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BREVE HISTÓRIA DA SISMOLOGIA

APRESENTAÇÃO Este guia oferece uma Breve História da Sismologia, direcionado para professores e enquadrado no atual contexto da importância da História da Ciência no ensino das Ciências Naturais, de acordo com as diretrizes do programa oficial de Biologia e Geologia (Silva et al., 2001). No contexto desta proposta de intervenção, faz todo o sentido apresentar alguma informação sobre a história da sismologia, no sentido de facultar alguns elementos aos docentes que lhes permitam enquadrar os conteúdos científicos numa visão mais abrangente da evolução e do desenvolvimento do pensamento científico, numa visão mais real e menos dogmática da ciência e da comunidade científica desde que não se reduza a uma descrição fatual ou cronológica (Matthews, 1994), Praia e Cachapuz, 1994 e Praia 1999). A utilização da história da ciência no ensino facilita a compreensão da evolução da atividade científica, mostrando a natureza dinâmica da Ciência, permite que os alunos relacionem os principais acontecimentos com os contextos históricos em que se inseriram e estimula o desenvolvimento de um pensamento crítico e reflexivo, potenciador de um incremento do seu nível cultural.

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Os terramotos sempre interessaram à Humanidade. As primeiras referências históricas acerca dos terramotos foram feitas por astrónomos da Babilónia e, com estes, se iniciaram as primeiras tentativas de explicação dos fenómenos sísmicos. Aristóteles foi o primeiro a tentar explicar os sismos de forma científica, na sua obra Meteoros. De acordo com este filósofo, os terramotos ocorriam quando os ventos exteriores sopravam dentro de Terra, onde acumulavam a força suficiente para fazer estremecer o solo. Ainda acrescentava, com uma premonição realmente geológica, que: «As regiões, onde o subsolo é poroso, recebem mais trepidação devido à grande quantidade de vento que absorvem» (Walker, 1990). Contudo até ao século XVIII acreditava-se em geral que os terramotos eram castigos infligidos por Deus à humanidade e o pensamento era mais influenciado pela superstição do que por um conhecimento científico, ainda que incipiente. As descrições dos terramotos, ao longo dos séculos, foram sempre dominadas pelo pânico da catástrofe, sendo difícil, por vezes, apurar a veracidade dos factos (Shearer, 1999). Até 1750, as observações empíricas dos efeitos dos terramotos eram raras. O primeiro terramoto de que há informação compilada, com intuitos científicos, foi o de Lisboa de 1 de novembro de 1755. Foi um sismo de magnitude 8,5 na Escala de Richter, acompanhado por um tsunami, cujas ondas atingiram 20 metros de altura, em alguns locais da costa portuguesa, arrasando a baixa lisboeta e o Algarve, matando de 70.000 a 90.000 pessoas (número que varia de acordo com diversos autores). Os seus efeitos em Lisboa são ilustrados na Fig.1.1, por uma gravura da época. Este evento tornou-se o marco do início da era moderna da sismologia, alertando para a realização de numerosos estudos sobre os efeitos dos terramotos (Pararas – Carayamis, 1969; Scheffers e Kelletat, 2005).

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Figura 1.1 – Terramoto de 1755, Lisboa de «Sismos e vulcões» de Robert M. Wood, 1988. No meio das tentativas de explicação terramotos de 1755, de Lisboa e Novembro), John Winthrop e decisivamente para o nascimento da 1990).

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racional que se seguiram aos de Boston, E.U.A. (18 de John Michell contribuíram sismologia moderna (Walker,


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John Winthrop (1714 – 1779) Investigador americano, o primeiro, de renome, a leccionar na Universidade de Harvard. Ficou conhecido como o fundador da sismologia moderna, em virtude dos seus estudos sobre terramotos.

John Winthrop, astrónomo e professor de matemática e de filosofia na Universidade de Harvard, concentrou-se na natureza dos movimentos produzidos pelos sismos. A sua contribuição mais valiosa para a mecânica dos terramotos teve lugar dois dias após um sismo em Boston, observando os efeitos de uma réplica. Descreveu o estranho movimento como: «a ondulação de uma pequena onda terrestre». Tinha, assim, descrito a natureza ondulatória dos movimentos sísmicos, algo que, passado um século, foi a chave que permitiria compreender os terramotos (Walker, 1990)

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John Michell (1724 – 1793) Naturalista e geólogo inglês, cujo trabalho abordou um vasto leque de temas, da astronomia à geologia e da óptica à gravitação.

John Michell, professor na Universidade de Cambridge, dedicou especial atenção ao estudo dos efeitos dos terramotos, descobrindo um método prático para determinar o epicentro dos terramotos, que consistia em cartografar as linhas de direção das ondas sísmicas, observadas em diferentes lugares, e prolongá-las até à sua interseção, encontrando-se, assim o epicentro do sismo (Walker, 1990).

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Os métodos de investigação sofreram importantes progressos em 1783, ano em que seis fortes terramotos sacudiram a região italiana de Calábria (Fig. 1.2), no sul do país. Neste caso, os abalos foram espaçados e bem diferenciados, entre 5 de fevereiro e 28 de março, mas os seus efeitos foram bem localizados. Algumas cidades ficaram arrasadas enquanto outras, bem próximas, apenas sofreram danos (Walker, 1990; Galli e Bosi, 2002).

Figura 1.2 - Terramoto de 1783, Calábria (http://www.italvista.com/content/calabria.asp). Estas diferenças de intensidade proporcionaram dados de grande interesse para os estudiosos desta temática. Ocorreram ao local dezenas de investigadores para avaliar os efeitos do terramoto, tendo sido elaborada informação que incluía mapas e plantas do lugar, a hora da ocorrência de cada terramoto, as réplicas e as ondas marinhas desencadeadas, os danos e as vítimas, os sobreviventes e as epidemias posteriores (Galli e Bosi, 2002). Embora deste trabalho não tivessem resultado revelações surpreendentes, registaram-se, no entanto, observações e lançaram-se dados que posteriormente foram as bases para a elaboração das escalas de intensidades (Walker, 1990). A fim de se conseguir um tipo de medida para os efeitos locais dos sismos foram imaginadas diversas escalas de intensidades. A determinação das intensidades permite, também, reconstituir e

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cartografar os efeitos de sismos antigos descritos em documentos históricos (Wood, 1998). A primeira escala de intensidades foi elaborada por um médico italiano, Domenico Pignataro, que estudou as informações de todos os terramotos que afetaram a Itália de 1783 a 1786. Através dos prejuízos e das vítimas, foram agrupados e classificados em quatro níveis: fracos, moderados, fortes e muito fortes. Era uma classificação rudimentar, mas expressava a ideia que haveria de se tornar na ferramenta fundamental da sismologia (Walker, 1990). Posteriormente, Rossi em colaboração com Forel, em 1883, elaboraram uma escala de intensidades com 10 graus, resultado da combinação das suas escalas construídas separadamente (Rossi em 1874 e Forel em 1881) sendo ainda utilizada em várias partes do mundo (Dewey e Byerly, 1969). No início de 1800, a teoria da propagação elástica das ondas começou a desenvolver-se com Cauchy, Poisson, Stokes, Rayleigh e outros, que descreveram os principais tipos de ondas que se esperariam encontrar nos materiais sólidos (Shearer, 1999). Em 1830, Poisson usou equações das leis de movimento elástico para mostrar que, dois e apenas dois tipos fundamentais de ondas, se propagam através do interior de sólidos homogéneos: as ondas P (ondas de compressão) e ondas S (ondas de cisalhamento) (Lay e Wallace, 1995).

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Robert Mallet (1810 – 1881) Engenheiro civil irlandês. Dedicou-se ao estudo dos sismos, tendo percorrido as maiores bibliotecas da Europa para obter informações sobre sismos ocorridos no passado. Em 1857, desenhou um mapa com a geografia dos sismos em todo o Mundo.

Um dos grandes passos dados para o conhecimento da dinâmica interna da Terra deve-se ao engenheiro civil irlandês Robert Mallet, que dedicou parte significativa dos seus trabalhos à recolha de informações referentes a sismos ocorridos em todo o mundo. Estas informações permitiram que, em 1857, elaborasse um mapa com a localização das principais regiões sísmicas do mundo (Fig.1.3), constituindo assim a primeira abordagem a uma cartografia sísmica. Fez, ainda, o registo de sismos verificados em regiões continentais e oceânicas, sendo estes últimos provenientes de informações de sismos submarinos sentidos em embarcações nas rotas oceânicas (Wood, 1998). Segundo Cardoso (2000), só cerca de um século depois, o mapa de Mallet foi atualizado e, consequentemente, melhorado.

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Figura 1.3 - Mapa de Robert Mallet. As zonas pintadas a castanho mais escuro representavam as da ocorrência de maiores sismos (Wood, 1998). Lord Rayleigh, em 1887 demonstrou a existência de outras equações do movimento elástico para corpos de superfícies livres. Estas são as ondas Rayleigh, que dão origem a movimentos em sentido contrário ao da propagação das ondas e resultam da interação das ondas P com a componente vertical das ondas S (Lay e Wallace, 1995). Eram necessários instrumentos que medissem e registassem, com precisão e nitidez, os complexos movimentos dos sismos para posteriormente se proceder à sua análise. O primeiro sismómetro foi construído em Itália em 1875 por Filippo Cecchi (Lay e Wallace, 1995)

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Jonh Milne (1850 – 1913) Engenheiro e geólogo britânico. Foi professor de Geologia e Minas na Universidade Imperial de Tóquio. Em 1880 fundou a Sociedade Sismológica do Japão, a primeira organização destinada a criar a ciência dos sismos. Em 1893, com a ajuda de engenheiros mecânicos construiu o sismógrafo Milne.

Em 1880, e em resultado de um forte terramoto que provocou desmoronamentos em Yokohama, Jonh Milne convocou uma reunião científica internacional e criou a Sociedade Sismológica do Japão, a primeira em todo o mundo que, desde então, se dedica apenas ao estudo dos terramotos. Um dos seus primeiros objetivos foi a construção de um instrumento capaz de funcionar sem assistência e preservar um registo dos movimentos do solo (Wood, 1998). Com a ajuda de James Alfred Ewing, professor de engenharia mecânica e física, e Thomas Gray, professor de engenharia de Telégrafos, os três, construíram um instrumento que revolucionou a jovem ciência da sismologia (Wood, 1998). O novo instrumento registava os movimentos da Terra segundo as três componentes e ficou concluído nos do século XIX, em 1892 (Wood, 1998). Em 1893, Milne aperfeiçoou o instrumento, adaptando-o de modo a registar os eventos em película fotográfica, solucionando, assim, o problema da fricção entre o papel e o aparo e a tendência para distorcer a onda sísmica. O novo aparelho ficou conhecido como «Sismógrafo de Milne» (Fig. 1.4), e nos anos seguintes, estes instrumentos foram instalados em quarenta locais à volta do Mundo (Lay e Wallace, 1995).

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Figura 1.4 – Sismógrafo de Milne de pêndulo horizontal de 1899 (Wood, 1998). O primeiro registo de um terramoto distante, ou telesismo (Fig. 1.5), aconteceu em Potsdam, na Alemanha, em 1889 (Bolt, 1993).

Figura 1.5 - 17 de Abril de 1889, Potsdam. Este é o primeiro sismograma identificado de um terramoto à distância, ocorrido no Japão e registado na Alemanha (Bolt, 1993).

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Em 1897, foi instalado o primeiro sismógrafo norte-americano, no Observatório Lick, perto de São José, Califórnia, e foi este instrumento que registou, mais tarde, o terramoto de S. Francisco, em 1906. Estes primeiros instrumentos não tinham líquido e podiam disponibilizar estimativas exatas do movimento do solo num curto intervalo de tempo após o início do tremor. Em 1898, E. Wiechert introduziu o primeiro sismógrafo com líquido viscoso, capaz de produzir registos para a duração total do terramoto. O primeiro sismógrafo eletromagnético, no qual um pêndulo móvel foi usado para produzir corrente elétrica numa bobine, foi desenvolvido no início de 1900, por B.B. Galitzen, que estabeleceu uma rede de estações na Rússia. Todos os modernos sismógrafos são eletromagnéticos, desde que se constatou que estes instrumentos tinham numerosas vantagens sobre os primeiros que eram puramente mecânicos (Shearer, 1999). A disponibilidade de sismogramas gravados de terramotos através de diversos meios levou a um rápido progresso na determinação da velocidade sísmica. Em 1900, Richard Oldham constatou que o estudo do tempo de propagação das ondas sísmicas podia fornecer uma «radiografia» do interior da Terra. Desde então, vários investigadores dedicaramse à análise do tempo de percurso das ondas no interior da terra e foram descobrindo as diferentes descontinuidades (Lay e Wallace, 1995; Shearer, 1999; Costa, 2000). Mais tarde, em 1906, Oldham propôs a existência de um grande núcleo central no interior da Terra, detetando ausência da chegada das ondas P e S à fonte receptora.

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Giuseppe Mercalli (1850 – 1914) Sismólogo e vulcanólogo italiano. Em 1885, foi professor de geologia e mineralogia na Universidade de Catânia e, em 1892, professor de sismologia e vulcanologia na Universidade de Nápoles, tendo sido também director do Observatório do Vesúvio. Construiu a sua primeira escala de intensidades em 1902. Posteriormente ela foi aperfeiçoada, por diversas vezes, tendo recebido a designação de Escala Mercalli Modificada (de 1931 e 1956).

A escala de maior sucesso para medir a intensidade dos terramotos foi imaginada por um sismólogo italiano, Giuseppe Mercalli, em 1902, e foi modificada em 1931 por investigadores dos Estados Unidos (Wood, 1998) e mais tarde, em 1956, por Charles Richter. A Escala Modificada de Intensidades de Mercalli (conhecida internacionalmente por MMI) composta por 12 graus que variam da agitação impercetível à destruição catastrófica (expressos em números romanos), baseia-se nas observações e relatos de testemunhas (Wood, 1998)

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Harry Fielding Reid (1859 – 1944) Geólogo Americano e professor na Universidade de Johns Hopkins é conhecido pelas suas contribuições no estudo de sismos e glaciares. Foi considerado como o primeiro geofísico americano. Representou durante anos os Estados Unidos na Associação Sismológica Internacional. Estabeleceu

a

Teoria

do

Ressalto

Harry Fielding Reid, responsável pela investigação do terramoto de São Francisco, em 1906 (Fig.1.6), foi o primeiro a explicar que a energia dos terramotos provém de um movimento brusco em que milhões de toneladas de rocha, deformadas lentamente por forças acumuladas durante séculos, se abrem ao longo de um plano de falha, procurando, assim, uma posição de equilíbrio que liberte as tensões acumuladas localmente (Walker, 1990; Shearer, 1999).

Figura 1.6 – Estragos na Avenida Van Ness, terramoto de 1906 em São Francisco (Walker, 1990). Esta foi a base do desenvolvimento da teoria do ressalto elástico, estabelecida, por Reid, com base em estudos geodésicos que mostravam que estradas, cercas e caminhos que cruzavam a falha de Santo André se haviam curvado pouco a pouco, ao longo de 55 anos, deslocando-se, por vezes, até sete metros (Bolt, 1993; Shearer, 1999), sofrendo, por fim, uma rotura durante o sismo de 1906 (Lay e Wallace, 1995). 14


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De acordo com a teoria do ressalto elástico (fig. 1.7), as forças tetónicas geradas em profundidade produzem o deslocamento muito lento das rochas da crosta em sentidos contrários de um e do outro lado da falha, conduzindo à deformação progressiva das rochas localizadas na área de movimentação diferencial. À medida que a movimentação tetónica prossegue, a deformação das rochas acentua-se e acumula-se energia potencial (Bolt, 1993).

Bloco crustal em repouso

Deformação devida ao esforço

Instante de ruptura

Ressalto elástico para nova posição de equilíbrio

Figura 1.7 – Teoria proposta por H.F. Reid para explicar o terramoto de São Francisco em 1906. (http://www.unb.br/ig/sis/terremo.htm).

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Mohorovicic, em 1909, alvitra a existência de uma descontinuidade a cerca de 50 km de profundidade, onde as propriedades físicas da Terra sofriam uma variação brusca e que tal corresponderia à passagem da crosta para o manto. As primeiras tabelas dos tempos de chegadas das ondas em função da distância ao epicentro tinham sido construídas, em 1907, por Zoppritz (Shearer, 1999). Em 1911, foi descoberta um segundo tipo de ondas superficiais, por Love, passando a ser designadas por ondas Love. Estas ondas provocam um movimento transversal relativamente à direção de propagação das ondas e são resultado da interação das ondas P com a componente horizontal das ondas S (Lay e Wallace, 1995). Beno Guttenberg, notável sismólogo alemão, que criou diversos modelos matemáticos para a Terra baseados no estudo das ondas sísmicas, publicou, em 1914, tabelas de fases do núcleo (penetração e refração das ondas no núcleo) e indicou a primeira estimativa exata para a profundidade do núcleo fluido da Terra, de 2900 km, muito próximo do valor atual de 2889 km.

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Kiyoo Wadati (1903 – 1995) Sismólogo japonês. Demonstrou, em 1928, a existência de terramotos com focos profundos no Japão. Concomitantemente com H. Benioff, definiu a distribuição dos focos sísmicos com a profundidade, possibilitando a criação do termo Zona de Subducção ou Zona de Benioff/Wadati.

Kiyoo Wadati estudou os terramotos intermédios e profundos, entre 1928 e 1934, descrevendo as suas frequências e distribuição espacial. Em 1928, demonstrou a ocorrência de um terramoto a 300 km de profundidade no centro de Honshu. (Shearer, 1999; Suzuki, 2001) Em 1929, demonstrou a ocorrência de terramotos profundos na parte norte do Mar do Japão e de terramotos intermédios nas ilhas japonesas a profundidades de 100 a 200 km e, em 1931, mostrou a ocorrência de terramotos profundos em Kyushu (Suzuki, 2001) Em 1935, descobriu, a partir de uma densa e moderna rede de observação sísmica do Observatório Meteorológico Central do Japão, a zona intermédia e profunda do terramoto, como uma das zonas geotécnicas mais importantes para um melhor conhecimento sobre os processos internos da Terra. Concomitantemente com H. Benioff, definiu a distribuição dos focos sísmicos em profundidade, possibilitando a criação do termo «Zona de Subducção» ou «Zona de Benioff/Wadati». (Shearer, 1999; Suzuki, 2001) Com base na profundidade dos hipocentros destes terramotos, Wadati traçou as linhas de igual profundidade focal onde os terramotos intermédios e profundos ocorreram frequentemente (Fig.1.8) (Shearer, 1999; Suzuki, 2001).

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Figura 1.8 – Distribuição de terramotos e das linhas focais de terramotos intermédios e profundos (Wadati, 1935). (http://www.episodes.org/backissues/242/118123%20Classic.pdf).

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Charles Richter (1900 – 1985) Geofísico e sismólogo norte-americano, foi professor de geofísica e responsável pelo Laboratório Sismológico de Caltech, no Sul da Califórnia. Richter ficou famoso ao criar, em colaboração com Beno Guttenberg, uma escala que quantifica a grandeza dos terramotos, que ele usou pela primeira vez em 1935, a Escala de Magnitudes de Richter.

A primeira escala quantitativa de magnitudes sísmicas foi criada em 1931, pelo sismólogo japonês Wadati, e aperfeiçoada em 1935 pelo sismólogo americano C. Richter que definiu a magnitude local ML, também conhecida por magnitude de Richter. No exemplo da figura 1.9 pode observar-se como, de modo simplificado, se pode determinar a magnitude de um sismo, com base nas caraterísticas de um determinado sismómetro e de outros parâmetros determinados por Richter para a zona da Califórnia. Pode ver-se que o intervalo de tempo entre as chegadas das ondas P e S é de 24 segundos (a que corresponde uma determinada distância ao foco) e que a amplitude máxima é de 23 milímetros. Unindo os pontos correspondentes da escala de diferença de tempos S-P (distâncias) e de magnitudes obtêm-se a magnitude do terramoto (Bolt, 1993). A escala de magnitudes de Richter é logarítmica (de base 10), daí que no diagrama da figura 1.10, se pode observar que cada passo vertical envolve uma multiplicação por dez da energia libertada.

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Figura 1.9 – Determinação da magnitude de um sismo, pela diferença temporal de chegada das ondas P e S e pela amplitude máxima da onda (adaptado de Bolt, 1993).

Figura 1.10 – Aumento da energia com as magnitudes. (Wood, 1998).

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Em 1948, Guttenberg propôs a existência de uma zona de baixa velocidade sísmica no manto superior da Terra, a uma profundidade de cerca de 80 km, para explicar certas anomalias na amplitude das ondas de corpo (internas) dos sismos. Naquela altura, a sugestão não teve grande aceitação, mas, posteriormente, análises pormenorizadas dos tempos de propagação das ondas de superfície confirmaram as previsões de Guttenberg. Atualmente, são calculadas as curvas de variação de velocidade, quer das ondas de compressão (P), quer das ondas transversais (S), relativamente à profundidade (Oxburg, 1978; Lay e Wallace, 1995).

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Inge Lehman (1888 – 1993) Sismóloga dinamarquesa, fundadora da Sociedade Geofísica Dinamarquesa e sua presidente de 1941 a 1944. Em 1971, foi-lhe atribuída a medalha William Bowie, distinção mais elevada da União Geofísica Americana. Descobriu a existência do núcleo interno da Terra.

Inge Lehman, em 1936, descobriu, através do estudo das ondas sísmicas, a existência do núcleo sólido interno da terra. Ao examinar sismogramas dos terramotos do Pacifico, registados em Copenhaga, encontrou ondas que não poderiam ser explicadas pelos modelos conhecidos do interior da Terra. Um exemplo de tal onda está assinalado pelas primeiras setas nos sismogramas e pelo raio número 5 no diagrama (fig. 1.11) (Bolt, 1993; Lay e Wallace, 1995; Shearer, 1999).

Figura 1.11 – Interpretação de Lehman da existência do núcleo interno da Terra (http://cwp.library.ucla.edu/Phase2/Lehmann,_Inge@81234567.ht ml).

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Embora a sismologia tenha tido um papel relativamente menor no desenvolvimento primitivo das ideias acerca da tetónica de placas, os sismologistas do observatório geológico de Lamont, Nova Yorque, chegaram rapidamente à conclusão que a Teoria da Tetónica de Placas (Fig. 1.12), desenvolvida a partir da década de 60 do Séc. XX com base nos trabalhos pioneiros de, entre outros, E. Suess, A. Wegener, H. Hess, Vine, Matthews, C. J. Morgan, D. P. McKenzie e R.L. Parker, oferecia, pela primeira vez, uma explicação completa possível para a distribuição das zonas sísmicas da Terra (Oxburg, 1978).

Figura 1.12 – mapa de distribuição

das placas

litosféricas.

(http://www.cienciaviva.pt/rede/space/home/anexo1.asp)

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A partir de meados de 1960 começou a desenvolver-se uma técnica, designada por tomografia sísmica, a qual permite visualizar o que se passa no interior do globo (Lay e Wallace, 1995). As ondas sísmicas, provenientes de diferentes sismos, atravessam o interior da Terra em todas as direções. Invertendo estes dados, é possível calcular a velocidade das ondas sísmicas em cada célula de dimensões tanto menores, quanto maior e melhores forem os dados sísmicos, Podem, assim, obter-se mapas tridimensionais que nos dão uma indicação aproximada da distribuição da de diversos parâmetros físicos no interior da Terra, como, por exemplo, a temperatura. As ondas viajam mais rapidamente nas zonas frias, onde o material é mais rígido, e mais lentamente nas zonas quentes, onde o material se encontra provavelmente num estado de fusão parcial (Lay e Wallace, 1995;Teves-Costa, 2000). O primeiro estudo tomográfico global da Terra foi feito pelo professor Adam M. Dziewonski, no início dos anos 70. A ideia deste estudo baseou-se nas anomalias do tempo do percurso observadas por muitos dos trajetos dos raios, que se entrecruzam entre vários pontos próximos da superfície terrestre e que atingem diferentes profundidades no seu interior, pode ser convertido num modelo a três dimensões. Este modelo é conhecido como tomografia sismográfica (fig. 1.13) (Boshi e Dziewonski, 2000). As soluções tomográficas têm, contudo, alguns problemas. Um dos mais importantes é o registo de anomalias na direção da passagem da maior parte dos raios numa determinada região, pois é muito difícil obter uma cobertura uniforme e isotrópica do raio (Clement e Knoll, 2000; Dziewonski, 2003).

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Figura 1.13 – Inversão tomográfica para uma seção do manto da Terra, no Equador. As cores frias representam desvios positivos de velocidade de valores simétricos radiais àquela profundidade e as cores quentes representam desvios negativos de velocidade. (http://www.seismo.unr.edu/ftp/pub/louie/class/plate/velocity.html ). Em janeiro de 2000, o USGS (United States Geological Survey) lançou o primeiro mapa quantitativo dos perigos sísmicos globais (Fig. 1.14). Com este mapa, os valores do perigo sísmico puderam ser comparados, pela primeira vez, em todo o mundo, e analisados os contrastes entre as várias regiões. Foi criado como uma ferramenta muito útil para o planeamento e ordenamento do território, para que os recursos possam ser melhor distribuídos, e ajudará todos os países no sentido de reverem a delimitação das suas áreas de perigo sísmico (Bartlett, 2000). A sua elaboração resultou da colaboração de muitas instituições, tais como: NATO, UNESCO, European Council, International Lithosphere Program, Global Seismic Hazard Assessment, International Association of Seismology and Physics of the Earth’s Interior, International Geological Correlation Program, United States Geological Survey (Estados Unidos da América), State Seismological Bureau of China (China), Instituto Nazionale di Geofisica (Itália), GeoForschungsZentrum Potsdam (Alemanha) e Swiss Seismological Service (Suíça) (Bartlett, 2000).

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Figura 1.14 – Mapa de risco sísmico global. A escala de cores varia do branco ao vermelho, indicando valores crescentes de probabilidade de ocorrência de actividade sísmica (http://www.geotimes.org/jan00/newsnotes/hazardmap.html).

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BREVE HISTÓRIA DA SISMOLOGIA

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Guia - Breve história da sismicidade  

Guia do material da Casa das Ciências disponível para download em: http://www.casadasciencias.org/index.php?option=com_docman&task=doc_detai...

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