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Circulação Nacional

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 6 • Número 256

São Paulo, de 24 a 30 de janeiro de 2008

R$ 2,00 www.brasildefato.com.br Liliane Braga

João Zinclar

TRANSPOSIÇÃO Em entrevista exclusiva, frei Luiz Cappio diz que Lula “cospe no prato em que comeu” por ter dado as costas aos movimentos sociais depois de ter chegado ao poder, e insiste: a transposição não vai acontecer. Pág. 8

INTERNACIONAL Médicos formados em Cuba próximos de terem diploma reconhecido no Brasil. Pág. 9

CULTURA O Hip-hop do rapper cubano Alayo retrata os problemas da periferia cubana. Pág. 12

Corporações de ensino colocam apostilas na rede pública Grandes corporações do setor da educação estão avançando sobre o mercado de materiais didáticos e entrando nas escolas públicas. Tratase do ensino apostilado, fenômeno que já alcança 25% da rede privada e 129 das 645 prefeituras de São Paulo. Dentre suas principais características está a má qualidade, já que os materiais não passam pela avaliação do governo, e a inviabilidade econômica. O Fundeb oferece às escolas públicas livros a uma média de R$ 5 a R$ 6, enquanto as apostilas ultrapassam os R$ 145. Pág. 3

Família exige investigação sobre assassinato de Jango Dois fatos importantes podem ajudar a elucidar o sinistro golpe militar de 1964 e a nebulosa morte do presidente deposto João Goulart (Jango). Primeiro, o Congresso estadunidense tornou público documentos da CIA que comprovam a participação do governo Lyndon Jonhson na conspiração. Agora, a recente confissão de Manoel Neira Barrero, ex-integrante dos órgãos de repressão da ditadura uruguaia, de que o ex-

presidente João Goulart foi envenenado. Esses fatos reforçam as suspeitas dos familiares de que Jango foi morto por determinação dos EUA. Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, João Vicente Goulart, filho do ex-presidente, fala sobre o processo aberto pela família responsabilizando o governo dos EUA pela morte de seu pai e cobra providências do governo brasileiro para esclarecer o caso. Págs. 4 e 5 Leonardo Melgarejo

Governo Lula descumpre, de novo, meta de assentamentos

Governo do RS faz ação militar para reprimir sem-terra

Os dados da reforma agrária de 2007 comprovam que o governo Lula não cumpriu as metas de assentamentos, a exemplo do que vem ocorrendo nos últimos anos. A não-atualização dos índices de produtividade (referentes à primeira metade da década de 1970) continua sendo um dos principais entraves para a realização de desapropriações, segundo analistas. O próprio ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, afirma que a atualização do índice seria importante, mas diz que o governo precisa saber o momento político adequado para isso, já que existe a pressão da bancada ruralista. Pág. 6

A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), promoveu uma mega operação policial para invadir o assentamento Novo Sarandi, do MST, no dia 17. Alegando estar atrás de um rádio, uma câmera, R$ 200 e um anel que teriam sido furtados de um fazendeiro da região, mil policiais armados cercaram o assentamento. Depois de muita negociação, a polícia fez a revista sem armas pesadas e nenhum dos bens procurados foi encontrado. Alguns dias depois, cerca de 500 militantes do movimento ocuparam uma fazenda na região metropolitana de Porto Alegre que pertencia ao traficante Juan Carlos Abadia. Pág. 7

A mando da governadora Yeda Crusius, cerca de mil policiais ameaçaram invadir o assentamento Novo Sarandi (RS)

Tom Maruko/CC

No Chile, povo Mapuche resiste à repressão do governo Bachelet pitalizada após mais de 90 dias em greve de fome. A internação foi feita à revelia de sua família, que não teve permissão para visitar a ativista. O protesto busca

pressionar as autoridades por um novo julgamento e reivindica a liberdade dos presos políticos mapuche e a desmilitarização das áreas de conflito. Pág. 9 Guido/CC

Condenada a 10 anos de prisão pela Lei Antiterrorista, em vigência no Chile desde a ditadura Pinochet, a líder mapuche Patricia Troncoso Robles foi hos-

Conversas na capital: Evo Morales sob a ótica de La Paz Um senhor na praça, uma faxineira, uma vendedora de sanduíche de lingüiça, um dono de barbearia, uma universitária, uma dona de carrinho de suco de laranja e dois engraxates. “Uma curiosidade: o que você acha do governo Evo até agora?”. Na semana em que se completaram dois anos da chegada de Evo Morales à presidência da Bolívia, em 22 de janeiro, o correspondente do Brasil de Fato no país andino, Igor Ojeda, dirigiu esta e outras perguntas a oito moradores da capital La Paz. Em pauta, suas vidas, o presidente e o futuro de um país agitado por intensas mobilizações. Pág. 10

ÁFRICA Índios Mapuche realizam protesto e pedem liberdade para presos políticos

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Crise no Quênia vai além da rivalidade entre etnias. Pág. 11


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editorial INICIA-SE um ano eleitoral, e já foi dada a largada para a baixaria. Como vem acontecendo nos últimos seis anos, a grande mídia (e a internet) enche-se de matérias sobre o caso Celso Daniel, reivindicando para si a condição de paladino de uma cruzada republicana e moralizadora. Desta vez, o mote é o exílio em Paris do irmão (Bruno Daniel) e da cunhada (Marilena Nakano) do prefeito petista de Santo André (SP), Celso Daniel, seqüestrado, torturado e assassinado em janeiro de 2002. Obviamente, nosso jornal, como na questão dos assassinados e desaparecidos durante a ditadura, ou dos sucessivos assassinatos no campo, defende intransigentemente a investigação até o fim de tais atos criminosos, e punição, nos termos da lei, dos seus autores e mandantes. Defende também o direito das famílias e amigos das vítimas de denunciarem e pressionarem os governos e o Estado, no sentido do esclarecimento. No entanto, já vêm se tornado cansativas as manobras dos tuca-

debate

Há algo de podre no ninho dos tucanos nos e seus porta-vozes de apenas se ocupar do caso Celso Daniel em anos eleitorais, deixando o assunto morrer sem solução nos anos ímpares (não eleitorais). Sem dúvida, a responsabilidade desse arrastar-se sem fim do assunto deve-se também ao Partido dos Trabalhadores, que jamais se propôs de fato a desvendar o “mistério”, ainda que esteja claro, para todos, que não partiu de qualquer instância ou organismo daquele partido a ordem para a eliminação do seu prefeito. Ora, se os tucanos não se sentem em condições de esclarecer o caso Celso Daniel (o que, se acontecesse, seria um modo adequado de fortalecer nossa República e nossa democracia), pelo menos deveriam tentar explicar aos cidadãos e cidadãs do nosso país o caso Suzane Von Richthofen, aquela jovem

que, em 30 de outubro de 2002, assassinou seus pais, Marísia e Manfred Von Richthofen, em São Paulo (SP), com a colaboração do seu namorado e o irmão deste, respectivamente Daniel e Cristian Cravinhos. De acordo com o que a grande mídia se cala e o tucano esconde – mas que acaba sempre vazando – o que se comenta por toda parte, e com claros e fortes indícios de ser verdade, é que o cerco e a proteção que envolvem a senhorita Suzane desde o primeiro momento resultam de uma forte ação de personagens ligados ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Na verdade, essa proteção à senhorita Suzane visaria esconder o real móvel do crime, que se entrelaça com o modo tucano de fazer política, com a probidade tucana.

De acordo com diversos comentaristas e fontes, o engenheiro Manfred Von Richthofen, pai da senhorita Suzane, e na época do crime diretor da empresa pública estadual (SP) DERSA – Desenvolvimento Rodoviário S.A., era um dos reponsáveis pelo caixa 2 das campanhas pela reeleição do então governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, e pela eleição do senhor José Serra – também tucano – que disputava com o petista Luiz Inácio Lula da Silva a Presidência da República naquele ano (2002). Parte do dinheiro que engrossava o milionário caixa 2 tucano teria origem em falcatruas e desvios de verbas destinadas à construção do Rodoanel Mário Covas. Segundo apurou o Ministério Público, o senhor Manfred tinha um patrimônio de R$ 2 milhões, muito superior ao

artigo

Roberta Traspadini

As Farc em sua luta histórica de resistência contra o capital O SÉCULO XXI traz para a classe trabalhadora da América Latina o desafio de construção e implementação do socialismo no continente, protagonizado pelos nossos povos, a partir da particularidade da luta de classes em cada um de seus países. As históricas contradições do processo de desenvolvimento capitalista têm gerado uma crise insustentável na preservação do modo de vida desse continente. Ao mesmo tempo, as históricas lutas de resistência latino-americanas constróem, em seu movimento, uma renovada forma do conteúdo da luta de classe que questiona o poder eleitoral-partidário atual como único contra-poder operante frente ao modo de produção capitalista e sustenta a consolidação de um novo projeto popular para os latinos. É no marco das atuais contradições do capital na sua dinâmica exploradora, e contra o trabalho, que temos que entender a atual venda de imagens e idéias da situação da Colômbia e da atuação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) pelos Estados Unidos. O país latino-americano vive, ao longo dos últimos 40 anos, uma guerra civil aberta entre os que defendem um território livre – a guerrilha conhecida como Farc e outros movimentos – e os que defendem o desenvolvimento dependente como único modelo possível. A contradição emana daí. Em meio a esse cenário, o país se tornou território de produção capitalista do narcotráfico mundial, negócio cujas principais lideranças ou são associadas ao grande capital ou são geradas por ele mesmo – produção, distribuição e consumo. Associar o narcotráfico diretamente à guerrilha sem mencionar seus processos de apropriação e acumulação privada dos atores hegemônicos no continente, é contar a história a partir do ocultamento real de suas relações sociais de produção.

“Redes terroristas” Desde os golpes militares na América Latina, na década de 60, os governos estadunidenses e seus líderes vêm listando uma rede de organizações ditas terroristas e sujeitos perigosos intelectual e politicamente, ameaçadores de seu poder em nosso continente. Isso sempre ocorreu com a aliança entre grandes empresários nacionais e internacionais do crime. É a partir daí que temos que entender o histórico conflito gerado pelo Estado estadunidense e seu braço armado via Estado burguês colombiano contra as Farc. Numa guerra civil, todos os lados cometem abusos. E não é a guerrilha quem aniquila os direitos. É o próprio capital, em seu desenvolvimento no continente, que gera, ao longo de seu processo, uma situação de pobreza e miséria, na consolidação de um modelo de produção e reprodução ampliada ditado de fora para dentro. Os movimentos, incluída a guerrilha, surgem nos nossos países porque reivindicam os direitos e deveres básicos constitucionais, reiterados nas carti-

lhas do Estado de direito moderno. Outro paradoxo: reivindicam direitos quando o Estado necessita deles para gerar sua acumulação lucrativa. A leitura dos excessos tem que valer para os dois lados. A guerrilha, na sua essência, no seu conteúdo, nasce e se desenvolve como um instrumento de classe, para a classe, para os que acreditamos num projeto socialista. E não é o único instrumento de classe. Logo, a análise de seus meios e fins só pode ser feita a partir da histórica explicitação dos conflitos internos próprios e exteriores, vividos por vários sujeitos neste território. Nascida para fazer valer a reforma agrária popular no país, em 1964, e para consolidar o poder de um grupo socialista-comunista na tomada do Estado, este movimento, as Farc, teve e tem influências dos principais instrumentos políticos que nos legitimam e integram como esquerda internacional: revolução mexicana, revolução russa, revolução cubana, vitória de Salvador Allende e lutas de resistência e libertação de Nuestra América. Mas seu tempo não pode ser o de perpetuação longa como instrumento que disputa com o capital, nas mesmas perigosas regras de violência geradas por ele, sem alcançar outros patamares de consolidação do poder popular. Ao se prolongar a guerrilha como instrumento político de luta no território, gera-se, mesmo no interior da classe, uma instabilidade e um medo que pode colocá-la, como instrumento, em risco. E gera, ao mesmo tempo, os elementos centrais que o capital, da grande mídia capitalista, utiliza a seu favor e contra nossas lutas, dada a sua dominação nos três grandes aparelhos do poder: militar, econômico e político-ideológico.

Uma defesa de classe Nossa herança histórica latinoamericana nos mostra que tanto o saque quanto as violações e seqüestros são uma lembrança viva daquilo que o capital nos ensina sobre sua violenta forma de execução e perpetuação do poder ao longo de 500 anos de luta no continente. Quando Hugo Chávez defende a retirada das Farc como grupo terrorista dos documentos e posicionamentos internacionais, reitera que, nos movimentos de luta da classe trabalhadora, ao menos os julgamentos de valores necessitariam de uma defesa de classe na projeção de quem é e como age o inimigo – a burguesia internacional, que atua em nossos

territórios, aliada ao grande capital nacional. Os seqüestros não são uma arma criada pela guerrilha Farc contra o capital. São a forma que, no extremo do conflito da luta de classes, a guerrilha utiliza para negociar com a outra parte – o poder burguês hegemônico e seus pares nacionais – a retomada de sujeitos, territórios, projetos e processos antes seus. Queremos, sim, uma América Livre do narcotráfico, livre dos seqüestros, livre das violações, livre da exploração, livre da opressão, livre de toda forma de dominação. Mas para executarmos e realizarmos uma América Livre, é necessário seguirmos lutando contra nosso inimigo histórico e real: o capital, em suas várias facetas violentas e violadoras dos direitos. Assim como as Farc, muitos movimentos sociais na América Latina e no mundo vivem no limite de sua ação contra o capital. E ainda que a maioria da população do nosso continente viva no limite da sobrevivência, são esses movimentos que vivem no extremo da luta de classes. Por isso, pagam o preço na mídia conservadora de violarem a ordem e o progresso do poder estabelecido. São milhares de sem-terra, sem-teto, sem-trabalho e com trabalho superexplorado (in)formal que, através de seus instrumentos políticos de luta, questionam e abalam a ordem burguesa. Ao combater essa lógica de poder capitalista, os sujeitos latino-americanos em movimento reafirmam para nós, classe trabalhadora, que suas lutas são legítimas e legais. Porque a ilegalidade é uma leitura de classe. É um ponto de vista particular sobre o crime desde uma lógica operada de poder. O Estado de direito no continente vive, em quase todas as partes, a projeção dos interesses da classe dominante burguesa. E é óbvio que, em uma leitura projetada desde os mecanismos da farsa dos hegemônicos estadunidenses e seus aliados latinos-mundiais, serão vistos como criminosos, violentos e terroristas todos aqueles que lutam pela soberania, pelas identidades, pelo direito a ser próprio, e, principalmente, pelo socialismo como projeto de vida real para nossos povos. Roberta Traspadini é economista, educadora popular, doutora em Estudos LatinoAmericanos na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Leciona na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). E-mail: rtraspadini@yahoo.com.mx

que poderia ter acumulado, considerando que seu salário no DERSA era de R$ 11 mil. Além disso, o senhor Von Richthofen enviava dinheiro para uma conta na Suíça que o Ministério Público “desconfia” estar em nome do senhor Von Richthofen e de sua filha, senhorita Suzane. Ou seja, o móvel do crime perpetrado pela filha contra os pais seria exatamente o dinheiro do caixa 2 tucano que estaria depositado nessa conta. Assim, mais do que a pressão que faz contra os petistas para que esclareçam o caso Celso Daniel – o que, feito com o objetivo de fortalecer nossa democracia e nossa República e não visando apenas medíocres disputas eleitorais, seria muito bem-vindo – os tucanos deveriam se preocupar de imediato (pois nesse caso têm todas as informações e canais necessários) em esclarecer o caso Von Richthofen. Sem dúvida alguma, um crime não legitima outro crime. No entanto, criminosos e acobertadores de crimes não têm qualquer legitimidade para se travestir de vestais.

Vito Giannotti

Aula da Veja de como esconder a verdade JANEIRO DE 2007. Ainda estava no ar a fumaça do tiroteio da recente eleição presidencial na qual a disputa por votos se concentrou nos candidatos Lula e Alckmin. A mídia empresarial, independentemente das avaliações mais variadas de seus donos, concentrou suas preferências no candidato Alckmin. Especificamente a revista Veja, incansável porta-voz da direita. Toda essa mídia se esbaldou em mostrar as virtudes do seu candidato, que iria dar um “banho de gestão” na política pátria. Uma gestão transparente, honesta e competente. De repente, eis que aparece um buraco inesperado nas obras da estação Vila Madalena para desmistificar toda a propaganda do seu ex-candidato. Detalhe: esta estação está a menos de 500 metros da nova sede da Editora Abril, aquela que semanalmente edita a revista Veja. Do alto de suas janelas dava para ver o buraco, fotografá-lo e mostrá-lo para o Brasil. Dava. Ou melhor, daria. Se interessasse mostrá-lo. Mas como mostrar esse buraco se o candidato da editora falava exatamente o contrário? Cadê a transparência, a eficiência e a competência? E aí? Vamos tentar escondê-lo. Encobri-lo. Ver se o Brasil o esquece. Pena que a Rede Globo estava dando um espaço grande ao tal desastre do metrô em São Paulo. Dane-se. Vamos tentar esconder este buraco feio demais. E assim foi feito. O acidente foi no dia 12 de janeiro. A capa da revista do dia 17 sai com uma manchete simpática: “Parece mágica”, diz, e traz uma foto de página toda com um inocente coelhinho branco. O artigo principal fala das empresas de informática no Vale do Silício, nos EUA. Qual a razão deste artigo de capa? Por acaso não daria para deixar a notícia do Vale do Silício para a semana seguinte e colocar o acidente no metrô do Alckmin? Daria de sobra, se o interesse da revista fosse informar seus leitores. Aí daria para falar que, durante a gestão do candidato da Editora Abril, foram mudadas as regras de fiscalização das obras do metrô. Não mais uma fiscalização pública, como era até aquele momento. Uma fiscalização externa, como em qualquer lugar do mundo. Nada disso. Agora estava mudado. O candidato Alckmin mudou o mecanismo. A partir de 2006, véspera da eleição presidencial, quem passaria a fiscalizar as obras seriam nada menos que as próprias empreiteiras. O mesmo que colocar um cabrito para tomar conta de uma horta de alface. Ou melhor, amarrar um cachorro bravo com uma corrente de lingüiça. Brincadeira. Como falar dessa mudança na legislação sem envolver o tal candidato? Não daria. Além do mais, o sindicato dos Metroviários de São Paulo, em setembro, véspera da eleição, tinha distribuído centenas de milhares de panfletos com essa denúncia. Alertou sobre a falta de segurança das obras, agora sem fiscalização, ou melhor, com a auto-fiscalização inventada pelo então governador de São Paulo. Como não falar disso? Simples. É só colocar um coelhinho na capa e uma manchete tipo “Parece mágica”, que a mágica está feita. Realmente, parece mágica. E que mágica! Esconder um buraco que tragou quase cem casas e engoliu quase dez pessoas! Isso foi feito com a capa do dia 17. E na semana seguinte? Poderia ser que a capa já estivesse pronta e não tivesse dado tempo de fazer uma capa com a notícia na edição do dia 17. Nesse caso, a lógica mandaria que, na semana seguinte, o acidente de São Paulo fosse capa da citada revista. A lógica? Qual lógica? A única lógica da revista é não atingir o seu candidato. E aí? Nova capa para encobrir o buraco que engoliu casas e matou gente. Eis a nova capa do dia 24 de janeiro, realmente vislumbrante: “Humanos e Caninos, uma história de amor”. No miolo da revista, é verdade que até a Veja teve que tratar do tal buraco. Dedicou três páginas ao tema. Falou das possíveis culpas de todo mundo, desde São Pedro com sua chuva até qualquer outra coisa. Tocou em tudo, menos nele. No candidato de 2006 não. Ao lado disso, dedicou nove páginas ao sagrado tema do amor entre humanos e caninos, um assunto altamente atual. Só a título de exemplo, há mídia e mídia. Na revista Carta Capital, que saiu no mesmo dia da Veja, a manchete era: “São Paulo no buraco”, com uma grande foto do acidente. No fundo desta foto aparece o enorme edifício da Editora, do alto do qual dava, tranqüilamente, para tirar mil fotos da cratera aberta pelo acidente e colocar umazinha na capa do dia 17 ou do dia 24. Agradecemos à Veja por sua aula de imparcialidade da mídia empresarial. Este exemplo pode ser útil em cursos de comunicação, quando o assunto é objetividade, imparcialidade, neutralidade da mídia. Vito Giannotti é escritor e coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), entidade que realiza cursos para dirigentes sindicais e jornalistas sobre comunicação sindical e popular

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Jorge Pereira Filho, Marcelo Netto Rodrigues, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Eduardo Sales de Lima, Igor Ojeda, Mayrá Lima, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Tatiana Merlino • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editor de Arte: Rodrigo Itoo • Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Salvador José Soares • Endereço: Al. Eduardo Prado, 342 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alípio Freire, Altamiro Borges, Antonio David, César Sanson, Frederico Santana Rick, Hamilton Octavio de Souza, João Pedro Baresi, Kenarik Boujikian Felippe, Leandro Spezia, Luiz Antonio Magalhães, Luiz Bassegio, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Milton Viário, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Pedro Ivo Batista, Ricardo Gebrim, Temístocles Marcelos, Valério Arcary, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131- 0812/ 2131-0808 ou assinaturas@brasildefato.com.br Para anunciar: (11) 2131-0815


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brasil Lucas CC

Crianças fazem fila para entrar nas salas de aula; opção por material didático de baixa qualidade está ligada à corrupção

A expansão do ensino empacotado EDUCAÇÃO Apostilas criadas por corporações do ensino não encontram barreiras para entrar em escolas públicas do país

OS JOVENS da 6ª série da rede municipal de ensino de Taubaté (SP) devem ter achado estranho abrir a apostila, mirar o mapa-múndi e ver anunciado, em letras garrafais, a Antártida onde ainda há pouco ficava a Groenlândia. Mas pior que a confusão geográfica, é o fato do prefeito Roberto Peixoto (PSDB) comprar a apostila para toda a rede fundamental de ensino do município, quando já havia recebido gratuitamente livros didáticos com recursos do Ministério da Educação (MEC). Algumas prefeituras optam por trabalhar com a apostila e o livro didático ao mesmo tempo. Mas a de Taubaté preferiu deixar os livros à poeira do galpão municipal. As apostilas custaram a bagatela de R$ 33,4 milhões por três anos de serviço do sistema de ensino contratado. Desde meados do ano 2000, prefeitos passaram a ser seduzidos pela grife dos “sistemas de ensino” particulares, ou seja, a metodologia pedagógica desenvolvida e transformada em kit, que inclui: apostila, portal educacional na internet, assessoria pedagógica e o símbolo da empresa de ensino. A apostila de Taubaté, por exemplo, foi vendida pelo grupo curitibano Expoente, o segundo maior do Brasil. Usado na rede privada, no qual já alcança 25% dos níveis fundamental e médio, o ensino apostilado há pouco tempo partiu em busca das prefeituras pequenas ou recentes – muitas das quais não têm um Conselho Municipal de Educação bem estruturado. Em São Paulo, o crescimento foi fulminante. Dentre as 645 cidades do Estado, 129 já pagaram para ver. No Brasil, desde a cidade de Bayeux (região metropolitana de João Pessoa–PB) até a Lapa (próxima a Curitiba–PR), a marca está presente.

Corrupção A troca da Groenlândia pela Antártida e do Estreito de Bering por um inédito “Estreito de Berning” não é apenas um detalhe técnico. Ao contrário de um livro didático, a apostila de um sistema de ensino não passa pela avaliação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), considerada rigorosa por pesquisadores. Na realidade, a negociação pode ser feita diretamente entre o prefeito e o grupo empresarial, deixando no ar a suspeita de duplicidade de gastos e corrupção. Pesquisadores do Tribunal de Contas de São Paulo manifestaram es-

Gama

Pedro Carrano de Curitiba (PR)

O nome da marca Cursinhos pré-vestibulares são o ponto de partida para o mercado dos sistemas de ensino de Curitiba (PR)

tranhamento – em 2006, institui-se a obrigatoriedade da licitação pública na compra das apostilas. Um fato concreto, apontado por pesquisadores, é a perda de autonomia por parte dos professores para escolher com que material querem trabalhar. “Se o prefeito é criacionista, vai tirar Darwin do material didático”, especula Flávio Nigro, autor de livro didático pela editora Nova Geração e que concorda com o Tribunal de Contas na observação de que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação tem sido mal interpretada. Onde a lei fala em autonomia dos municípios na escolha do material, para Nigro, não quer dizer autonomia da figura do prefeito, e sim das escolas e professores.

Improbidade O pesquisador aponta ainda a questão dos custos. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, a estimativa do custo do ensino apostilado por aluno é de R$ 145 a R$ 260, o pacote com tudo incluído. Já o Fundo da Educação Básica (Fundeb) consegue o livro didático mais barato, com média de R$ 5 a R$ 6, ao longo de três anos. “Gasta-se até 10 vezes mais em um material que não se sabe de onde vem”, critica. Em último caso, Nigro defende que a apostila também deveria passar por avaliação do MEC. Nesse sentido, a Prefeitura de Lapa (cidade a 70 km de Curitiba), visitada pela reportagem do Brasil de Fato, não começou mal. Os docentes desenvolveram a apostila para a primeira e segunda série do ensino fundamental, de acordo com a realidade da re-

gião, um município rural e de comunidades dispersas, o que seria um ganho. Porém, a Prefeitura decidiu fazer a licitação para o sistema de ensino de terceira e quarta séries. Ganhou a empresa UNO, pelo período de dois anos. Os professores utilizam a apostila junto com o livro didático recebido com recursos do Fundeb. A assessoria de comunicação da Prefeitura justifica que os alunos vindos da zona rural têm formação deficiente, e daí a necessidade do trabalho com dois materiais didáticos diferentes, a apostila e o livro.

Administrador do tempo Para Nigro, utilizar os dois materiais, a apostila e o livro didático gratuito, é algo impossível, porque “os dois não são complementares”. A apostila seria um sistema com seqüência e cronologia própria. A venda padronizada da apostila garante um controle da direção da escola sobre a aplicação do conteúdo no tempo determinado, dentro de um modelo “fordista” de educação, aponta o professor Marcos* – ele próprio autor de sistema de ensino para uma grande rede. “Por mais que troquem os professores, o ritmo das aulas segue o mesmo. O professor se torna apenas um administrador do tempo”, opina. O argumento que sustenta a pedagogia da rede privada dentro da escola pública, por parte dos prefeitos, estaria na qualidade inquestionável dos sistemas de ensino, que seriam a educação “como a das elites”, lembrando uma declaração do prefeito de Bocaina (SP), João Francisco Bertoncello Danieletto (PV). Tal situação, por enquanto,

acontece à luz do dia. De acordo com o Censo 2001 do MEC, os cinco maiores grupos educacionais brasileiros alcançam 1,3 milhão de alunos e 31% do número de matrículas no ensino médio e fundamental particular. Os próprios grupos empresariais descrevem o êxito e os números da expansão do sistema de ensino privado. O sistema Positivo, de Curitiba, divulga em sua página a inserção em 400 escolas da rede pública em todo o país. Segundo dados da empresa, além da escola pública, o Positivo está presente nos 26 Estados brasileiros e em 2,4 mil escolas da rede particular. * O professor prefere não se identificar

Para entender Fundeb – Fundo ligado ao MEC e destinado à compra de material didático-escolar. Positivo – Principal rede do país, com 530 mil alunos conveniados. O Positivo abocanha o mercado gráfico, editorial e de informática. O Sistema Positivo de Ensino (SPE), voltado às escolas particulares, atinge 2,4 mil escolas. O Sistema Aprende Brasil de Ensino (Sabe), voltado às escolas da rede pública, está presente em 400 escolas públicas espalhadas por 11 Estados brasileiros, “fazendo a diferença na vida de 85 mil alunos”, como se afirma no site do grupo. UNO – Empresa que tem como parceira o Grupo Paulo Renato Associados, pertencente ao ex-ministro da Educação durante o governo FHC, Paulo Renato de Souza.

Não é difícil notarmos no muro de qualquer escola o “selinho” de qualidade atestando que o material pedagógico pertence a um grupo como o Dom Bosco ou Positivo. Antes de culminar na chegada ao ensino público, o chamado ensino “apostilado” percorreu uma longa jornada. O ponto de partida é o cursinho pré-vestibular, no qual foi criada a eficaz metodologia de ensino, nos anos 1970. Na condição de cursinho, o negócio começou a multiplicar seus braços e sua metodologia, com um objetivo inicial definido: a aprovação do aluno no vestibular. Um exemplo disso são os cursos Anglo Vestibulares, Etapa e Objetivo, em São Paulo, e Dom Bosco e Positivo, no Paraná. Nesse período, a empresa se limitava a ser um curso, atendendo a uma necessidade imediata do vestibular. Ainda não estamos falando da criação de um sistema hegemônico de educação.

Expansão Devido ao seu formato, os cursinhos obtiveram sucesso. No sentido oposto, políticas para a educação pública começam a ser minadas, comenta o especialista em educação Gastão da Luz. A empresa então se estende para as escolas regulares, abrangendo o ensino fundamental e médio. Caso, por exemplo, do grupo Positivo, de Curitiba (PR), hoje a maior fábrica de ensino brasileira. O processo seguinte é a criação de faculdades, como a Universidade Paulista (Unip), aberta nos anos 1970, a partir do grupo Objetivo, um dos principais do país. O grande salto do capital, finalmente, é a comercialização do sistema de ensino. A apostila vira a principal mercadoria, a partir de material pedagógico elaborado com tanto suor. Grandes grupos passam a comercializar os materiais didáticos, mas não só isso: vendem o nome da marca e a assessoria pedagógica para as escolas e instituições que os adotarem. Hoje em dia, o Brasil possui 52 sistemas de ensino apostilado. Além do Anglo, Etapa, Objetivo, Dom Bosco e Positivo, também estão entre os principais o Expoente, o Opet, o UNO e o Pitágoras. “McDonaldização” A escola recém-criada adota o sistema de olho no marketing. Quer o caminho mais seguro. A educação, afinal, é um negócio: o material tem atrativos gráficos, chega no prazo. O colégio fica vinculado a uma marca que se apresenta em horário nobre, anunciada na novela ou em publicidade. A formação dos professores inclui um coffee-break. Professores vindos de diferentes partes do país podem conhecer a sede luxuosa do convênio. Esse modelo de educação ganha apelidos: “macdonaldização” é um deles. Justamente por isso, do ponto de vista desses grupos, o conteúdo não é o fator mais relevante dessa história, opina o professor Marcos (nome fictício), de Lapa (PR), isso porque a metodologia pode até ser elaborada embasada em pesquisadores de esquerda. O mais importante é a venda. “Não estamos falando apenas de uma questão metodológica, pois esses grupos chegam até a usar o discurso de Paulo Freire ou então o discurso construtivista”, critica. A sigla partidária tampouco influi, pois prefeituras do PT ao PSDB já adotam o sistema. (PC)


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Mais uma vez, governo não cumpre metas da reforma agrária BALANÇO Número de novos assentamentos é o menor desde o 1º ano do governo Lula, MDA afirma que investimento em qualidade foi o maior dos últimos 10 anos Renato Godoy de Toledo da Redação A EXEMPLO do que já ocorreu nos outros anos da gestão Lula, 2007 foi um ano de não-cumprimento das metas do II Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), firmado em 2003 com os movimentos sociais. Mesmo com os dados ainda não totalizados, em função de indícios de corrupção no Pará, pode se observar que, ao contrário do que as metas prevêem, o período apresentou uma desaceleração no número de novos assentamentos e até de reordenação e regularização fundiária. A meta do governo para 2007 era de 150 mil novos assentamentos. Contabilizando os novos assentamentos, a reordenação fundiária, a regularização e os reassentamentos, 67 mil famílias foram assentadas e 205,5 mil hectares foram desapropriados, sendo que a média do governo, até então, era de 682,5 mil hectares por ano. O número de novos assentamentos corresponde a 35% dos números totais que o governo divulga anualmente, já que o governo apresenta a quantia bruto de famílias beneficiadas – sem distinguir “o que é o que”. Portanto, por estimativa, os novos assentamentos de 2007 devem corresponder a cerca de 25 mil famílias. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) justifica o pouco empenho em novos assentamentos dizendo que 2007 foi o ano em que mais se investiu em qualidade da reforma agrária. Numa entrevista à Agência Informes, o titular da pasta, Guilherme Cassel, declarou: “O fundamental é garantir que os assentamentos sejam espaços de produção, geração de trabalho e renda. E estamos cumprindo o que prometemos fazer. Queremos substituir conflito pela produção de alimentos”. Para o geógrafo Ariovaldo Umbelino, é verdade que o investimento em infra-estrutura nos assentamentos aumentou, no entanto, isso não justifica o fato de o governo não cumprir as metas do PNRA. “Não há dúvida que melhorou o investimento em infra-estrutura, mas, com isso, (o governo) não fez mais do que a obrigação”, posiciona-se Ariovaldo.

Preço da terra Um dos itens que contribuiu para que os investimentos do MDA fossem maiores em 2007 foi a obtenção de terras com fins de reforma agrária – seja por desapropriação ou por compras comuns. Cerca de R$ 1,4 bilhão foi gasto em obtenção de terras, o maior valor dos últimos 10 anos. Se, aparentemente, o aumento do gasto com a obtenção de terras e a diminuição das áreas desapropriadas soam contraditórias, para o presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), Plínio Arruda Sampaio, está claro o porquê deste processo: “O aumento do investimento se deu porque o governo está pagando caro pelo terra. E tudo isso é conseqüência da não-atualização dos índices de produtividade (leia matéria abaixo). Há uma confissão do governo de que está pagando mais pela terra porque não tem coragem de atualizar o índice”. Cálculo conveniente Para amenizar os dados ínfimos da reforma agrária,

Evolução do II Plano Nacional de Reforma Agrária

saiu na agência

Raposa Serra do Sol O Conselho Indígena de Roraima (CIR) encaminhou um pedido para a Organização das Nações Unidas (ONU) proteger lideranças indígenas da reserva Raposa Serra do Sol, temendo que possam ser mortas por pistoleiros contratados. “Os rizicultores [arrozeiros] continuam plantando e se beneficiando da terra indígena. Eles seguem no local e fazem ameaças às lideranças”, denuncia coordenador do Conselho. Redução da jornada de trabalho

As centrais sindicais lançaram no dia 21, na sede nacional da CUT, em São Paulo, a Campanha Nacional Unificada pela Redução da Jornada sem Redução de Salário. Na ocasião, a central apresentou um manifesto em defesa dos investimentos sociais e de uma reforma tributária justa e democrática. Um dos principais objetivos é alcançar ao menos um milhão de assinaturas a favor da redução da jornada.

Mais Empregos

Em 2007, o Brasil registrou a maior geração de empregos formais desde 1992, quando o Ministério do Trabalho passou a realizar este tipo de levantamento. O desempenho foi comemorado pelo governo, que prometeu novos recordes em 2008. Para a economista da USP Leda Paulani, no entanto, o crescimento do emprego é um fator circunstancial, e não um objetivo perseguido pela política econômica do presidente Lula.

Estados Plurinacionais o governo tem usado uma conta que infla o número de assentamentos, para atingir as metas anuais – em alguns casos, como em 2007, nem assim a meta foi alcançada. Quando divulga o balanço anual, o Ministério do Desenvolvimento Agrário soma as reordenações fundiárias e as legalizações fundiárias de agricultores que já se encontravam assentados

ao número de famílias efetivamente novas que foram assentadas. Ariovaldo Umbelino, geógrafo da USP, cita como exemplo desta manipulação de dados o caso de Barra do Corda (MA), em que 900 famílias foram “assentadas” pelo governo Lula em 2005. Na verdade, essas famílias foram assentadas em 1942, durante o governo de Getúlio Vargas, e o que o

governo Lula fez foi regularizar o assentamento. Para Ariovaldo, o que o governo tem feito é inchar a “meta 1” – referente a novos assentamentos – incluindo nela outras metas. O geógrafo lembra que, em 2005, o governo contabilizou como novos assentados famílias que foram retiradas de suas terras e realocadas para a construção de usinas hidrelétricas.

Integrantes de movimentos sociais discutem como viabilizar sociedades que levem em conta as cosmovisões dos diversos povos da América Latina, durante encontro realizado em La Paz entre os dias 15 e 17. Compareceram ao seminário representantes dos povos Aymara, Quéchua, Poqra, Mapuche, Kichwa, Pemón, Miskitu, Guarani, Ayoreo e Chiquitano, provenientes da Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Argentina, Venezuela, Nicarágua, Honduras e Paraguai. O Brasil esteve representado como integrante da Coordenadoria de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) e através do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Lição capitalista

Pressão da bancada ruralista impede atualização de índices Ministro afirma que portaria facilitaria o trabalho do Incra, mas reitera que governo tem que esperar o momento da Redação Os índices de produtividade utilizados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é datado de 1971, para a pecuária, e de 1975, para a agricultura. Eles são o parâmetro que o Incra possui para averiguar as propriedades fundiárias, considerandoas produtivas ou não. São, portanto, fundamentais para acelerar o processo de desapropriação de latifúndios improdutivos. No entanto, esses índices não acompanharam as inovações tecnológicas do campo, que permitem uma produção muito maior de produtos agrícolas e pecuários – o advento de tratores e insumos. Na gestão Lula, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) elaborou uma portaria que prevê a atualização dos índices de produtividade, baseado em dados do Censo Agropecuá-

rio de 1995 – que hoje já teriam 13 anos de defasagem. No entanto, o presidente Lula precisa assinar a atualização (juntamente com os ministros do MDA e da Agricultura, escolhidos por ele) para que esta possa entrar em vigor. Para os movimentos sociais, a atualização dos mesmos é essencial para acelerar o processo de reforma agrária. O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, organicamente ligado ao agronegócio, era apontado como a principal voz, dentro do governo, contrária à atualização dos índices. Porém, a saída de Rodrigues em 2006 não alterou a situação, já que não há sinalizações de que Lula assinará o documento. Plínio Arruda Sampaio, presidente da Abra, acredita que Lula não tem coragem de enfrentar a bancada ruralista, ainda que o projeto não tenha que passar pelo Legislativo. “Antes achavam que o problema era o sr. Ro-

drigues, mas nada mudou com a saída dele. O medo, na verdade, é da bancada ruralista. Se o governo não teve coragem de enfrentar a bancada ruralista até agora, não vai fazer agora, num ano de eleição”, acredita Plínio. Em entrevista à revista Istoé, o ministro Guilherme Cassel (MDA), afirmou ser favorável à atualização dos índices, que “facilitaria o trabalho do Incra”. Cassel afirma que para assinar a portaria o governo deve esperar o momento político adequado e admite que o principal fator para a demora é a pressão advinda da bancada ruralista. Num ponto, Plínio e Cassel concordam. Ambos acreditam que aqueles que se opõem à atualização dos índices estão querendo defender os interesses daqueles que não produzem em suas terras. “Com a demora, o governo está defendendo e estimulando a improdutividade”, analisa Plínio Arruda Sampaio. (RGT)

Modelo de reforma agrária é conivente com agronegócio, afirma geógrafo da Redação Para além dos números abaixo do razoável, o geógrafo Ariovaldo Umbelino critica a forma como o governo está fazendo a reforma agrária. Segundo ele, dos 450 mil assentamentos novos, regularizações e ordenações fundiárias realizados na gestão Lula, 60% são em terras da Amazônia. Ainda, a maioria dos

assentamentos deu-se em terras públicas, sem desapropriações dos grandes latifúndios, o que mantém a concentração fundiária brasileira. “Se pegarmos os números de assentamentos novos em áreas desapropriadas, o resultado seria ainda menor”, pontua o geógrafo. O fato de boa parte dos assentamentos serem realizados na Amazônia e em terras públicas mostra

uma opção política do governo pela convivência e conivência com o agronegócio, segundo o geógrafo. “Lula não fez a reforma agrária onde o agronegócio não quer e fez onde o agronegócio quer, na Amazônia. A orientação é não fazer reforma agrária onde os movimentos sociais estão organizados. É por isso que a maioria das famílias continuam acampadas em estradas”. (RGT)

O capitalismo funciona assim: os banqueiros e especuladores em geral (financeiros, imobiliários etc) defendem ardorosamente a total liberdade dos capitais e a ausência de controle do Estado para conter a sanha lucrativa e a exploração dos cidadãos; no entanto, quando entram em crise e os bancos e as empresas ameaçam quebrar, os capitalistas recorrem ao Estado e tratam de socializar os prejuízos. Até quando? Mentira conivente A Rede Nacional de Jornalistas Populares informa que uma investigação independente feita pela Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, do Rio de Janeiro, comprovou que a operação da Polícia Militar na favela do Jacarezinho, no dia 10 de janeiro, torturou e executou pelo menos seis pessoas. A imprensa empresarial deu a versão de que eram todos traficantes. Mentira! Guerra civil De acordo com o economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, órgão do governo federal, o Brasil deve chegar ao final de 2008 com 1 milhão de homicídios computados oficialmente nos últimos 30 anos. É uma violência comparável a de países em situação de guerra. Para ele, as causas estão nos problemas sociais e na impunidade – ainda não enfrentados para valer. Esquema internacional Empresários e políticos conservadores brasileiros estão dando uma boa força para a candidatura do general reformado Lino Oviedo à presidência do Paraguai. O próprio candidato tem dito que conta com a simpatia do presidente brasileiro. O objetivo é derrotar o candidato das esquerdas, o ex-bispo Fernando Lugo, que lidera as pesquisas com a força dos setores populares. A eleição será em abril. Esquerda calada Nenhuma liderança do PT e dos partidos que compõem o governo contestou a indicação de mais um filhote da ditadura militar para integrar o ministério. Edison Lobão, que foi da Arena, PDS, PFL e

pulou há pouco para o PMDB, exibe no currículo uma trajetória de negócios escusos com concessões de rádio e TV, no Maranhão, além de dividir interesses na área de energia com a família Sarney.

Modelo alemão O Tribunal de Justiça de Braunschweig, na Alemanha, continua investigando a conta bancária “1.860”, mantida pela Volkswagen de 1995 a 2005 para financiar viagens de lazer, subornos, orgias sexuais, gastos em butiques de luxo e outros “benefícios” para diretores da empresa e dirigentes sindicais de vários países, inclusive do Brasil. O caso promete render muito escândalo para a empresa e suas relações. Protesto – 1 Durante manifestação dos parentes das vítimas do vôo 3054, da TAM, que matou 199 pessoas no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, apareceu a seguinte faixa: “Hugo Chávez, precisamos de você! Uma vez que você conseguiu libertar os reféns das FARC, ajude-nos a liberar os documentos para conclusão do inquérito do vôo TAM JJ3054”. Essa é uma missão impossível! Protesto – 2 Moradores de vários bairros populares e de classe média do Rio de Janeiro aderiram ao movimento de boicote do pagamento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) até o final do ano; o objetivo é impedir que a Prefeitura municipal use esses recursos em obras eleitoreiras. Se a moda pega, muito prefeito pelo Brasil afora vai passar apertado para conseguir a própria reeleição em outubro.


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brasil

A força militar do latifúndio gaúcho TERRA Governadora Yeda Crusius não investe um centavo em reforma agrária, mas gasta milhões mobilizando policiais para a repressão

Leonardo Melgarejo

Christiane Campos e Raquel Casiraghi de Sarandi (RS)

Dois pesos “No final do ano (2007), um vizinho aqui do assentamento teve sua casa invadida por ladrões armados, ele e a família ficaram horas amarrados e trancados no banheiro, seus eletrodomésticos e o carro foram roubados e apenas dois policiais vieram em sua casa, várias horas após terem sido chamados. E até agora nada foi recuperado, a polícia apenas registrou um boletim de ocorrência”, conta Claudir Gaiardo, assentado na área de reforma agrária que a Brigada Militar gaúcha ameaçou invadir. “O que mais nos indigna é que, quando um cidadão trabalhador é roubado, o Estado não faz esforço para recuperar os bens, mas, para o latifundiário, basta fazer uma declaração de furto, sem nenhuma prova, e o Estado faz essa operação de guerra. Isso mostra a serviço de quem está esse governo. Sou assentado aqui há 20 anos e nem na ditadura militar a gente via o Estado defender o latifúndio desse jeito”, diz Gaiardo. 10 horas de tensão Eram seis e meia da manhã quando a Brigada Militar cercou o assentamento. A determinação dos 1,2 mil militantes do movimento que participavam do encontro foi de resistir. “Para o MST, o assentamento é um território conquistado com muita luta, é como a nossa casa. A sociedade sabe que somos trabalhadores e trabalhadoras, que não somos criminosos. O objetivo do governo Yeda, com essa mega operação, é tentar nos criminalizar, passar para a população uma imagem de que a reforma agrária não é uma questão social, e sim um caso de polícia. Resistimos porque nossa causa é justa e porque nosso movimento é legítimo”, explica Neiva Vivian, dirigente do movimento. Depois de muita negociação, por volta do meio-dia, a polícia civil, o auditor agrário do Estado, o juiz da comarca de Carazinho, que expediu o mandado de busca e apreensão, e lideranças do MST fecharam um acordo que ga-

Ameaça de invasão policial: metralhadoras, bombas de gás, cavalos e cães contra paus e pedras

o que se percebeu é que havia uma disposição de invadir o assentamento a qualquer custo, mesmo que isso significasse derramamento de sangue”, afirma Neiva Vivian.

Quanto

1.000 policiais foram mobilizados para revistar sem-terra em busca de R$ 200, um rádio, uma câmera e um anel

rantia a revista de ônibus e de 50 lideranças do movimento, mas impedia a entrada do efetivo militar na área do assentamento. O acordo chegou a ser anunciado para a imprensa. No entanto, a Brigada Militar não aceitou a negociação. Segundo o ouvidor agrário, o Secretário de Segurança, José Francisco Malmamm, colocou o cargo a disposição caso a Brigada Militar fosse desautorizada a invadir o assentamento. O clima de tensão se restabeleceu. Sem-terra e tropa de choque ficaram frente a frente. Paus e pedras eram as armas de homens e mulheres contra metralhadoras, bombas de gás, cavalos, cachorros... “Pelo comportamento do comando da Brigada Militar,

O acordo A iminência do massacre repercutiu na imprensa, e o ministro da Justiça, Tarso Genro, vários parlamentares e até representantes da ONU apelaram ao governo gaúcho para usar o bom senso. Finalmente, por volta das 16 horas, chegou-se a um novo acordo, que garantia a entrada de delegados e agentes da polícia civil para fazer a revista dos ônibus e das 50 lideranças indicadas pelo MST. O movimento concordou com a entrada de 80 oficiais da Brigada Militar sem armas pesadas para acompanhar a operação. Enquanto a polícia civil realizava operação de revista, o batalhão de choque ainda tentou entrar no assentamento, mas os sem-terra fizeram cordões de isolamento com os braços e cantaram

a famosa música de Geraldo Vandré: “Pra não dizer que não falei de flores”. Nenhum dos bens procurados foi encontrado. Enquanto as tropas se afastavam, os sem-terra entoaram o hino do MST e o Hino Nacional.

PARANÁ

Justiça anula decreto de desapropriação da área da Syngenta Seeds

Custo da operação Como já é praxe, a Brigada Militar ainda não divulgou os custos da ação. Mas logo esta informação deve vir à tona e se transformar em mais um argumento de como o MST onera a sociedade gaúcha. Em outubro, no último balanço dos gastos, a Brigada contabilizava R$ 820 mil para manter as tropas em Coqueiros do Sul (RS), a fim de evitar a ocupação da Fazenda Guerra e deslocar constantemente soldados para conter alguma mobilização do MST. Toda vez que os custos são divulgados, em nenhum momento se questiona a real necessidade desse deslocamento ou da utilização das tropas. Dessa vez, não deverá ser diferente.

Um dos desembargadores presentes emitiu 150 reintegrações de posse contra o MST ao longo de sua carreira Pedro Carrano e Solange Engelmann de Curitiba (PR) Em decisão unânime, os integrantes do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Paraná votaram pela anulação do decreto de desapropriação do campo de experimentos ilegais de transgênicos da transnacional suíça Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste (PR). A decisão foi tomada no dia 18. O decreto nº 7.487 foi sancionado pelo governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), em novembro de 2006, transformando o local em área de interesse público, para a criação de um centro de pesquisa e referência em agroecologia, na tentativa de estimular o avanço da reforma agrária e da agricultura familiar. Mais de 170 entidades do Brasil e do exterior apoiaram a desapropriação da fazenda. Em fevereiro de 2007, o Tribunal de Justiça do Paraná já havia concedido liminar a favor da Syngenta, suspendendo provisoriamente o decreto do governo. O principal argumento usado pelos desembargadores é o de que a desapropriação do campo de experimentos não respeita os requisitos legais da legislação.

MST ocupa área de traficante internacional no RS de Sarandi (RS) Cerca de 500 militantes do MST ocuparam na madrugada do dia 21 uma fazenda na região metropolitana de Porto Alegre, que pertencia ao traficante colombiano Juan Carlos Abadia. Ele foi preso em 2007 pela Polícia Federal acusado de tráfico de drogas e do assassinato de mais de 300 pessoas na Colômbia e nos Estados Unidos. Mesmo com a ocupação, a área de 130 hectares foi vendida por R$ 850 mil (metade do valor que tinha sido avaliado pela Justiça) para um comprador de Bauru (SP). O Incra alega que não solicitou a suspensão do leilão, porque 90% é APP (área de proteção permanente) e a terra seria imprópria para assentamento.

A fazenda fica no município de Guaíba (RS), onde há extensas plantações de eucalipto e está instalada uma fábrica da Aracruz Celulose. Lideranças do MST defendem o uso social da área. “Se a área é de proteção ambiental, também não pode ser plantada com eucalipto. Se não serve para assentamento, achamos que o Estado teria que rever o leilão e transformar essa terra, que estava a serviço do tráfico, em um espaço para recuperação de drogados”, diz Luciana Rosa, dirigente do MST. Até o fechamento desta edição os militantes do MST permaneciam na fazenda que pertenceu a Abadia. O objetivo do movimento é pressionar o Incra para que apresente áreas para o assentamento de mil famílias no Rio Grande do Sul até o mês de abril, conforme acordo feito em novembro de 2007. (RC e CC) Leonardo Melgarejo

SE ALGUÉM ainda tinha dúvida de que uma das prioridades da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), é a repressão aos movimentos sociais e a defesa do latifúndio gaúcho, uma operação militar realizada no dia 17 tornou isso bem evidente. Cerca de mil policiais fortemente armados, incluindo as “tropas de elite” da capital Porto Alegre e do interior foram mobilizados para invadir o assentamento Novo Sarandi (antiga fazenda Anoni), no município de Sarandi, onde se realizava o 24º Encontro Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Rio Grande do Sul. O argumento usado para justificar essa operação de guerra é que um grande fazendeiro da região norte do Estado alegou que teriam sido furtados em sua propriedade alguns objetos durante uma ocupação de terra realizada pelo MST na abertura do encontro, no dia 14. Os bens “procurados” pela polícia eram um anel, uma máquina fotográfica (sem detalhes das características), um rádio de carro e R$ 200.

Brigada militar estava disposta a derramar sangue

Novo decreto Segundo a assessora jurídica da organização de direitos humanos Terra de Direitos, Gisele Cassano, o decreto foi anulado por questões técnicas, mas a questão inicial sobre a desapropriação ainda persiste, devido à gravidade da situação, com o assassinato de dois trabalhadores e vários feridos no local. No dia 21 de outubro, após a reocupação do campo de experimentos da empresa por 150 trabalhadores da Via Campesina, cerca de 40 homens de uma milícia armada, identificada como “seguranças da empresa NF”, contratada pela Syngenta, atacou o acampamento, executou à queima roupa o militante do MST e da Via Campesina, Valmir Mota de Oliveira (conhecido como Keno) e, feriu gravemente mais seis trabalhadores. Entre eles, Izabel do Nascimento, que ficou cega do olho direito e teve os movimentos de um braço prejudicados. O segurança Fábio Ferreira também foi morto durante a ação. “Ainda é necessário que haja desapropriação, o que pode ocorrer com a edição de outro decreto, sem os vícios do primeiro”, argumenta Gisele. Conservadorismo Durante o julgamento, o direito de propriedade privada foi ressaltado como supremo, sobrepondo-se ao direito à vida, terra e dignidade. Um dos desembargadores presentes emitiu 150 reintegrações de posse contra o MST ao longo de sua carreira, número que, segundo ele, não lhe garante tanta experiência assim no assunto. Assim mesmo, ele pôde concluir que apenas o cultivo de psicotrópicos (drogas) permite a desapropriação imediata de uma área. No discurso dos magistrados, o golpe militar foi nomeado como a “Revolução de 64”. Eles buscaram convencer o público da perfeição do Estado democrático de direito no qual se vive. Por conta disso, um dos desembargadores exigia “enquadramento para a desobediência”, referindose às ocupações do movimento.


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nacional

“Não vai acontecer. Pode escrever”, diz frei Cappio sobre a transposição SEMI-ÁRIDO Frei Luiz faz um balanço da greve de fome contra a transposição; gesto “despertou os movimentos sociais” João Zinclar

Luís Brasilino e Tatiana Merlino da Redação No dia 20, um mês após encerrar a greve de fome contra a transposição do rio São Francisco, o frei Luiz Flávio Cappio, bispo da Diocese de Barra (BA), fez um balanço dos 25 dias que passou sem se alimentar – “sem seqüela nenhuma, graças a Deus”. Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ele aborda os pontos positivos e negativos do gesto, revive os momentos que encerraram o jejum e fala das perspectivas para os movimentos sociais: “continuar lutando”. Em fevereiro, ainda sem dia definido, as organizações voltam à Sobradinho (BA), local do protesto, para traçar as lutas para o restante do ano. Brasil de Fato – Qual balanço o senhor faz da greve de fome, como foi o apoio dos movimentos sociais, o dia-a-dia... Frei Luiz Flávio Cappio – Nós reassumimos o nosso jejum e oração porque quando terminamos a primeira manifestação (em outubro de 2005), um documento foi assinado por nós, representando a sociedade civil, e pelo presidente Lula, representando o governo, prevendo a abertura de um longo, profundo, transparente, sério e ético debate nacional sobre a transposição de águas do rio São Francisco. Durante esses dois anos, tentamos de todas as formas fazer com que esse acordo fosse levado adiante. Mas, infelizmente, a resposta do governo foi o início das obras utilizando o Exército. Diante dessa insensibilidade, assumimos nosso novo período de jejum; desta vez em Sobradinho. Como foi a solidariedade? Desde o momento em que chegamos a Sobradinho, vimos a imensa solidariedade dos movimentos sociais e, principalmente, da população ribeirinha. Causou a todos uma surpresa ver a adesão, a participação, a comunhão, o espírito fraterno da população de Sobradinho e também de Juazeiro (BA), de Petrolina (PE), do entorno da Bahia, dos Estados próximos, do Brasil e de fora. Foi muito lindo, vocês precisavam ver: o povo, na sua simplicidade, os movimentos sociais, nas diversas organizações. Depois o pessoal das universidades, os indígenas, os quilombolas, os partidos políticos, as várias igrejas... Deu consistência e visibilidade ao gesto. Não fosse isso, nossa manifestação seria isolada, sem nenhuma representatividade. E foi justamente essa comunhão solidária e toda essa manifestação bonita de espírito de luta que fez com que o movimento e o gesto crescessem, apesar de todo o bloqueio da mídia.

Existe um ditado chinês que diz assim, ‘quando alguém aponta, os sábios olham para onde o dedo aponta e os idiotas olham para o dedo’. Já estava no 18º, 20º dia de jejum, e eles [governo] estavam altamente preocupados com a minha vida. Mas não olharam para onde o dedo apontava, e sim para o dedo, um bispo que estava morrendo O senhor foi chamado de autoritário e fundamentalista. Como enxerga essas críticas? Vejo com naturalidade, porque quando você fustiga o leão com vara curta, ele mostra os dentes e as unhas. Acredito que essas críticas demonstram, primeiro, que estávamos mexendo com uma questão que dizia respeito à vida de muita gente e feria muitos interesses. E, segundo, que pessoas que tiveram esse tipo de comportamento, pronunciamento, é porque não conhecem nossa luta, nem a luta do rio, nem a luta do povo. Até perguntaria: com que direito nos chamariam de autoritário quando, durante dois anos, nós mendigamos, suplicamos, lutamos por todos os meios para que acontecesse aquilo que foi acordado. Estávamos apenas buscando algo que era o direito, que foi acordado, assinado. Então, eu diria: será que somos nós ou são eles os autoritários? Porque a resposta deles foi uma negativa e o início das obras utilizando o Exército. Não dou muito valor a esses tipos de críticas que são infundadas e não estão de acordo com a verdade dos fatos. Nesse ponto da abertura do diálogo, a resposta do ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) era sempre a de que,

Frei Cappio celebra a 18ª Missa do Irmão Baiano na igreja São Judas Tadeu, em São Paulo

logo que assumiu o cargo (março de 2007), procurou entrar em contato com o senhor... Ele telefonou para mim dizendo para eu ir ao gabinete dele conversar, mas falei que não era eu e sim o coletivo. Estamos fazendo parte de uma luta que envolve muitos segmentos sociais. Então, disse que iria com a equipe de trabalho para conversarmos, por termos muitas dúvidas a dirimir, muitos pontos a questionar, mas dentro de um coletivo que esteja realmente a altura desse diálogo. Não uma conversa de gabinete regada a cafezinho e água gelada. É um workshop, uma sessão de trabalho, aí eu me disponho a dialogar. Não da forma que ele propôs, só nós dois. Como responder à crítica do presidente Lula que, no início da greve de fome, disse que, se fosse para escolher entre o senhor e 12 milhões de nordestinos, ficaria com os pobres? Ele incorre em duas premissas falsas. Em primeiro lugar, não são 12 milhões que serão beneficiados. Quem conhece o projeto sabe disso. Trata-se de uma propaganda falsa. A obra não é para a população, para democratizar a água, mas sim canalizar os recursos para um pequeno grupo empresarial nacional e transnacional interessado na produção de camarão em cativeiro, de frutas nobres para exportação e na construção de uma infra-estrutura hídrica para um parque industrial. É esse o objetivo. Se eles estivessem realmente preocupados com a população, olhariam para os pobres onde o rio naturalmente passa. Moro na beira do São Francisco há 34 anos e, se caminhar a 500 metros da margem, vejo o povo passando sede. O maior complexo de açudes do mundo está no Nordeste brasileiro. Água em açudes em quantidade suficiente nós temos, o que precisamos é fazer com que ela chegue ao seu destino, ao povo das comunidades mais afastadas. E qual é a segunda premissa falsa? O governo já tem as alternativas. O projeto de transposição é economicamente absurdo, pois o governo tem, por meio da ANA (Agência Nacional de Águas), todo um complexo de alternativas mais baratas, ecologicamente sustentáveis e socialmente justas. E ainda existem as soluções da ASA para as zonas rurais. Se realmente estivesse preocupado com os pobres, origem da qual ele (Lula) faz parte, fez parte, olharia para essas alternativas. Como foi aquele princípio de negociação com o assessor da presidência Gilberto Carvalho? Interessante. Existe um ditado chinês que diz assim, “quando alguém aponta, os sábios olham para onde o dedo aponta e os idiotas olham para o dedo”. O que aconteceu naquele momento. Já estava no 18º, 20º dia de jejum, e eles estavam altamente preocupados com a minha vida. Mas não olharam para onde o dedo apontava, e sim para o dedo, um bispo que estava morrendo. “Vamos ver um jeito de criar uma situação para salvar as aparências e nos dirimir das responsabilidades de um possível cadáver episcopal”. Foi uma atitude emergencial, preocupada não com a causa da luta, mas com a vida do bispo que estava prestes a morrer e da imagem que isso causaria ao governo. Tanto isso é verdade que, des-

de o momento em que o STF (Supremo Tribunal Federal) votou a favor do governo, eles fecharam todas as negociações imediatamente. E no momento em que eu caio lá, em que cheguei ao meu limite e sou levado para a UTI, foi tudo encerrado. O problema não era o rio, o povo, era o bispo.

O ponto negativo é a grande insensibilidade do governo federal com o clamor do povo. Um governo que foi eleito pelas bases sociais desses país. Por causa deles que esse governo está onde está e, de repente, ele dá as costas para os movimentos sociais e cospe no prato em que comeu Quando o senhor iniciou a greve de fome, qual era sua expectativa em relação à abertura de diálogo com o governo? Nosso desejo sempre foi o diálogo. Nunca negamos o diálogo, mas queríamos que fosse transparente, verdadeiro e aberto. E o que aconteceu? Não podemos sentar e fingir que estamos conversando quando, do outro lado, o Exército está trabalhando nas obras. Vamos sentar e nos respeitar: pára aquela obra, vamos dar uma trégua, essas foram as condições. Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho, que foi ameaçar a própria vida. O que mais eu tenho a dar quando a força dos meus argumentos não valem mais. Quem sabe minha vida possa valer alguma coisa? Então, foi essa a luta para fazer com que o diálogo acontecesse. O senhor pode falar um pouco do momento em que a greve de fome foi encerrada, quando na seqüência da decisão da Justiça, o senhor passou mal... Depois, o que aconteceu, e como foi tomada a decisão de encerrar? Eu não cheguei propriamente a essa decisão. Naquele momento, estava totalmente fora de mim, cheguei ao meu limite. De acordo com a convenção internacional de Malta, nesses momentos, os responsáveis diretos ou a autoridade competente devem tomar a decisão. No caso, o responsável era o meu médico, acompanhado pela minha família. Cheguei ao meu limite, não estava mais senhor das minhas ações. Eu, nos momentos de lucidez, tinha quase certeza que ia embora e estava muito em paz comigo. Tive uma experiência muito bonita, daquilo que São Paulo diz: “Viver é graça e morrer é lucro”. Eu estava tão desprendido de tudo, numa comunhão tão grande com Deus, que se eu tivesse partido naquele momento, partiria feliz. Estava bem, mas não queria morrer. Queria viver. Mas não tinha forças para me expressar, estava semi-consciente. Lembro do momento em que recebi a extrema-unção. Eu fiquei feliz de saber que fui levado para a UTI pelo médico, e não pela autoridade. E, quando voltei à consciência, ainda na UTI, pensei, o po-

vo merece respeito e só vou parar o jejum depois que eu me comunicar com ele. Escrevi aquela carta final e ainda passei em jejum mais um dia, o 25º. Olhando para trás, quais os pontos positivos e negativos desse período? O grande ponto positivo de tudo isso foi que, de repente, os movimentos sociais e a sociedade acordaram. Só por isso valeu o gesto, porque o governo Lula representou muita esperança dos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, na mesma intensidade que gerou esperança, gerou decepção. E o pessoal estava todo anestesiado, pensando “quem somos, o que queremos” e, de repente, um gesto assim joga todo mundo para cima. É a redescoberta da força dos movimentos sociais, da sua identidade, do para que viemos, quais são nossos objetivos, a importância de continuarmos lutando. Só por isso valeu. O ponto negativo é a grande insensibilidade do governo federal com o clamor do povo. Um governo que foi eleito pelas bases sociais desses país. Por causa deles que esse governo está onde está e, de repente ele dá as costas para os movimentos sociais e cospe no prato em que comeu. Como o senhor falou, o gesto despertou os movimentos sociais. Por um outro lado, isso não mostra um certa fraqueza dessas organizações? (Em março, eles haviam montado um acampamento em Brasília – DF e em junho ocuparam o canteiro de obras da transposição em Cabrobó) Com toda certeza. O pessoal estava desarticulado. Havia um grande desânimo, e isso ajudou a alavancar os movimentos sociais. E as perspectivas? Continuar lutando. As lutas continuam e aí não é um jogo, quem ganha e quem perde, não estamos numa partida de futebol. A vida é muito mais complexa e as grandes conquistas, mais exigentes. O senhor acha que valeu a pena? Sempre vale, toda luta vale a pena. Muitas coisas bonitas, só aquele clima que criou naqueles dias... A transposição ainda pode ser barrada? Não vai acontecer. Pode escrever.

Quem é Frei Luiz Flávio Cappio nasceu em 1946, no dia de São Francisco de Assis, 4 de outubro. Paulista de Guaratinguetá, foi ordenado frade franciscano em 1971 e trabalhou por três anos na periferia de São Paulo (SP) pela Pastoral Operária. Há mais de três décadas, foi para o sertão nordestino apenas com a roupa do corpo. No dia de seu aniversário de 48 anos, iniciou uma peregrinação de 6 mil quilômetros da nascente até a foz do rio São Francisco, onde chegou exatamente no dia 4 de outubro de 1993. A experiência está retratada no livro “O Rio São Francisco – Uma Caminhada entre Vida e Morte”. Tornou-se bispo da Diocese de Barra (BA) em 1997, escolhido por não ter outro que se dispusesse a viver na região.


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américa latina Guido/CC

Manifestantes pedem a libertação de presos políticos Mapuche, maior grupo indígena do país

Greve de fome pelo povo Mapuche CHILE Líder indígena Patrícia Troncoso é transferida para hospital precário sem que a família fosse avisada da Redação EM GREVE de fome desde 10 de outubro de 2007, a presa política mapuche Patricia Troncoso Robles pode morrer a qualquer momento. A ativista foi condenada a 10 anos de prisão pela Lei Antiterrorista, em vigência no Chile desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). A líder, que já cumpriu cinco anos da pena, foi acusada de provocar um incêndio em dezembro de 2001 numa propriedade da empresa Florestal Mininco, no município de Ercilla. No dia 15 de janeiro, a ativista foi transferida para um hospital na cidade de Chillán, próxima de Santiago, contra sua vontade e sem que sua fa-

mília fosse avisada. Para os familiares, a ação é uma tentativa do governo de Michele Bachellet de diminuir o número de protestos em defesa da causa dos mapuches. Lideranças indígenas e familiares desejavam que Patrícia fosse levada a Santiago, onde há melhores instalações médicas para atendê-la, mas acreditam que isso não foi feito, pois na capital do país haveria possibilidade de haver mais solidariedade popular. De acordo com a médica Berna Castro, que examinou a líder mapuche, ela está em grave estado de saúde e corre risco de morte. Os familiares da ativista alegam que não puderam visitá-la e recorreram à Justiça para reverter a medida.

CUBA

Patricia estava reclusa na prisão de Angol, onde iniciou a greve de fome. O protesto busca pressionar as autoridades por um novo julgamento, já que os ativistas foram processados e condenados no marco das leis Antiterroristas. Reivindica também a liberdade de todos os presos políticos mapuche, além da desmilitarização da zona de La Araucária. De acordo com um manifesto em defesa de Patrícia e contra a presidente Michelle Bachellet, divulgado pela Coordenação de Organizações Autônomas Mapuche, a polícia chilena transferiu a militante contrariando o informe dos médicos da comissão do governo e dos médicos de confiança da família.

Por meio do documento, os familiares e as organizações mapuche fazem as seguintes exigências: que um representante da Corte de Apelações de Santiago visite o hospital onde se encontra Patrícia, para que tome conhecimento da situação que a ativista se encontra; a imediata transferência de Patrícia a um centro hospitalar de maior complexidade; que se cumpram as normas e princípios na Declaração de Malta, a qual determina o respeito à vontade e à dignidade de uma pessoa em greve de fome.

Territórios ocupados

O povo mapuche, maior grupo indígena do país, está concentrado principalmente nas regiões centro-sul do Chile. Há

mais de 10 anos, luta pela recuperação de territórios ocupados pela empresa Florestal Mininco – um dos maiores grupos econômicos do país que controla mais de um milhão de hectares com plantações de eucalipto e pinheiros para a produção de papel e celulose. Dentre suas reivindicações, estão a devolução de terras, autonomia para os seus territórios e mais oportunidades de representação política. Durante uma manifestação que reivindicava a devolução de terras pertencentes aos indígenas, em 3 de janeiro, um jovem mapuche, Matías Catrileo, foi assassinado pela polícia. O estudante de 22 anos morreu quando agentes policiais dispararam contra um grupo indígena que

tentou ocupar a propriedade Santa Margarita, nos arredores da localidade de Vilcún, cerca de 30 quilômetros a leste de Temuco. As organizações mapuches vêm denunciando o silêncio do governo e, em particular, da presidente Bachelet no caso da greve de fome e a compararam com a ex-primeiraministra conservadora Margareth Thatcher, que governou a Grã-Bretanha nos anos 80. As lideranças mapuche lembram que, em 1981, a “Dama de Ferro” britânica não ouviu o apelo dos presos do Exército Republicano Irlandês que, após 61 dias de greve de fome, começaram a morrer um após outro por se negarem a vestir o uniforme de réus comuns. (com agências internacionais)

SAÚDE

Novo Parlamento Governo brasileiro negocia validação dos mantém tendência diplomas de médicos formados em Cuba de renovação

Reprodução

da Redação

Voto não é obrigatório, mas a abstenção foi mínima: de apenas 5% Gerardo Arreola, de Havana (Cuba) Os cubanos mantiveram a tendência de renovar a maior parte da Assembléia Nacional do Poder Popular (ANPP) nas eleições realizadas no dia 19. Apenas um terço dos deputados foi mantido. Entre eles, os principais dirigentes do Partido Comunista de Cuba, a maior parte do gabinete ministerial e os comandantes das forças armadas. Em Cuba, o voto não é obrigatório, mas mesmo assim a abstenção foi mínima: de apenas 5%. Nas eleições, os cubanos deveriam ratificar uma lista única de 614 candidatos para um número igual de cadeiras no Parlamento. Cerca de 8,2 milhões de cubanos foram às urnas. Três veteranos da revolução cubana deixaram seus assentos na Assembléia do Poder Popular: Ramón Castro, de 83 anos, assessor de assuntos agropecuários e irmão de Fidel e Raúl; Pedro Miret, de 80 anos, um dos fundadores do movimento rebelde de já quase meio século, vice-presidente e membro do Conselho de Estado; e o célebre ortopedista Rodrigo Alvarez Cambras, de 72, que teve Saddam Hussein entre seus pacientes. O novo Parlamento cubano entrará em funcionamento em 24 de fevereiro e, se-

gundo o presidente interino, Raúl Castro, terá de tomar “grandes decisões”. Entre esses desafios, está na agenda a reforma do sistema socialista, anunciada em junho de 2007,mas da qual não se tem detalhes. A reforma suscitou uma intensa discussão no Partido Comunista e milhares de reuniões populares sobre a situação econômica e social dos cubanos. A iniciativa levantou expectativa na população, mas ainda não foram tornados públicos o resultado desses debates, a avaliação que os dirigentes fizeram sobre o processo ou mesmo qual será o sentido dessas possíveis mudanças. A lista dos 614 nomes confirmada pelos cubanos é encabeçada por Fidel Castro, afastado do cargo há um ano e seis meses por motivos de saúde. A expectativa, no entanto, é que Fidel seja reeleito novamente presidente do Conselho de Estado (chefe de Estado), um cargo que o converte, por lei, em presidente do Conselho de Ministros – chefe de governo. “Se ele seguir se recuperando de forma tão satisfatória como tem sido até o momento, terá condições de continuar ocupando suas funções”, avaliou o líder do Parlamento, Ricardo Alárcon, confirmando que votará em Fidel. (La Jornada – www.jornada.unam.mx)

O presidente Lula concluiu, no dia 15, uma rápida visita a Cuba, onde a comitiva brasileira assinou acordos comerciais com o país caribenho e discutiu a questão do reconhecimento dos estudantes brasileiros formados na Escola Latino-Americana de Medicina (Elam). O brasileiro teve um breve encontro com o presidente Fidel Castro, afastado do governo por problemas de saúde há um ano e meio. Segundo a página na internet do Ministério da Saúde, o governo brasileiro assinou um Termo de Ajuste Complementar ao Acordo de Cooperação Cultural e Educacional Brasil-Cuba. O acordo prevê que estudantes formados em Cuba ajudem a suprir cerca de mil vagas em comunidades indígenas, quilombolas e no interior do País. “É um importante avanço nas relações entre Brasil e Cuba. E uma grande conquista para o Sistema Único de Saúde (SUS), que hoje tem entre suas principais prioridades preencher os vazios assistenciais no Brasil”, comemorou o ministro José Gomes Temporão (Saúde). Para os diplomas serem validados, as universidades precisarão aderir ao programa do governo federal que, em contrapartida, dará incentivos financeiros para as instituições de ensino públicas firmarem convênios com a Elam. A nota do Ministério da Saúde diz que os estudantes formados na Elam são vinculados, em sua maioria, a movimentos sociais, integrantes de comunidades indígenas, afrodescendentes e quilombolas. Com a validação dos currículos, poderão exercer a profissão de medicina em suas áreas de origem. O ministro Fernando Haddad (Educação) afirmou que três universidades teriam disposição de buscar um entendimento neste sentido: as federais do Ceará, do Acre e do Rio. ‘’É preciso compatibilizar os currículos da Elam com o das universidades brasileiras. A idéia é que os estudantes façam estudos complementares no Brasil para ter

Fidel fotografa Lula durante recente encontro em Cuba

“É um importante avanço nas relações entre Brasil e Cuba. E uma grande conquista para o SUS, que hoje tem entre suas principais prioridades preencher os vazios assistenciais no Brasil”, comemorou o ministro José Gomes Temporão o diploma reconhecido’’, disse Haddad, em Havana. Representantes do governo brasileiro encontraram estudantes da Elam, que manifestaram desejo de trabalharem com assistência à saúde nos rincões brasileiros. Um estudo feito pela Secretaria da Saúde de São Paulo mostrou que justamente nas áreas periféricas da maior cidade brasileira concentram-se as maiores carências de profissionais de medicina. Em entrevista a O Estado de S. Paulo, no entanto, o Conselho Federal de Medicina (CFM) se opôs à proposta de validar os diplomas.

Mais convênios

Entre os acordos assinados por Lula e pelo presidente cubano em exercício Raúl Castro, está um convênio entre as

estatais Petrobras e Cupet para busca de petróleo em águas profundas cubanas no Golfo do México. A empresa brasileira também participará da construção de uma fábrica de lubrificantes em Cuba. Créditos suplementares estão sendo analisados para projetos nos setores de hotelaria, farmácia, biotecnologia, infra-estrutura, indústria açucareira e transporte. Também foi assinado um acerto de cooperação científica, técnica e tecnológica e convênios para o fortalecimento institucional do controle de qualidade e vigilância sanitária, colaboração entre os ministérios da Saúde e suporte técnico para o sistema de informação de águas subterrâneas. (Leia mais na Agência Brasil de Fato – www.brasildefato.com.br)


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américa latina Gama

Diálogos com La Paz BOLÍVIA Oito bate-papos aleatórios sobre a vida e o presidente Evo Morales, que completou dois anos de governo no dia 22 de janeiro Igor Ojeda correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)

1. No banco da praça, entre 55 e 60 anos

- O senhor tem horas? - Vinte para às onze. - Obrigado. Mora por aqui? - Não. - Trabalha? - Não. Tenho uns trâmites para fazer por aqui. - Entendi. Onde o senhor mora? - Em El Alto. - Legal. E o que o senhor está achando do presidente Evo Morales até agora? - Tá mais ou menos, né? - Mais ou menos? - É. - Acha que poderia estar melhor? - Acho. Mas acredito que ainda vai melhorar. - Que bom. - Tem muita coisa que é difícil, porque não o deixam fazer as coisas. - É verdade. - Mas vai melhorar. Ele tem muito apoio na classe média e nas classes populares. - Sim. Em El Alto ele tem bastante apoio, né? - Ah sim, todos os alteños o apóiam. - Uma das grandes brigas da oposição é sobre a Renda Dignidade [bolsa financiada, em parte, com recursos do gás destinados, anteriormente, para os governos departamentais] para os idosos, né? - Sim, porque mexe no IDH [Imposto Direto sobre os Hidrocarbonetos]. - E o senhor acha que essa renda é boa? - É sim. O presidente foi inteligente em favorecer os idosos. Não tinham feito isso antes. - Vai melhorar a vida deles, né? - Vai melhorar sim.

2. Engraxate, cerca de 15 anos

- Trabalha há muito tempo com isso? - Uns quatro anos. - Mas não dá para viver com o que você ganha, dá? - Só às vezes. - Quanto ganha por dia, mais ou menos? - Uns 15 pesos [R$ 4, aproximadamente] - E a vida, tá melhorando com o Evo? - Tá sim. - Ele tá indo bem? - Tá indo bem sim. - Que bom. Por que vocês cobrem o rosto? - Por causa do cheiro do creme de engraxar. - Ah, é por isso então? - É sim. E por causa do frio também. - Entendi. (Outros engraxates sentam do lado. Eles conversam em aymara) - Estão falando em aymara? - Sim, estamos. Entende? - Não entendo nada. - Eu falo francês (risadas) - Vocês aprendem aymara desde pequenos? - Sim. Há quanto tempo está em La Paz? - Três meses. - E o que está achando? - Estou gostando bastante. E vocês, são daqui? - Claro, somos paceños de coração. - E onde moram? - Dormimos logo ali mesmo.

3. Faxineira, entre 20 e 25 anos

- Você vive por aqui? - Sim, vivo sim. - Uma curiosidade: o que você acha do governo Evo até agora? - Uns dizem que vai mal. Outros, que vai bem. - Mas e você, o que acha? - Tá mais ou menos. - Mas o que falta? - Acho que falta um pouco de entendimento para ele. - Como assim, você acha que ele não está preparado? - Isso. Mas aos poucos ele está se preparando. - Ah, então ainda vai melhorar. - Sim, vai melhorar sim. - Mas também é difícil para ele fazer algumas coisas. A oposição

não o deixa trabalhar, né? - Sim, tem isso também. Ele precisa de apoio. - Sim. Tá dividido, mas a maioria o apóia, não? - Sim. - Você não acha que a situação pode melhorar com a nova Constituição? - Sim, vai sim. - Você a conhece? - Um pouco só. - Você trabalha com o quê? - Numa micro-empresa. - Fazendo o quê? - Limpeza, essas coisas. - Ah tá. Mas e a vida com o Evo, não mudou nada? - Mudou um pouco sim. - O que, por exemplo, dinheiro? - Sim, um pouco mais de dinheiro. Ele está fazendo alguma coisa, o que os outros presidentes não fizeram. - O que, por exemplo? - Por exemplo, antes havia muita gente que não sabia ler nem escrever. Agora sabe. - Ah, que bom. Que mais? - Também poucas pessoas não tinham documento de identidade. O Evo fez uma campanha de legalização gratuita.

6. Universitária, entre 20 e 25 anos

4. Vendedora de barraquinha de sanduíches de lingüiça, aproximadamente 60 anos

7. Dona de carrinho de suco de laranja em Huyustus, maior mercado de rua de La Paz: entre 45 e 50 anos

- A barraquinha é sua? - Não, não. Eu só atendo. - Ah, tá. E dá para viver com o que a senhora ganha? - Mais ou menos. Nem sempre. - E a vida com o Evo, melhorou? - Está pior. - É mesmo? Por quê? - Antes havia dinheiro circulante, havia grana. Hoje não tem mais. - Mas por que a senhora acha que está assim? É um governo ruim? - Não sei, não sei. Mas está pior. Não tem trabalho, as pessoas estão indo para o exterior... - Antes não iam? - Não. - Mas a senhora não acha que pode melhorar? - Tomara. Tomara que sim. - Mas a senhora acha que vai? - Não sei, vamos ver. Há quanto tempo você está morando aqui? - Três meses. - Ah é? E gosta do Evo? - Gosto... algumas coisas não. Por um lado, acho que a oposição o atrapalha bastante. - Ah sim, tem isso sim. Mas vai melhorar, vai sim.

5. Dono de barbearia, cerca de 45 anos

- A barbearia é sua? - Sim, é. - Faz muito tempo? - Sim, faz um tempinho já. - Legal. E como está a vida com o Evo? - Acho que as mudanças ainda vão demorar para vir. - Por quê? - Porque as mudanças não são feitas da noite para o dia. - Mas o que falta? - Acho que falta a nova Constituição Política do Estado ser aprovada. - Com ela, acha que vêm as mudanças? - Acho que podem vir. - Mas o Evo até agora não fez nada? - Fez um pouco. O que mais diz respeito aos bolivianos é emprego, trabalho. - E até agora não se criou emprego? - Não. Mas está começando. Por exemplo, na empresa Mutum [mineradora]. Por enquanto, só tem empregos administrativos, mas daqui a pouco vai gerar bastante emprego de mineradores, pedreiros... - Ah, entendi. - E tem a mineradora ao sul de Potosí, onde está sendo investido muito dinheiro. - Então, pouco a pouco vai criando emprego... - Sim. Os governos anteriores endividavam o país. A dívida é de dois bilhões de dólares. Mas, agora, o Banco Central tem cinco bilhões de dólares. Então, hoje existe dinheiro para pagar a dívida. - Entendi. - Mas há também os que não querem as mudanças. - Os de Santa Cruz, por exemplo? - Exato.

- Estuda aqui? - Estudo. - Que curso? - Serviço social. - Ah, legal. E o que vocês pensam do Evo? - Ele está fazendo o que pode... Pelo menos faz bem mais que os governos anteriores. - O que, por exemplo? - Ele nacionalizou os hidrocarbonetos, recuperou os recursos que os outros presidentes tinham vendido. - Sei. Mas falta ainda muito o que fazer, né? - Falta. - Mas por que há coisas que ele não pode fazer? - Ele está tentando fazer o que pode.

- Hoje tá menos cheio do que outros dias, né? - É sim, hoje está tranqüilo. - A senhora trabalha há muito tempo por aqui? - Sim, faz tempo. - E o que vocês estão achando do Evo? - Não está bom, não. Só a agricultura, para cá não. - Ah é? - Estamos exportando frutas para o Brasil, para a Espanha, mas para a gente não tem. - Entendi. - Abacaxi, por exemplo, deste tamanho [faz o gesto com as mãos], estão exportando para o Brasil, para a Espanha. Para nós, é caro. - O Evo não está fazendo nada para a cidade? - Não, só para os povoados. - Só para a área rural, é isso? - Isso. Você é de onde? - Do Brasil. - Ah é? - Sim, mas estou morando aqui em La Paz. - Tem bastante boliviano no Brasil, né? - Tem sim. Na minha cidade, São Paulo, tem muitos. - E o que tem para os bolivianos fazerem lá? - A maioria trabalha na fabricação de tecidos. - Ah, fazem roupa, né? - Isso. É muito duro. Trabalham 12, 14 horas, quase não ganham nada. São muito explorados. - Sei. Não tem mais nada para os bolivianos fazerem lá? - É difícil. Às vezes trabalham como pedreiros, como comerciantes de rua também... - Ah tá. - E para os comerciantes de rua daqui, o Evo não fez nada? - O prefeito que está fazendo. - Ah é? - Sim, está construindo mercados. - Entendi. Sem ser isso, é difícil conseguir trabalho, né? - É, não tem... - Mas a senhora não acha que vai melhorar no próximo ano? Com a nova Constituição? - É, o Evo está há só dois anos. É pouco. Vai fazer as coisas ainda. Quanto de dinheiro é preciso para ir para o Brasil? - Hum... não sei. Bastante, porque tem o ônibus e um dinheiro para ficar lá até conseguir trabalho, né? - É verdade. - Mas a maioria dos bolivianos fora está na Argentina, não é mesmo? - É sim, tem bastante. - Eles mandam muito dinheiro para cá, né, para suas famílias? - Mandam. É que a Argentina aceita sem exigir nada. - Ah é? - É. Só precisa do documento de identidade, não precisa de passaporte. - Ah tá.

- Antes pediam passaporte, agora não mais.

8. Engraxate, 13 anos

- Quer que lustre? - Não, obrigado. - Lendo jornal? - Sim. - O que está acontecendo hoje? - Nada demais. Pouca novidade. - Chovendo muito, né? - Sim, mas pelo menos agora parou. - É. - Vai e volta. - De que país você é? - Brasil, mas moro aqui. - Ah tá. - Eu gosto bastante da Bolívia. - É linda, não? - É sim. Você também gosta? - Gosto sim. O Brasil é maior que a Bolívia, né? - Sim, bem maior. - A Bolívia perdeu muito. - Terras? - É, territórios. - É verdade, perdeu para vários países, né? - É. - Você mora por aqui? - Sim, moro. E você? - Em Sopocachi. - Ah, para cima. - É. (Bocejo) - Tá com sono? - Estou sim. Você não? - Não, eu tenho é fome. - É? - Você não quer ser o padrinho de um refrigerante? É que ainda não almocei. [Era por volta das 17h30] - (Pego 10 bolivianos, cerca de R$ 3) Aqui está. - Muito obrigado. - De nada. Você trabalha há muito tempo? - Quatro anos.

- Quantos anos você tem? - 13. - Sei. E como está o Evo? - Bem. - Ele é bom? - É sim. - Por quê? O que ele está fazendo? - Está doando... está proporcionando dinheiro para a Bolívia. - Ah, é? - É. Antes não era assim. - Como era? - Antes não faziam nada, só roubavam. - O Evo não rouba não, né? - Não. Ele está usando o dinheiro para mudar o país. - Você acha que ele faz as coisas para os mais necessitados? - Acho sim. - A vida vai melhorar para todos, então? - Vai sim. - Que bom. Tomara. Você está na escola? - Estou. - Legal. E o que você quer ser quando crescer? - Doutor. - Médico? - Isso. - Que legal. E por que você quer ser doutor? - Para salvar vidas.


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O território palestino segue sob forte controle das tropas de Israel; bloqueio é condenado pela comunidade internacional

Bloqueio israelense deixa 1,5 milhão de palestinos sem luz em Gaza CERCO Mahmoud Abbas adverte Israel que recorrerá ao Conselho de Segurança da ONU; Tel Aviv ignora pedidos internacionais da Redação AMPLAS ZONAS da Faixa de Gaza, onde vivem 1,5 milhão de pessoas, ficaram às escuras no dia 20, depois que a única central elétrica do território palestino reocupado cessou suas atividades por falta de combustível devido ao fechamento de fronteiras imposto por Israel. A falta de fornecimento elétrico afeta principalmente os serviços sanitários e os hospitais, onde estão sendo atendidos dezenas de feridos dos últimos ataques do Exército israelense, que tiraram ao menos 37 vidas. O diretor da central, Rafik Mliha, confirmou o fechamento total das instalações que produzem 65 megawatts dos 200 que consomem os habitantes da Faixa de Gaza, o que afeta cerca de 800 mil pessoas. O resto do fornecimento vem de Israel – que, por hora, mantém o abastecimento – e do Egito. A cidade de Gaza e os campos de refugiados de Al-Bu-

reij e Nuseirat, ao sul, que acolhem 1/3 dos 1,5 milhão dos habitantes da Faixa, ficaram às escuras, sem contar que as suas reservas de gás doméstico e combustível para alguns geradores começam a ficar escassas. No dia 17, Israel impôs um férreo controle ao território palestino, dominado pelo movimento de resistência Hamas, em represália aos lançamentos de foguetes artesanais. Apesar dos apelos internacionais, o governo israelense decidiu manter o bloqueio que impede a entrada de combustível, sem falar de alimentos e outros produtos de primeira necessidade, dos quais a população depende de ajuda exterior. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, exigiu de Israel a suspensão imediata do bloqueio e que autorize a entrada de combustível “para facilitar a vida dos inocentes”, e permitir que os hospitais se mantenham em funcionamento. Abbas afirmou

que se Israel não puser um freio a essa situação, recorrerá ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Esse bloqueio terá graves conseqüências aos habitantes, mas também para o funcionamento dos hospitais, estações de bombeamento de água e fábricas”, reiteirou Rafik Mliha. A falta de eletricidade “poderá ter efeitos devastadores na vida dos civis de Gaza”, indicou Christopher Gunness, porta-voz da Agência das Nações Unidas para os Refugiados. “Privar as pessoas de coisas fundamentais é priválas de dignidade humana. É difícil compreender a lógica que consiste em fazer sofrer centenas de milhares de pessoas por nada”.

Catástrofe sanitária Da mesma maneira, o ministro da Sáude palestino, Moaiya Hassanain advertiu que esse corte poderá causar uma catástrofe sanitária. “Agora, temos que esco-

lher entre concentrar a pouca energia em quartos de maternidade para os recémnascidos ou em salas de cirurgia para realizar operações de coração. O grupo britânico de direitos humanos Oxfam também condenou o bloqueio de combustível e o qualificou de “ineficiente e ilegítimo”, enquanto o grupo israelense Gisha, que tem lutado na Suprema Corte para que o combustível seja fornecido à Faixa de Gaza, disse que esse castigo aos 1,5 milhão de palestinos não deterá o lançamento de foguetes e só criará um incrível sofrimento humano em ambos os lados da fronteira. Além disso, as mercearias do já empobrecido território começaram a ficar sem mercadorias em virtude do aumento da demanda e do desabastecimento, enquanto os postos de combustível foram fechados devido à escassez de gasolina e diesel. Da Síria – onde está exilado –, o líder do Hamas, Ja-

led Meshaal, em declarações dadas à cadeia de televisão do Catar, Al Jazeera, apelou aos líderes árabes e a Abbas que esqueçam as diferenças e ajudem a machucada população de Gaza. Meshaal disse que já entrou em contato com líderes de alguns países árabes, entre eles, Egito e Arábia Saudita, em busca de ajuda e para que pressionem Israel.

Cinco mortes Na Faixa de Gaza, o Hamas divulgou que, quatro horas depois do apagão, cinco pacientes perderam suas vidas devido ao corte de energia elétrica nos hospitais. O rei Abdallah II, da Jordânia, expressou sua “inquietude pela deteriorização da situação humanitária” e condenou “as violações militares israelenses em Gaza, que provocam a morte de inocentes”. Os palestinos, por seu lado, armazenam remédios e alimentos básicos, como arroz e água.

Nesse contexto, o Exército de Israel matou dois militantes ao norte da Faixa de Gaza durante um novo ataque aéreo. Uma das vítimas era membro das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, um grupo armado ligado ao Fatah, o movimento de Abbas, a quem os soldados responsabilizaram por ter lançado um foguete Qassam contra território israelense. Desde 15 de janeiro, o Exército israelense matou 37 palestinos, em sua maioria ativistas, em operações militares que tinham a missão de cessar os lançamentos de foguetes. No dia 22, Israel voltou a fornecer – parcialmente – combustível à central elétrica, mas o embargo continua. Pressionado pela comunidade internacional, o governo israelense decidiu também permitir a entrada de 50 caminhões com remédios e comida no território palestino, assim como fornecer 500 mil litros de diesel para abastecer os geradores. (La Jornada – www.jornada.unam.mx)

áfrica Tom Maruko/CC

Crise no Quênia: para além da etnia ANÁLISE Embates no país misturam disputas de classe, demandas com relação ao Estado, protestos contra corrupção e rivalidades entre etnias Maurício Santoro A crise política no Quênia despertou a atenção mundial por se tratar de um dos países mais desenvolvidos economicamente da África, fundamental para a estabilidade de toda a costa oriental do continente. Contudo, a classificação de “conflito étnico” para descrever a situação atual é um tanto apressada, pois os embates no Quênia misturam disputas de classe, demandas com relação ao Estado, protestos contra a corrupção e rivalidades entre as etnias que formam o país. O Quênia tem cerca de 40 etnias, sendo que a principal são os kikuyu, que constituem cerca de 22% da população. Quando o país era colônia britânica, esse povo foi sistematicamente expulso de suas férteis terras para dar lugar a ocupantes europeus. A reação veio na forma da revolta dos Mau Mau,

na década de 1950, um dos marcos mais importantes das lutas de libertação colonial na África. A geração de líderes que conquistou a liberdade dos britânicos, em 1963, incluía representantes de diversas etnias: kikuyos, luos, kalenjin. O primeiro presidente foi Jomo Kenyatta, kikuyu, mas o kalenjin Daniel arap Moi foi o político que mais tempo passou à frente do país. Ele governou de 1978 a 2002, num regime marcado por autoritarismo e corrupção.

Ex-amigos A ditadura de Moi foi substituída por um sistema multipartidário liderado pelo presidente Mwai Kibaki, um kikuyu. Inicialmente, ele buscou alianças com os luos, representados por Raila Odinga. Mas as disputas por poder fizeram com que os dois se tornassem inimigos. No governo Kibaki, a economia cresceu, impulsionada pe-

Crianças contidas durante onda de violência após as eleições

las exportações do agronegócio e pelo turismo – o Quênia é famoso por suas reservas ecológicas, praias e sítios arqueológicos. No entanto, a prosperidade não atingiu a camada mais pobre da população, que se ressente das precárias condições de vida, da corrupção e dos altos índices de desemprego. Em dezembro de 2007, Odinga disputou a presidência com Kibaki, que tentava a reeleição. As pesquisas indicavam que seria uma corrida acirrada e havia preocupação de que o lado derrotado não

aceitasse os resultados. Foi exatamente o que ocorreu, com Odinga acusando Kibaki de ter fraudado as eleições. Os partidários da oposição, revoltados, foram às ruas e os protestos se tornaram violentos, com o ódio canalizado contra a etnia dominante dos kikuyu e concentrado geograficamente nas favelas de Nairobi e no Vale Rift – região onde as disputas fundiárias são mais intensas.

Lembranças de Ruanda Os acontecimentos mais brutais do confronto, no qual

morreram mais de 600 pessoas, lembraram os do genocídio em Ruanda, com grupos armados assassinando pessoas da etnia rival, como na queima de uma igreja na cidade de Eldoret, onde se abrigavam pessoas refugiadas. Porém, é preciso atentar para o fato de que a política queniana é marcada por alianças e coalizões entre diversos grupos étnicos, até porque nenhum deles é capaz de impor sozinho seu domínio. Os principais líderes do país trabalharam juntos em governos que atravessaram

as barreiras étnicas. Kibaki e Odinga, por exemplo, foram ministros do ex-presidente Moi. O ódio racial é principalmente uma válvula de escape para tensões econômicas e sociais, como o desemprego, as disputas por terra e a revolta contra a corrupção dos líderes. Os Estados Unidos e a União Européia investiram muito dinheiro no Quênia e apostaram em Kibaki para a construção da democracia após os 25 anos da ditadura de Moi. Embora essa opção tenha se mostrado errada, os países ricos foram relutantes em abandoná-lo e aceitaram sua declaração de vitória eleitoral, pressionando-o apenas para que inclua em seu governo os líderes da oposição, de modo a acalmar o descontentamento e tentar chegar a algum tipo de pacto de governabilidade. As preocupações internacionais se devem à importância econômica do Quênia para a África oriental. Seus portos e estradas garantem o abastecimento de Uganda, Ruanda, Burundi e partes significativas da República Democrática do Congo. São países marcados por conflitos muito graves, nos quais a escassez de combustíveis ou de produtos industriais pode resultar em novas ondas de violência numa região já bastante conflagrada. Maurício Santoro é pesquisador do Ibase.


12 de 24 a 30 de janeiro de 2008

cultura Liliane Braga

MÚSICA Alayo, do grupo TNT-Rezistencia, discute a questão da periferia em Cuba e critica a burocracia do governo Luís Brasilino da Redação A PERIFERIA cubana ainda abriga uma população mais negra que a das regiões centrais e concentra os trabalhos que oferecem os menores rendimentos. Historicamente, os entornos das cidades de Cuba foram ocupados pelos escravos libertos que criaram, por meio de uma cultura de resistência, um modo de agir e uma linguagem próprios. Dessa forma, os habitantes das periferias podem ser identificados e sofrem com a segregação. O hip-hop do rapper cubano do TNT-Rezistencia, Alain García Artola, o Alayo, explicita essa situação, ao mesmo tempo que exalta as particularidades e a riqueza musical da Ilha. Ele veio ao Brasil neste mês, como resultado de intercâmbio entre rappers cubanos e brasileiros iniciado em 2003 pela jornalista Liliane Pereira Braga. Do projeto, saiu o vídeo-documental “Zona Caliente – Santiago de Cuba Hip Hop” (em parceria com o diretor Toni C.), que foi exibido em novembro de 2007 no Hutúz Rap Festival, no Rio de Janeiro (RJ). O filme traz como fio condutor os integrantes do TNTRezistencia junto de suas mães, e procura mostrar um pouco do cotidiano de Portuondo, periferia de Santiago de Cuba. Confira a seguir os principais trechos de entrevista concedida por Aloyo ao Brasil de Fato. Brasil de Fato – Como você entrou em contato com o hip-hop? Alayo – Para isso, tenho que lhe falar primeiro como o hiphop surgiu em Cuba. Desde a influência de músicos cubanos no surgimento do jazz, sempre tivemos muito intercâmbio com a música dos Estados Unidos. Nos anos de 1980, quando a cultura hip-hop começou nos EUA e se expandiu pelo mundo, o conflito político entre Cuba e EUA tornou difícil a entrada da música pela rádio. A projeção do filme Beat Street estimulou o aparecimento dos b-boys, com as pessoas dançando nas ruas. Nos anos 1990, o acesso ao entretenimento foi limitado pelo “período especial” [crise econômica ocorrida com o fim da União Soviética, em 1991], principalmente na periferia. Então, as pessoas começaram a se reunir nas ruas para ouvir músicas que chegavam por meio dos cubanos que viajavam ao exterior naquele momento: marinheiros, pilotos de avião... Os MCs começaram assim. Os grupos foram ganhando força e, em 1994, foi organizado o primeiro festival nacional de rap. E Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do país, não ficou alheia a esse fenômeno. E eu tenho a honra de ser diretor de um dos primeiros grupos que começou por lá, em 1998. Em 1999, pudemos conquistar uma cena mais ampla, com apresentações em áreas públicas, em todo o âmbito sociocultural da província de Santiago de Cuba e Oriente [a parte leste da ilha], principalmente. Quais são as particularidades do rap cubano? A música que começamos a fazer e que mantemos até o momento é uma mescla das raízes cubanas, principalmente, a parte da percussão, a parte harmônica, com a influência que temos da música da Jamaica, com o ska, o reggae, o dub, o dancehall, da música funk, do jazz. Fazemos essa mescla para que seja mais autêntico e usarmos no discurso a linha semântica, a métrica própria da forma de falar dos habitantes de Oriente.

Para Alayo, o rap é um meio de discutir os reais problemas da sociedade cubana

Rapper cubano denuncia a segregação social

no mundo socialista E como são as letras? De protesto, cotidiano... Há de tudo. O rap é um gênero bastante versátil e contestador que, em qualquer parte do mundo, sempre vai responder aos interesses de setores menos favorecidos da sociedade. Em Cuba, não é diferente. Existem grupos muito contestadores que se destacaram por essa característica. Temos grupos que falam mais do cotidiano, para tornar a rotina mais suave. E temos, mais recentemente, muitos grupos comerciais, com interesse de entretenimento. E qual sua opinião sobre as músicas e os grupos comerciais? A tendência da música cubana é se inclinar um pouco ao comércio. Particularmente, não vou censurar essa gente, porque cada um responde por si. Prefiro fazer uma música mais artística, que responda aos interesses das pessoas que estão me escutando e que poderá contribuir com o desenvolvimento das minorias da humanidade. Fico contra apenas o conceito que transmite a música comercial, porque muitas vezes ela é responsável pela deterioração dos valores culturais, ético e morais que temos. Muitas vezes, essas músicas transmitem aos jovens ideais de classe alta, de dinheiro, de agressão, sem enfocar aspectos mais profundos. Por que o hip-hop tem esse caráter contestador? Tem muitas raízes que o fazem contestador. Principalmente a sua origem. Nasceu nos Estados Unidos e, em um meio social muito contraditório, foi a via de expressão de poucos que estavam em pleno apogeu do problema do ra-

cismo. Estava em ascensão a era pós-moderna em que houve uma decepção grandíssima, porque esquecia e apartava a minoria. O hip-hop foi um meio que as pessoas tiveram para escapar dessa realidade dura. Em Cuba, o rap surgiu num meio mais ou menos similar, num momento em que a população estava desesperada, havíamos vivido uma época de ouro, porque tínhamos o patronato da antiga União Soviética. Porém, quando se derruba o mundo socialista, fazendo surgir o maior império da história, os cubanos ficaram desesperados e muitas necessidades passaram a fazer parte do dia-a-dia. O Estado não tinha uma direção certa e cometeu muitos erros. Contra esses erros que afetaram muita gente é que se faz o rap. E como é a questão da periferia em Cuba? As cidades em Cuba eram muito pequenas e nelas viviam apenas as pessoas brancas e ricas e, ao redor delas, foram se assentando os negros libertos. Assim a periferia foi se construindo. Em Cuba, temos classes sociais, não definidas e instaladas no poder como aqui no Brasil, mas é visível. As pessoas com menos dinheiro são as que vivem na periferia. Me incluo nisso, essa é a minha situação. Vivo na periferia de Santiago de Cuba, em Portuondo, um bairro pobre a dez minutos do centro da cidade. Nós, da periferia, temos problemas com a habitação, com o sistema de distribuição de água, a rua que não está em bom estado... Numa situação como essa, muitos jovens se voltam aos delitos. Lamentavelmente, as pessoas tentam

sobreviver. A essência do delito em Cuba me parece que é essa. Não temos crime organizado. Temos delitos pela sobrevivência. As pessoas da periferia sofrem segregação? Vamos voltar na história. Os assentados (da periferia) foram os escravos e seus descendentes. Estes criaram sua própria cultura. Uma cultura de resistência, de sobrevivência, que determina o modo de olhar, de caminhar, falar, se vestir. A periferia cria sua própria linguagem, seu próprio código. E é como se reconhecem. Da mesma forma temos como saber quando uma pessoa tem dinheiro. Com a segregação é isso que acontece: foi criado o mito de que todos que vivem na periferia são delinqüentes. Por que os habitantes da periferia têm menos dinheiro? Se fizermos um estudo demográfico, vamos nos dar conta de que os melhores empregos em Cuba são das pessoas que não vivem nem nunca viveram na periferia. Mesmo com a revolução. E o principal fator é racial. A maioria das pessoas da periferia é negra. E, como na maioria dos lugares do mundo, não temos negros dirigindo corporações, organismos centrais de administração do Estado. As pessoas da periferia têm empregos de artesão, pedreiro, operário, mecânico. Qual sua opinião sobre o hip-hop no Brasil? Temos muito respeito pelo hip-hop brasileiro, porque aqui os grupos têm conseguido manter uma identidade dentro da globalização que enLiliane Braga

Periferia: delitos pela sobrevivência

frentamos. A essência da cultura hip-hop, que nasceu nos Estados Unidos, está sendo perdida. Quem vem mantendo essa essência são as pessoas da América Latina, nós, com a idéia de ter esse vínculo para fazer frente às pessoas que querem destruir nossa cultura para apropriar-se dela. O Brasil é uma praça muito forte, onde temos muito a aprender. O que você pode contar do projeto de intercâmbio entre rappers brasileiros e cubanos? Está mais na troca de músicas e informações. Houve a tentativa de um começo de troca mais efetiva em 2004, com a ida de uma delegação brasileira ao antigo festival de hip-hop cubano. Mas isso não chegou a acontecer em função do furacão Charlie. Naquela ocasião, gravei uma música com o grupo NUC, de Belo Horizonte (MG), que estava em Havana. Agora, queremos dar um próximo passo, que é levar as pessoas para participarem do nosso evento em Cuba. Em agosto, teremos o Simpósio Internacional da Cultura Hip-Hop, no qual queremos que haja uma presença bem representativa do Brasil. Teremos muitas travas burocráticas, mas se pode vencer. Você demorou quatro anos para conseguir vir ao Brasil. Como é essa burocracia cubana? Eu representaria graficamente a burocracia como um monstro, como se representa o monopólio. Ela está atrasando o desenvolvimento dos povos. Em Cuba, a burocracia é o pão nosso de cada dia. Temos um governo centralizado, paternalista e com muitas tendências à burocratização. Essa é uma influência negativa da antiga Rússia. A burocracia constituiu um dos fatores pelos quais a antiga União Soviética se desmembrou. Sendo assim, em Cuba, não é fácil viajar ao exterior. Você tem que fazer uma série de passos para que o governo lhe outorgue uma permissão para sair. Depois, uma outra série de passos para que a embaixada do outro país lhe dê visto. Mas nós, do rap, estamos lutando contra isso. Para que as pessoas percebam quais são os reais problemas que existem na nossa sociedade, para além do problema que nos causa o bloqueio econômico.

Em Cuba, o rap surgiu num momento em que a população estava desesperada, havíamos vivido uma época de ouro, porque tínhamos o patronato da antiga União Soviética. Porém, quando se derruba o mundo socialista (...) o Estado não tinha uma direção certa e cometeu muitos erros. Contra esses erros que afetaram muita gente é que se faz o rap Quem é Alain García Artola, o Alayo, tem 26 anos e vive no bairro de Portuondo, periferia de Santiago de Cuba. Está envolvido com o hiphop cubano desde a década de 1990 e é músico do grupo TNT/Rezistencia.

O que você pode falar do filme “Zona Caliente”? Foi uma coisa muito espontânea que saiu de uma relação que começou em 2003, quando uma jornalista brasileira foi a Cuba, nos conheceu e tentamos implantar um projeto para resgatar os valores e tradições culturais da comunidade em que vivemos. O vídeo mostra como vivem as pessoas em Cuba, com as necessidades colocadas pelo embargo, e aborda temas importantes como a educação, o pensamento, a formação musical e de valores familiares em Cuba. Recomendo às pessoas que, quando tiverem um tempo, assistam ao filme. Por que “Zona Caliente”? “Zona” é o lugar de residência das pessoas, principalmente na linguagem da periferia. E Santiago de Cuba é o lugar onde faz mais calor no país, é um verão que não se acaba. “Caliente” também deriva do fato de que Santiago de Cuba foi o berço de todas as principais revoltas cubanas: a libertação dos escravos, a independência e a revolução. As músicas de Alayo podem ser ouvidas a partir da página eletrônica www.soundclick.com/ rezistencia Para assistir ao vídeo-documental “Zona Caliente – Santiago de Cuba Hip Hop”, entre em contato com Liliane Braga, produtora do TNT/Rezistencia e do “Zona Caliente”, por meio do e-mail bragaliliane@hotmail.com

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Uma visão popular do Brasil e do mundo São Paulo, de 24 a 30 de janeiro de 2008 www.brasildefato.com.brAno6•Número256 Crise no Quênia vai al...

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