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Um espetáculo inspirado nas memórias da minha avó. Por Ademir Apparício Júnior

“Prazer em conhecer. Dolores Rico Apparício, ao seu dispor!

sempre do meu lado, sempre me cuidando. Se precisar dar remédio ele dá, tudo ele faz pra mim. Ele é uma pessoa muito dedicada.

O Ademirzinho é meu neto. Ele é ator, conta anedota, é muito trabalhador e ele faz um trabalho muito bonito que onde ele vai, todo mundo fica gostando. Ele é educado, tem um trabalho limpo, ele é honesto e gosta das coisas muito certa.

Ele cuida de mim e eu cuidava dele. Quando ele era bebê, quando ele era até grandão.... Eu levava ele na escola e ia buscar. Eu cuidei sempre muito dele, com muito amor e carinho.

É maravilhoso, né? A gente fica satisfeita, a gente que é avó, fica contente com essas coisas! Fica feliz! Eu tenho bastante neto, mas o único que é do meu lado é ele. Ele é demais, viu?! Ele me trata, ele me cuida. Eu sou uma velha com 93 anos e ele tá

Eu contava histórias pra ele e ele gostava. Nossa! Às vezes eu ficava sem fazer minhas coisas para ficar dando atenção para ele, contando histórias pra ele. Eu contava o “Chapeuzinho Vermelho”, “João e Maria”, “Branca de neve” e a “Lenda da Iara”,


“Quando eu vi o Saci”... Ah, muitas histórias eu contava e agora eu já não lembro mais! (risos) Eu contava as minhas histórias pra ele, histórias limpa, bonita pra ele seguir bom caminho e nunca errar em problema nenhum. Eu contava histórias pra ele dentro da minha casa mesmo, no bairro da Penha em São Paulo. Contava no quarto, na sala, quando ele ia dormir. Ele dormia comigo, no meio meu e do meu marido. Eu cantava pra ele dormir, “Nana neném”, “Se essa rua fosse minha” e ele era muito dorminhoco e logo dormia! (risos)

Mas ele era muito bonzinho. Nunca, nunca me deu um trabalho, nem de menor, nem de grande, nunca mesmo! Sempre vivi do lado dele, sempre, nunca ficava sem ele. Nossa, ele fazia muita graça! Ele era engraçadinho! Colocava o dedo na tomada e chorava. Quando parava de chorar, colocava o dedo novamente e chorava de novo! (risos) Era tão pequeno, tão engraçadinho! Eu picava laranja, punha num pirequinho e dava para ele comer. Ele ficava na garagem, com a motinha dele chupando laranja. Ali ele ficava. Brincando, sempre contente, nunca me deu trabalho. Não era chorão, não era


chorão. Era muito bonzinho. Meu marido colocava a chupeta dele na pinga e dava para ele chupar. Meu marido dizia que a criança era um anjo! (risos) Ele era muito apegado a nós, a mim principalmente. A mãe dele morava em Araçatuba e eu em São Paulo e trazia ele pra ver a mãe. Ele era o primeiro que subia no carro para ir embora! Ele fica desesperado que ele não queria ficar com a mãe. E ele era de menor, pequeninho, mas queria vir embora para ficar com a avó. Não queria ficar com a mãe. Sempre ficou do meu lado, sempre. Sempre quis ser ator e agora ele tem loucura pela profissão! O espetáculo eu gostei muito, né? Adorei! Meu Deus, achei tão lindo! Dei tanta risada, me diverti! Chorei também... Quem diria que minha vida tão sem graça, se tornaria um espetáculo? O espetáculo é um amor! Todo mundo adora! Onde ele vai, todo mundo dá risada, se emociona... Todo mundo gosta quando ele faz oespetáculo porque é uma graça! Vale a pena ver!”

Dolores R ico Apparício (Minha avó, minha mãe, meu bebê - atualmente - e minha grande contadora de histórias).


Sinópse do Espetáculo

Quando eu tinha meus sete anos morava em São Paulo, capital, com a minha avó. Depois do

almoço era a hora das “histórias que minha avó contava”. Era sempre assim: ela cortava uma laranja, colocava numa tigela e levava para a sala. Enquanto eu saboreava aquela laranja, ela ia tricotandotecendo-tramando

e,

entre uma agulha e uma linha, me contava suas

memórias.

Tais

histórias perpassavam por sua infância, por sua

adolescência,

pela forma como ela conheceu pelos

meu

avô,

casamentos

naquela

época,

por

seus medos, por suas alegrias e como soube superar

cada

uma

das dificuldades que passou

até

os

dias

atuais, aprendendo a envelhecer com amor e sabedoria.


Proposta Performática Como em uma visita na casa de uma avó que

emotivas que são apresentadas no espetáculo.

conta histórias, o público é convidado para

As histórias perpassam por vários momentos

vivenciar, junto com o artista, as memórias

da avó: a infância, o que aprontou enquanto

afetivas que guarda sobre a época em que

criança, a grande tristeza que teve nessa

morou com sua avó paterna.

mesma época, a aventura no baile de carnaval, o encontro com o saci, a adolescência, o

Durante o espetáculo, a corporeidade do

primeiro amor, o casamento arranjado, o amor

ator passeia entre seu próprio corpo criança,

que surge ao dar a luz aos filhos, a geração que

adulto e os vários corpos da avó mais jovem

já se foi e o processo de envelhecer.

e mais idosa. Sendo assim, temos em alguns momentos o próprio neto relembrando as

Para representar cenicamente as memórias

histórias de sua avó e, em outros, a mímesis

de sua avó, o artista utiliza um hibridismo

da avó contando suas histórias ao neto.

de técnicas coletadas em mais de 10 anos

Na tessitura das ações físicas afetivas, o ator

de ofício artístico, como o teatro físico com

faz uma viagem ao tempo. O primeiro ano

o LUME Teatro; a mímica com o Luis Louis,

visitado é 1998, quando o artista tinha sete

o palhaço; a contação de histórias e outras

anos e morava em São Paulo/SP, com a sua

tradições orais que dão origem ao seu método

avó. Em seguida, outra viagem ao tempo

denominado “CIA – Centro de Investigação do

leva para 1927, ano do nascimento da avó e

Ademir”, que investiga o seu fazer através de

também início de toda trama das memórias

técnicas artísticas e não-artísticas.


Particularmente, a presente obra “Histórias

junto ao público, que se reconhece quais

que minha avó contava” é o seu principal

são as técnicas mais efetivas para as suas

projeto pois, através dela, utiliza toda

inquietações artísticas.

a investigação de seus conhecimentos adquiridos em suas pesquisas. Além disso, é no momento direto com os espectadores, investigando e construindo o processo cênico


Sobre a construção do espetáculo “Eu sempre digo: ‘Não foi um projeto artístico que eu pensei. Ele surgiu!’. Após minhas apresentações de contação de histórias, o público me perguntava quem foi a primeira pessoa que me contava histórias e sempre respondia orgulhoso: “Minha avó”. Nisso, eu acabava contando algumas histórias da vida dela. Um dia, tinha que dar um nome para o repertório de contação de histórias que estava criando e fiquei pensativo. Foi quando me veio a ideia denominar a coletânea de “HISTÓRIAS QUE MINHA AVÓ CONTAVA”. Decidi que, antes de começar a contar alguma história dos livros, iria iniciar com as memórias da minha avó. Porém, o projeto artístico foi crescendo, foi

criando corpo, forma, identidade e a própria voz. Sendo assim, surgiu a necessidade de transformar essa coletânea de histórias em um espetáculo solo que contemplasse realmente as histórias da minha avó, que desde pequeno eu ouvia e que decidi registrar. Foi uma semana inteira de pesquisa sobre o passado da minha avó. Registrei todas as vivências que ela teve desde pequena até os dias atuais e coletei também algumas imagens que ela guardava sobre os momentos de sua vida. A cada apresentação eu improvisava uma história da minha avó e percebia como era recebida pelo público. Depois de várias apresentações, defini quais eram as melhores histórias para contar durante o espetáculo.


Posso dizer que o espetáculo foi construído unindo o improviso das histórias e a participação total do público e se tornou o que hoje é o “HISTÓRIAS QUE MINHA AVÓ CONTAVA”. “Vó, você monta o espetáculo comigo?” Ela não entendeu muito bem a pergunta e, aos poucos, fui demostrando para ela o que de fato eu queria. Mais uma vez, nos fechamos por uma semana inteira e intensa, revivendo as histórias da minha avó. No primeiro dia, começamos a recapitular as histórias de sua origem em Taquaritinga, passmos por Nova Granada até chegar na atualidade, em Ribeirão Preto. No dia seguinte,

visitamos algumas imagens e algumas histórias que ela nos contava. No terceiro dia, revivemos as emoções das músicas que ela mais gostava e que impactavam sua linha do tempo. Já no quarto dia, conversamos sobre o figurino que melhor representava sua persona. No quinto dia, ela me mostrou seus objetos pessoais e disse que eu poderia utilizá-los em cena. No sexto dia, tivemos uma grande surpresa! Encontramo o objeto mais antigo que temos: o livro de poemas do autor Nelson Pineda, tio de minha avó. E por fim, no sétimo dia, iniciamos a criação da nova versão do espetáculo “HISTÓRIAS QUE MINHA AVÓ CONTAVA”, que hoje conta com a ilustre cocriação da minha avó, que garimpou ao meu lado todo esse material coletado.” ADEMIR APPARÍCIO JÚNIOR


Críticas gerais do espetáculo Alguns comentários gerais coletados pelo ator nas redes socais e/ou conversas com o público presente nas apresentações:

“Conseguimos perceber todos os ofícios que o artista menciona no início do espetáculo”; “Faz com que o publico lembre suas memorias afetivas e acabam compartilhando essas lembranças com o ator”;

“A história e da vida do ator, mas que é também da vida de todos nós”; “Utilizou bem os espaços da casa como cenário em sua dramaturgia”; (sobre a versão on-line);

“O espetáculo desperta várias emoções”; “Como é poético o solo artístico, assistir a essa apresentação, nesse momento tão caótico que estamos vivendo, trouxe acalanto deixando o coração mais “quentinho””; “Que mesmo sendo virtual, a emoção chegou como se fosse o presencial.” (sobre a versão on-line).


Ademir Apparício Júnior

ADEMIR é Ator-Pesquisador, Palhaço, Contador de Histórias, Produtor Criativo, Arte-Educador e Mímico. Aprendeu a arte de contar histórias com Dolores, sua avó paterna. Criador do método artístico “CIA – Centro de Investigação do Ademir”. Formado no Curso SESC de Gestão Cultural do Centro de Pesquisa e Formação do SESC; Diplomado em Mímica Total e Teatro Físico no Estúdio Luis Louis - Centro de Pesquisa

e Criação da Mímica Total do Brasil”, ambas as formações concluídas em São Paulo/SP e em Arte Dramática pelo SENAC de Ribeirão Preto/SP. É sócio proprietário da empresa “Apparício com 2P’s – Produções Artísticas”; Patrono da Cadeira Nº 19 da “Academia Brasileira de Contadores de Histórias” e membro da “Rede Internacional de Contadores de Histórias”. Atualmente em cartaz com o espetáculo solo “Histórias que Minha Avó Contava – Um espetáculo inspirado nas memórias da minha Avó”. Possuí artigo publicado na revista nº07 do SESC-CPF/SP e apresenta e ministra oficinas referente suas pesquisas artísticas por todo o Brasil. Idealizador e Produtor do “Festival Nacional de Contadores de Histórias no Ciberespaço” realizado com recursos do ProAC Expresso Lei Aldir Blanc. (DRT.: 0040319/SP) REDES SOCIAIS: @ademirapparicio linktr.ee/appariciocom2ps


Dolores Rico Apparício Dolores Rico Apparício é minha avó. Ela nasceu em Taquaritinga, interior de São Paulo, no dia 02 de agosto de 1927, mas seu pai a registrou somente em 25 de agosto de 1927. Depois, já com alguns meses de vida, mudou para Nova Granada/ SP e por lá passou toda a sua infância. Desde pequena, ela já trabalhava na casa de um casal, na colheita de algodão. Além disso, também ajudava seu pai a descarregar do caminhão as compras dos clientes do mercadinho da cidade. Assim sendo, minha avó nunca brincou quando era pequena, mas tinha um sonho: ir para a escola. Na adolescência, ela foi morar em São Paulo, capital. Junto das irmãs Túnica e Neves, trabalhavam em uma fábrica de tênis, sapatos e outros calçados. Foi nessa fábrica que encontraram seus

futuros parceiros... Ou melhor: eles as encontraram! Naquela época, o casamento era arranjado e, portanto, era necessário que o pretendente pedisse permissão para a família da noiva. Meu avô, Dionísio Apparício, vendo que minha avó era tudo pra ele, pediu aos meus bisavó a mão dela em casamento e, assim, eles se casaram. Desse amor nasceram dois filhos: meu tio, Jair, e meu pai, Ademir. Tanto minha avó quanto meu avô fizeram de tudo para dar o melhor para os dois meninos e quando vieram os netos, então... Nem se fala! Meu avô, minha avó e eu nos conhecemos quando eu tinha um mês de vida e, desde então, nunca mais nos separamos dessa nossa trama afetiva.


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