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Suprimento de Humor

Edição #2 Porto Alegre Outubro 2020

A gente procura sarna pra se divertir Foto: Rafael Roncato/Divulgação

a edição 2 a ss no e lh pa es e Leia

QUINO: IMORTAL EM VIDA A LAVANDERIA DA BUFUNFA QUERELA COM ARTISTAS GRÁFICAS

A FESTA DOS 84 DE LFV SURUBA GRATIS PRO LEITOR

Jornal impagável e maior: 20 páginas

ENTREVISTAÇO

R E U Q O R A N O S L O B “ É INSTALAR UMA ” A T S I Z A N A R U D A DIT Laerte, sa o in m lu a m o c a v si lu Live exc l uma balizadora sem igua

e Allan Sieber | Alexandr R DE OR M DE RA PA NÃO nett | Bruna Maia TIMAÇO E O MICUIM Be | no te en C n to yr A NOVOS CRAQUES NO eira | May lisson | Amorim | Aro A | i uv Zo s | Ernani Ssó | Estela e ue lin sq A | Va r ck ga Be Ed | o nd ciano s Castelo | Daniel Ko | Kayser | Laerte | Lu ko ar M tia Cado | Canini | Carlo Ka | o el ro | Hals | Helô | Jota Cam | Nani | Orlando | Piet rt la ou G io ar M | Fraga | Gilmar Fraga p lo Dun MICUIM #1 Verissimo | Marcelo lda | Uberti | Vicente So | go Lima | Luis Fernando ia nt Sa | a or M el Sica | Renzo Rafael Corrêa | Rafa


EDITORIAL

Contradição mesmo é político distribuir santinhos. (@casteladas)

A GUERRA DO FOGO

A PLAYLIST DO BRASIL

Não são só a Amazônia e o Pantanal que estão em chamas. Não é só a cabeça “presidencial” que está em chamas. Tudo está em chamas. Tudinho. Não vê a fumaça que fazem as instituições? Não é porque estão funcionando a toda, é porque queimam, queimam há muito tempo, parece que desde as capitanias hereditárias. Não vê o Fux? Não é um neandertal saindo do salão de beleza. Aquilo na cabeça dele é o último tição enfumaçando o Supremo. Na saúde é aquilo, médicos e enfermeiros estão em chamas como seus pacientes, que torram em fila. Ultimamente há fila até no cemitério. E a nota de duzentos? Pobre do guará, está em chamas. Queriam o quê? O Guedes não é o Tocha Humana? Não é preciso dizer mais nada sobre o crematório da economia. Claro que as redes sociais estão em chamas – a estupidez queima como palha. As escolas? São fornos com as crianças e os professores trancados dentro. Até os militares, os milicianos e as polícias, enfim, os profissionais da violência, estão em chamas. Mas estão tranquilos – idiotas, pensam que os bombeiros estão do lado deles, quando é evidente que mesmo a água nas mangueiras é mais inflamável que os ânimos de torcida organizada. Sim, o circo está em chamas, foi-se a lona, foi-se o trapézio. Olhe o picadeiro. Não vê os palhaços do Micuim? Riem, sim – esse é o nosso ofício, ou maldição: apontar os crimes abaixo de risada. Mas queimamos juntos. A bolota vermelha no nariz não é de plástico, é uma brasa. Sabe quem escapa? O capital financeiro. Olhe bem, o capital financeiro não está em chamas. O fogaréu dos outros é o negócio dele. Você vai virar torresmo sem reagir? Não adianta fazer arminha com a mão. Não adianta tomar cloroquina. Acenda sua indignação.

Não existe um país como o Brasil. Talvez nem no Paraguai. Por sermos essa nação única, é natural que tudo aqui seja singular. Inclusive o nosso Spotify. Esta publicação, através de seu departamento de pesquisas, o Data Micuim, levantou as canções que mais têm a nossa cara em 2020. A amostragem é um verdadeiro mapa de nossas vibrações musicais. O resultado você confere abaixo, mas adiantamos: as vibrações não foram nada boas.

Carlos Castelo

Não se vá ( Jane e Herondy) De: Magno Malta Para: Messias

Quando a chuva passar (Ivete Sangalo)

Fogo e Paixão (Wando)

De: Bozo

Para: Floresta Amazônica

Para: Trump

Não se vá Não me abandone, por favor Pois sem você vou ficar louco É o ciúme que está nos separando pouco a pouco

A nossa história não termina agora

De: Ricardo Salles Você é fogo Eu sou paixão

Porque essa tempestade um dia vai acabar

Tudo passará (Nelson Ned) De: Jair Para: Moro Eu te dei meu amor por um dia E depois, sem querer, te perdi Não pensei que o amor existia Que também choraria por ti Hino dos Desempregados (Língua de Trapo) De: Povo Brasileiro Para: Paulo Guedes Nós somos os desempregados Do nosso querido Brasil Comendo calango no almoço Jantando um teco de Bom Bril Seguimos de cabeça baixa Debaixo desse céu de anil

Essência do Adorador (Flordelis)

Vai Tomar No Cu (Cris Nicolotti)

De: Damares

De: Olavo de Carvalho

Para: Jesus da Goiabeira

Para: Todos

Eu tenho que lhe exaltar, eu tenho que lhe bendizer

Quando você...

Eu tenho que enaltecer o santo nome do Senhor

Mandar tomar no cu pela primeira vez... Você vai retomar as rédeas da sua vida...

Você Abusou (Toquinho)

Nas suas mãos

De: Presidente do Brasil

Vai tomar no cu...

Para: Presidente do PSL

Vai tomar no cu...

Você abusou, tirou partido de mim, abusou

Vai tomar no cu... Bem no meio do seu cu!!

ECCE MICUIM

Carrapato é a vovozinha. Só porque são confundidos com os filhotes dele não quer dizer que sejam da turma dos ixodídeos e argasídeos, reles ectoparasitas. Micuins são do clã trombiculídeo. Como a própria palavra indica, também não são parentes da anta nem do elefante: não é o nariz deles que tem a forma de tromba. São conhecidos ainda como vermelhinhos ou amarelos, mas sem ter olho puxado ou sofrer de esquerdopatia, pelo menos em grau muito avançado. Se você gosta de piquenique em capoeiras e de rolar na grama com sua gata, em épocas secas, cuidado. Os micuins estão atrás de sua pele – e andam aos milhares. Os micuins dão nome a este suprimento porque, como os humoristas, são seres quase microscópicos e suas picadas causam coceiras tenebrosamente ardidas. Agora, ao contrário dos picados pelos micuins, os poderosos podem até achar graça na picada dos humoristas e, como Freud explica, sentir algum prazer obscuro. Por isso a ideia dos trombiculídeos da casa é outra: causar coceira em você. Sim, você. Pra que se mexa, porra. O Micuim, símbolo deste incômodo jornal, precisava duma cara. Graças ao Uberti, sagaz cartunista do nosso time, o Micuim ganhou o retrato-falado mais expressivo que o bicho poderia ter.

Micuim – Suprimento de Humor do jornal Brasil de Fato RS - Edição #2 Porto Alegre Uma publicação mensal movida a maus ventos, piores eventos e baixos proventos. CONSELHO EDITORIAL Katia Marko, Fraga, Ayrton Centeno, Carlos Castelo, Hals EDITORES Katia Marko e Fraga REDATORES Ayrton Centeno, Carlos Castelo, Fraga, Ernani Ssó, Katia Marko, Marcelo Dunlop, Mario Goulart, Renzo Mora PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Marcelo Souza

COLABORADORES Alisson, Cado, Canini (in memorian), Edgar Vasques, Gilmar Fraga, Hals, Kayser, Luis Fernando Verissimo, Luciano Lima, Rafael Corrêa, Rafael Sica, Santiago, Uberti, Vicente CONVIDADOS Allan Sieber, Alexandre Beck, Aline Zouvi, Amorim, Aroeira, Benett, Bruna Maia, Daniel Kondo, Estela May, Helô, Jota Camelo, Laerte, Nani, Orlando, Pietro, Solda

www.facebook.com/Jornal_Micuim | www.instagram.com/Micuimhumor | Twitter: @MicuimHumor | www.brasildefators.com.br Jornalista responsável: Katia Marko (DRTRS7969) | Todos os direitos reservados © 2020

#2 MICUIM

Os políticos não têm um passado, mas vários. E vão usando, esse ou aquele, conforme a ocasião. (@casteladas)


CHARGE

Quando um político hoje no Brasil faz algo honesto, pode acreditar que foi por desonestidade. (@casteladas)

RISCO NACIONAL

Benett

Chargistas: o exército que usa armas de uso exclusivo das forças de inteligência.

Helô

Aroeira

Amorim

Kayser

Kondo

Rafael Corrêa

Jota Camelo

Santiago

Nani

Folha/SP

Laerte

Político: aquele que faz seu pé de meia com a mão no bolso dos outros. (@casteladas)

MICUIM #3


EFEMÉRIDE

A primeira incumbência do político é desconfiar de si mesmo. (@casteladas)

S O AP

Verissimo

R R FA

a dat a u e s rou do viv ão. b e l a ç t S ce o o es a goza R o om a n ro, mb rota. C em di e t e se a der uim tá d 0 m ic 2 Em agna: u o, o M m assad no p

Hals

Santiago

MODELAR | FRAGA

Edgar Vasques

Uberti

#4 MICUIM

O hino do Rio Grande do Sul estava quase pronto, letra e música. Faltava um refrão. Tinha que ser algo bom, que arrebatasse os corajosos, encorajasse os covardes, animasse pessimistas, curasse moribundos, alumiasse horizontes. As sugestões choveram até que apareceu um que acalmou as coxilhas: “Sirvam nossas façanhas de modelo a todo o Universo”. Um delírio ecoou, até o gado vibrou. Era sob medida, dava a real dimensão da nossa capacidade de luta e resistência. Nele cabia, em apenas três linhas, todo o brio pampiano. Ia além: abarcava várias das nossas ânsias – arrogância, jactância, petulância. E englobava tudo que se podia imaginar de prepotência no cosmos. Ninguém ia nos ganhar em orgulho, inda mais com uma melodia dessas de fundo! O problema é que havia gente de bom senso ouvindo. E esses mais discretos pediram: “Menos, gente, menos.” Não houve outro jeito senão abaixar um pouco a crista da canção. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a nossa galáxia.” E não é que funcionava? Estropiava um pouco a métrica mas, sim, já não era mais um refrão tão excessivo. Porém, bastou ser ensaiado e cantarolado algumas vezes e lá veio a modéstia exigir algum comedimento. Não ficava bem gritar ao espaço tamanha empáfia. Vai que houvesse vida inteligente por aí e essa inteligência sideral se sentisse, digamos, provocada. Melhor reavaliar o júbilo pela nossa tradição guerreira. O mais sábio dos poetas da ocasião consertou. “Sirvam as nossas façanhas de modelo a todo o Sistema Solar.” Perfeito, não extrapolava nada, nossa influência sabia o seu lugar, afinal! E o canto entoou uníssono, um coral de guascas em aprovação. Bonito aquilo. Mas. Olharam feio pro bagual que discordava de estrofe tão apaziguadora. Ainda passava da conta. Discutiu-se muito, cantores e compositores rearranjando o estribilho final, rédea curta na bravura. A contragosto, chegou-se a um consenso. Doloroso, de tão redutivo. “Sirvam as nossas façanhas de modelo a toda Terra.” Ooohhhhh!, um murmúrio contrariado percorreu a vastidão. Tal concessão destoava da raça, ameaçava a harmonia da música. Até que uma voz soberana, herdeira da cautela gaudéria, sentenciou, numa baforada de palheiro: “Mesmo contido, tá bom assim. Não mexe mais no hino.”

Canini

Santiago

Conselho a um jovem político: dedique-se a outra coisa. (@casteladas)


PAUTAS

Se o homem é um animal político, o homem político é um animal. (@casteladas)

TEXTOU dinos, meio Meio latinos, meio la estiver certa. paladinos. Se a conta

Ayrton Centeno DEZ DICAS PARA EMPREENDEDORES FERRADOS

Seu empreendimento quebrou, outros estão quebrando e muitos ainda quebrarão. Logo, há milhares de empreendedores sem empreendimento. Como empreenderão então? Sua salvação está aqui. Só dois empreendimentos são seguros no Brasil acima de tudo: 1) farmácias que, em troca de um troco, tratam seu treco no corpo; 2) igrejas que, em troca de um troco, tratam seu treco no coco. Mas, para abrir uma farmácia, tem que ter capital e você está zerado. Já para abrir uma igreja basta ter um pouco de vontade e muita cara de pau. Como os deputados doaram R$ 1 bilhão para a picaretagem universal, mundial, nacional, estadual e municipal, esse é o caminho da roça. Siga o dinheiro! Mas você não está só nessa jogada. Não pode ser apenas mais um vendendo lotes no paraíso. Sua igreja tem que oferecer um produto que não está disponível. Só assim você não será esmagado por gigantes da teologia da prosperidade própria como S.S. Muares, Pedir MaisCedo, Milas Saidesaia etc. É preciso desbravar um novo segmento no mercado da fé. A hora é da audácia. Mais do mesmo? Não mesmo! Neste momento, o nome é crucial. Feche os olhos, gire o indicador no ar, segure na mão de Deus e escolha abaixo o nome e o nicho da sua igreja: 1) Renovação Psicodélica Boa Viagem; 2) Missão Apostólica Todo

Mundo Nu; 3) Mortal Kombat, a Igreja; 4) Templo das Virgens do Edredom Abençoado; 5) Capelinha Pena de Morte Já; 6) Catedral da Bariátrica Natural; 7) Igreja do Pebolim Celestial; 8) Culto Anti-Rugas e do Hidratante Facial Divino; 9) Santuário do Armamentismo Sublime; 10) Igreja Deus Te Ama Mesmo Burro. À luta, irmãos. Aleluia! *Jornalista

Carlos Castelo A FACA HISTÓRICA

Uma faca estava na prateleira de uma loja de utensílios domésticos. Faca comum, de cabo preto, daquelas que se usa para descascar frutas. A mão pegou-a, levou ao caixa, pagou o valor em dinheiro. Depois colocou-a no bolso da jaqueta. A faca pensou que ia para um destino comum a todas as suas iguais. Dali a pouco estaria cortando as cascas de uma manga, de um pêssego. Não este, no entanto, o seu destino. Quando viu, estava no meio de uma gritaria, bem em frente a uma loja Riachuelo. Sim, podia ser uma feira. Seu novo dono, o proprietário de uma banca. Ela seguiu num breu onde não dava para divisar quase nada. Foi quando veio aquela luz forte, de cegar. Na sequência, ela saia das trevas para a realidade. A grita aumentou. Seu dono correndo feito doido, uma galera berrando “mata, mata!” e ela foi de volta para dentro do breu do blusão.

A nossa política ambiental é um desplante. (@casteladas)

Momentos depois era lavada, fichada e jogada num arquivo de delegacia. Lá dentro do móvel metálico, a faca não desconfia de nada. Nunca mais vai despelar uma manga coquinho ou um pêssego argentino. Não vai mais picar cebola e alho para aquele feijão do almoço cotidiano. Até uma reles faca paga um preço quando entra para a História. *Jornalista e humorista

Bostanauro acabou, o psiquiatra suspendeu todos os seus pacientes. Mas ia todo dia para o consultório, onde ficava trancado, olhando para nada. Meses depois largou a psiquiatria e se tornou adestrador de tartarugas para um circo. O progresso das tartarugas é muito lento, claro. Mas elas não são um caso perdido, como o outro. *Escritor e tradutor

Ernani Ssó

VIDA – MODO DE ABUSAR

O PSIQUIATRA DO BOSTANAURO

Bostanauro consultou um psiquiatra, dizem que por dois anos. Como ficou amplamente comprovado, não adiantou de nada. Um veterinário, que prefere ficar anônimo, declarou ao Micuim que a humilhação que Bostanauro passou em Davos, logo após a eleição – quando acabou sozinho num bandejão para não almoçar com as demais autoridades que sabem usar os talheres –, foi mais eficaz. Bostanauro teve um vislumbre do ser abjeto que é. Por pouco não pediu pra sair. Mas o que aconteceu com o psiquiatra? Segundo apurou a reportagem do Micuim, durante os dois anos de tratamento ele se manteve impassível. Ele, como o Sombra, sabe do mal que se esconde no coração dos homens. Enfim, saiu ileso, exceto pelo fato de ter ficado com os cabelos totalmente brancos no primeiro mês. No mais, tudo bem. Exceto o tremor. Mas, fora o tremor, tudo bem. Exceto, claro, a insônia e as alucinações. Mas foi só. Uma fortaleza, o homem. Logo que o tratamento do

Fraga

Venha ao mundo o quanto antes. Entre o egoísmo e o egocentrismo, vá de ponta a ponta, com paradinhas para abastecer no antropocentrismo. Negue a ancestralidade, ignore a posteridade e não esqueça de ser indiferente com a contemporaneidade. Coma embriagadamente, beba nauseantemente, vomite voluptuosamente, urine e defeque abundantemente (não adubandentemente!). Despreze friamente as convenções porém se dedique fervorosamente às contravenções. Seja imperativo, competitivo, depreciativo, impeditivo, repetitivo e, de aperitivo, destrutivo ou, pelo menos, não-construtivo. Aspire a cultura consumista, inspire a monocultura predatória e respire a incultura reacionária. Tenha carros potentes, cargos prepotentes, cultos onipotentes, casos impotentes. Desregule a natureza, coagule rios, degole a fauna, engula a flora, engasgue o ar. Permita injustiças, transmita doenças, admita a co-

biça, demita a graça, omita a esperança. Saia do mundo o mais tarde possível. * Jornalista e humorista

Mário Goulart

ROBÓTICA X BOZÓTICA

O jornal britânico The Guardian publicou um artigo sobre o relacionamento dos robôs com os seres humanos. O autor do texto, o robô GPT-3 (Generative Pre-trained Transformer 3), desafiado a se comunicar com os humanos, foi conciliador: “Nós não vamos destruir a sua raça”. A experiência foi repetida no Brasil, quando GPT-4 (traduzido aqui para Grande Presidente Transtornado) afirmou que não deseja “erradicar a humanidade”, mas sacrificar, no máximo, 30 mil pessoas, todas comunistas. De início causou estranheza o estilo contundente do robô-articulista brasileiro. A imprensa resgatou casos como o de um roubo de código informático que permitiu a proliferação de fake news. Como resultado até mesmo androides em desenvolvimento, na ocasião, foram convertidos em poucas horas a apoiadores de Hitler. No projeto brasileiro, foram consideradas suspeitas expressões como “É isso aí, porra!” e “Talkey?”. A desconfiança ficou mais evidente quando GPT-4 se manifestou a respeito das queimadas: “E daí? Eu não sou bombeiro.” “A concepção de um robô humano no Brasil fracassou”, noticiou o jornal Micuim. Sem dúvida, algo estava errado, constatou a crítica, unânime. Ou mudara a Robótica ou era a Bozótica que vinha de arminha na mão. *Jornalista e escritor

MICUIM #5


HOMENAGEM DOSSIÊ

Ninguém decide mais nesse país do que um político suplente. (@casteladas)

tra Como ninguém, Quino ícu risível inventário do rid no pla truculência que reina se preencher a lacuna do eciso humanista, seriam pr grafi nanquim, jazidas de nialid falta da sua graça e ge c aberta: eterno grand ira na memória dos adm

a “Qual é a diferenç e a entre poet , cartunista? Sei lá a as são várias... m sei: é semelhança eu Quino!” ) (Edgar Vasques

#6 MICUIM

“Quino: querido pelos leitores e merecidamente homen ageado pela genialidade, hum anismo, senso de justiça, dign idade e coerência. Quero ser Quino quando morrer!” (Santiago)

Eleição é o mito de Sísifo brasileiro. (@casteladas)

“A Brow s gr gra du est

(Lui


Se promessa fosse dívida, candidato eleito não saía do crédito consignado. (@casteladas)

HOMENAGEM DOSSIÊ

açou um ulo e da aneta. Para eu humor os rios de fite. Mas a dade ficará canyon adores.

A Mafalda era o Char lie wn com uma consciê ncia social. O Quino foi um rande humorista e um ande artista gráfico. As uas coisas nem sempr e tão juntas. No Quino, se completavam.” is Fernando Verissim o)

“Quino, papá de as, muitos cartunist os m inclusive eu. Esta nos sentindo um pouco órfãos.” (Cado)

A diferença entre eleição direta e indireta é a mesma do sexo consentido para o abuso sexual. (@casteladas)

MICUIM #7


DESTAQUE

No fundo, todo candidato vai a um pleito para mamar. (@casteladas)

Rafael Corrêa

DISFUNCIONAL Nome: Mário Fria

DO MÊS

s Nascimento: 1964 Natural: Playmob il de Cima Atividade: Brado retumbante.

Hals

Menino do Rio, ca lor arrepio, o submini que provoca str Mário Frias senta- o da subcultura se Disfuncional do Mê no trono de s com todas as honras, a pompa e a circunstância que sua personalid ade ímpar exige. Eclipsou colosso s qu ram no cargo como e o antecedeRoberto Heil Alvin e Regina Pu m Duarte. Mas lhe custou sangue, su or mente atacado po e lágrimas. Vilr aquela criatura bobinha e imunda , Frias suou frio, teve uma crise de choro e cortou os pulsos. Mas só um po não pode ver hemo uquinho que globina senão desmaia. Ator sh akespeariano, nã o se sentia tão ultra jado desde que foi rejeitado para interpretar uma cadeira num episó dio do Chaves. Parabéns, Mário. Você merece. Ma s não deixe que o fra casso lhe suba à cabeça.

Z A UTILIDADE DA ESTUPIDE Ernani Ssó de comene a estupidez que entope as caixas Há anos escrevi uma crônica sobr contagiado sido ter não ro espe só que disse e tários. Não tenho a menor ideia do um jeito de rio de um leitor: devia se inventar pelo tema. Mas lembro do comentá energia. transformar tanta estupidez em Porque a estupibrilhante, o que dizer dela hoje? Se, naqueles dias, era uma ideia ões, os mais entários, invadiu as ruas, as instituiç dez transbordou as caixas de com as mais apen aí, por pre Se, é claro, não esteve sem altos postos da, vá lá, República. silenciosa. ui pra famíglia Bostanauro, ou Itaipu daq Somente a estupidez produzida pela ução prod a mos ásse ade de eletricidade. Se som frente, poderia suprir a necessid venaté mos ésse pud ez Talv . gás, adeus gasolina de ministros e assessores, adeus rachaque o ativ lucr s mai to Mui nte. ão intelige der energia para países de populaç uei? taoq dinha, r na cabeça das em escolas que ensinam a caga Os militares, com suas mentes afia pidez para s superiores, poderiam vender estu dos subordinados e ser cagado pelo carrapatos de o ete e assim abandonarem o post fabricação de combustível de fogu do Moutas evis entr por a ta de Marte garantid da pátria amada. Imagina, a conquis . eles o com es inar lum os outr Temos muitos rão e do Heleno. Cuide-se, NASA. o tant am hari interpretações da Bíblia, gan Os bispos evangélicos, apenas com m, que fiéis, em vez de os depenarem. Enfi os cer que dinheiro que poderiam enri e. perigo!, Jesus seria amor e caridad aquecimento Adeus petróleo, adeus carvão. O ta. Isso mesmo, energia limpa e bara Thunberg ta Gre . riam dece stas e os oceanos agra global levaria um baque. As flore Bostanauro! gritaria, entusiasmada: fala mais, m de encher sentiriam importantes e deixaria se s Enfim sendo úteis, os estúpido nas quem Ape pre. sem de l dades com o besteiro a internet, os jornais, as universi manadas As ião. opin do dan aí por dizer estaria tem o que dizer e que sabe como estupidez de poderiam abrir postos de produção de economistas, desempregadas, de pasm aria deix e e icas. Não passariam fom canalizados direto para as siderúrg ão. sar vergonha na defesa da escravid rpretações Pense bem, meu caro: aquelas inte Mais: seria um alívio no Judiciário. , não conlina gaso e gás ição se tornando luz, esdrúxulas e empoladas da Constitu descobém tam io ssár nece a hando? Vai ver, seri denações seletivas. Ou estou son lhice em energia limpa. brir um modo de transformar a cana canalizasse entrar como herói na História. Se O fato é que o Bostanauro poderia pidez sem estu a se lizas cana se tanto esplendor, a estupidez que representa com e do Badad toxi a com ar acab eria pod meses fronteiras de seus seguidores, em uro tem tana Bos ainda por cima. É isso mesmo. nanão, tornando-o um país rico anão? O mundo, porra! tudo pra salvar o Bananão. O Ban

#8 MICUIM

Rafael Corrêa

Santiago

Política é a arte de dizer a mesma coisa em várias ideologias. (@casteladas)


ENTREVISTAÇO

O empresário rico é o último recurso do político fracassado. (@casteladas) No Brasil, a pior das hipóteses nunca é hipotética. (Fraga)

Foto: André Seiti/Itaú

Cultural

adora ista, chargista e pens rin ad qu , ta nis rtu ca A a nta uma tarefa imensa Laerte Coutinho enfre imitivisno traço a loucura, pr cada dia: interpretar iro. ão do cotidiano brasile mo, violência e opress as pesda charge aquilo que ia om on ec na ar ur pt Ca como mas ainda não sabem soas estão pensando ela preciso e fugidio mas exprimir. É um alvo im e mui, na mosca. O que defin al”. Nesta acerta, quase sempre e “uma explosão ment o” sm ga or m “u mo co to propriamente la sobre sua condide Piratas do Tietê fa ra to au a , im icu M m res, o conversa co querda dos trabalhado es da to en iam nc ta dis e o horror ção de transgênero, o arização do trabalho ec pr a s, ta nis rtu ca s em não dá pra avanço das mulhere tipo de fascista com qu um há e qu ha Ac is. das trevas atua rrada. pode ser tratado na po o nã ém mb ta e qu s dialogar ma

UMA A R O D A Z I L BA L A U G I M E S Fraga - Eu considero você uma das principais balizadoras do que ocorre no país. Ajuda o brasileiro a sacar o que ele ainda não sacou. Queria saber se tens noção do alcance da tua arte? Laerte - Tem duas alternativas como dinâmica do trabalho de humor: ou você traduz algo que é um pensamento em vigor em relação àquele fato ou aponta uma direção nova. Por exemplo, no caso da reação no episódio da menina de 10 anos que foi estuprada, en-

gravidou e teve que ir fazer o aborto em outro estado porque no Espirito Santo não conseguiu. O que fiz foi tentar traduzir na forma de charge aquilo que está todo mundo querendo dizer. Acaba sendo uma tradução do que rola nos corações e mentes de pessoas que você leva em conta. Porque você não vai fazer uma charge procurando mudar a cabeça de quem estava lá gritando “assassinos” na porta do hospital.

ideias e as percepções das pessoas para o campo do simbólico, da criação de imagens que são alegorias daquela ideia.

A outra linha de trabalho é mais difícil. É apontar algo que não está muito claro. Quando eu consigo fazer isso é quase como um orgasmo. É um gozo muito grande ver que o humor consegue produzir uma explosão mental assim.

Laerte - Fico muito comovida quando alguém me diz que ajudei. Ou ela mesma se entender ou compreender alguma coisa. Ou filho, filha, parente, amigo, amiga. Já aconteceu algumas vezes e me sinto emocionada quando eu ouço isso.

Fraga - E você consegue explosões todas às vezes. É sensacional. Laerte - A charge é poderosa nessa função. Traduz, carrega o comentário, as

Stela - Desde que você se assumiu como transgênero, o simbolismo do que representas é muito importante. Desde que te assumistes há uns 10 anos, o que de mais gratificante alguém já te disse a respeito de ti, do teu processo?

Katia - Trabalho no movimento sindical há quase 30 anos e, lá na década de 90, usei e abusei daquelas tuas ilustrações da cartilha sindical. Nesses quase 30 anos a gente percebe uma mu-

dança tanto no país, como uma mudança pessoal em ti e na tua arte. A arte te ajudou neste teu processo de transformação pessoal? Laerte - Está tudo conectado. As mudanças que

povo, os brasileiros deveriam estar fazendo assim ou assado. Como se a percepção do que está acontecendo seja uma coisa clara ou simples ou mecânica para uma entidade tão ampla como o povo.

“Há um universo de desamparo total do trabalhador” produzi no meu trabalho e me proporcionaram um modo de trabalhar mais livre. Não tem tanto a ver com a mudança do gênero. Foi um elenco de mudanças, na sexualidade, no gênero, no trabalho, nas ideias, que marcou uma nova direção a partir de 2003/2004. Coincide que o país também. Acho que estou me dando melhor que o país. (risos). Acho sacanagem falar isso. Como gracinha é interessante, mas também passo crises aflitivas. Temos a tentação de achar que, enquanto

Político só precisa de duas coisas para afastar você de sua carteira: língua e tempo na TV. (@casteladas)

Ayrton - Sobre o momento que vivemos: olha-se para um lado e se vê violência, olha-se para o outro e se vê ódio, olha para frente e se vê estupidez. Você é otimista em relação a nossa possibilidade de sair desse buraco ou não? Laerte - Você não pôs olha para cima e nem olha para baixo (risadas). A parte do buraco está quando a gente olha para baixo. A parte de olhar para cima nos preveniria se se estivesse em uma comédia daquelas em que cai um cofre na cabeça. Às

MICUIM #9


ENTREVISTAÇO DOSSIÊ vezes, acho que nós, da esquerda, levamos um cofre na cabeça. Não é possível que se alegue que estava tudo sob controle ou que fomos surpreendidos pelos fatos. O tempo está trazendo informações que deveriam nos aparelhar melhor para o que vem por aí, entender o que se passou e ir em frente. Não vamos fugir daqui. Ainda não (risos). Mas é preciso procurar entender onde foi o golpe, onde a gente levou essa porrada. Por que a gente se afastou dos trabalhadores? Eu me afastei. Trabalhava com sindicatos nos anos 80. Saí para fazer Chiclete com Banana, Piratas do Tietê... É possível perceber que o governo do PT, do Lula, Dilma, tem uma distinção clara do que era a gestão daqueles dirigentes. Não eram mais lideres sindicais. Eram governadores, presidentes, prefeitos, deputados, senadores. Tem descolamento da parte sindical e da massa de trabalhadores. As pessoas acusam o PT disso e acho que é uma acusação a qual se deve dar ouvidos, sim. Fora isso, o mundo do trabalho está sofrendo um tipo de transformação complexa, criando-se um universo de desamparo total. A uberização deixa os trabalhadores por conta própria. E os que não estão por conta própria também estão jogados no abandono, na perda de direitos, na fragilidade. Está sendo feito em nome do reforço de um empresariado que não vai recusar nunca essa sopa (risos).

“Internar não dá certo porque Bolsonaro não é louco. É um fascista”

Fraga - Estava pensando na situação do buraco. Ai aparece uma figura como você e vira sem querer, um grande líder (risos). Só que, ao invés de liderar, o que faz é ser um ativista que propõe coisas, que abraça causas. Queria saber do desafio que é para você não ser um líder, se segurar para não liderar. Laerte - Não preciso fazer um esforço muito grande para não ser líder (risos). Eu sou uma não liderança (risos) natural. Busco líderes. Respeito muito o Lula, respeito muito pessoas do PT, pessoas den-

Em matéria de corrupção, todo político é autodidata. (@casteladas) tro do movimento LGBT, o Jean (Wyllys) que teve que se exilar, o Boulos (Guilherme), a (Luiza) Erundina. E tem gente nova também aparecendo na politica como a Érica (Malunguinho), várias pessoas dentro dessa conformação nova de candidaturas coletivas, principalmente no PSOL.

Laerte - Continuo tendo medo. Acho meio estranho falar medo porque medo é paralisante. Está se confirmando que ele é um fascista. Ele se cerca de fascistas, alimenta o fascismo. Está se desenhando uma possibilidade de um golpe fascista. Eduardo Bolsonaro já falou isso. É um escândalo que todo mundo sabe que está para acontecer. Bolsonaro tinha que ser removido do lugar onde está. Mas como? É uma das questões que a gente vem considerando, como fazer, impeachment, TSE, internar, pode ser também. (risos) Internar não dá certo porque ele não é louco. Ele é um fascista mesmo. Dará um golpe assim que sentir com força para isso. Não tem o menor escrúpulo. Dará esse golpe e vai ser um horror. Ele não tem problema nenhum com isso. 100 mil mortos, para ele, 110 mil mortos, para ele é pinto. Ayrton – O Gregório Duvivier acha que, para fazer humor no Brasil, é preciso o cara ficar puto. Mais de 100 mil mortos e tudo o mais. O humor sai melhor quando o sujeito está possuído dessa ira santa? Laerte - Não necessariamente. Para mim, a ira, santa ou não, é um mau motor. Prefiro trabalhar dentro de uma posição menos tomada pela ira. Primeiro, porque sou assim. Segundo, que o humor funciona numa região que se coloca quase ao abrigo desse mar de emoções, quase (como) raciocínio puro. Como ele dialoga também com o mundo das emoções violentas, esse tumulto todo, aí se dá a riqueza incrível de

que a linguagem do humor é possuidora. É muito difícil produzir humor quando algo está comovendo todo mundo, como o caso dessa menina que precisou fugir para fazer um aborto. Carlos Castelo - Presidente, ministros e políticos competem com a pauta dos humoristas. Tem quem veja isso como algo planejado para o sistema jogar fumaça em assuntos mais delicados. O humor ajuda a reforçar isso?

Stela - Logo que Bolsonaro foi eleito, dissestes que tinha medo porque representava o fascismo. Esse medo cresceu, diminuiu ou é o mesmo?

“O imbecil fala que se chama Messias mas não faz milagre. É uma crueldade absurda” #10 MICUIM

Alisson

Laerte - Pode ajudar. O que eu penso a respeito do humor é que, em si, o humor não é de direita ou de esquerda. É uma linguagem. Dito isso, o que essa direita populista tem usado como linguagem é aparentemente humor, mas é um péssimo humor. Quando o imbecil fala que se chama Messias mas não faz milagre é uma gracinha. Não é um discurso oficial “sério” mas uma

R A I R T A P O “ OPRIME A

crueldade absurda. O que fazer em relação a um fato político desses? Se você vai produzir uma charge, precisa dar uma volta e entender qual é o papel que pode exercer naquele momento. Não é muito fácil.

Gilmar Fraga

Fraga - A impotência a que a quarentena nos obriga faz com que Bolsonaro não tenha reativos aos atos dele. Se há uma manifestação, não tenho como aderir, aliás, milhões não tem como aderir. Me cago de medo. O Bolsonaro se aproveita disso. Mas como é que ele não tem medo? Não tem medo da nossa charge, de alguns bons e raros editoriais, de algumas excelentes capas em cima dos 100 mil mortos? O Bolsonaro também não fica encurralado no castelinho dele? Laerte - Bolsonaro está comprometido com um projeto que deixou muito claro na vida parlamentar dele, nas entrevistas e nas falas, que é instalar uma ditadura nazista. Do que se vale? De tudo. Na pandemia, vai atuar de certa forma. Se acabar a pandemia, vai colocar as tropas dele na rua, os bolsonaristas, milicianos.

Existem dois tipos de políticos: os ladrões que se acham honestos e os honestos ainda não disponíveis no Brasil. (@casteladas)


Candidato é esse desacreditado que de quatro em quatro anos consegue o inacreditável. (@F_R_A_G_A) As capas, as charges, as canções, tudo isso irrita o fascista. Também faz com que produza lá os dossiês dele. O que esse sujeito que ocupa o Ministério da Justiça faz é produzir dossiês para (usar) na hora conveniente. É isso. Stela - Você, na ditadura, trabalhou no Pasquim. E é uma época que a imprensa tinha um certo papel. Hoje, as pessoas estão em bolhas. Não se dialoga mais com determinados segmentos porque eles só ouvem os seus e talvez nós só ouçamos os nossos. Como é que vês isso nessa fase de algoritmos? Laerte - Vem ai o Micuim para furar todas as bolhas! (risadas). O Duvivier tem hoje um dos grandes momentos na mídia brasileira, de reflexão e humor, que é o Greg News. Está falando para uma bolha? Não. Ele é crítico ao que

Verissimo que diz que o machismo é uma moeda em cuja face oposta está o homossexualismo latente. O que acha do papel do machismo nesse Brasil do Bolsonarismo?

Há, sobretudo, o modo como nos comportamos nas redes sociais. Como nos conduzimos nos debates, enfiando o dedo na cara dos outros. Isso sim, cria bolhas. Não é nem bolha. É uma trincheira. Você cavou uma trincheira e está lá. Não está nem perto do campo de batalha, mas achando que é ali que vai ter que ficar. Na pandemia está se sobrevalorizando o mundo digital. Uma característica que leva a esse aprofundamento da distância entre as pessoas. Mas, ao mesmo tempo, a gente está em contato. Sem a internet, eu dificilmente daria esse passo de viver a transgeneridade porque não teria sequer tido contato com as pessoas que são trans e que vivem a transgeneridade.

“As capas, as charges, as canções, tudo isso irrita o fascista”

Ayrton - Eu vejo na ascensão do Bolsonaro o avanço de alguns valores, um deles é o machismo. Há uma frase atribuída ao Erico

Cado

Laerte - Tenho uma amiga que prefere patriarcalismo porque acha que é o grande problema. Ele organiza as relações de gênero dentro de uma sociedade de forma opressiva para todos, incluindo os homens. Por isso prefiro chamar de patriarcalismo que é o entendimento de que os moldes da sociedade e da família hão de ser de um jeito só e qualquer desvio dessa norma é uma perversão. Katia - Uma coisa que temos percebido é a pouca presença de mulheres no traço. Isso inclusive vai ser pauta do Micuim. Quem são as cartunistas do Brasil e por que são poucas?

RCALISMO A TODOS” acontece no Brasil e amplia muito esse espaço de escuta e debate.

ENTREVISTAÇO DOSSIÊ

Laerte – Tem aparecido muitas. Ai as pessoas me perguntam: ‘Ah é, quem?’ A minha memória é uma bosta, me perdoem o francês, não consigo lembrar direito. Não é mais só a Ciça que fazia O Pato, a Marisa Dias, que ilustrava o Paulo Francis... No tempo do Pasquim era só homem, no do (grupo de humor inglês) Monty Python era só homem. Tem uma frase do Terry Gilliam (integrante do grupo) que ficou puto porque alguém da BBC falou assim: “Ah, hoje em dia não poderia mais reunir um monte de homem branco para fazer programa de humor”. E ele respondeu: “Tá, vou me declarar uma negra lésbica então”. Fez uma gracinha com uma coisa que é real.

Laerte - Micuim é um herdeiro do Pasquim (risos). Fraga - Eu posso me declarar lésbica também (risadas) Laerte - Claro que pode (risos). Stela - Falando em cartunistas e gaúchos, embora a gente pareça muito sisudo, tem muita gente legal no traço, no humor. A gente segue em falta dos espaços em termos de remuneração... Laerte - Quando tem a gente distribui (risos), quando não tem a gente contribui (risos). Micuim é um grande nome. Acho que a coisa

Fernandes

E hoje você tem essas mulheres participando. O aumento das possibilidades da diversidade envolve participação de mulheres, o combate ao racismo. Vai produzir uma sociedade mais representativa. Um congresso nacional que não vai ser só de homem branco reacionário... (risadas). Katia- ...e rico... Contamos contigo então para nos passar esses nomes, nos ajudar, nesta pauta ai também. Porque o Micuim tá ainda com maioria de homem (risos).

Eleitor é esse desconfiado que de quatro em quatro anos anula a sua desconfiança. (@F_R_A_G_A)

principal em uma publicação de humor é o nome. Se não tiver um nome legal, acho que não prospera não. Se o Pasquim se chamasse Pif-Paf, você acha que aconteceria? Seria... Fraga - Mas o Pif-Paf foi uma grande revista do Millôr. Laerte - Eu sei, mas não foi o Pasquim (risos). Já no tempo que foi fundado, o nome Pasquim tinha um sabor antigo. Para ofender uma publicação e chamar de pasquim tinha que usar aquele colarinho duro e monóculos. O nome acertou. Recuperou uma palavra e garantiu a ela um lugar humorístico porque passou a designar um jornal ruim assumido pelas próprias pessoas que estavam fazendo. Micuim também é bom, eu tive que dar um google para saber (risada)... Ayrton - Isso pode ser um problema (risos)... Laerte - Não sei, com o Google estão rapidamente resolvendo o problema...

“Marielle foi assassinada em nome de um projeto muito obscuro”

Ayrton - No teu twitter, tem uma contagem em relação ao assassinato da Marielle. Então, põe ali 800 dias, 801 dias e assim vai, sem a prisão do mandante. Queria que falasses dessa que é uma das grandes vergonhas do Brasil de tantas vergonhas, essa questão da Marielle.

MICUIM #11


ENTREVISTAÇO DOSSIÊ

O povo cansou de ser enganado por antigos políticos. Por isso agora vai eleger enganadores novos. (@F_R_A_G_A)

Laerte

Laerte - Ela não foi morta apenas porque era negra, lésbica e favelada. Foi morta porque tinha uma política eficiente de conexão com as favelas e trânsito com a parte digna das forças policiais. Também se mobilizava em relação aos policiais mortos, às suas famílias. A existência da Marielle era crucial no Rio e no Brasil. A carreira dela ia crescer bastante. Foi assassinada em nome de um projeto ainda muito obscuro. Carlos Castelo – Tem um boato que todo cartunista quando fica mais velho quer virar pintor e ser levado a sério. Isso já chegou a passar pela tua cabeça? Kátia – No lindo final do documentário (Laerte-se) que inclusive a Eliane Brum dirigiu, és tu fazendo esboços, justamente trabalhando mais essa questão artística da pintura... Laerte - Gosto de desenhar mas não me vejo como artista plástica. Isso que eu faço dificilmente encaro como arte. Quando passo para o campo da produção artística fico meio insegura. Eu tô velha (risos)...Não tô velha (risos), estou mais velha... Fraga - Como a gente vai manter a arte respirando até passar a pandemia e até ter forças de mudar o governo que está aí? Como a arte pode sobreviver? Laerte - Não é questão de esperança. Tenho absoluta certeza que ela vai sobreviver porque não há forma de matar a arte. Eu não sei, Fraga. Não tenho resposta. E a sua pergunta é complicada porque você está falando também em derrubar o governo (risos). Voltando à Eliane Brum: ela reivindicou o direito das pessoas se conduzirem na luta sem esperança mesmo, fazer o que precisa ser feito...

Estou fazendo um resumo bobo do que ela falou, mas o texto me deu essa sensação de que não precisa ter esperança (risos). A gente está à beira de desastres muito sérios e alguns já começaram a acontecer. Vamos fazer isso com esperança ainda por cima? Não. Tem que entender o que tem que ser feito e se colocar para isso. Stela – Tem um lado muito positivo, muito generoso nas falas que tu fizeste (que é) reforçar os laços que nos unem já que a gente está em um país seccionado. E temos muita dificuldade, eu tenho, de dialogar com bolsonaristas. Como é que se faz esse diálogo? Laerte - Tem um nível de fascista que não adianta você tentar conversar. Vai dialogar o quê com um imbecil daqueles que ofendeu o fiscal da saúde, em Santos? Não tem jeito. E a tentação de responder a esse tipo de imbecilidade com brutalidade também é grande. A gente vê no twitter gente dando retweet em pessoas que socaram fascistas e dizendo ‘É isso mesmo, fascista tem que ser

na porrada’. Não acho. Tenho receio desse caminho porque briga é briga. Não tem porque ficar transformando briga em possibilidade retórica. Essas pessoas precisam ser derrotadas politicamente e removidas da posição de poder que elas conseguiram. Mas não é na porrada, não.

de fúria significando nada. Macbeth. Eu não acho. Acho que a vida é uma história contada por quase todo

mundo ao mesmo tempo e isso é que é legal. Tem som, tem fúria, mas também muito gozo e bagunça.

Luciano Lima

Katia - Onde tu buscas inspiração para teu trabalho e como foi para ti fazer o documentário Laerte-se, que é tão rico, tão bonito, onde tu te expõe tanto? Laerte - O filme começa com uma troca de emails e mostra a dificuldade que foi abrir minha casa para pessoas amigas, a Eliane e a Lygia (Barbosa da Silva). Meu modo de ter ideias é me abrindo muito para as outras ideias. As minhas são decorrentes das outras e elas serão também parte de outras novas ideias. Quem falou que a vida é uma história contada por um idiota, cheio de som e Reprodução / Instagram

“A vida tem som, tem fúria, mas muito gozo e bagunça” #12 MICUIM

Todos os políticos em campanha pedem nossa confiança. Depois de eleitos jamais a devolvem. (@F_R_A_G_A)


O marketing político insiste que todo candidato se diga transparente. Mas basta olhar através deles pra ver que não são. (@F_R_A_G_A)

Marceleza

PROMOÇÃO DOSSIÊ

PROMOÇÃO ENTRE NESSA

SURUBA

Luciano feijão

EXCLUSIVA Maël Boutin > 20% DESCONTO para os leitores do Micuim, através do código MICUIM20, nas compras pelo site www.bebelbooks.com. br

Rogério Nunes

> SORTEIO 3 KITS Suruba Para Colorir através do Instagram do @Micuimhumor @BrasildeFatoRS e da @BebelBooks.

Luciana Bastos

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> CADA KIT CONTÉM: 2 volumes, 38 páginas, 17 desenhos, 15 giz de cera (tipo brinquedo que vem com pilha, já pode sair brincando!), adesivo da ilustração da Laerte e embalagem especial. Basta curtir os três Instagrans e marcar mais três amigxs! Pronto: agora é só ajoelhar e orar pra ser sorteado e se divertir muito!

Diego Sanches

Índio San

Incentivo de político experiente para político inexperiente: Não tenha medo de escândalos. Não afetam a reeleição. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #13


ATUAÇÃO

QUERELA

Fidelidade partidária é um esforço para que os políticos se mantenham leais à corrupção específica de cada sigla. (@F_R_A_G_A)

Katia Marko*

Aline Zouvi Cidadã: Aline de Alvarenga Zouvi

Artista: Aline Zouvi Registro: 30 anos Natural: Rio de Janeiro/RJ Residência: São Paulo/SP Atuação: quadrinista, ilustradora, cartunista, professora, tradutora Colaboração: Folha SP, Revista Piauí, Revista CEPE, entre outros Publicações: quadrinhos e zines. Destaques: Síncope (CCXP 2017, Prêmio Dente de Ouro 2018, finalista HQMix categoria HQ Independente), Óleo Sobre Tela (UgraPress, 2018) e Pão Francês (Incompleta, 2019) Micuim - Quais suas maiores referências nas artes? Aline Zouvi - Alison Bechdel, PowerPaola, Vitorelo, Ulli Lust, Ana Luiza Koehler, Catel Muller... e a lista continua! Micuim - Quais as principais dificuldades para ocupar um mercado ainda dominado pelos machos? Aline - A ausência de mulheres em posições de poder, tanto em editoras como em organizações de eventos, talvez seja a pior dificuldade, pois é quem está nestas posições que pode contribuir mais diretamente com a visibilidade das autoras. Felizmente esse cenário parece estar se alterando aos poucos. Micuim - A internet facilita para que mais mulheres se assumam cartunistas/quadrinistas/chargistas/ilustradoras? Aline - O diálogo direto com o público e a criação de uma rede de apoio faz o nosso trabalho evoluir muito rápido. Mas ainda é preciso tomar cuidado com possíveis ataques de ódio, o que faz muitas artistas desistirem de seu trabalho.

“Ter consciência de que a visibilidade pode salvar vidas, e isso não é figura de linguagem.” Micuim - Sucesso e/ou prestígio garantem receber mais grana do que os guris? Aline - A gente não pode esquecer que o machismo é estrutural. O sucesso de uma artista, sozinho, não vai garantir uma boa estabilidade financeira - por isso é importante contar com mulheres em posições de poder. Micuim - Quanto tempo levou até você sentir que obteve respeito profissional? Aline - Levei em torno de 4 anos para isso. Essa sensação de respeito também faz parte de uma construção política - é algo que reivindicamos todos os dias. Micuim - Você pensa seus quadrinhos como espaço de resistência e de visibilidade para minorias sociais. O que mais te mobiliza hoje? Aline - É saber que os quadrinhos que faço podem fazer uma diferença objetiva na vida de algumas pessoas. É ter consciência de que a visibilidade pode salvar vidas, e isso não é figura de linguagem, rs.

#14 MICUIM

Gargalhar, humor, riso, desenho. São palavras masculinas. Rir destemperadamente era só para mulher vulgar. E vulgaridade não garantia casamento. O que por muito tempo afastou as mulheres do humor. Mas nem todas. Algumas foram vanguarda ao rasgar o Manual da Esposa. Mesmo que sob a proteção do pseudônimo. Como a primeira cartunista no Brasil, Nair de Teffé, nascida em 1886, que assinava seus desenhos como Rian (seu nome ao contrário).

O silêncio da história e nino é cruel. Estranho de Chico Caruso e Mill Weber, é pouco lembra sado de Patrícia Galvão

Mas os tempos são out catada e do lar” que ass traço corre solto. E ela

Bruna Maia Cidadã: Bruna Maia

Artista: @estarmorta Registro: 34 anos Natural: Rio Grande/RS Residência: São Paulo/SP Atuação: cartunista Colaboração: Marie Claire, Folha SP, Tilt Uol Publicações: zine Manual da Esposa Pós-Moderna e livro Parece que Piorou (Companhia das Letras) Micuim - Quais suas maiores referências nas artes? Bruna Maia - Busco referências de composições, cenários, cores e temáticas nas pinturas, desde os medievais até os contemporâneos. É por fases. Já tive obcecada com Edward Hopper, depois Artemisia Gentileschi, agora William Turner. Acompanho o trabalho de cartunistas como a americana Julie Houts e a alemã Julia Bernhard. Micuim - Quais as principais dificuldades para ocupar um mercado ainda dominado pelos machos? Bruna - Não ter um mercado muito grande, no sentido tradicional. Poucos jornais e revistas publicam cartuns diários, e pagam bem pouco. Mas um bom sinal é que agora temos mulheres diariamente na Folha. Demorou décadas pra isso acontecer. Micuim - A internet facilita para que mais mulheres se assumam cartunistas/quadrinistas/chargistas/ ilustradoras? Bruna - A internet facilitou a exposição de artistas em geral. No caso das mulheres, é uma vitrine para muitas que não tinham espaço em meios impressos na era pré-internet.

“Mulheres, atualmente, têm mais o que dizer na arte delas do que a maioria dos homens.” Micuim - Sucesso e/ou prestígio garantem receber mais grana do que os guris? Bruna - Acho que todo mundo ganha pouco. A maioria dos cartunistas têm alguma outra profissão. Acho que o sucesso ajuda a vender mais produtos, zines, etc. Micuim - Quanto tempo levou até você sentir que obteve respeito profissional? Bruna - Comecei a desenhar em 2017, sem pretensão profissional. Não buscava validação. Ser aprovada é ótimo, mas eu não estava atrás disso. Estava desenhando pra expurgar meus demônios. Mas comecei a ver meus cartuns como trabalho depois que publiquei o Manual da Esposa Pós-moderna em 2018. Não sei dizer em que momento senti que vinha de fora uma consolidação minha como cartunista, mas o convite para fazer o Parece que Piorou, pela Cia das Letras, foi um marco importante. Micuim - Você se diverte com a ideia de seu “desenho feio” fazer sucesso e gerar identificação na imperfeição. As mulheres se expõem mais na sua arte? Você acredita que isso atrai as pessoas? Bruna - Eu não fazia desenho feio por escolha estética, não sabia desenhar, não tinha noção de técnica, saía do jeito que saía. Hoje já sei mais, mas é uma escolha deixar o traço mais ou menos torto. Creio que quanto mais perfeita e próxima do real é uma representação, paradoxalmente, mais distante da realidade fica, porque ela é imperfeita. Acho que desenho imperfeito se conecta com as pessoas por parecer mais “real”, mais próximo. Mulheres, hoje, têm mais o que dizer na arte que a maioria dos homens. Homens brancos passaram muito tempo tendo o controle da narrativa. As pessoas estão cansadas de ver o mundo a partir dos olhos deles, eu pelo menos estou. Então não é que mulheres se exponham mais que homens, eu acho que elas têm coisas mais interessantes e complexas para expor.

O que vale pro dólar vale pro mercado corruptor: compre políticos na baixa, venda na alta. (@F_R_A_G_A)


Nem todo político acaba safado. Mas todo safado termina na política. (@F_R_A_G_A)

em relação ao mundo femipensar que contemporâneas lôr Fernandes, como Hilde ada. Ou ainda o trabalho ouo, nossa Pagu.

toda a moral que insiste nos relegar o espaço privado. Chega de vassouras, espanadores e colheres de pau. O lápis e o papel são suas armas para ganhar o mundo e contar uma nova história, cheia de graça, cores, odores, sabores e corpos livres.

tros. E apesar do “bela, resombra nossas cabeças, o as se divertem escancarando

* Integra o coletivo Querela - Jornalistas Feministas

Querela, a nova série do Micuim, vem para romper paredes e mostrar o mundo feminino dos quadrinhos.

ATUAÇÃO

HUMOR É COISA

DE MULHER

Estela May Cidadã: Estela May Young Ma-

chado Artista: Estela May Registro: 20 Natural: São Paulo/SP Residência: São Paulo/SP Atuação: quadrinista Colaboração: Folha SP Publicações: capa do livro “posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar” de Fernanda Young Micuim - Quais suas maiores referências nas artes? Estela May - Muita gente! Mas se tiver que escolher uma grande referência de todos os tempos acho que eu diria o David Lynch. Em todos os sentidos artísticos. Tudo dele ressoa em mim nem que minimamente, sinto como se ele fosse um grande padrinho cósmico. Ele tem uma série de tiras muito boa, chama-se “the angriest dog in the world”. Eu adoraria tomar um café com o David Lynch. Micuim - Quais as principais dificuldades para ocupar um mercado ainda dominado pelos machos? Estela - Talvez o fato de intrinsicamente, dentro de suas alminhas, os machões acharem que meninas não conseguem fazer tão bem quanto eles fazem. Micuim - A internet facilita para que mais mulheres se assumam cartunistas/ quadrinistas/chargistas/ilustradoras? Estela - Sim, porque podem difundir seus trabalhos, sem intermediários.

“Eu caracterizaria meu humor como uma ralada no joelho e um beijinho na bochecha.” Micuim - Sucesso e/ou prestígio garantem receber mais grana do que os guris? Estela - Não quero receber mais grana que os guris. Quero receber igual. Não vejo razão para que seja menos ou mais. Micuim - Quanto tempo levou até você sentir que obteve respeito profissional? Estela - Eu obtive respeito profissional? Num sei. Minha mente não está formada ainda. Tenho apenas os rudimentos da fala. Acabo de ser criada. Tropeço quando ando e misturo palavras que não querem dizer nada, quando falo. Micuim - Quem são as tuas “Péssimas Influências”? E como tu caracteriza o teu humor? Estela - Minha mãe e meu pai, definitivamente. Eu caracterizaria meu humor como uma ralada no joelho e um beijinho na bochecha. Ou batata frita molhada no sorvete. Chuva com sol e arco-íris? Talvez o nome do meu humor seja descolado grogue. Ou santo zen lunático. Num sei, às vezes ele é depressivo como um melancólico russo. Talvez meu humor seja só semidramas psicológicos de garotinha embalados num papel de bombom. É, talvez.

Nem todo político tem rabo preso mas todo rabo preso tem vários políticos. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #15


MISTUREBA DOSSIÊ

Nossos políticos são risíveis no caráter – uma tragédia. E também são risonhos na crise – uma desgraça. (@F_R_A_G_A)

Edgar Vasques

Alisson

Allan Sieber Rafael Sica

Uberti

bashô, busson e issa o resto me dá preguiça em verdade vos digo: nada tenho contra meu umbigo quebrei o pincel meu desenho tá ficando pinel canícula senegalesca eu de ventilador você dando uma de fresca

#16 MICUIM

Benett

nossos dias estão contados quem contou os meus contou todos errados a virtude do vizinho é sempre mais verde que a nossa me perdoe, alteza, mas reinar assim é muita moleza! todas as minhas julietas se dissiparam entre montecchios e capulettos entre um bife mal passado e um guy de maupasant

Poemínimoslda So

envelhecer como o velho swift, reler as coisas que escrevi e exclamar: meu deus, como eu tinha talento quando escrevi estas coisas! falta fim para um poema que nasce à míngua eu e estas palavras não falamos a mesma língua o traço apaixonou-se pela traça transaram e nasceu um rapaz de fino traço

primavera esta semana cometo um ikebana um espírito bashô em mim a vida é muito breve para se fazer um haikai a esperança é a última que morre de rir

Nas refeições do poder, o conchavo dispensa pratos e talheres: todos os políticos comem na mão uns dos outros. (@F_R_A_G_A)


Por um lado, nem tudo é possível; por outro, como mostram governantes e políticos, dá pra impossibilitar quase tudo. (@F_R_A_G_A)

MISTUREBA

A FESTA DOS 36 Marcelo Dunlop

Bato um fio para a casa dos Verissimo, em Porto Alegre, e alguém confidencia que a Lucia teve uma ideia estupenda para o aniversário do Luis Fernando, 84 anos recém-completados com louvor. Uma festa, de arromba, com 36 convidados, e somente uma premissa: a lista, com velhos amigos e amigos de amigos, só teria gente nascida em 1936, feito o aniversariante.

- Ô DaMatta, você trouxe algum presente? Pensei em escrever uma crônica para o aniversariante...

Imaginou a farra? Pois eu sim.

No corredor, Hermeto Pascoal estava aflito:

O primeiro a chegar, aposto eu, deve ter sido o sempre disciplinado Éder Jofre, seguido pelo Hermeto Pascoal. Após aceitar um cálice de bebida, o músico rememorou seu apogeu no boxe: o dia em que Hermeto lutou com Miles Davis, num ringue na sala do jazzista:

– Chega aqui, Ignácio de Loyola Brandão! Tem alguém preso no banheiro.

– Aproveitei meu estrabismo, fingi olhar para um lado e dei um cruzado no meio da cara dele. Toma, almofadinha! Ficamos amigos na hora. Apesar de ter nascido em 1926, Miles é gente boa – brincava Hermeto, para deleite de Jofre.

- Uma crônica para um cronista, Boldrin? - Verdade. Ideia besta. Talvez eu musique uma crônica dele, olha aí...

– Tenta a do lado, essa porta é do armário. Após aceitarem uma bolinha de queijo, os hollywoodianos Louis Gossett Jr e Pilar Pallete espiavam o ambiente, divertidos: - Olhe ao redor, Louis. Somos a última geração cordial. A geração do senador John McCain e de Barack Obama, o pai. Os últimos tolerantes, capazes de escutar ideias contrárias e até pensar com calma sobre elas, sem cuspir nos rivais. A última geração a respeitar mais os cientistas que os memes, e a apertar a mão dos adversários após um debate.

Abílio Diniz e Robert Redford chegaram juntos, e trocaram impressões solenes sobre o Pantanal. Perto deles, no mesmo jardim, no mesmo banco, Carlos Alberto de Nóbrega e Moacyr Franco ficavam provocando Dedé Santana e relembrando velhos causos.

– Ainda mais agora com esses vírus, quem vai apertar a mão de alguém? – Como acha que seremos tratados pela História, essa senhora implacável? A geração que venceu o fascismo, e outros ismos? Ou seremos aqueles que empurramos tudo para debaixo do tapete, sem nada solucionar?

- Essa quem me contou foi a cantora Clemilda, no dia que lançou aquela pérola “Prenda o Tadeu” no programa do Bolinha. Tempos que não voltam mais...

Ursula Andress apareceu acompanhada do escri– Pois é. Epa, está tocando Maysa. Quer dançar? tor Silviano Santiago, e recordaram filmes de seu temArte Uberti po, como os clássicos “Sabotagem” e “Tempos modernos”.Caricatura Cado Campainha. Vargas Llosa estremeceu, com medo de Silvio Berlusconi aparecer de penetra, mas qual nada. Era Lucinha Araú– Hoje os clássicos somos nós, dear Silviano… jo, que adentrou com o Papa Francisco. Lucia os saudou, antes A festa começou a animar quando Anita Benário Prestes e Agde ir buscar mais vinho. naldo Timóteo assumiram a vitrola e puseram um disco do Bu– Lucia, esse pudim de laranja está abençoado – elogiou o ddy Holly, depois de uma sequência com Wilson Moreira e Roy Papa, após papar uma senhora fatia – Você que fez? Orbison, não necessariamente nessa ordem. – Não, Vossa Santidade, é de uma confeitaria simpática aqui do E embalou de vez com a entrada de Célia Coutinho, a eterna bairro. E é dietético, quer mais um pouco? Certinha do Lalau, que chegou de Goiás com um modelinho Yves Saint Laurent.

– Sabe o Wilt Chamberlain, o cestinha? Me marcava de perto! “Celinha, se eu fizer 100 pontos amanhã você sai comigo?”. Bandalho... Perto do piano, Luis Fernando ouvia pela 17ª vez, agora do baixista Bill Wyman, ex-Rolling Stones, se ele andava tocando seu saxofone. Ali por perto, Rolando Boldrin fazia Mario Vargas Llosa rir com um causo quando se aprochegou Roberto DaMatta.

Foi aí que, de rabo de olho, a anfitriã reparou no aniversariante, discreto, na escada que leva à sala da TV. Sim, estava na hora do jogo do Inter. Mas, bah, só agora soube que teve de ser adiada. Por culpa da Covid, a festa está remarcada para 26 de setembro do ano que vem.

É melhor nunca falar bem de políticos, para não faltar com a verdade. (@F_R_A_G_A)

* Jornalista e cronista

MICUIM #17


MISTUREBA DOSSIÊ

Toda vez que nossos homens públicos se explicam, o Brasil fica mais inexplicável. (@F_R_A_G_A)

VACINA: A ORIGEM | FRAGA Vacina, você sabe, é a doença inoculada. Antes de passar pela agulha e virar leão de chácara do corpo, a doença foi domesticada. Por laboratórios cruéis com vilões invisíveis. Os cientistas, uns torturadores de jaleco, adoram sacrificar vírus. Tudo em nome da, vá lá, salvação da espécie. Por isso isolam os inimigos da saúde pública em masmorras esterilizadas. Lá, deixam os vírus nus, chicoteiam, dão choques, empalam em seringas rombudas. A ideia é regenerar os microscópicos degenerados. Desmilinguidos e esfrangalhados, são jogados em mini jacuzzis com caldo de cultura. Amansados pela crueldade científica, são condicionados por uma cepa de vida sadia. Aí, queiram ou não, os vírus são forçados a doar fluidos para a causa humanitária. Pressionados, choram, suam, mijam e cagam de medo nas jaccuzinhas. O caldo engrossa. E o laboratório espreme aquilo tudo até o suco fazer bico. É dessa diluição das gosminhas viróticas que vai surgir a vacina. A versão menos grave da doença: um gene sem licença para matar. Nessa dosagem ínfima, a doença ainda se acha a tal, sonha estatísticas como se fosse um Himalaia fúnebre. Impotente, porém, o vírus nem lembra que já foi letal. E fica por ali onde foi injetado, coçando o saco enquanto você coça o braço. E nada mais ocorre, a não ser uma mancha vermelha, talvez uma feridinha. Claro que não faz mais mal: o princípio ativo se tornou passivo. Daí esses sobreviventes das provetas terem pavor do espirro do Trump ou do perdigoto do Putin: imagina virar vacina russa ou americana. A ex doença intui que só na China terá chá de jasmim ou só no Butantã haverá coquetéis com soro-antiofídico. Assim encorajada, a vacina aspira o nirvana. A imunidade. *Jornalista e humorista aaa

Orlando

Allan Sieber

Vicente

Santiago

Benett

Aroeira

Pietro

#18 MICUIM

MÁSCARAS | RENZO MORA

Sim, meninos, eu vi. Era 28/11/66 e Truman Capote queria comemorar o sucesso de “A Sangue Frio” com uma festa: o Baile de Máscaras Black & White no Plaza em Nova York. Todo mundo ia. Oscar de la Renta, Marlene Dietrich, Greta Garbo, os Hearst, os Kennedy (aqueles contrabandistas de uísque), o nervosinho do Norman Mailer, o punheteiro do Philip Roth, O Andy Warhol, O Duque e a Duquesa de Windsor, a putada toda. Toda manhã eu era despertado pelos telefonemas de Truman implorando minha presença. “Sem você, Renzo, a festa vai flopar.”. Eu, bem humorado, o mandava tomar no cu e ele, também bem humorado, dizia que ia acabar gostando. Capote era um pândego. Passei a não atender. Bal Masqué de cu é rola. Não me fantasio para ir à festinha de ninguém. Acho injusto que minhas feições apolíneas sejam cobertas. A festa – dizem - foi um pé no saco. Muitos dos convidados aproveitaram que eu estava hospedado na suíte presidencial do Plaza e foram fazer um after no meu quarto. Lá pelas 4 da manhã o próprio Truman apareceu, alegando que sua festa “estava um porre”. Ele perguntou o que achei do seu livro. Respondi que não lia livros passados no Kansas. Hoje, paradoxalmente, sou obrigado a usar máscara o tempo todo. Parece que tem uma porra de um vírus por aí. Sei lá. Uso a máscara adornada por brilhantes que Truman me mandou à guisa de suborno para eu abrilhantar em sua festinha. O moço da padoca diz que aquela máscara não serve, que ela tem que cobrir as vias aéreas (sei lá que porra é isso), que minha máscara com cristais Swarovski só cobre os olhos. Digo que esse modelo tem uma tradição que vai do Zorro ao Lone Ranger (ainda tem quem confunda os dois. São personagens diferentes, caceta!), passando pelo Robin e pelos Irmãos Metralha. Parece que Paulo Maluf usou um tempo nos jardins, mas a informação carece de confirmação (pode ser que tenha sido o Gino Meneghetti. Vivo confundindo os dois). O portuga do Rei do Trigo me olha intrigado. Parece que nunca ouviu falar de nenhum deles. Olho para o céu. Em algum lugar, aquela bicha anã deve estar rindo de mim. Grito ao azul celeste “Vai tomar no cu, Truman”. Pode ser impressão, mas parece que ouço aquela vozinha de pato Donald dizendo “olha que eu vou gostar”... *Escritor e roteirista

Só existem dois tipos de políticos: os que foram apanhados roubando e os que ainda não foram. (@F_R_A_G_A)


TIRAS DOSSIÊ

Por mais canalha que seja algum político, vem um outro e o suplanta, ou suplente. (@F_R_A_G_A)

TIRAS

am Eles tiram de letra, tir rro, diariamente, tiram sa tiram álbuns e livros.

Alexandre Beck

Colaborador do jornal Zero Hora

Edgar Vasques

Colaborador do jornal Extra Classe

Estela May

Colaboradora do jornal FolhaSP

Pietro

Colaborador da Revista Trip

Rafael Corrêa

Colaborador do jornal Extra Classe

A melhor política de boa vizinhança é morar bem afastado de qualquer político. (@F_R_A_G_A)

MICUIM #19


FINALEIRA

Aroeira

COMI$$ÕE$ No Brasil, todo mundo é 100% a favor dos 20% por fora, por baixo do pano, na mala, na cueca. Quem não foi comprado é porque se vendeu.

A LAVANDERIA DA BUFUNFA

Ayrton Centeno

Quem lava o dinheiro sujo? Como a gente ouve falar muito na TV em lavagem de dinheiro, fomos perguntar por aí e descobrimos a resposta: é a Dona Bufunfa. Ela lava numa salinha nos fundos de um banco. Como fica chato descobrirem que lavam dinheiro sujo, os bancos escondem a lavadeira e a lavanderia. Só chegamos a ela molhando as mãos certas mas respeitando a ética.

PROPINATO S.A.

Fraga

Uma vez ao ano o Itaesco, o Bradander e o Santaú exibem seu Cirque du Soleil dos números. As cifras, adestradas por exímios contadores, fazem contorcionismo em três picadeiros: Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido.

Micuim – Como a senhora veio parar aqui? Dona Bufunfa – Olha, eu lavava roupa pra fora lá na beira do rio. Aí apareceu, um senhor, o seu Messa, e perguntou se eu não queria trabalhar pra ele... Micuim – Messer, o doleiro dos doleiros? Bufunfa – Esse daí. Então, me trouxe aqui pros fundos que é onde os bancos lavam o dinheiro... Micuim – A senhora é Bufunfa mesmo? Bufunfa – Me chamo Juraci. Mas, sabe cumé, os clientes chegam perguntando: cadê a bufunfa? Quero a bufunfa... Me viram aqui no meio da bufunfa deles e passaram a me chamar também de Bufunfa...

O elenco numeral, óbvio, é numeroso. O que ninguém percebe é que lá no meio deles, maquiadas para aparentar as virtudes dos ganhos lícitos, estão as Propinas. Volumosas e voluptuosas, dão show de malabarismo legal, aplaudido por fascinados auditores, que também fazem papel de palhaços.

Micuim – E vem muitos políticos e empresários aqui?

As Propinas atuam tão bem que nunca comprometem o Exercício Fiscal, essa espetacular ginástica contábil anual. Demonstram muita prática nas demonstrações financeiras. Elas são de casa: fora cheques e dólares, toda propina é feita com dinheiro da Casa da Moeda. Mas pra dar conta da demanda corruptora, melhor seria criar a Casa da Propina. O problema é que o Centrão quer o habite-se.

Micuim – Rodoanel?

Para não depreciar, toda propina vai pros bancos, que a valorizam com juros e correção monetária. E para circular, a propina conta com transporte exclusivo: os carros fortes. Todo dia a grana vai do Banco Central para as agências, e vice-versa. Nas agências, às claras, é feita a redistribuição da propina nacional: quantias que circulam nas mãos dos outros e que, ao chegar às nossas, vira dinheiro comum. Daí se explica a depressão do PIB: é inveja da propina. Ela movimenta muito mais riquezas que trabalho e produção. Oculto nos balanços, o lucro líquido: champanhes, vinhos e uísques caríssimos.

#20 MICUIM

Bufunfa – É o que mais dá. O Cunha me liga sempre. O Queiroz também vinha. Sempre trazia um bombom. “Foi o Flavinho que mandou”, dizia... O Rodoanel vem só pra sentir o cheirinho do seu dinheiro lavado. Bufunfa – É o Serra. Brinco muito com ele. Dia desses, até atirei uma bolinha de dinheiro na careca dele... Micuim – E a senhora tem muito trabalho? Bufunfa – Nem lhe conto. Vem cada imundície... O mais nojento é o dinheiro do tráfico de escravas brancas. Vem dinheiro da sonegação e da propina fedendo a cocô. Vem dinheiro fedendo à pólvora... Micuim – De onde vem esse? Bufunfa – Do contrabando de armas. Vem notas com aquele pozinho branco dentro que são do narcotráfico. Mas o que dá mais trabalho é o dinheiro respingado de sangue... Micuim – E esse? Bufunfa – Do Escritório do Crime. Micuim – E a senhora lava tudo? Bufunfa – Lavo, engomo, seco, passo e ainda perfumo com aromatizante. Tudo artesanal. Fica limpinho, limpinho. Micuim – No meio de tanto dinheiro, a senhora nunca botou algum no bolso? Bufunfa – Deus me livre! É dinheiro sujo, homem!

PARAÍSO FISCAL

Carlos Castelo

Foi rápido. Estava conferindo os euros no cofre de casa para transferir ao banco suíço. Veio o choque no peito e, pimba, já foi direto para o Purgatório. Ali, mediante uma ajudinha ao Anjo-Zelador, foi logo liberado. No fim das contas ir direto ao Paraíso Fiscal era coerente com a sua trajetória de grande financista. A sua vida tinha sido lavar dinheiro, fazer Caixa 2, corromper, molhar mãos, por que não iria? A primeira impressão que teve foi de que estava nas Ilhas Cayman. Sol, areia, maresia, o oceano emoldurando tudo. Foi caminhando pela orla, deslumbrado pela visão. Gradualmente, as retinas acostumaram-se à luz e notou que alguém vinha em sua direção. - Rapaz, tu também estás aqui, é? – disse o homem de bermuda florida. - Perdão, quem é o senhor? – perguntou o recém-chegado. - Não me conheceu? Jackson Lago, governador do Maranhão, rapaz! - Claro! Cassado na Operação Navalha, da PF. Comecei a gostar daqui! – animou-se o rei das finanças. Jackson colocou um copo de uísque na mão do amigo. - Vais gostar mais ainda. Bora ali na barraca encontrar o deputado José Alves. - O Anão está aqui? - Opa, se está! E te prepara pra ver nossa turma toda. Hoje tem a festa de aniversário do juiz Lalau. Vai ser de arromba!

Nani

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Jornal Micuim - Edição # 2 - Porto Alegre - Outubro de 2020  

Suprimento de Humor do jornal Brasil de Fato RS. Uma publicação mensal movida a maus ventos, piores eventos e baixos proventos. A gente proc...

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