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SEGURANÇA

CARRO INTELIGENTE Dispositivo criado por aluno da UnB avisa quando o carro está sendo roubado. O mecanismo já está em processo de patente

DIREITOS

CUIDADORES SEM ATENÇÃO Médicos paliativistas conquistam aos poucos reconhecimento de seu trabalho, apesar das dificuldades da profissão

CIDADANIA

ORÇAMENTO PARTICIPATIVO Programa tem queda no número de participantes em 2013. Moradores se queixam da demora em obras

BRASÍLIA, 22 A 28 DE OUTUBRO DE 2013

NÚMERO 403 ANO 43

CAMPUS Adriano Belmiro

BENEFÍCIO PELA METADE Participantes do programa distrital, como Maria Gerarda, não conseguem receber a casa própria por falta de informação e falhas do GDF


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Brasília, 22 a 28 de outubro de 2013

CAMPUS

Carta do Editor

Recorte

Brunna Ribeiro

Adriano Belmiro

O clima de uma redação raramente é de calmaria. No aprendizado dos repórteres, o senso de urgência a ser desenvolvido é de extrema importância para que o jornal saia com o menor número de erros possíveis e na periodicidade estipulada. O jornalismo depende de pessoas, e é normal que pautas caiam ou mudem de foco. Apesar dos imprevistos, a turma conseguiu se pautar de forma a entreter e informar o leitor, deixando o jornal mais eclético. Nesta edição do Campus, o repórter Paulo Ricardo Caproni teve a sensibilidade de visitar o Hospital de Apoio de Brasília para falar de cuidados paliativos e a desvalorização dos profissionais que realizam esse trabalho. A humanização da matéria foi fundamental para tratar de forma especial um tema tão delicado. Os carros do Senado, apesar de serem pauta nos jornais da grande mídia, tiveram recorte especial pelo repórter Douglas Lemos, que encontrou informações inéditas, na Lei de Acesso à Informação, em relação ao tema. Para solucionar um problema comum nos esta-

cionamentos, o roubo de veículos, o repórter Gabriel Luiz entrevista o criador de novo dispositivo capaz de acalmar os motoristas. Diogo Nazzetta inventou o mecanismo como Trabalho de Conclusão de Curso após ter seu carro roubado na Universidade de Brasília. O Intersafe avisa aos condutores quando algo de errado acontece com o veículo. Iniciativas governamentais para melhorar a vida da população foram abordadas pelas repórteres Tamara Miranda e Ana Teresa. Dando um toque político ao jornal, elas falaram dos problemas relacionados às medidas políticas do Programa Morar Bem e do Orçamento Participativo, respectivamente. Essas iniciativas têm em comum a publicidade inicial que tiveram por parte do governo do Distrito Federal, mas também a frustraçaõ que geraram ao longo do tempo. A página 8 traz leveza ao jornal abordando a crença e religião. Pedro Silva tenta em sua reportagem quebrar preconceitos relacionados aos praticantes da Wikka e de seus rituais.

Memória O suplemento do Campus Cruzes e Credos, da edição 159, de fevereiro de 1992, abordou a diversidade de religiões que Brasília abriga. O artigo de Robson Leão define a religiosidade pela visão de sociólogos conceituados. Karla Mendes escreve sobre o chá ayahuasca, da religião do Santo Daime, e ainda sobre o místico Vale do Amanhecer. Em página dupla, Onde todos os caminhos

levam a Deus aponta as crenças existentes na capital, incluindo aquelas de poucos seguidores, como o Bahá-í, o Mahicari e o Seicho-No-le.

CAMPUS

Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

Felizes e inocentes, a imunda calourada é jogada nas ruas para amealhar moedas. Aguardando o pedágio, veteranos apropriam-se dos pertences dos novatos

Ombudsman

*Termo sueco que significa "provedor da justiça", discute a produção dos jornalistas sob a perspectiva do leitor. Alexandre de Paula é aluno do sétimo semestre de jornalismo da FAC

Alexandre de Paula Ao fim da leitura da edição 402 do Campus, o leitor sente falta de uma abordagem mais humanizada. Apesar da relevância das informações apresentadas, a turma, em um jornal repleto de números e dados, parece se esquecer que o que permeia e que deveria sustentar cada uma dessas reportagens é a presença humana. Os personagens até aparecem, mas, na maioria dos casos, são tratados como um penduricalho, um adicional sem muita importância quando comparado às falas de autoridades e especialistas. A maioria dessas reportagens só tem relevância na medida em que se insere no cotidiano das pessoas que sofrem com

os problemas ou que se beneficiarão das melhorias. Não são as leis ou as obras que mais importam, mas como elas influenciarão o dia a dia da população. Seca o ano todo é uma boa pauta e pode surpreender. Os números têm papel na construção da informação, porém uma solução gráfica facilitaria a compreensão geral. Quem passa sem se perder por tantos números e falas oficiais reserva-se a história forte de uma escola que sofre com a falta de água. Por que deixá-la para o fim, escondida nos dois últimos parágrafos do texto? A melhor não é ideal tem uma abertura que beira a editorialização, até a primeira

pessoa do plural aparece. Uma forma melhor de discutir o tema da assistência na universidade talvez fosse aproximá-lo dos alunos, em vez de dar tanto espaço para repercutir a afirmação do reitor. Sem motivos para sorrir começa a acertar pelo título. Bem escrito, o texto consegue mostrar a dimensão burocrática do problema sem deixar de dar espaço a quem sofre com ele. Solução inteligente elucida bem a questão principalmente por não se contentar em mostrar apenas os aspectos positivos ou negativos. Capacitação inexistente e Aposta na incerteza encerram a edição com matérias corretas.

Editor chefe: Brunna Ribeiro Editores: Ingrid Borges e Maria Tereza Matos Repórteres: Ana Teresa Malta, Douglas Lemos, Gabriel Luiz, Paulo Caproni e Tamara Miranda Fotógrafo: Adriano Belmiro

Projeto Gráfico: Beatriz Ferraz, Hermano Araújo, Marianna Nascimento e Nadjara Martins Professores: Sérgio de Sá e Solano Nascimento Monitoras: Marianna Nascimento e Nadjara Martins

Jornalista: José Luiz da Silva Gráfica: Palavra Comunicação Tiragem: 4 mil exemplares


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TECNOLOGIA

SEM MAIS PREJUÍZOS

Ferramenta desenvolvida por estudante de Engenharia Mecatrônica pretende evitar furtos e arrombamentos

Gabriel Luiz

“E

ste alarme que está tocando é do meu carro? Será que o deixei trancado?” Pensando na própria tranquilidade, Diogo Nazzetta, recém-formado em Engenharia Mecatrônica pela Universidade de Brasília (UnB), criou um sistema que pode deixar os motoristas mais serenos. O jovem de 24 anos apresentou como projeto final do curso , uma ferramenta que permite que qualquer um entre em contato com o próprio carro usando apenas o celular. No início de 2012, no estacionamento externo de uma festa no Setor de Clubes Sul, o automóvel de Nazzetta foi arrombado. Vidros foram quebrados e foi levado somente um iPod. Ele acredita que prejuízo seria bem maior caso o estacionamento estivesse vazio e o alarme não tivesse tocado. Daí surgiu a centelha para criar, um ano depois, o Intersafe — nome que remete à ideia de segurança interna ou interativa. “Fiquei com esta dúvida na cabeça: se eu soubesse que o alarme estava tocando, eu poderia ter evitado o furto?” Insatisfeito com outro projeto que vinha desenvolvendo como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Nazzetta percebeu que construir o equipamento que tinha em mente era possível com a ajuda de microcontroladores — tipo de processador encontrado em carros e celulares, que controla as funções ou ações do produto. Então, resolveu mudar de tema e colocar a criatividade em prática. Cinco meses de trabalho depois e um

Adriano Belmiro

gasto pessoal de mais de R$ 700, estava pronto o equipamento que levou somente dois dias para ser instalado no Ford Fusion do jovem inventor. FUNCIONAMENTO O módulo funciona como um celular, mas sem a necessidade de um aparelho. Usando um chip comum, o sistema está programado para telefonar ao proprietário do carro caso o alarme toque. Graças a um microfone embutido, é possível ouvir o que acontece no automóvel sem que ninguém perceba. Há ainda a opção de ligar diretamente para o veículo. Assim que ele “atender”, o usuário habilitado digita sua senha e, então, tem dez segundos para ativar um comando. Cada tecla do celular é responsável por uma instrução. A tecla “#” tem o poder de travar o carro, outra de destravá-lo, outra de abrir o portamalas, e assim por diante. Para Nazzetta, além de aumentar a segurança, a ferramenta que ele fabricou também pode ajudar motoristas distraídos que nem ele. “Nunca mais tive de me perguntar se tranquei meu carro”, brinca, referindo-se ao engenho que ele garante funcionar em qualquer automóvel por menos de R$ 200. Procurada, a Autotrac, empresa pioneira no setor de rastreamento de frotas, informou que um produto como o Intersafe ainda não existe no mercado. Com o sistema, situações como a que aconteceu com Nicholas Lara poderiam ser evitadas. O estudante de música de 27 anos havia estacio-

“Consegui transformar alguma coisa chata que me aconteceu em algo legal”, ressalta o recém-formado Diogo Nazzetta, com a ferramenta que criou em mãos

nado o carro na quadra 110 Norte e, quando voltou de um restaurante com a namorada, encontrou o automóvel com a janela quebrada e a trinca da porta forçada. O sistema de som e seus óculos haviam desaparecido. “Eu ficaria mais tranquilo se soubesse que algo está acontecendo com o meu carro. É uma ótima ideia.” No entanto, o universitário questiona a praticidade do invento. “Na hora da tensão, eu vou realmente saber como agir? Vou lembrar que teclas eu devo apertar?”, indaga. O músico não é o único que se mostra cético. Professor de eletrônica veicular do curso de Engenharia Automotiva da UnB, Evandro Teixeira afirma que qualquer instrumento adicionado ao sistema de um carro é detectado como um corpo estranho. Por isso, ele recomenda analisar se a instalação do aparelho não afeta a garantia. “Ao incorporar um dispositivo

eletrônico no veículo, alterase a demanda de potência elétrica. Ou seja, a bateria pode não fornecer energia suficiente. Isso é perigoso, principalmente em carros mais velhos”, explica. “Toda ferramenta para aumentar a segurança veicular é bem-vinda, mas qualquer mudança deve ser analisada para que não comprometa as funcionalidades básicas do automóvel.” Outra questão que o professor levanta diz respeito à autonomia do Intersafe. Ele lembra que criminosos costumam retirar a bateria do veículo para o alarme cessar de tocar. “O aparelho tem bateria própria? Se não tiver, não adianta: o furto acontecerá.” O modelo criado por Nazzetta para apresentar no TCC não tem energia própria, mas ele garante que o uso de bateria própria já está presente no projeto original. Ele pretende incrementar

o invento, que está em fase de registro de patente, com recursos já existentes em outros dispositivos. Nazzetta quer adicionar a função de rastreamento por GPS e um comando que envie a localização do automóvel às pessoas mais próximas, por mensagem, a cada três minutos, em caso de sequestro.

OCORRÊNCIAS

OCORRÊNCIAS De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do DF, houve 10.517 furtos em veículos entre janeiro e setembro deste ano. No mesmo período do ano passado, o total foi de 8.176 furtos. No entanto, não se pode garantir que houve de fato aumento de 28,6%, pois a Polícia Civil esteve de greve de agosto a novembro de 2012 e as ocorrências só eram registradas pela internet.


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ORÇAMENTO

MARÉ DE GASTOS NO SENADO

Em 2012, a Casa leiloou 84 veículos. O valor arrecadado paga somente seis meses de aluguel da atual frota Douglas Lemos

Q

que o custo de manutenção do Marea chega a superar em 50% o de modelos semelhantes por conta da mão de obra e escassez de peças. “São carros que exigem ferramenta e técnica especializada.’’

R$ 200 mil

é o que o presidente do Senado gasta, por ano, com locação de apenas três veiculos

CHEFE DA CASA Como presidente do Senado, Renan Calheiros tem direito a três veículos de modelos mais caros. O contrato de um ano, que foi assinado no último dia 26 de março, é referente ao modelo Hyundai Azera, avaliado em mais de R$ 100 mil. Cada um dos veículos custa R$ 5,6 mil de aluguel mensal. Nos primeiros quatro meses do contrato, Calheiros usou um veículo blindado, cuja locação mensal era de R$ 7,8 mil. O valor total do aluguel dos automóveis utilizados pelo senador alagoano é de R$ 212.057,20. Questionada sobre esse valor, que custa à Casa quase o triplo dos carros utilizados

pelos outros parlamentares, a assessoria de imprensa do Senado afirmou que “o modelo adotado é da categoria sedan superior, seguindo o padrão de veículos utilizados por pre-

sidentes de outros Poderes republicanos” e que os veículos antigos, modelo Chevrolet Omega, foram substituídos por possuírem manutenção difícil e onerosa.

Automóveis que faziam parte do patrimônio do Senado. Valor resultante do leilão não é suficiente para pagar nem um ano do atual contrato de locação Douglas Lemos

FROTA ALUGADA A licitação para a locação dos novos veículos exigia airbags para motorista e passageiro, freios antitravamento (ABS), ar-condicionado e direção hidráulica ou elétrica. A motorização mínima deveria ser de 2.0 litros e potência a partir de 140 cavalos. Bancos em couro com regulagem de altura e CD Player com tomada auxiliar para Ipod, Iphone e MP3 também faziam parte das exigências. Questionado sobre itens que ofereceriam conforto aos senadores, o Senado respondeu que os veículos “estão equipados com itens e acessórios de segurança exigidos por lei” e que “estas especificações são compatíveis com a grande maioria dos veículos da categoria sedan médio ou superior, existentes no mercado”. A vencedora da licitação foi a LM Transportes, que cobra R$ 1.990 mensais por

cada um dos automóveis. O custo dos três anos de contrato é de R$ 5,8 milhões. Os carros alugados são avaliados em R$ 64 mil, segundo o site da montadora, e devem ser substituídos a cada dois anos. Dos 81 senadores, apenas três abdicaram do uso de veículo oficial: Eduardo Suplicy (PT-SP); João Capiberibe (PSB-AP) e Rodrigo Rollemberg (PSB-DF). Rollemberg, que usa um carro próprio, diz que não há prejuízo à atividade parlamentar quando não se utiliza um veículo oficial. Ele conta ter aberto mão de verba indenizatória para combustível e de apartamento funcional. “É uma política de redução de custos”, explica.

Douglas Lemos

uando o contrato de aluguel dos veículos Renault Fluence, que tem duração de três anos, entrou em vigência, era uma questão de tempo para que o Senado se desfizesse dos modelos Fiat Marea que faziam parte do patrimônio da Casa. Do início do contrato de locação da nova frota de veículos oficiais – a partir do dia 19 de setembro de 2011 – ao leilão, realizado no dia 5 de maio de 2012, foram mais de seis meses. Os 84 Marea, dos anos 2003 e 2005, foram vendidos em leilão público por valores entre R$ 11 mil e R$ 20,2 mil. No total, foi arrecadado R$ 1 milhão e o recurso foi recolhido ao Fundo do Senado Federal, destinado à despesa com investimentos. O valor equivale a cerca de seis meses do custo do aluguel dos 78 novos carros oficiais, que consomem R$ 1,934 milhão por ano dos cofres públicos. Os dados sobre o leilão foram obtidos pelo Campus por meio da Lei de Acesso à Informação Pública. Questionada, a assessoria de imprensa do Senado justificou a troca afirmando que os Marea tinham, em média, oito anos de uso e sua manutenção e consumo de combustível representavam gastos crescentes à Casa. Guilherme Araújo, gerente de uma oficina mecânica, explica

Veículos oficiais alugados custam quase R$ 2 milhões por ano aos cofres do Senado. Itens de luxo, como bancos de couro, são obrigatórios aos carros


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MORADIA

SONHO INTERROMPIDO

Valores cobrados por imóveis do programa habitacional do Distrito Federal decepcionam os contemplados Tamara Miranda

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om o lançamento do Programa Morar Bem, em 2011, o sonho da casa própria se tornou mais próximo para moradores de baixa renda do Distrito Federal. O programa subsidia uma parte do valor do imóvel e facilita o financiamento para famílias com renda de até 12 salários mínimos e que residam há pelo menos cinco anos no DF. Em dois anos, 66 mil pessoas já foram habilitadas a adquirir um imóvel e dessas quase 4 mil receberam as chaves da casa própria. No rastro do benefício, no entanto, um grupo de moradores está deixando de obter o imóvel diante da exigência de altos valores para entrada, em parte por erro do governo e em parte por desinformação dos interessados. Antônia Aparecida Lemos Neto foi uma das pessoas habilitadas a adquirir um imóvel. Com 59 anos, Antônia veio para o DF em 1970, recémcasada com um militar. “Cheguei aqui só um pouquinho depois de Juscelino (Kubitschek), meu marido morreu anos depois e até hoje não tenho um lugar para chamar de meu”, explica. Em 2012 ela foi contemplada pelo Morar Bem e se encheu de esperanças de parar de pagar aluguel. O sonho durou pouco e levou embora cerca de R$ 400 da pensionista. Depois de ter obtido a documentação necessária, Antônia soube que precisaria dar uma entrada de R$ 29 mil e arcaria com prestações mensais de R$ 2 mil por um casa no Jardins Mangueiral, perto de São Sebastião, que vale cerca de R$ 180 mil. O Governo do Distrito

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Maria Gerarda desistiu da casa devido ao alto valor para entrada. Meses depois, foi incluída em outro programa social, mas ainda não foi chamada

Federal (GDF), por meio da Secretaria de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano (Sedhab), enviou uma carta a contemplados na qual informava o valor dos imóveis e a faixa de renda a que cada um era destinado. Segundo a carta, Antônia, que tem renda de R$ 3,5 mil, seria capaz de pagar as prestações de um imóvel no Jardins Mangueiral comprometendo no máximo 30% da sua renda. “Passei mais de um mês correndo atrás de documentos, gastei R$ 300 em cartórios e paguei a taxa de adesão para o governo”, explica Antônia. “Me senti traída quando vi que o financiamento não era do jeito que eles tinham falado.” Antônia

não adquiriu o imóvel, mas se negou a assinar a desistência. “Não desisti de nada, apenas não tive como pagar.” Outra contemplada surpreendida foi a aposentada Maria Gerarda Bezerra Martins, 68 anos. Ela optou por um apartamento de dois quartos no Residencial Parque do Riacho, no Riacho Fundo II. O apartamento avaliado em R$ 76 mil deveria ser destinado a famílias com renda de até R$ 1,6 mil mensais, mas não coube no bolso da aposentada, que tem a renda de aproximadamente R$ 900. “Fiz tudo direitinho, mas no dia a mulher me disse que o financiamento ia ficar muito pesado e que o banco não iria aprovar meu cadastro”.

A mulher a quem Maria Gerarda se refere é uma atendente da empresa que representa o Banco do Brasil no programa, a Prime House. A empresa intermedia o contrato e deixa o processo de financiamento pronto para o banco. Na simulação de financiamento feita para a aposentada em julho, ela teria que pagar R$ 14 mil de entrada e mais 134 prestações de R$ 462. “A mulher ainda me alertou que quando eu recebesse o apartamento teria que pagar também o condomínio”, acrescenta Maria Gerarda. “Assinei o termo de desistência e saí de lá. Estava chocada, mas fazer o quê? Já estou perto de morrer mesmo.” Após dois meses, Maria Gerarda recebeu uma carta que renovou sua esperança. Segundo a carta, ela estaria em uma faixa de vulnerabilidade e seria incluída no Cadastro Único para Programas Sociais (Cad-Único). Segundo o documento, ela poderá ser contemplada em programas sociais para adquirir uma casa pagando entre R$ 25 e R$ 100 por mês. Até agora, não foi chamada. O caso da vendedora ambulante Maria Socorro dos Santos teve desfecho um pouco diferente. Depois de desistir do financiamento, ela comprou uma casa no Entorno do DF. Aos 63 anos, não suportava mais viver mudando de casa. “Eu tinha que morar de acordo com o meu trabalho. Se as vendas piorassem, tinha que arrumar tudo e procurar outro lugar para morar”, conta. Quando Maria Socorro foi chamada para fazer o financiamento do apartamento

também no Residencial Parque do Riacho, ela decidiu que daquela vez iria sair do aluguel. Quando foi à Prime House para fazer a simulação do financiamento, levou um susto com a entrada de R$ 17 mil. “Comecei logo a gritar. Como recebo uma carta que diz que vou pagar prestações de R$ 100 e na hora tenho que tirar 17 mil do nada? Nem empréstimo posso fazer”, argumenta. Frustrada, a ambulante comprou uma casa em Valparaíso de Goiás. Pagou uma entrada de R$ 1,9 mil e vai pagar 300 prestações de R$ 800. “Não é bom para mim, mas foi o que deu para fazer. Difícil não é ir para Brasília todo dia, difícil é perder quase tudo em cada mudança.” O Núcleo Habitacional da Codhab (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF), vinculada à Sedhab, esclareceu que no caso de Maria Gerarda houve um erro de convocação. Segundo a Codhab, ela não deveria ser chamada na etapa que foi. Os contemplados de baixa renda serão convocados para a terceira etapa no Riacho Fundo II e para empreendimentos em outras partes do DF, como no Paranoá. Maria Gerarda foi recolocada na lista e agora deve esperar nova convocação. Já o problema de Antônia, segundo a Codhab, ocorreu porque o empreendimento do Jardins Mangueiral obedece critérios próprios e o preço da entrada é compatível com as regras. E Maria Socorro, informa a Codhab, declarou uma renda que superava em R$ 21 mensais o limite para permanecer na faixa 1, que é a de maior subsídio.


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POLÍTICA

EXPECTATIVAS E DECEPÇÕES Número de moradores que se envolvem com o Orçamento Participativo cai 25%. Participantes se frustram com demora em obras Ana Teresa Malta

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hance da própria população definir como os recursos públicos serão investidos, o Orçamento Participativo (OP) reuniu cerca de 16 mil integrantes e elaborou mais de 5 mil propostas em 2011, ano em que foi implantado no Distrito Federal. No entanto, apesar do avanço na execução das prioridades escolhidas, o engajamento dos moradores segue tendência oposta. No OP dos anos de 2012 e 2013, houve uma queda superior a quatro mil no número de participantes, cerca de 25% do total anterior. “Nós ficamos frustrados”, explica Luís Antônio Villas, que representou o Guará em 2011, mas desistiu junto com outros colegas de participar nos anos seguintes. Ele conta que a lentidão para executar prioridades, como a de nº 1 da região administrativa (implantação de um parque ecológico), foi uma das causas desmotivadoras. Já Sebastião da Cruz, de Planaltina, acredita que o OP, “apesar de muito interessante na teoria, não funcionou bem na prática’’. Ele conta que mesmo obras pequenas não foram concretizadas, como o calçamento de ruas, o que acreditava ser de mais fácil realização. Em 2011, Planaltina selecionou 51 prioridades, sendo que somente 5 foram concluídas. A prioridade de nº 1, a implantação de rede de esgoto em algumas áreas, ainda não alcançou estágios iniciais, pois carece de um projeto urbanístico. Marcelo Didonet, do Itapoã, acha necessário maior integração entre os diferentes órgãos do governo, pois acre-

Adriano Belmiro

Elizabeth Moreno mostra as demandas do Lago Norte. Número de votos, IDH da região e custo da obra são critérios utilizados na seleção das prioridades

dita que a capacidade de uma única secretaria paralisar o processo é muito grande. “É preciso pactuar com os diferentes setores para que levem essa questão adiante e mais a sério’’, conclui. A presidente do Orçamento Participativo do Lago Norte, Elizabeth Moreno lamenta que o OP seja considerado “uma mera lista de consulta, um anexo da Lei Orçamentária Anual’’. A legislação que orienta esse processo coloca a obrigatoriedade da participação popular, mas não estabelece em que intensidade as prio-

ridades devam ser levadas em consideração. Presidente do OP de Planaltina, Geraldo de Melo explica que o governo não é obrigado a cumprir todas as prioridades escolhidas pela população. “No entanto, uma vez que ele mobiliza a comunidade com um todo, a execução dessas demandas acaba se tornando necessária, para evitar que ele caia no descrédito.” Para Lauriê Miller, diretora do Orçamento Participativo da Coordenadoria de Cidades do GDF, a queda no engajamento ocorreu devido à falta

O DF tem 734 prioridades: cerca de 20% concluídas e 34% em execução Fonte: Governo do Distrito Federal

de execução de prioridades. Ela explica que tal fato se deve a dificuldades com níveis de inadimplência do GDF, que afetaram não apenas o OP, mas o governo como um todo. Outro motivo que Lauriê indica para desapontamentos com o projeto é a incompreensão do tempo que os processos burocráticos levam. “Temos obras sem execução desde 2011 por problemas como falta de licença ambiental’’, exemplifica. “O Orçamento Participativo é difícil porque mexe na cultura da administração pública e do cidadão, é contra a forma comum das instituições. Isso demanda um prazo de reconhecimento. Essa é apenas uma pequena porta que abre cada vez mais para a população entrar’’, argumenta Lauriê. A primeira cidade brasileira a adotar esse sistema foi

Porto Alegre, em 1989, que se tornou referência tanto para iniciativas brasileiras quanto estrangeiras. No Distrito Federal, a primeira tentativa ocorreu entre 1995 e 1998, no governo de Cristovam Buarque, na época do Partido dos Trabalhadores (PT), a prática foi abandonada por seus sucessores. Geraldo Melo, que participou do OP também na década de 90, ressalta que antes as obras eram identificadas com placas do OP, tornando mais fácil acompanhar o processo. “Muito da empolgação de 2011 foi devido à lembrança dessa época’’, afirma. De acordo com artigo de Alice de Carvalho e Lauriê Miller, Orçamento Participativo: a experiência do Distrito Federal, 83% das prioridades de 1996 e 1997 encontravamse concluídas ou em andamento em setembro de 1998, quarto ano de mandato de Cristovam. No contexto atual, cerca de 54% das prioridades de 2011 e 2012 encontram-se na mesma situação em 2013, terceiro ano de mandato de Agnelo Queiroz, o que pode indicar um ritmo semelhante de execução das prioridades. Apesar das críticas, participantes desse processo se mostraram esperançosos quanto às possibilidades que podem alcançar. Elizabeth explica que se motiva porque já viu o OP dar certo em Belo Horizonte. “Isso é do povo, não é de governo. Antes de me envolver com Orçamento Participativo eu nunca tinha sequer entrado na Câmara. É uma experiência que faz as pessoas participarem da política.’’


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SAÚDE

SOFRIMENTO AMENIZADO

Cuidados paliativos ganham reconhecimento. Hospital de Apoio de Brasília terá primeiros residentes em 2014 Paulo Caproni

É

cientes terminais no HAB. “O reconhecimento da especialização pelo CFM e a abertura desse programa ampliaram muito o diálogo sobre esse assunto na comunidade médica, que geralmente evita o contato com pacientes terminais’’. A discussão sobre cuidados paliativos no país também foi reforçada, no começo de outubro, pela realização em Porto de Galinhas (PE) do V Congresso Internacional de Cuidados Paliativos. “‘Cuidar para a morte’ é uma noção que ainda incomoda muita gente, mas a criação de programas de residência na área são um começo promissor’’, diz Antônio Teles, um dos fundadores da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. “Temos de ficar atentos aos resultados e divulgá-los até ninguém mais ter dúvidas sobre a importância e a beleza dos cuidados paliativos’’. Adriano Barreto, aluno do 11º semestre do curso de medicina da UnB, é um exemplo de como o trabalho com pacientes terminais ainda en-

frenta resistência. Ele desistiu da oncologia e optou pela residência em clínica médica. “A ideia de ter de dar notícias de morte para familiares pelo res-

to da minha carreira foi o que me afastou da oncologia e me fez procurar uma área em que as chances de cura dos pacientes costumam ser maiores’’.

Sala da Saudade: após a morte do paciente, a família tem uma sala reservada no hospital para se despedir do familiar com privacidade Paulo Caproni

mas de natureza física, social e emocional. São, portanto, cuidados de imensa responsabilidade, que não podem ser feitos sem o devido preparo. Sabendo disso e buscando promover o reconhecimento dessa especialidade, médicos paliativistas brasileiros tiveram a ideia de fundar uma entidade que os representasse. Dessa ideia surgiu, em 2005, a Academia Nacional de Cuidados Palitivos (ANCP), que luta pelo amplo acesso aos cuidados paliativos e pela viabilidade de se instituir essa especialidade junto ao Sistema Único de Saúde (SUS). O reconhecimento da medicina paliativa como uma especialidade veio em 2011, com a resolução nº 1.973 do Conselho Federal de Medicina (CFM). No ano seguinte, a Secretaria de Saúde do DF lançou as bases do novo programa de residência em cuidados paliativos, que dará aos candidatos a oportunidade de se especializarem na área atuando em instituições com áreas de ambulatório e de internação para pacientes terminais. As inscrições para o programa foram abertas no dia 5 de outubro e seguem até o dia 25. A duração do programa é de um ano, e os candidatos às primeiras duas vagas oferecidas trabalharão na ala ambulatorial e de internação do Hospital de Apoio de Brasília. “Poucos médicos entendem a real importância do paliativista’’, diz a médica Lia Nogueira, que trabalha com pa-

Paulo Caproni

hora de visitação no Hospital de Apoio de Brasília (HAB). Do balcão da recepção até a entrada dos primeiros quartos da ala ‘A’, não há portas cortando os corredores, a exemplo do que ocorre no restante do hospital. Nas paredes, pinturas de belas paisagens e amplas janelas, que banham de sol os corredores onde ecoa o som de uma cantoria animada. Quem vê esse lugar pela primeira vez dificilmente imagina que a ala abriga apenas pacientes com os dias contados: é a unidade de cuidados paliativos. A única coisa que denuncia que há algo de diferente são os nomes dos quartos, como Bem-te-vi, Sabiá, Quero-quero, Beija-flor. Seis quartos, cada um com três leitos, e a foto do pássaro na entrada. Proposital ou não, a imagem das aves sugere uma metáfora: pacientes terminais são como pássaros engaiolados, que dependem inteiramente do cuidado das pessoas de fora. E quem alimenta, limpa, acompanha e cuida deles são os paliativistas, cujo trabalho tem sido cada vez mais valorizado, tanto pelo governo quanto pela comunidade médica. Os cuidados paliativos são definidos pela Organização Mundial de Saúde como ‘‘o conjunto de práticas médicas que melhoram a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida’’. Isso inclui o controle da dor e de outros sinto-

"Cuidar para a morte é uma noção que ainda incomoda muita gente" Antônio Teles, um dos fundadores da ANCP O hospital promove atividades religiosas de crenças variadas, como o espiritismo, catolicismo e protestantismo. Acima uma reunião de um grupo de evangélicos


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CRENÇA

MAGIA CONTEMPORÂNEA Religião pagã, a Wicca celebra a natureza com rituais de bruxaria. No Brasil, incorporou características do cristianismo

Pedro Silva

“P

oderes do sul, deuses do elemento fogo, venham a este círculo mágico e tragam os poderes de transformação”, pede a sacerdotisa Mavesper Cy Ceridwen enquanto corta o ar com uma athame, tipo de punhal. A voz firme de Mavesper ressoa tênue pelo interior da pequena cúpula de alvenaria, onde o ritual de bruxaria acontece. É noite de lua crescente. Treze velas acesas no centro do local, chamado templo lunar, revelam paredes repletas de máscaras que simbolizam faces da Grande Deusa, divindade feminina da religião Wicca. Sob uma estrela de cinco pontas pendurada no teto, Mavesper e mais 12 bruxos trajados com túnicas negras e brancas formam um círculo. O grupo pede a Kupeirup, uma das faces da Grande Deusa, prosperidade financeira e que o cerrado siga seu ciclo natural – a devastação com as queimadas, e o ressurgimento com as primeiras chuvas. “A Grande Deusa nada destroi

se não for para construir algo melhor”, explica Mavesper. Tão antiga quanto estigmatizada, a prática de bruxaria encontrou popularidade nos tempos atuais por meio da Wicca, religião criada pelo britânico Gerald Gardner em 1954. Ele reuniu elementos de tradições ancestrais de bruxaria e do paganismo – crença que celebra a natureza – e divulgou a Wicca no livro A Bruxaria Hoje. Através do estudo de obras sobre bruxaria, interessados no assunto passaram a se auto-iniciar como bruxos, o que contribuiu para a difusão da crença. Ao adentrar a pátria do Cristo Redentor, a religião logo incorporou características do cristianismo. “A relação do wiccano brasileiro com as divindades, por exemplo, é muito próxima da relação do católico com os santos”, explica o historiador Janluis Duarte, que em dezembro apresenta tese de doutorado na Universidade de Brasília sobre a Wicca no Brasil. Pedro Silva

Objetos como athame (faca), pentagrama, cálice, varinha e mini caldeirão compõem o altar wiccano e representam os quatro elementos da natureza

Ao contrário do emblemático monumento, nem sempre a comunidade cristã recebeu a bruxaria de braços abertos, isso por causa das possíveis ocorrências de cultos demoníacos. Para Duarte, não existem evidências que estes tenham existido durante a Inquisição. “Entre os séculos XV e XVII, surgiu a associação entre magia, práticas de malefício e pacto com demônios. Por isso é que o estereótipo da bruxa persiste até os dias atuais”, conta. Na escola de inglês em que é professor, Dimitrae Keetan, bruxo da Tradição Caminhos das Sombras, prefere conversar distante do prédio para que o assunto – prática de bruxaria – não amedronte pais de alunos. Também pede para não ter o nome civil divulgado. Como tantas pessoas com mais perguntas que respostas, Dimitrae buscava o autoconhecimento. E encontrou em uma religião pouco convencional: a Wicca. “Como você vai ajudar as pessoas e levar equilíbrio ao mundo afora se não há equilíbrio em você?”. Assim, Dimitrae perdeu o medo de ser julgado por sua orientação sexual. “Sofri muito bullying na adolescência. Me aceitava como gay, mas queria que as pessoas também me aceitassem. A Wicca me ajudou a resolver meus problemas internos.” CETICISMO O ritual liderado por Mavesper acontece na chácara Templo da Deusa, na beira da pista DF-140, entre duas cidades cujos nomes homenageiam São Sebastião e Santa Maria.

Pedro Silva

Grupo do bruxo Dimitrae faz culto em apartamento no Guará I. Todo mês grupos de Wicca reúnem-se em ritual aberto à comunidade no Parque da Cidade

Fica 25 km distante da Catedral de Brasília, e a alguns passos de uma igreja devotada a São Francisco de Assis. Na chácara a advogada e representante da Wicca no Comitê de Diversidade Religiosa da Presidência da República Márcia Bianchi, nome civil da bruxa Mavesper, fundou a Igreja de Bruxaria e Wicca do Brasil (IBWB). Única no país, a IBWB, que é uma organização religiosa legal, defende os interesses dos bruxos na esfera jurídica. No Templo da Deusa, moram com Mavesper a família dela e outras nove pessoas. Além de servir para realização de cultos com membros da Tradição Diânica do Brasil, que Mavesper segue, a chácara funciona como hospedaria para bruxos e adeptos do paganismo interessados em aprofundar os conhecimentos. Kalevi Silvanus Amanajé, nome escolhido por Washington Luis, de 18 anos, para ser sua identidade pagã, mora há três meses no Templo da Deu-

sa e pretende se estabelecer por lá. Na cidade de São Paulo, onde vivia, o garoto tomou uma difícil decisão: deixou a mãe e duas irmãs, que aceitaram sua vontade, e seguiu o novo caminho de vida. “O caminho que escolhi foi o da minha felicidade”, diz. E a felicidade é vereda íngreme. “Quando digo que lido com fadas e dragões, às vezes as pessoas riem”, conta a excristã Fabiane Bianchi, que, após a morte do filho recémnascido, 17 anos atrás, deixou de acreditar em anjos e santos. Ela se tornou Calixto Circe Cency e encontrou alento. O historiador Duarte personifica a descrença na magia. “É superstição. Faz parte de um arsenal de tradições populares que ficou associada à figura da bruxa”, acredita. No outro extremo, Calixto argumenta que a magia se confunde com a realidade: “É fé. A imaginação de uma bruxa é onde a magia acontece, e é o imaginário que a traz para o real”.


Campus - nº 403, ano 43