio em boêmio, suspirando e gemendo ciúmes’, de olhos azuis, ‘seios de prima-dona, as coxas espantosas’. Às quintas-feiras à noite, ‘reunia uma espécie de salão literário em seus amplos aposentos’ poetas, artistas e pessoas gradas a recitarem versos, contarem anedotas, com acompanhamento de bebidas e docinhos.” “Jenner Augusto - ‘pálido cantor de cabarés’, egresso de Aracaju e dos mais indormidos boêmios da cidade da Bahia. Amigo do valdevinos Vadinho, então apaixonado pela jovem Flor, ele participou da memorável serenata em homenagem à moça.” “Madame Claudette – velha cortesã francesa, moradora no cortiço de propriedade da senhora dona Imaculada Taveira Pires, situado à Ladeira do Pelourinho, na Bahia. Contando cerca de setenta anos, ruína física e moral, ‘já não tinha nem um resquício de amor-próprio, apenas medo da fome, de morrer de fome’, a levava a mendigar fichas à noite pelos antros de tavolagem ‘não para jogar: para remir, garantindo o de comer do outro dia.” “Mário Cravo - ‘magro e bigodudo’, artista de revolucionários métodos, e – segundo vozes cochichadas – de métodos algo duvidosos em negócios de santos antigos, sócio que era dos poetas Carlos Eduardo e Odorico Tavares.” “Vadinho - apelido que substituía o nome de Valdomiro dos Santos Guimarães, filho bastardo do estudante Guimarães e da copeira da casa dos avós paternos, Valdete, morta de parto ao dar-lhe à luz na cidade da Bahia. Cedo foi internado num colégio de onde se retirou ainda adolescente. Abandonado à própria sorte pelo pai ao casar com


mulher rica. ‘Rapazola de dezessete anos’ ao iniciar-se nos segredos da roleta e do carteado pelo patriarca Anacreon, era ele ‘vagabundo, sem ofício nem meio de vida’, mantendo-se de dúbios expedientes e conluiado em casas de tavolagem e de tolerância, quando seu tio e famoso boêmio Chimbo, aliás dr. Aírton Guimarães, obtém-lhe o encosto de jardins da Prefeitura, emprego de mísero salário mas de absolutamente nenhum trabalho [...] ele continuou, depois de casado, na costumeira rotina a emitir promissórias insolváveis, a jamais observar horário, a chafurdar-se em dissipações lúdicas e eróticas, fazendo os olhos da esposa verterem torrentes de lágrimas [...] Numa manhã de domingo de carnaval, ele saracoteava em plena folia no Largo Dois de Julho ‘quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo’ e cai morto [...] reverte ao mundo dos vivos para, demudando a ordem natural das coisas, revelar a seus antigos cômpares de estúrdia palpites de estourar bancas, e, principalmente, para compartilhar do novo leito da ex-esposa.” “Valdemar - conhecido por Vadinho, amante de Dionísia de Oxóssi [...] tinham um filhinho recém nascido, dado de afilhado a dona Flor. Era ‘um negro maciço e jovem, um riso de dentes brancos a lhe rasgar a boca, uns olhos de domingo’, chofer de caminhão.” “Zequito Mirabeau - filho de dona Belinha, com duas irmãs, ‘gente da maior distinção’ na cidade da Bahia. Moço ‘habituê do jogo e da boemia’, chamado pelas mundanas de ‘belo Mirabeau’, vivia de súcia com o doidivanas Vadinho, com Mirandão, com Giovanni e com outros de igual casta a encher as cálidas noites da cidade. Certa feita, no Pálace, quando andava às voltas com uma das cantoras Irmãs Catundas, quase entra em conflito com o conceituado comerciante Zé Sampaio. Com o perpassar dos anos aburguesou-se, transformado em cidadão respeitável.” “Zé Sampaio - casado com dona Norma [...] ‘Estabelecido com loja de sapatos na Cidade Baixa, sujeito de conversa rara, casmurrão, pouco dado a visitas, a relações e intimidades com os vizinhos, o oposto da esposa’.”

Tereza Batista cansada de guerra

Capitão Justiniano Duarte da Rosa - Envolvido em brigas de galo, falsificações nas contas do armazém, roubos de terras, mortes, tocaias e estupros, o capitão Justo, como era chamado, era temido por todos, não sendo seus atos questionados ou confrontados por ninguém. Tinha preferência por meninas jovens, com menos de quinze anos,


comprando-as de seus parentes ou roubando-as, para fazer delas escravas sexuais. A cada uma que estuprava, adicionava uma argola de ouro no colar do pescoço, chamado de “colar de cabaços”. Tinha preferência por meninas que demonstrassem resistência, gostando de bater nelas e torturá-las para ensiná-las a temê-lo. Flagrou Tereza Batista com outro homem e, para defender o amado de sua reação, a moça esfaqueou-o e matou-o. Carybé - pintor que espalha histórias sobre os Orixás, afirmando que tanto Ogum quanto Oxossi mantém relações sexuais com filhas-de-santo na Barroquinha. Catarina - prostituta que trabalha no cabaré de Gabi. Teve um filho que morreu aos seis meses devido aos maus tratos da babá. Emiliano Guedes - o mais velho dos três irmãos Guedes, donos de inúmeras terras, e rico industrial. “Era um tipão, alto, magro, cabelos grisalhos, bigode basto, nariz adunco, olhos de verruma, mãos tratadas.” Encanta-se com a beleza de Tereza Batista e, quando ela está presa pelo assassinato do coronel Justiniano, contrata Lulu para defendê-la. Torna-a sua amásia, oferecendo-lhe roupas e objetos de luxo, além do conhecimento sobre vinhos, dança e outros assuntos. Com ela vive como se fosse casado, sendo os dois amantes, confidentes e amigos. Morre durante relação sexual com a moça. Eulália Leal Amado - homenagem feita à mãe de Jorge Amado, falecida no ano de lançamento desse livro, aos 88 anos de idade. Felipa - irmã de Marieta, mãe de Tereza. Cuida da sobrinha há quatro anos e meio, reclamando das despesas que tem com ela. Quando criança, foi estuprada por sete homens e, em seguida, tornou-se prostituta, abandonando a profissão ao casar-se com Rosalvo. Autoritária, manda no marido, não tendo por ele nenhum afeto e traindo-o sempre que tem oportunidade. Ao perceber o interesse que o coronel Justiniano apresenta por Tereza, anima-se com o fim dos custos e com uma compensação monetária, aproveitando também para afastar a sobrinha de sua casa, percebendo os olhares que o marido lança à menina. Gabi - dona de um cabaré, negocia moças com o capitão Justiniano Duarte da Rosa, oferecendo a ele prostitutas como moças virgens, sofrendo com sua ira, cada vez que ele descobre o engano. Januário Gereba - “um caboclo zorro, os músculos queimados de sol, a pele curtida aos ventos do mar”, marinheiro exalando cheiro de sal. Roubou uma moça de família rica e de noivo já arranjado. Felizes viveram até que a moça adoeceu. Triste, doente e


feia, ela só tinha a ele, não sendo possível abandoná-la. Assim, mesmo apaixonando-se por Tereza, Janu, como era chamado, teve que deixá-la. Era “pássaro de asas cortadas, preso em grade de ferro, grilhetas nos pés”. Ao ficar viúvo, procura a amada, impedindo que se case e tendo com ela um final feliz. Lulu - Lulu Santos, “doutor para os pobres, em verdade rábula celebrado em todo Sergipe, principalmente pelas defesas nos júris, pelos epigramas corrosivos e por frases de espírito [...] se bem fosse de igual competência no cível e na cerveja.” Devido à paralisia infantil, anda apoiado em muletas, não perdendo, por isso o bom humor. Extremamente generoso, defende pessoas humildes, mesmo quando não recebe por isso, chegando até mesmo a tirar dinheiro do próprio bolso para defendê-los. Mãozinha - cangaceiro acusado de diversos homicídios e defendido pelo rábula Lulu, em histórico discurso que se transformou em letra de samba, onde a responsabilidade pelos crimes é compartilhada com o juiz, com o promotor e com toda a sociedade. Pé-de-mula - popular jogador de futebol, “perna-de-pau mantido no time devido exclusivamente ao canhonaço, não existindo goleiro capaz de agarrar bola chutada por ele. Afora os treinos, trocava pernas na rua, estagiando nos bares, assistindo a disputas de bilhar; vagabundo, para usar o termo correto”. Bondoso, ajudava os vizinhos, tendo, em determinada ocasião, perseguido, por dias, homem desonesto que roubara dinheiro de sua vizinha idosa no jogo do bicho. Morreu em um acidente de caminhão, quando ia com o time para Penedo disputar uma partida amistosa. Rosalvo - casado com Felipa, é tio de Tereza e por ela, há muito tempo, sentia desejo. Esperava que a menina menstruasse pela primeira vez, quando então consideraria que já estava madura, para abusar dela e torná-la sua mulher. Planejava matar Felipa, a quem não suportava, colocando Tereza em seu lugar. Com medo do coronel Justiniano, entretanto, não faz nada para impedir a esposa de vender a menina, tendo seus planos destruídos. Tereza Batista - jovem órfã que perdeu os pais em um acidente de marinete. Residindo com a irmã de sua mãe e o marido, chama a atenção do tio, à medida que vai crescendo. Aos treze anos, a tia vende-a ao coronel Justo e a moça é estuprada, passando dois anos e três meses sendo escrava sexual desse homem. Para poder fugir com outro, por quem crê estar apaixonada, Tereza mata o capitão, sendo presa e abandonada pelo amado. Liberta, passa a ser amásia de Emiliano Guedes, rumando para a prostituição após a morte deste. Trabalhando como dançarina e como prostituta, muda-se de cidade para cidade. De temperamento calmo, transforma-se ao ver uma mulher apanhando e


envolve-se em brigas para defendê-las. É assim que conhece Januário Gereba, quando em meio a uma pancadaria, é salva por ele. Após muitos impedimentos, os dois conseguem ficar juntos. Pele de ouro e cobre Vivi - prostituta que trabalha no cabaré de Gabi. Teve uma filha que ficou doente, escarrando sangue, porque ao invés de utilizar o dinheiro dado por Vivi para os gastos da menina, a babá gastava-o na compra de cachaça, deixando-a sem cuidados.

Tieta do Agreste: Aminthas - integrante da “tropa do bilhar”, ou “malta do bilhar”, nome pelo qual é conhecido o grupo de homens que passam o dia a jogar bilhar no Bar dos Açores, de seu Manuel Português. Primo de Carmosina, tem a língua ferina e é o piadista da cidade, fazendo comentários sobre tudo e sobre todos. “tarado pelos Beatles e por todos os conjuntos de rock, desvairado pelo som moderno”, mantém animados debates com Carmosina sobre o assunto. Ascânio - trabalha na prefeitura, cogitado para futuro prefeito. Homem bom, luta para levar melhorias a Sant`Ana do Agreste, desejando com fervor o progresso. Bonito, é desejado por muitas mulheres, mas está decidido a não se envolver devido à desilusão com antiga noiva da capital. Encanta-se, entretanto, com Leonora e volta a pensar em casamento, supondo como obstáculo a riqueza e a família da moça. Batalha pela instalação da fábrica de dióxido de titânio em Mangue Seco, desejando, além do progresso, obter reconhecimento suficiente para tornar-se digno de casar-se com tão rica moça. Quando descobre que ela, na verdade, é prostituta, humilha-a e expõe seu segredo aos moradores da cidade. Barbozinha - Gregório Eustáquio de Matos Barbosa, quando jovem, exercia funções de escriturário na Prefeitura da capital da Bahia, vivendo como boêmio entre castelos e bares. Aposentado, após sofrer um derrame, dirigiu-se a Sant`Ana do Agreste, sua cidade natal, onde passou a residir, sendo conhecido como poeta e como “espírita teórico e vidente”. Autor de três livros publicados, ele é apaixonado por Tieta e a ela dedica a maioria de seus poemas. Bety - Elisabeth Valadares, Bety para os amigos, Bebé para os íntimos. Secretária do dr. Mirko Stefano, acompanha-o a Sant`Ana do Agreste em diversas visitas, sendo confundida, inicialmente, com uma marciana pelos moradores da pequena cidade. Ruiva, com uma mecha platinada no cabelo, é uma moça muito bonita, apelidada de


Miss Vênus. Chama a atenção de Osnar, durante as rápidas visitas à cidade, mas é com Ascânio que transa, na capital, seguindo suas funções de entretenimento como funcionária da Brastânio. Carybé - “um coroa enxuto”, pintor famoso conhecido por só pintar mulheres negras. Posiciona-se nos jornais contra a Brastânio. Compra imagens e estátuas velhas por preços baixos para depois transformá-las em grandes obras de arte. Carol - “a amásia de Modesto Pires, obra-prima de Deus e da fusão de raças.” Moça levada de Sergipe para Sant`Ana do Agreste por Modesto Pires e instalada na casa vizinha a do comandante Dário de Queluz. É ignorada por todos na cidade, com exceção de dona Laura, esposa do Comandante, e de dona Milu. Muito desejada pelos homens da cidade, não encontra quem se arrisque a enfrentar os ciúmes de Modesto Pires, até que conhece Ricardo e transa com ele. Após esse acontecimento, relaciona-se também com Fidélio. Comandante Dário de Queluz - ex-oficial da Marinha, defensor fervoroso do meio ambiente, faz discursos acalorados sobre o assunto e posiciona-se contra a fábrica de dióxido de titânio que deseja instalar-se em Mangue Seco. Chega a candidatar-se a prefeito, competindo com Ascânio, como forma de evitar a instalação. Coronel Artur da Tapitanga - de nome Artur de Figueiredo, é um fazendeiro octogenário. padrinho de Ascânio, nomeado prefeito após o suicídio de Mauritônio Dantas. Apesar desse cargo, quase não vai à prefeitura, encarregando o afilhado de suas funções. Dona Edna - moradora da cidade, casada com Terto, sendo fato conhecido que o trai com meninos jovens. Está de olho em Ricardo, o que desagrada Tieta, e termina por transar com ele, quando a tia, em certa ocasião, expulsa-o de casa nu e sem ter para onde ir. Felipe - Rico industrial, “um gênio para ganhar dinheiro, presidente de empresa, consórcios, bancos, entupido de ações e dividendos. Rápida passagem pela política”. Frequentador do randevu de Madame Georgette, conheceu Tieta e, encantado com ela, deu-lhe apartamentos, viagens e roupas, ensinando-a também a se tornar uma empreededora de sucesso. Apesar de ser casado e ter filhos, manteve o relacionamento com Tieta até a sua morte. Frei Timóteo - “frade franciscano, vindo de São Cristóvão, para dar a aula semanal de Teologia Moral no Seminário Maior, cuja sapiência e santidade corriam mundo. Parecendo um caniço de tão magro, os cabelos revoltos, a barba rala, os olhos de água


pura e a voz mansa.” Conheceu Ricardo no seminário e, reencontrando-o em cidade próxima a Mangue Seco, aconselha-o quanto a sua relação com Tieta, afirmando que isso não impede sua ordenação, algo que depende exclusivamente de sua vocação. Viúvo e pai de quatro filhos, ele questiona quem será melhor padre: o que macera a carne evitando a tentação, ou o que cede aos desejos do corpo, conhecendo melhor os “pecados” e os homens, podendo ser assim um melhor guia para eles. Giovanni Guimarães - Giovanni Guimarães é poeta e cronista do “A Tarde”. Certa vez, visitou Sant`Ana do Agreste, despertando simpatia e admiração nos moradores. Amigo do vate Barbozinha, foi ele quem apelidou a Agência dos Correios de aerópago, apelido que permaneceu no decorrer dos anos. Mais tarde, ele entra em contato novamente com os personagens, ao publicar, no jornal em que trabalha, uma carta alertando Barbozinha e todos os moradores sobre os malefícios da fábrica que querem instalar em Sant`Ana do Agreste. Ismael Julião - jornalista conhecido como “o temido colunista dos grandes furos”, noivo de Pat, “Um pedaço de mulato de ninguém botar defeito”. Sabe as funções que a noiva exerce para a Brastânio e não se importa, estando o casamento reservado para dali a dois meses. Leonora - “a própria mocinha dos filmes de caubói”, loira, meiga, bonita, chama a atenção dos homens desde criança, tendo sido estuprada ainda jovem. Obrigada a prostituir-se, passou por diversas situações difíceis, chegando até mesmo a ser presa. Terminou por trabalhar no “Refúgio dos Lordes”, onde conheceu Tieta e com ela manteve um bom relacionamento. Acompanha-a a Sant`Ana do Agreste, fingindo ser sua enteada, e, lá, conhece Ascânio, por quem se apaixona e com quem sonha passar o resto de sua vida. Quando o moço descobre sua profissão, passa a desprezá-la; ela, então, tenta suicidar-se e, sendo impedida, volta a São Paulo para retomar sua antiga vida. Madame Georgette - francesa residente em São Paulo que montou um randevu de luxo, misturando nele características francesas e brasileiras. Decidida a voltar para a França, aposentou-se e, juntando economias, comprou uma casa em Paris. Como sucessora escolheu Tieta, oferecendo a ela o randevu. Maria Imaculada - prostituta que trabalha no bordel de Zuleika Cinderela, muito parecida com Tieta aos quinze anos. “não era outra senão a Tia Antonieta mocinha, como se por milagre da Senhora Sant`Ana houvesse voltado à adolescência [...] A face aberta e franca, o fulgor dos olhos, o corpo esbelto mas não magro, os anéis dos cabelos


negras serpentes, a boca de gula”. Alegre e descontraída, o corpo ainda em formação, transa com Ricardo e vai com Tieta para o Refúgio dos Lordes, em São Paulo. Mirabeau Sampaio - artista que restaura a imagem de Sant`Ana adquirida por Carybé em Sant`Ana do Agreste. Modesto Pires - é morador de Sant`Ana do Agreste, dono do curtume, casado com dona Aída e mantém Carol como amásia. Ciumento, proíbe a moça de relacionar-se com outras pessoas, mantendo-a solitária e triste. Nilsa - prostituta reservada pela Brastânio para entreter seus clientes. “Morena magra, de busto saliente [...] Nilsa ri muito, fala pouco, usa qualquer pretexto para exibir o seio farto”. Além de transar com Ascânio, leva-o a uma exposição de arte, onde o rapaz conhece obras de Juarez Paraíso e de Carybé. Devido a pressão dos pais muito rígidos, despede-se cedo dos clientes, tendo que chegar em casa por volta das dez horas da noite. Osnar - integrante da “tropa do bilhar”, ou “malta do bilhar”, nome pelo qual é conhecido o grupo de homens que passam o dia a jogar bilhar no Bar dos Açores, de seu Manuel Português. Obsceno e mulherengo, está sempre contando histórias sobre sua vida sexual, escandalizando e divertindo os amigos. As histórias “em geral têm a ver com o descalibrado tamanho de seus ógãos sexuais”. Pat - Patrícia, moça que trabalha para a Brastânio, servindo os clientes nas funções de secretária, chofer e acompanhante, tanto em jantares e almoços, como na cama. “Na boniteza chamativa de Patrícia há um quê de vulgaridade e em sua inegável gentileza transparece vestígio de serviço prestado, um toque profissional.” Transa com Ascânio e depois surpreende-o ao apresentar-lhe o noivo, Ismael Julião, que conhece a profissão da moça. Ricardo - filho mais velho de Perpétua, irmã de Tieta. Forte, alto, bonito, com espinhas no rosto e buço surgindo, tem dezessete anos e é seminarista. De férias, encontra-se em casa, quando a tia ali se hospeda, dormindo em uma rede armada próximo ao quarto dela. Sente atração por Tieta e tenta evitá-la, mas, nas dunas de Mangue Seco, certa noite, cede aos desejos e transa com ela, iniciando longo romance. Após um momento inicial em que sente-se culpado e teme o inferno, passa a conviver bem com sua decisão, aproximando-se de Deus e refletindo sobre sua vocação. Além de Tieta, transa com Maria Imaculada, Carol, Cinira e dona Edna, e, terminado o romance com a tia, viaja para decidir seu futuro e sua possível volta ao seminário. Tieta - quando menina, era pastora das cabras do pai e, observando esses animais, descobriu o sexo. De natureza impetuosa e livre, obedecia aos desejos de seu corpo,


ignorando o conservadorismo dos moradores da cidade. Quando o pai, Zé Esteves, descobriu seu envolvimento com um caixeiro-viajante, surrou-a e expulsou-a de casa. Com dezoito anos, sem dinheiro e sem o apoio de ninguém, a menina passou por diversas cidades, prostituindo-se, até que se fixou em São Paulo e passou a trabalhar em um randevu de luxo. Lá, conheceu Felipe e com ele viveu até sua morte, quando, já dona do bordel onde antes trabalhava, havia se transformado em uma rica e bem sucedida mulher de negócios. Aos quarenta e quatro anos, voltou a sua cidade natal e, perdoando todos os que a haviam expulsado, ajuda os moradores com dinheiro e atitudes heróicas. Torna-se amante do sobrinho Ricardo, seminarista, mas o romance termina quando descobre que ele a trai com Maria Imaculada. Quando a cidade descobre sua verdadeira profissão, é expulsa como da primeira vez, com a diferença de que após ter ido, alguns moradores, anonimamente, fazem uma homenagem a ela, colocando seu nome na placa de uma rua. Zé Esteves - pai de Perpétua, Tieta e Elisa, casado pela segunda vez com Tonha, moça da idade de Tieta. Autoritário, andava sempre com um cajado que usava para bater nas filhas e na esposa utilizando para isso qualquer pretexto. “trapalhão a julgar-se sabido, na ânsia de enganar os outros pusera fora terras, rebanho de cabras, plantações de mandioca, a casa própria, tudo”. Anos após ter expulsado Tieta, é sustentado por ela, escondendo o dinheiro enviado, vivendo com dificuldades para não ter que gastá-lo. Seu sonho era comprar de volta as terras e cabras que um dia lhe pertenceram e, quando consegue tal feito com a ajuda da filha que retornara, morre. Zuleika Cinderela - dona de um bordel em Sant`Ana do Agreste. “Cabelos escorridos de índia, corpo bem torneado, convidativo”. É conhecida na cidade por desvirginar os meninos quando eles atingem a idade de treze anos, tendo exercido essa função com os moradores de diversas gerações.


Referências Bibliográficas

AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 80. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. ___. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1937. ___. Dona Flor e seus dois maridos. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ___. Gabriela, cravo e canela. 68. ed. Rio de Janeiro: Record, 1986. ___. Quatro mulheres, quatro romances. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1989. ___. Tieta do agreste. 26. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. AMADO, João Jorge; AMADO, Paloma Jorge; AMADO, Zélia Gattai. Jorge Amado: Um baiano romântico e sensual - Três relatos de amor. Rio de Janeiro: Record, 2002. CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. n. 3. 1. ed. [S.l.]. M.A.S, 1997. CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex (Org.). Jornalismo e Literatura - A sedução da palavra. 2. ed. São Paulo: Escrituras, 2005. DICKENS, Charles. Oliver Twist. 2. ed reformulada. Tradução de Marina Guaspari; Sylvia Guaspari. São Paulo: Ediouro, 2002. GODINHO, Ruy. Então foi assim? - Os bastidores da criação musical brasileira. Brasília: Abravídeo, 2009. 2 v. GOMES, Álvaro Cardoso (Org.). Jorge Amado. São Paulo: Abril Educação, 1981. GOMES, Álvaro Cardoso. Roteiro de leitura: Capitães da areia de Jorge Amado. São Paulo: Ática, 1996. HAFEZ, Rogério. Fogo Morto de José Lins do Rego. In: Os Livros da Fuvest. Sol, 1997. MACHADO, Ana Maria. Romântico, sedutor e anarquista – Como e por que ler Jorge Amado hoje. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.


SILVA, Alberto da Costa e (Org.). Jorge Amado - Essencial. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010. SUASSUNA, Luciano. O Brasil sem Jorge Amado. Isto é gente, 13 de ago. 2001, p.8) TAVARES, Paulo. Criaturas de Jorge Amado. São Paulo: Martins, 1969.

Referências Audiovisuais

Filme DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS. Direção: Bruno Barreto. Produção: Luiz Carlos Barreto e Newton Rique. Roteiro: Bruno Barreto, Eduardo Coutinho e Leopoldo Serran, adaptação do livro de Jorge Amado “Dona Flor e seus dois maridos”. Intérpretes: Sônia Braga, Mauro Mendonça, José Wilker. 1976. Duração: 120 min. Filme GABRIELA, CRAVO E CANELA. Direção: Bruno Barreto. Produção: Ibrahim Moussa e Harold Nebenzal. Roteiro: Flávio R. Tambellini, adaptação do filme de Jorge Amado “Gabriela, cravo e canela”. Intérpretes: Sônia Braga, Marcello Mastroianni, Paulo Goulart. 1983. Duração: 98 min. Filme QUINCAS BERRO DÁGUA. Direção: Sérgio Machado. Produção: Mauricio Andrade Ramos, Walter Salles. Roteiro: Sérgio Machado, adaptação do filme de Jorge Amado “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”. Intérpretes: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes. 2010. Duração: 102 min. Filme TIETA DO AGRESTE. Direção: Cacá Diegues. Produção: Miguel Faria Jr., Telmo Maia, Donald Ranvaud, Bruno Stroppiana Roteiro: Cacá Diegues, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Calmon, adaptação do filme de Jorge Amado “Tieta do Agreste”. Intérpretes: Sônia Braga, Chico Anysio, Cláudia Abreu. 1996. Duração: 140 min. Minissérie CAPITÃES DA AREIA. Direção, produção e roteiro: Luiz Carlos Laborda, adaptação do filme de Jorge Amado “Capitães da Areia”. Intérpretes: Geraldo Del Rey, Miriam Pires, Leandro Reis Souza. Rede Bandeirantes, 1989. Duração: 240 min.


Minissérie DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS. Direção: Mauro Mendonça Filho. Produção: Luiz Carlos Barreto. Roteiro: Dias Gomes, Ferreira Gullar e Marcílio Moraes, adaptação do livro de Jorge Amado “Dona Flor e seus dois maridos”.

Intérpretes: Giulia Gam, Marco Nanini, Edson Celulari. Rede Globo, 1997. Duração: 342 min. Telenovela GABRIELA. Direção: Walter Avancini. Roteiro: Walter George Durst, adaptação do livro de Jorge Amado “Gabriela, cravo e canela”. Intérpretes: Sônia Braga, Armando Bogus, Paulo Gracindo. Rede Globo, 1975. Duração: 6 meses e 10 dias. Telenovela TIETA. Direção: Reynaldo Boury, Ricardo Waddington, Luiz Fernando Carvalho. Direção geral: Paulo Ubiratan. Roteiro: Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn, Ricardo Linhares, adaptação do romance de Jorge Amado “Tieta do

Agreste”. Intérpretes: Betty Faria, Ary Fontoura, Cássio Gabus Mendes. Rede Globo, 1989. Duração: 7 meses e 17 dias.

Sites consultados

<http://www.jorgeamado.com.br/obra.php3?codigo=12590>. Acesso em 7 jan. 2011. 11h 00. REDAÇÃO, Terra. Imprensa mundial destaca morte de Jorge Amado. Disponível em: <http://www.terra.com.br/diversao/2001/08/07/005.htm>. Acesso em: 7 jan, 2011. 11h 15min. COELHO, Bernardo. Olhar os quadros que nos enquadram a visão: perspectivas teóricas sobre a prostituição e as prostitutas. Disponível em: <http://www.cies.iscte.pt/destaques/documents/CIES-WP66_Coelho.pdf>. Acesso em: 7 jan, 2011. 11h 30min.


FIGUEIREDO, Viviane Arena. Caminhos cruzados x Atitudes opostas Imagens eróticas em Lucíola e Tereza Batista cansada de guerra. Disponível em: <http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/garrafa7/10.html>. Acesso em: 7 jan, 2011. 11h 37min. LEITE, Silas Correa. Jorge Amado - Para o Mundo Artístico - Cultural, O Maior e Mais Popular

Escritor

Brasileiro

de

Todos

os

Tempos.

Disponível

em:

<http://www.acaoilheus.org/news/2150-jorge-amado-para-o-mundo-artistico-cultural-omaior-e-mais-popular-escritor-brasileiro-de-todos-os-tempos>. Acesso em: 7 jan, 2011. 12h

10min.


Mídia e Literatura: Jorge Amado, o poeta das putas e vagabundos