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Revista do Sistema de Bibliotecas Vera Cruz

A vez dos vilões Março de 2018

Número 10


EXPEDIENTE

DIRETOR GERAL

Heitor Fecarotta DIRETOR DE GESTÃO

Marcelo Chulam DIRETORA PEDAGÓGICA

Regina Scarpa

REVISTA LER CONCEPÇÃO E PESQUISA

Alexandre Leite e Sandra Salgado (Biblioteca Geral) PROJETO GRÁFICO

Kiki Milan e Juliana Lopes (Casa Vera Cruz) EDIÇÃO DE TEXTO

Priscila Pires e Renata Blois (Comunicação) REVISÃO DE TEXTO

Iara Arakaki (Casa Vera Cruz)


Sumário A vez dos vilões: os personagens mais sombrios da ficção............ 5 Protagonista e antagonista......................................................... 5 Antagonistas poderosos............................................................. 6 Os vilões nos nossos acervos..................................................... 7 Fontes...................................................................................... 17 Agradecimento pelas doações.................................................... 19


A vez dos vilões: os personagens mais sombrios da ficção Na literatura de gênero narrativo ou de ação dramática, na qual há a progressão de uma ação, quase sempre se verifica a presença de antagonistas. Nesse contexto, destaca-se a presença de um tipo de personagem que se consolida como força oposta à virtude, na luta maniqueísta entre o bem e o mal: o vilão. A palavra “vilão”, inicialmente usada para designar o habitante de vila que trabalhava para um senhor feudal – ou seja, um plebeu, nem nobre, nem guerreiro –, ao longo do tempo ganhou um sentido depreciativo: pessoa de moral baixa, rude, grosseira, indigna, desprezível. Assim, ao vincular a personagem vilão a um padrão de maldade, a literatura atribui-lhe um comportamento oposto ao da personagem protagonista. A representação do mal há muito tempo acompanha a história da humanidade, manifestando-se de diversas formas. O diabo, por exemplo, aparece em textos literários de diversas épocas, principalmente na Idade Média, quando o mal adquiriu forma ao ser representado no mundo das artes. Na ficção, são diversas as formas de representação do mal, e é possível identificar os diversos tipos de vilões. Alguns representam a encarnação do mal em si, outros dão vazão à caracterização moral e, tomados pelo vício, agem de maneira antiética.

Protagonista e antagonista Considerados personagens fundamentais, protagonista e antagonista são antônimos na linguagem teatral, literária, cinematográfica ou em outros gêneros que envolvam personagens. O primeiro é o que possui papel de destaque na trama, é o ícone principal do enredo. O segundo também se destaca como um obstáculo na vida do protagonista. Quando lemos uma história de ficção ou assistimos a um filme ou a uma peça de teatro, reconhecemos características que definem os papéis desempenhados pelos personagens na narrativa. Geralmente identificamos a personagem principal e quem faz oposição a ela. Essa construção da narrativa é chamada de relação entre protagonista e antagonista. Então, o protagonista sempre será o mocinho, e o antagonista, o vilão? Não, as características que definem os papéis de cada personagem dentro da história não são tão

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simples assim. Pense nas histórias que possuem vários pontos de vista, em que todos os personagens se cruzam no final. Quais são os protagonistas e quem são os antagonistas? Nem sempre as reações são claras. Os personagens encarnados em antagonista e protagonista estão juntos no decorrer da trama, pois um impede o outro de alcançar seus objetivos, agindo de forma contrária ao outro. Mas, em alguns casos, ocorre a inversão dos papéis preestabelecidos, ou seja, o personagem principal é o vilão da história, enquanto o antagonista é o representante do bem. O antagonista nem sempre é um ser humano: ele pode se apresentar na forma de animais, circunstâncias ou até mesmo de um evento histórico. Pode ser o ambiente onde se encontra o protagonista, um traço de personalidade ou um sentimento do próprio herói, contra o qual ele luta. Igualmente, pode ser uma ideia ou conceito, que é a principal fonte dos conflitos da história (como o preconceito ou a inveja, por exemplo).

Antagonistas poderosos De psicopatas a sádicos, a literatura está repleta de figuras perigosas que fazem sucesso e revelam o lado obscuro do ser humano. O leitor gosta de se relacionar com os personagens e acompanhar suas trajetórias, até mesmo as dos personagens que ele mais odeia (talvez até mais desses), e, por isso, o antagonista precisa ter um objetivo claro. Um vilão que é mau pelo simples fato de ser mau é apenas uma fachada, uma desculpa para a história se desenvolver. Gostamos quando os antagonistas são humanizados a ponto de sentirmos que eles podem ser reais, pelo menos dentro daquele universo. A importância de existir um personagem tão forte quanto o protagonista da história permite elevar o nível dos conflitos, deixando a narrativa mais interessante. Todo leitor reconhece o valor de um vilão para o sucesso de uma história, sendo que, algumas vezes, esses personagens têm uma personalidade tão rica e bem construída que acabamos simpatizando com suas maldades. Os vilões, que em grandes histórias da literatura e do cinema costumavam ocupar apenas o posto de antagonistas, têm ganhado cada vez mais voz. Eles exercem um fascínio tão especial que até os mais maldosos são capazes de conquistar os leitores. Vilões costumam ser divertidos, sexies, interessantes, fortes, mas sempre há um ponto vulnerável ou uma motivação que os redimem. A complexidade 6


psicológica de um vilão é muito atraente e nos leva a uma análise mais profunda de sua personalidade. É certamente mais interessante do que a de um mocinho, em que o lado bom é bem delineado e suas ações previsíveis. Adoramos odiá-los e passamos um tempo torcendo contra eles, mas o que seria de uma grande história sem um grande vilão? Apresentamos, a seguir, alguns dos grandes vilões da literatura universal, compilados pelos profissionais do Gabinete de Leitura, presentes no acervo do Sistema de Bibliotecas Vera Cruz. Confiram!

Os vilões nos nossos acervos Alex, em Laranja Mecânica, de Anthony Burgess O enredo é ambientado na Inglaterra, em um futuro próximo, no qual prevalece uma cultura de violência juvenil. Alex DeLarge é um psicopata insensível que rouba, mata e estupra sem culpa. O rapaz lidera três amigos que, assim como ele, não hesitam em cometer atrocidades. O protagonista narra em primeira pessoa suas ações violentas e o tratamento imposto pelas autoridades, com a intenção de reformá-lo.

Aristarco Argolo dos Ramos, em O Ateneu, de Raul Pompeia A obra narra a vida num colégio interno. Sérgio, personagem central do livro, faz amarga crítica ao ambiente do internato e aos seus personagens, principalmente a Aristarco, o severo diretor que Sérgio não vê com bons olhos, em virtude de sua presunção e elevada dose de autoidolatria. Inicialmente, o narrador mostra a face de educador dedicado aos alunos, um segundo pai; depois, mostra a outra face, a verdadeira, mesquinha, a encarnação do autoritarismo, da insensibilidade e da vaidade. Uma das grandes fontes de constrangimento era a leitura que Aristarco fazia das notas, todas as manhãs. Com veemência, o diretor enaltecia os mais fortes e, sem piedade, desmoralizava os mais fracos. Big Brother, em 1984, de George Orwell Neste romance distópico, Big Brother é o símbolo de um mundo policialesco, marcado pela opressão e pela manipulação, com o objetivo de desumanizar. A frase “O Grande Irmão está olhando para você” está em cartazes distribuídos por todos os lugares. Chefe supremo, presente, mas invisível – dele só se conhecem a voz e o rosto —, Big Brother é a personificação de uma sociedade totalitária sem respeito pelos direitos humanos. Não é o único caso na literatura, mas esse vilão passou à cultura popular como um dos mais icônicos e assustadores de que temos lembrança.

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Carmen, em Carmen, de Prosper Mérimée Carmen é a mulher tal como sonhada pelos homens: um fantasma no qual se misturam o estranho, o diabólico e o desejo, tanto o que a habita quanto o que ela inspira. Tórrida como a Espanha mitificada onde ela vive, pertence à raça feroz, fascinante e inquietante dos ciganos que sabem ler o futuro. Carmen é mais do que uma cigana, é uma mulher fatal. Ávida por riqueza, é dona de uma beleza que enfeitiça e leva os homens à loucura e à desgraça. Seu poder em seduzir e manipular o sexo oposto e em criar armadilhas beira o demoníaco. Tamanha força da personagem levou o compositor francês Georges Bizet a usá-la como matériaprima para compor a ópera homônima, uma das maiores de todos os tempos. Rei Claudius, em Hamlet, de William Shakespeare Não existiria “algo de podre no reino da Dinamarca” sem a presença pérfida do Rei Claudius. Para começar, ele envenena o próprio irmão, Rei Hamlet, para se casar com sua cunhada e subir ao trono. Mais tarde, volta seus planos para o príncipe Hamlet, seu sobrinho e herdeiro do trono, pretendendo matá-lo. Com o objetivo de vingar a morte do pai, que se revela a ele em espírito, Hamlet planeja assassinar Claudius. Sabendo disso, o novo rei se antecipa e oferece uma taça de vinho envenenada ao sobrinho. Por acidente, quem a bebe é a rainha, que morre por culpa do próprio marido.

Conde Drácula, em Drácula, de Bram Stoker Nobre oriundo da Transilvânia, destaca-se pelo charme, inteligência e cordialidade. Alto, magro, dono de um rosto lívido, dentes brancos e pontiagudos, dotado de uma força sobre-humana, Drácula é ao mesmo tempo envolvente e aterrorizante. Ao o conhecerem, não passa pela cabeça de suas vítimas que um homem tão encantador possa ser, na verdade, um morto-vivo sugador de sangue. Mas é. Drácula encarna a deformidade moral: é um demônio, é o anticristo que desafia Deus e os homens. Detentor de poderes sobrenaturais, que dizem ter sido ganhos em acordos com o diabo, Drácula é o emblema da crueldade e da barbárie. É um dos grandes heróis perversos de nossa cultura. Edmundo, em Rei Lear, de William Shakespeare Em Rei Lear, Shakespeare eleva ao limite a hipótese de um universo maligno ou indiferente, no qual a vida humana é insignificante e brutal. No argumento da obra, o rei enlouquece após ser traído por duas de suas três filhas. Paralelamente, há uma subtrama. Para que possa herdar as propriedades da família, Edmundo, o filho bastardo do conde de Gloucester, convence o pai de que seu filho legítimo, Edgar, está planejando seu assassinato. Então, Edmundo trama contra o próprio pai, acusando-o de trair a Bretanha ao auxiliar uma invasão dos franceses. Como castigo, Gloucester tem os olhos arrancados e é expulso de casa. Edmundo tornase chefe do exército inglês e consegue finalmente vencer os franceses, capturando Cordélia e Lear e condenando-os à morte. A narrativa eleva Edmundo a algo monstruoso. Ele se torna a personificação de uma vileza alegre, malignamente mau, simplesmente porque o mal que existe no universo deve encontrar uma forma humana de se expressar.

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Edward Hyde, em O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson Edward Hyde é uma criatura pequena e repugnante. São de tal forma negativas as vibrações que emite, que todas as pessoas com que depara se afastam quando o veem na rua. Têm razão em fazê-lo. Hyde é violento, impulsivo e comete atos condenados pela moral e pela lei. Surge na novela de Robert Louis Stevenson como a personificação de tudo o que é mau. E, no entanto, à medida que os detalhes do enredo vão sendo desvendados, fica a dúvida sobre quem será, afinal, o maior vilão: o asqueroso Mr. Hyde ou o nobre Dr. Jekyll? Dr. Jekyll é um sábio que, fascinado pela dualidade existente em cada um de nós, descobre uma poção química que o permitirá duplicar-se. Ao criar Mr. Hyde, seu propósito é manter a distância a face negra de seu próprio eu, a fim de exorcizá-la. Mas a parte maldita é a mais forte. Fagin, em Oliver Twist, de Charles Dickens Fagin é o líder de um grupo de crianças (Oliver Twist, dentre elas) a quem ensina a furtar, entre e outras atividades criminosas, em troca de abrigo. Embora retratado com humor, Fagin é um avarento confesso que, apesar da riqueza que adquiriu, faz muito pouco para melhorar as vidas miseráveis dos filhos que adota. A personalidade sombria do personagem é mostrada quando ele agride fisicamente Artful Dodger por não trazer Oliver de volta, e por seu próprio envolvimento em vários esquemas criminosos no decorrer da história. Fortunato, em A Causa Secreta, de Machado de Assis O conto de Machado de Assis relata a crueldade de Fortunato, que sente prazer na observação do sofrimento alheio. A crueldade de Fortunato é extensiva a animais e pessoas. Numa casa de saúde, onde é sócio de Garcia, ele observa e lida com os feridos. Nas horas vagas, estuda anatomia e promove sofrimento a cães e gatos. Essas atitudes perturbavam sua mulher, Maria Luísa, por quem Garcia é apaixonado, porém, sem tomar nenhuma atitude para modificar a situação de sofrimento dele e da amada. Eles se deixavam manipular por Fortunato, como um rato sem defesa. Ao praticar atos de tortura e sentir prazer com o sofrimento do amigo e da esposa, ele deixa claro que não importa o objeto da tortura, mas sim, o prazer que ela lhe proporciona. Como detentor do poder, era o manipulador da situação. Nada estava acima do cumprimento de seus desejos; nem mesmo a vida, dos outros, é claro. Fred, em O conto da Aia / A História da Aia, de Margaret Atwood Fred Waterford é um dos Comandantes, homens que governam com mãos de ferro a República de Gilead, uma ditadura religiosa instalada após mudanças no meio ambiente. Tais mudanças culminaram em uma crise de fertilidade e problemas de reprodução. As mulheres são divididas em castas, a fim de garantir o futuro da espécie. A protagonista June, após ser caçada e separada de sua família, é enviada à residência do comandante Fred e tem seu nome tirado de si, passando a ser chamada de Offred. Esse nome é mais uma forma de simbolizar a objetificação da mulher na história, afirmando que ela pertence a alguém. Nesse caso, “Offred” significa “do Fred”. Os homens de Gilead se mostram coniventes com a violência a que essas mulheres são submetidas.

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Heathcliff, em O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë O protagonista consegue despertar no leitor praticamente todos os tipos de sentimentos: simpatia, ódio, raiva, pena etc. Depois de passar por diversas humilhações, em uma situação quase miserável, Heathcliff consegue dar a volta por cima, disposto a se vingar de todos que lhe fizeram mal no passado e recuperar seu grande amor de infância, Catherine. Porém, não mede esforços na sua empreitada, causando a degradação até mesmo de pessoas que nunca lhe fizeram mal.

Hermógenes, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa Riobaldo, em sua extensa narrativa, relata a um personagem não identificado sua história e trajetória repleta de aventuras como chefe de um bando de jagunços. Para Riobaldo, Hermógenes era o Cão, o Demo, um pactário do diabo. É o personagem mais odiado pelo narrador. Na primeira guerra jagunça, quando lutam do mesmo lado, Riobaldo já revela seu ódio por ele, e, na segunda, esse sentimento se acentua. No romance, Hermógenes é a personificação do mal.

Juiz Holden, em Meridiano de sangue, ou O rubor crepuscular no Oeste, de Cormac McCarthy Kid, como é chamado o protagonista desta obra, é recrutado por uma companhia de mercenários e atravessa regiões desérticas entre o México e o Texas, na metade do século 19. Sua missão é matar o maior número possível de índios e apresentar seus escalpos. O grupo é liderado pelo mercenário Glanton e por uma das figuras mais enigmáticas de toda a obra de McCarthy: o juiz Holden. Símbolo do mal absoluto, Holden é uma criatura demoníaca. Tem mais de dois metros de altura e é completamente desprovido de pelos no corpo. As excentricidades continuam: raramente dorme, adora dançar e está perfeitamente convicto de que nunca há de morrer. Iago, em Otelo, o mouro de Veneza, de William Shakespeare Considerado um dos mais sinistros personagens levados ao palco por Shakespeare, Iago é maquiavélico, astuto, a face tenebrosa e baixa da alma humana. Ele encontra sua realização no mal, que lhe permite, acima de tudo, o exercício de poder. Oficial do exército de Otelo, sentindo-se preterido depois que o general promove Cássio em seu lugar, Iago elabora um plano para intrigar ambos e destruir Otelo. Para isso, convence o general de que Cássio tem um romance com sua noiva, Desdêmona. Louco de ciúmes, Otelo mata Desdêmona e, depois, se suicida ao saber que fora enganado. Pérfido, Iago jamais se arrepende de seus crimes.

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Dona Inácia, em Negrinha, de Monteiro Lobato Neste conto, é narrada a vida de Negrinha, uma pobre órfã adotada por Dona Inácia. Para a sociedade, ela é uma mulher de caráter ilibado, digna, possuidora de riquezas e assídua frequentadora e colaboradora da igreja. Mas, ao lermos a narrativa, sua verdadeira face é revelada. O conto se mostra atual ao denunciar a violência contra a criança negra.

Jack, em O senhor das moscas, de William Golding Um grupo de meninos, sobreviventes da queda de um avião em uma ilha deserta, se organiza em uma sociedade sem adultos à espera do resgate. Jack não aceita a forma como Ralph lidera o grupo, sempre ouvindo e aceitando sugestões de todos. Assim, também resolve se tornar um líder, mas de forma autoritária, impondo suas decisões aos demais com o uso da força e da coação.

Professor James Moriarty, em O problema final, de Arthur Conan Doyle Reconhecido por Sherlock Homes como a mente criminosa mais perigosa do mundo, professor Moriarty controla quase toda a rede de crimes da Europa, sobretudo na Inglaterra. É uma figura quase tão habilidosa em disfarces e estratégias quanto o detetive. O pior é que o vilão em questão não deseja dinheiro, joias, poder ou dominação mundial. Seu objetivo é destruir a reputação de Homes e matá-lo.

Javert, em Os miseráveis, de Victor Hugo Metódico e racionalista ao extremo, Javert é um homem cego pela lei e pela ordem e dedica a sua vida a combater o crime e a perseguir aqueles que o sentido lato da legislação define como criminosos. Ele define-se, assim, como o principal antagonista de Jean Valjean, o ex-condenado às galés que modifica a vida de muitos com os seus atos de humanidade e sacrifício.

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Juliana, em O primo Basílio, de Eça de Queiroz Criada da casa de Luísa, Juliana é, talvez, a mais complexa personagem da obra de Eça de Queirós. Ao perceber que nunca deixará de ser empregada, ela inferniza a vida de sua patroa quando descobre que esta trai o marido. As chantagens e malvadezas de Juliana são tão grandes que nos fazem ter dó da pobre Luísa.

Leôncio, em A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães Na atribulada história de amor entre Álvaro, um abolicionista exaltado, e Isaura, uma escrava branca, Leôncio, o proprietário da moça, é um homem cruel e inescrupuloso. Vilão leviano, devasso e insensível, ele persegue Isaura e se recusa a cumprir a vontade de sua mãe, já falecida: dar-lhe a liberdade e alguma renda para viver com dignidade.

Long John Silver, em A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson Além de ser um pirata, sua característica física mais marcante é o fato de possuir a perna esquerda cortada até a coxa, o que o obriga a usar uma muleta. Na trama, Silver, ex-tripulante do navio do terrível e já falecido capitão Flint, e seus comparsas se passam por humildes tripulantes do navio Hispaniola, com o qual o protagonista da história, Jim Hawkins, parte para uma expedição à ilha em que Flint enterrou um tesouro.

Macbeth, em Macbeth, de William Shakespeare Macbeth é a figura do homem impelido pelo desejo e possuído pelo mal. Após ouvir de três feiticeiras previsões relacionadas ao seu futuro “promissor”, resolve apostar todas as fichas para fazer cumprir o destino que lhe haviam narrado. Com a péssima influência de Lady Macbeth, sua cruel esposa, o personagem concorda em cometer um regicídio e se afunda cada vez mais em desgraças na busca incessante pelo poder. Macbeth é violentamente empurrado para as profundezas por uma força superior à sua, batendo-se inutilmente contra um destino – cuja marcha acredita conhecer – que o torna um monstro implacável e faz dele apenas seu títere.

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Medeia, em Medeia, de Eurípedes Na tragédia grega encenada pela primeira vez em 431 a.C., Jasão e Medeia, expulsos de Iolco após a morte de Pélias, se refugiam em Corinto, protegidos pelo rei Creonte. O ingrato Jasão troca Medeia por Creusa, filha do rei. Abandonada e traída, sente-se dominada por um louco acesso de ciúme. Condenada ao exílio por Creonte, Medeia executa uma terrível vingança: envia a Creusa um vestido envenenado, que a leva à morte. Em seguida, sob os olhos do pai, Medeia estrangula os filhos que teve com Jasão. Ao recriar o mito dessa mulher tão cheia de bem e de mal, Eurípides nos transmitiu um dos mais interessantes e mais emocionantes retratos das forças antagônicas que governam a alma humana.

Mefistófeles, em Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe Mefistófeles é o nome de uma entidade diabólica, evocada pelo estudioso Fausto. Apesar de todo o seu conhecimento, Fausto ainda está insatisfeito. Assim, ambos firmam um pacto: Mefistófeles promete mostrar maravilhas a Fausto, sob a condição de este lhe ceder sua alma.

Marquesa de Merteuil, em As relações perigosas, de Choderlos de Laclos Por trás da fina máscara de boa educação e refinamento, esconde-se uma personalidade perigosa. Diabólica e libertina, para a Marquesa de Merteuil o amor é apenas um meio de exercer sua vontade de poder e seu desejo de dominação. Para levar a cabo sua vingança, é capaz de qualquer coisa. Aliando-se ao Visconde de Valmont, amigo e ex-amante, a marquesa se diverte manipulando as pessoas a sua volta e destrói suas vidas pelo simples prazer de ganhar uma aposta, sem qualquer culpa. Virtuose da manipulação, a marquesa semeia perversão e vício.

Moby Dick, em Moby Dick, de Herman Melville Moby Dick é a cachalote enfurecida, de cor branca, que, depois de ter sido ferida várias vezes por baleeiros, consegue destruí-los. A baleia, aparentemente dotada de vontade e raciocínio, é a manifestação do poder total da natureza, significa o terror, o mistério, o monstruoso, o insondável, aquilo que traz em si, ao mesmo tempo, a atração e a repulsa. O clássico de Herman Melville é narrado por Ishmael, tripulante do baleeiro comandado pelo capitão Ahab, que deseja capturar a grande baleia branca que no passado arrancou uma de suas pernas.

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Moll Flanders, em Moll Flanders, de Daniel Defoe Moll Flanders é uma mulher do século 18, batalhadora e questionadora, que, em meio a suas aventuras e desventuras, erra e aprende. Fria, calculista, sensual e sedutora, é uma personagem à frente de seu tempo.

Napoleão, em A revolução dos bichos, de George Orwell George Orwell imaginou uma revolta dos animais de uma fazenda contra a exploração do homem. Liderados pelos porcos, os animais tentam criar uma sociedade utópica. Porém, o porco Napoleão tem uma postura autoritária. É cruel, bruto, desonesto, egoísta, corrupto e, em sua ambição por poder, mata todos os seus oponentes.

O’Brien, em 1984, de George Orwell No “futuro” ano de 1984, na Inglaterra, o protagonista Winston Smith vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado. Como funcionário do Ministério da Verdade, ele parte da indiferença perante a sociedade em que vive à revolta, levado pelo amor por Júlia e incentivado por O'Brien, um membro do Partido Interno com quem Winston simpatiza. Porém, O'Brien pouco a pouco nos revela um lado desequilibrado, um desligamento da realidade que se torna pavorosamente claro durante o processo de reeducação de Winston Smith, em um lugar de dor e desespero denominado Ministério do Amor.

Paulo Honório, em S. Bernardo, de Graciliano Ramos O livro narra em primeira pessoa a trajetória do frio e rude Paulo Honório em sua gananciosa, desumana e violenta busca por se tornar um poderoso latifundiário. O comportamento do protagonista Paulo Honório, talvez condicionado pelo meio e pelo forte sentimento de desejo de posse, teria causado o desfecho trágico da obra. Assim como o desejo de ter a fazenda como sua propriedade o leva a fazer coisas que despertam ódio no leitor, o sentimento de total posse de sua mulher, Madalena, faz nascer dentro dele o ciúme, levando-o a atormentar a esposa, induzindo-a a tomar uma atitude trágica e irremediável.

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Pinkie Brown, em O condenado, de Graham Greene Entre corridas de cavalos, apostas ilegais, crimes e drinques nos bares da ensolarada Brighton, Pinkie Brown – de apenas 17 anos – assume a chefia de um grupo de contraventores. Sem qualquer talento para a malandragem, Pinkie comete uma sequência de delitos na tentativa de encobrir um assassinato. Tudo isso para ter o respeito dos seus comparsas e da máfia.

Ramon Mercader, em O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura Ramon Mercader foi o assassino de Trotski, recrutado pelos assessores soviéticos na Espanha e treinado pelos serviços de inteligência, mudando de identidade e nacionalidade. Ele foi preso após o crime, mas nunca admitiu ter sido enviado pela União Soviética. Depois de ter passado 20 anos nas prisões mexicanas, mudou-se para Moscou e faleceu em Cuba, nos anos 1970. A ficção faz com que possamos entender as contradições de Ramon Mercader e a forma como foi envolvido no processo.

Satã, em Paraíso Perdido, de John Milton Não tem para ninguém. Mal como o tinhoso, só o Tinhoso em pessoa. Milton usa a tradição bíblica como ponto de partida para seu vilão, um anjo caído motivado pela vingança contra o próprio criador. Inspirado no Gênesis, narra a rebelião de Satã contra Deus, a criação do mundo e a queda do homem pela desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden.

Shere Khan, em O livro da selva, de Rudyard Kipling Shere Khan é um tigre-de-bengala que tenta matar Mowgli. A motivação de Khan é clara: ele quer matar Mowgli para que ele não cresça e vire um caçador, ameaçando sua vida na floresta, além, é claro, de querer se deliciar com Mowgli como prato principal. O que faz de Khan um vilão perfeito é a sua calma: ele trata a caçada como algo esportivo, o que não deixa de ser cruel.

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Svidrigáilov, em Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski Raskólnikov é um estudante pobre que vive em São Petersburgo. Dono de uma mente febril, convence a si próprio que, devido à sua extrema miséria, está isento de qualquer lei moral. Assim, premedita a morte de uma velha agiota. O sinistro Svidrigáilov aparece como o duplo de Raskólnikov, cuja função é espelhar, de modo distorcido, aspectos negativos de sua subjetividade. Ele é um homem nascido da raiva e do tédio da vida contemporânea, um ateu e niilista que acredita no direito libertário de criar sua própria moralidade e transcender as leis, os costumes e a religião em nome de algo superior criado por ele mesmo. Além de adúltero e pedófilo, Svidrigáilov faz uma adolescente surda cometer suicídio e é suspeito de matar a própria esposa. Nesta narrativa, o crime é a manifestação do mal metafísico, enquanto a expectativa do castigo é a esperança da redenção.

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Fontes ANDRIGHETTI, Marcelo. Como criar antagonistas poderosos. Escola de Roteiro, 2017. Disponível em: <https://www.escoladeroteiro.com.br/personagem/como-criar-antagonistas-poderosos/>. Acesso em: 5 fev. 2018. BAPTISTA, Michele Marques. Seleção dos melhores vilões da literatura. Blog do Sistema de Biblioteca UCS, 2013. Disponível em: <https://bibliotecaucs.wordpress.com/2013/09/14/ selecao-dos-melhores-viloes-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018. BETTIO, Maíra Althoff de. Protagonista e antagonista. InfoEscola. Disponível em: <http://www. infoescola.com/artes/protagonista-e-antagonista/>. Acesso em: 5 fev. 2018. BRITTO, Thaís. Carina Rissi e o fascínio pelos vilões da literatura. Blog da Editora Record, 2016. Disponível em: <http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2016/03/23/carina-rissi-e-o-fascinio-pelos-viloes-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018. CARNEIRO, Raquel. A vez dos vilões: por que personagens sombrios são tão amados na ficção. Veja, 2013. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/entretenimento/a-vez-dos-viloes-por-que -personagens-sombrios-sao-tao-amados-na-ficcao/>. Acesso em: 5 fev. 2018. KOVACS, Alexandre. Os 20 personagens mais diabólicos da literatura. Mundo de K, 2017. Disponível em: <https://mundodek.blogspot.com.br/2017/06/os-20-personagens-mais-diabolicos-da.html#.WZHmxFWGMdU/>. Acesso em: 5 fev. 2018. LANOT, Frank et al. Dicionário de cultura literária: 100 citações e 100 personagens célebres. Traduzido por Mário Pontes. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007. 432 p. LUDWIG, Paula Fernanda. Em busca do vilão: rumores e intrigas na literatura. Revista DLCV, 2016. Disponível em: <http://periodicos.ufpb.br/index.php/dclv/article/view/17364/>. Acesso em: 5 fev. 2018. MATOS, Tiago. 10 grandes vilões da literatura. Estante, Lisboa, 29 abr. 2016. Disponível em: <http://www.revistaestante.fnac.pt/10-grandes-viloes-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018. NAOMI. Os 50 maiores vilões da literatura. Pensamentos de uma Batata Transgênica, 2008. Disponível em: <https://batatatransgenica.wordpress.com/2008/09/25/os-50-maiores-viloes-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018. NOGUEIRA, Camila. As 13 maiores personagens da história da literatura. DCM, 2012. Disponível em: <http://www.diariodocentrodomundo.com.br/as-13-maiores-personagens-da-historia-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018. OS CINCO maiores vilões da literatura. Estante Blog, 2015. Disponível em: <http://blog. estantevirtual.com.br/2015/12/31/os-5-piores-viloes-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018.

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OS VILÕES mais cruéis de Shakespeare. Universia Brasil, 2015. Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/tempo-livre/noticia/2015/02/03/1119398/4-viles-crueis-shakespeare-baixe-gratis-obras.html/>. Acesso em: 5 fev. 2018. PROTAGONISTA e antagonista. Resumo Escolar. Disponível em: <https://www.resumoescolar. com.br/portugues/protagonista-e-antagonista/>. Acesso em: 5 fev. 2018. RONNISON, A. F. Os 10 maiores vilões da literatura. Um Filósofo na Web, 2014. Disponível em: <http://umfilosofonaweb.blogspot.com.br/2014/11/os-10-maiores-viloes-da-literatura. html/>. Acesso em: 5 fev. 2018. TERRA, Felipe. Carmen de Prosper Mérimée, personagem enigmática da literatura francesa. DCM, 2015. Disponível em: <http://www.diariodocentrodomundo.com.br/as-13-maiores-personagens-da-historia-da-literatura/>. Acesso em: 5 fev. 2018. TOP 5: os piores vilões. Martin Claret, 2016. Disponível em: <http://martinclaret.com. br/2016/05/19/5-piores-viloes/>. Acesso em: 5 fev. 2018.

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Agradecimento pelas doações Ana Lúcia Faria e Silva Azevedo do Amaral Branca Mincarelli Albernaz Claudia Cavalcanti Dilneia Ciseski Elaine Spiguel Girlei Costa da Fonseca Josca Ailine Baroukh Marcia Fortunato Maria Eneida Soares Rodrigues Fiuza Maria Stella Galli Mercadante Marta Maria Pinto Ferraz Paula Monteiro de Camargo Regina Scarpa Rita de Cassia Alexandrino Botter Vera Lúcia Cretella Conn Zilma de Moraes Ramos de Oliveira Editora 34 Editora do Brasil Editora FTD Editora Globo Editora Harbra Editora Hedra Editora Moderna Editora SM Editora Zahar Somos Educação


Revista Ler - nº 10  
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