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Circulação Nacional

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 7 • Número 331

São Paulo, de 2 a 8 de julho de 2009

Reprodução

Esquerda defende a autodeterminação dos iranianos

R$ 2,50 www.brasildefato.com.br

Em Honduras, direita dá golpe contra a participação popular A deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya, ocorrida no dia 28 de junho, teve como real objetivo frear as intenções do mandatário de aumentar o poder de decisão da população local nos rumos do país. O alerta vem de integrantes de movimentos sociais da nação centro-americana.“Os grupos de poder desse país deram um golpe de Estado porque o presidente estava dando

participação real ao povo”, diz Wendy Cruz, da Via Campesina em Honduras. Zelaya propunha consultas sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte que tivesse a participação dos setores populares de Honduras. O temor dos golpistas é o de que uma nova Carta Magna possa “democratizar as estruturas jurídicopolíticas do país”, segundo Wendy. Págs. 2, 9 e 10

Desde a eleição do dia 12 de junho, opositores do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, apoiados por países centrais do Ocidente, protestam contra supostas fraudes no pleito que o reelegeu. Porém, representantes da esquerda defendem que o resultado expressou a vontade do povo e, portanto, Ahmadinejad deve exercer novo mandato. Pág. 12

Yamil Gonzales

China aproveita crise mundial para investir na África Potência que menos sentiu os sintomas da crise internacional, os chineses aproveitam para aumentar sua influência nos países africanos. Os investimentos no continente chegaram a 80 bilhões de euros em 2008 e o número de empresas abertas chega a 2 mil. Nesse ritmo, superarão em poucos anos os países ocidentais como principal parceiro econômico da África. Pág. 11

Hondurenhos vão às ruas protestar contra o golpe de Estado que destituiu o presidente eleito Manuel Zelaya

Bosch impõe demissão e medo

Casa de parto é perseguida por médicos e mídia no Rio

Transnacional demite 826 trabalhadores em Curitiba

Unidade de acompanhamento de gravidez de baixo risco sofre com a ameaça de fechamento desde a sua fundação, em 2004. A Casa de Parto David Capistrano

A metalúrgica alemã Bosch demitiu 826 operários no dia 28 de junho na planta de Curitiba (PR). Eles não tiveram aviso prévio. Para efetuar as demissões,

Filho, no Rio, sustenta o conceito de que a gestação é um evento natural e que cirurgias, como a cesariana, só devem ser feitas em caso de necessidade. Pág. 6

Daniel Cassol

a empresa usou de um expediente de intimidação, contratando 500 seguranças terceirizados para comunicar os trabalhadores. No final de 2008, outros 700 já haviam

sido dispensados. A crise mundial foi a justificativa da empresa para os cortes. Porém, em 2008, mundialmente, a Bosch faturou 45,1 bilhões de euros. Pág. 3 Giuliano Gomes/Folha Imagem

Fim do diploma expõe interesses e precariedade no jornalismo O fim da exigência do diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista é uma decisão que atende a um pedido do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão e que contou com o apoio de parecer do Ministério Público Federal. O fato do pedido ter partido de um sindicato patronal indica rumos para o debate distante da liberdade de expressão, como argumentou o Supremo Tribunal Federal, mas próximos da questão trabalhista e da formação intelectual do jornalista. Com representação sindical frágil, os jornalistas assistiram nas últimas décadas à proliferação de escolas de jornalismo e à precarização do trabalhador e da informação. Pág. 5

Poeta paraguaio preserva a língua guarani e, assim, ajuda o país a resistir ao avanço da mentalidade opressora que parte, há 500 anos, da Europa Pág. 8

ISSN 1978-5134

Jornalistas e estudantes protestam em Curitiba contra o fim da obrigatoriedade do diploma


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de 2 a 8 de julho de 2009

editorial NO DOMINGO, 28 de junho, um novo golpe de Estado em Honduras sequestrou e conduziu ao exterior o presidente eleito da nação centroamericana, Manuel Zelaya. Naquele dia, o país se preparava para realizar uma “Consulta Popular” para que o povo indicasse, pelo voto democrático, se aceitava ou não a inclusão, nas eleições gerais de novembro, de uma nova consulta à população hondurenha: se esta concordava ou não com a convocação de uma Assembleia Constituinte. Porém, antes dessa iniciativa, o presidente já havia tomado algumas decisões que fizeram tremer os setores mais reacionários da sociedade hondurenha, acostumados a resolver tudo e qualquer coisa com assassinatos e repressões. Zelaya percebeu que a falência das políticas neoliberais – que no centro do capitalismo geraram falências de ícones do regime como o Citibank e a General Motors – fazia com que um país rigorosamente dependente dos EUA tivesse que procurar outros caminhos para não ser levado ao matadouro. Aproximou-se do presidente venezuelano, Hugo Chávez, reatou relações com Cuba, trouxe

debate

Golpe e resistência em Honduras médicos cubanos para o atendimento da sofrida população hondurenha, estabeleceu mecanismos de cooperação com a Venezuela, por meio dos quais Honduras recebeu petróleo e enviou produtos agrícolas, especialmente leite e derivados, além de ter recebido milhões de lâmpadas elétricas para racionalizar e economizar energia. Lâmpadas de fabricação chinesa, fruto dos convênios de cooperação de Venezuela com a China, por meio das quais economizamse 70% de energia elétrica no pobre país centro-americano, desprovido de grandes hidrelétricas. O golpe é uma reação extremada das oligarquias que querem manter o país no parasitismo e no isolamento do curso de transformações sociais que caminham por vários países da América Latina. A resistência popular hondurenha está em níveis crescentes. O isolamento total do regime do direitista Micheletti faz pensar sobre sua durabilidade, tal como

aconteceu com o golpista venezuelano deposto depois de 47 horas pelo povo da Venezuela em 2002. Nem mesmo os EUA puderam apoiar francamente, muito embora a ambiguidade de Hillary Clinton, chanceler estadunidense, tenha indicado que há uma divisão na cúpula do imperialismo. Se Obama aparece vinculado ao golpe, tem sua imagem destruída. Por outro lado, os golpistas hondurenhos são todos eles financiados por instituições, agências e fundações dos EUA, que sempre operam para realizar os objetivos da política externa do país, claramente expansionista. Tal política necessita impedir o desenvolvimento da Alba, a cooperação dos países do Sul e recuperar mecanismos de vassalagem e subserviência aos ditames do imperialismo. Os partidos conservadores hondurenhos são apoiados financeiramente pelos partidos e fundações que representam a linha imperialista de intervenção e impo-

sição internacional em defesa dos interesses vitais dos EUA. O protagonismo de Hugo Chávez (Venezuela), Raúl Castro (Cuba), Daniel Ortega (Nicarágua), Evo Morales (Bolívia); a reunião da OEA condenando o golpe; a participação da Telesur difundindo ao vivo os acontecimentos; a reação popular a eles; e a notícia de que Zelaya voltará ao país em breve, acompanhado do presidente da Assembleia de Direitos Humanos da ONU, Miguels Descotto, e também da presidenta da Argentina, Cristina Kirchner; tudo isso indica que o golpe tem tudo para fracassar. Foi importante a posição de Lula condenando prontamente esse golpe, mas deve ser lembrado que o presidente brasileiro tem à sua disposição a possibilidade de influir para que sejam adotadas medidas concretas que façam fracassar ainda mais rapidamente esse regime fantoche. Assim como Chávez já anunciou que a Petro-

crônica

Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Falsa tentativa de certificação do etanol

caribe suspendará o fornecimento de petróleo para Honduras, o que dá pouquíssima vida aos golpistas, Lula pode associar-se para pressionar os organismos financeiros internacionais no sentido de um legítimo e necessário boicote que faça fracassar o golpe de Estado em Honduras antes que vidas sejam perdidas, pois inevitavelmente o povo hondurenho e suas lideranças populares irão multiplicar suas formas de luta e de resistência. Que os partidos políticos de esquerda, movimentos sociais e movimento sindical também se somem a essa inciativa de prestar uma solidariedade concreta em Honduras. Que multipliquemos nossa capacidade de pressionar o governo brasileiro para ações ainda mais concretas, inclusive no plano internacional. Que os governos enviem representantes e que suspendam todo tipo de relação e cooperação no sentido de derrotar o mais rápido possível essa aventura golpista que apenas revela o desespero da direita, possivelmente com o apoio de um setor do Pentágono, diante do avanço e consolidação de governos populares na América Latina.

Egon Dionísio Heck

Além do horizonte

Gama

No dia 25 de junho, o presidente Lula assinou um pacto, de “livre adesão”, com representações governamentais, de trabalhadores e empresários, produtores de etanol, após uma mesa de negociações que se desenvolveu no último ano. Sob o nome de Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar, o documento, elaborado pela Secretaria Geral da Presidência da República, tem como objetivo estimular e garantir as “melhores práticas” nas relações de trabalho e garantir o denominado “trabalho decente”. Com essa finalidade, adotou como principais pontos a contratação direta (fim da terceirização), o acesso do diretor sindical aos locais do trabalho, o transporte seguro e gratuito, assegurar o mecanismo de aferição de produção previamente acertada com o trabalhador, além do fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Desse modo, o acordo não acrescenta nada às conquistas já existentes na legislação trabalhista e nos dissídios coletivos, os quais são descumpridos, de forma crônica e contínua, pelas empresas que empregam os canavieiros brasileiros. Então, quem serão os beneficiados nesse acordo? Tudo indica que mais uma vez serão os de sempre: os usineiros, os mais recentes “heróis nacionais”. De fato, o que se percebe com muita clareza é que o principal objetivo desse acordo precário é preparar o terreno para a certificação social da atividade canavieira pelas empresas, sem mudar suas práticas, mas atestando a “qualidade” das condições de trabalho no setor sucroalcooleiro no país, o que não existe. A criação dessa certificação foi recentemente anunciada por Lula, em discurso durante a reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT), realizada em Genebra, no último dia 14. Para as organizações de direitos humanos e movimentos sociais, a motivação desse acordo visa unicamente a sanar a rejeição internacional ao etanol brasileiro, provocada pelas centenas de denúncias que comprovam a relação intrínseca entre a produção de agrocombustível com o trabalho escravo e a devastação do meio ambiente. O etanol brasileiro foi apresentado ao mundo pelo governo como a salvação para a crise energética e para o combate à poluição proveniente dos combustíveis fosseis. Desde então, os usineiros passaram a ser proclamados oficialmente como “heróis nacionais”. Em setembro de 2007, o presidente Lula chegou a visitar a Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia para tratar de investimentos entre os países. Naquela ocasião, o principal ponto de pauta foi o incentivo a pesquisas e comercialização do etanol brasileiro na Europa. Na Suécia – um dos maiores pesquisadores de agrocombustíveis do mundo e um dos maiores importadores do etanol brasileiro –, o presidente foi questionado sobre o trabalho escravo nos canaviais brasileiros. Para restabelecer a imagem positiva dos agrocombustíveis, Lula apontou, como saída, a criação de uma espécie de “certificado social” envolvendo uma série de medidas que deveriam ser adotadas voluntariamente pelas usinas para amenizar a situação de exploração dos canavieiros e canavieiras.

Se o etanol é combustível limpo, é somente do cano de escape do carro para fora, pois, até chegar lá, o chamado “biocombustível” incorpora um altíssimo custo social e ambiental. Portanto, não tem como ter certificação social se é inerente ao modelo de produção do etanol a superexploração do trabalho, a degradação ambiental, além da concentração da terra e da renda. De acordo com dados da Campanha Nacional de Combate ao Trabalho Escravo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2007, dos 5.974 trabalhadores resgatados da escravidão no campo brasileiro, 3.060, 51%, o foram das lavouras de cana-de-açúcar. Em 2008, dos 5.266 resgatados, 2.553, 48% – quase metade – dos trabalhadores mantidos escravos no país o eram por grandes produtores de “combustível verde e limpo”. E em 2009 já são 951, 52% do total. Uma progressão considerável se comparada aos anos anteriores (1.605 libertados entre 2003 e 2006, ou seja, 10% do total de libertados neste período).

A destruição no Nordeste Na região, as usinas historicamente violam os direitos trabalhistas e negam a função social da terra, além de promoverem também a constante degradação do meio ambiente. Estudos comprovam que, para cada litro de etanol produzido nas usinas, são gerados 12 litros de vinhoto - substância tóxica que destrói a biodiversidade. Como os dejetos são despejados nos rios, boa parte das águas que cortam as usinas está contaminada. Outros fatores também agravam ainda mais a devastação do meio ambiente: o uso de agrotóxicos e as queimadas. Os governos federal e estadual continuam, na Zona da Mata nordestina, a não cobrar os débitos milionários de muitas usinas. Em vez de executar essas dívidas fiscais e tributárias – e, por essa via, obter terras para assentar trabalhadores e trabalhadoras –, os governos facilitam o perdão ou securitização das dívidas, favorecendo novos financiamentos para devedores crônicos e reincidentes.

Recursos públicos Nos últimos anos, o governo brasileiro intensificou seu apoio ao agronegócio, priorizando o Programa de Agrocombustíveis, a partir do etanol. Além de propor a regularização da grilagem de terras na Amazônia e de alienar partes extensas do território nacional às empresas transnacionais, o governo disponibiliza grandes quantidades de recursos públicos ao agronegócio. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, anunciou recentemente, em um evento da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), em São Paulo, que o país manteve a liderança de produção do agrocombustível no mundo, e que a expansão ainda maior do etanol para o exterior é de fundamental interesse do governo. Só este ano, o setor recebeu mais de R$ 3,2 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O valor supera em 36% o que foi investido no mesmo período do ano de 2008. Os recursos do BNDES destinados ao agrocombustível são extraídos, em grande medida, dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). No final de 2008, o incentivo aos agrocombustíveis sofreu uma forte redução. A crise financeira internacional, logo em seu início, impactou fortemente a atividade sucroalcooleira. Essa redução de investimentos denunciou, mais uma vez, a fragilidade e a conhecida dependência do setor dos recursos públicos e da ação do Estado.

Desafio dos movimentos O enfrentamento ao trabalho escravo na produção do açúcar e do álcool segue sendo um dos principais desafios para os movimentos sociais e entidades de direitos humanos. Denúncias frequentes são encaminhadas aos órgãos competentes, mas poucas delas originam rigorosas fiscalizações por parte do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho. Por sua vez, ao rastrear os canaviais e flagrar condições degradantes de trabalho, o Ministério Público do Trabalho acaba descartando a qualificação de trabalho escravo, em benefício de medidas mitigatórias que nada resolvem. É hora de recolocar em pauta a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional PEC 438/2001, sempre protelado pela bancada ruralista do Congresso Nacional, que prevê a expropriação, para fins de reforma agrária, das terras em que forem encontrados trabalhadores em situação análoga à de escravos. É hora de acabar de vez com essa vergonha em nosso país ao invés de tentar “maquiar” a realidade de centenas de trabalhadores e trabalhadoras rurais nos mais distantes rincões do campo brasileiro, esquecidos por um governo que os encobre com falsos selos politicamente corretos na busca desenfreada por uma imagem socialmente limpa no mercado agroexportador. Goiânia, 25 de junho de 2009. Comissão Pastoral da Terra (CPT)

As brasas ainda fumegantes testemunham mais um tempo que passou. Um junho, junino de festas, de surpresas, de lutas e de avanços. Um mês em que as águas no Amazonas atingiram o maior nível dos últimos 100 anos e a Amazônia presenciou um dos massacres mais infames das últimas décadas. Vários povos indígenas e a população da região de Bagua, na Amazônia peruana, protestaram durante dois meses contra a agressão imperialista que significaram os Tratados de Livre Comércio (TLCs) assinados pelo governo Alan García. Tiveram como resposta uma brutal repressão, que acabou em inúmeras mortes. Para os povos indígenas do Mato Grosso do Sul, o horizonte da terra parece ter ficado um pouco mais próximo. Após as fortes cobranças na Aty Guasu de Takuara: “Como vamos acreditar, se já deram vários prazos para terminar a demarcação das nossas terras e nunca cumpriram. Vocês fizeram as leis, nos ensinaram a ler, agora vão ter que nos engolir...Vamos cobrar, vamos agir...” (Jorge Kaiowá, aldeia Pirakuá), aumentou a confiança na união e luta para vencer as resistências e a burocracia. Mas ficou também o alerta: “a nossa paciência acabou”.

Os caminhos burocráticos e eleitorais Apesar das boas vontades manifestas por várias personalidades do governo e reforçadas em diversos momentos pelo próprio presidente Lula, o avanço efetivo das demarcações tem dois obstáculos perigosos pela frente. O primeiro é a própria burocracia do Estado. Esta só poderá ser vencida por pressão efetiva dos índios e da sociedade aliada à decisão, vontade e ação política das diversas instâncias, desde o presidente da República até o presidente da Funai e os funcionários públicos encarregados da execução dos trabalhos. A outra é a conjuntura eleitoral, que implica nas composições e alianças políticas, nas quais se juntam os diversos interesses e se fazem os mais diversos cálculos. Infelizmente nesta equação os direitos dos índios acabam ficando em segundo plano. Esperança, apesar de tudo O delegado Alcidio, da Polícia Federal, demonstrou interesse em conhecer e dialogar. Sua primeira experiência foi com a comunidade Laranjeira Nhanderu, por ocasião do prazo de reintegração de posse, em maio. Querendo conhecer melhor a realidade indígena, participou de encontros e recebeu mais informações. Porém, apesar de informar que, caso sejam solicitados, dariam cobertura ao trabalho dos antropólogos, disseram também que as cotas de diárias para este ano já haviam acabado. A Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) Campo Grande fez um importante seminário sobre a questão indígena no MS, publicando uma carta aberta em apoio aos direitos indígenas, “Exigimos ação imediata e decisiva para garantir o processo de identificação e demarcação de todas as terras indígenas neste Estado. Que suas “terras sagradas” sejam reconhecidas, conforme determina a Constituição Federal. Sabemos que soluções existem, mas o que falta é a vontade política e o respeito às reivindicações desses povos no que tange à terra, produção, alimentação, saúde e educação. (Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB regional Campo Grande, junho de 2009) Meio ambiente inteiro, antes que seja tarde “Ou restabelecemos a reciprocidade entre natureza e ser humano e rearticulamos o contrato social com o natural ou então aceitamos o risco de sermos expulsos e eliminados por Gaia. Confio no aprendizado a partir do sofrimento e do uso do pouco bom-senso que ainda nos resta.”(Reciprocidade ou Morte, Leonardo Boff, junho de 2009) Neste 1º de julho, continua a rodada de conversações intermediadas pelo Ministério da Justiça. Sete lideranças Kaiowá Guarani estarão ouvindo mais uma vez a proposta do governo e cobrarão agilidade na conclusão dos trabalhos dos Grupos de Trabalhos (GTs), acompanhados com a Polícia Federal. A próxima semana será muito importante para os Kaiowá Guarani. Terão uma extensa agenda em Brasília, em Ministérios, CNBB. Egon Dionísio Heck é assessor do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Mato Grosso do Sul.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Luís Brasilino • Subeditor: Igor Ojeda • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Eduardo Sales de Lima, Mayrá Lima, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte - Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, Ricardo Gebrim, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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brasil

Na fábrica da Bosch, demissões arbitrárias e política do medo TRABALHO Empresa demite 826 operários em Curitiba. Cortes foram realizados com o uso de seguranças para intimidar operários Albari Rosa/Folha Imagem

Pedro Carrano de Curitiba (PR) NA PASSAGEM entre o primeiro e o segundo turno de trabalho da transnacional Bosch, 826 operários descobriram que estavam demitidos. Era o dia 28 de junho. A empresa tinha contratado cerca de 500 vigilantes de empresa terceirizada para, na catraca de saída da fábrica, anunciar aos trabalhadores que eles teriam quinze minutos para retirar suas coisas dos armários. Não importava o tempo de casa, tampouco o setor de produção. Na mesma tarde, outros 2 mil operários entraram em licença remunerada por dez dias. As demissões não tiveram aviso prévio. Uma assembleia do sindicato, no dia 29 de junho, decidiria o futuro da categoria. Em conversa com vários trabalhadores, muitos não sabiam da sua situação. Já não eram mais os “colaboradores”, como a empresa os classifica. Eles relatam que existe a chance de outros 100 tomarem o mesmo destino. Em meio às demissões, a Bosch apresentou uma proposta de indenização para trabalhadores com 10, 15 e 20 anos de casa, porém, sem ultrapassar dois salários e meio. O sindicato de metalúrgicos de Curitiba e Região Metropolitana (SMC), ligado à Força Sindical desde o surgimento da central (1989), propôs para a empresa, no começo do ano, banco de horas negativo, programa de demissão voluntária (PDV) e o chamado sistema lay off, este último recentemente recusado pela transnacional, em audiência de conciliação depois das demissões. Segundo o sindicato, ainda no dia 12 de maio, a Bosch havia sinalizado que não demitiria. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos, a proposta da transnacional no início do ano incluía a redução de jornada de trabalho com redução de salários. Foi recusada

Cortes e alta da produção

Assembleia dos metalúrgicos na fábrica da Bosch, no Paraná, que decidiu pela paralisação em protesto contra as demissões

Carolina, operadora de produção, jovem, três filhos, protesta contra a realidade encoberta por trás da imagem criada pela empresa. Ela, uma das demitidas, estava revoltada pelo sindicato. Na manhã do dia 29, a assembleia da categoria decidiu por uma paralisação de 48 horas. A exigência é a readmissão dos 826 demitidos, junto à garantia de estabilidade de um ano para todos os funcionários. Para o dia 30, havia a expectativa de que o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) decidisse sobre o caso. Responsabilidade social

Na assembleia do dia 29, foi abordado o fato de a Bosch valer-se de um forte discurso de responsabilidade social. No entanto, Carolina, operadora de produção, jovem, três filhos, protesta contra a rea-

lidade encoberta por trás da imagem criada pela empresa. Ela, uma das demitidas, estava revoltada. “A Bosch não nos trata como diz, havia uma pressão psicológica grande na fábrica, inclusive pelo fato de eu ser mulher”, denuncia. Outros operários comentam que a demissão foi realizada sem critério de tempo de trabalho, uma vez que a fábrica demitiu operários e manteve outros que já estavam aposentados. A planta de Curitiba já havia demitido 700 trabalhadores no final de 2008, quando a crise econômica veio à tona. Pedro (nome fictício), supervisor da empresa demitido,

Ataque violento no período de retração Para sindicalista, crise ajuda trabalhadores a perceber ilusões do reformismo de Curitiba (PR) Desde dezembro de 2008, transnacionais e empresas estratégicas do parque produtivo de Curitiba demitiram um total de 2.800 trabalhadores (ver box). Entre as justificativas, está a crise e a dependência das exportações para o mercado estadunidense e europeu.

mar de achatamento salarial no próximo ciclo de expansão capitalista”, adverte.

Mas, na avaliação de André Santos, militante da Ação Sindical Socialista (ASS), “as crises cíclicas e periódicas são inerentes ao processo de produção capitalista, ocorrendo em momentos de recordes de produção. No sistema capitalista não ocorre um acúmulo gradual e contínuo da melhoria dos salários e condições de vida dos trabalhadores. Direitos arduamente conquistados nos ciclos de expansão são violentamente atacados nos períodos de retração. Neste período, as crises ajudam os trabalhadores a perceber as ilusões do reformismo”, analisa. Após as demissões na Bosch, no dia 30 de junho foi confirmado que a planta da

Volvo, produtora de motores para caminhão, reuniuse com setores da fábrica e apontou a demissão de 300 operários. De acordo com Marcos (nome fictício), operário da transnacional e ligado à comissão de fábrica, 430 funcionários foram demitidos no final de 2008 – o que atingiu 35% da produção da montadora. As opções da empresa e sindicato, neste caso, têm sido o banco de horas e as férias coletivas, adotadas nas montadoras de Curitiba e região. “Passamos um momento difícil no ramo de caminhões. A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) não ajudou como no caso dos automóveis”, comenta Marcos. (PC)

Indústrias automotivas que demitiram desde dezembro de 2008 Bosch – 826 operários, de um total de 4.600. Volvo – 430 funcionários do setor de exportação. Acena com a demissão de mais 300. Case New Rolland – 700 trabalhadores. Volkswagen – 60 trabalhadores. Renault – Suspendeu os contratos de 1.000 operários e os reincorporou.

afirma que, a partir da primeira leva de demissões, o medo entre os trabalhadores era forte. Agora, ele foi dispensado ao lado de outros 29 supervisores e trancado numa sala até que os operários de cada setor pegassem as coisas e partissem. “Não pude voltar para o meu setor, me despedir da equipe, foi estranha a forma de demissão”, relata. Outros operários presentes na assembleia do dia 29 têm as mesmas histórias. Amarildo descobriu, na catraca de saída, seu nome entre os demitidos. João, por sua vez, precisava de apenas dois anos para se aposentar. Eles acreditam haver muita indignação por parte dos trabalhadores, mesmo daqueles que não passaram pela demissão. “Manda-se embora a mão-de-obra há mais tempo ocupada para substituir lá na frente, noutro país ou contratando aqui pela metade do preço. Fazem uso da flexibilização de contrato”, critica Pablo Díaz, economista, mem-

bro do Sindicato dos Bancários de Curitiba. O caso da Case New Rolland é citado como um exemplo recente de fábrica que demitiu para empregar novamente, noutras condições de emprego. Uma das afirmações da Bosch à mídia corporativa é a de que quadros da diretoria também estariam sendo cortados, em meio à crise: dentre quatro diretores da empresa, apenas um teria perdido o emprego, justifica a corporação. A demissão é uma forma de chantagem do capital, analisa André Santos, da corrente sindical Ação Sindical Socialista (ASS). Na avaliação da corrente, a tendência, na atual conjuntura, é de o capital atacar direitos conquistados da classe. “O capital, por meio da chantagem e de muita pressão, vai procurar impor demissões e a redução de salários e direitos, independentemente da assinatura de acordos rebaixados. Os acordos, que reduzem salários e jornadas, servirão de pata-

A queda atual da produção do setor automotivo está umbilicalmente ligada à alta na produtividade do período anterior. Na visão de Pedro, demitido da Bosch, a empresa apresentava alta produtividade nos últimos três anos. A planta, ademais, investia em tecnologia, como sistemas de injeção eletrônica de ponta, uma referência internacional na produção da empresa. “Trabalhávamos com quatro turnos na Bosch, 24 horas, um lucro sempre estrondoso, produzíamos em média de 750 mil até 1 milhão de bicos injetores por mês, isto durante 2008 todo, até a queda em janeiro”, analisa. Mundialmente, a transnacional teve 45,1 bilhões de euros de faturamento no ano passado. Em Curitiba, porém, ela não divulga balanços recentes, de acordo com denúncia do sindicato. Com o corte de 826 funcionários, Pedro acredita que apenas um turno deve se manter. Outro fato questionável. Na opinião dele, uma semana antes das demissões, os supervisores tiveram o segundo turno de produção da Bosch adiantado em duas horas, para que chegassem antes e pudessem gerenciar os postos dos que seriam demitidos. “Desconfiamos desta situação, criada para que o supervisor do segundo turno fizesse a demissão dos funcionários do primeiro”, critica.

Para entender Lay off – Consiste na suspensão temporária dos contratos de trabalho, na qual o operário passa por cursos, com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). A medida foi imposta pela Renault, na região metropolitana de Curitiba, a mil funcionários no início deste ano.

Repressão contra a mobilização Aumento de seguranças nas empresas é parte da reestruturação produtiva de Curitiba (PR) O caráter intimidatório com que a Bosch organizou as demissões contrasta com a calmaria em frente à fábrica, nos dez dias que se seguiram. “Dão férias coletivas ou licença remunerada, evitando que no dia seguinte haja mobilização”, comenta Pablo Dias, economista do Sindicato dos Bancários. O uso dos seguranças no proces-

so de dispensa dos funcionários da Bosch está inserido em um contexto de reestruturação produtiva, quando empresas sofisticaram a organização, terceirizaram os serviços e, refratárias à atuação da militância e dos movimentos sociais, aumentaram a segurança da empresa. Esta é a avaliação de Cesar Sanson, pesquisador da Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat). “Isso já era perceptível nos anos de

1980, quando os espaços públicos no entorno da fábrica cada vez mais foram se tornando privados. Cercas, muros e portões foram isolando os trabalhadores”, comenta. Para ele, um caso emblemático são os ônibus que passaram a desembarcar os operários dentro da fábrica e não mais no portão, “exatamente para impedir o contato com aqueles que iam até a porta de fábrica para o trabalho militante”. Sanson acredita que a única possibilidade de furar esse bloqueio é a legitimação da Organização por Local de Trabalho (OLT). (PC)

Superexploração do trabalho e deslocamento Ao analisar as demissões da Bosch, o economista Pablo Dias, do Sindicato dos Bancários de Curitiba, afirma que ela se dá em um contexto recente de transferência do setor produtivo para regiões onde a acumulação de capital encontre menos entraves para realizar-se, no setor financeiro em aliança com a produção sem qualquer forma de regulação. “Nos últimos 15 anos, milhões de polos de trabalho foram abertos no sudeste asiático, para usar essa mão-deobra de uma forma intensiva, uma vez que se pagam salários baixíssimos. No Brasil, há um modelo em vias de esgotamento: nosso modelo mais rígido, mais equilibrado para salvaguardar os direitos do trabalhador, é atrasado para a dinâmica do capital, que se desloca e utiliza a pedagogia do medo com os

que ficam: submeta-se ou pereça”, analisa. Na opinião de Dias, esse fator determina a postura pouco combativa dos sindicatos, avessa a atos políticos e agitativos. Cita, como contraponto, a postura do movimento social na França, que não recuou na perda de direitos, ao contrário do caso brasileiro a partir da década de 1990. “Infelizmente os movimentos sindicais geraram trincheiras de grupos de poder, perderam o contato com as massas, burocratizaram-se, fazendo um pacto com os empresários”, compara. Sobre as recentes demissões da Bosch, Dias acredita que são necessárias perguntas aos diretores da empresa: “Quanto foi a remessa de lucros ao exterior em 2008 e quanto eles vão mandar agora e onde eles colocariam as novas empresas”. (PC)


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brasil Lucas Lacaz Ruiz/Folha Imagem

A classe trabalhadora ampliada ENTREVISTA Ricardo Antunes fala das transformações do capitalismo, explica conceitos novos e discute o papel dos sindicatos na defesa dos trabalhadores e nas lutas mais amplas pela sobrevivência da humanidade

SÓ NEGA A existência da classe trabalhadora quem nunca colocou os pés numa fábrica. A opinião é de Ricardo Antunes, sociólogo e professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e autor de importantes livros como O Caracol e sua Concha, Os Sentidos do Trabalho e Adeus ao Trabalho?. Crítico mordaz dos que acreditam no fim da centralidade do trabalho, ele defende a necessidade de se ampliar a categoria trabalho e entendêla a partir de uma nova morfologia. Nessa entrevista à revista Poli, Antunes trata das transformações do capitalismo, explica conceitos novos e discute o papel dos sindicatos na defesa dos trabalhadores e nas lutas mais amplas pela sobrevivência da humanidade. Além disso, analisa o papel da educação nas diferentes fases capitalistas e defende um projeto de escola que, baseado nas ideias de Gramsci, seja voltado para a liberdade. O que muda na categoria do trabalho com o aumento do setor de serviços e da esfera não produtiva no capitalismo contemporâneo? Ricardo Antunes – Vários elementos estão mudando ao longo das últimas décadas. No setor de serviços, há uma mudança decisiva. Entre as décadas de 1950 e 1970, nos países capitalistas centrais, e depois, nas décadas de 1980 e 1990, nos países do Sul, os setores de serviços eram predominantemente controlados pelo Estado. Com o monumental processo de privatização desses setores, eles passaram a entrar na economia mercantil, na economia capitalista e, consequentemente, no processo de acumulação. Isso fez, por exemplo, com que o antigo trabalhador de uma empresa pública, vinculada a um setor produtivo estatal, se tornasse um trabalhador de uma empresa privada inserida no setor produtivo privado. O trabalho com algum traço mais cognitivo, mais intelectualizado – o que Marx chamou de um trabalho não diretamente material ou imaterial – passou a fazer parte da escala de produção e geração de valor, quer inserindo-se com outros trabalhos de perfil mais material, quer através da expansão da mercadorização desse próprio trabalho imaterial. Hoje, um trabalho publicitário como o desenho da logomarca de uma empresa não pode ser desconectado da vasta cadeia produtiva material que se desenvolve a partir dessa logo. É um trabalho do setor considerado antes improdutivo que se torna produtivo. A categoria trabalho tornou-se mais abrangente. Um outro ponto importante é que não se pode mais falar rigidamente em setor industrial, de serviços e agrícola, pois, na medida em que houve um monumental processo de privatização, esses setores se imbricaram. Por exemplo: indústria de serviços, serviços industriais, agroindústria. Ou seja, há uma interpenetração maior desses serviços na era da financeirização da economia, como busquei mostrar nos meus livros Os Senti-

do do Trabalho e O Caracol e sua Concha. Marx já havia nos mostrado que o professor, por exemplo, se vendesse o seu trabalho para uma empresa capitalista, tornava-se trabalhador produtivo. Quais as consequências da ampliação do trabalho imaterial? A primeira consequência é que o capital transforma tudo em mercadoria. O conhecimento dos trabalhadores passa a agregar valor também. No taylorismo, por exemplo, havia um certo desprezo pela dimensão intelectual do trabalho. Taylor dizia que o trabalhador deveria ser um ‘gorila’ amestrado: viril e forte, mas dócil. A gerência científica elaborava e os trabalhadores executavam. Já o toyotismo diz claramente que o trabalhador dispõe, no chão da fábrica, de um conhecimento da produção que a gerência científica não tem. Por isso, nasceram os ciclos de controle de qualidade, de debates etc.: esses conhecimentos são selecionados pelos gestores e implementados quando podem se transformar em mais lucro. Eu sou inteiramente contra os autores que dizem que o mundo de hoje é o do trabalho imaterial. Isso porque, de certo modo, hoje quase tudo acaba tendo, no fim do processo de trabalho, uma materialidade. Mas não podemos ter uma visão grotesca de que o trabalhador se resume ao trabalho operário industrial, que ainda existe e é importante. O operário de uma empresa do ramo de petróleo, antes, operava quase dentro da caldeira. Hoje, ele opera de um computador e só vai à caldeira quando necessário. O operário é o mesmo, só que, muitas vezes, se parece com o trabalhador ao lado dele, um engenheiro que também opera equipamentos informatizados. Por outro lado, o capitalismo criou, no extremo oposto, um enorme contingente de trabalhadores mais empobrecidos e proletarizados. Qual a diferença entre classe operária e classeque-vive-do-trabalho? A diferença não é conceitual. A classe operária hoje é mais ampla. Marx qualificava a classe operária no século 19 como aquele trabalhador que vende a sua força de trabalho para sobreviver. Na época do Marx, a classe operária tinha majoritariamente a presença no mundo industrial. Só que isso foi em 1850. Hoje a morfologia do trabalho é um mosaico mais variado: há o trabalhador industrial; o do hipermercado; o do telemar-keting. Esse desenho mostra que, além do proletariado industrial, temos um novo proletariado de serviços que depende do seu trabalho para viver, isso sem falar nos trabalhadores informais ou nos que têm vários trabalhos parciais. Foi para tentar compreender esse desenho que eu usei a expressão classe-que-vivedo-trabalho. A ideia é mostrar que o capitalismo não é mais o mesmo e, portanto, a classe trabalhadora também não é a mesma. O André Gorz, em seu livro Adeus ao proletariado, do qual respeitosamente discordei, dizia que estamos vivendo a emergência da nãoclasse dos não-trabalhadores. Criei a expressão ‘classe-que-vive-do-trabalho’ para me contrapor a Gorz. Ao

contrário de vários críticos, eu não nego a existência da classe operária. Se alguém colocar os pés na General Motors, na Fiat ou em locais semelhantes vai ver trabalhadores fabricando carros. Não nos moldes do início do século 20, claro. A crise atual do capitalismo vem sendo considerada uma crise do neoliberalismo. Pode ser um recuo na precarização e flexibilização do trabalho? A crise é muito mais do que uma crise do neoliberalismo. Qualquer tentativa keynesiana está fadada, em médio prazo, ao fracasso, porque fracassou no século 20 em duas enormes experiências. O Estado intervencionista fracassou no keynesianismo tradicional dos anos de 1930 aos anos de 1970, no apogeu do Welfare State. Mais do que isso: a intervenção do Estado para controlar o capital fracassou na União Soviética, que foi mais do que keynesiana porque nasceu de uma revolução socialista e fortaleceu o Estado para controlar o capital. No início dos anos de 1990, vimos o sistema de capital soviético destruir o Estado soviético. A crise atual é, como tem dito Istvan Mészáros, sistêmica e global do sistema de capital e se manifesta em três ou quatro pontos. Primeiro, na monumental destruição da força humana de trabalho em escala global, de tal modo que o trabalho precário e informal tornou-se muito grande. Segundo, é uma crise sistêmica e global porque o nível de destruição ambiental a que chegamos nos coloca no horizonte com a possibilidade do fim da vida humana. Terceiro: no século 20, o capital se desenvolvia por ciclos de crescimento e recessão. Mészáros diz que, desde a década de 1970, vivemos uma crise depressiva e defende que não voltaremos mais para a fase de expansão nem para as fases cíclicas, mas, ao contrário, viveremos um longo ciclo recessivo, mesmo que o epicentro da crise mude. Ou seja, primeiro ela acabou com os países do Sul, depois arrebentou os do Leste Europeu. Agora, o epicentro está nos Estados Unidos, na Europa e no Japão – os gigantes do Norte –, que se apequenaram, não sabem o que fazer. Imaginar que será pelo impacto estatístico, salvando bancos privados, que vamos sair de uma crise sistêmica e estrutural é tapar o sol com um arco furado. Por isso, acredito que, em certo sentido, estamos, no início do século 21, parecidos com o início do século 20: usando uma frase mais ou menos conhecida, “tudo que é sólido parece se liquefazer”. Isso não é uma crise do neoliberalismo: a humanidade precisa recriar um novo modo de produção e um novo modo de vida.

Crise vai além do neoliberalismo: “a humanidade precisa criar um novo modo de produção”

Há autores que defendem que o capital está em crise terminal porque, com o desemprego estrutural, não pode fazer o que o mantém: explorar o trabalho. Mas essa tese aposta no fim da centralidade do trabalho. O que o senhor acha disso? Eu discordo totalmente. Por exemplo, o Toni Negri faz um culto equivocado do trabalho imaterial. E, com isso, chega à conclusão da não mais relevância da teoria do valor. É uma tese eurocêntrica, que não consegue apreender a processualidade complexa geradora do valor. Esses autores têm uma certa influência habermasiana segundo a qual não estamos mais na fase propriamente capitalista, mas numa era comunicacional dominante, o que ele chama de ‘mundo da vida’, em que o trabalho não tem mais relevância central. Acontece que o mundo da vida é um prolongamento do mundo do sistema e, nesse mundo, o trabalho ainda tem presença, quer pelos trabalhadores empregados, quer pelos precarizados, quer pelo bolsão monumental de desempregados que repõem a importância do trabalho como gerador de valor e como espaço de sociabilidade. Ou seja, o capital não sobrevive sem alguma forma de trabalho e o trabalho autônomo e omnilateral só pode florescer sem os constrangimentos do capital. Como se articulam a esfera dos interesses específicos corporativos e a luta anticapitalista no movimento sindical? No final do século 19, os sindicatos eram praticamente sindicatos de ofícios. O século 20 viu nascer as fábricas tayloristas e fordistas, que eram um prolongamento da grande indústria do século 19, e também os sindicatos de massa, que são verticais, porque a indústria era verticalizada. Dos anos de 1970 para cá, houve uma certa horizontalização da produção. Os sindicatos verticais e burocratizados não dão conta mais dessa horizontalização da esfera produtiva em rede. Hoje, em várias partes do mundo, até 50% da classe trabalhadora encontram-se na informali-

Quem é Ricardo Antunes é professor de Sociologia do Trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É autor dos livros O Caracol e sua Concha – ensaios sobre a nova morfologia do trabalho, Os Sentidos do Trabalho, Adeus ao Trabalho?, entre outros.

Reprodução

Sandra Pereira do Rio de Janeiro (RJ)

dade e os sindicatos não conseguem organizá-la. Um outro dado interessante foi a feminização do trabalho ocorrido nos últimos 30 anos, fazendo com que, em alguns países, as mulheres cheguem a ser 70% da força de trabalho. E os sindicatos são, em geral, muito machistas. Um terceiro problema é a questão geracional: há empresas que só contratam trabalhadores jovens, sem experiência sindical. Enfim, é preciso reinventar um sindicato de classe que seja compatível com o século 21. Eu me lembro dos sindicatos dos metalúrgicos do ABC que fizeram um acordo com uma grande montadora que previa que os estáveis não seriam demitidos mas não preservava os empregos dos terceirizados. O líder sindical disse: “Conseguimos uma vitória. Não vai haver demissão dos trabalhadores”. Um jornalista perguntou: “E os terceirizados?” A mesma liderança respondeu: “Eles já são terceirizados mesmo”. Há ainda o problema dos trabalhadores imigrantes, que não são incluídos pelos sindicatos nos países para onde migraram. Portanto, temos que reinventar um sindicalismo de classe que fuja da linha negocial, burocrática e institucional fracassada do século 20. Não pode ser um sindicalismo de vanguarda – que acredita que fará a revolução e as massas vão segui-lo –, mas também não pode ser um sindicalismo burocrático. Precisamos fazer, simultaneamente, luta reivindicatória, social e política. Os sindicatos e os movimentos sociais têm como desafios descortinar as questões essenciais para a humanidade. Para mim, são duas: o trabalho e a questão ambiental. Outro ponto: não há mais uma hierarquia. Para a esquerda do século 20, o primeiro organismo mais importante era o partido, o segundo era o sindicato e o terceiro, os movimentos sociais. Para mim, o mais importante é compreender as questões vitais que tocam na raiz. Por isso o órgão mais importante de luta dos trabalhadores nos anos de 1980 foi a CUT. Qual foi o mais importante desde a década de 1990? O MST. Com todas as dificuldades que tem, o movimento tocou numa questão vital: a posse coletiva da terra, o trabalho coletivo, a vida a partir da terra para a produção e reprodução das suas necessidades básicas. E isso colocou em movimento milhões de pessoas. Por isso o MST se tornou, talvez, o movimento mais importante do mundo. Não adianta ficar na questão abstrata. A nova morfologia do trabalho também nos obriga a pensar outra morfologia dos movimentos sociais. Não estou dizendo que os partidos e os sindicatos perderam

a importância, mas eles estão ainda bastante enferrujados. Como fica a educação nesse contexto? O século 20, sob a égide do taylorismo e do fordismo, viu nascer uma educação parcelada, fragmentária, restritiva, que especializava o trabalhador – até porque as ciências eram especializadas. De 1970 para cá, com a empresa flexível e a desespecialização multifuncional, nasceu, sob a impulsão do capital, a escola flexível. Quanto menos curso, melhor; quanto mais flexível, melhor – porque a indústria e a empresa flexíveis precisam de um trabalhador flexível. Então, em vez de termos um engenheiro com uma formação sólida em Engenharia Civil, faz-se um curso rápido de Engenharia em geral, depois ele faz um outro curso. Em três anos ele é um engenheiro flexível. Ambas são formas trágicas de conceber a educação. A primeira, especializada e fragmentada. A outra, flexível, desumanizada e mercadorizada. Gramsci tem um texto genial sobre o tema. Diz ele: “os trabalhadores precisam de uma escola desinteressada, que dê à criança a possibilidade de adquirir aqueles critérios gerais que servem para o desenvolvimento do caráter. Em suma, uma escola humanista, como entendiam os antigos e, mais recentemente, os homens do Renascimento. Uma escola que não hipoteque o futuro do menino e constranja a sua vontade, sua inteligência, sua consciência e informação a moverse num sentido cujo objetivo seja pré-fixado. Uma escola de liberdade e de livre iniciativa. Não uma escola de escravidão e de orientação mecânica. Também os filhos dos proletários devem possuir diante de si as possibilidades de realizar sua própria individualidade da melhor forma e, por isso, do modo mais produtivo para eles e para a coletividade. A escola profissional não deve transformar-se numa incubadora de pequenos monstros aridamente idos para um ofício sem ideias gerais, sem alma, mas apenas com o olho infalível e a mão firme. Também através da cultura profissional é possível fazer brotar do menino um homem, desde que a cultura seja educativa e não só informativa, ou não só prática e manual”. É isso. Uma escola politécnica não pode ser uma composição de manuais que ensinam técnicos polivalentes. Não pode ser jamais um prolongamento do mercado destrutivo, porque este, cada vez mais, desumaniza a humanidade. (Revista Poli – saúde, educação e trabalho, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio – Fiocruz – www.epsjv.fiocruz.br).


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Fim do diploma expõe interesses e precariedade no jornalismo Emílio Pedroso/Folha Imagem

COMUNICAÇÃO Profissionais e estudantes entendem que decisão foi tomada para atender interesse das grandes empresas de mídia Patrícia Benvenuti, Michelle Amaral e Cristiano Navarro da Redação O EXERCÍCIO DA profissão de jornalista não necessita mais do diploma universitário de habilitação específica. Foi o que decidiram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no dia 17 de junho, em Brasília (DF). O fim do diploma foi pedido pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp) e contou com o apoio de parecer do Ministério Público Federal assinado pela subprocuradora-geral da República, Sandra Cureau. O Decreto Lei nº 972 do ano de 1969 foi derrubado com 8 votos contra, tendo 1 a favor. O Supremo extinguiu o Decreto Lei por entender que a formação específica em jornalismo deve ser dispensada para garantir o exercício pleno das liberdades de expressão e informação. O ministro Gilmar Mendes , relator do caso, comparou de maneira esdrúxula a formação em jornalismo com a culinária, a moda e o corte e costura. “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legi-

Jornalistas e estudantes protestam em Porto Alegre (RS) contra o fim da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão

tima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área”. A decisão do STF desencadeou uma série de manifestações contrárias em diferentes partes do Brasil. Em repúdio, artigos, manifestos e cartas endereçadas ao ministro Gilmar Mendes começaram a ser produzidos logo após o anúncio da decisão. José Carlos Torves, diretor do Departamento de Mobilização da Federação Nacional Fernando Donasci/Folha Imagem

Estudantes também se manifestaram em São Paulo (SP)

dos Jornalistas (Fenaj), explica que essas ações têm como objetivo sensibilizar a sociedade e parlamentares. “Eu acredito que [as manifestações] vão contribuir no momento em que os estudantes se mobilizam em todo o país e sensibilizam o Poder Legislativo, que já começa a tomar medidas que derrubem essa decisão”, afirma. O fato do pedido ter partido de um sindicato patronal apontou rumos para o debate que não giram em torno da liberdade de expressão, mas sim da questão trabalhista e de formação intelectual do jornalista. Para Torves, a decisão do Supremo “serviu de correia de transmissão das grandes mídias do país”, desfavorecendo o profissional. O diretor da Fenaj explica que a medida se deu por causa do distanciamento do Supremo em relação à realidade brasileira, gerado por seu atual presidente. “Gilmar Mendes transformou o STF numa gestão de ‘exceção’ no cenário brasileiro, não é à toa que tivemos vários casos que foram contra a opinião pública, como por exemplo Daniel Dan-

Boom, jornalistas para todos os lados Curso universitário vem sendo o mais procurado nos últimos 20 anos da Redação Durante as décadas de 1990 e 2000, o curso de Jornalismo foi um dos mais procurados pelos alunos que prestam vestibular para ingressar nas universidades. A grande procura nesse período fez com que se proliferassem escolas de jornalismo por todo Brasil. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) contou neste ano um total de 372 universidades com cursos habilitados que ofereceram 46.799 vagas. Em 2008, a Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) anunciou que o curso de jornalismo foi o mais disputado do vestibular na Universidade de São Paulo (USP). Foram 41,63 candidatos para cada vaga, ou seja, 2.538 vestibulandos dis-

putando 60 vagas. Para Hamilton Octávio de Souza, da PUC-SP, ainda existem bons centros de formação. “Há escolas que têm um bom trabalho na área, que são bem conceituadas, que têm um comprometimento no curso com uma visão de jornalismo como atividade de interesse público, e não de interesse privado das empresas. Essas escolas vão continuar tendo os seus alunos e os cursos em funcionamento”, conta o professor. Ele explica que no Jornalismo, assim como em outras categorias, existem bons e maus profissionais formados. Assim, a posse de um diploma não garante a produção de informação de qualidade, isso depende “do compromisso que cada estudante e cada profissional tem com a sociedade”.

Wladymir Ungaretti, professor de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), vê no fim da exigência do diploma uma boa oportunidade para se aprofundar o debate sobre a função social do jornalismo e a necessidade de mudanças na profissão. Em sua opinião, a questão central não é discutir diploma, mas sim a formação dos jornalistas. “Não é possível vocês dizerem que as faculdades são maravilhosas e o jornalismo é ruim, nem que as faculdades são ruins e o jornalismo é maravilhoso”, opina. Ungaretti entende que os currículos implantados, mesmo em universidades tradicionais como a própria UFRGS, atendem primordialmente às necessidades de mercado da grande mídia. “Isso não vai se dar depois do fim do diploma, já é uma realidade. Hoje temos escolas técnicas que formam jornalistas capazes de transmitir infográficos online e desvinculados da realidade”. (CN)

José Carlos Torves, diretor da Fenaj, explica que a medida se deu por causa do distanciamento do Supremo em relação à realidade brasileira, gerado por seu atual presidente tas e a briga de Mendes com o ministro Joaquim Barbosa”, opina. Tal opinião é reafirmada em nota da Fenaj, na qual se diz que “a decisão é um retrocesso institucional e acentua um vergonhoso atrelamento das recentes posições do STF aos interesses da elite brasileira e, neste caso em especial, ao baronato que controla os meios de comunicação do país”. No dia 17 a Fenaj promoverá uma reunião com todos os sindicatos de jornalistas brasileiros para que se crie um calendário de mobilizações em torno da regulamentação da profissão. Debate na acadêmia Na avaliação do professor e chefe do Departamento de Jornalismo da Pontifícia Uni-

versidade Católica (PUC) de São Paulo, Hamilton Octávio de Souza, a decisão do STF afetará todos os profissionais de Jornalismo, porque representa a retirada de uma conquista histórica de regulamentação da profissão. “A categoria retrocede ao que era antes de 69”. Nesse sentido, o jornalista defende a necessidade de se criar uma regulamentação para a categoria. “Uma profissão como essa, que tem uma função social importante, precisa de uma regulamentação, precisa de controle social. A sociedade tem que se proteger contra as empresas de comunicação”, argumenta. A mesma opinião é compartilhada pela estudante de jornalismo Luana Franca, co-

ordenadora da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social (Enecos), que acredita que sem a regulamentação tende a se acentuar a exploração dos profissionais da área, com a consequente “precarização de toda a categoria”. Franca afirma que a Enecos é favorável à não-obrigatoriedade do diploma para exercício do jornalismo justamente por defender bandeiras como a democratização da educação e a qualidade na formação do comunicador. No entanto, a organização não concorda com os argumentos utilizados pelo presidente do STF para embasar a decisão. Segundo ela, Mendes defendeu a queda do diploma para que a profissão fosse desregulamentada, favorecendo assim as grandes empresas de comunicação. Segundo a estudante, é necessário que se inicie uma luta pela regulamentação profissional de todos que atuam no jornalismo brasileiro. “A gente precisa que estudantes e profissionais se unam e discutam uma nova regulamentação da profissão”, defende.

Representação é bastante frágil Pouco mais de 5 mil jornalistas participaram das últimas eleições da Fenaj da Redação Mesmo sem o fim do diploma, a tabela de pisos salariais que consta na página da Fenaj na internet reflete, em parte, a desorganização e a precariedade da categoria. Na relação, constatase que os estados do Amapá, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Pernambuco e Roraima não têm um piso salarial normativo. Em outros estados, há um piso apenas para algumas cidades, como é o caso do Rio de Janeiro. Enquanto há valores definidos para os municípios do interior, a capital fluminense, que concentra um grande número de jornalistas e de empre-

sas de comunicação no Brasil, não apresenta um valor definido. Em relação ao valor dos pisos, existem diferenças significativas entre os valores pagos. Enquanto o piso beira R$ 2 mil em estados como Paraná (R$ 1.961,81) e Alagoas (R$ 1.945,47), o valor vai caindo quando passamos ao Rio Grande do Sul, onde fica em R$ 1.314,00 para jornalistas da capital e R$ 1.087,73 para profissionais do interior, chegando aos R$ 1 mil pagos para jornalistas de Teresina (PI). Sergipe, porém, ocupa a pior posição: no Estado, o piso para todos os jornalistas é de R$ 880,00. As discrepâncias também podem ser vistas dentro de um mesmo Estado. Em São Paulo, a função de assessoria de imprensa tem piso estimado em R$ 1.968,50, o valor mais alto pago aos jornalistas. Profissionais que trabalham em rádio e televisão no interior, porém, têm piso de apenas R$ 861,85. A questão dos valores pagos suscita, ainda, outras dificuldades aos trabalhadores, como é o caso do Pa-

rá. No Estado, o piso da categoria está estimado em R$ 1.416,68. Entretanto, o Sindicato dos Jornalistas acusa as empresas de utilizarem o piso como teto salarial, e não mais como referência, o que impede que os profissionais recebam além desse valor. A resposta para os baixos salários está na fragilidade da representação dos sindicatos e federação dos jornalistas. Apesar de calcular em torno de 80 mil profissionais em todo país, a última eleição para direção da Fenaj contou com os votos de apenas 5.077 jornalistas, o que representa um quorum de 34,32% dos associados aptos a votar. “Então, a relação diploma e precarização da profissão e diploma e piso salarial não me parece correta. Inclusive porque é parte do fato de o sindicato dos jornalistas, como todos os sindicatos em geral, ter um peso mínimo de barganha. Por exemplo, a diretoria dessa Fenaj foi eleita com um total de cerca de 3.000 votos.” critica Wladymir Ungaretti, professor da UFRGS. (PB)


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brasil Adriana Medeiros

Parto não é negócio MEDICINA Fechada pela Vigilância Sanitária e perseguida pelo Cremerj, Casa de Parto David Capistrano Filho mobiliza sociedade e unifica movimento de enfermeiros Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) AS CASAS DE parto são unidades de acompanhamento de gravidez de baixo risco, coordenadas por enfermeiros obstetras e estruturadas no conceito de que o nascimento é um evento natural, usualmente sem a necessidade de intervenção cirúrgica. A Casa de Parto David Capistrano Filho, no Rio de Janeiro (RJ), funciona desde 2004. Já realizou mais de 1.300 partos, com índice zero de mortes maternas e apenas dois casos de natimortos – bebês nascidos sem vida. A eficiência da unidade é elogiada por secretarias de saúde, sindicatos e clientes. Entretanto, ela sofre ameaça de fechamento desde a sua fundação. Em junho, a casa foi fechada pela Vigilância Sanitária por conta de uma série de supostas irregularidades em setores e equipamentos específicos. Dias depois, foi reaberta por liminar. “Somos apenas um órgão de fiscalização e temos que prever riscos”, alegou Natalia Costa Alves, superintendente de Vigilância Sanitária, em audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Apoiada por inúmeros setores da sociedade, mesmo reaberta, a unidade permanece perseguida, principalmente pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj). Um extenso box com texto veemente contra a reabertura da casa foi publicado no final de junho no jornal O Globo pelo Conselho, inimigo da iniciativa desde sua fundação.

Para o Cremerj, todo parto tem risco e deve ser orientado por um médico. Os adeptos das casas de parto sustentam que o nascimento é um evento natural, e não médico, e pode ser administrado por um enfermeiro obstetra A nota revoltou a comunidade dos enfermeiros pelo questionável conteúdo. O Conselho acusa as casas de parto de ferirem a legislação federal (ignorando que são, há dez anos, determinação da portaria 985 do próprio Ministério da Saúde). O texto também diz que as unidades não têm estrutura para atender “qualquer eventualidade”, que poderiam ocorrer em até 20% dos casos. Não explicam, entretanto, o que chamam de “qualquer eventualidade”, nem apontam a fonte do índice. Para o Cremerj, todo parto tem risco e deve ser orientado por um médico. Os adeptos das casas de parto sustentam que o nascimento é um evento natural, e não médico, e pode ser administrado por um enfermeiro obstetra – conceito que encontra respaldo internacional unânime. Como prova, apontam os índices da iniciativa no Brasil, de mortalidade sempre próximos de zero. No país, a lei 7.498 dá competência ao enfermeiro de realizar o parto natural. Manifestação Não há provas de que a suspensão promovida pela Vigilância Sanitária tenha sido feita por pressão do Cremerj. Entretanto, militantes

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Regularização já

Quando o interesse é do capital, as coisas se resolvem rapidamente nos poderes de Brasília; quando a coisa é do povo, o que manda é a enrolação. Faz muito tempo que o governo federal prometeu resolver a situação das comunidades quilombolas: é sim a titulação das terras dos negros e o investimento em políticas públicas sociais para essas comunidades. É vontade política e recurso público para quem mais precisa. Chega de enganação!

Quanto

40 partos são realizados por mês na casa David Capistrano Filho

estão certos de que houve ingerência. “Eu tenho certeza. Eles precisam fazer a reserva de mercado deles”, acusa Pedro Jesus da Silva, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro (Sindenfrj). No dia 21 de junho, houve uma grande passeata em Copacabana, com cerca de 900 pessoas, entre as quais parlamentares, artistas, enfermeiros e militantes de casas de parto de outros estados. Em frente ao hotel Copacabana Palace, manifestantes e pedestres dançaram ciranda e soltaram balões alaranjados. Entidades representativas dos enfermeiros ressaltaram a importância do movimento no sentido de reforçar a unidade da classe. O evento contou com a presença da deputada estadual Inês Pandelo (PT) e dos deputados federais Chico Alencar (Psol) e Marina Maggessi (PPS), entre outros. A David Capistrano Filho já havia sido reaberta a partir de denúncias do Sindenfrj. Entretanto, apenas um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a ser assinado nos próximos dias entre as secretarias Municipal e Estadual de Saúde, a Defesa Civil e a diretoria da casa, vai garantir a continuidade definitiva dos trabalhos. Os indicadores da Casa impressionam. A cada mês, são feitos cerca de 820 exames pré-natal e 40 partos. Todos os casos de risco são encaminhados à unidade de referência, a maternidade Alexander

Em 21 de junho, passeata reuniu cerca de 900 manifestantes em Copacabana (RJ)

“O enfermeiro, além de fazer faculdade quatro anos, tem especialização de dois anos em obstetrícia. A hegemonia médica acha que eles é que têm que curar. Parto não é cura, é natural”, defende presidente do sindicato dos enfermeiros

Mais marolinha

Os dados são do próprio governo (Ipea): a produção industrial de maio deste ano foi 12% menor do que a produção industrial de maio de 2008. O acumulado médio do quadrimestre deu uma redução de 14,6%, mas em alguns setores a queda da produção chegou perto dos 30%. Menos produção, menos emprego, menos consumo, menos investimento, menos imposto, menos crescimento. É só uma marolinha!

Safadeza industrial

Fleming, distante sete quilômetros. Nunca houve morte. “Os índices são irrefutáveis. Você só combate um discurso refratário com evidências científicas”, diz Leila Azevedo, diretora da Casa. Lucro como meta Acusa-se frequentemente o Cremerj de perseguir as casas de parto por interesse de mercado. A justificativa não seria apenas, portanto, sua concepção conservadora de que partos precisam de doutores. Os médicos estariam interessados também nos lucros das cirurgias de cesariana, das consultas, do acompanhamento. “É uma concepção ideológica e mercadológica. Há de se convir que, se você pode resolver tudo em 40 minutos, com uma cesariana, e continuar com seu consultório particular, com seu emAdriana Medeiros

Desde sua criação, a Casa de Parto David Capistrano Filho já realizou 1.300 partos

prego público e ganhar dinheiro, por que não?”, questiona Leila. Os militantes das casas de parto contam que um representante do Conselho teria visitado, no final de junho, o Ministério da Saúde para exigir o fim das unidades ou a alocação de um médico na administração das casas, com mudança de nome para Centro de Nascimento. O Ministério teria manifestado o apoio às casas, até pela sintonia com as orientações internacionais e pelo sucesso dos indicadores. Já o Cremerj tem uma portaria que proíbe o médico de atuar nas casas de parto. Entre as causas da perseguição dos médicos haveria também um preconceito com a Enfermagem, que seria um fazer de menor valor. “O enfermeiro, além de fazer faculdade quatro anos, tem especialização de dois anos em obstetrícia. A hegemonia médica acha que eles é que têm que curar. Parto não é cura, é natural”, defende Pedro. Os clientes são unânimes em apontar a qualidade do atendimento que recebem. “É maravilhoso. Um atendimento que não se encontra em nenhuma outra maternidade do Rio. Desde o início, os profissionais sempre me atenderam com paciência, com educação, explicando como é o procedimento”, explica Soraine Luiza, grávida de oito meses. Leila não acredita em nova derrota das casas. “Agora já ficou configurado que é uma luta mercadológica, de poder. Então, fica muito ruim hoje você fechar de novo uma casa de parto. Vai ficar configurada a perseguição”, diz.

Recorde mundial em cesarianas teria motivado iniciativa Ministério da Saúde incentiva criação de casas de parto desde 1999 do Rio de Janeiro (RJ) O Brasil é frequentemente apontado como o país de maior volume de partos com cirurgia. Representam 44% dos nascimentos, mas, em partos realizados via plano de saúde, o índice chega a 81%. No sistema público, é de 26%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 15%. No Rio de Janeiro (RJ), desde os anos de 1980, a prefeitura tinha um grupo de estudos destinado a discutir as condições de assistência ao parto. A Rede Feminista incentivava o debate na cidade. Em 1990, a prefeitura abre um projeto piloto, a maternidade Leila Diniz, já com uma visão mais humanizada do parto. A mulher já podia beber líquidos, ter a presença do acompanhante e enfermagem obstétrica atuando na assistência direta ao parto. Nacionalmente, o Ministério da Saúde lançou a portaria 985 em 1999, incentivando a criação das casas de parto. A primeira

delas foi criada em Sapopemba (SP). No Rio, a David Capistrano foi construída em 2004, em Realengo. Hoje, com uma nova unidade na Bahia, há 23 no país. A de Juiz de Fora está fechada por ingerência do reitor da universidade na qual foi construída. A de Brasília já sofreu riscos de ter destino semelhante. A mobilização popular inibiu o fechamento. No início de junho, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) procuraram o Ministério da Saúde propondo alterações na portaria que re-

gulamenta o funcionamento das casas. Querem agora que as casas funcionem dentro de hospitais. A Febrasgo considera o parto sem obstetra “inadmissível e temerário”. Entre os dias 24 e 26 de junho, no 6º Congresso Brasileiro de Enfermagem Obstétrica e Neonatal (Cobeon), em Teresina (PI), enfermeiros do país inteiro divulgaram requisições de abertura de mais casas de parto no país. A David Capistrano organiza, na internet, um abaixoassinado de apoio às casas. Das 23 que existem, apenas cinco seriam administradas somente por enfermeiros. (LU) Adriana Medeiros

Os empresários pediram, e o governo federal reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados de diversos bens de consumo, com o objetivo de baixar preços, aumentar as vendas e evitar o desemprego. Na maioria dos produtos, no entanto, os industriais não repassaram a redução dos impostos para os consumidores, aumentaram sim as suas margens de lucro. O que fazer com esses malandrinhos?

Visão pós-moderna

Mais uma vez o Palácio do Planalto faz uma interpretação semiótica dos escândalos do Senado Federal: considera apenas um problema de imagem. Na verdade, os desmandos com o dinheiro público envolvem contratações irregulares de empresas, pagamento de salário acima dos limites legais, nomeações privilegiadas e nepotismo disfarçado. Não adianta melhorar a imagem sem alterar o que está errado.

Concessão errada

A empresa espanhola Telefônica continua batendo recordes de reclamações, por cobrar tarifas acima do correto, interrupções nos serviços do Speedy e péssimo atendimento aos usuários. Não se trata apenas de problema técnico ou de falta de investimento no sistema, mas da ausência de idoneidade da empresa para continuar com esse serviço público. Por que a Anatel não tira a concessão da Telefônica?

Direita midiática

A destituição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, pelas forças armadas e setores conservadores do Judiciário e do Congresso Nacional, foi interpretada por inúmeros governos e pela imprensa nacional e internacional como sendo um “golpe de Estado” típico, uma violência contra a democracia. No entanto, a revista Veja, da Editora Abril, considerou a ação militar “constitucional”. Visão golpista é apelido!

Alerta ambiental

Em entrevista exclusiva para a revista Caros Amigos, edição de julho, a ex-ministra do Meio Ambiente e senadora do PT-AC, Marina Silva, alerta que “o setor mais atrasado do agronegócio quer mudar toda a legislação ambiental” que protege a Amazônia. Tudo leva a crer que a sede exportadora de madeira, carne, soja, álcool e minérios é insaciável – e a ação dos lobbies da destruição tomou conta do Congresso Nacional.

Alerta médico

Dos 625 casos de gripe suína confirmados pelo Ministério da Saúde no Brasil, até o final de junho, quase a metade (308 casos) está no Estado de São Paulo, embora a única morte tenha ocorrido no Rio Grande do Sul. A maior preocupação do setor é com a eventual explosão da gripe nas regiões com rede pública insuficiente para o atendimento médico de urgência, especialmente na periferia da capital paulista.

100% estatal

No Brasil, o índice de partos com cirurgia chega a 44%

Reunidos em assembleia no dia 27 de junho, os petroleiros do Estado do Rio de Janeiro reafirmaram, por unanimidade, o fortalecimento da campanha “O petróleo tem que ser nosso”, sobre a exploração na camada do pré-sal, e da luta por uma Petrobras 100% estatal. Além disso, aprovaram repúdio à diretoria de Recursos Humanos da empresa por ter punido petroleiros que fizeram greve na Refinaria de Manguinhos. A luta continua!


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cultura

Um Dom Quixote do idioma guarani Daniel Cassol

LITERATURA Dom Félix de Guarania, poeta e escritor paraguaio, luta para preservar língua originária e resiste à dominação eurocêntrica Daniel Cassol correspondente em Assunção (Paraguai) PARA ALGUNS, o guarani é um obstáculo. Atribui-se a ele o entorpecimento do mecanismo intelectual e a dificuldade que a massa parece sentir em adaptar-se aos métodos europeus de trabalho. O remédio se deduz óbvio: matar o guarani. Atacando a fala se espera modificar a inteligência. Ensinando uma gramática europeia ao povo se espera europeizá-lo. No início do século 20, o jornalista e escritor anarquista Rafael Barrett, espanhol que viveu no Paraguai nessa época, já percebia que no projeto de dominação do Paraguai constava a morte do idioma nativo. Porém, neste início de século 21, estima-se que mais de 90% da população paraguaia ainda fale o guarani “jopara”, mesclado com o espanhol. Idioma de resistência, o guarani permaneceu na cultura do país, ainda que presente apenas nas conversas de camponeses e trabalhadores da capital – sendo ainda uma língua dos paraguaios pobres. Ainda relegado à sua marginalidade, porém, o guarani foi reconhecido como língua oficial do Paraguai em 1992. Agora em 2009, entrou para a lista de idiomas oficiais do Mercosul. “Custou uma longa luta”, fala um dos principais protagonistas desta batalha pela conservação e difusão do idioma nativo. É Félix Giménez Gómez, de 84 anos, que na sua modesta casa em Lambaré, região metropolitana de Assunção, caminha em passos lentos apoiado pela filha, Mercedez. Mas poucos o conhecem pelo nome completo. Bengala, longa barba branca, Dom Félix de Guarania, poeta e escritor paraguaio, é o Dom Quixote da cultura guarani. Um homem que desafiou o autoritarismo com a mesma perseverança com a qual hoje supera as limitações de seu corpo que dificultam seu trabalho. Militante comunista, foi perseguido e preso por três ditaduras, e na mais longa delas – a de Alfredo Stroessner – teve de viver 26 anos fora do seu país. Nunca deixou de trabalhar em suas poesias, novelas, ensino do idioma e traduções de clássicos da literatura para o guarani. O seu mais recente trabalho demorou dois anos para ficar pronto: a tradução de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Segundo Dom Félix, o Museu Cervantino solicitou exemplares do livro – o guarani seria o único idioma para o qual Dom Quixote ainda não havia sido traduzido. “Em guarani, há tudo. Não precisamos de outra língua”, afirma Dom Félix ao ser perguntado sobre como faz para traduzir palavras que não existem no idioma nativo. Defensor da autonomia do guarani, nas suas traduções ele busca sempre uma saída para não recorrer ao espanhol, e dessa posição intelectual critica a forma como historicamente se ensinou o guarani nas escolas paraguaias. “Improvisou-se o

ensino, os professores não estavam bem preparados. Havia muita influência do espanhol, o que prejudicava”, diz. Filho de camponeses pobres, nasceu no ano de 1924 em Paraguarai, interior do país. Teve de interromper seus estudos três vezes – em Medicina, Direito e Letras – por ser preso pelas ditaduras de turno, em razão de sua atuação política. Exilado na União Soviética em 1968, Félix de Guarania traduziu Maiakovski para o guarani e ensinou o idioma para professores. Suas inúmeras traduções publicadas vão de Shakespeare a Martín Fierro, passando pelo hino da Internacional. Também é autor de poemas, novelas, teatros, dicionários. Nos próximos meses deve lançar um livro de contos para crianças, intitulado Aprenda guarani lendo. Tanto trabalho tem uma explicação: Dom Félix acredita que a permanência e a difusão do guarani devem passar pela criação de uma tradição escrita desse idioma basicamente falado. “O escrito fixa a língua”, afirma. Com os dedos retorcidos, de tanto utilizar a máquina de escrever em sua vida, Dom Félix também enxerga e escuta pouco. Por isso quase não acompanha o noticiário, além de não gostar dos jornais de hoje em dia, cheios de publicidade e que só falam em futebol. As limitações da idade o obrigaram a desenvolver um custoso método de trabalho, que consiste em ditar seus trabalhos para a filha Mercedez, sua assistente e divulgadora do seu trabalho. Foi assim, por exemplo, que Dom Félix traduziu o Dom Quixote.

Os olhos de Dom Félix chegam a brilhar quando fala do guarani, que considera “o ponto de união de vários países da América do Sul” Mas essa dificuldade particular parece não lhe incomodar. Os olhos de Dom Félix chegam a brilhar quando fala do guarani, que considera “o ponto de união de vários países da América do Sul”. Ao repórter brasileiro, fala das semelhanças entre o guarani paraguaio e o tupi-guarani. E se alegra ao traduzir nomes de cidades, rios e lugares brasileiros. “O guarani se manteve forte no Paraguai porque se produziu a mestiçagem. Os filhos de espanhóis com mulheres indígenas ficavam com as mães. As crianças aprenderam primeiro o guarani”, explica Dom Félix, que também diz haver um preconceito histórico contra o idioma. “O guarani foi uma língua marginalizada. Mães e pais não queriam que seus filhos falassem, porque achavam que o guarani os rebaixava socialmente”, conta. Lutador da palavra, Dom Félix não perde de vista a luta social. Tanto que em novembro de 2008 filiou-se ao Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS). “Sigo sempre na luta”, diz. Incansável, trabalha em um projeto no mínimo ousado: um dicionário etimológico no qual pretende explicar a origem e o significado das palavras em guarani. O livro já está com cem páginas – e isso porque Dom Félix acaba de terminar a letra “A”. O tempo, para o Dom Quixote guarani, parece ser mesmo uma mera convenção.

Aos 84 anos, Dom Félix, militante perseguido por três ditaduras, segue em defesa do idioma nativo paraguaio

PASQUIM

Cariocas celebram 40 anos de O Pasquim

Mauricio Scerni

MEMÓRIA Em função do talento de seus integrantes, o jornal driblava a ditadura com criatividade e revolucionava a maneira de se produzir informação Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) Em 1969, o Brasil mergulhava em um dos mais negros períodos de sua história, marcado pela repressão mais covarde da ditadura civil-militar (1964-1985). Contraditoriamente, surgia no país uma das mais incríveis expressões de criatividade, humor, informação e combatividade: a publicação independente O Pasquim. No dia 23 de junho, um jantar no Bar Lagoa, no Rio de Janeiro (RJ), marcou os 40 anos do lançamento do projeto que redesenhou a imprensa e o humor brasileiros e ajudou a derrubar o regime autoritário. No festivo jantar, foram lançados o terceiro volume do livro Antologia do Pasquim e Pasquim 40 anos, da editora carioca Desiderata. O primeiro conta com 50 edições da publicação, de 1973 a 1974. No segundo, 40 capas de O Pasquim, escolhidas a dedo, foram mescladas com textos inéditos de Millôr Fernandes, Chico Caruso, Jaguar e Sérgio Augusto. O evento contou com a presença de inúmeros artistas, políticos e jornalistas – incluindo os de veí-

culos que cresceram a partir da conivência com a ditadura, tão combatida pela publicação. “O Pasquim foi importante não só politicamente ao, por exemplo, liderar a campanha pela anistia. Também renovou a linguagem jornalística e influenciou toda a geração que veio em seguida”, comenta o cartunista Nani. “Foi ele que trouxe a palavra ecologia ao Brasil e começou a criar o sentimento de preservação ecológica”, completa. Tornou-se lugar-comum lembrar a frase de Millôr, de que, se o jornal durasse três meses, não seria independente. Durou muito mais, muito em função do talento de seus integrantes, que com criatividade driblavam a ditadura e revolucionavam a maneira de se produzir informação. Buscavam um humor refinado e combativo. “Era uma coisa de momento histórico. Não era só a qualidade dos integrantes que impressionava, mas dos entrevistados também. A gente tinha o Chico Buarque e o Vinicius de Moraes dando entrevista. A época era outra”, lembra Sérgio Augusto, responsável pela seleção dos textos dos livros lançados. Mauricio Scerni

O ratinho Sig, mascote do jornal

O cartunista Jaguar: emoção e muito chopp

“Acho difícil comparar. É claro que temos a ironia refinada, o enfoque político. Mas eles eram mais corajosos, enfrentavam a ditadura. E fazer jornal é muito mais difícil. A gente pode gravar e editar depois”, comentou Felipe Andreoli, repórter do CQC que cobria o jantar Sobre o motivo do sucesso da publicação, há certa unanimidade de que não bastou a reunião de talentos numa redação. A maioria remete às circunstancias históricas o sucesso de O Pasquim. “O Brasil estava precisando de um Pasquim. As circunstâncias é a história que cria. Se você reunisse quatro jovens como os Beatles, hoje, eles não fariam tanto sucesso”, compara Ziraldo. Os ex-integrantes de O Pasquim comentaram sobre a pouca combatividade da mídia contemporânea com a mesma ironia presente nos textos que produziam. Citaram como causas a ausência de um inimigo claro, como a ditadura, e a cooptação ideológica, entre outras. “A essência do humor é a liberdade. Hoje existe um outro tipo de censura, a do politicamente correto”, acusou Nani. Quando perguntados sobre possíveis seguidores no cenário midiático atual, pouco se citou. O programa

Casseta e Planeta teria surgido de uma publicação semelhante, mas não seria o melhor exemplo de humor combativo. “Você imaginou alguma vez O Pasquim na Globo?”, perguntou Sergio Augusto. O programa CQC, da TV Bandeirantes, foi muitas vezes comparado ao Pasquim e elogiado por muitos como uma tentativa de se fazer humor com crítica ao cenário político, sem apequenar a inteligência do espectador. “Acho difícil comparar. É claro que temos a ironia refinada, o enfoque político. Mas eles eram mais corajosos, enfrentavam a ditadura. E fazer jornal é muito mais difícil. A gente pode gravar e editar depois”, comentou Felipe Andreoli, repórter do CQC que cobria o jantar. O clima de festa seguiu por horas, regado a reencontros emocionados e muito chopp. “Precisávamos de três dias para comemorar isso”, resumiu uma fã de Ziraldo, antes de conseguir dele uma foto.


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Um ataque à participação popular Yamil Gonzales

GOLPE EM HONDURAS Segundo movimentos sociais do país centro-americano, presidente deposto no dia 28 de junho buscava ampliar o espaço do povo nas decisões nacionais Dafne Melo e Igor Ojeda da Redação O ROTEIRO PARECIA um tanto desgastado. Afinal, o fim da Guerra Fria e a queda da União Soviética permaneciam no distante ano de 1991. Mesmo com a tentativa de se tirar Hugo Chávez da presidência venezuelana em abril de 2002, não se esperava que um golpe de Estado do tipo “clássico” ainda teria lugar na América Latina. Muito menos em tempos de Barack Obama. Mas ele veio, em Honduras, 28 de junho, dia em que o presidente Manuel Zelaya foi sequestrado por militares e “deportado” para a Costa Rica. O motivo? Zelaya queria se perpetuar no poder e, para alcançar tal objetivo, estava agindo na ilegalidade. Logo, a democracia hondurenha estava em risco. “O golpe veio por causa do projeto de abertura democrática que o presidente propunha”, discorda veementemente Juan Barahona, presidente da Federação Unitária de Trabalhadores de Honduras (FUTH) e coordenador do Bloco Popular, uma rede de organizações de esquerda. “Os grupos de poder desse país deram um golpe de Estado porque o presidente estava dando participação real ao povo”, reforça Wendy Cruz, da Via Campesina em Honduras. Tudo começou em 2005, quando Manuel Zelaya, militante antigo do Partido Liberal, de centro-direita, se elegeu presidente. Desde a redemocratização do país, há quase três décadas, o sistema político-eleitoral de Honduras se caracteriza pela existência, na prática, de um bipartidarismo. Revezam-se no poder o Partido Nacional e o Liberal, os mais tradicionais do país e ambos de direita. Reviravolta Foi a partir do giro que Zelaya promoveu em suas políticas internas e externas (leia mais na pág. 10), aproximando-se dos movimentos sociais hondurenhos e de governantes como Chávez, que a tensão que culminou no golpe de 28 de junho teve início. Mas o estopim foi a proposta presidencial, ancorada em demanda histórica das organizações, de se mudar a atual Constituição do país. Para tal, Zelaya sugeriu que, no dia 28, em uma espécie de plebiscito (de comparecimento não-obrigatório em um país onde o voto é obrigatório), a população decidiria se, nas eleições gerais de novembro de 2009, voltaria a ser consultada sobre a convocação ou não de uma

Assembleia Constituinte (leia matéria na pág. 10). A partir de então, Zelaya e os movimentos puseram em marcha a campanha em favor da “quarta urna” – as outras três serviriam para eleger o novo presidente, os deputados e as autoridades locais. A oposição (boa parte dela formada por integrantes do próprio Partido Liberal), imediatamente começou a jogar contra. A saída encontrada foi, além de tachar a iniciativa presidencial de ilegal e inconstitucional, aprovar no Congresso Nacional uma lei proibindo a consulta. Em seguida, a Corte Suprema de Justiça a declarou ilegal, sendo imitada pelo Tribunal Supremo Eleitoral e a Procuradoria Geral. Crise institucional Com a negativa de Zelaya de cumprir tais determinações, a crise institucional estava instalada. E se agravou ainda mais quando o chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, general Romeo Vázquez, negou-se a distribuir o material eleitoral para os pontos de votação. No dia 24, o presidente hondurenho o destituiu, enquanto a Corte Suprema ordenou sua recondução ao cargo. Dois dias depois, Zelaya e integrantes de organizações populares “resgataram”, da sede da Força Aérea, as urnas e as cédulas que haviam sido apreendidas pelo Ministério Público. No dia 28, quando tudo estava preparado, veio o golpe. Depois da expulsão de Zelaya, o Congresso elegeu como novo mandatário Roberto Micheletti, presidente da casa e também do Partido Liberal. “Tal saída, por meio de uma forma violenta, foi injusta não só para o presidente, mas mais ainda para o povo hondurenho, que pela primeira vez seria consultado realmente sobre seu destino. Um povo humilde, submetido e levado às urnas sempre sem explicação”, lamen-

Foi a partir do giro que Zelaya promoveu em suas políticas internas e externas, aproximando-se dos movimentos sociais hondurenhos e de governantes como Chávez, que a tensão que culminou no golpe de 28 de junho teve início ta Gioconda Perla, consulesa de Honduras no Rio de Janeiro. “Estávamos há 30 anos em democracia, depois de muito sofrimento e golpes de Estado, por isso não imaginávamos que isso fosse ocorrer”, completa. Para os representantes de movimentos sociais de Honduras ouvidos pelo Brasil de Fato, no entanto, a suposta intenção de Zelaya de se ree-

Manifestação de apoio a Zelaya: pela primeira vez, povo seria consultado sobre seu destino

leger não foi o real motivo do golpe de Estado levado a cabo pela direita. A verdadeira razão estaria no temor de ocorrerem alterações na atual Constituição do país, que, para as organizações populares, garante o enriquecimento das elites locais. Resistência e repressão Segundo Juan Barahona, as mobilizações contra o golpe de Estado estão cada dia maiores. “O país está paralisado, não há comércio, nada. As estradas estão bloqueadas”, diz. Quando atendeu a reportagem, o presidente da FUTH participava de uma mobilização próxima ao Palácio Presidencial, na capital Tegucigalpa. “Há umas 9 mil pessoas. Estamos a dois quarteirões do Palácio, mas há um bloqueio do Exército. Não se tem permitido que as pessoas cheguem às manifestações. Mas esperamos que a resistência se fortaleça”. No entanto, segundo os movimentos sociais, a repressão por parte do governo de fato cresce na mesma proporção que a resistência ao golpe. “A situação é crítica, estamos vivendo em uma constante intranquilidade de repressão, de toques de recolher, de não-permissão de livre trânsito às pessoas que vêm da área rural, de nãopermissão da livre expressão. Na manifestação do dia 29, em que estavam mais de 50 mil pessoas, nos reprimiram para nos tirar à força de lá e, para isso, jogaram bombas de gás lacrimogêneo, ferindo mais de 50 pessoas, algumas com armas de brinquedo”, conta Wendy Cruz, da Via Campesina. De acordo com Gioconda Perla, os hondurenhos que estão fora do país não estão conseguindo se comunicar muito bem com os que estão resistindo. “O povo hondurenho foi privado de comunicação. Cortaram a luz elétrica em muitos lugares. O que não permite o uso de computadores. Os celulares são muito frágeis, às vezes não pegam. Só temos algumas coisas claras pelas televisões internacionais. Estamos entrando nas rádios nacionais pela internet, mas elas não estão transmitindo nenhuma notícia, dizem que nada acontece, que há normalidade nas ruas”, reclama a consulesa.

A tomada do Estado vem de muito antes Justiça, Congresso gundo ele, os militares e os parlamentares que aparee Ministério cem à frente dos acontecimentos dos últimos dias esPúblico tão sendo utilizados por essa classe dominante. hondurenhos não precisaram ser dissolvidos; já Justiça estavam nas mãos hondurenha emitiu 25 ordens da direita de captura e ajuizamento para da Redação os principais Se a forma com que o gol- líderes populares pe de Estado em Honduras foi executado pode ser con- do país, entre eles, siderada clássica, o mesmo Juan Barahona e se pode dizer de seus protagonistas. O presidente de- Carlos Reyes posto, embora tivesse origem liberal, vinha propondo e pondo em prática medidas populares. Já os militares que o tiraram da presidência são sustentados pela elite econômica do país. “Os grupos de poder em Honduras são totalmente reacionários. São formados principalmente por empresários que controlam os meios de comunicação do país”, explica Juan Barahona, presidente da Federação Unitária de Trabalhadores de Honduras (FUTH) e coordenador do Bloco Popular, uma rede de organizações de esquerda. De acordo com Wendy Cruz, da Via Campesina em Honduras, o poder econômico na nação centro-americana está monopolizado por 13 famílias, entre elas, “os Kafati, Ferrari, Facuse, Villedas, Larach, Rosental, que mantêm sequestradas todas as instituições do Estado e, inclusive, têm a suas ordens a Corte Suprema de Justiça e o Congresso Nacional da República”, denuncia.

Ordens de prisão Carlos Reyes, secretáriogeral do Sindicato de Trabalhadores da Indústria das Bebidas e Similares (STIBYS) e integrante do Bloco Popular, explica que o golpe de Estado de 28 de junho começou, na realidade, com “o golpe de Estado que as classes dominantes foram dando em cada uma das instituições hondurenhas. Na Corte Suprema, na Promotoria, no Congresso. Agora, tomaram a presidência. Dizem que não é golpe de Estado porque não dissolveram as instituições. Mas eles já as vinham tomando. Não precisam dissolvê-las”. Se-

Wendy Cruz dá o exemplo. De acordo com ela, no dia 30, a Justiça hondurenha emitiu 25 ordens de captura e ajuizamento para os principais líderes populares do país, entre eles, Juan Barahona e Carlos Reyes. Ela lembra, ainda, que ordens judiciais da Corte Suprema de Justiça e recursos de amparo do Ministério Público tentaram evitar a realização da consulta prevista para o dia 28 (leia matéria acima). “Nosso presidente

não tinha que acatar, já que a enquete é legal, no marco da nossa Lei de Participação Cidadã”, revela. Aprovada pelo Congresso em 2006, a norma tinha como objetivo promover a democracia participativa no país, através de mecanismos como plebiscitos, referendos e até assembleias populares abertas. Divisões No entanto, a mesma casa que aprovou tal lei aceitou o golpe de Estado contra o presidente Manuel Zelaya e nomeou Roberto Micheletti como novo mandatário. Ou seja, mesmo integrantes do Partido Liberal, de Zelaya, apoiaram sua deposição. Isso se explica, segundo Wendy, porque a agremiação está dividida em vários grupos, entre eles, os que são parte da elite dominante do país, como o de Micheletti. Para Gioconda Perla, consulesa de Honduras no Rio de Janeiro, a ação do presidente interino se deu porque ele havia perdido, “de maneira exorbitante”, as eleições internas para definir o candidato do partido para as eleições presidenciais de novembro. O escolhido foi Elvin Santos, ex-vice presidente de Zelaya. No último ano, no entanto, ambos se desentenderam. (DM e IO)

E os EUA? da Redação Já é senso comum. Golpes de Estado na América Latina contra presidentes que vinham tomando medidas populares têm a participação certa dos EUA. No entanto, no caso hondurenho, ainda não se pode arriscar uma afirmação contundente nesse sentido. Isso porque o presidente estadunidense, Barack Obama, foi um dos primeiros a condenar o golpe de 28 de junho contra Manuel Zelaya, afirmando que reconhecia apenas este como presidente de Honduras. No dia 29, Obama qualificou a deposição de Zelaya como ilegal e um “terrível precedente” para a região. “A declaração de Obama foi importante, mas ainda continuamos preocupados pela posição dos EUA, porque Hillary Clinton [a secretária de Estado estadunidense] disse que não queria opinar sobre o golpe de Estado em Honduras porque não estava segura se foi um golpe de Estado. Isso significa que há desacordos entre eles”, analisa Wendy Cruz, da Via Campesina em Honduras. De fato, no mesmo dia das declarações do presidente estadunidense, Clinton evitou endossar a visão de que Zelaya havia sido deposto ilegalmente e que deveria retornar ao cargo imediatamente. Para Nildo Ouriques, economista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não existe a possibilidade de haver um golpe de Estado na América Latina sem o apoio dos EUA. “Essas condenações internacionais entram mais no campo da encenação. O que pode reverter a situação é a força de mobilização dos movimentos sociais hondurenhos”, opina. (DM e IO)


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A luta do povo por uma Constituinte Yamil Gonzales

GOLPE EM HONDURAS Considerado o estopim da tomada do Estado, realização de consulta tinha como objetivo definir se o país queria uma nova Constituição Dafne Melo e Igor Ojeda da Redação O DIA EM que os movimentos sociais hondurenhos dariam mais um passo em direção à realização de uma reivindicação histórica – a convocação de uma Assembleia Constituinte – acabou tornando-se aquele em que a América Latina assistiu seu primeiro golpe de Estado (bem-sucedido) do século 21. A despeito do que grande parte da imprensa corporativa tem afirmado, a consulta não estava relacionada com a reeleição do presidente Manuel Zelaya Rosales. Conforme explica a integrante da Via Campesina em Honduras, Wendy Cruz, no referendo previsto para o dia 28 de junho o povo hondurenho se pronunciaria sobre a instalação de uma urna extra no pleito presidencial marcado para novembro. Se o “sim” vencesse, seria então realizado no mesmo dia das eleições gerais um segundo referendo, no qual se decidiria pela convocação ou não de uma Constituinte. Para Nildo Ouriques, economista e professor da Universidade Federal de Santa

Catarina (UFSC), a simples possibilidade de se elevar o nível da democracia hondurenha de meramente representativa para participativa foi o suficiente para acirrar os ânimos das elites do país. De acordo com Gioconda Perla, consulesa de Honduras no Rio de Janeiro (RJ), a consulta “era um processo em que o povo iria dizer se queria ou não mudar a Constituição. Todos teriam o direito de dizer sim ou não”, avalia. Democratização

Para ela, a justificativa de que o golpe foi feito para evitar um novo mandato de Zelaya é absurda. “Pode-se estar contra a reeleição, mas esse não é um argumento válido para se tomar o poder por meio de uma ação brutal e fora da lei”, aponta.

A Constituinte é uma reivindicação histórica dos movimentos sociais, que veem na abertura do processo uma brecha para se democratizar as estruturas jurídicopolíticas do país Hondurenhos protestam: justificativa de golpe é absurda e busca apenas barrar democratização

Tal motivação, inclusive, não teria fundamento, como lembra o jornalista espanhol Ignacio Escolar, em artigo publicado no jornal Público. Ele escreve que a Carta Magna hondurenha estabelece um único mandato presidencial, de quatro anos de duração. Portanto, Zelaya não poderia se apresentar pa-

ra uma eventual reeleição nas eleições de novembro, pois a alteração na Constituição que permitiria tal mecanismo ainda não estaria aprovada. Em novembro, apenas a possibilidade de se mudar a Carta Magna no futuro estaria sendo votada. Segundo Wendy, a Constituinte é uma reivindicação

histórica dos movimentos sociais, que veem na abertura do processo pelo presidente Zelaya uma brecha para se democratizar as estruturas jurídico-políticas de um país onde “os grupos de poder vêm submetendo sua população a 100 anos de bipartidismo e manipulando a ‘democracia’ a seu favor”. Por is-

so, continua, “os movimentos exigem que se faça uma nova Constituição da República, onde todos os setores da sociedade hondurenha possam estar representados de forma real”. Reivindicação

Nos moldes do que foi feito em outros países do conti-

nente, como Equador, Bolívia e Venezuela, ela defende que todos os diferentes setores da sociedade hondurenha – camponeses, indígenas, negros, jovens, mulheres, sindicalistas, operários e empresários – estejam representados numa eventual Constituinte. Um passo que os golpistas encaram como perigo iminente. “Os protagonistas do golpe temem porque sabem que o povo hondurenho não está disposto a continuar sob o jugo da oligarquia. Podem ter nos marginalizado por um tempo, mas agora exigimos ser consultados sobre tudo que seja transcendente neste país”, defende Wendy. O hondurenho Carlos Reyes, secretário-geral do Sindicato de Trabalhadores da Indústria das Bebidas e Similares (STIBYS) e integrante do Bloco Popular, uma rede de organizações de esquerda, observa que a atual Constituição foi redigida entre 1981 e 1982, época em que o país estava totalmente alinhado com os Estados Unidos. Estes fizeram de Honduras a principal base antissandinista no continente, ou seja, a guerra de baixa intensidade levada a cabo contra a Revolução Sandinista na vizinha Nicarágua. “A Constituição atual foi redigida nesses marcos”, afirma. O resultado é que a Carta, apoiada pelos EUA, deu toda a base legal para a implementação da política neoliberal, permitindo privatizações e a entrega dos recursos naturais. Em 2005, após Honduras assinar o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, as críticas dos movimentos em relação à legislação permissiva do país aumentou. “Zelaya passou a coincidir com nosso ponto de vista sobre a necessidade de uma nova Constituição, pois a atual não permite que se altere nada”, finaliza.

WEF/CC

Um presidente contraditório Filho de latifundiário, empresário e militante histórico do Partido Liberal, mandatário vinha tomando medidas populares da Redação A julgar pela origem do presidente de Honduras, um golpe de Estado pela direita pareceria um tanto improvável, se não fossem os caminhos que tomaram seu governo. Manuel Zelaya Rosales, de 56 anos, deposto no dia 28 de junho, é filho de latifundiário e tem quase quatro décadas de militância no Partido Liberal, de centro-direita e um dos mais tradicionais do país. Agroindustrial, foi sindicalista patronal e entrou oficialmente para a política em 1985, quando se elegeu deputado estadual pela província de Olancho. Desde então, ocupou diversos cargos no Executivo e Legislativo, até se eleger presidente da República em novembro de 2005 pelo próprio Partido Liberal, vencendo o Partido Nacional. Entretanto, uma vez no comando do país, Zelaya não cumpriu exatamente o roteiro previsto pelas elites hondurenhas. Segundo Wendy Cruz, da Via Campesina em Honduras, o presidente – que em campanha defendia o combate à pobreza – parou o processo de privatizações, como os das empresas nacionais de energia elétrica, do sistema portuário e do de saúde. Em 2008, aderiu à Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), passando a ser visto internacionalmente como um aliado dos governos mais progressistas da América Latina. O economista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina Nildo Ouriques acrescenta que, ao optar pela Al-

ba, o presidente enfraqueceu a adesão do país ao Acordo de Livre Comércio da América Central e República Dominicana (Cafta, na sigla em inglês), um tratado de livre comércio assinado por Honduras em 2005, que ainda inclui Costa Rica, El Salvador, Guatemala, República Dominicana e Nicarágua, esta última, também pertencente à Alba. Antineoliberal

“A estratégia do imperialismo para a América Central era o Cafta”, explica Ouriques. Entretanto, segundo ele, esse objetivo fracassou, e a entrada de Honduras na Alba é parte disso. Para o economista, a postura do presidente foi pragmática, buscando efetivar os desafios a que se propôs. “Zelaya era um liberal que, diante da conjuntura latino-americana e da posição que seu país ocupa, resolveu tomar medidas que aproximam Honduras do bloco progressista e ampliam a democracia participativa”. Em entrevista ao jornal espanhol El País um dia antes do golpe, Zelaya confirma essa análise: “Eu pensei em fazer mudanças dentro do esquema neoliberal, mas os ricos não cedem um milímetro”, afirmou. Sobre suas alianças, mostrou-se firme. “[Hugo] Chávez tem me ajudado na crise. Esse apoio eu busquei. Não foram eles que me buscaram. A princípio houve países que se opuseram, não sei por quê. Chávez é um democrata, faz eleições todos os dias. Mas, agora, já aceitaram minha aproximação com Fidel Castro e Chávez”, opinou.

Politicamente, ainda que os movimentos sociais o qualifiquem mais frequentemente como de centro, ele se autodeclarou de “centro-esquerda como governo, porque pratico ideias liberais, mas com uma tendência socialista, social, a fim de integrar os cidadãos aos seus direitos”. Na época em que assinou a entrada de Honduras na Alba – o que foi postergado até o último minuto pelo Congresso –, deu respostas semelhantes. Argumentou que não teve opção, que ninguém quis lhe ajudar na sua luta contra a pobreza, salvo os países da Alba.

Apoio popular

O governo afirma que o dinheiro obtido pela Alba tem sido usado em projetos sociais, já que essa é uma das condições para que o petróleo venezuelano chegue ao país num preço abaixo do mercado, com grandes prazos para o pagamento e a juros baixos. Wendy Cruz, da Via Campesina, afirma que essas medidas vinham sendo apoiadas pelos movimentos. Após o golpe, o apoio tem sido total, exigindo sua restituição ao poder. “Estamos apoiando o presidente não porque sejamos de seu partido, mas porque acreditamos que devemos derrotar esse modelo econômico neoliberal que não permite aos povos a liberdade de decidir suas próprias políticas de desenvolvimento. Se não pusermos em marcha transformações sociais, isso é impossível de se conseguir”.

O presidente deposto Manuel Zelaya

Para ela, o mandatário estava abrindo brechas para que o povo hondurenho conquistasse algumas melhorias, fruto também das pressões das organizações sociais. De acordo com Nildo Ouriques, “dentre os países da América Central,

Honduras é o que tem movimentos sociais mais organizados”. Para o professor, é importante entender que as atitudes não eram de cima para baixo, mas estavam ancoradas nas reivindicações dos movimentos. (DM e IO)

País viveu inúmeros golpes no século 20 da Redação A história de Honduras no século 20 traz todos os elementos que aparecem recorrentemente na história de outros países do continente: golpes de Estado, exploração do modelo agroexportador e repressão aos movimentos populares. De 1824 a 1929, o país foi governado por dois partidos políticos, os conservadores e os liberais; e os golpes de Estado sempre foram um expediente adotado pelo partido derrotado. O início do século 20 foi marcado pela chegada das empresas agrícolas estadunidenses, como a United Fruit e a Cuyamel Fruit Company, que investiram na produção de banana e, de quebra, passaram a exercer grande influência na economia e na vida política do país. Em 1924, o país era o maior produtor da fruta no mun-

do, que ia quase toda para os Estados Unidos, tornando a economia do país visceralmente vinculada aos interesses estadunidenses. Revoltas Em 1918, o Partido Conservador foi extinto, dando lugar ao Partido Nacional (PN). Até hoje, este e o Partido Liberal (PL), do presidente deposto Manuel Zelaya Rosales, alternamse no poder. Nessa mesma época, começam a ocorrer as primeiras revoltas e a organização de trabalhadores rurais, explorados e alijados de direitos trabalhistas. De 1929 a 1933, foi presidente do país o liberal Vicente Mejía Colindres, deposto em um golpe pelo general Tiburcio Carías Andino, do PN, apoiado pela indústria bananeira. Ele ficou no poder até 1949, num período conhecido por forte repressão. Depois, o país passou por um período de gover-

nos constitucionais até 1963, com nova deposição do liberal Ramón Villeda Morales, que ensaiou algumas medidas sociais diante das fortes pressões populares. Foi o suficiente para entrar em cena o coronel Oswaldo López Arellano, apoiado pelos Estados Unidos, que permaneceu no governo até 1974. Nesse período, além da repressão, a economia afundou. Até o fim da década, outros dois golpes ocorreriam. Na virada para os anos de 1980, é o coronel Policarpo Paz García quem está no poder e será o encarregado de conter os ânimos do país enquanto a vizinha Nicarágua passava pela Revolução Sandinista. Novas eleições foram chamadas e uma Constituição, aprovada pelos EUA, foi feita. Desde então, os governos foram todos constitucionais e devidamente alinhados aos interesses estadunidenses na região. (DM e IO)


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áfrica

“Invasão” da China na África muda a geopolítica do continente PERSPECTIVAS Conflitos no Congo, Sudão e Zimbábue só podem ser compreendidos sob a perspectiva da competição entre EUA e chineses Joan Canela i Barrull de Barcelona (Espanha) “UMA EMPRESA chinesa construirá a terceira ponte de Bamako”, “Foi inaugurado o Fundo China-África de Desenvolvimento com 5 milhões de dólares”, ou “Dois são feridos pela polícia durante greve em empresa chinesa”. Manchetes como essas podem ser lidas diariamente em jornais africanos. Isso porque o continente se encontra mergulhado em uma verdadeira “febre amarela”, em que todas as esperanças e medos parecem vir do Oriente distante. Não é para menos. Em 2007, o gigante asiático investiu 4,5 bilhões de dólares em infraestrutura na África, mais que todos os países do G-8 juntos, e o comércio bilateral entre ambas as regiões aumenta a um ritmo vertiginoso ano após ano – entre 30 e 50% –, ultrapassando a marca de 80 bilhões de euros em 2008. Outro exemplo é o número de empresas chinesas presentes no continente, que dobrou nos últimos anos e já soma 2 mil. E não se trata apenas de crescimento quantitativo, mas também qualitativo, como destaca Ryaan Meyer, diretor do Projeto China e África do Instituto Sul-africano de Relações Internacionais. “Os bancos chineses têm se concentrado em financiar projetos energéticos, de infraestrutura e recursos pri-

mários, mas estou certo de que se moverão para outras áreas, como a agricultura e o sistema financeiro”, afirma. Considerando a atual crise financeira internacional – da qual a China parece estar mais protegida –, “esse processo pode ainda ser acelerado”, opina Jing Gu, pesquisadora da Universidade de Sussex (Inglaterra), pois “os investimentos europeus e estadunidenses estão retornando a seus países de origem”. Nesse ritmo, a China superará em poucos anos os países ocidentais como principal parceiro econômico da maioria dos países africanos.

A presença chinesa ao sul do Saara não é apenas comercial. Também crescem os projetos de cooperação, os intercâmbios culturais, a presença militar e a influência política Conflito de interesses Mas a presença chinesa ao sul do Saara não é apenas comercial. Também crescem os projetos de cooperação,

os intercâmbios culturais, a presença militar e a influência política. Sobretudo esta última – exemplificada pela recente negativa da África do Sul em permitir a entrada do Dalai Lama em seu território – começa a criar tensões entre a China e os países ocidentais, encabeçados pelos EUA. Somente sob a perspectiva da competição entre essas potências – uma espécie de nova guerra fria, nas palavras do jornalista estadunidense William Engdahl – podem ser compreendidos conflitos “locais” como o sudanês, o zimbabuense e a prolongada guerra sangrenta do oeste do Congo, que já custou mais de 5 milhões de vidas. “A China oferece uma alternativa política e econômica segura, em relação ao Ocidente, para muitos países africanos, principalmente para regimes condenados ao ostracismo como o do Sudão e do Zimbábue”, explica o analista David Shin. Assim, diferente dos EUA e da União Europeia, que condenam e embargam certos países não-democráticos (ainda que não a todos), a

China simplesmente estabelece um “poder suave” – segundo palavras do pesquisador Stephen Marks – em que não exclui ninguém. Com uma exceção: os países que reconhecem Taiwan.

de Estudos Africanos Iraxis Bello, por exemplo, destaca que “o crescimento africano de 7% dos últimos anos teria sido impossível sem a ajuda da China” e que agora “os africanos contam com novas infraestruturas imprescindíveis, como ruas, aeroportos e hospitais”. Já Stephen Muyakwa, economista e presidente da Rede Comercial da Sociedade Civil da Zâmbia, chama a atenção para o “perigo do crédito barato e sem as condições chinesas”, o que, a seu ver, p o d e “gerar uma nova bolha de dívida externa” e “mais corrupção”. Ainda assim, o fato de países africanos terem uma alternativa ao comércio com potências ocidentais, seja a China, a Índia ou o Brasil, é visto como “uma oportunidade” pelos economistas. “Se, no final, esse comércio é bom ou não depende de como os africanos o aproveitam”, diz William Engdahl.

Benefício ou risco? Mas a influência chinesa na África pode ajudar no desenvolvimento do continente esquecido? Nesse ponto, os analistas divergem totalmente. A pesquisadora do Grupo

Acordo de mineração A África pode utilizar seu potencial de mineração para assegurar seu desenvolvimento? Pela análise da história de seu primeiro meio século de independência, a res-

EUROPA

Reprodução

A volta das Camisas Negras ANÁLISE Sequência de acontecimentos fascistas desencadeados pela crise desnuda a pele racista e xenófoba da Europa Kostis Damianakis Analistas apontam que o atual colapso financeiro, que veio numa conjuntura de crise generalizada (ambiental, alimentar, energética), possui um paralelo com o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Na Europa, durante as décadas 1920 e 1930, a incerteza político-financeira culminou com o aparecimento de ideologias que saíram do mesmo molde de onde veio a proteção da identidade nacional e cristã dos estados e da ameaça de uma nova teoria de emancipação da classe trabalhadora que surgia com o estabelecimento do comunismo na União Soviética. O fascismo e o nacional-socialismo (nazismo) na Itália e na Alemanha, o falangismo na Espanha, entre outros “muros” ideológicos, foram erguidos e deram o exemplo para a construção literal dos mesmos mais adiante, como em Berlim e, ainda hoje, na sa(n)grada terra da Palestina, onde o Estado Sionista de Israel constrói o muro da vergonha. Algumas das políticas propostas e já adotadas para sair da crise atual são semelhantes às do ambiente sombrio anterior à Segunda Guerra Mundial. Um exemplo é o aumento do corporativismo econômico e do protecionismo estatal, que hoje parece uma farsa, sendo praticados por países como os EUA, que há dé-

posta seria “não”. Mas as coisas poderiam mudar. Ou, pelo menos, é o que se deduz deste que, até o momento, é o acordo de desenvolvimento de mineração mais caro na história do continente, segundo o qual duas empresas chinesas se comprometem a investir 6,6 bilhões de euros no Congo, em troca dos direitos de exploração de ricos depósitos de cobre e cobalto. O investimento não será apenas em infraestrutura industrial, mas inclui a construção de estradas, escolas e hospitais diretamente, sem passar pela gestão do governo congolês. Esse acordo é aceitável? É uma questão difícil. O congolês Laurent Okitonembo, advogado e ativista de direitos humanos, não hesita em qualificar o contrato como “leonino” e ressalta a hipocrisia de denunciar “as ações predatórias de empresas ocidentais, permitindo, ao mesmo tempo, que os chineses façam o mesmo”. Essa é a mesma opinião do FMI, que suspendeu o perdão de uma dívida de bilhões até que o contrato de mineração “injusto” seja revisado. Essa decisão trouxe surpresa e mal-estar ao governo de Kinshasa, no qual se sabe que essa dívida foi contraída pelo ditador Mobutu Sese Seko sem que o FMI lhe pedisse qualquer explicação sobre a utilização do dinheiro. “É fácil entender os chineses quando dizem aos ocidentais ‘vocês estiveram lá por 50 anos e o que fizeram?’ Não há sequer uma estrada entre Kinshasa e Goma”, disse recentemente um alto funcionário congolês ao Financial Times. (Berria.Info)

cadas pregaram e impuseram o neoliberalismo e o livre comércio como a evolução natural de um mundo dito democrático e igualitário. Ao mesmo tempo, aumenta hipocritamente o controle do Estado no setor financeiro e de comunicação, fato que não seria necessariamente negativo se não visasse apenas à garantia dos lucros para as elites e ao controle da informação que chega à sociedade.

A crise chegou num momento oportuno, e já dezenas de aviões estão sendo fretados com destino ao Oriente e à África, cheios metade de imigrantes, metade de policiais Os estados europeus, especificamente, hoje utilizam esse poder de controle para convencer as partes da sociedade ainda cientes que uma das soluções de curto prazo para amenizar os impactos da crise é “devolver” os imigran-

tes, ou seja, o “excedente” da classe trabalhadora, para suas terras originárias. Os governos nacionais e a União Europeia estão, há muito tempo, elaborando as medidas para implementar esse “grande êxodo” inverso. A crise chegou num momento oportuno, e já dezenas de aviões estão sendo fretados com destino ao Oriente e à África, cheios metade de imigrantes, metade de policiais. A mãode-obra “de programa” que vem de países destruídos pela guerra ou pelas políticas neoliberais impostas pelos EUA e pela União Europeia através do Banco Mundial e do FMI recebe até mil euros “de brinde” para, supostamente, começar uma vida nova na sua terra natal, mesmo que tenham que pagar até dez vezes mais aos traficantes de pessoas para chegar na Europa. Essa campanha conta também com a maioria dos garotos-de-ouro do jornalismo, que, com reportagens e artigos sensacionalistas, elevam as práticas do propagandista de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, a outros patamares. As palavras nos jornais nacionais das nove horas, desde Madri até Atenas, perdem seu sentido individual e formam duplas inseparáveis no subconsciente da sociedade: crise-crime (uma fomenta o outro), luta-lucros (necessária para voltar a ter), iminente-imigrantes (a perda do caráter nacional por causa deles), segregação-segurança (uma como condição para a outra), amenizar-ameaça (através de perseguição, muros e cercas), oriundos-Oriente (os problemas sempre dali), empregoempobrecimento (o primeiro hoje não exclui a possibilidade do outro) e policiamento-polí-

Homem veste uniforme da Guarda Nacional Italiana

tica (o único jeito de fazer). Não é de surpreender então que um mês antes das eleições do Parlamento Europeu, no começo de junho, pesquisas de opinião pública em vários países apontaram que entre 50% e 70% da população desejavam a redução nos números de imigrantes trabalhadores. O reflexo disso nas urnas, fomentado, dizem alguns, pelo maior índice de abstenção (57%) desde a primeira eleição, em 1979, foi o reforço da direita e a disparada da extrema direita em quase todos os 27 países da União Europeia. Ao mesmo tempo, os ditos socialistas da espécie do partido trabalhista da Inglaterra perderam 18% das suas cadeiras no parlamento. É uma situação constrangedora para o velho continente que traz a seguinte reflexão – isso é um vestido xenofóbico e

racista da sociedade europeia ou é sua pele mesmo? A sociedade, envergonhada, defende a primeira hipótese no caso da forçada expulsão, em meados de junho, de 100 imigrantes romenos de Belfast (Irlanda do Norte), após ataques com pedras e tijolos por jovens desempregados e desiludidos com as políticas implementadas após a reconciliação de protestantes e católicos. A mesma posição é sustentada no episódio da tortura de dois imigrantes de Bangladesh, espancados e amarrados atrás de uma moto em movimento, suspeitos de roubo de comida, também em junho, na Grécia, a antiga terra do conceito do estrangeiro sagrado. A hipótese do vestido também é lembrada ao se analisar a posição do Partido Nacional da República Tcheca, que, na propaganda eleitoral de junho, exi-

giu uma “solução final” para o problema dos ciganos, como se não fossem suficientes os mais de meio milhão de ciganos mortos nos campos de concentração nazistas. O que talvez alerte para o fato de que tudo isso não é apenas um vestido, mas sim uma velha e conhecida pele, é o caso italiano do corrupto magnata e hoje primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, que conseguiu a absorção dos fascistas do país, liderados por Gianfranco Fini, na Casa das Liberdades, o seu partido. Fini, líder da fascista Aliança Nacional, atual presidente da Câmara dos Deputados e herdeiro político de Benito Mussolini, está prestes a herdar mais uma dinastia após a aposentadoria do seu novo padrinho, Berlusconi. Este, que fez da caça de imigrantes uma política central do seu governo, teve ganhos consideráveis nas eleições europeias, mesmo mergulhado até o pescoço em escândalos financeiros e pessoais. Tudo isso acontece ao mesmo tempo em que o governo prepara uma medida provisória que permitiria o patrulhamento de grupos de voluntários, como a Guarda Nacional Italiana, nas ruas de cidades e vilarejos, para ajudar na detenção de imigrantes ilegais. Sobre o fato de os uniformes da Guarda Nacional lembrarem muito as fascistas Camisas Negras de Mussolini, a sociedade europeia, envergonhada, afirma que é uma mera coincidência. Kostis Damianakis, grego, vive no Brasil, onde é membro do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Para entender Camisas Negras – Grupo voluntário paramilitar de segurança nacional formado na década de 1920 por fascistas italianos.


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internacional Reprodução

Conjuntura exige defesa da soberania do povo iraniano ORIENTE MÉDIO Defender o Irã contra o imperialismo não significa apoio irrestrito ao regime, dizem analistas Renato Godoy de Toledo da Redação APÓS SEMANAS de protestos, a situação política no Irã parece estar definida, ainda que a fratura exposta na sociedade e no clero islâmico pareça ser definitiva. No dia 29 de junho, o Conselho de Guardiões da Constituição concluiu a recontagem de cerca de 10% dos votos e ratificou a reelei-

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pessoas, aproximadamente, morreram nas manifestações contra as supostas fraudes eleitorais ção do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Agora, os religiosos que apoiam o presidente anunciaram que a questão eleitoral está encerrada e, portanto, as manifestações devem ser combatidas pela República Islâmica. O clérigo Ahmad Khatami chegou a defender a condenação dos líderes das passeatas por estarem desrespeitando os princípios que fundaram o atual sistema iraniano. As manifestações contra supostas fraudes no processo eleitoral vitimaram cerca de 20 pessoas desde o dia 12 de junho. A posse de Ahmadinejad já

Conflitos internos e externos foram combustível para manifestações estimuladas por forças imperialistas

é dada como certa nos próximos dias e depende apenas da nomeação do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que não esconde sua simpatia pelo mandatário. Os países centrais do Ocidente prometem sanções ao Irã. A Grã-Bretanha acusa o país de ter prendido arbitrariamente nove funcionários de sua embaixada em Teerã. Até o final desta edição, cinco haviam sido libertados. O Irã afirma que deteve os britânicos por estes terem encorajado os protestos. Contra ingerência

Nesse quadro, analistas apontam que a esquerda Reprodução

“Se houve fraude ou não, é um acontecimento residual que não ofusca a vitória líquida e certa do presidente. Houve uma reação fabricada pela mídia e círculos imperialistas”, afirma secretário do PCdoB

O presidente reeleito Mahmoud Ahmadinejad

Conflito expõe lados da mesma moeda Embates políticos não questionam República Islâmica, diz professor da Redação O professor de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Paulo Hilu, especialista em Oriente Médio, acredita que a atual crise no Irã não deve comprometer o caráter islâmico da República iraniana. Isso porque as animosidades têm se dado dentro da arena da República Islâmica, consolidada em 1979. Para o professor, é provável que as irregularidades tenham acontecido no plei-

“Duvido que, se isso ocorresse em Botsuana, teria uma linha em algum jornal”, compara antropólogo da UFF to iraniano e as manifestações têm sido deflagradas por uma série de fatores. “Tudo indica que tenha havido irregularidade. Essas mobilizações têm refletido um descontentamento com o jogo político dentro da República Islâmica e a luta por uma abertura maior que permita a participação de outras correntes políticas”, analisa Hilu. Mesmo com essa pressão, exercida sobretudo por jovens, o que define o atual momento de conflito no Irã é a disputa entre grupos com discordâncias que não extrapolam os limites da República Islâmica.

“São duas facções [que disputam] dentro do mesmo jogo, uma mais liberal e outra mais conservadora [representadas por Mousavi e Ahmadinejad, respectivamente]. Claro que, com o desenrolar das coisas, podem surgir reivindicações laicas. Mas até o momento a disputa é entre pessoas que estão participando da República Islâmica. O Mousavi, por exemplo, foi ministro da época da Guerra Irã-Iraque [1980-1988]”, avalia. Apesar de esta ser a maior crise iraniana desde a Revolução de 1979, Hilu relata que os protestos têm

mundial tem uma tarefa que concilia duas vertentes. Primeiro, o rechaço a qualquer ingerência externa sobre a autodeterminação do povo iraniano, que, de fato, decidiu conceder mais um mandato a Ahmadinejad. Por outro lado, deve prestar solidariedade aos anseios de organizações iranianas que lutam por um Estado laico e por maior participação e transparência. Desde o triunfo da Revolução Islâmica em 1979, em que a esquerda desempenhou importante papel, muitos grupos passaram a ser perseguidos no país, tal como o Partido Comunista (Tudh), ilegal desde o regime do Xá, que antecedeu o atual. José Reinaldo Carvalho, secretário de Relações Internacionais do PCdoB, que mantém laços com os comunistas do Irã, afirma que o partido está sendo solidário às suas reivindicações de legalização e pelo fim das perseguições. Carvalho conta que seu partido recebeu informações de que o grupo iraniano tem se posicionado contra Ahmadinejad por conta da prisão de líderes. Eles têm se somado a algumas manifestações e realizado outras independentes, já que boa parte das mobilizações têm como pretexto o apoio a Mousavi, segundo colocado no pleito e defensor de um liberalismo dentro da ordem islâmica. No entanto, no atual momento geopolítico mundial, Carvalho reforça a importância de se posicionar em favor da soberania do povo iraniano que reelegeu Ahmadinejad.

sido comuns no Irã, sobretudo os de estudantes. Sobre a atenção internacional sobre as irregularidades eleitorais no país do Oriente Médio, o professor diz estar convicto de que as motivações não estão ligadas a um zelo pela democracia. “Para a opinião pública internacional, o que menos importa é a questão da fraude. É um jogo geoestratégico em que o Irã é um agente que, se cometer algo, os EUA e a Europa vão cair em cima. Não se trata de nenhuma preocupação com relação à fraude. Duvido que, se isso ocorresse em Botsuana, teria uma linha em algum jornal”, diz. Teocracia?

Paulo Hilu diz considerar equivocado o uso do termo “teocracia” para definir o sistema de governo iraniano. “Não se trata de uma teocracia, é uma República Islâmica. Quem manda na república não é só o clero. Ahmadinejad e Mousavi não são clérigos. Aliás, há questionamentos dentro do próprio clero sobre qual é a legitimidade de se ter uma república islâmica”, relata. (RGT)

“Na nosssa opinião houve um grande comparecimento em favor da reeleição. Depois, apareceram denúncias de que poderia ter havido fraudes. Se houve fraude ou não, é um acontecimento residual que não ofusca a vitória líquida e certa do presidente. Houve uma reação fabricada pela mídia e círculos imperialistas. Com notícias falsas, falavam que era possível que Ahmadinejad poderia perder a eleição”, aponta Carvalho, para quem a perspectiva errônea de derrota do presidente exaltou os ânimos após a divulgação dos resultados. “Como isso não aconteceu, houve uma amplificação de um problema residual e instrumentalizaram as manifestações. Esta é mais uma tentativa do imperialismo de realizar revoluções coloridas, por conta da posição anti-imperialista do Irã, como fizeram nas ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso e do leste europeu”, exemplifica. A suposta falta de democracia e transparência é um argumento falho dos EUA, de acordo com Carvalho. “O repúdio dos EUA não tem nada a ver com republicanismo ou laicismo. Porque eles defendem regimes mais bárbaros no próprio Oriente Médio, como Egito e Arábia Saudita, que não são democracias”, compara. Duas vertentes

O secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, salienta que defender o Irã pontualmente contra o imperialismo não representa

uma conivência com possíveis restrições democráticas no país. Consultado pela reportagem, Pomar comentou sobre a situação do país, mas salientou que são opiniões pessoais, já que o partido não debateu oficialmente o assunto. “Apoiar o governo do Irã quando se confronta com o imperialismo não é contraditório com defender a validade de demandas democráticas sustentadas por setores da sociedade iraniana. Quem afirma que uma coisa é contra a outra são, exatamente, os EUA”, define. Em sua análise, o petista aponta duas posições acerca do Irã que podem parecer excludentes, mas são confluentes. “Há duas questões envolvidas: os conflitos internos no Irã, de classe, políticos, ideológicos, religiosos; e os conflitos internacionais nos quais o Irã está envolvido, regionais e mundiais. Estas são as duas variáveis. Os temas da democracia dizem respeito à primeira variável, os temas do anti-imperialismo dizem respeito à segunda. E os cruzamentos são mais complicados do que parecem”, explica. Sobre a legitimidade do processo eleitoral iraniano, a posição de Pomar coincide com a de José Reinaldo. “Entendo que o atual presidente ganhou a eleição e que há uma tentativa internacional de desqualificar o resultado, por conta das posições do atual presidente, não por conta do resultado, que coincidiu com pesquisas feitas por institutos da própria direita norte-americana”, avalia.

Revolução Islâmica derrubou regime pró-Ocidente da Redação O processo que culminou com o fim do regime do Xá Mohammad Reza Pahlevi, no Irã, entrou para a história como “Revolução Islâmica”. Contudo, as forças que participaram das lutas contra aquela ditadura não eram compostas apenas por grupos religiosos. Tendências de esquerda e marxistas empenharam papel importante na derrubada do regime, mas perderam parte da hegemonia para os islâmicos. No final da década de 1970, a esquerda mundial manifestava sua solidariedade à luta dos iranianos contra o Xá, que comandava uma gestão marcada pela autocracia e a subserviência ao Ocidente. “Os EUA tinham no regime do Xá o seu principal aliado no Oriente Médio, ao lado de Israel. Com a revolução, a importância de Israel aumentou. Eles perderam o apoio de um regime instrumentalizado e bem armado

e, por isso, não descansam há 30 anos enquanto não derrubarem o atual regime”, analisa José Reinaldo Carvalho, secretário de Relações Internacionais do PCdoB. José Reinaldo lembra que, no processo revolucionário, o caráter islâmico não estava definido. “Começou como uma revolução democrático-popular. Os aiatolás disputavam com os setores laicos, ainda não estava dado que o Estado seria teocrático”, lembra. O dirigente recorda que a esquerda internacional teve papel ativo de solidariedade. “No Brasil, ainda estávamos na luta contra a ditadura. Víamos cerca de 4 milhões de pessoas nas ruas de Teerã. Aquilo teve uma ressonância muito grande em todo o mundo. Despertou muitas mobilizações de solidariedade na Europa. A esquerda teve um papel muito importante para derrubar um dos governos mais tirânicos e pró-imperialistas do mundo”, conclui. (RGT)


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