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AS GABRIELAS: do universo do cravo e canela ao universo da areia e água Cláudia Regina da Silva Franzão, Ms.1 Audrey do Nascimento Sabbatini Martins, Ms2

RESUMO:

Redescobrir a obra de Jorge Amado, relê-la em outra linguagem e com outra vestimenta. Observar o diálogo intertextual e intratextual para a criação de uma nova Gabriela, discernida pelo prisma mítico de sua edificação na vinheta de abertura da Rede Globo de Televisão é o objeto de estudo a que se propõe esse artigo, que se pauta em conceitos bakhtinianos, mergulha na simbologia de Chevalier e Gheerbrant e adentra a preceitos da semiótica. A releitura dessa micronarrativa se fixa a partir dos elementos água e areia e se encorpa nas cores e na visão do mito da sedutora moça nordestina. Atenta-se também, nesse objeto de análise, para os signos que emancipam-se no título e na sonoridade, incitando na mente do leitor/telespectador uma comparação entre a vinheta atual e a de 1975, num diálogo intercambiável e coeso com a obra literária de nome homônimo. PALAVRAS CHAVE: micronarrativa . mito . símbolo . signo . vinheta . diálogo.

INTRODUÇÃO Estética ou estesia são de fato designações aplicáveis ao trabalho do sensível na sociedade. É um tipo de trabalho feito de falas, gestos, ritmos e ritos movido por uma lógica afetiva em que circulam estados oníricos, emoções e sentimentos. (MUNIZ SODRÉ, 2006)

Impossível negar a ampla influência que a narrativa audiovisual dos mass media nos impõe no mundo globalizado da era da informação, tanto ao produzirmos quanto ao lermos os diversos discursos que permeiam a atividade sociointerativa vestindo os óculos dos estudos comunicativos. Composta pelas mais variadas linguagens interagentes, uma peça midiática de abrangência ampla na sua produção de sentido, abre-se ao estudo de como orquestra-se a 1

Mestre em Comunicação Midiática (UNESP - Bauru), Especialista em Estudos Lingüísticos e Ensino de Línguas (UNESP - Assis), graduada em Letras (UNESP- Assis/SP). Atua no ensino de Língua Inglesa tanto em escolas privadas regulares de ensino básico, como em escolas livres de idiomas com ênfase em ESP. Também atua na formação de professores de ensino básico como tutora online da REDEFOR/UNESP. E-mail: claufranzao@hotmail.com 2

Mestre em Comunicação (UNIMAR – Marília). Atua como professora de Comunicação Empresarial junto a ITE Campii de Botucatu e Ibitinga. Também atua como professora de Língua Portuguesa na rede pública e privada. E-mail: aysabbatini@msn.com


tendência migratória de recursos midiáticos que caracterizam [...] um modo de narrar calcado na produção do efeito de neutralidade do discurso, o que produz a impressão de que a história se narra a si mesma, em uma representação que atua como “espelho do real.” (BULHÕES, 2007) de um meio comunicativo para outro e vice-versa. Se o ver, o observar, o comunicar e o conviver com seus espelhos faz com que o ente enxergue a si próprio, voltando-se para seu interior em movimento centrípeto, essa mesma agiografia também exerce uma coerção do ente de forma centrífuga ao transformar, por meio do código3 utilizado, as iterações sócio-discursivas em palco de um campo de forças sociais que modelam o homem social a partir de seu entendimento das mais diversas linguagens interagentes (literatura e oralidade, televisão e cinema, política e religião, arte e comunicação...), estabelecendo o entendimento da situação de comunicação como possíveis limites de seu mundo. Nessa arena de embates comunicativos, o registro literário sobre o que nos inquieta no devir social da modernidade oferta-se como um convite tentador, cuja expressão máxima ainda encontra-se celebrada no romance. Se por um lado a Literatura hoje adquire por vezes o status de produto de marketing a ser vendido, com toda uma gama de concursos, prêmios e outros produtos agregadores de valor ao livro e seu autor, por outro lado ainda encontra-se nos valores discutidos, nas questões universais contidas nas entrelinhas da obra literária, o seu caráter atemporal e o que lhe confere a denominação de Grande Literatura. O romance visto por essa ótica, a de vetor do pensamento, configura-se em veículo ideal para as impressões sobre o mundo factual que abduz seu escritor; uma reflexão sobre a realidade social em um determinado momento sóciohistórico em forma de simulacro ao mesmo tempo sincrônico e diacrônico da vida e, para o autor da obra (um story teller), um convite à encarnação de uma verdade transcendental de forma pregnante tanto para o leitor/enunciatário do texto, quanto para o escritor/enunciador, dada a atual valência4 da obra de arte nas sociedades do mundo ocidentalizado. Dentro dessa perspectiva, chamamos a atenção, a luz dos estudos comunicativos interartes, para o movimento que se desenha entre a narrativa da Grande Literatura e a telenarrativa, lembrando que a adaptação da linguagem literária para a linguagem híbrida da

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Se na comunicação cotidiana a ambigüidade é excluída e na estética é proposital, nas comunicações de massa a ambigüidade, ainda que ignorada, está sempre presente. (ECO, 1984 : 171) 4

Capacidade que um determinado significante tem de atrair atenção e valor a sua volta como expressão de visibilidade cultural para demonstrar pertencimento a um determinado grupo social gerando significado simbólico de uma ideologia.

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televisão requer, antes de mais nada, uma atenção especial à simbologia e ao estilo de linguagem a ser adotado pelo mass media. São sobretudo importantes nessa linguagem a adoção de fatores como a emoção e a simplicidade na elocução, pois, Além da emoção, a força da comunicação também demanda simplicidade.[...] Talvez essa simplicidade seja a alma de seu programa [...]Emoção, simplicidade e criatividade – essa é a verdadeira linguagem da televisão.(LIMA, 2007, p.86/87), a qual apoia-se principalmente no trabalho do sensível (MUNIZ SODRÉ, 2006) para a produção de sentido de uma peça midiática. Tendo o exposto acima em mente, ao nos debruçarmos sobre a vinheta de abertura de Gabriela (2012), entendida aqui como uma micronarrativa, verificamos que a peça permite que o leitor telespectador adentre a outros enredos, literário e telenarrtivo, que lhe serviram de base para a produção de uma nova obra. Os fragmentos que compõem essa catedral vinheta são comuns a esse leitor já exposto a obra literária desde 1959 e a obra televisiva de 1975. Sendo assim, o novo texto provoca em seu leitor/telespectador identificação coma a trama, pois o público é convidado a pensar que sabe mais que os personagens, e mergulha, então, nos problemas existenciais desse ou daquele personagem por identificação e projeção, esquecendo-se das suas agruras cotidianas do mundo factual. Vistas por esse anglo, entendemos que as telenovelas são a reedição dos folhetins de outrora (LIMA, 2007), porém, com uma narrativa mais ágil e agora mais carregada de emoção, onde o grande ás na manga dos autores, para atraírem mais audiência para suas obras, é propor situações em que o público seja convidado a pensar que sabe mais que os próprios personagens, pois ele, leitor/telespectador, conhece a trama, ao passo que os personagens, não. Os personagens apenas emprestam suas vozes sociais de dupla valência como veículo de ideias para os novos escritores, no caso a equipe envolvida em produzir a peça televisiva. Em especial, a telenovela Gabriela possui justamente essa concepção de saber que atrai o público. Sendo a novela baseada no romance homônimo e com forte enraizamento cultural a partir de outra obra de arte televisiva, ou seja, a Gabriela exibida em 1975, o primeiro olhar do leitor/telespectador para Gabriela de 2012 é com fundamento comparativo, é pré-estabelecido; logo, o mesmo já está fagocitado pelo programa, daí talvez a explicação do elevado índice de audiência do capítulo de estréia, como aduz o site Tudo na hora: A audiência da novela Gabriela teve uma queda de audiência de quase 9 pontos do primeiro capítulo para o segundo. Na segunda-feira, o pico foi de 30 pontos. Ontem, a trama das 23h despencou para 21,5 pontos. 3


A estratégia da Rede Globo de ter exibido Gabriela depois do seriado Tapas e Beijos na terça, e no dia anterior ter antecipado para logo depois de Avenida Brasil, parece não ter funcionado.

A vinheta de Gabriela contribui bastante para essa fagocitação do leitor/telespectador da qual falamos, não só por meio da linguagem visual empregada, mas também pela sonora, pois a música – interpretada por Gal Costa – é a mesma da exibição da novela de 1975 e, a constituição da vinheta também abarca traços de um universo já conhecido do público brasileiro, universo esse que remonta a arte nordestina em 2012 e que na época da primeira produção televisiva apresentava-se aquarelado e permeado por figuras humanas estilizadas em bonecos palitos alinhadas, bem como a elementos da natureza próprios do universo criado por Jorge Amado em seu romance. A novidade nessa nova edição, especificamente na vinheta de abertura recai também sobre os elementos figurativos do artesanato nordestino: a arte de construir formas dentro de garrafas usando apenas areia colorida, porém essa arte vem permeada fortemente por três signos: areia, água e vento, e é deles que se depreende essa análise. Gabriela de areia, água e vento O movimento das areias, na vinheta de abertura da produção de 2012, redesenha os quadros figurativos para a narrativa da nova Gabriela. Tal redesenhar/re-enredar faz-se predominantemente em movimento de cima para baixo, indiciando, do ponto de vista semiótico, que o sagrado desce a terra, como se a personagem fosse um ente santificado que vem ao mundo teledramaturgico enredado pela peça midiática que será exibida a seguir. Os planos de expressão visual e sonoro completam-se nessa micronarrativa, para construir um plano de expressão plástica (PIETROFORTE, 2011), pois enquanto esse movimento se desenha, ouvimos a canção tema da morena cravo e canela, já consagrada desde a produção de 1975. Tendo em sua imagem de conteúdo a plasticidade artística almejada para a nova obra de arte televisiva e advinda, em grande parte, da obra televisiva realizada em 1975, a qual habita o imaginário do leitor/telespectador até os dias de hoje, a micronarrativa dessa vinheta de abertura desenrola-se no plano de expressão imagético, num diálogo com o que a areia traz e ao que ela nos leva. Da areia/vida da bios existencial nasce a arte, ou seja, percebe-se o recalque por meio da criação de um enigma muito tenaz com base no imaginário do telespectador que já tenha sido exposto tanto a leitura do romance de Jorge Amado quanto a 4


peça midiática de 1975 o que nos remete a uma questão retórica antiga: seria a arte originada da vida ou a vida baseou-se na arte? Nesse universo dúbio, em que arte e vida dialogam por meio da areia, do vento e da água no plano de expressão, percebe-se no cosmos da micronarrativa da vinheta um perecer para ressurgir em arte. Gabriela renasce nas telas, e sua história agora é contada de forma artística por um produto da mídia. O desenhar de Gabriela assume um novo perfil, pois, signos e significações recriam essa nova Gabriela midiatizada, que traz a literatura nordestina não mais na voz do flagelo da seca, mas como um degustar do prazer, um deleite oriundo da arte popular, uma antítese de forte produção de sentido ao propor a significação entre as areias nordestinas que matam na sua seca escaldante são também capazes de rememorar a vida em detalhes artísticos. Focando-se o signo areia, observa-se ainda na vinheta de abertura de 2012, que a mesma recobre pinturas, também de areia, em telas que narram fatos cotidianos da sociedade baiana do século passado. Há também, nessas telas, um retrato da vida que se levava em São José de Ilhéus, Bahia, local em que se passa a ação tanto do romance quanto das duas telenovelas produzidas até o momento. Cria-se, então, no plano de conteúdo, a partir da imagem plástica, a fusão dos mundos factual, literário, televisivo e imaginário, reforçando a máxima popular em forma de questionamento de que é a que arte imita a vida ou é a vida que imita a arte? Os quadros narrativos são compostos em areia para maior produção de sentido pela narrativa da vinheta, pois esse elemento areia traz latente em si a simbologia que a personagem principal necessita para que ative a pregnância imagética (CHARAUDEAU, 2006) cultural do mito em que se tornou a figura da protagonista do romance de Jorge Amado. A personagem Gabriela, que nomeia o romance, atravessa uma árdua jornada no campo físico e psicológico até a sua chegada à feira de trabalhadores de São Jorge de Ilhéus. Sua jornada até a cidade está contida no plano de conteúdo e representada na imagem plástica do primeiro quadro de areia, o qual traz a figura estilizada do sol escaldante do sertão nordestino, acompanhada pela presença de um cactos e um burrico. Nas areias semoventes dos quadros narrativos da vinheta, redescobre-se a vida, redescobre-se o mito Gabriela. Assim, identificamos também índices de produção de sentido nas pinturas, índices da quantidade de feitos e desfeitas sociais que apareceram nas vozes dos personagens da obra de Jorge Amado em 1958, reverberam da obra televisiva de 1975 e 5


presentificam-se na obra de 2012. O perpassar das areias do tempo que trazem a abundância e a falência da sociedade cacaueira baiana, areias escaldantes como o fogo e que, nesse plano de conteúdo contextual, purificam por queimar e desatar pecados e nós, histórias e vivências dos personagens da trama que virá a seguir. Sendo assim, na vinheta de 2012, a areia caracteriza-se como um signo icônico, pois possui o caráter que o torna significante, mesmo que seu objeto não exista (PIERCE, 2008, p.74). Por ser um elemento de fácil penetração e maleabilidade plástica, a areia permite o moldar, torna-se o molde daquilo que se quer ou que se deseja, sob esse ângulo, o elemento areia caracteriza-se como um símbolo de matriz, de útero (CHEVALIER, 1991) e ao mesmo tempo de hiperligação com o campo semântico do nordeste (areia, areias coloridas, o sol escaldante do nordeste baiano, o mar, a figura do coronel, o bordel, a figura da baiana com seu tabuleiro ...). As areias em que se moldam a vida da telenarrativa que está para iniciar-se e que levam vivências aduzem ao prazer e ao repouso. Assim, os grãos de areia semoventes da vinheta indicam a quantidade, o passado (CHEVALIER, 1991), principalmente no início da micronarrativa, quando esse movimento se dá com um punhado de areia tingida de vermelho, cor da vida como informação (GUIMARÃES, 2000), e que parece iniciar o contar de uma história. Esses punhados de areia jogados durante certas cerimônias xintoístas representam a chuva que é uma forma de abundância [...] (CHEVALIER , 1991, p.79) A coloração vermelha da areia, nesse enquadramento de câmera, remete-nos não ao elemento fogo, mas sim às paixões dos homens, ao alerta que encoraja, que traz um mistério que contará uma vida em areias. Percebemos haver, então, uma relação dialógica entre as areias avermelhadas que incidem ao início do contar na vinheta e o perfil da sociedade de São Jorge de Ilhéus enredada no romance de Jorge Amado, pois há uma ponte de sentido entre três enunciados de linguagens e épocas distintas (a vinheta, o romance e a telenovela de 1975). Tais linguagens convergem para o mesmo contar, como afirma Brait apud Bakhtin (2008, p. 118). Moldada pela coloração do vermelho, que é fundamentalmente o princípio da vida, o elemento areia, agora pregnante da informação da cor vermelha, passa a ser o autor/criador que dá voz a uma nova história, revestida pelos canais da temporalidade. Inicialmente projetada por mãos, essa areia passa da ação humana à constituição de um fenômeno natural, movida pelo vento. Ganha, então, um aspecto fabulesco, transforma-se em 6


personificação, antropomorfiza-se a areia em autora de uma história a ser moldada. A areia, aglutinada à ação do vento, faz-nos recordar, no plano do conteúdo, o polifemo Gigante Adasmastor de Camões, em sua epopeia Os Lusíadas – personificação de uma tempestade. Assim, as areias da vinheta de 2012 são nada menos que a personificação da ideia autoral, ou seja, elas tecem o mito Gabriela, agora nessa nova versão dos mass media. Certamente, lembrando as palavras de Eagleton (2006, p.21), todas as nossas afirmações descritivas se fazem dentro de uma rede, frequentemente invisível, de categorias de valores; de fato, sem essas categorias nada teríamos a dizer uns aos outros. As pontes estésicas de sentido ao longo de nosso corpus de análise completam-se no ato mental, espiritual e transcedental que emana do romance de Jorge Amado. Sem essas pontes de sentido, sem as referências básicas, os homens deixam de perceber as sombras enquanto tais e vivem de sensações, isto é, da mera aparência, que é ao mesmo tempo a sua realidade e a impossibilidade de fazer a distinção entre as coisas e suas projeções. Portanto, a Grande Literatura abre-se, tanto do ponto de vista da produção quanto da recepção, como uma das maneiras de darmos vazão a nossa procura por um significado maior do que a simples automação recortada do discurso5, tanto no que é transmitido pelos mass media dotados de áudio e/ou áudio-visual, quanto nas interações sócio-discursivas. Trata-se de um esforço em verificar a pintura em tela compondo a arte nas garrafas e gerando a micronarrativa da vinheta que é baseada na obra literária homônima. Essa relação dialógica e metalinguística perfaz o universo midiatizado de Gabriela. Nessa forte produção polifônica de sentido, está presente também forte intertextualidade entre a personagem/mito Gabriela e o signo musical que compõe a micronarrativa em questão. O signo musical em sua expressão verbal traz a seguinte menção: Quando eu vim para esse mundo, eu não atinava em nada, a oração subordinada adverbial temporal que inicia a canção, conduz o tempo em que Gabriela chega a São Jorge de Ilhéus, a terra dos capitães de cacau que encerrava valores distintos dos que a moça trazia, daí as gotas que respingam sobre as areias serem de Gabriela – um anjo anunciador, que traz ao lugarejo um meio de purificação: ser feliz com pouco e encarar o sexo como atitude de gratidão a quem lhe dá o bom trato. Ao desvelar o quadro do sertão, o narrador/câmera em seguida apresenta o elemento água, em forma de gotas que caem do céu, mas não deixa explícito para o leitor/telespectador 5

Empregaremos o termo discurso nesse artigo como os significados representacionais das diversas vozes manifestadas dentro da narrativa.

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se é água em forma de chuva ou lágrimas, convidando assim o leitor/telespectador a dupla produção de sentido em sua leitura, porém, no plano de conteúdo, tais gotas podem ser lidas como a antítese condenação/salvação, visto que a personagem literária Gabriela fora criada por um tio que se deitava com ela desde seus tenros anos, suscitando que a mesma crescesse encarando o sexo como um ato de gratidão àqueles que lhe dão bom trato. Os pingos d’água que recaem sobre a terra apresentam um dos temas dominantes simbolizado no elemento água: meio de purificação. Gabriela seria, então, o ouro, o anjo anunciador de uma nova visão, daí a construção de um mito midiático, ou seja, uma Gabriela midiatizada sobre propor novos valores. O tom manso em que a melodia é entoada, fabrica ,então, o cuidado ao misturar, redesenhar as pinturas existentes, ou seja, a vida já bem delineada pelos coronéis cacaueiros que ditavam as regras e os valores locais da São José de Ilhéus nas primeiras décadas do século passado. Enuncia-se, junto ao elemento água, um novo elemento temporal para a produção de sentido: o vento. Esse sopra e mistura tudo (areia e cores, vida e emoções), daí Gabriela ser um misto de sedução e ingenuidade no enredo da telenovela, logo, a micronarrativa vinheta, a partir de alguns signos icônicos do ponto de vista cultural, antecipa ao leitor/telespectador o que o produto midiático, no caso, a telenovela, tratará, fazendo emergir um convite à concepção do mito Gabriela a partir daqueles elementos. É o vento que dissipa as areias em um quadro narrativo e escancara uma pintura em tela sobre a vida e a visão dos capitães, que se vestem de branco e tem costumes negros. É nesse universo que o signo sonoro entoado pela bela voz de Gal Costa agita seu ritmo, mostrando o cotidiano de uma nordestina que chega à cidade para mostrar, apresentar e reinventar o cotidiano da cidade de São Jorge de Ilhéus. O jogo entre os três elementos (água, areia e vento) ainda ocupa-se em mover as nuances das pinturas em telas narrativas consideradas antes estáticas por estarem aprisionadas em garrafas, ou seja, serem parte de um artesanato local. Porém, em nosso corpus o que se evidencia é um ângulo de 360º, não plano mais, não linear mais e, sim, multifocal, multifônico do ponto de vista da semiótica da Cultura. Reforça-se, então, a ideia de que Gabriela é um anjo que redescobre os valores ocultos, traz nova vida e novo viver; um mito mulher que molha as pinturas, desfaz ideias e recria a vida com sua ingenuidade, que se importa muito pouco com o juízo de valor moral que os personagem que gravitam ao seu redor na trama fazem dela. Nesse momento da vinheta de 2012, a música incidental enuncia: 8


[...] quem me batizou, quem me iluminou, pouco me importou, é assim que eu sou: Gabriela, sempre Gabriela” e a produção de sentido encontra-se reforçada pelo passeio do narrador/câmera por sobre as figuras de um quadro que enfatiza os casais, para em seguida deter-se em incitar a curiosidade do leitor/telespectador sobre três pequenos montes de areia colorida, que ao serem mostrados em plano aberto configuram-se em quitutes de um tabuleiro ostentado por uma figura feminina de formas sensuais e longos cabelos ao vento: Gabriela. A narrativa da vinheta encontra-se em seu clímax. A partir desse ponto, a vinheta caminha para seu fecho, o qual se apoia num legissigno 6, ou seja, um signo que se exaspera em um código aceito e aprovado, no caso o código da Língua Portuguesa. O legissigno Gabriela, revela-se nessa parte da narrativa dos elementos areia, água e vento, primeiramente pelo sufixo -ela que enaltece o universo feminino, ou seja, ela, pronome pessoal reto de terceira pessoa do singular feminino e enfim o início, Gabri, que se elenca ao anjo anunciador bíblico que trouxe à virgem o anúncio de que ela geraria o Salvador. Assim, cria-se o que Peirce chamou de retrodução, ou melhor, é a adoção provisória de uma hipótese em virtude de serem passíveis de verificação experimental todas suas possíveis consequências (PEIRCE, 2008, p.6). O legissigno GABRIELA, nesse momento da narrativa, aparece em letras de coloração dourada. Tendo em vista que, em algumas regiões no Extremo-Oriente, acredita-se que o ouro nasça da terra (Chevalier e Gheerbrant, p.668), a vinheta apresenta um ouro Gabriela que nasce naquelas terras, ou melhor, que é redescoberto por aquelas terras, mais um indício que evidencia o nascimento do mito Gabriela nas obra televisiva de 2012. A cena que encerra a narrativa da vinheta de abertura, traz em sua descrição um vento que expele a areia e redescobre o legissigno Gabriela, o qual traz em si o feminino do nome Gabriel, o anjo anunciador, àquele que traz a boa-nova à virgem Maria. A partir dessa correlação existente, percebe-se que Gabriela anunciará aos virgens de literatura uma nova menção à obra de Jorge Amado. Há nesse ponto também o fenômeno da narração e o problema da autoria. Há um autor, produtor desse texto vinheta que conta a história, porém há também um autor/narrador. O narrador é àquele que se traduz no desenhar do vento para anunciar e redescobrir Gabriela, observa-se que o som da vinheta corrobora para criação desse arcabouço de produção de sentido, pois, ora é a voz que enreda, ora é a desvelação feita pelo

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Um legissigno é uma lei que é um signo. Normalmente esta lei é estabelecida pelos homens. (PIERCE, 2008, p.52).

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elemento vento que conduz ao final com a revelação do fóssil Gabriela ao som de um ilá, ilê... Há um chama singular, singela que ressoa e recai suavemente como o vento que sopra para mover as areias do tempo, fazendo ressurgir o mito, ou seja, a voz desse contexto polifônico prenuncia o nascer da Gabriela recontada ao novo leitor/ telespectador da telenovela. A coloração dourada que tinge esse legissigno "Gabriela" no enquadramento da vinheta, nada mais é que a referência ao ouro, ou melhor, juntando o legissigno com o sinssigno "ouro", tem-se a formação um anjo anunciador de um tesouro, ou ainda, um anjo que traz um tesouro, ou ainda um anjo que trouxe a riqueza da superação da vida após a morte, especificada na produção de sentido, já explorada nesse trabalho, pelo signo areia. Ao final de nossa análise, nota-se estarmos diante de uma nova forma de narrar através da vinheta, percebe-se o que a instância de produção da peça midiática deseja com o produto: mostrar ao leitor/telespectador algo que ele ainda não tem, seduzindo-o a entrar no universo da telenovela, ou seja, assistir a Gabriela, ao mesmo tempo em que o abduz para dentro da trama que ele pensa já dominar, e que se descobrirá como uma nova obra. A primeira ponte de produção de sentido desse agora produto midiático em que se transformou a telenovela de 2012 é a alusão ao romance de nome homônimo de Jorge Amado, o qual configurou-se ao longo dos tempos em uma de suas obras mais premiadas dada a imanência de questões colocadas nas vozes dos personagens. Sob esse viés de pensamento, então, Gabriela seria, no plano de conteúdo da micronarrativa da vinheta de abertura de 2012, o ouro da terra, o ouro da nossa terra brasilis que nascera na Grande Literatura e que agora é novamente reverenciado pela teledramaturgia da Globo.

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BIBLIOGRAFIA: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo : Contexto, 2008. BULHÕES, Marcelo Magalhães. Jornalismo e Literatura em convergência. São Paulo: Àtica, 2007. CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das Mídias. Tradução: Ângela S. M. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006. CHEVALIER, Jean. Dicionários de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução: Vera da Costa e Silva [et al]. Rio de Janeiro : J. Olympio, 1991. EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução; trad. Waltensir Dutra - 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. ECO, Umberto. Guerrilha Semiológica. In: Viagem na Irrealidade Cotidiana. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1984. FLORY, Sueli Fadul Villibor (org.) Narrativas Ficcionais: da Literatura às Mídias Audiovisuais. Arte e Cência : São Paulo, 2005. GUIMARÃES, Luciano. A cor como informação: a construção biofísica, linguistica e cultural da simbologia das cores. São Paulo : Annablume, 2000. LIMA, Fernando Barbosa. Nossas câmeras são seus olhos. Rio de Janeiro : Ediouro, 2007. PIERCE, Charles Sanders. Semiótica. Tradução: José Teixeira Coelho Neto – 4ª Ed. – São Paulo : Perspectiva, 2008. PIETROFORTE, Antônio Vicente. Análise do texto visual: a construção da imagem. – 2ª ed. – São Paulo : Contexto, 2011. SODRÉ, Muniz. As Estratégias Sensíveis : afeto, mídia e política. Petrópolis- RJ : Vozes, 2006.

Fontes Eletrônicas: Tudo

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Hora

O

Portal

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Notícias

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Alagoas.

Disponível

em:

http://tnh1.ne10.uol.com.br/noticia/televisao/2012/06/20/193325/audiencia-de-gabriela-cai-no-2-dia-de-exibicao/

<< >>

Acesso em: 27.06.2012

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As Gabrielas: do universo do cravo e canela ao universo da areia e água